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VIDAS SECAS - Graciliano Ramos (Resumo

)
Resumo
O livro possui 13 capítulos que, por não terem uma linearidade temporal, podem
ser lidos em qualquer ordem. Porém, o primeiro, "Mudança", e o último, "Fuga",
devem ser lidos nessa sequência, pois apresentam uma ligação que fecha um ciclo.
"Mudança" narra as agruras da família sertaneja na caminhada impiedosa pela
aridez da caatinga, enquanto que em "Fuga" os retirantes partem da fazenda para
uma nova busca por condições mais favoráveis de vida. Assim, pode-se dizer que a
miséria em que as personagens vivem em Vidas Secas representa um ciclo. Quando
menos se espera, a situação se agrada e a família é obrigada a se mudar
novamente.
Fabiano é um homem rude, típico vaqueiro do sertão nordestino. Sem ter
frequentado a escola, não é um homem com o dom das palavras, e chega a ver a si
próprio como um animal às vezes. Empregado em uma fazenda, pensa na
brutalidade com que seu patrão o trata. Fabiano admira o dom que algumas
pessoas possuem com a palavra, mas assim como as palavras e as ideias o
seduziam, também cansavam-no.
Sem conseguir se comunicar direito com as pessoas, entra em apuros em um bar
com um soldado, que o desafiaram para um jogo de apostas. Irritado por perder o
jogo, o soldado provoca Fabiano o insultando de todas as formas. O pobre vaqueiro
aguenta tudo calado, pois não conseguia se defender. Até que por fim acaba
insultando a mãe do soldado e indo preso. Na cadeia pensa na família, em como
acabou naquela situação e acaba perdendo a cabeça, gritando com todos e
pensando na família como um peso a carregar.
Sinha Vitória é a esposa de Fabiano. Mulher cheia de fé e muito trabalhadora. Além
de cuidar dos filhos e da casa, ajudava o marido em seu trabalho também. Esperta,
sabia fazer contas e sempre avisava ao marido sobre os trapaceiros que tentavam
tirar vantagem da falta de conhecimento de Fabiano. Sonhava com um futuro
melhor para seus filhos e não se conformava com a miséria em que viviam. Seu
sonho era ter uma cama de fita de couro para dormir.
Nesse cenário de miséria e sem se darem muita conta do que acontecia a seu redor,
viviam os dois meninos. O mais novo via na figura do pai um exemplo. Já o mais
velho queria aprender sobre as palavras. Um dia ouviu a palavra "inferno" de
alguém e ficou intrigado com seu significado. Perguntou a Sinhá Vitória o que
significava, mas recebeu uma resposta vaga. Vai então perguntar a Fabiano, mas
esse o ignora. Volta a questionar sua mãe, mas ela fica brava com a insistência e lhe
dá um cascudo. Sem ter ninguém que o entenda e sacie sua dúvida, só consegue
buscar consolo na cadela Baleia.
Um dia a chuva chega (o "inverno") e ficam todos em casa ouvindo as histórias de
Fabiano. Histórias essas que ele nunca tinha vivido, feitos que ele nunca havia
realizado. Em meio a suas histórias inventadas, Fabiano pensava se as coisas iriam
melhorar dali então. Para o filho mais novo, as sombras projetadas pela fogueira no
escuro deixava o pai com um ar grotesco. Já o mais velho ouvia as histórias de
Fabiano com muita desconfiança.

