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Trabalho de Carácter Electrónico

Apontamentos para a
História de Vila de Frades

Pedro Nuno Medeiros de Henriques
Vila Frades – Vidigueira
2014

A Fotografia presente na Capa deste estudo é da minha autoria e retrata a Praça 25 de
Abril (outrora designada de Praça Nova) sita em Vila de Frades. Antigamente,
localizava-se aí o Pelourinho, para além de estar na zona contígua aos Paços do
Concelho.
1

Agradecimentos

Este trabalho foi realizado ao longo do meu único ano de estágio compreendido entre
Julho de 2013 e Junho de 2014. Durante este período, tive a honra de conhecer e
privar com pessoas bastante cultas que demonstraram a sua disponibilidade em trocar
impressões e até ceder elementos informativos para a realização deste projecto que
concretizei por iniciativa própria, embora inspirado por todos aqueles que me
ajudaram a atingir esta meta.
Dentro deste contexto, presto o meu sincero agradecimento aos senhores António
Rosa Mendes e à Dra. Susana Correia, os quais me emprestaram livros e fotocópias
que continham pormenores determinantes para a compreensão da evolução desta
localidade alentejana. Também é justo citar a colaboração do Presidente da Junta de
Freguesia – Luís Amado, e dos funcionários com quem tive a honra de cooperar –
Teresa Pires, Gracinda Palma, Carlos Vilhena, Rosa Lemos e Cristina Campaniço.
Evidentemente, não poderia deixar de elogiar igualmente o incansável empenho de
Manuel Carvalho que teve a generosidade de me ceder algumas das suas melhores
fotografias que possuía sobre Vila de Frades.
Por fim, deixo uma palavra sincera a todos os habitantes desta comunidade calma,
pacífica e recheada de hospitalidade para aqueles que a visitam - devem demonstrar
todo o vosso orgulho por residirem num lugar rico em termos patrimoniais, e cuja
história não desmente o prestígio de outrora.

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Índice

1- Introdução……………………………………………………………………………………………………………..p. 5

2- Os primeiros tempos – Pré-História e Antiguidade………………………………………….….p. 8
2.1 - A Presença de Comunidades Primitivas………………………………………………………………..p. 10
2.2 - O Auge no Período Romano – A Villa Áulica de São Cucufate ………………………………p. 14

3- A Idade Média (Séculos V-XV)……………………………………………………………………………….p. 38
3.1 – O advento dos frades em São Cucufate……………………………………………………………….p. 40
3.2 - O Foral Manuelino de Vila de Frades – um retrato socioeconómico da Era Medieval? p. 52

4- A Época Moderna (Séculos XV-XVIII)………………………………………………………………………p. 61
4.1- Os templos cristãos fundados em Vila de Frades………………………………………………..…p. 63
4.1.1 - O Convento de Nossa Senhora da Assunção……………………………………………………..p. 65
4.1.2 – A Igreja da Misericórdia de Vila de Frades ……………………………………………….........p. 67
4.1.3 -A Capela de São Tiago………………………………………………………………………………………..p. 70
4.1.4 - A Capela de São Brás…………………………………………………………………………………………p. 78
4.1.5 – A Ermida de Santo António dos Açores…………………………………………………………….p. 88
4.1.6 – A Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe…………………………………………………….…p. 91
4.1.7 - A Igreja Matriz de Vila de Frades……………………………………………………………………….p. 95
4.2 – A Torre do Relógio……………………………………………………………………………………………..p. 101
4.3 – O Percurso do Município de Vila de Frades até à extinção………………………………...p. 104
4.4 – Sob o Domínio dos Gamas………………………………………………………………………………….p. 110
4.5 – Dados Demográficos………………………………………………………………………………………….p. 121

5 – O Período Contemporâneo (Séculos XVIII-XXI)…………………………………………….........p. 124
5.1 – A recente evolução……………………………………………………………………………………………p. 126
5.2 – Vila de Frades – Capital do Vinho de Talha…………………………………………………….….p. 133
5.3 – Fialho de Almeida, um escritor conceituado………………………………………………….….p. 137
3

5.4 – José Conceição Silva, dinamizador cultural e resistente anti-fascista...................p. 148
5.5 – O Dia em que Humberto Delgado escolheu Vila de Frades como sítio de refúgio……p. 152
5.6 – A Casa do Arco………………………………………………………………………………………………….p. 157
5.7 – A Casa do Conselheiro Justino Baião Matoso …………………………………………………..p. 159
5.8 – A Rivalidade Histórica entre Vila de Frades e Vidigueira…………………………………..p. 164
5.9 – O Brasão e a sua Simbologia…………………………………………………………………………….p. 167

6- Conclusão……………………………………………………………………………………………………………p. 170
7- Fontes…………………………………………………………………………………………………………………p. 173
8- Bibliografia…………………………………………………………………………………………………………p. 175
9- Recursos Electrónicos………………………………………………………………………………………..p. 177
10- Anexos (documentos, artigos, imagens e poemas)………………………………………...p. 181

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1- Introdução

A Freguesia de Vila de Frades pertence ao Município da Vidigueira1 (Distrito de Beja),
integrando-se assim na Região do Baixo Alentejo. Esta humilde localidade conta
actualmente com 928 habitantes, mas é reveladora duma história e tradições bastante
ricas que não podem, de modo algum, cair no esquecimento geral. O seu património
cultural é, de facto, admirável. Os seus monumentos que, ainda hoje podem ser
observados, estendem-se desde a Pré-História até à Época Contemporânea.

Mapa nº 1 – A Localização específica de Vila de Frades.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/arquivo/3268780628493000701074110690.jpg, (1609-2013).

1

Este Concelho incorpora ainda as freguesias da Vidigueira, Selmes e Pedrógão.

5

Como podemos observar, Vila de Frades mantém uma clara proximidade com a
Vidigueira, actual sede de Município, localizada a nascente. Apenas dois quilómetros
as separam, sendo que existe entre ambas uma ponte, erguida em cima da Ribeira do
Freixo (curso de água que nasce na Serra do Mendro), que confere o acesso a ambas as
povoações. Um pouco mais afastadas encontram-se as sedes de município de Cuba
(ligeiramente a sudoeste) e Alvito (a noroeste), e as freguesias de Vila Alva e Vila Ruiva
(estas mais a poente).
A freguesia de Vila de Frades, detentora duma área de 25, 82 km2, evidencia-se por
características peculiares que a tornam única, nomeadamente: a sua paisagem ímpar
(o esteticismo dos seus outeiros verdejantes), a hospitalidade das suas gentes, o
invejável legado romano, os seus templos cristãos e magníficos frescos, a altiva torre
do relógio, a tradição do vinho da talha, o lugar de berço de Fialho de Almeida, a
intensa actividade agro-pecuária, os seus curiosos fontanários, as suas festividades
convidativas, o ambiente pacato, as estruturas históricas (os antigos paços do concelho
extinto em 1854, a casa do conselheiro, a antiga cadeia)…
De acordo com a descrição de Augusto Pinho Leal no “Portugal Antigo e Moderno”
(Vol. XI, ano de 1886), a localidade compreende os montes de Santo António, Senhora
de Guadalupe, Outeiro, Mac Abraão, Azeiteira, e as “hortas” de Aparisa, Aroeira,
Hortão, Malhada do Carneirinho, Ratoeiras, Corte do Judeu, Moia de Baixo, Moia de
Cima e Motta.
Em termos demográficos, e como observaremos posteriormente, o fenómeno da
desertificação tem originado uma quebra da população residente na terra. No campo
económico, as produções dominantes são: o vinho, o azeite, os cereais e a fruta,
embora o sector da restauração (cafés, restaurantes, mercado, posto de correio,
lojas…) tenha atingido um incremento com a modernização/terciarização do país ao
longo das últimas décadas. Mesmo assim, Vila de Frades preserva o estatuto duma
freguesia rural e humilde, embora detentora duma história gratificante que não pode
ser, de modo algum, menosprezada.
Exposta esta breve apresentação da povoação que será alvo duma abordagem
científica, achamos por bem indicar os métodos que serão utilizados nesta
investigação.

6

Num primeiro plano, procuraremos utilizar, através duma selecção criteriosa, livros e
fontes que se reportem à História de Vila de Frades. Neste caso em concreto,
destacamos as averiguações efectuadas no Centro Multifacetado das Novas
Tecnologias da Vidigueira que possui diversos elementos, cuja utilidade foi vital para a
redacção desta pequena monografia. Pesquisamos ainda alguma documentação
presente no Arquivo Municipal da Vidigueira, nomeadamente as antigas actas
referentes ao Concelho extinto de Vila de Frades.
Não menos importantes, temos os recursos electrónicos que serão, várias vezes,
citados. De facto, não podemos ignorar os avanços da Humanidade no capítulo das
novas tecnologias, e por isso, não desperdiçaremos este meio vantajoso, embora
procuraremos identificar os endereços electrónicos que sejam minimamente credíveis.
A título de exemplo, os sites do SIPA (Sistema de Informação para o Património
Arquitectónico) e IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e
Arqueológico) constituíram autênticas mais-valias no decurso da nossa investigação.
Todos os elementos consultados serão devidamente listados após a elaboração de
cada subcapítulo. Introduziremos ainda notas de rodapé para fornecer mais
pormenores sobre as temáticas abordadas, permitindo assim uma maior compreensão
dos conteúdos previstos.
Ao nível da estrutura, este estudo obedecerá obviamente a uma sequência cronológica
que visará as mais diversas fases históricas, desde o aparecimento de comunidades
primitivas até à actualidade. Evidentemente que este processo compreenderá vários
marcos ou elementos identificativos desta terra alentejana, nomeadamente: o menir
de Mac Abraão, a villa romana de São Cucufate, o advento dos frades medievais, o
foral manuelino de 1512, o ancestral município de Vila de Frades e seu pelourinho, os
templos cristãos (igrejas, capelas e ermidas), o nascimento e a carreira de Fialho de
Almeida, a fama do seu vinho de talha, edifícios com tradição, entre outros assuntos
que serão cautelosamente tidos em conta.
Pretenderemos assim redigir uma análise honesta e rigorosa que dignifique a História
de Vila de Frades.
Por fim, aplicaremos o antigo acordo ortográfico, o qual, desde cedo, foi alvo da nossa
aprendizagem, e assim sendo, utilizaremos esta opção redactorial que nos parece ser a
mais sensata.
7

2- Os Primeiros Tempos: Pré-História e Antiguidade

A Pré-História é o período que antecedeu o aparecimento da escrita, fenómeno que
terá surgido por volta de 4 000/3 500 a.C. na Mesopotâmia, através da invenção da
Escrita Cuneiforme por parte dos sumérios. Todavia, a evolução dos povos não se deu
de forma equitativa, pois muitas comunidades apenas aplicariam este meio de
expressão em data bem posterior à indicada em cima, e assim sendo, permaneceriam
ainda na sua vivência pré-histórica, o que parece ter sido o caso da Península Ibérica.
Nesta região, esta era pré-histórica parece ter sido iniciada há 1,2 milhões anos atrás,
com a chegada dos primeiros hominídeos, e que se prolongou até às Guerras Púnicas
(sécs. III e II a. C.), altura em que a escrita foi aí introduzida.
Durante este período, foram encontrados vários vestígios em cavernas, vales e
planícies, nomeadamente ossos, utensílios e armas. O ser humano foi um rude
caçador, mas mais tarde se tornaria num primitivo agricultor, muito graças à melhoria
das condições climatéricas. Cultivou trigo, centeio, cevada e outros produtos,
domesticou o boi, o cavalo, a ovelha e outros animais. Desenvolveu a sua própria
religião. Utilizou metais para fabricar novas ferramentas. Deixou-nos pinturas
rupestres nas paredes das cavernas, exibindo figuras humanas (em acções de caça ou
guerra) e variados animais. O homem primitivo construiu outras estruturas que ainda
hoje podem ser observadas: cromeleques, menires, antas, dólmenes…
A Pré-História divide-se em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais
(Cobre, Bronze e Ferro), sendo depois substituída pela Idade Antiga.
A Era Antiga estende-se desde 4 000/3 500 a. C. (apesar das variações para cada
região), altura que marca então a invenção da escrita, e prolonga-se até à queda de
Roma, capital do Império Romano do Ocidente em 476 d. C., às mãos dos hérulos, e
posteriormente, dos ostrogodos (povos bárbaros). Nesta época histórica, inserem-se
algumas civilizações que se destacaram com um nível cultural mais acentuado,
nomeadamente os egípcios, os fenícios, os persas, os gregos e os romanos.
Enaltecemos em particular a indiscutível contribuição do legado greco-romano, ao
nível dos vários conceitos, instituições e costumes que foram adoptados no Ocidente
por muito tempo.
8

Durante esta etapa evolutiva, surgem as primeiras grandes cidades, desenvolvem-se a
agricultura e a própria escrita, constroem-se diques, canais e sistemas de irrigação, o
sentido de Estado começa a ser amadurecido (com funções de governo, leis,
hierarquia, regras, leis).
Na Grécia Antiga, nasce a política, a democracia, a filosofia e o racionalismo, enquanto
que, do Império Romano, herdaremos as bases do seu Direito.
Não há dúvidas de que é na Era Antiga que começam a ser construídos os alicerces da
formação do Mundo Ocidental.
Como observaremos, o impacto das eras pré-histórica e antiga foi claramente visível
no território hoje condizente a Vila de Frades, onde podemos encontrar, a título de
exemplo, o menir de Mac Abraão e a Villa Romana de São Cucufate.

Referências Consultadas:

http://www.infoescola.com/historia/pre-historia/,

(Artigo

da

autoria

de

Cristiana Gomes, Consultado em 15-09-2013).

http://www.civilizacaoantiga.com/2009/05/invencao-da-escrita.html,
(Consultado em 15-09-2013).

http://www.historiadomundo.com.br/pre-historia/, (Artigo da autoria de
Rainer Sousa, Consultado em 15-09-2013).

http://www.historiadomundo.com.br/idade-antiga/, (Artigo da autoria de
Rainer Sousa, Consultado em 15-09-2013).

http://www.brasilescola.com/historiag/civilizacoes.htm, (Artigo da autoria de
Leandro Carvalho, Consultado em: 15-09-2013).

9

2. 1- A Presença de Comunidades Primitivas
No espaço a que hoje corresponde a Freguesia de Vila de Frades existiram, em tempos
remotos, grupos de homens primitivos, nomeadamente nos períodos inerentes ao
Neolítico (7 000 a. C. – 3 000 a.C.) e Calcolítico (Idade do Cobre: 3 000 a. C. – 1900
a.C.)2.
Nestas eras pré-históricas, o ser humano deixa de ser recolector e dedica-se à
produção económica, mais concretamente, à vertente agrícola. Também continua a
desenvolver progressos significativos na arte da cerâmica e pintura. Em breve,
começaria a dedicar-se à exploração da metalurgia.
Estabelece-se ainda a cultura megalítica europeia, e por isso, encontramos diversos
registos de antas, dólmenes, menires, cromeleques…
Neste contexto, encontramos o Menir de Mac Abraão3 em Vila de Frades, talvez
datado do período do Neo-Calcolítico (3 000 a. C. – 2 000 a. C.)4. Este monumento é
composto por uma pedra grande e comprida, cravada verticalmente no solo. Ainda
hoje se discutem as suas potenciais finalidades. Não saberemos se esta estrutura
serviria para honrar deuses, exaltar acontecimentos importantes, definir marcos
territoriais ou promover o culto da fecundidade.
Em termos descritivos, podemos referir que estamos perante um monólito
subelipsoidal de granito porfiróide. Encontra-se decorado com incisões de carácter
geométrico, casos do círculo e das linhas picotadas aí visíveis. Suspeita-se que, em
termos de altura, pudesse alcançar os 4 metros.

2

Proposta Cronológica que se cinge especificamente à Pré-História da Península Ibérica. Como já
mencionamos anteriormente, a datação desta extensa época varia de acordo com a evolução precoce
ou tardia dos mais diversos povos e regiões.
3
Designado originalmente como Menir de Malk Abraão.
4
Esta datação proposta é consonante com as indicações contidas nos sites do SIPA e IGESPAR. Todavia,
não é totalmente consensual. De acordo com a Dra. Susana Correia (Direcção Regional da Cultura do
Alentejo), é possível que este menir possa remontar ao 4º milénio A. C. (ainda no período do Neolítico),
embora seja outra teoria não comprovada. Ainda sobre este tema, o Dr. José Luís Conceição Silva que
redigiu um discurso aquando da sua homenagem por parte da Junta de Freguesia de Vila de Frades,
refere que o sítio em torno do menir teria seria ocupado por volta do ano 200 a. C. por uma povoação
hebraica. Evidentemente que esta última data não pode corresponder, de modo algum, à datação da
construção do menir que seguramente já existia nessa altura, embora com uma antiguidade muito
maior e inegável. Quanto à possibilidade de ter vivido aí uma população judaica, é algo que não
podemos descartar, até porque o topónimo parece indiciar essa possibilidade.

10

Actualmente, este menir encontra-se derrubado e semi-soterrado. A pedra aplicada
nesta construção pré-histórica poderá advir dum afloramento rochoso, localizado a 1
Km a Noroeste do local onde foi erguido.
Encontramos assim a primeira evidência histórica e arqueológica da existência duma
povoação primitiva, embora se desconheçam mais pormenores a esse respeito. Por
outras palavras, ignoramos as dimensões ou a configuração económica deste remoto
assentamento populacional.

Imagem nº 1 – O Menir de Mac Abraão encontra-se tombado.
Retirada de:
http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/mod_texto.asp?pag=34335267642658826469
23446412, (Foto também presente no Wikipédia).

Imagem nº 2 – Outra perspectiva sobre o mesmo Menir, presumivelmente no decurso
doutra estação do ano.
Foto da autoria de Manuel Carvalho
11

Para além do Menir que ainda hoje pode ser visualizado, foram ainda descobertos
artefactos no espaço que mais tarde acolheria a Villa Romana de São Cucufate. Os
mesmos encontram-se expostos ao público em geral no Núcleo Museológico da Casa
do Arco (Vila de Frades). Estes objectos deverão situar-se cronologicamente no
período do Neolítico Final, isto é, entre os últimos séculos do quarto milénio e os
primeiros séculos do terceiro milénio A.C.
Assim sendo, encontramos aí os seguintes artefactos:

Taça com orifícios de suspensão (cerâmica)

Recipiente com perfurações para suspensão

Vaso com decoração impressa (cerâmica)

Colher (reconstituição)

Cabo de Colher (cerâmica)

Machado (anfibolito)

Percutores (xisto grauváquico e quartzito)

Dada a ausência de estruturas e a relativa escassez de objectos encontrados em São
Cucufate, é presumível que estivéssemos perante um habitat de importância
secundária. Por isso, deduzimos que a presença primitiva, comprovada pelas
evidências já mencionadas, não teria assim alcançado proporções bastantes
significativas nesta terra e nas suas proximidades.

12

Imagem nº 3 – Os artefactos, elencados na página anterior, encontram-se expostos ao
público nesta vitrina do Museu da Casa do Arco.
Foto da minha autoria

Referências Consultadas:

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º Ed. Beja: Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

Textos e Descrições inerentes à Exposição/Galeria Fixa sobre a Villa Romana de
São Cucufate no Museu da Casa do Arco – Vila de Frades.

Discurso redigido pelo Dr. José Luís Poças Leitão Conceição Silva, Brasília, Junho
de 2008. Texto posteriormente lido pelo seu filho que o representaria aquando
da sua homenagem pela Junta de Freguesia de Vila de Frades.

A. Martins, Património Imóvel, www.igespar.pt.

Isabel Mendonça, SIPA, www.monumentos.pt.

http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/mod_texto.asp?pag=34335267642658
82646923446412, (Consultado em: 18-09-2013 – Artigo do Site da Junta de
Freguesia de Vila de Frades)

Infopédia – www.infopedia.pt.

Dicionário Informal - http://www.dicionarioinformal.com.br/menir/.

13

2.2 – O Auge no Período Romano – A Villa Áulica de São
Cucufate

Depois dos pertinentes achados relativos ao período pré-histórico, a verdade é que só
encontramos novas provas arqueológicas aquando do domínio romano na Península
Ibérica. Durante este aparente hiato de tempo, não excluímos a possibilidade de ter
existido uma outra pequena povoação ancestral nesta freguesia (talvez com raízes na
já referida comunidade primitiva) que poderia ou não ter sido submetida pelos novos
senhores do território. Contudo, não detectamos fontes nem artefactos que nos
pudessem confirmar tal eventualidade.
Antes de abordarmos o surgimento da villa romana de São Cucufate, é necessário
contextualizarmos cautelosamente este evento no âmbito das invasões romanas à
Península Ibérica.
A entrada dos romanos neste novo território constituiu um processo gradual, embora
com avanços e recuos. A conquista levará cerca de dois séculos, desde 218 a. C. (data
que marca o desembarque das primeiras tropas romanas nas Ampúrias – Catalunha
com o intuito de combater as forças cartaginesas) até 26 a. C. (ano em que Augusto
consegue submeter os povos aguerridos do Norte e Noroeste da Hispânia). Ao longo
de todo este processo, os romanos depararam-se com a forte resistência dos povos
autóctones, nomeadamente dos lusitanos (situados entre o Douro e Tejo) que, sob a
liderança de Viriato (m. 140 a.C.) e Sertório (m. 72 a.C.), causaram tremendas
dificuldades às legiões romanas.
No Alentejo, o povo céltico, muito mais pacífico, cultivava harmoniosamente os
campos. Nesta região, a assimilação dos valores romanos decorreu duma forma muito
mais acessível, e por isso, o domínio por parte dos novos conquistadores não produziu
aqui grandes desavenças.
Os romanos demonstraram um elevado interesse pela região de Beja (designada como
colónia – Pax Julia). As riquezas agrícolas, a fertilidade do solo e a potencialidade de
algumas minas (como as de Aljustrel e São Domingos) constituíram factores
14

susceptíveis de atrair a cobiça dos novos invasores. Nesta conjuntura, surgirão mesmo
as “villae” que consistiam em grandes explorações agrícolas.
Os novos colonizadores tomarão vários procedimentos que assentarão na exploração
mais racional e intensiva dos recursos económicos, na intensificação do comércio, na
construção duma vasta rede de comunicações (estradas e pontes), na organização
administrativa e judicial do território, na extensão da cidadania romana, na introdução
do direito romano e do latim como língua oficial, na implantação dum urbanismo,
engenharia, arquitectura e arte de prestígio, na criação de monumentos e aquedutos…
Esta foi a obra deixada pelos romanos ao longo dos seis ou sete séculos em que
permaneceram na Península Ibérica.
Exposto este contexto, procuraremos então abordar o legado desta civilização no lugar
visado agora pelo nosso esboço monográfico.
A Villa Romana de São Cucufate localiza-se na zona poente de Vila de Frades e
compreendeu três fases de construção nos séculos I, II e IV d. C.
É sobretudo neste derradeiro ciclo do século IV que a “localidade” atinge o seu auge,
com uma configuração mais completa e revelando mesmo características peculiares
que a distinguem das demais villas romanas. A sua riqueza arquitectónica, aliada ao
seu estado de conservação bastante aceitável, é um dado adquirido. Feitos estes
apontamentos, é necessário pois proceder à sua caracterização, tendo em conta a sua
planta5.

5

Abordaremos com especial atenção a descrição desta última villa ou fase de construção do séc. IV d.C.,
não só por ser a mais recente ou por podermos visitar ainda as suas ruínas, como pela importância
maior que parece ter adquirido face às duas anteriores. Mesmo assim, não deixaremos de mencionar as
estruturas que tenham sido construídas nas outras etapas de evolução e que mantiveram a sua
importância nesta última experiência construtiva romana.

15

Planta nº 1 – A Villa Áulica (século IV d. C.) em maior pormenor6.
Retirada do Folheto das Ruínas Romanas de São Cucufate (MC, IPPAR) que foi
desenvolvido por Isabel Lage, Rafael Alfenim e Jorge Alarcão.
6

Legendas para as estruturas da derradeira villa: 1 – Templo Romano, 2- Tanques, 3 – Terraço
sobrelevado, 4- Galeria transeptal, 5- Celeiros abobadados (utilizados posteriormente como Igreja), 6Armazéns/Adega (abobadados), 7- Área Descoberta (antigo Triclinium), 8- Elementos das villas
antecedentes integrados na villa áulica, 9- Escada de acesso ao Piso Superior/Nobre, 10- Termas da
segunda fase de construção integradas na villa áulica; 11- Estruturas nunca terminadas; 12- Instalações
agrárias, 13- Instalações dos Criados, 14- Lagar. O Piso Superior (após subida a escada - 9) é-nos
apresentado à parte, tendo sido presumivelmente constituído por: a- Varanda anterior, b- Quartos, cSalão octogonal, d- Salão com abside, e- Varanda posterior. Na parte superior do esboço aqui exibido,
visualizamos pequenas plantas referentes à primeira e segunda villas/fases de construção que
decorreram no séc. I e II d. C. respectivamente, e achamos ainda referência daquilo que poderá ter sido
uma igreja monástica da Alta Idade Média, integrada eventualmente no período visigótico.

16

Seguindo o circuito pré-estabelecido em São Cucufate7, encontramos primariamente
um templo politeísta do Século IV d.C., embora desconheçamos as divindades pagãs
que seriam aí consagradas. O mesmo mantém semelhanças com a estrutura religiosa
existente nas ruínas romanas de Milreu, em Estoi (concelho de Faro).
De facto, o paganismo constituiu a religião oficial do Império até 313 d.C., data da
promulgação do Édito de Milão pelos Imperadores Constantino I e Licínio que permitiu
assim a liberdade de culto para todas as religiões. O paganismo deixaria de ser
tolerado a partir de 380 d.C., com o Édito de Tessalónica do Imperador Teodósio que
tornou a religião cristã como a oficial do Império.
Dentro desta conjuntura, é provável que, no século V, este templo inicialmente pagão
se tivesse transformado num oratório cristão, verificando-se mesmo algumas
sepulturas no seu redor8. Por isso, os senhores da villa teriam acompanhado esta
evolução religiosa visível na generalidade dos Domínios Romanos9.

Imagem nº 4 – O Templo presente nas Ruínas Romanas de São Cucufate, inicialmente
consagrado ao Paganismo (séc. IV), mas depois adaptado ao culto cristão (séc. V).
Foto da minha autoria
7

Esta será a ordem que selecionamos para estudar as mais diversas estruturas desta villa romana.
Como refere Jorge de Alarcão: “os deuses pagãos não queriam junto de si os mortos; o Cristianismo, pelo
contrário, fez dos templos cemitérios”. Cerca de uma quinzena de sepulturas foram detectadas no seu redor,
o que fortalece a teoria da cristianização deste lugar de culto.
9
Curiosamente, foi difundida recentemente uma nova proposta interpretativa para este espaço. De acordo
com alguns estudos, não é de descartar de todo que este espaço pudesse ser afinal um mausoléu, onde
estariam sepultados os proprietários da villa, procedimento que até seria algo comum no Império Romano.
Todavia, esta leitura alternativa oferece-nos muitas reticências, pelo que decidimos manter a teoria original
alusiva ao “templo” então formulada pela equipa de arqueólogos que liderou as escavações em São Cucufate.
8

17

Imagem nº 5 – Perspectiva distinta sobre o mesmo edifício.
Foto da minha autoria

Após a visita do templo romano, segue-se um enorme tanque, datado do século II d.
C., isto para além de outro que se localizava nas traseiras da Mansão Senhorial.
Provavelmente, seriam abastecidos por um aqueduto, cuja nascente não conseguimos
identificar10. De acordo com os ensinamentos da Dra. Susana Correia, é pouco
plausível que os romanos utilizassem tais estruturas para banhos (até porque para isso
existiriam as termas!)11. Assim sendo, estas estruturas, mediante um sistema de
canalização, serviriam para abastecer a villa, assegurando, por exemplo, a irrigação das
hortas ou campos ou a transmissão das águas para as termas. Como observaremos nas
imagens seguintes, existiam, de facto, dois tanques em São Cucufate que ladeavam12
assim a imponente Mansão do Senhorio. Um deles tinha 35 x 9m em termos de
dimensões (este podia armazenar 800 m3), enquanto que outro teria cerca de 40

10

Este é ainda um dos mistérios por desvendar em São Cucufate – Aonde é que o aqueduto iria extrair
as águas necessárias para abastecer os dois tanques que aí existiam, garantindo estes, através dum
sistema de canalização, a distribuição de toda essa água pela villa? Qual seria a extensão de tal
estrutura? Presumivelmente, o aqueduto estaria em contacto directo com o tanque das traseiras, e
depois existiria uma conduta ou cano que assegurava a ligação com o tanque em frente da mansão.
11
Em situações esporádicas, e sobretudo no decurso do escaldante Verão alentejano, os tanques
poderiam até servir de piscina, contudo, as termas eram as mais indicadas para os banhos públicos.
12
Ladeavam, de acordo com a visão tomada a partir do caminho pré-definido para a realização das
visitas. Contudo, um tanque situava-se à frente, e o outro nas traseiras do referido solar.

18

metros de comprimento e 9 de largura (recolheria 385 m3)13. Efectivamente, e como
refere o especialista Jorge de Alarcão, esta villa romana era farta de água, um bem
essencial para a subsistência comunitária.

Imagem nº 6 – Um tanque (séc. II d. C.), de dimensões consideráveis, em frente da
Mansão Senhorial.
Foto da minha autoria

Imagem nº 7 – Um segundo tanque, talvez ainda mais amplo e importante, localizavase nas traseiras do solar do Proprietário. Um aqueduto assegurava, de forma directa, o
abastecimento deste componente principal. (Foto da minha autoria)
13

Cremos que, em contrapartida, este tanque de maiores dimensões albergaria menor profundidade em
comparação com o outro, o que explicaria, a nosso ver, uma menor concentração de água. Pelo menos, esta
foi a única justificação que nos ocorreu para assim interpretar os dados fornecidos por Jorge Alarcão no que
diz respeito às dimensões dos tanques.

19

A mansão senhorial destacava-se pela sua opulência e altura incomum, sendo
composta por dois pisos. O primeiro tinha uma finalidade mais humilde, dado que
seria um local de armazenamento (talvez uma adega e/ou celeiro)14. Serviria ainda de
sustentáculo ao piso superior, dito nobre (e residencial), onde a família poderosa e
influente fazia a sua vida.

Imagem nº 8 – O Piso inferior do Edifício Senhorial era um local de armazenamento. Aí
se guardavam as talhas de vinho e azeite.
Foto da minha autoria

Imagem nº 9 – Uma adega ou celeiro asseguravam a conservação da própria produção
da villa.
Foto da minha autoria
14

Mais tarde, na era medieval, seria aí implantado, embora apenas numa parte em concreto (junto à
fachada setentrional), um Mosteiro crúzio consagrado a São Cucufate.

20

Como meio de acesso ao segundo piso, o qual não seria conservado até aos dias de
hoje, tínhamos uma escada. Subida esta, existiria uma varanda, salões e ainda quartos
que eram utilizados pelo proprietário e sua família.
A partir da varanda, o senhor da villa acedia a uma visão notável, não só sobre o
tanque e o belo jardim que se situavam nas proximidades, como dos montes e da
restante paisagem em seu redor. Numa perspectiva simbólica, o proprietário afirmava
o seu poder e superioridade através do topo do edifício, observando os criados que,
mais em baixo, realizavam o seu labor na villa.

Imagem nº 10 – A escada artificial de acesso ao piso superior, já que a original
(romana) se encontra, mesmo debaixo daquela, num estado de degradação
assinalável.
Foto da minha autoria

21

Imagem nº 11 – A Mansão Senhorial da villa palaciana.
Foto da minha autoria

Imagem nº 12 – A reconstituição de como seria o edifício principal da villa. Esta
fachada principal albergava os torreões meridional e setentrional, para além de três
pequenas escadas de acesso a um patim de apresentação, onde se recebiam as
saudações iniciais dos recém-chegados convidados.
Retirada de:
http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/mod_texto.asp?pag=34335267621929149730
69787678, (Consultado em: 16-11-2013).
22

Imagem nº 13 – Avistamento a partir das ruínas da varanda (reconstituída
artificialmente) do segundo piso deste solar, no qual o dominus e a sua família
residiam.
Foto da minha autoria

Para além dos aposentos invejáveis desta nobre geração romana (da qual
desconhecemos os nomes dos seus senhores ou o apelido de família15), encontramos,
de seguida, as termas (construídas no séc. II d. C., e remodeladas posteriormente no
séc. IV d. C.) que atestam o luxo romano. De acordo com as informações transmitidas
pela Dra. Susana Correia, tínhamos, no lugar, termas de água quente, morna e fria
(caldarium, tepidarium e frigidarium)16. Este espaço proporcionava o relaxamento da
família proprietária bem como dos convidados ilustres.
Houve ainda um projecto senhorial para a construção de um terceiro conjunto de
termas, contudo, por motivos desconhecidos, o mesmo não foi devidamente
concretizado.

15

Não foi encontrado nenhum documento ou inscrição que faça luz sobre esta problemática, impedindo
a identificação dos proprietários que controlaram, ao longo do tempo, a villa em questão.
16
Os banhos públicos romanos seguiam um ritual específico. Os seus utilizadores começavam pelos
banhos quentes do caldarium, passando posteriormente para as águas mornas do tepidarium. Durante
estas duas primeiras fases, os banhistas abriam os seus poros. Por fim, e depois de passar pelo
tepidarium (a segunda fase que resfriava um pouco os corpos), os romanos usavam posteriormente as
termas de água fria (frigidarium), de forma a fechar os poros novamente.

23

Imagem nº 14 – Vista sobre as termas da villa romana de São Cucufate.
Foto da minha autoria

Existia uma sala17 de recepção de convidados (no século II d. C.) que se transformaria
num lugar de refeições ao ar livre, já durante a última evolução da villa no século IV d.
C.

Imagem nº 15 – O antigo tablinum da villa romana.
Foto da minha autoria
17

Estávamos perante o tablinum. De acordo com algumas teorias, o arco em ferradura (visto na imagem
nº 15) poderá integrar as ruínas duma antiga igreja monástica da Alta Idade Média, contudo é uma
hipótese que ainda não merece um total consenso entre os investigadores, já que esta espécie de muro
poderá constituir os restos duma antiga bancada romana. Mais à frente, voltaremos a abordar, com
maior rigor, esta problemática.

24

Mesmo ali nas traseiras, tínhamos as estruturas da villa referentes ao primeiro século,
embora bem mais humildes e de nenhum modo comparáveis com as dimensões
palacianas da última etapa de construção. Nesta fase derradeira, em que a villa atinge
o auge, observamos que este sector seria adaptado para acolher as habitações do
feitor (que supervisionava, mais de perto, os criados, e transmitia as novidades ao
senhor da villa18) e dos criados (estes poderiam ser homens livres ou escravos com
tarefas agrícolas e domésticas; de acordo com dados recolhidos, teriam que existir,
pelo menos, 12 servos a operar na lavoura, embora seja plausível que o número total
pudesse ser deveras superior).

Imagem nº 16 – Estruturas da villa do século I d. C., adaptadas para acolher, mais
tarde, as habitações do feitor e demais servos.
Foto da minha autoria

Por fim, e numa zona um pouco mais afastada dos demais estabelecimentos,
realçamos a presença de estruturas agrárias, de entre as quais, um lagar (de azeite ou
de vinho?19) com dois pesos cilíndricos.

18

O villicus organizava ainda o trabalho que tinha de ser feito no dia-a-dia.
Pelas características das estruturas agrárias anexas, ganha mais consistência a possibilidade de ter
sido um lagar de azeite. Contudo, a descoberta recente de grainhas de uvas no lagar, impede-nos de
19

25

Como já referimos, as villas romanas consistiam em grandes explorações agrícolas20.
No caso em concreto de São Cucufate, a economia rural assentava principalmente em
três produtos (da trilogia mediterrânica): o vinho, o azeite e o trigo. Também é de crer
que seriam plantados legumes e ervas aromáticas, isto para além da presumível
existência dum pomar.
Naturalmente, também visualizaríamos, nesse período, a criação de aves e gado (este
último seria sobretudo ovicaprino e suíno).
A produção obtida era, em grande parte, canalizada para consumo interno e, no caso
de cenários excedentários, seria comercializada no mercado vizinho de Pax Iulia (Beja).
O dono de São Cucufate retirava da sua exploração rendimentos bastante
significativos, gerando um lógico enriquecimento que talvez lhe permitiu, ao longo dos
tempos, dotar a villa de estruturas mais modernas.

Imagem nº 17 – Um lagar com dois pesos cilíndricos na villa romana de São Cucufate.
Foto da minha autoria

descartar totalmente a hipótese de se ter tratado dum lagar de vinho. Certo é que as duas produções
destacavam-se nesta villa romana.
20
Presume-se que a villa de São Cucufate compreendia uma área de 200 hectares.

26

Sintetizando, podíamos diferenciar três conjuntos de estruturas distintas na villa
romana:

A pars urbana – incluía a residência do proprietário e as termas.

A pars rustica – corresponde às habitações do feitor e dos servos.

A pars frumentaria – espaço dedicado ao armazenamento da produção agrícola
e da pecuária (adegas, celeiros e lagares).

Como já havíamos referido, a villa romana de São Cucufate conheceu três importantes
fases de construção21, cada uma delas seguindo critérios e técnicas arquitectónicas
distintas.
Numa primeira etapa, a villa é fundada talvez em meados do século I d. C., com uma
identidade mais humilde e rudimentar, de menores dimensões e patenteando talvez
um muro.
Na sua segunda fase, presumivelmente datada dos inícios do século II d. C. (cerca de
130 d. C.), a villa encontra-se centrada num peristilo, e alarga consideravelmente os
seus

anteriores

limites.

Por

exemplo,

é

nesta

fase

que

surgem

os

tanques/reservatórios de água, as termas e o lagar.
Por fim, o terceiro e último patamar alcançado pela villa decorre no século IV d. C.
(quiçá por volta de 360 d. C.), sendo agora utilizadas as designações de áulica e
palaciana para a caracterizar. É neste momento que o edifício senhorial atinge os dois
pisos (o que lhe confere uma clara particularidade no caso das villas romanas22) e é
ainda criado o templo pagão, consagrado a uma divindade desconhecida. Não sobram
dúvidas de que o lugar romano de São Cucufate atingiu o seu auge neste preciso
período, com uma evolução e modelo estruturais e arquitectónicos que ainda não
tinham sido adoptados até então neste espaço. Agora, a villa erguida não possui
21

Existem autores que optam por designar a villa I (séc. I d. C.), a villa II (séc. II d. C.) e a villa III (séc. IV d.
C). Contudo, optamos por simplificar este processo interpretativo, citando antes a existência de três
etapas de evolução da mesma villa.
22
A partir deste preciso momento, a villa romana passa a desenvolver-se em altura, estando o seu piso
superior assente em galerias abobadadas, contrariando as demais congéneres que costumavam deter
um piso desenvolvido em torno dum peristilo.

27

centro e valoriza o primado das fachadas. Este claro desenvolvimento tende a reforçar
a teoria do enriquecimento das gerações romanas que dominaram a villa, e que assim
puderam investir na sua melhoria funcional e no seu aparato exterior.

Imagem nº 18 – Reconstituição da Villa I, bem mais modesta. A primeira fase de
construção decorre em meados do séc. I d. C.
Autoria de Pedro André da Silva (Projecto São Cucufate Digital)

Imagem nº 19 – O peristilo, elemento central da Villa II de São Cucufate (inícios séc. II
d. C.).
Autoria de Pedro André da Silva (Projecto São Cucufate Digital)

28

Imagem nº 20 – Reconstituição de como seria a villa palaciana de São Cucufate no
século IV d. C. (Terceira e derradeira fase de construção).
Autoria de Pedro André da Silva (Projecto São Cucufate Digital)

Nas últimas décadas, decorreram escavações arqueológicas23, levadas a cabo por uma
equipa luso-francesa, onde se evidenciavam os nomes de Jorge de Alarcão, Françoise
Mayet e Robert Étienne. O espólio recolhido encontra-se maioritariamente exposto ao
público no Núcleo Museológico da Casa do Arco, também sito em Vila de Frades.
De facto, a variedade de objectos encontrados atestam a ocorrência de várias práticas
quotidianas de âmbito social, económico e cultural.
Seguindo a ordem da exposição presente no referido Museu, encontramos, em
primeiro lugar, e no que diz somente respeito aos artefactos romanos, material
conotado com a agricultura e pastorícia: faca para descarnar peles, facas para podar,
picareta e chocalhos.
Também a produção de vestuário fazia parte das actividades da villa, sendo tal ofício
verificado através da conservação dum tear vertical, pesos de tear, fuso, cossoiros ou
fusaiolas e agulhas.

23

Efectivamente, decorreram várias campanhas de escavações nos anos de 1979, 1981, 1985 e 2001.

29

Destaque ainda para a quantidade de objectos de louça que foram desvendados pelos
arqueólogos já mencionados: pratos, tampas, tigelas, taças, potinhos, panela, alguidar,
pichel, terrina, almofariz.
As ânforas revelavam também a sua extrema importância, já que eram utilizadas para
o armazenamento e transporte de azeite, vinho e preparados piscícolas.
Seguem-se posteriormente as peças de vidro, nomeadamente frascos, contas de colar,
folha decorativa de copo, lasca, jogo do moinho e marcas de jogo.
Na utensilagem de cozinha, e para além da já referida louça, visualizamos também a
presença de cutelos, armelas, faca de cozinha e escoadouro.
Não menos relevantes, temos variados objectos de adorno: alfinetes de cabelo,
sonda24, boneca-amuleto25, anéis, fíbulas, brincos, bracelete, presilha de correia… Os
romanos cultivavam bastante a sua própria imagem.
Para obter iluminação, os romanos recorriam ao uso de lucernas, e na escrita, é de
ressalvar a utilidade do estilete.
Na villa romana de São Cucufate foi ainda detectado equipamento militar, a saber:
ponteiras de arma de arremesso, pontas de lança e dardo, e fivelas.
Também os sectores das Ferragens, Carpintaria e Cantaria exigiam determinados
utensílios, como por exemplo: cinzéis, compasso, badame, campainha, cadeado,
badame, punção, pregos, chaves…
Como já disséramos, a cultura vinícola detinha protagonismo na villa, facto que é
atestado pela presença de restos de antigas talhas, facas de vindima, pratos e braços
de balança…
O conceito de Economia Monetária era parte integrante da civilização romana. Em São
Cucufate encontraram-se centenas de moedas, sendo que, no Núcleo Museológico da
Casa do Arco, são actualmente exibidas 121 do período romano. De forma a
precaverem-se perante conjunturas adversas, os habitantes desejavam guardar as suas
poupanças, dando mesmo lugar a um fenómeno de entesouramento.
Por fim, e já junto à parede lateral, são expostos ainda materiais de construção: placas
e elementos de revestimento, tijolos, tesselas de mosaico, elementos de canalização,
base de coluna, telhas, capitel…
24
25

A sonda era essencial para a preparação e aplicação de medicamentos, pomadas e perfumes.
Não serviria apenas para fins decorativos, mas também para atrair a sorte.

30

Em seguida, apresentamos algumas das imagens que se reportam aos elementos
recolhidos e expostos no Museu já citado:

Imagem nº 21 - Artefactos associados à Agricultura e Pastorícia.
Foto da minha autoria

Imagem nº 22 - Restos de ânforas que outrora asseguravam o armazenamento e
transporte da produção.
Foto da minha autoria

31

Imagem nº 23 - Louça de mesa – tigelas, taças, potes, pratos.
Retirada de: http://arqueologiambiente.blogspot.pt/2009/12/museu-casa-do-arcovila-de-frades.html, (foto publicada por Leonor Rocha)

Imagem nº 24 - Objectos do sector da vidraria.
Foto da minha autoria

32

Imagem nº 25 - Objectos de adorno, lucernas, amuleto e estilete.
Foto da minha autoria

Imagem nº 26 - Elementos das ferragens, carpintaria e cantaria.
Foto da minha autoria

33

Imagem nº 27 - Materiais de construção romana.
Foto da minha autoria

Imagem nº 28 - Moedas do Período Romano.
Retirada de: http://arqueologiambiente.blogspot.pt/2009/12/museu-casa-do-arcovila-de-frades.html, (foto publicada por Leonor Rocha).

34

Todavia, os achados romanos não se restringiram apenas à villa romana de São
Cucufate, e por isso, apresentamos agora outras descobertas arqueológicas que
sustentam a tese duma ocupação sólida por parte dos romanos no território que mais
tarde viria a corresponder a Vila de Frades.
De acordo com Vasco Mantas, Pierre Sillières e J. G. Gorges, encontraram-se a 250
metros da margem esquerda da Ribeira do Freixo, alguns objectos de cerâmica romana
doméstica e de construção26. É possível que este sítio tivesse sido ocupado entre
meados do séc. I d. C. e finais do século II d. C.
No site do IGESPAR, observamos ainda referência, por parte de A. Monteiro e P.
Sillières, para o achamento duma necrópole romana no Vale da Morte27. Recolheramse fragmentos de tegulae, ânforas, cerâmica comum. Foi ainda identificada uma
sepultura construída com telhas e escavada no granito, a qual poderá remontar aos
inícios do século I d. C.
Suspeita-se ainda que, em data incerta, terá existido outra villa romana no território
vilafradense, esta designada como Pedras de Zorra, numa área sobranceira à ribeira de
Mac Abraão. Encontraram-se vestígios dispersos por 1500 metros quadrados. Aí
detectaram-se materiais de construção (tegulae, imbrices, fragmentos de telhas),
vidros, metais e novas sepulturas.
Também no território vizinho que equivale actualmente à freguesia da Vidigueira,
desvendaram-se, na totalidade dos vários sítios28 explorados, fragmentos de cerâmica
(doméstica e de construção), tesselae de mosaicos brancos, vestígios de tijolo
decorado, tegulae, moedas, pesos de barro, restos duma ânfora e dum almofariz,
entre outros artefactos.
Em suma, a presença romana adquiriu uma proporção razoavelmente expressiva nos
territórios hoje correspondentes a Vila de Frades e Vidigueira. A villa palaciana de São
Cucufate, Monumento Nacional desde 1947, reivindica obviamente um elevado
protagonismo, dado que comprova a evolução que se verificou no decurso do período
26

Recolheu-se ainda “terra sigillata hispânica e africana”.
Sobram muitas dúvidas quanto à real localização deste espaço. Poderá pertencer actualmente à
freguesia de Vila de Frades ou à localidade vizinha da Vidigueira. Certo é que estamos diante de novos
achados romanos que não se encontravam assim muito distantes da villa de São Cucufate, não deixando
assim de ser relevante, da nossa parte, mencionar tais novidades.
28
De acordo com o Portal do Arqueólogo (IGESPAR, DGPC) foram visitados os seguintes lugares: Horta
da Marineta, Horta do Rabil, Horta do Xabouco/ Horta do Peguinho, Horta dos Carapetos, Moinho
Branco, Monte da Mangancha, Monte dos Alfaiates e São Pedro.
27

35

romano. A queda do Império Romano do Ocidente no século V29, cujos motivos se
cingem às desavenças internas nas altas instâncias políticas romanas e às
consequentes invasões bárbaras, precipitaria também o fim do seu domínio na
Península Ibérica que acabaria por acolher novos povos bárbaros, nomeadamente os
suevos e visigodos que aí instalariam os seus respectivos reinos.
Terá sido no decurso do século V que os derradeiros senhores de São Cucufate terão
abandonado a villa, desconhecendo-se o seu verdadeiro destino.

Referências Consultadas:

ALARCÃO, Jorge de; ÉTIENNE, Robert; MAYET, Françoise – Les Villas Romaines
de São Cucufate. 2 Vols. Paris: Diffuseur: E. de Boccard, 1990. Esta obra é um
clássico em termos de investigação pormenorizada sobre este sítio
arqueológico, visto que reúne os mentores das escavações.

ALARCÃO, Jorge de – Roteiros de Arqueologia Portuguesa. Vol 5 – São Cucufate.
IPPAR, 1998.

ALARCÃO, Jorge de – Portugal Romano. Lisboa: Editorial Verbo, 1974.

BELO, Duarte; ALMEIDA, Álvaro – Portugal Património. 12 Vols. Lisboa: Círculo
de Leitores, 2007.

BOSISIO, Alfredo – Os Grandes Impérios do Mundo – Os Romanos. Lisboa,
Resomnia Editores, [?].

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º Ed. Beja: Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

OLEIRO, J. M. Bairrão – Romanização in Dicionário de História de Portugal. Dir.
Joel Serrão. Vol. V. Porto: Livraria Figueirinhas, 1985.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal. 3ª Ed. Vol. I. Lisboa: Verbo,
1979.

Textos e Descrições inerentes à Exposição/Galeria Fixa sobre a Villa Romana de
São Cucufate no Museu da Casa do Arco – Vila de Frades.

29

A capital Roma cai em 476 d. C. às mãos dos hérulos, e posteriormente, dos ostrogodos.

36

https://www.facebook.com/villa.sao.cucufate?fref=ts, (Página presente numa
rede social e que é desenvolvida exemplarmente pelo Dr. Pedro André da Silva
que procura efectuar a reconstituição digital desta ancestral villa romana).

Vasco Mantas, Pierre Silliéres, A. Monteiro, J. G. Gorges (e outros),
http://www.igespar.pt/, Portal do Arqueólogo.

37

3- A Idade Média (Séculos V-XV)

No ano 476 d.C., Roma caía às mãos dos povos bárbaros, marco utilizado pelos
historiadores para determinar o início da era medieval. Os povos bárbaros tinham
invadido o Império Romano do Ocidente, aproveitando as divisões internas que aí se
verificavam.
No caso da Península Ibérica, acabariam por se instalar, nos séculos V e VI, de forma
sólida e gradual, os suevos e visigodos, sendo que foram estes últimos os que se
instalaram em terras alentejanas.
Em 711 d.C., dá-se a invasão muçulmana da Península Ibérica comandada por Tariq ibn
Zyad. O sucesso da expedição é inegável, explicado em grande parte pelas quezílias
que existiam em redor do trono visigótico. Nesse mesmo ano, as tropas do Rei Rodrigo
sofrem uma estrondosa derrota perante os contingentes mouros na batalha de
Guadalete. Estavam pois criadas as condições para que os territórios hispânicos,
excepto as Astúrias e a região Basca, ficassem à mercê duma nova civilização que
transportava consigo uma identidade cultural que assentava em dois pilares até então
desconhecidos da realidade peninsular: a língua árabe e a religião islâmica.
Dentro deste contexto, procuraremos abordar se estes dois povos, visigodos e árabes,
deixaram marcas da sua presença no território correspondente hoje a Vila de Frades,
estudando assim, de forma mais pormenorizada, o seu impacto.
A resistência à expansão muçulmana foi imediata, embora caracterizada por diversos
avanços e recuos. A Reconquista, equiparada a uma Cruzada, é lançada a partir do
reino das Astúrias (que não caiu nas mãos dos islamitas muito devido à resistência
heroica de Pelágio), e graças aos evidentes sucessos militares em direcção a Sul,
começam a formar-se novos reinos peninsulares cristãos. A partir do Tratado de
Zamora (1143), nasce o reino de Portugal que continuará a ampliar os seus territórios
com novas batalhas e cercos bem-sucedidos. Contudo, a conquista de Beja por parte
dos cristãos conheceu vários capítulos. Em 1159, D. Afonso Henriques toma a cidade
mas acaba por abandoná-la. Em 1162, volta a ser recuperada pelos cristãos. Todavia, o
temível al-Mansur recoloca Beja nas mãos dos muçulmanos, talvez em 1191. Com D.
Sancho II, a povoação terá voltado às mãos portuguesas, entre os anos de 1232 e
38

1234. Posteriormente, D. Afonso III não só assegurará a manutenção das praças
alentejanas, como terminará a Reconquista Portuguesa, com a tomada de Faro e
demais praças algarvias em 1249. Os muçulmanos acabariam mesmo por ver os seus
domínios na Península Ibérica a reduzirem drasticamente, restando apenas o reino de
Granada que tombará em 1492 diante dos Reis Católicos de Espanha – Isabel I de
Castela e Fernando II de Aragão.
No século XIII, concluiu-se assim a formação do reino Português. Neste âmbito,
interessa não só constatar se as origens de Vila de Frades, enquanto povoação
enraizada neste novo quadro geo-político, remontam ou não a este novo período da
Baixa Idade Média, como também identificar os seus primeiros senhores e descrever a
organização social e económica desta comunidade.
A Idade Média estende-se desde o século V (476 – data que, como já tínhamos
referido, assinala a queda de Roma, capital do Império Romano do Ocidente, às mãos
dos hérulos) até ao século XV (1453 – ano em que Constantinopla, capital do Império
Bizantino, é conquistada pelos turcos). Estamos praticamente perante um milénio de
vivências que procuraremos retratar com o maior rigor possível, tentando
compreender a influência de todo este cenário medieval no surgimento e na posterior
evolução de Vila de Frades.

Referências Consultadas:

HENRIQUES, Pedro – Esmoriz – Desde a Idade Média até à Actualidade. Uma
perspectiva sobre os estudos de Aires de Amorim, Esmoriz, 2013. Disponível em:
http://pt.scribd.com/doc/149566930/Esmoriz-Desde-a-Idade-Media-ate-a-Actualidade

Castelo de Beja in Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
[Página Consultada em: 28-10-2013]. Artigo Electrónico disponível em:
http://www.infopedia.pt/$castelo-de-beja.

http://maltez.info/aaanetnovabiografia/1200-1249/1232.htm, (Consultado em:
28-10-2013; página da autoria de José Adelino Maltez).

http://monarcas.no.sapo.pt/monarcas/sancho_2.htm, (Consultado em: 28-102013).

39

3.1 – O Advento dos Frades em São Cucufate

Uma das temáticas mais discutidas entre historiadores e arqueólogos prende-se com
as eventuais origens da implantação monástica nos domínios da antiga villa romana de
São Cucufate.
Frei Leão de São Tomás, no seu Benidictina Lusitana, e Jorge Cardoso, na obra
Agiólogo Lusitano, são cronistas do século XVII que defendem a teoria de que foi
criado, na era visigótica, um templo da Ordem de São Bento naquele lugar.
Seguindo ainda esta mesma linha de pensamento, encontramos Gerardo Augusto
Pery, um autor moderno do século XIX, que refere a existência dum Mosteiro entre os
anos de 586 e 893, embora não apresente fontes que sustentem tal raciocínio.
Por seu turno, Jorge de Alarcão, arqueólogo que redigiu, no ano de 1998, um dos
roteiros da Arqueologia Portuguesa destinado a abordar a história em torno da villa
romana de São Cucufate, não exclui o cenário em causa, afirmando que a tradição de
um mosteiro fundado em tempo de Visigodos e mantido sob o domínio muçulmano
não se pode enjeitar.
De acordo com este último erudito, o tão aclamado templo beneditino da era
visigótica poderá ter sido erguido junto ao tablinum da villa romana, onde subsiste um
arco em ferradura que poderia ter pertencido ao corpo de uma igreja, possivelmente
datada dos séculos VI-VII. Segundo as interpretações do mesmo Jorge de Alarcão,
tratar-se-ia dum pequeno edifício com cabeceira em arco ligeiramente peraltado, um
degrau acima de um corpo, encontrando-se este dividido em duas partes: um coro
com dois bancos laterais (onde poderiam sentar-se aproximadamente uma dezena de
monges) e uma nave que teria a capacidade de acolher pouco mais de meia centena
de fiéis. Todavia, esta reconstituição proposta está longe de ser convincente, já que as
ruínas em questão poderão não pertencer a uma antiga igreja, mas sim ao muro duma
antiga bancada romana integrante da sala de jantar ao ar livre. Ou será que esses
intrigantes segmentos de muros fariam parte de outra estrutura com finalidade
distinta? Certo é que todas as hipóteses continuam claramente em aberto.
40

O prelado desse alegado Convento visigótico intitulava-se como o abade dos abades, à
semelhança dos priores de Cluny ou Monte Cassino, gesto que poderá ser encarado
como um sinal de poder ou influência que poderia deter, pelo menos, a nível regional.
De acordo com esta linha de pensamento, o suposto templo “visigótico” já consagrado
presumivelmente a São Cucufate, teria sido posteriormente respeitado por parte dos
invasores muçulmanos que tolerariam o culto moçárabe. Mesmo assim, as guerras da
Reconquista travadas entre cristãos e muçulmanos acabariam por atingir o Sul da
Península Ibérica. Os combates acabariam, em várias ocasiões, por se alastrar até Beja,
e terá sido, num desses momentos belicistas, que o Mosteiro foi abandonado.

