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0 verão de 1914 teve o início mais glorioso de que os europeus eram
capazes de se lembrar. Nos bastidores, porém, nascia de forma inexorável
a mais destrutiva das guerras que o mundo já conhecera até então — uma
guerra cujas consequências continuam a influenciar o mundo do século XXI.
A questão de como começou a Primeira Guerra Mundial vem intrigando
historiadores há várias décadas. Muitos citam como motivo para o conflito
o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando; outros chegaram à
conclusão de que ninguém foi responsável. Mas David Fromkin — cujo
relato está baseado nas mais recentes pesquisas — dá uma resposta
diferente a essa pergunta. Ele deixa claro que a hecatombe que iria
dilacerar o continente foi iniciada de maneira deliberada.
Em uma narrativa fascinante que traz paralelos assustadores com os acon­
tecimentos de nossa própria época, Fromkin mostra que não foi travada
apenas uma guerra, mas duas, e que a primeira serviu de pretexto para a
segunda. Abordando de forma esclarecedora temas atuais como guerra
preventiva e terrorismo, o autor descreve em detalhes as negociações e
traça retratos incisivos dos diplomatas, generais e líderes protagonistas do
conflito: o cáiser alemão, o tsar da Rússia, o primeiro-ministro britânico. E
revela como e por que as iniciativas diplomáticas que tentaram evitá-lo
estavam fadadas ao fracasso.

“Alia um estilo direto e arrebatador a um impressionante domínio
de fontes antigas e novas.

P u b l i s h e r s We e kl y

“A clareza e ousadia da tese de Fromkin já são suficientes para
justificar o interesse do leitor, mas a fluidez de sua narrativa
certamente conquistará para seu livro um público mais amplo.

Booklist

“0 céu de onde despencou a Europa
não estava vazio; ao contrário, esta­
va carregado de processos e poderes.
As forças que iriam dilacerá-lo
nacionalismo, socialismo, imperialis­
mo e afins estavam havia muito
em movimento. 0 mundo europeu já
vinha sendo assaltado por ventos de
grande altitude. Havia muito navega­
va em céus perigosos. 0 comandante
e a equipagem o sabiam. Mas os pas­
sageiros, pegos completamente de
surpresa, ficaram se perguntando in­
sistentemente: por que não receberam
nenhum aviso?”

Escrito pelo conceituado historiador
norte-americano David Fromkin — autor
do grande sucesso A Peace to End AU
Peace (Uma Paz para Pôr Fim a Toda
Paz), sobre a génese do Oriente Médio
moderno —, O Último Verão Europeu é
uma ousada e extremamente bem docu­
mentada reavaliação das causas da Pri­
meira Guerra Mundial de 1914-1918.
Sob muitos aspectos, as décadas que pre­
cederam a Grande Guerra foram bastante
parecidas com a nossa própria época:
Ium período de conferências sobre desar­
mamento, "^bnlhíirnn dn nrnna*—

O arquiduque Francisco Ferdinando e sua família

Vista aérea de Sarajevo em 1914

O arquiduque e a duquesa começam o dia em Sarajevo, 28 de junho de 1914.

O cenário da primeira tentativa de assassinato

O casal real deixa a prefeitura.

A prisão de
Gavrilo Princip

Imperador Francisco José I .

dos Estados Unidos Coronel Edward House.Presidente Woodrow Wilson e secretário de Estado William Jennings Bryan. enviado diplomático de Wilson .

Nicola Pasic .Primeiro-ministro sérvio.

Conrad von Hõtzendorf .O líder do Exército austro-húngaro.

Herbert Asquith .Conde von Berchtold. ministro das Relações Exteriores da Áustria Primeiro-ministro britânico.

Sir Edward Grey. ministro das Finanças . secretário britânico das Relações Exteriores David Lloyd George.

Winston Churchill. primeiro lorde do Almirantado Serge Sazonov. ministro das Relações Exteriores da Rússia .

O tsar Nicolau II e o presidente francês. o rei George V e o presidente Poincaré . Raymond Poincaré Em Paris.

Joseph Caillaux. primeiro-ministro da França A senhora Caillaux .

O cáiser Guilherme II e o general von Moltke inspecionando manobras .

.

Alfred von Tirpitz. almirante alemão Príncipe Karl Lichnowsky. saindo do Ministério das Relações Exteriores quando a guerra começou . embaixador alemão na Grã-Bretanha.

VERAO EUROPEU Q U E M C O M E Ç O U A G R A N D E G U E R R A DE 1 9 1 4 ? T radução Renato Aguiar OBJETIVA .

©Bettmann/ CORBIS Fotógrafo: Philip Gendreau Capa Pedro Gaia e Felipe Mello sobre design original de Evan Gaffney Revisão Umberto de Figueiredo Pinto Taís Monteiro Marilena Moraes Editoração Eletrônica FA Editoração Eletrônica F931u Fromkin. 388 p.Copyright @ 2004 David Fromkin Tradução publicada mediante acordo com Alfred A. Tradução de: ISBN 85-7302-654-5 Europe's last summer: Who started the great war in 1914? 1. Fotos de capa On The Ladies Way .Fax: (21) 2556-3322 www.RJ .CEP: 22241-090 Tel. “General alemão Erich von Falkenhayn” (Corbis). uma divisão da Random House.: (21) 2556-7824 . Título CDD 940.com. 103 Rio de Janeiro . David O último verão europeu : Quem começou a grande guerra de 1914? / David Fromkin.objetiva. 2.Rio de Janeiro : Objetiva. e “Almirante alemão Alfred von Tirpitz” (Bettman/Corbis). Europa —História —Guerra ( 1914 ). Inc. Tradução de Renato Aguiar.©Hulton-Deutsch Collection/ CORBIS Hand Holding Burning Matching . Título original: Europe’s Last Summer: Who Started the Great War in 1914? Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA OBJETIVA LTDA. 2005.br Todas as ilustrações reproduzidas com permissão da Illustrated London News Library exceto: “Coronel Edward House” e “Conde Graf Berchtold” (Hulton-Deutsch Collection/Corbis). Primeira guerra mundial. Knopf. Rua Cosme Velho. .4 . I.

Para Alain Silvera .

— JOHN k e e g a n . A Primeira Guerra Mundial .A transição peremptória de uma paz aparentemente profunda a uma guerra geral violenta em poucas semanas em pleno verão de 1914 conti­ nua a desafiar as tentativas de explicação.

SUMÁRIO Mapa 13 PRÓLOGO (i) Do nada 15 (ii) A importância da questão 17 (iii) Um verão a ser lembrado 25 PARTE UM AS TENSÕES EUROPÉIAS CAPÍTULO 1 CHOQUE DE IMPÉRIOS 31 CAPÍTULO 2 LUTA DE CLASSES 35 CAPÍTULO 3 DISPUTA ENTRE NAÇÕES 37 CAPÍTULO 4 ARMAMENTO DOS PAÍSES 42 CAPÍTULO 5 PROFECIAS DE ZARATUSTRA 54 CAPÍTULO 6 ALINHAMENTO DIPLOMÁTICO 58 PARTE DOIS ANDANDO EM CAMPOS MINADOS CAPÍTULO 7 A QUESTÃO ORIENTAL 65 CAPÍTULO 8 UM DESAFIO PARA O ARQUIDUQUE CAPÍTULO 9 ALEMANHA EXPLOSIVA 70 67 .

FORA DE CONTROLE 83 CAPÍTULO 11 ÁUSTRIA .PARTE TRÊS À DERIVA PARA A GUERRA CAPÍTULO 10 MACEDÔNIA .PRIMEIRA A DAR PARTIDA 87 CAPÍTULO 12 FRANÇA E ALEMANHA FAZEM SEU JOGO 93 CAPÍTULO 13 A ITÁLIA TOMA POSSEs OS BÁLCÃS TAMBÉM 100 CAPÍTULO 14 A MARÉ ESLÁVICA 104 CAPÍTULO 15 A EUROPA À BEIRA DO PRECIPÍCIO 112 CAPÍTULO 16 MAIS ABALOS NOS BÁLCÃS 116 CAPÍTULO 17 UM AMERICANO TENTA DETER O PROCESSO 122 PARTE QUATRO ASSASSINATO! CAPÍTULO 18 A ÚLTIMA VALSA 133 CAPÍTULO 19 NA TERRA DOS ASSASSINOS 138 CAPÍTULO 20 A CONEXÃO RUSSA 150 CAPÍTULO 21 OS TERRORISTAS ATACAM 153 CAPÍTULO 22 A EUROPA BOCEJA 158 CAPÍTULO 23 DESCARTE DOS CORPOS 166 CAPÍTULO 24 REUNINDO OS SUSPEITOS 168 PARTE CINCO MENTINDO CAPÍTULO 25 ALEMANHA ASSINA CHEQUE EM BRANCO CAPÍTULO 26 A GRANDE FRAUDE 185 CAPÍTULO 27 BERCHTOLD PERDE O PRAZO 191 CAPÍTULO 28 MANTÉM-SE O SEGREDO 193 PARTE SEIS CRISE! CAPÍTULO 29 O itt/T N Ã O FOI ACCOM PLI 197 CAPÍTULO 30 APRESENTANDO O ULTIMATO 208 CAPÍTULO 31 A SÉRVIA MAIS OU MENOS ACEITA 220 PARTE SETE CONTAGEM REGRESSIVA CAPÍTULO 32 CARTAS NA MESA EM BERLIM CAPÍTULO 33 26 DE JULHO 232 227 175 .

CAPÍTULO 34 27 DE JULHO 238 CAPÍTULO 35 28 DE JULHO 244 CAPÍTULO 36 29 DE JULHO 250 CAPÍTULO 37 30 DE JULHO 256 CAPÍTULO 38 31 DE JULHO 262 CAPÍTULO 39 1“ DE AGOSTO 265 CAPÍTULO 40 2 DE AGOSTO 272 CAPÍTULO 41 3 DE AGOSTO 277 CAPÍTULO 42 4 DE AGOSTO 279 CAPÍTULO 43 DESTRUINDO PROVAS PARTE OITO O MISTÉRIO DESVENDADO CAPÍTULO 44 REUNIÃO NA BIBLIOTECA 287 CAPÍTULO 45 O QUE NÃO ACONTECEU 289 CAPÍTULO 46 A CHAVE PARA O QUE ACONTECEU 301 CAPÍTULO 47 QUAL O PORQUÊ? 308 CAPÍTULO 48 QUEM PODERIA TER IMPEDIDO? 314 CAPÍTULO 49 QUEM COMEÇOU? 318 CAPÍTULO 50 PODERIA ACONTECER OUTRA VEZ? 324 CAPÍTULO 51 RESUMINDO 327 EPÍLOGO CAPÍTULO 52 A GUERRA DA ÁUSTRIA 331 CAPÍTULO 53 A GUERRA DA ALEMANHA 335 Apêndice 1: A Nota Austríaca 339 Apêndice 2: A Resposta Sérvia 345 Quem Era Quem 349 Notas 353 Bibliografia 365 Agradecimentos 373 índice Remissivo 375 .

.

PRÓLOGO (i) Do nada depois das onze horas da noite de domingo. Uma japonesa de 32 anos morreu e 102 pessoas ficaram feridas. por uma força invisível.1O avião alcançara a altitude de cruzeiro indicada. O que quer que 15 . Abruptamente. Corpos gritando voaram em todas as direções. sem avi­ so. tudo mudou. o vôo 826 da United Airlines. Recuperando o controle do Jumbo. um Boeing 747 transpor­ tando 374 passageiros e 19 tripulantes. aquele fora um vôo normal. O serviço de bordo estava quase terminando. e depois mergulhou em queda livre. 29 de dezembro Pouco de 1997. Não houve qualquer aviso: nenhum raio ou clarão no céu. A viagem transcorria sem novidades. O que houve de tão assustador no episódio foi o seu caráter inescrutável. batendo no teto e em carrinhos de serviço. havia cumprido duas horas da sua programada viagem sobre o Pacífico. Não houve qualquer razão para esperar que algo pudesse acontecer. o capitão e sua tripulação conduziram o vôo 826 de volta ao aeroporto japonês de onde havia decolado horas antes. O avião foi atingido. entre 31 e 33 mil pés. levantou o nariz. Até o momento do impacto. de Tóquio a Honolulu. Num instante terrível.

Em vez disso. e as companhias aéreas não estavam em condições de garantir que algo semelhante não aconteceria outra vez. imperialismo e afins —estavam havia muito em movimento. globalização da eco­ nomia mundial e iniciativas visando implantar algum tipo de liga de nações para banir a guerra. pegos completamen­ 16 . Especula-se que algo parecido com esse ataque de turbulência de céu claro tenha ocorrido com a civilização européia em 1914. não deu para ver que ia acontecer. O mundo da década de 1890 tinha sido. despe­ daçando-se e explodindo em décadas de tirania. As forças que iriam dilacerá-lo —nacionalismo. o céu calmo pode irromper em furia tão repentinamente quanto o oceano. Especialistas citados pelos meios de comunicação acreditavam que o vôo 826 havia sido vítima do que eles chamam de “turbulência de céu ou ar claro”. O público esperava que um longo período de paz e prosperidade se estendesse indefinidamente. Havia muito navegava em céus perigosos. mas um torna­ do que não se pode ver. Alguns dos especialistas entrevistados expressa­ ram sua esperança de que em poucos anos algum tipo de tecnologia de radar fosse desenvolvido para detectar essas tempestades invisíveis antes de elas romperem. O coman­ dante e a equipagem o sabiam. Eles a associavam a um tornado horizontal. Que tornado terá varrido a Velha Europa civilizada e o mundo que ela então dominava? Retrospectivamente. a passagem pode ser menos misteriosa do que imaginaram alguns contemporâneos que a experimentaram. O céu de onde despencou a Europa não estava vazio. o mundo europeu mergulhou descontrolado. à semelhança da nossa própria época. nós podemos vê-los agora. estava carregado de processos e poderes. Os passageiros não ti­ nham idéia do que os tinha atingido.PRÓLOGO fosse “aquilo”. apren­ deu o público deste episódio. durante a sua passagem do século XIX para o século XX. conferências de desarmamento. A transparência da atmosfera significa pouco. Nas primeiras décadas do século XX. socialismo. um tempo de congres­ sos internacionais. os líderes militares e políticos podiam vê-los então. guerra mundial e assas­ sinato em massa. havia sinais de que a catás­ trofe poderia eclodir logo adiante. Os anos de 1913e 1914 foram anos de perigos e dis­ túrbios. Mas os passageiros. O mundo europeu já vinha sendo assaltado por ventos de grande altitude. ao contrário.

foi inicialmente conhecida como a Tríplice Aliança. eles fo­ ram massacrados. ficaram se perguntando insistentemente: por que não receberam nenhum aviso? (ii) A importância da questão No verão de 1914. estourou na Europa uma guerra que se espalhou pela África. e na sua extensão e profundidade. E isto seria verdadeiro mesmo que. uma delas era chamada de Tríplice Entente.2 Na Alemanha e na França. as duas coalizões mobilizaram cerca de 65 milhões de soldados. reduzido. Hoje. Pacífico e Américas. ou. Reino Unido.^ Entre si. lide­ rada pela Alemanha e pela Áustria-Hungria. § Com a Itália como terceiro membro em tempos de paz. por mais esmagadores que sejam. Mais de 20 milhões de soldados e civis perderam a vida4 na Grande Guerra.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U te de surpresa. 80% de todos os homens foram convocados.* Fran­ ça e Rússia. ela acabou se tornando. nações que apos­ taram toda a sua população masculina no resultado. e outros 21 milhões foram feridos. 17 . um tanto im­ precisamente conhecida como Primeira Guerra Mundial. Oriente Médio. como *A partir de 1801. E mereceu o nome pelo qual então foi chama­ da: a Grande Guerra.5 Milhões mais morreram vítimas das doenças liberadas pela guerra: mais de 20 milhões de pessoas morreram só na pandemia de gripe de 1918-1919. Ásia. o maior conflito que o planeta jamais tinha conhecido. os países do planeta alinharam-se numa ou noutra de duas coalizões mundiais. * Chamada de “Aliados” durante a guerra.3 Nos choques armados decorrentes.* a outra. sob muitos pontos de vista. os números não lo­ gram contar toda a história ou traduzir integralmente o impacto da guerra sobre o mundo de 1914.6 Entretanto. o título oficial da Grã-Bretanha passou a ser “Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlan­ da”. Chamadas de “Potências Centrais” durante a guerra. As consequências das mudanças engendradas pela crise da civilização européia são demasiado numerosas para serem especificadas. Liderada pela Grã-Bretanha. Para entrar na disputa. fizeram dela o ponto crítico da história moderna.

escreve sobre “a primeira calamidade do século XX. Novos países tomaram seus lugares. da qual decorreram todas as outras calamidades”. e introduziu o próprio Lenin na Rússia em 1917 . literalmente bilhões de pessoas alcançaram a sua independência. Muitas das novas entidades . se­ guido anos depois pelo fascismo e pelo nazismo. Entretanto. Impérios e dinastias foram varridos. a Grande Guerra. ao que tudo indica em con­ sequência direta do seu envolvimento no esforço de guerra —empregos nas fábricas e nas forças armadas -. como creio que muita gente razoavelmente séria aprendeu a fazê-lo. também. A Grande Guerra engendrou forças terríveis que assolariam o res­ tante do século. Em 1979. As mulheres. E ao longo do século. a terra é divida em quatro vezes mais Estados independentes do que os existentes quando os europeus entraram em guerra em 1914.9 Os terremotos militares. como a grande catástrofe seminal deste século. Hoje. o eminente diplomata e historiador americano George Kennan escreveu: “[Passei a] ver a Primeira Guerra Mundial. libertaram-se de alguns grilhões do passado.PRÓLOGO sustentam alguns.”8 Fritz Stern. a guerra também pôs em movimento os dois grandes movimentos de libertação do século XX. Ao mesmo tempo em que se dilacerava a Europa. a Alemanha financiou os comunistas bolcheviques de Lenin. 18 . um dos mais destacados estudiosos de assuntos ale­ mães. políticos.são países que nunca antes existiram.7 E é possível que isto continue a ser verdade. económicos e sociais acarreta­ ram um novo desenho do mapa do mundo. a guerra só tenha acelerado algumas das mudanças induzidas pela crise. Em 8 de agosto de 1914. iniciado em 1914.nas palavras de Winston Churchill: “assim como seria possível mandar um frasco contendo uma cultura de tifo ou de cólera para despejar no suprimento de água de uma grande cidade”.10 O bolchevismo foi apenas a primeira dessas íurias nascidas da guerra. Iraque e Arábia Saudita são exemplos que vêm à mente . Para tirar a Rússia da guerra. em algumas partes do mundo. o Economist de Londres a descreveu como “talvez a maior tragédia da história humana”.Jordânia. apenas quatro dias após a entrada da GrãBretanha na guerra. A desintegração da estru­ tura política do globo prosseguiu ao longo do século XX. desfazia-se a sua dominação no restante do planeta.

Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha tiveram escolha. Em 21 de abril de 2001. “a mim parece que todas as linhas de investiga­ ção remontam a ela”. os dois países tiveram pouca ou nenhuma escolha quanto a entrar ou não na batalha da Segunda. é notável a frequência com que retornamos à Grande Guerra. ainda que não tivesse necessariamente de fazê-lo. Em 1991. Como ob­ servou George Kennan.”13 Desde o começo. Miller e Sean M. em cujo começo tantas coisas começaram. Mas para o bem ou para o mal. ou que o confrontam hoje.11 Depois dela. Lynn-Jones afirmaram: “A maioria dos observadores descreve o período atual da política internacional como a era ‘pós-Guerra Fria’. o New York Times noticiava. por exemplo.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U Um outro tipo de libertação.12 mas de muitas maneiras nosso tempo seria mais bem definido como a era £pós-Primeira Guerra Mundial’. linguagem e nas artes. Thomas Mann escreveu sobre “a Grande Guerra. vida sexual. tivesse ou não de fazê-lo. da França. costumes. E tampouco hoje deixaram inteiramente de fazê-lo. e a Segunda. Nada houve de inevitável na progressão do primeiro para o segun­ do conflito. que ainda mal pararam de começar”. mas o fato é que ninguém o cortou. Nem todos acreditam que o fato de tantas regras e restrições terem ficado pelo caminho seja uma coisa boa. a Primeira Guerra Mundial realmente levou à Segunda. de entrar ou não na Primeira Guerra Mundial . as opções se estreitaram ainda mais. o mundo percorreu um longo caminho —da era vitoriana ao século XXI . vestuário. os historiadores Steven E. O longo pavio podia ter sido cortado em muitos pontos ao longo do caminho de 1914 a 1939. o retorno ao lar de milhares de pessoas que haviam sido temporariamente evacuadas de suas 19 .e sem dúvida há desacordo até hoje sobre o seu acerto ou não de tê-lo feito -. e a seriedade das consequências rapidamente se tornou aparente para os contemporâneos: na introdução ao seu livro A Monta­ nha Mágica (1924). Assim. realisticamente. em termos de comportamento.por sendas que foram abertas pelos soldados de 1914. levou à Guerra Fria. Ao pesquisar a origem de qualquer das grandes questões que con­ frontaram o mundo durante o século XX. re­ sultou da Grande Guerra e vem se expandindo desde então. a explosão de 1914 pareceu desencadear uma sé­ rie de reações. de alcance amplo e diversificado. mas.

e ainda restam. Em que consistiu a Primeira Guerra Mundial? Como aconteceu? Quem a começou? Por que eclodiu onde e quando eclodiu? “Milhões de mor­ tos e de palavras depois. para perguntar como o Iraque surgiu como Estado das cin­ zas da Primeira Guerra Mundial.PRÓLOGO casas por causa da ameaça decorrente de sobras de munições da Primeira Guerra Mundial estocadas à proximidade. em Nova York. acrescen­ tando que “nada daquilo precisava ter acontecido”. descreveu o atentado como uma vingança pelo que havia ocorrido oitenta anos antes. Os simpatizantes de Bin Laden sequestraram aviões a jato e os esmagaram contra as torres gémeas em consequência de uma disputa aparentemente enraizada nos conflitos de 1914. o chefe terrorista que evocou este horror e ameaçou com ainda mais. como observou a “Millennium Special Edition” do The Economist (l2 de janeiro de 2000-31 de dezembro de 1999). e cápsulas de gás mostarda. Em certo sentido. não há dúvida. Havia cartuchos. dos impérios cristãos europeus no Orien­ te Médio. Eis uma pergunta relevante. até então governado por muçulmanos. Em sua primeira declaração televisionada após os fatos. Em 11 de setem­ bro de 2001. na esteira . Trata-se certamente do acontecimento mais seminal dos tempos modernos. Fazia provavelmente referência à intrusão. os ataques suicidas muçulmanos fundamentalistas contra o World Trade Center. Porém. o Iraque poderia muito bem não existir em 2002. Desde o começo. já explodiram. Assim. De forma semelhante. Os evacuados receberam permissão para retornar às suas casas após a remoção de 50 toneladas das munições mais perigosas. Osama bin Laden. os historiadores ainda não concordaram sobre o porquê”. à procura dos professores de história das principais universidades americanas. restaram centenas de toneladas de materiais le­ tais . a escalada da crise do Iraque em 2002-2003 levou jornalistas e personalidades do rádio e da televisão aos seus telefo­ nes. pois não tivesse havido guerra em 1914. 20 .e como consequência da Primeira Guerra Mundial. bombas da guerra de 1914 ainda podem explodir em pleno século XXI. destruíram o coração de Lower Manhattam e ceifaram cerca de 3 mil vidas. granadas e bombas.

tinham perdido as suas. sentiam eles. nas palavras do historiador Laurence Lafore. “a guerra foi muitas coisas”. novas informações vieram à luz. e que tudo o que restava era debater a interpretação das evidências. ao atirar e matar o herdeiro dos tronos austríaco e húngaro.duas pessoas sobre quem muitos ja­ mais tinham ouvido falar . e porque queremos evitar que qualquer coisa semelhante aconteça no futuro. Isso não parecia possível. Haja vista a Grande Guerra ter sido um evento tão enorme e carre­ gado de consequências. mas apenas a ocasião para que primeiro os Bálcãs. Não podia ser verdade. ela continua elusiva. porque um homem e sua esposa . A desproporção entre o crime do estudante e a conflagração em que se consumiu o globo. O conteúdo deste livro é uma tentativa de examinar as velhas questões à luz desse novo conhecimento. num processo desencadeado pela pesquisa do grande historiador alemão Fritz Fischer (cujas opiniões serão comen­ tadas posteriormente). era absurda de­ mais para que os observadores acreditassem que um era a causa da outra. começando 37 dias depois. sumariar os dados e tirar algumas conclusões. Fischer inspirou os estudiosos a vasculharem os arquivos em busca do que estava escondido. todos diziam. a investigação de como ela aconteceu tornou-se não apenas a questão mais desafiadora mas também a maior pergunta da história moderna. Quando e onde começou a marcha na direção da guerra de 1914? Recentemente. numa sala de aula em Boston. os estudiosos tendiam a acreditar que tinham aprendido tudo o que havia a ser aprendido sobre as origens da guerra. No começo da década de 1960. e hoje é difícil passar um ano sem que o aparecimento de novas monografias acrescente conside­ ravelmente ao nosso conhecimento. Porém. notadamente oriundas de fontes alemãs. pedi a estudantes uni­ versitários para identificarem os primeiros passos do caminho —antes de 21 .O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U todos diziam que a guerra de 1914 foi literalmente desencadeada por um estudante secundarista sérvio-bósnio. depois a Europa e em seguida o resto do planeta pegassem em armas. e também são muitos os significados da palavra causa.14 Nos anos 1940 e 1950. austríacas e sérvias. Não é possível 10 milhões de pessoas perderem suas vidas. Mas praticamente todos concordam que o assassinato proveu não a causa.

O século VII. alfabeto e cultural —romanos versus gre­ gos —. cobiçadas pelas 22 . O conflito entre povos eslavos e germânicos tornou-se um tema recorrente da história européia. fadados a serem inimigos. A Reforma Protestante dividiu a cristandade ocidental. o que segue pode ilustrar quantos caminhos podemos imaginar terem levado a Sarajevo. Ela separou os povos germânicos politicamente e levou ao curioso rela­ cionamento entre a Alemanha e a Áustria. A divisão formal entre as cristandades católica romana e ortodoxa grega gerou um conflito de fé religiosa em torno da mesma fratura que as de grupo étnico. O século XVII. O século XVI. A separação cultural que bifurcou a cristandade em dois ramos distintos. O século XI. A partir das suas respostas. O começo da secular retirada otomana da Europa signi­ ficou que os turcos estavam abandonando terras valiosas. neste sentido.fratura esta que ameaçava a Europa do Sudeste e acabou resultan­ do no terremoto político que ocorreu em 1914. A decisão de dividir o Império Romano entre Oci­ dente falante do latim e Oriente falante do grego teve consequências duradouras.PRÓLOGO 1908.C. A conquista do Oriente cristão e da Europa Central pelo Império Otomano (ou Turco) muçulmano privou os povos dos Bálcãs de séculos de experiência de autogoverno.e talvez para provocá-la. e no século XX antagonizou germânicos teutônicos e austríacos com russos eslavos e sérvios. em dois calendários e duas escritas rivais (o latim e o cirílico) persistiu. É possível que isto tenha con­ tribuído para a violência e o facciosismo da área nos anos que prepara­ ram o caminho para a guerra de 1914 . deslocaram-se para os Bálcãs. Os austríacos católicos romanos e os sérvios ortodo­ xos gregos. cujas rixas deram ocasião à guerra de 1914. Os eslavos. que estavam em vias de se tornar o maior grupo étnico da Europa. onde os teutônicos já haviam chegado. estavam. O século XV. O século IV d. que está no coração da crise de julho de 1914.

substituindo-os por uma dinastia rival pró-russa. oficiais do Exército pertencentes a uma sociedade secreta assassinaram o seu rei e a sua rainha pró-austríacos. contra a Rússia. 1870-1871. 1905.seu primeiro-ministro -. para manter a paz entre elas. e que a Alemanha teria mais chances de vencer se a empreendesse o mais cedo possível. se executado. desencadeando a guerra de 1914. A tentativa alemã de rivalizar com a Grã-Bretanha como potência naval foi vista em Londres como uma ameaça vital. O imperador alemão demitiu seu chanceler . de aliança tanto com a Áustria como com a Rússia. A Grã-Bretanha passou de mera amizade com a França . que se mostrou propensa a provocar uma resposta final russa. Ela será descrita aqui.a Entente Cordiale. o príncipe Otto von Bismarck. ameaçava levar a um conflito perigosamente mais amplo. A década de 1900. Repelida pela Alemanha e sem ver outra alternativa. a Rússia monárquica reacionária foi levada a uma aliança com a França republicana. no Capítulo 12. incluindo con23 . o que enco­ rajou a Áustria a seguir uma política perigosamente belicosa. 1890. Em vez disso. A década de 1890. a diplomacia agressiva da Ale­ manha teve o efeito não intencional de unificar os outros países contra ela. Nela. O novo chanceler revogou a política de Bismarck. na luta pelo controle dos Bálcãs. O desejo de apoderar-se dessas terras alimentou a rivalidade entre a Áustria e a Rússia. Num sangrento golpe de Estado na Sérvia. A criação do Império Alemão e o fato de ter anexado terri­ tórios franceses em consequência da guerra franco-prussiana tornaram provável outra guerra européia. As lide­ ranças austríacas reagiram planejando punir a Sérvia —um plano que. A primeira crise do Marrocos foi uma questão complicada.O ÚL T I MO VERÃO E UR OP E U grandes potências cristãs. 1903. Isto convenceu os líderes alemães de que cedo ou tarde a guerra seria inevitável. a Alemanha se alinhou com a Áustria.a algo mais próximo de uma aliança informal. tão logo a França recuperasse forças su­ ficientes para tentar retomar o que tinha perdido.

Mas como não levaram à guerra em 1910 ou em 1912.do outro. mas o porquê de ela ter acontecido no verão europeu de 1914. 24 . é citado em algum lugar como tendo dito que a guerra era grande demais para ser compreendida. a Primeira Guerra Mun­ dial é talvez o exemplo supremo da complexidade que desafia e confun­ de os historiadores. Arthur Balfour. eis a questão que os historiadores têm se colocado desde que Heródoto e Tucídides. filósofo e patrocinador do Estado judeu na Palestina. de um lado. político conservador de longa data. primeiro-ministro britânico de antes da guerra. frequentemente. tantos afluentes correm para o rio que é difícil dizer qual é de fato a fonte. Porém. o mundo europeu estava confortavel­ mente em paz. Outras datas entre as quais 1908.mas por que aquela guerra? Por que as coisas aconteceram como aconteceram e não de outro modo. Pode-se dizer que todas elas contribuíram de algum modo para o advento da guerra.500 anos. Trinta e sete dias antes da Primeira Grande Guerra. a Rússia. à pergunta de por que o conflito aconteceu.. que é discutida nas páginas que seguem —também servem como pontos de partida do estopim que levou às explosões de 1914. Houve um endurecimento dos alinhamentos europeus em blocos rivais e potencialmente inimigos: França. e posteriormente acordos e conversações com a aliada da França. todas essas respostas estavam certas. Não obstante. Até certo ponto. resta discutível se questões como esta podem ser respondi­ das com algum nível de precisão. por que o fizeram em 1914? A questão não é apenas o porquê de a guerra aconte­ cer.PRÓLOGO versações entre os dois governos e consultas entre Estados-maiores. e uma Alemanha isolada . começaram a fazê-lo há mais de 2. Os líderes da Europa iniciavam as suas férias de verão e nenhum deles esperava ser perturbado. gregos do século V a.C.apenas com um tíbio apoio da Áustria-Hungria e da Itália . em certo sentido todas as respostas também estão erradas. não por que a guerra? . O que deu errado? Todos os estopins identificados por meus estudantes tinham sido tão perigosos para a paz da Europa em 1910e 1912 quanto o foram em 1914. Em sua magnitude e múltiplas dimensões. Grã-Bretanha e Rússia.

que nos força a reexaminar o que queremos dizer com palavras como “causa”. mas também a GrãBretanha.para as grandes potências europeias esta­ rem dispostas a entrar em guerra umas com as outras. o mundo da sua época era mais livre do que o de hoje. a França e outros países.imediatas. Em 1901. 25 . os Estados Unidos “navegavam num mar de almirante” (comentou um observador inglês).17 Você podia viver em qualquer lugar que quisesse. os povos da Europa Oci­ dental e das Américas anglófonas estavam se tornando consumidores em vez de guerreiros.muitas delas . portanto. nas quais este livro está interessado . mais prospe­ ridade.alguém vivendo nos primeiros e vibrantes anos do século XX -. e a globalização da economia mun­ dial sugeria que as guerras tinham se tornado coisa do passado.16 Os britânicos de classe média e alta viam-se num mundo idílico cujas realidades económicas resguardariam as grandes potências da Eu­ ropa de travarem guerra umas com as outras.para elas entrarem em guerra onde e como o fizeram. Na época. Para aqueles com uma renda confortável. Stefan Zweig falava por muitos quando escreveu que raramente tinha experimentado um verão “mais exuberante. ensolarado e deslumbrante de 1914. Segundo o historiador A. mais belo e. “até agosto de 1914. Naqueles anos. Havia causas . (Ui) Um verão a ser lembrado Para os homens ou mulheres nas ruas do mundo ocidental . que a explicação da guerra seja a maior ques­ tão da história moderna. trata-se de uma questão exemplar. um inglês sensível e obediente à lei podia passar pela vida sem notar a exis­ tência do Estado”. Havia outras cau­ sas . mais estival”. e nos 13 anos seguintes. Taylor. P. Eles almejavam mais: mais progresso. nada teria pare­ cido mais remoto do que a idéia de uma guerra.O Ú L T I MO VERÃO E UR OP E U Não é à toa. J. o mais belo da memória recente. A culmi­ nação daqueles anos no verão quente. os ho­ mens que eventualmente sonhassem com aventuras em campos de batalha teriam imensa dificuldade para encontrar uma guerra em que pudessem praticar. mais paz. estou tentado a dizê-lo.15 Há quase meio século não havia guerras entre as grandes potências. é lembrada por muitos europeus como uma espécie de Éden.

Para a maior parte dos lugares.19 Você podia entrar com o que quisesse na Grã-Bretanha ou mandar qualquer coisa para fora. E se você decidisse investir qualquer quantia em quase todos os países estrangeiros.e certa­ mente obsoleta.21 Eles tinham pouca necessidade de governo. recordando aqueles anos do pré-guerra décadas mais tarde. apenas o pessoal. O geógrafo francês André Siegfried deu a volta ao mundo sem qualquer identificação além do car­ tão de visitas: sequer o seu cartão profissional. antes da guerra de 1914. O historiador e diplomata George Kennan recorda que. Podia ir praticamente a toda parte no mundo.PRÓLOGO como quisesse. observou: “Quando tento encontrar uma 26 . e muitos viajaram. Muito mais do que hoje.”20 Os contatos e a interdependência económicos e financeiros esta­ vam entre as poderosas tendências que faziam parecer que a guerra entre as principais potências européias tinha se tornado impraticável . sem a permissão de ninguém. os americanos tinham tanta sensação de segurança “que suponho que nenhum povo a tenha experimentado desde a época do Império Romano”. não havia ninguém a quem deves­ se pedir permissão. era um tempo de fluxos livres de capital e de movimentos livres de pessoas e mercadorias. John Maynard Keynes lembra do período como uma época sem controles comerciais ou alfândegas. você nem pre­ cisava de passaporte. quando foi ratificada uma medida específica à Constituição. o autor judeu-austríaco. Podia levar qualquer soma em dinheiro quando viajasse. Um notável estudo em andamento do mundo no ano 2000 nos mostra que havia mais globa­ lização antes da guerra de 1914 do que há agora: “Grande parte do último quarto do século XX foi gasta apenas e tão-somente na recupera­ ção do terreno perdido nos últimos 75 anos. ou enviar (ou trazer de volta) qualquer quantia. Stefan Zweig. Até 1913. Era fácil sentxr-se seguro naquele mundo. como é feito hoje em dia.18 Admirado. seu banco não informava ao governo. Os americanos o sentiam tanto ou talvez mais do que os europeus. e tampouco era necessária autorização para retirar o investimento ou quaisquer lucros que possa ter dado quando quisesse fazê-lo. concebia-se que o Congresso não de­ via ter sequer o poder de decretar impostos sobre a renda.

argumentou: “Não há dúvidas de que ao final de 1913 as relações franco-alemãs estavam em melhor pé do que há anos. antes da Primeira Guerra Mundial. e o primeiro-ministro russo relatou ao tsar. John Keiger. e que não seria capaz de fazê-lo nos anos seguintes.22 Tudo na nossa monarquia austríaca de quase mil anos parecia basear-se na permanência.” Esses senti­ mentos pareciam ser correspondidos pelos alemães. estava bem informada sobre o pensamento oficial francês. é verdade. A França. mas pessoas bem situadas para avaliar ti­ nham certeza de que ela não ia começar uma guerra para tomá-los de volta.”23 A Alemanha temia uma guerra eventual com a Rússia. erradamente. havia líderes que estavam preocupados. Assim. Eles querem trabalhar com a Alemanha. mas em 1913. espero traduzir sua plenitude chamando-o de Época de Ouro da Segurança. A Rússia.” No mundo ocidental. sobre um mar de verão —até serem atingidos por um raio que.pelo menos não no futuro imediato. Como veremos.24 Nenhuma das grandes potências européias acreditava que qualquer outra estivesse em vias de lançar uma guerra de agressão . mas no inverno e na primavera de 1914. desta­ cado estudioso da política daqueles anos. de modo geral era verdade que as pessoas comuns não sentiam qualquer apreensão. escreve o professor Keiger. 27 . teria apreciado recuperar territórios tomados pela Alemanha décadas antes. Berlim reconheceu que a Rússia não estava em condições de iniciar uma guerra. nos últimos dias gloriosos de junho de 1914 os europeus e americanos viajavam sob um céu sem nuvens.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U fórmula simples para o período no qual cresci. acreditaram ter vindo do nada. como aliada da França. em 13 de dezembro de 1913: “Todos os políticos franceses querem paz e tranquilidade. “a primavera e o verão de 1914 foram marca­ dos na Europa por um período de calma excepcional”. Como os passageiros do vôo 826 da United Airlines. nem eles esperavam que a guerra estourasse no verão. Era manifesto que a Grã-Bretanha queria a paz.

PARTE UM AS TENSÕES EUROPÉIAS .

Por comparação. o Pacífico e até mesmo partes substanciais do hemisfério ocidental. Do pouco que restava. França. a Ásia. grande parte pertencia a Estados europeus menos poderosos: Bélgica. na tecnologia e na ciência. Holanda. tem 44 milhões de quilómetros quadrados. Alemanha.um mero punhado de países —tinham conseguido dominar a maior parte do planeta. Áustria-Hungria. excedia qualquer civilização que jamais havia existido. Entre eles. A Europa é quase o menor dos continentes: de 8 a 10 milhões de quilómetros quadrados de extensão. o maior continente. Itália e Rússia dominavam a Europa. Na indústria. Contudo. a África. conhecimen­ to e poder. no começo dos anos 1900. a Europa abarcava o globo.CAPÍTULO 1: CHOQUE DE IMPÉRIOS o começo do século XX. Grã-Bretanha. Quando todos estes impérios eram somados. dependendo de como são definidas as fronteiras orientais. ela havia ido além das sociedades anteriores. a Europa era o ponto culminante da rea­ lização humana. alguns geógrafos vi­ ram a Europa como uma simples península da Ásia. É verdade. as grandes potências da Eu­ ropa . Em termos de riqueza. 31 . a Ásia. Portugal e Espanha.

Apesar de contar com um grande impé­ rio. e como rivais. As décadas anteriores a 1914 foram pontuadas por crises. A superioridade militar era vista como um valor supremo numa época que acreditava erradamente que a sobrevivência do mais apto de Charles Darwin dizia respeito ao mais mortífero. Acreditava-se comumente na época que o caminho para a riqueza e a grandeza das potências européias passava pela aquisição de mais coló­ nias. que ocupam mais de 70% do planeta. De tempos em tempos. um Estado novo. os impérios europeus eram de tamanho e força muito desi­ guais. restava um enigma. ou César . debi­ litada por uma guerra que perdeu contra o Japão em 1904-1905 e pela revolução de 1905. e quase todas podiam ter levado à guerra. o imperador alemão .o cáiser. a França já não era mais páreo para a Alemanha. seus líderes se estudavam constantemente. uma confe­ deração recém-criada pela Prússia militarista.também mudou sua política 32 . e apoiou a Rússia como contrapeso ao poder teutônico. e sua Marinha dominava os oceanos do mundo. um gigante atrasado que se estendia por dois continentes. O problema era que as grandes potências já controlavam tantas partes do mundo que pouco restava aos outros para tomar. A monarquia dual da ÁustriaHungria governava uma variedade de nacionalidades bastante agitadas e frequentemente em conflito. Repetida­ mente.C H O Q U E DE I MPÉ R I OS Porém. a guerra ameaçava estourar. Ao trocar seu chanceler em 1890. com quem era melhor se aliar. an­ siava ser tratada como igual. e somente a hábil diplomacia e o autocontrole as tornavam capazes de recuar. tentando adivinhar quem derro­ taria quem em caso de guerra e. na condição de recém-chegada que aspirava conquistar seu lugar entre as potências. ela deu uma guinada. A Alemanha. a mais poderosa e a maior das grandes potências. Nada houve de acidental no fato de as mais conspícuas dessas crises terem resultado de iniciativas alemãs. um desequilíbrio que conduzia à instabilidade. portanto. em vez de (como agora o en­ tendemos) ao mais bem adaptado. tratando de industrializar-se e armar-se com apoio da França. o maior país do mundo. O Império Britânico era a mais rica. Controlava mais de um quarto da superfície e um quarto da população do globo. as potências européias se atropelaram umas às outras ao avançar. A Itália. Na Rússia. comandava o mais pode­ roso Exército de terra.

como Bismarck teria feito. A Alemanha pós-Bismarck passou a cobiçar os territórios ultrama­ rinos que o Chanceler de Ferro vira como ouro de tolo. aparentemente ele acreditava que. Para distrair a França de eventuais pensamentos de re­ cuperar territórios que a Alemanha havia tomado na Europa . Ela se colocou em posição de tomar parte da partilha iminente da China.na AlsáciaLorena —. a não ser tomando territórios ultramarinos dos outros países europeus.* Longe de crer que colónias ultramarinas trouxessem riqueza e poder. Assim. Retrospectivamente. não havia mais Américas. Não obstante . A Alema­ nha já não podia mais conquistar um império numa escala proporcional à sua posição de maior potência militar da Europa. Mas os governantes de Berlim tinham entrado no jogo muito tarde. não acreditava no imperialismo. aquelas manobras podem ter sido meras tentativas. interveio em oposição.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U de governo. Isto não era algo que se pudesse alcançar por meios pacíficos. dividindo deste modo os rivais potenciais da Alemanha. o líder cuja determinação férrea tinha criado a Alemanha em 1870-1871. Otto von Bismarck. de riqueza e poder. mas na Europa causaram verdadeira apreensão. em vez de estimular e apoiar. ocasião em que a Alemanha adquiriu uma pequena quantidade de colónias.descuidadamente -. mas acenderam o esto­ pim das crises internacionais mais notáveis daqueles anos: as crises do Marrocos de 1905-1906 e de 1911. elas fossem antes um sumidouro. servia a todos os propósitos de Bismarck. 33 . As iniciativas alemãs fracassaram. No começo do século XX. como a França avançasse mais profun­ damente no Marrocos para ampliar seu império norte-africano. a Ale­ manha. podia a Alemanha contentar-se em continuar sendo a principal potência militar * Por razões não inteiramente claras. Como esta política levaria a França a fre­ quentes colisões com a Inglaterra e a Rússia imperiais. Para o governo alemão. Não havia mais con­ tinentes a serem tomados: não havia mais Áfricas.Bismarck estimulou e apoiou a França a buscar novas aquisições no norte da África e na Ásia. fica claro que o problema era que a cobiça imperial da Alemanha pós-1890 não podia mais ser satisfeita. a Alemanha guilhermina manifestava interesse em terras ultramarinas. Bismarck divergiu brevemente desta política no começo da década de 1880.

Em 1914.C H O Q U E DE I MPÉ R I OS e industrial do continente mas com impérios africanos e asiáticos meno­ res do que os da Inglaterra ou da França? Os alemães discordavam. é claro. e a força crescente das suas massas operárias e socialistas sugeria que a nação poderia ser obrigada a concentrar sua atenção na solução de problemas internos. Ou então. sobre qual devia ser a resposta a esta pergunta. em vista de distrair a atenção dos problemas que permaneciam sem resolução dentro de casa. e o clima das opi­ niões estava mudando. alternativamente. a sugestão seria os líderes alemães empreenderem uma política estrangeira agressi­ va. 34 . em vez de aventuras estrangeiras. a Alemanha era o único país do conti­ nente com mais trabalhadores industriais do que rurais.

trazendo modernidade.CAPÍTULO 2: LUTA DE CLASSES A Alemanha não era tampouco a única a estar dividida contra si mesjna. mas figurativamente a séculos de distância uma da outra. viviam literalmente ao mesmo tempo. sobre salários e condições de 35 . a Europa era presa de revoltas sociais e econó­ micas que estavam modificando suas estruturas e sua política. Ao mesmo tempo. Antes da guerra. Alguns continuavam a viver como se estivessem no século XIV. a realizar mudanças radicais nesses dois países. assim como na Alemanha. A Europa agrária. e promovia mudanças se­ melhantes nos outros. impul­ sionadas pelas recém-inventadas máquinas de combustão interna e in­ formadas pelo telégrafo. com seus ani­ mais de carga e seus lentos ritmos aldeões quase imutáveis. num ritmo acelerado. em parte ainda feudal. enquanto outros habitavam as grandes cidades abarrotadas do século XX. o crescimento da população urbana de operá­ rios fabris na Revolução Industrial produziu conflitos entre esta popula­ ção e os proprietários das manufaturas. A Revolu­ ção Industrial que havia começado na França e na Inglaterra do século XVIII continuava. e a Eu­ ropa das chaminés.

do outro. o Partido Trabalhista foi constituído para falar em nome de uma classe trabalhadora que já não estava mais satisfeita de ser representada pelo Partido Liberal. Qual seria a alternativa? Os choques sociais e de classes dividiriam. levando o povo a se reagrupar sob a bandeira. os governos se preocupavam com a possibilidade de o seu povo não apoiálos se uma guerra estourasse. os sociais democratas surgiram como o maior partido isolado do Reichstag. No continente. o qual simpatizava com os assala­ riados mas falava como porta-voz das classes médias e mesmo de alguns dos bem-nascidos. A classe social tornara-se uma linha divisória e uma lealdade . Naqueles tempos de crises bélicas frequentes.a fronteira principal. e a peque­ na nobreza sem liquidez.LUTA DE C LAS SES trabalho. Mas o problema tinha dois lados: aventu­ ras estrangeiras também podiam distrair a atenção dos conflitos sociais e de classe. com sucesso crescente nas pesquisas: nas eleições alemãs de 1912. levantes e ataques terroristas (como os sindicalistas franceses. ou os conflitos internacionais uniriam? 36 . de um lado. Na Grã-Bretanha. e os agricultores. segundo muitos. que necessitavam de proteção. o trabalhismo também se transfor­ mava em socialismo. Deve ter sido de algum consolo para os conserva­ dores alemães e britânicos perceberem que os trabalhadores em seus paí­ ses geralmente se expressavam pacificamente por meio do voto. Dispu­ tas domésticas ameaçavam todos os países da Europa Ocidental. Isto também antagonizou trabalhadores e industriais. os quais só podiam expandir suas exportações num mundo de co­ mércio livre. em vez de greves. espanhóis e italianos).

hereditária. Esses dois conflitos es­ tavam destruindo o sentido de solidariedade nacional. de vetar a legislação aprovada pela Câmara dos Comuns.ou pelo menos a sua maioria católica romana . o rival era o nacionalismo. à medida que terminava o século XIX e chegava o XX. A crise centrava-se em duas questões interligadas: o orçamento e o poder da Câmara do Lordes. Ela era igualmente sacudida por uma crise constitucional que era também uma crise de classe. Até mesmo os britânicos contraíram a febre.agitava-se violentamente em nome da autonomia ou independência. dilacerado por questões como salário e condições de trabalho indus­ triais. entrando em confronto com os pro­ testantes do Ulster. que se preparavam para pegar em armas a fim de defender a união com a Grã-Bretanha.CAPÍTULO 3: DISPUTA ENTRE NAÇÕES ara o internacionalismo socialista. uma paixão que se tornava crescentemente prioritária nos corações e mentes dos europeus. A Inglaterra eduardiana já era um país surpreendentemente violen­ to. e também pela causa do sufrágio das mulheres. eleita popularmente. A Irlanda . 37 .

Nas universidades. Centrada em Viena. a família Habsburgo casava-se bem. como ocorrera ao longo do século XIX. Era lá que sérvios. tchecos e outros tramavam para minar e destruir o Império Austríaco. quando abrangeu a Espanha e grande parte do Novo Mundo. cafés e esconderijos parcamente iluminados das so­ ciedades secretas e terroristas. Em seu apogeu. os haveres da família Habsburgo com­ preendiam o maior império do mundo. amplos setores do Exército e da facção Unionista-Conservadora parecendo prontos a desafiar a lei e o governo em vista de manter a união com a Irlanda. cidade onde se falava alemão. Haveria uma guerra civil britânica? Na Europa continental. no século XVI. planos eram urdidos por grupos étnicos que aspiravam realizar algo semelhante. socialistas e outros que vivessem e conspirassem na obscuridade da resistência política. Seus 50 milhões de habitantes abrangiam talvez 11 nações ou partes. A Áustria dos Habsburgo. chegou a governar uma coleção heterogénea de territórios e povos —um império multinacional que nunca teve qualquer perspectiva de se tornar um Estado nacional homogéneo. uma remanescência das Idades Médias que até pouco antes fora dirigida pelo Santo Império Romano. como o principal inimigo do naciona­ lismo europeu. foi coroado pelo papa imperador do Império Romano do Ocidente. e com os niilistas. Os nacionalistas estavam em contato uns com os outros. anarquistas. Como imperadores do Santo Impé­ rio. Muitas das suas terras tinham sido originalmente do­ tes trazidos por casamentos com herdeiras territoriais: independente­ mente do que se possa dizer sobre ela. as chamas do nacionalismo ameaçavam incen­ diar e destruir mesmo estruturas que haviam resistido durante séculos. ao longo de um milénio. posto para o qual um Habsburgo quase sempre era eleito desde o 38 . gru­ pos étnicos e climas. Os Habsburgo eram uma dinastia que. Suas raízes recuam ao Natal de 800. restava. As duas grandes novas nações da Alemanha e da Itália haviam sido esculpidas em territórios antes dominados pelos Habsburgo. croatas.DISPUTA ENTRE NAÇÕES O país já estava polarizado com a questão da autodeterminação da Irlanda. a Áustria-Hungria incluía uma variedade de línguas. quando Carlos Magno. o Franco. nos Bálcãs e na Europa Central dos pri­ meiros anos do século XX. O precedente estabelecido pelos Estados Unidos em 1861 era perturbador.

Ele era a crença democrática de que cada nação tinha o direito de tornar-se independen­ te e de governar a si mesma. uma das principais debilidades da ÁustriaHungria é que ela estava situada no que parecia ser o lado errado da história. Em 1871. apenas 10 milhões eram alemães —e um império refratário de povos centro-europeus e balcânicos. dezessete países.dos 28 milhões de habitan­ tes da Áustria.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U século XV até ele ser abolido no começo do século XIX. nos termos do qual ele passou a ser­ vir como imperador da Áustria e como rei da Hungria. o nacionalismo tinha os seus aspectos atávicos. de repente se viu presidindo uma entidade que. um da Fa­ zenda . os Habsburgo dominaram a Europa Central. Abandonado com um núcleo alemão . Mas o que ameaçava derrubá-la era uma força que tampouco era inteiramente progressista. inclusive as suas muitas entidades políti­ cas falantes de alemão . vinte grupos parlamentares. A Monarquia Dual. apenas um monarca.e. mas apenas um ministro das Relações Exteriores.e um espectro de povos e religiões. o governante Habsburgo. Ao entrar no século XX. eles perderam suas possessões italianas para a Itália recém-unificada. um da Guerra. Considerado como filosofia política ou como o seu contrário. Antigo líder dos alemães e italianos da Europa. Mas também era a insistência não-liberal de que os não-membros da nação deviam assimilar-se. o imperador Habsburgo era agora o estranho do ninho. A Europa tornava-se rapidamente um continente de naçÕes-Estado. não era viável A solução que en­ controu em 1867 foi um pacto entre a Áustria e uma Hungria que era governada por sua minoria magiar. tanto do império austríaco como do reino húngaro. vinte e sete partidos” . foram excluídos da Alemanha recém-unificada organizada pela Prússia. Na esteira das revoluções de 1848. O que eles tentavam governar. é claro. Francisco José.e de italiano. nas palavras de um político Habsburgo. ter direitos civis cas­ 39 . o nacionalismo era ambivalente. segundo toda aparência. um tipo de delírio de massa. principalmente eslavos. era um Estado em que a Áustria e a Hungria tinham cada qual o seu próprio Parlamento e primeiro-ministro. era um complexo formado por “oito nações. Os povos governantes eram a minoria de alemães da Áustria e a minoria magiar da Hungria. como foi chamada.

em outras palavras. pois há um século o público desem­ penhava um papel pequeno na formação da política externa. Os britânicos só entraram em choque com a Rússia muito depois de o terem feito com a França. Os grupos étnicos dos Bálcãs forneciam um exemplo óbvio de ódio recíproco. A Inglaterra é um exemplo apropriado.DISPUTA ENTRE NAÇÕES sados. mas países muito mais avançados também mostravam essas tendências. os oficiais britânicos e franceses conspiravam e manobravam uns contra os outros pelo controle do Oriente Médio árabe no pós-guerra. isto sim. os historiadores não são capazes de nos dizer com qualquer grau de certeza o que a população da Europa pensava ou sentia na era pré-1914.. A evidência sugere que o sentimento mais disseminado na Europa na época era a xenofobia: uma grande hostilidade em relação uns aos outros. econô40 . ou até mortos. não faltou para ninguém. ser expulsos.e há quem continue a fazê-lo —que esta era a princi­ pal questão que a Europa tinha para disputar.] representa um sentimento comum e uma reivindicação organizada. O nacionalismo odiava uns como expressão de amor por outros. não havia acordo sobre o que constituía a nacionalidade. mas uma vez iniciada a colisão. A edição de 1911 da Encycbpaedia Britannica caracteriza-o como “termo vago” e observa que “a ‘nacionalidade’[. Mesmo durante a Primeira Guerra Mundial. por cerca de mil anos. de mais uma questão para a Europa disputar. em que os dois países foram aliados. Isto produz uma lacuna no nosso conhecimento. E para aumentar a obscuridade da situa­ ção. Já bem adentrado o século XX. Os dois países se opuseram em cada ponto. Na ausência de uma medição científica da opinião pública por meio de pesquisas. o sentimento antifrancês continuava alto. em vez de atributos distintos que pos­ sam ser compreendidos numa definição estrita”. De modo que não exis­ tia um acordo geral sobre que grupos eram nações e que grupos não o eram. Esteve em guerra com a França intermitentemente desde o século XI .. Não uma lacuna tão grande como seria hoje. Mas a opi­ nião pública tinha alguma significância. no sentido de que os tomadores de decisão a levavam provavelmente em consideração —na medida em que soubessem qual era. Tratava-se. Pensavam alguns .

As questões que os políticos europeus tentavam resolver na aurora do século XX estavam sendo enfrentadas. A história é contada num clássico: The Genesis of Russofobia in Great Britain [A Génese da Russofobia na Grã-Bretanha]. O surgimento e o crescimento de jornais independentes de circulação de massa no século XIX em países europeus como a Inglaterra e a França fizeram pesar ainda uma outra poderosa influência sobre a tomada de decisões. a antagonizá-la. Assim. militar e ideologicamente. Isto aconteceu por uma variedade de razões. A Alemanha começou a existir como Estado em 1871. mas pelo que eram. mas os britânicos começaram a desconfiar da Alemanha e. os britânicos odiavam os três povos que vinham logo depois deles na clas­ sificação das grandes potências: franceses. até os britânicos começarem a se opor aos russos não apenas pelo que eles faziam. política.a idéia foi discutida mais de uma vez nos mais altos escalões -.”1 41 . exaustivamente discutidas no relato definitivo de Paul Kennedy.O ÚL T I MO VERÃO E UR OP E U mica. o imperador alemão escreveu ao rei da Inglaterra em 1901: “A imprensa é terrível para ambos os lados. Fazendo apelo a medos e preconceitos populares para conquistar leitores. ainda que acreditassem ser um povo de mente aberta. The Rise ofthe Anglo-German Antagonism [AAscensão do Antagonismo Angloalemão]. portanto. impossível de calcular precisamente. Sobre a imprensa britânica antialemã e a alemã antibritânica. russos e alemães. de John Howes Gleason. depois. e parecia ser um aliado possível . num contexto em que os povos abrigavam sentimentos hostis e às vezes francamente belicosos. a imprensa parece ter exa­ cerbado o ódio e as divisões entre os europeus.

o Jano ameri­ cano que enxergava para trás e para a frente. que se tornou possível quando Michael Faraday aprendeu como gerar eletricidade. eis a novidade que tornava possí­ vel quase tudo mais. “a que mais se aproximava da revolução de 1900 era a de 310.CAPÍTULO 4: ARMAMENTO DOS PAÍSES do nacionalismo. como pregavam Giuseppe Mazzini e Esperava-se seus discípulos na Europa do século XIX. que trouxesse a paz. Maravilhado com o que viu nas feiras mundiais de Chicago (1893) e Paris (1900). mas “pescoços professorais” já haviam sido “quebrados” umas poucas vezes desde que a Europa começou. historiador e profeta. a identificou. os raios de eletricidade eram algo que Adams achou quase so­ brenatural: “Uma energia como a da Cruz. E o mesmo aconteceu com um desenvolvi­ mento muito mais profundo da época: a revolução da energia. Em vez disso. ele especulou que ela poderia tornar toda a história humana obsoleta. trouxe a guerra. A novidade “desconcertaria os professores”. e dessas poucas vezes. Henry Adams. observou ele. De fato. Energia praticamente ilimitada. quando Constantino instituiu a Cruz”.”1 42 .

eles passaram a olhar para a frente. Henry James. Por que os contemporâneos acreditavam estar evoluindo para um mundo mais pacífico? Como puderam eliminar a hipótese de uma guer­ ra entre as potências européias dos seus temores e de suas mentes? Por que foram pegos de surpresa quando a guerra estourou? Nunca busca­ ram ver o que suas principais indústrias estavam fabricando? 43 .O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U Era natural que Adams fosse otimista. viagens interplanetárias. Então. os homens olhavam para trás.. Wells foram os pioneiros da criação de narrativas de maravilhas científicas e tecnológicas: de máquinas voadoras. o poder explosivo acu­ mulado desenvolvido pela ciência avançada concentrava-se na meta da destruição em massa. vida sob os oceanos.”2 A ciência não tinha tornado o ser humano mais pacífico e civilizado. para uma época de ouro. Antes de o século XIX começar. na primeira guerra entre sociedades industriais modernas do século XX. Um novo tipo de ficção alimentou suas predileções. era filho do século que acre­ ditava que a história fosse a história do progresso. não fosse por isso prometéica. ela traiu esta esperança e em vez disso tornou possível os Exércitos serem mais selvagemente destrutivos do que qual­ quer soldado do passado jamais poderia ter sonhado. Numa carta muito citada.] é uma coisa que trai tão gravemente a longa época durante a qual supomos que o mundo. Só uns poucos perceberam que o lado escuro da histó­ ria. apesar dos percalços. escrita quando estourou a guerra em 1914. o famoso romancista americano residente na Ingla­ terra. para poder vislumbrá-la. estava gradualmente melhorando.. A Europa não estava progredindo na direção de um mundo me­ lhor. O foco sobre todos esses prodígios que o futuro mantinha em esto­ que para uma humanidade de poderes aumentados pode ter sido um pouco exagerado. G. mas sim de um gigantesco desastre. era que a raça humana estava lançan­ do mão das suas extraordinárias possibilidades evocando novos e explosivos poderes de destruição. Europeus e americanos estavam fascinados com as especulações sobre o futuro. Jú­ lio Verne e H. pois. que ter de percebê-lo agora pelo que os anos de ilusão esta­ vam o tempo todo realmente construindo e significando é trágico demais para quaisquer palavras. escreveu: “O mergulho da civilização neste abismo de sangue e trevas [.

acabou tornando todas as grandes potências européias radi­ calmente inseguras. É curioso que o homem das ruas não o tenha percebido com igual clareza na época. depois da revolução de 1905 . os países sabiam dos planos de produção de armamento uns dos outros e conseqúentemente buscavam lançar iniciativas para compensação.eram sociedades relativamente abertas. Todos adaptavam suas exigências de contingente —sua combina­ ção de Exército regular. Em grande parte. o negócio da Europa na nova era industrial tinha se tornado preparar-se para lutar. Retrospectivamente. Como programas militares aprovados por lei agregam cronogramas. mas não dava nenhuma segurança. Schneider e VickersMaxim . talvez a característica mais notável da paisa­ gem internacional pré-guerra fosse a aceleração da corrida armamentista. Tomada isoladamente. A ex­ pansão das forças armadas visava consolidar a segurança nacional. alistamento e reservas de um tipo ou de outro — para pelo menos igualar os níveis dos seus adversários potenciais. cujas análises com certa frequência eram tingidas de alarmismo. a intensa corrida armamentista era o aspecto mais visível da paisagem política da Europa naqueles anos antes da guerra. embora os governos geralmente tivessem pelo menos uma idéia de qual seria a estratégia geral de uns e de outros. 44 . é claro. Estes pla­ nos eram secretos. A economia de guerra européia tornara-se proporcionalmente imen­ sa. caso as hostilidades estourassem. Uma inovação introduzida no século XIX foi que as forças armadas dos respectivos países passaram a preparar rotineiramente planos de con­ tingência contra seus rivais. que obsolesceu todos os navios de guerra existentes. Suas rivais —Skoda. não apenas forçava ou­ tros países a descartar seus esforços e investimentos anteriores. Todas elas —mesmo a Rússia. em que a dotação de fundos pelos Par­ lamentos para fins militares podia ser monitorada pelos Estados rivais. mas em vez disso minou-a: a corrida armamentista. Creusot. impulsionada pelo medo recíproco.também eram gigantescas.A R M A M E N T O DOS PAÍSES Ao olharmos para trás. a fábrica de armamentos alemã Krupp era o maior negócio da Europa. mas ex­ punha-os ao risco de ficar expostos aos inimigos ao longo do tempo necessário para equiparar-se. Uma realização tecnológica como o desenvolvimento pelos britânicos do encouraçado Dreadnought. A com­ petitividade inflexível produziu o oposto do que era pretendido.

Ainda que preferisse permanecer neutra. impulsionado pela corrida armamentista e alimentando a si mesmo. como afirmou o secretário bri­ tânico das Relações Exteriores. mas as etapas iniciais da guerra específica que elas estavam em vias de empreender. apesar de eles ainda alimenta­ rem reivindicações territoriais contra a Áustria. Sir Edward Grey. quando Berlim soube. As várias crises bélicas do começo do século impeliram as grandes potências a iniciar conversações de Estado-maior conjunto com as for­ ças armadas dos seus aliados. Tenha ou não a aceleração da corrida armamentista das grandes potências tornado o conflito inevitável. For­ neceram uma boa indicação de quem ficaria em que coligação: Alema­ nha e Áustria fechariam questão. Essas conversa­ ções conjuntas não comprometiam os governos europeus num sentido formal. tendo como centro a possibilidade de uma guerra com a Rússia.e não de qualquer guerra. enquanto a Grã-Bretanha decidiu apoiar a França e a Rússia. Discussões secretas de Marinha e Exército entre a Grã-Bretanha e a França em 1905-1906 e 1911 examinaram as respostas a dar a um eventual ataque da Alemanha. conversações semelhantes foram iniciadas pelos chefes dos Estados-maiores alemão e austro-húngaro. Em 1908-1909. os governos da Euro­ pa de algum modo deram um gigantesco passo adiante no caminho que levou a 1914. Esta tinha vínculos estreitos com a Áustria-Hungria e também era aliada dos pouco confiáveis italianos. reunidas pela ameaça comum da Ale­ manha.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U Não havia grandes mistérios sobre quais seriam os potenciais ini­ migos. de algum modo as grandes potências da Europa precipitaram o evento ao engajarem-se em verdadeiros ensaios gerais de guerra . O gabinete britânico autorizou conversações secre­ tas entre as Marinhas da Grã-Bretanha e da Rússia em maio de 1914. a se aproximar da França e . mas ao transformarem a teoria em prática. a França e a Rússia eram sabidamente aliadas. pelo cresci­ mento das ambições alemãs. a Grã-Bretanha estava sendo premida. que estava fazendo a Europa chegar perto do 45 . elas realmente definiram a guerra iminente.no interesse da França —da Rússia. Produziram um roteiro que de fato teve de ser seguido. Apesar das suas diferenças ideológicas de fundo. a Alemanha ficou aterrorizada. E conforme aconteceu.3 Era o medo recíproco.

general alemão a quem foi atribuída a concepção. chefe do Estado-maior alemão. reprimida durante as quatro décadas artificialmente longas de paz entre as grandes potências. A nova doutrina francesa era de que o aspecto moral era a chave da vitória. Nisto. que deliberadamente estavam manobrando seus países para a guerra a fim de desviar a atenção de problemas domésticos que pareciam inso­ lúveis? Ou estariam alguns governos implementando políticas agressivas ou perigosas a que eles próprios sabiam que outros países seriam obriga­ dos a se opor pela força das armas? Qualquer tenha sido a razão. por meio da espionagem dos serviços de inteligência. de novas informações sobre os planos inimigos. que agora ameaçava explodir? Ou eram os governos.”4 Os planos de guerra foram examinados e alterados à luz da experiência obtida em exercícios de guerra. ao chance­ ler civil num memorando datado de 2 de dezembro de 1912: “Todos os lados estão se preparando para a Guerra Européia. pois na véspera da guerra modificou seus planos à luz de uma filosofia em voga.força vital . A opção de enfatizar o aspecto moral em vez do material parecia confirmar-se na filosofia de Henri Bergson (18591941). como disse Helmuth von Moltke. a que figuraria mais amiúde no pensamento ulterior sobre a guerra seria o esquema que tomou o nome do conde Alfred von Schlieffen. "Algumas fontes fornecem 1831 como sua data de nascimento. Tais concepções se prestavam à glorificação do ataque . que via no élan vital.a energia que propelia a evo­ lução. da prudência —e isto se manifestou no viés ofensivo que muitos criticariam posteriormente no Plano XVII. De todas as estratégias examinadas previamente pelos chefes militares das potências européias. Tratava-se de concepção decorrente dos ensinamentos dos oficiais Ardant du Picq (1821-70)* e Ferdinand Foch (1851-1929). que todos os países esperam para mais cedo ou mais tarde. o plano organizacional e estratégico adotado pela França em maio de 1913. talvez. como muitos iriam di­ zer. Eles foram atualizados conforme a mu­ dança das circunstâncias e pela obtenção. 46 .às expensas.A R M A M E N T O DOS PAÍSES limite? Ou era a agressividade congénita. a França foi extraordinária.

o Grande Estado-maior funcio­ nava como cérebro e centro nervoso do Exército.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U Schlieffen (1833-1913) serviu como chefe do Grande Estado-maior ale­ mão de 1891 a 1906.5 A partir de 1879. esta possibilidade correspondia ao pesadelo da Alemanha de se ver cercada: o “oriente eslavo e o ocidente latino contra o centro da Europa”.. ele era uma figura solitária de poucas ambições profissionais.pela ameaça alemã. nas palavras de Helmuth von Moltke —conhecido como Moltke. e a Rússia. o Grande Estado-maior imaginou um conflito em que o inimigo consistia numa coalizão formada pela França. uma tirania atrasada. e seu sucessor. Em sua primeira guerra hipotética após a unificação em 1871. então chefe do Estado-maior. Tratava-se de uma estratégia moderada. para distinguir-se dos Estados-maiores dos outros Estados da confederação alemã: Bavária. Foi nomeado apesar da sua falta de experiência de com­ bate.contra toda a probabilidade . planejaram promover uma guerra limitada contra a Rússia. 47 . mas apenas quando seria. Reunidas . enquanto guerreavam com a Fran­ ça com o objetivo de negociar a paz em termos favoráveis. Corpo de elite de cerca de 650 oficiais.decorria da inépcia dos líderes do país em polí­ tica externa. que obrigas­ se o tsar a buscar a paz rapidamente. Era um oficial sarcástico cujo monóculo retorci­ do o fazia parecer uma caricatura de oficial prussiano. o conde Alfred von Waldersee. o Velho. O conde Schlieffen assumiu a chefia do Estado-maior em 7 de fe­ vereiro de 1891. Os sucessivos chefes do Grande Estado-maior não se perguntavam se a guerra ia acontecer. Saxônia e Wurttemberg. visando alcançar uma posição mais vantajosa. Moltke. Mas ela realmente significava dividir forças para lutar com ambos os inimigos ao mesmo tempo. pois a França era uma democracia avançada. “o Velho” . o planejamento alemão sempre pensou uma guerra contra a França e a Rússia: combinação improvável no campo ideológico. em 1894 a França e a Rússia acabaram formando uma aliança. De todas a mais perigosa. nos termos do acordo de aliança firmado com a Áustria-Hungria. de espírito defensivo. a Áustria-Hungria e a Rússia. e os planos de guerra alemães deixaram de ser hipotéticos. O difícil desafio que enfrentavam —como vencer uma guerra de duas frentes . O Estado-maior do Exército prussiano era chama­ do de “Grande” desde 1871. Desde a morte da esposa.

os russos estavam armando Exér­ citos e construindo estradas de ferro num ritmo rápido. a única maneira prática de a Alemanha atacar a França era através do território neutro da Bélgica. separadamente. Winston Churchill estava a par. Punha-os ao trabalho anualmente. Por outro lado. Sob sua su­ pervisão. 14 contra a Rússia e 19 contra as duas juntas. testando e reelaborando planos de desdobramento de tropas à luz do que aprendia nos frequentes exercícios de guerra e cavalgadas no terreno.parecia ser uma estratégia arriscada para uma Alema­ nha cujos números eram inferiores. os russos podiam retirar-se para o interior quase sem fim do seu vasto país: não podiam ser vencidos com um ataque rápido. que ele acreditava estar chegando: 16 contra a França. Lidar com a Rússia primeiro não parecia prático. tinha-o sabido por meio de um informe confidencial do Comité Britânico de Defesa Imperial. o Estado-maior preparou 49 diferentes planos estratégicos to­ tais para a guerra européia. Além disso. Uma delas . diretor de operações militares do Ministério da Guerra. desde 1905 Schlieffen não tinha boa opinião sobre as capacidades dos militares russos. Um certo número de fatores sugeria a estratégia de combater pri­ meiro a França. Schlieffen compôs um memorando informal resumindo para seu sucessor como a invasão da França através da Bélgica deveria ser levada a cabo. As razões tinham sido explicadas ao comité pelo general-de-brigada Sir Henry Wilson. Alguns oficiais do alto comando francês percebiam isso. mesmo derrotados. Isto quer dizer que o memorando não era de fato uma pro­ posta? Que na verdade não passava de uma demonstração no papel de que a Alemanha precisava de um Exército maior do que o que o Minis­ tério da Guerra estava propenso a reunir? Tratar-se-ia de um documen­ to destinado a convencer o Ministério da Guerra a mudar de idéia? O 48 . e para a opinião militar. a Alemanha tinha essen­ cialmente três escolhas. a cada minuto tornavam-se oponentes mais formidáveis. decisivo. No caso de uma guerra nas duas frentes. O memo­ rando supunha que a Alemanha tinha noventa divisões à disposição para o hipotético ataque . em 1911. Na GrãBretanha.A R M A M E N T O DOS PAÍSES Schlieffen conduzia o que seria quase uma universidade para os oficiais sob seu comando.lutar contra a França e a Rússia ao mesmo tempo . Ao final do seu mandato como chefe do Estado-maior.num momento em que apenas setenta estavam disponíveis.

a caminho de uma vitória decisiva a leste daquela cidade: uma vitória sobre um Exército francês àquela altura in­ teiramente cercado. 49 . nos Arquivos Nacionais. os generais sobreviventes da Alemanha afirmaram que a guerra havia sido perdida apenas porque colegas mortos tinham deixado de seguir ao pé da letra um suposto plano secreto de Schlieffen. Hoje nós temos recursos críticos que não estavam disponíveis para as gerações passadas. e esta é provavelmente a me­ lhor maneira de encará-lo. serviu como roteiro. o que quer possa ter acontecido.C. não era um plano. para então guinar e penetrar até Paris. foram descobertos em Washington. como se o governo de Berlim estivesse preso nas garras do seu próprio plano secreto imutável. e agora no XXI. o memorando Schlieffen de 1905. Após o final da Primeira Guerra Mundial. É possível examiná-lo em seu contexto por meio da leitura de uma coletânea dos escritos militares de Schlieffen. Ao longo de todo o século XX. lucidamente secundada em 2001 por John Keegan. Não era operacional. os historiadores têm debatido as consequências do assim chamado plano Schlieffen.O ÚL T I MO VERÃO E UR OP E U que quer tenha sido. Mas hoje nós podemos ver que todos esses rela­ tos são distorcidos. Seu rígido cronograma teria supostamente obrigado a Alemanha a iniciar a guerra quando e como ela iniciou. D. que teria se mostrado um verdadeiro guia para a vitória. Foley. para lidar com a Rússia. e o Exército ale­ mão seria então transferido para o leste. Ele não entrava em detalhes e não emitia ordens. Documentos de Schlieffen.. Toda a manobra seria questão de semanas. recém-publicada em tradução inglesa por Robert T. Após a pesquisa pioneira de Gerhard Ritter nos anos 1950. Em grande parte. em 1953. a sua alegação foi aceita. O curso dos acontecimentos no verão de 1914 é frequentemente descrito como um exemplo de automação. tornou-se claro que. envolvendo o oeste da França. A França seria destruída para sempre como grande potência. com seu suplemento de 1906. Os memorandos de Schlieffen de 1905-1906 continuam a ser objeto de intensa controvérsia. O plano supostamente chamava quase todo o Exército alemão a constituir um braço direito — um flanco direito —que avançaria sobre as costas holandesa e belga e depois cairia rapidamente. levados pelos america­ nos.

em 1911. Baseado em material de arquivo que ele nos diz nunca ter sido utilizado. Luxemburgo e França. e nem seus planos e idéias.A R M A M E N T O DOS PAÍSES Outro desafio —lançado enquanto o presente livro estava sendo escrito —é a publicação de Inventing the Schlieffen Plan [Inventando o plano Schlieffen]. Toda esta suscitação de inimigos foi assumida em função de uma estratégia que. Nova Zelândia. pois foi durante o mandato de Moltke que o documento operacional —o verdadeiro plano de invasão da França . a guerra alemã numa guerra européia que resultaria numa guerra mundial. a Alemanha realmente invadiu a França através da Bélgica. em segundo. igualmente.foi promulgado. Porém. começaria inva­ dindo Bélgica. a invasão foi conforme. ao que deveria ser chamado de plano Moltke. Moltke indicou em suas notas que concordava que a França devia ser invadida através da Bélgica. Examinando os memorandos de Schlieffen cerca de cinco anos mais tarde. Em primeiro lugar. E também transformava. Se a Alemanha atacasse a Rússia.6 Schlieffen considerou violar a neutralidade do Luxemburgo. automaticamente. No contexto da política externa da Alemanha pós-1890. Ambas as razões eram boas para res­ peitar a neutralidade holandesa. em vez disso. possivelmen­ te incluindo o aliado britânico no Pacífico. É claro. Zuber argumenta que mesmo os memorandos que dizemos materializarem a proposta de estratégia de Schlieffen não expressam as estratégias por ele realmente propostas. A decisão exerceu uma es­ pécie de efeito multiplicador nas desavenças alemãs. Moltke. trazendo-os assim para a guerra. criava a própria coalizão cir­ cundante que os alemães professavam temer. como o memorando de Schlieffen imaginou que faria. “nunca alcançou a forma final perfeita que às vezes lhe foi imputada”. e além dela a índia. o Japão. da Bélgica e da Holanda ao invadir a França. a resistência armada holandesa poderia fazer pender a balança contra os invasores. e outros também. Austrália. e também a Grã-Bretanha. com mais exatidão. a desen­ volver-se uma guerra de atrito. mesmo nas palavras de um estudioso que acredita na exis­ tência do esquema Schlieffen. de Terence Zuber. decidiu deixar a Holanda em paz. 50 . Africa do Sul e Canadá. a Alemanha necessitaria de uma Holanda neutra como rota de suprimento.

o cáiser era o chefe militar supremo. Na federação alemã unificada que a Prússia havia organizado numa única potência nas guerras das décadas de 1860 e 1870. Imediatamente abaixo dele. o Gabinete de Guerra e o Grande Estado-maior. significando que. as forças alemãs teriam tomado Liège antes sequer de o inimigo ficar sabendo que a guerra o alcançara. a Alemanha sozinha poderia não ser capaz de repelir um primeiro ataque da Rússia. No Exército imperial alemão. Assim. Porém. Posteriormente —no verão de 1914 —. Moltke não autorizou sequer outros líderes militares alemães a tomarem conhecimento da informação —e civis menos ainda. Ele tinha o poder de declarar guerra ou fazer a paz . A rapidez crescente com que a Rússia se mostrou capaz de mobilizar-se e o fortalecimento das suas forças armadas.o líder civil da Alemanha —. buscando assim identificar-se com o serviço militar e consequentemente indicar onde ele.enquanto conseguisse obter a contraassinatura do chanceler. Tudo isto só seria possível em completo segredo. não chegava a representar um real contrapeso ao poder do monarca. Consequentemente. Este fator será chave para entender a crise de julho de 1914. Otto von Bismarck usava uniforme militar. havia três diferentes órgãos que às vezes com­ petiam entre si: o Ministério da Guerra prussiano. outro ponto assumiu grande im­ portância. que poderia ser dominado pelas fortificações belgas em Liège. Como chanceler . que havia criado o novo Estado e era o autor da sua constitui­ ção. as forças arma­ das desempenhavam um papel desproporcionalmente grande e —através disso —também o rei da Prússia. Seria um corredor de cerca de 20 quilómetros de largura. como o chanceler era nomeado pelo cáiser e de sua serventia. 51 . Seus titulares também eram nomeados pelo imperador. confiando na surpresa total e em velocidade máxima. acreditava estar baseado o poder. mas não totalmente. Ela teria de chamar a ÁustriaHungria para ajudar. Suas funções eram separadas. que servia não apenas como imperador alemão mas também como chefe militar. mas às vezes se sobrepunham. em caso de guerra. uma das consequências de fazer esta opção era estreitar a rota de invasão através da qual as forças alemãs deveriam deslocar-se.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U Entretanto. Poderes quase ditatoriais estavam investidos na figura do cáiser em termos de guerra e paz: quase.

que. Num trabalho recém-publicado. de assumir o poder total. era “seu companheiro constante”.toda a responsabilidade de lidar com os Exércitos do tsar. Ambos os chefes de Estado-maior. mas seria pre­ ciso mais do que o seu intelecto um tanto comum para suspeitarmos que Fausto tivesse alguma relevância em relação à tentativa que a Prússia estava fazendo. se continham e deixaram de confiar inteiramente um no outro. se tornou o general cujas vitórias criaram a Alemanha moderna. isso acabou transpirando. Moltke trabalhou com seu colega austríaco. que quando jovem era uma “figu­ ra militar alta e vigorosa” e que “suas maneiras agradáveis e interesses culturais variados fizeram dele um candidato atraente”.sozinha . Sua candidatura não haveria de ser arranhada por ele ser sobrinho do grande Moltke . a Áustria e depois a França. O sobrinho sabia o que devia ao nome do tio. por sua vez.9 Considerando que a Áustria era de importância vital para seus planos.Moltke.7 Nascido na Prússia Oriental. 52 . visando consolidar a aliança austro-alemã. como ficou conhecido posteriormente . Moltke não revelou a extensão da sua necessidade da assistência da Áustria para responder ao ataque inicial da Rússia que ele esperava. tocasse violoncelo e se interessasse por temas espiri­ tualistas. Conrad. ao derrotar a Dinamarca. parcial­ mente baseado em fontes primárias até então desconhecidas. nos diz que ele “foi amigo do cáiser bem como seu ajudante por longo tempo”. Embora pintasse.A R M A M E N T O DOS PAÍSES Dizia-se frequentemente. Na ocasião da sua nomeação para o Estado-maior. suas opiniões militares e políticas eram convencionais. a biógrafa de Moltke. de Goethe. ele perguntou a Guilher­ me: “Sua majestade acredita que vai ganhar o primeiro prémio duas vezes na mesma loteria?”8 Grande e pesado. Moltke vinha do celeiro certo.. Ele teve êxito em restaurar a simpatia numa relação que havia sido desgastada. Annika Mombauer. o Velho. não ad­ mitiu que a Áustria ia se concentrar em destruir a Sérvia e esperar que a Alemanha assumisse . Franz Conrad von Hõtzendorf. ele tinha 54 anos na época da sua nomeação. que ele havia sido escolhido porque Guilherme gostava dele. após a nomeação do jovem Moltke para a chefia do Grande Estado-maior em 1906. Diz-se que Fausto. o comandante dos Exércitos de Bismarck. na sua época.

que a aliança com a Áustria era absolutamente central para a Alemanha e tinha de receber prioridade máxima. três países que tinham feito um pacto de amizade recíproca —estava fadada a eclodir não muito depois de 1916 ou 1917. tanto pelo que fez como pelo que deixou de fazer. Moltke a queria mais cedo. que conseqíientemente estava em posição de fazer ouvir suas opiniões. que a civili­ zação européia chegasse ao fim.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U Até há pouco. Como favorito do cáiser. a opinião corrente entre os estudiosos. era de que Moltke era inadequado. Certo de que a guerra aconteceria.Grã-Bretanha. mesmo temendo. Moltke foi uma figura de considerável significância. Moltke tomou a iniciativa de duas proposi­ ções: primeiro. 53 . especialmen­ te na Alemanha. em vez de mais tarde. A publicação da biografia de Mombauer iria mudar esta visão. Ele a desejava. França e Rússia. fraco e de pouca importância. e segundo. como muitos dos seus colegas. a Alemanha perderia a guer­ ra se não lançasse um ataque preventivo imediatamente. como a guerra contra a Tríplice Entente .

as quais não lograram alcançar os sonhos que encarnavam. Revo­ luções não realizadas e revoluções traídas deixaram a Europa frustrada. A estréia do balé A Sagração da Primavera. mas numa civilização em que se acreditava amplamente que somente a destruição podia trazer a regene­ ração. é frequentemente considerada o símbolo da rebelião nietzschiana em to­ A 54 . Nietzsche bradou em Assim Falava Zaratustra que “Deus está morto!”. ativamente ocupadas em planejar a destruição uma da outra. escolheu a Suíça e a Itália para morar. sua mensagem fez vibrar a corda em muitos países. Convenientemente. em­ bora assistemático.C A PÍT U LO 5: PROFECIAS DE ZARATUSTRA maior corrida armamentista que o mundo jamais conheceu foi empreendida não apenas entre nações hostis. Apesar de ser alemão.a quebrar coisas. Nietzsche pregava os valores do irracional. Rejeitando os valores herdados da Europa. de Stravinsky-Nijinsky. O profeta da época era o filósofo poderosamente eloquente. não uma figura pa­ roquial alemã. em Paris. em 29 de maio de 1913. Friedrich Nietzsche (1844-1900). no Théatre des Champs-Elysées. Era uma figura européia. A Revolução Francesa de 1789 prenunciou um século de revolu­ ções. e disposta —segundo Nietzsche .