que protestavam contra o sacrifício do pobre animal. Fabiano ficou embriagado e se sentia muito valente. sonha e age como se fosse gente. sacrificar a cadela. vendo os animais em estado de miséria. A cadela sentia o fim próximo e chega a querer morder Fabiano. E assim a vida vai passando para essa família sofredora do sertão nordestino. Pensa. mas não havia outra escolha. com o céu extremamente azul e nenhuma nuvem à vista. A cadela Baleia era uma imagem constante nos pensamentos confusos de Fabiano. Baleia morre sentindo dor e arrepios. é batalhadora e inconformada com a miséria em que vivem. Sinhá Vitória recolhe os filhos. só pensando em se vingar do soldado que lhe colocou atrás das grades. Mãe de 2 filhos. integrado à terra em que vivem. Lista de Personagens Baleia: cadela que é tratada como membro da família. Uma hora. com pelos caídos e feridas na boca. Apesar da raiva que sentia de Fabiano. O vaqueiro resolve. bebe muito e perde dinheiro no jogo. sem ter frequentado a escola. Fabiano decide que a hora de partir novamente havia chegado. Já o mais velho não tem interesse nessa vida sofrida do sertão e quer descobrir o sentido das palavras. Sinhá Vitória: mulher de Fabiano. acende uma piteira de barro e fica a sonhar com a cama de fitas de couro e um futuro melhor. e achou que ela pudesse estar doente. o via como um companheiro de muito tempo. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA . É esperta e sabe fazer conta. Filhos: o mais novo admira a figura do pai vaqueiro. ora se reconhece como um animal. ela toma coragem para fazer o que mais estava com vontade: encontra um cantinho e se abaixa para urinar. Patrão: fazendeiro desonesto que explorava seus empregados. então. faz de suas roupas um travesseiro e dorme no chão. Fabiano vê o estado em que se encontrava Baleia. Satisfeita. onde ela poderia caçar preás à vontade. recorrendo mais à mãe. O primeiro tiro acerta o traseiro de Baleia e a deixa com as patas inutilizadas. No que talvez seja o momento mais famoso do livro. Em meio ao nevoeiro e da visão de uma espécie de paraíso dos cachorros. não tem a capacidade de se comunicar bem e lamenta viver como um bicho. Fabiano: vaqueiro rude e sem instrução. contrata Fabiano para trabalhar. Em um dado momento. Ora reconhecese como um homem e sente orgulho de viver perante às adversidades do nordeste. Sinha Vitória estava cansada de cuidar do marido embriagado e ter que olhar as crianças também.O Natal chegou e a família inteira foi à festa da cidade. sempre prevenindo o marido sobre trapaceiros. Partiram de madrugada largando tudo como haviam encontrado. cansado de seu próprio teatro. Até que um dia. Sinhá Vitória tentava puxar conversa com o marido durante a caminhada e os dois seguiam fazendo planos para o futuro e pensando se existiria um destino melhor para seus filhos. Sempre a procura de emprego.

principalmente no plano da narrativa documental. Filhos . . somaram as suas desgraças e os seus pavores". Depois vieram "Angustia" (1936) e Vidas Secas (1938) inspirando-se em Machado de Assis. Estudou em Maceió." "A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas" "Resolvera de supetão aproveitá-lo (papagaio) como alimento. Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das relações sociais. Graciliano estreou em 1933 com "Caetés". a crise cafeeira. mas não cursou nenhuma faculdade. integrou-se no Partido Comunista Brasileiro. Em 1945. bebe muito e perde dinheiro no jogo. regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente. Sinhá Vitória . lutadora e inconformada com a miséria em que vivem. Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo." "Miudinhos. mais moderno que se marcaria pela rudeza. por uma linguagem mais brasileira. muito querido pelas crianças.. sofrida. por uma retomada do naturalismo. pela terra. trabalha muito na vida. a Revolução de 1930. cidade. Fabiano . temos também o romance nordestino. o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais "Correio da Manhã e A Tarde". um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Podemos justificar isto com passagens do texto: "Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. liberdade temática e rigor estilístico. Alagoas. tratado como gente.crianças pobres sofridas e que não tem noção da própria miséria que vivem. [Snippet not found: '/Quad_MDL_'] ESTUDO DOS PERSONAGENS Baleia . passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927. por um enfoque direto dos fatos.nordestino pobre. mas é São Berdado. [Snippet not found: '/Quad_FLEX_'] Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu "Memórias do Cárcere". perdidos no deserto queimado. estavam cansados e famintos.cadela da família. verdadeira obra prima da literatura brasileira. mãe de 2 filhos. o acelerado declínio do nordeste condicionaram um novo estilo ficcional. notadamente mais adulto.mulher de Fabiano. mais amadurecido..Os abalos sofridos pelo povo brasileiro em torno dos acontecimentos de 1930. a crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque. os fugitivos agarraram-se. ignorante que desesperadamente procura trabalho.

