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Editor-Responsável: Nildo Viana

Conselho Editorial: Dr. Antônio Ozaí da Silva UEM - Universidade Estadual de Maringá. Dr. Carlos Serra UEM - Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique). Dr. Cleito Pereira dos Santos IFG – Instituto Federal Tecnológico de Goiás Dr. Dijaci Oliveira UFG – Universidade Federal de Goiás Dra. Doris Accioly e Silva USP – Universidade de São Paulo Dr. Edmar Barra Lopes UFG – Universidade Federal de Goiás Dr. Gabriel Vitullo UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte Dr. João dos Santos Filho UEL – Universidade Estadual de Londrina Dr. José Henrique Carvalho Organista UFF – Universidade Federal Fluminense Dr. José Lima Soares UFG – Universidade Federal de Goiás/Campus Catalão.

Dr. Nildo Viana UFG - Universidade Federal de Goiás Dr. Pedro Célio Alves Borges UFG – Universidade Federal de Goiás Dr. Sadi Dal Rosso UnB – Universidade de Brasília

ARTIGOS Tema em destaque: Trabalho
Cleito Pereira dos Santos Trabalho, Tecnologia e Vigilância no Capitalismo Contemporâneo Inspeção do Trabalho durante o Regime de Acumulação Integral Confronto Entre Modelos Explicativos na Compreensão Do Trabalho Infantil 10

Nildo Viana

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Leonardo César Pereira

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Sherry Max de Souza

Política Neoliberal E Sindicalismo No Brasil: Da Oposição À Participação

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Tema livre
Maria Angélica Peixoto Rubens Vinicius da Silva Educação e Reprodução na Abordagem Sociológica de Bourdieu e Passeron O Papel do Direito no Capitalismo e sua Inaplicabilidade ao Comunismo Século XXI: fim da sociedade do trabalho ou intensificação da jornada? Resenha do livro Mais Trabalho! Para compreender o capitalismo contemporâneo Resenha do livro O Capitalismo na Era da Acumulação Integral

RESENHAS
José Lima Soares

Marcos Lopes

Trabalho, Tecnologia e Vigilância no Capitalismo Contemporâneo

Cleito Pereira dos Santos*

Um dos fatos mais relevantes na história do capitalismo é a associação da tecnologia com os modos de gestão e fiscalização do trabalho. A fábrica moderna introduziu na divisão do trabalho técnicas e procedimentos referentes à organização da produção e do processo de trabalho que delimitavam a fiscalização e a disciplina com o objetivo de reunir e coordenar a força de trabalho conforme os objetivos e interesses dos capitalistas. A produção ampliada do capital, sua valorização, requer modos de organizar e gerir que atenda aos propósitos exclusivos do capital. Analisando o desenvolvimento do capitalismo, Marx (1988) descreve o papel exercido pela maquinaria na instalação do modo de produção tipicamente capitalista. O objetivo do capitalista ao introduzir a maquinaria na produção, portanto como capital, não é aliviar o sofrimento do trabalhador. De acordo com ele, a maquinaria é meio de produzir mais-valor. Se na manufatura a transformação do modo de produção tem como ponto de partida a força de trabalho, na grande indústria o meio de trabalho é, então, o objeto por excelência do revolucionamento da produção. (Marx, 1988, p.5). A lógica do capital está assentada no fato de que “o revolucionamento do modo de produção numa esfera da indústria condiciona seu revolucionamento nas outras”. (Marx, 1988, p.13). Desde a análise de Marx, entendemos que a tecnologia se constitui enquanto elemento essencial à produção de mais-valia e à reprodução das condições concretas em que ocorre a exploração do trabalho sob a égide do capital. Portanto, “a maquinaria desde o início amplia o material humano de exploração, o campo propriamente de exploração do capital, assim como ao mesmo tempo o grau de exploração”. (Marx, 1988, p. 21). Na extensão da sociedade do capital, a tecnologia enquanto modo de produção de mais-valor é utilizada como mecanismo de dominação sobre os trabalhadores.

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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

Marcuse (1996) alertara para o fato da dominação no capitalismo moderno ser, antes de tudo, tecnológica. Os modos de dominação se externalizam através do uso de tecnologias que possibilitam a instauração de maneiras específicas de controle e vigilância apropriadas para a reprodução dos mecanismos sociais de dominação e subordinação. Nesse aspecto a tecnologia possui viés que informam suas determinações em cada momento do desenvolvimento sócio-cultural da sociedade.
A tecnologia como modo de produção, como totalidade de instrumentos, dispositivos e invenções que caracterizam a era das máquinas é assim ao mesmo tempo um modo de organizar e perpetuar (ou mudar) relações sociais, uma manifestação de padrões de pensamento e comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação. (Marcuse, 1996, p. 113).

Esta faceta da tecnologia permite entendê-la de modo multidimensional. A tecnologia tanto pode permitir a liberação do trabalho quanto o seu contrário. Pode suprimir o esforço excessivo quanto intensificar o controle e a dominação social. Sendo assim, “a técnica por si mesma pode promover tanto o autoritarismo quanto a liberdade, tanto a escassez quanto a abundância, tanto a extensão quanto a abolição da labuta.” (Marcuse, 1996, p. 113). A derrocada do modelo de acumulação taylorista-fordista no final dos anos 1970, colocou em evidência novas tecnologias de base microeletrônica que impulsionaram e redefiniram os padrões de dominação e subordinação da força de trabalho. A microeletrônica e os programas de gestão deram uma nova roupagem para a organização capitalista do trabalho. A força de trabalho passa a ser gerida através de meios mais racionais e eficazes de controle; esses meios trouxeram questões relativamente novas ao universo do trabalho, principalmente no que diz respeito a forma de ser do trabalhador. A exigência de polivalência, entendida pelo capital como a incorporação de algumas habilidades por parte do trabalhador, e o trabalho em equipe são uma expressão atual da subsunção real do trabalho ao capital. (Antunes, 2000a; Frigotto, 1995) As múltiplas facetas exigidas de quem executa o trabalho implicara a intensificação da exploração do trabalho e, consequentemente, a ampliação no número de movimentos e tarefas elaboradas e/ou executadas no processo de trabalho. A qualificação preconizada pelas administrações das empresas, aliada com as tecnologias atuais, esconde a forma integral de extração de mais-valor. A história da gestão capitalista, especificamente no que diz respeito à produção de mercadorias, pode ser entendida como a história do desenvolvimento da tecnologia e das técnicas que dão suporte ao aparato produtivo-social e cultural necessário à racionalização produtiva. De Taylor passando por Fayol e Ford até chegarmos ao modo atual de acumulação de capital, o que presenciamos foi a busca constante por melhorias tecnológicas e aplicação de técnicas que permitissem às empresas reduzir custos e aumentar a produtividade do trabalho. Ao definir os ciclos disciplinares, Gaudemar (1991) apresenta a história do desenvolvimento das tecnologias e, consequentemente, das técnicas que dão suporte a cada fase da produção capitalista, descrevendo as formas de dominação e subordinação relativas a cada uma delas. Em outros termos, apresenta-nos os ciclos disciplinares a partir da emergência de tecnologias utilizadas para racionalizar e intensificar o controle sobre o trabalho. Nesse sentido, gestão, racionalização e tecnologia são aspectos relacionados à questão central da produção capitalista. De outro modo, representam o movimento constante de absorção e reprodução das condições sociais necessárias à continuidade do

modo de acumulação do capital. Se por um lado a chamada acumulação flexível (Harvey, 2003) adota um novo padrão tecnológico assentado no uso de tecnologias flexíveis e na exigência de novas qualificações do trabalhador, por outro, esse mesmo processo requer a adoção de técnicas disciplinares e de controle adequadas à reprodução ampliada e integral do capital. Desse modo, aquilo que convencionamos chamar de reestruturação produtiva nada mais é que o processo de reordenamento tecnológico e disciplinar típico da era toyotista de racionalização produtiva do capital. Compreende-se que os modos de gestão, assim como as tecnologias e a dominação, são transformados pelas exigências advindas do processo de racionalização produtiva e pelas combinações e recombinações das formas de exploração do trabalho adequadas a cada padrão de acumulação. O que é comum aos modos de gestão do capital, seja na modalidade tayloristafordista, seja na toyotista, é a tentativa de utilizar ao máximo a capacidade produtiva do trabalhador, intensificando o trabalho, e a redução de custos das mercadorias. Está é a história da gestão capitalista do processo de trabalho. Assim, ao redesenhar a produção e o trabalho, ao flexibilizar a produção e o trabalho, as empresas procuram constituir formas mais eficazes de controle e disciplina que garantam a permanência da dominação e da subordinação do trabalhador aos objetivos do capital. O espaço laboral é um espaço de poder do capitalista sobre os trabalhadores. (Guademar, 1991). As transformações do trabalho na contemporaneidade, a introdução de novas tecnologias, tanto de informação quanto da comunicação, alavanca o surgimento de mecanismos de regulação sobre o trabalho e a vida cotidiana dos trabalhadores. (Bernardo, 2004 e 1998). A reestruturação produtiva, aliada às novas tecnologias alteraram as formas de controle e disciplina no trabalho nas empresas. Segundo Mendoza (1991, p.25): Las crisis econômica, las experiencias de reestructuración productiva y las estrategias de flexibilización y desestructuración laboral están, sin duda, afectando a la nueva configuración de las formas de disciplinamiento. A ello hay que añadir la incidencia que la introducción de nuevas tecnologías tiene en la regulación del comportamiento laboral. Portanto, ao transformar os espaços de trabalho através do uso de tecnologias, as empresas estão instaurando modos de subjetivação e controle específicos. No entanto, ao instaurar novas formas de regulação do comportamento do trabalhador, também possibilitam que os mesmos tenham acesso a um conjunto de informações que podem corroborar na criação de resistências à dominação no interior do espaço laboral. Tomemos como exemplo o setor bancário. As empresas ao introduzir tecnologias de informação e da comunicação revolucionaram o trabalho bancário. Racionalizaram o trabalho, reduziram o contingente de trabalhadores nas agências, colocaram à disposição dos clientes um número significativo de opções de serviços on-line e intensificaram o trabalho do bancário, que agora atua como um vendedor de produtos financeiros, uma vez que as operações comuns são realizadas no caixa eletrônico pelos clientes. Além de terem que cumprir as metas estabelecidas pelas empresas sem participação dos funcionários. Por outro lado, ao instalar as tecnologias que permitem a racionalização integral do trabalho e dos serviços bancários, as empresas tiveram que conviver com o acesso a um conjunto de informações por parte do funcionário. Essas informações causam problemas uma vez que os funcionários se comunicam e mobilizam mais rapidamente para reivindicar questões relativas ao trabalho. Porém, as empresas delimitam os

trabalhadores que terão acesso à internet e, portanto, a informações privilegiadas na tentativa de conter o acesso generalizado dos mesmos ao sistema tecnológicocomunicacional típico do atual estágio do capitalismo. Dessa maneira, observamos que a tecnologia opera como um poderoso sistema capaz de regular a vida social cotidiana dos indivíduos. (Marcuse, 1996). O capitalismo moderno transformou a vida social de maneira a instrumentalizar o comportamento humano em torno de uma racionalidade assentada no processo da máquina e na eficiência e lucratividade do capital. Pensar a vida social no capitalismo é lançar luzes acerca do processo de institucionalização e instrumentalização produtiva da tecnologia. As bases sociais da tecnologia, suas determinações e limites, pensadas a partir dos elementos que caracterizam a sociedade produtora de mercadorias. O comportamento humano é equipado com a racionalidade do processo da máquina e esta racionalidade tem um conteúdo social definido. O processo da máquina opera de acordo com as leis de produção de massa. A eficácia (expediency) em termos de razão tecnológica é ao mesmo tempo eficácia em termos de eficiência (efficiency) lucrativa, e racionalização é ao mesmo tempo padronização monopolista e concentração. Quanto mais racionalmente o indivíduo se comporta e quanto mais amorosamente de dedica ao seu trabalho racionalizado, tanto mais ele sucumbe aos aspectos frustrantes desta racionalidade. (Marcuse, 1996, p. 120). As tecnologias atuais inovaram na determinação de modos de controle e vigilância até pouco tempo desconhecidos. A capacidade manifesta da rede mundial de computadores serve a objetivos específicos, no que diz respeito às empresas e à gestão da força de trabalho, no sentido de orientar, codificar e decodificar informações vitais para o funcionamento do capitalismo na atualidade. Sem contestar qualquer das possibilidades democratizantes inerentes à Internet, vale a pena explorar a capacidade da Web para capturar e controlar, atingir e apanhar, gerir e manipular. Embora tenham ocorrido muitas mudanças desde o nascimento do precursor da Internet, um sistema de comunicações militares da guerra fria, o poder não foi simplesmente descartado como se se tratasse de um traço infantil. Em vez disso, está agora ligado a uma ampla vigilância tecnológica cada vez mais integrada. (Lyon, 2004, p. 109-110). O capitalismo contemporâneo transformou a vida cotidiana à medida que inovou em termos de introdução de novas tecnologias capazes de permitir uma rápida conexão entre as mais variadas esferas da vida social. Nesse sentido, a tecnologia, e seus usos, conformam uma realidade social de acordo com os objetivos e os propósitos da economia de mercado transnacionalizada. (Schiller, 2002). Nesta perspectiva, a rede mundial de computadores, que tem possibilitado a constituição de uma economia digital em escala mundial ainda tímida, capta todos os movimentos dos seus utilizadores, estabelecendo um sistema eficaz de vigilância e controle que associado aos objetivos empresariais e governamentais dão a tônica do desenvolvimento do capitalismo atual. (Schiller, 2002; Lyon, 2004; Castells, 2003; Bernardo, 2004 e 1998).

