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MARX, K.

O Capital: crítica da economia política: livro I: o processo de produção do
capital. [Tradução de Rubens Enderle]. – São Paulo: Boitempo, 2013.
Sem dúvida deve-se distinguir o modo de exposição segundo sua forma, do modo de
investigação. A investigação tem de se apropriar da matéria em seus detalhes, analisar
suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois
de consumado tal trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Se
isso é realizado com sucesso, e se a vida da matéria é agora refletida idealmente, o
observador pode ter a impressão de uma construção a priori. (MARX, 2013, p. 90) –
Posfácio da segunda edição.
Valor, valor de uso e valor de troca
A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Mas essa utilidade não flutua no ar.
Condicionada pelas propriedades dos corpos das mercadorias, como ferro, trigo,
diamante etc., é um valor de uso ou um bem. Esse seu caráter não depende do fato de a
apropriação de suas qualidades úteis custar muito ou pouco trabalho aos homens. Na
consideração do valor de uso será pressuposto sempre sua determinidade quantitativa,
como uma dúzia de relógios, 1 braço de linho, 1 tonelada de ferro etc. [...] Os valores de
uso formam o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social desta. Na
forma de sociedade que iremos analisar, eles constituem, ao mesmo tempo, os suportes
materiais do valor de troca. (MARX, 2013, p. 114).
Como valores de uso, as mercadorias são, antes de tudo, de diferentes qualidades; como
valores de troca, elas podem ser apenas de quantidade diferente, sem conter, portanto,
nenhum átomo de valor uso. (MARX, 2013, p. 116).
Consideramos agora o resíduo dos produtos do trabalho. Deles não restou mais do que
uma mesma objetividade fantasmagórica, uma simples geleia de trabalho humano
indiferenciado, i. e, de dispêndio de força de trabalho humana, foi acumulado trabalho
humano. Como cristais dessa substância social que lhes é comum, elas são valores –
valores de mercadoria. (MARX, 2013, p. 116).
TTSN - Tempo de trabalho socialmente necessário é aquele requerido para produzir um
valor de uso qualquer sob as condições normais para uma dada sociedade e com o grau
social médio de destreza e intensidade do trabalho. (MARX, 2013, p. 117).

O produto do trabalho é. 137). p. por isso. em todas as condições sociais.na qual o valor é expresso – imediata e exclusivamente como valor de troca. sendo a primeira – cujo valor deve ser expresso – considerada imediata e exclusivamente valor de uso. p. (MARX. satisfaz sua própria necessidade. p. mas não mercadoria. (MARX. . 136). mas sempre apenas na relação de valor ou de troca com uma segunda mercadoria de outro tipo. não conta como trabalho e não cria. por meio de uma oposição externa. p. Ela se apresenta em seu ser duplo na medida em que seu valor possui uma forma de manifestação própria. A oposição interna entre valor de uso e valor. a terra virgem. a saber. A mercadoria é valor de uso – ou objeto de uso – e ‘valor’. a forma simples de manifestação da oposição nela contida entre valor de uso e valor. uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. também o é o trabalho nela contido. isso estava. objeto de uso. mas valor de uso para outrem. no começo deste capítulo. 2013. a massa dos valores de uso por ele produzida. é representada. cria certamente valor de uso. como seu valor. isto é. 2013. A mesma variação da força produtiva. com isso.. por meio de seu produto. A forma de valor simples de uma mercadoria é. Quando. dizíamos. [.] Por último. 119). contida na mercadoria. e a segunda . nenhuma coisa pode ser valor sem ser objeto de uso.Sem valor . (MARX. 2013. errado. 2013. os campos naturais. 123). 2013. pela relação entre duas mercadorias. É esse o caso quando sua utilidade para o homem não é mediada pelo trabalho. Quem. assim. E vice-versa. portanto. isto é. para ser exato. 137). ele tem de produzir não apenas valor de uso. a madeira bruta etc. (MARX. distinta de sua forma natural. que aumenta a fertilidade do trabalho e. e ela jamais possui essa forma quando considerada de modo isolado. que a mercadoria é valor de uso e valor de troca. nenhum valor.Uma coisa pode ser valor de uso sem ser valor. (MARX.. Para produzir mercadoria. Assim é o ar. diminui a grandeza de valor dessa massa total aumentada ao reduzir a quantidade de tempo de trabalho necessário à sua produção. mas o produto do trabalho só é transformado em mercadoria numa época historicamente determinada de desenvolvimento: uma época em que o trabalho despendido na produção de uma coisa útil se apresenta como sua qualidade ‘objetiva’. Se ela é inútil. a forma do valor de troca. p. valor de uso social. como quem expressa um lugar-comum.