RESUMO DA OBRA Mudança Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino.Patrão . causandogrande alegria aos seus donos. Errando por caminhos incertos. Pensa na mulher e nos filhos. O menino mais velho. figuras Metáfora: " você é Prosopopéia: compara Baleia como gente indireto de um bicho. um papagaio. Baleia aparece com um preá entre os dentes. desigualdade. Haveria comida. Descendo ao bebedourodos animais. incapaz de prosseguir. seu pai. uma nuvem -sempre um sinal de esperança. ANÁLISE DAS IDÉIAS Comentário Crítico: Esse livro retrata fielmente a realidade brasileira não só da época em que o livro foi escrito.que lhe dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar.quatro pessoas e uma cachorrinha se arrastam numa peregrinaçãosilenciosa _ _ . livre linguagem: Fabiano". Surge a intenção de sefixar por ali. que forasacrificado na véspera a fim de aplacar a fome que se abatia sobreaquelas pessoas. exausto da caminhada sem fim. talvez porque convivesse com gente que também falava pouco _ _. A cadela Baleia acompanha o grupo de humanos agorasem a companhia do outro animal da família. o que nos remete a idéia de que o homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência.deita-se no chão. já escuro. seu Inácio (dono do bar). Fabiano e famíliaencontram uma fazenda completamente abandonada.contratou Fabiano para trabalhar em sua fazenda. o que irrita Fabiano. seca. Na verdade. miséria. que poucofalava.Compadecido da situação do pequeno. o que garante umrápido momento de felicidade ao grupo. ESTUDO DA LINGUAGEM Tipo de Foco narrativo: terceira pessoa discurso: Adjetivos. Fabiano consegue água. tornando a viagem ainda mais modorrenta _ . Outros personagens: o soldado. fome. novos ventos parecem soprar para a sua família. o pai toma-o nos braços ecarrega-o. mas como nos dias de hoje tais como injustiça social. Há uma alegria emseu coração. era um papagaio estranho. Pensa emSeu Tomás da bolandeira. A inesperada caça é preparada. Fabiano . era desonesto e explorava os empregados. No céu. em meio à lama.

quando da chegada àquela fazenda. Seu Tomás da bolandeira. encara o vaqueiro e barra-lhea passagem. tentando contornar a situação àsua maneira. Osdois acabam perdendo. A uma pergunta de um dos filhos. Fabiano éempurrado. quandoas coisas melhorassem. Fabiano Em vão Fabiano procura por uma raposa. tomando conta do local. provocador. Destacamento à sua volta. Apesar dofracasso da empreitada. mas a dificuldade de engendrarum plano o atormentava. nãoacabara como todo mundo? As palavras. Pensou em Sinha Vitória e seu desejo de possuir uma cama igualà de Seu Tomás da bolandeira. Pensa na situação dafamília. o que irrita o soldado. errante. ele está satisfeito. agora com uma conotaçãonegativa. importante era sobreviver. Será o dono dela. Fabiano se orgulha de vencer as dificuldadestal qual um bicho. admirava e tentava imitar a fala difícil daspessoas da cidade. Enquanto as coisas nãomelhorassem. falaria com Sinha Vitória sobre a educação dos pequenos. agüenta os insultos até o possível. não levaria para casa o prometido.apesar de admirado por Fabiano pelas suas palavras difíceis. A vida melhorará para todos _ . Injuriado com a qualidade do querosene ecom o preço da chita. era uma situação triste.Essas coisas de pensamento não levavam a nada.deseja estabelecer-se naquelafazenda. agora. terminando por xingara mãe do soldado amarelo. Naverdade. que logo aparecera e reclamara a posse do local. um soldado amarelo convida-o para um jogo de cartas. eles poderiam se dar ao luxo daquelas coisas depensar. Pisa no pé de Fabiano que. O soldado. A solução foificar por ali mesmo. Cadeia Fabiano vai à feira comprar