Imagem nº 29 – Veja-se o arco em ferradura (na zona do antigo tablinum romano) e
segmentos de muros eventualmente pertencentes a uma Igreja da era visigótica, ou a
outra estrutura ainda por identificar.
Foto da minha autoria

Todavia, esta teoria em torno do templo visigótico não merece acolhimento por parte
de José Palma Caetano que parece classificá-la como um mito criado à posteriori pelos
autores já citados. No entender deste erudito, o Convento terá sido apenas produto do
período da Reconquista, talvez criado nos reinados de D. Sancho II, ou apenas, de D.
Afonso III. Efectivamente, sabemos que este último rei elabora mesmo um pedido ao
41

bispo de Évora D. Martinho, para que assegurasse a doação do casarão e da villa
romana ao Mosteiro de S. Vicente de Fora (Lisboa), o que acabaria por acontecer em
1255. A partir desta data, o culto naquele espaço já não parece suscitar quaisquer
dúvidas, já que perduram documentos a comprovar tal facto. Apenas se discute se a
implantação monástica decorreu logo na segunda metade do séc. XIII ou se apenas no
séc. XIV. Desta feita, os novos frades crúzios ou vicentinos decidem instalar o seu
templo junto à fachada setentrional, num compartimento do piso inferior que, no
período romano, tinha albergado uma adega ou celeiro do séc. IV d. C. Por outras
palavras, a igreja recém-criada ficaria num espaço absidiado do topo norte da villa
palaciana, a qual viria a ser decorada com pinturas murais datadas de diversas épocas.
Céptico da existência prévia do Mosteiro “Visigótico”, José Palma Caetano alega a
inexistência de moedas encontradas para os períodos visigótico e muçulmano, quando
se tinham achado várias que remontavam ao período romano, sendo que as outras,
mais tardias, estão datadas a partir do século XIII, inseridas concretamente nos
reinados de D. Sancho II e de D. Afonso III. Verifica-se pois uma ausência de vestígios
arqueológicos (por exemplo, também constatada ao nível da cerâmica e modificações
arquitectónicas) em São Cucufate para o período compreendido entre os séculos VI e
XII.
Para além disso, poderá existir outro argumento a ter em conta. Como observaremos
mais à frente, as pinturas murais mais antigas, presentes no Mosteiro de São Cucufate,
remontam apenas aos Séculos XIV e XV. Não há qualquer elemento decorativo que
ateste uma influência visigótica ou moçárabe, em nenhum espaço da antiga villa
romana.
Mesmo assim, a perspectiva defendida por José Palma Caetano está ainda longe de se
tornar numa evidência científica.
Por exemplo, Jorge de Alarcão contra-argumenta que o padroeiro do Mosteiro que
seria São Cucufate (mártir degolado pelos romanos na Catalunha em 304 d.C.), não
poderia ter sido escolhido no século XIII, até porque se tratava dum orago bastante
primitivo, estando já, naquele século, o seu culto fora de moda. Assim sendo, não se
ajustaria a designação de tal padroeiro para um convento fundado no tardio século
XIII. Tal linha de raciocínio tende a inferir a existência dum culto cristão que seria
bastante anterior à instalação dos frades vicentinos.
42

Outra premissa utilizada pelo mesmo arqueólogo e restantes membros da equipa lusofrancesa que se destacaram nas escavações arqueológicas em São Cucufate tem em
especial consideração os primeiros enterramentos cristãos localizados junto ao antigo
templo pagão romano, transformado posteriormente num oratório cristão. Apesar do
vandalismo exercido sobre as sepulturas e do consequente desaparecimento e
dispersão do material, foi possível retirar conclusões mais precisas sobre o designado
Túmulo 13, composto por placas de mármore com decoração gravada30, que deverá
ser posterior ao século V, podendo mesmo já situar-se na era visigótica31. Como não é
nada fácil propor uma datação para as restantes sepulturas, poderá ser tentador
integrá-las numa fase de transição entre a Antiguidade Tardia (século V) e a Alta Idade
Média (anos posteriores), embora o seu estado de degradação não permita extrair
conclusões seguras e definitivas.

Imagem nº 30 – Revestimento do túmulo com decoração potencialmente visigótica.
Foto da minha autoria

30

As características da decoração específica desta sepultura, marcada por uma linha dupla de
quadrados escalonados e ornamentada ainda por flores desenhadas com as suas respectivas pétalas
circulares, poderão remeter-nos para a arte praticada pelos criadores visigóticos de Mérida.
31
Ao todo, foram analisadas, com maior rigor, 15 sepulturas paleocristãs, por parte dos investigadores
luso-franceses, liderados por Jorge de Alarcão, Robert Étienne e Françoise Mayet. Para além do Túmulo
13, devemos destacar ainda o estipulado Túmulo 2, composto de madeira, cuja abertura determinou o
aparecimento de dois anéis, duas solas de sapato, uma enxó e uma jarra que rodeavam o esqueleto
dum homem adulto, cuja identidade nunca foi apurada, mas que terá alegadamente merecido um maior
reconhecimento popular, dadas as oferendas verificadas.

43

Os termos concretos adoptados no documento da doação do lugar, no ano de 1255,
por parte da Diocese de Évora ao Mosteiro de S. Vicente de Fora de Lisboa, favorecem
a tese da restauração do culto em torno de São Cucufate, até porque a tradição
documental apontava já para uma fama religiosa concentrada anteriormente naquele
local.
Numa outra prospecção arqueológica distinta, realizada em 1981, foram descobertos,
talvez em torno do lugar de Mac Abraão, vários fragmentos de cerâmica de construção
e de dolium que remontavam ao período islâmico32. Apesar de tais achados não se
cingirem a São Cucufate, devemos referir que os mesmos atestam pelo menos a
existência duma pequena comunidade muçulmana noutro ponto da localidade, o que
pode indiciar que a região alentejana estaria a ser profundamente explorada pelos
seguidores de Maomé. Esta constatação poderá reforçar a ideia de que a antiga villa
romana não estaria ao abandono, sendo aceitável a presença dum templo cristão,
tolerado na era muçulmana, mas talvez fundado anteriormente pelas entidades
eclesiásticas visigóticas.
Contudo, é certo que não dispomos ainda de dados suficientes que nos permitam
comprovar definitivamente a existência ou a ausência dum Mosteiro em São Cucufate
nas eras visigótica e muçulmana. Também se suspeita que posteriormente, já no
reinado de D. Sancho II (1223-1248), o culto cristão teria sido alegadamente fundado
ou restabelecido em São Cucufate, mas de novo, não temos uma base documental que
sustente solidamente tal teoria33. A única referência segura que, pelo menos, atesta a
existência deste culto medieval, remonta apenas a meados do século XIII, mais
concretamente à doação de 1255 por parte de D. Martinho, Bispo de Évora, do antigo
casarão romano aos responsáveis do Mosteiro de S. Vicente de Fora34, com o devido
consentimento do rei português D. Afonso III. Agora, é evidente que não nos é nada
32

Foram identificados dois muros, de cronologia islâmica, embora tenham sido reaproveitados materiais
de construção romanos.
33
Encontraram-se algumas moedas do reinado de D. Sancho II, mas tais achados revelam-se ainda
insuficientes para comprovar a existência, nesse preciso momento, dum Mosteiro em São Cucufate.
34
O Mosteiro de São Vicente de Fora terá sido fundado em Lisboa por volta de 1147 por iniciativa do rei
português D. Afonso Henriques, decorrendo do voto feito por este monarca caso conseguisse conquistar
aquela urbe. O edifício, construído sob os ditames da arquitectura românica, tornou-se na sede de uma
das principais organizações monásticas do Portugal Medieval. O seu culto era dedicado a São Vicente de
Saragoça, mártir que tombou às mãos dos romanos nos inícios do século IV e que viria ainda a ser santo
patrono de Lisboa, cujas relíquias foram inclusive transportadas desde o Algarve até Lisboa no século XII.

44

fácil determinar se essa data corresponde à fundação ou se apenas à restauração do
culto cristão, possivelmente detentor já duma forte tradição.
De facto, só podemos abordar, com segurança, o período de estabelecimento dos
frades vicentinos, a partir do ano de 1255, o que faremos agora com devido rigor.
Como já havíamos mencionado, o casarão de São Cucufate foi então doado por D.
Martinho, bispo de Évora, com o aval de D. Afonso III, ao Mosteiro de São Vicente de
Fora naquele ano de 1255. Não se apuraram muitos elementos informativos sobre a
estadia medieval destes religiosos, mas ainda assim enunciaremos alguns dados que
logramos recolher.
Dentro deste cenário, sabemos que o Cabido de Évora comprometeu-se a repor o
altar, isto para além de custear ligeiras obras, tendo em vista a prática do culto cristão
naquela parte da divisão inferior da mansão principal na villa romana, agora
readaptada e consequentemente entregue ao cuidado dos novos monges.
É ainda introduzida uma primeira porta ogival sobre a fachada norte que assegurava a
comunicação com o exterior. A concepção desta mesma porta poderá remontar ao
século XIII. Na abside, os monges assentaram o seu altar (posteriormente encimado
pela estátua de São Cucufate degolado que hoje se encontra na Igreja Matriz de Vila de
Frades)35 e, acima de tudo, legaram um testemunho artístico notável através da
decoração exercida nas paredes com a realização das mais ancianas pinturas murais.
A primeira ilustração pictórica remonta aos finais do século XIV e ocupa um terço da
zona absidal, representando três figuras: um Santo Bispo, que supostamente seria o
padroeiro São Cucufate, e duas Santas Mártires, cujo actual estado de degradação não
permite qualquer identificação rigorosa36.

35

Os pilares internos do templo poderiam dificultar um pouco a boa visão das cerimónias litúrgicas.
Efectivamente, há algumas diferenças estruturais entre o Mosteiro de São Cucufate e a futura Capela de
São Tiago. A porta do século XIII, referente ao mosteiro, é aquela mais pequena, ogival e actualmente
inutilizada. O altar estaria na abside. Contudo, com a Ermida de São Tiago, nos finais do séc. XVI ou
inícios do XVII, o altar/púlpito é transferido para a actual posição central da nave, é criada a pia
baptismal ao lado da nova porta de entrada, esta sobre o muro norte ainda hoje penetrada pelos
visitantes, e a abside, onde estava o antigo altar, passaria a albergar apenas um banco talvez destinado
aos crentes.
36
Dentro deste cenário, não foram então encontradas pinturas dos períodos visigótico e muçulmano.

45

Imagem nº 31 – Fresco mais antigo, ilustrando São Cucufate (?) rodeado de duas
santas mártires (séc. XIV) no antigo presbitério. Foto da minha autoria.

A segunda intervenção artística, localizada num dos pilares da nave, estará datada do
século XV, ou até mesmo, dos inícios do século XVI, onde presumivelmente
vislumbramos uma cabeça da Virgem com diluídos vestígios de um Menino Jesus à
esquerda (talvez ao colo de Nossa Senhora)37.

Imagem nº 32 – A segunda intervenção artística mais antiga – a Cabeça da Virgem (séc.
XV- XVI). Foto da minha autoria.
37

A datação deste segundo fresco alimenta várias dúvidas, já que o seu estado de conservação não
contribui para que se recolham informações mais precisas. Há inclusive a possibilidade desta pintura
mural ser medieval…

46

Apesar dos seus pintores permanecerem no anonimato, a verdade é que estes dois
frescos mais antigos constituem um testemunho inequívoco da existência deste
Mosteiro medieval crúzio. É provável que o templo, durante esta era mais recuada,
estivesse recheado doutras pinturas que não resistiriam ao avanço dos tempos. Mais
tarde, a partir de meados ou finais do século XVI38, o Convento de São Cucufate foi
readaptado a Capela com invocação a São Tiago Maior. Nesse período moderno, foram
pintados novos frescos, de entre os quais aqueles que se encontram no actual
retábulo-mor, saídos da oficina eborense de José de Escovar. Noutro capítulo,
teceremos novas considerações a esse respeito, já que o actual subcapítulo se destina
apenas a traçar a evolução e os factos associados ao Mosteiro vicentino que, durante a
era medieval, se instalou nas antigas estruturas da villa romana.
A propósito da cristianização daquele lugar e da presença destes frades, foi
recuperado algum espólio que se encontra igualmente exposto ao público no Núcleo
Museológico da Casa do Arco. Neste cenário, foram detectados alguns objectos que
lhes são inerentes: crucifixo, medalhas religiosas (uma representando o Anjo e a
Virgem com o Menino Jesus), placa decorativa (que poderá ter pertencido a um
relicário ou a uma cruz processional), jarros, anéis, taças, tigelas, tesoura, dedal…
Foram ainda desvendadas várias sepulturas (295 ao todo!) pertencentes à antiga
necrópole medieval dos monges39. Os túmulos assumiam várias características,
podendo ser alongados, rectangulares ou ovais. Os mortos eram enterrados em
decubitus dorsal, com as mãos cruzadas sobre o ventre, ou com uma mão no peito e
outra no ventre. Descobriram-se ainda várias ossadas que não permitem datações
rigorosas, dada a decomposição dos esqueletos ao longo dos tempos. Houve ainda
outros casos, embora mais raros, em que os monges foram sepultados com a caveira
que os tinha acompanhado nas suas celas de forma a meditarem sobre o carácter
38

Não há uma data precisa para situar o abandono dos monges. De acordo com os autores da obra – Les
Villas Romaines de São Cucufate, o número de moedas portuguesas encontradas em São Cucufate no
pós-reinado de D. João III (1521-1557) pauta-se por uma tremenda escassez, o que tende a favorecer a
teoria do abandono do templo, em meados ou nos finais do século XVI. Uma visita realizada ao local por
Manuel Severim de Faria nos primórdios do século XVII, talvez entre os anos de 1600 e 1640, já dá conta
da transformação do Mosteiro de São Cucufate numa Capela destinada ao culto em torno de São Tiago
Maior.
39
De acordo com o testemunho da Dra. Susana Correia (Direcção Regional da Cultura do Alentejo), a
Necrópole Medieval dos monges terá sido instalada entre as actuais termas da villa romana e as
habitações do villicus e dos criados, isto é, nas traseiras de todo aquele casarão. Este cemitério poderá
remontar aos séculos XIV e XV, embora não existam ainda certezas quanto a isso.

47

transitório da vida. Para além dos esqueletos dos monges40, encontraram-se outros de
mulheres e crianças, talvez empregados pelos primeiros nos trabalhos agrícolas.
Ao nível da organização interna, os frades (presumivelmente não seriam mais do que
uma dúzia) elegeriam livremente o seu prior, e poderiam demitir-se sem que o Bispo
de Évora pudesse intervir, o qual teria que acatar as suas escolhas. Estes novos donos
de São Cucufate terão administrado uma paróquia com uma considerável área que
terá conhecido enquanto zonas limítrofes: Mac Abraão, Serra de Portel, Cuba e lugares
acima de Odearça41, alcançando assim uma superfície de 150 km2, o que por seu
turno, corresponderia a um total de 15 000 hectares. Assim sendo, os frades poderiam
ter colocado em prática um regime de latifúndio, o que lhes permitiria extrair vastos
lucros. Para além dos proveitos retirados da lavoura, é possível que os frades tivessem
igualmente promovido actividades de carácter artesanal.
A circulação monetária foi outro testemunho destes tempos mais frutuosos, tendo
presumivelmente assumido alguma abundância. Depois das já referidas moedas
romanas achadas na villa romana para o período da Antiguidade, recolheram-se outras
portuguesas que correspondiam a variados reinados medievais, cuja distribuição pode
ser observada através da seguinte tabela:

40

Infelizmente, não foi possível, até aos dias de hoje, identificar o nome de qualquer um dos frades que
terão professado no Mosteiro Crúzio ou Vicentino de São Cucufate em Vila de Frades.
41
Convém alertar que estes limites para esta paróquia rural foram propostos pela equipa luso-francesa
que se concentrou especificamente nas explorações arqueológicas.

48

Reinados/ Períodos

Nº de Moedas achadas em
São Cucufate

D. Sancho II (1223-1248)

16

D. Afonso III (1248-1279)

9

D. Dinis (1279-1325)

7

D. Fernando I (1367-1383)

3

D. João I (1385-1433)

21

D. Duarte (1433-1438)

8

D. Afonso V (1438-1481)

35

D. João II (1481-1495)

2

D. Manuel I (1495-1521)

3

D. João III (1521-1557)

6

D. José I (1750-1777)

1

D. Luís I (1861-1889)

2

1ª República (1910-1926)

2

2ª República (1926-…)

2

Total

117 moedas portuguesas42

Tabela nº 1 – As moedas encontradas na era pós-romana, sendo a maior parte
esmagadora das mesmas provenientes dos tempos da implantação e existência do
Mosteiro Crúzio de São Cucufate.
Dados extraídos de: ALARCÃO, Jorge de; ÉTIENNE, Robert; MAYET, Françoise – Les
villas romaines de São Cucufate (Portugal), p. 269-288.

Não podemos negar que grande parte das moedas detectadas remonta aos reinados
de D. Sancho II (1223-1248), D. Afonso III (1248-1279), D. João I (1385-1433), D. Duarte
(1433-1438) e D. Afonso V (1438-1481). Mas é sobretudo neste último reinado que se
42

Evidentemente que não fazem parte desta contabilização as moedas romanas que reivindicam um
maior protagonismo em termos quantitativos (foram encontradas ao todo 385!). No total, e contando
com todas as eras, foram achadas mais de 500 moedas em São Cucufate, o que reforça o potencial
histórico e arqueológico deste sítio considerado Monumento Nacional desde 1947.

49

atinge o número máximo de unidades achadas, o que poderá indiciar um crescimento
económico mais acentuado por parte desta entidade eclesiástica no decurso do século
XV, talvez explicado por um número crescente de monges, uma população agrícola
mais expressiva, e uma exploração cada vez mais intensiva.
Foi ainda graças aos frades que se preservaram posteriormente muitas das estruturas
da Villa Romana de São Cucufate, as quais ainda podem ser visualizadas na actualidade
por arqueólogos e demais visitantes.
Para além do culto religioso assegurado pelo Mosteiro, estão devidamente registados
os serviços duma Igreja Matriz na vila, de cariz gótico e consagrada inicialmente a São
Jerónimo, sendo que a sua existência é documentada a partir dos séculos XIII e XIV.
Apesar de se desconhecerem mais pormenores sobre este segundo templo medieval,
cremos que o mesmo acolheria as necessidades espirituais da povoação, assegurando
a realização de eucaristias, num período em que se denotava um elevado fervor
religioso.

Referências Consultadas:

ALARCÃO, Jorge de – Roteiros da Arqueologia Portuguesa – S. Cucufate (5).
Instituto Português do Património Arquitectónico, 1998.

ALARCÃO, Jorge de; ÉTIENNE, Robert; MAYET, Françoise – Les Villas Romaines
de São Cucufate. 2 Vols. Paris: Diffuseur: E. de Boccard, 1990.

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º Ed. Beja: Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

CARDOSO, Jorge – Agiologio Luzitano dos Sanctos e Varoens Illustres em virtude
do Reino de Portugal e suas conquistas. Tomo II. Lisboa, 1657.

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

MOURA, Abel; CABRITA, Teresa; SERRÃO, Vítor – As Pinturas Murais do
Santuário de São Cucufate. Coimbra: Instituto de Arqueologia da Faculdade de
Letras de Coimbra, 1989.

50

PERY, Gerardo Augusto de – Estatística Agrícola do Districto de Beja. Vol. IV Concelho de Vidigueira. Lisboa, 1887.

TOMÁS, Frei Leão de S. – Benedictina Lusitana. Tomo I. Coimbra, 1644.

MANTAS, Vasco; MONTEIRO, A.; SILLIÈRES, Pierre, Portal do Arqueólogo,
www.igespar.pt .

http://jfcuba.no.sapo.pt/paginas/p1-historiacuba.htm, (Consultado em: 19-012014).

51

3.2 - O Foral Manuelino de Vila de Frades – Um Retrato
Socioeconómico da Era Medieval?
Terminada a Reconquista, os reis portugueses esforçaram-se por assegurar o
povoamento nas novas regiões recém-conquistadas. Em Vila de Frades, o
protagonismo terá passado então pelos monges dependentes de São Vicente de Fora
que assumiram essa missão, isto para além de conferirem uma organização económica
e social à vila. Não se torna pois difícil decifrar as origens da designação nominal desta
terra que inicialmente se chamava Vila dos Frades, para mais tarde merecer o termo
topónimo, ainda actual, de Vila de Frades. Na era medieval portuguesa, estes senhores
eclesiásticos potenciaram indubitavelmente o crescimento demográfico, económico e
religioso desta localidade.
A prova de tais constatações poderá ser observada através de dois forais. O primeiro,
atribuído por total iniciativa do Mosteiro de S. Vicente de Fora, não chegou aos nossos
dias, e por isso, é-nos impossível sequer adiantar uma data para a sua promulgação43.
O segundo está conservado e encontra-se datado no ano de 1512, mais
concretamente no âmbito do reinado de D. Manuel I que procedeu à reforma dos
forais. Evidentemente, a mencionada Instituição Religiosa mantém ainda a sua
hegemonia sobre a Vila, embora o Rei português reivindique para si alguns direitos,
neste documento.
De facto, pode-se afirmar que o ano de 1512 estaria incluído numa fase de transição
entre a Idade Média Tardia e o Início da Época Moderna. Partimos do princípio de que
a realidade vigente neste segundo foral não deveria diferir muito daquela que seria
espelhada pelo conteúdo do primeiro foral (este talvez outorgado no século XIII ou
XIV)44.
Antes de passarmos à abordagem do documento, importa definir a importância do
Foral e da Reforma Manuelina neste âmbito. Um foral poderia ser concedido pelo rei
ou por um senhor laico ou eclesiástico, contendo normas disciplinadoras que teriam de
43

Voltaremos a esta questão mais à frente quando nos debruçarmos sobre a instituição histórica do
Concelho de Vila de Frades.
44
Por outras palavras, cremos que ambos os forais, embora “separados cronologicamente”, deveriam
manter consideráveis semelhanças entre si, no que diz respeito às informações veiculadas.

52

ser acatadas pelos habitantes. Os primeiros forais tinham como missão povoar e atrair
mão-de-obra, de forma a assegurar o já referido crescimento demográfico e
económico das localidades visadas. Nesses documentos, estabeleciam-se as liberdades
e garantias das pessoas, impunham-se impostos e tributos, definiam-se as multas em
casos de delitos, estipulava-se o serviço militar, elencavam-se os encargos, etc.
Detalhavam-se ainda os bens ou direitos que pertenciam à Coroa, e os que eram
igualmente atribuídos ao senhor donatário (de âmbito eclesiástico, no caso concreto
de Vila de Frades).
No reinado de D. Manuel I, os forais passaram a ser meros registos de encargos e
isenções locais. Os motivos que levaram o Venturoso a proceder à reforma desta
tipologia documental poderão radicar na necessidade de actualizar vários dos
pressupostos aí contidos, como por exemplo: o sistema monetário (conversão de
moedas antigas), os próprios critérios referentes ao regime dos Pesos e Medidas e a
tradução para um novo idioma (muitos dos forais antigos estavam lavrados em latim, e
seriam agora redigidos na língua portuguesa, em voga naquele período, permitindo
uma compreensão mais facilitada). A Modernização e a Uniformização da
Administração Local constituíam as metas a alcançar, embora nem sempre se
alcançassem tais propósitos, dado que houve lugar ao contraditório nesses Forais
Novos, como afirma o historiador Luís Miguel Duarte.
No dia 22 de Novembro de 1497, D. Manuel I ordena, por carta régia, a verificação e
consequente reforma dos forais já existentes. O monarca português tinha ainda uma
comissão para esse efeito, sendo esta composta por Rui Boto (chanceler-mor), João
Fogaça (desembargador) e Fernão de Pina (cavaleiro; filho de Rui de Pina, cronista-mor
do Reino). Cada povoação deveria obrigatoriamente transmitir aos membros da
comissão a forma como eram arrecadadas as rendas e os direitos reais. A política
expansionista do século XVI forçou o rei português a explorar profundamente as suas
fontes de receita.
Entre os anos de 1500 e 1520, saíram os forais respectivos às províncias da Beira, Trásos-Montes, Entre Douro e Minho, Estremadura e Entre Tejo e Guadiana.
Evidentemente que foi neste contexto que surgiria o Segundo Foral de Vila de Frades,
datado do ano de 1512, como já havíamos referido.

53

Como é lógico, este documento será a nossa fonte primária para o estudo
pormenorizado inerente a este subcapítulo. Procuraremos extrair o maior número de
informações possíveis, embora nem sempre seja uma tarefa fácil proceder à leitura
paleográfica e interpretação dos conteúdos.
O Foral Manuelino de Vila de Frades está presente no Livro dos Forais Novos de Entre
Tejo e Odiana, encontrando-se o mesmo digitalizado por iniciativa da Direcção Geral
de Arquivos.
Trata-se dum pequeno documento que ocupa cerca de duas páginas, embora existam
dados que são dignos de merecer inúmeras reflexões da nossa parte.
Ao nível da apresentação formal do documento, não poderia deixar de enaltecer o
esteticismo da sua caligrafia que não passa seguramente despercebida aos olhares dos
seus leitores e investigadores.
O foral começa por determinar que a povoação de Vila de Frades terá que pagar o
dízimo45 que visava inúmeros produtos: vinho, pão, azeite, legumes, linho e tinta. Este
tributo de cariz religioso, justificado pelo fervor daquela época, seria entregue ao
Senhorio, isto é, ao Mosteiro de S. Vicente de Fora. Por outras palavras, os
camponeses e demais trabalhadores teriam que abdicar de 10% da produção daqueles
géneros, de forma a compensar o Mosteiro vicentino.
A hortaliça e a fruta não eram alvo de imposto por parte deste senhorio eclesiástico,
excepto em caso de venda. Por outras palavras, só escapava a tal tributo, quem
produzisse para possuir e consumir tais produtos.
Em seguida, o foral volta a ressalvar a importância do azeite em Vila de Frades. Pelo
que é aí referido, o dízimo sobre este produto não era cobrado no foral anterior (hoje
desaparecido), contudo e como já foi mencionado em cima, a situação mudaria
definitivamente a partir de agora.

45

O dízimo é um imposto com conotação religiosa, que consistia no pagamento de um décimo da
produção que teria de ser entregue a uma entidade clerical ou régia. No caso do foral de Vila de Frades,
fica patente a dúvida se não seriam cobrados antes dois dízimos (em vez de apenas um!) sobre aqueles
produtos. Um seguramente assegurado pelo Mosteiro de São Vicente de Fora, juntamente com outro,
embora tenhamos dúvidas a esse respeito, que poderia ser lançado pela Coroa. A fórmula inicial do
documento (pagamento por “direito real”) tende a levantar essa hipótese. Basta saber se o termo
“direito real” se refere a um tributo régio, ou se apenas, a um imposto que incidia sobre as “coisas”. Se a
definição correcta for a primeira, então seriam cobrados dois dízimos, mas se a segunda (quer-nos
parecer a mais provável) corresponder à interpretação acertada, então é certo que só o Mosteiro de São
Vicente de Fora é que cobraria o imposto em questão.

54

As sesmarias46 constituíam outro imposto, provavelmente régio47, que somente alguns
habitantes de Vila de Frades, operando em regime de sesmaria inteira atribuída pelo
almoxarife (oficial do rei), teriam de suportar. Neste caso em concreto, os visados
teriam de abdicar de dois alqueires de trigo, um capão e dez ovos48. Os camponeses
enquadrados nesta situação específica, não estavam excluídos do pagamento do
dízimo que já referimos em cima.
Em Vila de Frades, existiria ainda um reguengo49, no qual os lavradores teriam que
ceder um quinto da produção recolhida nessa propriedade. A renda seria
automaticamente canalizada para o erário da Coroa.
A povoação não se livrava ainda de pagar a quarentena do dinheiro que obtivesse em
caso de venda de diversos bens do dito lugar de raiz.
Os tabeliães, responsáveis pela redacção do documento, estavam isentos do
pagamento da pensão, enquanto realizavam o seu trabalho nesta região. Estes oficiais
estariam em estreito contacto com o almoxarife, encarregado de receber as verbas
dos impostos régios, na Vidigueira.
O foral revela depois que, para além destes tributos e despesas já mencionados, não
existia mais nenhum encargo a ser cobrado. De acordo com o juramento prestado
pelos oficiais do rei e moradores de Vila de Frades, não havia memória de mais
tributos que tivessem sido praticados no passado. A vila estava isenta do pagamento
da portagem e da usagem.
Saliente-se que posteriormente detectamos referências sobre circunstâncias do foro
judicial. Por exemplo, encontramos a realidade do gado do vento, isto é, todos os
animais que andassem perdidos do seu dono, e no caso de serem encontrados, os
46

De acordo com o Dicionário Online de Português, a Sesmaria era um terreno sem culturas ou
abandonado, que a antiga legislação portuguesa, com base em práticas medievais, determinava que
fosse entregue a quem se comprometesse a cultivá-lo. Quem a recebia pagava uma pensão ao estado,
em geral constituída pela sexta parte do rendimento através dele obtido.
47
José Palma Caetano desconfia de que não se tratavam de verdadeiras sesmarias, mas apenas de
simples aforamentos de parcelas feitos pelo Mosteiro de S. Cucufate. Contudo, não partilhamos desta
interpretação já que as rendas deste tributo seriam entregues ao almoxarife – oficial régio (e por isso,
cremos que seria um tributo aplicado pela Coroa). Por outro lado, fica ao menos comprovado a já
existente divisão da propriedade nesta terra.
48
No caso excepcional das sesmarias mais pequenas e antigas (não se incluem no regime de foro
inteiro), cujos valores tributados eram outros, teria de haver um entendimento específico entre os
ocupantes e o almoxarife para que se determinasse a verba que poderia ser aplicada, tendo em conta o
interesse de ambas as partes.
49
Propriedade pertencente ao Rei Português que determinaria foros e direitos sobre a mesma, em caso
de exploração por parte de outrem.

55

indivíduos responsáveis pelo seu achado tinham que declarar, num prazo de 8 dias, o
sucedido, sob pena de serem acusados de furto.
Por fim, o documento estipula determinadas penas (essencialmente coimas) para o
uso indevido de armas, baseando-se nos mesmos ditames já contidos no Foral de
Estremoz50. Nas situações em que não se verificasse a utilização de espada ou
instrumento de ferro ou aço, a sanção cifrava-se regularmente nos duzentos reais,
sendo a arma apreendida. A pena aplicava-se em situações de rixa, quando o agressor
provocava sérios danos físicos noutra pessoa. Todavia, observamos claras excepções à
regra, ora em episódios mais toleráveis ora naqueles mais extremos.
Excluídos desta penalização pecuniária estavam aqueles que agredissem com pau e
pedra, embora sem qualquer premeditação, ou, num segundo cenário, os que
utilizassem tais meios de forma propositada, contudo sem causar ferimentos na
pessoa visada51. Neste grupo de isenções, estavam ainda os jovens com 15 ou menos
anos de idade, bem como as mulheres que se envolvessem nesses episódios mais
nefastos. Os castigos físicos incutidos pelo dono ou chefe de família sobre as suas
mulheres, filhos e servos, eram igualmente tolerados (norma perfeitamente
compreensível numa sociedade onde imperava a desigualdade52). As bofetadas ou
punhadas mesmo que gerassem algum derramamento de sangue também estavam
excluídas da já referida multa. A acção mesmo que violenta, em caso de legítima
defesa, não era igualmente punível.
Noutro patamar distinto e de extrema gravidade, e já abordando situações de
homicídio ou violação praticados na vila, o respectivo assassino ou violador seria
condenado a pagar automaticamente uma coima de 900 reais53. A mesma multa era

50

O Foral de Vila de Frades remete mesmo toda a informação relativa ao Gado do Vento, Pena de Armas
e Pena do Foral para o Foral de Estremoz, o qual tivemos de consultar, de forma a retirar mais
elementos indispensáveis para o estudo destas questões.
51
Por outras palavras, as agressões involuntárias ou não consumadas (isto é, talvez na sua forma
tentada) não eram puníveis de acordo com este regulamento.
52
A mulher era considerada inferior e deveria ser totalmente submissa ao seu marido. Os filhos, pela
escassa idade e aprendizagem que detinham, poderiam ser alvo de castigos e trabalhos mais duros para
que conhecessem a dura realidade da vida medieval. Por fim, os servos, livres ou totalmente explorados,
eram obrigados a prestar obediência ao seu senhor. Tratava-se de uma sociedade em que a
discriminação tinha em conta a classe social, o sexo, a idade, a raça…
53
No entanto, o foral de Vila de Frades acaba por ser ambíguo neste ponto em concreto, visto que
contém o seguinte trecho – “E o gaado do vento y a pena d’arma y a pena do foral como Estremoz,
tirando soomente na pena de arma que nam se pagara mais que duzentos reáis y arma perdida”. Não
sabemos se esta determinação estaria somente incluída em cima - nas situações mundanas de rixa

56

aplicada noutras ocasiões mais específicas, nomeadamente quando alguém ousava
entrar armado em propriedade alheia, e procedia ao abatimento do gado (cavalos e
bestas) pertencente a outro dono54.
Todas estas determinações documentais tinham de ser cumpridas, sob pena de
degredo por um ano para fora da vila e do seu termo, além duma multa pecuniária55.
O foral foi lavrado na Cidade de Lisboa no dia 1 de Junho de 1512, e assinado pelo já
referido Fernão de Pina.

Imagem nº 33 – Versão frontal do Foral de Vila de Frades.
Retirado de: Livro dos Forais Novos entre Tejo e Odiana. [1501-1520]. Leitura Nova.
Torre do Tombo. Digitalizado em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4223237.
(onde se pagavam de facto 200 reais, além da arma ser apreendida), ou se tal coima também se
aplicaria aos casos mais graves. No foral de Estremoz, nas situações mais dramáticas, a penalização
pecuniária seria então de 900 reais, a qual deveria ser também cumprida em Vila de Frades, de acordo
com a nossa interpretação. Achamos pois que a pena de arma estipulada pelo foral vilafradense, cifrada
então na sua apreensão e no pagamento de 200 reais, só se verificaria especificamente nos casos mais
leves, como registamos inicialmente.
54
Para além da verba (900 reais) que seria canalizada para a Coroa, o Dono, prejudicado em tal cenário,
poderia requerer uma indemnização ao culpado pelos danos causados.
55
É a célebre Pena do Foral que não permitira qualquer violação dos termos visados no documento
solene.

57

Imagem nº 34 – Folha de Verso do referido foral.
Retirada de: Livro dos Forais Novos entre Tejo e Odiana. [1501-1520]. Leitura Nova.
Torre do Tombo. Digitalizado em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4223237

Existem pois algumas conclusões que podem ser extraídas em torno deste documento.
Em primeiro lugar, refira-se que Vila de Frades chega a ser designado como concelho,
o que lhe proporcionaria automaticamente alguma autonomia. Contudo, a liberdade
tinha um preço que não era mais do que a totalidade dos tributos que tinham de ser
saldados perante a Coroa. Evidentemente, também o senhorio eclesiástico, o Mosteiro
de São Vicente de Fora, reservava direitos para si.
Nestes tempos mais recuados, a vida no campo não era nada fácil. As receitas
inerentes à produção agrícola nem sempre atingiam valores estáveis. As técnicas e
instrumentos adoptados eram ainda rudimentares, o que exigia a presença duma
maior mão-de-obra. O clima nem sempre contribuía para a realização de boas
58

colheitas. Os impostos, normalmente altos, exigiam um esforço duro por parte dos
produtores da vila.
Em termos de actividades económicas, o foral fornece-nos dados valiosos. Os produtos
tributados em Vila de Frades correspondiam àqueles que, naquele tempo, eram
cultivados pela referida povoação, de forma a garantir a sua sustentabilidade
económica.
Assim sendo, então teremos que lançar uma questão pertinente – Que produtos
poderíamos encontrar na vila nesta fase de transição da Época Medieval para a Idade
Moderna?
As vinhas, os olivais e a cultura cerealífera deveriam proliferar em Vila de Frades,
mantendo assim a tradição que já remontava ao período romano. Deveriam ser estas
as três principais potencialidades da terra.
Todavia, também a produção de legumes, fruta, hortaliça, linho e tinta parece estar
devidamente documentada, embora talvez com uma expressão mais reduzida.
Evidentemente, a pecuária constituiria outra actividade económica da vila. O foral
refere, aquando do pagamento pré-definido para as sesmarias, a cedência obrigatória
de “dous alqueires de triguo y huum capam56 e dez ovos”. A referência ao gado do
vento, isto é, animais extraviados, de quem não se conhece o dono, reforça ainda mais
a importância deste modo de subsistência que se estenderia por todo o Reino de
Portugal.
A nível social, a vila tinha obrigações perante o rei (a personalidade principal) e mais de
perto, diante do Mosteiro de S. Vicente de Fora. Recorde-se que o Clero era, a par da
Nobreza, uma classe privilegiada, detendo assim poder, influência e inúmeras terras e
propriedades. Os sectores sociais privilegiados constituíam uma evidente minoria da
população.
Em termos de grupos sociais não privilegiados, destacamos os agricultores e criadores
de gado que, deveriam constituir o grosso da população da vila. Eram homens livres,
mas tinham que suportar muitos encargos. Mesmo assim, constituíam a base social
necessária para o desenvolvimento económico da vila e até do próprio país, numa
época em que o sector primário era indiscutivelmente o mais importante, atraindo um
maior número de mão-de-obra.
56

Capão (Galo).

59

Em suma, testemunhamos, através duma abordagem minuciosa sobre este foral
referente a Vila de Frades, que a produção, essencialmente agro-pecuária, deveria
servir para fins de consumo interno e/ou comercialização por parte duma sociedade
fortemente hierarquizada, onde as entidades privilegiadas cobravam variados tributos
à restante povoação que trabalhava maioritariamente nos campos. Esta terá sido a
realidade visível durante grande parte das Épocas Medieval e Moderna.

Referências Consultadas:

Livro dos Forais Novos entre Tejo e Odiana. [1501-1520]. Leitura Nova. Torre do
Tombo.

Digitalizado

em:

http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4223237.

Preserva os documentos solenes de Vila de Frades e de Estremoz.

COSTA, João Paulo Oliveira – D. Manuel I. Mem Martins: Círculo de Leitores,
2005.

DUARTE, Luís Miguel – Os “Forais novos”: uma reforma falhada? in Revista
Portuguesa de História, tomo 36, vol.I, Coimbra: Universidade de Coimbra,
2002/2003.

http://www.infopedia.pt/$foral, (Site do Infopédia consultado em 20-01-2014)

http://www.museusaopedro.org/foral/glossario2.htm, (Consultado em 20-012014).

http://www.cm-nisa.pt/foral_nisa.html, (Consultado em 20-01-2014).

http://www.dicio.com.br/sesmaria/, (Consultado em 20-01-2014).

60

4- A Época Moderna (Séculos XV-XVIII)

No ano de 1453, o Império Bizantino (outrora Império Romano do Oriente), e mais
concretamente, a sua capital Constantinopla, cairiam às mãos dos expansionistas
otomanos. Este novo período histórico prolonga-se até 1789, data do rebentamento
da Revolução Francesa.
Praticamente, estamos perante três séculos que reivindicarão avanços múltiplos para a
humanidade, em termos de conhecimentos universais adquiridos.
Em primeiro lugar, devemos destacar o advento dos Descobrimentos que permitirá aos
colonizadores europeus (portugueses, espanhóis, ingleses, franceses…) conhecer
novos territórios e retirar proveitos do seu potencial económico e comercial.
Em segundo lugar, o Renascimento, como movimento cultural de enorme influência
artística, afirmou-se na Europa Ocidental, reflectindo-se em diversas áreas: literatura,
pintura, escultura, música, arquitectura…
A invenção da Imprensa pelo alemão Johannes Gutenberg revolucionaria igualmente
os novos tempos, permitindo a divulgação de todo o tipo de informação, o que se
traduziu numa indiscutível vantagem cultural para as civilizações.
Por outro lado, a Época Moderna observará ainda a afirmação do Absolutismo (reforço
do poder régio) e continuará a testemunhar um fervor religioso, o que explicará
inclusive a instalação das práticas da Inquisição na Península Ibérica, destinada a punir
drasticamente qualquer desvio à fé católica57. Trata-se dum período de intolerância
que, no caso português, já remontaria ao reinado de D. Manuel (determinações dos
anos de 1496 e 1497)58.

57

A Modernidade Europeia assistiu ao aparecimento das religiões protestantes (luteranismo, calvinismo,
anglicanismo…) que reivindicarão novas formas de interpretação das Sagradas Escrituras, propondo o
surgimento duma Reforma no seio do Catolicismo Romano, algo que a Igreja Católica sempre rejeitou,
dando mesmo origem, no Concílio de Trento (1545-1563), à instauração da Contra-Reforma.
58
Este período de intolerância reflectiu-se em Vila de Frades, pois tivemos conhecimento de que, pelo
menos, dois dos seus moradores tiveram sérios problemas com o Tribunal do Santo Ofício. Leonor
Gonçalves e Manuel Fialho Rosquinho foram detidos em 1675 e 1738 respectivamente. A primeira foi
acusada de feitiçaria, superstição e trato com o demónio, enquanto que o segundo era suspeito de
heresia e irreverência.

61

Como é que Vila de Frades vivenciou todo este período? Vislumbramos um
desenvolvimento estrutural da localidade? São pois estas as interrogações que
procuraremos responder neste capítulo.
Recordamos, por fim, que o foral já analisado no subcapítulo anterior, data de 1512,
mas o mesmo espelharia uma realidade que seguramente foi visível desde os séculos
finais da Idade Média e que perduraria no Período Moderno. Por isso, optamos por
não abordar neste quarto capítulo a realidade social e económica da vila que deveria
então manter muitas das semelhanças da época predecessora.

Referências Consultadas:

http://idade-moderna.info/, (Consultado em 19-01-2014).

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/BIO_1936_Pre_Universit%C3%A1rio_1
6.htm, (Consultado em 19-01-2014).

62

4.1- Os templos cristãos fundados em Vila de Frades

A localidade de Vila de Frades é conhecida pela sua tradição religiosa, tendo em conta
o número de templos que alberga.
Para além do advento dos frades que se concentraram em São Cucufate no decurso da
era medieval e da já mencionada Igreja de São Jerónimo, visualizamos uma profunda
fé cristã na Época Moderna, o que se repercutirá na construção de novas igrejas,
capelas e ermidas.
Dentro deste contexto, nascerão os seguintes espaços de culto cristão na vila: o
Convento de Nossa Senhora da Assunção (de inspiração franciscana), a Igreja da
Misericórdia (com a imagem de Nossa Senhora das Graças a destacar-se no altar), a
Capela de São Tiago (consistirá na readaptação do antigo mosteiro vicentino de São
Cucufate), a Capela de São Brás (actualmente integrada na Rota do Fresco), a Ermida
de Santo António dos Açores (erguida num outeiro, e também portadora de pinturas
murais que, desta feita, retratam momentos da vida daquele santo português), a
Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe (igualmente erigida numa elevação, e
actualmente bastante degradada) e a Igreja Matriz de Vila de Frades (a mais
imponente estrutura religiosa da localidade no período moderno que acolherá um
altar-mor que se pautaria por um incontestável primor estético).
Refira-se ainda que se encontram documentadas, embora os registos sejam quase
nulos, a Capela do Espírito Santo e as Ermidas de São Bento e São Sebastião, contudo
este trio de templetes não se conservou até aos dias de hoje, e por isso, é-nos
extremamente difícil estabelecer uma cronologia precisa para estes lugares de
devoção.
A presença de tantos edifícios religiosos é fundamentada pelas necessidades
espirituais duma comunidade fervorosamente católica, e que nestes tempos,
conheceria talvez uma quantificação demográfica aceitável, ou pelo menos, mais
equilibrada. Neste período mais recuado, o fenómeno de desertificação do interior,
não seria então uma realidade muito visível.

63

A nível metodológico, advertimos que os templos abordados nos tópicos posteriores
obedecerão a uma ordem cronológica, começando pelos mais antigos e analisando,
por fim, os mais recentes. Todavia, admitimos que não se torna nada fácil traçar as
origens precisas de todas estas estruturas.
Para além disso, e à medida que vamos estudando cada templo, traçaremos
automaticamente a sua existência durante a Época Moderna, aproveitando
evidentemente para descrever também a sua evolução até à actualidade. Assim sendo,
escusamos de voltar a mencionar tais referências informativas no capítulo posterior, o
quinto, que se destinará especificamente em abordar a era contemporânea59.

59

Em suma, o conteúdo informativo destinado aos templos cristãos de Vila de Frades ficará já patente
neste capítulo, não merecendo reflexões posteriores no derradeiro capítulo que se cinge à Época
Contemporânea.

64

4. 1. 1 – O Convento de Nossa Senhora da Assunção

A escassez de fontes para períodos tão recuados não nos permite traçar com
segurança a evolução deste convento. Mesmo assim, vamos tentar reconstituir um
pouco da sua história.
Em 1545, D. Francisco da Gama (2º Conde da Vidigueira) e D. Guiomar de Vilhena, sua
mulher, fundam o Convento de Nossa Senhora da Assunção de Vila de Frades, talvez
no lugar que terá acolhido noutros tempos a Ermida de São Bento (já desaparecida).
De acordo com António Xavier (SIPA), os frades capuchos terão abandonado o local ao
fim de algum tempo porque o consideraram pouco saudável, restando apenas a
capela-mor que seria novamente dedicada a São Bento. Entre 1701 e 1716, um novo
convento parece ter sido construído, ou o anterior fora reabilitado.
Em 1834, ou alguns anos antes (encontramos duas versões distintas para o seu
encerramento), o Convento acabou por se extinguir. Subsiste alguma controvérsia
quanto ao motivo do seu desaparecimento. Se o mesmo se deu em 1834, é
evidentemente tentador relacionar o seu fim com o decreto da extinção das ordens
religiosas desse ano. Contudo, se o seu término decorreu antes desta data, já é mais
difícil encontrar as causas do sucedido.
Certo é que estes frades capuchos, integrantes da Província da Piedade, deixaram
igualmente o seu legado na história de Vila de Frades.
A título de curiosidade, Fialho de Almeida dedica na sua obra – O País das Uvas
algumas palavras sobre este templo já extinto. Por seu turno, a tradição oral aponta
que a designação de farrapeiros, atribuída maliciosamente pelos vidigueirenses aos
vilafradenses, poderá radicar nas vestimentas humildes e pouco modernas que seriam
utilizadas por estes frades capuchos que, de vez em quando, percorriam a antiga vila.
Actualmente, e como testemunha da sua presença, só nos resta a antiga Cerca do
Mosteiro, as ruínas de um antigo portal e uma pequena ponte sobre um ribeiro
actualmente seco. É ainda presumível que esteja ocultado um poço antigo entre o
ameaçador silvado.

65

O interior da cerca foi aproveitado recentemente para fins de exploração agrícola. A
estrutura situa-se próxima da Rua dos Capuchos, num lugar muito solitário e tranquilo,
rodeado por vinhas e olivais.

Imagem nº 35 - A ponte dos Frades Capuchos – Franciscanos em Vila de Frades.
Fotografia cedida gentilmente por Manuel de Carvalho

Nota : De acordo com algumas estimativas, o Convento deveria albergar, em média, 13
ou 14 monges. O mesmo terá sido ainda patrocinado pelos Gamas, Condes da
Vidigueira e futuros Marqueses de Nisa. Por fim, a tradição menciona igualmente a
presença dum aqueduto de 2 Km que serviria as necessidades do Convento.

Referências Consultadas:

ALMEIDA, Fialho de – O País das Uvas. Introd. por Maria da Graça Orge
Martins. Póvoa de Varzim: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, [1893].

MONFORTE, Manoel de – Chronica da Provincia da Piedade. Lisboa: Oficina de
Miguel Deslandes, 1696.

António Xavier, SIPA, www.monumentos.pt.

http://digitarq.adbja.dgarq.gov.pt/details?id=1077819, (Consultado em: 19-012014).
66

4.1.2- A Igreja da Misericórdia de Vila de Frades

As suas origens não são fáceis de determinar. José Palma Caetano refere que a
reorganização ou remodelação da Casa da Misericórdia de Vila de Frades data de 1587.
Todavia, a primeira referência cronológica sobre o templo, encontra-se mais
concretamente na sacristia e remete-nos para o ano de 1643, embora desconheçamos
as proporções das obras realizadas nesse preciso momento. Mesmo assim, é plausível
que a Igreja tivesse sido construída entre os séculos XVI-XVII. A Irmandade da Santa
Casa fundaria então, no actual Largo Fialho de Almeida, a Casa do Despacho e a Igreja
da Misericórdia, esta construída em alvenaria de caio.
Sabemos que, em 1705, foi construído o púlpito de caixa de madeira pintada com
elementos naturalistas, base quadrada, de mármore alentejano.
Na sua capela-mor, destaca-se o retábulo de talha dourada, talvez datado da primeira
metade do século XVIII.
Para além do altar central, onde a imagem de Nossa Senhora das Graças, protectora
das parturientes, reivindica evidente protagonismo, encontramos também um
pequeno altar lateral.
O templo guardou ainda, pelo menos, no passado, esculturas antigas de madeira
estofada e dourada: S. Bento (talvez criada no século XVII), S. Luís, bispo de Tolosa
(também seiscentista), S. António (imagem dos séculos XVII-XVIII), Nossa Senhora de
Guadalupe (século XVIII) e Santa Maria Madalena (século XVIII). É possível que algumas
destas esculturas tivessem pertencido anteriormente a outros templos da vila, antes
de serem transferidas para a Igreja da Misericórdia.
Nesta mesma Igreja, ainda se pode observar um número, embora limitado, de
sepulturas epigrafadas, todas elas lavradas em mármore.
Refira-se ainda que, neste lugar, se guardam também as bandeiras processionais da
Irmandade da Santa Casa, pintadas a óleo sobre tela e compostas pelos tradicionais
emblemas sacros, com alguma qualidade artística (séculos XVII-XIX).
Na década de 1990, decorreram trabalhos de recuperação geral do templo, incluindo a
substituição das coberturas e dos pavimentos, para além da reparação de portas e
janelas e remodelação da rede eléctrica.
67

Actualmente, abre sempre as suas portas no âmbito das festividades religiosas,
nomeadamente na altura da Páscoa ou nas Festas em Honra de São Cucufate, o orago
da Freguesia.
A inegável estética deste templo religioso é ainda um argumento utilizado para acolher
interessantes exposições.

Imagem nº 36 – A Igreja da Misericórdia de Vila de Frades situa-se no Largo Fialho de
Almeida. Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

Imagem nº 37 – O interior destaca-se pela sua configuração peculiar.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/
68

Referências Consultadas:

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja, Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992;

José Falcão e Ricardo Pereira, SIPA, www.monumentos.pt.

69

4.1.3 – A Capela de São Tiago

Com a extinção do antigo santuário vicentino de São Cucufate, o que se dará
provavelmente em meados ou nos finais do século XVI, teremos a implantação duma
Capela rural dedicada a São Tiago Maior que, assim sendo, funcionaria em substituição
do antiquíssimo culto de São Cucufate.
De acordo com uma carta do escritor eborense Manuel Severim de Faria (talvez
redigida pouco antes de 1640) que seria publicada por Frei Leão de S. Tomás, já nos é
transmitido esse cenário de abandono do lugar por parte dos monges, além de ser
feita referência à trasladação da estátua do Santo (São Cucufate) para a Igreja Matriz
de Vila de Frades, sendo que agora no seu lugar, colocariam uma imagem equestre do
novo padroeiro – São Tiago, facto que confirma o início de um novo ciclo religioso no
mencionado espaço.
Por isso, o culto não deverá ter esmorecido nos séculos XVII e XVIII, seguindo já uma
tradição devota muito consistente naquele lugar. Sabemos inclusive que existiam
capelães que garantiam o serviço permanente de culto, sendo aqueles nomeados e
sustentados pela Santa Casa da Misericórdia de Vila de Frades. No ano de 1723,
faleceu o derradeiro ermitão – João Lopes, que foi enterrado com as esmolas daquela
instituição. A partir desse momento, todo aquele casarão de São Cucufate,
proveniente do período romano, ficou deserto e à mercê da ignorância de muitos
populares que acabariam por vandalizar o local.
Certo é que, enquanto existiu a Capela de São Tiago, tivemos notícia da criação de
novos frescos que decoraram o templo que já conteria outras pinturas murais do
período medieval vicentino60.
Dentro deste contexto, José de Escovar61 será responsável pela pintura do retábulo por
volta do ano de 1600. Na parte inferior do mesmo, aparece-nos presumivelmente as

60

Como já referimos, encontramos dois frescos que integram a existência do Mosteiro Medieval dos
frades crúzios de São Vicente de Fora. Dentro deste contexto, temos uma imagem de São Cucufate e de
duas Santas Mártires (séc. XIV) e outra que representa a Virgem e o Menino (século XV ou inícios do
século XVI). Possivelmente, existiram outras pinturas do período medieval, mas que não se conservaram
até aos dias de hoje.
61
José de Escovar seria provavelmente de origem espanhola, embora residisse em Évora. A sua
actividade na modalidade fresquista encontra-se bem documentada entre os anos de 1585 e 1622.

70

imagens de São Tiago Maior e de São Bartolomeu. Por seu turno, e na parte superior,
aparentemente foi retratado o Baptismo de Cristo.

Imagem nº 38 - O retábulo da Ermida-Capela de São Tiago saiu da oficina eborense de
José de Escovar e insere-se na transição entre os séculos XVI e XVII.
Foto da minha autoria

Em data avançada do século XVII, ocorreu o revestimento do corpo da nave e da
cobertura abobadada da Capela/Ermida de São Tiago. Neste cenário surgem as
pinturas murais que espelham santos do hagiólogo (casos de São Francisco de Assis e
São Bento), anjos músicos e símbolos solares. Nos alvores do século XVIII, procedeu-se,
por fim, à pintura da zona do templo constituída pelo espaço entre a entrada e os
primeiros arcos, nas paredes e na cobertura, com uma composição que pretendia
integrar o revestimento seiscentista já existente.
A já extinta Capela de São Tiago, outrora Mosteiro crúzio medieval consagrado a São
Cucufate, continua a surpreender, pela positiva, vários visitantes que, na actualidade,
se rendem aos seus frescos.
De seguida, apresentamos algumas das pinturas murais, a partir duma reportagem
fotográfica que efectuamos.
71

Imagem nº 39 - Frescos do Corpo do Templo – São Francisco de Assis e São Bento.
Foto da minha autoria

Imagem nº 40 - Novamente a imagem de outro Santo (talvez São Diogo).
Foto da minha autoria

72

Imagem nº 41 – As pinturas na cobertura e paredes do corpo da igreja. Destaque ainda
para a presença do Escudo da Ordem de Santiago.
Foto da minha autoria

Imagem nº 42 – Outro vulto religioso pintado nas paredes.
Foto da minha autoria
73

Imagem nº 43 - Símbolos Solares e Anjos Músicos.
Foto da minha autoria

Imagem nº 44 - Anjos “tocando” instrumentos musicais.
Foto da minha autoria

74

Imagem nº 45 - Santo António de Lisboa com o menino ao colo.
Foto da minha autoria

Imagem nº 46 - Muitos anjos “revestem” a cobertura e as paredes do templo.
Foto da minha autoria
75

Imagem nº 47 – Vista geral sobre a Capela de São Tiago, espaço anteriormente
utilizado pelo Mosteiro crúzio/vicentino dedicado a São Cucufate.
Foto da minha autoria

Imagem nº 48 - A Fachada Principal da Igreja.
Foto da autoria de Filipa Antunes in Panoramio.
76

Referências Consultadas:

MOURA, Abel; CABRITA, Teresa; SERRÃO, Vítor – As Pinturas Murais do
Santuário de São Cucufate. Coimbra: Instituto de Arqueologia da Faculdade de
Letras de Coimbra, 1989.

TOMÁS, Frei Leão de S. – Benedictina Lusitana. Tomo I. Coimbra, 1644.

CARDOSO, Jorge – Agiologio Luzitano dos Sanctos e Varoens Illustres em virtude
do Reino de Portugal e suas conquistas. Tomo II. Lisboa, 1657.

ALARCÃO, Jorge de – Roteiros da Arqueologia Portuguesa – S. Cucufate (5).
Instituto Português do Património Arquitectónico, 1998.