O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U das as artes. e pelo menos alguns grupos entre eles sentiam necessidade de mudanças radicais. quaisquer pudessem ser as consequências.. acolheram bem a guerra como uma libertação do materialismo.1 É possível vê-lo em coisas muito distantes da políti­ ca internacional —no movimento artístico chamado futurismo. Na realidade. P. de classe. Pode ser que a sensação de frustração européia —a sensação de impasse na vida. étnica e nacional. que a Europa concentrava suas atividades principalmente numa corrida armamentista vertiginosa de esca­ la nunca vista. como se estivessem inconscientemente cansados de paz e segurança. tecnológica e indus­ trial. nas mi­ litantes sufragistas [. a poderosa e dinâmica Alemanha tinha feito arranjos estratégicos tais que. os europeus glorificavam a vio­ lência. de um modo que não tinha estado antes.uma celebração pagã com dissonâncias ensurdecedoras . na arte e na política —tenha levado a um sentido vio­ lento de renúncia. Taylor: “A mente dos homens parecia estar no limite nos últimos dois ou três anos antes da guerra. de força motriz quase ilimitada.” Nos primeiros anos do século XX. e que. Como escreve J. Os homens queriam a violência pela violência.. 55 . que a violência era endémica a serviço da rivalidade económica. a mudança domi­ nava a Europa num ritmo mais acelerado do que nunca —muito mais rápido do que a Europa sabia como lidar. no centro dos assuntos continentais. Multidões em fúria contra o balé . que estava transformando quase tudo. Histeria e arrebatamento pareciam estar na ordem do dia. se entrasse em guerra. política.] na tendência da classe trabalhadora na direção do sindicalismo. levaria quase toda a Europa e boa parte do restante do plane­ ta numa guerra contra ela ou a favor dela. O ânimo nietzschiano europeu parece ter desempenhado algum tipo de papel em tornar a Grande Guerra possível. Uma visão panorâmica da Europa entre os anos 1900 e 1914 mostraria principalmente que o con­ tinente corria adiante numa revolução científica. de deixar-se ir: a percepção de que o mundo tinha de ser explodido.gritaram seus protestos contra o que consideravam uma selvageria exaltada ocupando o lugar da civilização. Em todo o espectro da existência. a civilização européia estava desmoronando mesmo antes de a guerra destruí-la.

“Até agora nenhuma nação pôde manter seu lugar no mundo.” Ele argumentou: “A covardia numa raça. é um pecado imperdoável..] terá perdido o direito altivo de permanecer como igual entre os melhores. Fre­ quentemente. Desde o desenvolvimen­ to das armas de destruição em massa. Seria um erro. então [. se estourasse uma guerra entre as grandes potências. a ONU. no momento em que uma raça perde as inflexíveis virtudes do combate. e o coro de aprovação da imprensa em todos os Estados Unidos deixou claro que Roosevelt não estava falando somente 56 . todos sairiam perdendo. não sobreviveria a um conflito de tal monta. mas até que assim fosse. Hoje em dia. A raça humana. a guerra continuaria a ser necessária. Dirigindo-se à Escola de Guerra Naval em 1897. Nossa institui­ ção internacional mais importante. esta é a nossa hipótese implícita.P RO F E C I A S DE ZA RA TUS TR A Dadas essas condições. ou pôde fazer realmente valer qualquer esforço.. dizem-nos. é definida como organiza­ ção promotora da paz porque a principal razão pela qual os países da Terra se reuniram é evitar a guerra.”2 A guerra. dizemos. mas apenas que extraordinárias habilidades teriam sido necessárias em 1914 para continuar evitando-a. assim como num indivíduo. recém-nomeado secretário as­ sistente da Marinha na nova administração do presidente estadunidense William McKinley. não se responde sozinha a pergunta “Como pôde a guerra estourar num mundo tão pacífico?”. é algo puro e sau­ dável: “Todas as grandes raças dominadoras têm lutado com outras ra­ ças. contudo.” Algum dia as cir­ cunstâncias podem ser diferentes. disse ele. acredita-se que governos queiram manter a paz. supor que os líderes mundiais teriam par­ tilhado dessa opinião há um século. Roosevelt afirmou: “Nenhum triunfo da paz é tão formidável quanto os supremos triunfos da guerra. declarou ele.” O discurso foi reproduzido integralmente em todos os jornais ame­ ricanos importantes. Não seria mais perti­ nente perguntar como poderiam os políticos ter continuado a evitar a guerra por mais tempo? Como conseguiram manter a paz por tanto tem­ po? Isso não quer dizer que a guerra não poderia ter sido evitada. Seu pensamento na época foi bem expresso no que ficou conhecido como “o primeiro grande discurso” na carreira política de Theodore Roosevelt. a menos que estivesse pronta a defender seus direitos com um braço armado.

Alguns às vezes achavam . chefes de Estado e de governo argumentariam que a honra do seu país os obri­ gava a entrar na refrega. se pudesse voltar do campo de batalha como herói de guerra. Ele vivia num mundo em que a guerra era considerada desejável —e mesmo necessária. As poucas dúzias de líderes que de fato discutiam e decidiam esses assuntos viviam num mundo próprio. Nos conflitos de 1914.3 E também. Na visão pessoal de Conrad. em que solici­ tou a declaração de guerra contra a Alemanha. era outro líder a expressar frequentemente sua opinião de que a guerra era “o princípio básico por trás de tudo o que acontecia nesta Terra”. e seu imperador octogenário Francisco José. A busca da “honra” era um tema recorrente naquele tempo. sua amante poderia ser convencida a dei­ xar o marido rico. o presidente estadunidense Woodrow Wilson usou o conceito em seu discurso ao Congresso em 1917. era a chave para o sucesso pessoal. 57 . outro . e por muitos artistas e intelectuais. um mundo em que guerras e sol­ dados eram glorificados.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U em seu nome. mesmo que o mais provável fosse perder. Essas opiniões . por outro —não eram necessariamen­ te compartilhadas pelas massas. Franz Conrad von Hõtzendorf. chefe do Estado-maior das forças arma­ das da Monarquia Dual.defendidas por soldados e aristocratas por um lado. Mas o público não de­ sempenhava nenhum papel nas decisões de guerra-e-paz: decisões que ele sequer sabia que estavam sendo tomadas a portas fechadas. incluindo trabalhadores. a nobreza de um guerreiro conquista o amor das mulheres e a aclamação dos homens. agricultores e as classes comerciais e médias amantes da paz. e nutria a crença de que.Conrad era um deles. conforme ele entendia. Ele mantinha um caso amoroso com uma mu­ lher casada.que deviam levar seu país à guerra em razão do seu código de honra.

não era raro um diplomata estar a serviço de um país estrangeiro: um alemão ou um córsico. Foi um período longo. De fato. eles eram uma espécie de família estendida: monarcas e aristocratas que a Revolução Francesa não conseguiu varrer. em muitos casos. é verdade — um austríaco. o conde de Stainville. Certa feita —muito tempo antes. servir como ministro das Rela­ ções Exteriores da Rússia. A con­ dução das relações exteriores era a sua vocação compartilhada. de cultura e. mas também o seu caráter e a sua perspectiva. Pode-se ao menos argumentar que não foi apenas a habilidade dos políticos da Europa que tornou esta realização possível. eles às vezes tendiam a pôr o bem-estar da Europa como um todo à frente do seu próprio país. Cosmo­ politas e sem inclinações preconceituosas. Eram ligados por laços de educação. de sangue. eles conservaram suas posições e seus sistemas ao longo de todo o século XIX. Formados pela tolerância e pelos valores do século XVIII. por exemplo. a paz prevaleceu entre 1871 e 1914.C A P ÍT U L O 6: ALINHAMENTO DIPLOMÁTICO ntre as grandes potências da Europa. foi adido cultural de Viena em Paris ao mesmo tempo que seu filho era adido de Paris em Viena. 58 . Em grande parte.

O Ú L T I M O VERÃO E UR OP E U

Hans Morgenthau (1904-80), o grande teórico das relações inter­
nacionais do século XX, descreve a maneira como as coisas se passavam
em termos que exsudam nostalgia:
Nos séculos XVII e XVIII, e em menor grau até a Primeira
Guerra Mundial, a moralidade internacional era uma preocupação
pessoal do soberano —isto é, de um certo príncipe individual e seus
sucessores —e do grupo relativamente pequeno, coeso e homogé­
neo de governantes aristocratas.1 O príncipe e os governantes aris­
tocratas de uma nação particular estavam em contato íntimo
constante com os príncipes e governantes aristocratas das outras
nações. Eram unidos por laços de família, uma língua comum (o
francês), valores culturais comuns, estilo de vida comum, e convic­
ções comuns sobre o que um cavalheiro estava ou não autorizado a
fazer em suas relações com outros cavalheiros, tanto em sua casa
como numa nação estrangeira.
Em outras palavras, eles jogavam o jogo da política mundial como se ele
tivesse regras. A perda dos valores aristocráticos e o enfraquecimento
dos laços foram o que tornou possível o comportamento de alguns polí­
ticos em julho de 1914.
Na nossa era democrática, tendemos a esquecer a importância do
papel que continuou a ser desempenhado por reis e imperadores, e pela
aristocracia hereditária, há tão pouco tempo quanto um século, não ape­
nas por seus valores e códigos de conduta, mas por eles próprios. Isto
nos foi lembrado por um estudo que acaba de ser publicado, Royalty and
Diplomacy in Europe, 1890-1914 [Realeza e diplomacia na Europa, 18901914], de Roderick R. McLean. Amizades pessoais entre monarcas po­
diam ajudar a aproximar países. O oposto também podia ser verdade.
Ambas as possibilidades puderam ser vistas em exercício no relaciona­
mento ambivalente entre os dois mais poderosos imperadores continen­
tais, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha. Cada um deles
podia exercer poderes quase absolutos em seu país em matéria de guerra
e de paz.
59

AL INHAME NTO DI PLOMÁTICO

O tsar Nicolau II ascendeu ao trono russo no final de 1894 e foi
coroado no ano seguinte. Dócil e inexperiente, pouco antes ele havia
sido descrito como inadequado por seu pai: “Não passa de um menino,
cujo julgamento é infantil.”2
O cáiser Guilherme II empreendeu guiar seu jovem parente na sel­
va da política mundial. Havia quase uma década de diferença de idade
entre ambos. Além disso, Nicolau era hesitante e Guilherme era assertivo.
O jovem tsar era tão educado que o cáiser sempre achava que ele estava
concordando, mesmo quando não estava. Guilherme iniciou uma cor­
respondência secreta com ele que durou quase duas décadas. No come­
ço, Nicolau gostou.
Em 1896, os dois imperadores se encontraram para uma conferên­
cia em Breslau, no que hoje é a Polónia. Acordos foram facilmente cele­
brados. Mas o desejo de Guilherme de tutelar e dominar fez Nicolau se
voltar contra ele. A partir de então, o tsar passou a olhar para o cáiser
com uma antipatia que beirava a hostilidade. Nicolau decidiu que que­
ria interromper sua correspondência. Ignorando o desejo de Nicolau,
Guilherme continuou a lhe escrever por mais oito anos. Ocasionalmen­
te, os dois líderes promoviam encontros. Depois de um deles, em 1902,
Nicolau comentou: “Está louco desvairado!”3
De tempos em tempos, o cáiser realmente parecia exercer alguma
influência; ele pode ter desempenhado um papel convencendo o tsar a
envolver seu império na guerra contra o Japão (1904-05), guerra esta
que se mostrou desastrosa. O mais das vezes, contudo, Nicolau preferia não
ver nem ouvir falar do seu cansativo parente. E nisto ele não estava só.
A rainha Vitória, avó do cáiser, preveniu Nicolau contra o procedi­
mento “pernicioso e desonesto” de Guilherme.4 Ao seu primeiro-ministro,
Vitória descreveu Guilherme como um “jovem cabeça-quente, presun­
çoso e obstinado”. Ela não convidou Guilherme para o seu jubileu de
diamante (1897) ou para a celebração do seu octogésimo aniversário
(1899). Na sua versão da história, Guilherme descreve a si próprio como
o neto favorito.
Apesar de todos os defeitos do imperador, ele era um parente con­
sanguíneo e como tal era tratado. Esta solidariedade entre primos foi um
sentimento que contribuiu para a paz e a estabilidade entre o tsar e o
cáiser. McLean nos diz: “Até pelo menos 1908, ambos os monarcas con­
60

O ÚL T I MO VERÂO E U R OP E U

tinuavam convencidos de que um não ia empreender atos hostis con­
tra o outro.”
Esses relacionamentos pessoais tiveram um papel na história de
como a Europa conseguiu não ter nenhuma guerra entre as grandes po­
tências nos anos inaugurais do século XX. Em última análise, todavia, os
laços de família não lograram fazer relaxar as tensões crescentes entre as
potências. Sem dúvida, seria preciso uma estadística de alto nível para
guiar os países da Europa por entre as questões explosivas com as quais
eles tinham de lidar. Era como andar em campo minado.

61

PARTE D O IS

ANDANDO EM CAMPOS MINADOS

C A P ÍT U L O 7: A QUESTÃO ORIENTAL

esde o começo do século XIX, os políticos da Europa —o punhado
de primeiros-ministros, secretários das Relações Exteriores e oficiais
de chancelaria que lidam com as arcanas questões da política externa —
estavam convencidos de que sabiam como o seu mundo ia acabar (em­
bora não soubessem quando). A guerra entre as grandes potências in­
dustriais avançadas, acreditavam eles, seria provocada pela desintegração
do Império Otomano, pois os seus vastos e valorosos territórios excita­
vam os instintos predatórios dos impérios expansionistas europeus.
Houve um tempo, séculos atrás, em que os turcos dominaram não ape­
nas o Oriente Médio, mas também grande parte da África do Norte e da
Europa balcânica - em toda a sua extensão até os portões de Viena.
Então, contudo, as forças atrasadas e desmoralizadas do sultão estavam,
embora lentamente, em plena retirada diante dos cristãos. A “Questão
Oriental” —que potências européias tomariam para si, especificamente,
a Europa do Sudeste - era vista comumente como a controvérsia de
longo prazo mais explosiva da política internacional. “Um dia, a grande

D

65

A Q U E S T Ã O O R I EN T A L

Guerra Européia há de estourar por causa de alguma maldita bobagem
nos Bálcãs”, comentou-se ter Bismarck dito no final da sua vida.
Temendo o cataclismo, com suas consequências incalculáveis, a
Grã-Bretanha tradicionalmente evitou enfrentar a questão, apoiando o
decadente império turco. Do lado oposto, a Áustria, com a adesão pos­
terior da Rússia, implementou políticas expansionistas às expensas do
sultão, visando uma eventual partilha dos domínios otomanos.
E como muito frequentemente acontece quando o mundo político
centra a sua atenção numa ameaça particular, a ameaça em questão não
se materializou; o perigo foi evitado. Ao longo do século XIX, um povo
cristão após outro se libertou dos grilhões do domínio otomano sem ser
absorvido por nenhuma grande potência. Ao cabo da primeira década
do século XIX, Roménia, Bulgária, Sérvia, Montenegro e Grécia tinham
todos, pelo menos de fato, se tornado países livres. Eram nações belige­
rantes, às vezes rivais agressivos; e cada uma delas definiu seu próprio
curso nos assuntos mundiais. Cobiçavam os territórios que restavam aos
turcos na Europa. No começo do século XX, Constantinopla tinha mais
a temer desses Estados locais do que das grandes potências. As grandes
potências maiores —Grã-Bretanha, França, Alemanha e mesmo a Rússia
- preferiam então a manutenção da fronteira otomana. Em abril de 1897,
a Rússia e a Áustria-Hungria fizeram um acordo de manutenção do status
quo no que restava dos Bálcãs otomanos.
A este respeito, os chanceleres da Europa podiam dar um suspiro
de alívio. Durante um século, eles atravessaram um campo minado, e
tinham conseguido sair do outro lado não apenas vivos mas relativa­
mente ilesos.

66

C A P ÍT U L O 8: UM DESAFIO PARA O
ARQUI DUQUE

s Habsburgo foram uma dinastia dominante na Europa por tanto
tempo que se pode facilmente esquecer que o país que eles gover­
navam em 1914 - a Áustria-Hungria ou a Monarquia Dual - era de
origem muito recente. Tão novo que o homem que o criou —o impera­
dor Francisco José —ainda estava vivo e o governava. Em 1914, a Áustria-Hungria tinha 47 anos; Francisco José, 84.
A Monarquia Dual era uma improvisação. Houve a necessidade
urgente de estabelecê-la na década de 1860, quando os alemães da Áus­
tria, expulsos do mundo que a Prússia consolidara, se viram apartados
dos outros alemães e incapazes de se organizarem sós. Uma aliança per­
manente com os governantes magiares da Hungria foi a solução de Fran­
cisco José em 1867. As disposições económicas do acordo não eram
permanentes; estavam sujeitas a renovações, a cada dez anos.
Mas a Áustria e a Hungria tinham interesses e ambições que às
vezes eram antagónicos. O arquiduque Francisco Ferdinando, sobrinho
e herdeiro presumido de Francisco José, havia dedicado muita reflexão à
questão de como reconstituir as terras dos Habsburgo quando ascendesse

O

67

Assim.UM DE S A F I O PARA O A R Q U I D U Q U E ao trono. Duas das suas talvez 11 nacionalidades. quando Fran­ cisco José morresse e Francisco Ferdinando ascendesse ao trono com mudanças constitucionais radicais em mente. dos movimentos nacionalistas ardentes mais importantes da Europa —os dos tchecos. O nacionalismo varria a Europa desde a época da Revolução Fran­ cesa. o terço alemão da população tendia a dominar os dois terços que não o eram. No jogo mortal da política mundial. Al­ guns. sinistra e irredutível. Na Áustria. Um plano a ele atribuído era a criação de uma monarquia tríplice. Assim. conservando sua posição formal de uma das grandes potências em parte por cortesia das outras. 68 . depois do sultão da Turquia. Invertera-se a Ques­ tão Oriental. Os Habsburgo tinham cobiçado as terras balcânicas. A Áustria-Hungria era então uma estrutura periclitante. em retrospecto. e talvez a maioria. os 40% que eram magiares governavam os 60% não magiares. reunindo os eslavos aos alemães e magiares como povos gover­ nantes do império. distúrbios ocorreriam. ou pelo menos descentralizá-lo. mas também estava sendo caçada. todos destinados a restaurar a grandeza austríaca.visavam desmantelar o Império Habsburgo. exerciam a maior parte do poder político. a Áustria-Hungria era um dos maiores Estados da Europa. Havia inspirado uma literatura em que uma Áustria repressiva era marcada como vilã. a Áustria dos Habsburgo lança uma sombra escura sobre a Europa em obras como A Cartuxa de Parma. agora os povos balcânicos cobiçavam a terra dos Habsburgo. Francisco Ferdinando deplorava as consequências da ligação do seu país com a Hungria. na Hungria. a Ques­ tão Oriental —o que fazer com as possessões européias de um império turco em derrocada . estava de ponta-cabeça. inimiga implacável das liberdades humanas. a Áustria-Hungria con­ tinuava a caçar. que só se manti­ nha com dificuldade. possibilitando aos austro-alemães jogar os eslavos contra os magiares. o imperador Habsburgo seria o novo Doente da Europa. de Stendhal.se justapôs à questão austríaca emergente: o que fazer com a combalida Monarquia Dual? Havia quem afirmasse que. Ele parece ter descartado este cenário em favor de outros. Não era desarrazoado predizer que. alemães e magiares. e um sem número de etnias nos Bálcãs . por exemplo. Seus sentimentos a este respeito tanto eram conhe­ cidos como recíprocos. Em termos de área.

sozinhos. a ÁustriaHungria tinha de ter a proteção da Alemanha. 69 . poder atrair a sua lealdade patrocinando o pan-eslavismo. ainda que tivesse um registro surpreendente. recuando mais de um sécu­ lo. de derrotas em batalhas e em guerras. temia-se. com suas vastas extensões e sua enorme população. Os historiadores nos contam que o Exército austríaco era forte.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U Um dos pontos fracos da Áustria-Hungria era governar tantos po­ vos eslavos —membros do maior grupo étnico da Europa e a Rússia eslava. não pode­ riam lutar em igualdade de condições com a Rússia. Os generais da Monarquia Dual sabiam que. Para ter uma chance.

tornando-se a potência indus­ trial e comercial mais dinâmica do continente. a Alemanha era politicamente obsoleta. a Alemanha ainda estava na sua infância. internamente dividido. e portanto incapaz de reconciliar as diversas tendências engen­ dradas pela modernidade. “o traço notável da política interna alemã antes de 1914 era [. os interesses agrícolas ainda reclamavam tarifas protetoras para sobreviver. ao passo que a indústria já pressionava em prol do livre comércio de que precisava para prospe­ rar. Esta era apenas uma das contradições que tornava o Reich do cáiser Guilherme II tão difícil de compreender —e de governar. Um dos resultados disso foi o país encontrar-se. então. Conforme observou-se anteriormente. ão obstante..C A P ÍT U L O 9: ALEMANHA EXPLOSIVA entrar no século XX. a Alemanha tinha deixado de ser um país essencial­ mente agrícola e dado um salto adiante.ou talvez desde o começo o tenha sido..1 Ele cita Gustav 70 . Na vanguarda do mundo moderno em alguns aspectos. Nos seus trinta anos de existência. Berghahn. de muitas maneiras a sua estrutura política já se tor­ nara obsoleta . Segundo Volker R.] um quase total impasse”.

ele o fez para garantir a própria lideran­ ça da Prússia na Europa alemã. na época. A continuação da existência do Império Habsburgo era vista em Berlim 71 . em caso de guer­ ra. se os austríacos fa­ lantes de alemão fossem incorporados à Alemanha: “Nós teríamos de acolher um aumento de 15 milhões de católicos. levou à Guerra dos Trinta Anos. que havia encabeçado os Estados germânicos da Europa. a Áustria seria indispensável como aliada. passou-se a acreditar na Alemanha que. Mas Bismarck excluiu deliberadamente a Áustria. três outros reinos.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U Schmidt para explicar: “A noção de vários grupos bloqueando um o outro e conseqiientemente bloqueando a saída do impasse oferece ‘uma chave para a compreensão da política alemã nos últimos anos antes da guerra’. que foi criado por meio de uma série de guerras que culminaram em 1870-1871 pela ação da Prússia militarista protestante. O país que hoje conhecemos por Alemanha deriva do Império Ale­ mão.] o equilíbrio de forças entre protestantes e ca­ tólicos ficaria semelhante àquele que. fez lembrar a seus represen­ tantes governamentais no estrangeiro em 1906 que.”2 Com a Alemanha. Consistia no reino da Prússia. No antigo Santo Império Romano. Isto também teve o efeito de garantir uma maioria protestante na federação alemã. alguns acreditavam que a solução era dinamitar a sociedade. liderada por Otto von Bismarck. E claro. Um chanceler posterior da Alemanha. i. Napoleão os reestruturou. No final.. Contudo. Bismarck preferiu pôr na cena política um país menor. e esta continuou sendo a preferência de Berlim. a unificação veio de dentro do mundo germanófono. em vez de um maior. A Alemanha recém-unificada por ele incluía menos da metade dos povos germânicos da Europa. Os Aliados que derrotaram Napoleão também tentaram. à virtual dissolução do Império Alemão. viviam em centenas de principados. Sob o fascínio de Nietzsche. Até o século XIX. o que tornaria os pro­ testantes minoritários [. que ele e seus companheiros prussianos pudessem controlar.. cidades e outras quase soberanias. o príncipe Bernhard von Biilow. Não era fácil identificar uma alternativa que não envolvesse violência.e. 18 ducados e três cidades livres. mesmo sendo mais fraca. que não pudessem.. os povos germânicos da Europa foram fragmentados.

O público geral mais bem educado da Europa não iria tolerar indefinidamente uma estrutura governamental arcaica ou a liderança de um grupo exclusiva­ mente reduzido. e em tempo de guerra quase total. a Prússia era controlada por seu Exército e a classe grandemente empobrecida dos junkers proprietá­ rios de terras que comandavam a sua oficialidade. França. apesar de abrigar ambições de dominar a Europa e quiçá o mundo. ao ponto que teria sido exigido para realizar seus sonhos expansionistas. Muito depois da Grande Guerra. hoje em dia. Assim. Ora. sobre o restante da Alemanha.. a responsabilidade pela eclosão da guerra recai sobre os ombros dos principais países —GrãBretanha. ela exercia um controle considerável. a Ale­ manha se alçou à posição de líder económico do continente. De cultura não democrática e militarista. talvez o mais na política internacional. Por sua vez.AL E MAN H A E XP LOS I VA como um interesse vital da Alemanha. Eles não teriam dado à Alemanha.3 A re­ volução industrial que estava transformando a Alemanha no maior país do continente engendrava ao mesmo tempo forças que ameaçavam o regime. que uma nação tenha acumulado imensa força militar e económica às expensas de 72 .e o regime que ela apoiava. Eis aqui mais uma contradição. segue o argumento. Assim colocada. com certeza. O almirante Alfred Tirpitz explicou em 1896 que as forças arma­ das existiam em última análise “para reprimir revoltas internas”. O sistema educacional nacional era uma força motriz do cresci­ mento industrial do país. Rússia e Estados Unidos . Eis apenas uma das muitas contradições da política alemã. trabalhadores não poderiam ser admitidos na oficialidade do Exército sem diluir o caráter aristocrático prussiano da corporação . nenhuma maneira de afirmar-se além da guerra. Como diz o historiador francês Elie Halévy compreensivelmente nos anos 1930: “Mas suponha que se considere. Por meio da sua rápida industrialização. que afinal estavam no caminho da ascensão alemã ao poder mundial. observadores estrangeiros com­ preensivos argumentariam que a grandeza crescente da Alemanha pode­ ria ter sido acomodada pacificamente pelas outras potências: que elas deveriam ter apaziguado Berlim. a Alemanha delibera­ damente escolheu não aumentar o tamanho do seu Exército. mas ao fazê-lo transformou necessariamente grande parte da sua população em proletariado industrial.

Em seu respeitado estudo da Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial. nas forças armadas.5 Um líder como Franklin D.. No processo de alcançar a Grã-Bretanha como principal econo­ mia da Europa. a guerra não era necessária para acomodar a força alemã. despencando durante os vários escândalos públicos sobre os quais mais será dito posteriormente. e mais do que devia.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U uma ou muitas outras [. Em outras palavras. fazia pronunciamentos dramáticos. às vezes. Roosevelt poderia ter aberto os olhos dos alemães para uma visão mais ampla. a corrida armamentista parecia oferecer uma saída. Ao longo dos muitos anos do seu reinado. unindo o povo com genuíno carisma. Berghahn escreve: “A política armamentista alemã foi quase exclusivamente responsável pela delicada situação financeira do Reich. a Alemanha tinha chegado ao seu limite. No começo do século XX. seu apoio diminuiu en­ tre os alemães. Conforme será mostrado em seguida. relativamente às outras potências. chega-se a uma contradição.”4 Mais uma vez. Mas não funcionou: ele não tinha aptidão para a função. Ao longo dos anos.] ele só pode ser retificado por uma irrupção de violência —uma guerra. sendo a sua popularidade tão baixa entre os junkers militares prussianos. contudo. um volume constante em torno de 90% do orçamento do Reich foi gasto no Exército e na Marinha” (grifo meu). o cáiser e outros líderes alemães acreditavam em 1912el913 que seu país estava ficando mais fraco.. O cáiser alemão Guilherme II parece ter aspirado tal papel. a estrutura constitucional arcaica e a con­ sequente inexistência de um sistema progressivo de impostos impedi­ ram a Alemanha de traduzir o crescimento da economia em aumento da arrecadação do governo. 73 . mas para acomodar a sua fraqueza. e.] para tal perturbação do equilíbrio.. Ver-se-á que o chefe do Estado-maior achava que a Alemanha devia começar a guerra tão logo fosse possível. Ele usava uniformes brilhantes e montava nobres cavalos de batalha. e não mais forte. gastando tudo o que podia.. o homem ainda não encontrou nenhum método de ajuste pacífico [. É curioso que no estrangeiro ele fosse considerado como a encarnação da tradição militar prussiana^ww^r. precisamente porque as chances de ganhar seriam menores a cada ano. a Alemanha teve de ser capaz de superar o orçamento militar das suas rivais. Durante um tempo. Porém.

com base em consi­ deráveis indícios médicos. Guilherme . e a reação dos outros ao membro atrofiado pode tê-lo afetado de uma maneira ou de outra. aos 54 anos de idade. A decisão era dele. Em 1888. John Rõhl. e essas contradições são explicadas por muitos biógra­ fos com base nos seus sentimentos tanto pela mãe quanto pela avó. ele havia reinado por um quarto de século. concluiu. A constituição da federação alemã lhe dava o poder de declarar guerra. Ao nascer.6 Na opinião de Rõhl. agia como um senhor da guerra pronto a liderar a nação na 74 . Apanhado na excitação do momento. menos de 2% dos bebês mal posicio­ nados nasciam vivos. principal pesquisador da sua vida e da sua época. Resta aberto e controverso saber se sofreu ou não dano cerebral. Era nervoso. descobriu-se que ele estava mal posicionado no corpo da mãe. mas com seqttelas permanentes. o problema foi agravado pelo rigores da sua infância. ao lado da paz. Os médicos que assistiram o parto não eram plenamente quali­ ficados para o problema: na época. e em todas elas a guerra tinha sido evitada com o próprio Guilherme cedendo afinal.. Ele era uma influência perturbadora. Em 1913. admiração e desejo de ser aceito pelo me­ nos como igual . Ele brincava amiúde com a idéia de fazê-lo. Guilherme ascendeu ao trono como rei da Prússia e im­ perador alemão. sua devoção à caça e sua identificação com Aquiles sugerem que ansiava por uma glória marcial que jamais conseguiu alcançar.A L E MAN H A E XP LOS I VA O cáiser Guilherme II era meio inglês. em cada caso. Parece provável que Guilherme II fosse emocionalmente desequili­ brado por causa das várias sequelas sofridas no nascimento. que Guilherme fora privado de oxigénio durante o parto e sofreu a vida inteira das consequências: distúrbios de persona­ lidade como falta de objetividade e sensibilidade excessiva. e o tratamento do braço por introdução no corpo de um coelho recém-sacrificado. sua mãe era filha da rainha Vitória. Durante este tempo.mal . Ele apresentava atitudes estranhas em relação à Inglaterra —um caleidoscópio de amor.7 Sua paixão por uniformes mili­ tares. ódio. ele ameaçava e assumia posturas. Seu braço esquerdo ficou permanente paralisado. irritável e in­ constante. inclusive o tratamento do pescoço torto por métodos como o uso de um “apare­ lho de tração da cabeça”. ele presidira os assuntos de Estado num sem número de crises internacionais que ameaçaram pro­ vocar uma guerra européia.sobreviveu.

Isto era particularmente verdadeiro no campo das relações exteriores. algo infantil. assim mantendo a rivalidade entre a Rússia e a Áustria nos Bálcãs sob controle. não ficou à vontade com o veterano ancião e suas políticas. Até Guilherme II tornar-se cáiser. um monarca inexperiente. ele se vangloriou ao príncipe de Gales: “Sou o único mestre e senhor da política alemã e meu país tem de me seguir onde quer que eu vá. emocionalmente tensa.O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U batalha. Em certa ocasião. houvera muitos alarmes falsos. ele poderia ter exercido mais influência política. ele vinculava os três impé­ rios. Em 1890. como se faz com uma criança. Bismarck se alinhava com os proprietários das fábricas. francamente ignorante mas que não hesitava em fazer pronunciamentos impróprios sobre não importa que assunto sobre o qual nada soubesse. e não tivesse voltado atrás tantas vezes. a política alemã era amplamente definida pelo chanceler. “a saber levá-lo”. Nos anos normais. e até agia. haja vista ele raramente estar presente. sempre à beira de um colapso. Ele discordava de Bismarck em assuntos como a maneira de lidar com o esforço industrial: Guilherme tomava então o partido dos trabalhadores em greve. criação de Bismarck. Otto von Bismarck. Egoísta e propenso à megalomania. depois. A Alemanha jogaria todo o seu peso sobre qualquer dos dois aliados que ameaçasse perturbar o delicado equilíbrio existente entre eles. só permanecia na residência em Berlim de janeiro a maio. depois de Bismarck ter sido demitido. ele falava frequentemente. como se fosse um governante absoluto. pois ratificava a amizade com a Rússia depois de já ter ratificado a amizade com a Áustria-Hungria. Sendo as coisas o que eram. a maior parte do tempo ele estava fora. os ministros apren­ deram a quase nunca considerar o que o cáiser lhes dizia e.”8 Se não fosse tão caprichoso e impre­ visível. Os relatos que nos foram deixados por pessoas a ele associadas mostram uma figura indisciplinada e inconstante. caçando ou velejando. O tratado fora um elemento essencial da política alemã. Em 1890. Na visão de Bismarck. recuava e retirava tudo. os novos minis­ tros do cáiser deixaram o Tratado de Resseguro. E isto nem era tão difícil. Funcionários militares e civis que trabalharam com ele aprenderam a nunca confiar nas decisões que ele anunciava extemporaneamente. Guilherme afirmou sua autoridade demitindo o Chanceler de Ferro. Guilherme. 75 . caducar.

Durante um século. na qual estes. Tirpitz representava as classes médias ascendentes. garantindo a segurança da Alemanha na sua frente oriental. influência ou mercados através dos Bálcãs e quiçá da Rússia na direção do Oriente Médio e daí para a China. Seu plano pareceu resolver vários problemas de uma só vez. Guilherme garantiu ao embaixador russo que planejava renovar o tratado. Tratava-se da contrapartida das ambições pan-eslavas que animavam alguns formuladores de políticas em São Petersburgo. permitia-se ser desconsiderado. e por outro os povos do Leste. o poder passou. Por trás dessa perspectiva política jazia a sombria visão histórica de um choque fatídico entre os povos teutônicos. Num certo sentido. De Bismarck. Em 27 de março. para aque­ les que olhavam para o leste: que talvez sonhassem em expandir territó­ rio. por assim dizer. Uma área em que sua ava­ liação teve defato uma influência consideravelmente determinante foi a mudança de ênfase na grande estratégia ao final de década de 1890: o novo foco da Alemanha em política naval. os historiadores culparam o cáiser por deixar que o Tratado de Resseguro caducasse. Uma questão ainda debatida é se Guilherme II teve ou não um papel importante na formulação de políticas. Os estudiosos agora mostraram que a responsabilidade não foi inteiramente dele. A grande figura com quem esta estratégia era associada era o secre­ tário de Estado do Gabinete Naval.9 Sinto muitíssimo. ele disse: “Então não pode ser feito. se derrotados.” Este comportamento era típico. as despesas 76 . ao mesmo tempo que afir­ mava ser monarca absoluto. a Áustria não sabia do tratado com a Rússia. Ele reclamou a criação de uma grande frota de guerra. Os tratados eram secretos: a Rússia não sabia do tratado com a Áustria. dentro do governo alemão. have­ riam de tornar-se servos ou escravos. A sua construção geraria níveis de emprego e de prosperidade. explicando que seus conselheiros políticos eram contrários à renovação. Este programa naval consumia cada vez mais dinheiro. por um lado. o recém-nobilitado almirante Alfred von Tirpitz. eslavos e orientais. e seduziria.A L E MA N H A E XP LOS I VA Berlim manteria ambos os aliados. um setor da classe trabalhadora até então socialista. Em 21 de março de 1890. e só foi pos­ sível devido à ordem de prioridades peculiar do Ministério do Exército. Segundo Berghahn: “A partir de meados dos anos 1890.

Em vez de ampliar-se. tentar tomar posse de um império colonial e buscar desempenhar um papel no cenário global. com sua política externa agressiva e suas imprudentes decisões de aliança. Seu pesadelo sempre foi ver-se cercada por uma combinação de potências hostis. “foi a própria liderança do Exército quem convocou a suspensão da expansão.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U navais aumentaram enormemente. e não apenas da continental.”10 Havia fundos disponíveis para expandir a Marinha porque o Exército escolheu não se expandir. foi uma política autofágica. a Alemanha passou a aprofundar o fosso.] Seguiram-se duas décadas de estagnação. Como escreve Berghahn. uma das funções da oficialidade era “ga­ rantir a fidelidade absoluta à ordem existente e ao comandante militar supremo. o Ministério da Guerra escolheu permanecer nos níveis de força então existentes a fim de combater os inimigos internos. a Alemanha estava empreendendo ou bem riva­ lizar com a Inglaterra ou tomar o seu lugar. notadamente durante as crises marroquinas de 1906 e 1911. o monarca”. Ela permitiria à Alemanha estender seu alcance a qualquer lugar do mundo e não somente ao interior e cercanias da Europa. a ex­ pansão do Exército chegou a uma virtual paralisação [. era voltado. na realidade. con­ tra quem. junta­ mente com seu aliado austríaco. inamistosa pela perda da Alsácia e parte da Lorena para a Alemanha na guerra de 1870-1871. Por sua própria natureza. enquanto.” Os generais agiram assim para evitar a abertura das fileiras da oficialidade ao que viam como elementos não confiáveis: elementos sem passado prussiano junker. opondo-se ao imperialismo francês. na sua épo­ ca. o programa lançava um desafio à Grã-Bretanha. A Alemanha. A oeste estava a França. Bismarck. está situada no centro da Europa. Esperava-se da expansão naval lançada por Tirpitz que capacitasse a Alemanha para competir com as outras potências por colónias. 77 .. Tem vizinhos de todos os lados. sob Guilher­ me II. está cercada.. Ao construir uma grande Marinha. ao mesmo tempo. para melhor combater os inimigos estrangeiros. distraía os franceses apoiando suas pretensões imperiais. A Alemanha passaria a fazer parte da política mundial. Geograficamente. Pois foi a própria Alemanha guilhermina quem traduziu este pesadelo em realidade. Em retrospecto.

incluindo os líderes militares do país. A Alemanha fez a escolha fatídi­ ca de apoiar a Áustria contra a Rússia. e que estiveram em con­ flito por mais de um século como rivais imperiais na Ásia e em toda parte. é preciso usar fre­ quentemente ao falar sobre a Alemanha guilhermina . o cerco hos­ til que a Alemanha tanto temia foi enredado pela própria Alemanha. ficaram sem escolha. Mas o cáiser e seu grupo. preferi­ ram acusar os outros. o militarismo alemão daquele período não deve ser compreendido como um fenómeno único com dois aspectos. no começo dos anos 1900. Tirpitz e 78 . Por ou­ tro lado. tivesse ela resultado do desafio naval que ele lançou contra a Grã-Bretanha. tinha inimigos de ambos os lados. o navalismo perdeu então sua relevância na estratégia mundial alemã. Portanto. evocando precisamente a guerra de duas frentes que assombrava os seus generais. Para ser visto com clareza. Então. Mas não foi isto o que aconteceu. o programa Tirpitz hostilizava também a Grã-Bretanha. leste e oeste.A L E MAN H A E XP LOS I VA A leste estava a Rússia. poder-seia condenar o cáiser como responsável pela guerra de 1914. A aliança germano-austríaca também poderia ter de lutar na frente sul.. A Alemanha abandonou a corrida armamentista naval vários anos antes de a guerra começar. Era uma política que incitava o medo dos vizinhos. Parado­ xalmente . o cáiser apoiou Tirpitz e sua política naval. Até onde se mantinha constante no apoio a políticas.palavra que. que de muitas maneiras eram inimigas naturais uma da outra. a Itália tinha reivindicações territoriais contra a Áustria. Ao sul. França e Rússia. assim como “singularmente”. Isto levou o monarca a um alinhamento com um segmento amplo da classe média. que Berlim deliberadamente hostilizou. dei­ xando caducar o Tratado de Resseguro. que finalmente levou a Alemanha pelo caminho escolhido em 1914. a criação de uma frota para sustentar o ímpeto comercial e o reconhecimento pelas potências estrangeiras da grandeza crescente da Alemanha. não levava a Alemanha a sentir-se mais segura. exceto se agruparem. Dada a relativa coerência com que estimulou o navalismo. Assim. mas como dois programas rivais: o da Marinha e o do Exército. Inglaterra. o Exército liderado pelos prussianos. Foi um grupo militar rival. o que tornava provável que a aliança de Roma fosse com o outro lado. a qual favorecia a expansão do comércio.

que era tanto física quanto emocionalmente desequilibrado. como Moltke. abria vias de ascensão para elementos novos das clas­ ses médias e profissionais. País avançado dentro de uma estrutura governamental atrasada. sua tendência a retroceder diante de confrontações internacionais sempre que parecia haver risco real de guerra era vista como covardia pelo Exército. 79 . a Marinha levaria anos para ficar pronta para qualquer possível confrontação com a Inglaterra. A “Alemanha de Einstein”. possivel­ mente. a terra do futuro. lideravam o partido da paz. Produzia uma grande literatura e uma grande música. Os que esperavam fazer uma carreira séria em estudos clássicos. O Exército não tinha nenhum entusiasmo pelo cáiser.11 Nenhuma descrição da Alemanha há um século seria completa sem mencionar sua precedência académica e cultural. era a Rússia. estava pronta para liderar o mundo em termos de erudição e ciência. Para a Marinha. Isto porque. Tirpitz era a favor da paz no presen­ te e da guerra tão mais tarde que pouca relevância tinha para a política do seu tempo. a Alemanha era uma terra de paradoxos. O apoio de Guilherme à Marinha ameaçava o controle junker do império alemão. ao passo que seus próprios líderes acredita­ vam que sua hora estava passando. visão de mundo característica da Alemanha pré-1914 e que afetou as lideranças mais jovens. Os alemães eram. entre outras coisas. soubessem ou não. para o Exérci­ to. Situada no coração da Europa. como a chamava Fritz Stern.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U Guilherme. nos diz Fritz Fischer. no grande plano de Tirpitz. que desapareciam e ja­ mais poderiam ser restaurados. poderoso mas medroso ao ponto da paranóia. Além disso. Era um país deslumbrantemente bemsucedido. o inimigo era a Inglaterra. o povo mais realizado do mundo. E a Marinha não queria lutar até estar pronta. à devoção aos ideais do mundo pré-capitalista e seus valores. Assim. de um humanismo amplo ainda que estreitamente militarista. mas profundamente perturbado. Simbolizava-o bem o seu governante. a Alemanha estava no coração dos problemas europeus. O abatimento provocado pelas impropriedades do cáiser se desdo­ brou num pessimismo mais amplo. Observadores de fora a viam como um país promissor. Esse abatimento difuso era devido. filosofia. sociologia ou ciências naturais eram aconse­ lhados a entrar nas universidades alemãs.

AL E MAN HA EXP LOS I VA Retrospectivamente.os obser­ vadores que foram surpreendidos pela eclosão da guerra de 1914 . parece estranho que observadores .* Se acreditarmos em House. Retrospectivamente.não tivessem visto que muitos líderes alemães estavam ávidos por uma guer­ ra.se pudessem convencer o cáiser —eles conseguiriam. "Para House. 80 . A dificuldade seria prever quando e onde seria dado o primeiro passo. Um americano. mas muitos euro­ peus não. tudo apontava para uma guerra em que a Europa seria tragada pelas chamas. ver p. e que mais cedo ou mais tarde . pode-se argu­ mentar com segurança a proposição de que ele foi dado na Turquia otomana em 1908. o viu. 122. Edward House.

PARTE TRÊS À DERIVA PARA A GUERRA .

83 .C.. a discussão ocupou os políticos otomanos e europeus igualmente.. complicado e longevo enfrentado pelo [. até onde qualquer movimento da história tem um começo. no começo dos anos 1900. Ulisses e Aquiles embarcaram para a vizinha Tróia. por quinhentos anos ela foi capital do Império Otomano (ou Turco).FORA DE CONTROLE O problema mais difícil.. na velha cidade imperial de Constantinopla: a Bizâncio de ontem e Istambul de hoje.] Do Congresso de Berlim até a Primeira Guerra Mundial. a cidade ocupa um lugar que esteve no centro da política mundial desde que os lendários.. Agamenon.. mais do que qualquer outro proble­ ma diplomático isoladamente Shaw e Shaw. Por mais de mil anos após o século IV d. e talvez fabulosos. Depois. Dominando os estreitos que separam a Europa da Ásia.] [sultão turco]foi a Questão Macedônia [. parecia pronta a sobreviver à terceira. History ofthe Ottoman Empire and Modem Turkey [História do Império Otomano e da Turquia moderna] P arece muito que a deriva para a guerra começou.CAPÍTULO 10: MACEDÔNIA . Constantinopla serviu como capital do Império Romano do Oriente. Sobreviveu a duas civilizações e.

Também na Bulgária. Que os ventos da mudança haveriam de acabar levando aquele império.). de outra. rebeliões e quase todas as formas de violência e derramamento de sangue conhecidas da humanidade. Muito mais tarde —nos anos 1920 e 1930 . massacres.U. Também na Sérvia. Seu objetivo era reformar o império para impedir que a Europa continuasse tomando territórios otomanos. A eletricidade ainda não tinha sido introduzida. conhecida como o movimento dos Jovens Turcos. bem como a sua beleza. eles 84 . ela resistia aos esforços para policiá-lo. Ela não acompanhara os tempos. que as forças diruptivas foram liberadas.elas se aliariam com o fascismo italiano e deixariam uma trilha de sangue na história dos Bálcãs. A Macedônia era um país fronteiriço. foi frequentemente acusado de ter começado a Primeira Guerra Mundial. O Terceiro Exército Otomano. um território turco igualmente ambicionado pela Grécia. Os Jovens Turcos defendiam a modernização.P. no centro dos turbulentos Bálcãs. A cidade era conhecida por seus fortes ventos. a luta foi uma experiência que engendrou sociedades milita­ res ultranacionalistas clandestinas e mortíferas. era infiltrado por membros de uma das muitas sociedades secretas subversivas turcas: o Comité de União e Progresso (C. terrorismo. Como veremos mais tarde. disputas de sangue. um dos resultados da comoção foi a criação de sociedades secretas por oficiais ultranacionalistas. A Macedônia foi a escola que formou os ultranacionalistas sérvios. outra província a reivindicá-la. guerrilha. mas prever de onde iria soprar seria um pouco menos fácil. O país era presa de banditismo. A Macedônia desempenhou quase o mesmo papel para a Sérvia. retaliações. os sapatos e bo­ tas dos seus milhões de habitantes continuavam sujos de lama quando chovia. e de poeira quando não. Oriundos de um passado incendiário. Extinguirase a sua glória. A maioria das suas ruas continuava sem pavimentação. Oficiais e voluntários sérvios passaram pela mesma experiência de guerrilha e guerra suja. as­ sassinatos. soprando às vezes de uma direção. o Mão Negra. ela vivia um momento baixo do seu fado. um desses grupos sérvios.MACEDÔNIA - FORA DE C O N T R O L E Entretanto. sem leis e fora de controle. às vezes. eis uma visão comumente expressa. que via a Macedônia como a sua metade meridional. Foi na Macedônia. a Sérvia e a Bulgária. encarregado da responsabilidade de pacificálo.

a restauração da Constituição. chegou a hora de agir —ou nunca. Em resposta à desordem crescente. os sérvios começaram a praticar assassinatos para alcançar seus fins e. Mas os europeus estavam informados de que mudanças po­ diam finalmente estar no ar.U. As sociedades secretas militares turcas. búlgaras e servias se pareciam umas com as outras. o sultão decretou. Para Alois Lexa von Aehrenthal. O tempo estava passando. pelo menos retrospectivamente.. o sinal fora dado. ministro das Relações Exteriores da Áustria-Hungria. parece ser alta­ mente improvável. parecia possível que a rebelião dos Jovens Turcos pudesse representar uma genuína revolução nos assuntos otomanos. voltaram-se contra o seu próprio governo e seus próprios políticos. Em meio a uma grande confusão. os Jovens Turcos entraram em contato com as potências europeias para protestar contra a proposta. Se implementada. Visto desse modo.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U tiveram um papel direto no incêndio do seu próprio mundo. No ano seguinte. Não até que 1913 visse os Jovens Turcos seguramente instalados no controle do Império Otomano. Os Jovens Turcos foram incitados à ação pela notícia. exceto pelo fato de cada uma delas querer a Macedônia para si. Saindo brevemente da clandestinidade. a proposta teria significado que a Turquia podia per­ der mais uma província. da proposta russa e inglesa de restaurar a ordem na Macedônia com o envio de tropas europeias que serviriam como força de polícia. Agora. o sultão enviou homens para prender vários líderes do C. em 24 de julho de 1908. A rebelião podia significar que a reforma e a modernização que os Jovens Turcos defendiam podiam de fato ser tentadas . ou então o Estado otomano ia conti­ 85 .P. E os Jovens Turcos foram os primeiros a sair da clandestinidade para realizar seus objetivos. o que. Ou os Jovens Turcos fortaleceriam o seu império e dariam um basta a mais anexações por potências européias.e podiam colocar em perigo os interesses dos Habsburgo nos Bálcãs. em junho de 1908. o que vinha a ser a principal reivindicação dos Jovens Turcos. como os búlgaros. o sultão abdicou em favor do seu irmão. mas os Jovens Turcos fugiram para evitar a prisão e dar início a uma rebelião. Como os búlgaros. podia-se argumentar. Não estava claro quem ia liderar ou em que direção iriam os líderes. Uma nova fase fora aberta na política otomana.

golpear imediatamente.MACEDÔNIA - FORA DE C O N T R O L E nuar a desintegrar-se. 86 . A ascensão ao poder do movimento dos Jovens Turcos parecia traduzir uma mensagem para Viena: responder. enquanto a Turquia ainda continuava fraca e antes que outra potência europeia viesse a fazê-lo.

87 . a Áustria-Hungria.PRIMEIRA A DAR PARTIDA E m 1908. de modo que a decisão teve de ser adiada indefinidamente. Esse arranjo não acertou de fato as coisas. a Monarquia Dual da Áustria-Hungria administrava as pro­ víncias balcânicas duais da Bósnia-Herzegóvina. quando as outras grandes potências da Europa invadiram para acertar as coisas e preservar o equi­ líbrio de poder entre elas. a fim de preservar o equilíbrio de poder interno da Monarquia Dual. cujo governante nominal continuava a ser o sultão otomano.CAPÍTULO 11: ÁUSTRIA . numa guerra contra a Rússia. em 1878. O Império Habsburgo foi obrigado a enviar um exército de entre 200 e 300 mil homens para abrandar e subjugar os combatentes locais pela indepen­ dência. as potências tinham dividido a propriedade das províncias em duas: o título legal permanecia com a Turquia. nos anos 1870. mas o direito real de ocupação foi garantido —provisoria­ mente —à Monarquia Dual. o processo de perder as províncias para uma rebelião nativa e. No Congresso de Berlim. depois. certamente as queria para si. A Turquia experimentara. cada um dos sócios que compunham a Monarquia Dual. As províncias eram ambicionadas por muitos.

a Áustria-Hungria ia sair na frente das outras potências. O momento era propí­ cio: a Rússia. para preservar o equilíbrio de poder ainda mais frágil entre os Estados da Europa. Aehrenthal. foi elevado da dignidade de conde à de ba­ rão em 1909. seus detratores. ele também propôs retirar as tropas Habsburgo. O barão von Aehrenthal. a proclamar sua independência legal no dia anterior. antes a principal rival da Áustria nos Bálcãs. sonhavam anexá-los. Para desviar a atenção da proclamação. Pouco importa se tomar as províncias balcânicas fosse a primeira —ou a última . Trata-se de um exemplo da erosão do código de conduta aristocrático que antes tinha caracterizado os líderes europeus.chance de desmembrar o Império Otomano. em ambos os casos. do distrito turco vizinho de Novibazar. que até então permanecera nominal­ mente sob soberania turca. decantado em sua reputação como o secretário das Relações Exteriores mais altamente estimado do seu tempo. Além de jogar poeira nos olhos dos ministros das Relações Ex­ teriores da Europa. Francisco José.ÁUSTRI A - PRI MEI RA A DAR PARTI DA A decisão de quem finalmente substituiria o sultão otomano como go­ vernante legal também teve de ser adiada. que estava praticamente hors de combat. a Monarquia Dual anunciou a sua ane­ xação da Bósnia-Herzegóvina. Neste ínterim. do outro lado do rio. estava tão enfraquecida por ter perdido a guerra contra o Japão (1904-1905) e pela revolução de 1905. que considerava inúteis. No Ministério das Relações Exteriores. demasiado inteligente. ministro das Relações Exteriores da Mo­ narquia Dual (1906-1912). A reação mais violenta veio da pequena mas vigorosa monarquia balcânica da Sérvia. os habitantes amplamente eslávicos das províncias acalentavam ambições próprias de independência nacional. A Sérvia 88 . ao passo que seus companheiros eslavos na vizinha Sérvia. que manteve seu próprio monarca. no escuro quanto a estas manobras. defensora dos direitos dos eslavos do sul. atacando primeiro. Seus admiradores consi­ deravam-no inteligente. Em 6 de outubro de 1908. mentiu repetidamente aos outros governantes europeus sobre o que fazia e o que estava estimulando a Bulgária a fazer. ele se fez cercar por uma equipe de jovens assessores aristocráticos que se tornaram seus discípulos. Aehrenthal encorajara a Bulgária. Aehrenthal via na rebelião dos Jovens Turcos uma oportunidade para alcançar uma esplêndida proeza na rivalidade permanente entre as grandes potências imperiais.

em que certa­ mente não temos nada a ganhar. Foi muito humilhante para Izvolsky. uma organização paramilitar nacio­ nalista sérvia.com seus 50 milhões de habitantes. Ele acreditava que Aehrenthal tinha lhe pro­ metido que o Império Habsburgo ia ajudar a garantir uma compensação para o tsar: a Rússia teria passagem livre por Constantinopla e pelos estreitos. recuperando-se da derrota e da revolução de 1905. qualquer resposta evasiva.] pode levar a uma guerra generalizada. o agressivo Alfred von Kiderlen-Wãchter. mas menos ainda podemos nos deixar arrastar por ela para dentro de um conflito armado que [.ao comu­ nicar-se com Izvolsky: “Esperamos uma resposta definitiva: sim ou não. A Narodna Odbrana. seu Exército forte e eficiente. tão cuidadosamente construída ao longo de vinte anos. Até o cáiser ficou apreensivo. que era o principal rival da Áustria na região. Izvolsky acreditou ter uma promessa definitiva de Aehrenthal a este respeito e sentiu-se enganado quando não foi cumpri­ da.”3 Alexander Izvolsky. Mui­ tos elementos do governo. usou. entre os militares. foi jogada fora. Izvolsky. para dar uma resposta a 89 . intricada ou vaga terá de ser encarada por nós como recusa. A anexação pela Áustria da Bósnia-Herzegóvina perturbou o frágil equilíbrio de poder nos Bálcãs.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U há muito encarava a Bósnia-Herzegóvina como área estratégica sua. e da população pensaram imediatamente em mobilização contra a Áustria ou em entrar em guerra de uma vez. uma linguagem ameaçadora —de ultimato . pois outras figuras importantes em seu governo que não compartilhavam seus objetivos nos estreitos ficaram surpresas por ele ter deixado Aehrenthal sair ileso da tomada da Bósnia. se projetou como a campeã da causa sérvia. Mas uma nota dura em linguagem nada diplomática de Berlim dis­ suadiu o tsar de patrocinar a causa sérvia. tinha pouca escolha além de submeter-se. O ativo ministro das Relações Exteriores alemão. chamando a anexação de “temerosa estupidez” e lamentando: “Minha política turca.”1 Ele soube da inicia­ tiva austríaca pelos jornais e comentou dizendo-se “profundamente ofen­ dido em meus sentimentos de aliado” pelo segredo de Aehrenthal.. o secretário das Relações Exteriores da Rússia.” A Rússia.. em nome de Biilow. E verdade.2 ao que o chanceler alemão respondeu: “Nosso problema pode ser definido da seguinte maneira: não podemos arriscar a perda da Áustria . inicialmente não fez objeções à tomada pela Áustria.

Eulenburg foi obrigado a ir para o exílio. não era impossível. ele havia pessoalmente 90 . previamente liberada pelo chanceler. mas. A entrevista foi dada por Guilherme a um amigo britânico. Bulow enfrentou outro escândalo: uma polémica entrevista concedida pelo cáiser a um jornal. Hartwig começou forjando uma aliança entre a Sérvia e a Bulgária. que ele e o cáiser tinham adotado. O chanceler von Biilow tinha aprovado o uso de uma linguagem humi­ lhante para lidar com a Rússia. Em seguida a uma série de escândalos e perseguições homossexuais. O artigo pretendia mostrar que o cáiser era pró-Grã-Bretanha e que. Talvez por querer marcar um triunfo evidente. enviou Nicolai Hartwig como representante à Sérvia (1909-1914). como mostrou Hartwig. Histórias de folias travestidas e festas deca­ dentes pareciam implicar o próprio cáiser. Guilherme afirmava que durante a recente Guer­ ra dos Bóeres na África do Sul (em que os interesses e simpatias alemães estavam com os bóeres e contra a Inglaterra). Búlow tinha sido nomeado para o cargo em grande parte pela in­ fluência de Philip Eulenburg. Seguiram-se arranjos com a Grécia e com Montenegro. e visto que não havia como aumentar impostos. Hartwig era um militante pan-eslavo que tinha seu próprio grupo de seguidores na Rússia. conseqiientemente. e depois associando esta aliança a um acordo com a Rússia. que a partir das suas anotações redigiu um artigo que foi publicado pelo Daily Telegraph em outubro de 1908. Quando a crise bósnia estava chegando ao fim. o que seria necessário para poder fazê-lo. o melhor amigo do cáiser. Era uma tarefa difícil —levar os Estados rivais belicosos dos Bálcãs cristãos a um acordo sobre qualquer assunto às vezes parecia desesperador —. Como chanceler. Ele empreendeu reunir os Estados balcânicos numa frente comum para tomar parte ou todas as terras ainda ocupadas pelo Império Otomano na Europa.ÁUSTRI A - PRI ME I RA A DAR PARTI DA Aehrenthal ou por alguma outra razão. Búlow fora obrigado a reconhecer que a Alema­ nha não podia manter a corrida armamentista naval com a Grã-Bretanha. Ele próprio havia compreendido a dificuldade de sus­ tentar o orçamento. Ele necessitava de um triunfo evidente. a Inglaterra nada tinha a temer da Alemanha. disputa que havia sido central na política de Tirpitz.

4 Mas acrescentou que o cáiser provavelmente não teria fibra para adotar esta solução. e quanto mais rápido melhor. relações pessoais com a liderança das forças armadas ou com o imperador. o Parlamento alemão e todos os partidos alemães condenaram Guilherme. Theobald von Bethmann Hollweg.não era prussiano. mas de uma velha e rica família renana. Biilow. tal oportunidade de guerra. Desapontou-o o fato de a crise bósnia ser resolvida pacificamente. Aehrenthal tratou de preservar o novo status quo nos Bálcãs. Em 1909. E mais. Não queria mais mudanças. agora fracassava em defendê-lo. Tentou persuadir as potências de que a Áustria não tencionava anexar a Macedônia a seguir. O povo alemão.5 Tendo concluído a anexação da Bósnia-Herzegóvina. ele não havia. que fra­ cassara em vetar adequadamente as observações indiscretas do seu monarca. Para salvar-se. advertiu ele. porém. e não foram os únicos. A Rússia. Moltke. E claro. general Moritz von Lyncker. “não aparecerá tão cedo novamente em condições tão favoráveis”. desmoralizados pelo descrédito de Guilherme. chefe do Grande Estado-maior. e sua disposição para confrontar o cáiser foi então questionada. pareceu evidente que a única maneira de salvar a monarquia e. fornecido aos ge­ nerais britânicos os seus planos de campanha. Um novo chanceler foi empossado. o seu modo de vida era entrar em guerra. afirmou que a guerra era ne­ cessária para tirar a Alemanha de “dificuldades internas e externas”. O chefe do Gabi­ nete Militar. Discutiu-se se o cáiser devia ou não ser forçado a abdicar. e ainda é. Os britânicos ficaram furiosos. acreditava que a guerra era inevitável. conforme afirmado. acreditando que a Áustria-Hungria tinha se tornado expansionista. Bethmann era um ádvena . e tampouco jamais desenvolveu. o cáiser reivindicava ter concebido e repassado planos estratégi­ cos à Grã-Bretanha. os quais teriam lhe permitido vencer a guerra. fun­ cionário público. Biilow renunciou. Para os militares prussianos. portanto. Bethmann sabia não ser a escolha preferencial de Guilherme para a posição. Para se 91 . considerava o que ele havia feito agressivo. porém. ele mentiu e não admitiu ter liberado a entrevista.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U evitado que outras potências européias se juntassem contra a Inglaterra. não era militar —que não tinha.

po­ rém. Moltke respondeu que a Alemanha protegeria a Áustria ainda assim. Em sua história da Alemanha. por sua vez. mesmo que ela tivesse começado. o que a Alemanha faria se a Áustria invadisse a Sérvia. a Ale­ manha entraria em guerra não apenas contra a Rússia. antiaustríaco nos Bálcãs. Gordon Craig observa que depois disso a Áustria confiou na promessa de Moltke como um compromisso solene: “Com efeito. Em janeiro de 1909. de trata­ do defensivo para tratado ofensivo. perguntou a Moltke. o chefe do Esta­ do-maior da Áustria.ÁUSTRI A - PRI ME I RA A DAR PARTI DA contrapor a tal expansionismo. o outro era obrigado a ajudar. no auge da crise da Bósnia-Herzegóvina. o que exigia medidas defensivas da sua parte. considerou a iniciativa da Rússia expansionista. Moltke havia mudado o tratado de 1879. 92 . Conrad. O tratado de 1879 entre a Alemanha e a Áustria fora uma aliança defen­ siva: se qualquer dos países fosse atacado —mas somente no caso de o país ser atacado . já que a França era aliada da Rússia. a Rússia sentiu-se impelida a organizar o sentimento pró-russo. seu colega alemão. Ademais. e colocado seu país à mercê dos aven­ tureiros de Viena. A Monarquia Dual.. provocando com isto uma intervenção russa.”6 Deve-se acrescentar que a promessa de Moltke foi apoiada pelo chanceler. mas também contra a França.

que também se solidarizou com a Fran­ ça. foi enviado por seu governo numa viagem —de navio. Para a Alemanha. Convocouse uma conferência internacional. Mas a manobra da Alemanha não deu certo: a Grã-Bretanha apoiou a França. e complementaria convenientemente os haveres da nação na Argélia e na Tunísia. em 1905. Era o último territó­ rio na África do Norte a continuar independente. A conferência arbitrou o papel decisivo deste país nos assuntos do Marrocos por meio de um tratado assinado em Algeciras em 1906. o tratado exortava os europeus a apoiarem o governo do sultão. ainda que relutantemente. A 93 . Por insistência da Alemanha. A Fran­ ça estava tomando medidas para afirmar presença no Marrocos quando. como a França (ou pelo menos sua facção colonialista) na verdade ten­ cionava e de fato empreendeu fazer. a não enfraquecerem a independência do Marrocos. tratava-se de um pretexto visando cindir a recémformada Entente da Grã-Bretanha com a França. a Alemanha inesperadamente interveio. por meio de ventos força 8 —de apoio à independência marroquina. O cáiser.C A P ÍT U L O 12: FRANÇA E ALEMANHA FAZEM SEU JOGO França estava há muito de olho no Marrocos.

Sem con­ sultar sequer elementos-chave do seu próprio governo. e também. as perspectivas seriam das mais sombrias. Então de­ clarou as reivindicações alemãs em Ia de junho. Mesmo que a revolta fosse genuína. E tampouco a Rússia. não se envolveria no conflito. Tal triunfo diplomático reforçaria a posição do governo de Berlim nas iminentes eleições parlamentares de 1912.F R A NÇ A E AL EMANHA FAZEM SE U J O G O Em março de 1911. A Grã-Bretanha veio em seu apoio: o ministro das Finanças David Lloyd George. O cáiser e seus aliados políticos. Seu objetivo era forçar a França a oferecer compensações substanciais à Alemanha: enormes extensões de terra na África. A Alemanha recuou. o Panther. segundo as autoridades francesas. como rival imperial de longa data da França. que a França não estava isolada. Tropas francesas ocuparam Fez em 21 de maio de 1911. relutantes desde o começo em dei­ xar o secretário das Relações Exteriores dar sua arriscada cartada. O novo secretário das Relações Exteriores alemão. na costa atlântica marroquina. deixou-o claro num discurso inflamado num banquete na Mansion House em 21 de julho. enquanto a Áustria-Hungria se re­ cusou a prestar sequer apoio diplomático à Alemanha. apesar de suas origens políticas radicais. Até a França agir. para ficar ancorado no porto de Agadir. porém. de inclinações pacifistas e antiimperialistas. Alfred von Kiderlen-Wãtcher. decidiu estender uma armadilha. Aparentemente. acreditou-se que o le­ vante havia sido fomentado pela França a fim de prover uma justificati­ va para ocupar o país. O sultão marroquino fez um apelo à França. relutante em arriscar uma guerra por um país tão distante e desimportante como o Marrocos. pareceu solidarizar-se com a França. A Rússia também. nas quais. ameaçando uma das suas capitais. uma vez instaladas no Marrocos. A Áustria tinha logrado 94 . ele su­ pôs que a Inglaterra. Fez. Re­ velou-se. O cálculo de Kiderlen era de que uma França isolada ia ceder. A Áustria-Hungria era aliada. Kiderlen enviou um cruzador. para mandar tropas e restaurar a ordem. com alguma ambiguidade. exceto lembrar que fazê-lo anularia os acordos do tra­ tado existente e levaria a novas negociações para substituí-los. a Itália. pres­ sionaram em favor da paz. ele nada fez. era prudente supor que. pelo menos em tese. Em Berlim. como os chefes das forças armadas. tribos rebel­ des iniciaram desordens no interior do Marrocos. caso contrário. as tropas francesas iriam permanecer. A Itália não foi de nenhuma ajuda.

2 Em 1916. A Alemanha não podia contar com a Itália. começou a cobrar sistematicamente todas as dívidas estrangeiras. o qual agora financiaria uma guerra contra elas. Ela decidiu cobrar todo o dinheiro que esta­ vam lhe devendo. mas Viena não apoiaria os de Berlim. E também estaria de posse da montanha de dinheiro que tomara emprestado de outras po­ tências européias. para que ela precise da nossa ajuda. Tudo parecia se encaixar na esteira da crise de Agadir. e não que nós sejamos atacados. A França. devemos esperar que a Áustria seja atacada. obtinha então o reconhecimento da Alemanha também para seu protetorado no Marrocos. ele tinha dito ao cáiser: “Se houver uma guerra. Há nisso uma certa ironia. ou Viena não ia entrar na guerra. Em retorno.”1 Em outras palavras. o Reichsbank. a França lograra tomar o Marrocos graças à ajuda britânica.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U anexar a Bósnia-Herzegóvina graças ao apoio alemão. tornavam-se cada vez mais claros. a Alemanha aprendeu em Agadir que se tratava de uma via de mão única: Berlim apoiaria os interesses de Viena. e que a Rússia faria o mesmo se o que estivesse em jogo fosse a sobrevivência da França. um programa que.o envio do Panther ao Marrocos e a linguagem usada na comunicação com as gran­ des potências —alarmaram a Europa e provocaram uma forte reação. Berlim teria repatriado todo o seu dinheiro. a Alemanha re­ cebeu compensações na África. Os atos e palavras da Alemanha no verão de 1911 . o conflito teria de ser da Áustria em primeiro lugar. A crise de Agadir alertou a Alemanha para um outro perigo: vulnerabilidade financeira. ainda que não a sua causa. as quais considerou inadequadas. um aliado nominal. se continuado. A Alemanha fora avisada de que a Grã-Bretanha poderia ficar do lado da França. e nem sequer com a Monarquia Dual. O chanceler Theobald von Bethmann Hollweg já sabia disso antes da crise. Encarando a aliança austríaca como vital. em vez de uma simples questão colonial. que já controlava a Argélia e a Tunísia. estaria concluído em cinco anos e teria transformado a Alemanha em devedor total. pois não foram obra nem do cáiser nem do chan­ 95 . A partir de meados do verão de 1911. Tudo foi acordado em 4 de novembro de 1911. o Banco Cen­ tral alemão. Os contor­ nos de uma guerra futura. de modo a dependermos da decisão da Áustria se vai ou não permanecer leal à aliança.

também mudou de posição e previu a guerra mundial iminente. David Lloyd George. que morreu no final daquele ano depois de entornar seis conhaques. Em sua sala na Câmara dos Comuns. para entrar na guerra. renovadas de tempos em tempos juntamente com algu­ mas trocas de informações e discussões dentro das forças armadas e em comissões governamentais. Lloyd George. para levar o chanceler com toda urgência à presença do secretário das Relações Exteriores. o general-de-brigada Henry Wilson. a Marinha Real foi posta imediatamente em alerta. Churchill se recordaria posteriormente que. ao passear pelas fontes do Palácio de Buckingham com ■Lloyd George. Grey.”3 E sem dúvida. secretário do Interior e destacado amigo da Alemanha até uma hora tão avançada quanto a primavera de 1911. por iniciativa do diretor de Ope­ rações Militares. Daí o discurso na Mansion House em que ele se comprometeu a gastar tudo o que fosse necessário para manter a supremacia da Inglaterra. um mensageiro os alcançou. também envia­ 96 . na tarde de 24 de ju­ lho de 1911. Churchill e outros ministros interessados en­ contraram-se irregularmente no verão. tinham chegado a resultados contraditórios e inconclusivos. Edward Grey. os líderes do governo to­ maram consciência de que a Grã-Bretanha não estava preparada para a guerra. Sob a pressão dos acontecimentos. As conversações secretas de Estado-maior com a Bélgica e a França em 1905-1906. Grey lhes disse: “Acabo de receber uma mensagem tão dura do embaixador alemão que a Frota pode ser atacada a qualquer momento. e rivais. Exército e Marinha. delinearam as suas estratégias respectivas. era um daqueles velhos antiimperialistas cuja disposição foi mu­ dada por alemães e a respeito deles. Winston Churchill. durante o desenrolar da crise no Marrocos. ministro das Finanças do governo liberal bri­ tânico. Parece que esta foi a única oportunidade antes de 1914 em que as duas forças armadas. mas de um secretário das Relações Exteriores um tanto ou quanto descontrolado. Uma decisão foi tomada na conferência entre as duas forças: a Grã-Bretanha não lutaria apenas no mar.FRA NÇ A E AL EMANHA FAZEM S E U J O G O celer. Uma jornada de conferências de alto nível do Comité Imperial de Defesa foi convocada em 23 de agosto. Seu jovem afilhado político.

Até bem recentemente. Keiger. na Lorena ocidental. A frota não estava preparada para transportar a força expedicionária da Grã-Bretanha ao continente. assim. e recusou-se a criar uma instância equivalente ao Estado-maior do Exército. mergulhan­ do num frenesi de atividades ao preparar-se para vencê-la.e continua a ser . Mas segundo o seu biógrafo mais recente. cujo traba­ lho foi publicado em 1997. a Lorena. Supunha-se e supõe-se que seu objetivo fosse reverter os resultados da guerra franco-prussiana: que ele queria liderar uma cruzada para re­ cuperar os territórios perdidos. Há muito pouco tempo. tornou-se uma figura dominante na política francesa do seu tem­ po. Falar da França na política mundial de 1914 é falar do seu líder. polemico e enérgi­ co Winston Churchill. um mês antes dos seus 37 anos de idade. Coube. estudar e usar esses materiais. o mais recente entre eles afirmou em 1984 que o estadista francês havia destruído seus papéis. Do lado paterno. nascido na cidade de Bar-le-Duc. uma pessoa de peso e solidez formi­ dáveis. Raymond Poincaré. seria necessário encontrar uma nova chefia civil para o Almirantado: alguém dinâmico. Em vez disso. Os ances­ 97 .amplamente mal interpre­ tada.uma força expedicionária . ao primeiro biógrafo de Poincaré em língua inglesa. Em outu­ bro. isto não é verdade.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U ria um exército . em 20 de agosto de 1860. O alia­ do era a França. sabia-se extraordinariamente pouco sobre a sua condução dos assuntos. Raymond Poincaré. veio de uma família de profissionais reconhecidos por mais de um século no campo das ciências e da educação. acima de tudo o território da sua terra natal. Churchill já havia discrimi­ nado os principais contornos da guerra mundial iminente. o primeiro-ministro Asquith nomeou o jovem. Para lidar com firmeza com os almirantes entrincheirados. seus dois biógrafos na França não sabiam da existência de documentos privados de Poincaré. Nos planos de guerra britânicos. Sua política foi . a década de 1980. Os participantes ficaram chocados ao descobrir duas grandes fa­ lhas na Marinha Real. Num memorando por ele preparado e divulgado. ao lado da França e contra a Alemanha. a Alemanha era o inimigo. John Keiger. ele era um centrista moderado que preferia conciliações pacíficas.para lutar numa campanha terrestre no continente europeu. é verdade.

como a França começou a dar-se por satisfeita com suas intenções coloniais. Poincaré jantou na embaixada alemã . ele tornouse o mais jovem advogado da França. sua rival tradicional. em que as forças balcânicas. A Alemanha. o Comité de 1’Orient. que aspirava ao con­ trole da Síria.a primeira vez que um presidente francês o fazia desde 1870. Como presidente. em 17 de janeiro de 1913. cauteloso. a Grã-Bretanha. treinados e armados pelos alemães. a Inglaterra e a Rússia. derrotaram os Exércitos otomanos.F R A NÇ A E AL E MAN H A FAZEM S E U J O G O trais da sua mãe eram juizes e políticos. abstémio. apoio. mas. Também foi o primeiro a ser eleito diretamente do cargo de primeiro-ministro para o de presidente. desta vez tomou medidas para se defender contra a hostilidade 98 . Keiger sugere que o incremento da amizade entre Poincaré e os alemães era produto de uma confiança oriunda em parte dos resultados da Primeira Guerra dos Bálcãs. ele foi a pessoa mais jovem até então eleita para presidente. Poincaré tinha retomado a causa da aliança colonialista francesa. Porém ocorreu que. Em relação à Alemanha. Novas alianças estavam em processo de formação. que tinha encorajado a França em suas ambições imperiais. Aos vinte anos de idade. foi eleito o mais jovem membro do Parlamento. Além disso. E a Alemanha. No verão de 1914. entre seu colega pró-alemão Joseph Caillaux e o lobo solitário antialemão Georges Clemenceau. treinadas e armadas pela França. Mudanças esta­ vam no ar. porém. moderado e essencialmente não par­ tidário. Em 20 de janeiro de 1914. foi uma figura dominante. ele mantinha uma posição tipicamente intermediária entre as forças de centro-esquerda. Um observador da época. Virtuoso. Aos 52. tendo mais uma vez alienado as outras potências no episódio Panther. não ofereceu oposição. tinha assumido o controle quase total da política exterior francesa. impelia-o contudo uma competitividade abrasadora: a ambição de vencer todas as disputas da vida. ao contrário. agora estava no cami­ nho. Seu primo Henri tornou-se um dos matemáticos mais importantes do século XX. do Líbano e da Palestina caso o império turco desmoro­ nasse . Aos 26. poderia ter discernido algo em favor de Berlim.objetivo este que poderia jogar a França contra seus aliados. cargo que durava sete anos.

Ela adquirira sua capital. outra potência eu­ ropeia demarcava suas pretensões sobre partes do mundo muçulmano: a Itália.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U que incitara.. na guerra de 1859. Os italianos acalenta­ vam metas ainda mais ambiciosas: sonhavam com seus ancestrais romanos e esperavam conquistar glórias semelhantes. há cerca de 1.. Ela jamais fora unificada desde a queda de Roma.500 anos.. “e que a guerra seria apenas uma questão de tempo. A Itália era uma entidade geográfica que só recentemente tornarase um país. a cidade de Roma. uma autoridade na corrida armamentista pré-1914: “A consequência militar mais significa­ tiva da segunda crise marroquina continua sendo a decisão alemã de iniciar um extraordinário programa de armamento terrestre na expecta­ tiva de uma guerra. no começo da década de 1870.] lançaram-se na empreitada incerta esperando plenamente que seus rivais reagiriam” da mesma forma.]4 A doutrina militar alemã resultante deu início a uma espiral internacional de fabricação de armamentos de terra. a profecia se realizou”. Seus mais de 30 milhões de habitantes queriam um papel nos negócios mundiais. 99 . península que se estende da Europa Central para o meio do mar Mediterrâneo. Os alemães julgavam estar respondendo a uma ameaça de todos os lados. por meio de uma expansão arma­ mentista. Enquanto a crise marroquina se aproximava do fim. como as possuídas pelos países mais velhos e estabelecidos. Reclamava figurar entre as gran­ des potências e sentia a necessidade de conquistar colónias. e [. Nas palavras de David G.. A iniciativa da Áustria-Hungria nos Bálcãs seguida pela da França na África do Norte os lançou em busca dos mesmos fins. [. Herrmann. No devido tempo.

OS BÁLCÃS TAMBÉM território da Tripolitana. a França tinha renunciado a qualquer objeçao que pudesse ter. Nada! Nin­ guém deu a menor importância. Sob o indolente domínio do governo otomano. Assim. uma vez que a Áustria fez seu movimento na Bósnia. Em 1900. em retri­ buição à renúncia semelhante da Itália em relação à anexação do Marro­ cos.. a Tripolitana. desejada pela França. o governo italiano informou as demais potências da sua intenção de entrar em guerra . os diplomatas italianos estiveram preparando o caminho para a futura tomada.. Durante anos. foi o primeiro objetivo da Itália.C A P ÍT U L O 13: A ITÁLIA TOMA POSSE. Como recordou posteriormente um jovem diplomata italiano: “Eu [. a imprensa e o público na Itália começaram a pres­ sionar seus líderes para agir antes que fosse tarde demais. hoje parte da Líbia.J1Pensaram que estávamos blefando. e a França no Marrocos. como a contígua Cirenaica eram minimamente governadas e inadequadamente defendidas.com cerca de dois meses de antecipação.] achava que o comunicado criaria por si uma certa agitação. [.” 100 . Com um vagar mais mediterrâneo do que moderno..

O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U

Em 29 de setembro de 1911, a Itália declarou guerra, acusando a
Turquia de prejudicar os interesses italianos. A Itália ocupou rapida­
mente a costa do Líbano, mas em seguida atolou no interior. A luta
prosseguiu por cerca de um ano. Um cessar-fogo entrou em vigor em 15
de outubro de 1912, seguido por uma paz que deixava à Itália a posse
não apenas da Líbia, mas também de Rhodes e outras ilhas dodecanésias
ao largo da Turquia no Mediterrâneo oriental.
Para a aliança balcânica de inspiração russa de Hartwig, a guerra italiana
foi um sinal de que havia chegado a sua hora de atacar —e de apropriarse da Áustria. Acelerava-se o ritmo do conflito; os choques começaram a
se sobrepor. A guerra ítalo-turca começou antes de a Segunda Crise
Marroquina estar resolvida, e então, das brasas de um sem-número de
rixas de sangue, ardeu a Primeira Guerra dos Bálcãs, antes de a guerra
colonial italiana estar concluída. Não há dúvida, a principal razão pela
qual a Turquia aceitou os termos italianos para pôr termo às hostilida­
des foi a sua necessidade de se concentrar na Europa do Sudeste. Havia
uma revolta na Albânia, um conflito de fronteira em Montenegro, uma
guerrilha perseverante na Macedônia e, acima de tudo, tumulto em Cons­
tantinopla, onde oponentes dos Jovens Turcos tinham chegado ao poder.
Conforme já vimos, em 13 de março de 1912, a Bulgária e a Sérvia
tinham se reunido pela intervenção do russo pan-eslavo Nicolai Hartwig,
que as inspirou a tirar vantagem da guerra italiana para impor suas rei­
vindicações a uma Turquia cuja atenção estava alhures. A Grécia aderiu
a seguir. E também, por acordo verbal, Montenegro. A princípio, a Rússia
não notificou a França do que estava acontecendo; mesmo depois, não a
manteve plenamente informada. Mas pode ser que nem São Petersburgo estivesse sendo avisada: Hartwig estava levando adiante algo próximo
de uma operação de fraude. Izvolsky e outros líderes do governo russo
“denunciaram os perigos da ‘austrofobia de Hartwig’” e do que o histo­
riador Dominic Lieven recentemente chamou de a “sua deslealdade his­
tórica para com a política externa geral da Rússia”.
Os povos balcânicos nutriam ódios assassinos uns contra os outros,
faziam reivindicações rivais sobre territórios e fronteiras, mas agiram
juntos para golpear a Turquia antes de ela poder chegar a um acordo de
paz com a Itália. Preparando uma cruzada para libertar tudo o que resta­
101

A ITÁLI A T O M A P OS S E ; OS BÁLCÃS T A M B É M

va do Império Otomano no sudeste cristão da Europa, Montenegro de­
clarou guerra à Turquia em 8 de outubro de 1912, seguido por suas
aliadas Bulgária, Sérvia e Grécia em 17 de outubro. A Turquia terminou
imediatamente a guerra contra a Itália.
Para surpresa de todos, as forças otomanas foram rápida e incon­
dicionalmente derrotadas. Elas foram enxotadas de quase toda a Tur­
quia européia. Num mês de campanha-relâmpago, os Estados balcânicos
tinham praticamente fechado a Questão Oriental. Eis um papel que as
grandes potências sempre pensaram que elas próprias desempenhariam.
Agora elas se desdobravam para garantir que qualquer acordo eventual­
mente alcançado —por outros —não ameaçasse seus interesses vitais. Sua
tarefa foi dificultada pela mudança de pessoal: os secretários das Rela­
ções Exteriores da Alemanha e da Áustria tinham morrido, o secretário
das Relações Exteriores da Rússia havia renunciado, e os seus substitutos
não eram da mesma estatura.
Em dezembro de 1912, uma conferência de embaixadores reuniuse em Londres. A Macedônia foi partilhada. A Bulgária sentiu-se ludi­
briada em sua parte pela Sérvia e pela Grécia. Um tratado de paz foi
assinado em 30 de maio de 1913, mas não perdurou. Um mês depois,
na noite de 29 para 30 de junho, a Bulgária se voltou contra seus exaliados, Sérvia e Grécia, num ataque-surpresa ordenado pelo rei Fernan­
do I, sem consultar sequer o seu próprio governo. Isto levou à chamada
Segunda Guerra dos Bálcãs, em que a Bulgária foi derrotada pela Sérvia,
a Grécia, a Turquia e a Roménia.
O Tratado de Bucareste, assinado em 10 de agosto, e negociado
pelos Estados locais, em vez das grandes potências, pôs um termo na
Primeira e na Segunda Guerras dos Bálcãs. A Áustria-Hungria foi pega
de surpresa. Ela queria ver a Sérvia subjugada —tendo esperado e acredi­
tado que a Turquia ganharia a primeira guerra e a Bulgária a segunda - ,
e bem poderia ter intervindo para impor resultados diferentes se tivesse
havido tempo. Sendo as coisas o que eram, o Império Habsburgo temia
por seu futuro. Seus temores se concentravam na Sérvia vitoriosa e em
seu patrocinador, a Rússia.
Os temores austríacos não eram injustificados. Durante as guerras
balcânicas, o novo ministro das Relações Exteriores russo, Serge Sazonov,
disse ao embaixador sérvio em São Petersburgo:2 “Nós derrubaremos a
102

O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U

Áustria até as fundações.” E que, ganhando tudo o que for possível nas
negociações de paz, “nós devemos ficar contentes com o que receber­
mos, encarando-o como uma prestação, pois o futuro nos pertence”.
Foi a própria Áustria-Hungria, ao anexar a Bósnia-Herzegóvina,
quem havia provocado a reação da Rússia e da Sérvia em busca de vin­
gança. Era possível que a Sérvia, que havia dobrado de tamanho, e seus
aliados, a Rússia e as forças pan-eslavas, continuassem o seu avanço.
Aehrenthal tinha perturbado o equilíbrio de forças dos Bálcãs em 1908
em fàvor da Áustria. Agora, Hartwig o perturbara em favor da Rússia. Iria a
Monarquia Dual responder por sua vez? Ou continuaria o germanismo
a recuar diante do eslavismo?