Os dados ‘pessoais’ recolhidos na Web são de diversos tipos. A Internet torna possível novos planos de integração da vigilância, relacionados com situações de trabalho, administração governamental, policiamento e, acima de tudo, marketing. Podemos ver uma câmera de vigilância no centro comercial ou mesmo suspeitar que mais alguém está a ouvir a nossa chamada de telemóvel. Mas a vigilância baseada na Internet é bastante mais subtil. O leitor faz parte de um grupo de utilizadores? Os motores de pesquisa para ‘encontrar pessoas’, tais como o Altavista ou o Dejanews, recolhem dados pessoais sobre elas. Visita páginas Web? Muitas dessas páginas criam automaticamente registos de visitantes, recolhendo dados directamente do computador do utilizador, como o tipo de computador, o endereço de correio electrónico e a página que o leitor visitou anteriormente. A teia é quase imperceptível e, embora cada movimento da ‘mosca’ a deixe mais enredada, a ‘mosca’ continua ditosamente desconhecedora do que lhe está a suceder. (Lyon, 2004, p. 110). É certo que foi na era moderna que a vigilância tornou-se algo comum e generalizado no interior da sociedade. Em diversas situações, com diversos propósitos, é requerido o registro de informações acerca dos indivíduos, sejam trabalhadores ou não, seja criminoso ou não. Assim, estabelecem-se critérios de controle e vigilância que determinam o enquadramento do individuo na vida cotidiana. Nos tempos modernos, contudo, a vigilância tornou-se muito mais um procedimento habitual e geral, envolvendo a totalidade de populações nacionais e contemplando um vasto leque de actividades e situações da vida. Os nascimentos, casamentos e mortes têm sido registados automaticamente, os indivíduos têm vindo a ser classificados segundo a idade e o status para votar em eleições democráticas e os trabalhadores foram reunidos debaixo do mesmo tecto para facilitar a supervisão. (Lyon, 2004, p. 111). Ao mesmo tempo, foi no século XX que estes mecanismos de vigilância foram intensificados. A própria administração das empresas, a gestão científica, se dedicou a procurar a maneira mais eficaz e racional de extrair mais-valor e intensificar a vigilância e o controle sobre o processo de trabalho. A capacidade de reformular a disciplina na produção e no trabalho torna-se um dos elementos mais importantes da gestão. O toyotismo empreendeu um movimento de transformações econômicas, políticas e organizativas nas empresas buscando adequar a produção à acumulação flexível. Para isso, a gestão do trabalho foi redefinida em termos de novos propósitos produtivosorganizacionais, procurando incorporar a totalidade do conhecimento do trabalhador de acordo com os objetivos da lucratividade e da redução de custos. A gestão capitalista do trabalho, na modalidade taylorista-fordista-keynesiana ou no toyotismo, objetiva conceber uma forma de racionalizar o uso da força de trabalho dentro dos padrões empresariais de lucro e produtividade. A lógica do desenvolvimento capitalista também motivou a supervisão e a monitoração para maximizar a produtividade e o lucro. A gestão científica tem representado esta tendência para uma maior intensidade da vigilância, ao centrar-se em análises detalhadas de tempo-e-movimento. Em meados do século XX

tornou-se claro que a vigilância era constitutiva da organização moderna. (Lyon, 2004, p. 111). Ao caracterizar como vigilância no ciberespaço todas as maneiras de vigilância presentes nas comunicações intercedidas por computador, Lyon (2004) distingue três tipos básicos. O primeiro refere-se ao emprego. O segundo a segurança e policiamento e o terceiro, ao marketing. A institucionalização das tecnologias de informação e da comunicação à medida que permitiu o uso de formas de comunicação como o e-mail e a expansão de seu uso nas empresas, fez com que a supervisão da vigilância assumisse contornos cada vez mais abrangentes. Dessa maneira, cada vez mais, as empresas detectam funcionários que utilizam a rede/internet para enviar mensagens não relacionadas ao trabalho, as demissões por acesso a material pornográfico e mesmo a troca de informações sobre condições de trabalho e reivindicações dos trabalhadores são monitoradas pelo sistema de vigilância e gestão das empresas.1 Em São Paulo, no ano de 2007, o Banco do Brasil foi denunciado pelo Sindicato dos Bancários por instalar detector de metal para proceder à revista de trabalhadores contratados e terceirizados que trabalham no Complexo São João. Segundo o funcionário do banco e secretário de imprensa e comunicação do sindicato, Ernesto Izumi, após protestos foram suspensas a fiscalização sobre os trabalhadores contratados. Algum tempo depois, novas manifestações dos bancários fizeram com que a prática fosse abolida também para os terceirizados. (http://www.spbancarios.com.br/noticia.asp?c=5179. acesso em 18/09/2007). A tecnologia ao propiciar a conexão na rede e, consequentemente, possibilitar o acesso a uma infinidade de informações, também possibilita a constituição do sistema de controle e vigilância das empresas sobre o universo do trabalho e sobre a atividade de cada trabalhador. Em situações relacionadas com o emprego, a monitoração e as formas de supervisão da vigilância são comuns, pelo que não surpreende que o crescente uso da internet pelos empregados e, acima de tudo, o uso do correio eletrônico, tenha criado novos desafios. (Lyon, 2004, p. 114).
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No Brasil, em 2001, o Sindicato dos Bancários de Curitiba entregou à Comissão Parlamentar de Inquérito da Telefonia da Assembléia Legislativa do Estado documentos denunciando a atuação do HSBC na vigilância de sindicalista e funcionários do banco. Ainda, segundo ex-policial militar, em entrevista à Folha Online, as atividades já eram realizadas desde 1994 contando com a atuação de vários agentes da polícia civil, militar e federal. As formas de fiscalização e vigilância nas empresas estão se expandindo para os meios eletrônicos como câmeras, e e-mail. Confira.: HSBC é acusado de grampear funcionários; banco nega. In.: Folha Online. www1.folhauol.com.br/folha/brasil/ult96u20506.shtml. Acesso em 12/11/2007. A própria legislação tem oferecido às empresas o arcabouço legal para tal fim. Com relação à legislação, confira a decisão do TST que autoriza as empresas a monitorar de forma “moderada, generalizada e impessoal” os e-mail dos funcionários. A questão é saber o que isso significa em termos de repressão no trabalho. Confira..: Agravo de Instrumento em Recurso de Revista 613/2000. www.tst.gov.br. Acesso em 12/11/2007. Após esta decisão do TST, a Federação do Comércio do Estado de São Paulo – Fecomércio - editou a cartilha “Monitoramento Eletrônico: sugestões para controle do uso de e-mails e recursos tecnológicos em benefício da empresa e em favor do bem-estar dos empregados”. www.fecomercio.com.br/site/downloads/arquivos/arquivo_cartilha_01.pdf- aceso em 12/11/2007. A cartilha contém diversas orientações aos empresários no sentido de implementar controles eletrônicos sobre os funcionários. O que chama atenção é a lógica do discurso empresarial. Logo de início está posta a questão do controle do tempo do trabalhador: “este tema é sério porque o mau uso dos meios tecnológicos pode causar a perda de tempo do funcionário com assuntos particulares (...).” p.06.

Na tentativa de estabelecer a vigilância e o controle sobre as atividades realizadas no interior das empresas, a gestão empresarial procura implantar medidas técnicas para impedir determinadas ações dos funcionários no ambiente de trabalho. Os meios eletrônicos dão à gestão das empresas informações precisas sobre a atividade do trabalhador durante o horário de trabalho. Estes mecanismos são, hoje, indissociáveis da administração das empresas. Todos os grupos empresariais possuem sistema de vigilância eletrônica que, na compreensão dos gestores, contribuem para gerir melhor a empresa e o trabalho. Dessa maneira, para fiscalizar o trabalhador e garantir o cumprimento dos objetivos empresariais, É instalado um software para gravar e relatar todas as actividades relacionadas com o uso da Internet e do correio electrónico. Todas as divisões de serviço de informação tecnológica das empresas têm a capacidade de localizar o uso da rede electrónica e vigiar o conteúdo das mensagens de correio electrónico. Em grande parte da América do Norte, a utilização ou não desse sistema é considerado um assunto de política interna da empresa ou da organização. Há alguns anos, uma sondagem a gestores dos EUA revelou que 22% tinham feito buscas nos ficheiros de computador dos empregados, no voice mail, no endereço electrónico e noutras comunicações electrónicas. (Lyon, 2004, p. 115). Com relação a vigilância relacionada à segurança e policiamento, a questão não é menos séria. Formam-se grandes empresas de segurança e administração penal tendo como princípio elementar a vigilância constante da população nas cidades e nas empresas. Wacquant (2001) nos dá um quadro exato da função do Estado nacional nesta nova fase do capitalismo. Segundo ele, as políticas neoliberais aplicadas nos EUA transformaram o Estado norte-americano em um Estado policial. Políticas de desregulamentação do trabalho e da economia, redução dos benefícios sociais mostram seus efeitos imediatos no crescimento da população carcerária e na intensificação dos programas estatais repressivos expressos no programa de tolerância zero aplicado em New York. Acresce-se a isto, o fato das prisões norte-americanas serem privadas e teremos a medida certa das políticas neoliberais. O neoliberalismo implantou medidas econômicas e tecnológicas no sentido de constituir a esfera do mercado como o mais eficaz instrumento de regulação econômica e social. O advento das tecnologias de informação e da comunicação coincide com a emergência do neoliberalismo e a decadência do Welfare State Keynesiano. A crise do início dos anos 1970, marco das mudanças em curso, solapou a produção fordista e instituiu a modalidade de reprodução do capital assentada na produção flexível, na administração por estresse (management by stress), na radicalização do individualismo e do consumo. Como conseqüências do neoliberalismo acentuam-se as formas de injustiças sociais e, nas palavras de Lyon, “a vigilância está claramente relacionada com a manutenção da desigualdade e divisão social” (Lyon, 2004, p. 119). Portanto, o desenvolvimento da tecnologia, o advento do toyotismo como modelo predominante da acumulação do capital contemporânea e o neoliberalismo possuem interligações que informam os rumos do capitalismo após os anos 1970. Analisando as novas tecnologias e o processo de globalização, Schiller (2002) identifica na Internet e no sistema de comunicação com o qual a internet se conecta, a

origem da transnacionalização da economia. Sendo assim, “as redes de computadores estão a generalizar, como nunca aconteceu até agora, o domínio directo que a economia capitalista exerce sobre a sociedade e a cultura.” (Schiller, 2002, p. 16). Este autor caracteriza a fase atual como capitalismo digital, presente nos países desenvolvidos. Esta fase transforma radicalmente a sociedade e a tecnologia. A política neoliberal e a economia de mercado redefiniram o uso social da tecnologia. Dotaram-na de um novo objetivo social, aumentando o poder das empresas e agravando as desigualdades sociais. Associado ao modelo de gestão toyotista pós-anos 1970, verdadeiras estruturas de vigilância são criadas para monitorar os utilizadores da rede de computadores. Nos anos 1990, governos e empresas investem em sistemas de vigilância eletrônica com o intuito de controlar o fluxo de informações e extrair daí material de interesse tanto empresarial quanto governamental. Segundo Lyon, O mais conhecido esforço para possibilitar a expansão da vigilância de segurança na Internet é o chamado Clipper Chip. Em 1994 o governo dos EUA propôs introduzir um modelo uniforme de encriptação que iria efectivamente impedir a proliferação de códigos concebidos para proteger a privacidade das comunicações electrónicas. Enquanto os utilizadores individuais poderiam ficar certos de que as suas mensagens continuariam privadas, a única excepção era a de que, no interesse da ‘segurança nacional’, os agentes do governo poderiam interceptá-las, quando fosse apropriado e necessário. (Lyon, 2004, p. 115). Quanto à vigilância comercial, marketing, o processo parece mais agressivo e intenso. As empresas desenvolvem tecnologias que lhes facultam invadir computadores individuais e de concorrentes visando obter vantagens comerciais. O uso de cartões de crédito, o dinheiro eletrônico, deixa rastros no ambiente virtual. As informações relativas aos consumidores são armazenadas, codificadas e comercializadas na forma de banco de dados e da observação das tendências de consumo. Os chamados cookies (Client-Side Persistent Information ) concedem amplas capacidades de detecção a empresas, desejosas de explorar comercialmente os valiosos dados pessoais segmentados de indivíduos comuns. Os cookies permitem que os websites armazenem informação acerca dos sites visitados no disco rígido do utilizador, em seguida lêem a drive cada vez que um site é visitado para descobrir se o utilizador esteve lá antes. (Lyon, 2004, p. 111). De modo geral, as tecnologias disponíveis possibilitam a ampliação da vigilância em todos os campos da vida social. Tanto no emprego quanto no marketing e na segurança, as práticas recorrentes visibilizam os mecanismos, cada vez mais presentes, de controle social através do uso intensivo de tecnologias, sejam elas de informação ou da comunicação. O capitalismo contemporâneo, redefiniu as formas de vigilância tendo em vista o enorme aparato tecnológico disponível para estabelecer o controle eletrônico. A vida cotidiana, o trabalho, o lazer, se encontram cada vez mais imersos nos sistemas de vigilância preconizados por empresas, governos e instituições, como o modo mais seguro e eficiente de prevenção contra toda sorte de acontecimentos indesejáveis. Sob a ordem do capital, o modo de gestão do trabalho contemporânea pressupõe o uso das tecnologias de informação e da comunicação com o objetivo de afirmar uma ordem disciplinar e formas de dominação e de subordinação tendo como fundamento a

reprodução e valorização do capital. A tecnologia utilizada como forma de instituir o poder das empresas, dos gestores, dos capitalistas, no espaço de trabalho. É sintomático que a vigilância eletrônica apareça de forma mais visível nas instituições repressivas - polícia, militares - e também nas empresas. Isto torna evidente que as empresas atuam como instituições repressivas, verdadeiros aparelhos repressivos, que delimitam e impõem aos trabalhadores os objetivos e as práticas empresariais. Bernardo (2004) enfatiza a função repressiva das empresas associando-a, no atual contexto, às práticas do neoliberalismo que se apoiando no discurso do livre mercado lança mão dos mecanismos de fiscalização e vigilância para gerir as empresas e os trabalhadores. O exercício da soberania pelas empresas não se reduz à aplicação prática de técnicas de organização da força de trabalho, mas inclui igualmente formas extraconsensuais de repressão, quando não mesmo formas extralegais. E o neoliberalismo, apesar de se apresentar como promotor da redução das relações sociais aos mecanismos de mercado, de modo algum dispensou modalidades não econômicas de vigilância e de repressão. Pelo contrário, deu-lhes uma amplitude ainda maior. (Bernardo, 2004, p. 145). No entanto, tais práticas contam com uma aliada fundamental. A tecnologia permitiu às empresas fundirem processo de trabalho e fiscalização. A gama de opções tecnológicas a disposição dos capitalistas e das empresas permite transformar a gestão do trabalho, ao mesmo tempo, num processo de repressão e de vigilância eletrônica. Os serviços de espionagem das empresas e o crescimento do número de agentes privados de segurança, informam a capacidade repressiva empresarial. Em 1978 a General Motors possuía 4.200 agentes privados para realizar a vigilância na empresa. Nos E.U.A as despesas com segurança cresceram da ordem de U$22 bilhões na década de 1980 para U$ 90 bilhões na década de 1990. Hoje esses valores chegam, com certeza, a cifras infinitamente maiores. (Bernardo, 2004). Atualmente, porém, é sobretudo graças à microeletrônica que as empresas expandem a sua capacidade repressiva. Pela primeira vez na história da humanidade, a microeletrônica permite que a fiscalização esteja indissociavelmente ligada ao processo de trabalho. Esta é uma transformação de conseqüências incalculáveis, e mal começamos a nos aperceber da sua amplitude. (Bernardo, 2004, p. 147). Em síntese, tecnologia, gestão e vigilância eletrônica são elementos importantes do desenvolvimento capitalista atual. A gestão e a vigilância se confundem com o processo de trabalho. Ao criar mecanismos eletrônicos de controle e vigilância, as empresas e seus gestores fomentam a institucionalização da dominação e da subordinação no trabalho caracterizadas pelas tecnologias, tanto de informação quanto da comunicação. Conforme Gaudemar (1991), o modo de acumulação requer um ciclo disciplinar específico para lhe dar sustentação. Na atualidade, a disciplina e o controle no trabalho estão profundamente associados às tecnologias contemporâneas e à adoção de procedimentos e regras de enquadramento social da força de trabalho. Portanto, técnicas de gestão, gestão científica da força de trabalho são portadoras da racionalidade, da produtividade, da intensificação do trabalho e do lucro empresarial.

