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sexta feira, 15 fevereiro de 2008

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Liberdade segundo Amartya Sen

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Pablo Andrez Pinheiro Gubert

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INTRODUÇÃO
Sobre Ética e Economia, obra escrita pelo loquaz e influente economista indiano Amartya
Kumar SEN, propugna uma nova abordagem da teoria econômica, apontando o equívoco da
doutrina clássica em desconsiderar as considerações éticas tanto na economia do bemestar (welfare) como na economia preditiva (logistic). Salienta que tanto a economia
perdeu com a apartação da ética, quanto a ética se ressentiu da ausência da engenharia
eco-nômica.
O autor critica verrinosamente a concepção utilitarista, que entende ser restrita e inadequada, especialmente com a limitação de evitar comparações interpessoais de utilidade.
Para o ilustre economista indiano “a idéia de que a otimalidade social global precisa inter
alia requerer a otimalidade de Pareto baseia-se na concepção de que, se uma mudança for
vanta-josa para cada pessoa, tem de ser uma mudança proveitosa para a sociedade”.
Dadas as premissas do utilitarismo, pode-se ter uma melhor compreensão da proble-mática
envolvida:
a) ‘Welfarismo’ (welfarism): a bondade (resultado positivo) de um estado de coisas seja
fun-ção apenas das informações sobre utilidades relativas a esse estado;
b) ‘Ranking pela soma’ (sum ranking): a utilidade de um estado de coisas é apurada
conside-rando-se apenas o somatório de todas as utilidades individuais deste estado;
c) ‘Consequencialismo’ (consequentialism): toda a escolha - de ações, instituições, motivações, normas, etc., é determinada pela bondade do estado de coisas decorrente.
1. BEM ESTAR, CONDIÇÃO DE AGENTE E LIBERDADE
A concepção utilitarista considera a própria utilidade como fonte única valorativa. Tal
exclusão desconsidera as opções pessoais relacionadas a eventos de importância social
(gru-pal, familiar, geral) que não geram imediato bem-estar (well-being) pessoal ao
agente. As considerações acerca da condição de agente (agency) com as capacidades e
comprometimen-tos (commitments) não são integralmente abrangidas pelo próprio bemestar. Três críticas ao utilitarismo se dessumem das afirmações supra:
a) O aspecto da condição de agente deve ser distinguida da condição de bem-estar, pois o
primeiro analisa mais completamente a pessoa enquanto realizadora, com os conceitos
ativos de funcionamentos (functionings) atentando para seus desejos e capacidades, e não
tomando em conta somente o aspecto do bem-estar;
b) O bem-estar utilitarista per se é deficiente, pois sustenta-se meramente na métrica do
de-sejo íntimo, não considerando as comparações interpessoais de bem-estar;
c) Não considera o valor intrínseco da liberdade, bem como assume que toda pessoa se orienta apenas por objetivos individuais.
2. PLURALIDADE E AVALIAÇÃO

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Segundo SEN “na abordagem utilitarista todos os diversos bens são reduzidos a uma
magnitude descritiva homogênea (como se supõe que seja a utilidade), e então a avaliação
ética simplesmente assume a forma de uma transformação monotônica dessa magnitude”.
Quer com isso o autor pugnar as dificuldades em uma quantificação da bondade, pois não
há a unicidade necessária entre os objetos de valor que permita tal equiparação
quantitativa e não qualitativa. A ordenação ética não pressupõe uma necessidade a priori
de homogeneidade descritiva, como quer a doutrina dominante (mormente haver grande
celeuma acerca da ‘co-mensurabilidade’ no campo da ética).