103

C A P ÍT U LO 14: A MARÉ ESLÁVICA

s tempos haviam mudado. No século XIX, quando os alinhamen­
tos e ajustes de política externa tendiam a centrar-se em ideologia,
a Rússia e os Estados germânicos da Áustria e da Prússia eram os mais
próximos aliados. Em 1912, eles ainda partilhavam a mesma perspecti­
va, a mesma política reacionária, os mesmos valores. Mas sua solidarie­
dade, baseada em crenças comuns, deu vez a um conflito de vida ou
morte baseado em choques de interesses e disputas de poder.
O choque de interesses estava nos Bálcãs, onde se acreditava que,
para sobreviver, a Áustria teria de esmagar todas as provocações dos po­
vos eslavos. Por sua vez, a sobrevivência da Áustria como grande potên­
cia era vital para os interesses da Alemanha. Ademais, o tamanho absoluto
da Rússia e seu crescimento surpreendentemente rápido como potência,
ao industrializar-se com o apoio financeiro da França, transformaram o
império tsarista num rival potencial da Alemanha pela supremacia no
continente. O aspecto teutônicos versus eslavos dessa disputa potencial
refletia ódios raciais. Além disso, vendo o futuro da Alemanha em ter­
mos de penetração e exploração do Oriente Médio e do Extremo Orien­

O

104

O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U

te, o cáiser imaginava um outro objetivo, que só podia ser alcançado
mediante a dominação do mundo eslavo.
Incoerente como tão frequentemente era, o cáiser também demo­
rou para perceber o que estava acontecendo. Nos primeiros dias das
guerras dos Bálcãs, ele achava a derrota do Império Otomano inquestio­
nável. Os seus Jovens Turcos, decidiu ele, mereciam ser “lançados fora
da Europa” por terem derrubado “meu amigo, o sultão”.1 O futuro dos
Bálcãs deve ser determinado por seus povos, acreditava ele, e se as gran­
des potências interviessem para “manter a paz”, o tiro só poderia sair
pela culatra: os povos se voltariam contra as potências.2 Em vez disso, as
potências deveriam formar um “anel” no interior do qual as forças locais
pudessem resolver seus conflitos.3 “Deixemos essa gente se acertar”, es­
creveu ele em suas notas marginais irresponsáveis, irrefletidas e tipica­
mente ambíguas (que se prestam a várias leituras).4 “Seja tomando alguns
golpes ou seja dando. [...] A Questão Oriental tem de ser resolvida com
sangue e ferro.” Decisões seriam tomadas no campo de batalha. Sangue
seria derramado; era inevitável. Só depois a negociação poderia ter al­
gum papel. “Depois haverá tempo para conversar.”5 Mas para que este
processo —as guerras étnicas balcânicas, seguidas por uma conferência
de paz em que os termos seriam amplamente ditados pelos vitoriosos
locais —produza um resultado aceitável para as potências alemãs, ele tem
de ocorrer “na hora certa para nós!6 E esta hora é agora!” —enquanto a
França e a Rússia ainda não estão preparadas para a guerra.
Pouco depois de rabiscar essas notas marginais, o cáiser ordenou ao
seu Ministério das Relações Exteriores não “criar impedimentos para os
búlgaros, sérvios e gregos em sua legítima busca da vitória”.7 Numa nota
marginal, ele previu a possível criação dos “Estados Unidos dos Bálcãs”,
que poderiam servir como um pára-choques entre a Áustria e a Rússia,
assim resolvendo esse problema.8 E sua criação também proporcionaria
um importante mercado para as exportações alemãs.
Avultando-se a ameaça de crise nos meses finais da Primeira Guer­
ra dos Bálcãs, com os vitoriosos Sérvia e Montenegro buscando uma
saída para o mar —Scutari, na costa do Adriático, na antiga Albânia
otomana - e a Áustria se opondo a esta reivindicação, o cáiser escreveu
ao seu secretário das Relações Exteriores: “Não vejo qualquer ameaça à
existência da Áustria, ou ao seu prestígio, num porto sérvio no mar
105

A MARÉ ESLÁVI CA

Adriático” e “creio ser desaconselhável e desnecessário opor-se ao desejo
sérvio”.9 Ele negou que os termos da Tríplice Aliança (Alemanha, Áus­
tria e Itália) obrigassem seu país a fazê-lo; a aliança só “visava garantir a
integridade das possessões territoriais vigentes”.10 E acrescentou que,
“certamente, algumas das mudanças produzidas nos Bálcãs pela guerra
são inconvenientes e mal recebidas por Viena, mas ninguém [é] impor­
tante a ponto de termos, por causa disso, de nos expor a um envolvi­
mento militar. Eu não assumiria tal responsabilidade perante a minha
consciência ou o meu povo.”
Ele reafirmava frequentemente a sua posição: “Em nenhuma cir­
cunstância [ele estaria] preparado para marchar contra Paris e Moscou
no interesse da Albânia.” Num memorando ao Ministério das Relações
Exteriores, ele chamou de absurdo arriscar “uma luta pela existência com
as três grandes potências, em que a Alemanha pode morrer”, somente
porque a “Áustria não quer os sérvios na Albânia”.11
Entre muitas outras mensagens, Guilherme passou um telegrama
ao seu secretário das Relações Exteriores em 9 de novembro de 1912:
“Conversei em detalhes com o Chanceler do Reich sobre as linhas da
minha instrução para o senhor e enfatizei que em nenhuma circunstância
marcharei contra Paris e Moscou no interesse da Albânia.”11,13
O cáiser queria deixar claro para a Áustria que Berlim só apoiaria
Viena se a Rússia atacasse - e se a Áustria não tivesse provocado o ata­
que. Ele foi dissuadido. O chanceler von Bethmann Hollweg, talvez
fortalecido pela opinião do almirante George Alexander von Miiller,
conselheiro naval do cáiser, teria argumentado que a Áustria perderia a
fé na garantia alemã se a mensagem fosse enviada a Viena, e que o povo
alemão ficaria furioso. Em vez disso, o governo deveria instar a Áustria a
demonstrar moderação, de modo a tornar uma eventual intervenção
alemã “compreensível aos olhos do povo alemão”.14 (Mas se a opinião
pública ficasse furiosa pelo abandono da Áustria, não quer dizer que o
argumento austríaco já era “compreensível”?)
Na segunda metade de novembro, tendo se encontrado com ofi­
ciais da ativa e funcionários civis, o cáiser ficou satisfeito. No momento,
a opinião pública encarava a Áustria como a parte provocada; “a posição
que eu queria que fosse alcançada”.15
106

O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U

Em 21 de novembro, o arquiduque Francisco Ferdinando, grande
amigo do cáiser e herdeiro do trono Habsburgo, chegou a Berlim e rece­
beu garantias de Guilherme e de Moltke de que a Alemanha ia apoiar a
Áustria “em todas as circunstâncias”, mesmo sob risco de guerra contra
a Grã-Bretanha, a França e a Rússia.16 O cáiser estava obviamente per­
suadido de que a Áustria era a parte provocada, e que a Inglaterra e a
França não interviriam. É possível que estas tenham sido as suas condi­
ções, ainda que não explicitadas. E a opinião do Ministério das Relações
Exteriores era de que “hoje tanto a Itália quanto a Inglaterra estão do
nosso lado”: o risco era muito menor do que pode parecer.17 Seja por
esta razão ou por outra, os líderes alemães tornaram público o seu com­
promisso. O ministro das Relações Exteriores falou ao Parlamento em
28 de novembro: “Se a Áustria for forçada, por qualquer razão que seja, a
lutar por sua posição de grande potência, nós teremos de ficar ao seu
lado” (grifo meu).18 Em Londres, o secretário britânico das Relações
Exteriores ficou alarmado: a Alemanha quis mesmo dizer que vai dar
um “cheque em branco” para a Áustria, perguntou ele, e apoiar Viena
em qualquer coisa que fizesse, mesmo estando errada e mesmo numa
guerra de agressão que ela tenha começado? Sir Edward Grey disse ao
embaixador alemão que “as consequências de tal política” seriam
“incalculáveis”.19
Grey agiu para garantir que o cáiser não compreendesse mal a po­
sição da Inglaterra. Se a Alemanha não ia deixar a Áustria desaparecer
como grande potência, tampouco a Inglaterra permitiria o desapareci­
mento da França como tal. Grey aparentemente falou com R. B. Haldane,
o lorde chanceler, que, como ministro da Guerra, tinha remodelado o
Exército britânico, o que resultou numa mensagem de Londres que pro­
vocou uma nova crise.
A data era 8 de dezembro de 1912. Num comunicado breve, o
cáiser convocou uma reunião na sua residência de Berlim com os seus
líderes militares: quatro, segundo um relato, seis, segundo outro. Eles se
encontraram às onze horas da manhã, para avaliar o significado do tele­
grama de Londres. Além de Guilherme, entre os participantes estavam o
almirante Miiller, chefe do Gabinete Naval do cáiser; o almirante von
Tirpitz, líder naval; o general Moltke, chefe do Estado-maior do Exérci­
to; o vice-almirante August von Heeringen, chefe do Estado-maior da
107

pudessem manter a sua independência. e talvez também o seu irmão. o general Josias von Heeringen. dois homens devotados à causa de cultivar as relações entre a Inglaterra e a Alemanha . argumenta persuasivamente que dispomos agora de uma documentação adicional extraordinariamente abundante para nos ajudar a compreender as notas do almirante Miiller. A conferência secreta só foi revelada ao mundo meio século depois. Gotdieb von Jagow. o príncipe Karl Max von Lichnowsky. Moritz Freiherr von Lyncker. tinham sido nossa única fonte. John Rõhl. talvez o mais próximo de Fisher nas suas opiniões. e o chefe do Gabinete Militar. tinha lhe telegrafado notícias sobre uma conversação que havia acabado de ter com lorde Haldane. Segundo o cáiser. que a Inglaterra não se oporia se a Alemanha ampliasse a sua liderança como país mais rico e mais pode­ roso do continente.A MARÉ ESLÁVI CA Marinha. quando o historiador Fritz Fischer mostrou que ela podia ser indício de um plano deliberado do cáiser e seus chefes militares para iniciar uma guerra européia em junho de 1914. E havia uma mensagem implícita no telegrama.. o ex-ministro da Guerra germanófilo da GrãBretanha. Haldane falou abertamente em favor de Sir Edward Grey. Se a Alemanha atacasse a França. A interpretação da conferência de 1912 ainda é uma questão aberta. ministro da Guerra prussiano. seria seguro inferir que Grey estava dando o remédio que. numa versão expurgada anterior. As lideranças civis não estavam presentes: o chan­ celer von Bethmann Hollweg e o secretário das Relações Exteriores. A mensagem de Grey chamou a atenção do cáiser sobre algo que qualquer estudante de relações internacionais deveria saber: que era de interesse vital para a Grã-Bretanha manter o equilíbrio de poder na Europa. a Grã-Bretanha interviria ao lado desta. as quais. especialmente as da Europa Ocidental. apesar de aparentemente amargo. O cáiser convocou a reunião porque o embaixador anglófilo da Alemanha em Londres. Em suas ira­ das notas marginais ao texto do telegrama. Dado o canal de comunicação escolhido —Lichnowsky e Haldane. desde que as outras potências. era indicado ao bemestar do paciente. Guilherme caracterizou o 108 . pois preservar a independência e o status de potência da França era um dos interesses vitais de Inglaterra. embora a maioria dos historiadores importantes tenda hoje a não aceitar as opiniões de Fischer sem pelo menos alguma restrição.

concordava em parte.e este mostrar-se-ia um “mas” significativo —ele acrescentou que “nós devemos trabalhar mais com a imprensa”. Segundo o cáiser. A reunião parece ter degenerado num espetáculo de sentimentos pró-guerra. e “se a Rússia apóia os sérvios. Uma data fora mencionada. e para este fim..” Mas . em vista de fortalecer o apoio popular à guerra contra a Rússia.. relatando o que havia sido dito e decidido no que depois ficou conhecido como o “conselho de guerra”.20 O cáiser. conforme uma versão em segunda mão. a Marinha deveria incrementar medidas como a construção da sua frota de submarinos U-Boat. a Áustria “deve lidar energicamente” com a Sérvia. O cáiser e Moltke insistiam na guerra imediata. o que evidentemente ela faz [. Tirpitz. e quanto mais rápido melhor. Um almirante Miiller decepcionado anotou em seu diário: “O resultado” da conferência “foi quase nulo”. estaria numa posição ainda pior. falando em nome da Marinha. A frota precisava de tempo para concluir a ampliação e o aprofundamento do canal de Kiel e as obras da base de Heligoland. falando em dezembro. Moltke alegava que nem então a Marinha esta­ ria pronta. mostrando aos planejadores alemães propensos a consi­ derar a possibilidade de neutralidade da Inglaterra o erro da sua maneira de ver as coisas. no meio das guerras dos Bálcãs. mas sem chegar a uma decisão acordada. À luz da mensagem de Haldane. e que o Exército. No relato de primeira mão do almirante Muller. mas não firmemente estabelecida. o cáiser mencionou frequentemente 109 . deveria planejar a luta também contra a Inglaterra. Muller escreveu ao chanceler naquela tarde. Muller transmitiu a ordem do cáiser de usar a imprensa para preparar o povo para uma futura guerra com a Rússia. que já estava ficando sem dinheiro. Moltke disse: “Acredito que a guerra é inevitá­ vel.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U princípio inglês de equilíbrio de poder como “idiotia” que tornaria a Inglaterra “eternamente nossa inimiga”. mas pedia “o adiamento da grande luta por um ano e meio”. Na semana seguinte à conferência.] então a guerra também será inevitável para nós”. se a Alemanha entrasse em guerra. Guilherme teria saudado o fato de a mensagem de Haldane prover um “esclarecimento desejável” das inten­ ções britânicas. estaria “num estado muito agitado” e “de ânimo abertamente marcial”.

em parte. e a Áustria-Hungria. porém.22 Os eslavos continuavam a avançar visivelmente. Segundo um importante estudioso da corrida armamentista. os alemães começaram uma corrida armamentista nova e mais frenética.A MARÉ ESLÁVI CA a guerra iminente em termos inflamados. Desde que Fritz Fischer publicou material do conselho. nada fazia para impedi-los. ela foi empreendida. Os líderes partidários alemães falaram abertamen­ te sobre a possibilidade de uma guerra mundial. a Alemanha não tinha mais possibilidades de expandir-se. David Herrmann.21 Nos quase dois anos que se sucederam ao conselho de guerra. em que o Exército teria feito um ataque preventivo contra a Marinha. Da maneira como estava constituída. A Primeira Guerra dos Bálcãs. num ato de rivalidade entre os ramos das forças armadas. paralisada nos seus planos de ação e como poder. em vista de preservar o seu controle pelos junkers prussianos. Como sabiam os líderes alemães. nos diz Herrmann. os aumentos não puderam ser inteiramente digeridos até 1916. A máquina militar alemã de tem­ pos de paz estava funcionando em capacidade plena. mas a de 1913 foi a maior da história alemã. O ministro da Guerra perseverou na tentativa de limitar o contin­ gente do Exército. na época do conselho de guerra. tendo terminado em 1912. A conta do Exército foi grande em 1912. Outra razão é que a crise do Marrocos de 1911 despertara tanto o público como o Exército para a consciência de que a Alemanha enfrentaria desa­ fios reais numa guerra contra uma coalizão européia. buscando um financiamento grande o bas­ tante para inviabilizar qualquer aumento também para a frota. “teve um efeito ainda mais galvanizador”. a expansão armamentista frenéti­ ca incrementada por eles inspiraria outros países a buscarem igualdade. enquanto um alarmado Moltke propunha um aumento de tamanho de quase 50%. descrevendo-a repetidas vezes como um conflito racial. Mas eles tinham chegado a um tipo de limite. Guilherme disse ao representante suíço que a luta racial “iria provavel­ mente acontecer em um ou dois anos”). que “transformou a atmosfera de tensão numa de emergência”. mas ela havia sido decidida e posta em movimento muito tempo antes. os historia­ dores têm se perguntado se pode ser coincidência a guerra ter de fato estourado um ano e meio depois (pouco depois de terminada a reunião. 110 .

A única coisa que podia justificar seus gastos militares nos níveis de 1913 era entrar em guerra no futuro imediato. chefe do Estado-maior austría­ co. Moltke escreveu para Conrad.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U A organização política era demasiado instável. dizendo que seria difícil encontrar um grito de guerra capaz de convencer o público alemão a entrar em combate —ainda. o sistema de impostos demasiado arcaico e não progressivo.23 111 . Mas a opinião pública alemã não estava pronta para isto. em fevereiro de 1913. A Alemanha não podia dar-se ao luxo de continuar sua expansão por muito tempo.

as grandes potências deram um jeito de se manterem a distância umas das outras.CAPÍTULO 15: A EUROPA À BEIRA DO PRECIPÍCIO E ntre 1908 e 1913. se a França fosse ameaçada pela Alemanha . os Jovens Turcos foram sucedidos por uma inter­ venção européia depois da outra em terras que certa feita haviam sido ou que ainda eram otomanas. 112 . inspirando a Itália a golpear o Império Otomano na Líbia e nas Egéias. Montenegro. enquanto ao mesmo tempo aproximavam-se cada vez mais da colisão final. enquanto Sérvia. a despesa total com arma­ mento das seis grandes potências cresceu cerca de 50%.mesmo que fosse por culpa da França. a Grã-Bretanha indicou que abandonaria seu iso­ lamento tradicional para apoiar a França. A França fez então seu movimento no Marrocos. A rebelião na Turquia tinha levado à anexação pela Áustria da Bósnia-Herzegóvina. Naqueles cinco anos. os acontecimentos desses anos produziram uma mudança na cara da política européia. • Na crise de Agadir. Em conjunto. Entre 1908 e 1913. evitando choque após choque. Grécia e Bulgária atacavam nos Bálcãs.

• A Sérvia. Vendo os Estados balcânicos potencialmente como um bloco único (e como tal equivalente a uma grande potência nova). a Áustria passou a acre­ ditar que atacar primeiro podia ser sua única esperança. não era confiável. Em 23 de outubro de 1913. • A Turquia européia. dizendo: “Os eslavos não nasceram para governar. contra o islã. exultante com suas vitórias relâmpago nas duas guerras dos Bálcãs. • Com um medo mortal dos planos da Sérvia. Guilherme descreveu o resultado das guerras dos Bálcãs ao ministro das Relações Exteriores austro-húngaro com as seguintes palavras: “O que estava ocorrendo era um processo histórico que deve ser classificado na mesma categoria que as grandes migrações humanas. o cáiser achou que a mudança no equilíbrio de forças criaria um pára-choque capaz de resolver o problema da rivali­ dade austro-russa. 113 . alinhada com a Rússia. • Durante um tempo. caiu conseqúente­ mente presa da violência e das paixões voláteis dos seus grupos étni­ cos rivais. imprevisível militarmente mesmo contra o lerdo Império Otomano.” E continuou. ansiava por continuar sua expansão. ela temia a possibilidade de tornar-se uma entidade eslava ou grego-ortodoxa.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U • Nas guerras dos Bálcãs. e assim deslocar o equilíbrio de forças na Europa em favor da França/Rússia. liberada pelos próprios povos balcânicos. em vez de pelas grandes potências (como se esperara). sendo o caso presente o de um grande avanço dos eslavos. • Isolada durante a crise de Agadir.1 A guerra entre o Oriente e o Ocidente era inevitável a longo prazo. a França mostrou que iria além do seu trata­ do puramente defensivo para apoiar a Rússia num conflito contra a Alemanha começado pela Rússia. apesar do seu tratado defensivo com a Monarquia Dual. em vez de desfrutar a estabilidade que o equilíbrio de poder das grandes potências poderia ter trazido. a Alemanha evoluiu na direção de apoiar o Império Habsburgo —sustentando-o (como Moltke prometeu a Conrad durante a crise da Bósnia-Herzegóvina) mesmo num ato de agressão —em vez de ficar isolada outra vez. ao mesmo tempo permitindo aos cristãos se uni­ rem em sua expansão para o leste. • A Itália.

Antes. como no passado a maré islâmica fluíra para o oeste. Agora. Apesar de a Europa ter se afastando da beira do precipício. Sob liderança teutônica. O que havia começado como uma sombria fantasia fora convertido. em vez de mais tarde.e que esta­ vam convencidos de que ela só podia ser ganha se travada mais cedo. a cristandade olharia a leste para expandir-se. e esta potência era a Áustria-Hungria. permanentemente. é que a Alemanha vivia um surto de crescimento industrial e militar. o país havia aterro­ rizado tão efetivamente os seus vizinhos que eles acabaram se agrupando em autodefesa. como indicava a nova perspectiva do cáiser. A questão que a guerra resolveria era: qual das grandes potências continuaria a ser grande potência? Em 1914. Mas Moltke falava para muitos baluartes do poder na Alemanha que achavam que a guerra final era inevitável . a beira do precipício continuava perto. Estar cercada era o pesadelo da Alemanha. na visão de Moltke. e políticos e empresários britânicos tão astutos quanto Joseph Chamberlain viam o declínio da Grã-Bretanha face à Alemanha como uma realidade. o que chama nossa atenção. o que seus vizinhos foram levados a fazer reforçou ainda mais a paranóia alemã. ao contrá­ rio. Situado no coração da Europa. a Alema­ nha.A E UR OP A À BEIRA DO P R E C I P Í C I O sim para obedecer. Se a Áustria precisava de uma guerra hoje. e a própria Alemanha havia provocado isso. os europeus chegaram cada vez mais perto do limite. as alianças já não eram mais defensivas. somente uma delas sentia seu status—e a sua exis­ tência —imediatamente ameaçado a menos que tomasse uma atitude prontamente. ficava cada vez mais forte. pelas próprias ações da Alemanha.” Sua estranha concepção nessa oportunidade era de que a Sérvia podia ser convencida a aceitar a liderança da Áustria e salvar o Ocidente. A França lutaria pela Rússia. assim como a Alemanha pela Áustria. de que a Alemanha estava ficando mais fraca. Os números da indústria e outros aí estão para prová-lo. De todas as mudanças de tendência e de percepção que ocorreram na política internacional européia durante os anos anteriores à guerra. amplamente sustentada em Berlim. Entre 1908 e 1913. Por sua vez. 114 . e a Grã-Bretanha poderia lutar pela França. certa ou errada. talvez a mais discordante de nossas percepções de hoje seja a crença. Retrospectivamente. precisava de uma no mais tardar amanhã. as potências estavam presas a trata­ dos secretos de aliança que as comprometiam a ajudar umas às outras em caso de ataque.

nem é agora. Culturalmente. Mas quando o embaixador anglófilo da Alemanha em Londres enviou uma mensagem para casa instando Alemanha e Inglaterra a permanece­ rem unidas.4À afirmativa do jornal de que a “Rússia e a França não querem guerra”. Inglaterra e Rússia não tinham intenção de atacar a Alemanha. “eles estão se preparando sob forte pressão para uma guerra iminente contra nós”. o cáiser escreveu: “Conversa mole!”5 115 . mas faziam planos de contingência para se articularem contra o império do cáiser se e quando ele as atacasse. França. Os historiadores acreditam que houve um relaxamento da tensão entre a Inglaterra e a Alemanha em 1914. para reorganizar o Exército otomano. mas é claro que era assim que se sentiam. Não era evidente então. a população mais e melhor educada da Europa em todos os aspectos —a da Alemanha —dizia a si mesma que estava sendo sufocada por uma civilização européia que a pressionava por todos os lados. Otto Liman von Sanders.3 eis a anotação marginal do cáiser quando um jornal russo exortou a Entente à prontidão. Tais sentimentos faziam-se certamente notar em assuntos militares e políticos. como quando elas resolveram conflitos como os relacionados com o plano alemão de cons­ truir uma estrada de ferro Berlim-Bagdá e nomear um oficial-general alemão.2 “Contra nós”. um alto funcionário das Relações Exteriores de Berlim só pôde imaginar que o embaixador fora enganado pelos britânicos: “Puse­ ram-lhe a camisa de onze varas outra vez” (27 de junho de 1914).O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U em realidade. o porquê de os alemães se sentirem assim.

Guilherme e Francisco Ferdinando se encontraram na casa de cam­ po do arquiduque. por seu imperador. tratados de paz pareciam não passar de tréguas durante as quais as partes articula­ vam seus realinhamentos para a próxima rodada de disputas. por sua vez. tal como havia feito em novembro de 1912. o arquiduque Francisco Ferdinando. ministro das Relações Exteriores da Monarquia Dual. a obter de Guilherme o compro­ misso de continuar apoiando a Áustria incondicionalmente. Nenhuma transcrição sobreviveu. e que Guilherme havia evitado tal 116 .C A P ÍT U LO 16: MAIS ABALOS NOS BÁLCÃS os turbulentos Bálcãs do começo do século XX. República Tcheca). E assim foi em meados de junho de 1914. levaram ao rascunho a várias mãos no Ministério das Relações Exteriores dos Habsburgo de um memoran­ do que delineava a grande estratégia da Áustria-Hungria. em Konopischt. Estas. mas há indícios de que Francisco Ferdi­ nando foi instado. Esses encontros foram seguidos por conversações amplas entre Francisco Ferdinando e o conde Berchtold. quando o cáiser Guilherme II manteve discussões com seu amigo. Boémia (hoje.

De tempos em tempos. Guilherme.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U declaração. Guilherme fazia questão de tratar Sophie. com a morte do velho Francisco José. mas não lograva convencer Francisco Fernando. assim como Guilherme permitia que seu racismo anti-eslavo se sobre­ pusesse à sua ideologia monarquista. A relação política entre Guilherme e Francisco Ferdinando era muito mais complexa do que aparentava superficialmente. Havia tensões no seio da alian­ ça austro-alemã. Ele se esforçou para fazer de Francisco Ferdinando um amigo. Ele havia empre­ endido formar um vínculo com o herdeiro aparente dos Habsburgo. cujo tsar partilhava a crença deles no absolutismo real. primeiro-ministro húngaro. ambos escolhiam a paz. Ambos alimentavam esperanças de uma eventual distensão com a Rússia. luterano. pelo me­ nos em parte. 117 . Eram impacientes e fortemente tendenciosos. falava altamente do conde István Tisza. mas o cáiser discordava. e Guilherme. posição que lhe fora negada em seu próprio país. foi coisa fácil de fazer por causa dos seus gostos co­ muns. Porém. a esposa de Francisco Ferdinando. e por isso não gozavam da confiança dos militares em seus respectivos países. Nicolau subordinava a sua ideolo­ gia ao interesse nacional do país. Para o cáiser. de parceiro menor da Ale­ manha de Guilherme. E o arquiduque se ressentia profundamente da queda do Império Habsburgo do seu primeiro lugar entre as potên­ cias da Europa para a sua posição em 1914. poderia realmente vir a ser. Guilherme lidava com o arquiduque como se ele fosse o parceiro político que. E deve-se observar que o cáiser tinha um medo paranóico de a Rússia estar planejando uma guerra contra a Alemanha. O governo austríaco acreditava que a Sérvia representava um perigo mortal. tratava-se de uma amizade de conveniência. inclusive a paixão pela caça. Em alguns aspectos. ao longo das frequentes crises bélicas que eram um traço tão conspícuo da sua época. mas é possível que este não tenha gostado inteiramente de Guilherme. Mas Francisco Ferdinando era católico roma­ no. Eram homens imoderados em seu uso da língua: Francisco Ferdinando lidando com as pessoas. como arquiduquesa. Guilherme ao lidar com a política. e deplorava a fraqueza que levou a Áustria a fazer os magiares parceiros de governo. ao contrário. Ele detestava a Hungria. Eram homens de temperamento autocrático.

mas enquanto suas tiradas eram belicosas. Quanto aos beligerantes na Segunda Guerra dos Bálcãs. po­ rém. que gostava de falar grosso. tal­ vez os únicos de peso a repetidas vezes favorecer o recuo à beira da guer­ ra. a Alemanha do cáiser tinha planos económicos ambiciosos na Ásia e mesmo nos Bálcãs. lem­ bra-se do ajudante-de-ordens dizendo. Ele não quer sequer uma ameixeira.MAIS ABALOS N OS BÁLCÃS Apesar de serem aliados próximos em teoria. A Áustria-Hungria não apoiaria a Alemanha no Marrocos. em nenhuma hipótese vai entrar em guerra com a Rússia. a Alemanha estava com a Grécia. dos quais a Monarquia Dual de Francisco Ferdinando estava excluída. Os austríacos não conseguiam entender como a Alema­ nha não via o porquê de a Sérvia. O general Conrad. disse a Conrad: “O Herdeiro Apa­ rente está inteiramente do lado da paz. os apavorar. Francisco Ferdinando disse a convidados de um jantar que a Áustria nada tinha a ganhar conquistando a Sérvia. uma ovelha da Sérvia. de jeito nenhum vai permitir que aconteça. Francisco Ferdinando não fazia coro com o seu governo. E ali deliberavam juntos. escolheu a Bulgária. ele falava tão bem como trabalhava para alcançar a paz. como o cáiser. O cáiser. a Alemanha não apoiaria a Áustria-Hungria na Albânia. Eles eram mal compreendidos pelo mundo externo.” Segundo relatos. Neste assunto. certa feita chefe do Estado-maior austríaco. frequentemente fazia discursos extravagantes exaltados de adolescente beligerante tentando impressionar seus pares. Em termos de planejamento político em junho de 1914. em 1913: “O arquiduque fez soar o toque de retirada em toda a linha. a questão para os dois impérios era que país deveria ser seu aliado principal nos Bálcãs: Roménia ou Bulgária? A Alemanha escolheu a Roménia. mais uma vez. ainda que. nas fileiras dos seus próprios governos. ele preferia a Roménia. Contudo. e a Áustria com a Bulgária. A Sérvia exercia uma atração magnética sobre a importante população eslava do Império Habsburgo. 118 . ministro das Relações Exteriores da Áustria. entrar em guerra seria “insensato”. ao pas­ so que a Áustria. não havia razão para não entender Francisco Ferdinando.” Berchtold. dois dos homens mais antipatizados da vida pública européia. suas decisões —quando che­ gava o momento de agir —geralmente não eram. que havia dobrado de tamanho.

a Itália —aliada nominal da Áustria e da Alemanha na Tríplice Aliança —estava manobrando para conseguir im­ por sua hegemonia na recém-criada nação.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U Em 16 de março de 1914. Os dois homens e suas es­ posas passaram o dia juntos. Conrad falou. que sabia como controlar seus espíritos exaltados. 14 de junho. Tratava-se da camarilha de agitado­ res políticos que ele herdara de Aehrenthal. Berchtold pôs seus funcionários do Ministério das Relações Exteriores para trabalhar nas questões em pauta. A Itália estava se tornando um rival e talvez um inimigo. o seu arquiduque Francisco Ferdinando e o meu cáiser. O conde Berchtold fora para Konopischt um dia depois de Guilherme partir. Seu objetivo era resumir o pensamento atual da Áustria nos assuntos mundiais: onde estava a Monarquia Dual e onde esperava chegar. então. em entrar em guerra assim que possível contra a Rússia. os russos pan-eslavos tivessem a capacidade de unir todos os países balcânicos —só que desta vez contra a Alemanha e a Áustria. As guerras de 1914 não teriam ocorrido. Estava conversando com o embaixador da Alemanha em Viena. é verdade. Guilherme pensava que os Estados balcânicos continuariam desuni­ dos. país criado pelas potências européias como tampão para conter o expansionismo sérvio. Uma preocupação era a Albânia. Entretanto.é que se esses dois homens tivessem continua­ do a trabalhar juntos em prol dos seus objetivos políticos comuns.algo que o mundo externo não suspeitava . duas semanas antes da programada viagem de Francisco Ferdinando a Sarajevo. Contudo. Mas Berchtold.”1 Uma verdade oculta sobre a política de 1914 . estava lhes dando liberdade de ação. que lhe expli­ cou por que isto não podia acontecer: “Duas pessoas importantes são contra. Não era de fato a sua equipe. como em 1912. e favoreciam um degelo nas relações com o tsar. A Roménia estava 119 . em vez de contra a Turquia. O artificio era apoiar a combinação certa entre eles. Depois. como frequentemente fazia. A suposição era de que ela seria de orientação austro-alemã. deram à Albânia um monarca alemão. havia gente no Ministério das Relações Exteriores em Viena que temia que. Era a Rússia uma preocupação? Guilherme e Francisco Ferdinando tendiam a pensar que não. as grandes potências da Europa até poderiam ter mantido a paz. Era domingo.

Seu monarca havia secretamente prometido . Guilher­ me e Francisco Ferdinando esperavam um compromisso público e seguro.MAIS ABALOS N OS BÁLCÃS no topo da lista. Assim. não havia acordo em Berlim ou em Vie­ na sobre quem era o inimigo ou qual era a disputa nos conturbados Bálcãs. Além disso. os dois chefes de Esta­ do-maior. de modo que a Grécia seria forçosamente empurrada para o outro lado. Com efeito. talvez acom­ panhadas pela Inglaterra. Ele defendia juntar-se com o lado que fora vencedor. a Bulgária. ela não apoiaria a Áustria-Hungria por causa do conflito húngaro. Berchtold também reconstituiria essencial­ mente a padrão de aliança da Segunda Guerra dos Bálcãs. O cáiser não enfrentaria a questão. Helmut von Moltke. ele esperava reconciliar a Sérvia e a Áustria . Francisco Fer­ dinando era ferrenhamente anti-húngaro. em vez de o vencedor. os dois impérios tinham ra­ zoável clareza sobre quem estava de que lado: eles próprios. e que Hungria e Roménia tinham um conflito aparentemente irreconciliável —o qual perdura até hoje.para grande desgosto dos austríacos. Isto não obrigava o seu país. de um lado. Finalmente. No tocante à Europa como um todo. A Bulgária tinha vínculos com a Turquia. O mi­ nistro das Relações Exteriores da Monarquia Dual não acreditava que a Roménia viesse a se aliar com a Áustria. do outro. 120 . na Alemanha. o conde István Tisza. e queria aliar-se com a Roménia às expensas da Hungria. a Rússia e a França. Ele também queria trazer a Grécia para a aliança. Ambos os gene­ rais defendiam frequentemente o lançamento de uma guerra preventiva. Às vésperas da crise mundial. que tentavam em vão convencê-lo de que a Sérvia era uma ameaça que de qualquer modo teria de ser eliminada. na Áustria-Hungria. mas não dispunha de indícios convincentes de que a Grécia quisesse fazê-lo. e conseqiientemente a Monarquia Dual aliar-se-ia ao inimigo da Roménia.pessoal­ mente —apoiar a Tríplice Aliança. e Franz Conrad von Hõtzendorf. mas assumin­ do o lado que foi perdedor. Ele admira­ va o premiê da Hungria. mantinham contatos próximos um com o outro e às vezes discutiam seus respectivos planos de guerra. Berchtold via as coisas de maneira diametralmente oposta. O problema era que a Áustria estava comprometida com a Hungria na Monarquia Dual. talvez acompanhados pela Itália. só que desta vez liderada pela Alemanha e a Monarquia Dual. e achava que o conflito Hungria-Romênia de algum modo seria evitado. o cáiser estava propondo recriar a aliança vitoriosa da Segunda Guerra dos Bálcãs.

Mesmo Moltke. Ele continuava a acreditar “que mais cedo ou mais tarde uma guerra européia iria fatal­ mente acontecer. mas estavam convencidos de que um terremoto ia acometê-los. tinha advertido con­ tra lançar uma guerra. pois seria a hora errada de fazê-lo. não com potências terrestres como a França e a Rússia. os europeus eram mais ricos e poderosos do que qualquer um jamais havia sido. pelo menos um político americano estava suficientemente sintonizado nas realidades européias para sentir a mesma coisa.eram presas do medo.pelo menos durante um bom número de anos . visando assegurar o controle prussiano da Alemanha . em que a questão seria uma luta entre o germanismo e o eslavismo”. em 1911-13. nas palavras de Hew Strachan: “A primeira vez que Conrad propôs uma guerra preventiva contra a Sérvia foi em 1906. nas circunstâncias de 1913. Mas não. é preciso pensar com muito cuidado. Nas palavras de Moltke: “Para começar uma guerra mundial.ou pelo menos seus governantes . Eles também deveriam ter se sentido mais seguros do que qualquer um jamais havia se sentido. o minis­ tro da Guerra também fazia lóbi contra Moltke. Do outro lado do Atlântico. Ele podia falar pelo presi­ dente. Em sua visão. Na ocasião. que queria uma guerra fria . Sentiam os tremores.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U Com certeza..”2 Mas os generais eram subordinados a monarcas que optaram pela paz. e cujo foco seria o conflito com a Inglaterra. em vez de uma quente. porém. 121 .o que era um nível demasiado baixo para vencer uma guerra.”3 No alvorecer do século XX. Moltke também sofria a oposição de Tirpitz. pois queria manter o tamanho reduzido da oficialidade. ele propôs a guerra contra a Sérvia vinte e cinco vezes. em outubro de 1913 e maio de 1914: entre l fl de janeiro de 1913 e l 2 de janeiro de 1914. e decidiu tentar evitar o cataclismo que ameaçava. Eles . Seu nome era Edward House. a guerra não deveria ser iniciada até que a opinião pública pudesse ser conquistada para a causa. e depois novamente em 1908-9. E na Alemanha. Onde e quando não sabiam.

Era alguém a quem os outros confiavam os seus segredos. Entre os que podiam ser vistos em­ barcando estava Edward House: coronel House. e que simpatizava intei­ ramente com eles. o que amiúde não era o caso. House. embora nunca tivesse se candidatado a cargos públicos. Homem de riqueza independente. de 55 anos de idade. para dar-lhe o seu título honorário texano. Uma imensa m ultidão se reunia nas docas para a partida dos passageiros do transatlânti­ co Imperator com destino à Europa. às vezes num tom francamente sedoso. bigodes bem aparados.C A P ÍT U LO 17: UM AMERICANO TENTA DETER O PROCESSO ova York. Durante toda a sua vida ele havia tomado parte na política. ele vivia em Manhattan e ao mesmo tempo man­ 122 . Os que falavam com ele saíam convencidos de que ele os havia entendido. bem vestido. Pode ter sido o melhor ouvinte da sua época. de aparência calma” e que andava devagar mas com firmeza. o que geralmente era verdade. familiarizado com as grandes figuras de Wall Street. foi descrito pelo New York Sun como “um homem esbelto de meia-idade.1 Ele também falava baixo. 16 de maio de 1914.

que House tinha ajudado a eleger para a presidência na bizarra eleição de 1912. foi House. e o presidente em exercício William Howard Taft . Foi o dom das descobertas casuais que reuniu Wilson e House na eleição de 1912. criando condições para Wilson — candidato do partido minoritário. quem se mobilizou com os desenvolvimentos europeus.exceto a sua própria . pelo menos nos dois primeiros anos da presidência de Wilson. Os estudiosos continuam a discutir sobre as contribuições respectivas dos dois homens para o bom andamento da administração Wilson.. o Democrático —insinuar-se. era ele quem agia. do T. Uma vez Wilson eleito.) 123 . che­ gando à vitória com menos de 50% do voto popular. House assumiu grande parte dos aspectos políticos da presidência: as tarefas rotineiras que Wilson não podia ou não queria fazer por si mes­ mo. um talentoso estudante da política internacional. encontrar-se com o chefe reformista em primeiro mandato do Executivo americano. enquanto Wilson. Woodrow Wilson. o Texas.uma coisa sórdida.haviam racha­ do a maioria republicana entre eles.* a reforma fiscal e a instituição do imposto de renda. (N. No campo das Relações Exteriores. Se havia acordos a fazer ou transações comerciais a negociar. Recluso que só se sentia à vontade na companhia de mulheres e crianças. Quando necessário. Naquela eleição. ainda que bem mais do que a metade do colégio eleitoral. concorrendo pelo Partido Progres­ sista. House entrevistava frequentemente os que procuravam emprego ou favores na nova administração. ele não tinha gosto pela política nem simpatia por políticos. House tornou-se seu alter ego. achava acordos e compromissos repugnantes. * Mantidas as especificidades histórico-institucionais. o Federal Reserve Bank cumpre função equivalente à do nosso Banco Central. mas House desempenhou um papel-chave em assuntos tão importantes como o estabelecimento do Fe­ deral Reserve Bank. que não tinha experiência na questão. Woodrow Wilson foi um dos homens mais estranhos jamais eleito para a presidência. C.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U tinha uma residência e sua base política no seu estado natal. ia para Washington. D. não se interessou. e a ambição po­ lítica . os dois candidatos republicanos —o ex-presidente Theodore Roosevelt.

”2 Ele mesmo estava bas­ tante preocupado com o que estava vendo e prevendo. que ele não os revelaria. e ainda que preocupado com pensamentos da sua missão secreta. e seu número de telefone é particular.4 A missão que House tinha se atribuído era convencer a Alemanha e a Grã-Bretanha a se juntarem aos Estados Unidos numa aliança pela paz. estava no ar. percebendo que podiam acabar ameaçando a paz e a estabilidade mundiais. O nome em particular dado por House à missão para a qual estava em vias de embarcar foi “a grande aventura”. na primavera de 1914: “O presidente deu muito pouca atenção à situação existente na Europa. um oficial consular estadunidense. Segredos lhe eram confidenciados porque as pessoas acreditavam que podiam confiar. House estava aparentemente quase sozinho entre os políticos americanos quanto à compreensão das implicações das guerras dos Bálcãs. o editor de um jornal disse a um dos seus repórteres: “House não recebe ninguém. junto com a Amé­ rica. que criaria uma paz duradoura entre as grandes potências. fosse promovido de um posto no Rio para outro em Londres. No passado. Idéias em prol de uma liga das nações também despontavam de tempos em tempos na administração liberal da Grã-Bretanha. A eficiência de House e seu valor para o presidente deveram-se em grande parte à sua discrição. a bordo do Imperator. “Nem no mar pode-se descansar dos suplicantes do gabinete”. por assim dizer. House propôs ir à Europa para negociar a criação de uma nova estrutura internacional. Caracterizando House como um homem misterioso. Assim. isto gerou uma ampla curiosidade popular. House fazia-se acessível. ele encontrou tempo para lidar com o telegrama de uma mulher que pedia que seu marido.” Mas isso era exagero. Para acabar com os perigos que percebia adiante. Wilson lhe deu seu pleno e admirativo apoio ao esforço. Ninguém sabe seu endereço. podiam evitar guerras de maior envergadura. 124 . Theodore Roosevelt tinha considerado a criação de um cartel de talvez cinco grandes potências para manter a paz mundial.UM A M E R I C A N O T E N T A D E T E R O P R O C E S S O House observou. Ele acalentava havia muito a idéia de que as principais potências da Europa acumularam tanto poder em suas mãos que. Esta era uma idéia que. É claro. foi o comentário de House. como faz o bom político.3 Não é possível chegar até ele.

ele escreveu ao presidente em 29 de maio. Como Carnegie. e que a chave para a sua viabilidade era ganhar o apoio do cáiser. Grassa o jingoísmo mais ensandecido”. um bem relacionado grupo de pressão na Alemanha. a não ser que ele ou W ilson participasse dos acontecimentos. notadamente do primeiro-ministro Hebert Asquith e do secretário das Relações Exteriores. que “a França e a Rússia estão se preparando para a luta decisiva contra a Alemanha e a ÁustriaHungria e pretendem atacar na primeira oportunidade”. Carnegie achou que seus planos tinham sido arruinados com a morte do rei inglês. House acreditava ter o apoio do governo britâni­ co para o seu plano. Na primavera de 1914.” Por razões não inteiramente claras. Eduardo VII. tudo o que precisava era que o cáiser Guilherme II assumisse a liderança. 125 . dizendo que o que ouvira até então “tendia a confirmar a opinião da quase impossibilidade de melhorar a situação”.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U Andrew Carnegie. De Berlim.7 “Entre todos os homens. Houve na Rússia uma violenta campanha de imprensa contra a Áus­ tria. cuja semelhança a história nunca viu.8 Sem dúvida. House foi para a Alemanha. Na Áustria.5 Carnegie perguntava retoricamente: “Por que deve­ riam lutar as nações teutônicas?”6 Ele imaginava ter garantido o apoio do governo britânico. Visando uma aliança de “na­ ções teutônicas”. A Liga Pangermânica. House previu “um terrí­ vel cataclismo”. desconfiança demais”. “a situação é extraor­ dinária. para o seu plano. expli­ cou Carnegie em 1907. o magnata do aço que se tornara um dos ho­ mens mais ricos do mundo. tinha se dedicado a um projeto não muito diferente do de House poucos anos antes. anunciou. Sir Edward Grey. está a caminho”. “Hoje está no poder de um homem fundar a liga pela paz”. House sondou a opinião entre alemães bem colocados e bem informados e o que ouviu não era auspicioso para a causa da paz. pois “Ninguém na Europa pode fazê-lo. escreveu ele. o poder de abolir a guerra parece estar apenas nas mãos do imperador alemão. houve uma violenta campanha de imprensa contra a Rússia. em 19 de abril de 1914. A bordo do navio e chegan­ do na Alemanha. Uma manchete de jornal (11 de março de 1914) advertia os alemães que “uma guerra. imediatamente após desembar­ car na Europa. Para que se tornasse realidade. em 1910. Há ódio de­ mais.

UM A M E R I C A N O T E N T A D E T E R O P R O C E S S O

Na análise de House, a Rússia e a França “cercariam” a Alemanha e sua
aliada, a Áustria-Hungria, se a Grã-Bretanha desse o sinal. Mas a GrãBretanha hesitava em fazê-lo: se a Alemanha fosse esmagada, quem res­
taria para conter a Rússia? Não obstante, se a Alemanha continuasse a
ameaçar a supremacia naval inglesa, Londres não teria escolha exceto
aceitar o desafio de Berlim.
Daí o plano de House: um acordo entre a Grã-Bretanha e a Alemanha
de limitação do tamanho das suas respectivas Marinhas, a ser mediado pelos
Estados Unidos. O acordo poderia ensejar o mundo essencialmente
pacífico que a América desejava, mas - sempre realista —House advertiu
que poderia haver “alguma desvantagem para nós” no acordo entre a
Grã-Bretanha e a Alemanha.
Tirpitz destacava outro defeito no plano de House. “Ele repudiou
todo desejo de conquista, e insistiu que era a paz que a Alemanha queria,
mas a maneira de mantê-la, é incutindo o medo nos corações dos seus
inimigos.” House queria que a Alemanha parasse de expandir sua Mari­
nha; Tirpitz, em vez disso, desejava “ampliar sua expansão”.
O principal objetivo de House era ter um encontro com o gover­
nante alemão, e ele conseguiu. Em l 2 de junho, ao longo de um festival
de um dia inteiro de cerimónias religiosas, paradas e entrega de meda­
lhas, House conseguiu um encontro particular com duração de meia
hora com o cáiser.
A menção no diário de House indica que os dois homens discuti­
ram “como a situação européia afetava a raça anglo-saxã”. Na visão ex­
pressa pelo cáiser, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos representavam
a civilização cristã. Latinos e eslavos eram semibárbaros, acreditava ele, e
também não confiáveis, de modo que a Inglaterra estava errada em aliarse com a França e a Rússia. Por outro lado, o núcleo teutônico —Alema­
nha, Grã-Bretanha e América - deveria aliar-se com todos os demais
europeus em defesa da civilização ocidental “contra as raças orientais”.9
House tentou persuadir o cáiser de que a Alemanha deveria aban­
donar seu desafio ao poder naval britânico. A Grã-Bretanha não teria
mais por que se aliar com a Rússia. Teria sido somente a ameaça repre­
sentada pela Alemanha que jogou a Grã-Bretanha nos braços da Rússia.
Ao contrário, a Rússia seria o inimigo natural da Grã-Bretanha. Em
126

O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U

outras palavras, estava no poder do cáiser realizar o que ele afirmava
querer: desvincular-se a Inglaterra da aliança com a Rússia e a França,
aliando-se em vez disso com a Alemanha.
House “falou da comunidade de interesses entre Inglaterra, Alema­
nha e Estados Unidos e do pensamento de que, se ficassem juntos, a paz
mundial poderia ser mantida. [...]10 Contudo, na minha opinião não
podia haver entendimento entre a Alemanha e a Inglaterra enquanto ele
[o cáiser] continuasse a expandir a sua Marinha”. O cáiser respondeu
que precisava de uma Marinha forte, mas que quando seu programa de
expansão em curso terminasse, ele pararia.
House disse que sua idéia era de que um americano - ele ou o
presidente —estaria em melhor posição do que um europeu para reunir
as potências européias. O cáiser concordou. House disse que tinha que­
rido encontrar-se primeiro com o cáiser, e que estava indo diretamente
para Londres, para tentar garantir também o acordo britânico para uma
iniciativa dos Estados Unidos seguindo aquelas mesmas linhas.
House deixou a Alemanha esperançoso. De Paris, ele relatou ao
presidente em 3 de junho que havia conversado com quase todos os
alemães influentes nos encontros que tivera: “Estou feliz em lhe dizer
que tive êxito como previsto e disponho de um farto material para nego­
ciações em Londres.”11 O imperador alemão “pareceu feliz de eu ter me
encarregado de começar o trabalho” e “também concordou com a mi­
nha sugestão de que, qualquer que fosse o programa acordado pela
América, a Inglaterra e a Alemanha, seria bem-sucedido”.12
O cerne da questão, como compreendia House, era que “a Ingla­
terra e a Alemanha têm um sentimento em comum, o medo que sentem
uma da outra”.13 Sua tarefa, cria ele, era dissipar esses medos aproximan­
do os líderes dos dois países e estimulando-os a se conhecerem e a confia­
rem um no outro. House acreditava na resolução face a face dos problemas
em contatos de alto nível. Achava “essencial os dirigentes se reunirem”
para acabar com os desentendimentos.14 Ele pensava estar “no caminho
certo para começar a grande tarefa que tinha empreendido”.15
House viajou para Londres em 9 de junho. Ele anotou em seu diá­
rio que Walter Hines Page, o embaixador dos Estados Unidos para a
Grã-Bretanha, “foi delicado a ponto de dizer que considerava meu tra­
balho na Alemanha o mais importante realizado nesta geração”.16 Page
127

UM A M E R I C A N O T E N T A D E T E R O P R O C E S S O

arranjou um encontro de House com Sir Edward Grey. Não foi fácil.
House explicou a Wilson: “Encontrei tudo aqui atravancado com afaze­
res sociais, e é impossível trabalhar rapidamente.17 Eles só pensam em
Ascot,* recepções ao ar livre, etc., etc.”
Em 27 de junho, o encontro com Grey finalmente aconteceu, du­
rante um almoço. Ainda que outros estivessem presentes, a conversação
coube quase toda a House e Grey. Eles realizaram uma discussão ampla
sobre a conturbada situação política européia. Concordaram que os lí­
deres franceses tinham aberto mão de quaisquer pensamentos de recu­
perar territórios na Alsácia e Lorena, ou de se desforrar da Alemanha. O
povo francês ainda acalentava tais sonhos, mas os políticos franceses
reconheciam que o crescimento constante da população alemã em rela­
ção à da França fazia deste objetivo uma possibilidade cada vez mais
remota.
Quanto à Rússia e à Grã-Bretanha, Grey observou que as duas en­
travam em contato em tantos pontos ao redor do mundo que era impor­
tante manter os melhores termos. Grey afirmava entender que a Alemanha
sentisse necessidade de construir uma frota maior. Foi House quem
alertou Grey —e não Grey quem alertou House —sobre o “espírito de
guerra militante na Alemanha e a grande tensão popular. [...]18 Eu achei
que a Alemanha atacaria rapidamente quando se pusesse em movimen­
to. Que não haveria parlamentações ou discussões. Que quando sentisse
que uma dificuldade não podia ser resolvida através de negociações pací­
ficas, ela não correria riscos, mas atacaria. Eu achei que o cáiser ele mes­
mo e seus assessores imediatos não quisessem a guerra, por desejarem
que a Alemanha continuasse a se expandir comercialmente e a aumentar
sua riqueza, mas o Exército estava imbuído, agressivo e pronto para a
guerra a qualquer momento”.
Contudo, os dois homens concordaram - menos de 24 horas antes
de o arquiduque Francisco Ferdinando ser assassinado —que “nem a
Inglaterra, a Alemanha e a Rússia, e nem a França desejava a guerra”.19
Olhando prescientemente para uma ameaça menos visível mas de mais

* Povoado próximo de Windsor in Berkshire, que as elites frequentavam pelas corridas de cavalo disputa­
das em junho em Ascot Heath. (N. do T.)

128

O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U

longo prazo à estabilidade global, House incitou as quatro potências
européias a chegarem a um acordo com os Estados Unidos, mediante o
qual, agindo juntos, eles poderiam fornecer crédito a juros mais baixos
aos “países não desenvolvidos da Terra”.20
Chegando ao fim o mês de junho, House continuou a encontrar-se
com líderes europeus em busca do seu sonho americano para o mundo.
Uma década mais tarde, Grey escreveu: “House tinha acabado de
chegar de Berlim, e falou com sentimento grave da impressão que rece­
bera lá; como a atmosfera dava uma impressão carregada de fragores de
armas, de prontidão para atacar.21 A ênfase poderia ser descontada, como
impressão que naturalmente se impôs a um americano que via de perto
pela primeira vez um sistema militar continental. Este sistema era tão
estranho ao nosso temperamento quanto ao dele, mas nos era familiar.
Nós vivemos bem ao lado durante anos; sabíamos e observamos seu
crescimento desde 1870. Mas House era um homem de conhecimentos
extraordinários e julgamento frio. O que seria de nós se esse militarismo
tivesse tomado o controle da política?”
Na primavera de 1914, enquanto House continuava em sua missão, os
chefes de Estado-maior da Alemanha e da Áustria, Moltke e Conrad,
tomavam banhos juntos nas casas de banho de Carlsbad, na Boémia.
Discutiam planos de guerra. Moltke também manteve conversações na­
quela primavera com Gottlieb von Jagow, o ministro alemão das Rela­
ções Exteriores. Jagow registrou que Moltke lhe dissera que, em dois ou
três anos, a “superioridade militar dos nossos inimigos [...] seria tão grande
que ele não saberia como superá-los. Hoje, nós ainda seríamos páreo
para eles. Na opinião dele, não havia alternativa a não ser fazer a guerra
preventiva para derrotar o inimigo enquanto ainda existia uma chance
de vitória. Consequentemente, o chefe do Estado-maior propôs que eu
conduzisse uma política com o objetivo de provocar uma guerra no fu­
turo próximo”.

129

PARTE Q U A TRO

ASSASSINATO!

CAPÍTULO 18: A ÚLTIMA VALSA

E

mbora Francisco Ferdinando von Osterreich-Este, sobrinho do velho
imperador Francisco José e herdeiro aparente dos tronos Habsburgo
da Áustria e da Hungria, não fosse nem firme nem coerente na sua visão
do futuro do seu império, as peças do seu pensamento até certo ponto se
encaixavam. Elas assumiam tons de uma missão histórica de restauração,
pois, se todas as suas preferências e desejos políticos fossem satisfeitos,
era no que teriam redundado. Profundamente católico romano e antiitaliano, ele queria desfazer a unificação da Itália, alcançada sob auspícios
seculares meio século antes; ele teria dissolvido o Estado italiano e res­
taurado o domínio papal e austríaco. Teria gostado de ver o Império
Habsburgo voltar à sua posição no primeiro escalão, alinhando-se pelo
menos em pé de igualdade com a Alemanha na equação européia de
poder. Ele teria revogado a participação igual da Hungria na Monarquia
Dual, retornando, em substituição, a uma estrutura de poder central em
que todas as outras nacionalidades (ou pelo menos as numerosas nacio­
nalidades eslavas) exercessem uma autonomia igualmente limitada. Fi­
nalmente, ele teria sanado a ruptura com a Rússia, que datava da segunda
133

A ÚL TI MA VALSA

metade do século XIX, e se uniria ao tsar e ao rei da Prússia para promo­
verem a causa do monarquismo e dos valores tradicionais nos assuntos
da Europa e do mundo, como haviam feito, por exemplo, em 1814 com
a Santa Aliança.
Na primavera de 1914, o herdeiro aparente tinha cinquenta anos
de idade. Ele parecia ter se recuperado da doença que o atormentara nos
anos anteriores. Era um homem de altura mediana, tendente ao pesado.
Seu bigode grave de pontas levantadas era mais espesso que o do cáiser,
mas em ângulo poucos graus menos agudo.
Francisco Ferdinando mantinha uma chancelaria militar paragovernamental própria, com consentimento do imperador: Francisco José
a reconhecera oficialmente em 1908. Com o apoio da sua equipe pes­
soal, Francisco Ferdinando, nas palavras de um historiador recente, “che­
gou a usufruir de influência, até de poder, e a ter direito a voz, senão a
veto, sobre os postos de ministro da Guerra ou de chefe do Estado1
maior » ,A
O arquiduque se interessava vivamente pelas forças armadas do seu
país, mas sua tendência, nas muitas crises internacionais que irromperam
ao longo da sua vida, era recuar e evitar a guerra. Nisto (embora não em
muito mais), ele teria sido um verdadeiro herdeiro político de Francisco
José, que viu seu império perder guerras cruciais e cuja preferência, nas
crises internacionais do começo do século XX, parecia ser pela paz.
No começo de 1914, Francisco José tinha 84 anos de idade. Havia
ascendido ao trono em 1848. A maioria dos seus súditos não podia lembrar-se de outro monarca. Em sua idade avançada, sua imagem era a de
um velho e amável cavalheiro. Ele simbolizava a continuidade com o
passado e com seus valores e virtudes. A noite ainda escura, ele acordava
para cumprir suas obrigações. Começava a trabalhar todos os dias às
cinco da manhã, e investia 12 ou mais horas na lida.
Com o senso de dever e a dedicação veio uma certa rigidez: uma relu­
tância ou incapacidade de ceder; uma falta de flexibilidade que parecia ca­
racterizar o conjunto do artrítico regime Habsburgo como um todo. A
literatura a seu respeito sugere que frustração e repressão estão por trás da
excessiva formalidade da vida vienense; e que o psiquiatra mais famoso
da cidade, Sigmund Freud, podia não estar completamente errado ao suge­
rir que apetites inconfessáveis, doenças de que as pessoas teriam vergonha
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O príncipe Alfred Montenuovo. Seu único filho.O Ú L T I MO VERÃO E UR OP E U e práticas então encaradas como perversas seriam disseminados sob a superfície. ela. Ele tinha 37 anos de idade. voltasse atrás em sua 135 . o imperador virtuoso. o príncipe herdeiro Rudolf. parece ter se tornado inimigo particular de Sophie. e passou sua vida com a atriz Katharina Scratt. foi outra figura real penalizada por casar-se com a mulher que amava. Sem dúvida. era o funcionário encarregado da etiqueta da corte e. dos elegíveis para casar e transmitir realeza. Mayerling. pobre mas orgulhosa. 32. e é difícil acreditar (como parece ter feito a versão oficial) que seus ferimentos seriam oriundos de um acidente de caça.se é que esta é a palavra . Francisco Ferdinando propôs casamento a ela. uma amante . Francisco José. O imperador Francisco José obviamente temia que. mas sua família empobrecida não tinha o dinheiro necessário para justificar sua inclusão na lista. Francisco Ferdinan­ do foi forçado a realizar um casamento morganático. o camareiromor. seu próprio herdeiro. como tal. e excluindo a con­ dessa Chotek (posteriormente duquesa de Hohenberg) de uma posição ao seu lado em ocasiões formais (ela foi banida. uma vez que Francisco Ferdinando fosse por sua vez imperador. contava uma história que soava mais plausível: um pacto de suicídio entre aman­ tes condenados. escrupulosamente. a condessa Sophie Chotek von Chotkova und Wognin era empregada como dama de companhia numa família arquiducal que Francisco Ferdinando visitava frequente­ mente. Alta. Sophie era da antiga nobreza. o verdadeiro objeto do interesse. que a sociedade jamais permitiria se casarem. exceto nos ombros. Presumia-se que ele estivesse cortejando uma das filhas da casa. um filme de 1933 estrelado por Charles Boyer. morreu a tiros junto com uma jovem bailarina. pre­ parada pelas potências européias em 1815 (após o Congresso de Viena).que se tratava apenas de uma “cobertura” —e despediu Sophie. desterrada num status relativamente humilde). infectou ele mesmo a sua bela esposa com uma doença venérea. Insistindo em casar-se com Sophie de qualquer maneira. A mãe ficou chocada ao descobrir que não era esse o caso . Francisco Ferdinando tomou-a como es­ posa em 1900. o primo que sucedeu Rudolf como herdeiro do trono.em quem. renunciando para sempre ao direito de seus filhos sucederem ao trono. ele nunca tocou. Francisco Ferdinando. misteriosa. O imperador objetou.

devido ao status especial da Bósnia-Herzegóvina (que estava numa espécie de limbo. bem como colocando-os na linha de sucessão ao trono. em 1913. Planejavam-se cerimónias na capital provincial de Sarajevo em 28 de junho.. Poucos contemporâneos seus tinham uma palavra delicada a dizer sobre ele. Sophie teria permissão de tomar seu lugar junto dele durante os proce­ dimentos oficiais. Um dia ela poderia ser perfeitamente capaz de cobrar. uma das razões pelas quais ele pode ter aceitado foi que. e tornasse Sophie sua imperatriz de pleno direito.A ÚL TI MA VALSA palavra.pelo menos segundo o moderno calendário ocidental . sempre refratários por terem sido anexados pela Áustria. nas cercanias da capital bósnia 136 . Normalmente mal-humorado. Faltou eletricidade quando o imperador embarcava no trem. O arquiduque e sua consorte partiram na chuva na manhã de quar­ ta-feira. o próprio Francisco Ferdinando teria gostado de fazê-lo. talvez obtendo uma dispensa papal para fazê-lo. e a chuva os seguiu.era o dia do aniversário da Primeira Batalha de Kosovo (1389). O funcionalismo austríaco teve a sua reputação de eficiência desmentida por seu desempenho na organização dessa viagem particular. na qual a Sérvia medieval supostamente perdeu a sua independência para os turcos. elevando a posição dos três filhos do casal. que estávamos entrando “numa tumba”.um chamado muito pouco atraente em alguns aspectos . O herdeiro aparente não era uma pessoa de quem fosse fácil gostar. disse ele. parece muito estranho os funcionários da corte continuarem suas perseguições mesquinhas contra Sophie. que 28 de junho . mas salientado pelos funcioná­ rios Habsburgo encarregados do planejamento dos eventos. a data de aniversário do seu casamento. e não há dúvida. Eles partiram de Viena separadamente. enquanto Áustria e Hungria disputavam a propriedade). parecia. 24 de junho. a inspecionar as forças armadas em manobras programadas para o final de junho de 1914 na Bósnia-Herzegóvina . Sophie chegou primeiro ao destino comum: a estação de águas de Bad Ilidze. A luz deste receio provavelmente justificado. Francisco Ferdi­ nando brincou. A criadagem correu para acender velas. A única coisa que era (e continua a ser) atraente nele é o seu amor por sua esposa e filhos. por cami­ nhos diferentes. ad­ ministrando o protocolo de modo a repetidas vezes humilhá-la em pú­ blico. Quando foi convidado. objetariam a qualquer ostentação do governo austríaco naquela data particular. E não há de ter sido apenas notado. Se­ ria razoável esperar que os sérvios da Bósnia-Herzegóvina.

bebido justamente antes do conhaque. Ele ficaram no hotel Bosna.O Ú L T I MO VERÃO E UR OP E U de Sarajevo. Pelas janelas abertas. na noite de sábado 27 de junho: um jantar dançante. Sophie visitou escolas. que fora inteiramente reservado às autoridades por toda a duração da estada. os convidados po­ diam ouvir passagens de O Danúbio Azul. de Strauss. salada e sorbets. funcionários civis e dignitários locais para um banquete formal em seu hotel. A multidão que os seguia parecia afável e hospitaleira. fazer compras. Citadinos em­ prestaram móveis e acessórios ao hotel. orfanatos e igrejas. onde artesãos vendiam seus trabalhos e comerciantes ofere­ ciam seus artigos. Em Sarajevo. supervisionou exercícios de guerra em que um Exército simulava lutar com outro na chuva inter­ minável. anos atrás. Passaram um tempo numa loja de tapetes. vinhos brancos do Reno. E era num baile que agora passavam a sua última noite juntos. e Francisco Ferdinando. e então queijos. Foi servida uma grande variedade de vinhos e aguardentes. Francisco Ferdinando e Sophie tinham se conhecido em Praga. Na relva abaixo. sorvetes e doces. incluindo champanha. 137 . O hotel serviu sopa cremosa a Francisco Ferdinando e a seus convi­ dados. Madeira. húngaro de Tokay e. vinhos tintos de Bordeaux. seguidos de aspargos. depois uma variedade de suflês. para que ficasse melhor aos olhos dos visitantes. como inspetor-geral. eles perambularam pela rua do mercado. penultima­ mente. num baile. Francisco Ferdinando chegou ao final da tarde de quintafeira. 25 de junho. Nos dois dias seguintes. a banda da guarnição de Sarajevo toca­ va um concerto de música leve. Francisco Ferdinando convidou oficiais do Exército Habsburgo. e a seguir musse de trutas do rio local. sobremesas. Era uma noite de verão e as janelas do salão de jantar do Bosna estavam abertas. talvez a mais conhecida das valsas vienenses. Os pratos principais foram carne de boi. um vin du paysr. Ao anoitecer. cordeiro e (os relatos diferem) galinha ou pato. num impulso do momento. tudo corria excelentemente. Conforme o relato escrito do arquiduque ao imperador. um Zilavka branco encorpado da vizinha região de Mostar. o casal visitante resolveu ir à cidade. Seria uma noite a ser lembrada. Depois.

Os eslavos que conspiraram contra ele eram ainda mais reacionários. não foi real­ mente a batalha de 1389 que desgraçou os Bálcãs cristãos. olhavam para mais de cinco séculos atrás. Dão atenção cuidadosa a profetas que pregaram para a gente de uma era pretérita. era um reacionário: ele bem teria gostado de fazer o calendário recuar um século. Não havia intelectuais entre eles. 138 . Claro. conforme já observado. foi a Segunda Batalha de Kosovo —em 1448. Há uma tendência a pensar que a gente dos movimentos revolucio­ nários clandestinos é de esquerda. Mas os aprendizes de terrorista que so­ nhavam aqueles terríveis pesadelos podem não ter sabido.CAPÍTULO 19: NA TERRA DOS ASSASSINOS F rancisco Ferdinando. eles não olham para a frente. como já se observou. Em 28 de junho de 1914. Mas os terroristas ocupam frequente­ mente um espaço-tempo próprio: às vezes. na qual fora perdida a grandeza da Sérvia. Alinham-se sob bandeiras de causas esquecidas. acreditavam eles. mas para trás. para a Primeira Ba­ talha de Kosovo. Aspiram restaurar reinos que há muito se tornaram pó. os conspiradores propunham remir a derrota de 1389 ao custo das suas próprias vidas.

patriotas. Alguns dos jovens terroristas acreditavam em atentados à bomba e em assassinatos. Um assassino comum dá um tiro em João da Silva porque quer João da Silva morto. Esses grupos do submundo terrorista eram muito semelhantes em seu formato.a estratégia de terrorismo . mas para os jovens isto era frequentemente um atrativo e não um empecilho: a vida clandestina parecia glamourosa e romântica.é amedrontar a sociedade e levá-la a fazer algo que os terroristas desejavam que fizesse. ao passo que outros em que a violência indivi­ dual era menos efetiva do que a organização de massa. 139 . românticos. cuja vida ou morte pode lhe ser completamente indiferente. corroendo gradualmente as suas fundações. idealistas. passavam por cerimónias de iniciação nas quais sangue era bebido em crânios. aspirando fazer reviver a religião tal como era ensi­ nada no século VII. muitos jovens idealistas foram impelidos para a clandestinidade. práti­ cas e procedimentos emprestados uns dos outros. fanáticos ou loucos. Sua estratégia única . Redes de sociedades secretas viveram nos subterrâneos dos impérios da velha Europa ao longo de todo o século XIX e no come­ ço do século XX. eram submetidos a testes assustadores. oficiais do Exército. nacionalistas. Numa época em que os governantes da Eurásia reprimiam a liber­ dade de expressão política. porque quer que as autoridades reajam de certa maneira ao assassinato. O que distinguia os terroristas dos assassinos comuns é que eles não desejavam necessariamente as consequências imediatas da sua vio­ lência. esperando tornarem-se assassinos. Faziam juramentos terríveis de fide­ lidade. senão nas mensagens. Daí rapazotes secundaristas nas aldeias primitivas dos Bálcãs um século atrás. tal como existia. tal como as figuras lendárias de quem tanto ouviram falar na poesia patriótica. mas uma crença que tinham em comum era que.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U Daí os fanáticos religiosos nas cavernas de Tora Bora nos primeiros anos do século XXI. As sociedades eram ilegais e a vida que ofereciam era perigosa. Embora seus objetivos diferissem. às vezes prestavam assistência uns aos outros e frequentemente tomavam cerimónias. Um assassino terrorista dá um tiro em João da Silva. Seus mem­ bros eram visionários. a sociedade tinha de ser destruída antes de a construção de um mundo melhor poder começar. punham uma pis­ tola à cabeça e obedeciam a ordem de puxar o gatilho. Matavam pessoas que mesmo eles amiúde consideravam inocen­ tes. usavam codinomes e organizavam-se em células em que somente o líder conhecia os mem­ bros das demais.

Eles co­ nheciam os escritos. A. presidentes. Maxim Gorky e Henrik Ibsen estavam entre os autores cujas obras eles liam. Oscar Wilde. Figura solitária. Entretanto. um sérvio bósnio: adolescente sem talentos mas seriamente determinado cuja escolha de carreira foi ser mártir. Isso ocorreu particularmente no Sudeste atrasado e semitribal da Europa. Como destacou Z. produtos de uma sociedade feudal. a pressão popular emprestou intensidade e urgência às demandas nacionalistas. Outros se deixavam embriagar pelo apelo fácil do nacionalismo: derrubar o do­ mínio estrangeiro. e para este fim fomentavam greves e praticavam sabotagens.NA T E R RA DOS A S S A S S I N O S Anular as consequências da Revolução Industrial era a meta que muitos deles perseguiam. faziam do Modernismo eduardiano e vitoriano. sem causar tanta surpresa quanto acontecimentos desse tipo hoje causariam. com suas raízes emo­ cionais no martírio sérvio do século XIV e suas raízes económicas na Idade Média. onde os camponeses viviam com seus animais. Os versos de Nietzsche estavam frequentemente nos seus lábios. mas achavam difícil estabelecer uma ligação entre os vários socialismos que animavam os russos e o mundo camponês dos Bálcãs. que pertenciam à primeira geração educada da sua pro­ víncia. as teorias e as ações da clandestinidade revolucioná­ ria russa. liam e discutiam uma literatura relativamente atualizada e às ve­ zes subversiva: Walt Whitman. um grupo meio indefinido de nacionalistas juvenis. ainda que pudessem exprimi-lo diferentemen­ te. e os niilistas de meio século antes. Ele era militante do movimento Jovem Bósnia. B. Aldeãos. os Jovens Bósnios. o próprio Princip possuía uma pequena livraria de literatura anarquista que contava com livros de Mikhail Bakunin e Peter Kropotkin.1 O Habsburgo e outros impérios multinacionais eram um celeiro de jovens criminosos políticos e de radicais dementes de direita e de esquerda. 140 . disputas de sangue eram comuns e matanças de retaliação eram a norma. primeiros-ministros e outros líderes de governo e da sociedade eram assassinados indiscriminadamente. É difícil imaginar o que aquelas crianças de escola. Foi o mundo onde surgiu Gavrilo Princip. Reis. Por meio da ficção imaginativa de um Joseph Conrad ou de um Dostoievski é possível tentar conceber este mundo de sociedades secre­ tas de um tempo remoto nos longínquos Bálcãs. Alexander Herzen. Zeman. ele vivia mais entre os livros do que entre as pessoas.

o rei da Itália (1900). o presidente da Guatemala (1898). sentindo o sofrimento dos outros. o xá da Pérsia (1896). moreno.” A observação o magoou. O que quer tenha ocorrido. na aldeia de Gornji Obljaj. a capital da Bósnia.O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U Princip nasceu em 13 de julho de 1894. Gavrilo deixou o vale aos 13 anos de idade para frequentar a escola em Sarajevo. Aborrecia-lhe o fato de não ser fisicamente atraente. o pri­ meiro-ministro da Rússia (1911). o assassinato foi uma manifestação frequente e característica da divisão entre a sociedade e o submundo. de cabelos cacheados. nas florestas altas do vale do Grahovo. Queria ser poeta. foi assassinado um chefe de Estado ou de governo por ano. Em média. o rei e a rainha da Sérvia (1903). outros nacionalistas haviam tramado assassinar 141 . aos 19 anos de idade. Quando se apresentou para o serviço militar sérvio nas guerras dos Bálcãs de 19121913. Trata-se do que Zeman chamou de “a parte mais pobre de uma província pobre”. o presidente dos Estados Unidos (1901). o primeiro-ministro do Egito (1910). brigava com seus professores e só frequentava a escola intermitentemente. Ele rejeitava a religião. fraco demais. fortemente ligados à sua terra. às suas organizações comunais e ao seu clã. ele inventou (afirmou ele) o projeto de organizar um assassina­ to. o pri­ meiro-ministro da Bulgária (1907). o presidente da República Dominicana (1899). Eles eram sérvios da Bósnia. Ao fim da sua vida. o primeiro-mi­ nistro da Espanha (1897). o rei de Portugal (1908). Quando o jovem Princip ouviu ou leu. o primeiro-ministro da Pérsia (1907). na parte ocidental da Bósnia. Rapaz magro. à sua igreja. a impera­ triz da Áustria (1898). o primeiro-ministro da Grécia (1905). Entre os assassinados. Durante os vinte anos da vida de Princip. em março de 1914. que o herdeiro do Império Habsburgo ia visitar a Bósnia em junho. ele deixou crescer o bigode para parecer mais velho. mais para o frágil. o presidente do México (1913) e o rei dos Helenos (1913). temos o presidente da França (1894). perto da Dalmácia. que lhe disse: “Você é pequeno demais. o que também lhe deu ares de um tocador de realejo. durantes os quais fronteiras e Estados vieram e se foram. ele insistiu em que a idéia tinha sido sua. Ele nunca perdoaria aquele oficial. um ascético que não fumava nem bebia. foi rejeitado por um oficial do recrutamento. na Krajina. o presidente do Uruguai (1896).2 A família de Princip vivia lá há séculos. o primeiro-ministro da Espanha (1912).

braço direito do chefe da Mão Negra. Depois das guerras dos Bálcãs. a mais recente em janeiro de 1914. opiniões completamente equivocadas —. revólveres e veneno com o qual cometer suicídio depois de matar os alvos. Há quem acredite que não se tratava exatamente de o arquiduque ser odiado pelos Jovens Bósnios —eles eram mal informa­ dos e tinham. Os amigos acei­ taram.NA TE RRA DOS A S S AS S I NO S Francisco Ferdinando sem sucesso em muitas ocasiões. lançando uma invasão. Francisco Ferdi­ nando (sussurravam eles) estava planejando tirar vantagem deste mo­ mento de impotência. As seis bombas de manufatura sérvia especial. Uma teoria oposta é que os nacionalistas sérvios teriam recebido informações falsas de que a Áustria-Hungria estavas prestes a atacar a Sérvia. Um amigo —um certo Milan Ciganovic . Esta política neutralizaria o nacionalismo sérvio e privaria os Jovens Bósnios e outros grupos de sua causa. que os estudantes queriam assustar e derrubar. O veneno era cianureto. uma sociedade secreta dentro do Exército sérvio 142 . ele era o principal defensor da paz. o arquiduque era partidário da guerra. os amigos concordaram. Erradamente.conhecia “um cavalheiro” — nome não fornecido —que poderia e de fato forneceu o armamento: bombas. de última gera­ ção. As manobras em Sarajevo (diziam eles) eram mero ensaio geral. Princip chamou amigos para participarem do complô. le­ ves e tão fáceis de carregar quanto de usar. havia uma crença de que Francisco Ferdinando defenderia o “trialismo”.major Voja Tankosic. ele pretenderia integrar os eslavos ao governo dos austro-alemães e dos húngaros. nos círculos internos do governo. ocupada pela Áustria na ocasião da visita de Francisco Ferdinando. em vários assuntos. Ele pediu aulas de tiro. As armas eram quatro pistolas automáticas belgas. mais uma vez. mas de ele ser um símbolo proeminente da ordem existente. Segundo outro conjunto de informantes. Por que o “cavalheiro” . todo mundo sabia que a Sérvia estava exausta e precisaria de vários anos para recuperar-se. muito pequenas. Na verdade. O mesmo “cavalheiro” era da alta hierarquia de uma orga­ nização secreta e os faria passar clandestinamente pela fronteira entre a Sérvia e a Bósnia. eles afirmavam que em Viena.

Ao afir­ mar que era pessoalmente responsável pela matança. Tankosic estava falando sério quando disse. tenha recrutado Princip e seus amigos.” Apis teria respondido algo como: por que não lhes dar uma chance? Mas então. que a apoiou porque queria “criar problemas para Pasic”. mostrar que sabiam como realmente aconteceram. Apis começou a achar que era importante matar Francisco Fer­ dinando. outros apenas parecer importantes. O amigo a publicou em 1924. algum tempo depois. e das suas descobertas. Todos os três foram politicamente motivados. líder da Mão Negra. o primeiro-ministro da Sérvia?3 Outra das muitas versões da história dos assassinatos de Sarajevo foi supostamente contada por Apis. En­ tão enviou uma mensagem para Princip abortar a missão. O que me diz? [. muitos quiseram ganhar crédito por eles. e que os estudantes não tinham as qualificações necessárias. Eles querem porque querem fazer um ‘grande feito’. Ouviram dizer que Francisco Ferdinando está vindo para a Bósnia.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U sobre a qual continuaremos a falar . pretendendo mandar alguém mais experimentado em seu lugar.decidiu facilitar o assassinato? É possível que sua organização.] Eu disse que não podiam ir. não seria condenado pelo tribunal sérvio que o estava julgando em 1917. se os juizes percebessem que ele era o patriota que 143 . O que as testemunhas viram foi uma chance de acertar contas ou fazer avançarem causas. nenhuma suscita crédito. participar de manobras. a qualquer custo.. um sérvio (1917) e um iugoslavo (1953). há aí uns garotos bósnios que estão me importunando. Nessa narrativa. refletindo sobre o assunto. anos mais tar­ de. por meio dele. Os nacionalistas sérvios continuavam a sentir orgulho dos assas­ sinatos. mas eles não param de insistir.. Apis podia estar pensando que estava absolvendo o seu país da culpa. Mas Princip insistiu em continuar. Tankosic queixase a Apis um dia: “Dragutin. em vez de vice-versa? Ou se a trama começou realmente com Princip. e pediram-me para deixá-los ir até lá. a um amigo em 1915. Houve três processos em que magistrados julgaram a questão de Sarajevo: um austríaco (1914). Ou que. por uma razão ou por outra. Nem sequer a pesquisa e as entrevistas exaustivas empre­ endidas com dedicação pelo grande historiador italiano Luigi Albertini no período entre guerras conseguiram esclarecer alguma coisa.

chamado Dragutin Dimitrijevic. a Sérvia vinha sendo 144 . no século XIX. Um dos seus mem­ bros fundadores era um estudioso da história das sociedades secretas européias na França. Sua figura mais importante (embora talvez nunca tenha sido seu líder formal) era um oficial do Exército.. Foi fundado em 3 de março de 1911. Alemanha e outros lugares. A Mão Negra se infiltrou na Narodna Odbrana e talvez em outras organizações. um sujeito taurino de codinome “Apis”. Quando o governo sérvio. Era formada por ofi­ ciais extremistas do Exército e políticos nacionalistas radicais. a organização nacio­ nalista existente. aceitou a anexação austro-húngara da Bósnia-Herzegóvina. Em 1903. Ela constituía uma facção importante no meio militar. Posteriormente. mas não era amplamente conhecida fora dos círculos go­ vernamentais. Apis havia liderado o comando que assassinou o rei e a rainha da Sérvia em seu palácio e depois jogou seus corpos mutilados pela janela. o então poderoso chefe do serviço de inteligência militar. Itália. fez o mesmo. por sete nacionalistas que continuavam a protestar contra os resultados da crise bósnia de 19081909. Ou o tribunal pode ter ordenado a execução de Apis exatamente para impedi-lo de falar. patrocinada pelo governo. ela se converteu em sociedade basicamente cultural..NA T E R R A DOS AS S AS S I NO S havia matado Francisco Ferdinando. para continuar a luta. Afinal. a sua existência era conhecida por um cer­ to número de países estrangeiros. Não obstante. De grupo antiaustríaco de vocação militar. Um tradicionalismo inepto (alguns diriam uma imitação) está evidente na constituição (37 artigos) e no regimento (38 artigos) da sociedade secreta de elite formalmente fundada em maio de 1911. Durante o reinado do rei assassinado. ele ficou conhecido como a Mão Negra. tudo o que se sabe com certeza é que Princip disparou a arma. Narodna Odbrana (Defesa Nacional). e fazia-se representar no governo. Nós nunca saberemos. Ela tomou como modelo prin­ cipalmente as lojas franco-maçônicas e o movimento Jovem Itália de Mazzini. ainda que relutantemente. Os dissidentes da decisão de aceitar a anexação formaram mais tar­ de a ultra-secreta Mão Negra. O sinistro grupo que ajudou Princip chamava-se Ujedinjenje ili Smrt [União ou Morte].

Cada um deles liderava uma facção numa luta que estava chegan­ do ao seu clímax quando Princip iniciou seu projeto. Agentes o esperaram em cada ponto ao longo do caminho. 145 . Apis e seus colegas queriam que a Sérvia governasse todas as terras em que os sérvios vivessem. Para ele. para um encon­ tro previamente arranjado com seus companheiros conspiradores em Sarajevo. a Eslovênia e outros povos eslávicos meridionais ficassem unidos. Essas diferenças não eram necessariamente relevantes na primavera de 1914. mas não suficientemente para Apis. Apis travava um duelo feroz com o primeiro-ministro de 68 anos. Em maio de 1914. consentir a anexação bósnia em 1908-1909 foi uma “traição”.O ÚL T I MO VERÃO E UR OP E U um satélite da Áustria. O governo sérvio e mesmo o Exército estavam divididos em dois. Então a Rússia interveio. Princip sonhava em criar uma federa­ ção em que a Croácia. no curto prazo Princip estava entran­ do num terreno sob fogo cruzado político. tratava-se de objetivos de longo prazo. A Mão Negra perseguia objetivos finais que eram diferentes dos de Princip. Entretanto. Em 26 de maio. Em 4 de junho. o representante russo em Belgrado. assim como Apis. Hartwig entendia que a Sérvia precisava de alguns anos de descanso para se restabelecer das guerras balcânicas e consolidar seus ganhos. mas. um percurso montado e controlado pela Narodna Odbrana e emprestado à Mão Ne­ gra na oportunidade. soubesse ou não. Não era hora de aventureirismos temerários. para ensaiar. Tratava-se de um “túnel”. Ele viajou durante dez dias pela vastidão ameaçadora dos cam­ pos. o rei Peter. promulgar leis. Gavrilo Princip partiu para Belgrado. Nicolai Hartwig. um político veterano que. Mas tudo lhe foi facilitado. região difícil de atravessar. Princip chegou a Sarajevo para encontrar seus companheiros de conspiração. interveio para manter Pasic como primeiro-ministro. Como fiadora da Sérvia entre as grandes potências. a Rússia podia. que Pasic devia ser demitido. em certa medida. para preparar. Nicola Pasic. era nacionalista sérvio. Apis convenceu o monarca reinante. várias administrações sucessivas adotaram políticas antiaustríacas. à diferença de Apis. Seu maior desafio seria cruzar a fronteira inamistosa entre a Sérvia independente e a Bósnia dominada pelos Habsburgo. Sob a dinastia que Apis e seus colegas reconduziram ao trono. cau­ teloso.

o primeiro-ministro teria dado ordens aos guardas da fronteira para prender Princip na fronteira sérvia —ordens que teriam sido desobedecidas pelos funcionários sérvios. Pasic. Um ataque contra Francisco Ferdinando desencadearia necessariamente algum tipo de situação internacional desagradável com que a Sérvia teria dificuldade de lidar. esperando que os inexperientes secundaristas fossem derrotados em seu teste. Seu país estava exausto após as guerras dos Bálcãs. o progresso de Princip. era informante da polícia. e sabia ou supunha que o arquiduque devia ser o alvo. sobrevivente astuto de uma das políticas mais traiçoeiras do mundo. o primeiro-ministro teria seguido de longe. instruindo seu representante para infor­ mar ao governo austríaco que. ele nada podia fazer. mas o que quer que eles fizessem. e depois dito a Pasic que só tinham recebido a ordem quando já era tarde demais. a Mão Negra poderia ordenar que ele também fosse as­ sassinado. e não estava em posição de desafiar uma grande potência. De uma maneira ou de outra. ora. porém. Não importa que aviso despachasse. o primeiro-ministro (acredita-se amplamente) tinha conhecimento de que terroristas . eles teriam dei­ xado os conspiradores passarem. Pasic pode ter enviado um telegrama à sua legação em Viena em algum momento na primeira metade de junho. os mesmos funcionários confessaram depois a Pasic o que haviam feito. Em vez de prendê-los. Por outro lado. podiam estar dando aos linhas-duras de Viena pelo menos um pretexto para intervir. também podia ser usado por Viena para provar que seu governo estava envolvido no complô contra o arquiduque. 146 .Princip e seus parceiros —portando pistolas e bombas haviam cruzado o rio Drina para entrar na Bósnia. Para Pasic. apesar das suas negações posteriores. Segundo uma certa versão.NA T E R RA DOS AS S AS S I NO S O historiador Albertini acreditava que Ciganovic. E claro. da Mão Negra. leais a Apis. “devido a um vazamento de informação”. que colocara Princip em contato com Tankosic. Se for verdade. ou então usar a informação sobre o que fizera para rotulá-lo de traidor. pas­ so a passo. as opções —na medida em que de fato soubesse do complô — não eram fáceis. sempre negou que tivesse conhecimento específico sobre o que estava prestes a acontecer. não estaria ele admitindo a existência do ataque ao prevenir que oficiais sérvios o estavam planejando? No fim das contas. se Pasic avisasse aos austríacos e a notícia vazasse. Numa variação desta ver­ são.