O neoliberalismo redefiniu o uso social da tecnologia. Alinhou-a aos novos objetivos empresariais na era da transnacionalização do capital e estendeu o domínio da economia para o conjunto da sociedade e da cultura. Nos dizeres de Schiller (2002), isso se deve à rede de computadores. Seguindo a análise de Lojkine (2002), a microeletrônica não representa, por si só, a superação da divisão do trabalho ou a ultrapassagem do taylorismo. As tecnologias instauradas a partir da crise do taylorismo-fordismo representam a chegada de um padrão de acumulação flexível, mas que convive com formas de produção ainda tributárias do modelo anterior. O toyotismo se apresenta como o modelo predominante da acumulação atual do capital. Daí o entendimento que as tecnologias de informação e da comunicação corroboram para o advento de formas específicas de disciplina, controle e vigilância no trabalho. Em outros termos, a tecnologia redesenha a dominação do capital e a subordinação dos trabalhadores no processo de produção. A gestão do trabalho é um dos pontos fulcrais do desenvolvimento capitalista. (Heloani, 2003). A valorização do capital significa a adoção de práticas de trabalho e de dominação capazes de reunir, coordenar e gerir a força de trabalho de acordo com a lógica da reprodução ampliada do capital. A realização dos objetivos empresariais e capitalistas requer a permanente alteração do processo de trabalho no sentido de racionalizar a produção, reduzindo custos e aumentando a produtividade. Isto implica intensificar, controlar e disciplinar o trabalho. Para Lima (1996), as novas políticas de recursos humanos centram o foco na tentativa de absorver as capacidades intelectuais do trabalhador através da busca do engajamento nos objetivos da empresa. Tais políticas apresentam um cenário de atuação das empresas cujas metáforas remetem à gramática da guerra. Assim expressões como gerenciamento estratégico, estratégias de venda, compõem o vocabulário atual dessas políticas. O cenário apresentado é de competição extrema em busca da excelência e da competitividade no mercado aliando inovações tecnológicas e novas formas de organização do trabalho com investimentos em formação dos trabalhadores e aparecimento de novos mecanismos de controle. Isto implica a criação de métodos de gestão apropriados a esta fase da acumulação capitalista e o abandono, senão todo, pelo menos parte, dos dispositivos disciplinares e organizacionais do taylorismo-fordismo. (Lima, 1996). Para alavancar essa arrancada em termos de formação da força de trabalho e dos novos métodos de gestão, as empresas fizeram proliferar um número crescente de escolas - universidade, instituto ou centro de formação - com o objetivo de realizar a formação dentro do próprio espaço de trabalho. Assim, nos EUA, em 1983 existiam 400 endereços comerciais que reivindicavam a chancela de escola superior, universidade, instituto ou centro de formação. Esse número triplicou em 1998, passando a existir cerca de 1200 universidades corporativas, ou de empresa. (Schiller, 2002, p. 177-8). As empresas entenderam que tomando a formação para si poderiam estabelecer um padrão de trabalhador desejado. Trata-se, pois, de estabelecer formas disciplinares que garantam a adoção dos métodos de gestão preconizados e instituídos pelas empresas capitalistas. A dominação e a subordinação nos espaços de trabalho pressupõem a formação de uma mentalidade engajada nas determinações empresariais. De acordo com Lima (1996), a personalidade requerida pelas novas políticas de recursos humanos possui as seguintes características:

Altamente competitivo e, ao mesmo tempo, altamente cooperativo; muito individualista e, ao mesmo tempo, capaz de trabalhar em equipe (ele deve ser extremamente individualista e ter um forte espírito de equipe); capaz de tomar iniciativa e, ao mesmo tempo, de se conformar completamente às regras ditadas pela organização; muito flexível e, ao mesmo tempo, muito perseverante indo até a uma meticulosidade que poderíamos considerar como excessiva (perfeccionismo); um indivíduo que se percebe como ‘sujeito do seu destino’ e ‘criador de sua história’ e, ao mesmo tempo, completamente integrado, identificado e conforme à empresa. Esta deve ser, de preferência, idealizada; capaz de reagir rapidamente e de se adaptar às mudanças; ‘jogador’, isto é, sentir prazer no risco e ser, além disso, um vencedor, um estrategista, um guerreiro; capaz de adquirir continuamente novos conhecimentos em domínios variados; fiel e leal à empresa; ascético: lutar contra as exigências do corpo e se superar fisicamente; capaz de embotar sua sensibilidade, o que vai lhe permitir cometer os atos mais aberrantes, mais expressivos de traição, com uma espécie de apatia que oculta as paixões; manipulador, delator; controlado, especialmente a nível do pensamento, que deve ser um pensamento operatório; teatral, especialmente o gerente deve saber jogar com as aparências. (...); justo, sensível, compreensivo e, ao mesmo tempo, duro e impiedoso (especialmente o gerente); desconfiado e ser, ao mesmo tempo, íntimo, próximo e comunicativo; duro, viril, exigente e forte (conduta fálica) e ao mesmo tempo charmoso, persuasivo, sedutor e sorridente (modelo feminino); capaz de auto-superar; megalomaníaco; capaz de sublimar (ser criativo) e de estabelecer, ao mesmo tempo, uma relação de identificação e de idealização com a empresa (ser um ‘fanático da empresa’. Enriquez apud Lima, 1996). O gerente deve eliminar a dúvida, a angústia e o remorso; deve ser narcisista e ao mesmo tempo flexível; deve saber ‘comunicar’, ‘animar’ e ‘persuadir’, ter uma personalidade ‘como se’ (as if), e se comportar sempre ‘como se estivesse bem consigo mesmo, como se gostasse verdadeiramente dos outros’. (Enriquez apud Lima). (Lima, 1996: 44-45). O trabalhador idealizado e formado pelas empresas deve possuir e/ou adquirir este tipo de personalidade. A manipulação psicológica (Heloani, 2003) assume uma intensidade e ultrapassa o terreno exclusivo do ambiente de trabalho. A racionalidade do capital ultrapassa as fronteiras dos espaços de trabalho e invade a totalidade da sociedade e da cultura. As empresas estenderam seus domínios para todos os aspectos da vida social, integrando atividade produtiva com lazer e formação. O trabalhador da era toyotista possui características singulares que associadas com as inovações tecnológicas e com as novas formas de organização e gestão do trabalho e das empresas formam um conjunto típico e apropriado à reprodução do capital e à extração de mais-trabalho. Em suma, a adoção de novos princípios organizativos e disciplinares implica a criação de um tipo particular de força de trabalho, o trabalhador adequado à acumulação flexível, que aliada às novas tecnologias configura o objeto de desejo do capital.

Portanto, o que se coloca desde as análises de Gramsci (1984), em Americanismo e Fordismo, e Harvey (2003) é a dinâmica do capital para criar, a cada fase de acumulação, um tipo específico de trabalhador necessário à produção da mais-valia. A tecnologia, seus usos, opera, também, como uma maneira de realização do capital. Marx (1988), descrevia a produção capitalista como consumo da força de trabalho e ao consumi-la o capitalista necessita de meios capazes para extrair o máximo das capacidades do trabalho contratado. O tempo de trabalho constitui, pois, desde a análise de Marx, o elemento que brilha nos olhos do capitalista sedento por usufruir ao máximo da capacidade do produtor de mercadorias.

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Inspeção do Trabalho Durante o Regime de Acumulação Integral

Nildo Viana*

A Inspeção do Trabalho, desde seu surgimento, vem se configurando sob diversas formas no decorrer de sua história. Em cada país isto ocorre de maneira peculiar. Porém, nos dias atuais, a Inspeção do Trabalho vem enfrentando problemas semelhantes na maioria dos países do mundo juntamente com os problemas específicos de cada país. Buscaremos, aqui, articular uma percepção tanto dos problemas específicos quanto daqueles que podem ser considerados gerais no sentido de compreender as tendências contemporâneas da Inspeção do Trabalho. Apresentar um balanço sobre os problemas e tendências da Inspeção do Trabalho no mundo contemporâneo encontra algumas dificuldades que devem ser reconhecidas. Sem dúvida, não é preciso justificar a impossibilidade de abordar a Inspeção do Trabalho em todos os países do mundo, tanto pela extensão de um estudo desta natureza quanto pela falta de informação detalhada sobre um considerável número de países. Por conseguinte, o nosso trabalho buscará apresentar, num nível mais abstrato, as tendências da Inspeção do Trabalho em nível mundial, acompanhada por uma análise num nível mais concreto, abarcando grupos de países que possuem semelhanças no processo social e de produção, ilustrando com alguns exemplos concretos de um país ou mais. Os países que servirão de exemplo, neste caso, foram selecionados pelas informações disponíveis ou por sua representatividade da situação de diversos países em condições semelhantes. INSPEÇÃO DO TRABALHO E ACUMULAÇÃO INTEGRAL As mudanças que atualmente ocorrem no mundo contemporâneo colocam diversas questões para a Inspeção do Trabalho. Uma delas está intimamente ligada à questão da chamada “reestruturação produtiva” e ao Direito do Trabalho. Em primeiro lugar, cabe reconhecer que as mudanças que vem ocorrendo no mundo contemporâneo  que vêem sendo denominadas como “globalização”, “reestruturação produtiva”, “neoliberalismo”, “revolução tecnológica”, etc.  provocam alterações nas relações de trabalho, no direito e na política. Na verdade, são mudanças que atingem todas as
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Doutor em Sociologia pela UnB; Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG – Universidade Federal de Goiás.

esferas da vida social. Estas mudanças são oriundas da formação de um novo regime de acumulação, que emerge a partir dos anos 1980 e que se torna hegemônico mundialmente a partir de 1990, o que marca a era da acumulação integral. O regime de acumulação integral muda a formação estatal, que passa a ser neoliberal, o processo de trabalho e valorização, comandado pelo toyotismo, e as relações internacionais, a partir da emergência de um neoimperialismo (Viana, 2009). O que nos interessa aqui são os aspectos destas mudanças que atingem a Inspeção do Trabalho. Em primeiro lugar, nos interessa as mudanças que ocorrem no processo de trabalho, mais especificamente, no mundo da legislação trabalhista. Isto se justifica pelo fato de que, tal como colocou Sadi Dal-Rosso, todo trabalho segue normas. Estas se referem ao montante de salário, ao tempo de trabalho, etc., e podem ser implícitas ou explícitas. Segundo Sadi Dal-Rosso, “a origem destas normas está na legislação do Estado e nas Convenções Coletivas entre empregadores e empregados, hodiernamente. Uma terceira fonte de normas provém das práticas cuja origem se perde no tempo, mas que ganham foros de legitimidade” (Dal Rosso, 1996). A Inspeção do Trabalho tem como fundamento a existência destas normas. Sem dúvida, somente existindo normas e, mais ainda, a infração das normas, é que se justifica a existência da Inspeção do Trabalho. Quais são estas normas? São as normas que regularizam as relações de trabalho e que são, de uma forma ou de outra, reconhecidas pelos dois lados que se relacionam neste processo: o capital e o trabalho. Trata-se da legislação trabalhista. Portanto, a legislação trabalhista é a fonte da Inspeção do Trabalho. É a existência de leis que regulamentam as relações trabalhistas e a infração destas leis que tornam necessário a figura do inspetor do trabalho. As mudanças no mundo contemporâneo provocam alterações nas relações de trabalho e na legislação. Aliás, pesquisas recentes demonstram que o Direito em geral, e não apenas a legislação trabalhista, vem sofrendo grandes mudanças (Faria, 1996). Ocorre, neste contexto histórico, mudanças na esfera do direito e da legislação, sendo que o processo de “desregulamentação” das relações de trabalho e a chamada terceirização apresentam o ponto mais importante para o nossa análise. Isto se apresenta hoje como uma tendência mundial, pois ocorre no bojo de um processo de generalização mundial de novas relações sociais e novas tecnologias que expressam uma atualização subordinada dos países “em desenvolvimento” em relação aos chamados “desenvolvidos”. Entretanto, esta atualização subordinada (que também pode ser chamada de reconversão capitalista), cuja subordinação expressa as relações internacionais desiguais, um aumento da exploração internacional através de um neoimperialismo, não ocorre sem contradições, sem resistências e sem especificidades (Viana, 2009). A desregulamentação nos países “em desenvolvimento”, por exemplo, é um processo de degradação ainda maior da situação dos trabalhadores, tendo em vista as condições desfavoráveis sob as quais eles já viviam. Como sobrevive a Inspeção do Trabalho neste contexto onde diminui a intervenção estatal e o direito e a legislação trabalhista são solapados? Portanto, o problema que nos é colocado é como a Inspeção do Trabalho sobrevive neste contexto e quais são as suas perspectivas. A Inspeção do Trabalho, para existir, necessita se consolidar e cumprir efetivamente sua missão de proteção dos trabalhadores, e para isso pressupõe algumas condições de possibilidade: a produção de uma legislação trabalhista, a formação de um corpo de inspetores de trabalho com poderes e condições de efetivar suas funções e uma pressão social por parte dos segmentos sociais beneficiados por ela (Viana, 1999). Sem dúvida, a própria legislação trabalhista é produto da ação social que exige reconhecimento de direitos mas a pressão social que nos referimos é posterior, ou seja, é aquela que se efetiva tendo por base uma legislação

trabalhista. Ocorre, porém, que hoje é a própria legislação trabalhista que é palco de disputas entre diversos setores da sociedade. Podemos dizer que existe uma simultaneidade do avanço do movimento operário e do avanço da legislação trabalhista. Por avanço da legislação trabalhista consideramos tanto o aumento do número de leis quanto as alterações das leis existentes no sentido da proteção e bem estar dos trabalhadores. Por avanço do movimento operário nos referimos ao desenvolvimento da auto-organização, de organizações, manifestações, mobilização, greves, etc., e da influência deste movimento sobre os outros setores da sociedade, bem como as conquistas referentes ao seu bem-estar e a sua participação política. O caso da França é semelhante ao ocorrido nos demais países altamente industrializados. Em todos os países a ascensão do movimento operário é acompanhada pelo avanço na legislação trabalhista. Os períodos históricos onde isso ocorre é diferente dependendo do país mas a relação entre movimento operário e legislação trabalhista é inquestionável. O recuo do movimento operário traz consigo a estagnação ou retrocesso da legislação trabalhista. Isto é produto das lutas sociais que ocorrem no mundo contemporâneo, cujo resultado apresenta o fortalecimento das posições da classe capitalista que busca combater a queda da taxa de lucro médio através de uma série de medidas (chamadas “neoliberais”, “reestruturação produtiva”, “globalização”) que significam a perda de direitos já conquistados pelos trabalhadores. Dentre estas medidas, as que atingem a Inspeção do Trabalho são, principalmente, a diminuição das despesas do setor estatal, a desregulamentação das relações de trabalho (que atinge a legislação trabalhista) e a chamada terceirização (em alguns de seus aspectos). A diminuição das despesas do setor estatal pode, no caso de alguns países, atingir direta ou indiretamente os recursos utilizados para a manutenção da Inspeção do Trabalho. Tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, a política neoliberal realizou cortes orçamentais importantes com o objetivo de diminuir o déficit federal, isto sem falar em medidas que levaram à compressão de pessoal e de créditos. Isto comprometeu a ação relacionada com a higiene, segurança de trabalho, entre outros setores de atuação em matéria de proteção dos trabalhadores. A desregulamentação corrói as bases de uma ação efetiva da Inspeção do Trabalho. O processo de desregulamentação está mais adiantado em alguns países do que em outros, mas reflete uma tendência geral do capitalismo contemporâneo. Na França, Argentina, México, Portugal e muitos outros países, se vê um processo de retirada de garantias para os trabalhadores. Este processo de desregulamentação se inspira no chamado “modelo japonês” (Viana, 2009; Coriat, 1992). Este foi aplicado e desenvolvido pioneiramente “nos dois países onde a classe operária é mais fraca, Japão e Estados Unidos. O Japão é um dos países anti-sindicato mais fortes. Nos Estados Unidos a introdução do ‘modelo de produção japonês’ requereu o desmantelamento sob a administração de MacArthur, do movimento operário de classe. O modelo japonês requer o enfraquecimento sistemático das organizações sindicais nas fábricas e a introdução de estruturas trabalhistas e mercantis que atuam contra a coesão do movimento operário” (Navarro, 1995). A desregulamentação e a terceirização são fenômenos que surgem acompanhados pelo crescimento do desemprego, pela expansão do trabalho à domicílio, etc. No caso do trabalho à domicílio, o que se verifica é que os trabalhadores desempenham suas funções em casa e ao invés de receberem um salário pelo trabalho executado recebem por produção, o que faz com que eles, por conta própria, aumentem sua jornada de trabalho para aumentar sua renda. As conseqüências disto para o trabalhador são extremamente negativas do ponto de vista físico e mental e não existe nenhuma

