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Como governar a comunidade universalizante:
o conceito de co-imunização de Peter Sloterdijk
Rolf Rauschenbach*
Tradução de Vitor Ferreira Lima**
RESUMO:
Problema: a dinâmica atual da globalização levanta a questão de como as comunidades
políticas e a humanidade enquanto entidade política global serão e deverão ser
estruturadas. Ambas as posições extremas – idealista ou universalista hegemônica e
cosmopolita –, bem como o particularismo pluralista fracassam em face dos desafios
postos pela globalização. Visões democráticas novas e não excludentes a respeito de
comunidades políticas no contexto da globalização precisam ser formuladas para
responder às seguintes questões: “Quais são as estruturas de macro e de microentidades
políticas em uma ordem glocalizada?”, “Quais deveriam ser os princípios norteadores
para a governança dessas comunidades/entidades políticas?”. Método: as questões
levantas neste artigo são dirigidas à discussão crítica a respeito dos escritos de Peter
Sloterdijk. Em sua esferologia, Sloterdijk tem apresentado uma nova teoria sobre a
emergência de comunidades, as quais ele analisa sobre um ponto de vista esferológico.
Em “Du musst Dein Leben ändern”, ele formula uma nova teoria ética que pode servir
como um campo de inspiração para uma teoria normativa para governança de uma
ordem glocalizada. Resultado: este estudo fornece um novo entendimento do conceito
de comunidade. Ao invés da tradicional dicotomia entre comunidade e sociedade,
comunidades – ou esferas sociais – são apresentadas como fenômenos complexos e
densos, que podem ser analisados em nove dimensões (chirotópica, phonotópica,
uterotópica, thermotópica, erotópica, ergotópica, alethotópica, thanatotópica,
nomotópica). Além disso, o conceito de esferas sociais é passível de expansão – forma a
microesfera de um pequeno grupo de pessoas a esferas plurais, que hoje cobrem o
planeta terra na forma de montanhas de espuma. Baseada nesta visão espacial, emerge
uma teoria normativa da governança, inspirada nos princípios da imunologia.
Palavras-chave: Universalização. Comunidade. Co-imunização. Peter Sloterdijk.
ABSTRACT:
Issue: The current dynamics of globalization raise the question of how political
communities and humanity as the global polity as such will and shall be structured.
Both extreme positions – idealistic or hegemonistic universalism and cosmopolitanism
– as well as particularist pluralism fail to convince in view of the challenges
globalization is posing. New, non-exclusionary and democratic visions of political
communities in the context of globalization need to be formulated to answer the
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following questions: What are the structures of micro and macro polities in a glocalized
order? What should be the guiding principles for the governance of these
polities/political communities? Method: The questions raised in this paper are addressed
by critically discussing the writing of Peter Sloterdijk. In his spherology, Sloterdijk has
presented a new theory about the emergence of communities, which he analyzes from a
spherological point of view. In “Du musst Dein Leben ändern”, he formulates a new
ethical theory, which can be used as inspirational ground for a normative theory for the
governance of the glocalized order. Result: This study provides a new understanding of
the conceptof community. Instead of the traditional dichotomy between community and
society, communities – or, social spheres – are presented as complex and thick
phenomena, which can be analyzed in nine dimensions (chirotope, phonotope,
uterotope, thermotope, erotope, ergotope, alethotope, thanatotope, nomotope).
Furthermore, the concept of social spheres is scalable – form the microsphere of a small
group of persons to plural spheres, which nowadays cover the planet earth in the form
of mountains of foams. Based on this spatial view, a normative theory of governance
emerges, inspired by the principles of immunology.
Keywords: Universalization. Community. Co-immunology. Peter Sloterdijk.

Introdução
A escolha de qualquer conjunto de pressuposições ontológicas predetermina até
certo grau como se definem o particular e o seu contexto. Isso se torna particularmente
claro quando se debate a natureza das relações internacionais e da política internacional.
Aqui, a questão ontológica pode ser traduzida em duas questões: “O que constitui atores
na política internacional?”, “Qual é a natureza que tais atores mantém entre si?”. As
implicações das respostas a essas questões são não só filosóficas, mas também
relevantes na prática, já que pressuposições ontológicas guiam atores reais na política
mundial em suas percepções e atos em relação a assuntos globais.
A distinção clássica entre realistas e idealistas nas Relações Internacionais é
baseada na pressuposição de que o domínio político pode se estruturar ou
anarquicamente ou hierarquicamente. No filamento idealista, a imutabilidade da
anarquia é rejeitada em favor de uma entidade política universal que a domestica e
estabelece uma autoridade abrangente (PROZOROV, 2009, p. 216). De acordo com
Prozorov, ambas as posições estão baseadas em uma ontologia política de identidade,
que por definição não pode romper com o particularismo: os realistas afirmam

