PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO Jor

Uma pauta eleitoral: analisar os discursos de campanha através dos comentários em blogs e redes sociais
José Roberto de Toledo Disponível em http://toledol.com.br/2010/03/05/analise-de-discursodos-candidatos-atraves-dos-comentarios-em-blogs/, acessado em 01/04/10

FACULDADE DE JORNALISMO

À primeira vista é irritante: uma avalanche de comentários iracundos, de lado a lado, sobre qualquer coisa que diga respeito à eleição. Se for pesquisa de opinião, então, nem se fale. Mas o que parece um discurso destemperado pode ser de interesse dos jornalistas. Como muitos desses comentários são feitos por militantes, amadores ou profissionais, os discursos que eles propagam refletem uma orientação dos comandos de campanha. Não estou dizendo que os “comentaristas” só escrevem o que o partido ou comitê mandam, mas eles assimilam os argumentos do seu lado do Fla-Flu, e estão bem preparados para rebater os dos adversários. A vantagem é que, preservados pelo anonimato, eles se sentem livres para dizer o que os políticos e especialmente os candidatos temem dizer. A propaganda sai sem filtros nem meias palavras. Tomemos alguns exemplos, tirados dos comentários em blogs políticos pela internet. Do lado dos situacionistas, os comentários deixam claro que o ataque ao principal adversário visa três objetivos: 1) identificar José Serra (PSDB) com o governo FHC, para forçar uma comparação com o governo Lula; 2) identificá-lo com um suposto modelo econômico privatizante, que vendeu as estatais nacionais e estaduais e que resultou, por exemplo, em pedágios muito caros nas estradas paulitas (veja bem, caro leito, não concordo necessariamente com isso, mas é o que o discurso da propaganda, ora, propaga); 3) identificá-lo com os problemas urbanos da cidade de São Paulo, como trânsito e inundações, apelidando-o de Zé Alagão, e chamando seu sucessor na prefeitura, Gilberto Kassab, de “Pitta do Serra”. Do outro lado, a propaganda não é menos virulenta. Os ataques a Dilma procuram: 1) identificá-la como suposta “terrorista”, “guerrilheira”, “assaltante de bancos” e por aí vai. O passado de Dilma Rousseff (PT) como presa política e militante de uma organização armada durante a ditadura é usado para propagar a ideia de que ela quereria a “volta do comunismo”, implantar um regime a la Hugo Chávez no Brasil e coisas do tipo. É um discurso que fomenta dois medos, em públicos distintos. Nos mais pobres, o do comunismo. Nos ditos “formadores de opinião”, o de uma ditadura da maioria, que cerceie as liberdades individuais, principalmente de imprensa. 2) associar o PT e políticos próximos à candidata a denúncias de corrupção, ressuscitando o mensalão e outros escândalos; 3) marcá-la como suposta “mentirosa”, dizendo que os programas que ela comanda no PAC são mera ilusão, que ela não é boa administradora como o governo tenta vender.
Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br) site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ ftp: ftp://ftp-acd.puc-campinas.edu.br/pub/professores/clc/artur.araujo/ Página 1 de 2

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO Jor Os discursos descritos acima não precisam ser verdadeiros. Eles partem da máxima FACULDADE DE JORNALISMO desgastada de que uma mentira repetida muitas vezes vira verdade. São propaganda, e devem assim ser analisados. Para quem cobre eleição, é importante saber de cor os núcleos do discurso de cada candidato. Fica mais fácil identificá-los em entrevistas e pronunciamentos nos quais o tom é mais moderado, mas o conteúdo, mesmo que subjacente, é o mesmo. A propaganda eleitoral visa exclusivamente a emoção, o lado direito do cérebro do eleitor. Ela pode ser travestida de um discurso aparentemente racional, mas seu objetivo é despertar medo, ódio, raiva ou simpatia, ternura, comoção. É o que os marqueteiros acreditam e vendem. É o que os políticos, sem admitir, compram. É o que os estudos científicos confirmam. Estamos entre os poucos que parecem preocupados em transformar a eleição em um debate sobre propostas, em discutir fatos, em comparar objetivamente administrações, em analisar trajetórias políticas. Os jornalistas encaramos e cobrimos a eleição como se ela fosse um processo puramente racional. Não é.

Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br) site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ ftp: ftp://ftp-acd.puc-campinas.edu.br/pub/professores/clc/artur.araujo/ Página 2 de 2