regulamentação legal sobre os limites e formas de contrato ou acordo entre o trabalhador e o contratante, o que torna impossível a fiscalização deste tipo de trabalho. Outras dificuldades vêem surgindo com a Inspeção do Trabalho, tal como o caso da duração do trabalho, onde a fragmentação e a heterogeneidade permitem uma elasticidade muito grande no uso do tempo na jornada de trabalho e simplesmente não existem normas jurídicas adequadas para permitir uma fiscalização efetiva neste caso. Neste sentido, não só a desregulamentação como também a terceirização (no caso de subcontratados domiciliares), o desemprego e outros fenômenos contemporâneos vêem limitando o espaço de atuação da Inspeção do Trabalho. Embora uma “desregulamentação total” das relações de trabalho seja algo quase impossível, o aprofundamento da tendência neoliberal pode reduzir o campo de atuação da Inspeção do Trabalho à um mínimo necessário, sendo que este seria definido pelo Estado no contexto de uma determinada correlação de forças entre empregadores e trabalhadores. A redução a este mínimo necessário de Inspeção do Trabalho pode significar, entre outras coisas, a diminuição do número de inspetores do trabalho e dos recursos colocados à sua disposição (infra-estrutura técnica, física, administrativa). Por conseguinte, a tendência geral, desde que persista o predomínio das forças neoliberais, é de solapamento das bases (jurídicas, humanas, estruturais, etc.) da Inspeção do Trabalho. Esta tendência mundial é bastante sombria, mas reflete a emergência e consolidação do regime de acumulação integral. Porém, também existem contratendências. Estas contratendências se manifestam tanto nas denúncias e propostas alternativas moderadas oriundas do movimento sindical e de outros setores da sociedade civil (movimentos sociais, intelectuais, etc.). Estas contratendências não são suficiente para alterar a tendência geral, mas caso haja ascensão das lutas dos trabalhadores, é possível o surgimento de contratendencias que podem atuar no sentido de reforçar a Inspeção do Trabalho tanto no que diz respeito a manter e melhorar sua estrutura e capacidade de atuação quanto na elaboração de uma nova legislação trabalhista, não só mantendo as conquistas já existentes como também aperfeiçoando e melhorando o conjunto de leis que protegem os trabalhadores. Inclusive, percebendo o surgimento de novas relações de trabalho, contemplar os interesses de trabalhadores submetidos à novas formas de exploração descontrolada, tal como os subcontratados à domicílio, entre outros. Porém, esta possibilidade não vem se concretizando, sendo uma possibilidade que depende das lutas sociais. INSPEÇÃO DO TRABALHO NO CAPITALISMO SUBORDINADO As tendências no que diz respeito a Inspeção do Trabalho em diversos países do mundo possui uma direção geral comum convivendo com características particulares que só existem em um conjunto de países cuja situação na divisão internacional do trabalho é semelhante. Aqui trataremos destas tendências diferenciais, ou seja, da diferenciação de tendências em dois blocos de países, o bloco do capitalismo imperialista e o do capitalismo subordinado. Sem dúvida, há também o caso dos países do Leste Europeu, entre outros, que não estão exatamente nestes blocos, mas que por falta de informações mais precisas deixaremos de lado. No capitalismo subordinado, os efeitos da instauração do regime de acumulação integral têm repercussões na Inspeção do Trabalho. A instauração de novas tecnologias, que acompanham o processo de desregulamentação, cria problemas novos que são derivados dos riscos profissionais de acidentes e para a saúde, que é resultado dos produtos, substâncias e processos da fabricação de novas mercadorias. As novas tecnologias também criam uma diferenciação na forma de trabalho que dificulta a Inspeção do Trabalho. Segundo Yves Roupsard, “o progresso técnico não tem se

traduzido por um desenvolvimento linear da saúde dos trabalhadores. Dos novos riscos que são apontados, relacionados precisamente ao desenvolvimento das tecnologias (radiação ionizante,...), às novas formas de organização do trabalho (fadiga, stress, ...), à intensificação do trabalho (perturbações músculo-esqueléticos) e à precariedade dos empregos. A absorção de medicamentos é um revelador destes fenômenos” (Roupsard, 1997, p. 142). Apesar da implantação de novas tecnologias também ter alguns efeitos positivos, tal como a possibilidade do corpo de Inspeção do Trabalho utilizar os recursos da informática (nos casos em que isso efetivamente acontece) e a superação de alguns riscos profissionais mais antigos, não se deve perder de vista que a implantação de novas tecnologias traz novos e mais problemas para os trabalhadores e a Inspeção do Trabalho, o que não deve ser descartado em uma análise do desenvolvimento da Inspeção do Trabalho, tanto no capitalismo subordinado no capitalismo imperialista. No caso da América Latina, a transição de regimes ditatoriais para regimes democráticos forneceu um incentivo maior para a consolidação da Inspeção do Trabalho. Embora não se possa considerar nenhuma grande conquista essas alterações, elas pelo menos possibilitaram um renascimento que, por mais precário que seja, era necessário, para um desenvolvimento posterior. Além disso, segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial em 1995, do Banco Mundial, os países de capitalismo subordinado, de “renda média e baixa”, não possuem “capacidade administrativa para fiscalizar o cumprimento das disposições sobre o salário mínimo” e também sobre os padrões de saúde e segurança; embora seja discutível que a razão disto seja apenas a falta de capacidade administrativa, pois, afinal, as prioridades dos governos determinadas pela correlação de forças entre os setores da sociedade é fundamental para explicar isto. Se lembrarmos que os salários baixos beneficiam os empregadores, pois isto aumenta sua taxa de lucro, então veremos que existem fortes interesses em favor desta realidade que, sem dúvida, pressionam os governos. Isto sem falar das multiplicidades de diferenças entre tais países, sendo que alguns possuem mais condições administrativas do que outros. Segundo este mesmo Relatório, “independentemente de seu impacto potencial, em muitos países muitas vezes não é imposta a aplicação do salário mínimo. Pesquisas em domicílios indicam que no México, em 1988, 16% dos trabalhadores de tempo integral do sexo masculino e 66% do sexo feminino recebiam menos do que o salário mínimo. No Marrocos, metade das empresas pesquisadas em 1986 pagava menos do que o salário mínimo aos trabalhadores não especializados” (Banco Mundial, 1996). A figura abaixo coloca a situação precária de cinco países. Neste contexto, o movimento rumo a desregulamentação nestes países proporciona um efeito muito mais forte do que nos países imperialistas (Europa, Estados Unidos, etc.). No caso dos países de capitalismo subordinado, a desregulamentação vem acompanhada muitas vezes por uma política de austeridade e a sua legislação trabalhista sofreu sérios revezes, sendo que em alguns países o direito de greve perdeu praticamente todo o seu respaldo legal. O caso da Argentina é o exemplo de desregulamentação mais drástico, mas também no Peru e em outros países tal processo tem levado a criação de uma situação de extrema marginalização social. A desregulamentação nestes países conta com a pressão de organismos internacionais, em especial o Fundo Monetário Internacional.

Não-Observância de Padrões Nacionais de Trabalho por Microempresas

100 80 60 40 20 0
Níger Suazilândia Argélia Tunísia Jamaica

Padrões de Saúde e Segurança

Salário Mínimo

Fonte: Banco Mundial. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial/1995, Washington, 1996, p. 87. Observação: não há dados sobre o salário mínimo na Tunísia. Nos países imperialistas, a situação é marcada por uma elevada taxa de desemprego, acompanhada por dificuldades econômicas e indefinições do futuro próximo. O novo regime de acumulação cria uma grave situação social que propicia campo para o desenvolvimento do fascismo e neonazismo, sendo que isto já é uma realidade, pois diversas organizações e até partidos com esta tendência vêem se proliferando nestes países (e não só nestes como em todo mundo, embora o racismo, a xenofobia e o preconceito étnico sejam mais fortes aí devido a convivência de altas taxas de desemprego com um grande número de imigrantes, o que faz com que seja fácil culpar estes últimos, assim como os nazistas fizeram com os judeus, pelos males que assolam a Europa). Portanto, trata-se de uma situação em que os conflitos sociais tendem a se acirrar. Neste contexto, a Inspeção do Trabalho vem sofrendo sérios golpes em tais países. Já citamos o caso da França e de Portugal, mas isto é apenas uma parte da história. Na Inglaterra há uma verdadeira transformação nas relações de trabalho que afetam diretamente os trabalhadores e a Inspeção do Trabalho. A política governamental busca a “suavização” do mercado de trabalho e a “compressão das despesas públicas”. Como os sindicatos significavam obstáculos à efetivação de tal política, “diversas leis e regulamentos relativos às modalidades de reconhecimento dos sindicatos, ao apoio à negociação das condições de trabalho, aos justos salários e às portarias dos conselhos dos salários foram abolidos ou modificados. Foram impostas restrições a certos tipos de greves. A proteção do emprego individual recuou também ela: tornou-se mais difícil para o trabalhador recorrer ao tribunal do trabalho em caso de despedimento considerado injustificado, o direito ao salário garantido diminuiu e as disposições

relativas à maternidade tornaram-se menos favoráveis. Além disso, certos estabelecimentos pequenos foram dispensados de observar certas regras da lei sobre a higiene e a segurança do trabalho e as restrições da duração do trabalho das mulheres foram abolidas” (RIT, 1992, p. 29). Os Estados Unidos é outro exemplo de desregulamentação. Com o objetivo de diminuir a intervenção do Estado e de abolir a regulamentação federal, o governo, a partir de 1975, começou um embate com diversos setores da sociedade (sindicatos, movimentos sociais, organizações de consumidores, etc.). houve compressões de pessoal e de créditos orçamentais que “enfraqueceram a ação conduzida pela Administração da Higiene e da Segurança do Trabalho para melhorar o meio de trabalho; a sua intervenção para fazer observar as normas também diminuíram em número e em rigor. Certos observadores acham que a aplicação da legislação sobre a negociação coletiva, as normas eqüitativas de trabalho e a não discriminação tornou-se também ela menos severa, enquanto que se punha um travão ao crescimento dos salários mínimos que, por esse motivo, chegaram, em valores reais, ao nível mais baixo das três últimas décadas” (RIT, 1992, p. 30). A implantação de novas tecnologias também atinge as condições de trabalho nestes países, mas com algumas diferenças, tais como sua implantação anterior e mais intensiva, o que provoca diversos problemas, levando-se em conta o que foi dito anteriormente. Em síntese, podemos dizer que a Inspeção do Trabalho vem tendo suas bases corroídas por diversos fatores em todo o mundo, onde se destaca o processo de desregulamentação. A realidade atual da Inspeção do Trabalho no mundo é marcada pelo retrocesso e a tendência geral é de aprofundamento desta situação. Como colocamos anteriormente, existem contratendências, mas estas são mais fracas e são representadas pelo movimento operário, movimentos sociais e outros setores da sociedade que querem evitar o retorno da barbárie e cuja manifestação concreta depende da ação prática de indivíduos e grupos no sentido de criar uma correlação de forças favorável à classe trabalhadora. O QUE SE PENSA HOJE SOBRE O FUTURO DA INSPEÇÃO DO TRABALHO Tendo em vista o quadro apresentado anteriormente, cabe perguntar o que se pensa hoje sobre o futuro da Inspeção do Trabalho. Alguns pesquisadores, organizações sindicais e instituições apresentam algumas posições a respeito do futuro da Inspeção do Trabalho. A CGTP-IN, corrente sindical portuguesa, num documento para o seu 8o Congresso, afirma que “os governos, cedendo às exigências do patronato, têm vindo a proceder à alteração da legislação laboral numa linha de desregulamentação das relações de trabalho, visando enfraquecer a luta dos trabalhadores e dos sindicatos”. Ao constatar a tendência à desregulamentação apresenta uma perspectiva não tão otimista quanto a anterior, mas também não cai no fatalismo e propõe colaborar com a alteração deste quadro através de uma série de propostas, entre as quais a da participação dos trabalhadores na elaboração da legislação trabalhista e lutar “por uma Inspeção do Trabalho autônoma e eficaz”. O ponto de vista da UNAS/CGT  União Nacional dos Trabalhadores Sociais (Union Nationale des Affaires Sociales) — Confederação Geral dos Trabalhadores, da França, tal como expresso em seu Projeto de Documento para 11o Congresso da UNAS, apresenta uma perspectiva semelhante. Para tal corrente sindical, existe uma ofensiva neoliberal que busca corroer as conquistas dos trabalhadores e a legislação trabalhista. Segundo o referido documento, “no próprio seio da Administração do Trabalho do BIT,

encontra-se assim posta a questão da legitimidade da intervenção do Estado nas empresas em primeiro plano está a da Inspeção do Trabalho. As convenções da OIT, como normas jurídicas internacionais protetoras dos trabalhadores, são igualmente visadas (lembremos que até agora, os EUA ratificaram apenas 12 convenções, das quais apenas 10 permanecem em vigor, sobre as 177 existentes). Ao contrário, preconiza-se uma nova abordagem, fundada na adoção de cláusulas sociais, no quadro dos mercados comerciais, ‘normas contratuais’, aceitáveis e aceitas pelos patrões”. A perspectiva não é nada otimista e a proposta alternativa é buscar contornar tal situação, revertendo a tendência predominante, tanto através da busca de uma reorientação da política estatal quanto de propostas para questões específicas. O sociólogo Sadi Dal-Rosso, se referindo ao futuro da Inspeção do Trabalho no Brasil, mas que é uma perspectiva generalizável ao mundo inteiro, coloca que “a efetividade da Inspeção do Trabalho depende essencialmente do crescente engajamento da sociedade e de suas organizações nas atividades de controle das condições de trabalho. Compartilho da convicção de que a existência de um serviço estatal de inspeção, amplo, abrangente, descentralizado, dotado de quadros de pessoal treinados e em contínuo aperfeiçoamento, bem remunerados, com adequadas condições de trabalho, pode obter resultados significativos de obediência aos regulamentos do trabalho. Mas o serviço estatal é insuficiente para fazer com que avancem as relações de trabalho. Será necessário condividir com estruturas da sociedade civil, sejam sindicatos, sejam as organizações não governamentais, sejam as comunidades de bairro, sejam inclusive os grupos de defesa ecológica ou de defesa dos direitos de segmentos específicos da população (crianças, adolescentes, mulheres, idosos, portadores de defeitos físicos, etc.), a tarefa da Inspeção do Trabalho. Estou estabelecendo como elemento imprescindível para o bom desempenho da Inspeção do Trabalho, a participação da sociedade. A criatividade dos movimentos sociais poderá determinar as maneiras pelas quais tomará lugar essa participação. Mas para que sejam transformadas as relação de trabalho no Brasil é necessária a participação cada vez mais ampla da sociedade” (Dal-Rosso, 1996, p. 383-384). Sem dúvida, aqui se apresenta uma perspectiva que aponta para a necessidade da participação social para que a Inspeção do Trabalho possa cumprir com o seu papel. A efetivação da Inspeção do Trabalho depende desta participação e a perspectiva de futuro para a inspeção só pode ser avaliada no interior deste contexto de mais ou menos participação social na inspeção. Para Denis Troupenat, Secretário da Federação de Serviços Públicos da França, a Inspeção do Trabalho tem sido objeto de modificações sucessivas e profundas que tendem a mudar sua finalidade dominante de proteção dos assalariados. Segundo ele, a elaboração de um direito fixando as obrigações do patronato numa sociedade capitalista e a intervenção do Estado para se aplicar o direito “constitui-se numa contradição”, mas que é “resultado do movimento social e da relação de forças”. A fase atual não escapa desta apreciação, pois ela corresponde às mudanças em uma sociedade entrando para o capitalismo em crise dentro de um período de reestruturação (Troupenat, 1987). Esta posição, que apresenta muitos elementos em comum com a anterior, aponta para uma perspectiva pessimista quanto ao futuro da Inspeção do Trabalho, mas que não se limita a isto e entrevê a possibilidade de alteração do quadro através de uma nova correlação de forças. Dughera, Lenoir, Ricochon e Triomphe (respectivamente, Administrador Civil, Diretor Departamental do Trabalho, do Emprego e da Formação Profissional; Delegado Regional de Formação Profissional; Diretor Adjunto do Trabalho) apresentam uma visão que aponta para o reconhecimento da insuficiência do estabelecimento local de