77

4.1. 4 – A Capela de São Brás

Embora não existam datas exactas sobre a sua primitiva construção, supõe-se que este
templo, edificado na parte ocidental da vila, teria as suas origens no século XVII.
Actualmente, o seu principal foco de atracção está subjacente às pinturas murais ou
frescos que aí se podem encontrar. Suspeita-se que o pintor bejense Manuel Rodrigues
tenha sido o autor das pinturas seiscentistas, contudo não descartamos também a
possibilidade de terem existido outras “mãos anónimas” a completar o
embelezamento de tal espaço religioso.
O interior desta capela apresenta frescos que retratam capítulos da vida de Jesus
Cristo e da Sagrada Família, Santos (estes encontram-se representados em grande
número) e Anjos. Ao centro, está representada a imagem do padroeiro – São Brás,
bispo e mártir que viveu na Arménia entre os séculos III-IV, célebre por ter retirado
com a mão um espinho da garganta de uma criança (daí ser o padroeiro das doenças
de garganta).
Algumas destas pinturas foram parcialmente recuperadas, através dum processo de
restauro, em 1960.
A Arte Sacra é, de facto, a maior virtude desta Capela que se situa no Largo de São
Brás.
Refira-se ainda que a Capela de São Brás chegou a ser utilizada como sede da Junta de
Freguesia, isto para além de ter funcionado, posteriormente, como Casa Mortuária de
Vila de Frades.

78

Imagem nº 49 – A localização da Capela de São Brás, junto à Sociedade Recreativa
União Vilafradense. (Largo de São Brás)
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

Imagem nº 50 – Este templo, incorporado na Paróquia de Vila de Frades, está
integrado na Rota do Fresco.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

79

Imagem nº 51 – São Estevão retratado nas paredes da Capela de São Brás.
Foto da minha autoria

Imagem nº 52 - Santa Luzia é outra das personalidades representadas no templo.
Foto da minha autoria
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Imagem nº 53 - Santa Margarida.
Foto da minha autoria

Imagem nº 54 - São Noitel (sic).
Foto da minha autoria
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Imagem nº 55 - Santo André.
Foto da minha autoria

Imagem nº 56 - São Martinho.
Foto da minha autoria

82

Imagem nº 57 - São Mateus.
Foto da minha autoria

Imagem nº 58 - São Luís, rei de França.
Foto da minha autoria
83

Imagem nº 59 - São Diogo.
Foto da minha autoria

Imagem nº 60 - O julgamento de São Cucufate na Catalunha.
Foto da minha autoria
84

Imagem nº 61 - A condenação à morte/ execução de São Cucufate pelos romanos, no
período de intolerância.
Foto da minha autoria

Imagem nº 62 - São Francisco de Assis.
Foto da minha autoria

85

Imagem nº 63 - São Gregório.
Foto da minha autoria

Imagem nº 64 - São Brás ganha especial destaque, padroeiro da Capela.
Foto da minha autoria

86

Referências Consultadas:

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja: Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992;

Ricardo Pereira, SIPA, www.monumentos.pt;

Sobre

São

Brás

de

Sebaste

veja-se:

http://www.folclore-

online.com/religiosidade/santos/bras.html - Consultado em 19-01-2014).

87

4.1.5- A Ermida de Santo António dos Açores

Através das suas características arquitectónicas, julga-se que esta ermida terá as suas
origens nos inícios do século XVII. De acordo com José Palma Caetano, reza a lenda de
que um Conde da Vidigueira terá prometido construir um templo, caso achasse um
açor que lhe havia desaparecido. O referido açor teria sido encontrado num outeiro
(lugar alto) perto da Vila e terá sido aí precisamente que se erigiu uma ermida que, por
esse motivo, se chamou de Santo António dos Açores. Por seu turno, Túlio Espanca
defende outro mito popular por detrás da criação deste templo. Segundo este último
erudito, um Conde da Vidigueira, o qual seria um grande caçador, teria descoberto
ninhos de açores naquela elevação, tendo alegadamente tal episódio dado origem ao
nome da futura ermida.
Também as pinturas murais que a engrandecem parecem remontar ao período inicial
já mencionado. Encontramos mesmo grandes painéis que representam os episódios da
vida de Santo António, nomeadamente das suas pregações.
Em 13 de Fevereiro de 1700, é encomendado, aos mestres entalhadores António
Antunes e Matias da Costa, um retábulo de talha dourada que infelizmente não se
preservaria até aos dias de hoje.
A sua rica tradição popular poderia ser observada através de famosas romarias, ainda
lembradas pelas pessoas mais idosas. Contudo, estas iniciativas desapareceriam, e a
ermida ficaria praticamente ao abandono, o que contribuiu para a sua degradação.
No ano de 1982, este santuário rural foi alvo duma reparação geral do edifício e da
conservação parcial dos seus frescos, iniciativa da Junta de Freguesia de Vila de Frades.
Para além da invejável arte sacra presente no seu interior, a ermida conhece uma
localização esteticamente apreciável. Encontra-se no alto dum monte, dominando a
paisagem envolvente, é rodeada por um adro murado e tem ainda à sua volta antigas
dependências das casas do ermitão e dos romeiros, praticamente degradadas. A
perspectiva que se pode ter a partir desse monte é fascinante, permitindo a
identificação de diversos pontos de referência nas povoações de Vila de Frades e
Vidigueira, e até de outros concelhos limítrofes.

88

Imagem nº 65 – A partir desta Lendária Ermida, o visitante poderá desfrutar dum
excelente miradouro sobre a paisagem envolvente. Com a melhoria recente dos
acessos, torna-se fácil a visita deste templo.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

Imagem nº 66 – O interior da Ermida de Santo António dos Açores.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/
89

Referências Consultadas:

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja, Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992;

José Falcão, Ricardo Pereira, Paula Figueiredo, SIPA, www.monumentos.pt.

90

4.1.6 – A Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe

A Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe é propriedade da Paróquia de Vila de
Frades.
De acordo com Túlio Espanca, é provável que as suas origens remontem a meados do
século XVII, período marcado por um intenso culto mariano desta padroeira da
Estremadura Castelhana.
Sofreu estragos na sequência do histórico terramoto de 1755, tendo sido reparada por
obras de restauro posteriores. Contudo, em 1896, o templo já ameaçava ruína, não
favorecendo a prática do culto cristão.
Mesmo assim, e de acordo com a tradição popular, chegou a ser um ponto de paragem
obrigatória aquando da realização de determinadas procissões, festividades e/ou actos
de devoção.
Actualmente, o edifício, situado a noroeste de Vila de Frades, encontra-se em muito
mau estado de conservação. Mesmo assim, ainda podem ser observados alguns
vestígios de pinturas murais. O seu altar ainda conserva algum potencial estético, dado
que se podem observar imagens de rosas, grinaldas de flores, coroa mariana, etc.

Imagem nº 67 – Actualmente, o templo encontra-se bastante degradado.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/
91

Imagem nº 68 – Algumas pinturas no interior da ermida.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

Imagem nº 69 – O Altar ainda mantém algum potencial estético.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

92

Imagem nº 70 – A escultura da Padroeira – Nossa Senhora de Guadalupe que aí se
encontrava, parece ter sido transferida posteriormente para a Igreja da Misericórdia
de Vila de Frades.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

Imagem nº 71 – Outra perspectiva sobre a estrutura.
Foto: Susana Correia
93

Imagem nº 72 – A vegetação ameaça a estabilidade da ermida.
Foto: Susana Correia

Referências Consultadas:

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Ermida_de_Nossa_Senhora_da_Guadalupe,
(Consultado em 19-01-2014).

94

4. 1. 7 – A Igreja Matriz de Vila de Frades

A construção deste imponente templo foi iniciada em 1696 e prolongou-se até 1707,
ano em que é inaugurado62. Muito provavelmente, terá sucedido à primitiva matriz
gótica e trecentista que fora consagrada a São Jerónimo.
O presente edifício, um dos maiores da diocese, foi erguido no estilo barroco. João
Gomes Coelho, mestre pedreiro de Lisboa, dirigiu as obras de construção com relativa
rapidez. No ano de 1710, é a vez do mestre pedreiro Domingos Gonçalves assegurar a
finalização da cobertura em abóbada.
Como afirma Túlio Espanca, a volumetria do templo e a sua monumentalidade interior,
sumptuária, pode admitir também um patrocínio dado aos religiosos vicentinos pelos
Gamas (o condado não só albergava a Vidigueira, como ainda Vila de Frades). O seu
Altar-mor63 é mesmo considerado um dos mais belos na região do Alentejo, atestando
assim o inegável esteticismo desta Igreja que possui igualmente quatro altares
laterais64.
Este templo apresenta algumas esculturas antigas: São Cucufate (padroeiro da
Paróquia retratado por uma imagem quinhentista ou seiscentista que antes estava no
Mosteiro Crúzio/Vicentino da antiga villa romana), Nossa Senhora da Assunção
(lavrada por volta de 1700), Nossa Senhora da Conceição (obra dos finais do século
XVII), São Pedro (escultura do século XVII), São Sebastião (imagem seiscentista e
padroeiro da desaparecida ermida titular desta designação), o Menino Jesus, etc.
Recorde-se ainda que se encontraram algumas sepulturas no corpo da nave desta
Matriz. Supõe-se que uma delas seja a do poeta João Xavier de Matos, falecido, em
Vila de Frades, a 3 de Novembro de 1789. A maior parte dos epitáfios aí presentes
parece ser praticamente indecifrável.
62

Pelo menos, fora sagrado nesse ano. A inscrição com a data pode ser lida por cima do portal de
entrada.
63
De acordo com a inscrição cronográfica, o altar-mor terá sido construído em 1787, isto é, na segunda
metade do século XVIII.
64
Na planta inicialmente gizada para o templo estava prevista a construção de seis altares, embora só
quatro tenham sido devidamente concretizados com a instalação de imagens/esculturas de santos,
mesas e decoração sumptuária. Mais recentemente, parece que foram colocadas mais duas estátuas
(uma de cada lado; e sem qualquer tipo de mesa ou decoração envolvente), para além dos tradicionais
quatro altares laterais, contudo é discutível, se deveremos falar na existência de seis altares,
interpretação que poderá ser subjectiva.

95

Esta majestosa Igreja Matriz encontra-se no centro da Vila, mais concretamente no
Largo de São Cucufate.

Imagem nº 73 – A Igreja Matriz de Vila de Frades destaca-se, não só pela sua
grandiosidade exterior, mas também pela beleza e simbologia do seu Altar-Mor.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/

Imagem nº 74 – O altar-mor da Igreja Matriz, misturando estilo barroco e rococó, com
a aplicação de talha dourada.
Retirada de: http://www.cmvidigueira.pt/galeria/fotos/g/monumentos/p/2/c/46D435B422A9D
96

Imagem nº 75 - Outra perspectiva sobre este magnífico e encantador altar-mor,
datado de 1787.
Foto retirada de: http://hjaphotos.blogspot.pt/2012_01_09_archive.html65 (também
poderá estar presente no Site Oficial da Junta de Freguesia de Vila de Frades)

65

Blog interessante de cariz fotográfico gerido por Hernâni Arvanas.

97

Imagem nº 76 - Não existem muitas palavras para descrever esta magnífica obra de
arte.
Foto retirada de: http://hjaphotos.blogspot.pt/2012_01_09_archive.html (também
poderá estar presente no Site Oficial da Junta de Freguesia de Vila de Frades)

98

Imagem nº 77- Deslumbrante painel pintado ou, pelo menos, refeito por Maria de
Jesus Poças Conceição Silva, mãe do célebre dinamizador cultural e resistente antifascista José Luís Conceição Silva66. Esta obra de arte apresenta São Miguel ferindo o
demónio acorrentado. Está assinada exemplarmente por esta pintora de classe, e
encontra-se datada para o dia 21/12/1907. Esta ilustre senhora foi discípula de Miguel
de Oliveira, Artur Vieira e António Tomás Conceição (este último, seu futuro marido).
Neste altar lateral da Igreja Matriz, visualizamos ainda a escultura central de São
Miguel Arcanjo, ladeada por imagens pequenas – a da esquerda representa São Pedro
(com a sua inseparável chave do paraíso) e a da direita parece ser Santa Ana.
Foto retirada do Site Oficial da Junta de Freguesia de Vila de Frades

66

Sobre este erudito, dedicaremos, mais à frente, um capítulo que pretende honrar a sua memória.

99

Referências Consultadas:

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja, Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

ESPANCA, Túlio - Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

José Falcão e Ricardo Pereira, SIPA, www.monumentos.pt.

100

4. 2 – A Torre do Relógio

Esta estrutura é uma das mais altivas e antigas que poderá ser contemplada em Vila de
Frades. Trata-se dum dos poucos relógios do país a funcionar por pêndulos e à corda,
tendo sofrido, em 2007, um restauro do maquinismo e parte exterior.
As suas origens deverão remontar ao século XVI, altura da sua primitiva construção. Ao
longo da sua existência, foi alvo de acrescentos e restauros de forma a garantir a sua
preservação futura.
Em 1780, a Torre é dotada com um sino de bronze. No ano de 1890, o edifício foi alvo
duma profunda remodelação, com a montagem dos novos mostradores do relógio, de
esmalte, feitos na oficina de A. C. dos Santos, em Lisboa.
Na actualidade, exerce um papel fundamental já que permite aos habitantes a leitura
do horário vigente, sobretudo quando estes não estão munidos com os seus relógios.

Imagem nº 78 – A Torre do Relógio em Vila de Frades, durante o dia.
Foto retirada da Página Oficial da Junta de Freguesia de Vila de Frades
(http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/)

101

Imagem nº 79 – À Noite, a imponente Torre atrai os olhares dos moradores e
visitantes.
Foto retirada da Página Oficial da Junta de Freguesia de Vila de Frades
(http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/)

Imagem nº 80 – O interior da Torre do Relógio de Vila de Frades que nos permite assim
entender o seu funcionalismo.
Foto da minha autoria

102

Referências Consultadas:

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

Ricardo Pereira, SIPA, www.monumentos.pt.

103

4.3 – O Percurso do Município de Vila de Frades até à extinção
Apesar das suas prováveis origens medievais67, a documentação que encontramos
para o Concelho de Vila de Frades encontra-se datada entre os séculos XVI e XIX (mais
concretamente 1854, data da extinção do mesmo)68. Estas balizas cronológicas
percorrem praticamente toda a Idade Moderna (séc. XV/XVI-XVIII) e entram mesmo
nos inícios da Época Contemporânea.
Ainda hoje, podemos verificar, enquanto elemento testemunhante desta realidade, a
presença dos antigos paços do concelho que remontariam à segunda metade do
século XVI69 ou apenas ao século XVII70. Este edifício, localizado junto à actual Praça 25
de Abril (outrora denominada de Praça Nova), singulariza-se pela sua imponência
(alberga dois pisos) e ostenta no seu cimo uma torrela com sino. Respeitando uma
arquitectura essencialmente barroca, esta estrutura, possui, no piso superior, cinco
balcões de sacada de granito, guarnecidos com grades férreas.
A entrada na antiga Câmara seria feita através duma portada de quatro degraus de
pedra, alcançando uma escadaria de 10 degraus graníticos e corredor de tecto de
berço. Possuiria três salas abobadas no andar principal. Refira-se ainda que o
pavimento interior era estradado e descobriram-se ainda vestígios de antigas pinturas
murais.
Neste edifício secular estavam concentrados os seguintes serviços: o ArquivoCartulário, a prisão feminina, o Consistório do Município, o Auditório ou Audiência do
Tribunal. Ao nível do funcionalismo municipal, e de acordo com as actas consultadas
no Arquivo Municipal da Vidigueira, encontrávamos a existência de presidentes,
vereadores, tesoureiros, procuradores, juízes, conselheiros, administradores e
67

Como já foi referido anteriormente, houve um primeiro foral outorgado, em data incerta, pelo
Mosteiro de São Vicente de Fora a esta terra. Terá sido a partir daí que a localidade praticou alguns
impostos ou obrigações perante o seu senhorio, alcançando em troca alguma autonomia. É tentador
situar as origens deste concelho nos séculos XIII (segunda metade) e XIV, épocas marcadas pela
necessidade de povoamento e consolidação económica dos territórios recém-conquistados nos tempos
posteriores à Reconquista Cristã Portuguesa. Temos casos de concelhos vizinhos de importância
semelhante que, naqueles tempos, receberam o seu primeiro foral (Alvito – 1280; Viana do Alentejo –
1255 e confirmado em 1313; Portel – 1262; Vila Ruiva – séc. XIII; Vila Alva – 1367). Caso se confirme o
nosso raciocínio, as raízes seculares do município vilafradense constituiriam uma realidade inequívoca,
podendo ter mantido este estatuto durante cerca de 500 ou 600 anos (o concelho é extinto em 1854).
68
A maior parte esmagadora da documentação consultada remonta mesmo ao séc. XIX.
69
Datação proposta por Túlio Espanca.
70
De acordo, com a indicação avançada pelo escritor Fialho de Almeida.

104

escrivães da câmara (chegou a ser detectada a presença dum escrivão do campo e das
azenhas da vila), tabelião do judicial e notas, entre outros oficiais de alguma nomeada.
Dentro deste contexto, é imperioso constatar a autonomia política e judicial de Vila de
Frades, enquanto concelho, embora tivesse que lidar, em termos de influência, com os
senhorios eclesiásticos (o Mosteiro de São Vicente de Fora) e nobiliárquicos (caso dos
Gamas, os condes da Vidigueira) que reivindicavam igualmente poder nesta vila.

Imagem nº 81 - Os antigos Paços do Concelho de Vila de Frades.
Foto da minha autoria

Como é tradicional, em frente dos paços do concelho, e talvez muito próximo do lugar
ocupado pelo actual chafariz (ou “bica”) centrado na Praça 25 de Abril, estaria o
respectivo pelourinho, símbolo do Antigo Regime, e simultaneamente, da autonomia
municipal.

105

Geralmente, o pelourinho consistia numa coluna de pedra, colocada num lugar
público, que assentava sobre uma base e que se encontrava encimada por um capitel.
Aí eram punidos e expostos (para vergonha pública) os criminosos.
No caso concreto de Vila de Frades, possuímos informações que atestam a presença
desta estrutura. Uma pequena fracção do fuste, pertencente ao antigo pelourinho, foi
achada na Quinta do Almargem, revelando características manuelinas. Esta estrutura,
cujas origens remontariam então aos inícios do século XVI71, manteve-se
integralmente até finais do século XIX, altura da sua demolição devido a circunstâncias
desconhecidas.

Imagem nº 82 - Fragmento do antigo Pelourinho de Vila de Frades detectado na Quinta
do Almargem
Retirada de: MALAFAIA, Ataíde – Pelourinhos portugueses, p. 492.72

71

Será que este pelourinho foi erguido aquando da concessão do segundo foral por D. Manuel I em
1512?
72
Indicação cedida pela personalidade que me cedeu gentilmente esta imagem, em versão fotocópia a
preto e branco.

106

Para além do fragmento do pelourinho, datado dos inícios do séc. XVI, temos
igualmente outra fonte relevante para esse período – o Foral de 1512, o qual
menciona a existência do concelho, quando é abordada, em pormenor, a questão do
dízimo do azeite.
Acreditamos que se trataria essencialmente dum município de pendor rural muito
típico da região alentejana para estas eras mais recuadas. Contudo, e embora sem
dispormos de grandes bases documentais, cremos que inicialmente (séc. XV-XVIII), a
edilidade terá vivido uma situação mais estável, contrastando com o declínio
acentuado já no decurso do século XIX.
Apesar de termos recolhido escassas informações para o período anterior ao século
XIX73, podemos assegurar que o Concelho de Vila de Frades desempenhou um papel
relevante na construção da Igreja Matriz entre os anos de 1696 e 1707, talvez o ponto
mais alto da sua existência. De acordo com Túlio Espanca, a Câmara Municipal acordou
a sua construção com João Gomes Coelho, mestre pedreiro de Lisboa, e a finalização
da cobertura com o mestre pedreiro Domingos Gonçalves. Não podemos igualmente
ignorar o patrocínio dos religiosos vicentinos (embora já não estivessem em São
Cucufate à data, mantiveram sempre a sua influência nos tempos posteriores) e dos
Gamas, condes da Vidigueira, para o crescimento, manutenção e afirmação deste
templo, o qual iria destacar-se como uma das igrejas mais notáveis do Alentejo em
termos arquitectónicos e artísticos.
Julgamos ainda que os oficiais municipais terão igualmente zelado pela manutenção
das outras capelas e ermidas da vila, respondendo assim às necessidades de cariz
espiritual duma povoação cristã.
Infelizmente, não possuímos mais dados para os séculos XVI, XVII e XVIII, e é muito
provável que tenha ficado por conservar muita documentação desses tempos ou que,
pelo menos, se tenha dispersado por outros núcleos arquivísticos que não tivemos a
oportunidade de averiguar.
No Arquivo Municipal da Vidigueira, efectuamos uma pesquisa intensiva sobre os seis
livros de actas camárias de Vila de Frades aí conservados, e cuja baliza cronológica se

73

Como já referimos anteriormente, a maior parte esmagadora das actas consultadas remetem-nos
apenas para o século XIX.

107

circunscreve entre os anos de 1837 e 1853 (o concelho é extinto em 185474). Durante
estes derradeiros 15/16 anos, e já incorporando este município a freguesia de Vila Alva
(desde 1836), conseguimos obter muitas informações.
Tratava-se já de anos de declínio e sem qualquer tipo de pujança económica. Os
membros do município75, este então assente na sua ruralidade, tiveram que lançar
impostos (décima, derrama, cabeças de pardais76) de forma a cobrir as despesas
extraordinárias e a garantir a viabilidade de muitos orçamentos anuais.
Mesmo assim, no ano de 1850, já se denotavam queixas sobre o desarranjo e a
indecência da casa municipal para a realização de actos públicos camarários e judiciais.
Solicitou-se igualmente a compra de novos equipamentos, nomeadamente cadeiras.
Efectivamente, o Município tinha bastantes encargos e tarefas pela frente:

Proceder aos pagamentos destinados a assegurar a subsistência das amas que
tomavam conta dos expostos (órfãos).

Pugnar pela limpeza e higiene nas duas juntas de paróquia de São Cucufate e
de Nossa Senhora da Visitação de Vila Alva que integravam este município.

Investir em pequenas obras de construção ou manutenção.

Honrar contratos, ou melhor, compromissos com os oficiais/funcionários da
Câmara (e não eram assim tão poucos) que teriam direito à sua própria
remuneração.

Promover e zelar pela protecção das vinhas.

Apreciar reclamações dos habitantes.

Fixar preços dos géneros77 vendidos no concelho.

74

Contudo, a 2 de Novembro de 1853, os oficiais municipais de Vila de Frades já demonstravam ter
conhecimento da extinção desta edilidade secular.
75
Em anexo, publicaremos alguns documentos de teor relevante, bem como tabelas com os nomes dos
oficiais concelhios, informações que estão intrinsecamente relacionadas com a existência da Câmara
Municipal de Vila de Frades no século XIX.
76
De acordo com Maria Ribeiro (em Geneall.net), tratava-se dum imposto antigo que presumivelmente
consistiu na entrega real dum número determinado de cabeças de pardais por parte dos proprietários.
Embora seja ainda um tributo pouco estudado, é possível que uma das suas finalidades passasse por
libertar as searas das “pragas” de pardais, isto numa altura em que o pão era a base da alimentação, e
onde a chuva ou o calor em excesso poderiam causar grandes fomes. Por outro lado, os pardais
constituíam ainda um petisco apreciado.
77
Na acta de 10 de Setembro de 1853, a Câmara, a pedido do escrivão da Fazenda, deliberou os
seguintes preços para o trigo (trezentos e vinte reis por alqueire) e cevada (cento e setenta reis por
alqueire).

108

Arrematar carnes verdes para consumo.

Neste período a rondar os meados do século XIX, saíram ainda reforçadas as práticas
agrícolas e da própria pecuária que continuaram a manter uma elevada expressão na
vila. Novamente, o vinho, o azeite e o trigo se evidenciariam enquanto produtos típicos
desta terra.
Em 1854, o concelho de Vila de Frades é oficialmente extinto devido a uma reforma
judicial. Neste âmbito, Vila Alva passaria a integrar o Município de Cuba, enquanto Vila
de Frades se tornaria numa freguesia do concelho da Vidigueira, estatuto que mantém
até à actualidade.
Com a extinção do concelho, “morreria” uma parte da história ou identidade de Vila de
Frades que tinha reivindicado até então uma considerável autonomia, ficando a terra,
a partir de agora, reduzida a um estatuto menos influente, o qual seria ainda
posteriormente agravado com o fenómeno da desertificação. O pelourinho tombaria
(pois foi demolido) e a antiga casa municipal seria, em finais do século XIX, readaptada
a escola primária.

Referências Consultadas:

Livros de Actas Camarárias de Vila de Frades (1837-1853). 6 vols. Conservados
no Arquivo Municipal da Vidigueira.

Livro dos Forais Novos entre Tejo e Odiana. [1501-1520]. Leitura Nova. Torre do
Tombo.

Digitalizado

em:

http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4223237.

Preserva os documentos solenes de Vila de Frades e de Estremoz.

COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza (…). Tomo II. Lisboa:
Oficina de Valentim da Costa Deslandes, 1708.

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

MALAFAIA, E. B. de Ataíde – Pelourinhos Portugueses – tentâmen de inventário
geral. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1997.

Paula Figueiredo, SIPA, www.monumentos.pt.

109

4.4 – Sob o Domínio dos Gamas

Para além da influência eclesiástica dos frades (responsáveis pelo povoamento e
organização do território), terá existido uma segundo senhorio, este de cariz
nobiliárquico, que retiraria dividendos das terras de Vila de Frades e Vidigueira que
constituíam respectivamente as paróquias de São Cucufate e Santa Clara.
Na Baixa Idade Média (séculos XIV-XV), encontramos já referência ao nome de alguns
desses senhores laicos. Como factos meramente exemplificativos, sabemos que D.
Nuno Álvares Pereira se torna senhor de ambas as vilas a partir de 1385, sendo então
os seus serviços militares recompensados pelo rei D. João I. Para além de receber nas
suas mãos as terras da Vidigueira e Vila de Frades, é importante salientar que este
notável senhor ergueu o seu solar em Vila Ruiva, terra que também lhe foi doada.
Posteriormente, e de acordo com José Palma Caetano, as localidades teriam passado
para as mãos de D. Fernando, neto do Condestável e segundo duque de Bragança. De
seguida, as terras foram presumivelmente transmitidas a D. Fernando, terceiro duque
de Bragança, que no ano de 1483, acabaria por arcar com a grave acusação de ter
conspirado contra o rei D. João II, o que lhe valeu mesmo a condenação à morte. Mais
tarde, D. Manuel I restauraria a Casa de Bragança, restituindo-lhe os seus bens em
1496. Nesta precisa data, Vidigueira e Vila de Frades voltariam a integrar os domínios
do ducado de Bragança. Neste contexto, D. Jaime, novo duque, é o último senhor
destas terras antes da chegada dos Gamas que marcariam uma nova era na região.
Na entrada do século XVI, Vasco da Gama era já uma personalidade bastante
prestigiada a nível mundial, fama essa que fora alcançada no momento em que, ao
serviço da Coroa Portuguesa, conseguiria bater o seu principal adversário - Cristóvão
Colombo na corrida à Índia, aquele longínquo e extenso território que era cobiçado
pelas suas invejáveis especiarias. De facto, em 20 de Maio de 1498, Vasco da Gama
tinha atingido Calecute, marco histórico que mudaria definitivamente o curso da
História, revelando assim o trajecto marítimo para aquela ambicionada região e
derrubando muitas das adversidades que se verificaram ao longo deste percurso árduo
e sinuoso.
110

Todavia, D. Vasco da Gama tinha a ambição de alcançar um estatuto nobiliárquico
relevante, e por isso, a eventualidade de se tornar conde e possuir algumas terras, era
uma ideia que lhe agradava bastante.
Após várias negociações, el-rei D. Manuel I acede finalmente ao seu desejo, e com o
consentimento de D. Jaime (duque de Bragança e senhor antecessor), D. Vasco da
Gama receberá as vilas da Vidigueira e Vila de Frades, obtendo ainda o título de Conde
da Vidigueira. A transmissão é oficializada em 29 de Dezembro de 1519, com o
licenciado Estêvão Lopes, procurador do exímio navegador português, a tomar posse,
em nome do Almirante da Índia, daquelas duas terras78. Recorde-se que D. Vasco da
Gama teve de abdicar da tença anual de 400 000 réis que recebia da Coroa, para além
de ter despendido mais 4 000 cruzados em oiro. Estes valores acabariam por ser
transferidos para D. Jaime.
Assim sendo, podemos concluir facilmente que o título condal fora doado pelo rei D.
Manuel, mas a transferência das referidas localidades acarretou um custo acentuado
que o novo senhor teve de suportar perante o seu antecessor.
Nos inícios do ano de 1520, D. Vasco da Gama e sua família instalam-se na Vidigueira,
estadia talvez concretizada no Castelo79 que aí permanecia desde o período medieval.
Nesse mesmo ano, o novo homem-forte, que fora bem recebido na região, oferece um
novo sino80 à Torre do Relógio da Vidigueira. Para além deste acto relevante, foi ainda
documentado o zelo religioso que este notável conde denotava pelo Convento de
Nossa Senhora das Relíquias (Vidigueira), mantendo mesmo boas relações com o prior
e os frades. Não encontramos informações concretas sobre a sua acção relativa a Vila
de Frades, mas é plausível que aí cobrasse, pelo menos, alguns direitos. O primeiro
conde da Vidigueira faleceria nos dias finais de 1524, mais concretamente em Cochim,
78

De acordo com José Palma Caetano, durante as cerimónias solenes da tomada de posse por parte do
procurador e licenciado Estêvão Lopes (representante de D. Vasco da Gama), houve uma passagem pela
sede de município de Vila de Frades, em que se reuniram igualmente os oficiais e personalidades desta
terra: Tomé Lopes e Gonçalo Anes, juízes; Lourenço Gonçalves e o tesoureiro João Martins, vereadores;
Domingos Martins e Gonçalo Martins, almotacés; João Martins, procurador do concelho; Lopo Nunes,
cavaleiro e escrivão da Câmara de Vila de Frades, tal como o era também da Vidigueira, sendo ainda
“tabelião do público e judicial”; e João Namorado, Estêvão Franco, Pêro Afonso, João Marquez (ou
Marques), João Rodrigues Beiçudo e Vasco Gonçalves, assim como outros homens bons e povo da vila.
O procurador de Vasco da Gama, o licenciado Estêvão Lopes, apresentou também neste lugar o contrato
e a carta de confirmação do rei que legitimavam o novo senhorio.
79
Não estávamos perante uma imponente fortaleza, mas tratava-se sim dum palácio com algumas
fortificações.
80
A inscrição presente no sino tem registada a data de 1520.

111

isto depois de ter sido nomeado Vice-Rei da Índia. Inicialmente, foi sepultado nessa
localidade asiática, sendo depois os restos mortais trasladados para Portugal, talvez
nos anos de 1538 ou 1539, onde foram depositados na Igreja do Convento de Nossa
Senhora das Relíquias da Vidigueira, e mais tarde – no século XIX, deslocados para o
Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa.

Imagem nº 83 - Estátua do Navegador na Praça Vasco da Gama, sita na Vidigueira,
junto ao Museu Municipal.
Foto da minha autoria

112

Imagem nº 84 – Inscrição na parte inferior do monumento.
Foto da minha autoria

Na legenda desta Estátua pode ler-se:
Dom Vasco da Gama
1469-1524
Descobridor e Almirante do Mar da Índia
1º Conde da Vidigueira
Vice-Rei da Índia
"Aquelle illustre Gama,
Que para si de Eneas toma a fama"
(CAMÕES, Luís, 1572)

Como o título de conde da Vidigueira era hereditário e perpétuo, a sucessão recairia
agora sobre D. Francisco da Gama, filho primogénito de Vasco da Gama. Trata-se dum
homem com uma elevada devoção religiosa. Juntamente com a sua mulher, D.
Guiomar de Vilhena, Francisco fundaria o Convento de Nossa Senhora da Assunção em
Vila de Frades no ano de 1545. Este cenóbio acolheria os frades capuchos,
pertencentes à Ordem Franciscana, que aí permaneceriam, embora com algumas
interrupções, até ao século XIX.
113

Dez anos volvidos, e em 1555, este casal nobre continua com o seu zelo piedoso e
assegura a construção da Ermida de Santa Clara na Vidigueira.
Efectivamente, D. Francisco da Gama investiu em novos serviços espirituais que seriam
prestados às duas povoações.
O terceiro conde da Vidigueira seria Vasco (Luís) da Gama81, filho do seu antecessor e
sobre o qual pouco ou nada sabemos. Terá falecido na malograda batalha de Alcácer
Quibir travada no ano de 1578, na qual morrera presumivelmente el-rei português D.
Sebastião. É possível que tivesse estado poucos anos à frente do Condado, não
deixando assim grandiosos feitos na região.
O quarto conde seria D. Francisco da Gama (coincidentemente homónimo do segundo
titular) que era o terceiro filho de D. Vasco (Luís) da Gama. Também combatera em
Alcácer Quibir, embora tivesse sobrevivido aos combates sangrentos (ao contrário do
seu progenitor!). Foi aí capturado pelos mouros, e só um resgate posterior lhe
permitiu regressar a Portugal, território na altura anexado à Espanha, no âmbito da era
filipina. Como era um homem da confiança do rei Filipe I, Francisco da Gama teria pela
frente uma carreira ilustre. Por duas vezes, foi vice-rei da Índia (1597-1600 e 16221628). No Oriente, conseguiu algumas vitórias sobre holandeses e piratas indianos,
assistirá à tomada da ilha de Ceilão e ainda ordena a construção da fortaleza de
Mombaça. Para além disso, é no seu tempo, que se ergue o Palácio dos Vice-Reis e a
Fortaleza de Mormugão, e recoloca a estátua de D. Vasco da Gama, seu bisavô, no
Arco dos Vice-Reis. Contudo, tal obra não evitou as intrigas e as acusações de
corrupção que torneavam os altos organismos portugueses da Índia. Em 1632, D.
Francisco da Gama acaba mesmo por falecer em Oropesa quando se deslocava em
direcção a Madrid para se defender das graves suspeitas que recaíam sobre si. Tal
como o seu bisavô, D. Vasco da Gama, pelo qual sempre nutriu uma grande admiração,
foi mais um português que desempenhou serviços cruciais no Oriente. A ele se atribui
tradicionalmente a construção da Ermida de São Rafael da Vidigueira nos inícios do
séc. XVII, sendo que este templo armazenaria a imagem do santo que acompanhara D.

81

Para além de ser mencionado vulgarmente como Vasco da Gama, este terceiro conde também surge
noutros registos denominado como Vasco Luís da Gama. Por isso, o seu nome poderá acolher
curiosamente a designação do primeiro (Vasco da Gama) ou até do quinto conde da Vidigueira (Vasco
Luís da Gama). Optamos portanto por designá-lo neste estudo como Vasco (Luís) da Gama. É ainda
evidente a aproximação em termos nominais dos titulares deste condado.

114

Vasco da Gama à Índia. Infelizmente, não possuímos mais conhecimento sobre outros
projectos aplicados na Vidigueira e em Vila de Frades, até porque esta reputada
personalidade aparentemente não teve muito tempo para se dedicar ao condado
alentejano que

detinha, privilegiando as

causas

exteriores, e

vagueando

consequentemente por inúmeros espaços.
O quinto conde seria, a partir de 1632, Vasco Luís da Gama que herdou praticamente o
nome do seu avô. Homem de confiança do rei D. João IV, destacou-se na área da
Diplomática, tendo sido embaixador em França. Recebeu o título de Marquês de Nisa82
e foi ainda deputado da Junta dos Três Estados, membro do Conselho de Estado e do
Conselho de Guerra. Era considerado um homem culto, tendo adquirido, no
estrangeiro, livros preciosos e raros, e constituído assim uma biblioteca de valor.
Faleceria a 28 de Outubro de 1676, desconhecendo-se que acção terá tomado em prol
do Condado da Vidigueira.
Sucede-lhe D. Francisco Luís Baltasar António da Gama que herdou praticamente todos
os cargos exercidos pelo seu progenitor. A sua vida terminaria a 10 de Agosto de 1707.
Seguir-se-iam D. Vasco José Luís Baltasar da Gama (7º conde da Vidigueira e 3º
Marquês de Nisa; falecido em 1735), D. Maria José Francisca Xavier Baltasar da Gama
(8º Condessa da Vidigueira e 4ª Marquesa de Nisa), D. Vasco José Jerónimo Baltasar da
Gama (9º Conde da Vidigueira e 5º Marquês de Nisa; falece em 1757), D. Rodrigo
Xavier Teles Castro da Gama Ataíde Noronha Silveira e Sousa (10º Conde da Vidigueira,
6º Marquês de Nisa; morre em 1784), D. Eugénia Maria Josefa Xavier Teles de Castro
da Gama (11ª Condessa da Vidigueira, 7ª Marquesa de Nisa), D. Tomás Xavier Teles de
Castro da Gama Ataíde Noronha da Silveira e Sousa (12º Conde da Vidigueira, 8º
Marquês de Nisa, Comendador da Ordem de Cristo, faleceria em 1820), D. Domingos
Vasco Xavier Teles da Gama Castro e Noronha Ataíde Silveira e Sousa (13º Conde da
Vidigueira, 9º Marquês de Nisa; terá desbaratado fortunas e levou as casas da
Vidigueira e Nisa à ruína total), D. Tomás Xavier/Francisco83 Teles da Gama (14º Conde
da Vidigueira, 10º Marquês de Nisa, sucumbe em 1903) e D. José Teles da Gama Castro
Ataíde Noronha da Silveira e Sousa (15º e último Conde da Vidigueira, 11ºe derradeiro
82

A doação régia do título de Marquês de Nisa aos Condes da Vidigueira surge a partir deste preciso
momento. Agora os detentores passam a acumular ambos os títulos.
83
Este 14º Conde da Vidigueira já apareceu mencionado enquanto D. Tomás Xavier ou D. Tomás
Francisco Teles da Gama. Há pois algumas dúvidas quanto ao seu segundo nome.

115

Marquês de Nisa, casou-se duas vezes mas não deixou qualquer geração, morreu em
1941, tendo sido o último representante dos Gamas).
Como denotamos, muitos dos titulares não tiveram grandes possibilidades para se
dedicarem às terras da Vidigueira, Vila de Frades e Nisa, sendo que alguns tentaram a
sua carreira no estrangeiro, exercendo cargos de prestígio.
Em jeito de síntese que podemos elaborar até este momento, os últimos monges do
Mosteiro Crúzio de São Cucufate abandonam o espaço em meados ou finais do século
XVI, cessando a sua influência em Vila de Frades. Por seu turno, os Gamas substituem
os antigos senhores laicos, e passam a reivindicar um maior protagonismo. É certo que
Vila de Frades e Vidigueira constituíam municípios distintos, mas os laços de ligação
não deixavam de ser muito íntimos, até porque ambas as vilas integravam o Condado
estabelecido em finais de 1519.
Verificamos que D. Francisco da Gama, 2º Conde da Vidigueira, promoveu, em 1545, a
criação do Convento de Nossa Senhora da Assunção em Vila de Frades.
Mesmo assim, detectamos outras obras, patrocinadas pelos Gamas, em Vila de Frades,
contudo, nestes casos, não foi fácil apurar os nomes dos condes que investiram na
terra, visto que as informações recolhidas nem sempre se traduzem em descrições
detalhadas ou minuciosas.
De acordo com José Palma Caetano, foi colocada mais tarde uma janela de estilo
manuelino (século XVI) junto à actual Torre de Menagem da Vidigueira, estrutura que
aparentemente integrava o antigo castelo. Segundo o que aquele erudito apurou, tal
janela seria proveniente de Vila de Frades (mais concretamente do edifício que
corresponde actualmente à Casa do Conselheiro), o que pode indiciar a presença duma
casa nobre naquela localidade, embora se desconheçam mais pormenores. A datação
adoptada para a mesma tende para a sua criação no século XVI, balizando-se então no
período senhorial dos Gamas.
Esta casa nobiliárquica terá ainda apoiado a criação de novos templos na terra. De
acordo com a tradição popular, a Ermida de Santo António dos Açores, erguida talvez
nos inícios do século XVII, insere-se neste âmbito. Duas narrativas dos factos são
mesmo relatadas e discutidas na comunidade, as quais voltamos a recordar de novo.
De acordo com José Palma Caetano, reza a lenda de que um Conde da Vidigueira terá
prometido construir um templo, caso achasse um açor que lhe havia desaparecido. O
116

referido açor teria sido encontrado num outeiro (lugar alto) perto da Vila e terá sido aí
precisamente que se erigiu uma ermida que, por esse motivo, se chamou de Santo
António dos Açores. Por seu turno, Túlio Espanca defende outro mito popular por
detrás da criação deste templo. Segundo este último erudito, um Conde da Vidigueira,
o qual seria um grande caçador, teria descoberto ninhos de açores naquela elevação,
tendo alegadamente tal episódio dado origem ao nome da futura ermida. Se estes
testemunhos bem como a sua presumível datação corresponderem à verdade, então é
tentador situar esta construção durante o ofício desempenhado por D. Francisco da
Gama, 4º Conde da Vidigueira - talvez entre os anos de 1578 e 1632. Este nobre já
tinha presumivelmente mandado erigir a ermida de São Rafael na Vidigueira, e por
isso, nada nos impede de pensar que a sua missão social tivesse alcançado a localidade
vizinha de Vila de Frades com um novo patrocínio, desta feita, à Ermida de Santo
António dos Açores. Como segunda hipótese, temos D. Vasco Luís da Gama, 5º Conde
da Vidigueira desde 1632 até 1676, dado que abarca também parte da primeira
metade do século XVII. Todavia, é imperioso ressalvar que estamos somente a lançar
especulações e possibilidades, seguindo o raciocínio dos livros e fontes que
consultamos.

Imagem nº 85 – A Ermida de Santo António dos Açores remonta aos inícios do séc.
XVII, e a sua construção é habitualmente associada aos Condes da Vidigueira.
Retirada da Página do Facebook - Vila de Frades, Capital do Vinho de Talha / Site da
Junta de Freguesia de Vila de Frades
117

Por seu turno, a Igreja da Misericórdia de Vila de Frades também poderá ter sido uma
realidade graças ao empenho dos Gamas. Novamente, destacamos a personalidade de
D. Francisco da Gama, 4º Conde da Vidigueira que, no ano de 1587, era Provedor da
Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Frades. Dez anos depois e o cargo
era já ocupado pelo seu irmão D. Miguel da Gama. O escrivão licenciado André Gomes
de Carvalho terá testemunhado estes factos. Por isso, estando os Gamas ligados
intimamente aos primórdios, ou apenas à reorganização, desta Irmandade, nada nos
impede de deduzir que tivessem promovido a construção dum novo templo, ainda no
século XVI ou apenas na primeira metade do século XVII, que seria então a Igreja da
Misericórdia.

Imagem nº 86 - A Igreja da Misericórdia de Vila de Frades poderá ter sido patrocinada
pelos Gamas.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/1929829?with_photo_id=53176705,
(foto de Vítor).

A Igreja Matriz de Vila de Frades, embora construída entre os anos de 1696 e 1707
com clara iniciativa da Câmara Municipal da vila, terá sido alvo de posterior
investimento por parte dos condes da Vidigueira. Túlio Espanca atribui o seu
esplêndido altar-mor, de talha dourada e policromada (estilo rococó), ao
118

financiamento de D. Rodrigo Xavier Teles Castro da Gama Ataíde Noronha da Silveira e
Sousa (10º Conde da Vidigueira, falecido em 1784) ou de D. Eugénia Maria Josefa
Xavier Teles de Castro da Gama (11ª Condessa da Vidigueira). A obra referente àquela
estrutura magnificente está presumivelmente datada do ano de 1787, o que reforça a
eventualidade de participação destes dois titulares na concretização deste projecto
ambicioso relativo ao novo altar.

Imagem nº 87 - A Igreja Matriz de Vila de Frades, cujo orago é São Cucufate, pauta-se
pelo seu inegável e grandioso esteticismo. O altar-mor da Igreja Matriz de Vila de
Frades destaca-se pelo seu luxo, tendo sido a sua construção promovida pelos Condes
da Vidigueira/Marqueses de Nisa.
Foto retirada de: http://rotassembarreiras.com/place/vila-de-frades-parish-church/

Em jeito de conclusão deste subcapítulo, podemos afirmar que o 2º e 4º Condes da
Vidigueira, além de terem partilhado o mesmo nome e título em comum (D. Francisco
da Gama), demonstraram um fervor religioso que se terá consubstanciado na
construção de novos templos.
Vila de Frades não passou pois ao lado das intenções dos Gamas…
119

Referências Consultadas:

ALVES, Ivone Correia – Gamas e Condes da Vidigueira. Percursos e Genealogias.
Lisboa: Edições Colibri, 2001.

ARAGÃO, Augusto Teixeira de – D. Vasco da Gama e a Villa da Vidigueira.
Lisboa: Typographia Universal, 1871.

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja, Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

ESPANCA, Túlio- Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa, 1992.

https://www.ipbeja.pt/eventos/em.cantos/Documents/vidigueira_3.pdf,
(Consultado em 09-03-2014).

https://www.ipbeja.pt/eventos/em.cantos/Documents/vidigueira_2.pdf,
(Consultado em 09-03-2014).

120

4.5 – Dados Demográficos

Esta comunidade, que desde cedo até aos dias de hoje assentou grande parte da sua
exploração económica nas actividades do Sector Primário (agricultura e pecuária),
conheceu algumas variações demográficas quantitativas ao longo dos últimos séculos.
Apesar deste ponto não ter merecido uma abordagem muito mais abrangente e
pormenorizada da nossa parte84, a verdade é que recolhemos alguns apontamentos
estatísticos que devem, mesmo assim, ser divulgados.
Exposto isto, apresentamos a seguinte tabela com os dados que conseguimos obter:

Ano

Nº total ou aproximado de habitantes

1708

800

1758

1057

1801

1256

1849

287785

1950

> 200086

1991

1048

2001

992

2011

928

Tabela nº 2 – O número aproximado ou total de habitantes em Vila de Frades nas
diversas eras cronológicas.

Os primeiros números encontrados remontam à Época Moderna, sendo que na era
medieval a comunidade aí instalada não deveria passar da ordem das centenas87 (ou

84

Optamos pois por não realizar um levantamento exaustivo, até porque dedicamos maior atenção a
outros capítulos deste estudo.
85
Desconhecemos se esta contabilização (2877 hab) se cingiria apenas a Vila de Frades, ou se integrava
já os moradores de Vila Alva, freguesia que, em 1849, pertencia ao município vilafradense.
86
De acordo com Desidério Lucas do Ó, a população vilafradense seria constituída por um pouco mais
do que 2000 habitantes, embora não expresse números em concreto.

121

até mesmo das dezenas, sobretudo nos anos de grandes crises económicas), embora
não possamos confirmar cientificamente este nosso raciocínio.
No século XVIII, o número de habitantes em Vila de Frades rondaria um milhar,
situação que aparentemente conhece um aumento considerável a partir da centúria
posterior, tendo o número assentado na ordem dos dois milhares. Efectivamente, o
século XIX assistiu ao desenvolvimento da medicina e das condições de higiene. Ocorre
ainda a divulgação da vacinação. Denota-se ainda uma melhoria geral do nível de vida
na Europa.
Na primeira metade do século XX, a realidade continua a ser animadora, mantendo-se
praticamente o mesmo número de residentes.
Todavia, os fenómenos da desertificação do interior e do envelhecimento da
população, aos quais o Alentejo não foi alheio, espelharam-se, de forma clara, em Vila
de Frades, nos últimos 50 ou 60 anos.
A localidade volta a ter uma população inferior a 1000 habitantes, muito porque a
juventude, sedenta de obter um emprego estável, decide deslocar-se e tentar a sua
sorte nas grandes cidades, nomeadamente Lisboa, Setúbal, Évora, Beja, Porto…
Os que desejam alcançar uma formação superior também têm de procurar outros
polos culturais que nem sempre se encontram nas proximidades.
Com a saída em massa da juventude do interior alentejano, a população tende a
mostrar maiores sinais de envelhecimento, quando comparado com o cenário
demográfico do litoral.
As consequências serão nefastas, visto que a natalidade nestas terras do interior irá
cair para números absolutamente desanimadores, causando uma quebra de
importância que outrora era conferida ao Alentejo.
Vila de Frades continuará a ser uma das vítimas desta nefasta conjuntura, mesmo se
tratando de uma terra com um potencial histórico, cultural e patrimonial bastante
atractivo.

87

Não podemos ignorar o facto de a população portuguesa, nas vésperas do Período da Peste Negra
(1348), se cingir a pouco mais do que um milhão de habitantes. A natalidade era elevada, mas a
mortalidade atingia níveis igualmente elevados, dado o atraso do conhecimento científico nessa era
mais remota.

122

Referências Consultadas:

COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza (…). Tomo II. Lisboa:
Valentim da Costa Deslandes, 1708. Obra que refere a existência de 800
vizinhos em Vila de Frades.

LEAL, Augusto Soares de Pinho – Portugal Antigo e Moderno. Vol. XI. Lisboa:
Livraria Editora de Tavares Cardoso & Irmão, 1886.

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja, Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994. Enuncia a quantificação da população
vilafradense no ano de 1991.

Ó, Desidério Lucas do – Vila de Frades - Capital do Vinho de Talha. Sintra:
Colares Editora, [2010]. Refere a estatística demográfica para meados do século
XX (década de 1950).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_de_Frades, (Consultado em 10-03-2014).
Optamos por citar este endereço electrónicos já que nos menciona os dados
demográficos para os anos de 1801 e 1849.

http://www.viladefrades.pt/documentos/961765482302470184887967371.pdf
(Consultado em 10-03-2014). Censo referente ao ano de 2001.

http://www.viladefrades.pt/documentos/961766286738226211496719703.pdf
(Consultado em 10-03-2014). Censo respectivo a 2011.

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/daqui-a-vinte-anos-pode-serdemasiado-tarde-para-recuperar-o-interior-1612415 (Consultado em 10-032014). Artigo do Jornal O Público que se refere ao fenómeno da desertificação.

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/numeros-de-2011-confirmamenvelhecimento-e-desertificacao-do-interior-1598361, (Consultado em 10-032014). Artigo do Jornal O Público da autoria de Catarina Machado.

123

5 – O Período Contemporâneo (Séculos XVIII-XXI)
A Idade Contemporânea estende-se desde 1789, ano da Revolução Francesa, até à
actualidade. Desde cedo, as correntes liberais e iluministas (com a bandeira da razão)
percorreram o Mundo Ocidental, colocando em causa as estruturas dos anteriores
regimes que assentavam numa pirâmide social injusta. A burguesia ameaçava agora os
domínios antigos da Coroa, Nobreza e Clero.
Praticamente, todos os sectores do conhecimento viabilizaram a senda do progresso
nos mais variados níveis, nomeadamente científico e tecnológico.
O desenvolvimento da Medicina e das condições de higiene permitirá o aumento da
esperança média de vida.
O acesso à informação tornou-se mais fácil, o que contribuiu para o enriquecimento
cultural das comunidades.
É claro que esta era também se pautou por momentos negros, traduzindo-se na
eclosão de duas terríveis guerras mundiais e de sangrentos conflitos motivados por
filosofias imperialistas, nacionalistas e pró-independentistas (foi o caso das antigas
colónias que existiam em África).
No caso concreto de Portugal, irão fazer-se sentir três invasões francesas (1807-1811)
bastante destrutivas, as quais se cifrariam em desmedidos abusos por parte das tropas
napoleónicas que facilmente caíram na tentação da pilhagem, do massacre e da
violação. Apesar do facto de Napoleão Bonaparte ter sido derrotado, a verdade é que
os novos ideais iriam difundir-se pelo Mundo Ocidental. Em 1820, ocorrem as
revoluções liberais em Portugal, instituindo assim a Monarquia Constitucional (com
uma assembleia parlamentar) que perdurará até 1910, data da implantação da
Primeira República (1910-1926). Nestas duas fases em que Portugal experimentava o
advento democrático, a agitação, a intriga e os desentendimentos foram partes
integrantes da realidade política e social. O descontentamento popular foi enorme, a
desconfiança em redor da corrupção e do decadentismo atingia elevadas proporções.
Em 28 de Maio 1926, dá-se novo golpe de Estado que estabelecerá uma Ditadura
Militar. Em 1933, o Estado Novo, outro regime ditatorial, tenta assegurar a ordem
124

social e económica do país, recorrendo contudo a meios repressivos, intimidatórios e
até violentos, não permitindo a liberdade de expressão, opinião e associação das
comunidades. Foram tempos de total labuta e extrema miséria, embora a estabilidade
política tivesse sido garantida até porque não era permitida qualquer espécie de
oposição ao ditador António de Oliveira Salazar. Como observaremos mais à frente, a
perseguição e o medo também se fizeram sentir em Vila de Frades que também sofreu
com este período obscuro da nossa história.
No dia 25 de Abril de 1974, o regime do Estado Novo é oficialmente destituído pela
Revolução dos Cravos, dando origem à Terceira República Portuguesa e regressando
assim ao Sistema Democrático. Nos últimos 40 anos (1974-2014), o país desenvolveuse em termos de urbanismo, terciarização da economia e alfabetização das
populações, pese o facto dos derradeiros momentos terem sido de angústia motivados
por uma recuperação económica (mediante o pedido dum resgate ao Fundo
Monetário Internacional), onde a austeridade comprometeu o nível de vida de muitas
famílias portuguesas e que gerou inclusive a extinção de inúmeras freguesias devido a
um processo de reorganização administrativa que chegou inclusive a ameaçar a
própria localidade de Vila de Frades. A desertificação do interior é outro fenómeno
que tem vindo a verificar-se com maior incidência. Os tempos que se avizinham não se
adivinham fáceis, mas é necessário ter esperança de que a situação do país e da
sociedade portuguesa poderá melhorar nos próximos anos.

Referências Consultadas:

http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/,

(artigo

da

autoria de Rainer Sousa, Consultado em: 10-03-2014).

http://educar.no.sapo.pt/histFormProf71.htm, (artigo da autoria de Carlos
Fontes, Consultado em 10-03-2014).

http://www.historiadeportugal.info/estado-novo/, (Consultado em 10-032014).

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2961832,

(artigo

electrónico do Diário de Notícias da autoria de Aldara Rodrigues, Consultado
em: 10-03-2014).
125

5. 1 – A recente evolução

A contemporaneidade transportou consigo a via da modernização, embora Vila de
Frades tivesse vindo a perder o estatuto de município em 1854. Para além disso, e
como já constatamos num dos tópicos anteriores, a praga da desertificação do interior
tem causado um impacto terrível nesta terra orgulhosamente alentejana.
Alguns dados históricos merecem a nossa reflexão no decurso deste período que se
estende até aos dias de hoje.
É plausível que Vila de Frades, tal como muitas outras terras portuguesas, tivesse
sofrido com os abusos e as pilhagens inerentes às Invasões Francesas (1807-1811),
embora seja tentador considerar que os estragos humanos e materiais tenham sido
aqui inferiores quando comparadas com outras localidades do Norte e Centro do País,
nas quais a razia parece ter sido tremenda! Mesmo assim, recordamos a sublevação
das povoações de Vila Viçosa, Évora, Beja, Elvas e Estremoz, no âmbito da Primeira
Invasão (1807-1808) comandada por Junot, o que se traduziu em milhares de mortes
no caso em concreto do Alentejo, embora desconheçamos registo de qualquer
impacto destrutivo em Vila de Frades, o que poderá levantar a hipótese dos danos
terem sido reduzidos ou limitados88.
Graças aos ventos da revolução, Portugal acabaria por aderir ao liberalismo num
século XIX marcado pela instabilidade política que prosseguiu nos inícios do século XX
(a célebre e turbulenta passagem da Monarquia Constitucional para a Primeira
República), merecendo mesmo as críticas implacáveis de Fialho de Almeida, famoso
escritor vilafradense nascido em 1857. Também por aqui passou Justino Baião Matoso,
conselheiro e deputado que seria sepultado no Cemitério Público de Vila de Frades,
após seu falecimento em 1882. Estas primeiras experiências democráticas
necessitavam ainda de amadurecimento para que a sociedade fosse devidamente
servida pelos políticos de então.
88

Existe a teoria de que no Mosteiro de São Cucufate terão estado aquartelados alguns soldados
napoleónicos, talvez algures entre 1807-1808, mas não obtivemos dados que confirmassem esta
hipótese, e por isso, não apuramos o impacto da sua eventual passagem por estas terras.