Ele não tinha boas relações com o ministro das Relações Exteriores Habsburgo. E como a visita pode dar lugar a incidentes lamentáveis por causa de algum fanático. Ele optou. seria útil sugerir ao governo austro-húngaro a prudência de adiar a visita do arquiduque”. Bilinski tinha razões para descartar a vaga advertência que recebeu. e preferia não ter de encontrá-lo. que pode ter recebido o telegrama. governador das províncias. mas na verdade em rixa com ele. teve pelo menos duas razões para não seguir as instruções de seu primeiro-ministro.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U a Sérvia “tinha motivos para suspeitar que um complô estava sendo tra­ mado contra a vida do arquiduque por ocasião da sua viagem à Bósnia. Jovanovic tinha razões para não falar do complô para ma­ tar Francisco Ferdinando. Não estava na hora de Jovanovic se alinhar com Pasic contra Apis. Aparentemente. havia sido o indicado de Apis para o Ministé­ rio das Relações Exteriores no golpe de Estado que Hartwig tinha evitado em maio. e mais uma vez pensava em promover Jovanovic. Circulavam então rumores de que Apis estava preparando um novo golpe. O representante Ljuba Jovanovic. em vez disso. talvez para o mês de agosto. por tentar uma entrevista com o ministro das Finanças. Jovanovic encontrou-se com Bilinski em 21 de junho. ele decidira suprimir o núcleo da mensagem que supostamente teria recebido ordens de entregar —que Belgrado tinha infor­ mações sólidas sobre um complô para matar o arquiduque. nominalmente subordinado a Bilinski. o fato é que seu enviado tentou uma entrevista. Por sua vez. as questões de seguran­ ça eram de responsabilidade do general Oskar Potiorek. Em vez disso. que o arquiduque programara visitar. Potiorek ignorara Bilinski deliberadamente. ele falou em termos gerais sobre os perigos inerentes da visita a Sarajevo e a possibilidade de que sérvios descontentes pudessem atacar Francisco Ferdinando. Havia sido ignorado no planejamento da segurança. Contudo. o conde Leopold von Berchtold. sob ordens expressas de Francisco Ferdinando. ulti­ mando os arranjos para a missão do arquiduque na Bósnia. ao meio-dia. A res­ ponsabilidade tinha sido assumida por um subordinado dele. o general Potiorek. Tendo Pasic mandado ou não o telegrama. Assim. sob cuja administração (pelo menos tempora­ riamente) estavam as províncias anexadas da Bósnia e da Herzegóvina. Se as coisas 147 . Leon von Bilinski. funcionário que ele devia alertar.

anulando a ordem de cancelamento de Apis e res­ tabelecendo a operação. a sociedade nacionalista sérvia.exceto. eles foram informados da assistência que o major Tankosic tinha dado ao grupo de Princip em nome da organização. Ou talvez fosse apenas uma reunião informal de todos os mem­ bros que puderam imediatamente ser reunidos. ordenaram que a missão fosse imediatamente abortada. para poder obstar. Ele fracassou. fora do alcance oficial da Sérvia. o primeiro-ministro tentou descobrir o que exa­ tamente estava acontecendo. ocu­ pavam cargos no governo de Pasic e. o Comité Executivo Central da Mão Negra se reuniu. consequentemente. De qualquer modo. Ilic insistiu em convencer Princip a obedecer a ordem de cancelamento do ataque. Aos 20 ou 21 de junho. ele atuava como chefe da rede de espionagem de Apis na Áustria-Hungria. Mas um confronto de opiniões entre Apis e Pasic em meados de junho . Ilic passou a ordem a Princip: cancele! Princip recusou-se. Na capital sérvia. que atuava como coordenador técnico do grupo de ataque. Na reunião. Além disso. Potiorek. e não Bilinski. a decisão foi unânime . por Apis e Tankosic. que àquela altura já estavam na Bósnia. seria respon­ sabilizado.NA T E R R A DOS A S S AS S I NO S desandassem na viagem à Bósnia. Compreensivelmente. Líderes da Narodna Odbrana. O homem que trouxe a mensagem foi poste­ riormente acusado pela Sérvia de ser espião austríaco. Por uma razão ignorada. Em 2 de junho. souberam da trama de assassinato.sobre a opção entre complô homici­ da ou outra coisa . Apis não cooperou. onde ele se encontrou com Danilo Ilic. mas a acusação nunca foi comprovada. era difícil preocupar-se muito com o que podia acontecer com o arquiduque: Bilinski não tinha razões para gostar dele. Apis enviou o intermediário de Tankosic junto ao grupo de Princip para a Bósnia. na verdade. conta-se que os cafés dos Bálcãs zuniam com as especulações sobre um 148 . o Ministério da Guerra e o Ministério do Interior não foram capazes de seguir os conspiradores de Princip. é possível que Apis acreditasse que o plano de assassinato houvesse sido cancelado. a conspiração já não podia mais ser secreta. Eles instruíram seu contato na Bósnia para impe­ dir a operação. parece. e os lealistas de Pasic no Exército. enquanto Pasic continuava pen­ sando de outro modo.levou um agente da Mão Negra a enviar uma nova mensagem a Princip.

nem quando o teria sabido. . e que estavam repletos de espiões austríacos. Um século depois.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U complô para matar Francisco Ferdinando. ainda não sabemos com certeza quem sabia o quê.

Militante pan-eslavo com longa folha de serviços e muito conhe­ 150 . por princípio inarredável. e talvez também o fossem em São Petersburgo. era suscetível. assim. de ser compreendida como uma fraude. É possível que a extensão da sua amizade não fosse plenamente compreendida. Porém. nos círculos intelectuais. administrada no terreno por Nicolai Hartwig na condição de representante para a Sérvia (1909-1914). as pessoas se fizeram esta pergunta na época. suas opiniões políticas eram mal compreendidas em outros lugares. A política balcânica da Rússia. É claro. conforme já foi observado.C A P ÍT U L O 20: A CONEXÃO RUSSA E stava a Rússia de algum modo envolvida no complô contra o futuro líder da Áustria? Nos círculos governamentais. Francisco Ferdi­ nando era o principal elemento pró-russo do seu governo. O envolvimento russo teria feito pouco sentido. como defensor que era do monarquismo em toda a Europa. tirá-lo de cena seria contrário aos interesses da Rússia. o tsar teria se oposto a um tal assassinato. certamente. os académicos têm se colocado a questão desde então.

escreve em The Twelve Days [Os Doze Dias] (1964) que Artamanov “fazia parte. aprovando a facção mais cautelosa e menos provocativa contra os fanáticos. Não obstante. E claramente verdade que o adido militar russo em Belgrado. da conspiração da Mão Negra para assassinar o arquiduque”. Albertini não acreditava na veraci­ dade da história de Artamanov. ele travava sua batalha contra Sazonov. a qual não sustenta uma alegação tão absoluta. e que o dinheiro havia sido impropriamente utilizado. Hartwig “usava a causa sérvia como uma arma em sua luta contra o seu próprio governo”. segundo o bem informado representante francês em Belgrado. não há provas de que alguém em posição de dar tais garantias em nome do tsar o tivesse feito. em 1910. coro­ nel Viktor Artamanov. ele tinha acabado de salvar o governo Pasic de Apis. a Rússia concedeu um subsídio de 4 milhões de francos à oficialidade do Exército sérvio. relata que. O documento. trabalhava muito ligado a Apis. um historiador popular. cujo mérito da concepção e implementação lhe cabia”. a Rússia interviria para ajudar a Sérvia.1 “Com apoio dos círculos conservadores e ortodoxos de São Petersburgo”. Não é in­ concebível que de alguma forma Artamanov tivesse vindo a saber que Apis estava ajudando os secundaristas bósnios. mas não conseguiu refutá-la. Um documento datado de 12 de junho de 1914. desaparecendo desde então.2 Thomson fundamenta a sua afirmação na pesquisa de Albertini.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U cimento dos Bálcãs e do Oriente Médio. Mas é improvável que ele tenha aprovado o complô da Mão Negra. desde as etapas iniciais. uma vez Artamanov repassou fundos a Apis para financiar operações. Os dois podem ter dirigido redes de espiões juntos. Artamanov negou tudo na entrevista a Albertini. e era crença geral que ele ditava a política em Belgrado. Foi Hartwig quem reuniu os Estados balcânicos por um tempo tanto contra a Turquia como contra a Áustria. Segundo certas acusações. sugeria que o dinheiro fora 151 . Há uma história de que Artamanov também pode ter dado garantias a Apis de que se a Áus­ tria atacasse. recentemente encontrado nos recém-abertos arquivos do Ministério da Defesa russo. expedido pelo agente militar russo na Sérvia. o ministro das Relações Exteriores. e “forçava a diplomacia russa na direção da evolução dos Bálcãs durante os últimos dois anos. George Malcolm Thomson.

não pensava mais em continuar financiando a oficialidade sérvia.A C O N E X Ã O RUSSA indevidamente desviado para a Mão Negra. mas podia ter acontecido.3 Não foi o que aconteceu. Havia uma conexão russa na ação de Sarajevo? Se houvesse. para então pôr a culpa no governo de Pasic como desculpa para começar uma guerra contra a Sérvia. o primeiro-ministro Pasic recebeu uma carta anónima. 152 . nenhu­ ma prova disso foi até hoje descoberta. e parece confirmar que o governo russo. com base na experiência passada. A conjectura é de que a Rússia não estaria disposta a ajudar a Mão Negra. O autor especulava que o governo austríaco podia estar manobrando para matar “aquele tolo do Fernando” durante as mano­ bras bósnias. Poucos dias antes do assassinato.

dirigindo-se à prefeitura. um carro de passeio conversí­ vel. para uma viagem de menos de meia hora. apenas havia pouco o automóvel passara a ser de uso comum. eles embarcaram no trem para Sarajevo. O resto do cortejo —entre dois e quatro outros veículos. general Potiorek. nos quais percorreram o restante do caminho. o conde Franz von Harrach. O proprietário do carro emprestado. o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa. emprestado para seu uso. O cortejo de carros com chofer entrou em Sarajevo nalgum momen­ to entre nove e meia e dez horas da manhã. O arquiduque e a duquesa iam no segundo. De manhã cedo.C A P ÍT U L O 21: OS TERRORISTAS ATACAM omingo. sentava-se à frente. oravam na missa numa capela montada para eles em seu hotel.1 153 . Sophie. dependendo do relato que aceitarmos . Deixando o balneário suburbano de Ilidze. estava com eles. junto ao motorista. No terminal ferroviário nos limites da cidade. 28 de junho de 1914. O desfile em veículos motorizados era algo impressionante.seguia atrás. O prefeito e o chefe de polícia abriam caminho no primeiro automóvel. O governador militar. pas­ saram a automóveis.

magnificamente trajado em seu uniforme multicolorido. era um grupamento de edifícios espalhados de ambos os lados do rio Miljacka. Ex­ plicou-se mais tarde que o general queria provar que. radiante de branco. A silhueta de Sarajevo. Ela e seus vizi­ nhos formavam uma arena em que o Oriente encontrava o Ocidente. Séculos de domínio pelo Império Otomano muçulmano deixaram sua marca nos habitantes: seu vestuário. seu comportamen­ to. Se for verdade. era distintamente oriental. sob seu punho de ferro. era como um lembrete de que a cidade mudara fre­ quentemente de mãos. Soldados deviam ter sido postados ao longo da avenida. A bruma da manhã desaparecera. religiões e impérios rivais colidiam. A capi­ tal da Bósnia. ela. mas não foram. Posteriormente. e qua­ 154 . O aspecto das ruas. mas vai ver é uma ilusão de ótica produzida por uma leitura da história. Uma torrente durante o longo inverno. Cerca de 22 mil soldados estavam nas vizinhanças. cuja conexão por pontes dava a forma de cidade. Havia centenas de mesquitas em Sarajevo. pontuada de minaretes. o entusiasmo das massas em aclamação e o estampido da saudação dos canhões. Era a única via pública de porte considerável na cidade. candente sob o sol ofuscante do verão. Sarajevo. em que clãs. mas o general Potiorek só destacou uma guarda de honra de 120 homens para proteger Francisco Ferdinando e sua comitiva.OS T E R R O R I S T A S ATACAM A chuva finalmente cessara. a tal pon­ to que em junho o seu leito já começava a secar. a ordem estava tão firmemente estabelecida que não carecia poli­ ciamento. A avenida era margeada de um lado pelo Miljacka e do outro por casas. eles aco­ lhiam as cores e sons da paisagem ao longo do caminho. o Miljacka estiava no verão. um antigo povoado com raízes no passado dis­ tante. No final de década de 1930. nacionalidades. seus hábitos. Finalmente lado a lado numa celebração oficial. Um sol deslumbrante derramava seus raios sobre o casal aniversariante: ele. que corria paralelamente ao rio. um visitante britânico afirmou que as águas do Miljacka corriam vermelhas. A turbulenta Bósnia era uma região de fronteira. Potiorek tinha provado o oposto do que pretendia. os historiadores ficariam perplexos com a ausên­ cia de precauções de segurança. O caminho tomado pelo comboio para entrar na cidade foi a avenida Appel. especialmente ao afastarem-se do rio em ruas es­ treitas e sinuosas na direção do interior.

Ele pulou da margem e tentou escapar pelas águas rasas do leito do rio. velha demais para funcionar. De­ pois. Andando ao longo do cais. não teria uma posição fixa. mas também sob a bandeira que no alto tremulasse. Princip havia postado seus companheiros de cons­ piração ao longo da avenida Appel. Cabrinovic. o perpetrador. a comitiva estaria passando por um corredor polonês. Danilo Ilic. Jogou a bomba afoitamente no carro do arquiduque. para des­ locar seus atiradores quando e para onde fosse necessário. embora menos conspícuas. A polícia tinha Cabrinovic 155 . ao errar o alvo. O baru­ lho da explosão foi assustador. testemunhavam a presença judaica. Ilic. ele bateu a cápsula de percussão da sua bomba num poste. em decorrência dos acontecimentos em Sarajevo naquele 28 de junho. Princip. Domínios e poderes eram no máximo temporários e. o amigo mais velho de Princip. e dois no lado das casas. de onde ela rolou para fora. o cortejo do arquiduque entrou numa zona de perigo: três conspiradores formavam uma fila ao longo do cais no lado do rio. A população poliglota. Naquela manhã. Atuando como coordenador. foi ferido no punho por estilhaços. atingindo a capota baixada do conversível. ele engoliu sua pílula de veneno. A condessa sentiu o detonador lhe roçar o pescoço. de Nedeljiko Cabrinovic. Capturado pela polícia. o coronel Erich von Merizzi. enquanto um ocupante do carro de trás. ajudante do general Potiorek. que tinha ouvido a explosão e gritos da multidão.O ÚL T I MO VERÃO E UR OP E U se o mesmo número de igrejas. Na primeira das pontes. portanto. para acionar o detonador. que pediu a um policial para indicar qual era o carro de Francisco Ferdinando. As sinagogas. seu único efeito foi fazê-lo vomitar. multinacional e religiosamente diversa aprendeu a conviver não só uns com os outros. e a comitiva parou para investigar. conforme ocorreu. outro oficial e um certo número de espec­ tadores ficaram levemente feridos. que o perseguiu. em três lugares em que ela era corta­ da por pontes. tentou convencer Princip a obedecer à ordem de abortar a missão. indo explodir junto à roda do carro seguinte. saiu correndo da cena. correu para o local e achou que tudo estava perdido. O primeiro ataque contra a vida do arquiduque veio do lado do rio. estavam prestes a mudar mais uma vez. isto será lembrado. a qual estava vencida.

um ficou tão imprensado na multidão que não pôde nem tirar sua bomba do bolso. e já se apressava para levá-lo à delegacia. O quarto perdeu a coragem e foi discretamente para casa. que se lançou sobre o braço do assassino. Ele estava cerca­ do por outros espectadores. Ne­ nhum dos outros conspiradores seria encontrado. O motorista do carro à frente da comitiva não foi informado ou não com­ preendeu. Taylor nos dá o relato mais conciso do que aconteceu com os outros: “Quanto aos outros conspiradores. Princip virou a arma contra si mesmo. Francisco Ferdinando decidiu cancelar os planos em curso. A. que previam a passagem da sua comitiva por ruelas sinuosas a caminho do museu. Princip perambulou até o que tinha sido o seu ponto na margem do rio na avenida Appel.OS T E R R O R I S T A S ATACAM firmemente sob custódia. “Volte!”.” Só. A retaguarda do seu automóvel pode ter ficado bloqueada pelo restante do comboio. P. Pôs a mão no bolso para pegar a bomba. O mo­ torista parou. mas pensou rápi­ do e agarrou a chance. ele insistiu em ir até o hospital para visitar o coronel Merizzi. Após uma parada na prefei­ tura para uma recepção e discursos. Considerou a melhor maneira de voltar. Ele teria de manobrar lentamente na rua estreita. Deve ter ficado surpreso. levemente ferido no ataque de Cabrinovic. mas não refez o caminho. Então. recuando. Os relatos diferem sobre onde ele permaneceu ou sentou-se. atravessou a rua. deixando a avenida Appel e pegan­ do uma rua lateral para chegar ao museu. Então sacou sua pistola e dis­ parou dois tiros à queima-roupa. era quase impossível errar. Nesse ínterim. gritou-lhe o general Potiorek. atingindo a jugular do arquiduque com um e o abdome da duquesa com o outro. na chamada ponte Latina. Não estava claro o que tinha acontecido. mas foi impedido de atirar por um homem ao seu lado.50m de distância de Princip. Para alguns. o veículo ficou parado. seguiu os planos originais. J. Àquela distância. O terceiro ficou com pena da esposa do arquiduque e nada fez. e o motorista do arquiduque simplesmente o seguiu. Tudo isso se passou a cerca de l. mas compreendeu que estava apertado demais na multidão para poder projetar o braço e lançá-la livremente no alvo. os dois estampi­ 156 . talvez andando de marcha a ré ou fazendo retorno.2 O segundo viu um policial ao seu lado e decidiu que qualquer movimento seria arriscado demais.

Princip engoliu sua cápsula de veneno. querida! Sophie. a que os auto­ móveis estavam muito sujeitos naquela época. “Não é nada”. e começou a vomitar quando ela não funcionou. O casal fatalmente ferido foi levado às pressas à residência do governador. Não foi bem “nada”.gritou-lhe Francisco Ferdinando. enquanto auxiliares lhe perguntavam ansiosamente como estava se sentindo. Os espectadores gritaram advertências enquanto chegavam reforços policiais para controlar a situação. E de­ pois. Princip usou a coronha da sua arma para revidar. a limusine com o casal real moribundo corria em busca de socorro.O Ú L T I MO VERÃO E UR OP E U dos inesperados soaram como explosões de escapamento. mais debilmente mas repetidas vezes. querida! Não morra! Conti­ nue viva para nossos filhos!” . Lutando. “Sophie. A turba começou a surrá-lo e é possível que estivesse tentando afastá-lo para linchá-lo. A confusão irrompeu quan­ do a multidão e os policiais próximos começaram a se bater uns contra os outros para ver quem pegava o rapazote assassino. Eles haviam sido baleados por volta das dez e meia da manhã. 157 . a apenas alguns minutos de distância. Francisco Ferdinando. em torno das onze da manhã. Finalmente. Ele deixou cair a sua bomba. Sophie morreu por volta das 10h45. a polícia conseguiu arrancá-lo das mãos da multidão. Nesse ínterim.

alguns traços gerais principais transparece­ ram já na época. Nas ruas de Viena. T 158 . Os Ministérios das Relações Exteriores do mundo souberam do atentado imediatamente. um relato datilografado do que havia aconteci­ do foi distribuído imediatamente pela Agência Telegráfica Oficial austríaca. Em sua natu­ reza. apesar de o cônsul britânico em Sarajevo. Assim. teria levado semanas até a notícia alcançar locais distantes. Mas a tecnologia mudara as coisas. as consequências do caso poderiam ter sido muito dife­ rentes. Ao mesmo tempo em que os detalhes dos dois assassinatos são até hoje objeto de controvérsias. o embaixador bri­ tânico em Viena tinha os detalhes exatos. Na era dos navios a vapor e sobretudo do telégrafo. e em horas começaram a chegar condolências de lugares tão longínquos quanto da Casa Branca. em Washington. ter relatado que o ataque a bomba havia matado Francisco Ferdinando e Sophie. as notícias andavam rápido. desnorteado pelas duas agressões.C A P ÍT U L O 22: A EUROPA BOCEJA ivesse o crime de Sarajevo sido cometido até um século antes. portanto. com acurácia.

ainda ecoava sua crença de que fora alguém dentro do próprio governo austro-húngaro que arranjara tudo. “para assumir o controle da situação e preservar a paz da Europa”. Guilherme decidiu retornar a Berlim. Rebecca West. recebeu um telegrama codificado do cônsul alemão em Sarajevo. é uma grande preocupação a menos”. Paris não foi afetada. “Para mim.” Mesmo Berchtold anotou em seu diário que durante a primeira reunião do gabinete após o assassinato havia “sim consternação e indig­ nação. Kiel.2 Para um auxiliar mais próximo. para ver o fim das corridas. Ao aportar. ao falar da morte do arquiduque. a jornalista britânica cujo relato dos assuntos balcânicos é considerado clássico. o imperador. Um deles. alcançou o Meteor e gritou o que estava acontecendo.3 O presidente Poincaré. pelo menos em parte. embora horrorizado pelo crime em si. desempenhou um papel no desenca­ deamento da guerra. Vinte e cinco anos mais tarde.1 Suspeitou-se dos serviços secretos alemães. senão. “a loja franco-maçônica mundial”. E depois seguiu a sua rotina usual. estava no hipódromo de Longchamps quando a notícia dos assassinatos de Sarajevo lhe foi dada. era de que os franco-maçons eram responsáveis. ele confidenciou: “De Deus não se zomba.O Ú L T I M O VERÃO E UR OP E U Os rumores também andaram rápido. persistente. O cáiser estava participando de uma regata a bordo do seu iate Meteor. Muller partiu imediatamente na lan­ cha Hulda. Um década depois. 159 . Uma reunião foi realizada a bordo. almirante von Muller. a crise do verão de 1914. A “internacional dos illuminati . transmitindo a notícia. da França. Um poder superior restaurou a ordem que eu não pude manter. não ficou chateado por Francisco Ferdinando estar fora do caminho. como explicar a au­ sência caso contrário desconcertante de precauções? Além disso. escreveu ele. o primeiro-ministro húngaro foi acusado. disse ele à sua filha. Alemanha. Ele ficou. o roman­ cista Thomas Mann continuava a atribuir a eles. mas também um certo alívio”. o chefe do seu Gabinete Naval. Ele não queria que o arquiduque o sucedesse.

ele foi. porém. A “Afronta”. muito tempo depois. dizendo que “o interesse alemão pelo problema austrí­ aco será certamente mais intenso” do que antes. além disso. De Kiel. Tendo Francisco Ferdinando e Sophie “escapado da morte por um triz”. os acontecimentos terríveis na capital da Bósnia eram “eviden­ temente fruto de um complô cuidadosamente tramado”. Este sonho havia sido destruído. Segundo o correspondente de Sarajevo. devido a uma bomba atirada contra eles às lOhl 5 da manhã por um agressor.. O fato de um dos atacantes ser da Bósnia e o outro da Herzegóvina apon­ tava para a existência de um amplo complô. poderiam (no que parecia ser a visão do cáiser) trabalhar em parceria para liderar o continente europeu. mesmo nos mais altos círculos oficiais”. dominou o noticiário dos correspondentes estrangei­ ros do Times de Londres pela manhã.] foi recebida com alívio em amplos círculos políticos. Para esse fim. Ele ficaria horrorizado pelo assassinato de qualquer figura real. contou que ouviu de um diplomata húngaro que a afronta fora um “desígnio da Providên­ cia”. depois de Francisco Ferdinando sair de cena. não foram dadas informações sobre o credo e a raça do assassino. e mostrava todos os sinais de continuar a ser. Ambos os criminosos 160 . Inglaterra. conjecturou-se. Guilherme e Francisco Ferdinan­ do.. o Império Habsburgo poderia não ser um aliado tão próximo e confiável quanto sob a liderança de Francisco Ferdinando. 29 dejunho. Uma vez que o velho Francisco José morresse . “um estudante secundarista” que abriu fogo com uma pistola automática Browning. o ex-chanceler alemão. ele havia trabalhado quatro anos para consolidar um relacionamento especial com Francisco Ferdinando. Para a Alemanha. Contudo. os dois amigos e imperadores.em não mais do que uns poucos anos —. levando-a a uma guerra civil. o maior defensor de Sophie. Segundo um importante editor de jornal vienense contemporâneo. pois o anti-húngaro Francisco Ferdinando poderia ter dividido a Áustria-Hungria.5 Segunda-feira. foram abatidos pouco depois por um outro.A EUROPA B OCE J A Deve ter sido um golpe terrível para o cáiser Guilherme. “a morte do arquiduque Francisco Ferdinando [. como o assassi­ nato foi chamado.4 Biilow. o correspondente do Times de Londres passou um telegra­ ma ao seu editor.

As notícias eram suplementadas por matérias de fundo. área em que era um dos poucos especialistas do seu partido . para ele. Sir Mark Sykes. Segundo o cônsul inglês em Sarajevo. não importa o quanto pudessem ser envolventes. com a morte de Rudolf. pois. con­ cluindo que “poucos vieram a sofrer uma sucessão de calamidades tão dolorosas quanto as que se abateram sobre o ancião que ocupa o trono mais orgulhoso do continente”. um legislador tóri cuja perspectiva absolutamente não era paroquial —ele havia viajado muito pelo Oriente Médio. que mais um golpe sofrera no 66a ano do seu reinado. o imperador não deu sinais em público de estar abalado. “há pou­ cos sinais de inquietação pública”. Rudolf era filho do imperador. mas é mais provável que seja uma ação de irredentistas sérvios [sic\. lembrava os leito­ res das mortes violentas da sua esposa. O público austríaco tampouco ficou perturbado com a notícia. Uma biografia concisa de Francisco Ferdinando explicava que. relatou o corres­ pondente do Times. ele era “um bom cavaleiro. Francisco José. Contudo. e presumivelmente seria sucedido por seu futuro filho —. como desde os seus primeiros anos nunca houve a expectativa de que ele subis­ se ao trono —seu primo Rudolf era o herdeiro. Seus tutores foram assim guiados pelo princípio de que “suas faculdades intelectuais [. ele tornou-se herdeiro do trono. falou por mui­ tos ao dizer à Câmara dos Comuns que não era hora de centrar a atenção em desenvolvimentos estrangeiros. o mercado de açoes abriu em baixa. do seu irmão e do seu filho. Uma nota de solidariedade sobre o imperador austríaco de 84 anos.O ÚL TI MO VERÃO EUROPEU foram “salvos com dificuldade de serem linchados”. mas recuperou-se quando ficou claro que o mercado de Viena e outras bolsas continentais estavam reagindo bem. era “difícil discutir assuntos estrangeiros livremente 161 . apenas sobrinho.. há muito planejada”. Ele só começou a estu­ dar essas matérias em 1889. excelente atirador e um oficial diligente. Aos vinte e poucos anos. No centro financeiro de Londres. relatou o correspondente em Viena.] não deveriam ser sobrecarregadas”... “os jornais locais falam de crime anarquista. parecia não haver razão para lhe dar formação na arte de governar. Francisco Ferdinan­ do. [mas] seu conhecimento em questões políticas e constitucionais era limitado”.

“A tragédia que ocorreu recentemente em Sarajevo não levará. que tinha um pouco de tudo: sexo. numa guerra civil para determinar o destino da Irlanda —e muito mais. espero. demasiado cordato com a Alemanha. 30 de junho.” Paris poderia ter passado em branco. Num comunicado ao seu embaixador na Rússia. o chefe perma­ nente do Ministério das Relações Exteriores expressou seu anseio de que as consequências fossem limitadas. mas que a política interna não podia ser ignorada: “Temos de tratar dos nos­ sos próprios assuntos. Era o famoso escândalo Caillaux. estes (segundo o biógrafo do presidente Poincaré) “mal foram mencionados”. no primeiro encontro ministerial após os assassinatos. violência. que se tornara primeiro-ministro da França em 1911. amor. intriga internacional. Joseph Caillaux.. Terça-feira..A EUROPA BO C E JA quando os assuntos domésticos estão em situação tão particularmente danosa”.” Na França.] é óbvio que o povo em geral considerou a eliminação do falecido arquiduque quase providencial. supostamente. paixão e ciúme.6 O embaixador britânico na Itália relatou a Londres: “Foi curioso estu­ dar aqui o efeito dos terríveis assassinatos em Sarajevo. a mais complicações.” O Times se referia provavelmente à ameaça de dissolução do Reino Unido em poucas semanas. um admirável escândalo. e mau com­ portamento nas altas esferas. O ponto de vista de Sykes repercutiu num artigo de fundo do Times (um editorial). embora já seja bas­ tante evidente que os austríacos estejam atribuindo os terríveis aconteci­ mentos a intrigas e maquinações sérvias”. Estava completamente tomada por um escândalo. o qual concordava que o que acontecera em Sarajevo “ocupa o primeiro lugar na mente do público” e vai “ocupar a atenção de todos os que estudam a política européia”. Em 1913. algum bem poderá vir disso tudo: “Pode ser que o novo herdeiro seja mais popular do que o falecido arquiduque. 162 . foi um político de esquerda obrigado a deixar o cargo em 1912 por ser.7 Ao mesmo tem­ po em que as autoridades e a imprensa foram enfáticas em sua denúncia do crime [.

em 1913-1914 eles tinham se tornado adversários políticos. Caillaux se opôs à medida. mesmo ao casar-se. Tendo acabado de ser elei­ to presidente da França. Gaston Calmette. um faroleiro. Calmette tam­ bém ameaçou publicar a correspondência amorosa entre Caillaux e sua segunda esposa. Calmette afirmou que tornaria públicos certos documentos que mostrariam que Caillaux. aos 43 anos de idade. Aquela parecia ser a única maneira de a França compen­ sar a vantagem populacional da Alemanha: de 70 milhões para 40 mi­ lhões. datados da crise de Agadir em 1911. porém. ele escondia”. Caillaux. Ele era mesmo um importante defensor da amizade com a Alemanha —e tinha um quê de pacifista. Poincaré se casou.O Ú LTI MO VERÃO EUROPEU ele se tornou novamente membro do governo. Apesar da amizade pessoal entre os dois homens. no civil. Em seus dias de solteiros. continuou um caso amoroso clandestino com outra amante. O ponta-de-lança da campanha política contra Caillaux em 1914 foi o jornalista mais poderoso da França. mas sob ataque constante da direita. 163 . Especulava-se que Calmette também iria publicá-los. eu exibia. que havia sido eleito presidente do Partido Radical. “a minha. Poincaré apoiou um projeto de lei para ampliar o serviço militar no Exército francês de dois para três anos. Caillaux era um velho amigo do presidente Poincaré. Caillaux. editor do principal jornal da direita. eles foram companheiros de aventura. em 4 de março de 1913.8 Quando. o contraste entre os dois homens era marcante: nas palavras de Caillaux. que finalmente se tornou a sua segunda mulher. A lei foi adotada em 7 de agosto. ele que havia unificado os socialistas do país. quando era ministro das Finanças em 1911. E mais deveria surgir: telegramas alemães para Caillaux. escrita enquanto ainda estava casado com a primeira. em companhia das suas amantes. enquanto Caillaux. Le Figaro. Uma diferença entre os dois era que Poincaré era discreto. a dele. continuou a atacar a legislação. haviam sido interceptados pelo Ministério das Relações Exteriores francês. que supostamente demonstravam sua simpatia pela Alemanha. O dublê de pacifista Jean Jaurès fez o mesmo. teria obstruído a justiça num escândalo financeiro em que talvez estivesse pessoalmente envolvido. Quando estavam de férias na Itália. a ceri­ mónia foi tão discreta que poucos souberam.

] como se nada tivesse acontecido”. “o acontecimento quase não causou nenhuma reação ou impressão. Caillaux foi visitar o seu velho amigo e presidente Poincaré. e advertindo que. a menos que o presidente o fizesse. Z.. B. matando-o imediatamente.9 Se há um país na Europa em que a matança em Sarajevo deveria ter sido sentida agudamente.A EUROPA B OCEJA o que motivou um protesto do governo alemão contra a interceptação da sua correspondência. Se conhecidas. pediu para vê-lo.. Assim. só o que ameaçava Caillaux era a publicação proposta por Calmette das cartas de amor. quando o viu. O seu julgamento por assassinato foi marcado para 20 de julho. disparou seis tiros de pistola automática. em troca. Com isto. a música havia parado. Sua atenção foi desviada do livro que estava lendo por um súbito silêncio: já não se ouvia mais o som distante de uma banda. As pessoas estavam se aglomeran­ do em volta do quiosque da banda. A multidão ouvia a notícia dos assassinatos de Sarajevo. O autor Stefan Zweig estava sentado num banco de jardim em Viena na tarde de 28 de junho. e Caillaux. Zeman escreve que. a atenção de Paris estava inteiramente voltada para o processo. Esquerdistas e direitistas brigavam nas ruas. Não sobravam tempo nem atenção para o arquiduque e sua consorte. Zweig juntou-se a elas. ele (Caillaux) iria revelar o que sabia sobre as negociações secretas de Poincaré com o Vaticano. Em 16 de março de 1914. a segunda senhora Caillaux foi ao escri­ tório de Calmette. ouvindo algum comunicado. Em julho. pedin­ do-lhe para impedir Calmette de revelar o dossiê. seria a própria Áustria do arquiduque. em Viena. esperou e. Poincaré brincou dizendo que o caso tinha lhe inspirado novas idéias: ele incumbiria a sua mulher de eliminar seus oponentes. o governo francês negou oficialmente a existência de telegramas alemães interceptados. Tais negocia­ ções tinham sido evidenciadas pela interceptação de telegramas italia­ nos. portanto. deixou de reve­ lar a existência dos telegramas italianos em suas mãos. 164 . Contudo.10 No domingo e na segunda-feira. elas comprometeriam as relações do presidente com suas bases secularistas anticlericais. As pessoas deviam estar chorando pelas ruas. a multidão em Viena ou­ viu música e bebeu vinho [. A.

mas compartilha­ da por toda a nação. a reação ao assassinato do herdeiro do trono Habsburgo foi calma ao ponto da indiferença. e sua esposa era igualmente inamistosa. [. fixos. Minha premonição quase mística de que al­ gum infortúnio viria daquele homem com seu pescoço de buldogue e seus olhos frios. e nenhuma fotografia o mostra relaxado.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU Tratava-se de austríacos recebendo a notícia da morte do seu futuro líder..]n Ele nunca era visto sorrindo. pois o her­ deiro aparente absolutamente não era amado. em todas as capitais da Europa.. por isso a notícia do seu assassinato não despertou nenhuma solidariedade profunda. absolutamente não era pessoal. era sabido que não tinham amigos. 165 . Ele não tinha sensi­ bilidade musical e nem senso de humor. Ambos eram cercados por uma atmosfera glacial.” Sem dúvida. Zweig escreveu mais tarde: “Não havia nenhum cho­ que particular ou abatimento visível nos rostos das pessoas. Entretanto.

enquanto Sophie iria para Artstetten. sobrinho de Francisco Ferdinando que o sucedeu na posição de herdei­ ro aparente. Ele os fez despachar para Viena de modo a chegarem tarde da noite: às dez horas da noite do dia 2 de julho. ignorados. chegou à estação de trem para receber os corpos. para o serviço fúnebre. para que. O plano de Montenuovo descarrilou quando o arquiduque Charles. Charles estava acompanhado. Ainda assim. por “toda a oficialidade da guarnição de Viena”. Montenuovo esperava que ninguém os visse. O arquiduque podia ser envia­ do para a capela Hofburg. e “os­ tentava o seu brasão de armas” de segundo mais alto príncipe do impé- O 166 . controlador-chefe da Casa Imperial Habs­ burgo e principal perseguidor de Sophie enquanto ainda viva. ele pudesse separar os corpos. nos conta Albertini.1E lá se foram os dois corpos para a capela Hofburg.CAPÍTULO 23: DESCARTE DOS CORPOS príncipe Montenuovo. um castelo onde Francisco Ferdinando havia construído uma capela para a esposa e para si. fi­ cou encarregado dos arranjos para os dois corpos. o caixão do arquiduque era mais alto e maior. da família Habsburgo.

grupo que se recusou a ser excluído. ao passo que o dela exibia um par de luvas brancas e um leque negro —a insígnia do seu préstimo de dama de companhia. a capela foi fechada. Viena solicitou que as personalidades reais estrangeiras não com­ parecessem e. Em Artstetten.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU rio. Posteriormente. os corpos do arquiduque e de sua esposa morganática chegaram finalmente ao campo-santo. A cerimónia ocorreu em 3 de julho. acossados e humilhados na mor­ te como haviam sido em vida pela corte dos Habsburgo. foram acompanhados por um grande cortejo de nobres conduzidos pelo irmão de Sophie .2 Os filhos do casal foram proibidos de comparecer ao funeral por seus parentes. Eles mandaram flores. Foi uma atitu­ de vil dos próceres da corte. mas foram intercep­ tados. 167 . consequentemente. Durante a noite. um dos dois únicos buquês permitidos. os caixões foram enviados de volta à estação de trem. tampouco o fez. depois. E também tacanha: solapava a sua própria pretensão de terem sido injuriados pelo crime que Gavrilo Princip perpetrara.

Segundo os procedimentos legais continentais. disse: “As pessoas me tomam por um fracote [. escreveu o juiz Pfeffer. sangrando e vomitando.. que jogara a bomba.]2 E eu fingi que era uma pessoa fraca. Quando a polícia chegou com Princip. Princip recuperou a voz e afirmou que não tinha cúmplices. Foi difícil conceber que um indivíduo de aparência tão frágil pudesse ter cometido um ato tão grave”. sob interrogatório. Inicialmente. Princip. um magis­ trado. indicavam uma conspiração.. não foi capaz de dizer uma só palavra. Sobre si mesmo. “exausto pelo espan­ camento.CAPÍTULO 24: REUNINDO OS SUSPEITOS E spancado. mesmo sem o ser. Mais tarde.” 168 . que tinha agido por iniciativa própria. tinha chegado somente um pouco antes. Dois atentados a minutos um do outro sugeriam algo maior do que um assassinato.foi nomeado para investigar o crime de Cabrinovic. Princip foi levado para a delega­ cia. Leo Pfeffer —funcionário local .1 Era pequeno. Cabrinovic. o alcance da investigação de Pfeffer foi ampliado. pálido. macilen­ to. Ele negou conhecer Cabrinovic. de feições agudas.

era essencialmente absurda. Princip sentiu-se culpado por causa disso. a polícia jogou seu arrastão. deve ter sido (segundo Cabrinovic) porque tinha sentimentos parecidos e chegara às mesmas conclusões sobre o que deveria ser feito. Não só a família de Cabrinovic e a família de Ilic. independentemente um do outro.O ÚL TI MO VERÃO EUROPEU Cabrinovic. Ilic. Contou aos austríacos tudo o que sabia. tinham se apresentado como voluntários para uma missão suicida. todos os conspiradores tinham sido identificados. Diferentemente de Princip. mais ou menos na mesma hora . mas mais de duzentas importantes personalida­ des sérvias de origem bósnia foram detidas apenas em Sarajevo. De todo modo (embora os relatos difiram). Princip só queria revelar os nomes dos seus parceiros conspiradores . apanhado com muitos outros pelo arrastão da polícia. A razão pela qual não tinham nenhum relato plausível a dar é porque não tinham feito nenhum esforço para criá-lo: a sua missão era suicida. de­ veriam estar mortos e. ele tinha mais de 21 anos. em 29 de junho. A história deles —que dois amigos por coincidência tinham tenta­ do assassinar a mesma figura pública. que Princip e Cabrinovic “estão sendo acusados de ter a mais cínica das atitudes durante o interrogatório”.afinal. estando portanto sujeito à pena de morte. em 5 de julho. se dis­ pôs a tudo revelar se sua vida fosse poupada. permanecer passivo e deixar pessoas inocentes serem punidas pelo que ele havia fei­ to. o general 169 . Se Princip tam­ bém tivesse atentado contra a vida do arquiduque. portanto. eles haviam engolido as pílulas de cianureto. por sua vez. sentia ele. no mesmo dia e no mesmo local. exceto por uma figura menor que tinha fugido para Montenegro e que acabou nunca sendo presa. O correspondente do Times de Londres relatou. embora admitisse conhecer Princip. remidos de qualquer necessidade de apresentar uma cobertura às autoridades. Paralelamente à continuação dos interrogatórios. e de insistirem em afirmar que nin­ guém mais estava envolvido. Cabrinovic tinha revela­ do alguns elementos da conspiração ao juiz Pfeffer. nega­ va qualquer conhecimento do que seu amigo tinha feito. em 3 de julho. estava errado. todos estavam sob custódia. com quem Princip morava. Nao foram inteiramente bem-sucedidos. Os prisioneiros tentaram evitar dar informações que pudessem ligá-los à Sérvia. Em 2 de julho.

em 30 de junho. se devidamente investigados. limitando-se a arquivá-la. O representante diplomático alemão em Belgrado relatou ao chan­ celer Bethmann Hollweg. que viajou para Sarajevo para ver por si mes­ mo.3 O adido militar da Áustria na Sérvia descobriu indícios cabais que. Pasic. então. que falhou em dar o devido enca­ minhamento à comunicação. Um funcionário de Viena. Viena estava . por iniciativa própria.4 A evidência de um vínculo com a Sérvia era sugestiva. nos bair­ ros em que alguns dos conspiradores tinham morado...] não podia ser negada”. não era a essencialmente cultural Narodna Odbrana. despachou uma circular aos seus representantes diplo­ 170 . primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores sérvio. Buscas e prisões foram feitas.6 Ele disse que o representante russo esperava que não fosse um sérvio a tê-lo cometido: “Esperons que ce ne sera pas um serbe.] (“Devia saber!”.” [Esperemos que não seja um sérvio. o ministro das Finanças Bilinski. mas nada tinha de conclusiva. No mesmo dia. poderiam ligar os conspiradores de Princip com Apis .e continuou . a qual os austríacos não mencionaram nominalmente. o agente diplomático austríaco em Belgrado tinha perguntado ao Ministério das Relações Ex­ teriores sérvio que investigações estavam sendo feitas sobre o crime. mas não tinha provas. telegrafou para casa: “Nada indica que o governo sérvio soubesse do complô.”5 Além disso.R E U N I N D O OS S U S P E I T O S Potiorek pôde passar um telegrama ao seu superior civil. Ele informou aos seus superiores no Ministério da Guerra. mas a Mão Negra.enganada sobre a sociedade secreta que tinha apoiado Princip. O governo Habsburgo estava convencido de que a Sérvia estava de algum modo implicada no crime. que também dera treina­ mento de tiro a Princip. informando que os conspiradores tinham recebido armas fornecidas pelo major sérvio Tankosic. pois não sabiam da sua existência. o representante disse ao chance­ ler que em l 2 de julho.e portanto com o governo Sérvio. que os sérvios estavam com medo de serem responsabilizados pelos assassinatos e estavam “muito deprimidos”. o Ministério das Relações Exteriores resolveu entrar em contato com o Ministério do Interior. comentou o cáiser com ceticismo.)7 Em seu relatório. dois dias depois. mas que a “cumplicidade moral da Sérvia com o crime [. A resposta foi: “Nada foi feito!” Quando ele expressou sua surpresa.

educadores. ele afirmou que em todos os círculos da sociedade sérvia o ato “tem sido o mais severamente condenado”. incapaz de ocultar a alegria do povo da Sérvia. o ministro das Relações Exte­ riores e o embaixador da Monarquia Dual tomaram instintivamente a iniciativa de aconselhar Viena a reagir com moderação. Nikolai Schebeko. que estava arrasado e enfurecido. funcionários.8 Caracteri­ zando a atitude de “absurda”.era culpado.]12 Este é especialmente o caso nos assim chamados círculos dirigentes . Já não minimizava mais. o problema sérvio. comentou ele. A Sérvia não pôde evitar os assassinatos porque “ambos os assassinos são súditos austríacos”. Gagarin para Sarajevo. e amiúde abertamente [. como seu amigo Francisco Ferdinando. “Agora ou nunca”.os intelectuais. 171 . Foram citadas repetidas vezes para mostrar que sua reação reflexa foi o que levou à eclosão da guerra mundial. ouviu de um agente: “Praticamente não houve sinais de consternação ou indignação. o chanceler. Na velha cidade fortificada de Nish.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU máticos no estrangeiro a propósito de “a imprensa austríaca e húngara culpa[re]m cada vez mais a Sérvia pela afronta de Sarajevo”.10 Os líderes civis alemães. Não o cáiser. acusando a Sérvia.. conde von Berchtold.” Nos primeiros dias de julho. nenhuma das partes em disputa pare­ cia ter consciência de como a questão se colocava para o mundo exte­ rior.. Enviou o príncipe M.9 Ele exortou seus representantes a usar todos os canais dis­ poníveis “para pôr fim o mais rápido possível à campanha anti-sérvia na imprensa européia”. pois estava entre os que pretendiam —sem esperar por provas . Belgrado. Gagarin ficou chocado com a falta quase total de segurança da parte dos funcionários Habsburgo locais. o ministro das Relações Exte­ riores da Monarquia Dual. o âni­ mo dominante era de satisfação e até alegria. e o mais rápido possível!” Suas palavras ecoaram ao longo de todo o século XX. e os estudantes.que a trilha de culpa levasse a Belgrado.13 Ele suspeitou que. parecia não compreender o quanto mais teria de fazer para convencer os outros de que era inocente. iniciou uma in­ vestigação própria. Viena não entendia o quanto mais teria de fazer para convencer os outros de que o governo sérvio —e não eventuais patifes no seu funcionalismo . representante russo em Viena. oficiais. tais como políticos profissionais. A.11 “Os sérvios têm de ser controlados.

E não teria havido guerra em 1914. teriam feito um trabalho melhor. Parecia a Gagarin que se os sérvios tivessem tentado matar o arquiduque. Mas a investigação oficial continuou a ser conduzida em segredo. eram súditos Habsburgo da Bósnia austro-húngara. O ceticismo de Gagarin poderia ter sido dissipado se os austríacos houvessem tido uma atitude aberta e revelado os indícios que haviam descoberto. 172 . embora pudesse muito bem ter havido uma guerra em algum outro ano. Os assassinos.R E U N I N D O OS S U S P E I T O S eles estivessem tentando dissimular a sua própria incompetência. Fosse de outro modo. tivesse a Áustria convencido a Rússia de que a Sérvia era um palco de terroristas dedicados a matar a realeza. afinal. o tsar poderia ter fechado posição com a Áustria-Hungria e a Alemanha contra os regicidas. não eram sérvios.

PARTE C IN C O MENTINDO .

o herdeiro aparente era. No meio do caminho. Não era esta. havia a A 175 . Eles teriam lançado a sua campanha não em 1914. É claro. a razão pela qual a Monarquia Dual buscava destruir a Sérvia. contudo.C A P ÍT U L O 2 5 : ALEMANHA ASSINA CHEQUE EM BRANCO verdade é que. se não tivessem sido impedidos. poucos na Áustria-Hungria lamentavam que Francisco Ferdinando tivesse sido removido da cena política. os líderes Habsburgo já queriam destruir a Sérvia antes do assassi­ nato. o arquiduque era a escolha de todos. Se deixasse de responder. os arro­ gantes terroristas sérvios desafiaram publicamente a própria existência do império. Ao assassiná-lo. os líderes da Monarquia Dual deploraram a matança da realeza. a figura mais importante do Império Habsburgo. Viena perderia por omissão: este argumento podia e foi plausivelmente utilizado na época. É verdade. e por muitos historiadores desde então. Não podia ser a razão porque. com a possível exceção de Berchtold. depois apenas do imperador. mas se alguém de sangue tivesse de ser sacrificado. Francisco Ferdinando à parte. mas em 1912 ou 1913.

Ao longo das guerras balcânicas de 1912-1913. Na nova situação. e os assassinatos. Com 51 anos de idade em 1914. Logo depois dos assassinatos. e do ponto de vista de Viena. presa de uma ira irrefletida. No passado. e aceitaria. tinham ficado no caminho da articulação de uma cruzada contra a Sérvia. a Áustria desenvol­ vera. o que a Áustria planeja fazer neste caso é problema exclusivamente da Áustria. o ministro não era talhado para a liderança. 176 . Indeciso e intelectualmente superficial. em 1912. finalmente. Como o governo Habsburgo reagiria aos acontecimentos? O funcioná­ rio responsável da política externa era Leopold von Berchtold. um medo que chegava à histeria. mas uma pessoa de charmes e maneiras. tendendo a deixá-los fazer as coisas a seu modo. O cáiser desconsiderava tais paúras. em busca de uma resposta. Era para ele que a Monarquia Dual —e a Europa —estavam olhando. Berchtold tinha aceitado o cargo somente com a maior relu­ tância. mas sim uma desculpa para agir. O que as mortes deram a Viena não foi uma razão. o cáiser ficou furioso: “Quem o autorizou a agir deste modo?1 Quanta estupidez! Não é problema dele. de dife­ rentes maneiras. Era uma justificativa que podia atrair o apoio da Alemanha e impedir a Rússia de fazer oposição. quando o embaixador alemão em Viena arriscou aconselhar seus hóspedes a agirem devagar e serem cautelosos. eliminaram a ambos: o arquiduque morto e o cáiser tomado pelo desejo de vingança. ele parecia ajustar-se melhor ao estilo bon-vivant. Nesse aspecto. o inconstante Guilherme tinha sido deixado para trás pelos aconteci­ mentos de Sarajevo. para o intenso pesar de Viena.um pretexto em que a Europa acreditaria. dois ho­ mens. Elas deram aos austríacos motivos para destruir a Sérvia . assim como a falta de apoio alemão. e com que poderia até simpatizar. da Sérvia. assim como o medo da Rússia. ele manteve a jovem e fervorosa equipe deste.” O próprio Guilherme passou a acreditar que a situação dos Bálcãs só poderia ser reparada pela força. Nomeado quando Aehrenthal morreu. Gavrilo Princip tinha cometido o crime perfeito. Francisco Ferdinando e Guilherme II.A L E M A N H A A S S I N A C H E Q U E EM B R A N C O opinião da Europa.

2 Eis algo que tinha de ser discutido com a Alemanha. tornara-se um dos homens mais ricos do império por meio do casamento. mas ficaria disponível para discussões e decisões políticas. mas um ministro das Relações Exteriores amador. funcionários identificados com a tradição expansionista de Aehrenthal —defendia uma política agressiva: uma aliança estreita e ativa com a Alemanha. o cerco diplomático da Sérvia. Era diplomata por natureza. que assumiria a ofensiva na Europa contra uma suposta ameaça russa. o conde Heinrich von Tschirschky. porém. acreditava que o ministro das Relações Exteriores concordava com ele que a Monarquia Dual devia deixar os sérvios em paz. Em 30 de junho.O ÚL TI MO VERÃO EUROPEU Nascido em família de posses. Ao solicitar que a realeza européia não comparecesse ao funeral de Francisco Ferdinando. Berchtold deu ordens para re­ visar o memorando à luz do que acabara de acontecer. o cáiser foi convidado na condição de amigo pessoal do falecido. em razão da preocupação com a segurança do cáiser. após os encontros de Konopischt em meados de junho. Contudo. Tinha terras e haras. as autoridades de Viena abriram uma exceção para Guilherme II. Francisco Ferdinando. os funcionários alemães temiam outro ataque. 177 . No passado. entre outras coisas. Berchtold falou da necessidade de um “acerto final e fundamental” com a Sérvia. e tinha de ser por escri­ to: essa foi a recomendação do embaixador da Alemanha em Viena. Mas como poderia o governo Habsburgo recrutar a ajuda do cáiser para levar adiante qualquer política que adotasse? A solicitação de apoio à Alemanha tinha de incorporar-se num plano. seus assessores o persuadiram a declinar o convite. Aehrenthal tinha sido deliberadamente ambíguo sobre a questão Sérvia. Mas o memorando que Berchtold havia encomendado ao seu Mi­ nistério —de Franz von Matschenko em colaboração com Ludwig von Flotow e Johann Forgach. O novo memo­ rando mantinha seu apelo por medidas fortes. As metas permaneciam as mesmas. O memorando considerava. O governo da Áustria-Hungria não era forte o bastante para tomar sozinho uma posi­ ção. mas novas oportunidades podiam agora estar disponíveis. A palavra “guerra” ainda não era mencionada. Imediatamente após os assassinatos.

Naumann podia não estar falando apenas em seu nome. concordou em escrever uma carta a Guilherme. De fato.A L E M A N H A A S S I N A C H E Q U E EM B R A N C O Berchtold. que os militares alemães estavam pressionando por uma guerra imediata. O conde Alexander Hoyos. ele dará [à Áustria] todas as garantias. disse Naumann. pois percebe os perigos para o princípio monárquico”. em que o cáiser está horrorizado com o assassinato de Sarajevo. aquela era a hora: o cáiser estava chocado com os assas­ sinatos. Apenas poucos dias antes. 178 .3 Na sua opinião. com algumas modificações. em l 2 de julho. poderia tornar-se a proposta escri­ ta necessária. havia aqueles que viam o que acontecera em Sarajevo como uma oportunidade de ação: ação da Alemanha ou da Áustria. indo desta vez até a guerra. Hoyos tinha razões para acreditar que sua missão era promissora. pouco antes de viajar para Viena. ele havia conversado longa­ mente com Victor Naumann. Francisco José. relatou o embaixador austríaco em Berlim. feitas as contas.) Era chegada a hora de “aniquilar a Sérvia”. Naumann lhe disse que se Viena fosse pedir apoio a Berlim. essa era a fama que tinha. um verdadeiro agitador de trinta e poucos anos de idade que servia como chefe de gabinete de Berchtold. falarem com ele da maneira certa. “se no presente momento. enquanto a Rússia e a França não estivessem preparadas. um linha-dura do Ministério das Relações Exteriores alemão. memorando este que. (Isto é interessante porque. isolada e submetida. mas no de um grupo dentro do governo alemão. A carta foi escrita. em todas as áreas do governo havia menos oposição do que nunca à idéia de iniciar uma guerra preventiva contra a Rússia. O imperador da Áustria. ele se encontrara com Guilherme von Stumm. de imperador para imperador. mostra que Berlim ainda se opunha a declarar esta guerra. O embaixador saxão em Berlim relatou ao seu governo. Além disso. um jornalista alemão com vínculos estrei­ tos com o funcionalismo berlinense e especialmente com o Ministério das Relações Exteriores. Fosse ou não perspicaz e bem informado. em 2 de julho. se apre­ sentou como voluntário para ser o mensageiro. Tais opiniões eram disseminadas. conforme mencionado anteriormente. urgindo que a Sérvia fosse cercada. já tinha alguma coisa escrita: o seu memorando do Ministério das Relações Exteriores. de homem para homem. para servir de disfarce ou cobertura. Na Alemanha de então.

Hoyos deu seu informe ao veterano embaixador da Áustria na Alemanha. exigindo uma aliança austro-sérvia como única condição. Disse que apoiaria a Monarquia Dual mesmo que a Rússia interviesse. Ambos os documentos se concentravam amplamente na Roménia. Hoyos.4 Exatamente como a Prússia fez com a Áustria em 1866. Após o almoço. de férias em 5 de julho.O Ú LTI MO VERÃO EUROPEU Moltke. Neste ínterim. Guilherme devia partir em 6 de julho. pressionado a dizer mais. Enquanto isso. amigo pessoal do sobrinho do chanceler da Alemanha. 179 . ele o fez. que depois partiu para Potsdam e almoçou com o cáiser. Seria uma programação aper­ tada. o chefe do Estado-maior. Teve uma recepção solidária. esta­ va a caminho de Berlim na esperança de se encontrar com o cáiser e com o chanceler. Foi nesse almoço com o escalão inferior que o enviado austríaco se mostrou mais aberto sobre os verdadeiros objetivos do seu país. chegando na manhã seguinte. embora o objetivo declarado fosse a eliminação da Sérvia como “fator de poder político nos Bálcãs”. subsecretário do Ministério das Relações Exteriores alemão. em Potsdam. De manhã.” Berchtold telegrafou à embaixada alemã em Viena que seu envia­ do. O memorando do Ministério das Relações Exteriores concluía dizendo que havia sido escri­ to antes do assassinato do arquiduque. para seu cruzeiro anual no mar do Norte. viu uma outra alternativa. Szõgyéni deu ao cáiser Guilherme os dois documentos que Hoyos havia trazido consigo. Prometeu o apoio incondicional da Alemanha à Áustria-Hungria no que quer que ela decidisse fazer em seu conflito com a Sérvia. Nenhum preconizava açÕes específicas. Hoyos falou abertamente de guerra.5 Guilherme começou a discussão dizendo que teria de consultar o chan­ celer. ad­ vertindo sobre a sua proximidade crescente com a Sérvia e a Rússia. Hoyos almoçou com Arthur Zimmermann. 5 de julho. “A Áus­ tria deve bater os sérvios e depois fazer rapidamente a paz. sendo confirmado em sua análise pelo evento. Ladislaus Szõgyéni-Marich. de varrer a Sérvia do mapa e de partilhá-la em seguida entre os Estados vizinhos. A carta de cobertura tinha um tom mais pessoal e emotivo. Deu o que os historia­ dores chamaram de uma “carta branca” ou um “cheque em branco”. caso fosse a Áustria que tomasse a iniciativa. contudo. Berlim.

era de que o Império Habsburgo pudesse desintegrar-se. assim como na crise marroquina de 1911. Funcionário público de carreira. a Monar­ quia Dual não apoiasse a Alemanha em suas disputas.A L E M A N H A A S S I N A C H E Q U E EM B R A N C O Contudo. Até o chanceler estava de acordo. com o que poderia acontecer se as garantias solicitadas não fossem dadas. após a morte de Francisco Ferdinando. alguns temiam que a Alemanha pudesse se afastar de um aliado que se mostrasse inútil por não ter coragem de lutar. tinha sentido a pressão dos oficiais do Exército que acreditavam que a guerra contra a Rússia era inevitável. Segundo a informação mais recente. Depois. Outra era de que. ele se encontrou com o chanceler e com aqueles dentre os seus conselheiros militares que puderam ser rapidamente encontrados em pleno verão. e novamente na manhã seguinte. 57 anos de idade. foi principalmente o chanceler Bethmann Hollweg quem desenvolveu os termos da resposta alemã. Houve então a consulta por escrito de Viena. não importa o que dissesse. Surgiu um consenso de apoiar a decisão de Guilherme. Cada lado estava com medo de perder o seu único real aliado. em 4 de julho. Nos círculos governamentais alemães. ele tinha passado toda a sua vida profissional buscando conter forças poderosas e persona­ lidades imoderadas. Como chanceler por cinco anos. A essência do consenso desenvolvido entre os alemães em 5 e 6 de julho era de que as circunstâncias eram então favoráveis para um projeto audaz: que a Áustria-Hungria poderia resolver seu problema sérvio sem 180 . que só lutasse em defesa dos seus próprios interesses. antes de os russos estarem pron­ tos. Mas ambos os lados —Berlim e Viena —estavam preocupados. Na Áustria-Hungria. para saber se a Alemanha protegeria a Áustria-Hungria contra a Rússia se a Áustria-Hungria tentasse submeter a Sérvia. no final sempre acabava optando pela paz. e que defendiam um ataque preventivo. Ele também ficou exposto à pressão oposta de Tirpitz para postergar a entrada em guerra até o distante ponto em que a frota alemã fosse capaz de dissuadir a Grã-Bretanha. advertiu seu hóspede de que a Áustria tinha de atacar rapida­ mente. uma preocupação. Não estava claro se eles teriam a fibra de fazer o que quer que fosse. como revelou-se. por outro lado. O que os austríacos preten­ diam fazer não estava discriminado por escrito. Cada lado tinha consciência do seu isolamento internacional. Bethmann sabia que o cáiser.

escreve: “Com suas garantias. A resposta alemã à missão de Hoyos. trazia a chancela de Bethmann. de modo que não estariam realmente entregando a decisão a Viena.e agora era verdade outra vez. Samuel Williamson. Na opinião de Guilherme. também. conseguin­ do um sim e dois nãos. esse não foi o caso no começo do outono de 1912 ou no final da primavera de 1914. um dos mais destacados es­ tudiosos do papel da Áustria-Hungria nas origens da Primeira Guerra Mundial.um ataque rápido —que a Áustria iria levar a efeito. que aparentemente a conce­ beu. e preferivelmente por toda a Europa —como a parte provocada. durante os quais a Áustria já havia pedido pelo menos três vezes a declaração de apoio que Hoyos recebera. Bethmann confirmou aos austríacos o compromis­ so secreto do cáiser de apoiar a Áustria em caso de guerra. e apresentar à Europa um fait accompli. E depois. desde que Viena atacasse prontamente. por causa da matan­ ça de Sarajevo. • A Áustria-Hungria tinha de agir só e na velocidade de um raio. O plano era a Áustria atacar rapidamente. Ou não lhe disseram ou ele não compreendeu que 181 . segundo o respeitado trabalho de Berghahn. A maioria dos historiadores condenou a garantia alemã como te­ merária ou negligente. a caução alemã estava sujeita a certas condições —ou pelo menos o cáiser pode ter pensado que estariam implícitas. precondições estas que se tornam mais claras quando observa­ das no contexto de 1912-1914. O cáiser tinha certas precondições em mente para dar apoio total à Áustria-Hungria no seu continuado conflito com a Sérvia.pelo menos pelo povo alemão. o cheque pode não ter sido inteiramente em branco. Os alemães podem ter acreditado que era deles o plano .6 Foi plano de Berlim (embora o mundo não pudesse saber disso) que Viena assumiu a responsabilidade de apoiar. • O cáiser acreditava claramente que a Áustria pretendia punir a Sérvia pelos assassinatos. • A Áustria-Hungria tinha de ser vista . A garantia foi dada no contexto dos vários anos de hostilidades nos Bálcãs.7 Contudo.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU arriscar uma guerra mais ampla. em vez de apenas no de 1914. submeter a Sérvia. mas foi verdade no final do outono de 1912 . Em 6 de julho. a Alemanha entregou a direção e o andamento da crise de julho” à Áustria.

mas julgou que era pequeno. nunca seria chamada cumprir a sua garantia.embora amigos da Sérvia —afinal não entra­ riam no conflito”. Erich von Falkenhayn. Bethmann. 1!0 cáiser disse a Szõgyéni que a Rússia “absolutamente não estava preparada para a guerra”. Além disso. forçando a Sérvia a tornar-se aliada da Áustria. considerou que havia um risco de desencadear uma con­ flagração. • A convicção do cáiser era de que a crise passaria rapidamente: “A situação seria resolvida em uma semana. ministro da Guerra prussiano. e Guilherme disse que não. não estava convencido de que Viena “es­ tava realmente determinada” ou “tenha tomado qualquer resolução fir­ me”.9 Na sua visão. nem o cáiser nem seus conselheiros acreditavam estar correndo sérios riscos ao dar sua garantia. quando fora explicitado abertamente. • As circunstâncias tinham de ser tais que Rússia. Falkenhayn pergun­ tou se preparativos adicionais deveriam ser feitos para o caso de uma guerra envolvendo as grandes potências. França e Inglaterra não se inclinassem a intervir. na prática. segundo todas as probabilidades. O consen­ so era de que “os russos . a capital da Sérvia. Guilherme acreditava que. O cáiser e boa parte do seu círculo acreditavam que esse era o caso em julho de 1914.A L E M A N H A A S S I N A C H E Q U E EM B R A N C O o que a Monarquia Dual estava propondo era destruir a Sérvia objetivo que Guilherme já havia obstado no passado. Guilherme explicou a um dos seus oficiais navais que “o governo austríaco vai exigir as mais completas satisfações da Sérvia e. ele não acreditava que o tsar entrasse em guerra do lado dos regicidas.13 pois ainda não dispunha de artilharia pesada. não havia risco nenhum. seguida por um tratado de paz imposto. Em 5-6 de julho. convenientemente situa­ da à margem do rio que formava a fronteira austro-húngara. 182 . que foi designado para supervisionar a operação contra a Sérvia em nome da Alemanha.10 A Alemanha nada estaria arriscando porque.”8 • Alternativamente. haveria uma rápida ocupação militar Habsburgo de Belgrado. com o recuo da Sérvia. se não forem dadas. deslocar suas tropas para a Sérvia”. imediatamente.12 e aos seus conselheiros militares que a França “dificilmente permitiria que a guerra começasse”.

183 . As simpatias da Europa estariam contra a Sérvia e a favor dos austríacos . Ele foi favorável por acreditar que dele não resultaria guerra. em qualquer caso. alternativamente. Ou então. As pretensões de Viena pareceram cada vez menos dignas de crédito nas semanas que se seguiram. Na verdade. em primeiro lugar. estavam preparados para todas as eventualidades. a matança de Sarajevo tinha relativa­ mente pouco a ver com o desejo dos Habsburgo de submeter a Sérvia. dar-se-ia conti­ nuidade à investigação judicial até a sua conclusão e publicar-se-iam os resultados para o mundo. O que expõe a mentira da Áustria.de o memorando sub­ metido ao cáiser em apoio ao plano de entrar em guerra ser o mesmo memorando que havia sido preparado antes dos assassinatos de Sarajevo mostra que a guerra não decorreu daquela ocorrência.dos governos austríaco e alemão ameaçavam desmascará-los.ou pelo menos declarações enganosas . é o fato de ela não ter atacado imediatamente. mas não então . que é o que se faz quando um ataque decor­ re de raiva ou autodefesa. os líderes de outros países sentiram-se do mesmo modo. em vez de em conluio com a Alemanha. já alguns dos seus generais podem ter sido a favor porque o cheque em branco abria a possibilidade de uma guerra dele resultar. o que Viena não teve paciência de fazer. A Áustria-Hungria mentia ao afirmar que estava revidando o assas­ sinato do arquiduque. A descrença começou a corroer a Europa. As coisas se passaram de tal modo que.hoje conhecido.se eles revidassem imediatamente. O fato . Mas as mentiras . A Áustria não cumpriu sua parte muito bem. O cáiser e seus generais podem ter apoiado a decisão do cheque em branco por razões opostas. E Gui­ lherme não estava só. três semanas depois de recusar uma garantia de apoio incondicional ao Francisco Ferdinando vivo. O que mudou foi a morte do arquiduque. Seu comportamento nas semanas seguintes nada teve que convencesse a Europa de que sua motivação primária fosse vingar o arquiduque assassinado. e se agissem sozinhos. o cáiser Guilherme declarou abertamente o seu apoio à causa do Francisco Ferdinando morto.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU Os líderes militares da Alemanha deixaram claro que.

A L E M A N H A A S S I N A C H E Q U E EM B R A N C O Para a Alemanha. mas dando mostras de uma certa falta de franqueza O cáiser e muitos dos seus homens tinham certeza de que nenhuma das outras grandes potên­ cias da Europa interviria para deter o esperado ataque austríaco. acreditavam. ainda que talvez nem eles compreendessem que não podiam cumprir o prometido. Estavam assinando um cheque em branco que. E depois havia os alemães. talvez não propriamente mentindo. nunca seria compensado. Os alemães contavam com isso. Eles se comprometeram a repelir a França e a Rússia na firme convicção de que nunca seriam forçados a fazê-lo. os representantes austríacos davam a impressão de que iam fazer o que o cáiser insistia: agir com a rapidez de um raio. concluindo o assunto em uma. 184 . mas o Império Habsburgo não era capaz de satisfazer essa expectativa. duas ou três semanas. Tratava-se de mais uma inexatidão própria a deslindar a situação dos austríacos.

pelo menos admitiria que os austríacos tinham todo o direito de fazer o que estavam fazendo. mesmo sem aplau­ dir. A Europa. a Europa teria reconhecido que a Áustria não estava interessada nos obje­ tivos que afirmava.agindo aparentemente por conta própria e espontaneamente . cada uma das duas partes desempenhava agora o seu papel determinado. Mentiram repetidas vezes nas sema­ nas seguintes. Os dois aliados agiram certamente como se acreditas­ sem que o segredo era fundamental.afirmar que estava levando os assas­ sinos e seus patrocinadores sérvios à justiça. Ao atacar. numa demons­ tração de ira justificada. Tivesse a participação da Alemanha sido descoberta a tempo. A Áustria decidiu .CAPÍTULO 26: A GRANDE FRAUDE E m conluio. quebrando a confiança que era a marca da diplomacia européia no período anterior. 185 . os Exércitos Habsburgo estariam punindo o culpado e também exercendo o direito de autodefesa contra eventuais ataques posteriores perpetrados pela Sérvia. Ela não estava vingando uma vítima de assassinato. Era vital que o mundo não soubesse do papel da Alemanha ou da garantia do cáiser.

o cáiser Guilherme partiu em seu cruzeiro programado. Berchtold tinha intenção (assim como Bethmann) de dar ao mundo europeu uma sensação ilusória de segurança. uma espectadora inocente. No começo de julho. Para enganar a Europa. Os vices de Moltke e Tirpitz estavam de férias. 186 . ainda que achasse toda aquela fraude um tanto “infantil!”. fingindo seguir sua programação normal de julho. O conchavo germanofalante não buscava fazer justiça ao arquiduque assassinado. Uma vez instalados em seus retiros estivais. A conselho do primeiro-ministro. mas sim uma participan­ te plena no projeto da Áustria. em vez disso. Tirpitz estava de férias na Floresta Negra. com a devida atribuição de responsabilidade dos culpados. O imperador Francisco José retomou as suas férias interrompidas.1 Parece não lhe ter ocorrido na época que seu chanceler o estivesse despachando em viagem para tirá-lo do caminho. “para evitar qualquer inquietação”. mas destruí-la. A Europa tinha de ser abrandada. engajava-se numa disputa de poder que pretendia alterar o equilíbrio de forças dos Bálcãs a seu favor. não derrotar a Sérvia. A Europa teria visto que o que a Áustria pretendia não era punir a Sérvia. os alemães parecem ter feito o melhor que podiam para lá permanecerem e parecerem inocen­ tes. fazendo estação de águas. levada a acreditar que a Áustria nada faria até que fossem concluídas as semanas de investigação judicial. como a França ou a Itália. Há muito era costume os líderes europeus tirarem férias de verão. os líderes da Alemanha e da Áustria teriam de se tornar atores teatrais. Sem saber o que fora pla­ nejado. Moltke estava no famoso balneário de Carlsbad. mas varrê-la do mapa. E o mundo inteiro compreenderia que a Alemanha não era. Berchtold disse ao seu minis­ tro da Guerra e ao seu chefe do Estado-maior do Exército para partirem em férias. Assim. a Áustria tinha de atacar e subjugar a Sérvia antes que al­ guém compreendesse claramente que algo estava em curso. E de férias estava o ministro da Guerra. a Europa não tomaria precauções. O ministro das Relações Exteriores estava em sua lua-de-mel.A GR A ND E FRAUDE estava usando o assassinato como um manto sob o qual pretendia forçar um recuo da Rússia nos Bálcãs. O chanceler Bethmann ten­ tou o mesmo ardil e fez um verdadeiro show da sua presença na sua casa de campo.

4 Embarcado. o cáiser fez o melhor que pôde para não parecer al­ guém à espera de notícias importantes. Além disso. O almirante Eduard von Capelle. foi que as ações fatídicas que estavam em curso não eram visíveis. Contudo. ele estava iniciando uma viagem a Northland.) A conselho do chanceler imperial. vice de Tirpitz. Uma mensagem semelhante foi entregue em mãos por um oficial da Marinha. Além disso. Na opinião dele. Guilherme sabia que tinha reputação de recuar nas crises. Cedo na manhã de segunda-feira. recebeu um telefonema entre sete e oito da manhã. em 6 de julho ele se permitiu dizer a dois dos seus oficiais navais que em nove dias a resposta da Áustria ao que os sérvios haviam feito seria conhecida. também. deve-se ter em mente a possibilidade de tal guerra”. a Rússia e a França não estavam preparadas para a guerra. (O imperador não mencionou a Inglaterra.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU A singularidade especial de julho de 1914. para evitar qualquer inquietação”. e me contou brevemente as ocorrências do dia anterior” . neste caso. do ponto de vista mili­ tar. que tem as mãos sujas do assassinato. já que não tem artilharia pesada para seus Exércitos. o capitão Zenker. “Desta vez não vou desistir”. o tsar não iria. dificilmente permitiria a guerra. neste caso. Capelle recorda:2 “O imperador andou de um lado para outro comigo por um curto período. Encontrou-se com Guilherme no jardim do palácio. a Rússia e a França não estavam preparadas para a 187 . o cáiser disse aos seus oficiais que a situação estaria resolvida em uma semana. ou em três semanas. Como uma peça em que tudo que fosse importante se passasse nos bastidores. 6 de julho. Ele disse aos chefes das forças armadas de serviço: “Ele não estava prevendo complicações militares maiores. antes de embarcar. Na opinião dele. Noutras opor­ tunidades. conseqiientemente. relato que Capelle apa­ rentemente deveria repassar a Tirpitz. ficar do lado de regicidas. o tsar não ficaria.3 “Sua majestade pro­ meteu” proteger a Áustria se a Rússia interferir. disse ele ao fabricante de armas Krupp. A França.o cheque em branco para a Áustria. o cáiser mandou vários funcionários entregarem mensagens suas. embora uma guerra contra a França-Rússia não seja provável. a seus superiores. do lado dos regicidas. Entretanto. O cáiser “não acreditava em des­ dobramentos bélicos sérios. “mas ele não acredita que a Rússia vá entrar na briga pela Sérvia.

de 7 a 14 de julho. argumentou ele. mas não impossíveis de satisfazer”..” Guilherme disse mais ou menos a mesma coisa para o chefe do seu Gabinete Militar e para o ministro da Guerra prussiano: “Quanto mais rápido os austríacos fizerem o seu movimento contra a Sérvia. O gabinete era formado pelo premiê aus­ tríaco e seus ministros.] A conselho do chanceler. o conde Tisza obstruiu a nego­ ciação. Ele ficou sozinho ao fazê-lo. como Berchtold. o seu conselheiro de Relações Exteriores o convenceu 188 . Então.] cruzeiro. expressou sua oposição frontal aos pla­ nos de Berchtold.A GRANDE FRAUDE guerra [. Berchtold convocou o gabinete da Monarquia Dual para obter sua autorização para prosseguir. como Berchtold deve ter imaginado —que a Sérvia não pudesse aceitar. mas impediu que os demais tomassem atitudes. melhor. e [. As exigências precisam ser duras. para não gerar nenhuma inquietação.embora amigos da Sérvia . O primeiro-minis­ tro húngaro. Ele tinha preferência pela solução pacífica.5 Acima de tudo.. o Império Habsburgo não deve permitir-se ser arrastado a uma guerra. levar a uma intervenção russa e consequentemente a uma guerra mundial”. Durante uma semana. um dia depois de a Alemanha assinar o cheque em bran­ co. O gabinete deliberou e debateu durante horas. Era tempo demais para Berchtold esperar. conde István Tisza. insistiu em fazer exigências que a Sérvia pudesse aceitar. Todos os ministros estavam convencidos de que funcionários sérvios estavam de algum modo ligados ao crime em Sarajevo..] os russos . e de concluir lançando uma invasão. Tisza.uma perda de tempo. Tisza advertiu que uma invasão da Sérvia pela Mo­ narquia Dual “iria. ele partiria em seu [.não vão se envolver.. Em vez disso. e de que o processo de Sarajevo podia não começar por semanas ou meses. que tinha direito de veto. apesar de não terem provas conclusivas disso. Seu plano alternativo para Viena era estabelecer uma lista de exigências e “só emitir um ultimato se a Sérvia não as cumprisse. até onde era humanamente possível prever. Ele tinha de agir no máximo em questão de dias ou quiçá uma semana ou duas...” Em 7 de julho. o premiê húngaro e seus ministros e um punha­ do de ministros da união austro-húngara. o gabinete propôs apresentar um ultimato .

(“Lamentável”.] [E]le deve ser enviado. conforme será lembrado. em 9 de julho. que a Áustria-Hungria teria preferido que o cáiser tivesse re­ 189 . De Londres.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU de que a Hungria. e declarou em tom animado que não via razão para ter uma visão pessi­ mista da situação”..) Tisza abandonou sua posição. pois Berchtold estava decidido a forçar uma guerra contra a Sérvia. (Isto não era realmente verdade. Havia elementos no governo alemão que iam ficar tão decepcionados se a Monarquia Dual não atuasse de manei­ ra cardeal. Além disso. mas isto custou uma semana a Berchtold. observa o cáiser. afinal. a omissão do telegrama costumeiro chamaria a atenção e poderia tornarse causa de inquietação prematura [. em sua disputa com a Roménia. o embaixador alemão relatou ter discutido os desdobramentos de Sarajevo e a possível resposta da Áustria com Sir Edward Grey.6 11 dejulho. Mas ele ainda não foi colocado em sua forma final.. se beneficiaria de uma cruzada contra a Sérvia.)8 Em meados de julho. como fizeram os oficiais bávaros. Berchtold empregou dois ou­ tros argumentos poderosos.” 14 de julho. Podia-se especular. da qual todos dependiam. seria perdida. uma pergunta ao Ministério das Relações Exteriores: o telegrama de congratulação costumeiro deve ser enviado ao rei da Sérvia no dia do seu aniversário. E o cáiser. 12 de julho?7 Resposta: “Como Viena não iniciou até agora qualquer tipo de ação contra Belgrado. as queixas quanto à indecisão da Áustria pa­ reciam ser justificadas. não era im­ possível a Sérvia aceitar os termos austríacos. Além disso. Ele afirmou que Grey “estava inteiramente confiante. que não veriam mais utilidade em continuarem aliados: a aliança alemã. independentemente do que ela fizesse. De Viena para Berlim. ou no máximo em três. esperava que a questão fosse resolvida em uma semana ou duas. Do iate do cáiser. O ultimato a ser enviado à Sérvia “está sendo redigido de modo que a possibilidade da sua aceitação está praticamente excluída”. Berchtold deu esperanças ao primeiro-ministro húngaro. caso em que não haveria guerra. o que não deverá acontecer antes de 19 de julho.

Um médico foi chamado imediatamen­ te. que era obeso.A G R A ND E FRAUDE cusado o cheque em branco na conferência de 5-6 de julho —que não tivesse dado pleno apoio . Hartwig investigou o que a Áustria planejava fazer em resposta aos acontecimentos de Sarajevo. Hartwig pareceu aliviado. Os cigarros não haviam sido adulterados. representante da Áustria em Belgrado. Então. Ela tornarase um mundo de mentiras. O representante russo. levou cuidadosamente as pontas de cigarro dele. Ludmilla. sofria não apenas de asma como também de angina pectoris.9 Ela vasculhou a peça. Então ele poderia tirar suas férias num balneário. Assim como muitos diplomatas europeus. atestando sua morte por ataque cardíaco. Giesl lhe garantiu que ele não precisava ter medo pela Sérvia.para ela ter uma desculpa para não fazer nada. Os Giesl chamaram a filha de Hartwig. Hartwig. perguntou se tinham servi­ do comida ou bebida ao seu pai (não tinham). O que estava envenena­ do na Europa balcânica em julho de 1914 era a atmosfera. chamando-as asperamente de “palavras austríacas”. para apresentar condolências formais pelos assassinatos em Sarajevo. Ela repudiou todas as tentativas feitas para confortá-la. Em 10 de julho. sem qualquer ruído. presumivelmente para testar a presença de veneno. Hartwig negou o boato de que deixara de marcar a ocasião hasteando a bandeira da legação a meio mastro. 190 . Compromis­ sos oficiais o manteriam em seu posto por mais dois dias. o diplomata russo caiu no chão. estava de férias. complôs e fraudes. o barão Giesl von Gieslingen. Queixava-se então de dores no coração. lhe telefonou prontamente naquele anoitecer. Hartwig. ele retornou.

os líderes dos dois aliados estariam juntos. Isto significava averiguar a data em que o presidente francês Raymond Poincaré e o primeiro-ministro René Viviani planejavam partir. Tendo-o feito. 191 . expirando em 25 de julho. BERCHTOLD PERDE O PRAZO 14 de julho. Um chamado de emergência atrairia a atenção para as intenções bélicas de Viena. chefe do Esta­ do-maior. Berchtold planejava apresentar o ultimato à Sérvia em 23 de julho. capazes de articular respostas conjuntas a quais­ quer movimentos eventualmente feitos pela Áustria. seguramente fora de alcance. Conseqiientemente. por outra razão.CAPÍTULO 27. Atacar antes seria imprudente. Embora Tisza não estivesse mais no caminho. O presidente e o primeiro-ministro da França estavam prestes a partir em visita oficial à Rússia. Conrad. Ele pediu à sua embaixada em São Petersburgo para fornecer a informação. decidiram os austríacos. descobriu que a licença que fora dada às tropas para a colheita não expiraria antes de 25 de julho. Sem querer permi­ tir que isto acontecesse. Berchtold decidiu esperar até que os dois franceses tivessem saído de São Petersburgo e estivessem a bordo de um navio. não poderia ser feito. Berchtold continuava sem poder avançar e atacar a Sérvia.

pois Berchtold não tinha resposta a dar. Os investigadores austríacos tinham des­ coberto que: “Não há nada que prove ou sequer indique a participação acessória do governo sérvio na indução do crime. O que estava acontecendo?. Viena não respon­ deu. Berchtold teria de avançar na redação do seu ulti­ mato sem as provas que o sustentariam. Ao contrário. 192 . Seriam sete se­ manas após o assassinato —longe demais para lançar um ataque contra a Sérvia que a Europa desculpasse como reação impensada. Conrad advertiu que as forças armadas só estariam prontas para invadir a Sérvia em 12 de agosto. Esperar o surgimento de provas conclusivas da culpa sérvia já não era mais uma opção. Mais um prazo ameaçado. na sua preparação ou no fornecimento das armas. Um dos seus oficiais foi para Sarajevo. examinou os indícios e fez seu relato em 13 de julho: não foi o que Berchtold esperava ouvir. Berchtold queria informações sobre os últimos indícios incriminadores descobertos em Sarajevo. perguntou Berlim.B E R C H T O L D P E R D E O PR A Z O Para usar na nota à Sérvia que havia proposto. há razões para acreditar que isto esteja completamente fora de questão. O que Berchtold devia fazer? O que deveria dizer a Berlim? Seu prazo tinha se esgotado. Grande parte era inconclusiva.” Tudo o que puderam desco­ brir é que os assassinos tinham sido ajudados por pessoas que tinham ligação com o governo.

”1 Alertado pelo embaixador alemão. O embaixador o mencionou casualmente ao mi­ nistro das Relações Exteriores Antonio di San Giuliano. na verdade mantendo silên­ cio no rádio. tendo que193 .CAPÍTULO 28: MANTÉM-SE O SEGREDO B erchtold deixou os alemães no escuro. O Ministério das Relações Ex­ teriores alemão passou ao seu embaixador na Itália uma idéia geral do pensamento austríaco. por causa da sua reputação de indiscrição. San Giuliano repassou tudo o que sabia às suas embaixadas na Rússia. na Áustria e na Sérvia. o melhor era comunicar-se o menos possível com quem quer que fosse. É verdade. tinha de impedir to­ dos os que estivessem fora do círculo existente de saber o que estava acontecendo. As grandes po­ tências raramente confiavam segredos aos italianos. um historiador da política externa do país na época escreve: “Os diplomatas italianos não conseguem nem marcar encontro com políticos europeus importantes. Os austríacos. Ele tinha uma desculpa plausível: para obter o efeito surpresa em seu planejado ataque contra a Sérvia. Como as comunicações podiam ser interceptadas e deci­ fradas. Manter segredo mostrou-se difícil.