trabalho como objeto da ação de inspeção devido ao fato de que hoje existem novas modalidades de empresas e uma disparidade no mundo do trabalho. A realidade contemporânea apresenta uma multiplicação de precariedade de emprego. Dentro deste quadro, é necessário, segundo eles, “complexificar a idéia de proteção dos trabalhadores”, pois só assim se pode dar conta da realidade multifacetada do mundo do trabalho e efetivar uma inspeção eficaz. Portanto, a Inspeção do Trabalho deve “buscar uma nova legitimidade” e para isso um conjunto de medidas devem ser tomadas (Dughera et al., 1993). As perspectivas neste caso são apontadas para uma visão das mudanças sociais e da necessidade de adaptação da Inspeção do Trabalho frente a esta nova realidade, embora tal posicionamento deixe de lado diversos aspectos das mudanças sociais, tal como o problema da desregulamentação e da ação estatal no sentido de cortar gastos e fazer outras alterações que prejudicam a Inspeção do Trabalho. Pierre Auvergnon, da Universidade de Bourdeaux I, coloca que o contexto atual de “crise do sindicalismo”, a carência de representação de pessoal, entre outros fatores, tem reforçado as dificuldades encontradas pela Inspeção do Trabalho. Juntamente com isso, o debate sobre a flexibilidade do direito do trabalho coloca em questão a própria inspeção. O sentido em que se dá a esta flexibilidade pode ser extremamente prejudicial, mas também é possível que uma mudança no direito do trabalho seja útil, desde que leve em consideração os diferentes interesses dos assalariados. Se isto se efetivasse, ocorreria uma verdadeira “renovação na prática da inspeção”. Por conseguinte, a reforma do direito do trabalho é considerada por ele como um elemento importante para se definir o destino da Inspeção do Trabalho, sendo que somente se a reformulação se fizer num sentido favorável aos assalariados é que os resultados serão positivos (Auvergnon, 1996). A pesquisa realizada por Jacques Freyssinet sobre o “tempo de trabalho em migalhas” apresenta um estudo sobre as mudanças na duração do trabalho e suas conseqüências para a Inspeção do Trabalho. Para ele, a multiplicação de inovações legislativas e convencionais acabaram criando uma situação complexa onde a duração hebdomadária deixa de constituir uma base de cálculo. Novas formas de organização do tempo de trabalho e soluções diferenciadas são adotadas em diferentes categorias de pessoal. Mas isto ocorre num contexto marcado por dificuldades e resistências. Desta forma, cria-se arranjos práticos de acordo com a correlação de forcas dentro dos coletivos de trabalho. Mas isto não significa que o empregador tenha se tornado todopoderoso e sim que há um deslocamento da natureza da repressão, que em grande proporção deixa de ser resultado das normas jurídicas e passa a ser mais o resultado da força e resistência dos trabalhadores assalariados, tal como a resistência à redução salarial, à intensificação do trabalho, à desorganização das horas de trabalho dos contratados e “irregulares”, etc. As normas jurídicas podem no seu porvir se tornar mera ficção e tendem a ser substituídas pela correlação de forças, que raramente é favorável aos trabalhadores. Segundo Freyssinet, isto tem uma séria conseqüência para a Inspeção do Trabalho. A fragmentação dos horários de trabalho, a complexidade de dispositivos e a opacidade dos arranjos práticos locais coloca a seguinte questão para a Inspeção do Trabalho: a duração do trabalho ainda é controlável? Para ele, a noção de horário coletivo perdeu todo o significado em numerosos ramos, notadamente terciários. Dezenas de sistemas de horários diferentes podem coexistir dentro de um mesmo estabelecimento. Tais sistemas podem ser inegavelmente variáveis, moduláveis e duráveis. A dificuldade de medir com evidência uma infração e a fraqueza das sanções judiciárias explicam por qual motivo os serviços de Inspeção do Trabalho são

parcialmente desincumbidos do domínio do controle da duração do trabalho (Freyssinet, 1997). Desta forma, o que se vê é a existência de uma legislação que permite tais “arranjos práticos” que corroem as bases de uma “noção de horário coletivo” e que não se volta para a nova realidade da duração do trabalho instaurada na atualidade (que é mais visível e constante nos países europeus, e o autor trata especificamente do caso francês, mas que avança e se desenvolve em vários países). Isto provoca, simultaneamente, o afastamento da Inspeção do Trabalho do controle da duração do trabalho e também deixa o campo livre para a atuação das forças sociais, o que geralmente beneficia os empregadores. A solução para isto, segundo Freyssinet, é uma reconstrução do direito da duração do trabalho. Esta reconstrução do direito permitiria uma nova definição da legislação, trazendo, inclusive, sua simplificação, que, segundo este autor, “é uma condição da efetividade do direito; a efetividade do direito é uma condição para que não se deixe o campo livre às relações de forças locais” (Freyssinet, 1997, p. 249). Neste sentido, observamos algumas perspectivas para o futuro da Inspeção do Trabalho. Em resumo, podemos dizer que a tendência geral é no sentido de se corroer as bases da Inspeção do Trabalho, diminuindo seu alcance de atuação e condições de execução de sua missão. Existem contratendências que poderão dificultar, amenizar, desacelerar ou, num ponto de vista mais otimista, impedir a realização desta tendência. As perspectivas acima colocadas sobre o futuro da Inspeção do Trabalho apontam para um quadro semelhante, ressaltando-se o otimismo de uns e o pessimismo de outros. Revela-se como uma opinião da maioria das correntes sindicais uma enorme preocupação com o futuro da Inspeção do Trabalho, que já sofre diversos revezes na atualidade, mas não se cai em nenhum fatalismo, pois se reconhece que o futuro não está determinado e que se pode caminhar contra a corrente no sentido de alterar a tendência geral. Uma grande parte dos pesquisadores reconhece também que é fundamental a participação dos movimentos sociais e do movimento operário para se efetivar uma efetiva Inspeção do Trabalho. Outros apresentam suas perspectivas em torno de questões mais específicas, mas no interior de um quadro geral parecido com os demais, ou seja, reconhecendo a existência de mudanças sociais que afetam a Inspeção do Trabalho e a necessidade de se apresentar propostas para solucionar os novos problemas postos. Sem dúvida, a situação do capitalismo contemporâneo significa uma ampla ofensiva no sentido de se superar a dificuldade de prosseguimento da acumulação capitalista através da extensão e intensificação da exploração da força de trabalho e isto gera o conjunto de mudanças na esfera da organização do trabalho, da legislação trabalhista, etc. A tendência geral é de predomínio das forças favoráveis ao capital em detrimento dos trabalhadores. Esta situação representa uma forte ameaça para a Inspeção do Trabalho que vê sua bases corroídas. Isto afeta a classe trabalhadora que tem seus direitos perdidos para permitir a reprodução ampliada da acumulação de capital e junto com isso a Inspeção do Trabalho perde suas bases de ação e se vê ameaçada de perder cada vez mais espaço. Isto se reflete, sem dúvida, nas perspectivas e análises sobre a Inspeção do Trabalho. Algumas destas perspectivas podem ser consideradas como mais realistas e, acompanhando elas, podemos dizer que o futuro da Inspeção do Trabalho depende das lutas sociais que serão travadas neste início de século. O futuro ainda não esta definido e sua definição depende de nossa ação no presente. Portanto, o futuro da Inspeção do Trabalho depende de nós. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUVERGNON, P. Débats et Idées sur I’Inspection du Travail sous la Ve République. In: Droit Ouvrier, março de 1996. BANCO MUNDIAL. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial - 1995. Washington, 1996. CORIAT, Benjamin. Pensar Al Revés. México, Siglo XXI, 1992. DAL-ROSSO, Sadi. A Jornada de Trabalho na Sociedade. SP, LTr, 1996. DUGHERA, Jacques; LENOIR, Christian; RICOCHON, Michel; TRIOMPHE, Claude. Inspection du Travail en Queté d’une Nouvelle Legitimité. In: Droit Social. no 02, fevereiro de 1993. FARIA, José E. (org.). Direito e Globalização Econômica: Implicações e Perspectivas. São Paulo, Malheiros, 1996. FREYSSINET, Jacques. Le Temps de Travail en Miettes. Paris, Éditions de I’Atelier, 1997. NAVARRO, Vicente. Produção e Estado de Bem Estar: O Contexto das Reformas. In: LAURELL, Asa (org.). Estado e Políticas Sociais do Neoliberalismo. São Paulo, Cortêz, 1995. RIT. A Administração do Trabalho num Mundo que Evolui. Genebra, OIT, 1992. RIT. Normas Internacionais do Trabalho que são da Competência da Inspeção do Trabalho: principais disposições. Genebra, OIT, 1992. ROUPSARD, Yves. La Place de I’Inspection du Travail Dans La Politique de Santé Publique. In: Droit Ouvrier, setembro de 1997. TROUPENAT, Denis. Vers Une Dénaturation de la Mission e I’Inspection du Travail? In: Droit Ouvrier, Setembro de 1987. VIANA, Nildo. Os Caminhos da Inspeção do Trabalho na França. In: DAL ROSSO, Sadi (org.). A Inspeção do Trabalho. Brasília, Sinait, 1999. VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2009.

Confronto entre Modelos Explicativos na Compreensão do Trabalho Infantil

Leonardo César Pereira*

O presente artigo discute a construção social de marcos teóricos e conceituais sobre o trabalho infantil enfocando, especialmente, a construção contemporânea sobre o tema. Os marcos teóricos refletem as dinâmicas sociais em torno da criança e do adolescente. Desse modo, o significado atribuído pelo pensamento social acerca do trabalho de crianças e jovens é fruto da tomada de consciência da própria sociedade ou parte dela. Sua construção não está por cima ou à parte das lutas sociais. Pelo contrário, a teorização reflete a compreensão social da própria sociedade, visando apreender os significados que o trabalho infantil assume para os sujeitos inseridos nessas dinâmicas e visam também contribuir, teórica e politicamente, com a compreensão e explicação da realidade social. Este estudo é fruto de uma breve revisão da literatura que trata sobre o tema, com foco em alguns artigos e resultados de pesquisas das ciências sociais, como bancos de dados de artigos, teses e periódicos, privilegiando os trabalhos que procuram sintetizar as discussões sobre trabalho infantil, bem como aqueles que, de alguma forma, representam pontos de ruptura teórico-metodológicos sobre as abordagens que permitem traçar algumas diretrizes que servirão como guias de aprofundamentos futuros. Neste sentido, serão discutidos, ao longo do trabalho, três pontos indispensáveis para um estudo introdutório. Num primeiro momento serão apresentadas, as principais definições e controvérsias acerca da definição de trabalho infantil. Num segundo momento será trabalhado como ocorre o trabalho infantil na sociedade e suas principais explicações por parte de alguns autores que conseguiram sintetizar ou aprofundar nessas discussões. E por último pretende-se apresentar uma conclusão crítica sobre os modelos teórico-explicativos abordados no texto. Tratar sobre os marcos teóricos de um tema tão controverso como é o trabalho infantil nos apresenta, já na sua definição, polêmicas e discordâncias. É muito comum hoje em dia uma visão jurídica e legalista sobre o trabalho infantil, fortemente influenciada por construções de organismos internacionais, como a OIT (Organização Internacional do Trabalho), e nacionais, como as legislações e planos de ação, principalmente na esfera federal, que vem pautando as discussões e pesquisas.
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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

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Partindo da definição OIT e sua absorção pelo pensamento social, Gomes (1998) sintetiza da seguinte maneira o conceito de trabalho infantil:
Qualquer atividade que tenho por objetivo, direto ou indireto, a manutenção da vida, feita por crianças2 , toda atividade que impede a escolaridade regular, o descanso e as brincadeiras (DCI-Brasil/CUT, 1996, p. 25). Nessa medida, até mesmo atividades domésticas rotineiras seriam trabalho, uma vez que liberam o adulto para a atividade no mercado de trabalho formal ou informal. (GOMES, 1998, p. 51)

Estudos que privilegiam essas convenções, que foram ratificadas pelo Brasil nas últimas décadas, pautam-se metodologicamente pela noção de trabalho infantil como toda forma laborativa, com ou sem fins lucrativos, exercida por menores de 15 anos3, e que atrapalham no rendimento escolar. Dessa forma, assumem como pressupostos definidores a perspectiva do desenvolvimento físico-cronológico, atividades mercantilizadas e a centralidade da escolarização para a vida da criança 4. Mas outras perspectivas (Demartine e Lang, 1983, in: Gomes, 1998) apontam para uma definição mais subjetiva, onde a percepção individual do sujeito é que seria o critério. Essa abordagem prioriza a representação individual em detrimento do caráter objetivo do trabalho, não levando em consideração o aspecto alienante e reificador do trabalho. Segundo Gomes (1998), a definição de trabalho independe da vontade individual. Existem construções sociais e históricas que determinam o trabalho, e sua hierarquização em relação às outras atividades “dependem da herança cultural de cada grupo, de cada sociedade” (GOMES, 1998, p. 51). Desse modo, a definição da autora sobre o caráter exploratório do trabalho infantil é característica de uma noção recorrente nas ciências sociais contemporâneas, onde a relação entre questões econômicas, a reivindicação da condição de cidadania e da escolarização, formam o pano de fundo da proposta de proteção ao desenvolvimento da criança:
Resumindo os pontos consensuais, pode-se dizer que o trabalho infantil é exploração quando: é realizado em condições inadequadas, prejudiciais e/ou perversas; exige da criança ou do jovem uma atividade constante e desproporcional a suas forças, a seu estágio de desenvolvimento psicossocial; a atividade impede as brincadeiras, os jogos, o descanso e, em especial, a escolarização regular, tão imprescindível à preparação deles para a cidadania plena. Em tais condições, por certo, o trabalho infantil além de constituir exploração é nocivo à saúde física e mental de quem o realiza, e põe em risco o futuro das novas gerações de brasileiros. (GOMES, 1998, p. 54).

Partindo deste conceito, atividades tradicionalmente consideradas como práticas de socialização, como alguns serviços domésticos – com certa divisão do
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A OIT estabelece o critério cronológico para a definição de criança, sendo a idade de até 15 anos o marco regulatório. 3 Para a faixa etária dos 16 aos 18 anos é permitido o trabalho somente em condição de aprendizagem. 4 Uma definição semelhante, ou seja, que parte das mesmas premissas, é encontrada em estudos como de Ferreira (2001), Sartori (2006) e Seger (2006).