126

A Primeira República (1910-1926) que mergulharia em diversos momentos de
desordem e num cenário próximo da anarquia (o número de governos que caíram
prematuramente foi deveras assustador), fora substituída temporariamente por uma
ditadura militar, sendo esta seguida pela instauração do regime ditatorial do Estado
Novo (1933-1974). Vila de Frades sofreu muito com esta nova realidade, e viu mesmo
alguns dos seus moradores a serem alvo de intimidação. Foi o caso do Prof. José Luís
Conceição Silva que, apesar de ter deixado um brilhante legado cultural a esta terra
alentejana, foi alvo de perseguições, só porque era um verdadeiro amante da
liberdade de expressão! A pobreza e os sacrifícios impostos à comunidade foram
bastante duros. O medo da repressão circulava nas ruas da vila. Até Humberto
Delgado, célebre opositor de António de Oliveira Salazar, viveu momentos de aflição,
terror e ansiedade, quando se refugiou nesta vila nos dias iniciais do ano de 1962.
A revolução de 25 de Abril de 1974, que findou toda esta era nefasta do Estado Novo,
foi bem acolhida pela povoação que não hesitou, como veremos, em consagrar
elementos da sua toponímia ao momento em si e aos heróis que zelaram pela
instituição da democracia, enfrentando com coragem os pilares do antigo regime.
Desde essa data histórica até aos dias de hoje, a freguesia de Vila de Frades conheceu
os seguintes presidentes: Luís Carapeto (1976-1979), Luís Rosa Mendes (1980-1982,
1983-1985, 1986-1989, 1990-1993 e 1994-1997, totalizando 5 mandatos), Inácio Lucas
(1998-2001), Vítor Eira (2001-2005) e Luís Amado (2005-2009, 2009-2013, 2013201789).
Durante todo este período, o sector primário não perdera a sua importância, algo que
ainda hoje poderemos constatar na vila. No censo de 2001, foram introduzidos dados
referentes a 1999, em que a população agrícola atingiria os 50,5 % do total da
povoação. Vila de Frades é mesmo descrita como a freguesia do Concelho da
Vidigueira onde a agricultura conhece percentualmente um peso mais significativo.
Os trabalhos na lavoura constituíam efectivamente uma realidade visível através das
sementeiras, a monda, as ceifas, as debulhas, as podas, a vindima90 e a apanha da
azeitona. Para além do cultivo dos campos pautado pelos mais diversos ritmos, a

89

Data previsível da conclusão do seu terceiro e derradeiro mandato.
Como observaremos mais à frente, a tradição milenar do Vinho de Talha ainda se mantém bem viva
em Vila de Frades.
90

127

pecuária (isto é, a criação de gado) manteve igualmente um peso determinante nesta
terra.

Imagem nº 88 – A paisagem de Vila de Frades é colorida com a presença de diversas
vinhas.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

Nos últimos tempos, determinadas profissões tradicionais destacaram-se em Vila de
Frades. Registamos a presença do barbeiro, carpinteiro, abegão, ferreiro, ferrador,
lojistas, carreiros, funileiro, entre outros artistas que garantiam a satisfação de várias
das necessidades duma comunidade simples e humilde.
A novidade passará a ser agora a terciarização da economia local que agora cede
serviços de extrema importância. No sector da restauração, temos cafés, restaurantes,
tabernas, padarias, queijarias e um pequeno mercado, no qual se vende carne, peixe e
fruta. Encontramos ainda oficinas de reparação automóvel, posto médico, escola
primária, centro de dia, pavilhão de festas, florista, casa mortuária, agência funerária,
papelaria, cabeleireiro, sociedade recreativa…

128

Imagem nº 89 – O Mercado da vila disponibiliza serviços de cafetaria, mercearia,
peixaria e talho. É ainda um lugar de encontro e convívio entre os habitantes.
Foto da minha autoria

No âmbito social, tínhamos uma população que, na generalidade, vivia em habitações
modestas. Apenas uma ou outra família conseguia dispor de meios financeiros para
residir num casarão.
As condições de higiene raramente eram as melhores, e em meados do século XX,
ainda se constatava a ausência de retretes em muitas das habitações, o que forçava as
pessoas a realizarem as suas necessidades nas estrumeiras do quintal ou no campo.
A vida estava longe de ser fácil. O analfabetismo atingiu proporções elevadas nos
últimos séculos, embora tenhamos logicamente um maior número de pessoas
instruídas no presente (pelo menos, frequentadoras do ensino básico) muito graças ao
investimento estatal no ensino que se tornou obrigatório num país que tenciona
alcançar patamares mais risonhos no futuro.

129

Imagem nº 90 – A Escola Primária de Vila de Frades assegura a alfabetização das
camadas mais jovens.
Foto da minha autoria

A povoação usufruía ainda de momentos de lazer, de forma a descomprimir e a relaxar
depois de dias intensos de labor.
Em meados do século XX, existiriam duas associações – a Sociedade dos Ricos
(estabelecida no edifício da actual Sociedade Recreativa União Vilafradense) e a
Sociedade dos Altos (instalada no edifício que hoje corresponde ao Museu da Casa do
Arco) reservadas exclusivamente às entradas de abastados e pobres respectivamente.
Nestes dois espaços, outrora rivais, decorriam bailes, cantes alentejanos, eventos de
convívio social… Em suma, a discriminação em torno da condição social de cada
habitante era ainda motivo de quezílias e intrigas não há muito tempo atrás!
A vila acordava para os dias grandes, nomeadamente o Entrudo, as festas de Verão nas
ermidas e no Almargem, os casamentos, as procissões religiosas, o evento festivo do
mastro, e mais recentemente, as ambiciosas actividades báquicas promovidas nas
edições da Vitifrades que enobrecem o sector do Vinho da Talha.

130

Imagem nº 91 – O actual edifício da Sociedade Recreativa União Vilafradense, outrora
sede das classes mais ricas da vila.
Foto da minha autoria

Imagem nº 92 – A Rota das Adegas no âmbito da Vitifrades 2013, com a presença de
grupos corais alentejanos e inúmeros visitantes.
Foto retirada da Página Oficial da Vitifrades no Facebook
(https://www.facebook.com/pages/VITIFRADES/168954341407)

131

Perduram outros movimentos de associativismo nomeadamente a Sociedade
Recreativa União Vilafradense, Clube de Caçadores Vilafradense, Associação Juvenil de
São Cucufate, o núcleo da BTT, Grupo Desportivo Vilafradense…
Nos últimos anos, Vila de Frades procurou manter o seu estatuto de freguesia,
precavendo-se de qualquer fusão prejudicial aos interesses da comunidade. Para além
deste objectivo devidamente concretizado, as ruínas romanas de São Cucufate,
monumento nacional desde 1947, mantiveram as suas portas abertas para milhares de
turistas nacionais e estrangeiros que as visitam, tecendo rasgados elogios ao legado da
civilização romana na região alentejana.
No dia 10 de Junho de 2014, foi inaugurado o Centro de Leitura dedicado à memória
de Fialho de Almeida (no edifício secular da Casa do Arco, mais concretamente na
fachada já virada para a Praça 25 de Abril), sendo que, para além disso, estuda-se a
eventualidade da criação dum Centro Interpretativo dedicado ao Vinho da Talha, o que
seguramente preservaria uma das pedras basilares inerentes à história e identidade
desta vila.

Referências Consultadas:

CARDOSO, Rui – Invasões Francesas – 200 Anos, Mitos, Histórias e
Protagonistas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011.

Discurso de Homenagem ao Dr. José Luís Poças Leitão Conceição Silva da
autoria de Desidério Elias Lucas do Ó. Sociedade Recreativa União Vilafradense,
Vila de Frades, 28 de Junho de 2008.

http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/, (Portal da Junta de Freguesia de Vila
de Frades que contém inúmeros documentos e informações sobre a
actualidade recente da localidade).

132

5. 2 – Vila de Frades: Capital do Vinho de Talha

A fama do vinho desta terra constitui um fenómeno ancestral visto que as origens
deste produto remontam, pelo menos, ao período romano, no qual já eram utilizadas
talhas e ânforas91 para garantir o seu transporte e armazenamento. O advento das
adegas perdurou até aos nossos dias, e revela uma das principais vertentes
identificativas de Vila de Frades92 que reivindicaria mesmo o título de Capital do Vinho
de Talha, epíteto que não só valoriza a tradição antiga como recorda a qualidade do
vinho que é aqui produzido.
Em meados do século XX (isto é por volta de 1950) viveriam nesta localidade mais de
2 000 habitantes, e de acordo com as estimativas avançadas por Desidério Lucas do Ó,
o número de adegas correspondia aproximadamente a 200. A maior parte era de
pequenas dimensões, enquanto que uma

minoria alcançaria consideráveis

proporções93. De acordo com o mesmo autor já citado, a constituição da Adega
Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito (1960) implicou o fim de uma época de
produção artesanal localizada. Muitas adegas começariam assim a ser desactivadas.
Uma talha possuía, em média, uma capacidade para albergar 40 a 50 almudes94,
constituindo um apetecível cartão-de-visita de Vila de Frades que tem orgulho neste
seu ex-libris. As formas arredondadas, cheias e elegantes destas talhas encantam
muitos daqueles que procuram o fascínio e o exótico na área vinícola. Quebrar uma
talha era sinónimo de elevado prejuízo, sendo que o líquido acidentalmente
derramado seria absorvido por uma dorna que atenuaria as consequências.
Esta velha tradição do vinho de talha tem resistido no Alentejo, traduzindo-se assim
numa imagem de marca desta região. Agora importa detalhar todo o processo vinícola
que seguramente é bem conhecido pelos produtores desta vila.
91

Talvez de menor porte quando comparadas com as actuais.
A título de curiosidade, Duarte Nunes de Leão, em 1610, recordava que no Alentejo havia “vinhos mui
finos, como são os brancos de Beja, os palhetes de Alvito, de Viana, de Villa de Frades (…)”.
93
200 adegas para uma pequena vila parece-nos um número algo exagerado ou excessivo, contudo não
duvidamos da existência duma quantidade assinalável daquelas no passado. Por isso mesmo, confiamos
mais nos números avançados por Luís Carapeto, actual Presidente da Vitifrades, que num colóquio
sobre o “Enoturismo no Concelho da Vidigueira” salientou a existência aproximada de 100 adegas para
Vila de Frades em meados do século XX, número que poderá parecer mais realista.
94
Apesar das variações históricas, cada almude equivale actualmente a 20 litros.
92

133

A vindima, realizada habitualmente no Verão ou Outono95, constituía a grande festa
dos campos de Vila de Frades. Como se tratavam de pequenas parcelas, o trabalho
seria executado por familiares e amigos. Por exemplo, as mulheres assumiam, muitas
vezes, um papel de destaque na concretização desta tarefa.
Nas adegas, descarregavam-se as grandes cestas de uvas doces para caixas,
colocavam-se estas na balança, sacudiam-se as vespas e as abelhas, efectuavam-se
prognósticos quanto à graduação e iniciava-se assim o caminho que culminaria na
prova do primeiro vinho.
As uvas seriam posteriormente pisadas (muito em voga nas eras mais antigas) ou
esmagadas manualmente com a ajuda de uma “ciranda” ou utilizando um moinho
manual. Hoje, os processos são mais rápidos pois existe o recurso a moinhos eléctricos
ou maquinaria mais sofisticada. O “sumo” ou líquido daí extraído é inserido numa
talha96 ou pote. Pesa-se o mosto para se condicionar o grau alcoólico do vinho. Depois
de concluída a fermentação, o processo de feitura do vinho novo está praticamente
terminado.
Durante este processo, é vital que os vasilhames se encontrem em bom estado de
higiene. Utiliza-se ainda um rodo para que, diariamente, se mexa, pelo menos, duas
vezes, todo o conteúdo da talha.
Quanto tudo corre de acordo com o previsto, o vinho já estará pronto para ser
saboreado cerca de 45 dias depois. Através da colocação duma torneira na parte
inferior da talha será garantido o escoamento do vinho novo.
Quando o vinho está feito, é urgente separá-lo da “balsa” (massa) senão perde
qualidade.
De acordo com Desidério Lucas do Ó, o sabor do vinho de talha é especial, caseiro e
puro (praticamente livre de adicionantes químicos). Este é seguramente bom
enquanto novo, mais concretamente na fase do ano em que é produzido, mas perde
qualidade a partir de Março com a chegada dos primeiros calores. Trata-se
indubitavelmente duma paixão forte mas passageira.
Normalmente, na altura do S. Martinho, fazia-se a prova com elevadas expectativas,
dando espaço para o espírito crítico dos mais curiosos.
95
96

Contrapunha-se à apanha da azeitona que decorria no Inverno sob um ambiente de chuva e geada.
Cada adega poderia conter dezenas de talhas (10, 20, 30…).

134

Todo este frenesim chegaria às tabernas da terra. O taberneiro, o célebre profissional
que se encontra por detrás do balcão, assume um papel social relevante, animando e
contando histórias, casos e partidas, o que agrada seguramente aos seus clientes. Ele
enche os copos de vinho daqueles que se deslocam à sua taberna. A qualidade do
vinho aí servido e a relação afectiva com o taberneiro constituem factores decisivos
para atrair clientela a este espaço tradicional.
Em meados do século XX97, existiriam cerca de 20 tabernas em Vila de Frades, número
hoje reduzido a 3.
Ainda a propósito do fenómeno das talhas alentejanas não é demais recordar a
descrição da autoria de Fialho de Almeida que na sua obra Estancias d’Arte e de
Saudade (1921)98 a elas se refere:

“A adega não põe tonéis, e guarda-se o vinho ainda no vasilhame tradicional do velho
Alentejo – explicando melhor, em talhas de barro pesgadas (…) As talhas primitivas
eram de formato pequeno, barrigudas, cómicas, cor de saragoça como frades gordos, e
sem pescoço, apopléticas, de bocal curtíssimo, levando entre vinte e cinco e trinta
almudes. As modernas dobraram, e triplicaram mesmo de capacidade receptora,
envazando-se no gargalo e base, curiosamente, e rebentando até, na época da
fermentação do mosto, com uma relativa galhardia” (ALMEIDA, Fialho de - Estancias
d’Arte e de Saudade, p. 180-181).

Evidentemente, e como já observamos anteriormente, esta tradição do Alentejo
repercutiu-se muito insistentemente em Vila de Frades, tanto que foi organizada para
o efeito a Vitifrades, a grande festa do vinho de talha que se realiza regularmente
naquela terra nos inícios de Dezembro e que já conta com diversas edições. Muitos
eventos são aí promovidos, nomeadamente um concurso de vinhos de talha, algo que
motiva os pequenos produtores para a retoma daquela arte peculiar de produção
vinícola, e até uma rota das adegas, todas elas abertas para receber os visitantes que
desejam adquirir mais conhecimentos sobre este processo.

97
98

Novamente, estamos perante números avançados por Desidério Lucas.
Obra apenas publicada após a morte do autor em questão.

135

Por fim, e realçando ainda mais a apetência de Vila de Frades, intitulada como Capital
do Vinho de Talha, para o fenómeno em questão, destacamos a seguinte quadra que
foi habilmente composta por Joaquim Caeiro (cantador e tocador), sendo a mesma
bastante entoada para orgulho dos seus habitantes:

“Vila de Frades já não tem abades,
Mas tem adegas que são catedrais,
E os seus palhetes são uns brilharetes,
São de beber e chorar por mais99”
(Joaquim Caeiro)

Imagem nº 93 - A Tradição do Vinho da Talha está bem patente no conceituado
Restaurante - O País das Uvas.
Retirada de: http://www.cincotons.com/2010/04/o-pais-das-uvas.html

Referências Consultadas:

Ó, Desidério Lucas do – Vila de Frades - Capital do Vinho de Talha. Sintra:
Colares Editora, [2010]. Livro que ilustra exemplarmente a fama do vinho de
talha nesta localidade.

ALMEIDA, Fialho de – Estancias d’Arte e de Saudade. Lisboa: Livraria Clássica
Editora, 1921.

99

Apenas em jeito de curiosidade, existe outra quadra popular bastante veiculada em Vila de Frades,
embora não esteja directamente relacionada com a temática do vinho: “Vila de Frades é vila, Vidigueira
é uma aldeia, A Cuba são arcos de ouro, Onde o meu amor passeia”.

136

5. 3 - Fialho de Almeida, um escritor conceituado

Vila de Frades teve a honra de ser o berço de um dos melhores escritores nacionais de
todos os tempos. Trata-se de Fialho de Almeida que aí nasceu a 7 de Maio de 1857.
A sua infância foi dura, sem carinhos, sendo que o seu pai, mestre-escola local, lhe
ministrou os ensinamentos primários. Com apenas 9 anos, é matriculado pelo seu
progenitor no Colégio Europeu em Lisboa. A condição económica da sua família
entretanto deteriora-se, resultando na saída de Fialho que deixa o internato e
emprega-se numa botica – A Farmácia do Altinho.
Apesar das dificuldades financeiras, no ano de 1875, retoma os estudos e obterá a sua
formação, realizando o curso em Medicina. Todavia, não seria nesta área que daria
cartas, mas sim na literatura, onde começa a elaborar os escritos que marcariam uma
era na nossa história. A sua actividade jornalística é mesmo intensa.
Desde cedo, frequentara tertúlias e cafés, convivendo assim com a intelectualidade da
época. Conheceu ainda um povo que sofria inúmeras dificuldades e privações.
No ano de 1893, e já com 36 anos, casa-se com Emília Pego, uma senhora abastada
natural de Cuba, o que levou Fialho a residir naquela vila alentejana, onde viveu como
um lavrador remediado. Menos de um ano depois, a sua mulher faleceria, deixando-o
viúvo. Mesmo assim, este erudito não se deixará abater, empreendendo viagens pelo
seu país e estrangeiro.
Em 4 de Março de 1911, acabaria por falecer em Cuba, contando na altura com 53
anos de idade. Encontra-se sepultado nessa vila, mais concretamente num jazigo
encimado por uma escultura que representa dois gatos (alusão directa a uma das
obras mais célebres da sua autoria – Os Gatos).
Em termos de obra e pensamento que nos legou, Fialho de Almeida redigiu vários
contos, artigos e crónicas que seriam publicados em jornais e revistas da época. O seu
testemunho sobre a era turbulenta que marcou a transição da Monarquia
Constitucional para a Primeira República (finais do século XIX – inícios do século XX) é
fundamental para a compreensão desta fase histórica.

137

O seu espírito acerrimamente crítico, independente e rebelde reflectiu-se nos seus
textos. O escritor condenou vários aspectos da sociedade que mereciam a sua
reprovação, denunciou a decadência e a corrupção que grassavam no seu país. A título
de exemplo, repudiou a perdição e os vícios das cidades (o jogo, o parasitismo, o
adultério, a prostituição do corpo e da alma…) e não hesitou em apontar baterias
contra a alta burguesia e a nobreza que se perdiam em universos estagnados ou
putrefactos, o que as conduzia a uma vida fácil assente em falsos valores.
Por outro lado, deixou-nos ideais que jamais serão ignorados. A defesa intransigente
da educação e o combate ao analfabetismo popular constituíram batalhas travadas
por Fialho, de forma a que se pudesse inverter, na altura, o rumo nefasto de Portugal.
Os seus escritos pautavam-se pela modernidade e originalidade, baseando-se, em
muito, nas tendências naturalista100, realista101 e decadentista102. Para além disso,
enriqueceu a língua portuguesa com múltiplos neologismos (novas palavras),
estrangeirismos (vocábulos ou construções de frases de outros idiomas) e expressões
de linguagem popular.
A sua vertente crítica satírica e implacável granjeou-lhe várias inimizades, gerando
mesmo o afastamento de alguns amigos e um maior isolamento na recta final da sua
vida.
Sempre foi fiel à expressão que utilizou no Prefácio de “Os Gatos” para revelar a sua
forma de estar na vida e na literatura:

“Miando pouco, arranhando sempre e não temendo nunca”

Em termos de publicações conhecidas, podemos citar os seguintes livros de ficção:
Contos (1881), A Cidade do Vício (1882), Lisboa Galante (1890), o País das Uvas (1893)
e Aves Migradoras (1921?).

100

O Naturalismo consiste na visão da Natureza a partir do pensamento humano.
O Realismo radica na crítica dos homens. É necessário abandonar o passado tão privilegiado pelos
nacionalistas românticos, de forma a concentrar toda a atenção necessária nos problemas económicos,
políticos e sociais da era actual.
102
O Decadentismo é fruto duma era turbulenta de várias ilusões perdidas. Por outras palavras,
sonhava-se em grande, mas por fim, vivia-se na decepção.
101

138

Ao nível da prosa panfletária de intervenção política e de crítica social, literária e
artística, encontramos igualmente folhetos periódicos da sua autoria: Os Gatos (18891893), Pasquinadas (1890), Vida Irónica (1892), À Esquina (1902) e Barbear, Pentear…
(1911).
Foi colaborador em diversos jornais da época – O Repórter, Diário de Notícias, António
Maria, Pontos nos ii, Novidades, O Dia, O Século, O Contemporâneo, A Luta, Diário
Nacional, e ainda contribuiu para as seguintes revistas: Serões, Ilustração, Ilustração
Portuguesa, Revista de Portugal, Revista Ilustrada, Museu Ilustrado e Brasil-Portugal.
Depois do seu falecimento, foram ainda publicados os volumes Saibam Quantos
(1912), Estâncias d’Arte e de Saudade (1921) e Vida Errante (1925).

Imagem nº 94 - Retrato de Fialho de Almeida.
Retirado de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/, (Portal da Junta de Freguesia de
Vila de Frades).

139

Imagem nº 95 – Busto de Bronze dedicado ao escritor nas Escolas Fialho de Almeida. O
referido busto terá sido construído pelo escultor Diogo de Macedo em 1932.
Recorde-se ainda que Fialho deixara dez contos de reis para assegurar a construção
deste estabelecimento de ensino primário em Vila de Frades103.
Foto da minha autoria

Imagem nº 96 – A Casa onde Fialho de Almeida nasceu encontra-se assinalada por três
lápides de mármore (Largo Dr. José Valentim Fialho de Almeida – Vila de Frades).
Foto da minha autoria

103

A defesa da essência da aprendizagem foi sempre uma das matrizes adoptadas no discurso de Fialho
de Almeida.

140

Imagem nº 97 – Lápide colocada por cima da porta.
Foto da minha autoria

Segue-se a transcrição da 1ª lápide apresentada:

“NESTA CASA NASCEU A 7 DE MAIO DE 1857
DR. JOSÉ VALENTIM FIALHO D’ALMEIDA
ROMANCISTA E PAMPHLETÁRIO
ALÉM DE CRÍTICO ILLUSTRE FOI TAMBÉM O MAIS
FORTE E ORIGINAL PROSADOR DA SUA GERAÇÃO.
FALECEU EM 4 DE MARÇO DE 1911.
À SUA MEMÓRIA SE MANDOU COLOCAR
ESTA LÁPIDE EM 1 DE AGOSTO
DE 1926”

141

Imagem nº 98 – A Segunda Lápide encontra-se ao Lado da Porta e foi colocada no
âmbito das comemorações do 1º Centenário do nascimento do escritor.
Foto da minha autoria

Procedemos agora à transcrição da segunda lápide:

“EM MEMÓRIA
DO
I CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FIALHO D’ALMEIDA
NA CASA ONDE NASCEU O ESCRITOR
E NA PRESENÇA DE
SUA EXCELÊNCIA O SENHOR
MINISTRO DA EDUCAÇÃO NACIONAL
PROFESSOR ENGENHEIRO LEITE PINTO
GOVERNADOR CIVIL DO DISTRITO DE BEJA
E DEMAIS AUTORIDADES
MANDOU AFIXAR ESTA LÁPIDE
O PRESIDENTE DA
CÂMARA MUNICIPAL DA VIDIGUEIRA
7 DE MAIO DE 1957”

142

Imagem nº 99 – Em 2007, foi colocada uma terceira Lápide, na qual pode ler-se:
“COMEMORAÇÕES
DOS 150 ANOS
DO NASCIMENTO
FIALHO DE ALMEIDA
7 DE MAIO DE 2007”
(Foto da minha autoria)

Por fim, é do nosso interesse, abordar parte do conteúdo presente numa das suas
obras que se intitula – O País das Uvas (1893), visto que Fialho chega a fornecer-nos
algumas informações relevantes sobre a sua terra de origem – Vila de Frades.
Este livro é, antes demais, marcado pela sua admiração por Baco (Deus do Vinho e
Teatro)104, por um discurso anti-clerical e pela sua linguagem diversificada, valorizando
o pormenor descritivo.
Exposta esta ligeira contextualização, é altura de transcrever alguns dos parágrafos
que dedicou à sua terra. Em primeiro plano, Fialho de Almeida narra as vivências e
actividades em torno da sua vila, no decurso do período oitocentista, algo que
poderemos facilmente verificar nos três excertos que destacamos em seguida:

104

Fialho apreciava a mitologia antiga.

143

“Velhos Campónios levam os seus alforjes atrás dos jumentos carregados de utensílios,
grandes rapazes trigueiros caminham aos pares, de jaqueta ao ombro e chapéus de
palha grosseira; e dos casebres, agora um, agora outro, toda essa humilde gente vai
saindo, a completar os últimos amanhos da vinha, no intervalo dalguns dias que
medeiam entre a ceifa e a debulha (…) Pela estrada engrossam ranchos, dando bonsdias, trocando chufas, começando cantigas; ceifeiras que requebram a marcha num
dengoso meneio de quadris, moleiros, com as suas récuas de machos, todos cobertos
de farinha, carrejões trazendo espigas das courelas, ou carregando a palha das eiras.”
(ALMEIDA, Fialho de – O País das Uvas, p. 46).

“Os primeiros fumos de almoço saem das chaminés quase a direito; os hortelões
apregoam na rua feijão-verde e pepinos novos: à esquina da Igreja o pregoeiro avisa o
povo que se perdeu a burrinha branca do Pisco, quem a achar deve ir restituí-la a seu
dono. E subitamente a rua anima-se, a grande rua fidalga da vila, que até se chama
“Rua de Lisboa”.” (ALMEIDA, Fialho de – O País das Uvas, p. 47).

“Instalados os pequenos misteres da terreola, acesa a forja, as duas lojas abertas; as
vendas prestes, Chico Boça a postos no seu banco de ferrador. Os sinos da paróquia
dão matinas, e o rapaz do forno manda tender o pão as donas de casa. Sobre uma
égua lázara e pensativa, o moço do leite traz uma bilha de lata à garupa.” (ALMEIDA,
Fialho de – O País das Uvas, p. 47).

Fialho de Almeida deixou-nos ainda informações precisas sobre a principal praça da
vila bem como dos Paços do Concelho que aí se situavam:

“A praça não fica longe da forja. É um quadrilátero de velhos casarões, irregulares de
janelas, irregulares de telhados, cheio de nichos, arcos, frestas, rótulas, gradarias, com
a pedra das cimalhas muito brunida pelos anos, e botaréus de granito toucando os
vértices dos cunhais, atravessados de escudos (…) No fundo da praça, por cima duma
arcaria baixa e primitiva, que se esboroa e amosenda, há uns paços do concelho do
144

século XVII, remendados de cimento por todos os rasgões da muralha, e em cuja frente,
dez janelas profilam a rigidez da sua lúgubre arquitectura, e numa torrela de ogiva um
velho sino parece guardar, na sua atitude ainda atónita, reminiscências dalgum rebate
miguelino.” (ALMEIDA, Fialho de – O País das Uvas, p. 52).

Também a Torre do Relógio não deixa indiferente o escritor:

“E da minha janela eu contemplo ao longe, por cima duma confusão de telhados, a
torre do relógio, vetusta, duma soberba cor caliginosa, em cuja lanterna o sino conta
as horas daquela excruciadora calma alentejana.” (ALMEIDA, Fialho de – O País das
Uvas, p. 57).

Por fim, transmite-nos ainda uma ligeira descrição sobre o Convento de Nossa Senhora
da Assunção, cujo espaço terá presumivelmente servido ainda de modesto cemitério:
“Há porém no sopé daqueles montes um ponto que a velha105 ansiosamente procura. É
o pequenino convento de capuchos que alveja da banda de Vila de Frades, derrocado,
entre oliveiras. Lá corre o muro da cerca, até se perder num grupo de ciprestes.
Naquela cerca, já depois de profanado o conventinho, era antigamente o cemitério: um
cemiteriozinho de aldeia, com malmequeres e figueiras bravas, crânios à solta, e
nenhuma cruz ou mausoléu comemorando a jazida de qualquer”. (ALMEIDA, Fialho de
– O País das Uvas, p. 112)106.

Em jeito de conclusão, podemos afirmar que Fialho de Almeida nunca esquecera a sua
terra natal, revelando determinados pormenores sobre as suas vivências e as históricas
estruturas que a compunham.
A tremenda capacidade que acabaria por revelar no campo da Escrita determinou que
ele fosse mesmo considerado um dos principais eruditos da Literatura Portuguesa na
transição entre os Séculos XIX e XX.
105

Personagem fictícia dum dos contos que incorporam este seu livro – O País das Uvas.
Curiosamente, Fialho de Almeida também parece referir-se a este convento numa outra obra da sua
autoria – Contos (1881). Aí menciona a ruína dos muros da cerca, a presença de uma alta cruz truncada
e de dois ou três arcos dum antigo aqueduto. Os tanques de pedra estariam desconjuntados e secos.
106

145

Imagem nº 100 - Capa do livro – O País das Uvas da autoria de Fialho de Almeida.
Retirada de: http://www.imperdivel.net/435-o-pais-das-uvas.html

Imagem nº 101 – Desenho que ilustra Fialho de Almeida e os seus inseparáveis gatos.
Foto enviada pela Biblioteca Municipal de Cuba, à qual agradecemos a gentileza com
que nos receberam.

146

Referências Consultadas:

ALMEIDA, Fialho de – O País das Uvas. Introd. por Maria da Graça Orge Martins.
Póvoa de Varzim: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, [?].

ALMEIDA, Fialho de – Contos. Porto: Lello & Irmão Editores, 1981
(originalmente publicado em 1881).

RODRIGUES, Maria Inês – Arte, Crítica e Sociedade na Obra de Fialho de
Almeida. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2010.

ESPANCA, Túlio - Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja. Câmara
Municipal da Vidigueira.

Cartaz Biográfico Exposto no Núcleo Museológico da Casa do Arco (Vila de
Frades).

http://www.cmcuba.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=327&Itemid=917,
(Página Oficial da Câmara Municipal de Cuba consultada em 13-01-2014).

147

5.4 – José Luís Conceição Silva, Dinamizador Cultural e Resistente
Anti-Fascista

Outra personalidade célebre conotada intimamente com Vila de Frades foi o Dr. José
Luís Conceição Silva. Apesar de não ter nascido nesta terra, desenvolveu importantes
laços que são recordados pelos actuais habitantes com muita saudade.
José Luís Poças Leitão Conceição Silva nasceria em Lisboa no dia 4 de Julho de 1917.
Era filho de Maria de Jesus e António Tomás da Conceição Silva, ambos possuidores de
um dom para a pintura e desenho.
Em termos nominais, herdou os apelidos do pai “Conceição Silva”, enquanto que os
dois nomes iniciais advinham dos seus dois tios, José e Luís, que tiveram a necessidade
de emigrar para o Brasil.
Um mês logo após o seu nascimento, a sua mãe sentiu a necessidade de regressar a
Vila de Frades, onde detinha propriedades (Almargem, olivais, vinhas e casarão da vila)
e recorreu ao auxílio dum médico da Vidigueira e duma ama de leite de Vila de Frades,
para que o seu filho fosse amamentado107.
Muito pouco tempo depois, talvez nos finais do ano de 1918, retornam novamente a
Lisboa. José Luís Conceição Silva licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Faculdade
de Ciências da Universidade de Lisboa. Frequentou ainda o Curso de Engenheiro
Geógrafo, todavia não o terminou.
O seu apreço por Vila de Frades era enorme, dado que, já quando vivia na capital
portuguesa, não hesitava em passar as férias grandes (Agosto e Setembro) naquela
terra alentejana que reivindicava várias raízes da sua família.
Em Agosto de 1941, decide mesmo abandonar Lisboa para viver na localidade que lhe
proporcionaria os principais momentos da sua vida. Moraria no Almargem108, dedicouse à agricultura e criou imediatamente vários laços de amizade.
Como sabia instrumentalizar o violino, organizou, desde cedo, um grupo de moças e
rapazes que se dedicaram aos eventos musicais e teatrais. Nesse âmbito, conhece

107
108

Tal situação deveu-se ao facto de ter secado o leite à sua mãe.
O Almargem é um dos lugares de Vila de Frades.

148

Celestina Guerra, a mulher da sua vida, com a qual contrairia matrimónio em 18 de
Janeiro de 1959. Deste casamento, sairiam quatro filhos.
Durante cerca de 25 anos residiu no Alentejo109, e em nome da liberdade, opôs-se ao
regime salazarista. Por três vezes110, foi detido pela PIDE (Polícia Internacional e de
Defesa do Estado) mas nunca chegou a ser julgado ou condenado. A perseguição à sua
pessoa era movida de várias formas. A sua situação económica não era estável.
Dentro deste contexto, o Dr. José Luís Conceição Silva não hesitará em aceitar, no ano
de 1967, o convite do Prof. Agostinho da Silva para trabalhar no Brasil enquanto
Director Executivo e Coordenador Substituto do Centro Brasileiro de Estudos
Portugueses111. Assim sendo, este erudito procurará, juntamente com a sua família,
melhores condições de vida naquele país onde passará o resto da sua vida.
Faleceria em Brasília em 28 de Junho de 2011, ao fim de 93 anos de existência. Três
anos antes, em 2008 (Junho), fora homenageado pela Junta de Freguesia de Vila de
Frades que lhe atribuiu uma medalha de mérito e lhe consagrou o nome dum largo
tradicional da localidade. Nas cerimónias, foi representado por um filho seu.

Imagem nº 102 - O Dr. José Luís Conceição Silva, que também fora Professor
Universitário durante a sua vida, e os seus quatro filhos, nos seus primeiros anos em
Brasília.
109

Residiu em Vila de Frades entre 1941 e 1967.
No seu discurso escrito (lido então pelo seu filho Luís Guerra Conceição Silva) no âmbito da
homenagem que lhe fora prestada pela Junta de Freguesia de Vila de Frades, o Dr. José Luís Conceição
Silva menciona que a sua actividade destinada a abordar os problemas políticos resultou “em três
prisões de dois meses”.
111
Durante a sua estadia no Brasil, preocupou-se ainda com os assuntos da produção agro-pecuária. Em
1991, foi demitido do Ministério da Agricultura pelo Presidente Fernando Collor de Mello, mas em 1992,
obteve a aposentadoria do cargo de Professor da Universidade de Brasília, como espécie de amnistia
àqueles que foram perseguidos pela ditadura militar brasileira.
110

149

Retirada de: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=5284, (UNB
Agência)

Em termos de pensamento, José Luís Conceição Silva revelara uma forte admiração
pela liberdade. Influenciado pelo pensamento marxista, defendia a emancipação rural
em Portugal e no Brasil. Procurou ainda interpretar os painéis de Nuno Gonçalves,
pintor lusitano do séc. XV. Zelava ainda pela justiça social no campo, e tentou estreitar
as relações entre Brasil e Portugal. É necessário referir que este sábio não se dedicou
apenas à escrita, mostrando igualmente os seus dotes de matemático, violinista e
tenista.
O professor e amigo José Santiago Naud rematou mesmo a seguinte afirmação
aquando da notícia da sua morte:

“Conceição nunca vai morrer. Para a felicidade de todos, seu pensamento ficará para
sempre”.

Imagem nº 103 - O Largo consagrado ao Dr. José Luís Conceição Silva em Vila de
Frades.
Foto da minha autoria

150

Imagem n º 104 - Placa Toponímica que recorda a sua homenagem.
Foto da minha autoria

Referências Consultadas:

Discurso redigido pelo Dr. José Luís Poças Leitão Conceição Silva, Brasília, Junho
de 2008. Texto posteriormente lido pelo seu filho que o representaria aquando
da sua homenagem pela Junta de Freguesia de Vila de Frades.

Discurso de Homenagem ao Dr. José Luís Poças Leitão Conceição Silva da
autoria de Desidério Elias Lucas do Ó. Sociedade Recreativa União Vilafradense,
Vila de Frades, 28 de Junho de 2008.

http://da.ambaal.pt/noticias/?id=464, (Notícia do Diário do Alentejo).

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=5284, (Texto de
Homenagem da Universidade de Brasília).

http://novaaguia.blogspot.pt/2009/11/homenagem-ao-professor-conceicaosilva.html, (Consultado em: 13-01-2014).

http://seer.bce.unb.br/index.php/participacao/article/view/7708, (Consultado
em: 13-01-2014).

151

5.5 - O Dia em que Humberto Delgado escolheu Vila de Frades
como sítio de refúgio

No ano de 1958, Humberto Delgado candidata-se à Presidência da República,
prometendo demitir António de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho, caso
conseguisse derrotar Américo Tomás, candidato do regime. Todavia, e devido a uma
gigantesca

fraude

eleitoral,

Humberto

Delgado

sai

derrotado,

procurando

posteriormente exílio no Brasil pois as ameaças e represálias contra a sua
personalidade assumiriam maiores proporções. Convencido de que o rumo decadente
do país não poderia ser alterado através de meios pacíficos, promoverá então um
golpe de estado.
Dentro deste contexto, decorreria a célebre tentativa de golpe militar em Beja na
passagem da noite do dia 31 de Dezembro de 1961 para a madrugada de 1 de Janeiro
de 1962. Era uma acção que desafiaria o Estado Novo, incitando à revolta armada. Os
seus mentores procuraram inicialmente tomar de assalto o quartel do Regimento de
Infantaria 3 daquela cidade. O fracasso acompanhou toda esta iniciativa. As forças do
regime salazarista conseguiriam abater dois revoltosos e causar ferimentos graves no
Capitão Varela Gomes (levou com dois tiros à queima roupa) que assumiu a liderança
do assalto. No decurso do tiroteio, sucumbirá igualmente o subsecretário de Estado, o
Coronel-tenente Jaime Filipe da Fonseca, atingido acidentalmente pelos contingentes
governamentais.
Humberto Delgado percorria, em simultâneo, as ruas de Beja, mas não denotava
grandes modificações pois não havia agitação ou efervescência típicas duma revolução
em curso, e por isso, embora desconhecesse ainda o que tinha acontecido no quartel,
já suspeitava do fracasso da revolta. Perante este cenário presumivelmente
comprometedor, decide retirar-se para um lugar mais calmo e seguro. Consigo
estavam ainda Arajaryr Campos, sua secretária, e Adolfo Ayala, outro militante antifascista.
Na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, deslocam-se logo rumo a Vila de Frades, terra
que os acolherá naqueles momentos de aflição e terror. Procuravam a casa do aliado
João Franco Ribeiro. Passaram pela Praça Nova (actualmente denominada de 25 de
152

Abril) e após algumas averiguações, acabam por identificar o edifício em questão que
se localizava nas proximidades da Igreja Matriz112. Mal penetram no interior da casa,
reparam imediatamente que João Franco estava reunido com alguns familiares (era a
passagem de ano!).
O casarão de burguesia rural que os acolheu, nestas horas de receio e ansiedade,
albergava dois pisos e tinha sido construído em 1836. Testemunhas do seu valor eram
as pilastras de estuque nos cunhais, em estilo neo-clássico, os balcões de sacada em
ferro e a refinada sala de jantar (revestida de frescos – pinturas murais que ilustravam
paisagens bucólicas e figuras românticas do reinado de D. Maria II)113.
Durante a sua breve estadia, Humberto Delgado, Adolfo Ayala e Arajaryr Campos terão
aí jantado, enquanto aguardavam as últimas notícias radiofónicas da Emissora
Nacional. Através deste meio, o General tem finalmente conhecimento do malogro da
revolta. As suas suspeitas iniciais eram agora confirmadas.
O medo dominava os aposentos. O próprio casal anfitrião, João Franco Ribeiro e D.
Justina Raminhos, já tinha sentido na pele a repressão do regime. O primeiro, na altura
com 49 anos, era militante do Partido Comunista e já conhecera as prisões de Peniche
e do Aljube desde a juventude. Por seu turno, a D. Justina fora exonerada do cargo de
regente escolar por ser mulher de quem era. Humberto Delgado também temia
evidentemente a chegada da PIDE a qualquer momento.
As luzes estavam desligadas, os ocupantes do edifício andavam em bicos de pés, não
se aproximavam sequer das janelas (mesmo que fechadas!), nunca sairiam para o
quintal, pois nesse caso ficariam visualmente expostos às torres da Igreja já
controladas pela GNR como pontos de observação. Todos os cuidados eram tidos em
conta, de forma a transmitir a sensação de que ninguém estaria em casa.
A polícia efectuou mesmo buscas em Vila de Frades, o que resultou na detenção dum
indivíduo que pertencera à Comissão da Candidatura Nacional Independente e que
possuía uma quinta a quinhentos metros do lugar de refúgio de Humberto Delgado. No
dia seguinte (2 de Janeiro), e a pedido do General Sem Medo, João Franco Ribeiro
112

Para lá chegar, tiveram que descer a Rua de Lisboa.
Humberto Delgado e Arajaryr Campos distorceram propositadamente a descrição do refúgio em Vila
de Frades, transmitindo a ideia de que estiveram numa casa bastante pobre, o que era bastante comum
no Alentejo da época. Tudo não era mais do que um esquema para iludir a PIDE que nunca conseguiria
assim decifrar o casarão de João Franco Ribeiro que lhes tinha prestado um auxílio determinante para
que não fossem então capturados pelas forças afectas a António de Oliveira Salazar.
113

153

encontra uma solução para que os seus ilustres hóspedes pudessem abandonar o
Alentejo, contactando para esse efeito o seu amigo José Fernandes, residente em
Évora, que se comprometeu a transportá-los de carro.
A passagem destes três conceituados opositores ao Estado Novo por Vila de Frades
seria muito efémera.
Adolfo Ayala parte para Lisboa, apanhando o comboio em Cuba. Na noite de 2 para 3
de Janeiro de 1962, Humberto Delgado e Arajaryr Campos despediram-se igualmente
de Vila de Frades, tomaram a estrada de Alvito e seguiram em direcção a Norte, mais
concretamente ao Porto, tendo ainda a oportunidade de visitar outras terras durante
esta viagem clandestina por Portugal que terminaria talvez por volta dos dias 11 e 12
de Janeiro com a chegada a Madrid, onde tomaram voo rumo a Casablanca.
Humberto Delgado e Arajaryr Campos seriam assassinados pela PIDE em 13 de
Fevereiro de 1965, perto da localidade de Villanueva del Fresno (fronteira espanhola).

Imagem nº 105 - O General Humberto Delgado, um dos principais opositores de
Oliveira Salazar.
Retirada de:
http://www.tintafresca.net/_DI/NEWS/5628_29892_Humberto_Delgado.jpg

154

Imagem nº 106 – O Casarão de Vila de Frades (rua de Lisboa) onde Humberto Delgado
e seus companheiros estiveram refugiados.
Foto da minha autoria

Imagem nº 107 – Fachada lateral da Habitação.
Foto da minha autoria

155

Como já pudemos verificar, a povoação vilafradense sofreu bastantes privações
durante a vigência do Estado Novo. A luta pela liberdade causou mesmo dissabores a
alguns habitantes desta terra. A toponímia actual da localidade reflecte a resistência
ao regime (casos da: Praça 25 de Abril, Largo Dr. José Luís Conceição Silva, rua Norton
de Matos, rua General Humberto Delgado, Rua Henrique Galvão…).

Referências Consultadas:

ROSA, Frederico Delgado – Humberto Delgado. Biografia do General Sem
Medo. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008.

Humberto Delgado. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.
[Consult. 2014-01-13]. Disponível em: http://www.infopedia.pt/$humbertodelgado.

156

5.6 – O Museu da Casa do Arco

A história deste edifício secular não é fácil de traçar. Em primeiro lugar, desconhece-se
a sua data de fundação/construção. Apenas sabemos que talvez nos seus primeiros
tempos seria um estabelecimento prisional masculino, como comprova o gradeamento
exterior das janelas do piso inferior114.
Até meados do século XIX, esta propriedade passaria para uma família alentejana
abastada, conhecida pelo nome de Souto Maior.
Nos tempos de vigência do Estado Novo, começou por funcionar aqui uma delegação
da Mocidade Portuguesa (1935-1937), mas logo depois e até à década de 1950, o
edifício foi arrendado à Direcção da Sociedade dos Altos, espaço de convívio social para
as gentes menos endinheiradas da vila. Aqui se organizavam bailes, cantares e
festividades. Recorde-se que, localizada no largo, mesmo ali ao lado, estava presente a
Sociedade dos Ricos115, onde a entrada do povo miúdo não era permitida.
Mais recentemente, realizaram-se obras de beneficiação e adaptação, sendo que o
local foi reaproveitado no sentido de se transformar num Núcleo Museológico que,
conforme já indicamos anteriormente, expõe ao público visitante os artefactos que
foram descobertos durante as escavações arqueológicas realizadas na villa romana de
São Cucufate. Para além disso, o espaço contém ainda uma pequena sala polivalente
que acolhe exposições temporárias sobre variadas temáticas e que pode ainda ser
utilizada enquanto auditório.
Esta construção revela uma invulgaridade do ponto de vista arquitectónico muito
devido ao tal arco que permite a passagem de pessoas e viaturas pela sua zona central
inferior.
Actualmente, a gestão deste espaço é repartida entre a Direcção Regional da Cultura
do Alentejo, o Município da Vidigueira e a Junta de Freguesia de Vila de Frades.

114

Nesses tempos iniciais, a Casa do Arco estaria ainda dependente da autarquia de Vila de Frades, cuja
sede ficava imediatamente nas proximidades. Para além da cadeia pública, funcionariam ainda
alegadamente nesse enorme edifício: os açougues, a casa de ver o peso e o celeiro.
115
O edifício em questão corresponde à actual sede da Sociedade Recreativa União Vilafradense que,
por seu turno, se situa mesmo ao lado da Capela de São Brás.

157

Imagem nº 108 - A Casa do Arco já conheceu várias funcionalidades ao longo da sua
história.
Retirada de:
http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/mod_texto.asp?pag=34335267615248357680
949248

Referências Consultadas:

http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/mod_texto.asp?pag=34335267615248
357680949248, (Texto na Página Oficial da Junta de Freguesia de Vila de
Frades).

Depoimento textual de Luís Rosa, residente em Vila de Frades, que pode ser
visualizado no actual Núcleo Museológico da Casa do Arco, sendo assim exibida
a evolução histórica deste edifício.

158

5.7 – A Casa do Conselheiro Justino Baião Matoso

Na actual rua Poeta João Xavier de Matos, visualizamos um edifício solarengo que
deverá remontar ao século XVIII (ou, em último caso, aos inícios do século XIX!). Tratase da célebre habitação que chegou a acolher, no decurso do século XIX, um
conceituado conselheiro e par do reino (1862) que também chegou a desempenhar as
funções de deputado (1857) e de administrador geral de Beja116. Nas suas
proximidades, existe ainda uma horta que terá pertencido igualmente a esse oficial de
nomeada.
O seu nome é Justino Maximo Baião Matoso (1799-1882). Era filho de Joaquim Matoso
(amigo e protector do célebre poeta João Xavier de Matos, sepultado na Igreja Matriz
de Vila de Frades) e de Maria Vitória, e deveria ser natural de Vila Nova da Baronia
(Concelho de Alvito).
Em 1825, terá contraído matrimónio com Maria José Pessanha. Deixou uma filha Maria Luísa Infante Baião Matoso que se casaria com Tristão Guedes Correia de
Queiroz, 1º marquês da Foz.
Justino Matoso teria ainda pertencido aos Cavaleiros da Ordem de Nossa Senhora da
Conceição de Vila Viçosa a partir de 1837.
Faleceria presumivelmente em Vila de Frades a 29 de Junho de 1882, e encontra-se
sepultado num mausoléu do cemitério público da localidade. Refira-se que a sua
sepultura chegou a ser posteriormente vandalizada por gente sem escrúpulos e
respeito pela dignidade humana. Mesmo assim, o seu jazigo detém características que
atestam a sua especificidade.
Sobre a Casa do Conselheiro, consideramos pertinente o seguinte excerto da obra de
Fialho de Almeida que procede à sua caracterização:

"A Casa do fidalgo ficava no outro extremo da vila, isolada dos casebres por uma
alameda de freixos enormes. À roda era a horta, e por detrás dos laranjais, o olival sem
fim. (...) A casa do conselheiro mal aparecia ao fundo, com a sua linha de grandes
116

Foi ainda presidente da Câmara de Vila de Frades (1841-1842), juiz da paz e conselheiro municipal.

159

janelas morgadias, cujas pesadas cimalhas avultavam numa faixa confusa de granito"
(ALMEIDA, Fialho de - Contos, p. 111).

A habitação conta actualmente com nove varandas (ou balcões de sacada!), 3 portas
de cor verde, e um portal com grades encimado por um azulejo interessante de Nossa
Senhora das Dores. Pelo que apuramos ainda, a fachada é composta por alvenaria
caiada de branco, destacando-se ainda frontões estilizados e urnas decorativas. O
edifício parece incorporar ainda árvores seculares, e um velho tanque de pedra
circular, detendo uma taça de repuxo com elementos naturalistas. Poderá ser ainda
portador dum importante espólio, em termos de mobiliário e de peças de arte. Numa
das dependências altas, existe a capela familiar, fechada com portas de talha
exemplarmente esculpidas.
Recorde-se ainda que foi neste edifício que se achou uma janela manuelina (cujas
origens desconhecemos) e que seria (re)colocada mais recentemente junto à Torre de
Menagem que hoje testemunha a existência dum antigo castelo, cujos paços foram
habitados pelos Gamas, condes da Vidigueira.

Imagem nº 109 - A histórica Casa do Conselheiro alberga nove balcões de sacada, três
portas verdes e várias janelas.
Foto da minha autoria
160

Imagem nº 110 - O portal gradeado, encimado pelo azulejo de Nossa Senhora das
Dores e por frontões.
Foto da minha autoria

Imagem nº 111 - O Mausoléu onde estão sepultados os restos mortais de Justino
Maximo Baião Matoso. O jazigo destaca-se pela presença de dois anjos esculpidos que
veiculam a seguinte inscrição:

161

"JAZIGO DE FAMILIA DO CONCELHEIRO E PAR DO REINO JUSTINO MAXIMO MATOUZO
BAIAO"

No canto inferior esquerdo, pode ler-se uma segunda inscrição:

"FEITO NA OFFICINA DE SEVERIANO J. D ABREU AOS PAULISTAS EM LISBOA 90 92"

Nota extra - Cremos que o actual cemitério público de Vila de Frades, situado junto à
actual estrada que segue em direcção a Alvito, deverá remontar ao século XIX, até
porque não conseguimos detectar jazigos mais antigos (embora não tenhamos
usufruído da oportunidade de ler a datação de todas as lápides que se encontravam
nas sepulturas). Contudo, não descartamos ainda de todo que o mesmo tivesse sido
criado no século XVIII, embora mantenhamos as nossas dúvidas (estamos mais
inclinados para uma criação deste no século XIX, porém no passado, talvez o cemitério
se localizasse noutro espaço da antiga vila e não nos podemos esquecer que muitos
dos restos mortais eram anteriormente depositados nos templos cristãos ou no seu
redor). Certo é que se trata dum cemitério pequeno, embora esteja previsto o seu
alargamento. Para além disto tudo, encontra-se ainda dotado dum pequeno parque de
estacionamento.

Imagem nº 112 - O Cemitério Público de Vila de Frades. (Foto da minha autoria)
162

Referências Consultadas:

ALMEIDA, Fialho de

- Contos. Porto: Lello & Irmão-Editores, 1981

(originalmente publicado em 1881).

ESPANCA, Túlio - Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

PESSANHA, José Benedito - Os almirantes Pessanhas e sua descendência. Porto:
Imprensa Portuguesa, 1923.

Diário do governo: 1822, Edições 152-230, ver p. 1446. Digitalizado
integralmente no Google Books.

http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=104374, (Consultado em 29-012014).

163

5. 8 - A Rivalidade Histórica entre Vila de Frades e
Vidigueira

Separadas apenas por cerca de dois quilómetros, perdura entre as povoações de Vila
de Frades e Vidigueira uma rivalidade bairrista que, apesar de agora se revelar
parcialmente esvanecida, terá atingido contornos mais expressivos no passado.
Seguramente houve laços de proximidade que as uniram ao longo dos tempos, mas
não convém esquecer que ambas as localidades foram sedes de Município durante
alguns séculos. Ambas receberam o seu próprio foral, e chegaram a ter um número de
habitantes minimamente considerável para aquilo que era a realidade alentejana117.
Em 1854, o concelho de Vila de Frades, que chegara inclusive a albergar Vila Alva, é
extinto, passando a freguesia vilafradense a incorporar os domínios do Município da
Vidigueira, enquanto Vila Alva seria foi integrada no Concelho de Cuba.
Cremos que o desaparecimento do Município primitivo e a sua consequente anexação
à vizinha Vidigueira não deverá ter sido bem digerido na altura por parte de alguns dos
seus habitantes.
Infelizmente, não recolhemos testemunhos referentes ao século XIX, mas ouvimos
algumas das pessoas mais idosas que desde a sua juventude revelaram factos curiosos,
e por vezes, engraçados sobre essa forma de bairrismo.
Evidentemente, cada habitante defendia as virtudes da sua vila, e não hesitaria em
colocar os maiores defeitos na povoação vizinha. Houve mesmo quem referisse
situações mais radicais que irremediavelmente terminaram à pedrada.
De acordo com a tradição oral, os vidigueirenses utilizam a alcunha depreciativa de
“farrapeiros118” para se referirem aos seus vizinhos vilafradenses, enquanto que estes
últimos apelidavam os primeiros de “larga o osso”, já que os vidigueirenses

117

A propósito de Vila de Frades, convém assinalar que estavam registados 2877 habitantes no ano de
1849, um número que contrasta radicalmente com os 928 residentes verificados em 2011.
118
Tal designação poderá dever-se aos frades capuchos que usavam vestes modestas e percorriam
assim as ruas da vila. Curiosamente, Soeiro de Brito, em 1938, exibia um ditado popular sobre a
localidade – “Vila de Frades, Vila de farrapos: cinco réis de agulhas, e dez réis de trapos”.

164

demonstraram uma forte oposição à trasladação das ossadas de Vasco da Gama para
Lisboa119.
Curiosamente, também os vilafradenses são adjectivados, por vezes, de “orelhudos”,
enquanto que os da Vidigueira são vistos como “vaidosos”. São outras alcunhas pouco
dóceis que por aí se escutam, embora em menor voga do que as anteriores.
Como meio fundamental de passagem e de contacto entre as duas terras, a Ponte
estabelecida sobre a Ribeira do Freixo120 (marco natural delimitador) não é
reivindicada por nenhuma das povoações. Aliás, esta construção cai mesmo no
descrédito, dado que os vilafradenses atribuem a sua pertença aos vidigueirenses, e
vice-versa. A ponte é pois um dos motivos de discórdia entre as duas comunidades,
talvez porque não desejam recorrer à mesma para entrar na vizinhança que, por vezes,
tanto desdenham…

Imagem nº 113 - A ponte que ninguém quer reivindicar e que faz a ligação entre
Vidigueira e Vila de Frades.
Foto da minha autoria
119

Na actualidade, ainda há quem acredite no mito de que os restos mortais de Vasco da Gama (exímio
navegador que, em 1498, descobriu a rota marítima para a Índia, e mais tarde recompensado com o
título de conde da Vidigueira entre 1519-1524) nunca chegaram a ser trasladados para o Mosteiro dos
Jerónimos em Lisboa. Segundo os defensores de tal tese, deverá ter existido um enorme equívoco e
confusão na transferência das ditas ossadas, contudo José Palma Caetano, na monografia que realizou
sobre a Vidigueira, esclarece-nos que tais rumores não deverão corresponder à realidade dos factos.
120
Curso de Água que nasce na Serra do Mendro, separa as localidades de Vidigueira e Vila de Frades, e
que segue até à Ribeira de Odearce.

165

Imagem nº 114 – A Ribeira do Freixo passa por debaixo dessa ponte, revelando-se
como o limite natural de ambas as freguesias.
Foto da minha autoria

Nos dias de hoje, o espírito de rivalidade já não é assim tão evidente e nem sequer
assume larga relevância, até porque nos últimos anos reforçaram-se os laços para que
estas duas terras possam, em conjunto e harmonia, crescer rumo a um futuro
próspero. Aliás, há muitas plataformas e causas que decerto as unirão.
Por exemplo, Vila de Frades reivindica ser a Capital Portuguesa do Vinho da Talha,
enquanto a Vidigueira teve a honra de alcançar o estatuto de Cidade Portuguesa do
Vinho de 2013. Através destas duas designações bastante veiculadas pelos seus
habitantes, a região chama à atenção dos demais portugueses e estrangeiros para que
venham conhecer a invejável tradição vinícola que interfere consideravelmente na
composição paisagística da região.