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identidades são baseadas em referências identitárias de outros tempos. em que “o amante deseja o amado com todos os seus predicados. 1993. já que todos os sujeitos estão submetidos a infinitas individuações. Prozorov discute três estratégias de como superar esse impasse: universalismo genérico. A consequência disso é uma configuração – universal – radicalmente igualitária. p. a política é a disputa por espaço e pelas identidades a ele ligadas. o sujeito se diferencia de sujeitos do passado. 2001. p. Prozorov argumenta. Como todo sujeito é individuado de modos infinitos. que a alteridade temporal é sempre também alteridade espacial. “toda postulação ética tendo por base o reconhecimento do outro deve pura e simplesmente ser abandonada” (BADIOU. a política mundial como antagonismo entre identidades singulares se torna irrelevante e gera uma comunidade de sujeitos igualitários com infinitas identidades e uma tendência a formar uma única humanidade integrada. com Kojève. já que qualquer Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. Antes. ano V. No caso da alteridade temporal. 1995. normalmente do passado. Com Badiou. Entretanto. 228) e. 25). enquanto os idealistas tentam impor. não faz sentido fundamentar a ética e a política nesse fato. 2014 [p. 61). 90 a 110] . possivelmente delas próprias em um estágio recuado no tempo. não de sujeitos contemporâneos. Agamben exemplifica esse argumento com seu conceito de amor como uma experiência de “viver em intimidade com um estranho” (AGAMBEN. alteridade temporal e aceitação da falência própria. Badiou propõe um universalismo genérico que neutraliza o conteúdo particular.92 identidades particularistas. Sob a condição de universalismo genérico. Aqui. Na leitura de Prozorov. por essa razão. o sujeito deriva sua identidade do espaço em que ocupa e em contraste com o espaço que outros sujeitos dominam. Nessa perspectiva. ao argumentar que as peculiaridades são sempre o resultado de uma situação específica. Ao invés disso. a ideia de individualidade como uma qualidade autocontida não pode ser mantida. No último caso. um modelo particular de nível universal. não do sujeito em si. nº 3. p. Prozorov argumenta que a diferença – e a identidade individual dai derivada – é a mais fundamental e também a mais trivial característica da condição humana (2009. em um padrão fundamentalmente hegemônico. O conceito de alteridade temporal deve ser visto sob a luz da alteridade espacial. 2). p. seu ser-tal-qual a si mesmo” (idem. A alteridade espacial é uma versão clássica da ontologia política identitária.

O indivíduo nunca está sozinho. p. ou. como expressa ele. Desse ponto de vista. posições identitárias precisam ser abandonadas. criada e habitada por mais de um indivíduo. uma referência a ele possa parecer uma alteridade temporal da forma acima exposta –. relegada ao passado (PROZOROV. deveria ser guiado por considerações imunológicas ou. Para fazê-lo.93 ação histórica requer alguma referência geográfica que é. No coração da abordagem de Agamben sobre a falência está a compreensão de que o sujeito é sempre também o que foi. a divisão entre sujeito e os outros representa uma posição antropologicamente cega. ela é uma experiência que ultrapassa o presente e não pode ser transcendida. 2000. o governo da esfera global contemporânea. 142. 90 a 110] . 2010. de modo mais sucinto. Consequentemente. e. Por essa razão. São intenções deste artigo apresentar ainda outro argumento para resolver o impasse ontológico da política mundial e mostrar como essa solução pode ser traduzida em princípios governantes para a comunidade mundial. Sloterdijk formula uma ontologia que parte de uma observação de que a chegada à existência dos seres humanos se inicia no útero da mãe. De acordo com Sloterdijk. Esferas possuem tanto dimensões materiais quanto intangíveis. Este artigo discutirá o argumento de Sloterdijk. Apesar do fato da falência estar no passado – e. Sloterdijk propõe uma antropologia espacial dentro de esferas. Embora a estrutura ontológica desse argumento se pareça bastante com a abordagem de Badiou e de Agamben. ano V. ele qualifica a alteridade temporal como uma quimera da alteridade espacial e a dispensa como uma estratégia identitária. o sujeito é sempre também o outro. a política identitária é obviamente vã. Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. p. • Qual é a política das comunidades? (política de eros e thymos). Insistindo nesse fato. que ele na verdade caracteriza como espuma. 18). 2010. A formulação de esferas amplas e complexas permite a Sloterdijk criar um vocabulário mais perspicaz para o que é mais usualmente referido como globalização e universalização. A terceira estratégia para superar o impasse identitário discutida por Prozorov é o conceito de Agamben de falência (AGAMBEN. respondendo às seguintes questões: • Qual é a estrutura básica das comunidades? (comunidades como esferas). exploraremos o conceito de co-imunização de Sloterdijk. nº 3. 2014 [p. p. portanto. por essa razão. 10). então. já que contradiz a si própria. PROZOROV. por co-imunização. por ordem de coerência. sua derivação segue um caminho diferente.

nº 3. afirmando tanto a dimensão particularista quanto a universalista. Não existe ser sem ser-em-algum-lugar – inicialmente no útero. Comunidades como esferas Do ponto de vista de Sloterdijk. e modos de expressão poética. (N. • Quais deveriam ser os princípios governantes para a comunidade universalizante? (co-imunização). Entretanto.94 • De onde emergiu o presente cenário comunitário? (paleopolítica e política clássica conduzindo à hiperpolítica). A resposta de Sloterdijk a essas questões é particularmente interessante. Isso pode ter se dado também pelo fato de que. o ser humano é rodeado por algo que não pode aparecer como um objeto. 2009) e da literatura sobre teoria das Relações Internacionais. de um lado. 90 a 110] . até agora1. Trata-se do indiscernível complemento da existência própria de cada um. Último. até menos quando um autor tenta criar um vocabulário inovador para capturar a realidade. Isso não é um problema per se. A coexistência precede a existência. apenas um número pequeno de suas traduções relevantes a esse tópico foram traduzidas para a língua inglesa. p. de outro. Ele inicia sua ontologia com o número Dois (2006. É à luz desse Urszene que Sloterdijk afirma que a investigação filosófica do ser humano significa explorar casais – sejam casais sociáveis ou o problemático e inacessível outro 1Este artigo foi originalmente escrito em 2011.T. porém tem também gerado pouca reação da academia (JONGEN VAN TUINEM & HEMELSOET. 2014 [p. p 551). Do começo. Ele combina a dinâmica integrante e segregadora dos grupos sociais. ano V. o ponto ontológico inicial da existência humana é o ventre da mãe. inerente a toda prática humana. Ele confessadamente transita constantemente entre o pensamento filosófico clássico. Vida é sempre vida-em-meio-à-vida (1998. ao fazê-lo. já que ele abraça a natureza paradoxal dos coletivos. 147). com o que cada um forma um par. É o objetivo deste artigo sistematizar parte do pensamento de Sloterdijk a fim de facilitar sua recepção.) Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. há de se considerar o estilo de escrita de Sloterdijk. ele põe um desafio ao leitor e torna mais difícil sua inserção em discursos estabelecidos. porém não menos importante. O pensamento de Sloterdijk tem provocado vários debates acalorados nos feuilletons de língua alemã.