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Para o autor ‘estar feliz’ não é suficiente como o substrato de toda a valoração. Com razão
anota que esta estrutura monista é arbitrariamente excludente, pois não toma em conta
fatores de relevo na inter-relação social das realizações e liberdades.
3. ‘INCOMPLETUDE’ E ‘SUPERCOMPLETUDE’
“Quando existem objetos de valor, uma linha de ação alternativa pode ser mais valori-zada
em um aspecto, porém menos em outro." Para o autor há três enfoques deste problema:

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15/2/2008

pois qualquer julgamento é melhor do que nenhum. não sendo possível em tal aborda-gem juízos de valor que assumam o gozo do direito como bem e a sua violação como mal. a saber: a) Bem-estar autoconcentrado (depende do próprio consumo). as ações do primeiro jogador formam as filas. seja welfarista ou preditiva não tem dado a devida atenção a riqueza das considerações éticas. O lúcido economista compara tais situações com a fábula do Asno de Buridano . Em políticas públicas institucionais é melhor comer qualquer feno do que morrer de fome. O sistema de direitos nozickanos (entitlements) peca pois não antevê uma interdependência social generalizada e não "incorpora o valor da fruição dos direitos e o desvalor da violação de direitos à avaliação da situação resultante. As entradas na matriz são dois números representando a utilidade ou ganho para o primeiro e segundo jogador respectivamente. Tem-se como prova de tal afirmação a Teoria dos Jogos. Ressalta ainda a pobreza da avaliação através do ranking pela soma (sum ranking). OBJETIVOS E ESCOLHAS Na economia tradicional supõe-se que a pessoa maximiza sua função de utilidade.direitovirtual.com. Defende que certos "erros" de previsão no comportamento apurados empiricamente contrastam com a literatura tradicional justamente porque esta não leva em conta as relações interpessoais de ordem moral." 6.O exemplo clássico para a compreensão da teoria é o Dilema do Prisioneiro . AVALIAÇÃO CONSEQUENCIAL E DEONTOLOGIA Preleciona o autor que a doutrina é relutante em abandonar o enfoque dos direitos enquanto “restrições deontológicas inflexíveis”. pois este requer que nada além das utilidades tenha valor intrínseco. No caso de um jogo de dois jogadores. 5. Um modo de descrever um jogo é dispondo os jogadores em uma matriz. em uma via de mão dupla. 7.br/artigos. b) Objetivos limitados ao próprio bem-estar (considerando as probabilidades e desconsiderando o bem-estar alheio). pois tal escolha egoísta pode prima facie parecer de maior utilidade. Novamente critica o welfarismo.Direito Virtual . Critica de forma mordaz o exclusivismo do autointeresse na análise econômica. Os direitos fundamentais (como a liberdade) são tomados apenas como instrumentos. coordenar duas avaliações globais com domínios sobrepostos . é imprescindível que se tome uma decisão. mormente de ordem instrumental. Quando não se parte de premissas axiomáticas. e as ações do segundo jogador as colunas de uma matriz. aduzindo que “as decisões públicas racionais precisam conformar-se com essas escolhas par-cialmente justificadas”. e para cada jogador listando as escolhas alternativas (ações ou estratégias chamadas) disponíveis. com estratégias que coorde-nam e opõe esforços individuais e cooperativos. O welfarismo desconsidera a própria ação quando observa as conseqüên-cias. aporte doutrinário da Teoria Econômica que simula as relações interpessoais através de jogos. Dentre estes itens. o que mais apresenta controvérsia é a escolha orientada ao próprio objetivo. listando os jogadores (ou indivíduos) participantes.php?details=1&id=44 15/2/2008 .Artigos O portal Direito Virtual Parcerias Pesquisa de Satisfação Piadas Jurídicas Page 2 of 4 a) Examinar os trade-offs apropriados e decidir se. c) quando ausente a consistência simples do problema (conflito entre princípios) e imperiosa a decisão. pela de avaliação plural com "raciocínio de dominância. não sendo computados valores intrínsecos. b) Examinar os trade-offs através da ordenação parcial de duas alternativas (incompleteness). na ordenação completa ponderada (balanced complete ordering) uma combinação alternativa de objetos é superior a outra. c) Escolha orientada para o próprio objetivo (não é restrito ou adaptado pala interdependên-cia). CONFLITO E IMPASSE Neste tópico o autor discute sobre o comportamento humano e suas motivações e conseqüências éticas e econômicas. o qual determina todas as escolhas.as avaliações supercompletas (overcomplete judgements). exigindo-se que os conflitos sejam resolvidos antes da tomada de decisão. Cada suspeito é colocado em http://www. mas em um estudo mais demorado revela-se contraproducente em relação ao esforço conjunto. em complexa estrutura de comportamento auto-interessado. Robert No-zick (citado pelo autor) elaborou complexa teoria em que propõe a atuação da moralidade social somente na forma negativa. DIREITOS E CONSEQÜÊNCIAS A teoria econômica tradicional. Neste jogo os dois jogadores são parceiros em um crime e foram capturados pela polícia. 4. ÉTICA E ECONOMIA Neste tópico o autor repisa os pontos de contato e as relações simbióticas entre a ética e a economia. 8. bem como não tem em conta a posição relativa do observador. o que geralmente ocorre nas ciências sociais. conquanto não subestima a vital importância da motivação egoísta na análise econômica. visto que mesmo as atividades intrinsecamente valiosas podem ter outras conseqüências. BEM-ESTAR. esta dependendo apenas de seu próprio consumo.