Referências Consultadas:

Ó, Desidério Lucas do – Vila de Frades - Capital do Vinho de Talha. Sintra:
Colares Editora, [2010].

http://www.cm-vidigueira.pt/conhecer/guadiana, (Consultado em 13/04/2014)
166

5.9 – O Brasão e a sua Simbologia

Imagem nº 115 - O Brasão de Vila de Frades
Retirada de: http://www.ngw.nl/heraldrywiki/index.php?title=Vila_de_Frades

Na hiperligação citada em cima, e cujos direitos de autor pertencem à Página Heraldry
of the World, temos acesso a uma descrição bastante interessante sobre este brasão, a
qual passamos a citar:

“Escudo de prata, com uma videira de verde, arrancada e folhada do mesmo e frutada
de púrpura; em ponto de honra o emblema antigo dos beneditinos, de vermelho; em
chefe três laranjas de sua cor, folhadas de verde e nos flancos duas espigas de trigo,
com os pés passados em aspa, em campanha. Coroa mural de prata de quatro torres.
Listel branco, com a legenda a negro, em maiúsculas : “ VILA DE FRADES “.”

Tendo em conta a configuração deste brasão, podemos abordar a sua simbologia. Em
primeiro lugar, é evidente que a produção histórica da localidade em torno do vinho,
da laranja e do trigo são devidamente retratados. Neste âmbito em concreto,
encontramos uma videira, três laranjas e duas espigas de trigo. A gastronomia deste
lugar sempre teve uma conotação estreita com estes produtos, ao longo dos tempos.

167

O emblema antigo dos beneditinos, a vermelho, recordará a eventual presença de
monges no decurso da Alta Idade Média através da criação duma igreja monástica
visigótica num dos espaços da antiga villa romana. Houve ainda uma ermida (hoje
desaparecida) na vila dedicada a São Bento, e a imagem desta personalidade
inspiradora dos regulamentos monásticos, encontra-se ainda, a título de exemplo,
retratada nas paredes da Capela de São Tiago. A tradição religiosa da localidade sai
claramente reforçada neste brasão, visto que a mesma possui um número
considerável de templos cristãos.
Por fim, a coroa mural de prata de quatro torres invoca o estatuto de vila121, detentora
duma ancestralidade peculiar.
Este brasão demonstra uma simbologia histórica, fornecendo mesmo uma identidade
específica muito válida para a Freguesia de Vila de Frades.

´
Imagem nº 116 – O Brasão presente na actual Junta de Freguesia.
Foto da minha autoria

121

Confessamos que a identificação do estatuto actual de Vila de Frades constituiu um dos principais
dilemas que acompanhou o nosso estudo. Na Época Medieval e na Idade Moderna, Vila de Frades
chegou a ostentar o estatuto de vila e de sede de município, contudo hoje muitos arguem que se trata
apenas de uma freguesia, ou na linguagem comum, de uma aldeia. Não nos foi possível esclarecer
cabalmente essa problemática. Todavia, a configuração do seu Brasão, com a presença de 4 torres,
parece-nos ser argumento suficiente para considerar a localidade como vila, embora não tenhamos
visualizado o seu nome nas listagens conhecidas de vilas portuguesas. Outro motivo que nos levou a
enveredar pela designação de vila está relacionado com o facto de outros autores contemporâneos
terem também recorrido a tal identificação. Por outro lado, os vilafradenses sempre apreciaram essa
designação, de considerável importância, que faz jus ao seu passado histórico.

168

Referências Consultadas:

http://www.ngw.nl/heraldrywiki/index.php?title=Vila_de_Frades, (Consultado
em: 28-10-2013).

http://www.cm-vidigueira.pt/municipio/vilafrades, (Consultado em 28-102013).

169

6- Conclusão

Vila de Frades é uma terra alentejana que se singulariza através do legado romano
(assente nas monumentais ruínas romanas de São Cucufate), da essência do vinho de
talha, da genialidade de Fialho de Almeida e da tradição religiosa baseada nas igrejas,
capelas e ermidas cristãs que albergou ao longo da sua história e cujos frescos se
manifestam como um memorável cartão-de-visita.
A paisagem envolvente, coroada com aqueles verdejantes outeiros ou montes, confere
à vila uma harmonia perfeita.
Para além da herança cultural de Fialho (escritor e crítico da conjuntura do seu tempo),
é necessário destacar outros eruditos ou personalidades marcantes que passaram por
esta terra nas mais variadas eras: João Xavier de Matos (poeta), Justino Baião Matoso
(conselheiro e deputado), José Luís Conceição Silva (dinamizador cultural e resistente
anti-fascista), Cristo Fragoso (Professor primário122), Alfredo da Silva (médico), António
Pilrito (músico e compositor), Sebastião Miguinhas (Chefe do Grupo Coral Vozes do
Alentejo), José Luís Gordo (poeta), Eunice Muñoz (actriz de referência de teatro,
televisão e cinema123), Maria Antónia Espadinha (Professora e Coordenadora do
Centro de Avaliação do Português como Língua Estrangeira na Universidade de
Macau), entre outros.
Histórica foi ainda a instituição medieval do Concelho de Vila de Frades, prova
suficiente de que esta povoação alcançou índices de notoriedade superiores no
passado. O seu estatuto municipal percorreu seguramente toda a Época Moderna
(sécs. XV-XVIII), cessando depois no ano de 1854, altura em que a vila passa a integrar
o Município da Vidigueira.
A resistência ao regime do Estado Novo (1933-1974) foi outro dado histórico que
conheceu igualmente repercussões na povoação.

122

Trata-se do primeiro mestre que assegurou o ensino público nas escolas da vila, após a implantação
da Primeira República.
123
Embora natural da Amareleja, esta actriz, vencedora de prestigiantes globos de ouro, terá passado
boa parte da sua infância em Vila de Frades.

170

Vila de Frades preserva ainda a memória desses tempos mais recuados, mediante a
presença de habitações setecentistas e oitocentistas, reforçando assim o orgulho dos
seus moradores nas origens da terra.
Ainda a propósito das casas observadas, evidentemente teria que destacar a
arquitectura de construção tipicamente alentejana, com a presença das barras azuis e
amarelas que acabam por colorir parcialmente as moradias tendencialmente
branquinhas.
Estas são seguramente algumas das características desta freguesia cujo orago é ainda
São Cucufate, sim aquele mártir cristão degolado pelos romanos na Catalunha nos
inícios do séc. IV, e que já havia sido adorado pelos monges beneditinos (caso estes
tenham efectivamente professado no período visigótico) e crúzios (a partir de meados
do séc. XIII) que se estabeleceram no antigo casarão da villa romana.
Actualmente, a vila padece duma grave “doença”, mais concretamente a da
Desertificação. Não há condições propícias para que a juventude encontre boas
oportunidades de emprego no interior do país, cada vez mais só e abandonado,
apenas tutelado por uma camada populacional maioritariamente envelhecida.
Muitas vezes, observamos naquela paragem de autocarros situada praticamente no
início da Rua de Lisboa (para quem vem do lado da Vidigueira), quase em frente à sede
de freguesia de Vila de Frades e junto ao actual Centro de Dia, a presença de algumas
pessoas de avançada idade que aí se sentam no banco comprido aí exposto, não para
solicitar transporte rumo a um lugar mais vívido ou alegre, mas apenas para recordar
um tempo que já não volta, pois este passou impiedosamente depressa. Este cenário
conjuga com a realidade que acabamos de descrever, uma vila com inúmeros tiques de
aldeia, cada vez mais parada, resignada e sacrificada pelo retrocesso do qual o interior
é a “vítima preferencial” desde as últimas décadas que não têm poupado a região
alentejana, desprovida do dinamismo e da criatividade da juventude que ruma aos
grandes polos urbanos, procurando melhores condições de vida.
Esperemos sinceramente que, um dia mais tarde, este cenário adverso seja modificado
para que assim possamos devolver a grandeza que é seguramente devida a esta vila.
Por fim, e antes de proceder à apresentação do apêndice documental, não poderia
deixar de tecer uma derradeira consideração sobre este projecto que realizei por
iniciativa própria.
171

Ao longo deste ano de estágio, desenvolvi então um humilde esboço de cariz
monográfico, como gesto de agradecimento à povoação que me acolheu com
hospitalidade e carinho no decurso desses 365 dias harmoniosos e sorridentes que
também rapidamente expiraram, o que gerará, claramente no futuro, uma enorme
saudade da minha parte.
Obviamente, tive de realizar outras tarefas no âmbito da promoção histórica e turística
das Ruínas Romanas de São Cucufate e do Núcleo Museológico da Casa do Arco, e por
causa disso, nem sempre obtive total disponibilidade para que pudesse consultar
todos os documentos respectivos a Vila de Frades. Mesmo assim, efectuei alguma
investigação, o que se traduziu na elaboração deste estudo. O objectivo do mesmo
pretende somente criar debate em torno da história desta localidade, e estimulando a
publicação futura de novas obras, teses ou artigos sobre esta terra pitoresca, cuja
pujança cultural é digna de poder inspirar qualquer vulto da literatura.

Imagem nº 117 - A vila é circundada por outeiros e elevações e pauta-se pela sua
ilustre história e paisagem envolvente.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

172

7- Fontes

ALMEIDA, Fialho de – Contos. Porto: Lello & Irmão Editores, 1981
(originalmente publicado em 1881).

ALMEIDA, Fialho de – Estancias d’Arte e de Saudade. Lisboa: Livraria Clássica
Editora, 1921.

ALMEIDA, Fialho de – Os Gatos. 6ª ed. 6 vols. Lisboa: Liv. Clássica Editora, 1927
(a edição original foi publicada entre os anos de 1889 a 1894).

ALMEIDA, Fialho de – O País das Uvas. Introd. por Maria da Graça Orge
Martins. Póvoa de Varzim: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, [1893].

ARAGÃO, Augusto Teixeira de – D. Vasco da Gama e a Villa da Vidigueira.
Lisboa: Typographia Universal, 1871.

BRITO, J. M. Soeiro de – Ditados tópicos alentejanos. Elvas: Tipografia
Progresso, 1938.

CARDOSO, Jorge – Agiologio Luzitano dos Sanctos e Varoens Illustres em virtude
do Reino de Portugal e suas conquistas. Tomo II. Lisboa, 1657.

COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza (…). Tomo II. Lisboa:
Oficina de Valentim da Costa Deslandes, 1708.

Diário do governo: 1822, Edições 152-230. Digitalizado integralmente no
Google Books.

FLOREZ, ENRIQUE; RISCO, Manuel - España Sagrada. Tomo XXIX. 2ª Ed. Madrid:
Real Academia da História, 1839 [1ª edição é de 1775].

LEÃO, Duarte Nunes de – Descrição do Reino de Portugal. Lisboa, 1610.

LEAL, Augusto Soares de Pinho – Portugal Antigo e Moderno. Vol. XI. Lisboa:
Livraria Editora de Tavares Cardoso & Irmão, 1886.

Livros de Actas Camarárias de Vila de Frades (1837-1853). 6 vols. Conservados
no Arquivo Municipal da Vidigueira.

Livro dos Forais Novos entre Tejo e Odiana. [1501-1520]. Leitura Nova. Torre do
Tombo.

Digitalizado

em:

http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4223237.

Preserva os documentos solenes de Vila de Frades e de Estremoz.

173

MATOS, João Xavier de – Rimas de João Xavier de Matos. 3 vols. Lisboa: Régia
Officina Typografica, 1770-1783.

MONFORTE, Manoel de – Chronica da Provincia da Piedade. Lisboa: Oficina de
Miguel Deslandes, 1696.

PERY, Gerardo Augusto de – Estatística Agrícola do Districto de Beja. Vol. IV Concelho de Vidigueira. Lisboa, 1887.

PESSANHA, José Benedito - Os almirantes Pessanhas e sua descendência. Porto:
Imprensa Portuguesa, 1923.

ROSA, Frederico Delgado – Humberto Delgado. Biografia do General Sem
Medo. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008.

TOMÁS, Frei Leão de S. – Benedictina Lusitana. Tomo I. Coimbra, 1644.

VILLA MOURA, Visconde de – Fialho de Almeida. Porto: Edição da Renascença
Portuguesa, 1916.

174

8- Bibliografia

ALARCÃO, Jorge de; ÉTIENNE, Robert; MAYET, Françoise – Les Villas Romaines
de São Cucufate. 2 Vols. Paris: Diffuseur: E. de Boccard, 1990.

ALARCÃO, Jorge de – Portugal Romano. Lisboa: Editorial Verbo, 1974.

ALARCÃO, Jorge de – Roteiros de Arqueologia Portuguesa. Vol 5 – São Cucufate.
IPPAR, 1998.

ALMEIDA, Álvaro; BELO, Duarte (ed.) – Portugal Património. 10 vols. Rio de
Mouro: Círculo de Leitores, 2006124.

ALVES, Ivone Correia – Gamas e Condes da Vidigueira. Percursos e Genealogias.
Lisboa: Edições Colibri, 2001.

BOSISIO, Alfredo – Os Grandes Impérios do Mundo – Os Romanos. Lisboa,
Resomnia Editores, [?].

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º Ed. Beja: Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

CARDOSO, Rui – Invasões Francesas – 200 Anos, Mitos, Histórias e
Protagonistas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011.

COSTA, João Paulo Oliveira – D. Manuel I. Mem Martins: Círculo de Leitores,
2005.

Depoimento textual de Luís Rosa, residente em Vila de Frades, que pode ser
visualizado no actual Núcleo Museológico da Casa do Arco, sendo assim exibida
a evolução anterior deste edifício.

Discurso redigido pelo Dr. José Luís Poças Leitão Conceição Silva, Brasília, Junho
de 2008. Texto posteriormente lido pelo seu filho que o representaria aquando
da sua homenagem pela Junta de Freguesia de Vila de Frades.

Discurso de Homenagem ao Dr. José Luís Poças Leitão Conceição Silva da
autoria de Desidério Elias Lucas do Ó. Sociedade Recreativa União Vilafradense,
Vila de Frades, 28 de Junho de 2008.

124

Vejam-se especificamente os textos assinados pelos colaboradores AF e FMM.

175

DUARTE, Luís Miguel – Os “Forais novos”: uma reforma falhada? in Revista
Portuguesa de História, tomo 36, vol. I, Coimbra: Universidade de Coimbra,
2002/2003.

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

MALAFAIA, E. B. de Ataíde – Pelourinhos Portugueses – tentâmen de inventário
geral. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1997.

MOURA, Abel; CABRITA, Teresa; SERRÃO, Vítor – As Pinturas Murais do
Santuário de São Cucufate. Coimbra: Instituto de Arqueologia da Faculdade de
Letras de Coimbra, 1989.

HENRIQUES, Pedro – Esmoriz – Desde a Idade Média até à Actualidade. Uma
perspectiva sobre os estudos de Aires de Amorim, Esmoriz, 2013. Disponível em:
http://pt.scribd.com/doc/149566930/Esmoriz-Desde-a-Idade-Media-ate-aActualidade.

Ó, Desidério Lucas do – Vila de Frades - Capital do Vinho de Talha. Sintra:
Colares Editora, [2010].

OLEIRO, J. M. Bairrão – Romanização in Dicionário de História de Portugal. Dir.
Joel Serrão. Vol. V. Porto: Livraria Figueirinhas, 1985.

RODRIGUES, Maria Inês – Arte, Crítica e Sociedade na Obra de Fialho de
Almeida. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2010.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal. 3ª Ed. Lisboa: Verbo, 1979.

Textos e Descrições inerentes à Exposição/Galeria Fixa sobre a Villa Romana de
São Cucufate no Museu da Casa do Arco – Vila de Frades.

176

9 – Recursos Electrónicos

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(Artigo

da

autoria

de

Cristiana Gomes, Consultado em 15-09-2013).

http://www.civilizacaoantiga.com/2009/05/invencao-da-escrita.html,
(Consultado em 15-09-2013).

http://www.historiadomundo.com.br/pre-historia/, (Artigo da autoria de
Rainer Sousa, Consultado em 15-09-2013).

http://www.historiadomundo.com.br/idade-antiga/, (Artigo da autoria de
Rainer Sousa, Consultado em 15-09-2013).

http://www.brasilescola.com/historiag/civilizacoes.htm, (Artigo da autoria de
Leandro Carvalho, Consultado em: 15-09-2013).

www.igespar.pt, (DGPC/IGESPAR, Património Imóvel, Portal do Arqueólogo).

www.monumentos.pt, (SIPA).

http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/ , (Portal, Site da Junta de Freguesia de
Vila de Frades).

http://www.cm-vidigueira.pt/, (Site da Câmara Municipal da Vidigueira).

www.infopedia.pt (Infopédia)

http://www.dicionarioinformal.com.br/, (Dicionário Informal).

https://www.facebook.com/villa.sao.cucufate?fref=ts,

(Página

numa

rede

social desenvolvida exemplarmente pelo Dr. Pedro André da Silva que procura
efectuar a reconstituição digital da ancestral villa romana de São Cucufate).

http://maltez.info/aaanetnovabiografia/1200-1249/1232.htm, (Consultado em:
28-10-2013; página da autoria de José Adelino Maltez).

http://monarcas.no.sapo.pt/monarcas/sancho_2.htm, (Consultado em: 28-102013).

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http://www.museusaopedro.org/foral/glossario2.htm, (Consultado em 20-012014).
177

http://www.cm-nisa.pt/foral_nisa.html, (Consultado em 20-01-2014).

http://www.dicio.com.br/sesmaria/, (Consultado em 20-01-2014).

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http://www.folclore-online.com/religiosidade/santos/bras.html,

(Consultado

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https://www.ipbeja.pt/eventos/em.cantos/Documents/vidigueira_3.pdf,
(Consultado em 09-03-2014).

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(Consultado em 09-03-2014).

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http://www.publico.pt/sociedade/noticia/numeros-de-2011-confirmamenvelhecimento-e-desertificacao-do-interior-1598361, (Consultado em 10-032014). Artigo do Jornal O Público da autoria de Catarina Machado.

http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/,

(artigo

da

autoria de Rainer Sousa, Consultado em: 10-03-2014).

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Fontes, Consultado em 10-03-2014).

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http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2961832,

(artigo

electrónico do Diário de Notícias da autoria de Aldara Rodrigues, Consultado
em: 10-03-2014).

178

http://www.cmcuba.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=327&Itemid=917,
(Página Oficial da Câmara Municipal de Cuba consultada em 13-01-2014).

http://da.ambaal.pt/noticias/?id=464, (Notícia do Diário do Alentejo).

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=5284, (Texto de
Homenagem da Universidade de Brasília).

http://novaaguia.blogspot.pt/2009/11/homenagem-ao-professor-conceicaosilva.html, (Consultado em: 13-01-2014).

http://seer.bce.unb.br/index.php/participacao/article/view/7708, (Consultado
em: 13-01-2014).

http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=104374, (Consultado em 29-012014).

http://www.ngw.nl/heraldrywiki/index.php?title=Vila_de_Frades, (Consultado
em: 28-10-2013).

http://aldeagar.blogspot.pt/2007/12/vila-de-frades-seres-do-alentejo.html,
(Consultado em 21-04-2014).

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/vidamos
teiro.htm, (Consultado em 23-05-2014 – Universidade de Lisboa).

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/, (Artigos do blog – O Mensageiro
da Vidigueira, gerido pelo autor deste esboço monográfico).

http://www.ricardocosta.com/artigo/o-deambulatorio-dos-anjos-o-claustrodo-mosteiro-de-sant-cugat-del-valles-barcelona-e-vida, (Consultado em 15-082013; autor: Ricardo Costa/Luiz Jean).

http://www.catedraldealcala.org/index.php?option=com_content&task=view&
id=181&Itemid=0, (Consultado em 15-08-2013).

http://www.santiebeati.it/dettaglio/91568, (Consultado em 15-08-3013; autor:
Antonio Borrelli).

http://www.academiadovinho.com.br/biblioteca/citacoes.htm, (Consultado em
29-11-2013).

http://www.catholic.org/saints/saint.php?saint_id=2778, (Consultado em 2305-2014).
179

http://www.citador.pt/poemas/ja-la-vao-sete-lustros-joao-xavier-de-matos,
(Consultado em 14-01-2014).

http://www.citador.pt/poemas/posse-o-sol-joao-xavier-de-matos, (Consultado
em 14-01-2014).

http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2029/00034286.p
df, (Consultado em: 14-01-2014).

http://viciodapoesia.wordpress.com/2010/01/22/a-longevidade-e-o-peso-daidade-um-poema-de-joao-xavier-de-matos-1789/,

(Consultado

em: 14-01-

2014).

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/xmatos.htm, (Consultado em: 14-012014).

http://dicionario.sensagent.com/conde+da+vidigueira/pt-pt/, (Consultado em:
18/04/2014).

http://www.geneall.net/P/fam_page.php?id=417,

(Consultado

em:

18/04/2014).

180

Anexos

181

Considerações Prévias

O apêndice documental do nosso trabalho será constituído por documentos históricos,
artigos, galeria de imagens e poemas dedicados à terra. Achamos pertinente a
publicação de todo este manancial de informação que seguramente reforçará o
primado histórico desta vila.
Na secção documental, selecionaremos textos antigos de autores consagrados que
seguramente se reportaram a Vila de Frades. Aí destacaremos os testemunhos mais
marcantes. No sumário respectivo, teremos o cuidado de identificar a data e, se
possível, o local onde os mesmos foram redigidos. Para além da transcrição desses
documentos, indicaremos obviamente as suas referências de origem.
Durante o meu ano de estágio, elaborei ainda muitos artigos que publiquei num blog
da minha autoria (O Mensageiro da Vidigueira)125, pelo que decidi efectuar uma
triagem, memorizando aqui aqueles que considerei mais interessantes e cujas
temáticas não foram ainda devidamente versadas ao longo deste trabalho.
Evidentemente, uma terra pitoresca como Vila de Frades proporciona a diversos
fotógrafos a possibilidade de obter imagens magníficas. A beleza natural desta
localidade e dos seus monumentos merece ser ressalvada. Sempre que possível
tentaremos identificar os autores; caso não consigamos, colocaremos, pelo menos, o
endereço electrónico de onde retiramos as imagens.
Por fim, e não menos importante, exibirei os poemas que compus para homenagear
esta vila. Os meus versos são essencialmente livres (isto é, sem qualquer restricção
métrica) e a rima poderá estar presente, embora existam estrofes sem que a mesma
seja visível.

125

Trata-se dum blog de cariz cultural onde se abordavam a história, a etnografia, as tradições e os
eventos culturais das vilas da Vidigueira e Vila de Frades. O mesmo pode ser consultado em:
http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/.

182

Documentos
Históricos

183

Documento nº 1 – A instituição da Paróquia de Vila de Frades em 1255

Local e Data de Produção – Évora, 24 de Junho de 1255

Sumário – Transcrição do documento em latim que estabelece oficialmente a Paróquia
de Vila de Frades e seus limites geográficos, seguida depois duma tradução nossa para
português. É confirmada por parte da Diocese de Évora, a doação do casarão de São
Cucufate ao Mosteiro de S. Vicente de Fora que instaurará aí o seu culto.

“M[artinus] Dei miseracione episcopus, decanus et capitulum Elborensis. Religiosis et
amicis specialbus domno Gonsalvo priori et conventui monasterii Sancti Vincentii
Ulixbone salutem et optate beatitudinis incrementum. Specialis dilectio quam erga vos
et predecessores vestros habuimus et habemus ad faciendum vobis gratiam nos
inducit. Sane cum nuper domnus Alfonsus illustris rex Portugalie accedente consensu
nostro monasterium Sancti Cucufati nuper de faucibus gentilium liberatum cum locis
adjacentibus vobis contulerit nos donacionem ejusdem domini ratam habentes et
firman ad instanciam et preces ejusdem in dicto monasterio ad honorem Sancti
Cucufati martiris ecclesiam edificavimus ymo edificatam invenimus et altare ibidem
ereximus ad honorem et laudem gloriosi martiris Cucufati quod non solum auctoritate
propria fecimus sed nos ad hoc induxit quia a maioribus nostris factum fuisse didicimus
antiquorum fama publica confirmante. Ad locum igitur dicti martiris personaliter
accedentes per multas conjecturas et circunstancias intelleximus sepedictum locum
religiosum antiquitus extitisse et per longas hostilitates et continuas fuisse penitus
devastatum. Et ideo restitucioni seu reparacioni ejusdem prout possumus intendentes
eidem parrochiam assignamus hiis limitibus comprehensam: parrochia Sancti Cucufati
teneat a fonte de Marcabrom qui est juxta viam publicam usque ad aldeam de Cupa
inclusive; deinde usque ad Exaram que est supra Udiarza inclusive; deinde quomodo
vadit ad Serram de Fasquia; deinde quomodo dicta serrra recte vadit ad viam publicam
que est inter Elboram et Begiam; deinde quomodo dicta serre recte ad fontem de
Marcabrom. Hanc autem parrochiam dictis limitibus interclusam assignamus
184

monasterio Sancti Cucufati reservantes nobis pontificalem terciam et procuracionem
annuam cum ad locum personaliter accesserimus. In assignacione autem parrochie non
derogamus consuetudini dioceses Elborensis. Data apud Elboram in festivitate Sancti
Johannis Babtiste. Sub Era MCCLXIII. Et ut hoc in dubium in posterum non veniant
presentes litteras sigillis nostris facimus sigillari quas dictus prior et conventus debeant
ad perpetuam rei memoriam conservare”.

Transcrição retirada de: ALARCÃO, Jorge de; ETIENNE, Robert; MAYET, Françoise – Les
Villas Romaines de São Cucufate. Paris: 1990.

A nossa proposta de tradução:

“Martinho, bispo por Misericórdia Divina, o deão e o capítulo de Évora, aos religiosos e
amigos particulares, ao mestre Gonçalves prior e ao Convento do Mosteiro São Vicente
de Lisboa, a nossa saudação e desejo crescente de felicidade. A afeição particular que
tínhamos e devemos a vós e vossos predecessores nos encoraja a fazer-vos uma graça.
Como recentemente, nosso senhor, Afonso, ilustre rei de Portugal, com nosso
consentimento, concedeu-vos o mosteiro de São Cucufate, recentemente libertado das
garras dos bárbaros ao mesmo tempo que os lugares vizinhos, nós em ratificação e
confirmação da doação deste mesmo senhor, e à sua demanda e orações, nós temos
edificada uma igreja no interior do referido mosteiro, em honra de São Cucufate,
mártir; melhor nós a encontramos edificada e nós erigimos um altar em honra do bemaventurado mártir São Cucufate; e não só fizemos isso em nossa própria autoridade,
mas também porque aprendemos que tinha sido até dos nossos antepassados, o que é
confirmado pela antiga tradição. Portanto, e tornando nós ao lugar do dito mártir,
entendemos por inúmeras conjecturas e circunstâncias que o lugar religioso citado
existiu desde os tempos antigos e tendo sido completamente devastado pelas
hostilidades longas e contínuas. E assim, para sua reparação e restauração, em virtude
de nosso poder e solicitude, atribuímos ao mesmo lugar a paróquia que compreende os
seguintes limites: Que a paróquia de São Cucufate comece na fonte de Mac Abraão, ao
lado da via pública, e que vai até à aldeia de Cuba, inclusivamente. Assim, até ao
185

roçado126, que está acima do Odearça, inclusivamente. Em seguida, ela estende-se à
estrada que está entre Évora e Beja e então, como este caminho, ela vai à serra da
Fasquia (Portel). Depois, como a dita serra, ela vai direito à fonte de Mac Abraão. E nós
atribuímos esta paróquia delimitada pelos referidos limites ao Mosteiro de São
Cucufate127, reservando para nós mesmos a terça pontifical e a procuração anual
quando nós viermos em pessoa. Na atribuição da paróquia, nós não derrogaremos os
costumes da Diocese de Évora.
Dado em Évora, no dia da festa de São João Baptista, no ano de 1293 da era (1255). E
para que no futuro estas cartas não sejam revogadas por dúvida, as selamos com
nossos selos, de modo que os ditos prior e convento devem conservá-las para manter a
lembrança perpétua”.

126

O roçado é um terreno que se roçou para ser cultivado.
É curioso constatar que a Paróquia de São Cucufate não se estenderia muito rumo a nascente, já que
possivelmente existiria a Paróquia autónoma de Santa Clara, da Vidigueira.
127

186

Documento nº 2 – O Foral Manuelino de 1512

Local e Data de Produção: Lisboa, 1 de Junho de 1512

Sumário: Manuscrito confirmado por el-rei D. Manuel I que estabelece os direitos
económicos sobre a vila, e firma ainda sanções no âmbito judicial.

“Foral de Villa de Frades. Dado pollo moesteiro de Sam Vicente de Fora da cidade de
Lixboa.
Dom Manuel, etc.
Pagarsseá primeiramente na dita villa por direito real o dizimo de todo o pam vynho
que se colher na dita villa e termo. E assy linho y azeite y legumes desta maneira a
saber: o pam na eira, y os legumes e o vinho a bica, e o azeite e o linho e tinta no
tendal. E pagarsseá o dito dizimo nesta maneira a saber: de dez pagam huum de
dizimo a Deos y ajutam os nove que ficam com huum mais y daquelles dez pagam
huum ao senhorio. E das fruytas y ortalliça nem doutras cousas semelhantes se nom
paga ninhuum direito ao senhorio salvo da fruyta que soomente venderem y nam da
outra que ham ou comerem.
E posto no foral antigo da dita villa senom mandasse pagar o dizimo do azeite e fossem
reservados aos fornos de cozer pam e pera o senhorio prouve ao dito conçelho de fazer
a dita composição do dito dizimo do azeite pollos fornos os quaaes o dito conçelho
sempre terá como ora tevessem. Nos nem outrem em nosso nome lhos poder
contrariar nem tomar e per esse respeito pagarão por direito real o dito dizimo do
azeite daqui adiante como agora pagavam sem outra emnovaçam.
E pagasse mais na dita villa outro direito que chamam sesmarias a saber: qualquer
pessoa que toma sesmaria inteira dada pello almoxeriffe paga mais alem do dito
dizimo dous alqueires de triguo y huum capam y dez ovos. E a dita sesmaria sam
hordenadas as terras que had’aver assi per cantidade como per callidade de que se
deve de pagar o dito foro segundo a todos he pubricamente manifesto y assi se
cumpra. E as sesmarias antigas posto que ora sejam repartidas per muitas pessoas
187

nam pagaram porem as taaes pessoas todas juntas mais que o dito foro que foy
imposto à primeira sesmaria. E alguuns tomam ora tam pequenas sesmarias que nom
pagam o dito foro inteiro mas menos delle segundo se com ho almoxeriffe conçertam
pollo qual conçerto y afforamento pagaram os sobredictos y nam mais posto que nom
chegue a contya das taaes sesmarias ao foro inteiro.
E ha huum regemgo na dita villa que chamam regemgo. E pagam os lavradores y
senhorios delle de cinquo huum do que nelle colhem. E a propriedade he sua delles
mesmo y nam do senhorio com o dito foro de cinquo huum sem mais outro.
E pagarão mais todollos moradores da dita villa y termo a querentena do dinheiro de
toda a soma quando venderem os beens que tiverem no dito lugar de raiz sem mais
serem obrigados de requerer o senhorio quando os quiserem vender.
Os tabaliaaes que [servem] a dita villa nom pagam ninhua penssam por quanto servem
na Vidigeira com ho Almoxeriffe.
E nam se levara nem pagara na dita villa nem termo nyhun outro direito foro nem
tributo assy aos moradores da dita terra como os estrangeiros per qualquer nome que
possam teer por quanto na dita villa foy ora dito y conffessado per juramento assi
pellos offiçiaaes dos direitos reais como per todollos moradores da dita terra que nom
avia hy memoria que outros direitos hy se pagassem nem requeressem. E per
consseguinte se nom levou nunca hy nem levará portagem nem husagem costumagem
de qualquer nome que a possam chamar.
E o gaado do vento y a pena d’arma y a pena do foral como Estremoz, tirando
soomente na pena de arma que nam se pagara mais que duzentos reáis y arma
perdida.
Dada na cidade de Lixboa ao primeiro dia do mês de Junho do anno do naçimento de
nosso Senhor Jhesus Christo de mil y quinhentos y xii. E vay escripto ho original em
quatro folhas y sete regras y mea soo scripto y assynado pollo dito Fernam de Pyna”.

Retirado de: Livro dos Forais Novos de Entre Tejo e Odiana. [1501-1520]. Digitalizado
em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4223237, Site da Direcção Geral de
Arquivos/ Torre do Tombo. Existe ainda uma proposta em transcrição em:
http://www.bdalentejo.net/BDAObra/obras/105/BlocosPDF/bloco09-75_82.pdf,
(Consultado em: 22-04-2014).
188

Documento nº 3 – Descrição Sucinta de Vila de Frades pelo Padre António Carvalho
da Costa

Local e Data de Produção: Lisboa, 1708

Sumário: Caracterização breve da vila nos inícios do século XVIII, com referência aos
senhores nobiliárquicos, à quantificação demográfica da comunidade, aos templos
cristãos, à importância do seu vinho e aos oficiais concelhios de Vila de Frades.

“Meya legoa da Vidigueira para o Poente, em lugar alto está situada a Villa de Frades,
de que são senhores os Marquezes de Niza. Tem 800 visinhos com huma Igreja
Parroquial, Priorado, que apresentão os Conegos Regrantes de S. Vicente de Fora de
Lisboa, os quaes derão foral a esta villa, e o confirmou depois el-rey D. Manoel em
Lisboa o primeiro de Junho de 1512. Tem mais Casa de Misericórdia, huma ermida do
Espírito Santo, e outra de Santo António dos Assores (assim chamada por causa de
hum, que se perdeo, o qual se achou em hum outeiro, que dista da Villa hum quarto de
legoa) a qual mandou fazer o Conde da Vidigueira pela promessa, que tinha feito ao
Santo, se lhe aparecesse o assor. He esta villa abundante de excellentes vinhos, e caça,
e tem meya legoa distante huma Ermida de Santiago, obra antiga, que dizem ser
fundação dos Mouros128, a qual está toda cercada de vinhas. Tem dous Juízes
Ordinários, Vereadores, hum Procurador do Concelho, Escrivão da Camera, que o he
também da Vidigueira, hum Tabellião do Judicial, e Notas, e mais officiaes”.

Excerto retirado de: COSTA, António Carvalho da – Corografia Portugueza (…). Tomo II.
Lisboa: Officina Valentim da Costa Deslandes, 1708.
(Digitalizado no Google Books)

128

Durante muito tempo, se suspeitou que as monumentais ruínas corresponderiam ao solar de um
importante senhor muçulmano. Até Fialho de Almeida chegou a alimentar tal hipótese, mas as
escavações arqueológicas das últimas décadas comprovaram que se tratava antes duma ancestral villa
romana.

189

Documento nº 4 – Vida e Martírio de São Cucufate na colectânea “España Sagrada”

Local e Data de Produção: Madrid, 1775

Sumário: As vidas cristãs de São Cucufate e São Félix (pregadores provenientes do
Norte de África) que culminariam com o martírio em terras hispânicas. Roma não
tolerava ainda as práticas cristãs, seguindo então um sistema de crenças politeístas.

“Santos da Diocese de Barcelona – Vida e Martírio de São Cucufate. 25 de Julho. Sua
pátria e vinda desde África a Barcelona.”

“Para além de outros santos naturais com que Deus enobreceu nossa nação, trago de
fora outros que, não sendo espanhóis por pátria, se naturalizaram pelo nascimento
para o céu. Tais são os dois gloriosos santos Cucufate e Félix, africanos, mas trazidos a
Espanha, para esmaltar a Catalunha com seu sangue.
Nasceram na cidade Scilitana129 (famosa pelos doze mártires, que por ela se intitulam
“escilitanos”, celebrados pela Igreja em 17 de Julho). Eram de pais nobres e abastados,
que cuidaram de instruí-los em letras, que nesta ocasião floresciam em Cesarea130,
cidade da Mauritânia, intitulada por ela “Cesariense”, e situada onde hoje é Argel. Ali
foram estudar Cucufate e Félix, e ali ouviram sobre a perseguição movida no Oriente
pelos imperadores Diocleciano e Maximiano contra os cristãos.
Mas desde aqui começam as dificuldades porque as actas de São Félix não mencionam
São Cucufate, referindo seus princípios e vinda a Espanha sem nenhum companheiro
(…) e o mesmo oferecem os breviários antigos de Barcelona, Lérida, Toledo e outros, os
quais não mencionam a vinda de São Félix com São Cucufate. Mas concordam em que

129

Trata-se de Scillium, localidade não muito longe de Cartago (Norte de África).
Deverá ser Caesarea, situada a 90 km de Argel, e que corresponde à actual cidade argelina de
Cherchell.
130

190

eram da mesma cidade Escilitana, que estudaram em Cesarea, e que dali vieram a
Espanha, ouvindo a perseguição sobre os cristãos131. (…)
Ao vir, pois, para Espanha, não seria para fugir da perseguição, mas sim para a buscar.
(…) Visto o que é comum aos dois santos, resta o particular de cada um. S. Félix
pertence a Girona. Agora nos dá assunto o seu companheiro. O seu nome teria
variedade material: Cucufas, Quoquofas, Gucufans e Cocovatus (…). Os catalães lhe
chamam S. Culgat [S. Cugat].
Posto o Santo em Barcelona em traje de mercador com os demais companheiros
comerciantes começou a despachar os géneros que trazia, não tão preciosos (…) foi
repartindo com os pobres aquilo que ficaria no Mundo, para que Deus o tivesse em
conta, e convertido o rico em pobre, deu mesmo o que lhe restava, que era dar-se a si
mesmo. O motivo da sua vinda era professar a fé de Jesus Cristo, e sabendo que a
mesma era perseguida, começou a praticar o credo apostólico, ensinando a uns,
confirmando a outros, e desejando fazer fiéis a todos. Metia-se nas casas particulares,
e era tão viva a sua fé, que fazia mil milagres. Dotou-o Deus da graça das curas sem
excepção, e só com a sua palavra expulsava os demónios. Não podia ocultar-se aos
gentios tanta luz e tão grande inimigo dos ídolos, pelo que assegurou o juiz idólatra o
envio dos seus ministros para o prender. Chamava-se Galério, a quem as actas lhe
davam o título de pró-cônsul, como que governava por outro, e assim correspondia, por
ser Daciano o pretor comandante que saindo duma cidade para a outra devia deixar
substitutos parecidos com ele na cegueira e selvageria. Isto mostra que já Santa Eulália
havia padecido, e Daciano passou a Saragoça, deixando em Barcelona Galério com
outros substitutos. (…)
Apresentado perante o tribunal, a Cucufate, lhe perguntou Galério:
- Diz-me, louquíssimo rebelde, em que confias para atrever-te a desapreciar os
mandatos

dos

Imperadores

e

negar

o

culto

aos

Supremos

Deuses?

O Santo, com grande valor e constância, respondeu:

131

Em suma, há algum consenso quanto às vidas iniciais destes dois futuros pregadores cristãos e sobre
a sua entrada na Hispânia. Basta saber se viajaram ou não juntos, e nas mesmas datas, rumo a este seu
novo desafio.

191

- A quem, ó muito idiota, mandais que se dê culto, sendo não deuses, mas sim
invenções feitas por arte do engano diabólico e necessidades de outros semelhantes a
ti?
Enfurecido Galério com a resposta, o entregou aos carrascos, ordenando que o
atormentassem até tirar o seu espírito. Cumpriram com tal ânsia o decreto (…) e então
[S. Cucufate] orou: - “Meu Senhor Jesus Cristo. Mostrai a vossa virtude sobre os
incrédulos para que se convertam ou pereçam: e o impíssimo Galério que tão
raivosamente se tinha enfurecido contra vosso servo, se não é dos escolhidos, pereça
desde logo”.
Então os carrascos, vendo os intestinos do Santo caídos no solo, ficaram cegos, e
Galério com os seus ídolos foi de repente consumido. Recolheu o Santo as suas
entranhas, colocando-as no seu sítio, e repentinamente, ficou são, dando graças a
Deus, e o povo exclamou ser verdadeiro o Deus de São Cucufate.
Morto Galério fazia de presidente outro chamado Maximiano, o qual mandou os mais
cruéis ministros que o trouxessem à sua presença e perguntando-lhe:
- A que Deus veneras?
Disse o Santo:
- Como perguntas com esse modo duvidoso, como se houvesse muitos deuses. Não há
mais do que um, a quem eu venero, que fez o Céu e a Terra.
O juiz disse:
- Pois se esse é o verdadeiro deus, vamos ver se ele te livra dos tormentos.
Acrescentou o Santo:
- De ti, ó execrável e de teu pai, o Diabo, com todos os teus tormentos eu me rio pela
virtude de Deus, pois verdadeiramente és muito demente e miserável, por teres
deixado a Deus e adorares caixas de demónios.
Mandou enfurecido o juiz que lhe assassem em umas grades e o toldassem com
mostarda e vinagre. O Santo proferiu o Salmo 16, “Exaudi, Dñe. Justitiam meam, etc.”,
e ao acabar ficou de todo são, consumindo antes o fogo os carrascos (…) O juiz teimoso
na impiedade, mandou acender a maior fogueira fora da cidade e que ai o
queimassem. Mas [S. Cucufate] ao voltar a orar, apagou-se todo o fogo, permanecendo
ileso o Santo. Voltando à prisão, carregada de prisioneiros, e enchendo-se de brilho o
calabouço, converteram-se à fé os guardas.
192

Apresentado outro dia perante o juiz, o atormentaram cruelmente com instrumentos
de ferro (…), em cujo martírio orou e deu graças, auscultando a voz do céu (…) pediu
virtude para vencer os tormentos, e que se Maximiano não cresse, fosse consumido
com seus ídolos. Concedendo-lhe feita a promessa, porque indo o juiz na sua carroça a
um grande sacrifício de ídolos, caiu no solo ao chegar à praça, e rebentou,
convertendo-se os ídolos em pó. Clamou então todo o povo ao verdadeiro Deus,
confessando ser grande o dos cristãos, e vendo isto, quem presidia a cidade, chamado
Rufino (que seria como corregedor, subalterno ao pretor da província e seus
intendentes), exclamou contra o povo, reprovando novamente o Santo que respondeu
firmíssimo na fé, e vendo Rufino que era insuperável, mandou que lhe cortassem a
cabeça, como se executou, a 8 milhas fora da cidade132 (…) E São Cucufate foi
martirizado em Barcelona (S. Félix em Girona), segundo o mais verosímil, no ano de
304”.

Retirado de: FLOREZ, ENRIQUE; RISCO, Manuel - España Sagrada. Tomo XXIX. 2ª Ed.
Madrid: Real Academia da História, 1839 [1ª edição é de 1775], p. 322-351. Existe uma
versão digitalizada no Google Books.

Imagem nº 118 – São Cucufate a ser degolado nas proximidades de Barcelona.
Quadro célebre da autoria de Ayne Bru (1504-1507) presente em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cucufate_(santo), (Consultado em: 23-05-2014).
132

Acabou por ser degolado junto ao Castro Octávio (Castrum Octavium), nas imediações de Barcelona.

193

Nota extra sobre São Cucufate – É presumivelmente o padroeiro dos corcundas e dos
pequenos ladrões, segundo se argumenta no seguinte endereço electrónico http://www.catholic.org/saints/saint.php?saint_id=2778, (consultado em 23-05-2014).

194

Documento nº 5 - A eleição dos órgãos autárquicos em 1841

Local e Data de Produção: Vila de Frades, 24 de Janeiro de 1841

Sumário: Acta Camarária que estabelece a passagem de testemunho, com a nomeação
dos novos vereadores e do Presidente para o biénio de 1841-1842. Destaque para a
figura de Justino Máximo Baião Matoso que seria o novo homem forte da edilidade.

"Aos vintte e quatro dias do mês de Janeiro de 1841 em estta Villa de Frades e Paços do
Comcelho, sendo ahi reunidos em sessão extrordinaria, o Presidente da Câmara
Joaquim José Pereira e mais veriadores: José Linhares, e Balthesar Mascarenhas,
comparecerão o Dr. Justino Máximo Baião Matoso, e José Martins Leittão, e José
Anacleto da Costa e Diogo da Costta Branco, e Dr. Fernando Coelho de Arce Cabo
Perdigão veriadores eleitos para servirem pello o tempo de dois annos, na
conformidade da Cartta de Lei de 29 de Outubro de 1840, a fim de prestarem o
juramento de lei o Presidentte da nova Câmara nas mãos do Presidente da Câmara
sesantte que em seguida o deferirá aos novos eleittos, e logo os novos eleittos,
passarão a nomiar dentre si o seo Presidente, e nomiarão o Dr. Justino Maximo Baião
Matoso, o qual prestou o juramento da lei nas mãos do Presidente sessante, e em
seguida o deferio aos novos eleittos por todos foi recebido asim o prometerão cumprir
e logo a nova Câmara se houve per constituída e entrou no exercício das suas funções,
do que possa constar mandarão lavrar presentte actta que todos asignarão. Eu José
Franco Mascarenhas, secretário da Câmara, que o escrevi".

Seguem-se as assinaturas de todos os oficiais envolvidos.
Retirado de: Livros de Actas da Câmara Municipal de Vila de Frades (1838-1853). 6
vols. Depositados no Arquivo Municipal da Vidigueira.

195

Documento nº 6 - Descrição Histórica de Vila de Frades no “Portugal Antigo e
Moderno”

Local e Data de Produção: Lisboa, 1886

Sumário: Descrição histórica de Vila de Frades efectuada por Augusto Soares de
Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Cede ainda alguns apontamentos mais
pormenorizados que nos parecem ser interessantes.

“Freguezia do Concelho da Vidigueira, Comarca de Cuba, Districto e Bispado de Beja,
na província do Alemtejo. Fogos 470, almas 1915. Segundo se lê na Chorographia
Portugueza, em 1708 pertencia à Comarca de Beja e contava 800 fogos (?) – era da
apresentação dos cónegos regrantes de S. Vicente de Fora, - tinha casa de
Misericórdia, - uma capella do Espírito Santo, - outra de Santo António dos Açores – e a
meia légua de distância outra de S. Thiago, fundação dos mouros, toda cercada de
vinhas; - eram senhores d’esta villa os marquezes de Nisa – e tinha 2 juízes ordinários,
vereadores, 1 procurador do concelho, 1 escrivão da Câmara, 1 tabellião do judicial e
notas e mais officiaes.
Em 1768 – ou decorridos apenas 60 annos – esta villa e freguesia contava 326 fogos
(diz o Port. S. e Profano) – pertencia ao arcebispado d’Évora – e rendia 200$000 réis.
Priorado. Orago S. Cucufate.
Foi villa e sede do concelho do seu nome até depois de 1840.
Ainda conserva a antiga cadeia e os velhos paços do concelho, onde actualmente
funcionam duas aulas officiaes d’instrucção primária elementar, - uma para o sexo
masculino, outra para o sexo feminino. Já desapareceu o pelourinho.
Comprehende os “montes” (casaes) de St.º António, Senhora de Guadalupe, Outeiro,
Macabrão, Azeiteira – e as “hortas” d’Aparissa, Aroeira, Hortão, Malhada do
Carneirinho, Ratoeiras, Córte do Judeu, Moia de Baixo, Moia de Cima e Motta.
Freguezias limítrofes – Cuba, Selmes, Vidigueira, Santana e Villalva.
196

Dista 2 kilometros da Vidigueira, sede do concelho, para oeste, - 8 de Cuba, sede da
comarca, e estação da linha férrea do sul, para N. E. – 25 de Beja, - 145 de Lisboa – 482
do Porto – e 612 de Valença do Minho.
Tem boas estradas a macadam para Cuba, Vidigueira e Portel, já construídas – e para
Beja e Villalva, em via de construção.
Em quanto a templos tem hoje, além da egreja matriz, a egreja da Misericórdia e 4
capellas – S. Braz, dentro da villa, e St.º António dos Açores, assim denominada por ter
sido feita por um conde da Vidigueira em cumprimento de um voto se achasse um açor
que encontrou no monte onde erigiu e se vê a mencionada capella, fora da villa e a
pequena distância. – Tem mais a de S. Thiago que se supõe ter sido mesquita dos
mouros (dista cerca de 2 kilometros de Villa de Frades, diz a tradição que foi a 1ª
matriz d’esta parochia e das circunvizinhas, inclusivamente da de Cuba) – e a de N. S. ª
de Guadalupe, na serra d’este nome, - todas 4 muito antigas e quasi em ruínas.
Teve mais tres capellas, que já desapareceram – a do Espírito Santo, mencionada pelo
Padre Carvalho, a de S. Bento – e a de S. Sebastião.
A egreja matriz é de abobada, - tem altar mór e 4 lateraes – e paredes com 17 palmos
de espessura! – segundo se lê na “Descripção da Vidigueira e seu concelho”, pelo dr.
Agostinho Albino Garcia Peres, de Setúbal, ainda manuscripta, e de que já fizemos
menção no artigo “Vidigueira”.
O altar mor e 2 lateraes teem boas decorações de entalha dourada. Os outros dous são
de gesso ou estuque.
Data este templo de 1707 e tem de comprimento (interiormente) 33 m, 15 – e de
largura 12 m, 35.
O movimento d’esta parochia em 1883 foi o seguinte – baptizados 44, - casamentos 17
– óbitos 26.
Nascem n’esta freguezia dous ribeiros, um que parte para N. O. e desagua na ribeira de
Odivellas, confluente do Sado, - outro que parte para S. O. e desagua na ribeira de
Odiarse, confluente do Guadiana.
É temperado e saudável o clima d’esta villa, que está na encosta da serra de Guadalupe
no cimo da qual e distante da villa pouco mais de 2 kilómetros para S.O. se vê uma
pyramide geodésica marcando 317 metros d’ altitude sobre o nível do mar.

197

Produções dominantes – vinho, azeite, cereaes, fructa, caça e lã, pois cria bastante
gado lanigero.
Pesou sobre esta freguezia, em 21 de Junho de 1849, uma trovoada medonha que
destruiu toda a propriedade, causando prejuízos enormes.
Foram donatários d’esta villa os marquezes de Nisa – e antecedentemente os cónegos
regrantes de St.º Agostinho, que lhe deram o seu primeiro foral, não sabemos quando.
D. Manuel o confirmou em Lisboa a 1 de Junho de 1512. “Liv. de Foraes Novos do
Alemtejo, fl., 35, v. col. 2.ª”. Veja-se o processo para este foral na “Gaveta 20, Maço
12, nº 24).
Houve aqui 2 conventos um de S. Covado ou Cucufate, de monges negros ou
benidictinos, - outro de Nossa Senhora da Asumpção, de frades capuchos, franciscanos
da Província da Piedade.
O primeiro foi um dos mais antigos e mais notáveis de Portugal e da Península. O seu
prelado se intitulava, como os de Cluni e do Monte-Cassino, “Abbade dos Abbades”. Foi
muito anterior à invasão dos mouros, - conservou-se aberto ao culto muito tempo
durante a ocupação muçulmana – mas por fim os mouros o destruíram. Teve grandes
rendas e fábrica sumptuosa – e já depois de completamente arrasado e deserto, foi
dado com esta freguezia pelo nosso rei D. Sancho II, em 1225, aos crúzios de S. Vicente
de Fora133, os quaes (segundo me parece) nunca o restauraram nem habitaram, mas
povoaram o sítio e crearam esta villa, dando-lhe o seu primeiro foral, pelo que a
povoação se denominou “Villa dos Frades ou de Frades”.
Estranhamos que a “Chronica dos Conegos Regrantes” não mencione este convento,
mas menciona-o a “Benedictina Lusitana. L. 1º. Pág. 446 e 447”, para onde remetemos
os leitores. Veja-se também no “Elucidário” de Viterbo a palavra “Abbade Magnate”,
pág. 17, col. 2. ª mihi – e a “Monarchia Lusitana, parte IV, fl. 200, v.”.
O segundo convento foi fundado em 1545 pelo conde da Vidigueira, D. Francisco da
Gama (filho de D. Vasco da Gama) e por sua mulher D. Guiomar de Vilhena, no local
onde existia uma antiquíssima capella da invocação de S. Bento. Era guardiania de 13 a
14 frades e foi extincto em 1834, tendo apenas 6 ou 8 religiosos.

133

Trata-se dum equívoco do autor, pois a doação é datada para o ano de 1255, em pleno reinado de D.
Afonso III.

198

Do 1º convento nada resta. O seu chão e a sua cerca passaram dos crúzios para os
marquezes de Nisa, - está tudo plantado de vinha – e ali se teem encontrado alicerces
das antigas fundações e muitos fragmentos de louça.
Do 2º apenas se conservam as ruínas do convento e da egreja. A cerca é hoje vinha e
olival – e o seu bello aqueducto, de 2 kilometros d’ extensão aproximadamente, está
em completa ruína também!
Veja-se a “Chronica da Província da Piedade, Liv. III, cap. 22”.
No suplemento a este dicionário completaremos a história do antiquíssimo e
venerando convento de S. Cucufate.
Na noite de 24 de Dezembro de 1882 commetteu-se n’esta freguezia um desacato
repelente! Foi violado e roubado o túmulo do benemérito filho d’esta villa, par do reino
e conselheiro, Justino Maximo de Baião Mattoso, falecido em junho d’aquelle mesmo
anno. Os ladrões forçaram a grade da capella onde se acha o jazigo do finado e, na
incerteza do logar em que se encontrava o cadáver, arrombaram mais tres sepulturas.
Encontrando o que procuravam, abriram o caixão de madeira e o interior, que era de
zinco, e despojaram o cadáver, do espadim, condecorações, botões e galões da farda
de par do reino, que vestia. Pelo exame do local em que se praticou o delicto,
conheceu-se que os malfeitores sacrílegos operaram com todo o vagar a sua sinistra
tarefa e que, não satisfeitos da injúria exercida sobre o morto, damnificaram os
ornatos interiores da capella. Não se comenta semelhante vandalismo!
Aqui faleceu em 3 de Novembro de 1789 o poeta João Xavier de Mattos. Ignora-se a
sua terra natal. Escreveu várias obras em prosa e em verso, indicadas por Innocêncio
Francisco da Silva, uma das quaes foi mandada à Exposição de Paris, em 1867. O seu
amigo, dr. Joaquim António Alho Mattoso, lhe fez o funeral com a maior decência, no
dia 4 de Novembro de 1789, na egreja parochial d’esta villa, e mandou gravar sobre a
sepultura do finado um soneto que anda impresso.
Ao meu presado colega, o sr. Joaquim Freire de Carvalho, digno prior d’esta villa,
agradeço os apontamentos que me enviou.

Retirado de: LEAL, Augusto Soares de Pinho – Portugal Antigo e Moderno. Vol. XI.
Lisboa: Livraria Editora de Tavares Cardoso & Irmão, 1886.
199

Documento nº 7 - O Discurso escrito pelo ilustre Dr. José Luís Conceição Silva

Local e Data de Produção: Brasília, Junho de 2008 (lido depois por um dos seus filhos
em Vila de Frades)

Sumário: O Dr. José Luís recorda um pouco da história da “sua terra”, para além de
enunciar as suas raízes familiares. Ele viveu cerca de 25 anos em Vila de Frades, onde
revelou as qualidades, a criatividade e a originalidade típicas dum dinamizador
cultural.

Ao Povo Vilafradense, aproveito este momento especial para falar um pouco sobre Vila
de Frades e sua relação com minha família e minha vida134.
Cerca de 200 anos antes de Cristo, no montado conhecido pelo Povo de Vila de Frades
como “Macabrão”, situava-se uma povoação de origem hebraica cujo nome era MalkAbraão. Mais ou menos naquela data, a população desse povoado foi vítima de uma
epidemia de peste, e para se salvar, foi obrigada a abandonar aquele local. Saindo em
três direções, fundou a mais ou menos 5 km de distância três povoações conhecidas na
Era Cristã, já no período de formação de Portugal, nação independente, como Vila de
Frades, Vilalva e Cuba. Elas ficaram localizadas segundo um triângulo equilátero com 8
km de lado.
O povo de Vila de Frades tem, portanto, origem judaica e o facto fica confirmado
quando observamos os nomes da maioria das famílias ali residentes, os quais revelam
uma adoção característica dos judeus quando eram obrigados a se integrar ao regime
cristão contra a vontade, é claro. Temos por exemplo: Coelho, Rato, Vidinha, Chamiça,
Guerra, Ferro, Cautela, Nifrário, Almeida, Serrano, Anacleto, Redes, Baião, etc.