mantimentos.pensava em como enganar Sinha Vitória. Sentiu-se confuso. Sentiu-se novamente um animal. que provoca Fabianoquando esse está de partida. por vezes. humilhado publicamente. Fabiano. A fazenda aparentemente abandonada tinha umdono. as idéias. Por ora. Eles não poderiam ter esse luxo. achou que.Estavam bem agora _ _ . Agora ele era um vaqueiro. A idéia do jogo havia sido desastrosa.Perdera dinheiro. típica de quem não tem nada e viveerrante. servindo ao patrão. passando fome. Fabiano irrita-se. Pouco falava. . querosene eum corte de chita vermelha. apesar de não ter umlugar próprio para morar. Nisso. Cadeia. ímpeto de lutador e fraquezade derrotado. Era um forte ou um fraco. Era um bicho _ .Para que perguntar as coisas? Conversaria com Sinha Vitória sobre isso. Pensou na brutalidade do patrão. seduziam e cansavamFabiano. resolve beber um pouco de pinga na bodega de seuInácio. novamente. Lembrando dos meninos.cambembes que eram. a tratá-lo como umtraste. umhomem ou um bicho _ ? Sentia.

Lá fora. Não fizera nada. Fabiano. O Menino mais novo A imagem altiva do pai foi que lhe fez surgir aidéia. Se não fosse SinhaVitória e as crianças.No xadrez. Olhou de novo para seus pés e inevitavelmente achou Fabianomau _ . já teria feito uma besteira por ali mesmo. A comparação machucou-a _. com medo de serridicularizado. Por pensar aindana cama e na comparação maldosa de Fabiano. fazia suas tarefasem meio a reza e a atenção ao que acontecia lá fora. seguro. sentiu a família como um peso a carregar _. protestou inocência _ . armado como vaqueiro. como a de Seu Tomás dabolandeira.Dentro de casa. No fundo. manca. o pequeno tomou o bode como alvo desua ação.Quando deixaria que um soldadinho daqueles o humilhasse tanto?Arquitetou vinganças. Queria uma cama de lastro de couro. Sinha Vitória Naquele dia. Veio-lhe a lembrança do bebedouro em que só havia lama. pensa por que havia acontecido tudoaquilo com ele. Quando as cabras foram ao bebedouro. Falara pelamanhã.Só faltava uma cama. os meninos brincavam em meio à sujeira. domava a égua brava com o auxíliode Sinha Vitória. O espetáculo grosseiro excitava o menor dos garotos. apesar detoda a dificuldade. ela irritava-se com o ronco de Fabiano aolembrar-se de suas palavras. Amolou-se com o bêbado e com aquenga que estavam em outra cela. Sinha Vitória certa vez ouviu Fabianodizer-lhe que ela ficava ridícula naqueles sapatos de verniz. Havia um ano que discutia com o marido a necessidadede uma cama decente e. Medoda seca. com Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquelacama. mais uma vez. como a de pessoas normais. Para tanto. acordou disposto a imitar a façanha do pai. Em meio a rudes indagações. gritou com os outros presos e. trôpega.acalmou-se. levadas pelomenino mais velho e por Baleia. Agora. enfureceu-se. quiscomunicar a intenção ao mano. em meio a uma briga por causa das"extravagâncias" de cada um. Fabiano roncava forte.caminhando como um papagaio. quase esqueceu de pôr águana comida. Pensou na família. No diaseguinte. A noitemal dormida na cama de varas era o motivo de sua zanga. Sinha Vitória amanhecera brava. A seca deveriaestar longe _ . no meio de suaincompreensão com os fatos. o que indicava a SinhaVitória que não deveria haver perigo algum por ali.impressionado com a façanha do pai e disposto a fazer algo que tambémimpressionasse o irmão mais velho e a cachorra Baleia _ . Pensou no papagaio e sentiu pena dele _ . agora. Lembrou-se de como haviam sofrido em suas andanças. mas evitou. pareciam mais estáveis. As coisas. se quisesse até bateria no mirradoamarelo. até mesmo Fabiano queria uma cama nova. Circulando pela casa. Sentia-se altivo como . mas ficara quieto.