o etéreo e o elusivo que representam sua essência. p. o flutuante e o sutil. é o intangível. Para conter a infinitude e criar espaços nos quais compartilhar possa ser vivenciado. ocorre a expulsão da esfera que se habitou durante a fase inicial da existência. p. seja de tipo íntimo ou público (1998. ele não limita sua análise ao meio de diálogo e à comunicação direta. Ele analisa o cenário no útero não apenas de uma perspectiva biológica. o compartilhado. 2014 [p. ele estabelece fundamentalmente uma geografia da generosidade. p. nº 3. Do ponto de vista de Sloterdijk. Sloterdijk usa o termo clima não apenas para denominar um estado meteorológico. Entretanto. É por essa razão que Sloterdijk se esforça em mudar o foco da orientação tradicional a substâncias e objetos para uma perspectiva que captura o fluido. O espaço compartilhado é isolado do resto do espaço infinito. esferas humanas giram ao redor de ao menos dois polos. Em sua esferologia. ano V. Como em Geometria. Embora as esferas possuam componentes materiais. psicológica. Sloterdijk examina os modos pelos quais as esferas foram concebidas através da História. ele mesmo. ao invés disso. 137). esses polos são representados por seres humanos individuais povoando uma esfera e compartilhando seu espaço com outros (2006. 161). O conceito de espaço. Isso motiva Sloterdijk a investigar as estruturas de generosidade que criam espaços (2004. tentando substituir a acolhedora experiência do útero. 90 a 110] . Sloterdijk sugere falar sobre esferas humanas. 530. 884).95 (1998. p. de campos nos quais subjetividade e intimidade são geradas (2006. É a relação. 487). algumas barreiras entre o interior e o exterior são criadas. Com o nascimento da criança. Com o estabelecimento de uma esfera humana. é infinito. No caso de esferas humanas. ele estabelece uma teoria antropológica de espaços compartilhados. p. mas também para se referir a nove Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. Compartilhar significa ser generoso com o outro. É a câmara musical pré-natal que forja o senso de escuta. o frágil. o espaço pode ser manipulado. a “coisa” entre pessoas que está no coração de sua investigação. Na visão de Sloterdijk. Dentro da esfera. p. todas as atividades humanas que se seguem do nascimento são criações de outras esferas. o senso que é o coração de toda a interação humana. portanto. Ao fazê-lo. mas também sônica e. 309). p. 2006. o espaço é um fenômeno social no sentido de que carrega significado somente quando é compartilhado com outros. 166). Essas manipulações podem resultar em climas específicos (2004.

A emergência da mão humana. Ao contrário. 3. Erotopo: o fato de diferentes indivíduos formarem uma esfera não implica que a relação entre eles seja homogênea e sem dinâmica. capaz de manipular seu entorno. cujas aprovações e desaprovações de outros membros individuais é constantemente comunicada e calibrada. segundo. Essa mantença é primeiro alcançada balanceando-se forças internas e. Na seção seguinte. parcialmente resultado de suas presenças. ano V. já que eles começam a entender que sua esfera é. Ser parte de uma esfera implica ter acesso a vantagens que permitem ou acentuam a sobrevivência de habitantes da esfera. contrabalanceando ameaças ao clima interno decorrente de influências externas. A função mais básica de qualquer esfera é assegurar sua sobrevivência. possuindo a mesma origem. Essas interações contribuem para a aclimatação erótica de uma esfera. transforma a esfera humana não somente através de interferências específicas feitas por seres humanos.96 dimensões. 4. Uterotopo (ou hysterotopo): como mencionado acima. nº 3. Phonotopo (ou logotopo): qualquer esfera humana tem uma dimensão sônica. mas também muda a percepção do entorno pelos seres humanos. modelável e. Thermotopo: o thermotopo denomina a dimensão confortável de uma esfera. Os sons produzidos pelas vozes e por outros instrumentos humanos criam uma esfera acústica que promove um senso de pertencimento e de identidade. p. as esferas são sempre concebidas como extensões do útero materno. maior a complexidade de comunicação entre os membros de uma esfera humana. 2014 [p. Quanto mais diferenciados são os sons humanos. Ergotopo (ou phalotopo): não há esfera humana sem propósito. 2. que juntas caracterizam o clima das esferas humanas (2004. 90 a 110] . pelo menos. essa dimensão será diferenciada em componentes eróticos e thymóticos 6. mantendo um certo clima. A dimensão do uterotopo se refere às qualidades de uma esfera que produz um senso de proveniência de um mesmo lugar. Chirotopo: essa dimensão se refere ao mundo da mão. A ação contrabalanceadora mais extrema é o serviço militar. 362): 1. há uma vívida interação entre esses indivíduos. na verdade. em que a Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. alguma autoridade é requerida para fortalecer a função da esfera. Para servi-lo. 5.