134

O discurso do Dr. José Luís Conceição Silva divide-se em duas partes: na primeira, encontramos uma
descrição histórica sucinta sobre Vila de Frades (contudo, enunciando alguns pontos, no mínimo,
bastante discutíveis) e, na segunda, detectamos uma narração da sua vida (esta espécie de monólogo
incorpora, a nosso ver, elementos valiosos, pelo que consideramos ser a parte crucial deste
testemunho).

200

Não tenho conhecimento de como se comportou o povo vilafradense durante os
períodos históricos de ocupação da região do Baixo Alentejo pelos romanos, os
visigodos e os mouros. As referências a Vila de Frades, a começar pelo nome, são do
período português, portanto, cristão. A existência de sete igrejas e de pelo menos um
convento justificam o nome da povoação: Vila de Frades. O que não significa uma total
submissão à Igreja de Roma, talvez, pelo facto de ser de origem hebraica. Exemplo
disso, foi ter deixado de haver batizados e casamentos religiosos em Vila de Frades,
após 1910 quando se implantou a República e o Estado separou-se da Igreja, atitude
que perdurou por muitos anos.
Vila de Frades foi sede do Concelho durante muito tempo, só passando a freguesia
depois da implantação da República. Não sabe exatamente o motivo.
Há referências, em documentos do tempo da ocupação romana da Península Ibérica,
ao facto de no período inicial da Era Cristã, há 2000 anos, já se produzir vinho naquela
povoação, caso raro ou até único na região ao sul do Rio Tejo, naquela época. Toda a
área da futura freguesia de Vila de Frades foi plantada de vinhas e também de olivais,
hortas e pomares de laranjeiras. Este tipo de exploração agrícola, desconhecido em
toda a área do chamado Baixo-Alentejo, é mais uma prova da origem judaica do povo
de Vila de Frades. Vidigueira adotou o mesmo sistema de exploração agrícola por
influência de Vila de Frades.
Alguns acontecimentos da maior importância no desenrolar da História Universal,
sobretudo no período das Grandes Navegações Portuguesas do século XV, estão de
algum modo relacionados com Vila de Frades e confirmam mais uma vez a importância
da origem hebraica.
Como exemplo, temos a atividade do navegador Cristóvão Colombo. Para começar
devemos esclarecer que até hoje há dúvidas até mesmo a respeito do verdadeiro nome
desta importante personagem da História Universal. A seu respeito muito se tem
escrito e publicado e, portanto, não vamos aqui insistir na análise da sua vida e
atividades que de resto continuam por desvendar. Apenas nos interessa aquilo que se
relaciona com Vila de Frades. Estamos convencidos de que esse suposto Cristóvão
Colombo esteve em Vila de Frades, talvez mesmo lá tenha residido algum tempo. Em
primeiro lugar porque segundo se conhece e confirma, ele tinha origem judaica

201

recebida por via materna. Isso seria o suficiente para justificar a sua estadia em Vila de
Frades, povoação de origem hebraica como vimos.
Mas não foi só por isso que aquele homem misterioso visitou a também misteriosa
“Malk-Abraão”! Colombo deveria ter, por origem paterna (e ninguém sabe ao certo
quem foi o seu pai), influência cristã. O que confirma a sua faceta cristã é o interesse
manifestado de várias formas pelo que se pode chamar: culto de Virgem Maria
conhecida como “Senhora de Guadalupe”. O nome Guadalupe tem origem na língua
falada no sul de Portugal e da Espanha, região dos rios Guadiana e Guadalquivir. Nessa
língua, “Guada” significa água.
O interesse de Colombo por Guadalupe parece ser comprovado pela existência da
imagem da Virgem na Costa Leste do México, conhecida desde o período das
navegações. Não é fácil atribuir a existência dessa imagem a nenhum outro navegador.
Mas há outra razão, e muito mais forte, para justificar esse interesse de Colombo por
Guadalupe, o facto de ele ter procurado igrejas em Espanha e Portugal dedicadas a
Senhora de Guadalupe. Está registado no que foi escrito a seu respeito que ele visitou
uma igreja de Guadalupe na Vila de Serpa em Portugal, perto da margem esquerda do
Guadiana, e que da torre dessa igreja avistava outra também de Guadalupe em
Espanha, da qual se avistava uma terceira igreja também em Espanha, as três em linha
reta distanciadas cerca de 20 km. E aqui é que nasce a nossa descoberta: em Vila de
Frades também existe uma igreja de Guadalupe, localizada numa colina a cerca de 1
km do centro da Vila, e dessa igreja avista-se a de Serpa, a 20 km em linha reta, e
portanto, forma com as duas da Espanha um conjunto de 4 igrejas alinhadas e à
mesma distância umas das outras, o que é bastante estranho e notável.
Outro acontecimento também nos chama a atenção para a importância que tem, para
a compreensão de certos aspectos da História Universal, a existência de Vila de Frades.
A família Spinoza, de origem judaica, residia em Espanha até que os judeus foram
expulsos pelos Reis Católicos. Como muitas outras famílias judias, a família Spinoza
saiu de Espanha e veio residir em Portugal. Em que povoação?
Joaquim de Carvalho, ao buscar as raízes ancestrais de Spinoza, inventariou todas as
famílias de sobrenome Spinoza residentes em Portugal nos séculos 16 e 17 e encontrou
provas de que a família de Miguel Spinoza habitou Évora ao final do século 16. Tendo
Miguel Spinoza nascido provavelmente na Vidigueira. Para mim, é mais provável que
202

tenha nascido em Vila de Frades, devido à sua formação de origem judaica. Pouco
depois, os judeus também foram expulsos de Portugal, por imposição dos Reis de
Espanha, e a Família Spinoza partiu para a Holanda. Lá nasceu em 1634 para mim o
maior filósofo, cientista, político e sociólogo de todos os tempos, Bento de Spinoza.
O que é mais importante é que os Spinozas em Portugal passaram a falar português, o
que continuaram a fazer na Holanda, frequentando a Sinagoga Portuguesa de
Amesterdão. Bento de Spinoza falava português, além do hebraico, do holandês, do
latim e talvez do grego. A língua portuguesa teve grande influência na forma como
Spinoza criticou as religiões oficiais e na base que sustenta a sua teologia desenvolvida
no primeiro livro “Ética”, a sua obra mais importante. A base da crítica de Spinoza às
religiões oficiais, incluindo o hebraico (que motivou a sua expulsão da Sinagoga) está
no facto de ele, ao analisar a obra de Descartes sobre a existência de Deus, afirmar:
“Deus não está em todas as coisas, como afirma Descartes, Deus é todas as coisas”.
Ora esta afirmação só tem sentido quando escrita em português, a única língua em uso
na época na qual “ser” e “estar” são dois verbos distintos.
Reconheça-se assim a importância que teve para Spinoza a passagem de sua família
pela região de Vila de Frades.
Recordemos ainda o importante acontecimento histórico de ter o grande navegador
Vasco da Gama, comprado com dinheiro próprio os Concelhos de Vila de Frades e
Vidigueira e ter morado lá vários anos. E a Família “Gama” por lá ter ficado até aos
tempos modernos.
Outra figura ilustre relacionada a Vila de Frades é o grande escritor Fialho de Almeida,
considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa, que aqui nasceu em
1857.
Estes são alguns exemplos que no meu modo de ver comprovam a importância de Vila
de Frades.

Minha família e Vila de Frades

No início do século XIX, viviam no Alentejo dois irmãos de apelido Leitão, um em Portel,
outro em Vila de Frades. O de Portel conhecido como “Leitão o Grande” casou-se com
203

uma senhora da Família Anderson e o de Vila de Frades, “Leitão Pequeno”, com uma
da Família Poças. Um filho de Leitão Pequeno, Joaquim Faustino Poças Leitão, veio a
casar com a prima Maria Luíza Anderson Leitão, filha do Leitão o Grande, e tiveram
três filhos: José, Luís e Maria de Jesus.
Os Poças Leitão viviam em Vila de Frades naquela belíssima casa de estilo português do
século XVIII, onde hoje está instalada a Junta de Freguesia, se não me engano. O casal
Joaquim Faustino e Maria Luíza vieram morar em Vila de Frades depois de construído,
por sua iniciativa, aquele enorme edifício que erradamente é conhecido pelos
vilafradenses como tendo sido construído pelos “Conceição Silva”. Foi nessa casa que
nasceram os três filhos: José, Luís e Maria de Jesus.
Joaquim Faustino era muito rico. Foi ele que criou o Almargem e adquiriu inúmeras
vinhas e olivais da freguesia de Vila de Frades, além de uma imensidade de áreas
agrícolas (herdades) nas freguesias de Vidigueira, Selmes e Pedrógão que chegavam
até ao Guadiana.
Mais tarde, já no início do século XX (1910), Joaquim Faustino, cheio de dívidas, foi
obrigado a vender a maior parte das suas enormes propriedades. O que restou
(Almargem, olivais, vinhas e a casa da Vila) foi registado em nome de sua filha, Maria
de Jesus, e o resto, em dinheiro, entregue a José e Luís que partiram para o Brasil.
Maria de Jesus tinha uma habilidade excecional para o desenho e a pintura. Cerca dos
20 anos, antes de ter tido professora, pintou aquele quadro enorme que está na Igreja
Matriz de Vila de Frades. Mais tarde, por recomendação do escritor Fialho de Almeida,
amigo da Família Poças Leitão, seguiu para Lisboa e lá acabou por contratar como
professor o pintor António Tomás da Conceição Silva. Começou as aulas em 1912 e em
1914 resolveram casar. Conceição Silva era viúvo e tinha três filhos do primeiro
casamento: Eugénio, António e Suzana. Eles foram adotados por Maria de Jesus como
verdadeiros filhos. Nasceriam depois mais três: Maria Luíza, José Luís e Maria Helena.
Maria Helena morreu ainda muito criança. José Luís sou eu. O meu nome deve-se ao
facto de meus dois tios, José e Luís, terem ido para o Brasil. Maria Luiza e eu, fomos,
portanto, os únicos herdeiros das terras e casa dos “Poças Leitão” em Vila de Frades.
Maria Luiza casou-se com o pintor e arquiteto Frederico George, grande amigo meu.
De mim falarei agora.

204

Vila de Frades e Eu

Nasci em Lisboa, no dia 4 de Julho de 1917. O ano de 1917 foi um dos anos mais
importantes do século XX. Estava-se em plena Guerra Mundial e os Estados Unidos
acabavam de entrar nela a favor de França e da Inglaterra. Portugal também estava
lutando em França contra a Alemanha e a Itália. Em Novembro desse ano deu-se a
famosa Revolução Russa e a criação da União Soviética, com seu regime político
comunista. Em Portugal, a 13 de Maio, ocorre a primeira aparição da Virgem Maria em
Fátima. Repetem-se as aparições em Junho, Julho, Agosto e Setembro, embora fossem
nesses dois meses proibidas de assistência pública por intervenção do Governo
Republicano anti-Igreja, a última aparição ocorre em 13 de Outubro.
Toda esta complicação histórica, ocorrida em 1917, envolve o meu nascimento.
Preocupada com a dificuldade de vida em Lisboa, em Julho de 1917, minha mãe resolve
partir para Vila de Frades. Viajamos quando eu tinha um mês, 4 de Agosto. Quando
chegamos a Vila de Frades, minha mãe verificou horrorizada que se lhe secara o leite.
Com auxílio de um médico da Vidigueira, contrataram uma ama de leite de Vila de
Frades, a senhora Cornélia Chamiça. Foi minha ama durante 14 meses. Aos 15 meses,
eu só tinha sido alimentado com leite humano e gozava de boa saúde. A Guerra tinha
acabado (Novembro de 1918) e, portanto, voltamos para Lisboa. Mas, com tudo isso
que havia sucedido, eu considero-me um vilafradense. E, dada a importância histórica
que essa Vila tem, como demonstrei antes, para mim é uma honra ser dela natural!
A partir de 1918 eu morei sempre em Lisboa, mas passava as férias grandes (AgostoSetembro) em Vila de Frades. Licenciei-me em Ciências Matemáticas pela Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa e ali também frequentei o Curso de Engenheiro
Geógrafo, mas não me diplomei por desinteresse e por ter resolvido partir para Vila de
Frades e dedicar-me inteiramente à agricultura.
Assim, em Agosto de 1941, resolvi abandonar todas as atividades lisboetas e instaleime em Vila de Frades. Fui morar no Almargem. A minha atividade principal foi como
proprietário de pequenas fazendas. Aprendi muito sobre a agricultura. Entretanto,
consegui organizar um grupo de rapazes e moças da Vila e com eles formar um
conjunto musical (eu tinha um curso superior de violino) e outro teatral. Dessas
atividades fizeram parte: Luís Rosa, Luís Carapeto, Ernesto Coelho, Francisco Piçarra,
205

José Rufino, José Rosa, José Maria, Celestino Lucas, Maria Clara, Joana Anacleto,
Celestina Guerra, entre outros.
Foi na organização desse grupo que eu conheci a Celestina, e coisa extraordinária,
quando a vi pela primeira vez, uma ideia fortíssima veio à minha mente dizendo-me:
“aquela menina vai ser a tua mulher”! A partir daí procurei conversar com ela várias
vezes para confirmar a ideia e, sendo positivo o resultado, eu perguntei-lhe se queria
casar comigo. A surpresa foi grande, pois Celestina tinha 15 anos e eu 33 e éramos de
classes sociais muito diferentes.
Não interessa narrar o que se passou em seguida. O importante é que ao fim de mais
de oito anos nos casamos. Foi em 18 de Janeiro de 1959. Daqui a seis meses festejamos
nossas “Bodas de Ouro”.
Considero a Celestina a melhor pessoa do Mundo, como esposa, como mãe e como
avó. Tivemos quatro filhos que ela educou o melhor possível e são hoje homens
formados superiormente, funcionários públicos de nível superior.
Nos 25 anos que residi no Alentejo, dediquei-me a estudar e observar os problemas
políticos que dominaram a região. Essa minha atividade resultou em três prisões de
dois meses cada uma por iniciativa da PIDE (Política Internacional e de Defesa do
Estado – ao serviço do ditador Salazar), mas nunca fui julgado nem condenado. Fui
perseguido de todas as maneiras; vítima de dificuldades económicas. Essa situação
insustentável levou-nos, em 1967, a aceitar o convite do Prof. Agostinho da Silva e
partir para o Brasil, para trabalhar como Diretor Executivo e Coordenador Substituto
do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses.
A partir daí passaram-se 41 anos de vida complicada, sem, contudo, terem sido
suficientes para apagar de minha memória os anos em que vivi em Vila de Frades.
Assim, neste momento tão significativo para mim, só tenho a agradecer ao Povo
Vilafradense pela lembrança e homenagem.
Muitíssimo obrigado a todos.

Brasília, Junho de 2008
José Luís Poças Leitão Conceição Silva
(Texto cedido gentilmente por António Rosa Mendes)

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Documento nº 8 - Homenagem ao Dr. José Luís Conceição Silva (Discurso de
Desidério Lucas do Ó)

Local e Data de Produção: Vila de Frades, 28 de Junho de 2008

Sumário: Desidério Lucas do Ó recorda o Dr. José Luís Conceição Silva como um
dinamizador cultural de Vila de Frades, e traça o contexto social nos anos de 1950.

“As memórias são curtas, as vidas estão sobrelotadas. Aquilo que para nós hoje é
imensamente importante, facilmente cai no esquecimento poucos dias depois.
O homenageado foi um homem que marcou fortemente uma geração desta terra, mas
que não caiu no esquecimento. Naqueles momentos, em que, como consequência
natural da passagem dos anos, recordamos pessoas e acontecimentos, continua a vir à
baila o nome do Dr. José Luís. À boa maneira do Alentejo, as expressões são curtas mas
o respeito continua a ser enorme.
Nada mais natural, portanto, a iniciativa desta homenagem que só peca por tardia, o
que não lhe retira o mínimo de justiça.
Se esta homenagem tivesse acontecido há meia dúzia de anos, ainda estariam entre
nós pessoas que privaram muito intensamente com o homenageado e para quem o Dr.
José Luís foi um marco decisivo nas suas vidas. Estou a pensar no Prof. Carapeto, no
meu primo Ernesto Coelho, no Chico Piçarra, no Severino, no Sr. José Rufino e noutros
que felizmente ainda estão vivos como o Valentim Galhoz ou José Desidério Maia, a
Justina Benedito, a Maria Clara Nogueira e outros. Esta homenagem teria sido
certamente mais rica, com testemunhos humanos mais fortes.
Quando as pessoas que acabo de mencionar já eram adultas, era eu ainda uma
criança. Portanto, o meu testemunho baseia-se nas recordações de uma criança que
teve algum contacto com o homenageado sem conseguir abstrair das experiências
profissionais do professor que também fui.
Mas, em primeiro lugar, e por uma questão de delicadeza para com os familiares do
homenageado, gostaria de traçar um esboço social de Vila de Frades nos anos
cinquenta.

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Vila de Frades era uma vila mais populosa do que é hoje, ainda não tinha acontecido o
primeiro surto de emigração que o antigo regime não autorizava, pois precisava de
mão-de-obra barata para trabalhar nos campos.
A população estava claramente estratificada em três grupos: os trabalhadores rurais,
que eram a maioria esmagadora, os artistas que se dedicavam às profissões
tradicionais, o barbeiro, o carpinteiro, o abegão, o ferreiro, o ferrador, o lojista, o
funileiro, etc. e depois um pequeno grupo de proprietários rurais. Vila de Frades não
tinha um grande agrário. Toda a vida era dominada pelos ritmos dos trabalhos do
campo, com as sementeiras, a monda, as ceifas, as debulhas, as podas, a vindima, a
apanha da azeitona.
Havia duas associações: esta casa135, que era a sociedade dos artistas, e a sociedade
dos altos, situada na casa onde hoje é o museu, sobre o arco136, que era a sociedade
dos trabalhadores rurais.
O meu posto de observação da vida eram a escaleira da minha casa, na Rua do Espírito
Santo (…) Em frente, era a loja do meu pai, que mais tarde viria a pertencer às
Marianitas.
A minha rua era uma rua de passagem entre as zonas mais altas da vila e o chamado
Ribeiro da Vila, Rua de Moura, onde morava um elevado número da população. Por ali
passavam os ranchos de mulheres bonitas e bem arranjadas com os seus chapéus,
saias garridas e botas altas a caminho da monda, por ali passavam igualmente os
homens que vinham da azeitona, encharcados até aos ossos, com pesados sacos à
cabeça. (…) Os homens que trabalhavam duramente no campo, cavando a terra com
pesadas enxadas e alviões, enterrados até ao joelho ou sob o sol abrasador na ceifa
nos ternos de Évora, que me ensinavam cantigas e me tratavam com muito carinho,
viravam autênticas feras sob a influência do álcool e a miséria das suas vidas.
Aquilo que hoje se chamam os tempos livres não existia para os trabalhadores rurais. A
percentagem de analfabetos era altíssima. Os outros, os artistas, tinham um grau de
alfabetização superior, muitos tinham a quarta classe.
Os dias grandes eram o Entrudo, as adiafas, os casamentos, os mastros, as festas de
Verão nas ermidas, no Almargem ou no quintalão do palácio. A música era
135
136

Refere-se ao edifício da Sociedade Recreativa União Vilafradense, na qual profere este discurso.
O espaço que actualmente corresponde ao Museu da Casa do Arco.

208

omnipresente, música popular, viva ou indolente, como veículo de comunicação,
cantando quadras improvisadas se faziam e desfaziam namoros, se armavam
desordens. Nas tabernas cantava-se a moda com dignidade e muito brio, nos “balhos”
as modas eram mais mexidas.
E foi neste enquadramento que, em termos musicais, apareceu na minha vida a figura
do Dr. José Luís. Trazia algo de novo, algo de mágico que me conquistou desde o
primeiro momento e que viria a conquistar para a música uma geração de jovens da
terra. Era a magia do seu violino que se ouvia dentro do palácio ou no Almargem, onde
se refugiava… Para mim aquele era um instrumento novo que adquiria ainda mais
magia por ser tocado por aquele homem nobre e simples, sorridente, despretensioso,
de mangas arregaçadas e com as calças metidas dentro das botas caneleiras.
Foi também com ele e com a sua enorme simpatia e capacidade de mobilização que se
formou em Vila de Frades o “Jazz band”. Os ritmos que então estavam na moda na
Europa e na América também eram tocados entusiasticamente em Vila de Frades, aqui,
nesta sala, e nas vilas onde o grupo actuava. Lembro-me do orgulho que sentia por ver
aqui neste palco aqueles jovens da minha terra a abrilhantar bailes e festas. O Prof.
Carapeto era um baterista louco, mais compenetrados, o meu primo Ernesto no
clarinete, o Luís Rosa no trombone, o Chico Piçarra, muito afogueado no trompete, e o
José Rufino no saxofone. Embora sendo o grande dinamizador, o Dr. José Luís sempre
se manteve modestamente na retaguarda.
A velha tradição de fazer teatro nesta casa foi igualmente retomada e mais uma vez o
Dr. José Luís era o homem que motivava, que empurrava os outros. Todo um grupo de
jovens, de ambos os sexos, do qual eu e a minha irmã fazíamos parte, ainda crianças,
passou a encontrar-se nesta casa e, sob a sua orientação, encenaram peças, cantaram
e dançaram em conjunto, algo que não era muito normal naqueles tempos. O Dr. José
Luís foi então, nesta terra, aquilo que hoje se chama um dinamizador cultural.
Não se pense que era tarefa fácil, na medida em que a tendência normal na juventude
masculina local seria o caminho da taberna. Mas nestes casos a música venceu.
O Dr. José Luís trazia uma enorme bagagem cultural que transmitiu à comunidade local
e permitam-me que situe aqui a minha experiência como professor. Ensinar é a arte da
conquista, conquistar para nós, para os nossos saberes e para as nossas causas o outro
que pode não estar interessado. Hoje fala-se muito das grandes teorias da motivação,
209

mas o essencial continua a ser, quanto a mim, a personalidade do professor ou
dinamizador e a juventude desta terra deve ter percebido que aquele homem queria
dar sem nada receber, sem retirar juros da sua dádiva. Aquela cara aberta e franca
nada esperava em troca, queria partilhar os seus saberes.
Devo igualmente ao Dr. José Luís o ter despoletado na minha consciência infantil o
sentido da revolta contra a injustiça.
Lembro-me perfeitamente de assistir ao desfile humilhante de trabalhadores rurais
presos e escoltados pela Guarda atravessando a vila, Estrada Nova acima, a caminho
da prisão de Cuba. Não percebia bem o que se passava, mas sentia comiseração, sentia
que havia ali injustiça.
Comecei a compreender tudo, com a ajuda do meu avô, quando, nas eleições de 1949,
o Palácio foi cercado, e salvo erro, o Dr. José Luís foi preso. E aí começou a fazer-se luz
no meu espírito de criança. Como era possível prender-se um homem bom, que só fazia
bem, que tratava os mais humildes com respeito, que ajudava e nos ensinava coisas
lindas, sempre sorridente e fraterno? Como era igualmente possível prender homens
pobres que mais não fizeram senão lutar pelo pão para si e para as suas famílias?
Só mais tarde, e com a ajuda de um discípulo do Dr. José Luís, o Sr. José Rosa,
compreendi o resto. O regime fascista, que nos desgovernava, não tolerava nem a
revolta dos explorados nem a contestação dos mais letrados. O Dr. José Luís pela sua
sabedoria, pela sua simplicidade e pelo simples facto de existir foi certamente um
espinho cravado na alma mesquinha dos invejosos, dos exploradores, dos fascistas.

Para esta terra foi uma dádiva que não esquecemos!
Em meu nome pessoal e em nome de muitos amigos, peço aos familiares presentes que
sejam portadores das nossas saudades, do nosso agradecimento e respeito”.

Sociedade Recreativa União Vilafradense, Vila de Frades, 28 de Junho de 2008
Desidério Lucas do Ó

210

Documento nº 9 - Poema de Joaquim Caeiro em honra de Vila de Frades

Local e Data de Produção -?

Sumário: Joaquim Caeiro que tem composto várias letras, criou este poema que
constitui um autêntico hino para a história de Vila de Frades. O mesmo é entoado por
grupos corais, e até nas tabernas da terra, elogiando o vinho que aqui se produz.

Cantiga
Um sangue rubro dessa sua cor
O seu perfume no seu paladar
Canta o Alentejo os seus sabores
Esse desejo de saber cantar

Refrão
Vila de Frades já não tem abades
Mas tem adegas que são catedrais
Os seus palhetes são uns brilharetes
São de beber e chorar por mais

Cantiga
São de beber e chorar por mais
Nossas gargantas são o seu caminho
Cantam os melros cantam os pardais
Cantamos nós à festa do vinho

Refrão
Vila de Frades já não tem abades
Mas tem adegas que são catedrais
Os seus palhetes são uns brilharetes
São de beber e chorar por mais
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Cantiga
Pacata pura sem grandes alardes
Também outrora tomada à moirana
Branca e singela é Vila de Frades
Nesta planície linda alentejana

Refrão
Vila de Frades já não tem abades
Mas tem adegas que são catedrais
Os seus palhetes são uns brilharetes
São de beber e chorar por mais

Retirado na íntegra a partir de: http://aldeagar.blogspot.pt/2007/12/vila-de-fradesseres-do-alentejo.html, (Consultado em 21-04-2014, e “postado” por Álvaro Barriga).

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Documento nº 10 – A Vida num Mosteiro Medieval

Sumário: Embora não tenhamos acedido à data e ao lugar da publicação deste excerto,
optamos pela sua publicação, dada a sua essência que nos permite traçar como seria a
vida monástica na Idade Média, sobretudo naqueles conventos que seguiam a regra de
São Bento (como poderá ter sido o caso do primeiro cenóbio instaurado em São
Cucufate no tempo dos visigodos).

“Nos mosteiros beneditinos de toda a Europa medieval, os monges eram arrancados ao
minguado conforto dos seus colchões de palha e ásperos cobertores pelos sineiros, que
os despertavam às 2 horas da madrugada. Momentos depois, dirigiam-se
apressadamente, ao longo dos frios corredores de pedra, para o primeiro dos seis
serviços diários na enorme igreja (havia uma em cada mosteiro), cujo altar,
esplendoroso na sua ornamentação de ouro e prata, resplandecia à luz de centenas de
velas. Esperava-os um dia igual a todos os outros, com uma rotina invariável de quatro
horas de serviços religiosos, outras quatro de meditação individual e seis de trabalhos
braçais nos campos ou nas oficinas. As horas de oração e de trabalho eram
entremeadas com períodos de meditação; os monges deitavam-se geralmente pelas
6.30 horas da tarde. Durante o Verão era-lhes servida apenas uma refeição diária, sem
carne; no Inverno, havia uma segunda refeição para os ajudar a resistir ao frio.
Era esta a vida segundo a Regra de S. Bento, estabelecida no século VI por Bento de
Núrsia, o italiano fundador da Ordem dos Beneditinos, canonizado mais tarde. S. Bento
prescrevia para os monges uma vida de pobreza, castidade e obediência, sob a
orientação monástica de um abade, cuja palavra era lei. Luís, o Piedoso, imperador
carolíngio entre 814 e 840, encorajou os monges a adoptarem a Regra de S. Bento.
E, por volta de 1000, a regra seguida praticamente em todos os mosteiros da Europa
Ocidental inspirava-se na dos Beneditinos, tal como muitos dos edifícios se baseavam
no "modelo" delineado para o Mosteiro de St. Gallen, na Suíça, em 820.
A Regra de S. Bento foi formulada quando este era abade de Monte Cassino (no Sul de
Itália), abadia fundada em 529 e que continua a ser um dos grandes mosteiros do

213

Mundo. Bento foi o seu primeiro abade, e foi ele quem estabeleceu o modelo de autosuficiência advogado pelas primitivas regras monásticas — dependência total dos
próprios campos e oficinas — que orientou durante séculos os mosteiros da
cristandade ocidental.
Em todos os antigos mosteiros beneditinos, a vida era totalmente comunitária. A rotina
diária centrava-se naquilo a que S. Bento chamava "trabalho de Deus" — demorados
ofícios de complexidade crescente. Tudo o resto era secundário. O trabalho manual que
a regra estipulava existia não só para fornecer aos frades alimentação e vestuário e
satisfazer-lhes outras necessidades, como também para evitar a sua ociosidade e lhes
alimentar a alma mediante a disciplina do corpo. Posteriormente, quando as abadias
enriqueceram, sobretudo através de doações de fiéis devotos, os dormitórios
comunitários foram substituídos por celas individuais; e foram contratados
trabalhadores para cuidarem dos campos, o que permitiu a muitos monges dedicaremse a outras actividades, nomeadamente o estudo, graças ao qual a Ordem de S. Bento
viria a ser tão justamente célebre.
Nos seus jardins murados, os monges cultivavam ervas medicinais; num dado
momento— ninguém sabe quando —, ocorreu-lhes a ideia de adicionar algumas ervas
à aguardente, inventando assim o licor beneditino. Pode parecer estranha esta
associação da vida monástica com o luxo das bebidas alcoólicas, mas o vinho foi
sempre uma bebida permitida aos Beneditinos. Ligava bem com as suas refeições
simples, constituídas essencialmente por pão, ovos, queijo e peixe. Embora a carne
fosse proibida nos primeiros séculos, posteriormente algumas abadias adicionaram aos
alimentos consumidos aves de capoeira e de caça, uma vez que o fundador não as
mencionara expressamente entre as vitualhas proibidas. Em todas as refeições, porém,
reinava o silêncio. Deste modo, a Regra de S. Bento, posto que severa sob muitos
aspectos, conseguiu atingir um certo equilíbrio entre a ascese e o comprazimento.
Bento, obviamente, conhecia a natureza humana. Embora os monges fossem
obrigados a levantar-se muito cedo, aconselhava-os a "encorajarem-se uns aos outros
com indulgência e a atenderem às desculpas dos dorminhocos" e autorizava a sesta
durante o Verão. Além disso, o primeiro salmo do dia devia ser recitado lentamente, a
fim de permitir que os retardatários apanhassem os companheiros. Recomendava-se o
silêncio, mas em termos de "espírito de taciturnidade", e não de completa mudez; de
214

facto, existia uma sala especial, com uma lareira acesa no Inverno, onde os monges
conversavam. Igual consideração para com os monges se verificava no fornecimento
do vestuário, simples mas limpo, que incluía uma muda do hábito e da túnica interior.
S. Bento não desejava imitar o ascetismo extremo das sociedades monásticas do Egipto
ou da Síria. No entanto, os banhos, excepto para os doentes, eram desaconselhados
como luxo exagerado. De acordo com a sua imutável rotina, os Beneditinos viviam e
trabalhavam em obediência absoluta ao seu abade. Eram eles que o elegiam, mas a
partir de então a sua autoridade era total e vitalícia. Era o abade quem deliberava
sobre a faceta privilegiada do mosteiro — se este deveria primar pela santidade
austera, pela cozinha ou pela erudição. No interior das suas paredes maciças, que
nenhum cristão ousaria atacar, os mosteiros possuíam bibliotecas nas quais se
conservou intacta grande parte da herança literária da Antiguidade durante os séculos
em que a Europa foi assolada por invasões e guerras intestinas.
Na realidade, a segurança, tanto económica como física, que os mosteiros ofereciam às
respectivas irmandades deve ter constituído um dos seus principais atractivos. Séculos
após séculos, tanto os Beneditinos como os monges de outras ordens religiosas
viveram sem temer a fome, a guerra ou o desamparo. E reconfortava-os sempre a ideia
de que, no fim, tinham maiores probabilidades de salvação do que os camponeses ou
os cavaleiros, que viviam apegados às coisas mundanas.

Artigo retirado da: Enciclopédia “Ao Encontro do Passado de Selecções" do Reader’s
Digest, publicado electronicamente

por Olga Pombo na seguinte

página:

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/vidamosteiro.ht
m, (Consultado em 23-05-2014 – Universidade de Lisboa).

215

Artigos

216

Artigo nº 1 - Quem foi São Cucufate, actualmente orago de Vila de Frades?

Redigido em 15-08-2013

Retirado de: http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2013/08/quem-foi-saocucufate-actualmente-orago.html

Em primeiro lugar, gostaria de alertar o leitor para o facto de existirem poucos registos
documentais sobre este período da Antiguidade. Mais se informa que as escassas
fontes existentes conseguem ser ainda contraditórias, o que pode originar diversas
interpretações. Aqui nós optamos apenas por fazer a nossa leitura biográfica desta
personalidade, mas qualquer artigo, baseado em manuscritos quase inexistentes e até
bem posteriores aos acontecimentos, torna-se sempre discutível na óptica da
comunidade científica. Exposto isto, começamos então por (tentar) apresentar a
biografia deste santo.
São Cucufate teria nascido na Província Romana de Cartago (Norte de África), talvez
por volta dos anos 270 d. C.
Seria já oriundo duma família nobre cristã. Contudo, o Cristianismo ainda não era
tolerado pelo Império Romano. Só o será oficialmente a partir de 313 d. C. pelo Édito
de

Milão

promulgado

pelos

Imperadores

Constantino

I

e

Licínio.

São Cucufate teria iniciado os seus estudos no campo das letras em Cesariense, cidaderegião da Mauritânia, e aí terá supostamente encontrado o seu fiel companheiro - São
Félix. Contudo, São Cucufate teve, desde cedo, que enfrentar um período de ferozes
perseguições aos cristãos. Diocleciano e Galério defendiam acerrimamente o culto
pagão e, por isso, não estavam dispostos a aceitar a doutrina de Jesus Cristo. Por isso,
é crível que a sua ida para a Península Ibérica tenha sido motivada por perseguições
realizadas em África. Também São Félix o teria acompanhado alegadamente nesta
nova aventura.
Mesmo assim, o ambiente de repressão não terá esfriado o espírito de devoção de São
Cucufate e de, seu companheiro, São Félix (também com origens africanas) que
217

pregaram o Cristianismo na Catalunha. De imediato, os dois pregadores esquecem as
suas origens ricas e distribuem os seus bens pelos mais necessitados. Aceitam o seu
novo estado de pobreza e humildade. Entram em casas particulares, professando a fé
cristã e deixando de temer a morte. O seu impacto começa a ser registado. Contudo,
as perseguições seriam também reatadas em Barcelona. Neste âmbito, São Cucufate
foi detido e presente a um primeiro julgamento diante do Prefeito/Pro-Cônsul Galério,
sendo um dos excertos desse episódio narrado nos volumes da España Sagrada:

Galério - Diz-me, louquíssimo rebelde, em que confias para atrever-te a desapreciar os
mandatos

dos

Imperadores

e

negar

o

culto

aos

Supremos

Deuses?

São Cucufate - A quem, ó muito idiota, mandais que se dê culto, sendo não deuses, mas
sim invenções feitas por arte do engano diabólico e necessidades de outros
semelhantes a ti?

Resposta esta que não agradou mesmo nada a Galério que ordenou a sua imediata
tortura. Mas São Cucufate não pereceria, pois resistiu aos tormentos a que fora
sujeito.
De acordo com as escrituras da España Sagrada, seria depois a vez de Maximiano,
também Prefeito Romano ou Governador Local, interrogar São Cucufate. Mais uma
vez,

a

discussão

foi

assim

narrada

pela

fonte

citada:

Maximiano - A que Deus veneras?
São Cucufate - Como perguntas com esse modo duvidoso, como se houvesse muitos
deuses. Não há mais do que um, a quem eu venero, que fez o Céu e a Terra.
Maximiano - Pois se esse é o verdadeiro deus, vamos ver se ele te livra dos tormentos.
São Cucufate - De ti, ó execrável e de teu pai, o Diabo, com todos os teus tormentos eu
me rio pela virtude de Deus, pois verdadeiramente és muito demente e miserável, por
teres deixado a Deus e adorares caixas de demónios.

Maximiano também não apreciou as respostas deste santo e ordenou novas torturas.
Reza a lenda de que quando iria ser queimado vivo, o fogo apagou-se com o vento que
se fazia sentir e tal foi encarado por muitos cristãos, como um sinal de Deus. De
218

regresso à cela, São Cucufate teria convertido os guardas que estariam a vigiá-lo. Por
isso, os grandes responsáveis pela perseguição ao Cristianismo tinham razões para
invejar e odiar os feitos deste jovem que afinal teria uma idade a rondar apenas os 2030 anos. Todavia, a existência heróica de São Cucufate e São Félix teria uma data
marcada para o seu fim. Daciano, o novo governador local, chega a Barcelona em Julho
de 304 d. C. e impõe inúmeras perseguições (talvez seguindo as ordens imperiais), o
que por seu turno, originou diversas execuções. São Cucufate que se destacava, não
escapou à crueldade do novo governador e do seu oficial Rufino. Desta vez, eles
queriam assegurar a sua morte imediata, já que a tortura não estava a assegurar
quaisquer resultados.
De acordo com a Enciclopédia - España Sagrada, o nosso santo foi degolado junto ao
Castro Octaviano, talvez localizado a oito milhas (12 km?) de distância da cidade de
Barcelona, ainda nesse mês de Julho de 304 d. C.. Logo após a tolerância oficial de
culto datada de 313 d. C., vários foram os crentes que se concentraram no local do seu
martírio, prestando uma tremenda devoção. No início do século IX, é mesmo fundado
o Mosteiro de Sant Cugat (assim é designado em catalão, o nosso São Cucufate) que
ainda hoje pode ser visitado em Barcelona.
O seu fiel amigo São Félix seria executado dias mais tarde em Girona, mas não seriam
os únicos mártires canonizados a serem sacrificados pelo impiedoso Daciano.
Em Vila de Frades, o culto à personalidade de São Cucufate iniciou-se na Idade Média
com a existência dum mosteiro, embora construído em data desconhecida (já no
período visigótico ou apenas no século XIII?), e ainda hoje, constitui um dos oragos da
Freguesia. Existem mesmo pinturas murais/frescos em sua memória nalguns edifícios
religiosos desta vila alentejana.

219

Imagem nº 119 - Escultura de São Cucufate “degolado” na Igreja Matriz de Vila de
Frades.
Retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/, (Portal da Junta de Freguesia de
Vila de Frades).

Referências Consultadas:

FLOREZ, ENRIQUE; RISCO, Manuel - España Sagrada. Tomo XXIX. 2ª Ed. Madrid:
Real Academia da História, 1839, p. 322-351. Existe uma versão digitalizada no
Google Books.

http://www.ricardocosta.com/artigo/o-deambulatorio-dos-anjos-o-claustrodo-mosteiro-de-sant-cugat-del-valles-barcelona-e-vida, (Consultado em 15-082013; autor: Ricardo Costa/Luiz Jean).

http://www.catedraldealcala.org/index.php?option=com_content&task=view&
id=181&Itemid=0, (Consultado em 15-08-2013).

http://www.santiebeati.it/dettaglio/91568, (Consultado em 15-08-3013; autor:
Antonio Borrelli).
220

Artigo nº 2 – A origem toponímica de Vila de Frades

Redigido em: 21-10-2013

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2013/10/a-origem-

toponimica-de-vila-de-frades.html

Neste texto, procuraremos conhecer a origem do nome da freguesia de Vila de Frades.
Felizmente, não é um caso tremendamente difícil de abordar, pois a designação está
directamente relacionada com a sua rica história.
Na Idade Média, a localidade teve senhores eclesiásticos que dirigiram as questões
inerentes à organização e povoamento deste território. Foram eles que exploraram as
potencialidades deste lugar!
Hoje, debate-se se o início desse domínio clerical já remontaria ao período visigótico,
mais concretamente ao século VI, onde alegadamente existiria um prior que se
proclamava como o abade dos abades, em jeito de afirmação do seu poder e
influência. Todavia, não há provas seguras que confirmem a existência anterior dum
templo na Alta Idade Média em São Cucufate, mas apenas suspeitas!
O que é certo é que, em meados do século XIII, mais concretamente em 1255, o
Mosteiro de São Vicente de Fora (Lisboa), na sequência duma doação do rei D. Afonso
III em parceria com a Diocese de Évora, instala um novo espaço de culto em São
Cucufate, mais concretamente numa parte específica da antiga villa romana que
estaria talvez abandonada naquela data. Os frades que aí iniciam a sua devoção
religiosa, são os primeiros senhores da terra, e outorgam mesmo o primeiro foral à
vila, embora este documento se tenha perdido com o avanço dos tempos. Não nos
podemos esquecer que o Clero, tal como a Nobreza, era uma classe privilegiada e
conhecia consequentemente um poder bastante considerável nestes tempos mais
recuados.

221

Para além destes frades que criaram um Mosteiro dedicado a São Cucufate (mártir
sacrificado pelos romanos na Catalunha), é necessário referir que, a partir de 1545, é
construído, na vila, o Convento de Nossa Senhora da Assunção por Francisco da Gama,
filho primogénito de Vasco da Gama e 2º Conde da Vidigueira. Os frades capuchos
também professariam assim nesta localidade.
Em suma, há uma tradição religiosa bastante forte em Vila de Frades, isto já para não
falar dos maravilhosos templos religiosos que contêm uma história relevante (Ermida
de Santo António dos Açores, Capela de São Brás, Igreja Matriz de Vila de Frades, Igreja
da Misericórdia, Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe...).
Os frades foram os primeiros senhores que promoveram uma evolução demográfica e
económica contínua nesta vila. Por isso, a origem toponímica desta localidade não nos
oferece grandes dúvidas.

Imagem nº 120 - Os frades promoveram o crescimento económico, demográfico e
religioso da localidade.
Retirada de: http://portfoliolpsoniasousa.blogspot.pt/2011_04_01_archive.html

222

Artigo nº 3 – A Produção Vinícola na Longínqua Era Romana

Redigido em: 29-11-2013

Retirado Parcialmente de:
http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2013/11/antevisao-especial-vitifradesi.html

Hoje, vamos esmiuçar as raízes do vinho em Vila de Frades, o que nos levará, pelo
menos, até ao caso concreto da villa romana de São Cucufate que conheceu uma
tremenda evolução entre os séculos I e IV d. C.
Como é do conhecimento público, os romanos que aí instalaram a sua villa apostaram
imediatamente na produção de vinho (juntamente com o azeite e o trigo),
transportando-o em ânforas e armazenando-o ainda em talhas nas suas adegas que
compunham o piso inferior da mansão senhorial romana. Existe mesmo um lagar (seria
de azeite ou vinho? questão ainda nada consensual entre os historiadores e
arqueólogos), onde se encontrou, debaixo ou em redor dos dois pesos cilíndricos,
grainhas de uva.
O espólio, recolhido e exposto no Núcleo Museológico da Casa do Arco, revela-nos a
existência de facas de vindima, fragmentos de talhas, ânforas, pratos de balança, entre
outros objectos conotados com esta produção específica.
A tradição vinícola, no lugar hoje correspondente a Vila de Frades, remontava então já
ao período romano e terá permitido ao senhor da villa, um homem abastado e
influente, saborear a qualidade do produto e garantir expressivos lucros já que a
produção vinícola excedentária seria transaccionada no Mercado citadino de Pax
Iulia (Beja), decerto bastante cobiçado naquelas eras mais recuadas.
Até os conceituados escritores daqueles tempos se renderam às evidências.

223

O célebre poeta romano Horácio, no exercício da sua arte escrita, não se esqueceu de
salientar a importância de se beber uns valentes copos de vinho. Por seu turno, Cícero,
filósofo romano, já dizia acertadamente:

"Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram"

Por seu turno, Plínio, historiador do séc. I d. C., referia mesmo: "O vinho é o sangue da
terra".
Séneca, grande intelectual latino, desvenda factores motivacionais para a ingestão
deste produto: "O vinho lava nossas inquietações, enxuga a alma até o fundo, e, entre
outras coisas, garante a cura da tristeza".
Por isso, os romanos já sabiam mesmo o que era agradável e usufruíam duma técnica
praticamente infalível para enfrentar as amarguras da vida.
Como observamos neste artigo, a História do vinho em Vila de Frades tem, pelo
menos, mais de 1600 anos recheados de testemunhos reais.

Referências Consultadas:

ALARCÃO, Jorge de – Roteiros da Arqueologia Portuguesa – S. Cucufate (5). Instituto
Português do Património Arquitectónico, 1998.

Textos Publicados no Núcleo Museológico de Vila de Frades - Casa do Arco;

http://www.academiadovinho.com.br/biblioteca/citacoes.htm, (Consultado em
29-11-2013).

224

Artigo nº 4 - Quem foi João Xavier de Matos?

Redigido em: 14-01-2014

Retirado de: http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014_01_01_archive.html

Actualmente, os seus restos mortais repousam na Igreja Matriz de Vila de Frades, terra
onde faleceu no ano de 1789. Todavia, comecemos por falar um pouco sobre este
erudito, cuja sabedoria afinal não poderá ser ignorada.
João Xavier de Matos terá nascido entre 1730 e 1735, numa povoação ribeirinha do
Tejo. Estudaria Direito em Coimbra, mas não chegaria a terminar o curso. Rumou ao
Porto, onde estará presente entre 1762 e 1770. Aí fará parte da Arcadia Portuense e
apaixonou-se ainda por uma freira.
A sua vida não foi fácil, já que este poeta a soldo teve que passar por inúmeros
trabalhos, doenças, exílios e pobreza. Foi inclusive detido por agredir um padre devido
aos seus amores conventuais.
Conseguiu, mesmo assim, a protecção do Marquês de Nisa. Outro mecenas que o
apoiou foi D. Manuel do Cenáculo.
Do ponto de vista ideológico, Xavier de Matos, através do seu pseudónimo - Albano
Eritreu, deixou-se influenciar pelo Iluminismo, embora se tenha inspirado igualmente
no Neoclassicismo e no Romantismo
Conhecido ainda pela sua capacidade crítica, não deixa de apontar o dedo à nobreza
de sangue e até à religião. Tratou ainda diversas temáticas - o amor infeliz, a
perseguição da sorte inimiga, o horror fúnebre, a paz da vida rural, o sentimento de
igualdade, os vícios e desenganos da Cidade...
Luís Vaz de Camões foi uma das suas principais referências que o terá inspirado.
A sua principal obra intitula-se Rimas, divididas em três tombos que foram publicados
em Lisboa entre os anos de 1770 e 1783. Tornou-se ainda famoso com a
écloga Albano e Damiana (1758), cantada pelos cegos de Lisboa.
A melancolia, o pessimismo e a tristeza estão patentes nos seus escritos.
225

Imagem nº 121 - A principal obra de João Xavier de Matos que faleceria em Vila de
Frades no ano de 1789, após uma vida de privações.
Retirada de:
https://openlibrary.org/books/OL16809293M/Rimas_de_Jo%C3%A3o_Xavier_de_Mat
os

Curiosidade: João Xavier de Matos terá desempenhado o ofício de ouvidor na
Vidigueira e em Vila de Frades. Há na vila, uma rua com o seu nome.

226

1- Soneto sobre o Peso da Idade
(Autoria de João Xavier de Matos)

Já lá vão sete lustros, que este monte
Berço me foi: Já da vital jornada
Mais de meia carreira está passada;
E cedo iremos ver outro horizonte:

A mão já treme, já se enruga a fronte,
Já branqueja a cabeça, e com a pesada
Considração da vida mal gastada,
Vai-se apagando a luz, secando a fonte.

Pouco nos resta, que passar já agora;
E para as derradeiras agonias
De tantos anos, aproveite hum’hora.

Esperanças, temores, vãs porfias,
Paixões, desejos, ide-vos embora;
Favor, que me fareis por poucos dias.

227

2- Soneto com dedicação a Luís Vaz de Camões
(Autoria de João Xavier de Matos)

Só com o Grande, e immortal Camões
Me ponho a conversar noites, e dias:
Ora nas lacrimosas Elegias
Ora nas magoadíssimas Canções.

Aqui me conta mil perseguições
De Fortuna, e de Amor por tantas vias
Que olhando para as minhas agonias,
Tirando sempre vou sábias lições

Sobre elle os olhos outras vezes paro
Já meios de água, e digo então comigo:
Oh alma grande, espirito preclaro!

Que em vão me queixo ao Ceo do meu castigo!
Pois como não será comigo avaro,
Quem foi tão pouco liberal contigo?

228

3- Soneto de pendor naturalista
(Autoria de João Xavier de Matos)

Cuidei, ouvindo a doce melodia
Daquelle passarinho namorado
Que alliviasse em parte o meu cuidado,
Como já noutro tempo succedia.

E vendo as águas, que esta rocha envia
A regar mansamente o verde prado,
Que, esquecido das muitas que hei chorado
Com rosto enxuto agora cantaria.

O contrário succede; porque em quanto
O agradável objecto está defronte,
Dos tristes olhos mais se engrossa o pranto;

Pois foi a minha glória neste monte,
Mais suave que as vozes desse canto,
Mais ligeira que as águas desta fonte.

229

4 – Soneto de cariz fúnebre
(Autoria João Xavier de Matos)

Morreo o bom Luiz: Já não veremos
Aquella boca para todos rindo:
Hum sono perennal está dormindo:
Já de ouvillo a Ventura não teremos.

Hum novo heróe cortado em flor choremos
Que por mais que subamos o alto Pindo,
Ao Ceo, para onde foi de nós fugindo,
Já agora em vão por elle chamaremos:

Até para ficarmos mais saudosos,
O seu frio cadáver nos tirarão
D’ante os olhos tão tristes, e chorosos:

De vello as esperanças se acabarão:
Venturosos aquelles, venturosos,
Que as últimas palavras lhe escutarão.

230

Soneto nº 5 – Soneto Melancólico
(Autoria de João Xavier de Matos)

Pôs-se o sol... Como já na sombra feia
Do dia pouco a pouco a luz desmaia,
E a parda mão da noite, antes que caia,
De grossas nuvens todo o ar semeia!

Apenas já diviso a minha aldeia;
Já do cipreste não distingo a faia.
Tudo em silêncio está; só lá na praia
Se ouvem quebrar as ondas pela areia.

Co’a mão na face, a vista ao céu levanto;
E cheio de mortal melancolia,
Nos tristes olhos mal sustenho o pranto.

E se inda algum alívio ter podia,
Era ver esta noite durar tanto
Que nunca mais amanhecesse o dia!

231

Referências Consultadas:

João Xavier de Matos. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.
[Consult.

2014-01-14].

Disponível

na

www:

<URL:

http://www.infopedia.pt/$joao-xavier-de-matos>.

MATOS, João Xavier de – Rimas de João Xavier de Matos. 3 vols. Lisboa: Régia
Officina Typografica, 1770-1783. Obra digitalizada no Google Books e no
Archive.org.

http://www.citador.pt/poemas/ja-la-vao-sete-lustros-joao-xavier-de-matos,
(Consultado em 14-01-2014).

http://www.citador.pt/poemas/posse-o-sol-joao-xavier-de-matos, (Consultado
em 14-01-2014).

http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2029/00034286.p
df, (Consultado em: 14-01-2014).

http://viciodapoesia.wordpress.com/2010/01/22/a-longevidade-e-o-peso-daidade-um-poema-de-joao-xavier-de-matos-1789/,

(Consultado

em: 14-01-

2014).

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/xmatos.htm, (Consultado em: 14-012014).

https://archive.org/details/rimasdejooxavie00mattgoog, (Obra digitalizada da
autoria deste poeta, Consultado em: 14-01-2014).

232

Artigo nº 5 – Os frescos dos templos de São Cucufate e São Tiago

Redigido em: 26-01-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/01/os-frescos-dos-

templos-de-sao-cucufate.html

Após o abandono da villa por parte dos romanos no século V d. C., rezam as crónicas
de que se instalou inicialmente uma igreja paroquial do período visigótico junto ao
actual tablinum/átrio, e da qual restarão, caso tenha efectivamente existido (tema que
ainda gera alguma controvérsia), apenas ruínas. Referem alguns historiadores antigos
que seria um convento beneditino, mas o que é certo, é que não encontramos pinturas
murais desse período da Alta Idade Média, todavia a sua existência não pode ser
excluída de todo.
Na fachada setentrional, e a partir de meados do séc. XIII, iniciar-se-á o processo de
instalação dos monges crúzios do Mosteiro de S. Vicente de Fora, já que em 1255
receberam com o consentimento do rei D. Afonso III e D. Martinho (bispo de Évora)
todo aquele casarão, originalmente romano, de forma a instaurarem o seu culto em
torno de São Cucufate, o padroeiro daquele templo, o que farão através do
reaproveitamento parcial do antigo armazém romano (adega/celeiro do século IV d.
C.). Os monges vicentinos promoverão o povoamento da terra, organizarão as
actividades económicas (estimularão aqui a produção agrícola), e como novos
senhores eclesiásticos da vila, outorgarão foral em data incerta (e que seria
confirmado pelo rei D. Manuel I em 1512). São estes mesmos frades que estarão por
detrás da designação toponímica desta terra. O mosteiro vicentino de São Cucufate irá
prolongar-se até meados ou finais do século XVI. Durante a sua permanência por mais
de 300 anos, detectamos já alguns frescos pintados neste templo medieval. Deste
período (séc. XIII-XVI), chegaram até aos nossos dias duas pinturas murais que
reivindicam o estatuto de maior antiguidade. A primeira, datada dos finais do século
XIV, exibe presumivelmente o padroeiro São Cucufate (conhecido por ter sido
233

degolado pelos romanos na Catalunha nos inícios do século IV d. C.) ladeado por duas
Santas Mártires. Esta decoração pictórica trecentista encontra-se mesmo no antigo
presbitério. Do século XV ou dos inícios do século XVI, visualizamos ainda uma
modesta imagem que representa, num dos alicerces dos arcos, a Virgem com o
menino ao colo, embora o seu estado se encontre já muito degradado, podendo
mesmo passar despercebido entre muitos dos seus visitantes. Também este fresco
deverá ter sido pintado anonimamente no período em que os monges crúzios ainda aí
professavam. É provável que tenham existido outras pinturas desse longínquo período,
mas é certo que não se conservaram até aos dias de hoje.
Em meados ou finais do século XVI, ocorre o abandono por parte dos últimos monges
que deixam definitivamente o sítio do Mosteiro consagrado a São Cucufate, passando
agora este espaço a acolher uma Capela dedicada a São Tiago Maior. A estatueta de
São Cucufate fora deslocada para a Igreja Matriz de Vila de Frades, sendo que agora no
cimo do altar estava uma estátua equestre de São Tiago. O culto seria assegurado
pelos capelães sustentados pela Santa Casa da Misericórdia de Vila de Frades que
abriam, com alguma regularidade, as portas do templo aos fiéis e peregrinos. Assim o
foi até 1723, data do falecimento do derradeiro ermitão que culminará na
desertificação e no amaldiçoado vandalismo que se fez sentir posteriormente naquele
histórico local.
É neste período de pouco mais do que cem anos que assistimos ao auge artístico
daquele lugar de culto. José de Escovar, um pintor provavelmente de origem
espanhola mas residente em Évora, é o homem escolhido para colorir mais aquele
espaço. É da sua autoria o retábulo fingido que ilustra São Tiago Maior e São
Bartolomeu. Em cima, ainda se pode visualizar o fresco do Baptismo de Jesus Cristo
por São João Baptista. Estas obras de arte terão sido realizadas por volta de 1600, isto
é, na transição entre os séculos XVI e XVII.
Na segunda metade do século XVII, procede-se ao revestimento do corpo da nave e da
cobertura abobadada da Capela/Ermida de São Tiago. É neste preciso momento que se
pintam os anjos, os símbolos solares, os santos do hagiólogo, cobrindo assim grande
parte daquela ornamental capela!

234

No início do século XVIII, realizaram-se ainda algumas pinturas na zona do templo
constituída pelo espaço entre a entrada e os primeiros arcos, nas paredes e na
cobertura137.

Referências Consultadas:

MOURA, Abel; CABRITA, Teresa; SERRÃO, Vitor - As Pinturas Murais do
Santuário de São Cucufate. Coimbra: Instituto de Arqueologia da Faculdade de
Letras de Coimbra, 1989.

ALARCÃO, Jorge - Roteiros da Arqueologia Portuguesa - São Cucufate. IPPAR,
1998.

137

As imagens destas pinturas estão todas elas expostas ao longo deste trabalho, e por isso, não
repetiremos a sua apresentação neste artigo.