5 O mesmo era verdade para a ÁustriaHungria.4 Muitos diplomatas europeus ouviram rumores preocupantes. enquanto. Os conspiradores continuaram o seu trabalho. Vazamentos deste tipo eram certamente de se esperar à medida que o tempo passava.”3 No mesmo dia. Um diplomata austríaco aposentado deixou escapar uma alusão que foi captada pelo embaixador britânico. Num sentido mais amplo. e ter alertado a Sérvia. na falta da qual será usada a força. o segredo foi mantido: o público nada sabia sobre o que se passava. Comenta-se que a Alemanha está totalmente de acordo com este procedimento. que relata este acon­ tecimento. sabiam o que San Giuliano estava dizendo aos seus diplomatas. mas vai insistir em anuência imediata incondicional.2 Os russos tinham quebrado o código austríaco. Como escreve Volker Bergahahn sobre a Alemanha: “Somente um círculo muito pequeno de homens estava envolvido nas decisões cruciais que acabaram na guerra”. a Rússia não adotaria medidas de força para proteger a Sérvia contra quaisquer tentativas austríacas”. São Petersburgo. lido a inquirição de Berchtold quanto à data em que o presidente e o primeiro-ministro france­ ses deixariam a Rússia . a Europa se aquecia ao sol daquelas preguiçosas férias de verão. totalmente inconsciente. o embaixador italiano disse ao diplomata russo “que a Áustria era capaz de dar um passo irrevogável em relação à Sérvia. que repassou o boato a um colega francês. eram poucos os que realmente sabiam. também podem ter decifrado o código italiano. e que uma protelação levava a outra.M A N T ÊM .e podem ter tirado conclusões da sua solicitação. o embaixador britânico na Rússia alertou o seu governo sobre a tempestade que estava se formando: “O governo austrohúngaro não tem disposição de parlamentar com a Sérvia [sic[. e “quando chegou a hora de tomar essa decisão. O historiador Samuel Williamsom. embora protestasse verbalmente. 194 . conjectura que os russos. Em 16 de julho. não mais do que doze homens foram consultados”. baseada na crença de que. com a sua sofisticação em criptologia. mas so­ mente um punhado deles tinha informações de fato.SE O SEGREDO brado o código italiano. e na mesma cidade. Mesmo em Viena. além do mais. silenciosamen­ te e às ocultas. e em Berlim menos ainda.

PARTE SEIS CRISE! .

. o governo austro-húngaro pretende fazer certas exigências a Belgrado.”1 Esta e outras notificações semelhantes das intenções da Áustria per­ turbaram o ministro das Relações Exteriores da Rússia. Em 18 de julho. [. 197 . o embaixador russo em Viena enviou um telegrama ao seu governo: “Recebo informações de que. Disse ao ministro russo das Relações Exteriores que a Áustria-Hungria queria a paz. a Rússia nada fez. dizendo que estava determinado a não aceitar nenhuma exigência da ÁustriaHungria que eventualmente infringisse a soberania sérvia. antes da decisão final sobre a questão. à conclusão do in­ quérito. Assim.CAPÍTULO 29: O FAIT NÃO FOI ACCOMPLI E m 16 de julho. Pasic. o gabinete de Viena deva ser informado de como a Rússia reagiria ao fato de a Áustria apresentar à Sérvia exigên­ cias que fossem inaceitáveis à dignidade daquele Estado. passou um telegrama às missões sérvias no estrangeiro (exceto em Viena). Mas o embaixa­ dor de Viena apressou-se em contemporizar.] A mim parece recomendável que.. o primeiro-ministro da Sérvia. neste momento.

Na opinião deles. A Alemanha. que em 5-6 de julho a Alemanha tinha dado aos austríacos “au­ toridade plena e indiscriminada. respectivamente funcionários número um e dois do Ministério das Relações Exteriores alemão. a pretensa “inclinação à paz” da Monarquia Dual e por que um ultimato austríaco não podia ser entre­ gue a Belgrado até meados de julho. Foi por isto.mas confidencialmente . o resultado seria a guerra.. Schoen relatou que os líderes alemães “são de opinião [. tivessem lhes dito para se conterem.. teria preferido que Viena não tivesse esperado tanto antes de fazer alguma coisa. deixando a Áustria198 . “Um deslocamento poderoso e bem-sucedido contra a Sérvia”. Eles “declararam que. Jagow e Zimmermann. como no passado a Turquia havia sido”. haveria guerra se Viena continuasse de fato com o plano. a Áustria-Hungria na verdade tinha virado o Doente da Europa. Hans Schoen.” Isto é. um diplomata bávaro que havia sido informado por funcionários em Berlim. con­ tinuava Zimmermann.para o governo da Bavária na época. O reino da Bavária era o maior e mais populoso Estado do império alemão liderado pela Prússia. que são incompatíveis com a sua dignidade como Estado soberano. Deste modo. tiraria a Monarquia Dual da beira do abismo. Todas as potências tinham de ficar de fora. e pode ser que tivessem ficado mais à vontade se. Schoen observou: “É perfeitamente óbvio que a Sérvia não pode aceitar essas exigências. graças à sua indecisão e à sua inconstância. tinham suas dúvi­ das. em vez disso. explicou minuciosamente ao seu primeiro-ministro. conde Georg Herding.] que a Áustria está diante de um momento decisivo”. telegráficos e ferro­ viários separados. inclusive serviço di­ plomático. os austríacos foram surpreendidos por este apoio tão incondicional.O F A IT N Ã O FOI ACCOMPL I A trama oculta que os líderes austríacos e alemães estavam em pro­ cesso de executar ficou clara . administração militar e serviços postais.2 Em 18 de julho. disseram eles a Schoen. a Bavária tinha “conservado um grau de independência soberana maior do que o de qualquer outro Estado constituinte”. Os alemães estavam esperando a apresentação do ultimato à Sérvia. mesmo ao risco de uma guerra contra a Rússia”. Schoen deixou claro. Berlim empreenderia en­ tão um esforço diplomático para manter o conflito localizado. Ao aderir à Alemanha. diriam os alemães.3 Resumindo as exigências que seriam feitas no ultimato.

o texto ficou pronto para ser discutido internamente. eles iam dizer que o ultimato era uma completa surpresa .já que o cáiser e outros estavam de férias. não ha­ via mais dúvida quanto ao propósito que a nota para a Sérvia visava cumprir.O Ú L T I MO VERÃO EUROPEU Hungria e a Sérvia resolverem a questão por si mesmas. Schoen concluiu: “Acima de todas as demais. Estava sendo redigida para ser rejeitada.”4 A urdidura da grande rede de intrigas chegando à sua conclusão. Os alemães foram manti­ dos informados dos progressos. O embaixador alemão em Viena relatou ao seu governo que “a nota está sendo composta de tal modo que a possibilidade de ser aceita está praticamente excluída ’. conforme relatada por ele. Os alemães iam dizer que sabiam tão pouco quanto os demais sobre o ultimato que os austríacos estariam apresentando. em Viena e Berlim preparava-se o ultimato da Monarquia Dual a portas fechadas. os alemães ainda acreditavam que Viena e Berlim podiam cumprir seu plano com êxito sem provocar uma guerra euro­ péia.5 Outro funcionário da embaixada alemã relatou uma conversação com o ministro das Relações Exteriores austro-húngaro: “O conde Berchtold pareceu esperar que a Sérvia não concorde com as exigências austro-húngaras. era de que a guerra não seria aceitável nem para a França nem para a Ingla­ terra. Eles pensavam que iam conseguir o que queriam sem gerar reprimendas. já que uma mera vitória diplomática colocaria o país novamente num ânimo estagnante.”6 No Ministério das Relações Exte­ riores da Monarquia Dual. Em outras palavras. em 14 de julho. Desde a mudança de disposição de Tisza.” A opinião oficial alemã. No dia 19 de julho. Hoyos disse a um colega alemão “que as exigências eram de tal natureza que qualquer nação que ainda tivesse respeito próprio e dignidade jamais poderia aceitá-las”. a atitude da Rússia vai determinar se a tentativa de manter a guerra localizada será ou não bem-sucedida. espera-se que o conflito se mantenha localizado.7 199 . outro dos Estados alemães: “Como a Inglaterra é absolutamen­ te pacífica e a França assim como a Rússia não estão propensas à guerra. Isto foi confirmado pelo representante em Berlim da Saxônia. O Ministério das Relações Exteriores austro-húngaro começa­ ra a trabalhar no documento em 10 de julho.

e privava-os certamente de uma brilhante vitória. 25-26 de julho. [.] 8 Os carros chegavam a intervalos. Mesmo observando com cuidado.no domingo 19 de julho. um passante não teria notado sequer uma única limusine oficial”. os austríacos estavam começando —pela primeira vez — a definir o conjunto de exigências a ser enviado à Sérvia. colocando em perigo o elemento surpresa.9Por sua vez. o conselho concordou unanimemente “que a nota deveria ser apresentada ao Governo Real sérvio em 23 de julho às cinco horas da tarde”. um correio o levou para o imperador ancião. os ministros chegaram para a sua reu­ nião na residência privada palaciana de Berchtold em “táxis e automó­ veis particulares. Durante a reunião. Em 19 de julho. Ao mesmo tem­ po. Bethmann e Jagow. o ultimato expiraria em 25 de julho às cinco da tarde... à tarde. de modo que. O Império Habsburgo já devia ter submetido a Sérvia àquela altura. Para os líderes civis alemães.O F A IT N Ã O FOI ACCOMPL I O ultimato em sua forma final foi submetido ao Conselho de Ministros . Nas palavras do historiador Frederic Morton. nada fora feito ou sequer estava prestes a ser feito. Não obstante. Francisco José leu e aprovou. A uma moção de Berchtold.o gabinete . Francisco José. que esta­ va incumbido de entregá-lo ao governo sérvio na data predeterminada.. “Berlim estava começando a ficar nervosa”. O documento teria então de ser enviado e a resposta da Sérvia esperada.10 A noção de “nervosismo” talvez atenuasse o caso. [. a Áustria estava sendo uma decepção. em seus termos de 48 horas. No dia seguinte.. a mobilização austro-húngara das forças armadas poderia ser decretada e publicada na noite de sábado para domingo. Notícias das intenções austríacas tinham vazado em Roma. em seu palácio no campo. Berchtold disse a seus colegas que se opunha a qualquer prorroga­ ção dos prazos. o texto foi telegrafado ao enviado Habsburgo em Belgrado. Não houve impre­ vistos: os participantes tinham recebido ordens para chegar em carros não identificados. antes de o restante da Eu­ ropa ter tempo para reagir ou responder. 200 . Além disso. o conselho ratificou o ultimato à Sérvia. O devia ter sido accompli.] A cena parecia indicar alguma reunião so­ cial de fim de semana. evitando uma convergência dramática. O assalto já devia ter aconteci­ do.

O elemento surpresa estaria perdido. apesar de plenamente conscientes do que estava pres­ tes a suceder. Agora . os aliados germanofalantes avançariam às claras. pois quanto mais demorassem para es­ magar seu vizinho menor. O ultimato tendo sido formulado. Os países da Europa ficariam em alerta assim que to­ massem conhecimento do tipo de ultimato que Berchtold propunha entregar. tibiamente. O ultimato austríaco à Sérvia chegou à sua forma final. os austríacos também tinham de agir rápido. A Alemanha empreendeu persuadi-las de que deviam deixar a Áustria e a Sérvia resolverem suas diferenças entre si. que a Áus­ tria iria provavelmente declarar guerra e que a Alemanha iria provavel­ mente apoiar a Áustria. o governo alemão tratou de avi­ sar imediatamente as outras grandes potências para ficarem fora da briga que estava prestes a começar. exceto emitir notas de protesto depois do fato consuma­ do. Saberiam que a Sérvia iria provavelmente recusar. a Alemanha permitiria que as outras potências européias soubessem previamente que haveria uma guerra. pois a operação teria sido realiza­ da antes de as potências terem tempo de reagir. em seu novo sentido. Claramente. No esquema original. optariam por não intervir em virtude de não ser problema delas. Nesta fase. maior a probabilidade de que um dos patronos da Sérvia —particularmente a Rússia ou a França —pudesse começar a pensar em termos de interromper o conflito desigual. A Alemanha passou à fase dois: lo­ calização. Uma fase do plano austro-alemão para punir a Sérvia fora supera­ da: o plano de invasão formulado em 6 de julho e nunca experimentado. a Europa teria tempo de reagir e responder.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU Era tarde demais para lançar a invasão surpresa que Bethmann ha­ via considerado. Até 19 de julho. “Localização” era a palavra-chave que os alemães continuariam a usar. pois era tarde demais para levar a cabo o que fora originalmente premeditado.depois do 19 de julho —o plano teria de ser mudado. ao mesmo tempo em que. significando que as grandes potências. 19 dejulho. Na nova concepção. 201 . a Áustria teria tido condições de subjugar a Sérvia sem interferência das potências européias. a invasão seria completada antes de o restante da Europa poder fazer alguma coisa. mas seria convencida a esperar até que fosse tarde demais. A fase em que austríacos e alemães pensaram que tudo seria decidido por um ataque rápido estava acabada. A partir de 19 de julho.

pois o fato “não poderia continuar secreto para sempre”. Analisando os argumentos de Jagow em prol da localização.14 E Zimmermann.11 Era o começo de uma campanha diplomática lançada pelo governo alemão em função do seu novo objetivo tático. Zimmermann escreveu que não havia sentido em continuar men­ tindo. Viena. 202 . do Ministério das Relações Exteriores. este funcionário era Sir Horace Rumbold.. A insistência continuada alemã de que nada sabia sobre o que a Áustria-Hungria planejava fazer ou exigir foi recebida com total descré­ dito nas capitais européias. tratase de Sir Eyre Crowe.” Mas o funcionário estava confiante de que “o governo alemão não acredita que haja qual­ quer perigo real de guerra”.* Jagow conferiu novamente os cálcu- * Entretanto. segundo uma outra. a localização consciente.12 Compreensivelmente. repassou aos seus embaixadores nos países principais a declaração aberta da posição austro-húngara. advertindo “que a resolução das diferenças que podem advir entre a Áustria-Hungria e a Sérvia deve permanecer localizada”. Quando o embaixador francês em Berlim perguntou a Jagow “quan­ to aos conteúdos da nota austríaca”. Como Jagow poderia não saber? É claro que sabia. um funcionário britânico disse a Sir Edward Grey: “Nós não conhecemos os fatos. Jagow lhe garantiu “que nada sabia sobre o assunto”. o embaixador ficou “surpre­ so”. o número dois de Jagow. Declarações mais completas do argumento alemão em prol da lo­ calização foram despachadas em 21 de julho para a Rússia.O F A IT N Ã O FOI ACCOMPL I negava saber o porquê de a luta estar prestes a começar ou por que as grandes potências poderiam estar tentadas a intervir.13 O embaixador austríaco em Berlim trouxe uma cópia da forma final do ultimato a Jagow. É claro que o governo alemão os conhece. que posteriormente mentiu e negou tê-lo visto antes de ter sido divulgado. Eles sabem o que o governo austríaco vai exigir [. da embaixada em Berlim. a Grã-Bretanha e a França. Segundo uma fonte. ele admitiu que tinha visto o ultimato antes de ele ser mandado. Jagow colocou uma nota em 19 de julho numa publicação quase oficial. por seu lado.. numa entrevista em 17 de setembro de 19 16 ao jornalista americano William Bullitt. disse a um colega (em 11 de agosto de 1917) que “é verdade que nós recebemos o ultimato sérvio cerca de 12 horas antes de ele ser apresentado”.] e eu creio que podemos dizer com alguma segurança que eles aprovaram essas exigências e pro­ meteram apoio em caso de complicações perigosas. a North German Gazette.

Nas próprias palavras de Bethmann. tinha pedido a Jagow para provocar uma guerra mundial rapidamente. em 7 de julho. disse ele ao seu confidente. era um “quadro dilacerante”. as 203 . medos e expectativas diferenciadas. cujo papel era presidir os assuntos nacionais enquanto os austríacos executavam a estratégia dele. Um esforço desesperado do funcionalismo Habsburgo. Moltke ficaria contente —talvez até mais contente — com este resultado também. Bethmann. e poder realizá-lo. e de que a Rússia ia ficar de fora. segundo Moltke. enquanto a Ale­ manha ainda podia vencer. Moltke. Kurt Riezler. Mas eles esperavam o desenrolar dos acontecimentos com esperan­ ças. “indepen­ dentemente do resultado”.15 Em dois ou três anos. logrou adiar a entrega do ultimato em uma hora. tal guerra virasse “tudo de cabeça para bai­ xo”. que afetavam o melhor que podiam uma aparência externa de despreocupação. se os líderes alemães —militares e civis igualmente — estivessem errados na sua estimativa de que a guerra podia ser mantida localizada.17 Não obstante. Obedecendo a ordens. estava preocupado desde o come­ ço. o chefe sombrio e pessimista do Estado-maior. Contudo. então. a Alemanha estava “completamente paralisada”. O quadro que ele pintava da posição internacional do seu país mos­ trava uma visão sombria e até paranóica.18 e seus rivais. “Uma ação contra a Sérvia pode levar a uma guerra mundial”. Ele temia que. com perigos exagerados. seria tarde demais. alertado por Jagow. os líderes militares alemães permaneceram osten­ sivamente de férias. Bethmann sentia que a Alemanha não tinha esco­ lha. Na visão dele. à diferença do cáiser e dos líderes civis.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU los e descobriu que os austríacos pretendiam apresentar o ultimato uma hora antes do ideal —enquanto os líderes franceses ainda estavam na Rússia. Agora Moltke parecia disposto a aceitar a vitória limitada mas bri­ lhante que resultaria de um ataque da Áustria —se é que Viena ia conse­ guir criar coragem para levar adiante o plano de Bethmann.16 O risco de engendrar um conflito global de consequências imprevisíveis era “um salto no escuro”. Apenas cerca de um mês antes. Jagow e Zimmermann. deixando tudo ao chanceler Bethmann Hollweg e aos funcionários na chefia do Ministério da Relações Exteriores.

foi uma troca de informações.”19Até a Monarquia Dual aliar-se-ia com a Rússia. Os russos quiseram. A notícia vazou. ou do Parlamento. de decidir se a Grã-Bretanha deve ou não participar”. foi a Paris para encontrar-se com os russos algumas semanas depois. A Alemanha ficaria só e desamparada no mundo da política internacional. 204 . o gabinete de Asquith tinha autorizado a realiza­ ção das conversações. E assim foram mantidas. sobre conversações navais secretas entre a Grã-Bretanha e a Rússia. nas quais forças britânicas trazidas por mar desembarcariam no nordeste da Alemanha. mas acabaram baldadas pela eclosão da guerra. O oficial da ativa de mais alta patente na frota britânica. Nenhuma operação conjunta foi planejada. A Rússia sabia que a Grã-Bretanha e a França tinham mantido conversações navais ao longo das quais foram reveladas as providências que cada uma pretendia tomar em relação às suas frotas em caso de guerra. Como a Grã-Bretanha man­ teve conversações separadas com a França. Segundo fontes alemãs. “se estourar uma guerra entre potências européias. eles podem ter considerado operações anfíbias. nenhum compromisso foi assumido. Ambas ficaram livres para mudar as providências planejadas.O F A IT N Ã O FOI ACCOMPL I potências aliadas Rússia. nenhum acordo não publicado restringiria ou impediria a liberdade do governo. de que. o sabiam. então. ser tratados em condições de igualdade com os outros dois países: serem aliados integrais. Sir Edward Grey reiterou uma declaração anterior do primei­ ro-ministro. O chanceler estava apreensivo com os relatórios da inteligência que recebera. Elas tinham sido empreendidas a pedido da França. para tran­ quilizar os russos. França e Grã-Bretanha. escritas pouco mais de uma década mais tarde. Questões foram levantadas no Parlamento. o almirante príncipe Louis de Battenberg. que está crescendo sem parar e se tornando um pesa­ delo crescente para nós. Nas memórias do secretário britânico das Relações Exteriores. Sir Edward Grey (então visconde Grey de Fallodon). “O futuro pertence à Rússia. a Rússia também queria mantêlas. Os russos informaram os franceses do seu desejo. O que de fato acon­ teceu. dir-se-ia. as conversações não tiveram nenhuma conse­ quência. para estar do lado vencedor. Conversações poste­ riores foram consideradas. Em resposta. Em 13 de maio.

se essas cartas interceptadas fossem exatas. Ele fora alertado pelo embaixador alemão em Londres. Apesar de todos os seus perigos. ele estimulou a Áustria e a Rússia a mante­ 205 . deve ter sido fonte de um genuíno alarme. o secretário das Relações Exteriores professava o otimismo em relação à disputa austro-sérvia. Isto é inegável. argumenta Grey. a estratégia de atacar a Sérvia rápi­ do a ponto de criar um fait accompli foi. seu criador. a falta de sin­ ceridade de Grey.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU Como escreve Grey nas suas memórias: “A resposta dada é absolu­ tamente verdadeira. Os austríacos sequer a tentaram. o príncipe Lichnowsky. a França e a Grã-Bretanha. Elas sugeriam que Grey tinha sonegado infor­ mações essenciais.21 Refletiu so­ bre os erros que a Alemanha tinha cometido em política exterior desde a exoneração de Bismarck. E esta estratégia não foi empregada. Sir Edward Grey era talvez o único membro do gabinete a ter uma razão para entender precocemente que a situação nos Bálcãs era séria. Não importa por que razão. feito de todas inimigas. que era firmemente próbritânico. Lichnowsky avisou a Grey que a Áustria ia adotar uma postura dura na questão de Sarajevo. Já em 6 de julho. A Alemanha havia alienado a Rússia. a única via plausível para sair de uma situação em que as outras grandes potências poderiam virar-se contra a Alemanha e contra a Áus­ tria. Considerando o caráter de Grey e sua reputação de autenticidade. e que teria a bênção e o apoio da Alemanha para fazê-lo. conforme percebida pelo ceticismo do olhar alemão. Sua informa­ ção era de que três cartas secretas de fontes russas haviam sido obtidas pelas autoridades alemãs. aquelas conversações preocuparam imensamente os alemães. é comum funcionários do governo não revelarem inteiramente documen­ tos oficiais relativos às suas forças armadas. A crítica à qual é suscetível é que não respondia à pergunta que me foi feita. Posteriormente. Segundo Grey. Grey considerou a hipótese de trabalhar com a Alemanha para conter a Áustria. Na Inglaterra. na opinião de Bethmann. O chanceler (segundo seu confidente) preocupou-se. os russos superestimaram a importância das con­ versações que os britânicos mantiveram com os franceses.”20 Porém. sem enfraquecer nenhuma delas.

e havia informação de que equipamentos bélicos eram importados ilegalmente para as milícias rivais. O Ulster comprava armas em quantidade da Alemanha. Grey “acreditava que uma solução pacífica seria alcançada”. recordou-se mais tarde Winston Churchill.O F A IT N Ã O FOI ACCOMPL I rem conversações para resolverem suas diferenças. chefe civil do Departamento da Marinha da Inglaterra. ocasionadas pela questão do que fazer com a Irlanda. liberais e conservadores se viram presos na luta mortal da sua respectiva clientela. Mesmo então. Os britânicos também eram presas de paixões em casa. Seu entusiasmo raiava o infantil. Conforme relatou o embaixador alemão em Londres. somente déca­ das mais tarde seria visto que ele também tinha gênio. Ambos os lados recru­ tavam e treinavam formações paramilitares. Ele havia avançado muito e rápido na política.22 Ele pregava a moderação. Eles permaneceram desatentos ao perigo vindo do estrangeiro. ele aplicava suas habilidades à questão aparentemente insolúvel da Irlanda. 206 . Em 1914. e destacava a importância de a Áustria provar que as acusações feitas contra a Sérvia eram verdadeiras. podia-se ver que tinha talento. e mesmo no gabinete ele nunca parava de falar. mas era visto como uma espécie de novo-rico por seus colegas de gabine­ te. Churchill não era então a figura grandiosa que o século XX reve­ renciaria posteriormente. As ameaças externas pareciam estar se dissi­ pando. mas seu olhar escrutinava águas calmas. quase todos uma década ou mais idosos. Mas suas aptidões eram inegáveis. “A primavera e o verão de 1914 foram marcados na Europa por uma tranquilidade excepcional”.23 O menino prodígio de 39 anos da política inglesa era um primeiro lorde ativista —e até intrépido —do Almirantado. os católicos do sul da Irlanda e os protestantes do norte: os Ulstersmen.”24 Quando ficou claro que a autodeterminação da Irlanda ia finalmente ser decretada. Sua energia não tinha limites —o bastante para exaurir os que estavam à sua volta. Como escreveu posteriormente: “A estranha calma da situação européia contrastava com a violência crescente dos conflitos partidários em casa. o Ministério das Relações Exte­ riores mostrou ainda menos. Ele parecia estar sempre nas manchetes e na ribalta. Grey não demons­ trou qualquer preocupação desmedida.

pelo menos em parte. paralisada pela dissensão. O que há de surpreendente no fato de agentes alemães relatarem. Compreensivelmente. maio e junho sem nos questionar se nossas instituições parlamentares eram fortes o bastante para sobre­ viverem às paixões que as convulsionavam. mostrou que as diferenças eram pequenas. de fato. 24 de julho.25 Ele chamou os líderes partidários a chegarem a algum tipo de compromisso pacífico. eu sinto muito. “Acontecimentos chocantes causaram uma explosão de violência sem precedentes no Parlamento e abalaram as fundações do Estado”. e po­ dia-se especular que o Exército iria. Não teve êxito e os conferen­ cistas debandaram na manhã da sexta-feira. Sir Edward Grey chamou a atenção dos presentes para a crise sérvia. o rei George “entrou. estava sendo arrastada para a guerra civil e não precisava ser levada em conta como fator da situação européia?” Em 20 de julho. bastante émotionné. apoiar a Irlan­ da do Norte e o Partido Unionista contra o governo liberal de Asquith. Londres acionou reforço de tro­ pas e apoio naval. “Não podemos interpretar os debates que se prolonga­ ram a intervalos pelos meses de abril. os membros do gabinete se reuniram e voltaram ao trabalho sobre uma proposta de definição de fronteira entre a Irlanda independente e a Irlanda do Norte britânica. o rei George V convocou uma conferência de todos os partidos a realizar-se no Palácio de Buckingham no dia seguin­ te. Ao terminarem as suas deliberações. disse o rei George. A complicação era que a parcela de protestantes do Ulster na oficialidade do Exército britânico era desproporcional.. os comandantes militares começaram a estudar planos de caráter muito mais sério”.. e políticos alemães acreditarem. Segundo o primeiro-ministro.26 Naquela tarde. que a Inglaterra.] adeus. No 21. “vendo-se confrontados a ações que poderiam constituir os movimentos de abertura de uma guerra ci­ vil. mas ainda assim continuavam intratáveis. A conferência. “A tendência evoluiu de maneira constante e certa na direção de um apelo à força e hoje o grito de Guerra Civil está nos lábios da maioria das pessoas res­ ponsáveis e sóbrias do meu povo”. e obrigado”. ele abriu a reunião com uma declaração breve. Mencionou os perigos que o tinham levado a convocar a conferência. 207 .O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU Sobrepujada pelos acontecimentos. escre­ ve Churchill. e disse em duas frases [.

CAPÍTULO 30: APRESENTANDO O ULTIMATO correra uma semi-ruptura da comunicação entre a Áustria e a Sérvia desde a Afronta. em vez de dias. a população sérvia não foi de nenhuma ajuda para seu governo. ou mesmo meses. a Sérvia aguardava temerosa a punição que lhe estava sendo preparada ou proposta. e ao mesmo tempo em que só um dos integrantes do grupo de Princip ainda não tinha sido preso.1 Em 20 de julho. enquanto O 208 . por “cumplicidade na conspiração que levou ao assassinato do arquiduque”. para todos os efeitos. o processo contra eles avançava em semanas. o governo sérvio soube. De fontes em Londres. ou pelo menos não muito. ao contrário. Neste ínterim (já que a suposição comum era de que a Sérvia era culpada pelo menos em parte). Ela não mostrava nenhum remorso. em 17 de julho.2 Neste respeito. A investigação austríaca dos assassinatos estava sendo conduzida em segredo. elas não estavam falando uma com a outra. veio de Viena o rumor de que a Áustria estava se preparando para entrar em guerra. que “uma espécie de acusação estava sendo preparada”.

Para os estrangeiros. por exemplo. por não ter sido avisada com eficácia suficiente. se Pasic tivesse deixado a verdade transparecer em qualquer investigação autorizada ou sancionada por ele. as eleições sérvias estavam programadas para 14 de agos­ to. ele tinha de realizar a façanha impossível de andar em duas direções opostas ao mesmo tempo. mas se Pasic deixasse seu eleitorado saber que estava disposto a fazer concessões ou assumir compromissos para evitar o conflito.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU a imprensa de oposição dava todos os sinais de estar contente com os assassinatos. e pela Áustria. Pacu. representante austro-húngaro na Sérvia. a razão real para a inér­ cia sérvia pode ter sido o fato de o governo ter muito a esconder. o primeiro-ministro seria condenado pela Mão Negra por ter avisado Vi­ ena. Pasic tinha de fazer campanha como nacionalista inflamado. ainda que ineficazmente. pela manhã. Ele recebeu ordens de adiar a sua entrega para as seis horas da noite. É verdade. estava fora da cidade. é provável que perdesse votos. pareceu imprudente o governo sérvio sequer manter as aparências de que estava perseguindo energicamente os que ajudaram os assassinos. estava incumbido de despachar na ausência do primei­ 209 . os dois assassinos eram súditos austría­ cos. O país não estava em posição de enfrentar o Império Habsburgo. estavam sendo julgados num processo judicial austríaco que ainda não tinha sido concluído.se este fosse realmente o caso —. De algum modo. Queria avisar o governo sérvio que entre as quatro e cinco da tarde ele estaria entregando uma impor­ tante mensagem ao primeiro-ministro. foi para saber que o primeiroministro sérvio não estava em Belgrado. fazendo campanha eleitoral —ou pelo menos foi o que disse. ministro das Finanças sérvio. 23 de julho. O barão Giesl von Gieslingen. Entretanto. Além disso. Se ficasse sabido. que Pasic tinha tomado conhecimento do complô assassino a tempo de tê-lo evitado . Giesl recebeu então um telegrama do seu próprio governo referente ao erro que Jagow tinha percebido: os líderes franceses ainda não teriam saído de São Petersburgo àquela hora. a Mão Negra poderia muito bem tê-lo matado. é verdade. Quando Giesl finalmente chegou. Sem dúvida. deu um telefonema de cortesia ao ministro das Relações Exteriores sérvio na quinta-feira.

e depois todo o dia seguinte. mas o tempo foi ainda mais curto: os mensageiros Habsburgo só tinham entregado cópias da nota às potências na manhã de 24 de julho. As­ sim. os sérvios esta­ vam sós. Pacu e seus colegas tentaram entrar em contato com Pasic. noite afora. às cinco horas da manhã. segundo Winston Churchill. Depois que Giesl saiu. e convocou uma reunião do gabinete em Belgrado para a manhã seguinte. recusou-se a aceitá-lo. As diferenças entre os dois lados. (Ver Apêndice 1. e pairava a ameaça de uma guerra civil. O gabinete de ministros esteve reunido durante todo o dia. E sem sequer esperar por uma resposta. tinha morrido duas semanas antes e ainda não havia sido substituído. Por telefone. pois a Monarquia Dual exigia uma resposta em 48 horas. confrontado ao do­ cumento que lhe era formalmente apresentado. tinham sido reduzidas a uma questão de fronteiras entre dois condados irlandeses. Sobre esta ques­ tão. para a íntegra da nota austríaca.APRESEN TA NDO O ULTIMATO ro-ministro. A urgência lhes fora imposta. a língua da diplomacia. O secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores. não seria possível Giesl comunicar-se com ele. Slavko Grvic. e então se foi. Pasic procurou ou­ tros governos em busca de conselho e ajuda. Nicolai Hartwig. pp. o Exército Habsburgo abriu seu livro de guerra: seu resumo das medidas administrativas e de atribuição de responsabilidades que entrariam em vigor em caso de abertura de hostilidades. porém. Giesl colocou-o na mesa e disse a Pacu para fazer o que bem entendesse. Mas Pacu não falava francês. A notícia chegou em Londres a tempo de pegar a reunião de gabinete dedicada a recolher os cacos da conferência fracassada do Palácio de Buckingham sobre a Irlanda. O esforço tomou cerca de duas horas. Fermanagh e Tyrone. Pacu. 339344. o enviado russo em cujo conselho os sérvios geralmente confiavam. na manhã de 23 de julho. restava um impasse sem saída. os companheiros resumiram para o primeiro-ministro os termos ásperos do documento que Giesl lhes havia remetido. Nas palavras frequentemente citadas de Churchill:3 210 . apresentou-se para traduzir.) Pasic decidiu retornar imediata­ mente de trem. porém.

4 Mas ele termina com uma nota tranquilizadora: “Felizmente. o documento mais insolente jamais concebido”. e escreveu principalmente para di­ zer que estaria com a família na praia durante o fim de semana. além do primeiro-ministro. será difícil tanto para a Alemanha como para a França se absterem de em­ prestar seu apoio a um lado ou outro. o primeiro-ministro Asquith escreveu uma carta à sua confidente. Era a primeira vez naquele mês que o gabinete ouvia falar de política exterior. de um verdadeiro Armagedom”. Isto significa. marchará.. ou imaginável. Tratava-se da nota austríaca para a Sérvia. Mas ele tampouco previa um papel para a Grã-Bretanha desempenhar no conflito iminente.” No final da reunião. mas era um ulti­ mato tal que jamais havia sido redigido nos tempos modernos.na ausência da qual. satisfaria o agressor.A discussão chegara ao seu termo inconclusivo e o gabinete estava prestes a separar-se.. As paróquias de Fermanagh e Tyrone se eclipsaram ao segundo plano de brumas e ventos da Irlanda.. como de costume. estamos a uma distância mensurável. Assim. Disse a ela que a situação européia “está tão mal quanto é possível estar. 211 . e uma estranha luz começou [. Churchill era um dos dois únicos homens do gabinete. Venetia Stanley. se assim for. que tinham sido avisados por Grey antes da reunião. A Áustria enviou uma nota intimidadora e humilhante à Sérvia. quando o tom comedido e grave da voz de Sir Edward Grey foi ouvido à leitura de um documento que havia acabado de lhe ser trazido do Ministério das Relações Exte­ riores. Ele ficou lendo ou falando por vários minutos antes de eu poder desembaraçar minha mente do debate tedioso e confuso que acabara de ser inter­ rompido [. que absolutamente não pode cumpri-la. Churchill.O ÚL TI MO VERÃO EUROPEU .] a banhar o mapa da Europa. por mais que abjeta. Durante a reunião. ou que qualquer aceitação. no género. parece não haver nenhuma razão para sermos mais do que meros espectadores. parecia absolutamente impossível que qualquer Estado no mundo pudesse aceitá-lo. que a Rússia vai entrar em cena em defesa da Sérvia e em desafio à Áustria.. escreveu à esposa que a “Europa está tremendo à beira de uma guerra generalizada.5 O ultimato austríaco à Sérvia sendo.] A nota era claramente um ultimato. quase inevitavelmente. por sua vez. À medida que a leitura prosseguia. e exigiu resposta em 48 horas .

pedindo para agirem juntos para obter o adiamento do prazo. o ministro das Relações Exteriores.” Grey pediu apoio alemão para o prolongamento dõ prazo. a Áustria lhe pedisse para fazê-lo. A pedido de Grey. veio visitálo. “Supérfluo”. o governante alemão anotou à margem do relatório de Lichnowsky que ele próprio mediaria o conflito se.APRESENTA NDO O ULTIMATO Entrementes. e suge­ riu que Inglaterra. mas um bando de ladrões!”. Lichnowsky..” CÁISER: “Exatamente. (“Isso seria muito proveitoso. na opinião dele. “Eu nunca tinha visto um Estado endereçar a outro Estado independente um documento de caráter tão formidável”. comentou o cáiser. De São Petersburgo. enviou um telegrama circular aos países concernidos. o embaixador alemão.7 Ele acreditava que “qualquer na­ ção que aceitasse condições como aquelas. Alemanha e Itália devessem mediar o confli­ to. a primeira coisa a ser feita é adiar ou eliminar o prazo final. e somente se. pois eles não têm a mesma medida!” Conseqúentemente. Lichnowsky relatou que Grey fora “profundamente afetado pela nota austríaca. Não é uma nação no sentido europeu.” CÁISER: “Então os russos não são nada melhores.” Porém.) Os comentários particulares dos três políticos. Sazonov. excedia qualquer coisa que jamais ti­ vesse visto no género anteriormente”.. revelam o fosso crescente entre as respectivas opiniões: LICHNOWSKY: “Não se pode avaliar os povos balcânicos com a mesma medida que as nações civilizadas da Europa. comentou o cáiser Guilherme ao ler o relatório de Lichnowsky. Grey prestou atenção inicialmente no prazo de qua­ renta e oito horas.” LICHNOWSKY: é preciso usar outro tipo de GREY: “Mesmo que fosse capaz de compartilhar esta opinião [ela não] seria aceita na Rússia. “Grey não tem mais nada a propor. na verdade deixaria de contar como nação independente”. Sazonov também pediu à Áustria 212 . França. linguagem com eles. e quaisquer que sejam os méritos da disputa. se lidos como se eles estivessem conversando. a qual.6 disse ele ao governo austríaco.

Como Viena e Berlim haviam calculado. ainda estavam no mar. Em vez disso. Como a voz dos franceses não se fez ouvir. oficial mais importante do Ministério das Rela­ ções Exteriores. Berchtold estava dizendo a verdade: Viena não pre­ tendia anexar a Sérvia. segundo o principal assessor de Berchtold no Ministério das Relações Exteriores. que estava a caminho de um encontro com o seu imperador. repetindo o seu pedido de extensão. e despachou uma mensa­ gem apaziguadora: “Nada está mais longe dos nossos pensamentos do que o desejo de humilhar a Sérvia”. os enviados alemães e austríacos sentiram-se evidentemente encorajados a acreditar que a França poderia manter-se de fora nos dias a seguir. e Bruno Jacquin de Margerie. mas sem tomar parte na partilha. o que estava acontecendo é que Bienvenue-Martin estava encaminhando pelo menos 213 . Em Viena. Kudashev passou então um telegrama a Berchtold. Kudashev voltou para pedir uma extensão do prazo estabelecido pela Áustria. o primei­ ro-ministro e ministro das Relações Exteriores. A resposta de Berchtold: o representante da Áustria em Belgrado fecharia a sua legação e partiria com a sua equipe. Berchtold encontrou-se com o encar­ regado russo de negócios. Berchtold recusou. O governo austríaco recusou. apesar da assistência de Philippe Berthelot. ministro da Justiça. pretendia a repartição da Sérvia. exclamou Kudashev. de assumir uma atitude dura. conde Kudashev. já governava eslavos demais. número dois do Ministério da Relações Exteriores. Kudashev perguntou o que aconteceria se a resposta da Sérvia não fosse aceitável para o governo de Berchtold. ou qualquer atitude que fosse. em 24 de julho.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU os resultados do inquérito oficial dos assassinatos de Sarajevo. Paris foi incapaz de reagir de maneira significativa à nota austríaca.8 Literalmente. “Então é a guerra”. Mas ele foi delibera­ damente capcioso: a Áustria-Hungria. e chefe interino do governo. pareceu incapaz. Jean-Baptiste Bienvenue-Martin. René Viviani. e a Monarquia Dual “não visa van­ tagens territoriais.9 Na manhã seguinte. mas apenas a preservação do status quo ”. conforme a promessa anterior de Viena de colocar o relatório à disposição das demais potências. ou relutante. O presidente Poincaré.

Ele também decidiu aconselhar a Sérvia a oferecer a menor resistência possível a qualquer acordo austríaco. Tratava-se de um conceito essencialmente político. como tão amiúde foi o caso. ele se exprimiu asperamente. confuso e obscuro.] O fato é que vocês queriam a guerra. esta “mobilização parcial” consistia num certo número de medidas. como teria acontecido no caso de uma mobilização plena —de uma mobilização de fato. e queimaram as pontes [. em grande parte financiado pela França. Sem entrar em detalhes (ainda que os historiadores o venham fazendo desde então). O ritmo da sua industrialização.] Dá para ver o quanto são amantes da paz. Finalmente..] Estão incendiando a Europa.10 Por que não deram chance de a Sérvia falar e por que a forma de ultimato? [. sendo que a maioria delas colocava a Rússia numa posição menos vantajosa do que antes. mas não queria alarmar ou provocar a Alemanha ou a Áustria. Vocês querem a guerra contra a Sérvia [. Encontrando-se com o embaixador austríaco. Suas dimensões imensas e aparente exotismo oriental eram assustadores. Era o maior dos países. a sua rede ferroviária sempre em crescimento e o seu programa moderno de rearmamento. começaram com a Rússia tão gravemente atrasada. que alcançar qualquer progresso parecia muito maior do que 214 . Entretanto. outras não. decidiu pedir ao tsar para concordar. Quando a notícia do ultimato austríaco chegou a São Petersburgo. pelo menos em princípio.. o que fez Poincaré deci­ dir retornar imediatamente a Paris. » O Conselho de Ministros russo se reuniu e decidiu tentar persua­ dir a Áustria e estender o prazo de 25 de julho.APRES ENT AND O O ULTIMATO alguns despachos para o presidente em viagem.. e o tamanho da sua popula­ ção —170 milhões de habitantes .era intimidador. A Rússia.. algumas exequíveis. nenhuma das quais teria aju­ dado significativamente a defender a Rússia.. Sazonov explodiu: "C’est la guerre européenne” [É a guerra européia]. era um mistério para o mundo europeu em 1914.. em ju­ lho de 1914 os seus ministros consideravam-na vulnerável. “Sei o que está acontecendo. com uma mobilização parcial das forças armadas. cuja preten­ são era transmitir a mensagem de que a Rússia estava determinada a agir se necessário.

inadequadamente prepara­ do para assumir a coroa.O centro emocional da vida de Nicolau era seu lar: a 215 . havia um consenso de que no passado a Rússia fizera concessões às potências germanófonas em nome da paz. Os russos queriam a paz e sabiam que não estavam preparados para a guer­ ra. Em sua maior parte. teve expressão na reunião do Conselho de Ministros de 24 de julho.”12 Eles viam o seu país cercado por “dez Estados com metade da população mundial”. o país permanecia atrasado: uma economia camponesa um século ou mais atra­ sada. em São Petersburgo. mas descobrira que tais concessões apenas estimularam Berlim e Viena a exigirem mais. que devemos preservar sua amizade quase a qualquer custo”. A imprensa.13 O governo russo era amplamente ineficaz.14 Ainda que as massas não desempenhassem nenhum papel na toma­ da de decisões da política externa. Como se deu. O verão de 1914 pareceu à Rússia uma boa oportunidade para experi­ mentar a abordagem oposta. Na primavera de 1914. A Rússia queria que a Sérvia fizesse quaisquer concessões necessárias. Spring. dos quais “três ou quatro diretamente hostis”. a indecisão do tsar Nicolau II introduziu um elemento de instabilidade no processo de tomada de decisão política. Por outro lado.O ÚLTI MO VERÃO EUROPEU de fato era. avulta­ va a futura ameaça russa. Na Europa Ocidental. os ministros do governo e o público pareciam ter todos a mesma opinião. “180 mil trabalha­ dores industriais num total de 242 mil estavam em greve”. O monarca russo era um homem de personalidade fraca. como nos lembra o historiador D. os representantes russos pretendiam permanecer firmes. mas tinha sido forçado a proclamar-se imperador semiconstitucional. e de cujos custosos erros —notadamente a de­ sastrosa guerra contra o Japão —estava consciente até demais. Ele herdara poderes autocráticos. em julho de 1914. Todavia. Foi um daqueles raros momentos de concórdia. de maneira não provocativa. algo próximo de uma opinião públi­ ca. e na Alemanha em particular. Desta vez. o embaixador britâni­ co na Rússia advertiu Londres de que “a Rússia estava se tornando rapidamente tão poderosa. a industrialização veio de par com um processo de lutas sociais. por mais que pálida.11 Porém. “não era assim que o governo e o público russos viam a sua posição no mundo em 1913-14. W.

cuja hemofilia pesava como uma espada sobre a monarquia. Rasputin era movido por apetites quase insaciáveis. que diziam incluir a im­ peratriz Alexandra e uma de suas filhas. recuperando-se em sua aldeia camponesa 216 . Quaisquer que fossem os seus sentimentos sobre os sérvios como irmãos eslavos. Na crise da guerra dos Bálcãs de 1908. para orgulho da esposa do mon­ ge. o curandeiro religioso Gregori Rasputin. O crédulo e vulnerável casal imperial. já ocupava o trono há seis anos. Nicolau tinha necessariamente sentimentos fortes quan­ to a regicidas. Rasputin advogava consistentemente a causa da paz. Nicolau e sua esposa Alexandra. Nicolau foi coroado em 1895. foi objeto de mais de meia dúzia de tentativas de assassinato antes da fatal.” Em 1914. que quase redundou no colapso da Rússia como grande potência. os fofoqueiros tinham sempre o que fazer acrescentando nomes de mulheres à lista das suas conquistas. e o filho Alexei. instigando a idéia de conquistas no Ex­ tremo Oriente. que tinha libertado os servos. aconselhando-o de maneira perigosamente iníqua. Fisicamente vigoroso.15 Ao aproximar-se a crise de julho de 1914. dos olhos hipnóticos e do toque que abrandava. A crise culminou com a revolução de 1905. que se preocupava mais com a vida do seu filho do que com qualquer outra coisa. ele tinha dito: “Não vale a pena lutar pelos Bálcãs. Nicolau começou seu reinado um pouco sob a influên­ cia do cáiser Guilherme. nove anos mais velho. Na verdade. parecia estar colocando o destino do czaréviche nas mãos de Rasputin. No final de 1905 e da influência de Guilherme. o que levou à desastrosa guerra contra o Japão (19041905).APRESENTA NDO O ULTIMATO esposa e as filhas que ele adorava. aos 26 anos de idade. Era previsível que pelo menos uma parte do público culpasse a influência de Rasputin pela reviravolta trágica no destino da Rússia durante e após 1914. jactava-se ela. Além disso. a ascendência exercida por este mago fraudulento e pernicioso sobre a família real já havia aba­ lado a reputação da própria monarquia. “Gui” influenciou “Nic” durante uma década. com pouco menos de dez anos de idade em 1914. o tsar caiu sob o fascínio de outra figura perigosa. Guilherme. deixada em casa na Sibéria com seus quatro filhos: “Ele é bastante para todas elas”. que ofereceu a esperança de curar a hemofilia do herdeiro aparente. o homem da voz gutural. Seu avô Alexandre II.

”16 Ele disse: “A opinião pública russa não vai tolerar. a Alemanha passou instruções de negar a acusação.” As intenções de Viena estavam claras.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U de uma tentativa de assassinato. e de um pedido de desculpas”. “só se fosse para a Sérvia decair à condição de vassala da Áustria. Ele conclamou à formação de uma frente única das monarquias européias contra o perigo comum decorrente da “política sérvia conduzida à base de revólveres e bombas”. Londres e São Petersburgo.”18 217 . de outro modo. O Ministério das Relações Exteriores distribuiu uma torrente de desmentidos. não haverá paz. o cáiser anotou: “A Áustria tem de tornar-se preponderante nos Bálcãs comparativamente às nações peque­ nas. ele comentou que era “absolutamente supérflua! Dá impressão de fraqueza. “Nós não exercemos nenhum tipo de influência quanto ao conteúdo da nota. depois que as hostilidades já haviam começado: “Queira Deus que Papa não esteja pensando em guerra. em Londres.” Em 24 de julho.17 Por seu embaixador em Viena. a Alemanha soube que Berchtold havia chamado o enviado russo para uma conversa tranquilizadora. “Somente um governo que quisesse a guerra poderia ter escrito aquela nota. ele irritou o tsar com um telegrama. Lendo um relatório desta conversa. e às expensas da Rússia. Chamando Berchtold de “Burro!”. pois a guerra será o fim da Rússia e o vosso. o cáiser Guilherme fez uma anotação da sua desaprovação.” Rumores chegaram a Berlim de que o ultimato estava sendo atri­ buído à Alemanha. Berlim “não podia aconselhar Viena a recuar”. du­ rante a qual o ministro austríaco das Relações Exteriores negou qual­ quer desejo de alterar o equilíbrio de poder ou perturbar a Rússia. e o senhor perderá até o último homem. que era “totalmente impossível” para a Rússia “aconselhar o governo sérvio a aceitar” o ultimato. “em estrita confiança”. Sobre a declaração de boas intenções de Berchtold em relação à Rússia. pois a retratação redundaria em perda de prestígio para a Áustria-Hungria. Aos seus enviados em Paris.” Não obstante. o embaixador russo disse ao embai­ xador alemão.

à diferença dos demais. então. O Império Habsburgo estava prestes a romper todas as relações com a Sérvia. pois eles não confiavam nele. era uma personalidade muito independente. eles estavam a bordo do na­ vio quando irrompeu a crise. O presidente. que também atuava como ministro das Relações Exteriores. Um estudo recente de M. Entretanto. a Monarquia Dual iria declarar guerra à Sérvia? Quem entregaria fisicamente a declaração? A Alemanha o faria em nome da Áustria? Do Ministério das Relações Exteriores.AP RE SE NTANDO O ULTIMATO Os líderes da política externa francesa pouco sabiam do que estava acon­ tecendo. Os líderes franceses estavam vindo de conversações com o tsar e com o governo russo. ele era uma espécie de Moltke. Pouco se sabe sobre o que foi dito. Paléologue acreditava que os Exércitos francês e russo estavam em seu máximo.19 Presumindo que a Alemanha pretendia forçar uma guerra européia. Como. Não há razão para acreditar que tenha dito algo muito diferente durante a sua estada na Rússia. O que não sabiam é que eram os ale­ mães que estavam perturbando as suas transmissões. Conforme planejado pela Áustria. ele advogava lutar o mais rapidamente possível. o primeiro-ministro. Ele deu ao go­ verno russo a impressão de que a França o apoiaria incondicionalmente. Mas a política de Poincaré desde o começo foi impedir que a Rússia fizesse qualquer coisa que pudesse provocar a Alemanha. Neste particular. Maurice Paléologue. e o seu principal assessor de política externa estavam cientes de que não estavam conse­ guindo estabelecer comunicação. Uma pergunta de Viena para Berlim datada de 22 de julho só chegou no dia 24. cuja tendência era aplicar a sua própria política externa. que apresentara suas credenciais apenas cinco meses antes. B. o porta-voz do país que ficou em São Petersburgo teve uma atitude um tanto perniciosa como embaixador. Hayne sobre a diplomacia francesa antes da guerra mostra que. Nenhum funcionário austríaco seria deixado para trás. uma vez que os líderes franceses partiram. O presidente estava agudamen­ te cônscio de que a França não tinha condições militares de entrar numa guerra. Jagow respondeu que não seria uma boa idéia: “Nosso ponto de vista tem de ser que a disputa 218 . Não é claro até que ponto teria influenciado as decisões toma­ das pelos líderes russos.

e menos ainda respondido. e menos ainda respondido insatisfatoriamente. 219 . Berlim e Viena estiveram discutindo modalidades de declaração de guerra antes de o ultimato austríaco ter sequer sido entregue.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U entre a Sérvia e a Áustria-Hungria é uma questão interna.”20 Contudo.

disse que seu país 220 . também deu uma passada na legação russa. visitou a legação russa em Bel­ grado na noite de 23-24 de julho.C A P ÍT U L O 31: A SÉRVIA MAIS OU MENOS ACEITA ma “nota bastante forte”. a Sérvia jamais se arriscaria.10 impera­ dor tinha tido notícia do ultimato austríaco. observou o cáiser. disse Guilherme. Não. cujo atendimento ele considera uma im­ possibilidade absoluta para um Estado que tenha um mínimo de respei­ to por sua própria dignidade”. a bordo do seu navio. ao chefe do seu Gabinete Naval. “para expressar sua desesperança diante do ultimato austríaco. respondeu o almirante. Pasic. a caminho da reunião às cinco da manhã com os ministros disponíveis. o primeiro-ministro. falando apenas em seu nome.2 Suas esperanças repousavam no tsar. U O regente da Sérvia. Sazonov. “cuja poderosa expressão era a única que podia salvar a Sérvia”. Mas “isto quer dizer guer­ ra”. príncipe Alexandre. um pouco mais tarde. Mas a Rússia não ofereceu nada além de apoio moral. De São Petersburgo. almirante von Miiller. disse ele.

No final. modificadas e riscadas. O documento final parecia mais um primeiro rascunho. Tal apoio seria difí­ cil de obter em qualquer caso.se a resistência fosse sem esperanças —deveria recuar em vez de resistir.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U ofereceria ajuda. Ele já havia destruído seus papéis e feito as suas malas. acreditava-se que a resposta ao ultimato aceitaria todas as condições menos uma. o texto continuava confuso e o prazo final se aproximava. passa­ ram a um ânimo mais realista. e confiar no senso de justiça da Europa para corrigir a questão. Somente a Rússia. mas não especificou que forma esta ajuda tomaria. Como ninguém mais se ofereceu para levá-lo. apressando-se na direção da legação austríaca para entregar a resposta sérvia antes do pra­ zo de seis da tarde. Era unânime entre os líderes sérvios que seu país seria esmagado em caso de guerra contra a Monarquia Dual. Inicialmente. Um automóvel estava pronto para levá-lo à estação ferroviá­ ria. especialmente pela Sérvia. A menos de duas horas do fim do prazo. foi o próprio Pasic quem o fez. Giesl leu rapidamente. ela continha uma 221 . ainda mais porque havia pouco tempo: a resposta Sérvia tinha de ser dada até as seis horas da tarde do dia 25 de julho. ou uma combinação de potências neutras. O datilógrafo não era experiente. ele precisava ser sufi­ cientemente legível. foi feita uma tentativa de escrevê-lo a mão. Ele pode ter chegado ligeiramente atrasado. a máquina de escrever quebrou. Ele desempenhou as formalidades sumárias atinentes à ruptura de relações diplomáticas e partiu para pegar o seu trem. borrões de tinta e outras coisas mais. Contudo. Fora da Áustria-Hungria. para o tradutor poder fazer o seu trabalho. À medida que frases eram acrescentadas. o texto tornava-se cada vez menos legível. Revisado e rebatido várias vezes. Mas depois de os ministros examinarem a questão em detalhes. a França. poderia salvá-los. estavam prontas para lutar. o governo sérvio estava inclinado a ser desafiador. hesitan­ do entre a aceitação total do ultimato e a tentação de apresentar condições ou restrições que permitissem escapar mais tarde do peso das rígidas exigências de Viena. Na verdade. Nem a Rússia nem sua aliada. levantando-se. com pala­ vras riscadas. o governo do tsar sugeriu que a Sérvia . Pasic e seus colegas estavam trabalhando continuamente.

pois nenhuma declaração de guerra decorreu automaticamen­ te quando o prazo expirou. Fomos urgentemente aconselhados a proceder sem tardança. a conferência que Grey tinha convocado em Londres em 1913 trouxera a paz para os Bálcãs. Porém. “Considera-se aqui que toda demora em dar início às operações de guerra representa o perigo de que potências estrangeiras possam in­ terferir. disse ele. Pouco importava.” Berchtold assumiu a posição de que a sua nota para a Sérvia não era um ultimato. pp. Se Alemanha. o embaixador russo adivinhou que seu go­ verno não ia concordar com uma conferência. quando a pergunta foi feita a São Petersburgo.” Poderia a convocação de uma conferência das potências neutras evitar a eclosão da guerra? Sir Edward Grey inquiriu cautelosamente as opiniões sobre a questão. Contudo. 345-348). Sazonov não criou tanta dificuldade. Para surpresa de Grey. era o momento certo de apresentar tal proposição? Até então.seguida de uma “tremenda alegria” quando a correção foi recebida: a Sérvia não tinha aceitado integralmente. Berchtold ainda estava dizendo aos russos que a ruptura das relações com a Sérvia pela Áustria não levaria necessariamente à guerra: “Nossas exigências podem fazer surgir uma solução pacífica. O armador Albert Ballin recordou-se mais tarde da “frustração” no Ministério das Relações Exteriores alemão quando chegou a notícia de que a Sérvia tinha aceitado . talvez fosse possível fazer o mesmo outra vez. pois a Monarquia Dual estava apenas cumprindo formalidades. com suas idéias pacifistas.A S ÉRVI A MAIS OU M E N O S AC E I T A série de reservas (Ver Apêndice 2. ficaria a impressão. Ainda que temporariamente. 222 . França e Grã-Bretanha mediassem a relação entre a Áustria e a Rússia. a disputa dizia respeito apenas à Áustria e à Sérvia.”4 Mas chegou então um telegrama do seu embaixador em Berlim. de que a França e a Grã-Bretanha tivessem rompi­ do com seu aliado russo. não era entre a Áustria e a Rússia. disse a fonte de Ballin no Ministério das Relações Exteriores: “Ao contrário. Em 25 de julho.3 Dever-se-ia chamar o cáiser? Não. lembrando-o de que a Alemanha esperava que a Áustria abrisse as hosti­ lidades. Itália. tudo deve ser feito para garantir que ele não interfira no andamento das coisas.

se a guerra acontecer. O cáiser Guilherme ficou contentíssimo. O governo interino da França tomou suas primeiras medidas de prontidão militar. cancelou licenças de oficiais e soldados em 26 de julho. é quando uma mediação de quatro nações poderá ser oportuna. Berlim. escreveu ele. Ele escreveu: “Não acho que a opinião pública aqui sancione ou deva sancionar a nossa entrada em guerra numa disputa sérvia. podia levar à mobilização. nem São Petersburgo queriam a guerra”. nem Paris. Passou os negócios às mãos do seu assistente e saiu da cidade. “Bravo! Quem ia pensar que os vienenses o fizessem! [. Jagow. O ministro das Relações Exteriores. Um telegrama do enviado da Alemanha em Belgrado descrevia a confu­ são e o desânimo do governo sérvio ao lidar com o ultimato austríaco. Noite. Contudo.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U Grey enviou notas a seu embaixador em São Petersburgo em 25 de julho. o desenvolvimento de ou­ tras questões pode nos arrastar a ela. e deu ordens de retornar à França ao grosso do seu exército de ocupação no Marrocos em 27 de julho. e pelo jeito é assim com todas as nações eslavas! É só bater o pé com firmeza que lá se vai toda a canalha!” 25 de julho.6 223 .]5 Como pode mostrar-se tão oco o poder sérvio.. Grey achou que a ameaça de guerra não era imediata o bastante para afastá-lo do campo. a Áustria e a Rússia irão quase inevitavelmente se mobilizar uma contra a outra. Secretamente. O Estado-maior russo dá início ao “Período Preparatório para a Guerra”. Paris..” Em vista das ações da Áustria. se mais passos fossem dados. Era sábado. disse ao jornalista alemão Theodor W olff que “nem Londres. ele reconvocou seus generais para o serviço em 25 de julho. resumindo a sua posição. São Petersburgo. e consequentemente estou ansioso para impedi-lo. o primeiro passo de um cami­ nho que.

PARTE SETE CONTAGEM REGRESSIVA .

Na verdade. Assim o cáiser. voltando separadamente mas procurando uns aos outros. por outro. eles retornavam a Berlim de tempos em tempos. igualmente. sobre a qual sabe­ mos a partir dos relatórios dos adidos militares saxão e bávaro.1 Sua melhor informação era de que agora a Áustria estava dizendo que precisaria de pelo menos mais duas semanas —talvez em 12 de agosto —antes de poder atacar a Sérvia. Depois que os austríacos estabeleceram uma data fixa para seu ulti­ mato.CAPÍTULO 32: CARTAS NA MESA EM BERLIM s principais figuras militares da Alemanha estavam ostensivamen­ te de férias no mês de julho. Os alemães. e os líderes civis. o chanceler e seus fun­ cionários do Ministério das Relações Exteriores. A 227 . Berlim comunicou discretamente aos seus líderes para retornarem. os líderes militares alemães. amiúde secretamente. por um lado. E seus assessores mantinham os comandantes militares bem informados. sentiram repugnância pela indolência da Áustria. Numa espécie de conferência secreta itinerante. militares e civis. discutiram o que fazer a seguir. o chanceler e o secretá­ rio das Relações Exteriores. Eles o fizeram a partir do dia 23 de julho.

em parte porque os líde­ res civis compartilhavam os seus pontos de vista mas não os seus objetivos. mas argumentando vigorosamente que estava na hora de entrar em guerra porque as circunstâncias eram mais favoráveis do que jamais seriam outra vez. em parte baseada. as discussões eram particularmente frustrantes. ministro da Guerra. Os generais eram em grande parte liderados por Moltke e por Erich von Falkenhayn. devi­ do à violência dos seus medos e ódios. von Falkenhayn. a estrutura da agitada e decisiva semana parece ter sido. em que os líde­ res alemães lutaram entre si. e em parte porque ele sabia coisas que eles não sabiam —coisas que ele não podia lhes contar. às vezes se contendo. chefe do Estado-maior. conforme observouse anteriormente. 228 . mudaram de idéia e correram perigo. torna possível interpretar os pensamentos. palavras e ações de Moltke. de terça a quinta-feira (28-30 de julho) acertan­ do detalhes entre si e de sexta a segunda-feira (31 de julho a 3 de agosto) entrando em ação. em termos gerais. que desempenhou importante papel argumentando que a Alemanha devia empreender açÕes militares contra a Rússia e seus aliados. a seguin­ te: retornando de semanas no campo. chefe do Gabinete Militar —estavam entre os vários oficiais-chave a debater as questões da guerra e da paz após seu retorno das férias. Insistiram numa suspensão de pelo menos alguns dias antes de uma mudança de planos. em documentos até então não usados. Em Berlim. mudando frequentemen­ te de atitude.CARTAS NA MESA EM BERLI M O chanceler e seus colegas civis conduziram uma operação de con­ tenção. de sofrer derrames e ataques do coração. Para Moltke. o ministro da Guerra. A publicação recente da biografia de Annika Mombauer. Em 1997. Holger Herwig escreveu que “a destruição quase total dos papéis de Moltke ‘impede qualquer conexão formal entre a perspectiva de Moltke e a pressão em prol da guerra em 1914’”. Moltke desempenhou um papel curioso. Foram dias de pôr as cartas na mesa.e os de Viena —funcio­ narem.2 Parece que isto já não é mais verdade. os líderes do país passaram da tarde de domingo à noite de segunda-feira (26-27 de julho) se atualizando e trocando opiniões. Pediram mais tempo para seus planos . e von Lyncker. Os líderes sobrepostos do Exército da Alemanha —von Moltke.

Moltke era um pessimista. Moltke também previu que uma guerra entre as grandes potências na era moderna destruiria a Europa. desejava-a sinceramente. Bethmann. Isto não era mais verdade. especialmente os alemães prussianos. Contudo. Assim. a França. antes de o tsar moder­ nizar e rearmar seu império. para surpresa dos seus colegas beligerantes. Moltke acreditara que a Alemanha devia iniciar imediatamente uma guerra preventiva contra a Rússia e sua aliada. Até abril de 1913. e por longo tempo. Mas com a passagem das semanas. A Alemanha estava comprometida com a grande estratégia de Moltke.4 Isto pode explicar por que Moltke se conteve durante um período no final de julho. podia significar a diferença entre vencer e perder. muito bem. valia a pena esperar. O cáiser e (até 31 de julho) o chanceler. Moltke recebeu informações de que as preparações da mobilização russa eram de menor escala do que se pensara. que poucas pessoas conheciam. fossem finalmente superados pelo grande número de eslavos.3 Nas palavras de Mombauer. a crise de julho “parecia representar uma oportunidade em vez de uma ameaça”. assim como Falkenhayn. ele argumentou que a Alemanha devia con­ ter-se e esperar que a Rússia fizesse o primeiro movimento —quer dizer. Ele temia que os alemães. Se ela significasse o adiamento dos seus próprios planos por alguns dias. Ele não temia a mobilização da Rússia. figuravam entre os que estavam no escuro. 229 .O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U Um funcionário saxão que falou com o vice de Moltke em 3 de julho relatou ter tido a impressão de que o Grande Estado-maior “fica­ ria satisfeito se a guerra começasse agora”. Com notável coerência. ocasionalmente. a menos que uma atitude fosse tomada imediatamente. começasse a mobilização.5 Mas Moltke era quase o único a estar consciente de que o tempo estava se esgotando para seu país. a Alemanha tinha um plano de guerra alternati­ vo para fazer guerra apenas contra a Rússia. Ele incitou frequentemente a guerra contra a Rússia. ele mudou para a posição oposta: atacar imediatamente. Mas ele também continuara pensando que essa guerra preventiva só poderia ser empreendida com êxito se fosse possível convencer o povo alemão de que a Rússia a começara: que a Rússia estava atacando a Alemanha. Além disso. Nenhum deles sabia o que Moltke tinha realmente planejado para seus primeiros passos na guerra.

A menos que a fortaleza fosse tomada. essa era a razão pela qual Moltke sempre foi um advo­ gado de peso da aliança austríaca.CARTAS NA MESA EM BE RL I M Moltke mandou o seu Estado-maior preparar um plano de guerra atualizado em 1913-1914. Erich Ludendorff. em grande parte. se a guerra estourasse. Mas ele não revelou o que seria exigido da Áustria-Hungria. a guerra. O que Moltke não contou a Conrad foi que. enquanto uma força menor mas ainda signifi­ cativa bloquearia o caminho pelo qual se poderia esperar que os russos atacassem. Se 230 . a Alemanha deveria empregar uma grande força para invadir a França através da Bélgica. lidando com apenas uma eventualidade: uma guer­ ra de duas frentes contra a França e a Rússia. Conrad. Era um segredo que ele não podia compartilhar nem com o cáiser. Assim. Da maneira como Conrad via a questão —ou pelo menos afirmou fazê-lo posteriormente a Áustria esmagaria a Sérvia enquanto a Alemanha dissuadiria a Rússia de interferir. Ele tinha boas razões para manter os detalhes do plano em segredo bem guardado. que acatava alguma». Ora. ele não tinha nenhum desejo de lutar com a Rússia. o ministro da Guerra ou o chefe do Gabinete do Exército do cáiser. era absolutamente imperativo desdobrar todo o Exército austría­ co ao longo da frente russa para ajudar a proteger a Alemanha quando a guerra começasse.o inimigo da Áustria era a Sérvia. por seu antigo assessor. e Conrad guardava os dele.e com isso. Tinha sido ideado para ele. a invasão da França e da Bélgica provavelmente fracassaria . os russos tinham capacidade de se deslocar muito mais rapidamente e em muito maior número do que quando Schlieffen elaborou seu memorando e Moltke assumiu seu cargo. Moltke tinha outro segredo. Tam­ bém foi por isso que ele garantiu o apoio alemão à Áustria se a Rússia atacasse. Será lembrado que na primeira fase do plano de Moltke. (mas não todas) das linhas principais do memorando de Schlieffen de 1906. Era um plano de tomar a fortaleza de Liège (na Bélgica) de surpresa no momento em que a guer­ ra fosse declarada. em 1914. Moltke guardava seus segredos.6 Seu inimigo . Claramente. a Áustria teria de subordinar seu conflito com a Sérvia a fim de dedicar-se inteira­ mente ao combate na frente russa. e porque desenvolveu uma relação pessoal amistosa com seu homólogo na Áustria-Hungria.

7 Elas foram “construídas para resistir ao ataque dos mais pesados canhões então existentes [. “todos protegidos por concreto reforçado e cha­ pas de blindagem”. 231 . era um dia em que a França ou a Bélgica podia adivinhar ou prever a manobra da Alemanha... dispostas [. de fortificações independen­ tes. e um contingente de 40 mil soldados. Cada dia que a operação era adiada. Qual seria a opção: mais cedo ou mais tarde? Na última semana de julho de 1914. Moltke mudou de idéia de hora em hora.] para emprestar uma à outra a proteção dos seus pró­ prios canhões”.] Cada uma consistia num círculo.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U a França ou a Bélgica obstasse de algum modo a manobra alemã. seria consequentemente a catástrofe. melhor seria para a operação Liège. Por outro lado. Quanto mais rápido a Alemanha começasse a guerra. as fortalezas de Liège e de Namur. Moltke sempre argumentou que a Alemanha tinha de adiar a declaração de guerra contra a Rússia. Ele nos diz que em Liège havia quatrocentos canhões. interditando a passagem do rio Mosa.. dispostos em 12 fortes. Como nos conta o historiador militar John Keegan. eram “as mais modernas da Europa”. até ser possível fazer parecer que a Rússia era a agressora. 40 quilómetros de circunferência. dia a dia. visi­ velmente angustiado..

estavam no campo. Sir Arthur Nicolson. o primeiro-ministro e o secretário das Relações Exteriores —e pra­ ticamente todos sabiam . Winston Churchill estava na praia com a sua esposa e filhos. Asquith estava jogando golfe e Grey estava pescando trutas. Eles podiam dormir até tarde. é notável que o chefe do Ministério das Relações Exteriores.1 Nos fins de semana. que nos dias da se­ mana. Os despachos telegrafados que o esperavam continham notícias duras. antes se232 . Assim. historiadora do Ministério das Relações Exteriores. “o horário oficial era de doze às seis”. partia-se para o campo. construindo castelos de areia. em Londres. tivesse ido ao escritório trabalhar em 26 de julho. o prédio do Ministério das Relações Exteriores não abrigava o tipo de instituição exigente que reclamasse longas horas dos seus empregados. A Sérvia havia ordenado a mobilização no dia anterior. um domingo. como sempre. No fim de semana em questão. nos diz Zara Steiner.CAPÍTULO 33: 26 DE JULHO S ituado à esquina da Downing Street e reconstruído na década de 1860 como palácio italianizado para agradar os gostos Regency de lorde Palmerson.

O que é curioso é que em muitos. que está determinada quanto a uma humilhação completa e final. que telegrafou a sugestão às capitais estrangeiras relevantes.. a Áustria tem uma boa causa. que se reuniriam com a Grã-Bretanha . Asquith comentou com Venetia Stanley que estava preocupado com o fato de que a “Rússia está tentando nos arrastar para a guerra”.4 Ele lhe escreveu: “A notícia esta manhã é que a Sérvia tinha capitulado nos pon­ tos principais. senão na maioria dos pontos.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U quer de responder ao ultimato austríaco. os historiadores se tornariam especialistas em mobilizações. a Sérvia havia ordenado a mobilização e a Rússia tinha ordenado preparações preliminares para a mobilização.”3 Segun­ do o telegrama. na qual a disputa entre a Áustria-Hungria e a Sérvia poderia ser analisada pacificamente. Mas os austríacos são perfeitamente o povo mais estúpido da Europa (assim como os italianos são os mais pérfidos) e há uma brutalidade em seu modo de proceder que vai fazer a maioria das pessoas pensar que se trata 233 . propôs convocar uma conferência em Londres dos embaixadores das grandes potências não envolvidas . e a Sérvia. mas é muito duvidoso que quaisquer reservas venham a ser aceitas por Viena. Eis o processo que havia interrom­ pido as guerras balcânicas no ano anterior. O que ele não adotou foi sair em campanha em favor de conversações diretas entre a Áustria e a Rússia. Grey enviou sua permissão a Nicolson. bloquearia o outro. 5/VNicolson passou à ação. e outras posturas que não fossem marchar sobre um país vizinho ou abrir fogo contra ele. Em vez disso. “Acredita-se que a guerra é iminente. Era preciso escolher. uma péssima.2 Prevalece em Viena o mais desenfreado entusias­ mo”. as duas gran­ des potências diretamente concernidas. telegrafou o embaixador na capital Habsburgo. e de Viena vinham relatórios de que a Áustria havia rompido relações com a Sérvia. debatendo infinitamente nuanças de diferença entre as várias formas de prontidão para a guerra: etapas preparatórias. mas eram reciprocamente excludentes: se desenvolvesse um. mobilizações parciais. Nos anos subse­ quentes. Tinha dois expedientes em mente. Itália e França. De sua casa de campo. De São Petersburgo: “A Rússia não pode permitir que a Áustria esmague a Sérvia e se torne potência predominante nos Bálcãs.Alemanha.

”5 Em Britain and the Origins ofthe First World War [A Grã-Bretanha e as origens da Primeira Guerra Mundial] (1977). o gabinete britânico não dedicou nenhuma atenção a assuntos externos. O embaixador tirou vantagem da situação para conven­ cer Sazonov a rejeitar a proposta britânica de convocar uma conferência das potências: “Um fórum europeu”. A Áustria e a Alemanha conseguiram manter a sua conspiração em segredo das outras grandes potências por quase quatro semanas.. por exemplo. de repente. relata-se que o ministro das Finanças. Ela os pegou desprevenidos. Naquela noite. há nisto um claro elemento de verdade. ministro das Relações Exte­ riores russo.” Esta não era necessariamente a opinião do gabinete de Asquith. analisando as semanas seguintes ao assassinato de 28 de junho de 1914. Na Rússia.26 DE J U L H O de uma grande potência intimidando arrogantemente uma pequena. Então. entre todas as capitais.] ele disse que a situação era séria. no fim de semana estival de 24 de julho. argumen­ tou o embaixador. David Lloyd George. Dos assassinatos na manhã de 28 de junho até a manhã de 24 de julho.. Zara Steiner sugere: “Somente um calendário dos acontecimentos seria capaz de captar o sentido de tensão crescente e ilustrar a interação. uma crise bélica plenamente amadurecida surpreendeu os líderes europeus. que redundou na ruptura do sistema de Estados europeu. mas que achava que have­ ria paz —na verdade. em Paris. Em 234 . em 26 de julho. o mecanismo funcionaria muito devagar. De qualquer maneira. o minis­ tro das Finanças ainda acreditava que a paz seria preservada. Mas não havia nenhuma tensão crescente dia a dia. ele pensava assim com muita convicção. é a situação mais perigosa dos últimos quarenta anos. disse outra coisa a um amigo: “Ele disse que a Áustria tinha feito exigências que nenhuma nação que se desse ao respeito poderia cumprir [.”6 Enquanto estivermos falando de Berlim e Viena. Isso aconteceu porque suas casas de verão eram próximas uma da outra. Roma ou Londres. dois funcionários de Estado em sua folga de fim de semana encontraram-se casualmente no domingo: o embaixador alemão estava embarcando no mesmo trem que Sazonov. não houve nenhum aumento significativo do nível de tensão. Até 23 de julho.7 Seria “improdutivo”.

destinado a chamar a atenção da Alemanha. Na verdade. como em 1913. das Relações Exteriores. França e Rússia. Mas a Áustria se recu­ sou a fazer qualquer concessão. para discutir se seria útil fazer um anúncio público da ordem que fora dada. Winston Churchill. Sazonov assumiu uma linha conciliadora. que estava na praia. a Rússia deveria negociar diretamente com a Áustria. os alemães achariam que os britânicos estavam formando um bloco com a França e a Rússia. precisamente por causa da aliança informal entre Grã-Bretanha. agindo de outro modo. prometeu seguir o con­ selho: nada de conferência. ele adiou açoes na direção da conferência britânica e explorou a possibilida­ de de negociações diretas com a Monarquia Dual. a Áustria “não está pensando em engolir a Sérvia. O príncipe Louis notificou a rejeição pela Áustria da resposta sérvia. chegando às dez horas da noite. Foi encontrar-se com o secre­ tário Grey. negociações diretas. (Lon­ dres. Churchill foi para Londres. relatou o embaixador.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U vez disso. que eram céticos com relação às intenções da Alemanha. falou duas vezes ao telefone com o primeiro lorde do almirantado. era evoluir na direção de uma abor­ dagem conjunta anglo-germânica. a Grã235 . Sua estratégia em 1914. No domingo. Em outras palavras. O pessoal da reserva da Marinha retornou às suas casas imediatamente após os exercícios. Sazonov fora induzido a desperdiçar dias vitais. Sazonov. Grã-Bretanha. Expressou sua disposição de ver quase todas as exigências da Áustria atendidas. mas apenas quer lhe dar uma merecida lição”. tinha decidido não fazer campanha em prol de negociações diretas porque a proposta bloquearia a sugestão mais pro­ missora de uma conferência. príncipe Louis de Battenberg. As próprias frotas estavam programa­ das para se dispersar na segunda-feira. Ou Churchill ou o príncipe Louis deu ordens às esquadras para não se dispersarem e permanecerem onde estavam. isto será lembrado. Foi um tiro de advertência à frente da proa. o primeiro lorde do mar.) Segundo o embaixador alemão. Contrariamente às opiniões dos seus colegas mais próximos no Ministé­ rios das Relações Exteriores. Grey tendia a dar a Berlim o benefício da dúvida. Churchill fez o anúncio. com base na teoria de que. Grey disse que sim.

Conrad respondeu que a Áustria devia se conter. era o caso. Por sua vez. era preciso esperar pelo menos até 4 ou 5 de agosto.26 DE J U L H O Bretanha tinha de mover-se primeiro na direção da Alemanha. uma censura à Áustria. fosse beligerante às escondidas . 236 . Paris. afirmando que seria uma arbitragem.na verdade. Olhando apenas a situação russa —o que pretendia a Rússia? —. antes que as outras potências se intrometessem para impor um acordo de paz. Quando o senhor quer a declaração de guerra? EU: Só quando tivermos avançado o bastante para iniciar as opera­ ções imediatamente . o ministro das Relações Exteriores austrohúngaro tentou exercer pressão sobre o chefe do seu Exército. Berlim o tinha deixado no escuro. Berlim recusou a proposta de conferência de Grey. Conrad. mas Jagow se recusou a aceitar a negativa. No relato de Conrad:9 BERCHTOLD: Nós gostaríamos de entregar a declaração de guerra à Sérvia o mais rápido possível. em vez de ser neutra como a Inglaterra. Grey ne­ gou. para não parecer que estava apoiando a França e a Rússia. BERCHTOLD: A situação diplomática não vai se manter por tanto tempo. uma de­ claração foi publicada num periódico quase oficial da Alemanha. Jagow incitou Berchtold em Berlim a declarar guerra imediata­ mente. Viena. a ati­ tude alemã seria inexplicável se o objetivo não fosse a guerra”. apoiando totalmente a Áustria. mas nada sabia. com certeza. O coordenador político do Ministério das Relações Exteriores francês disse ao embaixador alemão que “para qualquer simplório.por volta de 12 de agosto. para acabar com as diversas influências. patrocinadora secreta da Áustria. Nicolson.8 Embora Nicolson não o dissesse. Conrad afir­ mou que não estava pronto. E este. O embai­ xador negou. exclamou Berchtold. a North German Gazette. o chefe do Ministério da Relações Exteriores britânico. a estratégia de Grey se mostraria fútil se a Alemanha. Não obstante. que no passado fora defensor persistente de fazer a guerra. disse a Grey que “Berlim está brincando conosco”. “Assim não vai dar!”. Neste ínterim.

estava tomando medidas militares prelimina­ res. em vez disso. e a Rússia pensava em agir militarmente. Moltke. Nas três semanas em que deliberadamente estiveram afastados. Segundo sua esposa.] nós já devía­ mos ter sabido do começo de alguma ação da sua parte. A Rússia. em vez de local.10 Embora os sérvios fossem eslavos. a ser usado se e quando a guerra começasse..O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U O embaixador da Alemanha na Rússia relatou que teve uma longa reu­ nião com Sazonov.. Berlim. Moltke tinha ficado “muito insatisfeito” com a situação que encontrou ao retornar.seu segundo plano aperfeiçoado —tampouco estava acontecendo: a Grã-Bretanha considerava tomar iniciativas diplomáti­ cas. Era guiada pela necessidade de manter o equilíbrio de poder e de proteger interesses considerados vitais. e a Alemanha também estava pressionando os austría­ cos a pegarem em armas. Frisou que estava pronto a exaurir todos os meios necessários para evitar a guerra. A apresentação de um fait accompli —seu plano original —não tinha acontecido. a Áustria deveria ter subjugado a Sérvia. Moltke forneceu a Jagow um esboço de ultimato para a Bélgica. mas. o chefe do Estado-maior. para examinar questões com Jagow. Ele foi então ao Auswàrtiges Amt. O documento conjeturava um conflito com a França. Moltke se encontrou com o chanceler. O embaixador alemão relatou: “Eu salientei que [. O ministro das Relações Exteriores russo fora “con­ ciliatório”. não fizera sequer o primeiro movimento. A localiza­ ção do conflito . Os planos de Bethmann estavam desmoronando. Durante o encontro. Ele também “rogou urgentemente” à Alemanha que fizesse todo o necessário para alcançar esse objetivo. O governo civil austríaco estava tentando pôr seu Exército em movimento. voltou ao trabalho com seu vice desde a manhã de 26 de julho. que estivera ao telefone quase continuamente desde o seu retorno na véspera.” Foi uma maneira engenhosa de tirar partido da lentidão exasperadora da Áustria. 237 .11 E também os outros funcioná­ rios e oficiais que retornaram naquele fim de semana para reuniões e trocas de opiniões. não com a Sérvia: uma guerra mais ampla.] se a Áustria esti­ vesse mesmo procurando um pretexto para atacar a Sérvia [. que deveria ter sido mantida fora do negócio... a política russa não se orientava apenas por suas “simpa­ tias”. Finalmente. o Ministério das Relações Exteriores alemão.

o cáiser disse algo como: “Você fez o caldo. Guilherme não o deixaria sair tão facil­ mente. e encontrou-se com os líderes do seu governo e das suas forças armadas. senão literalmente.”1 Mais tarde. Ele interrompeu sua viagem quando ficou claro que seu governo não o estava mantendo plenamente informado. Seria tarde demais para elas fazerem alguma coisa. agora vai ter de tomá-lo. instala­ do em seu palácio em Potsdam. O 238 . Guilherme se colocou ao par dos tele­ gramas diplomáticos.CAPÍTULO 34: 27 DE JULHO cáiser Guilherme II insistiu em retornar do seu cruzeiro em águas setentrionais. figurativamente tremendo. supervisionando o cumprimento dos termos de rendição acordados por uma Sérvia subjugada. Guilherme deveria ter retornado para encontrar o Exército Habsburgo ocupando Belgrado. A Rússia e seus aliados teriam de curvar-se ante o inevitável. Segundo Biilow. Bethmann. Tudo teria acontecido rápido demais para que potências externas pudessem impe­ dir. predecessor de Bethmann. Segundo o plano formulado em grande parte por Bethmann em 56 de julho. o encontrou à chegada para oferecer a sua demissão.

Por sua conta. “O governo alemão garante da maneira mais decisiva que não se 239 .O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U Mas nao foi o que aconteceu.2 “Se rejeitarmos todas as tentativas de mediação. O que os elementos-chave dos governos alemão e austríaco identificaram como perigo imediato foi que a proposta de Grey de mediação pelas quatro potências poderia ter êxito. Aquela se mostraria uma semana decisiva. O governo alemão remeteu os planos de paz da Grã-Bretanha en­ quanto aconselhava secretamente os austríacos a não dar atenção.” Bethmann. Agora a Sérvia estava se aprontando para tomar uma ati­ tude. “Como já rejeitamos uma proposta bri­ tânica de conferência. a frota britânica estava mobilizada e a Rússia tinha dado o primei­ ro passo na preparação para a guerra. o mundo inteiro vai nos responsabilizar pela conflagração e nos caracterizar como fomentadores da guerra. A Grã-Bretanha estava pressionando para uma conferência diplomática que pudesse resolver a disputa em bases menos favoráveis do que os termos que a Áustria já havia recusado em 25 de julho. Isto tornaria a nossa posição insustentável aqui na Alemanha. evitando a eclosão da guerra. onde temos de aparecer como se a guerra nos tivesse sido imposta. que dÍ7. não é possível nos recusarmos” a repassar sua idéia. de repente estava falando de a Alemanha entrar em guerra. a Alemanha rejeitou a idéia de conferência. os líderes das potências germanófonas tiveram de tomar decisões sobre o seu próximo passo. O governo alemão concordou em remeter a proposta à Áustria-Hungria. Bethmann explicou a um dos seus funcionários por que se sentiu obrigado a remeter a proposta. o 27 de julho viu desencadear-se o começo de um pânico da paz. Nos Ministérios das Relações Exte­ riores de Viena e de Berlim.ia que em breve a Alemanha enviaria as propostas de mediação de Grey. O que Guilherme encontrou foi que a Áustria-Hungria tinha deixado passar uma chance de humilhar a Sérvia pacificamente. que até então vinha falando de a Áustria entrar em guerra. O embaixador austríaco em Berlim passou um cabo para Bethmann em Viena com uma mensagem “na mais estrita privacidade” de Jagow. mas ao mesmo tempo sabotou secretamente os esforços de Grey para obter o acordo de Viena. Ao retornarem das suas férias encenadas.