cheio de jararacas e pessoas levandocascudos e pancadas com a bainha da faca _ . O Menino mais velho Aquela palavra tinha chamado a sua atenção: inferno.de feitos que ele nunca tinha realizado. A chuva dava à família a certeza de que a seca nãochegaria por enquanto. Chegara o inverno. Em meio à narrativa empolgada. indagou se ela já tinha visto oinferno. estranho. Baleia fez-lhe companhiatentando alegrá-lo naquela hora difícil. porém. e isso reunia a família próxima àfogueira. A chuva tinha vindo em boa hora. e osmeninos. aventuras nunca vividas. Só Baleia era sua amiga naquele momento. Deveria ser. Fatalmente seriarepreendido pelos pais.praticando um involuntário salto mortal que o deixou. vaga na resposta. procurandoaplacar o frio causado pelo vento e pela água que agitava a paisagemfora da casa. Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. alimentando a raivosacerteza de que seria grande. queusara aquela palavra na véspera. tonto.sim. Sempre intrigado. decidira que. foi repreendidoseveramente pelo pai. Inverno Todos estavam reunidos em volta do fogo.Fabiano quando montava. que oignorou.abraçou-se à Baleia como refúgio _ .temia por uma inundação que os fizesse subir ao morro. A chegada das águas interromperaaqueles planos sinistros. tentou se aprumar mas foi sacudido impiedosamente. Após a humilhação nacidade. fumariacigarros e faria coisas que deixariam Baleia e o irmão admirados. ampliava sua invasão. O irmão mais velho ria sem parar do ridículo espetáculo. novamenteerrantes. lá fora. Na volta à Sinha Vitória. ogaroto despencou da ribanceira sobre o animal. com a chegada da seca. estateladoao chão. maravilhando o ouvido atento do garotomais velho. aborrecido pela interrupção de sua narrativa. Comopoderiam existir estrelas? Pensou novamente no inferno. Isso alegrava Fabiano. um lugar ruim e perigoso.Perguntou à Sinha Vitória. No bebedouro. Por que tantazanga com uma palavra tão bonita ? A culpa era de Sinha Terta.Baleia parecia desaprovar toda aquela loucura _ . A água. Fabiano empolgava-se mais ainda em contar suasfaçanhas _ . Decidiu contar à cachorrinha uma história. deitados. Perguntou a Fabiano. abandonaria a família epartiria para a vingança contra o soldado amarelo e demais autoridadesque lhe atravessassem o caminho. quase igual ao do papagaio que morrerana viagem _ . Pai e mãe conversavam daquele jeito de sempre. usaria roupas de vaqueiro.Quando o mais velho levantou-se para buscar mais lenha. . Levou um cascudo e fugiu indignado. Sinha Vitória. Retirou-se humilhado. ficavam ouvindo as histórias inventadas por Fabiano. mas o seuvocabulário era muito restrito. que o repeliu.Insistente.