235

Artigo nº 6 - Considerações sobre a Praça 25 de Abril (Vila de Frades)

Redigido em: 17-02-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/02/consideracoes-

sobre-praca-25-de-abril.html

Imagem nº 122 - A Praça 25 de Abril, outrora designada de Praça Nova, ostenta
edifícios seculares.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira

Descrição Pormenorizada da Imagem

Ao lado esquerdo, temos os Paços do Concelho do século XVII (extinto em 1854; o
edifício em concreto é aquele que possui no seu cimo uma torrela com sino).
Em 1849, cinco anos antes do fim da era concelhia vilafradense, sabemos que a
localidade, quiçá juntamente com a freguesia de Vila Alva (incorporada desde 1836),
236

albergaria 2 877 habitantes (contrastando radicalmente com o actual cenário de
desertificação).
Ninguém apurou ainda as origens exactas deste Município. O documento mais antigo
que encontramos visando a existência do dito concelho, remete-nos para o segundo
foral, da era manuelina, outorgado em 1512. Mas o primeiro foral, outorgado pelo
Mosteiro de São Vicente de Fora a Vila de Frades, perdeu-se irremediavelmente,
contudo cremos que o mesmo poderá ser talvez dos séculos XIII (mais provável pela
necessidade de povoamento e consolidação económica nos últimos anos do processo
secular da Reconquista Cristã) ou XIV. Se este nosso raciocínio estiver correcto, Vila de
Frades teria sido sede de município por 500 ou 600 anos, tendo ainda que partilhar a
sua influência com os senhorios eclesiásticos (o Mosteiro vicentino de São Cucufate
detinha terras que poderiam ir até à Serra de Portel e Cuba, outorgou o primeiro foral
que se perdeu, e esteve ainda na origem da designação toponímica desta terra - Vila
de Frades, ainda assinalada por outros templos célebres que a constituem) e
nobiliárquicos (caso dos Gamas que se estabeleceram nos Paços do Castelo da
Vidigueira, mas que promoveram aqui algumas iniciativas, nomeadamente a
construção dum segundo convento - o de Nossa Senhora da Assunção - 1545
(capuchos-franciscanos).
Ao longe podemos ainda ver o cimo da Igreja Matriz (ladeada pelas suas duas torres
sineiras), cuja construção foi assegurada entre 1696 e 1707 a mando da Câmara
Municipal de Vila de Frades, contando ainda com o patrocínio dos religiosos vicentinos
e dos conceituados Gamas. O seu altar-mor, de estilo rocócó e barroco, impressiona
qualquer visitante, tal é a sua beleza indescritível coroada pela talha dourada. Alberga
ainda quatro altares laterais que mereceram a devida decoração sumptuária. Apesar
de a vermos, é necessário salientar que este templo majestoso encontra-se no Largo
de São Cucufate (ora nem mais, o nome do orago da freguesia).
Do lado direito, temos a rua de Lisboa, a "rua fidalga da vila", como assim a designava
Fialho de Almeida na sua obra "O País das Uvas".
Ao centro, a Praça verdejante, colorida de laranjeiras, pavimentada com calçada à
portuguesa, centrada com um chafariz (ou "bica", como é designada popularmente)
datado de 1900 (terá substituído aí o velho pelourinho, claro símbolo do antigo
regime) e que revela ser agora um espaço acolhedor de mesas e cadeiras que farão
237

parte do Novo Centro de Leitura dedicado a Fialho de Almeida, e cuja inauguração
estará para breve.
A foto foi tirada a partir do segundo piso do Museu da Casa do Arco, outro edifício
histórico que outrora albergara uma prisão masculina, conforme o gradeamento das
janelas do piso inferior ainda pode testemunhar.
A Praça 25 de Abril, antigamente denominada de Praça Nova, é um dos sítios mais
emblemáticos da freguesia de Vila de Frades e até do concelho da Vidigueira. Está
repleta de história, o que orgulha certamente os vilafradenses.

238

Artigo nº 7 – A Casa de Fialho de Almeida

Redigido em: 14-01-2014

Em 7 de Maio de 1857, nascia um novo talento em Vila de Frades. A tremenda
capacidade que acabaria por revelar no campo da Escrita determinou que Fialho de
Almeida fosse um dos principais eruditos da Literatura Portuguesa na transição entre
os Séculos XIX e XX. Os seus textos constituem fontes essenciais que descrevem um
atribulado período de transição da Monarquia Constitucional para a República
Portuguesa.
Este artigo não é especialmente dedicado à sua biografia e obras, mas sim à casa que
acolheu o nascimento de Fialho de Almeida.
A mesma corresponde ao edifício nº 12 do largo Dr. José Valentim Fialho de Almeida.
Actualmente, tem um aspecto bastante diferente do da modesta casinha de taipa que
pertencera aos pais do escritor e na qual Fialho contemplou, pela primeira vez, a luz do
mundo. Ao longo do tempo, a casa foi alvo de obras de beneficiação (algumas
promovidas até pelo próprio escritor).
Importa ressalvar as três lápides de mármore que aí se encontram actualmente nas
paredes exteriores e que se referem à sua boa memória. As mesmas já foram
devidamente exibidas num dos capítulos do nosso trabalho.

Referências Consultadas:

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

Textos exibidos nos painéis do Núcleo Museológico da Casa do Arco.

239

Artigo n º 8 – A Casa dos Almeidas

Redigido em: 16-04-2014

Apesar de ter sido demolido recentemente, este edifício localizava-se entre a rua de
Lisboa e a rua de Santo António, ainda na zona envolvente à Praça 25 de Abril (outrora
Praça Nova).
Esta era a antiga residência do Priorado de São Vicente de Fora, capelães e donatários
da sede de freguesia. A sua construção remontaria ao século XVIII, talvez ainda na era
de D. João V.
De acordo com Túlio Espanca, tratava-se dum pavilhão alteroso de alvenaria, com
portais e algumas aberturas obstruídas mas conservando ainda a varanda de grelhas
de tijolo, duas lunetas, três janelas de peitoril.
O escudo barroco, ovalado e de mármore branco, com timbre de barrete e cordões
abadais com geminação de três lizes, duas barras verticais e dois leões ladeando a
torre dos Henriques, encontra-se actualmente preservado na Junta de Freguesia de
Vila de Frades.

Referências Consultadas:

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

240

Artigo nº 9 – O Palacete do Mestre Conceição Silva

Redigido em: 17-04-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/04/palacete-do-

mestre-conceicao-silva-vila.html

Trata-se duma propriedade que se situa no Largo Fialho de Almeida e que pertencera
ao Mestre António Conceição Silva (1869-1958), grande pintor de retrato e paisagem,
ceramista e restaurador, para além de ter sido conselheiro do rei D. Carlos.
A construção parece ser obra dos finais do séc. XIX e ocupa praticamente todo um
quarteirão, albergando, durante décadas, valiosas obras de arte. O seu quintal era
cedido pela família para grandes festas populares de São João, São Pedro e Santa
Maria.
Aqui residiram algumas das personalidades conhecidas da Cultura Portuguesa, a
convite do dinamizador cultural e resistente anti-fascista José Luís Conceição Silva
(filho do Mestre António Conceição Silva), sendo os casos do Prof. Agostinho da Silva, o
Arquitecto Frederico George138 e o musicólogo João de Freitas Branco. Esta família
possuía igualmente o seu campo para fins de exploração agrícola no Almargem.
O seu estado actual é de quase ruína, exigindo um projecto eficiente de recuperação.

Imagem nº 123 - O Palacete da família dos Conceição Silva. (Foto da minha autoria)
138

Foi responsável pelos célebres projectos da construção do Museu de Marinha e do Planetário
Calouste Gulbenkian, ambos concretizados em Lisboa.

241

Referências Consultadas:

ESPANCA, Túlio – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa,
1992.

Ó, Desidério Lucas do – Vila de Frades – Capital do Vinho de Talha. Sintra:
Colares Editora, [2010].

242

Artigo nº 10 – Edifício da Sociedade Recreativa União Vilafradense

Redigido em: 17-04-2014

A Sociedade Recreativa da vila localiza-se no Largo de São Brás, mesmo junto à Capela
consagrada a este santo.
A nível interior, é conhecido o seu aparato arquitectónico, no qual devemos destacar o
auditório digno de acolher diversas cerimónias139. Também há registo da existência
dum bar. Actualmente, estão sediadas neste edifício todas as associações da vila em
gabinetes próprios.
No passado, foi um lugar que testemunhou a segregação social, visto que aí residia a
Sociedade dos Ricos e dos Artistas, e onde a presença dos rurais não era bem vista. O
ambiente era pois sofisticado, dançava-se ao som do jazz ou de algum “pick up”.

Imagem nº 124 - O auditório (ou sala de teatro) da Sociedade Recreativa pauta-se por
uma arquitectura peculiar, tornando o espaço persuasivo à realização de espectáculos.
Foto retirada de: http://www.viladefrades.pt/portal/v3.0/, (Página Oficial da Junta de
Freguesia de Vila de Frades).

Referência Consultada: Ó, Desidério Lucas do – Vila de Frades – Capital do Vinho de
Talha. Sintra: Colares Editora, [2010].
139

De acordo com a indicação de António Rosa Mendes, este auditório poderá ter sido construído às
expensas do povo na década de 1920 (talvez até em 1927).

243

Artigo nº 11 – Os Condes da Vidigueira e de Vila de Frades

Condes da Vidigueira e de

Período de

Impacto nas duas

Feitos

Vila de Frades

Governação

vilas visadas

exteriores

1º D. Vasco da Gama

1519-1524

Durante tempo

Descobriu o

incerto, instalou-se no

Caminho

Castelo já existente na

Marítimo para a

Vidigueira. Dotou a

Índia (1498). Foi

Torre do Relógio da

nomeado vice-

Vidigueira com um

rei da Índia em

sino (datado de 1520)

1524, acabando

e manteve boas

por falecer

relações com o

nesse mesmo

Convento de Nossa

ano em Cochim.

(n. 1469, m. 1524)

Senhora das Relíquias
2º D. Francisco da Gama

[1524]-1567

(n. 1510140, m. 1567)

Juntamente com a sua

Estribeiro-mor

mulher Guiomar de

de D. João III e

Vilhena, funda o

herda o título de

Convento de Nossa

Almirante da

Senhora da Assunção

Índia.

em Vila de Frades
(1545) e a Ermida de
Santa Clara na
Vidigueira (1555).
3º D. Vasco (Luís) da

[1567]-1578

_

Tomba na

Gama

batalha de

(n. 1530, m. 1578)

Alcácer Quibir

140

As datas de nascimento apontadas para D. Francisco da Gama e D. Vasco (Luís) da Gama, segundo e
terceiro condes da Vidigueira respectivamente, não são consensuais. Ivone Alves Correia sugere, por seu
turno, que D. Francisco da Gama nasceu em 1502 ou 1503 (em vez de por volta de 1510) enquanto que
D. Vasco (Luís) da Gama teria vindo ao Mundo em 1525 (em detrimento de 1530). Tudo isto surge numa
época em que a ausência de registos escritos traduz-se na dificuldade de obtenção de notas biográficas.

244

4º D. Francisco da Gama

[1578]-

Está associado à

Foi feito cativo

(n. 1565, f. 1632)

1632141

construção da Ermida

em Alcácer

de São Rafael na

Quibir, tornou-

Vidigueira, e poderá

se mais tarde

ter estado ainda por

por duas vezes

detrás da construção

vice-rei da Índia

da Ermida de Santo

(1597-1600 e

António dos Açores

1622-1628). Foi

em Vila de Frades.

ainda Presidente

Ambas foram talvez

do Conselho da

construídas em inícios

Índia.

do séc. XVII.
Foi provedor da Casa
da Misericórdia de Vila
de Frades em 1587.
5º D. Vasco Luís da Gama
(n. 1612, f. 1676)

[1632]-1676

Tal como o seu

Destacou-se em

antecessor, poderá

missões

também ter alguma

diplomáticas,

ligação à criação da

enquanto

Ermida de Santo

embaixador de

António dos Açores.

D. João IV. Foi

Juntou a partir de

bibliófilo e

agora o título de

protector das

Marquês de Nisa, o

Artes e Letras.

qual será transmitido

Foi deputado da

igualmente aos seus

Junta dos Três

sucessores.

Estados,
membro do
Conselho de

141

É verdade que em 1578, D. Francisco da Gama é feito prisioneiro, mas pela morte do pai, na mesma
batalha, o título automaticamente passou-lhe para as mãos, mesmo não o exercendo directamente no
início.

245

Estado e do
Conselho de
Guerra.
6º D. Francisco Luís

Embora não

Deputado da

Baltasar António da Gama

possuamos dados

Junta dos Três

(n. 1636, f. 1707)

concretos, a

Estados,

cronologia do seu

Membro do

mandato poderá

Conselho de

indiciar que tenha

Estado e

colaborado de alguma

Governador do

forma na construção

Algarve, tendo aí

da Igreja Matriz de

empreendido a

Vila de Frades que

construção dum

decorreu entre 1696 e

forte e dum

1707.

corpo da guarda.

-

Herdou

7º D. Vasco José Luís

[1676] - 1707

[1707]-1735

Baltasar da Gama

igualmente

(n. 1666, f. 1735)

alguns títulos.

8ª D. Maria José Francisca

[1735]-1750

Xavier Baltasar da Gama

Foi a primeira mulher

-

a exercer o título.

(n. 1712, f. 1750)
9º D. Vasco José Jerónimo

[1750]-1757

Mandato curto,

Baltasar da Gama

faleceu ainda jovem

(n. 1733, f. 1757)

com 24 anos.

10º D. Rodrigo Xavier

[1757]-1784

-

Deverá ter

Foi conde de

Teles Castro da Gama

patrocinado as obras

Unhão.

Ataíde Noronha Silveira e

do altar-mor da Igreja

Sousa

Matriz de Vila de

(n. 1744, f. 1784)

Frades, o qual estaria
pronto em 1787.

246

11ª D. Eugénia Maria

[1784]-

Tal como o seu

Casou-se com o

Josefa Xavier Teles de

[1802]142

antecessor, poderá ter

almirante D.

Castro da Gama

investido igualmente

Domingos Xavier

(n. 1776, f. 1839)

no novo altar-mor da

de Lima (1765-

Igreja Matriz de Vila

1802) que

de Frades.

combateu na
Campanha do
Rossilhão,
participou no
bloqueio de
Malta e na luta
contra as forças
republicanas
francesas em
Nápoles. Este foi
ainda
embaixador na
Rússia.

12º D. Tomás Xavier Teles

[1802]-1820

-

Foi Comendador

de Castro da Gama Ataíde

da Ordem de

Noronha da Silveira e

Cristo e Tenente

Sousa

de Cavalaria

(n. 1796, f. 1820)
13º D. Domingos Vasco

[1820]-1873

Desbaratou fortunas e

Xavier Teles da Gama

levou as casas da

Castro e Noronha Ataíde

Vidigueira e Nisa à

Silveira e Sousa

ruína

-

142

A Condessa D. Eugénia abdicou do título antes do seu falecimento, já que o seu sucessor morre ainda
antes desta personalidade. A hipótese, embora não sustentada cientificamente, e daí utilizarmos
parênteses rectos, poderá determinar a passagem do testemunho, aquando do falecimento do seu
marido D. Domingos Xavier de Lima em 1802, podendo D. Tomás Xavier Teles ter assumido o novo título
a partir dessa data. Mas recordamos que é uma data proposta sem qualquer fundamento científico, mas
seguindo apenas um raciocínio lógico.

247

(n. 1817, f. 1873)
14º D. Tomás

[1873]-1903

-

-

[1903]-1941

Casou-se duas vezes

-

Xavier/Francisco Teles da
Gama
(n. 1839, f. 1903)
15º D. José Teles da Gama
Castro Ataíde Noronha da

mas não deixou

Silveira e Sousa

geração

(n. 1877, f. 1941)

Como poderemos observar, não é nada fácil estabelecer balizas cronológicas para o
período de governação dos Condes da Vidigueira e de Vila de Frades, dada a escassez
de documentos que nos permitam traçar com rigor a durabilidade dos seus mandatos.
Por isso, aplicamos sempre parênteses rectos, quando não temos a certeza da data
proposta, embora a mesma coincida quase sempre com os inícios dos referidos
períodos de governação.
Os primeiros Condes da Vidigueira parecem ter investido mais intensamente nas suas
novas terras, nomeadamente os cinco primeiros, com particular destaque para os
homónimos Francisco da Gama, 2º e 4º Condes da Vidigueira. Talvez, nestes tempos
iniciais, a Casa da Vidigueira tivesse experimentado um maior desafogo financeiro,
usufruindo duma realidade mais abastada. Provavelmente, a exploração agrícola
promovida por eles nestas terras, e conciliando os privilégios e compensações
chorudas derivadas dos seus cargos (houve aqueles que se destacaram com uma
carreira internacional: almirantes, diplomatas, deputados, vice-reis da Índia), permitiu
nestes primeiros tempos uma capacidade de investimento considerável que se
repercutiu em algumas intervenções de nomeada na Vidigueira e em Vila de Frades.
Mais tarde, esta casa nobiliárquica, talvez devido aos ventos do liberalismo e
posteriormente da Primeira República, afunda-se num estado de decadência até
cessar a sua existência em 1941.
De acordo com o site Geneall Net, As armas do Conde da Vidigueira consistiam num
xadrezado de ouro e vermelho, de três peças em faixa e cinco em pala, as de vermelho
248

carregadas de dois filetes de prata postos em faixa. O timbre assenta numa gama
passante de ouro, coroada com três palas de vermelho. Acrescentou-se ainda um
escudete de prata com cinco mini-escudetes de azul exibidos em cruz, e cada um
carregado com cinco besantes de ouro em aspa. O timbre radica num meio naire de
braços nus, vestido e toucado de branco, tendo na mão direita o escudo das armas e
na esquerda um ramo de canela de verde, florido de ouro.

Imagem nº 125 - As armas do Conde da Vidigueira.
Retirada de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_da_Vidigueira; Livro do Armeiro Mor,
fl. 87, 1509.

Referências Consultadas:

ALVES, Ivone Correia – Gamas e Condes da Vidigueira. Percursos e Genealogias.
Lisboa: Edições Colibri, 2001.

ARAGÃO, Augusto Carlos Teixeira de – D. Vasco da Gama e a villa da Vidigueira.
Lisboa: Tipografia Universal, 1871.

CAETANO, José Palma – Vidigueira e o seu Concelho. 2º ed. Beja, Câmara
Municipal da Vidigueira, 1994.

ESPANCA, Túlio- Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, Lisboa, 1992.

http://dicionario.sensagent.com/conde+da+vidigueira/pt-pt/, (Consultado em:
18/04/2014).

http://www.geneall.net/P/fam_page.php?id=417,

(Consultado

em:

18/04/2014).
249

Artigo n º 12 - Mistérios por Desvendar na História de Vila de Frades

Redigido em: 17-04-2014

O nosso humilde esboço monográfico abriu caminhos para a compreensão da evolução
desta localidade, transmitindo assim novas luzes. Todavia, é certo que os estudos
devem prosseguir no futuro, de forma a que se esclareçam algumas interrogações
pertinentes que infelizmente não conseguimos deslindar.
Em primeiro lugar, como é que se designaria originalmente a villa romana que mais
tarde herdou o nome do patrono (São Cucufate) escolhido pelos frades medievais? Se
por exemplo, Beja seria, na era romana, Pax Julia, então como se chamaria esta
influente villa palaciana alentejana que pertence à actual freguesia de Vila de Frades?
Ainda sobre este sítio arqueológico, é imperioso descobrir a origem do aqueduto –
onde é que esta estrutura iria buscar a água para abastecer os tanques e demais
estruturas da villa? Quais as suas dimensões e comprimento? Neste ponto, é tentador
da nossa parte, defender que a nascente estaria próxima, mas ainda não se conseguiu
identificar qual seria o curso de água que abastecia aquela comunidade romana.
Também seria útil saber como é que se procedeu o abandono do lugar por parte dos
romanos, talvez decorrido em meados do século V. A instauração posterior dum
mosteiro visigótico na zona do antigo tablinum é outra das discussões versadas que
ainda não produzem qualquer consenso.
De acordo com a tradição popular, existiriam túneis subterrâneos que assegurariam os
antigos acessos entre as localidades desta região, nomeadamente Vila de Frades e
Vidigueira. Parece ser uma teoria fantasiosa e com pouco crédito, já que nunca se
encontrou aqui qualquer vestígio nesse sentido. Contudo, deve haver lugar a uma
prospecção para que se esclareça este assunto.
No decurso do meu estudo, detectei pouca informação sobre as ermidas de São Bento
e São Sebastião, a Capela do Espírito Santo e a Igreja de São Jerónimo, então
desaparecidas, mas seria interessante investigar mais profundamente a história destes
250

templos, com base em mais documentação e, se possível, na obtenção de artefactos e
realização de intervenções arqueológicas.
Também a história inerente ao Convento de Nossa Senhora da Assunção de Vila de
Frades pauta-se por algumas contradições, constituindo outra temática merecedora
duma análise mais completa e pormenorizada.

251

Artigo nº 13 – Como desapareceu o último vestígio da Ermida de São Sebastião?

Redigido em: 28-04-2014

Retirado de:http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/04/como-desapareceuo-ultimo-vestigio-da.html

As actas camarárias de Vila de Frades cedem-nos uma resposta intrigante para o ano
de 1853.
De acordo com a acta do dia 11 de Junho do ano mencionado, a Ermida de São
Sebastião encontrava-se apenas reduzida a um torreão, de proporções suficientes,
para ser considerado, nesse documento, como uma ameaça à segurança pública.
Na altura, o Presidente da Câmara (e último da história do Município Vilafradense) era
José Joaquim de Carvalho, contando ainda com a colaboração dos vereadores Manoel
António Ferro, José Linhares, Sebastião José de Almeida e António Rodrigues Taborda.
O administrador do Concelho era José Fialho Zorrio (este último nome merece ainda as
minhas dúvidas até porque a letra não é fácil de decifrar paleograficamente e o nome
aparenta não ser muito comum). Para além destes, existiam ainda os escrivães
municipais, entre outros oficiais.
Haveria pois um problema por resolver, e que justificava algum alarme nos habitantes
de Vila de Frades, concelho que na altura ainda albergava Vila Alva.
Entretanto, eis que Justino Maximo Baião Matoso, o célebre conselheiro e
(futuramente) par do reino, decide mexer os cordelinhos, e compromete-se a demolir
o torreão, exigindo em troca a utilização da respectiva pedra extraída para uma obra
que estava a promover nas proximidades da Ermida citada, isto é, a nascente da vila. O
seu pedido à entidade municipal foi aprovada em conformidade com os regimes
administrativos da altura.
Derrubava-se assim o último testemunho desta ermida enigmática (cuja história é
quase impossível de traçar) que já só estaria reduzida a esse torreão ermo. Para além
de tudo isto, fica igualmente patente a influência de Justino Maximo Baião Matoso
naquela região, exibindo as suas qualidades de bom regateador.

252

Artigo nº 14 – Quando Vila de Frades chegou a ter o próprio cirurgião

Redigido em: 28-04-2014

Retirado de: http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/04/quando-vila-defrades-chegou-ter-o.html

Nas actas do ano de 1853, abordava-se a questão da vila ter o seu próprio cirurgião,
sendo que o nome mais falado era o de Justino Augusto de Lemos Marques, que iria
auferir um ordenado anual de 50 mil réis (depois aumentado para 72 mil réis). Não
teria residência fixa na vila, e tinha o dever de cuidar de qualquer cidadão enfermo.
O "partido" da cirurgia era visto como uma arte nos manuscritos cuidadosamente
analisados, ficando subjacente a importância do auxílio médico neste concelho que
acabaria por ser, muito em breve, extinto.
O oficial seria contratado pela Câmara para assegurar tais tarefas, depois de
verificados os requisitos do candidato.

253

Artigo nº 15 – O Município de Vila de Frades e os anos moribundos de 1850-1853

Redigido em: 30-04-2014

Retirado de: http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/04/o-municipio-devila-de-frades-e-os-anos.html

Debrucei-me sobre dois livros de actas que integram o conteúdo das sessões
decorridas neste período derradeiro da existência da municipalidade em Vila de
Frades. Creio que terei consultado cerca de 100 actas, embora não as tenha
contabilizado rigorosamente.
O panorama que se pode extrair desta investigação para os anos supracitados, é que a
Câmara Municipal de Vila de Frades, de pendor rural e modesto, encontrava-se
asfixiada pelas suas obrigações de cariz social. A sua capacidade económica estava
longe de atingir níveis elevados. O Concelho, nestes tempos moribundos, parecia ser
apenas uma sombra daquilo que fora no passado (por exemplo, entre 1696 e 1707, o
Município teve meios para patrocinar a construção da imponente Igreja Matriz), e
agora reduzia-se a cumprir determinações gerais, muitas delas provenientes do
Governador Civil.
O cenário crítico chegou ao ponto do Juiz Ordinário deste Julgado, Francisco Felis
Branco, lamentar o desarranjo e a indecência da Casa Municipal para a realização de
actos públicos camarários e judiciais. Solicitou-se mesmo a aquisição de novas
cadeiras.
O Concelho era ainda obrigado a investir verbas significativas na protecção dos
expostos (as amas destes recebiam mesmo um salário por cuidar destas crianças
abandonadas). Só para termos uma ideia, o Município de Vila de Frades, que na altura
albergava duas Juntas de Paróquia, a de São Cucufate e a de Vila Alva, terá investido
180:000 reis para o ano económico de 1849-1850, e 198:000 reis para o posterior ano
de 1850-1851, dinheiro canalizado para o pagamento dos ordenados às amas dos
expostos.
254

Para além disto, a Câmara Municipal tinha de se certificar e até mesmo garantir a
guarda das vinhas, encarregando-se da sua protecção.
Na acta de 4 de Maio de 1850, ficam patentes as dificuldades das Juntas de Paróquia e
Câmara Municipal em solver as despesas previstas nos orçamentos. Recorrem às
derramas, ou à recepção de cabeças de pardais (este tributo recaía especificamente no
âmbito da caça) e a outro tipo de contribuições para angariar (lançamento de
décimas) os fundos minimamente necessários.
A Câmara tinha ainda de pagar materiais para promover empreitadas de construção ou
manutenção, isto para além, dos salários devidos aos seus funcionários. Por exemplo,
sabemos que um escrivão auferia um ordenado anual a rondar a quantia dos 50 mil
reis.
As consideráveis despesas da edilidade e dos seus paços do Concelho perfaziam uma
realidade que ninguém ousava desmentir.
Para além desta situação precária, o Município era obrigado a praticar determinado
tipos de acções:

O tesoureiro era convocado regularmente para apresentar contas da sua
gerência.

Apresentação e Aprovação de Projectos de Orçamento Municipal (receitas vs
despesas).

Viabilização das Contas das duas Juntas de Paróquia.

Obrigar os proprietários a assegurar o "despulgamento" das suas vinhas.

Envio de mapas do vinho maduro consumido, e das demais colheitas,
nomeadamente os cereais e legumes.

Proceder à aquisição de instrumentos agrários.

Evitar estragos causados pelos rebanhos de gado ovino, suíno e vacum, que
invadiam as vinhas e cearas, derrubando criações de madeiras e canas, e outros
objectos de grande interesse para os proprietários.

Anunciar os funcionários municipais e os seus rendimentos, e enviar mapas
com as contribuições directas e indirectas lançadas pela Câmara Municipal.

Comunicar ao Governador Civil os dados sobre o recenseamento.
255

Fixar os preços do trigo, azeite e cevada.

Apresentar relação de mulheres.

Apesar deste cenário mais adverso e menos propício ao investimento comum, a
verdade é que este Município promoveu ainda assim algumas obras de certo relevo,
nomeadamente:

1. Aquisição de novas cadeiras para o Edifício dos Paços do Concelho, a pedido do
Juiz Ordinário do Julgado.
2. Realização de alguns amanhos na Torre do Relógio da vila, com recurso a um
oficial de Relojoeira.
3. Colocação duma porta no curral público de Vila Alva.
4. Demolição do torreão, derradeiro vestígio da Ermida de São Sebastião, com a
ingerência do Conselheiro e Juiz da Paz Justino Baião Matoso nesta questão.
5. Compra de materiais para os concertos das fontes de Vila Alva.
6. Contratação dum cirurgião que cuidaria dos enfermos do concelho.
7. Intervenções nas calçadas da Rua de Lisboa.

Os autarcas eleitos de Vila de Frades tinham previamente de prestar juramento à Carta
Constitucional e ao Rei Português, confiando as suas palavras perante os Santos
Evangelhos.

256

Artigo nº 16 – Os autarcas de Vila de Frades (1838-1853)

Redigido em: 01-05-2014

Através da análise atenta sobre os seis livros de actas camarárias de Vila de Frades,
conservados no Arquivo Municipal da Vidigueira, detectamos inúmeros organismos
bem como os seus titulares.
Verificamos a presença do Presidente da Câmara, vereadores (com destaque para o
vereador fiscal), juízes, oficiais de diligências, procuradores, administradores,
tesoureiros, membros do Conselho Municipal, pregoeiros, médicos/cirurgiões,
escrivães, alcaides, porteiros…
Denotamos ainda rotatividade de alguns elementos que integraram mais do que um
cargo ao longo dos 15 anos analisados. Para além disso, constatamos que existiam
ofícios cuja duração do mandato era mais limitada do que outros.

1- Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1837-1838.

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

António Caetano de Carvalho

Presidente da Câmara

Joaquim Ferreira Godinho

Vereador Fiscal

Manuel Godinho de Almeida

Vereador

António Rodrigues Taborda

Vereador

José Martins de Carvalho

Vereador

José Martins Leitão

Tesoureiro

Joaquim de Mello Lobo

Administrador do Concelho

José Francisco Nogueira

Escrivão/Secretário

José do Carmo Guerra

Alcaide

Sebastião Gomes

Marchante

Luís Vieira

Porteiro

José Leonardo de Mira

Oficial de Diligências do Município

257

2 - Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1839-1840

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

José Martins Leitão

Presidente da Câmara (por breve tempo)
e depois Procurador-Geral

Joaquim José Pereira

Vereador Fiscal e posteriormente
Presidente da Câmara após saída do
antecessor

Joaquim de Brito Magno

Vereador

Francisco José Pimenta

Vereador (e depois sobe a Vereador
Fiscal)

Sebastião Gomes

Vereador

Balthezar José Mascarenhas

Vereador (Substituto)

José Linhares

Vereador

José Telles Branco

Vereador

António Caetano de Carvalho

Vereador

Joaquim de Mello Lobo

Administrador do Concelho

José Franco Mascarenhas

Escrivão/Secretário

Joaquim Pedro Covas

Escrivão do Administrador do Concelho

Francisco Damásio da Asumpção

Escrivão do Administrador do Concelho

Luís Vieira

Porteiro

Joaquim Dias da Silva

Porteiro

José Ramalho

Oficial de Diligências do Juiz Ordinário

258

3 - Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1841-1842

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

Justino Máximo Baião Matoso143

Presidente da Câmara

José Martins Leitão

Vereador Fiscal e Administrador do
Concelho

José Anacleto da Costa

Vereador (e mais tarde Vereador Fiscal)

José Linhares

Vereador

Balthezar Mascarenhas

Vereador

Diogo da Costa Branco

Vereador

Fernando Coelho de Arce Cabo Perdigão

Vereador

Joaquim de Mello Lobo

Vereador

José Fialho Zorrio

Administrador do Concelho

António Joaquim Branco

Administrador do Concelho e Juiz da Paz

José do Carmo

Oficial de Diligências do Concelho

José Franco Mascarenhas

Escrivão/Secretário

Francisco Raimundo

Porteiro

Luís Vieira

Porteiro

143

Justino Máximo Baião Matoso alcançaria uma carreira de sucesso, tendo ainda sido conselheiro, juiz
da paz e par do reino.

259

4 - Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1843-1844

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

José Anacleto da Costa

Presidente da Câmara

José Manoel Lobo

Vereador Fiscal

António Rodrigues Taborda

Vereador

José Telles Branco

Vereador

Manoel António Ferro

Vereador

Diogo da Costa Branco

Vereador

José Fialho Zorrio

Administrador do Concelho

António Afonso de Arce Cabo

Membro efectivo do Conselho Municipal

Joaquim de Brito Magno

Membro efectivo do Conselho Municipal

Joaquim de Mello Lobo

Membro efectivo do Conselho Municipal

José Martins de Carvalho

Membro efectivo do Conselho Municipal

Dimas José Pissarra

Membro efectivo do Conselho Municipal

Balthezar Mascarenhas

Membro substituto do Conselho
Municipal

José António Rodrigues

Membro substituto do Conselho
Municipal

Joaquim Manoel Candeias

Membro substituto do Conselho
Municipal

Francisco Manoel

Membro substituto do Conselho
Municipal

Justino Máximo Baião Matoso

Juiz da Paz

Luís Vieira

Porteiro

José Franco Mascarenhas

Escrivão/Secretário

260

5 - Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1845-1846

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

Francisco António da Silva Lemos

Presidente da Câmara

José Leonardo de Mira

Vereador Fiscal

José Linhares

Vereador

José Félix Branco

Vereador

Joaquim José Pereira

Vereador

Francisco da Rosa Mendes

Tesoureiro

José Martins de Carvalho

Membro efectivo do Conselho Municipal

José António Rodrigues

Membro efectivo do Conselho Municipal

Joaquim de Brito Magno

Membro efectivo do Conselho Municipal

Joaquim Marques Ferro

Membro efectivo do Conselho Municipal

Dimas José Pissarra

Membro efectivo do Conselho Municipal

José Diogo Cumqueiro

Membro substituto do Conselho
Municipal

Manoel António Ferro

Membro substituto do Conselho
Municipal

Francisco Manoel

Membro substituto do Conselho
Municipal

Bartholomeo Pissarra

Membro substituto do Conselho
Municipal

António Rodrigues Taborda

Membro substituto do Conselho
Municipal

José Franco Mascarenhas

Escrivão/Secretário

Francisco José Nogueira

Escrivão da Paz

Joaquim de Mello Lobo

Cirurgião

Joaquim Pinto de Silva Mello

Médico

261

6 - Oficiais Municipais de Vila de Frades para os anos de 1847-1849144

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

José Leitão

Presidente da Câmara

José Leonardo de Mira

Juiz da Paz e posterior Presidente interino
da Câmara

José Joaquim de Carvalho

Vereador Fiscal

António Joaquim Samora

Vereador

José Linhares

Vereador

Joaquim Ferreira Godinho

Presidente da Comissão Municipal

Justino Máximo Baião Matoso

Vogal efectivo do Conselho Municipal e Juiz
da Paz

António Afonso de Arce Cabo

Vogal efectivo do Conselho Municipal

José Martins de Carvalho

Vogal efectivo do Conselho Municipal

Dimas José Pissarra

Vogal efectivo do Conselho Municipal

Franco Manoel Fialho

Vogal efectivo do Conselho Municipal

José Martins

Vogal efectivo do Conselho Municipal

José Diogo Cumqueiro

Membro substituto do Conselho Municipal

Bartholomeu Pissarra

Membro substituto do Conselho Municipal

José António Rodrigues

Membro substituto do Conselho Municipal

António Rodrigues Taborda

Membro substituto do Conselho Municipal

José Silva da Costa

Membro substituto do Conselho Municipal

Francisco da Rosa Mendes

Tesoureiro

Francisco Félix Branco

Juiz ordinário

José Franco Mascarenhas

Escrivão/Secretário

Luís Vieira

Porteiro

Joaquim Pinto de Silva Mello

Médico

144

Dado o avançado estado de degradação documental e a escrita de difícil decifração (e até de
conteúdo não muito claro), não nos foi nada fácil obter informações revelantes para os anos
compreendidos entre 1847-1849.

262

7- Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1850-1851

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

Joaquim Ferreira Godinho

Presidente da Câmara

Manoel António de Mira

Vereador

José Cesário Franco

Vereador

Francisco António Duarte

Vereador

António Afonso d’Arce Cabo Coelho Perdigão

Vereador Fiscal

Jerónimo Marques

Juiz Ordinário, Carcereiro e Oficial
de Diligências da Administração
do Concelho

António Linhares

Oficial de Diligências da
Administração do Concelho

Joaquim Romão Franco

Procurador do Concelho

Valentim Pereira de Almeida145

Tesoureiro

José Franco Mascarenhas

Escrivão

Francisco Theodosio de Sequeira e Sá

Escrivão Adjunto

José Fialho Zorrio

Administrador do Concelho

Joaquim Pinto da Silva e Mello

Médico da vila

Luís Vieira

Pregoeiro

Justino Maximo Baião Matoso

Membro efectivo do Conselho
Municipal e Juiz da Paz

José António Rodrigues

Membro efectivo do Conselho
Municipal

Dimas José Pissarra

Membro efectivo do Conselho
Municipal

Luís António Carvalho

Membro efectivo do Conselho
Municipal

145

Estaremos presumivelmente perante o Pai do escritor Fialho de Almeida. Valentim Pereira de
Almeida foi ainda Mestre Primário.

263

José Diogo Cumqueiro

Membro efectivo do Conselho
Municipal

Francisco António da Silva e Lemos

Vogal substituto do Conselho
Municipal

Basto Gama Pissarra

Vogal substituto do Conselho
Municipal

Francisco Manoel

Vogal substituto do Conselho
Municipal

António Rodrigues Taborda

Vogal substituto do Conselho
Municipal

Sebastião Gomes

Vogal substituto do Conselho
Municipal

264

8 – Oficiais Municipais de Vila de Frades para o biénio de 1852-1853

Nome do Oficial

Cargo Autárquico/ Público

José Joaquim de Carvalho

Presidente da Câmara

José Linhares

Vereador

Manoel António Ferro

Vereador

Sebastião José de Almeida

Vereador

António Rodrigues Taborda

Vereador

Valentim Pereira de Almeida

Tesoureiro

José Franco Mascarenhas

Escrivão

Francisco Theodosio da Sequeira e Sá

Escrivão Adjunto

José Martins Leitão

Membro efectivo do Conselho Municipal

Dimas José Pissarra

Membro efectivo do Conselho Municipal

José António Rodrigues

Membro efectivo do Conselho Municipal

José Diogo Cumqueiro

Membro efectivo do Conselho Municipal

Luís António de Carvalho

Membro efectivo do Conselho Municipal

Joaquim Carapeto

Vogal suplente do Conselho Municipal

Francisco António da Silva e Lemos

Vogal suplente do Conselho Municipal

Manoel das Dores Bexiga

Vogal suplente do Conselho Municipal

João Fialho dos Santos

Vogal suplente do Conselho Municipal

Sebastião Gomes

Vogal suplente do Conselho Municipal

José Fialho Zorrio

Administrador do Concelho

Justino Maximo Baião Mattoso

Conselheiro Municipal e Juiz da Paz

Justino Augusto de Lemos Marques

Cirurgião (a partir de 1853)

Nota: O Concelho de Vila de Frades seria extinto em 1854.

Referência Consultada – Livros de Actas da Câmara Municipal de Vila de Frades (18381853). Conservadas no Arquivo Municipal da Vidigueira.

265

Artigo nº 17 - Vila de Frades, uma terra com orgulho no seu 25 de Abril

Redigido em: 26-04-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/04/vila-de-frades-

uma-terra-com-orgulho-no.html

"Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com
aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir" (Capitão Salgueiro Maia, 19441992)

Foi sob este lema que se abriu a cerimónia de condecoração dos 54 autarcas que
serviram a freguesia de Vila de Frades desde a revolução do 25 de Abril de 1974,
embora 17 dos homenageados já tivessem falecido. Antes desta data, os
representantes políticos da vila eram indigitados por instâncias superiores, mas a
partir daquele dia, o poder foi entregue ao povo que teve a liberdade de escolher os
seus próprios líderes políticos.
Na plateia, estiveram presentes cerca de 100 pessoas. Aliás, os 74 lugares do auditório
da Junta de Freguesia estavam totalmente ocupados, e ainda havia gentes de pé.
Muitos dos presentes porteavam o seu cravo vermelho nas vestes, mostrando orgulho
pela liberdade democrática.
Inicialmente, passou-se um vídeo em que se conjugavam fotografias antigas e recentes
sobre Vila de Frades. A música de fundo, com cantigas do inevitável Zeca Afonso, e
outras melodias míticas, foi excelentemente seleccionada. Neste momento, constatei
que algumas pessoas, de idade mais avançada, choravam com estas recordações
visuais. Nas imagens que rodavam ao som destas músicas de fundo, apareciam
célebres pessoas que ora já cá não estão entre nós, ora não possuem a vitalidade
desses tempos mais recuados. A emoção foi muito forte nesses momentos, pois
266

desenterrou momentos felizes das décadas de 70, 80, 90, até aos dias de hoje.
Após a apresentação deste vídeo criteriosamente orquestrado, seguiu-se uma miniconferência com a presença de Luís Amado, Presidente da Junta de Freguesia de Vila
de Frades, Manuel Luís Narra, Presidente da Câmara Municipal da Vidigueira, e Ivone
Roque,

Presidente

da

Assembleia

de

Freguesia

de

Vila

de

Frades.

Luís Amado recordou o legado dos presidentes e demais autarcas que defenderam os
interesses da terra nos últimos 40 anos (os presidentes foram: Luís Carapeto, Luís Rosa
Mendes, Inácio Lucas, Vítor Eira e Luís Amado), citando as seguintes obras que
beneficiaram as condições de vida dos vilafradenses:

1. Melhoramentos de ruas e da rede eléctrica.
2. Instalação da Sede de Freguesia num novo edifício que substituiria o antigo
prédio Leopoldo Mira.
3. Reabilitação do Mercado Público.
4. Construção do Pavilhão de Festas que receberia o nome de Luís Rosa Mendes,
ex-presidente da Junta de Freguesia.
5. Criação do Posto Médico, numa área que parcialmente corresponderia à Casa
do Conselheiro.
6. Construção da Casa Mortuária junto à Igreja da Misericórdia.
7. Recuperação do material da Sociedade Recreativa União Vilafradense.
8. Construção do Centro Interpretativo das Ruínas Romanas de São Cucufate.
9. Modernização do Parque Infantil.
10. Alargamento do cemitério público da vila.
11. Obras de reparação na Torre do Relógio e na Ermida de Santo António dos
Açores.
12. Apoios na melhoria habitacional.
13. Comparticipação de medicamentos.
14. Oferta de Manuais Escolares.
15. Promoção de Marchas Populares.
16. Aproveitamento turístico do espaço.
17. Criação dum Site sobre a Freguesia.
18. Reabertura da villa romana de São Cucufate e da Casa do Arco ao público.
267

19. Luta contra a extinção da freguesia, enfrentando mesmo os poderes decisórios
da Assembleia da República.
20. Inauguração prevista para breve do novo Centro de Leitura dedicado a Fialho
de Almeida, e que albergará obras deste conceituado escritor português.

Depois de elencada esta obra dos autarcas da vila, Luís Amado recordou que o Poder
Local muitas vezes substituiu o Poder Central, procurando corresponder, de perto, às
grandes necessidades da comunidade.
Seguiu-se posteriormente a intervenção de Manuel Luís Narra que lamentou o número
elevado de desempregados e o aumento da pobreza, para além dos cortes nos apoios
sociais. Mas recordou que o 25 de Abril foi feito para defender os interesses do povo, e
que este deve ser ouvido porque está a passar um mau bocado.
Posteriormente, procedeu-se à entrega das condecorações que assentavam na
distribuição dum diploma e duma imagem feita de barro. Houve quem esboçasse
sorrisos, outros comoveram-se, mas a gratidão da plateia aos condecorados foi
imensa, salvaguardando-se muitas salvas de palmas!
Logo de seguida a esta cerimónia que tinha principiado pouco depois das 15:30,
decorreu a mostra de doçarias por volta das 17 horas. Todos os presentes
abandonaram o auditório da Junta, e dirigiram-se à antiga adega do Parreira que se
localizava mesmo à frente daquele edifício. As talhas foram colocadas lá fora, e no
interior do edifício montaram-se várias mesas, sendo de ressalvar o envolvimento de
50 doçeiras que criaram e cederam inúmeros bolos (confesso que devorei algumas
fatias de chocolate e morango!), isto para além, das bebidas (vinho, sumos e água) e
dos bolinhos de bacalhau, rissóis...
Havia ainda um músico que cantava e tocava guitarra no topo interior do edifício,
propiciando a ocorrência de bailaricos.
Podemos seguramente mencionar que o número de visitantes na mostra da doçaria
duplicou (pode até ter superado os 200!), já que as entradas eram gratuitas. A
variedade de doces e bebidas fez com que muitos vilafradenses e outros
curiosos/lambareiros andassem às voltas para satisfazer o seu estômago e paladar.

268

É elogioso ressalvar os preparativos efectuados pela Junta de Freguesia de Vila de
Frades que soube acolher toda esta moldura humana, promovendo da melhor forma
esta data simbólica.
Mais de 750 anos da instituição da Paróquia de Vila de Frades, mais de 500 anos
depois da promulgação do segundo foral (manuelino) e 40 anos de pós-25 de Abril, a
Freguesia continua a demonstrar que está devidamente revitalizada e de boa saúde!

269

Artigo nº 18 – A Inauguração Triunfante do Centro de Leitura “Fialho de Almeida” em
Vila de Frades

Redigido em: 11-06-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/06/a-inauguracao-

triunfante-do-centro-de.html

No dia 10 de Junho de 2014, dia de Camões e de Portugal, foi inaugurado em pompa e
circunstância, para efeito, o novo Centro de Leitura de Vila de Frades.
Antes da cerimónia solene, já se notava algum movimento e frenesim em torno do
acontecimento. Foram disponibilizadas 60 cadeiras na Praça para assegurar
comodidade aos espectadores. Mas foram ainda assim poucas para um público tão
visível, chegando a estar presentes cerca de 200 pessoas.
No imediato, um maestro, de seu nome Martinho Caeiro, recheado com a sua vocação
musical, animou, através do seu saxofone, a plateia presente, tocando músicas
clássicas o que permitiu a animação do espaço.
A Praça 25 de Abril, antiga Praça Nova, desterrou o seu passado histórico. Recordou
Fialho de Almeida (1857-1911), para muitos, o melhor escritor do Alentejo, e para
além disso, transformou a antiga cadeia num novo Centro de Leitura, pequeno mas
com uma configuração bastante colorida e funcional.
Pouco depois das 18:30, Diogo Conqueiro, membro da Junta de Freguesia de Vila de
Frades, foi o primeiro a tomar a palavra, relembrando que "o Centro de Leitura Fialho
de Almeida é um serviço cultural da Freguesia".
De seguida, decorreu uma passagem da reportagem radiofónica da TSF da autoria do
jornalista Fernando Alves que efectuou uma longa referência a Fialho de Almeida, às
tradições e aos lugares mais simbólicos de Vila de Frades.
Após a passagem deste trecho, foi a vez do Professor Universitário de Évora - António
Cândido Franco que recordou um pouco a biografia do conceituado escritor. Fialho
teria conhecido 3 períodos no decurso da sua vida: o nascimento e infância em Vila de
Frades (1857-1866), Lisboa (1866-1893) e Cuba (1893-1911). A sua vida começaria
então em Vila de Frades, passou aqui os seus nove primeiros anos, viveu com os pais,
270

aprendeu as primeiras letras com o seu pai - Valentim Pereira de Almeida (mestreescola/mestre-primário) e, pela primeira vez, irá deparar-se com a realidade do
campo. É certo que depois seguirá novos rumos, mas esta realidade inicial marcou-o, e
por isso, nunca se esquecerá de Vila de Frades, retratando pormenores descritivos
sobre a terra, nos livros que redigirá posteriormente. Ele transportou o nome do
Alentejo, pela primeira vez, para a literatura nacional. No final do seu discurso, o Prof.
António Cândido Franco assinala que hoje todos nós temos uma dívida importante
para com Fialho.
Depois foi a vez de Luís Amado, Presidente da Junta de Freguesia de Vila de Frades,
proferir algumas palavras ao público presente. De acordo com o mentor do novo
Centro de Leitura, Fialho traçou o perfil de cada um, gente interessada ou não,
descreveu a povoação que desfilava na rua fidalga da vila - a rua de Lisboa. Fialho não
se esqueceu igualmente das profissões tradicionais e nunca cedeu na defesa do
ensino, e para esse efeito, deixou 10 contos de réis para a construção da actual Escola
Primária da terra, a qual já formou muitas pessoas que se sentem hoje gratas por esse
benefício. Fialho deixou ainda dinheiro para ajudar os mais pobres de Vila de Frades e
Vidigueira, para que tivessem igualmente acesso às necessidades mais elementares,
nomeadamente assistência médica. Mesmo depois da sua morte, a sua casa foi
distinguida ou sinalizada com três lápides comemorativas, a mais importante talvez
ocorrida em 1957 (há imagens no Centro de Leitura que reavivam esse momento) em
que esteve cá o Ministro da Educação da altura, e onde se voltou a recordar a imagem
deste conceituado escritor nacional. Ainda antes, em 1932, Diogo de Macedo procede
à colocação dum busto de bronze na Escola Primária. Mas Fialho de Almeida acabaria
por cair no esquecimento por quase meio século, de acordo com Luís Amado, o que foi
totalmente lamentável, já que se tratava dum prosador de alta categoria, um dos
vultos mais importantes da nossa literatura. Foi necessário pois desbravar um caminho
longo e contrariar más vontades que nomeadamente visavam a extinção da freguesia
de Vila de Frades e o encerramento das ruínas romanas de São Cucufate e do núcleo
museológico da Casa do Arco.
Por fim, Manuel Luís Narra, Presidente da Câmara Municipal da Vidigueira, tomou a
palavra, felicitando a povoação de Vila de Frades pela concretização dum sonho, no
qual o Município facultou igualmente o seu apoio. Referiu ainda que se Fialho
271

estivesse vivo hoje, sentir-se-ia traído porque hoje estão a fechar-se várias escolas
primárias, sendo que a da freguesia de Selmes poderá ser uma das próximas a
encerrar.
Posteriormente, Luís Amado conduziu uma visita guiada no novo Centro de Leitura,
descerrou-se a placa inauguradora do espaço, e mostrou-se os cantos à nova casa da
cultura, perante uma forte afluência da população que tencionava conhecer este novo
reduto. À entrada, vislumbramos um espaço infantil dedicado às crianças, 3
computadores com acesso gratuito e rápido à Internet, e ainda fotos da recente e
derradeira homenagem a Fialho de Almeida em 2007, para além de dois painéis
descritivos sobre a vida e obra do autor. Na parte posterior, encontramos estantes que
armazenam livros variados (há para todos os gostos e géneros literários), com
destaque especial para as obras do homem que "miou pouco, arranhou sempre e
nunca temeu" e que assim se tornou o "patrono" cultural daquele novo espaço. Aí se
exibiam igualmente medalhões comemorativos sobre aquela figura incontornável. Há
igualmente mesas no interior e no exterior do edifício para que os visitantes possam
consultar

os

livros

e

até

as

revistas

e

jornais

da

região.

Na parede, estavam afixadas as imagens das homenagens de 1957 (centenário do
nascimento de Fialho de Almeida), quando o ministro da Educação esteve cá, rodeado
por

uma

população

que,

na

altura,

rondaria

os

2

mil

habitantes.

Refira-se que este Centro de Leitura foi patrocinado pela Junta de Freguesia de Vila de
Frades (principal mentora) e pela Câmara Municipal da Vidigueira, para além do
fundamental co-financiamento do PRODER.

Imagem nº 126 - Inauguração do Novo Centro de Leitura em Vila de Frades.
Foto da minha autoria
272

Artigo nº 19 – Marchas de São Cucufate animaram Vila de Frades

Redigido em: 17-06-2014

Retirado de: http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/06/marchas-de-saocucufate-animaram-vila.html

Cerca de 150 pessoas aderiram a este evento cultural, realizado na noite do dia 12 de
Junho e que se traduziu na marcha de variados vilafradenses em honra do seu orago São Cucufate, entoando músicas tradicionais que louvavam as suas origens ou
tradições locais. Transportavam ainda andores e harmónios, para além das suas vestes
alaranjadas, peculiares e identificativas do seu grupo.
A preparação deste evento, desde a letra dos cânticos até ao treino prático dos
aderentes, foi um processo que também durou alguns meses, mas que parece ter
chegado a bom porto, já que constatamos que a reacção da plateia presente foi
efectivamente muito positiva.
Várias cadeiras foram disponibilizadas nas alas do Largo Dr. José Luís Conceição Silva;
havia ainda um palco onde um DJ animava a noite, rodando músicas para todos os
gostos (o que propiciou a ocorrência posterior de bailes entre os espectadores), e
claro, denotamos ainda uma espécie de barraca destinada a vender farturas e algumas
doçarias.
No dia 21 de Junho são esperadas mais marchas em Vila de Frades, sendo que, desta
feita, haverá a adesão dos grupos das localidades vizinhas, o que enriquecerá ainda
mais esta experiência.

Imagem nº 127 - Marchas de São Cucufate em Vila de Frades (Foto da minha autoria)

273

Artigo nº 20 – As Ruas do Pensamento e do Carrasco

Redigido em: 18-06-2014

A designação toponímica de duas ruelas de Vila de Frades, sitas algures nas
proximidades da Igreja da Misericórdia (Largo Fialho de Almeida), tem sido motivo de
algumas reflexões por parte dos habitantes e daqueles que visitam a localidade.
A Rua do Pensamento deve ser única a existir em Portugal, não conhecendo para já
outras vias que tenham adoptado esta designação original e, muito provavelmente,
pouco comum a nível mundial. Remete-nos para um processo que distingue o ser
humano dos demais animais, discernindo o primeiro o correcto daquilo que é errado, e
procurando modelar o planeta à sua maneira. Através deste processo mental, saem
igualmente os grandes escritores e demais artistas, e Vila de Frades, tem sido terra
frutuosa, não só em termos de lavoura, mas também no sector do potencial humano,
e por isso, aqui viveram Fialho de Almeida, João Xavier de Matos, José Luís Conceição
Silva, entre outros.
Por seu turno, a rua do Carrasco recorda-nos uma profissão inglória, conotada com o
oficial que assegurava a execução das penas de morte (por ex: enforcamento,
decapitação, fuzilamento). Como Vila de Frades teve, no passado, a sua autonomia
judicial e o seu pelourinho, é possível que tenham existido condenações deste âmbito
na vila.
Assim sendo, e se analisarmos com especial atenção, concluímos que Vila de Frades
teve pensadores de referência, e provavelmente, também teve, no outro extremo, os
seus indesejáveis carrascos.

274

Artigo nº 21 - O (insuportável) feitio de Fialho de Almeida
Texto sem rigor científico

Redigido em: 23-02-2014

Retirado de: http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014_02_01_archive.html

É evidente que não é nosso propósito colocar em causa a genialidade deste escritor, o
qual é, para muitos, o melhor escritor alentejano de sempre. Ninguém poderá inclusive
duvidar do importantíssimo testemunho que este erudito nos deixou sobre a transição
turbulenta entre a Monarquia Constitucional e a Primeira República Portuguesa (finais
do século XIX - inícios do século XX).
Mas também não é nosso objectivo traçar neste artigo a biografia de Fialho, algo que
até já foi efectuado.
Agora, vamos falar um pouco do seu feitio.
Normalmente, e quando estou perante um retrato de Fialho, há sempre uma senhora
ao meu lado que diz - "Ele deveria ser um homem de primeira" ou "Ele era um homem
jeitoso. Aquela barba ficava-lhe a matar" ou até "Quem me dera ter um homem com
aqueles neurónios".
Bem, a erudição não é tudo na vida, e é indiscutível que o escritor vilafradense tinha a
capacidade de escrever muito bem e denunciar as injustiças e desigualdades da época
como poucos neste Mundo, mas é evidente que existia um lado pessoal, embora este
tenha sido esboçado através duma infância difícil, onde foi alvo duma educação
exigente e lidou, de perto, com a pobreza e a discriminação (sobretudo em Lisboa,
onde faria os seus estudos). Toda esta vida dura se iria repercutir na sua futura forma
de estar - um homem frio, capaz duma crítica feroz e violenta (chegou a utilizar mesmo
um pseudónimo curioso - Valentim Demónio) desrespeitando mesmo os sentimentos
de outrem, muito frontal, mas igualmente implacável. Não seria de estranhar que
Fialho ganhasse vários inimigos em cada artigo ou obra que publicava, e por isso,
acabou isolado o resto da sua vida. O seu lema "miando pouco, arranhando sempre e
275

não temendo nunca" era especial, mas este grande gato assanhado que tinha a virtude
única de escrever, tornava-se mesmo insuportável à vista dos outros que não se
reviam no seu estilo de personalidade.
Desidério Lucas do Ó no seu livro recente "Vila de Frades - Capital do Vinho de Talha"
(p. 22) traça mesmo alguns comportamentos de Fialho, que vêm reforçar tudo o que
dissemos até agora:

"Até há bem pouco tempo ainda era hábito dizer-se que, ainda rapaz, já revelava uma
forte dose de mau feitio e revolta que o haviam de acompanhar durante toda a vida.
Conta-se que, tendo sido castigado pelo pai, se recolheu a um canto a chorar. Nesse
preciso momento, o galo cantou. Irritado, foi à capoeira e torceu-lhe o pescoço para
que não voltasse a troçar dele.
Contava-se igualmente que Fialho teria contribuído para a morte prematura da mulher
já que, apesar de doente, a obrigava a acompanhá-lo nos seus passeios entre Cuba e
Vila de Frades (8 Km). Em redor da sua morte também se construiu um mito - ter-se-ia
suicidado, ingerindo veneno".