fantasmas e deuses. Alethotopo (ou mnemotopo): cada esfera humana tem sua própria referência à verdade. 2014 [p. a thanatotópica é a dimensão da esfera humana que hospeda os mortos. iconotópica): como uma extensão da alethotópica. já que o processo de explicitar um ingrediente implica o questionamento do até então não questionado e assenta potenciais conflitos (2004. nº 3. Para o propósito deste artigo. porém é considerada parte dela. A aderência a esses princípios é motivada por experiências mútuas de coerção.97 sobrevivência do coletivo é defendida como objetivo fundamental. Fazer explícita uma dimensão – em outras palavras. ancestrais. formular uma teoria a seu respeito – requer um mecanismo de compromisso. já que é a forma colaborativa do outro que fornece uma influência positiva para o clima dentro de uma esfera. impensável sem o outro. Thanatotopo (ou theotópica. A manutenção de verdades e memórias específicas determina a dimensão alethotópica do clima de uma esfera. O ponto de partida ontológico de Sloterdijk é. Sloterdijk conceitualiza a esfera humana como uma estufa de nove dimensões na qual os seres humanos são capazes de sobreviver e consequentemente podem desenvolver complexidades além das suas heranças animais. podemos sintetizar e dizer que Sloterdijk concebe comunidades como esferas humanas. já que os membros da esfera precisam concordar qual teoria eles estimam apropriada. Essa dimensão o que está além da esfera. p. 7. Enquanto teorias podem ser ferramentas para acentuar anda mais a performance de uma esfera. 496). Um indivíduo por si só não é capaz de sobreviver. 8. portanto. Cada uma das nove dimensões pode atingir diferentes graus de implicitude e explicitude. Política de eros e thymos Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. elas também representam perigo. 9. ano V. Nomotopo: essa dimensão denomina o conjunto de regras implícitas e explícitas que estruturam a interação dos indivíduos dentro da esfera. Ele depende de ser parte de uma esfera povoada por outros. seus modos próprios de processar experiência e falsificar informação para criar memórias. 90 a 110] . Comunidades sloterdijkeanas são definidas por nove dimensões que formam juntas um clima específico.

aos sentimentos de dignidade e honra. p.98 Como afirmado acima. A possessão de objetos produz um sentimento de completude (2005b. p. enquanto que mecanismos de compartilhamento levam a atitudes de solidariedade. thymos tem a ver com o que se quer ser. 41). o respeito próprio é reposto através de um ato de misericórdia. a necessidade de acumular pode ser traduzida na tentativa de dominar outros indivíduos. Embora Sloterdijk diferencie esse clima em nove dimensões. 38). De uma perspectiva erótica. nº 3. No primeiro caso. permaneceria culpado. são um tanto escassos. e de compartilhá-los altruisticamente. 1007). Esferas são caracterizadas por complexidades e fragilidades. 90 a 110] . à indignação e à vingança (2005b. ano V. indivíduos (ou coletividades) tendem a fazer um juízo de diferenciação entre eles próprios e os outros para criar um excesso de autoestima positiva (2005b. No segundo Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. Em termos políticos. No segundo caso. 2014 [p. 30). objetos e territórios. Sloterdijk define as comunidades como coletivos criadores de esferas. à necessidade de justiça. Thymos refere-se ao orgulho. p. Eros tem a ver com o que se tem. mas também em relação a si mesma. Sloterdijk concebe o thymos à moda platônica e sublinha sua paradoxa peculiaridade no fato de que uma pessoa (ou coletividade) possa desenvolver sentimentos de orgulho não apenas em relação aos outros. não apenas liberta-se da maldição como também devolve-se a liberdade àquele que. de outro. Isso acontece quando uma pessoa (ou coletividade) não está satisfeita com sua própria conduta e se sente envergonhada (2005b. Isso pode ser alcançado por duas estratégias diferentes: ou negando ou afirmando o outro. à coragem. As forças eróticas oscilam entre o impulso de acumular objetos egoisticamente. a primeira força psicodinâmica. senão hostil. p. nos quais o objetivo maior é agredir o outro de tal modo que a autoestima própria possa ser reestabelecida. É eros que mostra o caminho aos “objetos”. à magnanimidade. Sloterdijk se refere a mecanismos de vingança. de um lado. Os relatos de Sloterdijk sobre eros. Para manter o excedente thymótico dentro de uma esfera. Ao fazê-lo. inseridas em um ambiente dinâmico. uma humilhação pode ser compensada. Fazer política significa produzir e manter um clima específico dentro de uma esfera (1999. p. ele enxerga duas forças psicodinâmicas fundamentais atuando: eros e thymos. 27). Ao perdoar-se o outro por haver transgredido o thymos próprio. os objetos supostamente preenchem o vácuo criado pela ausência do útero. de outro modo.