ele funciona como medida universal de valores. 2013. A possibilidade de uma incongruência quantitativa entre preço e grandeza de valor. ao mesmo tempo. Isso não é nenhum defeito dessa forma. ou o desvio do preço em relação a grandeza de valor. inicialmente. mas pode abrigar uma contradição qualitativa. como a consciência. que não tem valor porque nele . Na testa do valor não está escrito o que ele é. 142). e sua forma de valor. A expressão do preço se torna aqui imaginária tal como grandezas da matemática. Dinheiro A primeira função do ouro é de fornecer ao mundo das mercadorias o material de sua expressão de valor ou de representar os valores das mercadorias como grandezas de mesmo denominador. torna-se. ao contrário. tem de ser uma forma socialmente válida. por ser a mera ‘existência social’ dessas coisas. Com isso. (MARX. Desse modo. Por outro lado. 149). Assim. por isso. qualitativamente iguais e quantitativamente comparáveis. todas as outras expressam seu valor no mesmo equivalente. entre grandeza de valor e sua própria expressão monetária. a mercadoria-equivalente específica. como obra conjunta do mundo das mercadorias. (MARX. ao contrário. p. reside. de modo que uma coisa pode formalmente ter um preço mesmo sem ter valor. mediante seu preço. 169). revela-se que a objetividade do valor das mercadorias. 2013. sendo apenas por meio dessa função que o ouro. p. assumir a forma-mercadoria. portanto. aquilo que faz dela a forma adequada a um modo de produção em que a regra só se pode impor como a lei média do desregramento que se aplica cegamente. coisas que em si mesmas não são mercadorias. Uma mercadoria só ganha expressão universal de valor porque. dinheiro. mas. na própria formapreço. também só pode ser expressa por sua relação social universal. (MARX. p. isto é. 2013. 177). a honra etc. também a formapreço imaginária – como o preço do solo não cultivado. de modo que o preço deixe absolutamente de ser expressão do valor. e cada novo tipo de mercadoria que surge tem de fazer o mesmo. (MARX. embora o dinheiro não seja mais do que a forma de valor das mercadorias. Mas a forma-preço permite não só a possibilidade de uma incongruência quantitativa entre grandezas de valor e preço.A forma universal do valor só surge. 2013. podem ser compradas de seus possuidores com dinheiro e. p.

p. o próprio valor de troca. p. lança sempre o dinheiro de novo em circulação. 2013. mais inteligente. o valor de uso -. parte do extremo do dinheiro e retorna. que. 149). portanto. Desse modo. . e é somente enquanto a apropriação crescente da riqueza abstrata é o único motivo de suas operações que ele funciona como capitalista ou como capital personificado. 195). por exemplo. O conteúdo objetivo daquela circulação – a valorização do valor – é sua finalidade subjetiva.nenhum trabalho humano está objetivado -. Sua força motriz e fim ultimo é. por outro. mas apenas o incessante movimento do lucro. (MARX. é. (MARX. tampouco pode sê-lo o lucro isolado. A quantidade total de dinheiro que funciona como meio de circulação em cada período é. por um lado. Assim. (MARX. abriga uma relação efetiva de valor ou uma relação dela derivada. 177). O consumo. Ciclo de reprodução O ciclo M-D-M parte do extremo de uma mercadoria e conclui-se com o consumo. 181). objetivo que o entesourador procura atingir conservando seu dinheiro fora da circulação. p. o valor de uso jamais pode ser considerado como finalidade imediata do capitalista. 2013. desse modo. pela soma dos preços do mundo das mercadorias em circulação e. O ciclo D-M-D. 226). a satisfação de necessidades – em suma. por fimi. assim. 2013. 2013. p. determinada. É. mas. dotado de vontade e consciência. essa caça apaixonada ao valor é comum ao capitalista e ao entesourador. p. 229). é atingido pelo capitalista. (MARX. ao mesmo tempo. enquanto o entesourador é apenas o capitalista ensandecido. O aumento incessante do valor. p. 2013. uma contradição o fato de que um corpo seja atraído por outro e. seu fim ultimo. (MARX. afaste-se dele constantemente. o preço da mercadoria é apenas a denominação monetária da quantidade trabalho social nela objetivado. Esse impulso absoluto de enriquecimento. (MARX. ao mesmo extremo. pelo fluxo mais lento ou mais rápido de seus processos antitéticos de circulação. ao contrário. 2013. o capitalista é o entesourador racional. A elipse é uma das formas de movimento em que essa contradição tanto se realiza quanto se resolve.