Os demais fizeram o mesmo. aflita.não podia deixar o marido naquele estado. A caminhada longa tornava-seainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. No meio da multidão.Fabianoimaginava que as coisas melhorariam a partir dali. provocava uminimigo imaginário _ . fezdas suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente. Omal-estar era geral. até que Fabiano cansou-se da situação e tirou ossapatos. Tomando coragem para realizaro que mais queria naquele momento. livrando-se ainda do paletó e dagravata que o sufocava. encantou-os mais ainda. foram todos lavar-se à beira deum riacho antes de se integrarem à festa. Chegando à cidade.assustados. Voltaram ao seunatural. Lembrou-se da humilhação imposta pelo soldado amarelo quandoestivera pela última vez na cidade.procurava sossego naquela paisagem interior. a alteração feita por Fabiano na história quecontava era motivo de desconfiança. Baleia juntou-se ao grupo _ . Queria bater em alguém. gritava. . pitou num cachimbo de barro pensando numa cama igual à deseu Tomas da bolandeira . Sempre pensativo. Para o filho mais novo. Cansado do seu próprio teatro. A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e asbarracas de jogos. SinhaVitória até pudesse ter a cama tão desejada. Sinha Vitória carregava umguarda-chuva. Baleia. incomodada com a arenga de Fabiano. Ninguém na cidadeera bom. interrompia suas imprecações para uma confusareflexão. com as imagens nosaltares. o menino mais velho dormiu pensando nafalha do pai e nos sapos que estariam lá fora. Os meninos maravilham-se. metendo as meias no bolso. para completar o momento desatisfação. Como Sinha Vitória negou-lhe uma aposta no bozó.sentindo-se cercado de inimigos. o escuro e as sombrasgeradas pela fogueira faziam da imagem do pai algo grotesco. tinha que olhar os meninos. Queria esganá-lo. num traje pouco comum às suasfiguras. Sentia-se mangado por aquelas pessoasque o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Fabiano deitou no chão. foificando valente. com raiva.Fabiano afastou-se da família e foi beber pinga _ . com tantas luzes e gente.ouvindo o barulho de fora _ . Vez ou outra. Imaginava. A igreja. Embriagando-se. Algo não cheirava bem naqueleenredo _ . O pai espremia-se no meio da multidão. Todosvestidos com suas melhores roupas. Festa A família foi à festa de Natal na cidade. discretamente esgueirou-se para umaesquina e ali mesmo urinou. quem sabe. Em seguida. por onde andava o soldadoamarelo. Sinha Vitória. exagerado. o que lhes dava um ar ridículo. Queria dormir em paz. poderia matar se fosse ocaso _ . Fabiano marchava teso.Para o mais velho. no frio.

Em meio à agonia.mostrou-lhe outros números. Se ele desconfiava.desconfiados. lá fora. com a produção escassa. o jogo estratégico da caça e docaçador. agora. Baleia Pêlos caídos. Sinha Vitória lutava com os pequenos.Os meninos também estavam aflitos. lamentou o fato de que ele não tivesse esperado mais paraconfirmar a doença da cachorrinha. explicava ooutro. que pegou o traseiro da cachorra e inutilizou-lhe uma perna. Fabiano reclamou. sempre tinha a sensação de que havia sido enganado. aos pequenos. pensando mesmo queSinha Vitória era quem errara. mais uma vez Fabiano pedira a SinhaVitória para que ela fizesse as contas. Sono. Baleia sumira naconfusão de pessoas. havia engano. tentava esconder-se e até desejoumorder Fabiano.Fabiano. Restava. Ao primeiro tiro. Os juros causavam a diferença. tentando sair ao terreiro para impedira trágica atitude do pai. Um nevoeiro turvava a visão da cachorrinha. O patrão. porqueaquilo era necessário. Contas Fabiano retirava para si parte do que rendiam oscabritos e os bezerros. não conseguia dinheiro e endividava-se. a fim de evitar-lhes a cena. . Como os homens poderiam guardartantas palavras para nomear as coisas _ ? Distante de tudo. a cachorrinha surge derepente e acaba com a tensão. Resolveu sacrificá-la. tinha raiva de Fabiano. Amorte estava chegando para Baleia. O menor perguntou ao maisvelho se tudo aquilo tinha sido feito por gente. novamente. Baleia sentia o fim próximo. Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos. que fosse procurar outro emprego. A vigilância às cabras. Sinha Vitória e as crianças surgiam à Baleia em meio a umainundação de preás que invadiam a cozinha _ . havia umcheiro bom de preás. Naquele dia. Fabiano pediu desculpas e saiu arrasado.Submisso. Sinha Vitória recolheu os meninos. e aí foi o patrãoquem estrilou. Para alívio dos pequenos. mas aos primeiros movimentos do marido para aexecução. Ao longo dotempo. A dúvida do maior erase todas aquelas coisas teriam nome. Começou. Dores e arrepios.por isso os meninos protestaram. Na hora de fazer o acerto de contas com opatrão. sim senhor. mastambém o via como o companheiro de muito tempo. as crianças começaram a chorar desesperadamente. omaravilhamento com tudo de novo que viam. feridas na boca e inchaço nos beiçosdebilitaram Baleia de tal modo que Fabiano achou que ela estivesse comraiva. e o medo de que ela se perdesse e não maisvoltasse era grande. Baleia era considerada como um membro da família.

Sinha Vitória é que entendia seus pensamentos. depara-se com o soldado amarelo que ohumilhara um ano atrás _ . Pensou na dificuldade de sua vida. Mas não podia! Seu destino eratrabalhar para os outros. O Soldado Amarelo Procurando uma égua fugida.Na rua. Fabiano irritou-se com a cena. Contou e recontou o dinheiro com raiva de todas aquelaspessoas da cidade. Fabiano quis ignorar. Afragilidade do outro aos poucos foi aplacando a raiva de Fabiano. o soldado ganhouforça. o céu. . Poderia matá-lo com as mãos. Fabiano tirou o chapéu numareverência e ainda ensinou o caminho ao amarelo.Era sempre assim: bastavam palavras difíceis para lograr os menosespertos. As notas em sua mão impressionavam-no.O soldado claramente tremia de medo.palavra difícil que os homens usavam quando queriam enganar os outros. Avançou firme e perguntou o caminho. O Mundo Coberto de Penas A invasão daquele bando de aves denunciava a chegadada seca. para que arruinar a sua vidamatando uma autoridade? Guardaria forças para inimigo maior. O suficiente para que Fabiano esfolasse o inimigo. Ela era ummembro da família. Naverdade. Teve vontade de entrar na bodega de seu Inácio etomar uma pinga.começou a cortar as quipás e palmatórias que impediam o prosseguimentoda busca.Ponderou que ele mesmo poderia ter evitado a noite na cadeia se nãotivesse xingado a mãe do amarelo. e se ele pedisse passagem ao soldado? Aproximou-sedo outro pensando que já tinha sido mais valente. Deixou de lado a lembrança dosinimigos e pensou na família. voltou-lhe a raiva. pego emflagrante. mais ousado. Facão em punho. Também reconhecera o desafetoantigo e pressentia o perigo. Roubavam a água do gado. O outro era umnadica. Fabiano meteu-se por umavereda e teve o cabresto embaraçado na vegetação local. várias estrelas. Sentindo o inimigo acovardado. se quisesse. Bom seria sepudesse largar aquela exploração. O cruzar de olhos e o reconhecimento duroufração de segundos. matariam bois e cabras. Lembrou-se do dia em quefora vender um porco na cidade e o fiscal da prefeitura exigira opagamento do imposto sobre a venda. Fabiano desconversou e disse quenão iria mais vender o animal. Sentiu dó da cachorra Baleia. Foi a uma outra rua negociar e. só os dois. "Juros". Lembrou-se da humilhação passada ali mesmo e decidiuir para casa. No meio daquela paisagem isolada ehostil. sem armas. na fração de segundo interminável Fabiano ia descobrindo-seamedrontado. Nesse momento. assim como fora com seu pai e seu avô. decidiu nunca mais criar porcos _ . Se ele era um homem de bem. Sinha Vitóriainquietou-se.