p 53). 90 a 110] . em termos gerais. Empreender uma mudança do modo de vingança para o de perdão permite também reverter a perspectiva. Para evitar total desestabilização. • Campos políticos são formados pelo pluralismo espontâneo de forças autoafirmadoras. Administrar eros e thymos é uma tarefa complexa. Baseado nessas considerações. (2005b. já que eles precisam permanecer separados e juntos em equilíbrio. Na primeira seção deste artigo. ele argumenta que elas são veículos de aprendizado. produzindo Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. ano V. 2014 [p. 1010). p. nº 3. a contabilidade do olho-por-lho é abandonada e substituída por uma economia “trans-capitalista” de generosidade e doação. É nesse ponto que Sloterdijk introduz o conceito de imunização. p. concluímos que Sloterdijk concebe comunidades como esferas humanas com um específico e favorável clima. Os habitantes continuam a ser protegidos contra hostilidades do lado de fora e enfrentam condições favoráveis que os permitem evoluir em direção a maiores complexidades. Sloterdijk caracteriza o político dentro de uma esfera da seguinte maneira (2005b. • Opiniões políticas resultam de operações simbólicas impulsionadas pelos recursos thymóticos de um coletivo. • Ações políticas são resultados de diferenças em pressões thymóticas dentro e fora de esferas. • Retórica – a arte de manipulação emocional de uma assembleia política – é a ciência aplicada do thymos. Podemos agora adicionar a essa definição que o clima dessa esfera depende do jogo entre duas forças psicodinâmicas: eros e thymos (1999. mecanismos para remediar os perdedores precisam funcionar. passando-se de um ponto de vista orientado ao passado para um ponto de vista orientado ao futuro. uma esfera pode ser preservada. Somente nessas circunstâncias. 36): • Grupos políticos são assembleias sob pressão thymótica endógena.99 caso. • Lutas por poder dentro de um corpo político são sempre também motivadas por considerações thymóticas dos protagonistas e de seus seguidores. Para especificar a função das esferas. Eles mudam suas relações entre si de acordo com uma fricção inter-thymótica.

no nível coletivo. Sloterdijk divide esse processo histórico em três estágios: o estágio de microesferas (bolhas).e psico-imunizações. Práticas psico-imunológicas como a religião e outros rituais místicos permitem lidar com essa ameaça através de modos simbólicos (2009. reinos. finalmente. 1999. elas tem como objetivo prevenir confrontos danosos com o outro. Somados a esse confronto “real”. 2004). hordas Paleopolítica Macroesferas (globos) Política clássica Tribos formais. o sentimento de agressividade é dominante Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. A preservação de uma esfera depende. o thymos é reprimido. 2014 [p. 90 a 110] . de modo a assegurar suas bio-. Ela se origina como um conceito dos campos biológico e médico. 23 e 709). o destino desconhecido e a mortalidade fundamental. as esferas humanas evoluíram das formas mais simples até as mais complexas. sócio. indivíduos e coletivos também enfrentam ameaças “virtuais” aos seus estados mentais e psicológicos. Suas correspondentes entidades políticas. Através do tempo. mas também são projetadas para produzir sócio-imunizações e psicoimunizações. Sloterdijk resume instituições jurídicas. Sloterdijk argumenta que as esferas humanas não são somente para favorecer a imunização biológica de seus membros. Todas as três imunizações estão funcionalmente interconectadas entre si. solitárias e militares sob o conceito de práticas sócio-imunizadas. A imunização providencia mecanismos de autodefesa. portanto. estados-nações Polícia de eros e thymos Eros: compartilhar com o outro Thymos: predominantemente ausente Eros: dominação do outro Thymos: no nível individual.100 imunização para seus membros. o estágio de macroesferas (globos) e. da habilidade de seus membros de constantemente controlar o clima dentro dela. 1998. como questões existenciais. pgs. políticas e polícias de eros e thymos são resumidas na tabela abaixo: Estágio esférico Entidades políticas Política Microesferas (bolhas) Clãs. ano V. o estágio de esferas plurais (espumas) (1993. nº 3. impérios.

quando nossos ancestrais animais aos poucos tornaram-se humanos. nº 3. Em contraste com a maioria dos animais. A necessidade erótica de possuir é limitada. suas entidades políticas. Durante o estágio da paleopolítica. 14). p. A formação do homem enquanto um ser social ocorre dentro das esferas da família. já que o espaço é abundante. dos clãs e das hordas que funcionam como incubadoras sociais. suas políticas e polícias de eros e thymos Paleopolítica O primeiro estágio se inicia em tempos longínquos. 90 a 110] . 2014 [p. Essas esferas fornecem o clima de nove dimensões necessário para provocar o complexo processo de aprendizado no qual as habilidades sociais possam ser adquiridas (1993. Por essa razão. A vantagem desse conjunto de características é a moldabilidade da criança. e termina quando coletividades humanas assumem estruturas formais. com pouca ou nenhuma interação com outros coletivos. É devido a esse contexto que as forças psicodinâmicas de eros e thymos ainda aparecem em termos simples. ano V. a desvantagem se encontra na dependência em relação aos pais e a outros amparos. coletivos humanos são povoados por um pequeno número de pessoas. e a sua vantagem tecnológica sobre a natureza é insignificante. Cada microesfera funciona por si mesma. a sobrevivência do indivíduo ainda depende a curto prazo totalmente do coletivo. Objetos feitos pelo homem estão disponíveis apenas em pequena Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. Nesse processo. A essência da paleopolítica é a repetição de homens por homens. o primeiro desafio é o nascimento bem-sucedido e a sobrevivência do recém-nascido. O contexto mais amplo de esferas paleopolíticas é o espaço aberto e vasto.101 Esferas plurais (espumas) Humanidade Política do mercado Eros: dominação do mundial outro Thymos: superioridade baseada no ressentimento Hiperpolítica Eros: unificação com o outro Thymos: superioridade baseada na generosidade Tabela 1: Os três estados esferológicos. recémnascidos humanos continuam dependendo do suporte dos pais por muitos anos.