mas esse desvio tem de ser considerado como uma infração da lei da troca de mercadorias. chegaremos a estas duas proposições: capital é dinheiro. Onde há igualdade não há lucro – é verdade que as mercadorias podem ser vendidas por preços que não correspondem a seus valores. ela é uma troca de equivalentes. p. e livre em dois sentidos: de ser uma pessoa livre. portanto. (MARX. 2013. portanto. (MARX. mas apenas a repartição. 240). em sua forma pura. Em sua forma pura. Ocorre que. é evidente que cada uma das partes não extrai da circulação mais valor do que nela lançou inicialmente. Em um exemplo que mostra a repartição do mais valor entre capitalistas produtores de uma mesma mercadoria. o capital não pode ter origem na circulação. (MARX. . p. ao mesmo tempo. 2013. (MARX. livre e solto. Não há. Por isso. que dispõe de sua força de trabalho como sua mercadoria. equivalentes. 234). de encontrar no mercado de mercadorias o trabalhador livre. (MARX. capital é mercadoria. 230). p. Mas as coisas não se passam com tal pureza na realidade. 235). Se são trocadas mercadorias. 2013. ter origem nela. 2013. Ele tem de ter origem nela e. sem aumentar a taxa de mais-valor. então. criação de mais valor. na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento sempre que produz valores de uso de qualquer tipo. p.Ora. tampouco pode não ter origem na circulação. o processo de circulação de mercadorias exige a troca de equivalentes. Para transformar dinheiro em capital. se tomarmos as formas particulares de manifestação do valor que se autovaloriza assume sucessivamente no decorrer de sua vida. o possuidor de dinheiro tem. Portanto. admitamos uma troca de não equivalentes. e de. 2013. por outro lado. ou mercadorias e dinheiro do mesmo valor de troca. Força de trabalho Por força de trabalho ou capacidade de trabalho entendemos o complexo das capacidades físicas e mentais que existem na corporeidade. não um meio para o aumento do valor. 238. p. p. ser alguém que não tem outra mercadoria para vender. 242).

. o individuo vivo necessita de certa quantidade de meios de subsistência. o tempo de trabalho necessário à produção da força de trabalho corresponde ao tempo de trabalho necessário à produção desses meios de subsistência. A força de trabalho existe apenas com disposição do individuo vivo. (MARX. 2013. confiante e ávido por negócios. A quantidade dos meios de subsistências necessários à produção da força de trabalho inclui. o segundo. O primeiro. a produção da força de trabalho consiste em sua própria reprodução ou manutenção. como o de todas as outras mercadorias é determinado pelo tempo de trabalho necessário para a produção – e consequentemente também para a reprodução – desse artigo específico. a existência dele. A sua produção pressupõe. agora. p. (MARX. Como valor. ou. com um ar de importância. p. 2013. O valor da força de trabalho. e o possuidor de dinheiro se apresenta agora como capitalista. de seus filhos. dito de outro modo. p. 2013. de modo que essa peculiar raça de possuidores de mercadorias possa se perpetuar no mercado. tímido e hesitante. 245). Assim. o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção de seu possuidor. a força de trabalho representa apenas uma quantidade determinada do trabalho social médio nela objetivado. despela. . 244). portanto. (MARX. e o possuidor de força de trabalho. portanto. 246). os meios de subsistência dos substitutos dos trabalhadores. O antigo possuidor de dinheiro se apresenta agora como capitalista. (MARX. Dada a existência do individuo. Para a sua manutenção. 2013. como alguém que trouxe sua própria pele ao mercado e. 251).. não tem mais nada a esperar além da. isto é. p. como trabalhador.carecendo absolutamente de todas as coisas necessárias à realização de sua força de trabalho.