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trabalho de modo a impedir a superexploração do trabalho feminino - e transmissão de práticas laborativas de cunho familiar, onde a criança e adolescente assumem atividades na forma de herança cultural da própria família, não se constituem exploração, principalmente no meio rural onde a escolarização pode ser absorvida como forma de garantir a continuidade do patrimônio cultural herdado, com o domínio de novas tecnologias e rearranjos das novas relações sociais, especialmente nas dinâmicas comerciais. É utilizado neste estudo o referencial dialético que permite compreender as dinâmicas e conflitos sociais como produtores de representações jurídicas, políticas e sociais e o retorno dessas representações nas relações sociais, de forma regulatoria e normatizadora da vida social, de modo recíproco (VIANA, 2003). Partindo do pressuposto de que os marcos teóricos expressam as contradições dos conflitos sociais e de que sua compreensão da realidade ganha relevância social quando promovem o debate público acerca do contexto social, historicamente determinado por lutas de classe, segregação social, lutas por direitos políticos, civis e sociais e, não menos importante, por representações sociais cotidianas, a análise dos marcos teóricos serve-nos como objeto de estudo enquanto instrumento heurístico quando utilizado para uma compreensão crítica da realidade. Neste sentido, torna-se importante fazermos duas distinções sobre o trabalho infantil: primeiro, como se dá a inserção da criança e do adolescente no mundo do trabalho e, segundo, porquê essa inserção torna-se prejudicial ao seu desenvolvimento. A inserção violenta e exploratória das crianças no mundo do trabalho, mas principalmente do adolescente, vem sendo exaustivamente tratada pelas ciências sociais de forma fenomênica e superficial, com estudos muito particulares que quase nunca definem os determinantes sociais e históricos de forma satisfatória. Como afirma Ferreira:
Em primeiro lugar a ocorrência do trabalho infantil tem sido compreendida como um problema a mais, desarticulado dos componentes macroeconômico que o produzem. Pobreza e estagnação econômica têm sido culpadas pela produção do fenômeno [...]. Além de uma visão localista do fenômeno, as iniciativas ainda padecem de referências mais atualizadas sobre o significado da infância e da adolescência, produzindo ações ainda impregnadas ou orientadas, antes de tudo, de um sentido disciplinador, com forte acento autoritário e moralizante. (FERREIRA, 2001, p. 222)

Araújo (2009), fundamentando-se em análises de Moraes e Duayer (1998), Wood (1999) e Eagleton (1998), salienta que as ciências sociais e a filosofia passam por uma tensão que é reflexo da crise de confiança na concepção de razão: “a razão moderna de corte iluminista”, onde os argumentos explicativos totalizantes perdem relevância social, influenciada por uma multiplicidade de propostas teóricometodológicas, caracterizadas pela “agenda pós-moderna”. As conseqüências dessas perspectivas são a “negação do real” e de qualquer forma de “compreende-lo objetivamente” em sua totalidade. E em confronto com tal perspectiva, defende que:
A exploração do trabalho infantil não é redutível a questões culturais, valorativas ou identitárias mas, ao contrário, é intimamente ligada ao momento histórico em que vivemos. A despeito das grandes

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diferenças entre os diversos tipos de trabalho em que as crianças se inserem, nas mais variadas regiões do planeta e dos mais variados matizes culturais, todas essas situações guardam em comum o fato de estarem, hoje mais do que nunca, balizadas pela lógica da valorização do capital. Temos observado em nossos estudos exploratórios relacionados a estas questões que as pesquisas efetivadas têm se restringido a análises bastante superficiais, ficando restritas às aparências dos fenômenos estudados ou ao microcosmo que envolve tais fenômenos gerando uma “especificidade” fragmentada. Podemos citar vários exemplos de análises que colocam a responsabilidade do trabalho infantil em fatores como pobreza, nível de escolaridade dos pais, tamanho e estrutura da família, idade em que os pais começaram a trabalhar, local de residência, etc., estabelecendo relações de causa e conseqüência entre problemas sociais de origem comum (ARAÚJO, 2009, p. 4).

Partindo dessa crítica, o trabalho infantil pode ser encarado como uma estratégia do capital de exploração da força de trabalho, que encontra aí uma forma de redução dos custos de produção. Algumas análises apontam para essa direção, principalmente por meio da reestruturação produtiva que levam as famílias a utilizaremse das crianças nos trabalhos terceirizados pelas indústrias5. Nota-se que o trabalho terceirizado é geralmente feito nas casas das famílias, utilizando o trabalho infantil de forma indireta (quando os filhos assumem as tarefas domésticas enquanto os pais executam suas empreitas) e de forma direta (quando os filhos acabam por auxiliar os pais nos excessivos trabalhos terceirizados). O porquê essa exploração acontece está na lógica da sociedade capitalista, onde as famílias da classe trabalhadora encontram-se em situações precárias de existência, onde muitas vezes o trabalho infantil é impulsionado como fuga da marginalidade e da ociosidade. A noção de que através do trabalho a criança e o adolescente estão seguros dos perigos do mundo encoberta a desumanização do trabalho sob o capitalismo (CAMPOS & ALVERGA, 2001; GOMES, 1998; SARTORI, 2009; NETO e SILVA et all, 2009). O trabalho infantil esteve presente em vários processos históricos, desde o Egito antigo, passando pela idade média e o feudalismo, como forma de escravidão ou aprendizagem de ofícios. Mas é no capitalismo que ele assume a forma de uma estratégia sistêmica, determinando o modo de vida da classe trabalhadora de tal forma que o trabalho infantil torna-se praticamente indispensável, em alguns contextos, e necessário para a redução dos custos da produção. A exploração do trabalho infantil é utilizada pelo capital como forma de extração do trabalho excedente desde sua origem6, e sua proibição, por mecanismos legais, é burlado pelo capital através da reestruturação produtiva contemporânea que exige a flexibilização não só das forças produtivas, mas das relações de produção também7.
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Estudos de casos onde a força de trabalho infantil fora utilizada com esses propósitos encontram-se em Sartori, 2009 e Neto e Silva et all, 2009. 6 Marx, no século XVIII, já apontava a exploração do trabalho infantil e feminino como estratégia do capital para a extração do trabalho excedente nas nascentes indústrias inglesas - condição indispensável para a produção da mais-valia que, no capitalismo, é peça fundamental para a sua reprodução social (MARX, 1991). 7 Uma análise profunda sobre o modo de vida no capitalismo e a utilização da força de trabalho infantil como conseqüência desse modo de vida encontra-se em GRANOU (1972).

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Contraponto entre os Modelos Teórico-Explicativos A maioria dos estudos que privilegiam uma compreensão da realidade social a partir da legalidade e/ou oficialidade, colocam o trabalho infantil como “problema social” a partir de sua absorção pelas instituições oficiais, como a OIT, os fóruns de defesa da criança e do adolescente, bem como os marcos regulatórios do Estado. O que essas abordagens não consideram é que o trabalho infantil já é um problema muito antigo para as classes dominadas que, desde os escravos até os proletários contemporâneos, enfrentam esse conflito e lutam contra ele muito antes das intelligentsias nacionais e internacionais tomarem-no como um “problema social” urgente. Uma abordagem da luta de classes perceberá que a exploração do trabalho infantil já é uma bandeira histórica dos movimentos socialistas que:
Sob a bandeira do combate à exploração do trabalho humano em geral, chamavam a atenção especial para as condições perversas do trabalho de mulheres e de crianças. Desde o início, a história desses movimentos e os escritos que lhes davam fundamento evidenciavam a associação entre modelo econômico, pobreza familiar e condições de trabalho, especialmente de crianças, de jovens e de mulheres. (GOMES, 1998, p. 45-46)

E que, no Brasil, a luta dos escravos para terem seus filhos livres dos grilhões do senhor e do feitor, já se caracterizava como tentativa de ruptura contra essa exploração. Que desde 1912 o trabalho infantil já é pautado nas lutas e mobilizações da classe trabalhadora8 no Brasil. É preciso aproximar os estudos e pesquisas às lutas sociais, para não cairmos em ciladas pretensamente emancipatórias que, na verdade, apenas encobertam os graves e difíceis dilemas enfrentados pela sociedade em seus diversos contextos. E que medidas pontuais e apenas de contenção não bastam para ficarmos tranqüilos e satisfeitos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Cláudio Marcelo Garcia. A teoria social crítica como possibilidade de sustentação onto-metodológica para análise do trabalho infantil contemporâneo. In: XII Conferência Anual do IACR - UFF. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: <http://www.uff.br/iacr/ArtigosPDF/81T.pdf>. Acesso em 20 set. 2009. BEZERRA, Maria Cristina dos Santos; NETO, Luiz Bezerra; SILVA, Eduardo Pinto e; LOCALI, Tammy Ticiane; Trabalho Infantil na Industria de Semi-Jóias e Suas Repercussões nos Processos de Escolarização. HISTEDBR On-line, Campinas, SP, n. Especial, p.264-284, mai. 2009. CAMPOS, Herculano Ricardo; ALVERGA, Alex Reinecke de. Trabalho Infantil e Ideologia: contribuição ao estudo da crença indiscriminada na dignidade do
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No 4° Congresso Operário Brasileiro, em 1912, quando da constituição da Confederação Brasileira do Trabalho (CBT), “‘a limitação da jornada para mulheres e menores de 14 anos’ era uma das principais conquistas por quê deveria lutar” (Dulles, 1977, In. Campos & Alverga, 2001, p. 232).

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trabalho. Estudos de Psicologia. Natal, RN, n. 6(2), p. 227-233, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-294X2001000200010&script= sci_arttext>. Acesso em: 20.set.2009. FERREIRA, Marcos Artemio Fischborn. Trabalho Infantil e Produção Acadêmica nos Anos 90: tópicos para reflexão. Estudos de Psicologia. Natal, RN, n. 6(2), p. 213225, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script= sci_arttext&pid=S1413-294X200100020 0009>. Acesso em: 20.set.2009. GOMES, Jerusa Vieira. Vida Familiar e Trabalho de Crianças e de Jovens Pobres. Paidéia, Ribeirão Preto, SP, n. 14-15, v. 8, p. 45-61, fev-ago 1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103863X1998000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 20.set.2009. GRANOU, Adré. Capitalismo y Modo de Vida. Madrid: Alberto Editor/Corazon, 1972. MARX, Karl. El Capital. México: FCE, 1991. SARTORI, Elisiane. Trabalho infantil em Franca: um laboratório das lutas sociais em defesa da criança e do adolescente. Cadernos Pagu, Campinas, SP, n. 26, p. 253278, Jun 2006.Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010483332006000100011&script=sci_arttext>. Acesso em 20.set.2009 SEGER, Cilene Inês. O Trabalho Infantil Doméstico No Brasil. 2006. 80 f. Monografia (Graduação em Ciências Sociais) - Centro Universitário FEEVALE, Novo Hamburgo, 2006. Disponível em:<http://www.andi.org.br/tid/arquivos/est/mapa2. jpg> . Acesso em: 01.Set.2009. VIANA, Nildo. Estado, democracia e cidadania: a dinâmica da política institucional no capitalismo. Rio de Janeiro: achiame, 2003.

RESUMO O presente artigo aborda a questão do trabalho infantil sob a perspectiva de sua repercussão social que refletem nos modelos explicativos utilizados no entendimento da constituição histórica deste fenômeno. O estudo tem como fio condutor o método dialético que busca explicar a origem e o desenvolvimento da exploração do trabalho infantil através do confronto entre as abordagens legalistas, que tem origem nas regulamentações de órgãos oficiais, e as reivindicações históricas da classe trabalhadora, que permitem a ressignificação contemporânea do trabalho infantil. O presente estudo aponta para a compreensão do trabalho infantil como resultado da exploração da sociedade capitalista na busca de redução de custos no seu processo de valorização.

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Política Neoliberal e Sindicalismo no Brasil: Da Oposição à Participação

Sherry Max de Souza*

A partir de uma pesquisa bibliográfica sobre neoliberalismo e trabalhadores, percebeu-se, que as políticas neoliberais implantadas a partir dos anos 1990, no Brasil, têm causado impactos sobre a classe dos trabalhadores. Desde o indivíduo que presta serviço à empreiteira (trabalho terceirizado), ao servidor que perdeu seu emprego pela privatização das empresas estatais. Esses produtos do neoliberalismo legaram aos sindicatos um esvaziamento da perspectiva classista, o que se pode considerar segundo Alves (2000), um “defensivismo de novo tipo”. O sindicalismo tanto do setor público como do privado foram atingidos pelas medidas neoliberais. Medidas como abertura comercial, altas taxas juros e privatizações, tiveram suas conseqüências no mundo do trabalho. O sindicalismo brasileiro não foi capaz de dar resposta a essa nova ofensiva do capital, principalmente, a partir do governo Collor, cujo principal sintoma é a crise das estratégias políticas do “novo sindicalismo”. 1- Neoliberalismo e os trabalhadores no Brasil É sabido que, no interior das classes dominadas, constitui-se certa heterogeneidade, portanto, a classe trabalhadora se apresenta de forma fragmentada. Ela é composta por trabalhadores da rede privada e servidores públicos, e se encontra ainda mais fragmentada nos dias de hoje. Por isso, Antunes (1999) utiliza o conceito de classe-que-vive-do-trabalho. Esse conceito vai além do trabalhador produtivo, ao qual Marx designa o produtor direto de mais-valia (proletariado). A classe-que-vive-dotrabalho engloba os trabalhadores improdutivos, aqueles que cujas formas de trabalho
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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

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são utilizadas como serviço, seja para o uso público ou capitalista, e que não se constitui como elemento diretamente produtivo, como elemento vivo do processo de valorização do capital e da criação de mais-valia. São aqueles que, o produto de seu trabalho é consumido como valor de uso e não como valor de troca. Essa noção ampliada da classe trabalhadora inclui, então, todos aqueles e aquelas que vendem sua força de trabalho em troca de salário. A partir desse conceito percebe-se que a classe trabalhadora não se constitui como um bloco homogêneo, portanto, o neoliberalismo não os atinge por igual, o que fragmenta ainda mais a classe trabalhadora. O desemprego é outro parceiro do neoliberalismo que precisa ser combatido pelo trabalhador. Ele prejudica o trabalhador como indivíduo  que tem como propriedade apenas a sua força de trabalho  bem como suas formas de organizações. O alto nível de desemprego é intensificado pela modernização tecnológica da indústria, do setor de serviços e da agricultura, mas não se pode afirmar que o desemprego é causado apenas pelo avanço tecnológico, pois estaria negando o papel fundamental das políticas neoliberais nas altas taxas de desemprego. As medidas neoliberais adotadas no Brasil, após os anos 1990, elevou a taxa de desemprego que já crescia desde os anos 1980. Como afirma Boito Jr.:
A política de juros altos e de contenção de crescimento econômico, que os governos neoliberais herdaram e radicalizaram, a redução de tarifas aduaneiras, iniciada, timidamente no final da década de 1980 e ampliada sob os governos neoliberais, a sobrevalorização cambial, estabelecida pelo Plano Real em 1994, e a redução dos gastos públicos em serviços urbanos e sociais e em obras de infra-estrutura são os principais pontos da política econômica e social neoliberal que têm feito crescer o desemprego total e que o tem mantido em um nível muito elevado (1999, p.86).