p. É o período de emergência da noção clássica de política. 32). Métodos pedagógicos que emergem no decorrer da política clássica treinam tanto os representantes quanto os indivíduos das macroesferas a entender e lidar com o poder simbólico (1993. as forças eróticas produzem um clima de compartilhamento.102 quantidade. Inicialmente. incluindo determinados direitos e responsabilidades. é o resultado de estruturas de poder socialmente produzidas que vão muito além da natureza das hierarquias de famílias. comunidades expandiram para escalas maiores: de tribos formais até reinados. Esses representantes não violentos mostram poder de maneira simbólica. Política clássica Com o passar do tempo e graças ao progresso tecnológico. emerge neste estágio somente na medida em que é preciso definir relações sociais básicas entre os membros de uma esfera. essas estruturas de poder aparecem na forma de pura violência física. Isso pode ser deduzido do fato de que a interação entre diferentes bolhas humanas é muito rara. As políticas de eros e thymos se tornam mais complexas e mais explícitas. o outro é a natureza. 90 a 110] . Sloterdijk fala agora de globos enquanto contêineres holísticos. Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. O coletivo paleopolítico não experimenta a si mesmo no contexto de outros coletivos. cada vez mais. 2014 [p. como até a sobrevivência de curto prazo depende de esforços conjuntos. clãs e hordas. ano V. Porque a onipresença do poder físico é dispendiosa. A dimensão erótica da política clássica está concentrada na dominação e acumulação (1993. porém. A criação de comunidades maiores não ocorre naturalmente. portanto. Embora tenha que ser assumido que certo tipo de auto-consciência emerja já no estágio das microesferas. Por essa razão. Isso leva à questão de como as forças thymóticas funcionam na política clássica. mesclando e unindo membros de um modo aparentemente natural. nº 3. p. 26). aquartelados e substituídos por representantes não violentos de poder. Para refletir o tamanho maior das esferas humanas. fenômenos thymóticos são ainda muito limitados. um comando diferenciado de propriedade faz pouco sentido e. impérios e estadosnações. É o período da política clássica. os agentes de violência são.

No estágio da política clássica. quanto mais bem-sucedida a construção de uma esfera humana mais ampla. na política clássica. a política clássica tende a se tornar vítima de seu próprio sucesso. portanto. bem como a de instituições militares e de outras agências dedicadas a questões de autonomia e segurança. a comparação entre eles é inevitável e resulta no estabelecimento de relações internacionais. ao contrário. e a submissão. 278). p. 90 a 110] . o indivíduo necessita separar-se de seu contexto social inicial e adquirir uma identidade da estrutura de poder mais ampla (2004. toma lugar a formalização de práticas espirituais em instituições religiosas. por reconhecimento de superioridade coletiva. 31). Para construir esferas humanas para além de bolhas paleopolíticas. p.103 Elas precisam ser diferenciadas entre o domínio individual e o domínio coletivo. como as igrejas. A aderência à identidade de uma macroesfera humana requer aceitação do rebaixamento próprio a uma posição subordinada com a finalidade de aumentar a grandeza do coletivo. 2014 [p. p. p. A longo prazo. Entretanto. Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. mais dificultosa é a mantença da atitude de submissão de seus membros. são alimentadas para gerar sentimentos agressivos de superioridade sobre outros coletivos (2005b. No domínio psico-imunológico. nº 3. a identidade de uma macroesfera humana também é determinada pela confirmação (ou pela sua falta) da identidade desse coletivo por outros grupos (2005b. a emergência de instituições de bem-estar social pode ser observada. 38). promovida (2005b. p. No domínio coletivo. instituições sócio-imunológicas e psicoimunológicas são expandidas e consolidadas. Aquele que se recusa a reconhecer o outro será confrontado pela sua raiva. Ao exigir reconhecimento do outro. No domínio sócio-imunológico. Isso se deve à economia da escala que proporciona ao indivíduo recursos que não são requeridos para a sobrevivência de curto prazo e que criam momentos de liberdade (2004. 43). ano V. É por essa razão que tendências egocêntricas são mais e mais reduzidas. 263). 39). pessoas e recursos e competição thymótica. já que o outro se sentirá desestimado (2005b. dupla: competição erótica sobre territórios. forças thymóticas não são reprimidas. enquanto o objetivo final para o indivíduo. p. que coletivos humanos comecem a entender que eles não estão sozinhos no mundo. A partir desse momento. está-se aplicando um teste a ele. Está em jogo. A competição na política clássica é. Com a percepção de outros coletivos.