no fundo. Chegou um ponto em que. Fabiano. Até uma cama poderiam arranjar. dos animais. Novamente marido emulher conversavam. só sobrouum bezerro.. fazendo planos. temendo o mau agouro das aves quevoavam no céu. matandoo gado. Fabiano tinha certeza. Mas o céu escuro de arribações sóconfirmava a triste situação _ . com uma nova ocupação paraele.. que foramrespondidas no mesmo nível de atrapalhação. quem sabe comendo-os.Lembrou-se de Baleia. tentou se convencer de que não fizera errado emmatá-la. seis delas. agüentatambém.Eram muitas. tocando a ele e à família dali. a mulher tinha razão. talvez. agora. O cansaço ia chegando à medida que avançava acaminhada. Marido e mulher elogiam-se mutuamente. A vermelhidão do céu. Na verdade. matou mais e mais aves. não queria partir. Sim. ela. tem pernas grossas e nádegas volumosas.Era sempre uma esperança. O grupo era o mesmo que erravacomo das outras vezes. Sinha Vitória também fraquejava. A cidade.Caminhou até o bebedouro. saberia entender a urgência dos fatos. mas erammuitas. longe dali. onde as aves confirmavam o anúncio da seca.mas não pôde. era necessário ir embora daquele lugar maldito _ . precisava falar _. O que seriam quando crescessem? Sinha Vitória não queria quefossem vaqueiros. fosse melhor. Baleia era uma imagem constante em seus confusospensamentos. de uma nova peregrinação.Serviriam de comida. Elas cobriam o mundo de penas. umanova fuga.Sinha Vitória era inteligente. O caminho era o do sul. despertavam especulações aocasal. pensou de novo na família e no que as arribaçõesrepresentavam. agüentacaminhar léguas. um fraco. Aquele lugar não era bom de se viver. longe. abandonando tudo comoencontraram. Aproximou-se do marido e disse coisas desconexas.quem sabe a vida fosse melhor. mas até quando ? Quem sabe a seca nãochegasse. . pensava com raiva no soldadoamarelo. as últimas arribações e os animaisem estado de miséria indicavam a Fabiano que a permanência naquelafazenda estava esgotada. Partiram de madrugada.Por que haveriam de viver sempre como bichos fugidos _ ? Os meninos. Fuga O céu muito azul. Ela tentou animar o marido. Um tiro de espingarda eliminou cinco. achava-se um covarde. elegostou que ela tivesse puxado conversa. Recolheu os cadáveres das aves e sentiu uma confusãode imagens em sua cabeça. ele é forte. que foi morto para servir de comida na viagem que se fariano dia seguinte. Queria. e assim houve uma parada para descanso. Era só desgraça atrás de desgraça. o azul que viria depoisassustavam Fabiano _ . Sempre fugido. Irado. Fabiano não se conformava.sempre pequeno. mas ascircunstâncias convenciam-no da necessidade.

Sinha Vitória acordou os pequenos.shtml .distante do sertão a formar homens brutos e fortes como eles. deveria haveria uma nova terra.com.br/articles/270/1/VIDAS-SECAS---Graciliano-RamosResumo/Paacutegina1.html http://guiadoestudante.com. Fabiano ainda admirou a vitalidade da mulher. Sinha Vitória falava e estimulavaFabiano. a cada passo arrastado do grupo um mundo de novasperspectivas ia sendo criado. cheia de oportunidades. http://www. Eraforte mesmo! Assim.br/estudar/literatura/vidas-secas-resumo-obra-gracilianoramos-702011. eseguiu-se viagem. Sim. que dormiam.mundovestibular.abril.

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