O Partido Liberal no governo tendia a uma perspectiva pacifista. concluía Jagow.” Berlim esperava impedir que a Grã-Bretanha se alinhasse com a França e a Rússia: “Se a Alemanha dissesse francamente a Sir E. Assim. A pedido da Grã-Bretanha. Grey disse a seus colegas que chegara a hora de decidir se estavam ou não preparados para apoiar a França e a Rússia se a guerra estourasse. O primeiro-ministro Asquith estava vigorosamente disposto 240 . Jagow afirmou que a Rússia e a Áustria estavam prestes a entrar em negociações. Numa reunião do gabinete naquela manhã. mas sem instruí-lo a entregá-la aos austríacos. ele poderia dizer ho­ nestamente a Grey que tinha remetido a nota britânica “a Viena”. que ao contrario. Bethmann continuou a adotar a sua linha da semana anterior: as outras potências deveriam ficar fora do conflito entre a Áustria e a Sérvia. Grey ainda estava concentrado em impedir a eclosão da guerra. e Grey atribuiu tal atitude à pressão exercida pela Rússia sobre a Sérvia. Era a primeira reunião do gabinete inteiramente dedicada à crise bélica na Europa. aconselha a desconsiderá-las.27 DE J U L H O identifica com essas proposições. Grey destacou que. e o gabinete se opunha esmagadoramente a intervir numa guerra européia. mas acreditava que. Nenhum tratado obrigava a Grã-Bretanha a ajudar a França. e agora a Grã-Bretanha estava pedindo à Alemanha para usar sua influência para conter a Áustria. a Sérvia tinha cedido praticamente em tudo. se não pudesse evitá-la. para satisfazer o governo inglês.”3 Jagow relatou que Grey tinha lhe pedido para remeter um apelo para modificar o ultimato austríaco. ele estava usando a proposta de negociações para bloquear a proposta de conferência. na sua res­ posta às exigências da Áustria. Como antes. Mas a Alemanha rejeitou a proposta de Grey. a Rússia tinha refreado a Sérvia. e que era preciso esperar o resultado antes de fazer qualquer outro movimento. este objetivo poderia não ser alcançado. Ele explicou aos colegas que havia enviado a mensagem ao seu embaixador em Viena. Conseqiientemente. Londres. mas precisa retransmiti-las. a Grã-Bretanha tinha de participar. Grey que se recusava a comunicar o plano de paz da Inglaterra. os britânicos deveriam usar sua influência para con­ vencer a Rússia a aceitar a “localização”.

informações úteis não podiam ser reveladas ao inimigo. a qual foi divulgada “e consti­ tuiu a primeira sugestão oficial à imprensa sobre a guerra iminente.. foi no fragor dos Exércitos que se notabilizou. Situação política européia mostra que guerra entre potências Tríplice Aliança e Tríplice Entente definitivamente não é impossível. e os alemães estavam alheios ao que estava sendo feito”.] Medida é puramente preventiva. Ele passou um cabo às frotas da Marinha Real espalhadas em todo o mundo: “Secreto.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U a apoiar seu secretário das Relações Exteriores. À tarde. e seus feitos notáveis como civil na Guerra dos Bóeres tinham ajudado a lançar sua carreira política. registrou posteriormente em seu diário que um porta-voz do gover­ no “nos informou que a situação continental estava se tornando muito séria. 241 .. mas estejam prepara­ dos para vigiar possíveis navios de guerra [. fosse qual fosse.5 Este não é um Telegrama de Alerta. Ele estava em seu ele­ mento. mas sua principal preo­ cupação era manter o seu Partido Liberal unido no apoio à política adotada. que estava entre os presen­ tes. Embora não fosse um fomentador de guer­ ras. a tomar precauções contra ataques surpresa. Riddell rascunhou uma carta aos jornais. O seu Almirantado se juntou ao Ministério da Guerra. Winston Churchill começou a traçar planos para garantir a prontidão da força naval.. Naquela noite.] secretamente”. Isto acrescentou uma dose extra na confusão dos acontecimentos. Nenhuma informação era divulgada. ele começou a dispor proteções em pontos vulneráveis. con­ forme vistos naquela capital efetivamente sem comando. Após a reunião do gabinete. e perguntou como evitar que a notícia fosse publicada. reunindo um pequeno grupo para avaliar a melhor maneira de pedir autocensura à imprensa.4 Ele disse que poderia ser necessário deslocar tropas e navios [. Churchill colocou suas forças em alerta informal. O resultado foi notável. Tinha experiência de campo de batalha na índia e no Sudão. O figurão da imprensa George Riddell. Os embaixadores alemão e austríaco em Paris foram mantidos na ignorância dos planos e do pensamento dos seus respectivos governos.” Paris. cujos líderes do governo ainda estavam ao mar..

a linha de Moltke. produziu uma forte impressão. um diplomata russo disse a um político britânico que a “guerra é inevitável e por culpa da Inglaterra. Como anglófilo que era. ele questionou vigorosamente a avaliação dos seus superiores. Em 27 de julho. pelo menos. Nossa atitude dá lugar à opi­ nião de que queremos a guerra a qualquer preço. nem sempre recebia a confiança de Berlim.8 A tendência de Grey na crise tinha sido de buscar a parceria da Alemanha para lidar com o problema. E tam­ bém alguns líderes estrangeiros.27 DE J U L H O O embaixador austríaco ficou obviamente admirado de o seu go­ verno rejeitar a nota sérvia de quase rendição..7 Se Berlim tudo sacrificar à sua aliança com a Áustria. os líderes militares alemães vinham se concentrando em culpar a Rússia pelo conflito europeu. ao jantar. e continuava a ser. Naquela noite.. Desde o conselho de guerra de dezembro de 1912.” Londres. O argumento de Lichnowsky ao seu governo era que.6 “As nossas relações futuras com a Inglaterra dependem inteiramente do êxito” da iniciativa de Grey em prol de uma conferência. A pequena guerra podia estar levando a uma grande guerra. embaixador da Alema­ nha em Londres.9 Berlim. que aqui não era tida como possível. Lichnowsky. Funcionários de primeiro escalão do Ministério das Relações Exteriores britânico já criticavam Grey a este respeito. “nunca mais será possível restaurar os laços que ultimamente mantiveram [a Grã-Bretanha e a Ale­ manha] [. Como poderia ele advogar a localização do conflito. como o Ministério das Relações Exteriores lhe dissera para fazer. Ele disse a seus superiores em Viena: “A ampla aquiescência da Sérvia. que se a Inglaterra tivesse declarado de uma vez a sua solidariedade com a Rússia e a França e sua intenção de lutar se necessário. Esta tinha sido. que eles próprios previam e consideravam inevi­ tável.] juntas”. quando a hostilidade entre a Sérvia e a Áustria não podia ser localizada —e quando a Grã-Bretanha sabia? A Áustria-Hungria tinha armado a briga de modo a forçar a Rússia a intervir. escre­ 242 . a Alemanha e a Áustria teriam hesitado”. no futuro Grey dei­ xaria de fazê-lo. Ela foi ecoada em 27 julho pelo almirante von Muller: a Alemanha devia. se Berlim mantivesse o curso.

O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U

veu ele em seu diário, “permanecer calma e deixar a Rússia isolar-se, mas
então não se encolher diante de uma guerra se ela for inevitável”.10
Bethmann concordava com o militar num aspecto: “Em todo caso, a
Rússia tem de ser implacavelmente isolada”, disse ele a Guilherme.
Viena. Depois de conversar com outros embaixadores, o embaixador
britânico passou um telegrama a Grey dizendo que “a nota austro-húngara fora composta para tornar a guerra inevitável; que o governo austrohúngaro estava totalmente determinado a entrar em guerra com a Sérvia;
que eles consideravam que a sua posição como grande potência estava
ameaçada”, e que “o país tinha ficado tremendamente entusiasmado com
a perspectiva de guerra com a Sérvia”.11

243

CAPÍTULO 35: 28 DE JULHO

T T iena. Conforme a decisão alcançada em 25 de julho, a Áustriar
Hungria ordenou a mobilização parcial em 28 de julho. Metade
do Exército dos Habsburgo recebeu finalmente ordens para tomar posi­
ções ao longo da fronteira sérvia. A manobra foi feita segundo o plano
do Estado-maior austríaco para a guerra apenas contra a Sérvia. Isso
representava uma aposta na localização. Conrad solicitou a Berchtold
que pedisse à Alemanha para impedir a Rússia de intervir.
Os líderes alemães continuaram as discussões que tinham começado no
fim de semana. Em 28 de julho, ficou claro que, apesar das diferenças
entre eles, estavam com vontade de agir. Estavam dispostos a deixar de
esperar a Áustria fazer alguma coisa. Por sua conta, estavam dispostos a
fazer andar a coisa. Segundo o ministro da Guerra: “Acaba de ser decidi­
do resolver a questão pela luta.”1 Eles não estavam falando de lutar con­
tra a Sérvia. Estavam falando de lutar contra a Rússia e a França.
A posição mais extrema era às vezes tomada por Moltke. Como
fizera no passado, ele argumentava a favor de uma guerra preventiva.
244

O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U

Sua posição era de que a guerra era inevitável, que o tempo estava cor­
rendo contra a Alemanha, e que em um ou dois anos a vantagem muda­
ria de lado: em 1914, a França e a Rússia podiam ser batidas, mas em
1916 ou 1917, a Alemanha podia perder. Por conseguinte, a Alemanha
tinha de atacar imediatamente.
A crise de julho, como Moltke a via, evoluíra, felizmente para a
Alemanha, de modo a colocá-la numa “posição singularmente favorá­
vel”.2 As colheitas já haviam acontecido, o treinamento anual de recru­
tas estava concluído, e a Rússia e a França não estariam realmente prontas
antes de dois anos. A Áustria tinha se colocado numa posição em que
não podia deixar de lutar ao lado da Alemanha, e isto era absolutamente
vital. Como resumiu Moltke: “Nunca mais teremos uma chance tão boa
como a que temos agora.”
Na manhã de 28 de julho, o cáiser Guilherme, que retornara do seu
cruzeiro no dia anterior, leu - pela primeira vez —a resposta Sérvia à
nota austríaca. Convenceu-se, e o escreveu à mão para Jagow no Minis­
tério das Relações Exteriores, que a Áustria tinha conseguido quase tudo
o que queria. Na opinião dele, tratava-se da “mais humilhante capitula­
ção”, e consequentemente, “cai por terra todo motivo de guerra”. Poucas
linhas depois, ele se repetiu: “Dissipou-se todo motivo de guerra.”3
Não havia mais qualquer necessidade de iniciar uma guerra. Na
verdade, segundo Guilherme, à diferença de Berchtold, “Eu nunca teria
ordenado uma mobilização nessas bases”.4
“Entretanto, pode-se considerar que o pedaço de papel, assim como
o seu conteúdo, tem pouco valor se não for traduzido em ações? Os
sérvios são orientais, portanto mentirosos, embusteiros e mestres do
subterfúgio.” Então, deve-se consentir que o Exército austríaco ocupe
temporariamente parte da Sérvia, inclusive Belgrado, como refém, até
que a Sérvia cumpra sua palavra. Nessas bases, escreveu o cáiser, “estou
pronto a mediar em prol da paz”. Esta resolução daria aos Exércitos dos
Habsburgo, uma vez tendo ocupado Belgrado, a satisfação de ter alcan­
çado êxito. Mediando pela paz, escreveu Guilherme, ele teria o cuidado
de salvaguardar a honra e a auto-estima da Áustria-Hungria.
O cáiser deu ordens a Jagow para informar Viena de que ele estava
preparado para mediar o conflito Áustria-Sérvia nas bases que descreveu.
245

28 DE J U L H O

Era preciso dizer aos austríacos que não havia mais qualquer razão para
entrar em guerra.6 O cáiser também notificou Moltke, por escrito, da
mesma conclusão.
Como escreve Christopher Clark, um dos biógrafos recentes do
cáiser: “Talvez o mais surpreendente nessa carta do 28 de julho para
Jagow é que ela não foi posta em prática [...]7 Suas instruções não tive­
ram nenhuma influência sobre as representações de Berlim em Viena.
Bethmann realmente mandou um telegrama para Viena, repetindo al­
gumas das opiniões do cáiser, mas omitindo a mais importante: que a
Áustria deveria parar, não entrar em guerra, permitindo, em vez disso,
que o cáiser mediasse a disputa com a Sérvia.”
Um general bávaro anotou em seu diário que “infelizmente [...]
havia notícias de paz. O cáiser quer absolutamente a paz. [...]8 Ele quer
até influenciar a Áustria, e fazê-la parar de avançar”.
Segundo o ministro da Guerra, von Falkenhayn, o cáiser “fazia
discursos confusos, que davam a clara impressão de que não queria mais
a guerra e estava determinado a [evitá-la], mesmo que isso significasse9
deixar a Áustria-Hungria em apuros”.10 Mas Falkenhayn relembrou ao
cáiser que ele “já não tinha mais o controle da questão nas suas mãos.”
Em outras circunstâncias, isso teria parecido uma insubordinação cho­
cante. Porém, desde o incidente com o Daily Telegraph, em 1908,* a
posição do imperador era precária. Em maio de 1914, apenas dois meses
antes do lembrete de Falkenhayn, Edward House, enviado do presiden­
te Wilson, havia relatado de Berlim que a “oligarquia militar” era supre­
ma, estava “determinada quanto à guerra” e preparada para “destronar o
cáiser tão logo ele desse sinais de assumir um curso que levasse à paz”.11
É claro, Guilherme, cuja relação com o real era bastante débil, podia não
ter plena consciência dos perigos da sua posição. Alternativamente, House
pode ter exagerado.
Mas não pode haver dúvidas de que o imperador não tinha consci­
ência de muita coisa que estava em curso. Com certeza, entre as coisas
que Guilherme não sabia estava o fato de que, no dia anterior, Jagow
havia enviado um telegrama urgente para Viena, instando —decerto pra­
* Ver p. 90.

246

O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U

ticamente ordenando —que o governo austríaco declarasse guerra à Sérvia
imediatamente. Jagow advertiu que a proposta inglesa de conferência
para preservar a paz não podia ser repelida por muito mais tempo. O
ministro das Relações Exteriores alemão nem consultou o cáiser antes de
enviar esta advertência, e nem o informou depois de tê-la enviado.
Na Áustria, o monarca relutante também foi deixado para trás. O
imperador Francisco José estava hesitante quanto a declarar guerra, e
seus ministros eram obrigados a obter seu assentimento para poder fazêlo. Berchtold obteve o consentimento informando —falsamente —que
tropas sérvias tinham aberto fogo contra forças austríacas. Na verdade e foi apenas um incidente isolado - , as tropas austríacas tinham aberto
fogo contra os sérvios.12
Viena. Era a GUERRA. A decisão fora tomada um dia antes. Respon­
dendo à pressão do Ministério das Relações Exteriores alemão, a Áustria
finalmente declarou guerra à Sérvia. Segundo o embaixador alemão, a
declaração foi feita “principalmente para frustrar qualquer tentativa de
intervenção”.13
Como em tantas outras coisas, os austríacos agiram atrapalhada­
mente. Enviar a declaração por mensageiro sob bandeira de paz não era
exequível, pois até a declaração ter sido recebida, os países não estariam
em guerra, sendo a bandeira branca por isto inadequada. Não tendo
mais representação em Belgrado, o governo Habsburgo enviou sua de­
claração ao governo sérvio por telegrama. Não havia certeza de que seria
recebido —ou de que seria recebido pela pessoa certa. Ocorre que o
governo sérvio, uma vez tendo recebido o curioso cabo, passou um ou­
tro às principais capitais da Europa perguntando se aquilo era trote. A
declaração de guerra fazia alusão ao suposto ataque contra forças austrí­
acas por tropas sérvias.
Conrad, chefe do Estado-maior da Áustria, tinha se oposto à decla­
ração. Queria esperar mais umas duas semanas até seus Exércitos esta­
rem prontos para marchar. Porém, surpreendida pela diplomacia
internacional, a Áustria-Hungria tinha ficado sem tempo.
Naquela mesma noite, a artilharia austríaca, breve e ineficiente­
mente, bombardeou Belgrado através da estreita fronteira do rio Danúbio.
247

28 DE J U L H O

Paris. A França nada sabia sobre a crise bélica; a notícia que todos co­
mentavam era que a senhora Caillaux havia sido absolvida!
São Petersburgo. A Rússia iniciou a mobilização em quatro regiões
militares que haviam sido previamente alertadas em “preparação para as
etapas da guerra”.
Sem saber que o seu próprio Ministério das Relações Exteriores estava
anulando os esforços que ele havia empenhado para conter os austría­
cos, Guilherme enviou uma mensagem ao tsar. Ele lembrava seu primo
que “nós dois, você e eu, temos o interesse comum, bem como todos os
soberanos”, de punir os sérvios por matarem membros de uma família
governante. “Neste particular, a política não desempenha nenhum pa­
pel.” Porém, continuou o cáiser: “Por outro lado, entendo plenamente
o quanto é difícil para você e o seu governo enfrentarem o ímpeto da
opinião pública.” O nacionalismo russo, incerto, mas todavia uma for­
ça, era um fato da vida política para Nicolau. (Soubesse Guilherme ou
não, pressões pró-mobilização também estavam sendo exercidas pelo
Estado-maior russo.) O cáiser protestou a sua “sincera e afetuosa amiza­
de” e lhe garantiu: “Estou exercendo minha máxima influência para in­
duzir os austríacos a lidar corretamente com a situação.”
Essa mensagem —a primeira na correspondência entre Gui e Nic
após a Áustria declarar guerra à Sérvia - cruzou no caminho com uma
outra do tsar: “Estou feliz que tenha voltado [...] peço-lhe para ajudarme. Uma guerra ignóbil foi declarada contra um país fraco [...] [E]m
breve eu serei sobrepujado pela pressão exercida sobre mim [...] para
tomar medidas extremas que levarão à guerra. Para buscarmos evitar
uma calamidade do porte de uma guerra européia, eu lhe rogo, em nome
da nossa velha amizade, para fazer tudo o que estiver ao seu alcance para
impedir os aliados de irem longe demais.”
Londres. Grey retornou à visão de que negociações diretas entre a Rússia
e a Áustria propiciariam a melhor possibilidade de manter a paz.
Berlim. Bethmann voltou sua atenção para o objetivo de pôr a Alema­
nha numa posição de travar uma guerra de grande porte. Discordâncias
248

O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U

internas eram o seu principal obstáculo, pois então o governo tinha aberto
negociações com o Partido Social Democrata (SPD), em vista de garan­
tir um acordo de lealdade dos representantes da classe trabalhadora em
caso de guerra. A preocupação era genuína. O comité executivo do SPD,
denunciando “a frívola provocação do governo austro-húngaro”, tinha
convocado seus simpatizantes a irem para as ruas.14 O jornal deles prog­
nosticou que a guerra traria a revolução na sua esteira. Manifestações em
Berlim em 28 de julho, que a polícia tentou reprimir, trouxeram a vio­
lência para a própria capital e pareceram ser apenas um preâmbulo de
mais distúrbios a vir.
Entretanto, Bethmann marcou um ponto ao negociar com a lide­
rança do SPD um acordo de alinhamento com o governo naquele mo­
mento de perigo nacional.
Nesse ínterim, o cáiser, ainda sem saber que a sua decisão pela paz
tinha sido sabotada por seus subordinados, perguntava-se confusamente
se não tinha agido tarde demais. Ele observou que “a bola estava rolan­
do” e “já não podia mais ser detida”.
Londres. Churchill informou ao rei George as várias medidas tomadas
pelo Almirantado para colocar a Marinha “em bases preparatórias pre­
ventivas”.15 Após detalhar muitos dos passos que foram dados, ele
garantiu ao monarca: “Não é necessário enfatizar que essas medidas não
prejudicam de maneira alguma uma intervenção, ou que tomem por
líquido e certo que a paz das grandes potências não será preservada.”
À meia-noite, Churchill escreveu à sua esposa: “Minha querida e
bela, tudo tende à catástrofe e ao colapso.”16 A Grã-Bretanha não era,
continuava ele, “em nenhum grau significativo responsável pela onda de
loucura que varreu o equilíbrio da cristandade”.
O primeiro-ministro Asquith escreveu à sua confidente, Venetia
Stanley, que acabara de ser informado que o governo francês estava or­
denando importantes vendas de papéis na Bolsa de Londres para levan­
tar dinheiro: “Parece agourento.” 17A casa inglesa dos Rothschild, a quem
a ordem foi dada, se recusou a executá-la. Asquith recebeu um telegrama
informando “que a Áustria ordenara a guerra!”. Venetia Stanley dizia às
vezes ao primeiro-ministro que havia dias em que gostaria de trocar de
lugar com ele; este, sugeriu ele, provavelmente não seria um deles.
249

Contudo.o cáiser não sabia que não era verdade —“o meu governo continua a empenhar-se em promovê-lo”. Guilherme advertia que se a Rússia tomasse medidas militares que ameaçassem a Áustria. “Por favor. e .” Quando ficou claro que a Rússia poderia de fato intervir se a Sérvia fosse ameaçada de destruição. 250 . indicando que o que o intrigava era que o que esta­ va ouvindo do cáiser não era o que estava ouvindo do embaixador do cáiser. tais medidas redundariam em guerra. Nicolau insistiu em que o conflito austro-sérvio fosse encaminhado a Haia* para julga­ mento. Gui passou um telegrama a Nic dizendo que a Rússia realJ . “Confio na sua sabedoria e amizade.CAPÍTULO 36: 29 DE JULHO Tyotsdam. “Acho um entendimento direto entre o seu governo e Viena possível e desejável”. questões se impuseram ao espírito dos generais * Sua referência teria sido à Corte Permanente de Arbitragem. escreveu ele. mente podia ficar fora do conflito. em vez de paz. esclareça a diferença”. estabelecida em Haia pela Convenção para a Solução Pacífica de Disputas Internacionais (1899). Nic respondeu.

Em vista da mobilização parcial da Rússia. analisava as consequências da iniciativa austríaca. Jagow. não significaria ela que quando a Áustria enviasse seus Exércitos contra a Sérvia. Em seu memorando. não alcançou o propósito. Jagow inverteu então a sua posição.1 Se com isto pretendia convencer os russos a suspenderem a sua mobilização parcial. “os Estados civilizados da Europa começarão a dilacerar-se”. Moltke entregou ao seu governo um memorando que redigira sobre a situação vigente. Assim como o cáiser. e tomou suas decisões precipita­ damente. como os seus colegas mi­ litares. Os austríacos mostraram aos seus colegas alemães que a mobilização parcial russa ordenada era dirigida contra a Áustria. Foram encaminhadas ao ministro das Relações Exteriores alemão. “a Alemanha seria provavelmente obrigada a mobilizar-se. A iniciativa da Áus­ tria estava fadada a desencadear uma série de acontecimentos que con­ duziriam a Alemanha à guerra contra a Rússia. ele não sabia que Jagow vi­ nha pressionando Viena a agir imediatamente. aquele era um preço que ele estava preparado para pagar. A pergunta que Moltke estava fazendo ao seu governo era essencialmen­ te se ele ainda acreditava que podia manter o conflito localizado e assim evitar as consequências terríveis que ele estava prevendo? O cáiser convocou seus chefes militares a Potsdam.O Ú L T I M O VERÃO E UR OP E U austríacos. nada mais restava a fazer. Se a decisão conti­ nuasse com efeito. Assim. a Monarquia Dual ficaria sem defesa con­ tra um ataque russo pela retaguarda? Conrad ainda esperava que a Alemanha pudesse dissuadir a Rússia. Dois dias antes. o cáiser disse que o seu chanceler “tinha ficado completamente 251 . Nas palavras de Tirpitz. que a Áustria não começasse as hostilidades ainda por cerca de mais duas semanas. Nas conversas com o enviado russo. para discutirem suas conversações com Bethmann. Moltke fora pego de surpresa pela declaração de guerra da Áustria. que estava presente. ele tinha dado garantias oficiais ao go­ verno russo de que Berlim não tinha objeções a uma mobilização parcial russa.2 Contudo. desde que não fosse dirigida contra a Alemanha. e está na hora de os diplomatas deixarem a discussão para os canhões”. Segundo Moltke. Seria preciso um milagre para impedir a eclosão de uma “guerra que aniquilará a civi­ lização da Europa quase toda durante as próximas décadas”. Ele havia esperado. supondo que a Alemanha teria êxito em fazê-lo.

Bethmann enviara finalmente a proposta. impa­ cientemente. se Bethmann e Jagow tivessem seguido lealmente as instruções de Guilherme no dia anterior e posto todo o peso da Alemanha sobre a sua aliada. ele tinha dado a entender que Viena não devia fazer. a Itália e a Grã-Bretanha tinham proposto planos de manutenção da paz que eram muito semelhantes ao plano de parada em Belgrado do cáiser. de garantir que os austríacos compreendessem que a Alemanha não queria “contê-los”. Mas depois da censura do cáiser em Potsdam. por sua conta.4 A conferência decidiu que nada seria feito até Viena responder à proposta do cáiser de parar em Belgrado e então terminar a guerra. Segundo Tirpitz. o “cáiser informou o grupo que o chanceler havia proposto que. Bethmann ficou emocionalmente prostrado e tentou desesperadamente mudar de posição. ele enviou um telegrama aberto à Áustria-Hungria perguntando se sua mensagem do dia anterior sobre parar em Belgrado havia sido recebida. Bethmann. 252 . na verdade. para escapar da ira do cáiser. Às dez horas da noite. o que ele. e Guilherme “se expressou em reservas sobre a incompetên­ cia de Bethmann”. o chanceler já estava informado de que.o que ele alcançara. havia recusado”. na conferência de Potsdam. Doze minutos mais tarde. tinha. Mergulhou-se em esforços para convencer Viena a fazer precisamente aquilo que. para manter a neutralidade da Inglaterra.3 Bethmann. no anoitecer do dia 29. teve de limitar-se a esperar que a Áustria-Hungria também estivesse propensa a mudar de curso. ele desejava salientar para Viena que o propósito da propos­ ta era apenas propagandístico. embora absolutamente não o fosse para os chefes militares da Alemanha. indepen­ dentemente uma da outra. Em vez disso. estabelecido dois ob­ jetivos. O outro era conseguir uma promessa de neutralidade da Inglaterra —o que ele não alcançara. ele telegrafou outra vez. Um deles era garantir a aceitação da política de guerra pelos trabalhistas e pela esquerda . Ele a tinha despachado com instruções ao seu embaixador. apenas um dia antes. Naquela altura. Manter a Grã-Bretanha fora da guerra era importante para Bethmann. a crise bélica teria sido resolvida. Pareceu então que. o cáiser.29 DE J U L H O prostrado”. nós deveríamos sacrificar a frota alemã em troca de um acordo com a Inglaterra. ao mesmo tempo em que a sabotava.

respondendo ao telegrama de Moltke. mas ao considerar a eclosão de uma guerra européia. o seu governo não a estava apoiando.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U Bethmann telegrafou então ao seu embaixador na Áustria:5 “Estamos preparados. em Londres. Em linguagem diplomática. em vez de contra a Rússia. Berchtold estava certo de perguntar. ou pelo menos desacreditar e pôr a culpa na Rússia. que era tão parecida com a do cáiser Guilherme. Foi durante essa conversa com Lichnowsky que Grey fez a sua proposta de parada em Belgrado.à idéia de que nós devêssemos ficar de fora”. instando a mobilização plena da Áustria. como pergun­ tou ao ler a mensagem do chanceler: “Quem governa em Berlim —Moltke ou Bethmann?”7 Um telegrafava a guerra enquanto o outro telegrafava a paz.” Ele disse ao seu embaixador para convencer Berchtold que a Áustria devia pelo me­ nos fazer jogo de cena: “Para evitar uma catástrofe generalizada. irresponsavelmente e sem consi­ deração por nosso conselho. Grey havia pedido ao embaixador alemão para ir encontrar-se com ele. é claro. isso era uma ameaça de guerra. a supor que não empreenderíamos nenhuma ação”. De qualquer modo. para cumprir nosso dever como aliados. nós devemos urgentemente aconselhar Viena a iniciar e perseverar em conversações.” 9 Ele não sabia que Bethmann e Jagow tinham lhe passado à frente em Viena em 27 e 28 253 . ou o seu go­ verno. pelo menos naquele momento.8 Mas Grey sabia que. Grey “não queria que ele se deixasse levar pelo tom amistoso da nossa conversação . Mais cedo naquele dia. Quando Lichnowsky o informou. Talvez isso fosse indicativo da preocupação justificada de Moltke de que a Áustria viesse a mobilizar-se contra a Sérvia. Seu telegra­ ma chegou horas depois de Viena. em vão. e “eu não queria dar campo a qualquer repreensão da parte dele de que o tom amistoso de todas as nossas conversações o teria induzido. mas não devemos nos deixar arrastar por Viena. Não obstante.que eu tinha esperanças de que perdurasse .”6 Mas ao mesmo tempo Moltke passava um telegrama para Conrad. o cáiser comentou: “Há dias nós vimos tentando conseguir isto. ordenar a mobilização total. a uma conflagração mundial. Bethmann estava muito atrasado. O secretário das Relações Exterio­ res e Lichnowsky conversaram como velhos amigos.

Smith comprometeu-se a conversar com os outros líderes partidários na oportunidade então já marcada para dois dias depois. a maio­ ria dos membros do gabinete pretendia manter a Grã-Bretanha fora do conflito. estava preocupado com a vulnerabilidade da Marinha 254 . Winston Churchill temia que a opinião do gabinete e do Partido Liberal no governo ainda se inclinasse à neutralidade. Lichnowsky informou que Londres estava firmemente convencida de que.29 DE J U L H O de julho. a Alemanha e a Áustria conteriam imediatamente os seus ímpetos. Várias e extensivas pre­ cauções foram tomadas. Como primeiro lorde do Almirantado. o gabinete aprovou a publicação de um alerta geral. Em termos técnicos.e todos os conservadores. “é que sendo nós a única potência que chegou a fazer uma sugestão construtiva na direção da paz. Smith.11 “Uma das ironias do caso”. que foi enviado às bases inglesas em todo o mundo. é claro”. Secretamente.” O comentário do cáiser sobre isso foi de que a culpa seria da Inglaterra. num fim de semana no campo. a guerra mundial era inevitável”. escreveu ele. Neste dia. tudo que a Grã-Bretanha tinha a fazer era dizer a sua posição. F. disse ele.10 Na opinião de Grey: “Se a guerra estourar. “a menos que a Áustria desejasse abrir uma discussão sobre a questão Sérvia. e a França e a Rússia se acalmariam e não haveria guerra. E. Churchill tinha preocupações mais urgentes. pedindo-lhe para sondar a liderança do seu partido sobre a pos­ sibilidade de formar uma coalizão de governo apoiada por liberais próintervenção —segundo toda probabilidade uma minoria dentro daquele partido .’ Nada disso é verdade. a França e a Rússia não ousariam lutar’. ele enviou uma mensagem ao seu mais íntimo amigo conservador. o “Livro de Guerra” foi aberto pelo secretário do Comité de Defesa Imperial. “A Inglaterra detém sozinha a responsabilidade da guerra ou da paz”. tanto a Alemanha como a Rússia nos acusam de provocar a deflagração da guerra. escreveu Asquith à sua amiga Venetia Stanley. nem que a proposta só fora encaminhada com urgência apenas havia horas. e a Rússia diz: ‘se declarassem com ousadia que iam ficar do nosso lado. não dias. vai ser a maior catástrofe que o mundo já viu.12 A Alemanha diz: ‘se dis­ sessem que serão neutros. Contudo.

sua morte unificou o país em apoio ao governo. Por mais de uma semana. 255 . Porém. Berlim. encolerizando Grey quando a leu. e não procuraria adquirir territórios franceses —promessa esta de que as colónias francesas estavam excluídas. que poderia ser interpretada como provocativa. ídolo pacifista da esquerda francesa. O movimento foi feito em segredo. recordou-se ele mais tarde. levando consigo às vastas águas do Norte a salvaguarda” das forças britânicas. e decidiu interpretar uma es­ pécie de grunhido de Asquith como uma aprovação. Goschen de fato transmitiu a mensagem ao Ministério das Relações Ex­ teriores. onde ela foi recebida na manhã seguinte. Numa hora tardia —na verdade. e a parte crucial da jornada para a segurança teve lugar à noite . à sua residência.O Ú L T I MO VERÃO E UR OP E U a ataques de surpresa. O chanceler pediu a Goschen para transmitir uma oferta a Londres: se a Grã-Bretanha concordasse em permanecer neutra na guer­ ra que poderia começar rapidamente. “ao cair da noite. Sir Edward Goschen. por volta da meia-noite —. Bethmann convocou o embaixador inglês. 18 milhas de navios de guerra em alta velocidade e na mais com­ pleta escuridão através de estreitos apertados. ele foi ver o primeiro-ministro com a sua proposta. Em vez disso. ele não queria pedir ao gabinete aprovação para esta iniciativa. é assassinado por um fanático nacionalista. Jaurès vinha elogiando os esforços do governo Poincaré-Viviani para manter a paz.no relato de Churchill. Ele queria deslocar as frotas para as suas bases de tempos de guerra no bem protegido norte. Jean Jaurès. a Alemanha respeitaria a indepen­ dência e a integridade da Holanda.13 Paris. Inesperadamente.

a Grã-Bretanha e a Rússia pareciam todas concordar com a proposta de parar em Belgrado. 256 . a Alemanha.sem confiar em Paléologue nada lhe contaram. como observou Guilherme. foi acusa­ do durante anos por historiadores .erradamente.de ter deixado. e começou mal. A pesquisa de Jean Stengers mostrou que os russos . era tarde demais para deter os russos. Paléologue. enviara uma mensagem a Viena. na noite de 29 a 30 de julho. Na noite anterior.1 Quando a França soube defato do movimento imi­ nente. dizendo à Áustria-Hungria para aceitar a fórmula de parada em Belgrado para retirar-se da guerra . o go­ verno alemão.CAPÍTULO 37: 30 DE JULHO embaixador da França em São Petersburgo.ou isso ou perder o apoio da Alemanha. Mas Berchtold afirmou não ser capaz de dar uma resposta na circunstância em curso. O A quinta-feira 30 de julho foi um dia que muitos historiadores mais tarde considerariam fatídico. Foi extremamente frustrante porque. de notificar seu governo de que a Rússia estava mobilizando as suas tropas. agora acredita­ mos . concordando atrasadamente com o cáiser.

se Viena disser não —“não será mais possível pôr a culpa do início da guerra européia nos ombros da Rússia”. estava ao mes­ mo tempo mobilizando as suas tropas. e conseqiientemente estava à frente da Alemanha. quando informado de que Viena tinha rejeitado a aceitação parcial pela Sérvia do ultimato austríaco.] ao pas­ so que a Rússia restaria livre de responsabilidades. isso quer dizer que ele está quase uma semana à nossa frente”. Ao raiar do dia..”5 Ao apelo 257 . que ainda relutava em avançar. A Rússia havia ficado quieta desde então. Segundo o tsar. “E tudo em nome de defender-se contra a Áustria. que não o está atacando!!! Não posso continuar comprometido com a idéia de mediação. exclamou ele. dando uma chance às negociações. Bethmann instou Berchtold a pelo menos cumprir as formalidades de busca de um arranjo pacífico. Recebeu notícias de que a ÁustriaHungria desejava ter conversações com a Rússia: “Temo que seja tarde demais”.2 “Começar! Agora!”. A mobilização estava apenas começando.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U Guilherme desalentou-se. ele acor­ dou para encontrar uma mensagem de Nicolau informando que a Rússia havia ordenado a mobilização parcial decidida em 25 de julho: a mobi­ lização nas quatro regiões militares confrontando a Áustria-Hungria. eram as medidas que o Conse­ lho de Ministros da Rússia tinha examinado mas não imediatamente adotado. Viena estará dando provas documentais que quer absolutamente a guerra [. numa posição insustentável”.4 Ele acrescentou que se “Viena rejeitar tudo. aos olhos do nosso próprio povo. “as medidas militares que ora tomam efeito foram deci­ didas há cinco dias”. foi o seu comentário. “Ora. Não se tratava de medi­ das novas ou de medidas adicionais. pois o tsar. Enquanto isso. Em outras palavras. que foi quem invocou a mediação. o cáiser estava furioso com a resposta que seus es­ forços de mediação estavam recebendo em São Petersburgo. Guilherme não entendeu.. Ele acreditou que o tsar o estava infor­ mando que a Rússia vinha se mobilizando há cinco dias. pelas minhas costas. Inter­ pretando essas observações a seu próprio modo. pois de outro modo . pois não compreendia bem o que estava acontecendo.3 O cáiser só estava tentando negociar um final para a crise porque “não podia recusar-se a fazê-lo sem criar a suspeita inegável de que nós quería­ mos a guerra”. eram as únicas medidas que a Rússia havia tomado —e elas acabavam de ser tomadas. Isso nos colocaria. protestou o cáiser.

isso mes­ mo”. o tsar “estava apenas desempenhando um papel. a impressão pareceu manifesta. o tsar revogou a mobilização total. mas líderes individuais apresentaram seus pareceres ao soberano. foi seu comentário. Para a Alemanha.] Mesmo agora.7 E na verdade o governo alemão sabia disso. Nesse aspecto. Havia opiniões 258 . o palácio do tsar. O que acontece­ ria em seguida? O Conselho de Ministros russo não se reuniu.” Para o cáiser Guilherme. [. o tsar concordou e Sazonov deu as ordens necessárias. Or­ denou que seus generais voltassem à mobilização parcial.8 Reagindo às mensagens do cáiser.. não. não estamos pensando em nada deste tipo!!!” Segundo Guilherme. Relutantemente. São Petersburgo.. onde adver­ tiu solenemente o monarca de que a guerra tinha se tornado inevitável e a situação exigia a mobilização geral. Então viajou para Tsarkoe Selo. e que agora estão assustados com o que desencadearam. “Certo.” O embaixador alemão em São Petersburgo advertiu o tsar que a mobilização da Rússia iria acarretar a mobilização alemã. nos enrolando num passeio pelos jardins!” —o que levou o cáiser a concluir: “Isso quer dizer que também tenho de mobilizar minhas tropas!”6 Mas o cáiser respondeu mais tarde ao tsar em tons de civilidade. Guilherme disse: “Cheguei ao limite máximo do possível em meus es­ forços para salvar a paz. A mobilização russa não apresentava o perigo mortal que uma mobilização alemã representaria. Como recentemente destacou uma autoridade académica: “Os exércitos russos [podiam] permanecer mobilizados atrás das suas fronteiras quase indefi­ nidamente”. mobilização significava guerra. para a Rússia. Gui­ lherme rabiscou: “Não. como o seu governo explicou aos alemães.30 DE J U L H O de Nicolau: “Nós precisamos da sua forte pressão sobre a Áustria”. você ainda pode salvar a paz da Europa se suspender as suas medidas militares. Sazonov telefonou ao tsar para pedir uma reunião imediata. O plenipotenciário militar alemão na embaixada de São Petersburgo relatou: “Tenho a impressão de que eles [os russos] mobilizaram as tro­ pas aqui com medo do que podia acontecer mas sem nenhuma intenção agressiva. o governo alemão estava reagindo de maneira claramente excessiva.

a Inglaterra interviria. O chefe do Estado-maior do Exército russo disse a frase famosa: “Vou [. Rússia e França [.] a 259 .. que em última análise visa destruir a Alemanha”. mu­ dando de idéia mais uma vez. Alemanha e Áustria. a Rússia não pretende entrar em guerra. passou a ser a favor de avançar. asse­ verou ele.”10 Em vez disso.9 Os chefes de Estado-maior da Alemanha e da Áustria estavam em contato um com o outro. externou sua opinião de que se a França fosse ameaçada.11 Ao cair da noite.O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U persuasivas por todos os lados. Ele disse aos ministros de Estado da Prússia que “embora a mobilização russa tivesse sido declarada. o cáiser explodiu em fúria: “A irresponsabilidade e a fraqueza estão prestes a mergulhar o mundo na mais terrível das guerras.. que tendera ao adiamento a metade do tempo naque­ la semana.... Repentinamente. Sazonov juntou-se aos generais para de­ fender a mobilização generalizada..] estão coligadas para promover uma guerra de aniqui­ lação contra nós. falando apenas por si mesmo. finalmente ordenou. usando o conflito austro-sérvio como pretexto [.12 “Não resta nenhuma dúvida em minha mente: Inglaterra.] destruir meu telefone” para não poder “ser encontrado e ter de dar ordens con­ trárias a um novo adiamento da mobilização generalizada”.] Além disso. mudou de posição. Como era amplamente sabido nos círculos gover­ namentais que. e Moltke advertiu o impaciente Conrad: “Não é preciso declarar guerra contra a Rússia. “Suas mudanças de ânimo são difíceis ou impossíveis de expli­ car”. Mais uma vez. Bethmann argumentava em favor de um adiamento enquanto Moltke. suas medidas de mobilização não podem se comparar àquelas dos Estados europeus ocidentais [. os dois impérios germanófonos deviam apenas “esperar que a Rússia atacasse”. Bethmann compreendeu que o movimento da Rússia não era cau­ sa de alarme. contra as potências da Tríplice Ali­ ança. em caso de uma guerra contra a Rússia. Grey estava dizendo que a Inglaterra ia apoiar as potências as­ sociadas da Entente. observou um desgostoso Falkenhayn. Rússia e França. Grey. apenas foi forçada a tomar essas medidas por causa da Áustria”.. a qual um tsar indeciso e infeliz. o cáiser soube da advertência de Grey ao embai­ xador alemão em Londres na noite anterior. a Alemanha planejava atacar e subjugar a França antes de dar a volta e invadir a Rússia. Nesse ínterim..

os líderes franceses tentaram acionar os freios. tinha a fama de ter contrabandeado quantidades de rifles para Belfast debaixo da anágua.13 “Aquelas palavras produziram espanto na Galeria Feminina”. a filha do pri­ meiro-ministro. “Muitas das presentes estiveram muito energicamente empenhadas na preparação da guerra civil iminente . sem compreender o que estava acontecendo.” Londres. Violet Asquith. a senhora M. ela não deve proceder imediatamente no sentido de tomar quaisquer medidas que possam dar à Alemanha um pretexto para a mobilização total ou parcial das suas forças. juntamente com a sua madrasta. (cuja figuran se adap­ tava particularmente bem ao papel). etc.] E nos caímos numa armadilha.. o pri­ meiro-ministro Viviani passou ao governo russo um telegrama aconselhando cautela:14 “Entre as medidas preventivas e as medidas de­ fensivas de que a Rússia acredita ser obrigada a lançar mão. fazendo talas e tipóias. Mais cedo naquele dia. em vista dos perigos europeus.. levasse a Grã-Bretanha a uma guerra civil.frequentando au­ las na Cruz Vermelha. Com a aprovação do presidente Poincaré. preparando rolos de bandagem. [. diminuir a alta velocida­ de dos acontecimentos. Margot. Paris. porém. e ainda sem terem sido alcançados por todas as notícias do que tinha acontecido durante as suas ausências. observou Violet. De volta da sua longa viagem. Tratava-se de uma reviravolta rápida demais para a gente comum do Exército e do povo perceber. 260 .29 DE J U L H O estupidez e a rudeza da nossa aliada tornou-se um nó corrediço em nos­ sos pescoços. marcado para a Câmara dos Comuns naque­ la tarde. estiveram na Galeria Feminina da Câmara e a encontraram “lotada de espectadoras ansiosas e excitadas” que “deram um suspiro de admiração” quando o primeiro-ministro se levantou para mencionar o adiamento do debate ir­ landês. Havia no ar uma expectativa de que o debate ansiosamente aguardado sobre a Irlanda. de apresentarem uma frente unida. os líderes da oposição se encontraram com Asquith e chega­ ram a um acordo.”15 A própria França fez recuarem suas forças armadas a 10 quilómetros da fronteira franco-alemã.” Elas ficaram cho­ cadas com a notícia do adiamento. Uma matrona do Ulster.

“E não melhorou por causa da tentativa totalmente desavergonhada da Alemanha de comprar nossa neutralidade durante a guerra com promessas de que não iria anexar territórios franceses (exceto nas colónias) ou a Holanda e a Bélgica. observou o primeiro-ministro. que está num terrível estado de depressão e paralisia. como os russos estiveram fazendo por algum tempo. Enquanto isso.”16 261 . O centro comercial e financeiro de Londres. no mo­ mento é totalmente contra a intervenção inglesa. “A situação européia está pelo menos um grau pior do que estava ontem”.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U Londres. Acho que hoje a pers­ pectiva é muito sombria. Há algo de muito cru e pueril na diplomacia alemã. a França está começando a exercer pressão no sentido oposto.

CAPÍTULO 38: 31 DE JULHO J ules Cambon. telegrafou ao seu governo que a Alemanha estava prestes a iniciar a guerra sem es­ perar que a Rússia mobilizasse primeiro as suas forças. Os gabine­ tes combinados da Monarquia Dual —o seu Conselho Ministerial Comum . fizeram uma avaliação da notícia e decidiram seguir avante como planejado. inexplicavelmente. para a Sérvia. todo o fardo de defender a Áustria contra a Rússia recaiu sobre os ombros da Alemanha. não dissuadiu o Império Habsburgo de levar adiante. a pretendida invasão da Sérvia. Conrad havia planejado deslocar tropas para a frente russa se o tsar ordenasse a mobilização. Com isso. Samuel Williamson sugere que 262 . embaixador francês veterano em Berlim.1 A notícia da mobilização geral da Rússia chegou a Viena mas não teve o efeito esperado. apesar da probabilidade de que fazê-lo provocasse uma intervenção da Rússia. os Exércitos dos Habsburgo continuaram a marchar para o sul. ele não o fez.se reuniram. o que pode ter sido a verdadeira razão. mesmo que mais lentamente. Desdenhando obviamente a ameaça russa.

dou-lhe a minha palavra solene.5 263 . ou aceitar a responsabilidade de desencadear o conflito. ou a Alemanha também vai mobilizar suas tropas —e. minhas tropas não tomarão a iniciativa de nenhuma ação provocativa.O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U Conrad visava atacar a Sérvia o mais rápido possível. O cáiser tinha acabado de enviar um telegrama ao tsar dizendo que “a paz da Europa ainda pode ser mantida por você. para garantir que a luta começasse antes de os diplomatas poderem intervir. o embaixador alemão na Rússia en­ tregou um ultimato: interrompam a mobilização num prazo de 12 horas. Nós estamos longe de desejar a guerra. São Petersburgo. Viviani.3 Ele ofereceu continuar seus esforços de mediação. Ele telefonou para São Petersburgo em busca de informações. a mobilização alemã faria os países “chegarem extraordinariamente perto da guerra”. Francisco José passou um telegrama ao cáiser agra­ decendo a sua oferta de mediação e dizendo que tinha chegado tarde demais: a Rússia já mobilizou suas tropas e as tropas austríacas já estão marchando sobre a Sérvia.4 É tecnicamente impossível interromper nossas prepara­ ções militares. Enquanto continuarem as negociações com a Áustria sobre a Sérvia. e nada sabia sobre as mobilizações russas. aliada da França.” Nesse ínterim. Paris.2 Ao meio-dia. que começa a dar uma esperança de que tudo ainda pode acabar pacificamente. Quanto a isso. tinha de revogar sua proclamada mobi­ lização. O tsar respondeu: “Eu lhe agradeço cordialmente por sua media­ ção. chegou a Berlim a notícia de que a Rússia estava mobili­ zando tropas tanto contra a Alemanha como contra a Áustria. Rússia. Quase meia-noite. juntamente com o presidente Poincaré. que foram obrigatórias devido à mobilização austríaca. Naquela tarde. à diferença da Rússia. o embaixador alemão na França apresentou um ultimato a René Viviani. estivera ao mar. se a Rússia concordar em in­ terromper as medidas militares que necessariamente ameaçam a Alema­ nha e a Áustria-Hungria”. em sua condição de ministro das Relações Exte­ riores. advertia o alemão.

escreveu Winston Churchill à esposa. A Alemanha precisa marchar através da Bélgica. O comandante do Exército francês.é ficar de fora quase a qualquer custo”. Nós todos seremos arruinados se formos ar­ rastados ao conflito. embora as nuvens estejam cada vez mais carregadas e sombrias. tardiamente. que estava passando umas poucas semanas na Inglaterra antes de retornar ao Egito. general Joseph Joffre. O governador do Banco da Inglaterra me disse com lágrimas nos olhos: ‘Mantenha-nos fora disto. Arthur Ponsonby.’”8 Winston Churchill foi alertado por pelo menos um bem relaciona­ do membro liberal do Parlamento. e ele disse a um político íntimo: “Estou lutando arduamente pela paz. Mas essa não era a opinião geral. juntamente com lorde Kitchener. con­ ter a sua tola aliada. E. Smith. Em sua resposta. Churchill disse a Smith: “Não acredito que agora a guerra possa ser evitada. Todos os ban­ queiros e comerciantes estão nos suplicando para não intervirmos. ele recebeu de F. líder da ala radical do partido governante. pediu permissão ao governo para ordenar a mobilização geral. de que dentro do partido havia um sentimento “muito forte” e “muito difundido” contra a intervenção. e está tentando. Nós estamos trabalhando para abrandar a Rússia”. dos con­ servadores. O gabinete recusou. o quanto são vastas as forças contra ela. Asquith confidenciou que “a opinião em geral hoje . 264 . uma indicação de que o partido de oposição apoiaria o go­ verno se ele pegasse em armas contra uma invasão alemã da França através da Bélgica.”10 Paris. e creio que a maioria do dois partidos vai se opor firmemente a isto. onde servia como procônsul.particularmente forte no centro financei­ ro e comercial de Londres . o mais famoso general britânico.31 DE J U L H O Londres. “Ainda há esperança.6 Asquith tinha almoçado com Churchill.7 Lloyd George.9 Ao mesmo tempo. era talvez o único membro do gabinete com um número de seguidores suficiente­ mente importante para desafiar o primeiro-ministro. acho eu. Kitchener disse aos civis que a Grã-Bretanha tinha de apoiar a França. A Alemanha está compreendendo.

porém. Londres.é mais sensível e político quanto a manter uma posição ainda aberta”. e durante a reunião eles trocaram bilhetes entre si.. mas “Lloyd George — inteiramente pela paz . Winston Churchill pergun­ tou se podia ordenar a mobilização total da frota. profundamente dividido.. se fosse con­ vencido. o gabinete o autori­ zou a fazê-la no dia seguinte. Entre aqueles cujo ins­ tinto era contra a guerra. Num deles. Lloyde George era a figura-chave. Na reunião matinal do gabinete. Em vez disso. Joffre pediu outra vez permissão ao seu governo para ordenar J. o líder radical dava esperanças: “Se prevalecer a paciência e você não nos pressionar demais [.1 Churchill tinha sido seguidor de Lloyd George durante anos.uma mobilização geral imediata.” “Por 265 . “a maioria do partido” se opunha a intervir militarmente em qualquer circunstância.] há possibilidade de nos unirmos. Segundo o primeiro-ministro.CAPÍTULO 39: 1. recusou a permissão. O gabinete. poderia trazer outros consigo.DE AGOSTO T^aris.

Ele explicou que em vez de continuar as negociações com a Áustria. respon­ deu Churchill.. a assembléia dos Estados ale­ mães. Churchill dirigia uma torrente de retórica ao restante do gabinete. com redação alternativa. No mundo de 1914. Em resposta. A Bundesrat deu apoio unânime a Bethmann. ou a Alemanha mobilizaria as suas tropas.. a Alemanha telegrafou sua declaração de guerra ao seu embaixador na Rússia. nem se­ quer os generais e ministros compreendiam bem a diferença existente 266 . O ultimato à França fora fixado para expirar às treze horas.”4 Porém. escreveu Churchill em outro momento. Era meio-dia na Rússia. mas gostaria de ter de você as mesmas garantias que eu mesmo lhe dei — de que as medidas não significam guerra. Berlint. O meio-dia chegou e passou.” E outra vez: “Temos o resto das nossas vidas para ser­ mos oposição. para que se mantivesse neutra . a ser entregue em São Petersburgo.ou oponentes”.3 “[. “Não é exagero dizer que Winston ocupou toda a segunda metade” da reunião. Sinto-me profundamente ligado ao senhor e tenho segui­ do os seus instintos e a sua orientação há quase dez anos. Quase uma hora mais tarde. o tsar Nicolau recebeu a notícia da mobilização alemã.” Ao mesmo tempo. O chanceler falou na Bundesrat.2 “Anseio muito profundamente que nossa longa cooperação possa não ser interrompida”.] Imploro-lhe que venha e que dê a sua prestigiosa ajuda ao desempenho do nosso dever. de modo que ele pudesse afirmar que o governo do tsar ou bem tinha rejeitado o ultimato ou deixado de respondê-lo. Passou rapidamente um telegrama ao seu primo Guilherme: “Compreendo que seja obrigado a mobilizar suas tropas.ou então a Alemanha também decla­ raria guerra contra ela. Ele era famoso por não deixar ninguém tomar a palavra ou apartear. a Alemanha tinha dado um ulti­ mato ao governo russo: ou concordava em desmobilizar até o meio-dia. Tsarkoe Selo. e não houve resposta russa. a Rússia havia mobiliza­ do suas forças militares. o tsar estava errado.1Q DE A G O S T O Deus. é claro. apresentando o ponto de vista do governo. A Alemanha também enviara um ultimato à França.e desse garantias adequadas de assim permanecer .companheiros . É todo o nosso futuro .

O Ú L T I MO VERÃO E U R O P E U entre os vários tipos de mensagens preventivas que foram adotadas pelos vários países. disse a um ajudante: “Esta guerra vai virar uma guerra mundial e a Inglaterra também intervirá. A mensagem de Londres atrapalhava os planos do governo alemão. As ordens de Guilherme continuavam a valer para algumas coisas. O cáiser concordou em assinar as ordens de mobilização. Houve um momento em que isso teria sido um obstáculo fatal para seus planos. que havia chegado tarde. Mas eles encontraram um cáiser que relutava em fazê-lo. Moltke. A Inglaterra parecia estar dizendo 267 . em sua clareza insofismável. se destacava das demais: para a Alemanha. todavia. Seria me­ lhor se tivessem esperado. da duração e do final desta guerra. ainda não houvera resposta da Rússia. Berlim. Bethmann. Hoje ninguém tem a menor idéia de como vai acabar. visivelmente nervoso. Às quatro da tarde. O almirante Tirpitz sugeriu aos dois chefes do Exército que esperassem para lê-la. príncipe Lichnowsky. Moltke tinha rascunhado para Gui­ lherme um discurso ao povo alemão. eles se apres­ saram em partir com as suas ordens de mobilização assinadas. as instruções de Guilherme foram desconsideradas por seu próprio chanceler e ministro das Relações Exteriores. chegou um aviso do Ministério das Rela­ ções Exteriores de que uma importante mensagem da Grã-Bretanha es­ tava em processo de decifração. mas não para tudo. Durante a última semana de julho. Uma. Poucos podem ter uma idéia da extensão. mobilização significava guerra —em vinte e quatro horas. pois rapidamente receberiam ordens de retornar. que repetia as garantias que ele erradamente havia acredi­ tado que Sir Edward Grey lhe dera. Haviam decidido na noite anterior que a guerra tinha de ser declarada mesmo que a Rússia propu­ sesse negociar. mas já não era mais o caso. Falkenhayn e Bethmann foram ver o cáiser.”5 Quando o cáiser e seus chefes militares acabaram suas discussões e se preparavam para dispersar. senão antes. Em vez disso. que en­ traram em vigor no dia seguinte. O telegrama veio do embaixador de Berlim naquela cidade. por seus líderes militares e pelo im­ perador austríaco e seu governo. ficou zangado por Moltke ter usurpado a prerrogativa das autoridades civis.

isso tinha de ser modifica­ do. Segundo Moltke.1Q DE A G O S T O que. Pensei que meu coração ia estourar”. que era lançar o grosso das forças alemãs. do modo como a viam. se um acordo fosse feito para a Grã-Bretanha e a França permanecerem neutras. via Luxemburgo e Bélgica. Cancelar as ordens. argumentou Moltke. o movimento inicial dos Exércitos do cáiser seria to­ mar as estradas de ferro do neutro Luxemburgo antes que a França o fizesse.7 Com a Inglaterra e a França recusando a provocação para a guerra.6 Moltke ficou desalentado. Desde abril de 1913. O cáiser e seus assessores ficaram exultantes. O cáiser parecia incapaz de compreen­ der o plano de guerra em andamento.] para não invadir o Luxemburgo.. Após uma violenta discussão entre o cáiser e o chefe do Estado-maior. Isso praticamente ga­ rantia a vitória. enquanto continha a Rússia com uma força menor a leste. “a gota d’água seria que a Rússia também debandasse”. Agora que a França ia ficar fora da guerra. o Estado-maior não mantinha um plano generalizado de desdobramento apenas contra a Rússia. e então despachar um ultimato à neutra Bélgica para não se in­ trometer e deixar os Exércitos da Alemanha atravessá-la para invadir a França. contra a França. Isso deixava um problema fundamental não resolvido. se a Alemanha deixasse a França em paz. Como recordou logo depois. como oficial-chefe do Estado-maior responsável pelas operações. “o cáiser me disse: ‘Então nós só desdobramos a leste. um compro­ misso foi alcançado: a mobilização continuaria.. A Alemanha ficaria despojada de inimigos! 268 . e as tropas se deslocariam na direção da França. criaria o caos. “sem me perguntar. o cáiser virou-se para o ajudante de ordens presente e mandou telegrafar instruções imediatas [. mas então ficariam disponíveis para redesdobramento em massa para o leste. se viu em posição de total isolamento. O Exército já estava no processo de deslocar-se para atacar a Fran­ ça. com todo o Exército”’. A Alemanha fazia vezes de fiadora da neutralidade da Bélgica e do Luxemburgo. A rápida vitória sobre a França seria seguida por uma ágil transferência dos Exércitos da frente francesa para a russa. Inglaterra e França perma­ neceriam neutras na guerra da Alemanha contra a Rússia. No plano de guerra alemão. Moltke.

para jantar com ele e com Sir Edward Grey no Almirantado. E. Grey. porém. Então. como escreveu o rei George em sua resposta telegrafada: “Creio que deve haver algum mal-entendido.” Moltke telegrafou prontamente às suas forças ordens de prosseguir com a invasão do Luxemburgo. Afinal. ainda que em linguagem di­ plomática. Churchill convidou Bonar Law. Em sua confu­ são. Law. e mais uma vez prosseguiu a invasão alemã do Luxemburgo. Às sete horas da noite. Após o jantar. Porém. Eles começaram uma 269 . dizendo ao primeiro contingente que ele havia sido despachado por erro. Depois de ler o telegrama do rei George. declinou o convite. o cáiser disse a Moltke: “Agora pode fazer como quiser. o líder tóri. em resposta ao último telegrama de Moltke. outras unidades vieram para chamar de volta.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U Nesse ínterim. advertiu o embaixador alemão de que uma violação da neu­ tralidade belga tinha fortes possibilidades de levar a Grã-Bretanha a intervir. para juntar-se ao grupo. Smith pediu a Sir Max Aitken.”8 A oferta de neutralidade britânica e francesa jamais fora feita. Autorizado pelo gabinete. contra-ordens foram dadas de novo. Churchill jantou sozinho. as tropas alemãs tomaram o seu primeiro objetivo: uma estação ferroviária e um posto de telégrafo dentro do Luxem­ burgo. Londres. por volta das nove e meia. São Petersburgo. Smith e Aitken aparece­ ram e encontraram Churchill com dois amigos. Londres. Smith. Através de seu amigo tóri F. o cáiser e seu chanceler enviaram mensagens a Lon­ dres para selar a barganha: Guilherme ao rei George V. e Grey a certa altura saiu para encontrar-se com o primeiro-ministro. e Bethmann ao governo britânico. O embaixador alemão entregou a declaração de guer­ ra do seu país ao ministro das Relações Exteriores russo. ele entregou um documento que incorporava as duas versões que Berlim lhe havia fornecido: a afirmação de que a Rússia não tinha res­ pondido e a afirmação de que a resposta russa era insatisfatória. esperava-se o telegrama do rei George. o amigo mais próximo de Law. Às sete e meia.

E responderia pessoalmente ao gabinete. o que quer acontecesse. Chegou a notícia de que os alemães estavam adiando seu ultimato à Rússia. Londres recebeu uma comunicação da sua embaixada em Berlim de que o cáiser estava afirmando que seus esforços para manter a paz estavam sendo minados pela mobilização total da Rússia. os russos espe­ ravam obter o acordo da Marinha Real para enviar navios de transporte a portos bálticos antes da eclosão da guerra. que o gabinete lhe recusara a permissão de fazêlo naquela mesma manhã. Churchill disse a Asquith que ia ordenar a mobilização total da frota. Ele pegou uma chave e abriu-a.I a DE A G O S T O discussão sobre a crise. na manhã seguinte. é claro. chamou um táxi e correu ao Palácio de Buckingham à uma e meia da manhã para pegar a assinatura do monarca. sobre o que estava em vias de fazer.10 Berlim. Três dos homens jogaram uma partida de bridge com Churchill. Ele sabia. a Marinha Real estaria pronta. anotou o primeiro-ministro em seu diário. As cartas tinham acabado de ser dadas e o jogo começava quando chegou para Churchill uma caixa vermelha de despachos oficiais. 270 . Encontrou o primeiro-ministro tran­ cado com Grey e outros conselheiros. Aitken se foi. Dentro havia uma única folha de papel “sin­ gularmente desproporcional ao tamanho da caixa”. Mais tarde naquela noite. Os jornais em Berlim e Hamburgo contavam a história da “alian­ ça naval” entre a Grã-Bretanha e a Rússia. “e uma das mi­ nhas mais estranhas experiências foi sentar-me com ele vestido de rou­ pão enquanto eu lia a mensagem e a resposta proposta”. Havia algo que George V pudesse fazer para ajudar? Asquith rascunhou rapidamente uma nota ao tsar em nome do rei George. em que estava escrito: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. Eles transportariam as tro­ pas russas que iriam invadir o nordeste da Alemanha. Supostamente. Churchill retornou aos seus escritórios e passou o resto da noite tratando de garantir que. e as opiniões divergiram sobre o seu sig­ nificado.”9 Churchill passou sua mão de bridge para Aitken e partiu a pé para o número 10 da Downing Street. como Aitken escreveu mais tarde. “O rei foi arrancado da cama”. O primeiro-ministro não disse nada.

Quando a notícia da mobilização russa foi inicialmente divulgada. o adido militar bávaro confidenciou em seu diário: “Corri ao Ministério da Guerra. O governo manobrou brilhantemente para fazer parecer que fomos atacados. todos foram enganados. 271 .O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U Porém. O povo alemão acreditou.11 Rostos sorridentes em toda parte. o príncipe Louis não cuidou de ir a São Petersburgo: “A guerra que a Rússia nos impôs impediu” que a aliança naval russo-britânica fosse concluída. os partidos políticos. ainda não haviam começado. falou ainda mais claro: “O ânimo é radiante. Segundo a imprensa alemã.”12 O governo alemão anunciou que invasores russos haviam cruzado a fronteira do território alemão. como as conversações entre o almirante príncipe Louis de Battenberg e o Almirantado russo tinham sido marcadas para agosto. Todos trocando apertos de mão nos corredores: as pessoas se con­ gratulam por terem saltado o obstáculo. “A guerra que a Rússia nos impôs”: isto encarnava aquilo em que os alemães passaram a acreditar. a imprensa. o chefe do Estado-maior da Marinha do cáiser.” O povo alemão. levados a crer que a Rússia tinha começado a guerra. os sindicatos. Outro diarista.

que se reuniu excepcionalmente no domingo. começou andando um pouco na direção do envolvimen­ to. A reunião analisou mas rejeitou a opção de despa­ char uma força expedicionária ao continente.CAPÍTULO 40: 2 DE AGOSTO ondres. O gabinete britânico. Na sessão da tarde. mobilizando a frota. a Grã-Bretanha só era obrigada a agir se outros fiadores também o fizessem. conforme fora conjeturado em conversações secretas dos Estados-maiores do Exército poucos anos antes. mas foi então reconvocada até as seis e meia. O governo britânico assumiu a posição de que a sua responsabilidade em relação ao Luxemburgo era coletiva isto é. Grey advertiu o embaixador francês de que se a Marinha alemã atacasse a mal defendida costa atlân­ tica francesa. Era uma sessão de onze da manhã às duas da tarde. os ministros ratificaram a ordem de Churchil. o que a maioria dos membros do gabinete ignorava. Na sessão da manhã. Mas a Bélgica era uma outra história. a fiança de neutralidade Z 272 . a Marinha britânica ofereceria proteção à França. o gabinete soube da violação pela Alemanha da neutralidade do Luxemburgo. Entre as sessões matinal e da tarde.

ao mesmo tempo que tentava convencer o gabinete da correção da sua opinião e de Grey. Contudo. Asquith ordenou a mobilização do Exército. às seis e meia. (3) Não devemos esquecer os laços criados por nossa íntima e dura­ doura amizade com a França. A mudança do sentimento político ao longo do dia foi notável. e Grey já havia alertado o embaixador alemão da posição da Grã-Bretanha no assunto. a invasão alemã do Luxemburgo pressagiava uma invasão e ocupação também da Bélgica. ela só representava suas opiniões pessoais. (4) Não é do interesse da Grã-Bretanha que a França seja elimina­ da como grande potência. Contudo. (6) Nós temos a obrigação de impedir que a Bélgica seja utilizada e absorvida pela Alemanha. Isto colocava Asquith na curiosa posição de ser apoia­ do em sua política externa por seus oponentes políticos. numa carta pessoal. que não eram compartilhadas pelo seu Partido Liberal. quando o gabinete se reuniu novamente. Seu objetivo político dominante era manter o Partido Liberal unido quaisquer que fossem as decisões que o gabinete finalmente tomasse. a sua opinião sobre a situação européia. 273 . (5) Não podemos permitir que a Alemanha use o canal como base hostil.1 (2) Despachar a força expedicionária para ajudar a França neste momento está fora de questão e não serviria a nenhum objetivo. Antes da reunião matinal do gabinete. Ele calculava que “uns bons % do nosso próprio partido” na Câmara dos Comuns “são pela não intervenção absoluta a qualquer custo”.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U era claramente individual. Asquith tinha expresso por escrito. um ultimato alemão estava sendo recebido em Bruxelas. Naquela manhã. Pode-se considerar que esta formulação dos objetivos das políticas públicas do primeiro-ministro no momento em que a tempestade euro­ péia se formava é quase completamente abrangente. (1) Não temos obrigação de nenhum tipo nem com a França nem com a Rússia de dar apoio militar ou naval. De fato. ele havia recebido da lide­ rança conservadora uma garantia de apoio firme para a sua política de amparar a França.

Maria Adelaide.2 Se a Inglaterra entrasse na guerra. Basiléia.. O chefe militar da Itália disse que seu país não podia entrar em guerra em nenhuma hipótese. A Suécia e a Noruega deveriam ser pressionadas a mobilizarem-se contra a Rússia. pois suas forças armadas não tinham uni­ formes suficientes. os quais. O Japão deveria ser pressionado a agir contra a Rússia na Ásia. A grã-duquesa de Luxemburgo. e a Itália deveria dizer se ia ou não apoiar seus aliados Alemanha e Áustria. Moltke enviou algumas sugestões ao Ministério das Relações Exteriores “de natureza político-militar”. Cidade de Luxemburgo.. esboçara documentos secretamen­ te. Fontes alemãs relataram a Berlim que as autoridades suíças ha­ viam prendido agentes franceses que estavam despachando pombos-correio para a França com informes sobre os movimentos das tropas alemãs.] tinha. sugeria Moltke.3 Houve vazamentos de que isso não era verdade. telegrafou ao cáiser: “O grão-ducado está sendo ocupado neste momento 274 . A Suíça já se mobilizara.4 Portanto. para aumentar a pressão. e o chefe do Esta­ do-maior suíço. Roma. nas palavras do próprio embaixador da Ale­ manha. no Egito e na índia. que Roma tinha decidido per­ manecer neutra. O embaixador alemão soube pelo ministro das Relações Exterio­ res italiano. E que o conflito em que estavam engajadas no verão de 1914 era “uma guerra de agressão”.2 DE A G O S T O Berlim. que estava sendo concluída. A aliança secreta da Alemanha com a Turquia. a Alemanha deveria incitar levantes contra a Grã-Bretanha na África do Sul. às quais atribuía “algum valor do ponto de vista militar”. O Ministério das Relações Exteriores anunciou que a França e a Rússia já haviam dado início às hostilidades. Num relato posterior dessa entrevista. colocariam o Exército suíço sob comando alemão. confidenciou Moltke. San Giuliano afirmou que “a guerra empreen­ dida pela Áustria [. transformando deste modo a guerra européia numa guerra mundial. San Giuliano explicou que o tratado de aliança com a Alemanha e a Áustria só obrigava a Itália a apoiá-las se elas fossem ataca­ das. se ratificados. objetivo agressivo”. deveria ser tornada pública. o marquês de San Giuliano. a Itália ficaria de fora.

O ministro alemão mostrou-se então evasivo.”6 Ele prometeu indenizar plenamente o país. Tinha de mostrar-se. o chanceler alemão afirmou: “Nossas me­ didas no Luxemburgo não indicam ações hostis contra o Luxemburgo. na hora da reunião do gabinete britânico naquele anoi­ tecer havia amplo acordo de que a questão era a Bélgica. O representante da Alemanha pegou suas instru­ ções no cofre e desselou-as. Em resposta.”5 Ela protestou e exigiu que Guilherme respeitasse os direitos do país. Ele recebeu tais or­ dens em 2 de agosto.”7 Na verdade. Dentro havia um ultimato e a ordem para entregá-lo ao governo belga. Londres. que ele cumpriu naquela mesma noite. e se a pró­ pria Bélgica contra-atacasse seus invasores. mas dando a impressão de que houvesse acabado de ser escrita. o ministro das Relações Exteriores belga telefonou ao ministro residente da Alema­ nha para reclamar garantias.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U por tropas alemãs. não. Ele ainda não conhecia o conteúdo das ins­ truções lacradas que um mensageiro lhe entregara em 29 de julho. com ordens para não abrir até lhe dizerem para fazê-lo. a Grã-Bretanha estaria obrigada a ajudá-la. Redigida em 26 de julho. O ultimato dava doze horas à Bélgica para responder. Grey já havia pedido tanto à França como à Alemanha.8 Bruxelas. a Alemanha. para confirmarem o seu apoio às obrigações do tratado assinado por elas de proteger a neutralidade da Bélgica. 275 . a nota alemã queixava-se de movimentos de tropas francesas inteiramente imaginários e exigia que a Bélgica permitisse que as forças alemãs passas­ sem por seu território para enfrentar as francesas. Alarmado pela incursão alemã no Luxemburgo. são apenas medidas de proteção das estradas de ferro sob nossa adminis­ tração naquele país. A situação legal não estava inteiramente clara: tinha um fiador da neutralidade belga de agir mesmo se nenhum dos outros fiadores o fizessem? O gabinete acha­ va que se a violação da neutralidade belga fosse substancial. O embaixador alemão advertiu seu governo: “A questão se vamos violar o território belga em nossa guerra com a França pode ter importância decisiva em determinar a neutralidade da Inglaterra. contra um ataque pelos franceses. A França tinha dado a garantia.

Reunido naquele anoitecer. O primeiro-ministro ordenou a mobi­ lização do Exército. 276 .2 DE A G O S T O Londres. o gabinete britânico tomou co­ nhecimento de que a Alemanha havia invadido o Luxemburgo e parecia estar pronta a invadir a Bélgica.

marcharam sobre a Bélgica. anotou Asquith em particular.3 A mudança da opinião 277 . abriu hostilidades contra a Alemanha a partir do território do Luxemburgo”. as forças alemãs fizeram o mesmo. com uma grosseria quase austríaca”. Cidade de Luxemburgo.CAPÍTULO 41: 3 DE AGOSTO T^ruxelas. dos belgas. sem respeitar a neutralidade do Luxemburgo. Assumindo o comando das forças ar­ madas relativamente modestas do país. “Os alemães. ele ordenou a destruição das pontes e túneis que as tropas alemãs poderiam usar na sua invasão. o rei Albert. o gabinete soube do ultimato alemão à Bélgica. Em sua sessão matinal. ■LJ rejeitou o ultimato alemão. Não há um único soldado francês em território luxemburguês”. Distribuídas pelas forças invasoras alemãs. Na segunda-feira pela manhã. anunciando: “Consideran­ do que a França.1 O chefe do governo luxemburguês protestou junto ao governo alemão de que “esta declaração se funda num erro.2 Londres. proclamações circulavam em toda a cidade.

ergueu-se para dar garantias ao governo de que “podia retirar amanhã todas as suas tropas na Irlanda”.6 O primeiro-ministro e o secretário das Rela­ ções Exteriores deram a mesma resposta: entregar um ultimato. o gabinete era esmagadoramente contra qualquer intervenção. ficou claro que a Câmara dos Comuns o apoiava esmagadoramen­ te. mas quando chegou à questão da Bélgi­ ca. Naquela tarde. mas agora sentiam-se obrigados a en­ trar na luta. esta foi a decisão tomada. A questão passara a ser a Bélgica.5 Grey não tinha tido tempo de escrevê-lo com antecedência. em 1893”. Apenas uma semana antes. John Redmond. ao mesmo tempo em que. Então. O que vai acontecer agora? Violet Asquith perguntou a seu pai. depois de Grey ter acabado de falar. convocada após a sessão da Câmara dos Comuns. independentemente. Grey falou à Câmara dos Comuns. Asquith e Grey continuavam a tomar decisões sem pedir ou colocar em votação. segundo Barbara Tuchman. Lloyd George. O próprio Parlamento estava lotado de mem­ bros e de visitantes. eles queriam ficar de fora. De fato. era uma segunda-feira de folga. A opinião do gabinete era quase unânime. 278 . depois da reunião do gabinete. “registrava um comparecimento total pela primeira vez desde que Gladstone apresentou o decreto de autodeterminação da Irlanda [Home Rule Bill]. Na semana anterior. Ele narrou a história da crise. escreveu Asquith.3 DE A G O S T O ministerial foi dramática. Winston Churchill fazia a mesma pergunta a Grey. assumiu a liderança falando em favor da guerra. Não obstante. Londres estava lotada de turistas. anteriormente favorável à paz. conhecida pelos ingle­ ses como feriado bancário.4 “Grey fez um discurso extraordinário —de cerca de uma hora —em sua maior parte em tom de conversação”. a Grã-Bretanha estivera à beira de uma guerra civil por causa da questão da Irlanda. Naquele momento. a favor da intervenção. o principal líder dos na­ cionalistas irlandeses. pois “os católicos nacionalistas armados do Sul ficariam certamente muito contentes de juntar tropas com os Ulstersmen protestantes armados do Norte” para defender as costas do Reino Unido. a Câmara dos Comuns.

O Império Britânico entendia-se por todo o mun­ do e. daquele momento em diante. A certa altura dos acontecimentos. Às nove e meia da manhã. às duas horas da tarde Grey enviou a Berlim um ultimato exigindo respeito à neutralidade da Bélgica. Z A invasão da Bélgica pela Alemanha. transformou o que vinha sendo uma guerra continental em uma guerra mundial. por causa disso. 279 . protestando contra o ultimato à Bélgica e exigindo que fosse retirado. a ser confirmado até a meianoite. o que dava à Alemanha mais cinco horas para responder. decidindo-se então que seria do tempo continental. Como chegassem notícias sobre a intenção da Alemanha de inva­ dir a Bélgica. também a guerra. O telegrama foi enviado para o embaixador britânico. A Alemanha nunca respondeu. que fez a Grã-Bretanha entrar na guerra. que só pôde entregá-lo às sete horas da noite.CAPÍTULO 42: 4 DE AGOSTO ondres. Grey percebeu que o ultimato não especificava se a expiração era à meia-noite britânica ou do tempo continental. Grey enviou um telegrama à Alemanha.

Como nos diz A. índia (que então incluía o Paquistão e Bangladesh) e grande parte da África foram arrebatados numa guerra sem antes ser consultados. o rei George V “presidiu um conselho privado no Palácio de Buckingham” na noite de 4 de agosto “em que só estavam presentes um ministro e dois funcionários da cor­ te”. Austrália. a lógica obviamente confusa que os levou ao campo de batalha e. a qual ainda estava em paz com todos eles em 4 de agosto. Viena superou a sua relutância e declarou guerra contra a Rússia. O papel do gabinete foi pe­ queno. único país com o qual a Áustria estava em guerra. ao campo de batalha errado. como fez o vice-rei da índia”. sem aliados. houve “um pânico em Berlim”.apenas dias depois de ter declarado guerra . cada “governador-geral editou a proclamação real sob sua própria autoridade. naquela época pré-democrática. Considerando a importância determinante da decisão britânica. a França.3 Em 6 de agosto. é muitíssimo notável a maneira como. que estava lutando contra a Rússia. que. se observarmos com olhos modernos: “Os gover­ nos e Parlamentos dos Domínios não foram consultados. a Alemanha .tudo isso supostamente para apoiar a Áustria. Luxem­ burgo e a Bélgica . Nova Zelândia. e aos povos de outros países. pois as tropas alemãs continua­ vam a avançar sozinhas. a Alema­ nha não estava em guerra com. era o país que apresentava uma ameaça à existência da Áustria. ela foi tomada. nos conta o historiador Hartmut Pogge von Strandmann. Não é de admirar sentirem-se os beligerantes desde o começo obri­ gados a explicar aos seus próprios povos. Canadá. a Sérvia. ou lutando contra. 280 . A situação era peculiar de uma maneira diferente na Alemanha. Contudo. a Grã-Bretanha. África do Sul.” Em vez dis­ so.teria de apelar à paz nos melhores termos possíveis. O Parlamento não votou. Taylor.4 DE A G O S T O O memorando de Moltke em 2 de agosto ao Ministério das Relações Exteriores alemão deixava claro que o governo alemão o compreendia. P. o qual “sancionou a proclamação do estado de guerra”.1 E mais impressionante ainda. J. No dia seguinte. segundo Viena. aos olhos da Áustria.2 Moltke disse a Tirpitz em 5 de agosto que se a Áustria continuasse a esquivar-se.

” Contudo. é a primeira pessoa cujos papéis particulares nós gostaríamos de consultar. o historiador militar. e 4 de agosto. Isso poderia nos esclarecer coisas de que tomamos conhecimento com Holger Herwig. escreve em 1914: “Prova­ velmente. Pois a supressão ou destruição de provas é em si mesma uma prova. e o desafio é descobrir: prova de quê?1 Um exemplo eloquente é o da semana que começa na manhã de 28 de junho. Des­ confiados.CAPÍTULO 43: DESTRUINDO PROVAS ichael Howard. o maior responsável pelas decisões quanto ao que se seguiu. subsistem lacunas nos anais. os historiadores são obrigados a virar detetives e investigar o significado das lacunas. quando o arquiduque foi assassinado. conde von Berchtold. O ministro das Relações Exteriores. A Áustria-Hungria estava decidindo como reagir ao assassinato do seu herdeiro aparente. nenhum período de poucos dias na história do mundo foi submetido a escrutínio tão intenso como aquele entre 28 de junho. quando a GrãBretanha declarou guerra. autor de um trabalho magistral sobre a Áustria e a Alemanha na Primeira Guerra Mundial: “É interessante observar que o diário oficial de Berchtold no Ministério das Relações Exteriores é conspicuamente M 281 .

Isso sugere que na semana se­ guinte ao 27 de junho.D E S T R U I N D O PROVAS destituído de anotações no período entre Tl de junho e 5 de julho de 1914. É interessante notar. Os alemães não foram os únicos a destruir ou falsificar seus regis­ tros. tenderam a ser reescritos ou reestruturados. Além disso. todos os lados queriam provar que não a tinham começado. Riezler morreu após deixar instruções para que seus diários fossem destruídos. dois dias depois de ter declarado guerra. sugerindo enfaticamente que aquelas seções centralmen­ te relevantes tenham sido reescritas . as autoridades sob sucessivos regimes alemães até e inclusive o go­ verno nazista levaram a cabo uma campanha de desinformação que foi descrita por Herwig em detalhes em seu ensaio “Clio Deceived” [Clio ludibriada]. depois do Armistício. Nas primeiras semanas da guerra de 1914. Os papéis de Miiller. também. “metade dos trinta documentos eram falsificações clamorosas”. o Ministério das Rela­ 282 . Quando a Alemanha se justificou publicando documentos em 3 de agosto. Depois de muitas manobras e discussões. Mas o exame mos­ trou que. nos arquivos de guerra de Viena. depois. em vez disso. O resultado foi que. mesmo décadas após a guerra. que os re­ gistros dos serviços de inteligência austríacos. secretário particular do chanceler alemão. a quem ela foi oficialmente atribuída no Tratado de Versalhes de 1919. os quais. chefe do gabinete naval do cáiser. embora tenham sobrevivido. As autoridades alemãs incitaram a supressão de partes relevantes dos papéis de Moltke. Os papéis pessoais de Bethmann tinham sido removidos ou destruídos uma ou duas décadas antes. Os diários de Kurt Riezler. e só são retomados um ano depois. os meses-chave de julho e agosto estavam registrados. foram expurgados. todos queriam evitar a “culpa da guerra”. Berchtold estaria fazendo coisas que sabia que um dia poderia querer negar. interrompem-se em 28 de junho.e colocadas no lugar do original. mesmo quando recuperados. ilustra as dificuldades enfrentadas pelos estudiosos pesquisadores. em folhas soltas e de outra maneira. enquanto os diários de antes e depois do verão de 1914 ti­ nham sido escritos em pequenos cadernos de exercício.” Há uma lacuna de uma semana. houve uma tendência a destruir indícios em vez de recuperá-los. Durante a Primeira Guerra Mundial. especialmente a Alemanha. os papéis de Riezler foram recuperados.

” Sobre um esforço semelhante da parte de São Petersburgo. é uma coletânea de do­ cumentos oficiais. mutilados ou falsificados. do T.um trabalho sobre o qual Albertini escreveu nos anos 1940: “Ele passa em revista 159 documentos. para permitir a pesquisa em originais. todos os registros de conversas te­ lefónicas e anotações de outras comunicações verbais nos anos em questão foram extraviados no Ministério das Relações Exteriores alemão. muitos dos quais altera­ dos. Todos os registros relativos a ambos foram extraviados. Porém. e numa cesta de roupa suja no sótão do solar Hertfeld. publicou. diários e afins foi tão amplamente sistemática ao longo das décadas se­ guintes quanto na Alemanha. nos diz um importante pesquisador deste campo. Imanuel Geiss. alguns consideravelmente fraudados”. foram os estudiosos alemães. Assim. e as discus­ sões entre os líderes alemães na semana do 27 de julho. publicada em vários países europeus após acontecimentos importantes. em Wiirttemberg. Foi assim que John Rõhl. que tomaram a iniciativa da desco­ berta ou restituição de fragmentos esparsos de registro. que resultaram no “cheque em branco”. Albertini escreve que o Livro laranja russo “apre­ senta 79 documentos. desapareceram do Ministério das Relações Exteriores. (N. * O Livre jaune [Livro amarelo]. To­ dos os registros das conversações do cáiser com líderes militares e políti­ cos ao longo do mês de julho também foram extraviados.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U çÕes Exteriores francês publicou um Livre jaune* para justificar tudo o que havia feito . que levaram à decisão de entrar em guerra. A propósito. que também pode ser azul.. na Alemanha Ocidental junto à fronteira holandesa”. começando pelo corajo­ so Fritz Fischer na década de 1960. dois documentos de considerável importância. no começo da década de 1970. como uma guerra. branco. Nenhum minuto das reuniões do gabinete sérvio em 1914 foi preservado. os dois pontos críticos foram as conversações de 5 de julho com os austríacos. diplomáticos.) 283 . frequentemente por meio de um trabalho de campo arrojado e imaginativo. Neste tocante. uma destacada autoridade na Alemanha guilhermina. “descobertos num baú no porão do castelo Hemmingen. em parte alguma a supressão ou destruição de registros. E os arqui­ vos da Sérvia estiveram fechados por meio século. No lado alemão.. não há nenhum registro de conversações da Alemanha em Berlim com po­ tências estrangeiras. laranja.

apesar da destruição e da falsificação maciças de provas.D E S T R U I N D O PROVAS escreve ele. revelar grande parte do que realmente aconteceu. Como veremos.2 Os dois documentos ficaram escondidos por meio século. “quando eu estava procurando cartas”. nós temos de tirar a conclusão óbvia e de senso comum de que os documentos destruídos ou escondidos eram embara­ çosos ou incriminatórios. e que o esforço para apagar ou falsificar o re­ gistro histórico foi empreendido a fim de negar a responsabilidade pela guerra. não obstante. No cômputo geral. 284 . o conhecimento moderno tornou possível.