55). p. quando aplicada a uma escala global. elas permanecem inalcançáveis umas em relação às outras. Para evitar a crise global final. Essa configuração tem implicações teóricas: é impossível – e indesejável – formular e abranger supervisões de mundo (2004. bens contagiantes e símbolos (2004. O número de habitantes de microesferas continua a ser pequeno: casais.104 É bem conhecido que. Hiperpolítica A paleopolítica e a política clássica são formas históricas de governo. trata-se do efeito de infiltrações miméticas de padrões similares. 62). p. não existe perspectiva privilegiada. no estágio das esferas plurais – ela vive. ano V. já que leva inevitavelmente a conflitos insolúveis. agora. 90 a 110] . Isso é ainda mais verdadeiro quando se leva em conta que a paisagem das esferas está atualmente alcançando um novo estágio: a humanidade está entrando. Sloterdijk propõe a hiperpolítica como alternativa. alternativas precisam ser formuladas. Cada uma das bolhas representa uma microesfera. nº 3. p. em espumas. quando aplicada a uma escala global. 2014 [p. Em decorrência disso. depois das microesferas – bolhas – e das macroesferas – globos –. qualquer perspectiva é limitada e parcial. De um lado. De outro lado. Dentro da espuma. fornecendo o conforto de nove dimensões que seus habitantes precisam para sobreviver (2004. famílias ou outros grupos de novas pessoas povoam as bolhas. Seu holismo agressivo e centralmente orquestrado provou ser uma estratégia política inadequada. A interação entre as bolhas não é baseada em comunicação direta. 704). devido ao fato de que bolhas compartilham suas paredes com outras bolhas. cada bolha é uma produtora autorreferencial de intimidade. Apesar do fato de que as bolhas vizinhas estão o mais próximo possível. a mistura clássica entre políticas eróticas e thymóticas (dominação do outro e sentimento de superioridade agressiva) representa um coquetel explosivo que já levou a inúmeras catástrofes produzidas pelos humanos (2009. elas se encontram em uma situação paradoxal de co-insulamento. p. com nenhuma instância Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. Tudo o que pode ser dito é que a humanidade forma um número de montanhas de espuma. 61). Sloterdijk caracteriza as espumas humanas como aglomerações de um sem número de bolhas.

consistindo apenas de superfície. p. 79). Sloterdijk argumenta que tal retorno está fadado ao malogro. ele já está preocupado com o número crescente de “últimos homens” – a figura nietzschiana para um indivíduo sem descendência biológica (1993. é a última que é capaz de fornecer imunização sustentável para a humanidade. Com a política de mercado mundial. Uma supertigela.105 central. Em tempo. as esferas plurais são reduzidas a uma ideal supertigela. Não é preciso dizer que tal configuração não é capaz de produzir os recursos imunológicos necessários para sustentar as necessidades de longo prazo da humanidade. 76) – e insiste na importância da sustentabilidade (1993. Sloterdijk discute duas formas fundamentalmente diferentes de governo para esferas plurais: política de mercado mundial versus hiperpolítica. é inconcebível como e por que as ricas complexidades. As considerações de Sloterdijk sobre a hiperpolítica não são sistematizadas. A mesma configuração egoística é refletida nas práticas thymóticas no mercado mundial: o mercado mundial em si não é capaz de fornecer referências thymóticas. 231). 90 a 110] . já que é projetado apenas para o trânsito e para transações. p. ele define hiperpolítica em termos bastantes vagos. ano V. p. Os atores do mercado mundial tentam transformar todas as necessidades humanas em produtos comerciais para substituir o conforto acolhedor da esfera de casais. Ao introduzir esse conceito. típica da política clássica. entretanto sem utilizar esse termo explicitamente. insistindo que a política clássica não é mas adequada. ele continua a trabalhar com as questões de hiperpolítica. Em seus últimos escritos. Além disso. o escudo esférico de nove dimensões que os humanos precisam para sobreviver. Entretanto. acumuladas em espumas através dos tempos possam ou devam ser reduzidas em uma supermonoesfera (2005a. Do seu ponto de vista. O termo é mantido Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. famílias e outros grupos menores. na qual indivíduos se encontram e realizam suas transações em termos iguais. 2014 [p. não é capaz de produzir intimidade. Os indivíduos socialmente atomizados procuram sentimentos de superioridade ao negar ou rebaixar seus companheiros. nº 3. O pensamento do mercado mundial é um esforço de regresso à macroesfera totalizante. A estrutura erótica do mercado mundial é definida pelo esforço individual de dominar todos os outros para ganhar vantagens competitivas e dispor de ainda mais recursos de opressão.

Universalização não é um objetivo em si mesmo. já que é a bolha que assegura a sobrevivência a curto prazo de seus habitantes.106 neste artigo. Na segunda ecumenia. o mundo secreto é substituído pelo medo de uma crise global. Por ecumenia. 355). Com a hiperpolítica. ele se refere ao conceito grego de oikuméne. a hiperpolítica induz a um processo de aprendizagem que permite processar observações de segunda ordem de acentos eróticos e thymóticos que vibram dentro da espuma (2005a. cada um é confinado em sua bolha. p. entretanto em níveis não destrutivos. O confinamento não é percebido como um encantamento. antes é um processo de maturação e de civilização (2004. p. multisituacional e associacional das espumas é aceita. a espumosa realidade é abarcada. A hiperpolítica tem a ver com equilíbrio. Além disso. ano V. 293). com acesso limitado ao resto da espuma (2004. É de responsabilidade de todas as bolhas contribuir para o equilíbrio geral. 265). assumir o comando de conflitos relevantes e evitar confrontos excessivos. p. p. É nesse contexto que Sloterdijk advoga uma segunda ecumenia. Durante a primeira ecumenia. 308. Do Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. 2014 [p. ele é a favor da universalização enquanto uma reflexão semântica da expansão do mundo em processo de globalização. 2005a. p. 414. a hiperpolítica acentua a percepção dos habitantes de que suas perspectivas precisam ser expandidas para além de suas microesferas. Os conceitos holísticos representados em metáforas animalescas. corporais e arquiteturais de corpos políticos são abandonadas e a configuração poliesférica. nº 3. cujo significado é de mundo habitado (1999. p. De acordo com a hiperpolítica. p. o controle sobre forças psicodinâmicas não pode ser centralizado.355). 2005b. p. é senso comum que não há perspectiva do olho de deus. a base para o tratamento igual entre seres humanos não fora suas necessidades iguais. um código de conduta para uma realidade que continua a ser multimegalomaníaca e interparanóica. principalmente a destruição do meio ecológico (2005b. Embora Sloterdijk descarte um tipo de universalismo holístico. Já que o acesso direto ao exterior é limitado. p. 987). O resultado desse processo de aprendizado é uma racionalidade que objetiva balancear os polos opostos de eros e thymos. 2004. já que permite uma clara caracterização das diferentes estratégias políticas discutidas por Sloterdijk. 223). Os filósofos antigos perceberam os indivíduos ontologicamente unidos por um abrangente mundo secreto (1999. Entretanto. Como não há hierarquias. 90 a 110] . significa confrontar processos entrópicos. 986.