Recorde-se que a mulher de Fialho, Emília Pego (natural de Cuba), faleceu
praticamente ao fim de um ano de matrimónio.
Não, não deveria ser fácil aturar o temperamento de Fialho de Almeida, meus
senhores!
Recentemente, alguns populares disseram-me que nem no final da vida ele
abandonara a arte de escarnear os outros. No fim das conversas, punha-se ainda a
fazer manguitos aos outros habitantes, porque temia que estes ficassem a dizer mal
dele atrás das costas. E de vez em quando, alguém respondia "Ó Senhor Doutor, por
favor... Isso nem parece seu!"
Felizmente, o escritor Fialho de Almeida não está vivo, pois se ele tivesse o desprazer
de ler este texto, eu seria a próxima vítima dele nos seus livros implacáveis, e largavame logo dois gatos ou linces assanhados contra a minha pessoa, decerto com melhor
feitio do que ele (também não era difícil, verdade seja dita).
276

Artigo nº 22 – A Caminhada Triunfante do Mensageiro (Com cultura e humor)
Texto sem rigor científico

Redigido em: 12-12-2013

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2013/12/a-caminhada-

triunfante-do-mensageiro-i.html

Num início de tarde gélido, mas igualmente convidativo, o vosso querido Mensageiro
da Vidigueira, seguramente um parceiro misterioso que vos acompanha em várias
caminhadas pedestres, decidiu deslocar-se por algumas das ruas tradicionais de Vila de
Frades. Durante o percurso, ele sentiu o calor humano das pessoas que costumam ter
o hábito de se cumprimentarem e desejarem mutuamente um óptimo dia.
Como meio de pagamento de toda esta ternura, é óbvio que tinha de promover, mais
uma vez, a imagem da sua terra. E por isso, esta crónica passará agora a ser narrada na
primeira pessoa. Efectivamente, espero que apreciem esta minha nova rubrica.
Antes demais, confesso que o velho telemóvel que possuo, não é o mais recomendado
para tirar fotos. Não tenho problemas em reconhecer, e depois não vejo grande
interesse em que o Dr. Pedro Passos Coelho me empreste um. Cepticismo à parte,
iniciei o meu percurso no Largo Dr. José Luís Conceição Silva, um homem que foi
professor universitário e um resistente anti-fascista. Muitas das suas raízes estavam
em Vila de Frades, mas viria a falecer recentemente no Brasil, contudo chegou a
receber uma medalha de mérito pela Junta de Freguesia local em 2008, já
seguramente nos tempos finais de vida. Foi nesse momento, em que este largo que
alberga o tradicional Museu da Casa do Arco, foi consagrado toponimicamente a esta
personalidade.
Evidentemente, e depois de ter contemplado a antiga prisão masculina (hoje Museu),
segui o meu instinto e decidi passar pelo espaço do arco cuja peculiaridade
277

arquitectónica reclama total protagonismo. É claro que temia ser bombardeado por
alguma andorinha que ainda pudesse estar num dos ninhos aí criados recentemente,
mas felizmente, não houve qualquer movimento dessa espécie de ave que assim não
me enviou uns indesejáveis presentes aéreos de Natal. As andorinhas devem estar
quase todas agora noutras paragens mais quentes, mas cá regressarão entre a
Primavera e o Verão. Falo-vos de tudo disto porque outrora já tive que levar
com mísseis de excrementos na cabeça, mas isso foi mais a Norte.
Com a minha integridade salvaguardada, optei por vislumbrar então a verdejante
Praça 25 de Abril (mais uma vez a toponímia da localidade nos remete para a liberdade
e democracia). As laranjeiras imperam, o jardim, bem tratado, é um encanto. No
centro, temos o chafariz datado de 1900, e ainda se encontram uns banquinhos para
que os mais idosos possam sentar-se e conviver. Mas desta vez, havia algo de novo - as
mesas e as cadeiras exteriores destinadas ao Novo Centro de Leitura, uma iniciativa
bastante útil, que permitirá aos habitantes acederem aos livros e à Internet.
Asseguram os habitantes que a inauguração deve estar para acontecer a qualquer
momento.
Reparei posteriormente que existiam dois estabelecimentos acolhedores junto à
Praça. Por isso, fui tomar o meu cafezinho, comprido se faz favor, para que pudesse
terminar triunfantemente a caminhada que tinha astuciosamente encetado. Claro que
no fim, pedi um mimo para o meu paladar, e nada melhor do que um bom chocolate!
Não sejam invejosos nem me lancem mau olhado, pois se o fizerem, para a próxima
sois vocês que me pagam! Eh eh eh
Prossegui a

minha

caminhada.

O Mercado Tradicional estava

encerrado,

testemunhavam as duas árvores solitárias que o rodeavam e o portão verde cerrado.
Mais à frente, virei à esquerda, isto é, em direcção à Igreja Matriz de Vila de Frades
(construída entre 1696 e 1707), sita no Largo de São Cucufate. Desta vez, os senhores
que aí costumavam estar sentados a discutir os jogos da bola, as intrigas da Política
Nacional, os casos mais polémicos da Sociedade, decidiram não enfrentar o frio, e
ficaram em casa, a ver televisão.
Como bom corajoso que sou, dirigi-me agora rumo à Igreja da Misericórdia, já que se
encontrava aí uma nova exposição, mas como ainda não estava na hora da sua
abertura, vagueei um pouco por aquela zona. Eu sei que o tempo algo nublado parecia
278

ameaçar a ocorrência de aguaceiros, o que era óptimo para o meu carro (de vez em
quando precisa de ser lavado por São Pedro que nunca costuma falhar!), mas péssimo
para o meu charme, pois iria obrigar-me a fugir a sete pés. Não poderia haver algo
mais desonrado, mas felizmente, tenho enormes aliados no Céu, que me deixaram
concretizar, com evidente sucesso, a minha rota, quase tão boa como a de Vasco da
Gama quando atingiu a Índia em 1498. Pelo menos, temos que admitir que foi mais
pacífica e harmoniosa! Claro que agora eu estava a brincar convosco!
O Largo Dr. Fialho de Almeida é um espaço urbanizado dedicado a outro filho famoso
desta terra, onde se encontra bem conservada a casa onde nasceu, estando a mesma
assinalada com três lápides comemorativas. Estamos perante um grande escritor que
testemunhou a fase turbulenta entre os finais do século XIX e inícios do século XX, e na
qual se dará a passagem de testemunho da Monarquia Constitucional para a 1ª
República. Mas agora deixemos o nosso amigo Fialho em paz, senão ele começa a
malhar logo em mim (ele era famoso pela sua crítica implacável e satírica!).
Mais ao lado estava, embora que ladeado pela rua Henrique Galvão (novamente a
toponímia a remeter-nos para um homem que se opôs ao regime de Salazar, embora
este sem ligações claras a Vila de Frades, ao contrário de Humberto Delgado que
chegou mesmo, numa situação específica a ter necessidade de se refugiar nesta terra),
o famoso casarão, bastante degradado, que acolhera outrora a família do já referido
Dr. Conceição Silva. Mesmo assim, é um edifício com história e tradição que se destaca
pelas suas consideráveis dimensões. Lembro-me bem que, quando estava a refrescarme na Piscina Municipal da Vidigueira, avistava, ao longe, Vila de Frades. Conseguia
identificar rapidamente a altiva Torre do Relógio (talvez do século XVI, embora
remodelada profundamente em 1890), a imponente Igreja Matriz e este mesmo
casarão. Esperemos todos nós, para bem da localidade, que a construção seja
preservada.
Na sequência destes andares pelas proximidades, conheci ainda a famosa Rua do
Pensamento. Talvez, tenha sido aí que extraí a minha inspiração para este texto! Ou
será que foi a pinga que bebi há pouco que excitou os meus neurónios? Não sei, mas o
que é certo é que essa rua do Pensamento, era muito pequena e remetia-nos para
sentimentos calmos. De facto, temos que reflectir bem nas decisões que tomamos,
sobretudo nos dias de hoje que são atribulados devido à crise económica. Até porque,
279

nas redondezas, encontrei também a Rua do Carrasco, e pensei logo naqueles
senhores de preto que andam de mala na mão e que vêm do estrangeiro para observar
se Portugal tem sido um bom aluno. Talvez eles não venham para nos fazer o funeral
(apesar das cores dos seus trajes!), mas por outro lado, é certo que constituem uma
ameaça à produção de sorrisos portugueses (algo que tem diminuído claramente nos
últimos anos!). E só de abordar isto, já estou a ficar mal-humorado. Por isso, vamos
mudar de assunto!
Entrei na Igreja da Misericórdia (conhece as suas origens no século XVI ou XVII),
cumprimentei o funcionário que honrava o seu serviço, e depois deparei-me com uma
exposição intitulada - Ficalho Artes. Nossa Senhora das Graças, padroeira das
parturientes, destaca-se no centro do altar, mas agora estava acompanhada no seu
redor por um trabalho cultural notável. Tínhamos quadros diversos (uns relacionados
com os campos e a agricultura) e ainda algumas esculturas (por exemplo: relacionadas
com a produção vinícola). O vigilante de tal exposição contou-me que, de facto,
estiveram lá imensas pessoas e que os elogios foram frequentes no fim de semana
passado da Vitifrades 2013. As imensas cores aplicadas coroavam o esplendor
daquelas pinturas. Se ainda não foram visitá-la, acreditem que podem e devem
apreciá-la até dia 12 de Janeiro. Para que conste, a autoria desta exposição deve-se a
António Bento, Leandro Sidoncha, Bento Sargento e António Réu, todos eles com
ligações íntimas à Freguesia de Vila Verde de Ficalho (Concelho de Serpa).
Por fim, tive que retornar pelo mesmo caminho, pois as minhas pernas já acusavam
um tremendo desgaste. Despedi-me da paisagem, mãe de todos aqueles montes cada
vez mais verdinhos que conseguia visualizar ao longe e que abençoavam toda esta
terra!
Estava, na altura, pois de voltar ao meu serviço!

280

Artigo nº 23 - Enterro do Entrudo em Vila de Frades - 2014
(Texto sem rigor Científico)

Redigido em: 06-03-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/03/enterro-do-

entrudo-em-vila-de-frades.html

O enterro do entrudo do ano de 2014 revelou ser um sucesso em Vila de Frades, não
só pela presença dum cortejo na ordem das dezenas de pessoas, isto sem esquecer as
centenas de habitantes que aproveitaram aquele dia agradável, digno de Primavera,
para assistir, a partir das suas casas, ao cortejo tradicional.
As viúvas (talvez entre 15 a 20 mulheres) demonstraram os seus talentos de autênticas
carpideiras, gritando pelas ruas a morte do seu adorado Jacinto, o pobre homem que
iria ser enterrado.
Dizem as testemunhas que ele ressuscitou inúmeras vezes, graças ao Deus Baco, a
divindade do vinho, já que aquela garrafa alentejana que o acompanhava deu-lhe vida
por várias vezes. Claro que houve uma altura em que teve a necessidade de sair do
caixão para urinar, até porque tinha ingerido líquidos a mais durante o seu insólito
enterro.
O percurso começou no Largo de São Cucufate, prosseguiu por várias ruas da vila, e
terminaria junto à Taberna Casemiro, isto é, nas proximidades da Igreja da
Misericórdia.
O Bispo que fazia o enterro, recordava as qualidades e a memória do pobre coitado
que tinha falecido através das seguintes quadras que proferia (antes de as lerem, é
bom que tenham a noção que as mesmas foram ditas em tom de brincadeira, e não
para ofender a sensibilidade de ninguém):

281

Até à morte chegou a crise,
Não há dinheiro para caixões,
Enterramos o nosso irmão,
Até à pele dos feijões.

Morreu o irmão careca,
Com a cabeça rachada,
Morreu pensando em comer,
Vomitando sem comer nada.

Veio o padre, veio a freira
O Papa ficou ausente
Enterramos nosso irmão
Acompanhado por tanta gente.

Nesta vida tudo sofre
Sofro eu e sofres tu
Até o nosso irmão sofreu
Quando estava todo nu.

Coitado do inocente,
Por vezes até dá dó,
Querer morder em tanta gente,
Apenas com um dente só.

282

Viveste na boa harmonia,
De perto sempre a olhar,
Hoje só nos resta este braço
Aonde vocês podem agarrar.
(uma das pessoas do cortejo aponta para o objecto genital do morto assemelhado a
um braço)

Deixaste de falar ao nosso ouvido
Mas vives no nosso coração,
Recordamos-te todo partido
Atropelado como um cão.

Separamo-nos do teu corpo,
Nossos Corações estão partidos
Ficou a tua obra de arte,
Eras um bom cão e bom bandido.

Davas-te bem com toda a gente,
Até viveste em altos fornos
Dos teus grandes amigos
Levavas porrada nos cornos.

E vamos continuar
A vida não acabou
E cheiro foi, se sente no ar
Será o morto que se bufou.

283

Testamento do Falecido

O testamento encontrado
Escrito com confiança.
Estamos todos incluídos
Na sua pequena herança.

As pulgas e os carrapatos
Os meus maiores amigos
Esses não os dou a ninguém
Não os largo, vão comigo!

Com testemunhos diversos
Vou deixar escrito quem herda
Para todo os que me acompanham
Deixo um grande balde de merda.

Entrego a alma a Deus
O corpo à terra fria
Deixo os colhões à minha mãe
E a picha para a minha tia.

284

Apesar de algumas palavras mais picantes, a verdade é que os versos geraram
inúmeras gargalhadas em todos aqueles que assistiam ao enterro do Entrudo, uma das
principais festividades históricas da localidade.
Estava pois a terminar a época de Carnaval, na qual estas brincadeiras não podem ser
levadas a mal!

Imagem nº 128 - O “morto” despedia-se deste mundo.
Foto da autoria de Luís Amado

285

Artigo nº 24 - Sugestão de Potenciais Projectos para Vila de Frades

Redigido em: 07-05-2014

Retirado

de:

http://omensageirodavidigueira.blogspot.pt/2014/05/sugestao-de-

potenciais-projectos-para.html

Antes demais, gostaria de sublinhar que estou muito satisfeito com o rendimento dos
autarcas de Vila de Frades tendo em vista a preservação cultural das tradições da terra.
É com muito agrado que aplaudirei a inauguração do Centro de Leitura dedicado a
Fialho de Almeida, bem como será muito bem vinda a criação vindoura dum Centro
Interpretativo para a promoção do Vinho de Talha. Projectos que seguramente
dignificarão a história desta terra.
Mesmo assim, e no dever de cidadão atento, devo propor ideias para o futuro, que
podem não ser agora atingíveis dada a grave crise económica que atravessamos a nível
nacional e local, mas que noutros tempos mais risonhos, e com a criação de parcerias
com o Município da Vidigueira e outras entidades culturais/estatais/mecenatos,
poderiam ser mais valias para a terra:

Construção bem conseguida duma estátua dum frade à entrada da Vila,
naquela área verdejante que contempla entre si as entradas ou acessos a
nascente (isto é de quem vem do lado da Vidigueira), isto já, depois da ponte
da rivalidade. Poderiam ainda jogar com a combinação da vegetação em redor
da estátua, fornecendo um cartão de visita óptimo para a terra. Com este
monumento, recordar-se-ia um dos principais agentes medievais responsável
pela fundação e repovoamento de toda esta vila, estando por detrás do
primeiro foral outorgado à vila.

Reabilitação da Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe. Chegou a altura de
deixarem as divergências de lado, e avançar para a devida conservação deste
templo que remonta ao século XVII.
286

Criação dum busto no Largo Dr. José Luís Conceição Silva, em memória deste
resistente anti-fascista e dinamizador cultural que faleceu recentemente.

Comemoração do Dia do Monumento Vilafradense no dia 24 de Junho. Todos
(ou quase todos) os edifícios históricos (igrejas, capelas, ermidas, ruínas
romanas de São Cucufate, Casa do Arco, casa de Fialho de Almeida...) da vila
estariam abertos para receber gratuitamente os inúmeros visitantes e turistas
nesse mesmo dia. Este evento deveria ser previamente bem promovido ou
divulgado. A escolha da data não acontece por acaso, pois corresponde à
criação da Paróquia de São Cucufate em 24 de Junho de 1255, estando aí
presentes as raízes desta ancestral freguesia. Para além disso, é uma data que
assiste à chegada de muitos estrangeiros ao Alentejo, nos primórdios do Verão.

Instalação dum duradouro boletim electrónico (internet), sem custos, que
manteria a vila informada em todos os sectores informativos do quotidiano:
vida social, económica, cultural...

Comemoração do Dia da Literatura Portuguesa no dia 7 de Maio. - Realização
de actividades no futuro Centro de Leitura Fialho de Almeida, em que os
habitantes procediam à análise das obras de pessoas que marcaram esta terra,
nomeadamente Fialho de Almeida, João Xavier de Matos e Dr. José Luís
Conceição Silva que nos deixaram textos meritórios, embora também possam
ser consultados os testemunhos de outros ícones da nossa literatura.
Sugeríamos ainda que os participantes redigissem textos descrevendo com
entusiasmo e sabedoria, as virtudes da sua terra, podendo os mesmos ainda
desenvolver poesias em torno desta localidade. Seria agradável convidar
igualmente as escolas a participar para que possam apresentar biografias e
obras de autores que engrandeceram a nossa língua desde a fundação da
nacionalidade. O dia 7 de Maio não é escolhido por acaso pois trata-se da data
de nascimento de Fialho de Almeida (1857).O objectivo deste evento passaria
por fomentar hábitos de leitura, e irradiar de vez o analfabetismo ainda vigente
no interior do país.

Concurso Anual de Melhor Fotografia da Terra - Qualquer pessoa
(independentemente da sua naturalidade ou lugar de residência), poderia
participar, desde que provasse os créditos da sua imagem sobre Vila de Frades.
287

Iria ser constituído um júri que avaliaria e premiaria com diplomas e/ou
medalhas os três melhores classificados. O mesmo deveria realizar-se em
meados ou finais de Dezembro. Ao fim de cada 5 anos, seria organizada uma
exposição com as 15 melhores fotografias (isto é, as 3 melhores de cada ano)
no Museu da Casa do Arco, com entrada livre para todos os visitantes.

Mega-Distribuição de Flyers ou Folhetos por muitas unidades turísticas. Vila
de Frades deveria ser uma referência a ter em conta, em variados postos de
turismo de Norte a Sul do País. O investimento traria seguramente retorno,
nesta vila pitoresca do Alentejo.

Instauração do dia da Gastronomia. Os principais pratos e doçarias da
freguesia seriam assegurados para que num dia primaveresco ou veranil, num
espaço aberto e de dimensões consideráveis, se pudesse divulgar assim a arte
da culinária.

Reforçar a sinalização toponímica com indicações para a villa romana de São
Cucufate e o núcleo museológico da Casa do Arco. Tal poderia atrair mais
visitantes aos lugares supracitados e à vila em si.

Claro que sabemos que alguns destes projectos são irrealistas actualmente, dada a
difícil conjuntura que atravessamos, e que tampouco seriam concluídos num cenário a
breve prazo, mas se nos próximos 25 anos, os autarcas lograssem assumir metade das
ideias aqui propostas, não duvidaríamos que a localidade estaria melhor preparada
para enfrentar o fantasma da desertificação.

288

Artigo nº 25 – Vila de Frades e o Património Imaterial da Humanidade

Apesar de este nosso artigo ter sido introduzido à posteriori, não poderíamos deixar de
recordar dois grandes momentos que marcaram recentemente a História do Alentejo.
No dia 27 de Novembro de 2014, a UNESCO declarou o cante alentejano como
Património Imaterial da Humanidade, enquanto que, no dia 1 de Dezembro de 2015, o
mesmo organismo considerou também como património imaterial o fabrico de
chocalhos, candidatura liderada pelo Turismo do Alentejo. Duas datas que certamente
não passaram ao lado dos órgãos de comunicação social que trataram de conceder o
devido ênfase a estas atribuições prestigiantes.
Além do seu infindável património histórico e cultural, Vila de Frades reivindica
igualmente uma relação íntima com o cante alentejano e os próprios chocalhos. No
primeiro caso, temos de realçar o facto de a localidade ter atraído, ao longo dos
últimos tempos, várias manifestações organizadas ou espontâneas de cante alentejano
que cativaram certamente o interesse dos seus cidadãos e de vários visitantes. Não
será demais reconhecer ainda o papel da professora Ana Albuquerque (natural de
Lisboa; falecida em Janeiro de 2015 e sepultada no cemitério de Vila de Frades) que se
aprestou à divulgação do cante e das culturas tradicionais alentejanas junto dos mais
novos nas escolas. O povo de Vila de Frades reconheceu a sua entrega e afinco,
guardando boa memória da sua dedicação em prol da valorização do Alentejo.
Também os chocalhos constituem elementos integrantes da história desta terra, até
porque a criação de gado assumiu aqui uma expressão considerável. Aliás, no Núcleo
Museológico da Casa do Arco encontramos exposto um chocalho milenar (talvez
datado para a era romana) que atesta assim todo este nosso raciocínio.

289

Imagem nº 129 - Chocalho em ferro exposto no Núcleo Museológico da Casa do Arco.
Foto da autoria de Pedro André da Silva
Veja-se: https://www.facebook.com/villa.sao.cucufate/

290

Poemas

291

Poema nº 1

Os Fontanários da Vidigueira e Vila de Frades

Andava eu divagando por terras de Paz
De Gentes humildes e solidárias
Que transpareciam as suas virtudes agrárias,
Assegurando assim uma produção bastante capaz!

Nesta região de intenso calor,
Que atinge o cume no insuportável Verão,
Andava eu com insónias graças ao clima abafador
Que não nos poupava ao seu refrão!

Eu estava sedento,
Não possuía muito tostão,
Ai que decepção!
Ninguém consolava o meu lamento!

Uma Fonte de água saudável
Acenava-me ao longe,
Frente à Capela de São Brás memorável,
Corri, ajoelhei-me, bebendo como um monge!

Matava a sede,
Poupava os cruciais dinheiros,
Enchia os meus pequenos mealheiros
Que, perante a avidez dos assaltantes, ocultavam-se numa incerta parede.
292

Mas a Cascata da Vidigueira,
Sempre protagonista devido à sua posição lisonjeira,
Tem mais de um século de existência,
Apesar de agora não correr água, foi seguramente uma referência.

A água é um bem público!
Ninguém aqui morre desidratado
Ou por ser mal-amado!
A igualdade de acesso é pois o primado deste concelho lúdico!

293

Poema nº 2

A Paisagem Vilafradense

Na Praça 25 de Abril, brilham as laranjeiras,
Ao centro, o chafariz, e em redor, um convidativo jardim,
Propiciando assim conversas lisonjeiras
Nesta localidade que acolhe bastante frenesim!

A Noroeste, destaca-se, numa pequena colina, a Ermida de Nossa Sra. de Guadalupe,
Com um altar vivo, caracterizado por algumas pinturas!
Apesar da verdura em seu redor, o templo está inteiramente degradado
E carente de restaurações futuras!

A Sul, está sempre a esbelta Ermida de Santo António dos Açores,
Assinalando a sua supremacia estética no cimo dum outeiro,
Não deixando indiferente qualquer viandeiro,
Desejoso de vislumbrar tais momentos acolhedores!

As vinhas embelezam também os olhos humanos,
E conferem mais cor à freguesia!
Famosas desde o tempo dos romanos,
Hoje, estão no epicentro de qualquer romaria!

Vila de Frades é uma terra limpa,
Digna de receber visitas de altas dignidades,
Desde que estas não comprometam as nossas felicidades,
Pois aqui recebemos todos bem, sempre em nome das demais liberdades!

294

Poema nº 3

Os frades de Vila de Frades

Um lugar calmo, harmonioso e solitário,
Procuravam, nesta vila, os respeitados frades,
Afastando-se assim dos vícios das cidades,
Onde estava em voga o interesse monetário!

Primeiro, instalaram-se os crúzios em Cucufate,
Depois, os capuchos criaram também o seu Convento,
Enfrentavam todos eles o mundano tormento,
Prestando caridade, enquanto forma de remate!

Os freires do Mosteiro Medieval,
Estimularam um coerente povoamento,
Concederam foral,
E não deixaram a vila cair no amaldiçoamento!

Dedicaram atenção às suas vinhas e olivais,
Zelando pela subsistência comunitária,
Para além da arte visionária,
Que promoveram mediante as pinturas murais!
295

Eles já abandonaram a terra e a sua actividade!
Não, não nos legaram enormes riquezas,
Mas sim património e identidade,
Que tornam Vila de Frades, um centro de infindáveis proezas!

296

Poema nº 4

Um Momento de Lazer no Mercado Diário

Entrados num novo ano,
Era altura de desfrutar do mês de Janeiro,
Hoje, sem aquele carácter diluviano,
Que assombrava qualquer caseiro.

Rumei ao Mercado Diário da aldeia,
Penetrei no interior dum café apelativo,
Pedi um chocolate inteiramente gustativo,
Digeri-o até a minha barriga sentir a pressão da correia.

Depois de me despedir da simpática Dona Idalina,
Visitei os outros compartimentos popularescos,
Onde se vendiam a carne e o peixe frescos,
Sem esquecer o pão e a deliciosa tangerina.

A simpatia e a generosidade destes funcionários,
Eram dignas dum Prémio de reconhecimento,
Se tal postura ignorasse, estaria a prestar um desagradecimento,
A quem nos concede úteis serviços comunitários.

297

Poema nº 5

Tributo ao Dr. José Luís Conceição Silva

Homem querido da terra vilafradense,
Dinamizador da cultura,
Difusor da música e do teatro,
Transmitia os seus benéficos ensinamentos
A um povo que vivia da agricultura.

Deixou-nos uma descrição narrativa
Sobre a sua preferida localidade alentejana,
Que o acolhera por bastante tempo,
E na qual serviu de exemplo.

Amante confesso da liberdade,
Enfrentou o Regime Ditatorial,
Que nas gentes, causava todo o mal
E desrespeitava inclusive a privacidade.

Sentindo-se perseguido,
Emigrou para o Brasil,
Onde foi professor Universitário distinguido,
Com uma humanidade multiplicada por mil!
298

Faleceria muito recentemente,
Após 93 anos de intensa actividade,
Mas fora homenageado ainda em vida
Pela vila que o recebeu com eterna amizade.

299

Poema nº 6

A Hospitalidade Vilafradense

Quando aqui cheguei,
Não encontrei especial erudição,
Mas sim uma admirável educação
Dos seus habitantes que sempre cumprimentei.

Esboçaram-me sempre sinceros sorrisos,
Trocamos preciosas impressões
Sobre inúmeras questões
Que clarificariam os mais indecisos.

Houve episódios de bom humor
Que deliciavam a nossa humilde existência,
Privilegiando a nobre consciência,
E tratando o próximo com primor.

Vila de Frades concentra sua beleza
Na Paisagem e nos seus habitantes
Que manejaram sempre com pureza
A simpatia e a harmonia como virtudes relevantes.

300

Poema nº 7

À procura do Exmo. Sr. Conselheiro Baião Matoso

Após a Igreja Matriz e a Junta de Freguesia avistar
Enveredei pelo caminho a sul
Estava um dia gélido sem qualquer andorinha-do-sul
Que sobrevoasse alegremente para um sorriso me arrancar!

Continuei a peregrinar nestas ruas de calçada portuguesa,
Ora não estivéssemos numa localidade tradicional,
Onde se desfruta dum ambiente consensual,
E que potencializa o vinho como uma certeza!

Mas necessitava eu dum elaborado conselho,
Sobre um assunto específico
Que só poderia ser solucionado por alguém honorífico
Talvez um ancião mais velho!

Soube da prévia existência de Baião Matoso,
Um par do reino de excelência,
Oxalá que ele seja amistoso
E me resolva esta questão de existência!

301

A Casa do Conselheiro finalmente encontrei,
Procurava pelo sábio conselheiro.
Oxalá que ele não me cobre dinheiro,
Senão, nesta crise, definitivamente me afundarei!

Infelizmente, as três portas estavam encerradas,
Certamente, a nossa célebre individualidade estava ausente
A tratar dum dossier mais premente
E assim ninguém veio à varanda dar-me as vitais coordenadas.

302

Poema nº 8

Os velhinhos da paragem de autocarro (Vila de Frades)

Na paragem da camioneta,
Encontram-se uns idosos sentados confortavelmente,
Mas eles não seguem para lado nenhum seguramente,
Apenas contemplam o tempo que passou de forma discreta.

Guardam memórias ricas da aldeia,
Do trabalho dos campos e das suas tradições,
Outrora eles eram uns autênticos borrachões
Lançando a muitos corações uma chama que incendeia.

Mas agora estão parados,
Alguns recordam acontecimentos antigos
Onde se divertiam com familiares e amigos,
Mas a partida de alguns destes deixou-os mais abandonados.

Dizem que faleceu mais outra pessoa da comunidade,
À qual dedicavam eterna amizade,
Mas que agora deixava a terra mais desertificada
E a sua família completamente frustrada.

303

O tempo não recompensa missões piedosas,
Ele corta-nos os movimentos,
Impõe-nos uma inércia e passividade ruinosas
Que nos leva a expressar, no fim da existência, inúmeros lamentos.

O Centro de Dia tenta garantir a sua distração,
Mas a sua vitalidade está em declínio,
Já não sentem o mesmo fascínio,
E muitos deixam-se levar pela irremediável depressão.

Imagem nº 130 - Muitos senhores com idade avançada costumam estar na paragem de
autocarros para conviver e recordar os melhores momentos da sua vida. O local de
paragem, exibido na imagem citada, situa-se nas proximidades do Centro de Dia, da
Junta de Freguesia e da Igreja Matriz de Vila de Frades.
Foto retirada do Perfil de Luís Amado no Facebook

304

Poema nº 9

A Ribeira do Freixo e a Ponte da Rivalidade

Um curso de água nasce na Serra do Mendro,
Desce triunfantemente até sul,
Brilha desde Janeiro até Dezembro,
Merecendo o respeito do supremo céu "azul".

Trata-se da Ribeira do Freixo,
Aquela mesmo que separa os larga o osso dos farrapeiros,
Ou melhor, os vaidosos dos orelhudos,
Colocando assim a rivalidade no eixo!

Corajosos aqueles que, noutros tempos, a atravessavam,
Quando tudo era alvo de discriminação,
Até ao vizinho as injúrias não poupavam,
O qual chegava a sofrer com episódios de humilhação.

A ponte, a tal que confere acesso às povoações,
Desdenhada pelos habitantes da Vidigueira e Vila de Frades,
É motivo agora de inúmeras cumplicidades,
Deixando, um pouco de lado, as antigas tribulações.

305

Mas a rivalidade ainda não desapareceu,
Apenas esmoreceu gradualmente,
Os mais idosos a recordam como uma fase histórica,
Embora esta não hipoteque as ancestrais ligações que prevalecem definitivamente.

306

Poema nº 10

Vila de Frades, o recanto duma terra pitoresca

Quando atravesso a desdenhada ponte,
Vejo, do outro lado, o Joaquim a realizar suas caminhadas,
O Jacinto a andar alegremente de bicicleta,
Tudo gente deveras simpática,
Valorizadora duma sincera Humildade
Que nos abre, com hospitalidade, este belo horizonte.

Pelo caminho recto, avisto posteriormente a Escola Primária,
À qual Fialho de Almeida deixou um legado,
Assim testemunha aí a Escultura de Bronze
Construída em sua merecida homenagem!
As crianças aí estudam e correm,
Debitam sobre as letras do alfabeto e as contas de matemática.

Mais à frente, dois edifícios de vulto
Impõem respeito aos curiosos!
A Igreja Matriz, imponente e sumptuária,
Representativa duma Paróquia
Onde se promoveu, por vários séculos, um culto sério
Em torno do Mártir São Cucufate.

307

A sede da Junta de Freguesia
Espelha uma arquitectura peculiar onde o atendimento
Decorre sempre com seriedade e harmonia;
Logo depois, vou tomar o meu café
No mercado, mais à frente, onde reina a simpatia,
Usufruindo assim dum agradável acolhimento!

Prosseguindo com o sábio trajecto,
Avistam-se, já de perto, as laranjeiras da Praça 25 de Abril,
No centro, alguns velhinhos falam das novidades
Junto à centenária e simbólica "Bica",
Uns desesperam pela inauguração do Centro de Leitura,
Outros vão jogar as suas desafortunadas raspadinhas!

Ao lado, os antigos Paços do Concelho,
Encimados por uma torrela com sino de rebate miguelino,
Atestam um passado independente
Garantido pelo antigo pelourinho
Símbolo da justiça medieval,
Onde se punia quem por aí cometia o mal!

Estamos ao chegar ao Arco,
No piso inferior, resquícios da antiga cadeia,
Conforme o gradeamento aí observado,
Onde se detinha o vulgar marginalizado!
As andorinhas por aí vagueiam
E anunciam-nos que agora o edifício é um museu
Que recorda a herança romana!

308

Sim, a poente da localidade encontram-se as enormes ruínas
Duma antiga e palaciana villa romana,
Onde uma família explorava o vinho e o azeite
Para deleite da comunidade local
Que, ao longo dos tempos, conhecera uma evolução total!
Quem me dera ter vivido no piso nobre e tomar banho nas termas!

Em Vila de Frades, brilha ainda o vinho de talha,
Que honrosamente é apresentado nas suas típicas adegas!
As suas ermidas destacam-se pela sua beleza interior
Reforçando a tradição religiosa
Que esteve na origem do nome desta saudável terra!
Ai que eu também já caminho como um frade!!!

309

Poema nº 11

Um Frade Trecentista de São Cucufate

Na era medieval, eu era um monge
Pançudo, por natureza,
Cabeçudo, por motivação,
Censurava-me nas celas monásticas
Com a Caveira que me relembrava sadicamente
O carácter fugaz da vida.

Deixava o Convento,
E peregrinava em direcção aos outeiros da vila,
Procurando o contacto com o nosso Salvador!
Afastava-me dos vícios mundanos,
E juntamente com a minha veste acinzentada,
Enfrentava dias de chuva e frio!

Às vezes, esbofeteava-me no caminho,
Chicoteava-me pelos meus erros,
Era assim a devoção nestes tempos!
Depois iria à Igreja orar pelo nosso adorado mártir,
São Cucufate, um dos ícones cristãos da Catalunha!
Claro que depois o meu estimado prior
Me incumbia nefastamente de cobrar os impostos à povoação!

310

A minha sepultura é uma das que foi aberta
Na antiga necrópole monástica!
Ninguém sabe o meu nome,
Mas faço parte dum grupo clerical
Que cedeu a designação a esta vila dos Frades!
Esbocei o primeiro foral da terra,
Pintei os primitivos frescos do Mosteiro,
Mas só um ou outro é que resistiu aos tempos!

São Cucufate no meio de duas Santas Mártires,
É o nosso padroeiro que, no presbitério, orgulhosamente ilustrei!
Adorado pelos nossos habitantes,
Que, em seu nome, depositaram orações e esmolas!
Ah! E eu que tinha de me confessar todos os dias,
Porque às vezes comia um pouco demais à refeição!

Acusavam-me de beber demasiado vinho!
Mas o que é que querem?
Não resistia a esta tentação gastronómica da vila!
E até às escondidas, ia lá espreitar as talhas!
Mas uma vez fui apanhado:
Ouvi tremenda reprimenda por parte do prior
E fui castigado com um jejum durante vinte tenebrosos dias!

Mas aos mais pobres, por vezes, também ofereci pão!
Nem todos os frades eram assim!
Uns mais egoístas,
Outros seguramente mais honestos e solidários.
Rezar eucaristias a todo o momento pelas almas pecadoras,
Era esse o destino destes frades maioritariamente celibatários!
311

Poema nº 12

Uma casa alentejana com certeza

Andava eu deambulando pelas ruas de duas terras vizinhas,
Aquelas duas que davam cartas no vinho,
Que serviam bem à mesa dos turistas,
Recordando ainda os encantos da sua história.
Vila de Frades e Vidigueira, ora nem mais,
Com as suas povoações repletas de glória!

Mas chamava-me à minha conscienciosa atenção
A Presença das típicas casas alentejanas,
Cautelosamente caiadas de Branco
Para reflectir os raios solares,
Detentoras de barras azuis ou amarelas
Dispersando os insectos incomodativos.

Que agradável cartão de visita do nosso Alentejo!
Estas habitações fazem desta região um caso raro,
Suficientemente dignas de gerar infinitas apreciações!
Esta arquitectura simples mas peculiar
Faz-me tirar proveito e desfrutar
Da cultura valiosa destas gentes!

312

Por vezes, há quem não assimile esta tradição!
E pinta as casas duma forma bizarra,
Mas deveras descaracterizada e errada,
Não honrando os arquétipos desejados
Nestas terras verdejantes e paisagísticas
Constituídas por imensos alentejanos dos quatro costados!

Mas estas casas enchem-nos de orgulho!
Aqueles balcões de sacada apaixonantes,
As colunas e os frontões decorativos,
As portas e as janelas apelativas,
Tornam a entrada nestes edifícios
Não só frequente como claramente motivante!

313

Poema nº 13

Salvem a Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe!!!

Emergida num belo outeiro,
Encontro uma Ermida pequena,
Desgraçada e Ignorada
Pela ingratidão humana!
Consagrada outrora a Nossa Senhora da Guadalupe,
Ficou agora ela sozinha e degradada!

Sumiram-se as antigas procissões;
A imagem da Santa venerada,
Que atraiu o culto de imensas gerações,
Já lá não está para desencanto das multidões,
Oficializando assim a derrocada
Desta ermida antigamente bem tratada.

Algumas pinturas subsistem no altar,
Mas qualquer dia desaparecem
Através do impiedoso tempo e do infinito azar
Motivado pelo desentendimento
Entre os homens pouco decididos
Que dela não souberam cuidar!

314

Que desgosto! Um monumento a cair!
Todavia, só poucos conseguem reflectir
E sonham com a sua recuperação,
Desejando "exterminar" este seu estado de privação
Devolvendo-lhe a dignidade,
Que o templo reivindica como único meio de salvação!

Como eu queria acreditar num país melhor
Valorizador da sua identidade cultural,
Mas que nem sempre cuida do seu património!
Não glorifica sequer as sábias raízes
Dum povo que já foi magistral,
E que hoje tem de sobreviver no pandemónio!

Imagem nº 131 - É imperioso restaurar esta histórica ermida! Não a deixem
desaparecer!
Foto da autoria de Susana Correia
315

Poema nº 14

Os capuchos solitários

Num lugar pacato e tranquilo
Entre imensas vinhas e olivais
Instalaram-se uns monges cordiais
Que ao fugir dos pecados dos mortais,
Encontraram em Vila de Frades o seu asilo!

Aqui professaram com devoção!
Percorreram as ruas distribuindo caridade!
A comunidade respondeu com generosidade
E peregrinou rumo ao Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção
O qual se pautaria pela simplicidade.

O aqueduto transportava a água angelical,
Que estes frades ingeriam louvadamente,
Dando graças transcendentais pela arte divinal
Que originou uma consistente semente
Neste Universo celestial!

Os monges pregavam a religião!
Ostentavam vestes humildes,
Seguindo a harmonia e a pobreza
Para escapar à eterna perdição
Reservada à imodesta nobreza!
316

Poema nº 15
O Legionário Romano de São Cucufate

Palmilho os carreiros da história,
Munido de uma espada reluzente
Canto a Júlio César a minha vitória
Revelando a minha alma impelente!

Na villa reside um senhor audacioso
Que se banha em termas relaxantes
E brinda cada convidado primoroso
Com vinhos de talha exuberantes!

A mansão é um hino à arquitectura
A sua dimensão um poema à opulência!
As fachadas e as varandas de irreverência
Preenchem um cenário de larga fartura.

Do segundo piso, ele avista a paisagem
Acompanhado de sua mulher graciosa
Que exala uma fisionomia vistosa:
É fruto proibido que gera miragem!

No vetusto templo oramos a Baco
Para que zele pelos nossos vinhedos
Emprestando a firmeza de seu braço
Libertador dos mais remotos medos!

As águas dos tanques saciam a sede
Dos criados que laboram com ardor
Naquele lagar prensado de sabor
Que puro vinho ou azeite expede!
317

Na entrada, vejo uma oliveira frondosa
Que derrama e entorna lágrimas de Pompeia
No meu agitado vulcão que lava galhardeia
Por causa duma bela mulher de Pax Julia!

Ó Vénus, ajudai-me na busca pelo amor
Já que o meu amuleto não atrai sorte
Mas sim uma intensa e horrenda dor
Que me abandona à beira da morte!

Mas não há tempo para o profundo sentir!
Empenho-me na missão que me confiaram:
Proteger o que outros ousaram produzir,
Salvaguardar as inovações que brotaram!

O meu ofício é de moderado esmero
Não vislumbro salteadores na região:
Subsiste pão e paz neste sadio tempero
E uma aragem que serve de inspiração!

Um dia, perto do aqueduto, topei um gato
Desmaiei com o calor e tive uma visão:
Nesta terra, nasceria um futuro mosteiro cristão
E seria também berço dum escritor de talento nato!

Acordei socorrido pelos criados apreensivos
Acalmei-os e disse-lhes que éramos uns vencedores
Porque residíamos numa terra pré-destinada
A almejar os píncaros dos divinos louvores!

318

Poema nº 16

O Apóstolo de Baco

Ó Baco,
Tu que és o Deus mais venerado,
Enche o meu copo com o teu brioso vinho!
Concede-me essa poção das mil maravilhas
Que distancia o homem das amarguras da vida,
Que glorifica a existência do paladar
Que adoça inclusive o mais pálido pensador!
Imbuído da sua simbiose indescritível,
Aqui estou eu apóstolo farrapeiro
Para proferir a minha mágica homilia
Nesta taberna recheada de talhas barrigudas.
Ó estimado vinho, junta-te a nós para assim:
Entoarmos o sublime cante alentejano,
Lavrarmos poemas às donzelas vilafradenses,
Dedicarmos panegíricos aos sultões do Alentejo,
E revestirmos as planícies de múltiplas cores!
A meu lado, estão o Chico, o Manel e o Augusto!
Todos já ultrapassaram o ritual com distinção,
Digeriram três copos em poucos minutos,
E mesmo só possuindo a quarta classe,
Escreveram versos tão magníficos como os de al-Mutâmide,
Observaram o Universo com a mesma genialidade de al-Khayyam
Tornaram-se filósofos e polímatas como Avicena,
Graças àqueles goles consagrados
Que transformaram aquela mesa humilde
No mais altivo altar do honrado saber!
Mas chegara a altura da nossa missão ascética.
319

De sairmos e deambularmos pelos ares
Desta pitoresca terra de videiras e pomares,
Deixaremos assim a taberna, o nosso sacerdócio,
E lá iremos nós de ruela em ruela, cantar o nosso fado,
Nesta nossa peregrinação pelas pedras da calçada!
O nosso andar é semelhante ao dos frades capuchos,
Mas dizem que somos certamente mais originais!
Pregamos o dom natural de Baco em Vila de Frades,
Ó se ele alguma vez existiu, decerto que aqui nasceu!
Quantos admiradores ele não conquistou na terra de Fialho?
Quantas intelectualidades não beberam aqui da sua fonte?
Quem não se embriagaria nas profundezas do conhecimento?
O nosso culto propaga-se pelo mundo inteiro!
Ó bendito crer que não é penoso, mas saudável!
Nenhum de vós precisa de orar ao abençoado Baco
Para que ele seja o vosso protector;
Se desejardes louvá-lo com magnificência
Basta beber da sua obra e honrar o seu sabor!
Que o digam os romanos na sua adega de São Cucufate!
Que o digam os monges que também produziram vinho!
Que o digam as gentes desta terra milenar!
Se Vila de Frades tivesse um grandioso rio,
Ele seria da cor dos seus vinhos palhetes,
A maior fonte de inspiração aos olhos do Mundo,
Onde homens sedentos pela receita de Baco
Mergulhariam nesse inenarrável paraíso
Habitado por ninfas, filhas do Deus Baco,
Que ostentariam nas suas testas grinaldas de videira,
E se entregariam aos audazes aventureiros
Acompanhadas de largas taças de uvas:
Uvas doces, sensuais e curandeiras,
Uvas dessa terra à qual chamam Vila de Frades.
320

Poema nº 17

Fialho, o Prosador da Frontalidade

Pavoneias o teu bigode de astúcia146,
Aqueles teus olhos de exímio falcão
Que as injustiças sociais denuncia,
O teu caminhar pela universal educação!

Folheias os teus escritos de revolta;
A tua coragem submete as nuvens
Derruba os pilares do vil sistema
E a tóxica corrupção envolta.

Retratas as maravilhas do Alentejo:
Pintas o teu próprio país das uvas
Nas proximidades dum lindo pomarejo147.

Fialho, imperador entre os jornalistas,
Pelos teus valores, eu choro de emoção,
Não houve quem te superasse na isenção!

146

Recorremos ao termo “astúcia”, não tanto no sentido de pensamento ardiloso, mas tendo em conta
o facto de que Fialho de Almeida era um escritor perspicaz que não se deixava enganar ou iludir por
nada nem ninguém. Aqui a astúcia é utilizada para determinar o seu engenho e a sua capacidade de
leitura das mais diversas realidades do seu tempo, e não tem então, neste caso, qualquer conotação
depreciativa.
147
Referência a duas produções abundantes em Vila de Frades – o vinho e a laranja.

321

Poema nº 18

Lágrimas e Saudades

Abandono esta paragem
Acompanhado de nostalgia e carinho
Sem antes prestar minha homenagem
Para depois seguir um novo caminho.

Recordarei com orgulho esta vila jubilosa,
Berço da ínclita sapiência
Onde manifestei uma indulgente inocência
E bebi da servida hospitalidade generosa.

Sinto-me um ignorante esforçado
Perante esta povoação de bons costumes,
Que me fez inteiramente dedicado
Acendendo no meu coração o maior dos lumes!

Dói-me a alma pela necessidade de partir,
Choro com receio de nunca mais voltar
E de não conseguir elevar
Esta terra que assim me vai fugir!

322

Ó Vila de Frades, fui um estudioso ou turista,
Contudo cá me sinto beneficiado
Por ter logrado da tua maravilhosa vista
E de nunca ter ficado aqui desanimado.

Agradeço-te a gastronomia,
Desculpa-me a ousadia,
E por vezes, a minha ignorância
Que não merece tamanha importância!

Tu és grande neste Universo infinito,
Na História, invocas uma herança inviolável,
No vinho, dás lições a qualquer perito,
E na Escrita, tens em Fialho um espírito indomável!

Continuo a lacrimejar à distância,
Sem que ninguém me consiga escutar
Os meus lamentos de jamais te poder amar
Devido à minha impotente inoperância.

As memórias deleitáveis
Que partilhaste com este viajante
Prometo que não as olvidarei,
Pois sigo-te com uma pulsação latejante.

323

Perdoa-me a inevitável partida,
Deixo aqui parte do meu coração,
Mas levo a minha mente mais desenvolvida,
Para sobreviver num ambiente de crispação!

Muito obrigado Vila de Frades

324

Galeria
De
Imagens

325

Imagem nº 132 - O entardecer em Vila de Frades.
Foto retirada da Página Oficial de Vila de Frades – Capital do Vinho da Talha no
Facebook - https://www.facebook.com/pages/Vila-de-Frades-Capital-do-Vinho-daTalha/1378095002422934

Imagem nº 133 - Vista maravilhosa sobre esta terra alentejana.
Foto da autoria de Filipe Rocha in Página Oficial de Vila de Frades – Capital do Vinho da
Talha no Facebook - https://www.facebook.com/pages/Vila-de-Frades-Capital-doVinho-da-Talha/1378095002422934
326

Imagem nº 134 - A imponente Igreja Matriz reclama destaque no centro da vila.
Foto retirada do Perfil de Rosa Lemos no Facebook

Imagem nº 135 - A vila é circundada por outeiros e elevações.
Foto da autoria de Manuel Carvalho
327

Imagem nº 136 - Harmoniosa e Solidária, assim é Vila de Frades.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

Imagem nº 137 - Uma das ruas da localidade.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

328

Imagem nº 138 - Vista a partir da Torre do Relógio.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

Imagem nº 139 - A povoação vive da labuta nos campos.
Foto da autoria de Manuel Carvalho
329

Imagem nº 140 - Um balcão de sacada tipicamente alentejano na vila.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

Imagem nº 141 - Duas habitações originalmente decoradas a rigor alentejano na Rua
de Lisboa.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

330

Imagem nº 142 - Vista sobre a porta de uma das casas.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

Imagem nº 143 - Amontoado de casas.
Foto da autoria de Manuel Carvalho

331

Imagem nº 144 - Vila de Frades, uma terra convidativa.
Foto da minha autoria

Imagem nº 145 - Parque Infantil nas proximidades do Largo de São Brás.
Foto da minha autoria

332

Imagem nº 146 - A Capela de São Brás está integrada na Rota do Fresco.
Foto da minha autoria

Imagem nº 147 - A Igreja da Misericórdia e a Casa Mortuária em Vila de Frades.
Foto da minha autoria
333

Imagem nº 148 - A Igreja Matriz e a Paragem de Autocarros.
Foto da minha autoria

Imagem nº 149 - Um fontanário no Largo Dr. José Valentim Fialho de Almeida.
Foto da minha autoria
334

Imagem nº 150 - A entrada no recente e singular edifício da Junta de Freguesia de Vila
de Frades.
Foto da minha autoria

Imagem nº 151 – Ponte e respectivo ribeiro junto à Quinta do Almargem.
Foto retirada do Perfil de Luís Amado no Facebook

335

Imagem nº 152 - Azulejo sobre as Ruínas Romanas de São Cucufate, presente no
Mercado da vila. Arte produzida por Manuel Carvalho e Idalete.
Foto da minha autoria

Imagem nº 153 - Azulejo sobre a Ermida de Santo António dos Açores exibido no
mesmo mercado. Arte produzida por Manuel Carvalho e Idalete.
Foto da minha autoria
336

Imagem nº 154 - A Igreja da Misericórdia em azulejo da autoria de Manuel Carvalho.
Foto da minha autoria

Imagem nº 155 - O Arco que se evidencia pela sua peculiaridade arquitectónica.
Retirada de: http://www.meteo-europ.com/pt/pt/beja/vila-de-frades-fotografias.html,
(Foto de H. J. A.)
337

Imagem nº 156 - O antigo Palacete da Família dos Conceição Silva.
Retirada de: http://www.meteo-europ.com/pt/pt/beja/vila-de-frades-fotografias.html,
(foto da autoria de TM Pinho).

Imagem nº 157 - A Igreja Matriz durante o período nocturno.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/953682/tags/VILA%20de%20FRADES(Beja)-Portugal, (foto da autoria de Rui Simão).
338

Imagem nº 158 - A Torre do Relógio com alguma iluminação à noite.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/953682/tags/VILA%20de%20FRADES(Beja)-Portugal, (foto de Rui Simão).

Imagem nº 159 - A rua de Lisboa, isto é, a rua fidalga da vila, segundo Fialho de
Almeida.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/953682/tags/VILA%20de%20FRADES(Beja)-Portugal, (foto de Rui Simão).
339

Imagem nº 160 - O Fontanário ou Bica da Vila que remonta ao ano de 1900.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/953682/tags/VILA%20de%20FRADES(Beja)-Portugal, (foto de Rui Simão).

Imagem nº 161 - A praça 25 de Abril mantém igualmente o seu encanto à noite.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/953682/tags/VILA%20de%20FRADES(Beja)-Portugal, (foto de Rui Simão).

340

Imagem nº 162 - O Restaurante País das Uvas reflecte a tradição milenar do vinho de
talha.
Retirada de: http://www.panoramio.com/user/953682/tags/VILA%20de%20FRADES(Beja)-Portugal, (foto de Rui Simão).

Imagem nº 163 - Vila de Frades reivindica o estatuto de Capital do Vinho de Talha.
Retirada de: http://reignofterroir.com/2010/01/17/tasting-a-vila-de-frades-jar-wine/

341

Imagem nº 164 - Centro de Acolhimento e Interpretação da villa romana de São
Cucufate. Projecto desenvolvido, entre 1998 e 2002, pelos arquitectos Nuno Bruno
Soares e Patrícia Marques, com a colaboração do arquitecto-paisagista Francisco
Caldeira Cabral (filho).
Foto da minha autoria

Imagem nº 165 - Miradouro artificial propício à realização de pequenas actuações
musicais ou teatrais.
Foto da minha autoria
342

Imagem nº 166 - O templo romano politeísta (transformado depois em oratório
cristão).
Foto da minha autoria

Imagem nº 167 - As traseiras do mesmo edifício religioso e o seu pórtico envolvente.
Foto da minha autoria
343

Imagem nº 168 - A entrada na grande mansão senhorial fazia-se através de 3 escadas.
Veja-se ainda a porta principal de acesso.
Foto da minha autoria.

Imagem nº 169 - O Segundo Piso, no qual a família nobre residia, não se conservou até
aos dias de hoje. Procurou-se reconstituir artificialmente a antiga varanda de madeira
que percorreria grande parte da fachada, garantindo o acesso aos salões e quartos de
requinte.
Foto da minha autoria
344

Imagem nº 170 - Os robustos torreões do edifício principal da villa romana.
Foto da minha autoria

Imagem nº 171 - A comprida fachada da mansão senhorial. O piso inferior seria
constituído pelos armazéns (adega e celeiro), enquanto que o superior (já inexistente),
albergaria o senhor nobre e a sua família.
Foto da minha autoria

345

Imagem nº 172 - Um jardim estaria defronte da mansão senhorial.
Foto da minha autoria

Imagem nº 173 - Vista exterior sobre o edifício que acolheria o templo cristão.
Foto da minha autoria

346

Imagem nº 174 - Outra fotografia magnífica sobre o antigo templo que acolheu crúzios
de São Cucufate e capelães de São Tiago. Os frescos que revestem a cobertura e as
paredes maravilham os visitantes.
Foto retirada de: http://www.geocaching.com/geocache/GC4JAW7_villa-romana-desao-cucufate-beja?guid=38ef6101-c356-4cf1-be92-390d13704ba5 , (página publicada
por Paulo Hércules e Lusitana Paixão).

347

Imagem nº 175 - Símbolos Solares e Anjos Músicos ilustram a Cobertura do Edifício.
Foto da minha autoria

Imagem nº 176 - O Escudo da Ordem de Santiago é igualmente exibido no topo do
edifício.
Foto da minha autoria

348

Imagem nº 177 - O altar e o retábulo da Capela de São Tiago.
Foto da minha autoria

Imagem nº 178 - Pia Baptismal pertencente ao mesmo templo, localizada junto à
actual porta de entrada.
Foto da minha autoria

349

Imagem nº 179 - Uma pintura ainda por identificar, em termos de datação e descrição,
no templo de São Cucufate. Poderá ser mesmo uma das mais antigas, tendo em conta
o seu estado de degradação avançada.
Foto da minha autoria

Imagem nº 180 - Os corredores artificiais existentes dentro do templo.
Foto da minha autoria
350

Imagem nº 181 - As galerias de acesso aos armazéns romanos. Nos dias de hoje, esta é
seguramente uma das poucas villas romanas, onde o visitante desfruta do privilégio de
percorrer o interior dum determinado edifício.
Foto da minha autoria

Imagem nº 182 - Uma ara romana, isto é, uma espécie de altar dedicado a honrar
divindades (Vénus? Esculápio?) ou comemorar acontecimentos importantes. Poderá
ter sido readaptada posteriormente como pedra de lagar.
Foto da minha autoria
351

Imagem nº 183 - O artista que outrora concebeu esta peça, decorou ou esculpiu as
suas partes laterais com vultos.
Foto da minha autoria

Imagem nº 184 - A antiga porta ogival do séc. XIII que assegurava a entrada no
Mosteiro Medieval de São Cucufate. Mais tarde, criou-se um pouco mais acima (ou
ligeiramente a norte) outra porta de entrada que foi introduzida nos tempos da ermida
de São Tiago, e que hoje é utilizada nas visitas.
Retirada de: http://www.geocaching.com/geocache/GC4JAW7_villa-romana-de-saocucufate-beja, (Publicação assegurada por Lusitana Paixão e Paulo Hércules).
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