Se ambos os prisioneiros confessam. No sentido exato.Artigos Page 3 of 4 uma cela separada. Também demonstrei que pode ser vantajoso até mesmo para a economia preditiva e descritiva abrir mais espaço para considerações da economia do bem-estar na determinação do comportamento”. econômicas e jurídicas. Transpondo para a argumentação do autor. repetição abre a possibilidade de ser recompensada ou castigada no futuro a comportamento atual. É melhor para todos se a ponte é construída.0 1. Semelhantemente a este jogo poderíamos descrever a alternativa de duas firmas que competem no mesmo mercado. mas ambos são condenados. e dividem o produto de seu crime. e oferece-se a oportunidade para confessar o crime. CONCLUSÃO Gostaria de focar minhas conclusões em uma matéria específica dentre tudo o que foi abordado: a Teoria da Justiça de John RAWLS e suas interseções éticas. Uma segunda característica deste jogo. 9. que nós representamos dando a cada 1 unidade de utilidade: melhor que ten-do o outro prisioneiro confessar. muito contribuem para corrigir interpretações errôneas do amor-próprio quanto ao que é apropriado fazer em nossa situação específica”. Por exemplo. e os suspeitos ou são libertados ou são liberados da prisão que eles cometerão outro crime e o jogo será novamente jogado. como no caso em que se age objetivando o bem-comum. é possível de conseguir 10 em vez de 5.1 As notas mais altas são melhores (mais utilidade). é possível de obter 1 em vez de 0. Primeiras.10 confessa 10. Porém. Suponha por exemplo que atrás deste jogo estar terminado. já que no segundo jogo ambos os suspeitos não confessa-rão. no primeiro período os suspeitos podem raciocinar que eles não devem confessar porque se eles não fizerem seu companheiro não confessará no segundo jogo. pois como sustenta Adam SMITH (citado pelo autor): “essas regras gerais de conduta. muito menos que as 5 unida-des cada que eles obteriam se nenhum houvesse confessado. se um prisioneiro confessa e o outro não faz. é sempre melhor para confessar." É natu-ralmente melhor para ambas as firmas se ambos fixarem preços altos. O jogo pode ser representado pela matriz seguinte de pagamento: não confessa confessa não confessa 5. há conseqüências”. é uma representação simples de uma variedade de situações importantes. e que o estudo da ética também pode beneficiar-se de um contato mais estreito com a economia. Contudo a perseguição de comportamento individualmente sensato re-sulta em cada jogador obtendo somente 1 unidade de utilidade. onde a persecução de objetivos individuais não é evidente. Este conflito entre a perseguição de metas individuais e o bem-comum está no âmago de muitos problemas teóricos de jogo. não importa o que aconteceu no primeiro jogo. Se o companheiro na outra cela está confessando. Isto é às vezes referido para em economia como uma "exter-nalidade" (externality). é que resta evidente como um indivíduo inteligente devia comportar. em vez de “confessa / não confessa” nós podíamos etiquetar as estratégias "contribuamos para o bem comum" ou "comportemos egoísticamente. Ao que pós-grafamos com milenar provérbio chinês: “na natureza não há recompensas nem castigos. isto conclusão não é válida. CONDUTA. Neste caso. o prisionei-ro que confessa testemunha contra o outro em troca de liberdade e obtém as inteiras 10 unida-des de utilidade. mas melhor para cada firma individual para fixar um preço baixo enquanto a oposição fixa um preço alto.com. Uma terceira característica deste jogo é que ele mudanças em um modo muito signifi-cante se o jogo é repetido. então ambos recebem pena reduzida. e teoristas de jogo proveram várias teorias para explicar a intuição óbvia que se o jogo é freqüentemente repetido suficien-te. mas melhor para cada individual se outra pessoa constrói a ponte. eles ficam livres. quando se tiverem fixado em nossa mente por reflexão habitual. E nesta seara é fundamental o papel das regras de conduta.br/artigos. mas não tão bom quando liberdade. Se nenhum suspeito confessa. Porém. estes dilemas podem ser resolvidos pela interrelação social." Este captura uma variedade de situações que a ciência econômica descreve como problemas de bens públicos. Se o parceiro na outra cela não está confessando.direitovirtual. o que nós representamos por 5 unidades de utilidade para cada suspeito. Um exemplo é a construção de uma ponte. ÉTICA E ECONOMIA Neste tópico final transcrevem-se as calares palavras do autor: “Procurei mostrar que a economia do bem-estar pode ser substancialmente enriquecida atentando-se mais para a ética. Não importa que suspeito acredita que em seu parceiro vai fazer. Este jogo fascinou teoristas de jogo para uma variedade de razões. os suspeitos deviam cooperar. enquanto o prisioneiro que não confessou vai para a prisão e não adquire nada. ou se os jogadores interagirão um com o outro novamente no futu-ro.5 0.php?details=1&id=44 15/2/2008 . e em vez de “confessa / não confessa” pode-ríamos nomear as estratégias "fixemos um preço alto" e "fixemos um preço baixo. Escolho este tema por entender de grande relevância ao estudo multidisciplinar da ciên-cia jurídica e seus momentos pré-jurídicos (fáticos) e pós-jurídicos (éticos e http://www.Direito Virtual .