as duas forças psicodinâmicas precisam ser enfaticamente abarcadas. conceitos racistas são um exemplo óbvio dessa perspectiva.107 ponto de vista de Sloterdijk. A colaboração além dos limites de uma entidade política clássica é vista como um desperdício de recursos ou simplesmente como um risco assumido. sua produção depende. p. esse mecanismo não se limita ao controle de ameaças biológicas. reinados. ao mesmo tempo. p. 224). mas como aquele que poderia se tornar um apoio (2005b. Em vez de colaborar com outras entidades políticas. A questão não é a do equilíbrio entre eros e thymos. 2014 [p. impérios e estados-nações. 699). 710). 2005a. Como afirmado acima.e psicoimunológicos. A imunização é. A liberdade de buscar os próprios interesses precisa ser balanceada pela habilidade de doar recursos eróticos e thymóticos para o outro. a crise global é a única instituição capaz de redirecionar as forças psicodinâmicas de maneira colaborativa (1999. 985. Na política clássica. de modo que ele também se liberte (2005a. Seres humanos também dependem de recursos sócio. 90 a 110] . p. p. desviar o foco thymótico de base ressentida para o de superioridade generosa. a colaboração é restrita dentro das entidades políticas clássicas de tribos formais. Em vez de estratégias agressivas. A consequência de atitude tão generosa é que o outro não aparece mais como aquele que fora e que está em dívida. de vias colaborativas. É a crise global que pode elevar a consciência através das espumas de que a política clássica se tornou obsoleta (2009. p. coletivos estrangeiros são percebidos como ameaças para a imunização própria ou utilizados como local de descarga para qualquer elemento não Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. o único modo de lidar com a crise global é se empenhar em negociações sem fim nas quais forças eróticas e thymóticas são constantemente reequilibradas (1999. ano V. um privilégio exclusivo dos membros de uma específica entidade política. p. A segunda ecumenia põe o chão para uma nova percepção das necessidades imunológicas dos seres humanos. 412). cada ser humano precisa de abrigo para sobreviver. Na paleopolítica. 985. então. nº 3. O desafio é desviar o foco erótico da dominação de pessoas e territórios e da egoística acumulação de objetos para um modo de compartilhamento e fusão e. Em verdade. entretanto. essas necessidades nunca mudaram fundamentalmente. Com a expulsão do útero. 354). pode ser interpretada como continuação do altruísmo animal de práticas de criação e como a emergência do altruísmo cultural (2009. 224). p. 2005a. essa colaboração ocorre naturalmente. p.

embora o comunismo tenha se equivocado por um sem número de enganos. mas as dinâmicas thymóticas são contidas de modo que não provoquem confrontos destrutivos dentro de bolhas e espumas. É a essa luz que Sloterdijk extrapola o conceito de imunização para o de coimunização. navegando sob a estrela do universalismo abstrato. permite a ele resolver o impasse ontológico de forma antropológica. Já que a imunização da humanidade está agora ameaçada pela crise mundial. povoadas por pequenos números de pessoas e ar condicionadas por suas forças eróticas e thymóticas. 713). que só podem ser gerados por vias colaborativas. nº 3. a política clássica se torna tão obsoleta quanto a paleopolítica. Os membros dessas estruturas não são passageiros em um navio de tolos. A ideia básica de co-imunização é que seres humanos dependem de recursos bio-. a política e a polícia permitem a ele resumir os princípios governantes de comunidades universalizantes no conceito de co-imunização. A negação e a desconsideração do outro se mostram estratégias autodestrutivas. ele seguiu uma intuição válida. Ele argumenta que. cooperativas e ascéticas. 90 a 110] . os modos colaborativos de coexistência implicados pelo conceito de co-imunização precisam ser abastecidos pelo orgulho thymótico do doador Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo. Conclusão Sloterdijk proporciona a partir de seu conceito de espumas humanas uma visão inovadora da configuração espacial da comunidade universalizante. Ao enfatizar na história da humanidade e na emergência de entidades políticas cada vez mais complexas. Em verdade. Com o conceito de co-imunização. A negação do outro resulta automaticamente na redução da própria imunização. a pura base identitária da política mundial pode ser abandonada e substituída por uma abordagem não exclusivista. p. Complexas formas sociais de vida somente podem ser sustentadas por práticas universais. 2014 [p. eles são transformados em colaboradores responsáveis pela construção da arquitetura global da co-imunização (2009. Partir de um projeto de bolhas. A prosperidade das espumas humanas depende de macroestruturas de co-imunização. ano V.108 bem-vindo dentro do confinamento próprio. sócioe psico-imunológicos. A necessidade por identidades não é negada pelo conceito de co-imunização.

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