PARTE O ITO O MISTÉRIO DESVENDADO .

fre­ quentemente acabava com todos os personagens sobreviventes reunidos numa sala. no salão de baile de um hotel ou na biblioteca de uma casa de campo. se é que havia alguém. Já A 287 . no saguão de um navio. em nossa própria investigação. estava por trás do garoto que puxou o gatilho. em alguns aspectos. Há a pergunta simplesde quem foi: quem. Lá.CAPÍTULO 44: REUNIÃO NA BIBLIOTECA investigação das circunstâncias em torno da eclosão das hostilida­ des em 1914 resulta em descobertas que. A velha história de detetive que se tornou popular com a geração que emergiu da Grande Guerra. pare­ cem com um romance policial. a sala em que nos reunire­ mos para fazer nosso sumário tem necessariamente de ser uma bibliote­ ca. E também há a pergunta complexa de quem foi: quem. o Hercule Poirot de Agatha Christie ou algum detetive parecido explicaria o que realmente aconteceu e res­ ponderia à pergunta elementar: quem foi? Para nós. particularmente na Grã-Bretanha. se é que havia al­ guém. deliberadamente manipulou a situação resultante visando des­ truir a ordem existente na Europa. Os que tiveram um papel na crise de julho já não estão mais vivos.

componham. o historiador italiano que morreu nos anos de abertura da Segunda Guerra Mundial. Memórias tinham sido perdidas. pelo menos em seus detalhes principais. procurando contradições e discrepâncias. descober­ tas são feitas. década após década. comparando os seus relatos. foi talvez o último historiador dos acontecimentos de 1914 a poder conduzir sua inquirição investigando à maneira dos detetives: to­ mando o depoimento de testemunhas e de suspeitos. Hoje em dia. Seus volumes são os últimos de investigação policial. destes. com cujas consequências nós ainda vivemos. documentos ocultos são recuperados e exibidos à luz do dia. Uma nova era se abriu. um relato fidedigno do que aconteceu naquele verão seminal de 1914. mas arquivos foram encontrados. interrogando-os. os participantes já não falam mais conosco. que escavou os arquivos como os arqueólogos escavam em campo. Luigi Albertini. talvez uns cinquenta ou cem da era pós-Fischer. 288 . É verdade. ano após ano. novas abordagens são viabilizadas. a partir dos anos 1960. tomados em conjunto. porém. Milhares de volumes foram escritos sobre as origens da Primeira Guerra Mundial.R E U NI ÃO NA B I B L I OT E C A não podem mais responder às nossas perguntas em pessoa. mas a literatura fala. Seu exemplo foi seguido e levou a no­ vas descobertas. com a publicação da pesquisa pioneira de Fritz Fischer.

CAPÍTULO 45: O QUE NÃO ACONTECEU a era pós-Fischer. como o homem nas ruas parece ter acreditado na época. N 289 . não é verdade. não sobre se haveria ou não guerra. internamente. as potências eram vítimas de uma violenta rivalidade social. que o mundo europeu de junho de 1914 fosse uma espécie de Éden no qual a eclosão das hostili­ dades entre as principais potências foi uma surpresa. a Europa era presa de uma corrida armamentista sem precedentes. Segundo os estudos mais recentes e convincentes. como reconheciam as elites políticas e militares. Mas o conhecimento não impregnou eficazmente a consciência do público mais amplo. os estudiosos revisaram muitas das opiniões que se costumavam sustentar sobre as origens da Grande Guerra. industrial e política. e os Estados-maiores trocavam idéias constantemente. mas quando e onde seria. e como os in­ gleses e outros deveriam escrever mais tarde. Grande parte do que as pessoas continuam a dizer e pensar sobre os acontecimentos de julho de 1914 é hoje questionada e contes­ tada pelos estudiosos. Ao contrário.

AÁustria-Hungria afligia-se com a possibilidade de não ser capaz de conter a maré eslávica. As raízes da iniciativa alemã podem ser data­ das. quando eles agarraram a oportunidade e optaram por provocar a guerra preventiva com que tão longamente sonharam. foi a expansão militar. Foi a Segunda Guerra dos Bálcãs e suas consequências que convenceram Berchtold e seu Minis­ tério das Relações Exteriores de que a Áustria-Hungria tinha de destruir a Sérvia. e em Sarajevo. longe de emergirem como sur­ presa. O que ninguém sabia era quando ia haver guerra: em que ano ou. pelo menos na minha opinião.O Q UE NÃO A C O N T E C E U Mesmo onde surgiram transtornos. Tampouco é verdade. eles puderam ser discernidos previamente. teve lugar repentinamente na última semana de julho de 1914. caso seja. e poderiam ter sido facilmente derrotadas. Os líderes alemães se preocupa­ vam com a possibilidade (que alguns líderes russos esperavam) de o Im­ pério Habsburgo também desmoronar. Por isso eles olhavam com tristeza para 1905: tanto a Rússia quanto a França estavam temporariamente enfraquecidas naquele ano. que a marcha para a guerra começou em 28 de julho. em que o Império Otomano podia desaparecer completamente da Europa. Na sequência dos assassinatos de 28 de junho. em que década. Viena acreditou que eram produto de um complô arquitetado e organizado pela Sérvia. Revelou-se 290 . dava fortemente a impressão de que teria de lançar rapi­ damente uma guerra ou desistir. As chancelarias da Europa previam que os instáveis Bálcãs estariam rapidamente prontos para uma outra rodada de guerras. Estava dilacerada por milhares de inimizades e era conspicuamente belicosa. a França. A Europa que pegou em armas no verão de 1914 não era um lugar calmo e pacífico. A Alemanha aumentava os impostos para acelerar seus programas militares a taxas insustentáveis. Será lembrado que Viena começou a esboçar seu plano-memorando para esmagar a Sérvia duas semanas antes dos acontecimentos de Sarajevo. quando seus líderes militares começaram a advogar a proposta de guerra preven­ tiva. O gesto. nalgum momento da década 1904-1914. ele mesmo. ferroviária e industrial russa após 1905 que despertou em seus generais o desejo urgente de lançar uma guerra preventiva contra a Rússia e sua aliada. Quanto à Alemanha. consequentemente.

recorria ao apoio de funcioná­ rios do baixo escalão do governo sérvio e aos recursos da organização cultural nacionalista sérvia Narodna Odbrana.O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U que isto não era inteiramente verdade. como vimos. foi cometido por uma pessoa. rios e florestas. que proveu armas. homens e mulheres ajudaram escravos africanos a fugirem para a liberdade por meio de uma complexa rede informal de caminhos e meios clandestinos através de campos. ainda que fosse as­ sistido por outras pessoas. Não houve terceira bala. o primeiro-ministro não era responsá­ vel pelo que eles fizeram. conseqiientemente. mas liderava uma equipe. (N. A Sérvia tinha algumas responsabilidades. 28 de junho de 1914. Outro membro do seu bando tentou o assassinato. mas fracassou. * Trata-se da tradução literal da expressão “grassy knoll”.) 291 . súdito austríaco. Não há dúvida de que a bala que matou o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando em Sarajevo no final da manhã de domingo. Como ele. eram oficiais do alto escalão do Exército que se infiltraram no governo sérvio. Do século XVII ao XIX. como manteve até o final. um bósnio e.* A trama do assassinato talvez não tivesse êxito sem o apoio essen­ cial da sociedade secreta sérvia Mão Negra. conotando trama oculta ou subterfugio. Seu ato —hoje podemos confirmar —foi viabilizado pelo apoio de oficiais dissidentes do Exército sérvio. Tratava-se de uma facção político-militar conspirando contra o primeiro-ministro. mas não todas. que se tornou genérica. A Mão Negra. do T. (N. assim. por sua vez. do T. os outros eram jovens amadores motivados por ideologias nacionalistas ou afins. Apis e seus principais lugares-tenentes. Ele agiu provavel­ mente (mas não certamente) por iniciativa própria. os ativos chefes da Mão Negra. Princip agiu sozi­ nho. Embora afirmasse o contrário durante alguns poucos dias após a sua captura. Ele pode ter originado só a idéia de assassinar Francisco Ferdinando. treina­ mento de tiro e uma “estrada de ferro clandestina”** para contrabandear Princip e um colega através de postos de fronteiras e alfândegas da Sérvia até a Bósnia. e não sérvio. a partir das especulações sobre a existência de conspiração no assassinato do presidente John Kennedy. O assassinato. o terceiro tiro tendo sido disparado de uma elevação gramada à direita do automóvel presidencial. veio de uma arma manuseada pelo estudante secun­ dário terrorista Gavrilo Princip. Não houve elevação gramada.) ’* A expressão entre aspas evoca a memória das rotas de fiiga do movimento antiescravista conhecido na história dos Estados Unidos como Underground Railroad. No final. Princip não agiu inteiramente só.

somente uma série de erros graves e de coincidências que ninguém podia ter esperado levou ao bom êxito da trama de Princip. Porém. até ou­ vir sobre a planejada viagem do arquiduque. o jovem acreditava que ele fosse antieslavo. Apis tenha decidi­ do facilitar os planos do pequeno bando de adolescentes incompetentes por ter suposto que eles iriam fracassar? Se assim tivesse sido. Princip e seus amigos secundaristas. Princip tinha ouvido falar que o herdeiro era um moderado cuja política de atração podia colocar todos os eslavos dos Bálcãs sob controle austríaco. Como outros terroristas.O Q U E NÃO A C O N T E C E U Rumores circularam na época e durante décadas a seguir de que a Rússia deu apoio financeiro à Mão Negra e aos conspiradores de Sarajevo. o representante na Sérvia. a questão da motivação de Apis é mais complexa. sem dar 292 . Eram adolescentes amadores sem qualquer treinamento ou experiência militar. Como iriam passar pela guarda pessoal daquela que seria uma das figuras políticas mais fortemente bem guardadas da Europa? Não há dúvida. Parece que Apis. que matou Francisco Ferdinando. Como destacou A. como Taylor sugeriu. não tinha mui­ to mais informação do que Princip sobre a política que Francisco Ferdi­ nando propugnava. apoiou o primeiro-ministro Pasic contra a Mão Branca. Embora o arquiduque fosse o membro mais pró-eslavo da hierarquia Habsburgo. Princip deve ter acreditado que matar os líderes do governo desmoralizaria as classes governantes. P. Princip temia que as manobras militares anuais que Francisco Ferdinando estava inspecionando mascarassem uma força de invasão que lançaria um ataque surpresa contra a Sérvia (falso). J. mas eram indivíduos que não representavam seu governo na questão. não podiam inspirar muita confiança como grupo de matadores. Ele tinha aca­ lentado esperanças de assassinar outro funcionário Habsburgo. e sem nenhum conhecimento de armas. Não é mais provável que. na época em que se fizeram conhecer por agentes da Mão Negra. Parece que isto não tem base. Taylor. o fez por um amontoa­ do de razões mal informadas. Hartwig. Adidos diplomáticos mais jovens de fé pan-eslava podem ter sabido da ajuda de Apis a Princip e podem ter expressado simpatia. e isso certamente há de ter excluído a possibilidade de qualquer ajuda dos russos ao grupo terrorista. O homem pan-eslavo da Rússia nos Bálcãs. que facilitou a façanha de Princip. Princip.

eles podem ter sido planeja­ dos na época mais como uma manobra na política interna sérvia. mas não um mero pretexto.. tornou-se lugar-comum entre historiadores que os assassi­ natos em Sarajevo serviram como mero pretexto para desencadear a guerra contra a Sérvia.estava genuinamente ultrajado pelo assassinato do ami­ go. eles neutralizaram a oposição das 293 . Eles foram um pretexto. O governo da Áustria-Hungria. Ao contrário. foram inspiradas por um desejo de punir o culpado. Acreditou-se amplamente que as ações da Áustria-Hungria. usou os acontecimentos de 28 de junho como descul­ pa para fazer o que havia planejado fazer de qualquer modo. pois ao eliminar o arqui­ duque e mudar a posição do cáiser. aliviado de que o casal que ninguém amava tivesse sido tão convenientemente re­ movido de cena . em 28 de julho. Na verdade. a tentativa de assassinato podia ter seriamente embaraçado o primeiro-ministro sérvio —i n im ig o de Apis . Ele já o havia recusado antes. enquanto o mundo sempre pensou que os assassinatos de Sarajevo fos­ sem um episódio na política internacional. nem zangado nem triste pela morte do arquiduque e sua consorte . Mas ele —pratica­ mente sozinho . a Áustria-Hungria não dava importância ao fato de a Sérvia ser ou não culpada dos assassinatos. Mais tarde.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U um pretexto à Áustria para tomar iniciativas. a aprovação alemã era tudo que estava faltando. estava arrebatado. Ainda melhor. O cáiser Guilherme normalmente teria se recusado a dar apoio a uma agressão austríaca. ele mudou de idéia e optou pela guerra para vingar o seu melhor amigo. Os assassínios foram importantes em si mesmos. Assim. alguns membros da corte imperial chegaram perto de dar boasvindas ao assassinato. Como o seu ídolo homérico. desde a Afron­ ta em 28 de junho até a declaração de guerra contra a Sérvia. Aquiles.na verdade.que estava condenando a Sérvia com base em provas insuficientes. especialmente nas iminentes eleições de 14 de agosto. Até o 28 de junho. como agora sabemos.. que era vital para o sucesso do plano austríaco de atacar a Sérvia. os assassinatos proveram uma oportunidade de garantir o apoio da Alemanha. Evidentemente. ou pelo menos dava impressão de estar. Argumenta­ ram os críticos que Viena estava julgando rápido demais .

um cheque em branco dá poder sem responsabilidade a um grupo de dirigentes.O Q U E NÂO A C O N T E C E U duas pessoas que provavelmente continuariam a impedir o governo Habsburgo de tomar a iniciativa de subjugar a Sérvia. a Áustria continuou recebendo ordens da Alemanha. Apesar de todo o ódio dirigido contra ele pelos Aliados na guerra de 1914-1918 —“Enforquem o cáiser!”. em 28 de julho. em vez de tomar decisões estouvadamente pela aliada. Os acontecimentos-chave subsequentes da evolução na direção da guer­ ra com a Sérvia ocorreram em 5-6 de julho. Guilherme e Francisco Ferdinando eram as duas figuras públicas mais 294 . os historiadores têm condenado este gesto: um governo é responsável por suas decisões. foi porque o ministro alemão das Relações Exteriores tinha lhes dito para fazê-lo. Foi o cáiser quem decidiu dar o cheque em branco. Mas a Alemanha não teve motivos para lamentar a sua insensatez de ter emitido um cheque em branco. Seus líderes militares e civis aprovaram a decisão. Foi somente pela segurança que ele deu que Francisco José. não Viena. ele era a principal força a favor da paz no governo do seu país. mas seria errado dizer que sua emissão se mostrou irrelevante. assim. quando o cáiser Guilherme e seu governo deram o cheque em branco para a Áustria-Hungria. É verdade que os austríacos não cancelaram a guerra quando o cáiser lhes deu ordens para fazê-lo no final de julho. Por mais que fosse um monarca turbulento. dizia um canto popular na Grã-Bretanha o cheque foi o único aspecto pelo qual ele figurava entre os principais responsáveis pela eclosão da guerra. mas quando declararam guerra contra a Sérvia. e responsabilidade sem poder ao outro. na prática. ameaçador e desequi­ librado. O chanceler Bethmann planejou a estratégia de invasão que Berchtold e seu governo se encarregaram de seguir. Berchtold e Conrad tomaram o caminho que levou à guerra contra a Sérvia. Falando cruamente. O cheque em branco nunca foi descontado. que pre­ parou a campanha diplomática pela “localização” que se seguiu. compartilhando assim a responsa­ bilidade. Ao contrário. Corretamente. foi Berlim. o cheque jamais foi usado. o cáiser não queria levar seu país e a Europa a uma guerra.

é que a facção pró-guerra encontrou aberta a sua janela de oportunidade. quando Poincaré e Viviani retornaram da Rússia. não foi assim que os acontecimentos se desenrolaram. e foi somente então que a crise foi detonada. e os governos da Alemanha e da Áustria tiveram êxito. foi em 24 de julho. nem gradativamente nem de nenhum outro modo. conforme observou-se anteriormente. Francisco Fer­ dinando permanentemente e Guilherme apenas provisoriamente. grupos terroristas. em seguida. Ele pensava es­ tar estimulando a Áustria a fazer a guerra contra a Sérvia. e talvez até fomentasse. O ultimato que a Áustria-Hungria entregou à Sérvia em 23 de julho chocou a Europa. o cáiser não acreditava que estava iniciando uma guerra entre as grandes potências. os sérvios não deviam ter recebido um ultimato. Nós continuamos a nos questionar em relação à época. Ele sugere uma tensão gradativa. mas que ne­ nhuma das outras potências entraria em guerra. Mesmo na questão do cheque em branco. a Europa não ficou alarmada. já não acham as exigências da Áustria ultrajan­ tes. em fingir que nenhuma preparação estava em curso para a queda da Sérvia. Somente quan­ do foram removidos do processo de tomada de decisões. O próprio nome que os historiadores deram aos 37 dias desde os acon­ tecimentos de Sarajevo até a guerra mundial . A conferência do cheque em branco de 5-6 de julho e suas decisões foram secretas. A opinião disseminada na época era de que nenhum país que aceitasse seus termos poderia permanecer independente. Mas depois das experiências do brutal século XX. para a França. porém. Mas achamos que a Sérvia é em grande parte culpada. os historiadores ficaram menos sensíveis. sempre optavam pela paz. no fim das contas. mas eram eles quem mantinham os irascíveis sob controle e. Ela foi o campo de treinamento e a plataforma do comando assassino que 295 .a “crise de julho” —tende a enganar. dia a dia. Uma cópia do ultimato austríaco à Sérvia foi entregue aos Ministé­ rios das Relações Exteriores europeus em 23 ou 24 de julho. desprevenida.O Ú L T I M O VERÃO E U R OP E U detestáveis da Europa. Assim. Para a Rússia e a Grã-Bretanha. aconteceu quase uma semana depois. A Sérvia abrigava. Ele parecia ter certeza disso.

o des­ mantelamento do apoio logístico aos terroristas. Mas se um governo não tem o poder de impor a lei dentro dos seus próprios domínios —se não tem o poder de impedir que seu território seja usado para agredir outros países . Os historiadores já não acredi­ tam mais nisso. ele terá seu direito à soberania confiscado nesse aspecto. a dispersão das organiza­ ções que tenham apoiado ataques contra a Áustria e o esforço de levar os culpados a julgamento têm uma aura de século XXI. Foi no exercício desse direito que as forças americanas do general John Pershing receberam ordens de perseguir o bando de Pancho Villa den­ tro do território mexicano. no despertar do novo milénio. agiu de modo semelhante no Afeganistão. no terri­ tório estadunidense. portanto. é de que a Rússia não deu tal conselho e. minutado para ser ambíguo. com a ajuda dos seus aliados da OTAN. Tendo de encarar os eleitores do seu turbulento país em 14 de agosto. ao mesmo tempo em que. e o país prejudicado poderá enviar suas próprias tropas para punir os culpados e prevenir novos ataques. precisava dar a impressão de que concordava com todas as concessões exigidas. após a incursão de Villa.O Q UE NÂO A C O N T E C E U matou o herdeiro aparente dos Habsburgo. O princípio de que cada governo deve impedir forças armadas de usar seu território como base para atacar outros países é básico para o direito internacional. A Rússia foi acusada por alguns historiadores de encorajar Pasic a evitar a rendição total. o povo sérvio tinha claramente exultado com o assassinato. O documento foi. ao responder a Viena. A visão corrente entre historiadores.. Em 2001. Os leitores poderão julgar por si mesmos por meio da leitura das notas (Apêndices 1 e 2). O nó da questão é perceber que o que Pasic escreveu na resposta ao ultimato não tinha importância: a Áustria decidira previamente não acei­ 296 . o primeiro-ministro Pasic precisava convencê-los de que estava fazendo poucas concessões. o governo dos Estados Unidos. ao contrário. A decisão da Áustria de responder com a invasão da Sérvia. estimulou a Sérvia a fazer a paz com a Áustria. hoje. Além disso. a Sérvia tinha concordado com quase todos os termos da Áustria. Acreditou-se na época que. em sua resposta. em 1916.

A Áustria continuou a mover-se lentamente. ao contrário. apoiado por seu governo. na verdade. pois cada país tendia a desestimular seus aliados a correrem riscos com questões em que somen­ te um deles tivesse interesses sérios. secretário de Bethmann) restringia o aventureirismo e conduzia à paz. Os tratados. mas contudo se uniu a elas. mas não o fez: a Alemanha não apoiou cegamente a agressividade da Áustria. portanto. juntando-se depois aos Aliados.em particular o sistema de alian­ ças supostamente rígido demais . O ultimato. A GrãBretanha. rejeitou a resposta em 25 de julho e declarou guerra ao país em 28 de julho. A Itália estava ligada à Alemanha e à Áustria na Tríplice Aliança. Isso mudou crucialmente em 1909. Os pactos de aliança não levaram países à guerra. o siste­ ma de alianças (como observou Kurt Riezler. não importa qual fosse. Acreditou-se amplamente durante longo tempo que a estrutura política do mundo europeu em 1914 . mas per­ maneceu neutra em 1914. Ignorando a linguagem do tratado de aliança de 1879. isso não parece ser verdade. não determinaram que países decidiram lutar e em que lado. por outro lado. ela levou-a à agressividade e lhe deu ordens para ir 297 .fez o conflito aumentar e envolver as grandes potências. Moltke. que causou a derrubada da ordem européia em 1914? Poderia ter causado. Retrospectivamente. Os co-partícipes continham o ímpeto uns dos outros porque não queriam participar das disputas dos outros. ao passo que a Rússia acautelava a França quanto ao Marrocos. Ela apresentou seu ultimato à Sérvia em 23 de julho. A França geralmente desencorajava a Rússia nos Bálcãs. Depois disso. certa ou errada.O Ú L T I M O VERÂO E U R OP E U tar a resposta sérvia. como vinha fazendo desde 5-6 de julho. não tinha nenhum tratado de aliança com a França e a Rússia. Foi essa disposição alemã de apoiar um aliado. foi escrito com o objetivo de tornar praticamente impossível a Sérvia aceitá-lo. afirmou que a Alemanha era obrigada a apoiar a Áus­ tria mesmo se ela tivesse começado a guerra. Os tratados eram normalmente defensivos. tomou medidas para se preparar para enfrentar o inimigo. um país prometendo ajuda apenas se o outro fosse atacado. Ao contrário. mas sempre adiante.

Mas não era verdade nas circunstâncias do verão de 1914.O QUE NÃO A C O N T E C E U mais longe e mais rápido. A situação fugiu ao controle! Eis a mais difundida das explicações. os líderes alemães a es­ peravam e aguardavam: era a sua desculpa para conseguirem conquistar o apoio essencial do seu povo. mas a situação fugiu ao controle”. E. muitos dos quais certamente não eram responsáveis.inclusive o da Rússia —e a grande maioria das nações são em si pacíficos. E longe de temerem a mobilização russa. o chanceler Bethmann. Elas foram atacadas pela Alemanha e pela Áustria. o ministro da Relações Exteriores russo. a Rússia e a Sérvia não estavam totalmente no controle das suas respectivas situações. É verdadeiro dizer que a França. Porém. A aliança austríaca não arrastou a Alemanha para a guerra. pelas exigências de cronogramas ferroviários ou por requisitos do sistema de alianças que uma guerra lhes foi imposta no verão de 1914. O governo alemão tinha decidido entrar em guerra antes de a Rússia mobilizar-se. a decisão alemã não pode ter sido causada pela decisão russa. o melhor de tudo. sabia que se a Rússia se mobilizasse. O que então causou a guerra? Ou quem? Na tarde do dia 31 de julho. não iria funcionar. quando a Alemanha se preparava para dar início às hostilidades. Absolvia os políticos de culpa. Sazonov. Diz-se frequentemente que o que levou à guerra foi a decisão russa de mobilizar-se. foi a aliança alemã que empurrou a Áustria à guerra: a guerra contra a Rússia e seus aliados mundiais. Ela parecia justa e imparcial. isso poderia ser verdade. concluiu dizendo que “todos os governos . a Alemanha. como o historiador Marc Trachtenberg e outros argumentaram convin­ centemente. colocando a culpa na Rússia. num discurso ao seu gabinete. decla­ 298 . provia uma resposta plausível à questão de outro modo desconcertante do que causara a guerra —e do que significava “causa” naquele contexto. conseqiientemente. Todas queriam per­ manecer em paz. Em outras circunstâncias. Mas não foi pelas consequências involuntárias da mobilização. Foi porque elas foram atacadas. mas a paz não era uma opção disponível para elas. pois os dirigentes compreendiam as con­ sequências dos seus atos.

não teriam ocorrido. a Alemanha ia fazer exatamente a mesma coisa: culpar a Rússia e declarar guerra. inexorável como as batidas de um relógio. Do modo como viam. o governo austro-húngaro impôs deli­ beradamente uma guerra à Sérvia. Eles só eram responsáveis pelo momento e a cadência dos conflitos. eles estavam apenas precipitando. Moltke e seus colegas. Era considerada. tão saudável quanto desejável. a guerra era uma atividade internacional usual. e começou-a lançando um ataque não provocado.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U raria guerra. conforme mostra a evidência. Esse é o assunto de grande parte da literatura sobre o tema. não fosse por eles. Se. é um conceito posterior à guerra e não anterior a ela. por conseguinte. Além disso. Finalmente. não pen­ savam que estavam começando uma guerra que podia ser evitada —guer­ ras que. e iniciou-a lançando um ataque não provocado. mas seria injusto julgar os homens de 1914 pelos nossos padrões. Nós não pensamos mais assim. somente as pequenas camarilhas governantes da Ale­ manha e da Áustria-Hungria foram responsáveis por desencadearem e levarem a cabo a suas respectivas guerras. Até a Grande Guerra de 1914. a Europa a entrar em guerra. por Theodore Roosevelt em passagens citadas anteriormente. Dizia-se que os rígidos requisitos do plano Schlieffen. em 1914. nesse contexto. e Berchtold e os seus. o governo alemão deliberada­ mente impôs uma guerra à Rússia. forçaram a Alemanha e. significa isto que a Áustria e a Ale­ manha devam ser declaradas culpadas de ter iniciado a guerra? Não não no mundo de 1914. e se. Os povos que elas governavam nada tiveram a ver com isto. em vez de fazê-lo pelos seus próprios. A culpa. da Alemanha. guerras que de qualquer maneira teriam eclodido posteriormente. no sentido relevante da 299 . como mostra a evidência. não pelos próprios conflitos. por exemplo. a questão da mobilização teve de ser pensada em São Petersburgo apenas em seus méritos como medida militar. e ele não optou pela mobilização até estar convencido de que se a Rússia não se mobilizasse. Assim. Nós sabemos que. à França e à Bélgica.

A Alemanha iniciou a guerra não conforme o memorando de Schlieffen.O Q UE NÃO A C O N T E C E U palavra “plano”. O que Schlieffen projetou em seu memorando foi um simples cenário. não havia nenhum plano Schlieffen. mas sim conforme o plano operacional de desdobramento de Moltke. 300 .

Nós sabemos que nas guerras balcânicas que acabaram em 1913. quan­ do um golpe de Estado em Belgrado causou uma mudança de orienta­ ção naquele reino balcânico. Nós sabemos como o conflito entre a Áustria e a Sérvia rompeu abertamente. não se podia esperar outra coisa: enormes quantidades de indícios essenciais foram destruídas porque dariam respostas às nossas questões. transformando-o de satélite austríaco em aliado russo. o ministro das Relações Exteriores Habsburgo estava trabalhando M 301 . em meados de junho de 1914. o que aconte­ ceu para causar uma guerra mundial? Há aspectos da história que sempre foram embaraçosos. a Áustria desenvolveu um temor mortal da Sérvia. sob ordens de seu chefe. A questão é. os grandes estudiosos da era pós-Fischer recuperaram tanta coisa do passado que hoje temos a possibilidade de preencher as lacunas com relativa certeza de o fazermos corretamente. Há regis­ tros claros de que. Num cer­ to sentido. A Áustria andava ressentida com a Sérvia desde 1903. Porém.C A P ÍT U L O 4 6 : A CHAVE PARA O QUE ACONTECEU uito aconteceu naquele remoto verão de 1914. um verão que de muitas maneiras ainda está conosco.

o ministro da Guerra . Pois quando o impera­ dor alemão foi solicitado a dar apoio total à Áustria em meados de junho de 1914. mas resultou em que Guilherme e seus funcionários dessem a Viena. bem no momento em que o memorando estava sendo redigido. o cáiser Guilherme estava avaliando que a Áustria levaria de uma a três semanas para se ver livre da Sérvia. Essa foi a situação à qual retornaram os generais alemães. Conrad. eles estavam absolutamente certos . O assassinato inteiramente fortuito de Francisco Ferdinando e Sophie. a carta branca que o cáiser havia recusado apenas uma semana antes. líder dos Exércitos dos Habsburgo.e por boas razões —de que outros países nada fariam se a Áustria-Hungria agisse rápido.A C HAVE PARA O Q U E A C O N T E C E U num memorando que reclamava a destruição da ameaça sérvia. como evoluiu para a sua fatídica conclusão. Aí jaz o problema. dando iní­ cio a consultas informais uns com os outros na última semana de julho. Como o duelo acabou? É significativo que esta pergunta seja feita tão raramente. os líderes militares alemães encontraram as suas piores suspeitas confirmadas: a Áustria não tinha destruído a Sérvia enquanto eles estavam fora.acreditavam que a Alemanha não seria convocada para o que quer que fosse. em 5-6 de julho. Durante a última semana de julho de 1914. Esta é a história do duelo mortal da Áustria com a Sérvia no começo do século XX: como começou. A Alemanha se encarregou apenas de impedir que outras potências européias interviessem enquan­ to a Áustria-Hungria agia contra a Sérvia. como outras figuras-chaves na encenação de férias. em retrospecto. Na época. O cáiser e muitos dos seus funcionários não viram risco em assumir o compromisso. porque a Áus­ tria-Hungria não iria agir. plano que exigiria o apoio alemão. Outros funcionários alemães . Voltando das férias três semanas mais tarde. esta­ belecera então a data de 12 de agosto. Ao sair das reuniões de 5-6 de julho e embarcar. o cheque em branco não parecia ser um compromisso tão fatídico quanto hoje. Foi puro acidente. Adiando mais uma vez. a Europa parece 302 . ele declinou fazê-lo. estimava agora que suas forças não estariam prontas para marchar antes de quatro semanas.notadamente Falkenhayn. forneceu um argumento emocionalmente poderoso que levou o cáiser a mudar de idéia.

então. embora seus oficiais tenham feito objeção. na crise de julho. a Alemanha tinha de iniciar uma guerra preventiva. sumiu da vista.que era um encontro fadado entre germânicos e eslavos. em certa medida. ainda que o cáiser . O plano de Bethmann era a Áustria lançar uma invasão para esmagar a Sérvia tão rapidamente que a operação estaria concluída antes de outras potências européias terem tempo de intervir ou mesmo protestar. Mas as circunstâncias tinham de serfavoráveis. Mas então. Era para estar feito antes de as potências tomarem consciência do que estava começando a acontecer. A Áustria não tinha desempenhado bem. Falkenhayn tinha dito ao cáiser que a partir daquele momento a questão estava fora de seu controle (do cáiser). Moltke sempre acreditou que a guerra contra a Rússia fosse inevi­ tável . O cheque em branco tinha sido política do cáiser. em outras oportunidades ele agia e falava como se ainda fosse o responsável. pelo menos em parte. dizia Moltke frequen­ temente. de modo que.tenha divergido mais tarde naquela semana das opiniões dos generais. Bethmann fora en­ carregado de monitorar o desempenho austríaco. Contudo.e o chanceler . um civil. Quais eram as circunstâncias necessárias? Na crise do Marrocos em 1911 —a crise de Agadir —a Alemanha aprendeu que os Habsburgo não apoiariam interesses que fossem apenas 303 . e que o tempo estava do lado da Rússia. e o cáiser parece tê-lo aceitado. Não houve golpe de Estado militar. Então os militares da alta hierarquia estavam pro­ pondo planos de sua lavra. Esta guerra tinha feito a sua parte. Tinha preparado o caminho. O que havia mudado no final de julho era que os militares estavam assumindo o controle ativo da situação. Essa era a sua doutri­ na.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U ter perdido o interesse pela guerra austro-sérvia. e parece que dos seus colegas oficiais. bem como do Estado-maior como um todo. Os principais atores do drama que se desdobrou em Berlim na última semana de julho foram os chefes militares alemães. assim como seus colegas. tão logo fosse possível. e o conse­ lho para a Áustria sobre como alcançar seus objetivos foi formulado pelo chanceler.

Como resultado.que está a explicação dos acontecimentos em desdobramento. Moltke era apenas um entre os que diziam isto. Entretanto. vários requisitos fundamentais de Moltke para uma circuns­ tância favorável à guerra envolviam a Monarquia Dual. não uma. Havia algo sobre Moltke e Conrad não serem completamente since­ ros um com o outro. No começo a Alemanha só apareceria no conflito como protetora da Áustria. a Rússia teria de atacar a Alemanha —ou pelo menos tinha de parecer ao público alemão que a Rússia tinha atacado. de uma aliança de mão única.A C HAVE PARA O QUE A C O N T E C E U alemães. a Prússia tinha alcançado seu objetivo de excluir a Áustria do restante do mundo germânico. Assim. a Áustria não iria tomar parte. Além disso. na última semana de julho.rivais unidos por necessidade recíproca . Na guerra que Moltke via chegar. Assim. O que parece ter sido mistificado pelos historiadores durante décadas. uma guerra dirigida contra a Sérvia. é que havia duas guerras sendo propostas naquele verão. 304 \ . dirigida contra a Rússia. ao passo que Moltke queria todos os Exércitos de Conrad para precaverse contra a Rússia. ele precisava que os Exércitos da Áustria-Hungria o ajudassem a se defender da Rússia nas semanas ini­ ciais. Uma vez começadas as hostilidades. de outro modo. A disputa tinha de começar como um conflito austríaco. Apenas algumas décadas antes. as duas guerras não eram inteiramente compatíveis entre si. neste sentido. os generais em Berlim estavam se agitando em prol da guerra —não de uma guerra austríaca. A pendenga tinha de ser tal que provocasse a Rússia. A aliança Habsburgo era vital para a grande estratégia da Alema­ nha. Qualquer general alemão em Berlim no final de julho podia ver que por um grande golpe de sorte as estrelas estavam na posição correta. cabia à Áustria determinar o passo. não alemão. enquanto a Alemanha se preocupava com a França. os austríacos esperavam que a Alemanha os apoiasse em defesa dos seus próprios interesses. É no âmbito das ambiguidades e ambivalências convolutas do relacionamento entre Berlim e Viena . Inicialmente. mas uma guerra alemã. ficaria claro que Conrad necessitava de todas as suas tropas para submeter a Sérvia. ao tentarem responder todo tipo de questão sobre as origens da guerra de 1914. e que era improvável que as constelações fossem tão favoráveis outra vez. Tratava-se.

O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U Cada um deles esperava que.e lentamente. mas a grande guerra não. a guerra mundial realmente não era o mesmo conflito. Uma delas. A guerra local entre a Áustria e a Sérvia estava ligada a Francisco Ferdinando e Sophie. que não é importante. A resposta é: não era por isto que pessoas em lugares tão distantes do mundo estavam lutando e morrendo. é por que pessoas de todas as partes do planeta estavam lutando e morrendo por causa de algo que tinha acontecido com duas pessoas. Conrad desejava que a Alemanha apenas dissuadisse —não combatesse realmente —a Rússia. a Sérvia desempenha um papel completamente secundário. com a mobilização. A mensagem era: dedique-se à nossa guerra. 305 . A Alemanha começou deliberada­ mente a guerra européia. Conrad só obedeceu com relutância .. O desejo de ser número um pode ser uma razão deplorável para iniciar uma guerra. para evitar de ser alcançada e superada pela Rússia. enquanto ele estava destruindo a Sérvia. a Fran­ cisco José uma mensagem para a qual o historiador Fritz Fellner chamou a justo título a atenção. por telegrama. A posição alemã tornou-se inequivocamente clara em 31 de julho. Francisco Ferdinando e Sophie. mas não é surpreendente nem desconcertante que tenha sido isso o que motivou as potências. sobre quem a maioria nada sabia. Guilherme passou. é da maior importância que a Áustria dirija sua força principal contra a Rússia e não a divida em razão de uma ofensiva simultânea contra a Sérvia. formulada sob várias roupagens desde o começo. Ressaltar a distinção entre as duas guerras ajuda a responder muitas das perguntas que sempre foram feitas sobre a crise de julho.]1Nesta luta gigantesca em que estamos nos envol­ vendo ombro a ombro. [. até estarmos em posição de voltar nossa atenção para assuntos menores. Guilherme disse a Francisco José: “Nesta dura luta.” Não era o que os líderes Habsburgo queriam ouvir e. chegada a hora. o outro fosse abrir mão da sua guerra.. Moltke insistia em que a Áustria protelasse os seus objetivos próprios até a Alemanha ter alcançado os dela. como veremos agora. Naquele dia. era causada pela luta pela supremacia entre as grandes potências européias. porque esta é a guerra impor­ tante. e adie a sua.

Eles voltaram a Berlim exigindo a guerra. foi preciso colocar uma de ladopara poder começar a outra. Até onde pode­ mos dizer. tinham feito arranjos para manterem-se informados. De modo semelhante. era se devia tomar Liège imediatamente. local e comparativamente pequena. As duas guerras estavam entrelaçadas. pretexto foi empilhado sobre pretexto. os generais alemães tiraram vantagem das suas semanas de férias para meditar sobre seus planos. e a guerra mundial das grandes potências podia começar. a questão que angustiava Moltke. Os generais alemães tinham se decidi­ do sobre a guerra antes de a Rússia mobilizar-se (em 31 de julho). fazendo-o mudar aparente­ mente de idéia. Uma vez compelida a Rússia. Historiadores es­ creveriam que a guerra local sérvia de algum modo fugiu ao controle. Em julho de 1914. Ao contrário. Os russos não tinham intervindo nem interferido.conforme destacado anteriormente . e esse pretexto foi a possibilidade de a Rússia vir a intervir na guerra austro-sérvia. Mas uma não virou a outra. a guerra sérvia. Deve-se notar que os generais russos ainda não tinham feito nada quando os generais alemães retornaram a Berlim entre 23 e 27 de julho. em vez de depois. o governo alemão lançou mão de um pretexto para começar uma guerra mundial. ou esperar a Rússia ordenar a mobilização e assim dar ao seu governo uma desculpa para declarar guerra.não foi a mobilização russa (como se afirma tão frequentemente) que começou a guerra. portanto . mas. para repetir —eram diferentes e individuais. entrando em escalada até virar guerra mundial. Assim.A C HAVE PARA O Q UE A C O N T E C E U Houve um certo paralelo entre as origens das duas guerras. mesmo que a trama austríaca contra a Sérvia tenha sido urdida duas semanas antes. a Alemanha fez a Áustria descartar a sua própria guerra em favor da guerra alemã. Eles não estavam intei­ ramente isolados dos acontecimentos. A guer­ ra austro-sérvia supostamente foi desencadeada pelos assassinatos em Sarajevo. Uma guerra contra a Rússia. As­ sim. podia ser ignorada. como ele precisava absolutamente fazer. e no final. e um tanto de poeira jogado nos olhos da posteridade. 306 . ao ordenar a sua mobilização. Não uma guerra contra a Sérvia. o que estava fazendo a temperatura subir a níveis de febre em Berlim era a perspectiva de o governo poder atacar a aliança francorussa em 1914. Tinham apenas em­ preendido uma pré-mobilização mínima (em 26 de julho). para a qual a crise sérvia tinha lhes dado uma desculpa.

contudo. o quebra-cabeça está montado. e fazê-lo invadindo a Bélgica.”2 Se você apagar as palavras em itálico —pois agora sabemos que a Alemanha instigou a guerra contra a Rússia por conta própria. Sir Michael escreve: “Certa­ mente não havia lógica na decisão tomada pelo Estado-maior de que. SzVMichael Howard. Foi exatamente o contrário. com sua habitual clareza. e não a Áustria . Concordando com Clausewitz de que planos militares não têm lógica inerente.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U Duas guerras. E isso mostra que não havia lógica nas decisões do Estado-maior alemão. não uma. explicou o que con­ fundiu os estudiosos da Primeira Guerra Mundial desde sempre: não havia lógica na decisão alemã. não uma. Só podemos enxergar isso. Não foi para apoiar os aus­ tríacos que os líderes alemães fizeram suas manobras em julho. foi para garantir o apoio da Áustria para si mesmos em sua própria guerra. Os generais alemães tiveram de usar o expediente de primeiro fazer a Áustria se envolver na guerra e depois fazê-la trocar de inimigo. a Alemanha devia atacar a França. que não era parte na disputa. eis a chave.. para apoiar os austríacos num conflito com a Rússia por causa da Sérvia. se primeiro virmos que havia duas guerras. 307 . As duas guerras eram em certa medida incompatíveis.

eles esta­ vam lutando pela existência do seu império.CAPÍTULO 47: QUAL O PORQUÊ? íando afirmamos que isto ou aquilo foi o “porquê” da guerra. Assim. No caso da guerra austro-sérvia. 308 . en­ tre elas: a razão que os tomadores de decisão deram para entrar em guer­ ra. jodemos estar dizendo um sem-número de coisas diferentes. a Sérvia estaria ameaçando assumir a liderança dos eslavos meridionais no interior dos limites do Império Habsburgo tal como constituído em 1914. Eles pensavam que estavam lutando para preservar o caráter multinacional do seu império em outras palavras. para proteger a Áustria-Hungria da desintegração. e também daqueles no exterior. e quais foram finalmente os resultados do conflito. a razão em que realmente acreditavam. No que os líderes austría­ cos realmente acreditavam era um pouco diferente. Viena afirmou que estava entran­ do em guerra para fazer justiça pela matança de Sarajevo e para evitar a ocorrência de crimes semelhantes no futuro. com poucos anos para recuperar-se após as guer­ ras balcânicas. Do modo como viam.

tinha se tornado a inimiga. Queriam manter o domínio do seu país no continente europeu. e não a Grã-Bretanha. no sentido de que seu objetivo era manter o domínio militar alemão existente na Europa. objetivavam preservar o que este país possuía. Ele apoiou o programa. a Sérvia perderia a sua existência. Os sérvios lutaram porque foram atacados. apoiada pela França. Nos primeiros anos do seu reinado. tanto quanto a sua independência. Mas o medo deles era real. Os austríacos até podiam estar certos ao acreditar que. 309 .os generais do Exército —. este não era o objetivo . Aqueles que então ditavam a política da Alemanha . se tivessem uns poucos anos para reconstruir-se. Se este programa tivesse obtido êxito. que considerava que o rival que a Alemanha teria de desafiar era a GrãBretanha. a Alemanha —se Tirpitz estivesse certo —teria se transformado de potência européia dominante em potência mundial dominante. enquanto suas chances de vencer eram maiores do que seriam no futuro. Tirpitz tinha sido em grande parte eclipsado por Moltke e Falkenhayn. em 1914 a Áus­ tria estava lançando o que concebia ser uma guerra preventiva. Era uma política conservadora. a Sérvia representaria um poderoso desafio ao Império Habsburgo. O inimigo —o competidor que mais dia menos dia eles teriam de enfrentar —era a Rússia. a Alemanha .ou pelo menos não era o objetivo a curto prazo —do governo alemão em 1914. preferindo combater a Sérvia hoje em vez de amanhã. o cáiser foi o patrono das reivindica­ ções da Marinha. Nós hoje não daríamos crédito à sua noção de que um confronto final entre teutônicos e eslavos era inevitável. Eles queriam impedir uma futura con­ testação dessa posição pela Rússia. os líderes militares alemães decidiu combater a Rússia hoje em vez de amanhã. o que motivava os oficiais do Exército que impuseram sua política de guerra ao relutante cáiser era o medo do poder crescente da Rússia. Como sua aliada alemã. a Áustria estava planejando cortá-los em pedaços. defendido por Tirpitz.isto é. provocando uma guerra imediatamente.O Ú L T I M O VERÃO E U R O P E U O caso da Sérvia era ainda mais simples. A Marinha fora suplantada pelo Exército. Porém. Como a Áustria. Os homens que dirigiam a Alemanha em 1914 adotaram o que a seus olhos era uma política defensiva. Em Berlim. A Rússia. Se perdessem.

Quanto mais lutavam. 310 . Foi assim com a Alema­ nha. o teórico comunista e futuro ditador russo. I. J. O mesmo era verdade para a Alemanha. e com a França. A guerra de 1914. não por um império na Ásia ou na África. eles arrolaram os seus desejos. o que abria todas as possibili­ dades. e com a Inglaterra também. Lenin estava errado. Inspirado por um teórico britânico. Entre os que observavam esses resultados. Mas isso era uma ilusão.QUAL O P O R Q U Ê ? Do ponto de vista dos tomadores de decisão alemães em julho de 1914. fazendo a Grã-Bretanha entrar na guerra. porém. embora já em setembro de 1914 ela tenha começado a expandir suas ambições. Uma vez em guerra. e eles não presidiram a entrada do seu país na guerra na esperança ou na expectativa de adquirir mais territórios. o porquê da guerra era que país dominaria a Europa nos anos a vir: Alemanha ou Rússia? Durante a guerra. A. em que os principais países industriais só poderiam expandir suas economias mediante a aquisição de impérios coloniais para serem usados como mercados cativos. que o propósito da guerra era imperialista. e amplamente aceito. Hobson. Em agosto de 1914. tal como ele a via. A Inglaterra tomara as colónias alemãs na África. Grey e Asquith. era uma guerra por império. e apegaram-se tanto que acabaram determinados a não fazer a paz sem alcançá-los. Lenin. escreveu. Quando a guerra mundial acabou. Tratou-se de uma guerra pelo controle da Europa continental. em 1919. V. alguns tiraram a conclusão de que fora uma guerra imperialista. especialmente nas décadas de 1920 e 1930. Lenin afirmou que o capitalismo tinha entrado na sua fase final. pôde-se ver que um dos seus resultados. tinha sido a dramática expansão do Império Britâ­ nico. não nutriam nenhum desejo de expansão e não adotaram nenhuma estratégia projetada para promo­ ver a expansão imperial. como fizeram ou­ tros países de ambos os lados. desde o começo uma guerra de expan­ são imperial. enquanto ainda estava em Zurique. Mas o que ele escreveu era plausível. Os indícios pareciam ser persuasivos. Um Exército britânico de um milhão de homens estava ocupando o Oriente Médio. Eles começaram lutando para conservar o que tinham. mais extravagantes tornavam-se seus objetivos.

O que era menos claro era se a Grã-Bretanha era obrigada a intervir se seus colegas co-signatários não o fizessem. ao violar uma obri­ gação de tratado. a Alemanha tinha de ser punida por não manter a sua palavra. A neutralidade belga fora garantida duas vezes pelas potências ao longo do século XIX. O que levou a França e a Rússia a ingressarem na refrega pode ser explicado com uma frase: a Alemanha lhes declarou guerra. foi a guerra que produziu uma nova onda de imperialismo. somente a Grã-Bretanha teve a liberdade de decidir por si mesma se entrava na guerra ou ficava fora.O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U Como escrevi em outros trabalhos. como fiado­ ra ou garantidora da neutralidade da Bélgica. Nós vimos por que a Áustria e a Alemanha entraram em guerra. Uma das histórias mais extraordinárias das origens da guerra é a de como os britânicos. imaginando os portos do canal nas mãos de um inimigo potencial como uma ameaça estratégica às ilhas britânicas. Havia uma dúvida real quanto a saber se a garantia pelas potências européias era conjunta ou múltipla. Alguns diziam que. Alguns diziam que a honra britânica exigia manter a promessa de proteger a Bélgica. A questão em que ele apoiou sua argumentação foi a Bélgica. E depois havia aque­ les que viam a neutralidade da Bélgica como um interesse vital da GrãBretanha. a causa belga desencadeou uma resposta emocional entre os britânicos de todos os tipo. Contudo. Ainda outros acreditavam que a Inglaterra devia impedir que países grandes pisoteassem os direitos dos pequenos. mudaram de idéia e chegaram bem perto de serem unanimemente a favor em 3 de agosto. e elas se defenderam. que em sua maioria era contra a participação na guerra até o dia 12 ou 2 de agosto. Não havia questão ou dúvida de que. Das grandes potências que se uniram contra a Alemanha e a Áustria em agosto de 1914. Eles foram con­ vencidos a mudar de idéia por Sir Edward Grey. seja lá qual for a razão. 311 . O que os beligerantes reclamavam na conferência de paz tinha pouca semelhança com o que os fizera entrar em guerra. Outros veneravam a neutralidade e a dedicação da Bélgica em defendê-la. a Grã-Bretanha teria o direito de defendê-la se escolhesse fazê-lo. não foi o imperialismo que cau­ sou a guerra. opiniões políti­ cas e convicções.

a Alemanha estaria destruindo o equilíbrio de poder na Europa. tal como o percebiam. Asquith e Grey teriam olhado a questão de outro modo. Controlando a extensão das costas atlânticas francesa e belga. era. porém. seja como grande potência. citado anteriormente) que a causa do duelo anglo-alemão na Primeira Guerra Mundial foi o desafio da Alemanha à supremacia da Grã-Bretanha no sistema europeu existente. os dois lados foram à guerra para conservar o 312 . que levaram o país à guerra. e a Alemanha como um agressor dinâmico em busca de mudar o mundo. mas sim em nome do interesse vital da GrãBretanha. inclusive os portos do canal. A Ale­ manha não podia se dar ao luxo de perder a Áustria. A Alema­ nha lutou para salvar a Áustria. Para Asquith e Grey. a Grã-Bretanha não podia se dar ao luxo de perder a França. seja como aliada. seja como grande potência. do Parlamento e do público britânicos. Hoje. e também a Grã-Bretanha acreditou que estava indo para a guerra por causa disso. a Grã-Bretanha lutou para salvar a Fran­ ça. e ameaçando dar cabo da supremacia global britânica. A Grã-Bretanha disse que estava indo para a guerra por causa disso. pelo menos em alguns aspectos. o martírio da Bélgica não era o pretexto.QUAL O P O R Q U Ê ? Para um grande número de pessoas do gabinete. Descrevia-se a Grã-Bretanha como tendo lutado uma guerra defensiva para preservar o status quo. seja como aliada. Tanto a Alemanha como a Grã-Bretanha estavam procurando. não o fizeram em nome do ideal britânico. Mas o fato de a Alemanha o estar fazendo ameaçava a Grã-Bretanha. Para o auditório de Grey. preservar o equilíbrio de poder existente. a guerra era uma questão de equilíbrio de poder e de segurança nacional. a Alemanha tornaria as ilhas britânicas permanentemente vulne­ ráveis a ataques. um ou outro desses aspectos da questão belga — habilmente combinados por Grey em seu magistral discurso aos Co­ muns em 3 de agosto —operou uma mudança de pensamento. Asquith e Grey. Houve época em que era comum os historiadores dizerem (como disse Elie Halévy. com toda honestidade. Há razões para acreditar que se a neutralidade da Bélgica ti­ vesse sido violada pela França em vez de pela Alemanha. a razão real para mergulhar a Inglaterra e o seu povo na luta de vida ou morte. essa teoria requer modificações. Destruindo a França como po­ tência. bombardeios ou invasões. Em primeira instância.

não apenas com os beligerantes de 1914. E assim foi. embora apenas no início —de um conflito defensivo para ambos. A parti­ cipação da América. contudo. mas que deveriam configurar o resto do século XX. Suas diferenças com o outro lado se ampliavam. seu modo de vida e sua posição dominante por mais tempo . No começo. tratava-se simplesmente de as grandes po­ tências lutando para permanecer onde estavam e para manter o que tinham. deu dimensões ideológicas ao conflito que antes não estavam pre­ sentes. A oficialidade de Moltke esta­ va imbuída de um sentido de pessimismo decorrente da incapacidade de enxergar uma maneira qualquer de preservar seus valores.mesmo no interior das fronteiras da Alemanha. 313 . Também era. mas desenvolveram outras razões para batalhar contra seus inimigos à medida que o conflito prosseguia. intensificavam e deslocavam para novos terrenos ou bases. O que levava um país a entrar na guerra nem sempre era a mesma coisa que causava a sua per­ manência na guerra. Eles entraram em guerra por um conjunto de ra­ zões. A entrada da América na guerra e nos negócios mundiais em 1917 mudou as equações de equilíbrio de poder.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U que tinham: o seu aliado mais próximo. Mas era um programa de setembro. uma guerra defensiva num sentido mais amplo. tratava-se . Devemos a Fritz Fischer a descoberta de que o governo alemão preparou um programa grandioso de objetivos de guerra em setembro de 1914: um grande projeto. Era expansionista e imperialista. Não foi ele que levou Falkenhayn e Moltke à ação. no caso da casta junker prussiana na Alemanha. Neste sentido. mas mesmo com aqueles que entraram na luta mais tarde. não de julho.no início. A entrada da Grã-Bretanha no conflito transformou a guerra européia numa guerra global. juntamente com as duas revoluções russas daquele ano.

políticos europeus experientes e talentosos lutaram. excepcionalmente. se puder ser obtida em termos aceitáveis. isso não era verdade quanto a dois governos em 1914. Por que fracassaram? Terão sido. queria subjugar o adversário numa medida que apenas uma guerra bem-sucedi­ do torna possível. queria provocar uma guerra com a Rússia. dito de maneira mais precisa. Em cada um dos casos.C A PÍT U LO 4 8 : QUEM PODERIA TER IMPEDIDO? os poucos dias que lhes deram. O que a Europa não entendeu na época foi que. mas somente um para começar uma guerra. Se um governo estiver determinado a N 314 . simplesmente pouco eficientes e habilidosos? Nos noventa anos transcorridos desde então.ou. em julho de 1914. era a própria guerra que o governo queria . Berlim não queria se impor à Rússia. Viena não queria apenas se impor à Sérvia. a especulação sobre o que poderia ter sido feito tem sido praticamente infinita. para tentar impedir que a guerra estourasse. ela queria provocar uma guerra com a Sérvia. Alguma coisa poderia ter sido feita? A hipótese comum hoje é de que todos querem a paz. São necessários pelo menos dois para manter a paz. como pretendem alguns.

Ela expediu um ultimato. No começo de agosto. No caso da guerra da Áustria. não para obrigar a Sérvia a aceitá-lo. a passo de lesma. ou mesmo a Rússia. sem permitir-se ser distraída ou rechaçada. 315 .O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U desencadear uma guerra. Sua direção era o campo de batalha. nenhuma conciliação. sem parar. A Áustria não procurava justiça. a Monarquia Dual ia diretamente ao seu objetivo. Tendo folhado em com­ preender o que lhe aconteceu em 1914. Poderia a Grã-Bretanha ou a França. ele não queria a sua ferida remediada. Assegurada a cobertura alemã. em 1938-39. mas antes para forçá-la a rejeitá-lo. A Áustria queria a guerra e só poderia ter sido contida pela Alemanha. Somente um poder oposto equivalente pode deter um governo inclinado a lançar uma invasão. Os políticos da Europa estavam no escuro sobre os motivos da Áustria. Viena reconheceu que não podia sair im­ punemente de um ataque à Sérvia. Na verdade. e ela não permitiria que nada a impedisse de chegar lá. os Exércitos dos Habsburgo ainda não tinham iniciado as hostilidades que deviam ter concluído em julho. a Áustria também precisava obter (e obteve) a aprova­ ção e o apoio da Hungria. nada podia impedir a ÁustriaHungria de marcharem juntas para a guerra. ter feito algu­ ma coisa diferente para impedir a guerra austríaca contra a Sérvia? Hoje nós temos a satisfação de saber que nada que elas pudessem ter feito teria impedido a Áustria de atacar a Sérvia. queria um pretexto. Con­ tudo. É claro. É claro. Depois disso. a pesada máquina do governo austro-húngaro andava len­ tamente. e consequentemente desorientados. não importa o quanto seja extensiva e imaginativa. a menos que Berlim oferecesse proteção. a Europa teve de receber a mesmíssima lição outra vez com os resultados de Munique. pois isso a teria privado de uma descul­ pa para fazer o que realmente queria: entrar em guerra. sem se desviar. ela estava livre para fazer o que quisesse. Eles acharam que o Impé­ rio Habsburgo era o que fingia ser: um país ferido que queria reparação. poderá impedi-lo.

A guerra mundial teria no mínimo sido adiada e.que revelou ser o 1. O resultado poderia ter sido um admirável triunfo diplomático para os aliados germanófonos.as coisas que tinham de ser feitas antes que eles pudessem começar sua guerra . nada havia para impedir o governo alemão de iniciar a guerra no momento que lhe fosse mais favo­ rável . O movimento sindical e os sociais democratas na Alemanha tiveram de ser derrotados. eis duas virtualidades: duas coisas que podiam ter acontecido. contudo.Q U E M P O D E R IA T E R I M P E D I D O ? Com isto.diziam respeito à Áustria. A segunda virtualidade: a Rússia poderia ter se retirado do conflito. evitada. como fez a Alemanha. No caso da guerra da Alemanha. Isso poderia ter ocorrido se ela estivesse convencida da culpa sérvia no caso Sarajevo. A primeira é que o governo alemão podia ter seguido as ordens do cáiser na semana de 27 de julho e retirado o apoio à Monarquia Dual. As complica­ das exigências dos generais alemães . e depois. Se a Rússia o tivesse feito. mas Bethmann con­ seguiu isso durante a turbulenta última semana de julho. A Rússia poderia ter abraçado a causa da Áustria contra regicidas e terroristas. a aventura sérvia. É difícil resis­ tir à conclusão de que nada poderia tê-la impedido. em vez disso.de agosto de 1914. A paz teria sido garantida em termos favoráveis à Áustria e a Sérvia teria sido severamente punida. havia muito mais coisas no caminho dos que queriam iniciar hostilidades. a menos que ela concordasse com a paz nos termos da Alemanha. teria privado os líderes militares alemães das condições e pretextos necessários para iniciar sua intentada guerra contra a Rússia e a França. Como vimos anteriormente. A pergunta feita de uma maneira ou de outra ao longo de todo o século XX foi formulada do seguinte modo pelo historiador James Joll: visto 316 . para resolver o problema o melhor que pudesse nas suas tran­ sações com a Sérvia. e dado a Viena uma carta branca. estava fazen­ do o que considerava necessário para manter sua posição. A mais poderosa potência do continente. na melhor hipótese. Viena tinha de ser convencida a comprometer seus Exércitos num objetivo. que Berlim apresentava em casa como a cruzada russa contra a Alemanha. usá-los em outra aventura: a cruzada da Alemanha contra a Rússia. com o Exército mais poderoso do mundo. Tudo tendo sido alcançado.

por que “não foi evitada em 1914”?1 Uma resposta possível é que nas crises anteriores nenhuma das gran­ des potências queria a guerra. E uma razão por que a Alemanha não quis entrar em guerra naquelas crises anteriores é que não podia contar com a Áustria . 1911. 1913” .e os generais alemães estavam convencidos de que sem as tropas austríacas retendo os russos nas semanas de abertura da guerra. eles poderiam não ganhar. Em 1914. 317 . duas delas queriam.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U que a “guerra tinha sido evitada nas crises imediatamente precedentes — 1908.

Predileções e afinidades culturais podem conformar os acontecimentos.CAPÍTULO 49: QUEM COMEÇOU? ' rosso modo e brevemente. relativamente democráticos e em certa 318 . Ainda assim. as características de indivíduos e outros fatores aleatórios continuam a explicar grande parte do que de fato acontece. A peculiaridade da Primeira Guerra Mundial é que. assim como pressões institucionais. que ficou conhecida como Primeira Guerra Mundial. apesar de ter ocorrido nos tempos modernos. Os vários interesses em jogo numa sociedade moderna frequentemente tornam a política inter­ na um foco de atenção tão importante quanto a política internacional na determinação de quando os países entram em guerra. casualidades. as guerras tendem a estourar por uma série com­ plexa de razões e envolver uma multidão de participantes em vários ní­ veis do processo de tomada de decisão. Forças impessoais podem entrar em jogo. equívocos. erros. a resposta é que o governo da ÁustriaHungria começou sua guerra local com a Sérvia enquanto os líde­ res militares alemães começavam uma guerra mundial contra a França e a Rússia. G No mundo moderno.

fazendo um resumo dos indícios e provas para os hós­ pedes na biblioteca. Ao sugerir que um ou mais indivíduos começaram a Primeira Guerra Mundial. As pessoas que acenderam o estopim eram. o criminoso óbvio foi Gavrilo Princip. Quando Moltke falava. mas o fez no verão de 1914. O adolescente errante e poeta fracassado provavelmente (não com certe­ za) imaginou a trama de assassinato em Sarajevo. o triunfo do impe­ rialismo e o militarismo da sociedade alemã. Ele falava com o peso da sua função. das suas sociedades e das circunstâncias sociais nas quais agiam. conduziu-a e. vista numa perspectiva mais ampla. é surpreendente que tão poucas pessoas soubessem que coisas estavam acontecendo ou que decisões devessem ser tomadas ou estavam sendo tomadas. Quero dizer que havia homens que queriam começar uma guerra. a propagação do nacionalismo. Não se trata apenas de um número minúsculo de indivíduos ter tomado as decisões.O ÚL T I MO VERÃO E U R O P E U medida suscetíveis à opinião pública. pela ofi­ cialidade como um todo. é claro. por sua 319 . Elas não falavam . as suas origens tenham envolvido tão poucas pessoas: um punhado de gente num punhado de países. produto dos seus ambientes familiares. nós apontamos para Moltke. que era produto de como a Alemanha foi unificada nos anos 1860 e 1870. E claro. e que agiram deliberadamente de modo a começar uma guerra. era mais do que apenas um indivíduo. No caso da guerra austro-sérvia. por exemplo. ele o fazia em nome dos 650 membros do Grande Estado-maior e. Nenhum revela por que a Europa não riscou o fósforo no mate­ rial explosivo no verão de 1913. em começar uma guerra.ninguém poderia — apenas em seu próprio nome. até certo ponto. o detetive do romance policial. pelo que fizeram. Foi uma crise que surgiu e foi exaurida em segredo. Mas nenhum desses movimentos e acontecimentos de massas explica a eclosão imediata da guerra. e o fez deliberadamente. Ele começou a guerra mundial. até criarem o mundo em que a Grande Guerra eclodiu: a explosão da Revolução Industrial. a ascensão da ciência. pode apontar seu dedo acusadoramente e dizer: “Eis o culpado!” No caso da Alemanha. estou usando as palavras em seu sentido mais corriqueiro. e que tiveram êxito. forças poderosas esti­ veram em jogo durante décadas e até séculos. Assim.

Eles tinham para si que Berchtold esperava garantir seus termos. há um atenuante. dos apelos para desistir e das mudanças de circunstância. O cáiser Guilherme. No caso do cáiser. Os outros atores da política européia acharam a crise de julho extraordinariamente desconcertante. 320 .nem mesmo (e isso confundia outros líderes) em termos favoráveis. ele optou por ela entusiasticamente. enquanto a grande Áustria-Hungria esmagava a pequena Sérvia. Mas ele não queria seus termos ou quaisquer termos. levou-a a cabo apesar das ordens para abortála. foi inadvertido. o ministro das Rela­ ções Exteriores Jagow e todo um conjunto de seus colegas civis e milita­ res encorajaram os austríacos a lançar um ataque contra a Sérvia. Mas Princip não pretendia inspirar a Áustria a invadir a Sérvia. ele era persis­ tente e inabalável. foi o homem mais responsável por levar a cabo a guerra sérvia. enquanto pareceu que havia uma solução pacífica. Somente a vitória numa guerra poderia alcançar o objetivo dele. o Ministério das Relações Exteriores austro-húngaro já planejava a destruição da Sérvia antes sequer de Princip atacar. e portanto foram diretamente responsáveis pela guerra.QU E M C O M E Ç O U ? determinação e persistência. Ele não seria arrastado a conversações ou negociações que poderiam prendê-lo na armadilha de manter a paz . neste particular. Assim que o cheque em branco da Alemanha foi recebido. O ministro das Relações Exteriores austro-húngaro. Como Princip. Parece que ele acreditava que um triunfo diplomático seria insubstancial e poderia não durar. Em algum momento durante ou após as guerras dos Bálcãs ele decidiu que o seu país só poderia sobreviver se a Sérvia fosse esmagada e completamente eliminada como fator político. o chanceler Bethmann. o perturbado e con­ fuso terrorista adolescente de fàto abriu a porta para a invasão austríaca. O que lhes escapava era o co­ nhecimento de que Viena não queria a paz. mas Princip não sabia disto. Recusava-se a ter a sua atenção desviada. conde Leopold von Berchtold. Ao matar o arquiduque que estivera bloqueando esta opção. Berchtold pôs mãos à obra para começar a sua guerra. Além disso. o que ele fez. os quais bem podiam ser extre­ mos ou radicais. pois sentiam que algo estava lhes escapando. e isto só poderia ser conseguido se a Alemanha impedisse a Rússia de intervir. Muito pelo contrário. sob interrogatório por seus captores ele tentou evitar que soubessem de qualquer conexão existente entre os sérvios e ele.

lhe disse para fazê-lo. Por que Berchtold estava apto a começar uma guerra? A resposta é porque não havia ninguém para detê-lo. O minis­ tro das Relações Exteriores de qualquer outra grande potência seria con­ tido por seus aliados. ele não queria (como o cáiser queria) uma Sérvia subserviente. usando apenas o status “em estado de guerra” para afastar pacificadores potenciais. Ele só declarou guerra quando . poder-se-ia dizer. Ele não pôde andar rápido o bastante para produzir o fait accompli que os alemães pediram. contudo. Berchtold estava cercado por sua equipe das Relações Exteriores. Nem precisa ser dito que Conrad foi parceiro integral de Berchtold em começar a guerra. o único país da Europa a ser liderado por um homem que estava determinado a começar uma guerra. Berchtold operava sob condições de severa desvantagem: a máqui­ na do Estado austro-húngaro movia-se com uma lentidão estarrecedora. Tudo levava tempo —tempo durante o qual as po­ tências podiam impor a paz. Se a Rússia quisesse invadir seu vizinho. que ele não a usou independentemente dos outros. Berchtold tinha um grande trunfo ao perseguir sua meta. Como seus Exércitos não puderam se me­ xer por semanas. Deve-se obser­ var.o ministro das Relações Exteriores alemão. nós agora sabemos. Apenas um país na Europa tinha um aliado que não o refrearia —que o apoiaria cegamente. O gabine­ te da Áustria-Hungria —mesmo Tisza. Ele foi o único líder na Europa.e porque . Quando a Alemanha interveio no Marrocos em 1911.o apoiou. uma solução final. Assim. depois de lhe opor resistência por uma semana . Era a Áustria. Para o problema que a Sérvia colocava ao seu país. Após a guerra (como seu enviado conde Hoyos deixou claro em julho de 1914 em conversações em Berlim). Jagow foi mais um a come­ çar a guerra austro-sérvia. Todos partilharam sua responsabilidade pela guerra. Eles podem tê-lo inspirado. contra todas as probabilidades. a França que financiou a expansão militar russa ..O ÚL T I MO VERÃO E U R OP E U preferia fazer a guerra. cujos aliados lhe deram carta branca. que era apoiada incondicionalmente pela Ale­ manha e. Jagow. ele declarou guerra mesmo assim. os ativistas herdados de Aehrenthal. 321 . até a Áustria se recusou a apoiá-la e assim ajudou a deter Berlim. queria que não houvesse nenhuma Sérvia. ele queria. ia tentar impedir São Petersburgo de fazê-lo.

pareceu aos generais alemães que era tempo de agir. confunde-se a questão. Tão pouco progresso havia sido feito pela Monarquia Dual em iniciar a guerra na última semana de julho (segundo os generais alemães) —ou em chegar a um acordo (segundo o cáiser) —que nenhum lado na Alemanha estava propenso a deixar o chanceler.era o momento em que a guerra iria ocorrer. o Ministério das Rela­ ções Exteriores e os austríacos continuarem no comando da operação. mas ele a considerava inevitável.tudo que estava em posição de decidir . E foi esse governo civil .só havia a iniciativa da guerra sérvia sobre a mesa: a guerra era proposta pelos austríacos. eía foi por longo tempo contemplada pelos líderes do Exército alemão. Viena tinha querido começar e vencer a guerra. mas até o fim de julho tinha falhado em fazê-lo. Quando estourou a crise de julho. Porém. Ele acreditava que tudo o que estava decidindo . Moltke é geralmente citado como aquele que propunha a opção. Eles pensavam saber o que estavam fazendo. Eles estiveram dispostos a deixar a Áustria viver a sua aventura sérvia. em algu­ ma medida. Tal crise bélica e tal internacionalização criaram confusão. ainda que pouco significasse para a Alemanha. Mas foi o governo civil da Alemanha que concebeu o plano concreto de operações para a Áustria. Era uma proposta política que tendia a emergir toda vez que surgiam crises. contudo. não meramente de falar. No princípio . mas parece que falava em nome da oficialidade como um todo. todas as outras potências da Europa. Moltke previra que a guerra levaria a civilização européia à ruína. Como espectadores durante o mês de julho. mais uma vez. E isto ele decidiu. mas agora 322 . os generais alemães começaram a ver que a crise bélica era algo que eles queriam.o chanceler e seu Ministério das Rela­ ções Exteriores —que monitorou o desempenho da Áustria. Moltke. Aqui. apoiados por seus colegas militares. Tudo o que Viena criou —e o cáiser e Bethmann —ela não queria criar: uma crise bélica envolvendo. Foram eles os oficiais.QUEM C O M E ÇO U? No caso da guerra preventiva contra a Rússia e a França. Falkenhayn e outros líde­ res militares alemães meditaram sobre os benefícios que podiam tirar de tamanha confusão. se pensarmos em ter­ mos de uma guerra em vez de duas.no momento da Afronta e do cheque em branco . Falkenhayn e Moltke assumiram a iniciativa. que tomaram a decisão real de fazer a guerra no verão de 1914.

uma teve de ser sobrepujada para que a outra pudesse ser empreendida. O cáiser e o chan­ celer. foi um ato supremo de oportu­ nismo.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U a Áustria tinha estragado tudo. Da parte de Moltke e Falkenhayn. o governo alemão estava em processo de modificar a sua política. Moltke e Falkenhayn tiveram êxito num ato de sequestro político sem precedentes. o tivessem abordado e tomado.uma guerra contra as demais potências da Europa. Portanto. deixaram Moltke e Falkenhayn fazerem a seu modo. obrigado o comandante a desviar do rumo programado para algum lugar na direção oposta. Foi como se tivessem visto um avião de passageiros estacionado na pista. O mundo foi levado a crer. e a mão arma­ da. Na confusão de uma crise bélica européia. mas não foi isto o que aconteceu. a partir do fim de semana de 25 de julho. de tal modo que agora a Alemanha podia contar com o apoio integral do Império Austro-húngaro para lançar uma nova iniciativa de guerra. da própria Alemanha . 323 . Ele viram a abertura e prontamente tiraram partido. eles tomaram a guerra de Berchtold contra a Sérvia e a obrigaram a levá-los à sua própria guerra contra a França e a Rússia. e ao fazê-lo envolveu-se talvez inextricavelmente. reabasteci­ do e pronto para decolar. então e posteriormente. que uma se desdobrou da outra. apesar de alguns receios. os generais ale­ mães substituíram espertamente uma guerra por outra.

Rússia e Estados Unidos —não se desenvolveram quando elas deixaram de alcançar os acordos de paz que deveriam ter fechado as duas etapas da guerra mun­ dial de 1914-1945. em 1962. os sobreviventes passaram a encarar o desastroso conflito como uma guerra civil européia. Em vez disso. Kennedy estava assombrado pelo que acredita­ va ter aprendido com a leitura de Os CanhõesdeAgosto. de Barbara Tuchman. as hostilidades reais entre as potências sobreviventes —Grã-Bretanha.C A P ÍT U L O 50: PODERIA ACONTECER OUTRA VEZ? a esteira da Primeira Guerra Mundial . N 324 . porém. Ao administrar a Crise dos Mísseis em Cuba. Considerou-se que a princi­ pal lição da catástrofe era que a humanidade nunca deveria permitir que uma coisa daquelas acontecesse outra vez.nos anos 1920 e 1930 —. aconteceu outra vez. quando os Aliados — França. Tê-la desencadeado foi condenado seja como um erro assustador ou como um crime terrível. Então. o presidente dos Estados Unidos John F. É claro. em 1939-1945. Rússia e Estados Unidos —continuaram a luta que não fora resolvida em 1914-1918. Grã-Bretanha. elas se voltaram para uma guerra que r • » era « fria .

A geração de Kennedy foi educada nos anos entre guerras. O fato de a Europa entrar em guerra naquela época nada tem de casual. Foi isso o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. o Japão não tomou uma decisão guerra-ou-paz apenas para si próprio. estudiosos e políticos de peso chegaram a conclusões muito semelhantes às dele. embora nem mesmo Viena tenha feito a guerra acontecer. Não devem permitir que pequenas guerras cresçam em escala até virarem grandes guerras. cujo livro alcançou um público de massa. Elas teriam sido. dizia-se ao mun­ do. Uma vez esses dois países tendo invadido os seus vizinhos. os ensinamentos de Fay pareciam aproximar-se da verdade. Em suas memórias de guerra. não havia como os vizinhos manterem a paz. ensinava que nenhu­ ma das grandes potências tinha querido uma guerra entre si. Não devem permitir que queimadas se transformem em incêndios florestais. em Pearl Harbor. e mesmo na Europa.1 Raymond Aron. de Sidney B. Tampouco a América tinha outra escolha na 325 . mas também para os relutantes Estados Unidos. arrastadas à Grande Guerra. é que os governos devem ter cuidado para não perder o controle. The Origins ofthe World War [As Origens da Guerra Mundial]. todavia. Ele achava que a guerra tinha resultado de uma reação em cadeia não intencional. viu na história de 1914 “o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial.O Ú L T I MO VERÃO E U R OP E U sobre as origens da Primeira Guerra Mundial. ao lançar seu ataque. o ex-primeiro-ministro David Lloyd George afirmou celebremente que “as nações escorregaram por sobre a borda do caldeirão fervente da guerra sem o menor traço de apreensão ou desânimo”. numa época em que o principal texto americano. Eles não devem permitir que confrontos transbordem inadvertidamente em hostilidades.2 A lição a ser tirada da Primeira Guerra Mundial. Baseados em indícios disponíveis naqueles tempos pré-Fischer. Opiniões semelhantes foram populariza­ das por Tuchman. Eis boas lições a serem aprendidas. pela qual a Áustria-Hungria seria mais responsável do que outros países. Fay. um dos maiores pensadores políticos do século XX. que nenhum dos atores principais desejava direta ou conscientemente”. Foi resultado de decisões premeditadas de dois governos. mas não é julho de 1914 que as ensina.

a guerra iminente foi uma surpresa quase completa para o públi­ co.P O D E R IA A C O N T E C E R O U T R A V E Z ? Europa de 1941. Repetindo. E isso quer dizer que pode acon­ tecer outra vez. são necessários pelo menos dois para manter a paz. é provável que tenhamos ao menos al­ gum tipo de advertência prévia. Mesmo hoje. um agressor pode começar uma guerra maior. No mundo aberto de hoje. Isso daria aos povos e Parlamentos pelo menos a chance de fazerem conhecer suas opiniões. a Alemanha de Hitler declarou guerra contra os Esta­ dos Unidos. e mesmo que outras grandes potências desejem ficar em paz . mas somente um para começar uma guerra. Pelo menos uma coisa mudou muito desde aquele tempo até agora. ao que a América foi obrigada a responder. Em 1914.a menos que outras nações tenham poder suficiente para detê-lo. O quanto esta dife­ rença pode significar é difícil prever. 326 .

Ambas foram iniciadas deliberadamente. tratava-se da escala de poder relativa às grandes potências européias que na época dominavam a maior parte do mundo. Teria sido rapidamente esquecido. a guerra austríaca contra a Sérvia foi um episódio menor da história. a decisão de começar a guerra foi tomada por pou­ cos indivíduos da mais alta hierarquia. não tivesse propiciado aos generais alemães as condições de que necessitavam para poder começar a sua própria guerra: O 327 .CAPÍTULO 51: RESUMINDO conflito internacional no verão de 1914 consistiu em duas guer­ ras. cujas respectivas populações não sabiam que aquelas decisões estavam sendo consideradas e muito menos tomadas. não em uma. O objetivo das guerras foi o poder. Tanto a Alemanha como a Áus­ tria acreditavam estar decadentes. Como muitas guerras terríveis mas pequenas nos Bálcãs. Uma guerra foi iniciada pelo Império Habsburgo e a outra pelo Império Ale­ mão. Foram começadas por impérios rivais ligados por necessidades recíprocas. Ambas iniciaram a guerra em vista de permanecer onde estavam. Em cada caso. Especificamente.

seja lá como a definisse. No começo da década de 1990. Quase todos os povos do mundo governavam a si mesmos. nazismo. conseqúentemente. Ela girava em torno da questão mais importante na política: quem deveria dominar o mundo. 328 .RESUMINDO um conflito europeu. e a própria guerra não foi. sem sentido. fascismo. A ques­ tão de saber se a Alemanha ou a Rússia deviam dominar a Europa e se a Europa deveria continuar a dominar a África e grande parte da Ásia se sobrepunha e coincidia com ideologias rivais: comunismo. em vez de serem governados por es­ trangeiros. A decisão de fazer a guerra em 1914 tinha um objetivo significativo. A questão foi aberta em 1914 pela guerra alemã. ela foi travada para decidir questões essenciais de política internacional: quem alcançaria o domínio da Europa e. Nas décadas que se seguiram. Embo­ ra os soldados nas trincheiras por quatro longos anos desde 1914 te­ nham começado a acreditar que a guerra não tinha sentido. o qual se desdobrou em conflito mundial. isso não era verdade. e sob a bandeira de que fé. como gerações de historiadores pensaram. novas potências e forças surgiram para disputá-la. finalmente a questão parecia estar respondida. democracia liberal e outras. do mundo. e a maioria aspirava à democracia. Ao contrário.

EPÍLOGO .

A mobilização foi ordenada naquele dia. desde meados de junho. Os austríacos souberam quase imediatamente que eles e seus alia­ dos alemães estavam trabalhando em propostas conflitantes. en­ viou prontamente metade do seu Exército à fronteira sérvia por estrada de ferro. Conrad von Hõtzendorf.CAPÍTULO 52: A GUERRA DA ÁUSTRIA esde o começo —isto é. Viena declarou guerra à Sérvia em 28 de julho.. a Alemanha estava deliberadamente fazendo a Rússia entrar na guerra. a intenção de Viena era subjugar a Sérvia sem interferências exteriores. quando Berchtold colocou seu Ministério das Relações Exteriores para trabalhar num plano . Em vez disso. Moltke e seus colegas em Berlim disseram a Conrad para D 331 . a ser seguida por uma declaração de guerra contra a Rússia no dia seguinte. A Alemanha optou pela guerra na semana de 27 de julho e fez seu movimento final em 31 de julho. Viena ti­ nha planejado sua invasão da Sérvia na crença de que Berlim tomaria medidas para manter a Rússia fora da guerra. O sonho austríaco era ser capaz de concentrar todos os seus recursos na campanha sérvia. com a outra metade de reserva para apoiar. chefe do Estado-maior austríaco.

cada um buscando a seu modo a própria conveniência. a Grã-Bretanha e outros a não se meterem. Moltke e Conrad jamais coordenaram de fato os seus planos de guerra. a França. Estivera planejando a realização de uma guerra sérvia por tantos anos que deve ter lhe parecido intolerável abrir mão na última hora —justo quando tinha conseguido a autorização —para aju­ dar a Alemanha em primeiro lugar. Em 5-6 de julho. Se Conrad concordasse . enquanto a Áus­ tria conseguia submeter a Sérvia. ele explicou que continua­ ria a conduzir suas operações na Sérvia de modo a impedir que a Rússia entrasse na guerra. De qualquer modo. Berlim tinha mudado de posição. Falkenhayn e seus colegas. os dois chefes militares podem ter sentido que não podiam se dar ao luxo de ser francos demais um com o outro. Numa carta a Moltke datada de 2 de agosto. Conrad não queria fazê-lo. Ele decidiu que suas forças perma­ neceriam na campanha sérvia por um tempo. A política alemã era convencer a Rússia. e depois uma parte seria retirada em 18 de agosto e transferida para a frente russa. eles estavam pagando o preço dessa política nos meses de abertura da guerra. corria o risco de produzir uma confusão administrativa. o cáiser tinha esperado —e tinha certeza disso —que a Europa ficasse inativa.. 332 . Estava tentando lançar em agosto a invasão da Sérvia que devia ter iniciado . De qualquer modo. deixando apenas uma força grandemente reduzida para se defender contra algum possível ataque sérvio.A GUERRA DA ÁUSTRIA abandonar a campanha sérvia por um tempo e enviar o grosso do seu Exército para a fronteira russa.se deslocasse suas tropas para novas posições antes de te­ rem tomado as antigas . A logística de tal deslocamento era desafiadora.e concluído —em julho. fora da esfera principal. Como cada um deles se propunha a usar o outro para seus próprios fins. Uma das coisas que emerge das várias explicações de Conrad é que ele não entendeu que a política e os objetivos da Alemanha haviam mudado. Conrad queria descontar o cheque em branco alemão antes de a Alemanha ter a chance de sustá-lo. Mas animada por Moltke. Conrad recebeu a notícia de que a Alemanha já não estava mais apoiando a guerra austríaca e que agora a Áustria tinha de apoiar a guerra alemã.

a sua guerra particular estava con­ cluída.os austríacos foram derrotados! Os Exércitos dos Habsburgo parecem nunca ter se recuperado dos seus equívocos iniciais de posicionamento e deslocamento. ele surrupiou para seu país a chance passageira de empreender seu duelo particular com a Sérvia. Eles forçaram os sérvios a batalhar. * Conrad era belicoso e. Em l 2 de agosto de 1914. Assim. 333 .268. Assim fazendo. e eles se juntaram ao conflito mais amplo. esse objetivo tinha sido alcançado. segundo John Keegan. numa luta mais para sobreviver do que para conquistar. a questão sérvia já havia servido ao seu propósito. contudo. um contra um. Eram Conrad e o seu governo que temiam a Sérvia.e não trazê-la para o conflito.violenta e esmagadoramente . em outras circunstâncias. Do ponto de vista de Moltke.2 A Áustria continuou a lutar. Depois de atacarem a Sérvia e serem derrotados. ficaria feliz de começar uma guerra contra vizinhos como a Itália. sob as ordens dos seus comandantes alemães. Do ponto de vista da Alemanha. o papel da Alema­ nha era manter a Rússia fora da luta . Conrad bancou o gazeteiro nas primeiras semanas das duas guer­ ras entrelaçadas: ordenou a seus soldados que fossem de trem para o sul.* Porém. Seus Exércitos invadiram a Sérvia. Deslocaram-se para a frente russa e também foram esmagados lá. em vez de para o norte. já não era mais uma grande potência militar. a Alemanha não via a Sérvia como um perigo. E . ou mais tarde os britânicos.000 mobilizados. Ele preferia não entrar em guerra com os russos —ou os franceses. os americanos. Tal como Conrad o via. ainda não. Não sentia necessidade de eliminar o reino balcânico.000 homens dos 3.1 nos diz ele que perdera 1. como demonstrou a história pré-Sarajevo. Da pers­ pectiva de Conrad. Moltke temia a Rússia e a França.350. O único país com que Conrad queria lutar no verão de 1914 era a Sérvia. a única utilidade do conflito sérvio era que comprometia a Áustria a permane­ cer fiel à Alemanha na guerra desta contra a Rússia e a França. ou ainda mais tarde.O ÚLT IM O VERÃO EUROPEU Conrad queria a Rússia dissuadida. No começo de dezembro de 1914. o Império Habsburgo.

teve Conrad de admitir.4 Ele estava con­ sumido pela autopiedade. se opôs aos planos de lutar contra a Sérvia e de se indispor com a Rússia: o arquiduque. ele comentou: “Se ao menos eu soubesse por quê. cujo assassinato fora cinicamente explorado por Viena para provocar a guerra que ele próprio tão ardentemente obstava. Toda a culpa. tendo recebido uma medalha. refletiu ele. ano após ano.6 334 .A GUERRA DA ÁUSTRIA Conrad estava desalentado. O que teria ele pensado? O que teria dito? O que teria feito? Estivesse ainda vivo. No começo da guerra. e que. Eu terei provavelmente que sair de cena como um fora-dalei. não tenho uma esposa que fique ao meu lado nos meus anos finais”. Eu não tenho um lar. o arquiduque “teria me matado”. o arquiduque Francis­ co Ferdinando. ele confidenciou a colegas que perder a guerra lhe “custaria o conforto da minha amada Gina”.5 Ele se recordava do seu mentor esporádico. que tanto se preocupava com o seu amado Exército austríaco. será “descarregada sobre mim. O fantasma de Francisco Ferdinando se avul­ tava sobre o mundo naquele verão.”3 Quan­ do os fracassos aumentavam.