Como as medidas econômicas neoliberais afetam a classe trabalhadora? A resposta a esta pergunta pode ser descrita se aproximarmos o nosso trabalho um pouco dos estudos econômicos. Vejamos algumas medidas detalhadamente:  Altas Taxas de juros: as elevações das taxas de juros têm como conseqüência a não constituição de novos investimentos, pois, os empresários, como se diria na linguagem popular, “ficam com um pé atrás” na hora de fazer algum investimento, devido ao fato de ficar muito caro o pagamento dos empréstimos. Quanto menos investimentos, menor será o crescimento econômico do país e menor a taxa de oferta de empregos. Enquanto isso, as empresas lá fora pagam taxas bem abaixo da taxa brasileira deixando, assim, as empresas brasileiras sem forças para competir em igualdade nos mercados; outro aspecto que relaciona taxa de juros e trabalhadores é a diminuição do consumo. O crediário que é um instrumento utilizado, principalmente, pela grande maioria dos consumidores no Brasil, a partir da alta dos juros torna-se um meio de aquisição de mercadorias mais caro. O que contribui para diminuir o consumo, e abarrotar os estoques das empresas que acabam dispensando os funcionários, pois não têm como vender suas mercadorias. Essa alta taxa de juros interessa apenas ao capital especulativo, que não é produtivo, portanto, não gera empregos, rendas e salários. “Quando o governo mantém os juros altos, eles se “instalam” aqui, quando não, eles se instalam em outra vizinhança” (LEAL, 2004, p. 35).  Privatizações: segundo os neoliberais, o Estado se encontra “endividado” e não consegue mais financiar o desenvolvimento e investir em setores estratégicos, como 36

siderurgia, telecomunicações, bancos, mineração, energia e saneamento básico. Então, a única esperança é a privatização, o que paralisa a criação de empregos no setor público. Segundo Boito Jr.(1999, p.106), apenas na privatização dos parques siderúrgicos brasileiros na, década de 1990, foram suprimidos mais de 90 mil empregos.  Abertura da economia ao mercado internacional: com a facilitação da entrada de produtos importados e com a política de juros altos, as empresas brasileiras não conseguem competir com empresas de fora, o que gera um crescimento na taxa de importação9 que tem como conseqüência menos produção e menos empregos. Apenas no ano de 1995, com a abertura comercial propiciada pelo Plano Real, a indústria brasileira deixou de criar 390 mil, novos empregos.10 Essas são apenas algumas das proezas que as políticas neoliberais acarretam a classe trabalhadora, existem outras, como a exploração do trabalho infantil que exclui milhões de trabalhadores adultos do mercado de trabalho e a política de redução do valor real das pensões e aposentadorias que obrigam os idosos a prosseguir trabalhando, no lugar dos trabalhadores jovens que permanecem desempregados. Assim como no governo Thatcher, na Inglaterra 11, o neoliberalismo no Brasil precarizou o mundo do trabalho o que atingiu as organizações representativas dos trabalhadores. O sindicalismo dos servidores públicos, que era a categoria em ascensão no sindicalismo cutista no final da, década de 1980, após a virada para os, anos 1990, observaram uma baixa no movimento da categoria. No final da década de 1980, especificamente em 1988, o número de greves do setor público era de 385, cerca de 39,17% do total de greves naquele ano. Os números da indústria apontam para 30,93% do total de greves. No primeiro semestre de 1989, o número de grevistas do setor público atingiu a marca de 6,17 milhões, superando o setor privado que detém a marca de 3,5 milhões12. Essa atuação dos trabalhadores do setor público foi fortemente reprimida por políticas como as privatizações e cortes de pessoal no setor federal. No setor privado, a política de desindustrialização, no ABC, e abertura da economia, facilitando assim a entrada de carros importados no país, com um discurso de que os carros fabricados no Brasil eram “carroças” (Collor), promoveram alto nível de desemprego, o que aumentou a pressão sobre os sindicatos que tem culminado no fenômeno da desindicalização. Segundo dados do Dieese, em 1999, no Brasil, apenas 17,7% do total de trabalhadores eram filiados a algum sindicato.13 A escala grevista dos anos de 1980 foi interrompida na década de 1990. Foram 557 greves, em 1992, 653, em 1993, 1034 greves, em 1994, 1056, em 1995, e, em 1996 no ano mais agitado da década sob esse aspecto, ocorreram 1258 greves que despencaram em 1997. Ano em que se observa um número de apenas 630,
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Alta taxa de importação gera um fenômeno que é o déficit na balança comercial, que vulgarmente falando, seria o número de importações superarem o de exportações, esse fenômeno pode ser causado também, pela política de sobrevalorização cambial. A valorização da moeda nacional foi destaque no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso com a implantação do Plano Real em 1994. 10 BOITO Jr., 1999, p. 86. 11 Na Inglaterra, a ofensiva a classe trabalhadora foi muito mais efetiva do que no Brasil, devido ao poder e a tradição do movimento sindical inglês (trade-unions), que obtiveram o direito a livre associação desde 1824, até então, esse direito só era legado as classes dominantes. Ver ANTUNES, Ricardo L. C. O que é sindicalismo? São Paulo. Brasiliense, 1980. O Partido trabalhista inglês (Labour Party) também, legitima esse poder da classe como representante dos sues interesses . Ver ANTUNES, Ricardo L. C. Os sentidos do trabalho – Ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo. Boitempo, 1999. 12 MASCARENHAS, Ângela Cristina Belém. Desafiando o Leviatã – Sindicalismo no Setor Público. Campinas. Alínea, 2000, p. 84. 13 Dados disponíveis em: http:< //www.dieese.org.br/anu/anuario2005.pdf > Acesso em: 2 de novembro 2008.

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que se tornou inexpressivo se compararmos com as quase 4000 paralisações que ocorreram em 198914. Para culminar no enfraquecimento das organizações representativas dos trabalhadores foi praticada uma política de arrocho ao trabalhador. No Brasil, entre 1990 e 1993, o número de empregados caiu de 40,1 para 39,4 milhões, a taxa de desemprego saltou de 3,7%, em 1990, para 4,8%, em 1995. O crescimento do desemprego foi acompanhado pela diminuição da atividade grevista. Em 1989, dez milhões de trabalhadores tinham participado de greves no Brasil. Em 1990, primeiro ano do governo Collor, o número de grevistas cresceu  foi de 12,4 milhões. No ano de 1991, esse número caiu para 8,8 milhões e despencou, em 1992, para 2,9 milhões. Os levantamentos do Dieese mostram que, no ano de 1993, o número de grevistas subiu para 3,5 milhões e, a partir daí, em 1994, 1995 e 1996, girou em torno de 2,5 milhões. Esse montante pode ser considerado importante para um período de dificuldades. Mas ele perfaz apenas um quinto dos grevistas do ano de 1980.15 No campo das leis trabalhistas, num primeiro momento, os governos neoliberais não obtiveram êxito na flexibilização das mesmas. A principal medida foi à desindexação dos salários. Ela foi imposta por Collor, revogada pelo governo de Itamar e reimplantada por Fernando Henrique Cardoso, em julho de 1995. Tivemos ainda, o Decreto nº. 2.100/96, que revogou a aplicação da Convenção 158 da OIT 16 no Brasil, facilitando a prática de demissão sumária de trabalhadores; a Portaria nº. 865/95 do Ministério do Trabalho que impediu a atuação, pelos fiscais do trabalho, de empregadores que desrespeitassem os direitos estabelecidos em convenções e acordos coletivos; em 1998, a Lei que instituiu o novo modelo de contrato de trabalho por prazo determinado (com redução do FGTS pelo prazo de dois anos); e em 2001, a Medida Provisória que criou o “banco de horas” e o contrato de trabalho em tempo parcial (este reduziu o direto a férias). Essas medidas foram acompanhadas de uma série propostas de lei, que estão tramitando na Câmara e no Senado até os dias de hoje. Vejam algumas: Projeto de Lei que visa alterar o artigo 618 da CLT para fazer com que o “acordado” prevalecesse sobre o “legislado”; Projeto de Lei Complementar (123/04 na Câmara e 100/06 no Senado) que trata da Lei Geral da Pequena e Micro Empresas com o objetivo de permitir a negociação da proteção legal via fiscalização.17 Como na legalidade várias medidas malograram, então partiram para a ilegalidade. Os governos neoliberais toleraram e incentivaram as práticas ilegais de desregulamentação do mercado de trabalho e utilizaram como método o sucateamento das delegacias de trabalho bem como defasagem no número de fiscais.
Na década de 1990, os governos neoliberais estimularam os empregadores a contratar trabalhadores sem carteira assinada, ao permitirem a piora da historicamente, precária fiscalização das Delegacias Regionais do Trabalho
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MATTOS, Marcelo Badaró. Reforma sindical do governo Lula: enterrando com honras de Estado o novo sindicalismo. In: Antítese – marxismo e cultura socialista. Nº1. Goiânia, 2005, p. 109-135. 15 Ver dados em: BOITO Jr., 1999, p. 86-98. 16 A Organização Internacional do Trabalho (OIT) é uma agência multilateral ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), especializada nas questões do trabalho. Tem representação paritária de governos dos 180 Estados-Membros e de organizações de empregadores e de trabalhadores. Com sede em Genebra, Suíça desde a data da fundação, a OIT tem uma rede de escritórios em todos os continentes. O seu orçamento regular provém de contribuições dos seus Estados Membros, que é suplementado por contribuições de países industrializados para programas e projetos especiais específicos. Conheça a OIT. Disponível em: < http://www.oitbrasil.org.br/ > Acessado em: 30 de outubro 2008. 17 JORGE, Rosa Maria Campos. Mudanças no mundo do trabalho. In: Caderno de Estudos – Seminário: Organizar a luta contra as reformas neoliberais. CONLUTAS, 2006, p. 9-13.

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e ao estigmatizarem os direitos sociais e a legislação trabalhista. O presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a aconselhar publicamente os industriais de São Paulo a desrespeitarem as normas protetoras do trabalho, fazendo declaração pública de apoio a um acordo dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Paulo com uma empresa de sua base, no qual ficava estabelecido um contrato de trabalho por tempo indeterminado. Tal acordo foi invalidado pela justiça do trabalho. Foi o fracasso nesse caso, da via legal que levou o governo FHC a elaborar o projeto de lei estabelecendo contrato de trabalho por tempo determinado, uma das suas iniciativas mais importantes na desregulamentação das relações de trabalho (BOITO, 1999, p. 94).

A política de desregulamentação do mercado vai implementar uma nova estatística no interior da classe trabalhadora. A estrutura da informalidade, que já era elevada, na década de 1980, desenvolveu-se mais ainda. Em 1990, havia 14 milhões de trabalhadores efetivados no mercado informal, 4,9 milhões de trabalhadores não remunerados e 13,8 milhões de trabalhadores empregados sem carteira de trabalho assinada. Em 1995, esses números tinham se elevado, respectivamente, de 15,7, para 6,9 e para 15,5 milhões de trabalhadores, e, ainda no mesmo período, o número de trabalhadores com carteira assinada caiu de 23,5 para 20,6 milhões.18 Um número que se acrescenta a informalidade é a exploração do trabalho de crianças e adolescentes. Em 1993, estavam no mercado de trabalho mais de 600 mil crianças entre cinco e nove anos de idade, 3,9 milhões de crianças e adolescentes entre dez e quatorze anos e cinco milhões de adolescente entre quinze e dezessete anos. Um total de 9,5 milhões de crianças e adolescentes trabalhando.19 Sem falar no número de casos de trabalho e de pessoas escravizadas. Segundo dados do Dieese, o número de casos de trabalho escravo cresceu de 17, em 1997, para 147, em 2002, e o número de pessoas escravizadas nesse mesmo período cresceu de 872 para 5.559.20 O neoliberalismo, como afirma seus ideólogos, realmente adota uma política de geração de empregos, se considerarmos o que foi apontado acima. O neoliberalismo, com sua política de desemprego e fragmentação da classe trabalhadora, consegue minar a base de suas verdadeiras organizações representativas da classe e nomeia novos representantes, como as ONGs, que são entidades totalmente desvinculadas a classe, e que na maioria das vezes são financiadas por organizações empresariais, políticas e religiosas dos países imperialistas. Nessa perspectiva de novas formas representativas da classe trabalhadora o neoliberalismo, para não ser antidemocrático, criou meios de neutralizar os movimentos sindicais, promovendo organizações mais fragmentadas como o sindicalismo neocorporativista que segundo Boito Jr.(1999, p. 171), através desse modelo o neoliberalismo logra manter a ação reinvidicativa dos trabalhadores dentro de limites compatíveis com a hegemonia neoliberal. Em primeiro lugar os valores capitalistas de mercado (lucratividade, produtividade, “qualidade”, eficiência), portanto esse novo sindicalismo está vinculado à desvalorização da luta, do embate capital e trabalho. Neste sentido, prioriza-se o que é melhor para o rendimento da empresa (empresário), o trabalhador fica para um segundo plano. Esse tipo de sindicato fragmenta ainda mais a classe, pois, é composto por setores (sindicalismo por empresa), ou seja, numa mesma empresa ou órgão estatal podem coexistir vários sindicatos, ex. um da área administrativa, outro da
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Ver dados em: BOITO Jr., 1999, p. 94-95. Ibid., p. 95. 20 Dados do Dieese, disponível em: < http://www.dieese.org.br/anu/anuario2005.pdf > Acessado em: 5 de outubro, 2008.