Não tem mais com-promissos sociais ou éticos.br/artigos. Os ombros do juiz não mais suportam o mundo. a igualdade de condições. A noção de liberdade formal de Rawls relaciona-se com os direitos e garantias das oportunidades. depois do positivismo de KELSEN . são meras aspirações. . promessas. Em geral as normas que garantem a liberdade real (em oposição ao conceito de liberdade formal de RAWLS) são norma de princípio pro-gramático de eficácia limitada (utilizando-se da classificação de José Afonso da SILVA ). educação. mesmo que hospedadas na Constituição. e só. e os direitos e garantias albergados pelo Texto Magno.direitovirtual.Direito Virtual . RAWLS pugna pela primazia das liberdades formais. Não é dado ao jurista indagar se esta lei versa sobre o real ou se tem conseqüências práticas benéficas. importa-se apenas em garantir com um sistema normativo a paridade entre os cidadãos.php?details=1&id=44 15/2/2008 . Todos os direitos reservados.com. Não se preocupa em verificar a real satisfação dos desejos pessoais. Este não comprometimento. salário justo. Disso decorre que o cidadão não pode fazer valer os seus direitos à saúde. pois não há liberdade na fome e ignorância. É o ‘aplicador’ da Lei.Em 2007 Novo Portal! http://www. pois proporcionou a todos uma abertura dos horizontes. esta ausência de engajamento mostra-se especialmente nociva nos países em desenvolvimento.Artigos Page 4 of 4 filosóficos). não tem a eficácia no mundo concreto. impende ressaltar. depositando as esperanças de um desen-volvimento pessoal e social no uso da razão e da ética. pois tais normas. Em muito nosso sistema constitucional foi influenciado por doutrinas dessa estirpe. este termo “formal” com acep-ção diversa que é dada pela doutrina jurídica. lavou as mãos. O jurista. através do que Kant chamou de “prin-cípio de uma legislação universal”. Tem-se como ilação final que a escolha do conteúdo foi de grande felicidade. que em geral tem pouca experiência democrática e sociedade não organizada. Os entitlements de Sen são compostos justamente por estes prérequisitos básicos da capacidade pessoal mínima para ter liberdade. Copyright © 2008 Direito Virtual. conquanto de profunda e louvável eqüidade.