Tudo tinha de estar no lugar: a autoridade do cáiser tinha de estar 335 . Ele sempre se absteve . Não há dúvidas de que os dois homens o tenham feito —e querido fazê-lo. como agora podemos ver. e no mínimo com a aprovação do imperador ancião.de iniciar essa guerra em crises passadas porque as circunstâncias nunca foram totalmente adequadas. A única questão a este respeito é a extensão em que Berchtold terá sido influenciado por sua equipe do Ministério das Relações Exteriores. Isto. Estava disposto a arriscar a guerra maior se tivesse de fazê-lo. Eles o fizeram com total apoio do Gabinete e do Ministério das Relações Exteriores da Monarquia Dual. não é verdade. Berchtold é frequentemente citado como a pessoa isolada mais res­ ponsável pela guerra mais ampla. mas não era o que ele desejava.ou foi impedido .CAPÍTULO 53: A GUERRA DA ALEMANHA B erchtold (especialmente em julho) e Conrad (especialmente em agos­ to) foram os agentes ativos que levaram a Áustria à guerra contra a Sérvia. A acusação confunde as duas guerras. Era Moltke quem queria a guerra contra a Rússia e a França. O que ele queria era a guerra sérvia. não a outra.

Para os amigos da França e da Grã-Bretanha. cuja militarização da vida alemã levou à guerra. do outro. Ele trocou a política do come­ ço de julho por uma política do final de julho. ele faria a França. recomeçou em 1939-1941. Sua pretensão era eliminar a França da guerra. arruinando vencedor e vencido igualmente. eliminá-la da história política da Europa. e tratou de aproveitar. de um lado. A Alemanha declarou guerra à Rússia em 1. França. O plano exigia que o Exército alemão marcasse o seu rendez-vous com o destino em solo francês em seis sema­ nas.a primeira batalha do Marne . entrar na batalha. tudo realmente se encaixou. Mas a França e a Grã-Bretanha ga­ nharam. e uma guerra pela outra. e tam­ bém falhou em resolver a questão de que potência teria supremacia no continente —e se os Estados Unidos e a Grã-Bretanha aceitariam essa supremacia. A cultura militarista alemã fora identificada em 1914 como a causa da guerra iminente por. entre outros. e Rússia. Tampouco os seus resultados em 1918 foram conclusivos. de ficar com o coração na mão. Sua escala de atividades era o plano de Moltke. GrãBretanha e Estados Unidos. eliminá-la da aliança com a Rússia. A guerra entre a Alemanha. perto do fim de julho de 1914. ele viu que sua hora tinha chegado. e a Rússia tinha de parecer o agressor. o Exército alemão teve de fato o seu rendez-vous com o destino em solo francês.de agosto. O conflito que os militares alemães iniciaram ao declarar 336 . aliada da Rússia. pois as partes não os aceitaram como tal. coronel House. Repentinamente. E a batalha . Ele não poderia tê-lo feito se não representasse uma força maior do que ele próprio. Lá e então.A GUERRA DA ALEMANHA declinante. O que ela decidiu foi que nenhum dos lados poderia obter uma vitória rápida ou uma vitória real. Em vez disso. Seis semanas após o 1. foi uma disputa feroz.foi decisiva. os alemães quase ganharam. o conflito deveria tornar-se um tor­ neio de resistência com anos de duração.de agosto. Moltke agarrou a chance. Sua ardilosa substituição da guerra de Berchtold pela sua na agenda de julho de Berlim foi uma espécie de conto-do-vigário que manteve as gerações subseqUentes no escuro sobre quem teria causado a guerra. a participação austríaca tinha de estar garantida. Ele representava a casta da oficialidade jww^rprussiana. A batalha seria decisiva.

a questão era se tinha sido Moltke ou seu jovem enviado Richard Hentsch quem ordenou a retirada e o reagrupamento atrás do Marne. Moltke também perdeu o seu em­ prego. Mas ele sabia muito bem quem havia começado a guerra. a qual levou à Guerra Fria). nem as dezenas de milhões que morreriam ou a multidão de consequências a que a guerra direta ou indiretamente deu lugar. na medida em que qualquer indivíduo possa tê-lo feito. com todos os seus horrores e prodígios. em setembro de 1914. obviamente. em 31 de agosto de 1994. e se ter ordenado a retirada foi uma decisão correta ou causou a derrota quando a vitória era certa. 33 generais alemães foram demitidos pelo cáiser. escreveu ele ao amigo: “Esta guerra que eupre­ parei e iniciei ” (grifo meu). habitual e ordinário oficial de carreira do Exército tenha.1 Não deixa de ser um pensamento impressi­ onante que este indubitavelmente modesto. o debate foi acalorado entre os participantes e. não podia ter previsto todo o horror da longa guerra do século XX (a guerra de 1914 que levou à de 1939. Do lado alemão. Em junho de 1915. Durante quase um século. começado a Grande Guerra e com isso anunciado o século XX. queixou-se disso ao seu ami­ go general (barão) Colmar von der Goltz.de agosto de 1914 só chegou ao fim quan­ do o último soldado russo saiu do solo alemão.O ÚL TIM O VERÃO EUROPEU guerra contra a Rússia em 1. entre estudiosos sobre a batalha decisiva com a qual concluiuse o plano de Moltke: a batalha do Marne. que fora transferido para uma função que ele considerava de pouca importância. Moltke. “É terrível ser condenado à inatividade nesta guerra”. Na época. Guilherme foi implacável. Pouco depois. depois. Moltke. 337 .

ministro austríaco das Relações Exteriorest para conde Mensdorffy em­ baixador austríaco em Londres. instruído pelo do governo sérvio.) (British Documents in Public Record Office.) (Tradução. e consequentemente ela irá conformar-se com as decisões que as Potências possam tomar em conformidade com o artigo 25 do Tratado de Berlim. fez a seguinte declaração ao Governo Imperial e Real: “A Sérvia reconhece que o fait accompli concernente à Bósnia não afetou os seus direitos. por intermédio do representante austro-húngaro em Belgrado: “Em 31 de março de 1909.) governo austro-húngaro sentiu-se obrigado a dirigir a seguinte nota ao governo sérvio no dia 23 de julho. Além disso. Em deferên­ cia ao conselho das grandes potências. ela concorda em modificar a direção da sua política em relação à Áustria-Hungria e a viver futuramente em termos de boa vizinhança com esta última. (Comunicadopelo condeMensdorffy 24 dejulho de 1914.A PÊ N D IC E 1: A N O TA A U ST R ÍA C A Conde Berchtold. a Sérvia concorda em renunciar de agora em diante à atitude de protesto e oposição por ela adotada em relação à anexação desde o outono passado. “Os acontecimentos dos anos recentes. e particularmente os dolorosos aconteci­ mentos de 28 de junho passado. o representante sérvio em Viena. revelaram a existência de um movimento subversivo 339 .

340 .e. desenvolveu-se a ponto de manifestar-se de ambos os lados da fronteira sérvia na forma de atos terroristas e de uma série de afrontas e assassinatos. o Governo Imperial e Real se vê obrigado a exigir do Governo Real Sérvio uma garantia formal de que condena essa perigosa propaganda contra a Monarquia. e finalmente. e deplora sinceramente as consequên­ cias fatais dessas ações criminosas. e tolerou a expressão irrestrita por parte da imprensa. que nasceu sob os olhos do governo sérvio. “Para dar um caráter formal a essa responsabilidade. Ele permitiu a realização de propaganda perniciosa na instru­ ção pública. Ele permitiu as maquinações criminosas de várias sociedades e associações dirigidas contra a Monarquia.. que as armas e explosivos à disposição dos assassinos foram fornecidas por oficiais e funcio­ nários sérvios pertencentes à Narodna Odbrana. toda a gama de propostas cujo fim último é separar dos territórios da Monarquia. “Essa tolerância culpável do Governo Real Sérvio não cessou no momento em que os acontecimentos de 28 de junho último deram provas a todo o mundo das suas consequências fatais. noutras palavras. “Resulta dos depoimentos e confissões dos criminosos perpetradores da afronta de 28 de junho que os assassinatos de Sarajevo foram planejados em Belgrado. e a participação de oficiais e funcionários na agitação subversiva. “Os resultados. e de que assume a respon­ sabilidade de reprimir por todos os meios essa propaganda criminosa e terrorista. o Governo Real Sérvio nada fez para reprimir esses movi­ mentos. que a ela pertencem. acima mencionados. a proposta geral cujo objetivo final é separar da Monarquia Austro-húngara territórios a ela pertencentes. impõem ao governo austrohúngaro o dever de pôr um termo às intrigas que constituem uma ameaça perpétua à tranquilidade da Monarquia. da investigação judicial não permitem que o governo austro-húngaro persevere na atitude de abstenção expectante que vem mantendo há anos perante as maquinações urdidas em Belgrado e dali propagadas aos territórios da Monarquia. em resumo. O movimento. a glorificação dos perpetradores de afrontas. o Governo Real Sérvio deve publicar na primeira página do seu ‘Jornal OficiaT de 26 de julho a seguinte declaração: “‘O Governo Real da Sérvia condena a propaganda terrorista dirigida contra a Áustria-Hungria — i. ao contrário. “Para alcançar este fim. que a entrada dos cri­ minosos e suas armas na Bósnia foi organizada e levada a efeito pelos chefes do serviço de fronteiras sérvio. “Longe de pôr em prática as responsabilidades formais contidas na declaração de 31 de março de 1909. toda a manifestação de natureza a incitar a população sérvia ao ódio contra a Monarquia e ao desrespeito por suas instituições. ele permitiu. Os resultados.A NO TA AUSTRÍACA com o objetivo de separar uma parte dos territórios da Áustria-Hungria da Monar­ quia.

A impedir por meio de medidas efetivas a cooperação de autoridades sérvias no tráfico ilícito de armas e explosivos através das fronteiras. “4. contra as quais usará todo o seu esforço para antecipar e frustrar.’ “Esta declaração deve ser comunicada simultaneamente ao Exército Real como ordem do dia de sua Majestade o Rei. e cuja proposta geral é dirigida contra a sua integridade territorial. A eliminar sem demora da instrução pública na Sérvia. facilitando a sua passagem pela fronteira. “5. A dissolver imediatamente a sociedade intitulada Narodna Odbrana. que desaprova e repudia toda idéia de interferir ou tentar interferir nos destinos dos habitantes de toda e qualquer parte da Áustria-Hungria. e deve ser publicada no ‘Boletim Oficial’ do Exército. A aceitar a colaboração na Sérvia dos representantes do Governo Austrohúngaro para a supressão do movimento subversivo dirigido contra a integridade territorial da Monarquia. a con­ fiscar todos os seus meios de propaganda. todos os oficiais e funcionários culpados de propaganda contra a Monarquia Austro-húngara. “6. e toda a população do reino. ‘“O Governo Real. tanto no tocante ao seu corpo docente como no tocante aos seus métodos de ensino. tudo o que sirva ou possa servir para fomentar a propaganda contra a Áustria-hungria. culpados de terem prestado assistência aos perpetradores do crime de Sarajevo. considera seu dever formal advertir os seus oficiais e funcionários. “2.O ÚLT IMO VERÃO EUROPEU “‘O Governo Real lamenta que oficiais e funcionários sérvios tenham partici­ pado da propaganda acima mencionada e deste modo comprometido as relações de boa vizinhança com as quais o Governo Real estava solenemente comprometido por sua declaração de 31 de março de 1909. “3. A tomar medidas judiciais contra cúmplices da trama de 28 de junho que estão em território sérvio. cujos nomes o Governo Austro-húngaro se reserva o direito de comunicar ao Governo Real. A reprimir quaisquer publicações que incitem à desobediência ou ao ódio contra a Monarquia Austro-húngara. “7. e da administração em geral. delegados do Governo Austro-húngaro tomarão parte nes­ sa investigação. de que doravante irá proceder com o máximo rigor contra as pessoas que possam ser culpadas de tais maquinações. e a proceder de modo semelhante contra outras sociedades e suas ramificações na Sérvia que façam propaganda contra a Mo­ narquia Austro-húngara. A remover do serviço militar. “O Governo Real Sérvio se compromete igualmente: “ 1. O Governo Real deve tomar as medidas necessárias para impedir as sociedades dissolvidas de darem prosseguimento às suas atividades sob outro nome e sob outra forma. 341 . a demitir e punir severa­ mente os funcionários do serviço de fronteiras em Schabatz e Loznica.

Desde a recente crise dos Bálcãs. “O Governo Austro-húngaro espera a resposta do Governo Real no mais tardar até às seis horas da tarde de sábado. O jornalismo sérvio é quase inteiramente dedicado ao serviço dessa propagan­ da. preparan­ do deste modo a separação do território austro-húngaro na fronteira sérvia. 342 . Portanto. os quais. tanto na Sérvia como no es­ trangeiro. a qual é voltada contra a Áustria-Hungria. o Governo Sérvio fracassou no dever a ele imposto pela declaração solene de 31 de março de 1909. às quais a Áustria-Hungria tem sido exposta há anos. agindo contrariamente à vontade da Europa e à responsabilidade conferida à Áustria-Hungria. apesar da sua posição oficial. sejam admitidos ou secretos. eram a criação de desordens no território austrohúngaro. acompanhando a sua comunicação com as seguintes observações: Em 31 de março de 1909.” Tenho a honra de solicitar a vossa Excelência que leve o conteúdo desta nota ao conhecimento do governo junto ao qual o senhor está credenciado. o governo sérvio não pensou ser responsabilidade sua tomar a menor providência que fosse. indivíduos antes pertencentes a bandos empregados na Macedônia vieram para se colocar à disposição da propaganda terrorista contra a Austria-Hungria. A notificar sem demora o Governo Imperial e Real da execução das medi­ das incluídas nos parágrafos precedentes. A Sérvia tornou-se o centro de uma agitação criminosa. A fornecer ao Governo Imperial e Real as explicações relativas aos pronun­ ciamentos injustificáveis de altos funcionários sérvios. e não passa um dia sem os órgãos da imprensa sérvia incitarem os seus leitores ao desrespeito ou ao ódio contra a Monar­ quia vizinha. finalmente. não hesitaram. desde o crime de 28 de junho. membros do primeiro escalão da sociedade oficial e não oficial do reinado. ou a afrontas dirigidas mais ou menos abertamente contra a sua segu­ rança e a sua integridade. “9. Um grande número de agentes é empregado na condução por todos os meios da agitação contra a Austria-Hungria e da corrupção dos jovens nas províncias fronteiriças. em se expressar em entrevistas em termos de hostilidade para com o Gover­ no Austro-húngaro. o Governo Real Sérvio dirigiu à Áustria-hungria a declaração cujo texto é reproduzido acima. a Sérvia abraçou uma política de insuflar idéias revolucionárias nos súditos sérvios da Monarquia Austro-Húngara. funcionários de governo e juizes —em resumo. houve um recrudescimento do espírito de conspiração inerente aos políticos sérvios. e. 25 de julho. o que deixou uma trilha sanguinária clara na história do reinado. Nenhum tempo foi perdido na formação de sociedades e grupos cujos objetivos. “Um memorando relativo aos resultados do inquérito judicial em Sarajevo a respeito dos oficiais mencionados nos parágrafos (7) e (8) está anexado a esta nota.A NO TA AUSTRÍACA “8. Essas sociedades e grupos contam entre seus membros com generais e diplomatas. No dia seguinte a esta declaração. Diante dessas ações.

apesar de tudo. o Governo Imperial e Real. o Governo Imperial e Real mantém um dossiê à disposição do governo britânico. 24 dejulho de 1914 Anexo O inquérito criminal aberto pela Corte de Sarajevo contra Gavrilo Princip e seus cúmplices durante e antes do ato do assassinato cometido por eles em 28 de junho último chegou até o presente às seguintes conclusões: 1. O senhor está autorizado a deixar uma cópia deste despacho nas mãos do mi­ nistro das Relações Exteriores. por sua atitude desprendida e desinteressada. Em apoio ao acima exposto. quando o Herdeiro Aparente da Monarquia e sua ilustre consorte caíram vítimas de um complô urdido em Belgrado. por sua vez.O ÚL TIM O VERÃO EUROPEU A paciência do Governo Imperial e Real em face da atitude de provocação da Sérvia se inspirava no desinteresse da Monarquia Austro-húngara e na esperança de que o governo sérvio acabasse. Diante desse estado de coisas. A trama. A benevolência que a Áustria-Hungria mostrou ao Estado vizinho não teve efeitos restritivos sobre a conduta do reino. Especificamente. tendo como objeto o assassinato do arquiduque Francisco Ferdi­ nando na ocasião da sua visita a Sarajevo. cujas consequências fatais foram demonstradas para todo o mundo em 28 de junho último. após os acontecimentos de 1912. iria finalmente se decidir por uma linha de conduta análoga. tomando essas medidas. elucidando as intrigas sérvias e a conexão existente entre essas intrigas e o assassinato de 28 de junho. Uma comunicação idêntica foi endereçada aos representantes imperiais e reais credenciados junto às outras Potências signatárias. em vista de induzir o governo sérvio a deter o movimento incendiário que está ameaçando a segurança e a integridade da Monarquia Austro-húngara. reconhecendo o verdadeiro valor da amizade da Áustria-Hungria. foi montada em Belgrado por Gavrilo 343 . ele está plenamente de acordo com os sentimentos de todas as nações civilizadas. o Governo Imperial e Real sentiu-se obrigado a tomar novas e urgentes medidas em Belgrado. o Governo Imperial e Real tinha esperanças de que o Reino. O Governo Imperial e Real está convencido de que. que não podem permitir que o regicídio se torne uma arma que possa ser usada impune­ mente pelos movimentos emanando de Belgrado. Viena. a Áustria-Hungria esperou um desenvolvimento deste tipo nas idéias políticas da Sérvia quando. Observando uma atitude benevolente em relação aos interesses políticos da Sérvia. tornou possível uma ampliação tão considerável da Sérvia. que continuou a tolerar a propaganda em seu território.

com assistência de vários indivíduos. Para permitir que Princip. Cabrinovic e Grabez por Milan Ciganovic e o comandante Voija Tankosic. e Trifko Grabez. Cabrinovic e Grabez cruzassem a fronteira e fizes­ sem entrar seu contrabando de armas secretamente. com a assistência do comandante Voija Tankosic. Ciganovic ensinou Princip. As bombas são granadas de mão oriundas do depósito de armas do Exército sérvio em Kragujevac. 344 . a introdução de criminosos e armas na BósniaHerzegóvina foi efetuada pelos funcionários no controle das fronteiras em Chabac (Rade Popovic) e Loznica. 3. Por meio desse arranjo. assim como o funcionário da alfândega Rudivoj Grbic. 5. 4. de Loznica.A N O T A AUSTRÍACA Princip. 2. Em vista de garantir o sucesso do ato. em Belgrado. um sistema secreto de transporte foi organizado por Ciganovic. e deu aulas de tiro com pistolas Browning para Princip e Gabrez numa floresta perto do campo de treinamento de tiro em Top-schider. Nedeljiko Cabrinovic. um certo Milan Ciganovic. As seis bombas e quatro pistolas Browning e munição com que as partes culpadas cometeram o ato foram fornecidas a Princip. Cabrinovic e Grabez a usar as bombas.

27 dejulho Resposta do Governo Sérvio à NotaAustro-húngara.manifestações que ocorrem em quase todos os países no curso normal dos acon­ tecimentos. e foi graças à Sérvia e ao sacrifício que ela fez no interesse exclusivo da paz européia que a paz foi preservada. e que nenhuma tentativa foi feita desde então. seja pelos sucessivos governos reais ou por seus órgãos. (Comunicadapelo representantesérvio. O Governo Real O 345 . o Governo Real chama atenção para o fato de que.) (British Documents in Public Record Office. escapam ao controle oficial.) (Tradução. exceto uma concernente a um livro escolar. para mudar o estado de coisas criado na Bósnia e na Herzegóvina. neste particular. como artigos na imprensa e no funcionamento pacífico de socieda­ des . como regra geral.) Governo Real Sérvio recebeu o comunicado do Governo Imperial e Real cor­ rente e está convencido de que sua resposta irá dirimir qualquer mal-entendido que possa ameaçar prejudicar as relações de boa vizinhança entre a Monarquia Austrohúngara e o Reino da Sérvia. A Sérvia deu provas várias vezes da sua política pacífica e moderada durante a crise dos Bálcãs. o Governo Imperial e Real não fez nenhuma representação. O Governo Real não pode ser responsabilizado por manifestações de caráter privado. Conscientes do fato de que os protestos feitos tanto na tribuna da Skupstina [Assembléia Nacional da Sérvia] como nas declarações e ações dos representantes de Estado responsáveis . as quais.protestos estes que foram interrompidos pelas declarações fei­ tas pelo governo sérvio em 18 de março de 1909 .não foram renovados em nenhu­ ma ocasião em relação à grande Monarquia vizinha. 27 dejulho.A PÊ N D IC E 2: A R E SPO ST A SÉ RV IA Segunda-feira. ocasião em que o Governo Imperial e Real recebeu uma explicação inteiramente satisfatória.

segundo o comunicado do Governo Imperial e Real. Por essas razões. certos funcionários e oficiais sérvios possam ter tomado parte na propaganda acima mencionada e desse modo com­ prometido a boa relação de vizinhança com a qual o Governo Real Sérvio está solenemente comprometido pela declaração de 31 de março de 1909. conseqiientemente. segundo as quais membros do Reino da Sérvia teriam participado nos prepara­ tivos do crime cometido em Sarajevo. e será publicada no próximo boletim oficial do Exército. e mais especialmente ele empreende mandar publicar na primeira página do “Jornal Oficial” na data de 26 de julho a seguinte declaração: “O Governo Real da Sérvia condena toda propaganda que possa ser dirigida contra a Áustria-Hungria. na revisão que se aproxima da Consti­ tuição. uma cláusula na lei de imprensa prevendo a mais severa punição contra a incitação ao desrespeito ou ao ódio contra a Monarquia Austro-húngara. O governo se compromete. e a fim de provar a correção da sua atitude. o Governo Real ficou penalizado e surpreso diante das declara­ ções. com o inte­ resse do Governo Imperial e Real. o Governo Real esperava ser convidado a colaborar numa investigação de tudo o que diz respeito a este crime.A RESPOSTA SÉRVIA absolutamente náo é responsável. 346 . cujas provas de cumplicidade no crime de Sarajevo sejam apresentadas. sem consideração por sua situação ou posi­ ção social. e abertura de processo contra qual­ quer publicação cuja proposta geral seja dirigida contra a integridade territorial da Áustria-Hungria. O Governo Real lamenta que. estava pronto a tomar medidas contra quaisquer pessoas contra quem fossem feitas representações.” Esta declaração será levada ao conhecimento do Exército Real numa ordem do dia em nome de Sua Majestade o Rei. haja vista o fato de que. O Governo Real se encarregará ainda: De introduzir. todas as propostas que visam em última análise separar da Monarquia Austro-húngara territórios que dela fazem parte. e deplora sinceramente as consequências perniciosas de tais movimentos criminosos. na primeira convocação ordinária da Skupstina. a produzir uma emenda a ser introduzida no artigo 22 da Constituição. por Sua Alteza Real o Príncipe Herdeiro Ale­ xandre. De acordo. declaração esta que desaprova e repudia toda idéia ou tentativa de interferência no destino dos habi­ tantes de qualquer parte da Áustria-Hungria. os quais ele irá empenhar o seu máximo esforço para impedir e reprimir. ele deu provas de uma grande disposição de assentir. logrando desse modo acordar a maioria dessas questões à vantagem dos dois países vizinhos. oficiais e toda a população do reino de que doravante irá tomar as medidas mais rigorosas contra todos aqueles que forem culpa­ dos de tais atos. procedimento atualmente impossível sob os termos categóricos do artigo 22 da Constituição. na hora da solução de uma série de questões levantadas entre a Sérvia e a Áustria-Hungria. o Governo Real está preparado para entregar para qualquer processo qualquer súdito sérvio. e o Governo Real considera seu dever preve­ nir formalmente seus funcionários. de tal natureza que as referidas publicações possam ser confiscadas.

no inquérito em Sarajevo para os propósitos deste inquérito. e tampouco a nota do Governo Imperial e Real as fornece. e espera que o Governo Imperial e Real lhe comunique posteriormente os nomes e atos desses funcionários e oficiais para fim de ações a serem empreendidas contra eles. ainda não foi possível prendê-lo. em casos concretos. O Governo Real deve confessar que não compreende claramente o significado e o alcance da exigência feita pelo Governo Imperial e Real de que a Sérvia deve aceitar a colaboração dos órgãos do Governo Imperial e Real em seu território. Nao é preciso dizer que o Governo Real considera seu dever abrir um inquérito contra as pessoas que estão. O Governo Real também concorda em afastar do serviço militar todos aqueles cuja culpa de atos contra a integridade do território da Monarquia Austro-húngara possa ter sido comprovada conforme o inquérito judicial. o processo criminal e as relações de boa vizinhança. 347 . de que a “Narodna Odbrana” e outras sociedades semelhantes te­ nham cometido até o presente qualquer ato criminoso dessa natureza por meio da conduta dos seus membros. informações sobre os resultados da investigação em questão poderão ser dadas a agentes austro-húngaros. mas declara que admitirá tal colaboração. bem como as eventuais provas de culpa que tenham sido recolhidas até o presente. e que estejam no interior do território do Reino. O Governo Real deteve. ou possam eventualmente estar. o Governo Real não pode aceitar tal arranjo. no próprio anoitecer da entrega desta nota. o coman­ dante Voislav Tankossitch. Quanto a Milan Ciganovic.O ÚL TIM O VERÃO EUROPEU O Governo Real não possui provas. pois seria uma violação da Constituição e da legislação do processo criminal. O Governo Real sérvio se compromete a retirar imediatamente dos seus estabe­ lecimentos educacionais públicos tudo o que sirva ou possa servir de propaganda fomentadora contra a Áustria-Hungria. sob a forma costumeira. O Governo Austro-húngaro deverá ter a bondade de fornecer o mais rápido possível. ele ordena­ rá um inquérito imediato e punirá severamente os funcionários aduaneiros na fron­ teira de Schabatz-Loznitza. Quanto à participação neste inquérito de agentes ou autoridades austro-húngaras designadas para estes fins pelo Governo Imperial e Real. O Governo Sérvio vai reforçar e estender as medidas tomadas até aqui para impedir o tráfico ilícito de armas e explosivos através da fronteira. que não cumpriram seu dever e permitiram a passagem do autor do crime de Sarajevo. implicadas na trama de 15 de junho. o Governo Real aceitará a exigência do Go­ verno Imperial e Real e dissolverá a Sociedade “Narodna Odbrana” e qualquer outra sociedade que possa estar dirigindo seus esforços contra a Áustria-Hungria. não obstante. os indícios de culpa. É claro. conforme o princípio da legislação internacio­ nal. sempre que o Governo Imperial e Real lhe fornecer fatos e provas desta propaganda. que é súdito da Monarquia Austro-húngara e que até 15 de junho era empregado (período de experiência) pela diretoria das ferrovias. Entretanto.

em entrevistas após o crime. considerando que nao é do interesse comum precipitar a solução desta ques­ tão. o Governo Sérvio. tão logo cada medida tenha sido ordenada e posta em prática. Se o Governo Imperial e Real não ficar satisfeito com esta resposta. na medida em que a presente nota ainda não o tenha sido feito. embora o próprio Governo Real vá tomar medidas para coletar indícios e provas. foram hostis em relação à Monarquia. as quais. 348 . Belgrado. e assim que ele tiver mostrado que as observações foram realmente feitas pelos ditos funcionários. como sempre. ou às grandes potências que tomaram parte na composição da declaração feita pelo Governo Sérvio em 18 (31) de março de 1909. seja submetendo a questão à decisão da Corte Internacional ou Haia. O Governo Real informará o Governo Imperial e Real sobre a execução das medidas compreendidas nos parágrafos acima. está pronto. tão logo o Governo Imperial e Real tenha comunicado as passagens em questão nessas observações. 12 (25) dejulho de 1914.A RESPOSTA SÉRVIA O Governo Real terá a satisfação de dar explicações sobre observações feitas por seus funcionários tanto na Sérvia como no estrangeiro. a aceitar um entendimento pacífico. segundo declaração do Governo Imperial e Real.

Ludwig von Alemanha: embaixador em Roma 349 . JeanBaptiste França: ministro da Justiça BUCHNAN. conde Alexander Rússia: embaixador em Londres BERCHTOLD. Sir George Grã-Bretanha: embaixador em São Petersburgo CAMBON. príncipe herdeiro Sérvia: regente ASQUITH.Q UEM ERA Q UEM Alguns funcionários europeus em 1914 ALEXANDER. Paul França: embaixador em Londres CHURCHILL. conde Leopold von Áustria-Hungria: ministro das Relações Exteriores BERTIE. Herbert Grã-Bretanha: primeiro-ministro BENCKENDORFF. Jules França: embaixador em Berlim CAMBON. Winston S. Theobald von Alemanha: chanceler Imperial (primeiro-ministro) BIENVENUE-MARTIN. Grã-Bretanha: primeiro lorde do Almirantado CONRAD VON HÕTZENDORF. 5/>Francis Grã-Bretanha: embaixador em Paris BETHMANN HOLLWEG. Sir Eyre Grã-Bretanha: funcionário do Ministério das Relações Exteriores FALKENHAYN. marechal-de-campo Franz Áustria-Hungria: chefe do Estadomaior do Exército CROWE. general Erich von Alemanha: ministro da Guerra FLOTOW.

Wilhelm von Alemanha: embaixador em Paris STUMM. Sergei Rússia: ministro das Relações Exteriores SCHEBEKO. Nicola Sérvia: primeiro-ministro POINCARÉ. tsar Rússia: monarca NICOLSON. Franz von Áustria-Hungria: funcionário do Ministério das Relações Exteriores MOLTKE. Sir Horace Grã-Bretanha: funcionário da embaixada em Berlim SAN GIULIANO. Alexander Rússia: embaixador em Paris (exministro das Relações Exteriores) JAGOW. general Helmut von Alemanha: chefe do Estado-maior do Exército MULLER. Maurice França: embaixador em São Petersburgo PASIC. barão Karl von Áustria-Hungria: funcionário do Ministério das Relações Exteriores 350 MATSCHEKO. conde Friedrich von Alemanha: embaixador em São Petersburgo RUMBOLD. cáiser Alemanha: monarca HARTWIG. imperador da Áustria e rei da Hungria: monarca FRANCISCO FERDINANDO. Wilhelm von Alemanha: funcionário do . David Grã-Bretanha: ministro da Fazenda LYNCKER. Sir Edward Grã-Bretanha: embaixador em Berlim GREY. Sir Edward Grã-Bretanha: secretário das Relações Exteriores GUILHERME II. Raymond França: presidente POTIOREK. conde Johann Áustria-Hungria: funcionário do Ministério das Relações Exteriores FRANCISCO JOSÉ. Sir Arthur Grã-Bretanha: chefe do Ministério das Relações Exteriores PALÉOLOGUE. general Moritz von Alemanha: chefe do Gabinete Militar MACCHIO. Gotdieb von Alemanha: ministro das Relações Exteriores LICHNOWSKY. conde Alexander Áustria-Hungria: chefe de gabinete do Ministério das Relações Exteriores IZVOLSKY. rei-imperador Grã-Bretanha: monarca GIESL VON GIESLINGEN.QUEM ERA QUEM FORGACH. marquês Antonio di Itália: ministro das Relações Exteriores SAZONOV. barão Áustria-Hungria: representante em Belgrado GOSCHEN. príncipe Karl von Alemanha: embaixador em Londres LLOYD GEORGE. Nicolai de Rússia: representante em Belgrado HOYOS. arquiduque Áustria-Hungria: herdeiro aparente GEORGE V. Nikolai Rússia: embaixador em Viena SCHOEN. general Oskar Áustria-Hungria: governador-geral da Bósnia-Herzegóvina POURTALÈS. almirante Alexander von Alemanha: chefe do Gabinete Naval do cáiser NICOLAU II.

Arthur Alemanha: vice-ministro das Relações Exteriores 351 . Karl Áustria: primeiro-ministro SVERBEJEV. conde Heinrich von Alemanha: embaixador em Viena VIVTANI.O ÚLT IMO VERÃO EUROPEU Ministério das Relações Exteriores STÚRGKH. Sergei Rússia: embaixador em Berlim SZAPARY VON SZAPAR. conde István Hungria: primeiro-ministro TSCHIRSCHKY. conde Ladislaus Áustria-Hungria: embaixador em Berlim TIRPITZ. conde Friedrich Áustria-Hungria: embaixador em São Petersburgo SZÕGYÉNI-MARICH. René França: primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores ZIMMERMANN. almirante Alfred von Alemanha: secretário de Estado do Gabinete Naval TISZA.

15a ed. e Habeck 2000: 2 Herwig 1997: 1 Encyclopaedia Britannica. Kennah 1979: 3 Stern 1999: 200 Gilbert 1975: 355 Kennan 1951: 51 Miller.w. 15a ed. Lynn-Jones Ecvera 1991: xi Lafore 1971: 17 Lorde Bryce.N O TAS 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 PRÓLOGO Baseado em coberturas jornalísticas da época Encyclopaedia Britannica.. 30. “World Wars” Winter. s..w. “World Wars” McNeill 1976: 255 Economist. citado em Fromkin 1995: 58 Zweig 1943: 2 14 Taylor 1965: 1 Braudel 1979: 104 Keynes 1920: 11-12 353 . p. 31 de dezembro de 1999. s. Parker.

: 51 1 2 3 CAPÍTULO 5: PROFECIAS DE ZARATUSTRA Taylor 1956: 121 Morris 1979: 569 Strachan 2001: 68 1 2 3 4 CAPÍTULO 6: ALINHAMENTO DIPLOMÁTICO Morgenthau 1978: 248 McLean 2001: 16 Ibid.NOTAS 20 21 22 23 24 1 Micklethwait e Wooldridge 2000: xviii Kennan 1951: 9 Zweig 1943: 1 Keiger 1983: 133 Ibid. Schlieffen. “Moltke.: 79 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 6 7 8 9 354 CAPÍTULO 9: ALEMANHA EXPLOSIVA Berghan 1993: 172 Joll 1992: 56 Berghahn 1993: 28 Halévy 1930: 6 Berghahn 1993: 88 Clark 2000: 19 Ibid.: 123 Ibid.: 44 Ibid. Gunter E. Cowley e Parker 1996: 415 Mombauer 2001: 55 Ibid.: 20 Ibid. Rothenberg.: 54. CAPÍTULO 3: DISPUTA ENTRE NAÇÕES McLean 2001: 98 6 7 8 9 CAPÍTULO 4: ARMAMENTO DOS PAÍSES Adams 1918: 383 Fussel 1975: 8 Stevenson 1996: 1 Ibid.: 203. and the Docctrine o f Strategic Envelopment”. “Alfred von Schlieffen”. Paret 1986: 306 Daniel Moran. Ibid.: 125 . 56.

FORA DE CONTROLE Shaw e Shaw 1997 II: 207-208 1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 1 2 CAPÍTULO 11: ÁUSTRIA . Ibid. 91 Craig 1978: 323 CAPÍTULO 12: FRANÇA E ALEMANHA FAZEM SEU JOGO Joll 1992: 58 Gooch e Temperley 1926: 205 W .: 190 Ibid. Ibid. Ibid. Ibid.O ÚL TIM O VERÃO EUROPEU 11 Berghahn 1993: 16 Fisher 1975: 28 1 CAPÍTULO 10: MACEDÔNIA .PRIMEIRA A DAR PARTIDA Bridge 1990: 228 Albertini 1952 I: 228 Ibid. Ibid. Rõhl 1994: 168 Ibid: 191 Ibid Ibid. OS BÁLCÃS TAMBÉM Varé 1938: 70 Albertini 1952 I: 486 CAPÍTULO 14: A MARÉ ESLÁVICA 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Rõhl 1994: 167 Clark 2000: 189 Ibid. Ibid. -. Ibid.: 230 Berghahn 1993: 93 Ibid. Ibid: 170 355 . Ibid. Churchill 1923: 48 Herrmann 1996: 172 CAPÍTULO 13: A ITÁLIA TOMA POSSE.

Ibid : 1766 22 23 Herrmann 1996: 177 Stevenson 1996: 264 18 19 20 1 2 3 4 5 1 2 3 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 356 CAPÍTULO 15: A EUROPA À BEIRA DO PRECIPÍCIO Albertini 1952 I: 488 Kautsky 1924: 53 Ibid. 1914 Diary. Ibid: 54 Ibid CAPÍTULO 16: MAIS ABALOS NOS BÁLCÃS Geiss 1997: 48 Strachan 2001: 69 Geiss 1967: 43 CAPITULO 17: UM AMERICANO TENTA DETER O PROCESSO Smith 1940: 51 Ibid: 102 Ibid: 2 House Papers.: 173 Ibid. 1914 Diary. Ibid. Link 1979: 139 Ibid. Wall 1989: 909 Ibid. 1914 Diary. 1914 Diary. House Papers. Ibid: 924 Link 1979: 108-109 House Papers. Ibid. 23 de maio.: 140 Ibid. Tl de junho Ibid.NOTAS 21 Ibid. Ia de junho Ibid. 24 de junho Ibid: Ia de junho Ibid: 12 de junho Link 1979: 190 House Papers.: 24 de junho Grey 1925 I: 323 .

Great Britain 1915: 10 357 . 23 Albertini 1952 II: 63 CAPÍTULO 20: A CONEXÃO RUSSA Albertini 1952 II: 117 Thompson 1964: 47 Wilson 1995: 85 CAPÍTULO 21: OS TERRORISTAS ATACAM Remark 1959. 216 Keiger 2002: 164 Zeman 1971: 2 Keiger 2002: 102 Ibid.-.O ÚL T IM O VERÁO EUROPEU 1 1 2 3 1 2 3 1 2 1 2 3 4 5 CAPÍTULO 18: A ÚLTIMA VALSA Williamson 1991: 21 CAPÍTULO 19: NA TERRA DOS ASSASSINOS Evans 1990: 32 Ibid-.: 160 Zeman 1971: 2 Zweig 1943: 216 1 CAPÍTULO 23: DESCARTE DOS CORPOS Albertini 1952 II: 117 2 Ibid. 1 Albertini 1952 II: 115 Ibid. Morton 1989 Taylor 1964: 72 CAPÍTULO 22: A EUROPA BOCEJA Mann 1983: 18 Morton 1989: 267 Ibid. 6 7 8 9 II 1 2 3 4 5 6 8 9 CAPÍTULO 24: REUNINDO OS SUSPEITOS Albertini 1952 II: 42-43 Dedijer 1966: 197 Albertini 1952 II: 43 Williamson 1991: 193 Maeshal 1964: 25 Kautsky 1924: 63-63 Ibid.

-.-.NOTAS 9 10 11 12 13 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 2 3 4 5 1 358 Ibid. 71 Clark 2000: 203 Geiss 1967: 71 CAPÍTULO 26: A GRANDE FRAUDE Geiss 1967: 90 Kautsky 1924: 47 Ibid. Berghahn 1993: 197 CAPÍTULO 29: O FAJTNÃO FOI ACCOMPLI Albertini 1952 II: 184-85 . 97 Geiss 1967: 114 Albertini 1952 II: 277 CAPÍTULO 28: MANTÉM-SE O SEGREDO Bosworth 1983: 121 Williamson 1991: 201 Albertini 1952 II: 184 Ibid. 49 Fisher 1975: 478 Berghahn 1993: 204 Geiss 1967: 105 Kautsky 1924: 95. 12 Kautsky 1924: 61 Great Britain 1915: 9-10 Lieven 1983: 140 CAPÍTULO 25: ALEMANHA ASSINA CHEQUE EM BRANCO Kautsky 1924: 61 Albertini 1952 II: 125 Geiss 1967-66 Berghahn 11992: 200 Kautsky 1924: 69 Berghahn 1993 Williamson 1991: 199 Berghahn 1993: 1199 Ibid. Geiss 1967: 72 Ibid.: 11 Ibid.'.

: 282 3 4 5 W . s.-.. Ibid.v. : 77 Ibid. Albertini 1952 II: 212 Fromkin 1995: 98 Rhõl 1973: 29 Berghahn 1993: 201 Ibid.O ÚL TIM O VERÃO EUROPEU 2 Encyclopaedia Britannica. Ibid.: 291 Evans e Strandmann 1990:76 Ibid. Churchill 1923: 178 Ibid. Ibid.-. “Bavaria” 3 4 5 9 Geiss 1967: 127-30 Berghahn 1993: 209 Kautsky 1924: 113 Ibid.-.. 142 Ibid. 201-202 23 24 25 1925 I: 283-90 Berghahn 1993: 209 Kautsky 1924: 144-45 W .: 181 Brock e Brock 1985: 122 1 CAPÍTULO 30: APRESENTANDO O ULTIMATO Albertini 1952 II: 280 21 22 2 Ibid. Churchill 1969: 1987-88 Great Britain 1915: 30-31 Kautsky 1924: 184-85 Albertini 1952 II: 378 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Ibid. 154 6 7 8 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 Eyre Crowe.: 126 Ibid: 141 Morton 2001: 208 Geiss 1967: 139 12 Ibid. Ibid.1967: 159. Churchill 1923: 193 Brock e Brock 1985: 122-23 R. Massie 1996: 186 Kautsky 1924: 180 359 . 1 l â ed. Ibid.

Churchill 1931: 120-26 Keegan 1999: 77-78 CAPÍTULO 33: 26 DE JULHO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Steiner 1969: 12 Albertini 1952 II: 200 1 2 3 4 5 6 Biillow 1931 III: 184 Fisher 1967: 70 Geiss 1967: 236 Riddel 1986: 85 Churchill 1968: 1988 Geiss 1967: 239 Ibid.: 182 1 2 3 4 5 6 Gõrlitz 1961: 5 Albertini 1952 II: 348 Fisher 1975: 464-65 Geiss 1967: 200-201. Albertini 1952II: 372 Kautsky 1924: 186 Evansand Strandmann 1900:102 1 2 3 4 5 6 7 Berghahn 1993: 212 Mombauer 2001: 186 Ibid: 187 Hayne 1993: 294-95 Geiss 1967: 180 CAPÍTULO 31: A SÉRVIA MAIS OU MENOS ACEITA CAPÍTULO 32: CARTAS NA MESA EM BERLIM Ibid Ibid: 200 W . Ibid. Brock e Brock 1985: 125-26 Riddell 1986: 84 Steiner Albertini 1952 II: 404 Geiss 1967: 235 Ibid: 227 Kautsky 1924: 220-21 Mombauer 2001: 197 CAPÍTULO 34: 27 DE JULHO 360 .NOTAS 17 18 19 20 Ibid.

: 319-22 Brock e Brock 1985: 132 W .: 2 Mombauer 2001: 205 Albertini 1952 II: 513-14 Kautsky 1924: 319-22 Ibid. Churchill 1967: 692 Ibid.: 241 Albertini 1952 II: 4 16 Berghahn 1993: 216 Great Britain 1915: 74 CAPÍTULO 35: 28 DE JULHO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 Herwig 1997: 26 Berghahn 1993: 212 Geis: 1967: 256 Clark 2000: 208 Geiss 1967: 256 Clark 2000: 208-209 Ibid: 209 Mombauer 2001: 199 Clark 2000: 208 Herwig 1997: 26 Ensor 1936: 484 Albertini 1952 II: 460-61 Kautsky 1924: 243 Berghahn 1993: 216 R. Churchill 1923: 212 CAPÍTULO 37: 30 DE JULHO 1 Stengers mostrou: Wilson 1995: 125 361 .: 694 Brock e Brock 1985: 161 CAPÍTULO 36: 29 DE JULHO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Albertini 1952 II: 499 Ibid: 488-89 Ibid: 495 Ibid.: 240 Ibid.: 498 Albertini 1952 III: 1 Ibid.: 313 Ibid.O ÚL TIM O VERÃO EUR OP EU 7 8 9 10 11 Ibid.

: 176 Ibid. Cimbala 1996: 389 Berghahn 1993: 217 Ibid.: 3 Lieven 1983: 146 Kautssk 1924: 375. 122 Albertini 1952 III: 37 Ibid.: 62 Gilbert 1975: 21 Brock e Brock 1985: 138 Riddel 1986: 85 Gilbert 1971: 21 Ibid.: 56 Ibid. .: 372 Ibid Albertini 1952 III: 2 /fó/.: 177 Beaverbrook 1960: 29 Brock e Brock 1985: 140 Evans e Strandmann 1990: 120 Ibid.: 22 CAPÍTULO 39: 1. Massie 1996: 258 Mombauer 2001: 206 Albertini 1952 III: 172 Ibid. Churchill 1969: 701 Ibid. Mombauer 2001: 205 Albertini 1952 III: 34 Bonham-Carter 1965: 305 Wilson 1995: 127 Albertini 1952 II: 604 Brock e Brock 1985: 136 CAPÍTULO 38: 31 DE JULHO Hayne 1993: 293 Williamson 1991: 207 n.DE AGOSTO Brock e Brock 1985: 140 R.NOTAS 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 362 Kautsky 1924: 368 Ibid.

Rõhl 1973: 17 CAPÍTULO 42: 4 DE AGOSTO Ibid.O ÚLT IMO VERÃO EUROP EU CAPÍTULO 40: 2 DE AGOSTO 1 2 3 4 5 6 7 8 Brock e Brock 1985: 146 Geiss 1967: 179 e seguintes Kautsky 1924: 496 Ibid.: 483 Albertini 1952 III: 410 1 Kautsky 1924: 527 Ibid.: 501 Ibid. CAPÍTULO 43: DESTRUINDO PROVAS 2 CAPÍTULO 46: A CHAVE PARA O QUE ACONTECEU 1 2 Wilson 1995: 22 Howard 2002: 28 CAPÍTULO 48: QUEM PODERIA TER IMPEDIDO? 1 Joll 1992: 234 1 2 Mombauer 2002: 95 Aaron 1990: 275 1 2 Keegan 1999: 170 CAPÍTULO 50: PODERIA ACONTECER OUTRA VEZ? CAPÍTULO 52: A GUERRA DA ÁUSTRIA Ibid. CAPÍTULO 41: 3 DE AGOSTO 2 3 4 5 6 Brock e Brock 1985: 148 Tuchman 1963: 139 Jenkinss 1966: 329 Bonham-Carter 1965: 312 1 2 3 Taylor 1965: 2-3 Evans e Strandmann 1990: 116 1 Herwig 1997 e o capítulo de Herwig em Winter/Parker/Habeck 2000 foram seguidos neste capítulo. 363 .: 482 Ibid.

\ 94 1 CAPÍTULO 53: A GUERRA DA ALEMANHA Mombauer 2001: 281 364 .\ 92 Ibid.NOTAS 3 4 5 6 Herwig 1997: 91 Ibid.\ 26 Ibid.

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um novo retrato da crise de julho emergiria. comparando minhas descrições da crise de julho de 1914 . fiquei chocado pela quantidade de idéias preconcebidas que tinham de ser descartadas. o contraste entre a inadvertência dos passageiros face ao perigo 373 . a quem eu fora brevemente apresentado. restam ignoradas pelos passageiros. por serem invisíveis. se as reunisse. Tantas monografias novas e brilhantes haviam sido pesquisadas e escritas por estudiosos nas décadas recentes.AGRADECIMENTOS or volta de 1999.em escritos anteriores . Joy de Menil. Taylor. meu editor na Knopf. A partir de escritos tão convin­ centes quanto os citados nos textos de John Maynard Keynes e de A. envioume uma simpática nota. de um mundo dilacerado. Ele disse que esperava um livro cujo tema fosse a história da Europa. conflituoso. Perguntei-lhe que tipo de livro ele queria que eu escrevesse em seguida. forças atmosféricas que ameaçam destruição.com narrativas recém-publicadas. Procurei uma metáfo­ ra e a encontrei na aviação comercial: por um lado. inicialmente. Ao começar minhas leituras para o livro. Trata­ va-se. mas as quais. J. feitas por outros histori­ adores. P. A idéia veio imediatamente ao espírito: os 37 dias desde o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando até a eclosão da Primeira Guerra Mundial. com alcance temporal delimitado. por outro. eu abandonei a idéia de que a Europa pré-guerra vivia tempos idílicos e pacíficos. que eu tinha certeza de que. presa de uma corrida armamentista facilmente passível de ser qualificada de suicida. em vez disso. O pensamento estava comigo quando almocei pouco depois com Ashbel Green.

quando as férias académicas nos liberam para escrever. e a Robert Baker por tê-lo arruma­ do. Meu agradecimento carinhoso e constante a Ash Green. Todd. A Joy. muitos agradecimentos por terem me ajudado a começar. Elie Montazeri. também. Meu agradecimento igualmente a Gwenyth E. Lembrei-me de ter lido rela­ tos noticiosos sobre um determinado voo. uma colónia de escritores de uma só pessoa em sua casa em Cap d’Antibes. Pela leitura minuciosa dos manuscritos acabados. ofereceu-se para fazer as pesquisas necessárias. Almoços aos domingos com o professor Ralph Buultjens. verão após verão. sou grato à minha agente Suzanne Gluck. sempre haverá. deram-me novas perspectivas. Em certo sentido. com suas conversa­ ções estimulantes. à ope­ radora de milagres Carol Janeway. e à sua sempre pronta assistente Luba Ostashevsky. e à Dra. Muito obrigado. sou imensamente grato a Timothy Dickinson. por sua extraordinária generosidade de me ceder um lugar tran­ quilo para trabalhar ao longo de agosto de 2003. França 2 7 d e agosto d e 2 0 0 3 374 . na França. Illya Zaslowsky por suas pesquisas em arquivos russos no inte­ resse do meu trabalho. DF Antigny-le-Chateau (Cote d’Or). Annika Mombauer. meu conselhei­ ro literário de toda a vida. Eu quis encontrar instalações onde pudesse trabalhar sem perturbações durante os verões. Carol ShookofF conseguiu ler minha caligrafia e transformar meu manuscrito em algo publicável. e conduziu-as com imensa perícia. Ela tem tanto a minha admiração como a minha gratidão. Meus agradecimentos a ela e às suas animadas e competen­ tes assistentes. tomara que esteja sempre na minha equipe. Finalmente. o melhor dos editores. a melhor que há ou. os quais poderiam ilustrar meu argumen­ to. inicialmente Emily Nurkin e agora Christine Price. todos os meus trabalhos são dedicados a ele. ao professor emérito Alain Silvera. da Open University na Grã-Bretanha. Mais do que geral­ mente é o caso. por locali­ zarem na Grã-Bretanha livros e fotografias de que eu necessitava. da Bryn Mawr College. penso eu. Sou grato a Richard Herland e a Martine Callandrey por propiciarem tudo o que eu precisava neste parti­ cular: por terem criado. que ajudam e assistem com eficiência não intrusiva. pelas quais sou grato. Meus agradecimentos igualmente a Robert e Jeanne-Mary Sigmon. e muito mais. Tam­ bém sou grato ao Dr. Ash e Elie.A G R AD E CI M E NT OS e a consciência aguda dos comandantes e da tripulação. meu agradecimento. um ex-estudante meu. devo salientar que esses leitores não têm nenhuma responsabilidade pelo texto precedente ou pelas opiniões nele expressas. por suas sugestões judiciosas e suas críticas desafiadoras em praticamente todas as páginas. isto sim. como sempre. a James Chace. Como sempre.

77-9 Alemanha. Sir Max. 110 desinclinação para a guerra. crises. 91. opiniões sobre. 104-6 171 House. 93-5 Bóeres. 89 Grã-Bretanha. 78-9 375 . 90-1 paradoxos da. relações com. 77. 146. 73. 277 estratégia balcânica. 103. 283. 296 corrida armamentista. 77. 119. 78. 85. 97-8. relações com. 76-7 conselho de guerra de 1912. 42-3 Aehrenthal. Luigi. conde Alois Lexa von. 118-20 Albertini. rei (Bélgica). 124-9 cerco por forças hostis. 27 destruição de documentos relaciona­ Aitken. 151. 72. 288 Exército da. 33. guerras balcânicas. 269 dos à eclosão da guerra generalizada. 114 imperialismo 31-6. 43-4. plano de paz de. 107-10 manobras financeiras em 1911. 95 controvérsia sobre a Guerra dos marroquinas. 99. 115 assassinato de Francisco Ferdinando guerra franco-prussiana. 98. 119 282-3 Albert. Albânia. 23 como operação sérvia. 176 Afeganistão.ÍNDICE REMISSIVO Adams. 143. 17 França. 23-4. Henry. 51-2. 88-9. 128 anexação da Bósnia pela Áustria. 101. 77.

relações com. 35-6 tratado ofensivo. 21. 325 xenofobia. 275. 70-3 sua percepção de “enfraquecimento”. 18 tomada da Líbia pela Itália. 294. 44. 100 Ardant du Picq. 143-9. 125. 171-2. 260. 292-3 114-5. 71 229. 240. 45. Charles. 273. 79 tensões no seio da. perspectiva alemã sobre a. 232. 230-1 precedência académica e cultural. origens da Grande eclosão da guerra generalizada. aliança crise irlandesa. ver também guerra austro-sérvia. manha em relação à. 260 germano-austríaca. 192. 156 “cheque em branco” de apoio da Ale­ descarte dos corpos. 105-7. 278 guerra austro-sérvia. 51. 302 envolvimento russo. Rússia. 147 House. eclosão da guerra generalizada Alexander. 126-7 como justificativa para a guerra planejamento naval. mudança para. 183. 211. 264-5. 169-72. 299-300 perspectiva austríaca sobre a. 216 Asquith. 41 Artamanov. 291 120-1. 278 aliança britânico-franco-russa. 71 Asquith. 75 Aron.ÍND IC E REMISSIVO planejamento de guerra. 32. Guerra. 207. 95 envolvimento sérvio. 270. 145-6. 312 254. 297-8. 204. 240-1. 47. imperatriz (Rússia). príncipe (Sérvia). 292 como via de mão única. 23. coronel Viktor. 203-4 Arábia Saudita. 177-84. Violet. Raymond. 151. Herzegóvina. 39. 95 atmosfera política na Bósnia- eclosão da guerra generalizada. 143-8. 166-7 manha. 75-7 297-8 situação política. 46 Tratado de Resseguro. 208 303-4 origens da Grande Guerra e. 192. 53. 176. 290 376 . 220 310. 90. 168-9. 204 austro-sérvia. origens da Grande Guerra e. 79 249. 126 planejamento de guerra e. consideração de. 138-43. 150-2. Herbert. 45. 117-8 revoltas sociais e económicas. assassinato de Francisco Ferdinando. 44-51. 76-8. visão de mundo pessimista. 107-9 135-6 crises marroquinas e. 229. 290 investigação do. 77-8 319-20 comunicações britânicas com a Ale­ acontecimentos sociais precedentes. 69 política naval. 97. 23-4. 52 conspiradores. 128-9. 151 unificação nos anos 1800. Apis (Dragutin Dimitrijevic). 92. 135 242. 293 aliança germano-austríaca. 233 Alexandra. guerra preventiva. plano de paz de e. 259 avisos ao governo austríaco.

247. 100 282-3 377 . 335 desintegração otomana. 230-1. 135 Bakunin. 38-9 estratégia balcânica. 268. 116. 237. 143 razões para a visita a Sarajevo. 176-7 destruição de documentos relaciona­ ultimato austríaco à Sérvia. assassinato de Francisco Ferdinando 147. 280 responsabilidade por. 85 Berchtold. 106. 239. Theobald von. 281 como operação sérvia. criação da. Mikhail. anexação da. conde Leopold von. crises do. 170-1 159 assassinato de Francisco Ferdinando. 73. Bálcãs. 31-2 170. 164 dos à eclosão da guerra generalizada.. asassinato de Francisco Ferdinando. 194 Francisco Ferdinando. 192. dos à eclosão da guerra generalizada. 153-7 ça germano-austríaca processos relativos ao. 92. 91-2 193. 320-1. 191. 66 qualidades pessoais. 140 reaçao sérvia ao. 222. 119-20 Berghahn. 236-7. 67 256-7 declaração de guerra à Rússia. ataques terroristas de setembro de 2001. 118. tomada da Líbia pela Itália. 298 instabilidade política. Bergson. alian­ e de Sophie. 180-1 Marrocos. 87-9 281-2 como império multinacional. destruição de documentos relaciona­ reaçao ao. 244. 67-8. 67-9 aliança germano-austríaca. 70-1. 222 resumo dos acontecimentos. 17. Arthur. 24 reaçoes européias. 158-64. 175 Ballin. 44-5 dos à eclosão da guerra generalizada. Philippe. 181. 148 Bélgica. 212-3. 198 tentativa de cancelamento. 20 275-9 Áustria-Hungria. 94 ascensão ao poder. 54 invasão alemã da. 39 destruição de documentos relaciona­ planejamento de guerra. 116. 95. 102-3 Bethmann Hollweg. 237.O ÚLTIM O VERÃO EUR OP EU os assassinos de Francisco Ferdinando ver também guerra austro-sérvia. 31 Assim Falou Zaratustra (Nietzsche). 199-200. 208-9 Balfour. 91 Monarquia Dual. 217 281-2 estratégia balcânica. Albert. 177. Henri. 290-3 Bavária. 187-8. 213 guerras balcânicas. 171. 253. Bósnia. opiniões sobre. 186. 46 133-4 Berthelot. 77. imperialismo. 119-20 conflito austro-russo em relação aos guerra austro-sérvia. visão da. Volker R.

238 Bienvenue-Martin. 98 Congresso de Berlim (1878). 118. 264. Gordon. 98. 163-4 Cambon. 274 Carnegie. 23. 242-3. 255.75 241. bolchevismo. 191-2. 246-7. 118. 162. 208 Bulgária. Cartuxa de Parma (Stendhal). 111. Osama. Milan. 293-4 378 assassinato de Francisco Ferdinando. 129 Questão Macedônia. 90. 262 Canhões de Agosto. 99. 18 guerra austro-sérvia. 146 Francisco Ferdinando. 87 Conrad von Hõtzendorf. 88 120-1. 68 200-1. 101-2 independência do Império Otomano. 37-8. crise de julho. 270 qualidades pessoais. Karl von. 48. 206. 51. 238 Constantinopla. 66. 227. 210. 137 Clark. arquiduque (Áustria-Hungria). Christopher. 83-4 corrida armamentista. 52. Capelle. eclosão da guerra generalizada crise irlandesa.Í N D IC E REMISSIVO eclosão da guerra generalizada. 331. 18. 89- 304-5. Os (Tuchman). 332-4. Leon von. 97 anexação pela Áustria da. 278 . 246 Boyer. 282 Comité de TOrient. 42-5. 142. ver guerra austro-sérvia. 96. 262-3. Chamberlain. 92. Winston S. príncipe Bernhard von.. Nedeljiko. 236. 302. Charles. Biilow. 168-9 Craig. Andrew. 294. 254. William. 186. 239. 307 Britain and the Origins ofthe First World War [A Grã-Bretanha e as origens da Clemenceau. 120 guerras balcânicas. Jean-Baptiste. 20 eclosão da guerra generalizada. 202 nota 244. 321. 248 Calmette. 230. Bismarck. 84 guerra austro-sérvia. 235. 252-3. 206-7. 170 crise irlandesa. 92 Caillaux. 187 229. 147. 66 . 135 Clausewitz. 232 Bilinski. Jules. marechal-decampo Franz. 87-90 249. 260. 162-4. 251. o Franco. 248-9. 210-11 bin Laden. 259. 252-3. almirante Eduard von. 38 259. 206 clima político na época da visita de Ciganovic. 203-4. 57. Joseph e senhora. 73.71. 179-80. 247. 210-1 Bósnia-Herzegóvina planejamento de guerra. 266-7. 114 257. 71. 335 91. 155. 160. 33. Joseph. 125 guerra austro-sérvia. 98 Primeira Guerra Mundial] (Steiner). “Clio Deceived” [Clio ludibriada] (Herwig). Otto von. Carlos Magno. 239-40. 265-6. Bullitt. 320 Charles. 253. oferta de demissão. 213 166 Churchill. 110 Cabrinovic. Georges. Gaston.

enredo. 281-4 discordância interna alemã. 260 preparativos navais britânicos. 249 “duas guerras”. 125 aliança britânico-franco-russa e. plano de paz de. eclosão da guerra generalizada 26 de julho. desenvolvimentos. rei (Grã-Bretanha). 31 relação à. 263. 280 situação política britânica e. 264-5 mobilização russa. 269-70. desenvolvimentos. 229. 251-3. desenvolvimentos. desenvolvimentos. 248-9 Daily Telegraph. 256. 18 Economist.de agosto. 265. 214. 280 declaração de guerra alemã. 256-61 31 de julho. 270 House. 257-9. 277-8. 244-9 29 de julho. 277-8. 272 situação peculiar da Alemanha em 4 de agosto. 259. Sir Eyre. 277-8 4 de agosto. desenvolvimentos. 240. 265-6. 327 decisão política. 263. 260. 254 Eduardo VII. 254. desenvolvimentos. 20. 247. 303 mobilização alemã. 296. 235-6. 336 Dreadnought. 244-5. censura à imprensa. Charles. 232-7 27 de julho. 279-80 a decisão britânica de entrar em guerra.O ÚL T IM O VERÃO EUROPEU cristandade. 241 Encyclopaedia Britannica. 240-1. 254-5. 255. 223. 270-1. navios de guerra. 255. 239. 298-9 “neutralidade britânica”. 322- militares alemães tomam o processo de 3. 22-3 destruição de provas relativas à atividade Crowe. 261. a questão da. 270. 233. 273-4. 266-7. de Londres. 202 dos países. 230-1. 279 Estados Unidos. 279-80 Alemanha debate a entrada em guerra. 44 manobras financeiras francesas. 255. 268 mobilização francesa. de Londres. 304-7. 275-6. 259. 250-1. 267-8 neutralidade italiana. 252. 265-71 2 de agosto. 32 Luxemburgo e da Bélgica. desenvolvimentos. 274 oposição francesa à guerra. 313 declaração austríaca de guerra. desenvolvimentos. The. 274-5. 249. 26. desenvolvimentos. 20 britânicos acusados pela. 272-3. 272-6 3 de agosto. 279-80 242. 123-9 Eulenburg. 251. 298-9 266-7. 262-4 1. 272-3 status de “guerra mundial”. 237. questão das. 40 comunicações britânico-alemas em Espanha. 259 Economist. 257. 267-8 “Alemanha vítima da Rússia”. 242-3. 264. filosofia de. 272-3. Philipp. desenvolvimentos. 227-31. 250-5 30 de julho. 54-7 267-9. 257-8. destruição e regeneração. 229-30. 279. 90 379 . 90 invasão alemã da França através do Darwin. 238-43 28 de julho. 223.

214. assassinato de Francisco Ferdinando. 40-1 revoltas sociais e económicas. 178. Ferdinand. 77. imperador (ÁustriaHungria).ÍN D IC E REMISSIVO Europa antes da Grande Guerra desintegração otomana. 31-4. 17 Francisco José. 93-5 paz e liberdade na. 136 Fischer. 57. 162-4. 40-1 russa. arquiduque (Áustria- Falkenhayn. 25-7 planejamento de guerra. 161. 120 Fellner. 134. 136 Fay. 67. Sidney B. 21. 107.. 102 paz. 73. 177 visão do futuro do império. 100 58-61 xenofobia. 49 Forgach. sistema das. Fritz. 311 97. 35-6 relações internacionais. eclosão da guerra generalizada Francisco Ferdinando. Foch. 98. filosofia de. 110 282-3 destruição e regeneração. 186. 323 Hungria). 134 ficção. crises. 44-7 planejamento de guerra. 31-4 nacionalismo. 44-51. 134 Fernando I. 42 cisco Ferdinando Fausto (Goethe). 313 116-8 Flotow. 27 guerra austro-sérvia. 325 estratégia balcânica. 33. tomada da Líbia pela Itália. 221 “honra”. 78. Michael. 288. 248 54-7 guerra austro-sérvia. 110. Fritz. 79. relações com a. 42-6. 39. Robert T. 229-30. 43 qualidades pessoais. Ludwigvon. 53. razões para entrar em guerra. 52 casamento com Sophie. ver assassinato de Fran­ Faraday. 67-8. 263 380 . relacionamento de Guilherme com. 112-5 imperialismo. 140 marroquinas. 35-6 ver também aliança britânico-franco- xenofobia. 101 mudanças políticas de 1908-13. escândalo Caillaux. 302. 76 guerras balcânicas. 182. 283. 305 interesses militares. 247. 118-9. 37-42. 66 belicosidade do período. 289-90 destruição de documentos relaciona­ corrida armamentista. 259. 246. 299 revoltas económicas e sociais. 46 133-4 Foley. 305 Alemanha. 218. II. rei (Bulgária). preferência pela. 267. 116. 88. 99. 334 assassinato de. busca da.. 128 160-1 desinclinação para a guerra. general Erich von. dos à eclosão da guerra generalizada. 57 guerra franco-prussiana. Johann. 98. 67. 108. 177 França. 23 imperialismo. 200. 228-9.

278-9 corrida armamentista. The [A Génese da Russofobia na Grã- mudança da motivação dos combaten­ Bretanha] (Gleason). 162. eclosão da guerra generalizada Grande Guerra conclusão final. Sir Edward. 17-20 participantes e baixas. Imanuel. 280 Giesl von Gieslingen. 253. 35-6 135 tomada da Líbia pela Itália. Alemanha. 17. 310-2 assassinato de Francisco Ferdinando 381 . 269-70. Sir Edward. 120 Goltz. plano de paz de. eclosão da guerra generalizada Goethe.W vo n . 221 Gleason. primeira batalha do. 100 paz. 66. J. 200-1 imperialismo. 40-1 qualidades pessoais. crise irlandesa. 336 Gagarin. 44 guerra austro-sérvia. 313 mudanças engendradas pela. 209-10. 206. 77. 167-8. 134-5 ver também aliança britânico-franco- Franco-maçons. 90. Questão Macedônia. 93-6 propostas conflitantes. 233-4 adiamentos da ofensiva austríaca. 96. general (barão) Colmar von der. 115 240. 44-6. 235-6. 283 Marne. 278 House. 255 aliança britânico-franco-russa. Sigmund.O ÚL T IM O VERÃO EU ROPEU casamento de Francisco Ferdinando. 222- guerra austro-sérvia 3. 17 recorrência da guerra mundial. 269-70. 210-3. poten­ cial de. A. 41 George V. 19-20 Geiss. rei (Grã-Bretanha). 259. 57-8. 128-9 desinclinação para a guerra. 310-2 Goschen. plano de paz de. 255. 240 260. 204-5 Grã-Bretanha. 124-9 2 . 337 Genesis ofRussophobia in Great Britain. John Howes. relações com. 176-84. 66 Grvic. 210. 52 Grécia. 211-2. 206. 27 planejamento de guerra. 140 207. 190. 191- House. 159 Freud. 210 guerra austro-sérvia. revoltas sociais e económicas. 207. 337 Grey. 189. Slako. 235-6. 45 desintegração otomana. 171 influência durável no século XXI. 101-2. 85 294 razões para entrar em guerra. 134 russa. 125. 222. 249. 134 xenofobia. 324-6 ver também origens da Grande Guer­ ra. 31-2 Alemanha e Áustria trabalham em marroquinas. barão. 19 eclosão da guerra generalizada. príncipe M. 232. 331-3 planejamento de guerra. 41 tes ao longo do tempo. preferência pela. 96-7 apoio da Alemanha à Áustria. 202. 206. crises.. 233. Maxim. Gorky.

113. 256 derrota da Áustria. 177-83 objetivo austríaco de destruição da Guilherme II. 232-3 apoio alemão à Áustria. 181. 202. ção à marcha para a guerra. 90-1 tra a Sérvia. 266 382 . 316 159-60. assassinato de Francisco Ferdinando. 218.Í ND IC E REMISSIVO como justificativa para. Sérvia. 187. 235-6. 201. 220-1. 176. 107-9 202-4. mobilização austríaca. 293 proposta de parar em Belgrado. 223. a questão 197. 220-2. conselho de guerra de 1912. 250. 308-9 desinteresse europeu por. 218. 245. 321 322-3. 296 Guerra Fria. 199-200. 201 do. envolvimento russo-francês. aliança germano-austríaca. 221-2. 262-3. 257 6. 211 correspondência de Nicolau com rela­ “prevenção da guerra”. 194. 295-7. 248. 191. cáiser (Alemanha). 247. dúvidas alemãs sobre a imobilidade 320-1. 217. 194 vazamento de informação sobre as invasão da Sérvia. texto do. 213 95. 204. 212-7. questão da. 199. 202. 183-6 guerras mundiais. 101-6. 335 austríaca. 333-4 intenções germano-austríacas. 176 alemão em relação à. retirada do apoio de Guilherme. 319. 333-4 razões para entrar em guerra. 115. ultimato austríaco à Sérvia. 210-2. 240. 148. declaração de guerra. 221 anexação da Bósnia pela Áustria. Grande Guerra. 242. 206. 212-3. 222. 187-9. 237. 263. 294-5. 210. 302 posição francesa. 170-1.236. 244. 19 mentiras dos governos austríaco e guerras balcânicas. 200. 245- 233. 302-3 responsabilidade da Alemanha.247. 198. 183. a questão das. ignorância dos europeus sobre os pre­ 220. 98. 315-6 estratégia de “ataque rápido”. texto do. 293 preocupações com a “guerra mundial”. 213-4. 315-6 257-8. 242-3. 244. 219. 197. 295-6. 32. 309. “duas guerras”. 209-13. 296-7. 184. 338-43 parativos de guerra. 90. ruptura de relações. 327 responsabilidade de Berchtold na. 233-4 177-83. 251 192. 245. 193-4 legitimidade da queixa austríaca con­ Guerra dos Bóeres. 105-7. 187. 344-7 esforços de mediação. 239-40. 89 posição russa. ver. 175-7. 253 Segunda Guerra Mundial mobilização sérvia. 183. 250. 304-7. 337 posição britânica. 294.251 252-3. 198-200 resposta sérvia ao ultimato austríaco. 238-9 233-4 estratégia de localização. 222.

293-4. 125-6. 113 House. 307 paz. 150-1. J. 104-6. 189.. 257. 90. 22 Halévy. 57 guerras balcânicas. 199. Danilo. 87-8 216 conquista do Oriente cristão e da Eu­ responsabilidade por. Ludmilla. House. questão das. Sir Michael. 36. plano de paz de. 140 250. 267-8. família. R. 303 Herrmann. busca da. 110 estratégia balcânica. 294-5 ropa Oriental. Nicolai. “duas guerras”. 254. 223. 256 guerras balcânicas. M. Hentsch. 103. 78. conde Georg. 246. 75-6 Herwig. 321 política naval. 31. 310-1 relacionamento de Nicolau com. 241 Habsburgo. 292 o Plano Schlieffen] (Zuber). vice-almirante August von.. B. 80. B. 218 dos à eclosão da guerra generalizada. 72-3. 145. modo de encarar o. 22 proposta de parar em Belgrado. 251-2. 281-2 guerra austro-sérvia. 304-5 107 eclosão da guerra generalizada. conde Franz von. crises. Ilic. 228. 60. conde Alexander. 118-9 Hoyos. Elie. 148. 84-5 2. 263. 320 Hobson. 31 Guerra dos Bóeres. 276-9 qualidades pessoais. 76. 74-5 Ibsen. Império Otomano. 18. 310 Guilherme retira o apoio. 118-20 Hertling. Alexander. 245. 259. Holger. desintegração do.O ÚLT IM O VERÃO EUROPEU destruição de documentos relaciona­ Hayne. 169 116-8 imperialismo. 101-2 ultimato austríaco à Sérvia. Richard. 31-4. A. 5 nota.. 90-1 “honra”. Henrik. 123-9 Moltke e. 50 Iraque. 198 governo. 312 indústria jornalística. 107-8 Império Romano. 84-5 tomada da Líbia pela Itália. 220 Questão Macedônia. 65-6 252-3. 281. coronel Edward.. preferência pela. 108 283-4 Heeringen. 229. 211- Jovens Turcos. 217. 337 242-3. rebelião dos. 99. 38-9 Inglaterra. 190. controvérsia. Heeringen. 52 Howard. 20 Itália. 93 336 esforços de paz. 153 Inventing the Schlieffen Plan [Inventando Hartwig. 101. ver Grã-Bretanha Harrach. 60. 248. 178-9. 101 Haldane. 238-9. David G. 245-6. Herzen. 190 Hartwig. general Josias von. 119 383 . 155. 124-8 marroquinas. 121-4. 140 relação de Francisco Ferdinando com. 98. 315-6 Holanda.

Franzvon. 186 aliança germano-austríaca. 81-5 Mann. 92 . 89. Bruno. 291-2 Marie Adelaide. 280. 18-9. 200. grã-duquesa (Luxemburgo). 108. príncipe Karl Max von. 39 Liman von Sanders. 236-7. 277 Joll. 264 Mayerling (filme). Dominic. 98-101 Liga Pan-germânica. 32. Keegan. 333 Keiger. 26 Kiderlen-Wáchter. 170. 19 Jovanovic. Erich. Joffre. Gottlieb von. John. 269. Henry. invasão alemã do. 237. 233-4 202-3. 108. 108. Paul. 273-4.. 269 Miller. 114. 31-2 Lieven. Jean. 125 unificação nos anos 1800. movimento. 204. Steven E. 303 Matscheko. Laurence. John F. I. 264-5 274-5. 230-1 imperialismo. guerra austro-sérvia. 253-4. 84. 27. 205. 212. 97-8 Kennan. 147 Jovem Bósnia. 19. V. 107. 42 Kudashev. 151-2. príncipe almirante. 245-7. David. 274 Ludendorff. primeira batalha do. 159 Mão Negra. 235.. 101 Lloyd George. Jacquin de Margerie.320-1 James. 142 Macedônia. 316-7 Lyncker. crises.234-40. Peter. 324 Líbia. general Joseph. 255 Luxemburgo. coronel Erich von.. Alfred von. 91.. 228-31. 135 Kropotkin. 230 Jaurès. 128. 242. 324-5 Marne. 337 Kennedy. 94 251. 84-5. 155-6 Lichnowsky.. a crise dos. Giuseppe. 49. 271 Japão. 43 Louis de Battenberg. 101-2 Jovens Turcos. Alexander. 41 marroquinas. 18. John. Bonar. 177 Kitchener. 267. 259. 89. 245. 94. general Heluth von (liderança Merizzi. Sean M. 19 Lenin. 274 Liège e Namur. conde. 96. 213 McLean. 325 eclosão da guerra generalizada. 264.Í N D IC E REMISSIVO eclosão da guerra generalizada. 115 Izvolsky. 100 Moltke.251. 142-5. 228 Jordânia. 231. 310 mísseis cubanos. 18 Lynn-Jones. 278 Jagow. 267-8. 140. 198. 296 Law. Keynes. 101 tomada da Líbia pela. 163. 60. 275 384 mais jovem). 215. George. Otto. John Maynard. Ljuba. James. 140 Mazzini. 26 209. 21 México. 148. general Moritz von. 79. 274-5 Kennedy. 59-60 Lafore. lorde. Thomas. Roderick R. fortalezas de. 213 265-6.

216 31. 107-9 Nicolau II. 66. 60. 259. a questão da. a questão das. 280. 50. 266 relação de Guilherme com. 129 “acomodação da força alemã”. 101-2 entrar em guerra. 318-9. Mombauer. a primeira batalha do. 331-3 guerra preventiva. 59 questão das. a ques­ Guilherme e. 237. 251.O ÚL TIM O VERÃO EUROPEU como instigador da Grande Guerra. 250. 311-2 “condições favoráveis para a guerra”. príncipe Alfred. consideração da. qualidades pessoais. 294. Narodna Odbrana. marechal-de-campo Heimuth von (o Velho). 148. 306-7 Montenuovo. 159. 303-4 New York Sun. tsar (Rússia). 321-3. 45. 327 385 . 335-6. 37-42. 179. Naumann. 140 guerra austro-sérvia. 335-7 “neutralidade belga”. 108-9. 72-3 Marne. 71. 52 “ambições imperialistas”. 47. almirante George Alexander von. 56 “defesa do status quó\ questão da. 303-4 Morton. o plano de. 273- Nicolson. 228 290 Montanha mágica. 220. 245. 282-3 qualidades pessoais. Victor. 299 Nações Unidas. 117 corrida armamentista. a questão das. 303 Nietzsche. 251. planejamento de guerra. 295 “culpa” da Alemanha e da Áustria- nacionalismo. Annika. 267-8. 144-5. 122 New York Times. 110-1 correspondência de Guilherme com destruição de documentos relaciona­ relação à marcha para a guerra. 232-3. 310 Moltke. 140 Hungria. Noruega. 248. 242 “crise de julho”. Miiller. 200 crenças incorretas a respeito. 50-1. 310 106. 60. 178 319. 297-8. Hans. Morgenthau. 19 caráter “ilógico” da decisão alemã de Montenegro. Friedrich. 230 assassinato de Francisco Ferdinando e. 53. 135. 52 tão da. 52-3. 89. 337 230 aliança germano-austríaca e. a questão da. 337 Alemanha como parte responsável. 321-3. A (Mann). 263. 68. 236 4. 19 conselho de guerra de 1912. 5Vr Arthur. dos à eclosão da guerra generalizada. Frederic. 215-6 eclosão da guerra generalizada. 228- 257-8. 52-3 303-4 Moltke. 274 253. 291 312-3. 54-5. 90. origens da Grande Guerra 120-1. 203. 166 “condições favoráveis para a guerra”. 289-300.

Leo. The [A Origem da Questão Oriental. 148. 292. 24-5 229-30. 1689. potencial Pacu. 197. Pasic. ver Grande Guerra Princip. 256 Reforma Protestante. 97-8 309-10 Ponsonby. questão da. 324-5 ver também Europa antes da Grande 156. 209-10 Page. 68. 264 razões britânicas para entrar em guer­ Portugal. 65-6. 296 322-3. conflito entre. 163-4 primeiros passos potenciais (400-1905). 155-7. Pogge von Strandmann. 291-2. Gavrilo. 141-6. John. 296 297-8 assassinato de Francisco Ferdinando. 127-8 de. 209 revolução energética. 319-20 Guerra Origins ofthe World War. 35 386 . Maurice. 44-51. rei (Sérvia). 220-1 Revolução Industrial. Raymond. 160 314-7 Caillaux e. Walter Hines. 35-6 146-7. 299 sistema de alianças. 260 21-4 guerra austro-sérvia. sistema de. 168-9 Potências européias. mistério das. Pershing. 145. questão da. 191 pesquisa sobre. 327-8 planejamento de guerra. eclosão da guerra generalizada. 327 Peter. Arthur. 22 Primeira Guerra Mundial. 53. 287-8 assassinato de Francisco “prevenção da guerra”. razões russo-francesas para entrar em guerra. 20-1. questão das. 311 Schlieffen. 278 Paléologue. 297-8 “situação fugiu ao controle”. 153-4. 58-60. 218 razões alemãs para entrar em guerra. 31 ra. 145 luta pela supremacia entre as Grandes Pfeffer. general John. plano de. 169-70 povos eslávicos e germânicos. 304-7. 143. 298. Hartmut. 299 “neutralidade da Bélgica”. Ferdinando. 213-4. 147-8. qualidades pessoais. revoltas económicas e sociais. 280 311-2 Poincaré.Í N D IC E REMISSIVO “duas guerras”. 218. general Oskar. ponto de vista. 305. Gregory. 296 Rasputin. 42-3 guerra austro-sérvia. 324-6 Redmond. Nicola. 249 relações internacionais. 96-7. 216-7 recorrência da guerra mundial. 152. 102 Primeira Guerra Mundial] (Fay). 325 OTAN. 210. 310-2 Potiorek. 22 Partido Social Democrata (SPD).

258. 44-5 Siegfried. Gerhard. 138. 299-300 anexação da Bósnia pela Áustria. 91-2 anexação da Bósnia pela Áustria. 66. 78 Schlieffen. 316 Questão Macedônia. 169-72. 19. Sir Horace. 66 142-9. 89-90 66 guerra austro-sérvia. 135. 75 alemão] (Kennedy). 108. 59 Rudolf. 17. 282. 18901914 [Realeza e Diplomacia na Sagração da Primavera. crises.O ÚL T IM O VERÃO EUROPEU Riddell. 38. 299 Santo Império Romano. Kurt. relações com. 90. 101-3 282-3 independência do Império Otomano. 297 Sérvia. 311 Riezler. André. general Alfred von. John. 27 assassinato de Francisco Ferdinando e. 119. alianças com. 136. 31-2 ver também guerra austro-sérvia marroquinas. 220-1. 297-8 387 . 56. 70-1 assassinato de Francisco Ferdinando e. 291 destruição de documentos relaciona­ golpe de Estado de 1903. 161 San Giuliano. Estados balcânicos. 120. Gustav. 102-3. eclosão da guerra generalizada Roménia. 120 Bálcãs. 291 Schratt. 38 Royalty and Diplomacy in Europe. 271 Sarajevo. 298 Rumbold. 100 [A Ascensão do Antagonismo Anglo- Tratado de Resseguro. 141 planejamento de guerra. Theodore. 145 imperialismo. 241 razões para entrar em guerra. 84-5 guerras balcânicas. 220-2. Serge. 171. 46-9 Alemanha. relações com. 121-7. 145 295-7. 171 Rússia. The tomada da Líbia pela Itália. príncipe herdeiro (ÁustriaHungria). 193. 54-5 Europa. 41 xenofobia. 154-5 Sazonov. 198-9 150-2. 202 Schebeko. 283 russa. 135 condições sociais e políticas. plano de. 24 dos à eclosão da guerra generalizada. 49 ver também aliança britânico-franco- Rõhl. relações com. desintegração otomana. 85 sistema de alianças. 145 Rise ofthe Anglo-German Antagonism. 49-50. 90. 313 Schlieffen. 123-4. 88-9 Schmidt. A (balé). 208-9. 1890-1914] (McLean). 74. 75-6. 102. 214. Nikolai. 94-5 sérvios da Bósnia. 179 Roosevelt. 151. 234-5. 237. Antonio di. 214-5 Segunda Guerra Mundial. 118. Hans. 40-1 Ritter. 101-3 Rússia. 203. inquietação política. 26 Questão Macedônia. Katharina. guerras balcânicas. 325 conflito austro-russo em relação aos Sérvia. Schoen. George. 118. 88-9 desinclinação para a guerrra. 192.

142. Tuchman. 25-6. 194. W. B.. 128 Times. 123-5. capitão. The [Os Doze Dias] (Thomson). 164-5 388 . Stefan. Jean. 43 Stengers. 25-6 Stendhal. 55. 79 Vitória. 180. D. Hew.. J. Rebecca. 181. 75-6 Zweig. Z. 126. Venetia. 68 Verne. Guilherme von. 232. Júlio. 123 Williamson. almirante Alfired von. 292 96 Thomson. 191. Woodrow. major Voja. 117. 153-7. 166-7 Spring. 161-2 Wells. 188. 109. 43 Szõgyéni-Marich. P. 48. A.Í N D IC E REMISSIVO Smith. 60 Strachan. duquesa de Hohenberg. 256 Villa. 211. 164 180. 309 Zenker. A. 298 Zuber. 278. Oscar. Barbara. 159 182 Whitman. 140 Taft. Theodor. 202-3 nota Trachtenberg. 18. 140. conde István. 179. 280. 254. 138-42 15-6 Suécia. 76-9. 25. 274 Suíça. 254 Steiner. 148. 215 Stainville. 321 Zimmermann. 151 Wilson. 213. Marc. 187 Tisza. 262-3 Tankosic. Samuel. 50 Tratado de Resseguro. 274 Waldersee. Taylor.. George Malcolm. 223 Tirpitz. 233. E. Zeman. 198. 324-5 135-7. general-de-divisão Sir Henry. 234 verão de 1914. 151 Stanley. conde Ladislaus. 121. 251-2. 140 Wilde.. 117.. 296 Stern. West. submundo terrorista. 162. Arthur. conde de. rainha (Grã-Bretanha). Pancho. Zara. 120. ver Império Otomano Twelve Days. Terence. 156. 47 Sykes. 179. 170 Wilson. 160. G. William Howard. 169 Wolff. F. 167. 178 voo 826 da United Airlines. 269 Tschirschky. 121 Viviani. 72. 263 Stumm. conde Alfred von. Fritz. de Londres. incidente. Walt. H. 264. 186. 57. Sir Mark. René. 249. conde Heinrich von. 260. 177 Sophie. 58 Turquia.