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produção, etc. Parte-se do pressuposto que esse modelo enfraquece o poder de barganha dos sindicatos, que ficam fragilizados e o ganho de um setor não representa o ganho do outro. Na relação capital e trabalho no Brasil, pode-se admitir que o neoliberalismo obteve êxito. Na CUT, assim como no Partido dos Trabalhadores (PT) observa-se uma mudança de perspectiva política. Nos anos 80, essas instituições foram caracterizadas por uma postura classista, enraizada na base popular, e no caso da CUT praticava-se uma negação a estrutura sindical oficial (que instalou desde a era Vargas). Na década de 90, tanto o partido como a central promoveram uma política de conformação com as práticas neoliberais (BOITO Jr., 1999; TUMOLO, 2002; ALVES, 2000; SOARES, 2005). Dentro dessa nova perspectiva da representação da classe trabalhadora, no próximo tópico analisar-se-á, a relação do neoliberalismo com as essas representações coletivas especificamente, o movimento sindical cutista nos anos de 1990. 2- A trajetória política da CUT: do sindicalismo de oposição ao sindicalismo de participação As mudanças por quais passou o mundo do trabalho têm refletido, diretamente, nas organizações representativas da classe trabalhadora. Sem conseguir dar uma resposta imediata à ofensiva do capital ao mundo do trabalho os sindicatos assumiram uma posição defensiva diante dessa nova configuração. Essas mudanças se deram pela reestruturação produtiva iniciada a partir da crise de acumulação na década de 1970, que tem como momento predominante o modelo japonês conhecido como Toyotismo. Esse modelo inseriu novos métodos de controle e gestão da produção (CCQ´s; kanban; just-in-time; kaizen, etc.), cooptando e capturando não só a objetividade como também, subjetividade do trabalhador. No âmbito político diante do novo “bloco histórico” instaurado pela era neoliberal observou-se uma maior fragmentação da “classe-que-vive-do-trabalho”, devido entre vários fatores que resultaram desse processo de implantação das medidas neoliberais: o desenvolvimento do desemprego em massa e a incapacidade dos próprios sindicatos de “arrebanhar” esse novo trabalhador, pois, uma grande parcela desses trabalhadores se encontra na chamada economia informal, terceirizados e até mesmo desempregados. Enfim, as “novas relações de trabalho” têm um aspecto contraditório da luta de classes no país21. Esse cenário configura-se, nos anos de 1970, na Europa e ganha o mundo. No Brasil, essa lógica destrutiva do capital ao mundo do trabalho se efetiva a partir dos anos 1990, com a década neoliberal22. Antes disso, o mundo do trabalho no país andou na contra-mão do cenário mundial, os diversos enfoques sobre o sindicalismo brasileiro, nos anos 1980, admitem que o sindicalismo em nosso país caminhou em direção contrária a do sindicalismo nos países capitalistas desenvolvidos, e mesmo nos demais
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Para Alves, as novas relações de trabalho como por exemplo as “comissões de fábricas” que foram à marca do “novo sindicalismo” possuem um sentido ambivalente, ou seja, contraditório: por um lado, representava uma conquista operária, capaz de dar suporte à consciência de classe; por outro, representava uma nova etapa do capital, ciente do poder integrador da negociação coletiva e da necessidade de uma classe operária participativa, tal como exigiam os novos paradigmas industriais vigentes no mundo capitalista desenvolvido. Ver ALVES, Giovanni. O novo (e precário) mundo do trabalho – reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São Paulo. Boitempo, 2000. 22 Vamos chamar de década neoliberal os breves governos de Fernando Collor e Itamar Franco, e os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

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países capitalistas latino-americanos (ex. Argentina). Portanto, num período em que se observa o revigoramento do capital com um forte arrocho a classe trabalhadora em âmbito mundial, no Brasil, as organizações representativas dos trabalhadores recomeçavam a ter seu reconhecimento na política nacional, sendo compreendido como um ator coletivo de grande influência na conjuntura política, econômica e social. Segundo Misailidis (2001, p. 68), no processo de elaboração da Constituição em 1988, o movimento sindical foi determinante, o que resultou avanços na estrutura dos sindicatos. Assim, constata-se, segundo a autora, de maneira insofismável, a inserção de princípios que garantem a liberdade sindical, não desconsiderando que no modelo de estrutura sindical pós-constituição de 1988 restou resquícios que garantiram a intervenção do Estado. Rodrigues (1992, p. 89) destaca ainda que:
Aqui, o fato marcante foi o aparecimento do que poderíamos chamar de movimento sindical, entendido como a capacidade das lideranças sindicais de intervir no sistema político e, ainda que de modo limitado, influenciar o sistema decisório em suas instâncias executivas, legislativas e judiciárias.

Os anos 1980 caracterizaram-se por greves e ascensão de organizações de trabalhadores numa perspectiva de unidade e luta contra os patrões, jamais vista na história do país. Esta ascensão culminou com o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT), seguido da principal central sindical do país a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Temos ainda, as duas CGT’s e, em 1991, a Força Sindical (FS), que independente de suas posições político-ideológicas contribuiu para criar um cenário inverso ao contexto mundial. 2.1- A (re)organização do movimento sindical Há quase trinta anos viveu-se o que a grande maioria dos estudiosos chamou de ascensão do movimento sindical brasileiro. Ao contrário de hoje em que esses mesmos autores caracterizam como crise o momento pelo qual passa o movimento sindical no nosso país (ALVES, 2000; BOITO Jr., 1999; ANTUNES, 1999; SOARES, 1996; TUMOLO, 2002). Uma data marcante para o movimento sindical brasileiro seria Maio de 1978, especificamente, na região do ABC paulista. A partir desta data e local “ressurge” o movimento sindical brasileiro que tornaria mais clara a relação capital x trabalho no Brasil. A rica história do movimento sindical no país remonta à segunda metade do século XIX  a primeira greve dos gráficos, data de 1858 , acompanhando o processo de industrialização no Brasil. Na virada do século, desenvolveu-se os “embriões” de sindicato, o que desembocou na criação das primeiras centrais sindicais, desde a Confederação Operária Brasileira (COB), criada em 1906, sob hegemonia dos anarco-sindicalistas até o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) de 1962, com o Partido Comunista.23 Na segunda metade do século XX, o movimento sindical já “organizado” opôs-se, a superexploração da força de trabalho  que foi um dos pilares que caracterizou o padrão de acumulação capitalista no período que podemos chamar de “bonapartismo militar”, instalado no país a partir de 1964 , essa classe operária que representava o principal pólo industrial do país insurge-se contra o arrocho salarial o que atinge de forma fulminante a lógica de acumulação capitalista no Brasil.
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Sobre a história do movimento operário no Brasil ver REZENDE, A. P. História do movimento operário no Brasil. São Paulo. Ática, 1986.

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2.1.1- A gênese da CUT Em agosto de 1981, realiza-se em Praia Grande a 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (CONCLAT). Apesar das profundas divergências das tendências militantes do sindicalismo, sua participação foi expressiva, comparecendo a Conferência 5.247 delegados que representavam 1.126 entidades de classe.24 Estavam reunidos nessa Conferência (marxistas, lenistas, trotskistas, esquerda católica, além de militantes ligados aos dois partidos comunistas, PCB e PC do B, e ao MR-8) independentemente, de estarem segregados devido às várias vertentes politico-ideológicas, no interior da conferência existia algo em comum que unia essas facções que se convergiam nas seguintes reivindicações: estabilidade no emprego; redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem perdas salariais; reforma da Consolidação das Leis do Trabalho; direito de greve e sindicalização dos funcionários públicos; liberdade de organização partidária; convocação de uma Assembléia Constituinte; reforma agrária; autonomia dos sindicatos diante do Ministério do Trabalho. Nesse período vivia-se um regime militar que apesar de estar se esgotando abolia todo tipo de manifestação por parte da classe trabalhadora o que contribuiu para aumentar o apoio aos sindicatos. A repressão às manifestações dos trabalhadores por parte do governo militar representou uma ganho para os sindicatos, pois, a partir das efetivas repressões por parte do governo, os sindicatos passaram a contar com o apoio de vários setores da sociedade civil, entre eles a Pastoral Operária do ABC e do MDB, que era o partido político de oposição ao regime. Com o fim do regime militar  período marcado pela “redemocratização” do país, temos, então, como resultado da contestação da classe trabalhadora novas organizações que representam os interesses da classe, e que, no decorrer dos anos, principalmente, nos anos de 1990, começaram a mudar suas posturas de atuação política (PT e CUT) que se caracterizavam por uma postura classista, enraizada na base, no caso da central, de negação da estrutura sindical oficial25 para uma política de negociações com os governos neoliberais uma postura de cariz neocorporativo e de participação (ALVES, 2000; RAMALHO, 2007), o que uma extensa bibliografia designou chamar essa descontinuidade de: “contestação á conformação”, ”cooperação conflitiva” “resistência á concertação”, “sindicalismo de participação”, “sindicalismo propositivo”, etc. Segundo Alves, essa nova postura política seria
caracterizada pela mudança do padrão de ação sindical da CUT (Central Única dos Trabalhadores), que tenderia a privilegiar não mais a confrontação, tal como ocorreu no decorrer dos anos 80, mas tenderia a destacar a negociação ou a “cooperação conflitiva”: De uma atuação mais confrontacionista evolui-se para uma atividade que poderíamos chamar de cooperação conflitiva, em que o conflito é explicitado mas, ainda assim, há uma preocupação com a cooperação. Teríamos o predomínio de um sindicalismo caracterizado por “novo corporativismo de participação”: Essa transformação político-ideológica do novo sindicalismo pode ser sinteticamente caracterizada como a transição de um sindicalismo de ‘massa
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MISAILIDIS, Mirta Lerena de. 2001, p. 72. Para uma análise do modelo oficial de sindicato no Brasil ver MATTOS, Marcelo Badaró. Reforma sindical do governo Lula: enterrando com honras de Estado o novo sindicalismo. In: Antítese: marxismo e cultura socialista. Goiânia, nº 01, outubro de 2005, p. 106-135.
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e confronto’ para um sindicalismo marcado pelo neocorporativismo (2005, p. 48).

Concordando com a passagem destacada acima e analisando a trajetória da CUT, observa-se que a central parte de uma política de confronto à exploração do trabalhador e afirmação da luta de classes nos anos 80, para uma posição de participação e negociação no cenário político nacional (anos 90). 2.2- A fundação da CUT
“Está colocada, na ordem do dia, a formação da Centra Única dos Trabalhadores. As diversas correntes que existem hoje no movimento sindical e popular brasileiro, começam agora a apresentar publicamente suas propostas de fundação (ou construção) da CUT.” “Uma parte dessas correntes situa-se no chamado “bloco pelegoreformista”, outra parte situa-se no chamado bloco combativo” 26

Analisando a passagem do documento em que ressalta a função da CUT, descrito no início deste enunciado. Sem uma observação detalhada, detecta-se um conflito no interior do movimento sindical do período, pois temos: “o bloco pelego”, o “bloco reformista”, o “bloco combativo” e a união entre pelego e reformista formando o bloco “pelego-reformista”. O “bloco pelego” visava manter a burocracia sindical através da qual se exerce o controle patronal sobre a organização dos trabalhadores, impedindo o desdobramento da luta de classes para o campo político. “Atuando nesse intuito, com o objetivo de manter a atual estrutura sindical atrelada ao Estado, o “bloco pelego” toma como referencial a existência das próprias burocracias sindicais, autorizadas não pelo movimento, mas pela legislação em vigor.”27 O “bloco reformista” temia que a luta dos trabalhadores ultrapassasse os limites da legalidade vigente, rompendo com a prática de atrelamento sindical ao Estado, impossibilitando o projeto de aliança dos reformistas com a classe burguesa, o que inviabilizaria a formação das tão desejadas “frentes democráticas”. A união “pelego-reformista” se concentra na tática de construir uma “nova” estrutura a partir da velha, gradualmente, sem rupturas. A fim de tomar a direção política desse processo, a partir da união pelego-reformista constitui-se uma entidade chamada “Unidade Sindical”. Em contraposição ao primeiro projeto apresentado surgiu o “bloco combativo”. O “bloco combativo”, após vários ensaios de articulação com vistas ao combate a estrutura sindical vigente, agrupou-se na ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais). Portanto, a disputa entre os blocos se dava, entre outros fatores de origem ideológica, na questão de rompimento ou não com a estrutura sindical atrelada ao Estado:
É precisamente desse ponto de vista, do ponto de vista da luta contra a atual estrutura sindical  ou seja: da luta pela organização livre e independente dos trabalhadores  que o bloco combativo quer tratar o problema da construção da CUT. 28

26 27

A CONSTRUÇÃO DA CUT. In: Revista Brasil Revolucionário, 1983, p.43-50 Ibid., p. 44. 28 Ibid., p. 48.

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Nesse contexto de atritos político-ideológicos em que se encontrava o movimento sindical, a primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora  CONCLAT (1981)  foi caracterizada por esse conflito dos “blocos” que se formaram no interior do recém surgido movimento sindical. Segundo Misailidis (2001, p. 86), nesta conferência a tese da pluralidade sindical foi rejeitada e chegou-se a eleger uma Comissão Nacional pró-Central Única dos Trabalhadores (CUT), por meio de uma chapa única formada por 56 sindicalistas urbanos e rurais, representando todas as tendências. A finalidade dessa comissão era organizar no ano seguinte, em 1982, um novo congresso para a formação de uma central única dos trabalhadores. Entretanto, devido aos conflitos internos da comissão, a realização do congresso previsto para o ano seguinte não se efetivou, provocando a cisão do CONCLAT e, conseqüentemente, a divisão do sindicalismo brasileiro que com já foi apresentado é caracterizado por vários conflitos político-ideológicos. Um ano depois, em 1983, ocorreu então a CONCLAT, que se realizou sem a participação da ala moderada dos sindicalistas da “Unidade Sindical”. Desse evento, participaram apenas os chamados “combativos”  militantes das oposições sindicais, da esquerda católica (ligados à teologia da libertação) e dos pequenos grupos de orientação marxista, leninista e trotskistas. Nele reuniram-se 5.059 delegados que representavam 912 entidades, sendo 483 do setor público.29 Desse encontro, culminou a criação da CUT, tido como marco histórico do sindicalismo brasileiro nos anos 1980, sendo ela considerada hoje “a mais poderosa em número de entidades a ela filiadas e em capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores” (Rodrigues, 1990, p. 53). Na cerimônia de fundação da CUT (CONCLAT, 1983), foram aprovadas as seguintes reivindicações, entre as quais muitas delas são de natureza política: reforma agrária radical sob controle dos trabalhadores, a partir da demarcação do uso coletivo da terra; não pagamento da dívida externa; rejeição das privatizações das estatais; eleições diretas para Presidência da República; direito irrestrito de greve; liberdade e autonomia sindical; formação da Central Única dos Trabalhadores e seu reconhecimento como órgão máximo de representação dos mesmos; e, ainda, a formação das comissões permanentes por local de trabalho, entendidas como canais de transmissão das decisões das assembléias sindicais e de integração dos trabalhadores da empresa na luta dos mesmos. Nasceu então o “novo sindicalismo” que surgiu da negação a estrutura sindical vigente. Diga-se de passagem, os sindicalistas que não participaram desse encontro (ala moderada) realizaram um outro congresso, no mesmo ano, com o mesmo nome (CONCLAT). Após três anos, em 1986, realizaram outro congresso que resultou na criação da Central Geral dos Trabalhadores (CGT) que, em 1989, devido a sua constituição heterônima desenvolveu um racha interno que se desdobraria em duas CGT’s  Central Geral dos Trabalhadores e Conferência Geral do Trabalho. 2.3- A CUT e a década neoliberal A posse de Fernando Collor de Mello na Presidência da República, trazendo consigo o plantel neoliberal, resultou na mudança da estratégia da CUT. Segundo Boito Jr.(1999, p.141), o marco inicial dessa mudança foi a IV Plenária Nacional da CUT, realizada em agosto de 1990, na cidade de Belo Horizonte. O mesmo afirma que, nessa plenária, a direção da CUT lançou e fez aprovar a idéia de um
29

Misailidis, Mirta Lerena de. 2001, p.73-75.

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“sindicalismo propositivo”, que seria uma opção ao “sindicalismo defensivo” dos anos 1980. De acordo com essa proposta, a central deveria ir além dessa postura exclusivamente reivindicativa e de valorização excessiva da ação grevista, que teria predominado nos anos 1980, passando a elaborar propostas de políticas a serem apresentadas e negociadas em fóruns que reunissem os sindicalistas, representantes do governo e o empresariado (fórum tripartite). Essa mudança, se efetiva no IV Congresso da CUT (Concut) realizado em São Paulo, em setembro de 1991. Esse foi um congresso marcado pelo ápice do acirramento da luta político-ideológica na direção do sindicalismo brasileiro entre socialistas revolucionários e social-democratas Antunes (1991, p. 82). Esse conflito se deu entre a Articulação Sindical (ala majoritária) e as correntes de esquerda (minoritárias). Nesse congresso foi discutido o modelo organizativo da CUT e vence a proposta da CUT-organização e não CUT-movimento. Com a ala CUT-organização “inicia-se a implantação de uma estrutura verticalizada, administrativa, enfim, como uma organização complexa e burocrática” (TUMOLO, 2002, p.115). Portanto, observase na CUT dos anos 1990 a inserção de uma administração verticalizada, negando a base, o que contribuiu para as negociações futuras com governos neoliberais. Tentativas de negociações com os governos foi uma prática comum no sindicalismo cutista. No entanto, verificou-se, a partir dos anos 1990, uma postura diferenciada nessas negociações. Boito Jr.(1999, p.144), afirma que:
Meneguelli (hoje diretor da FIESP) 30, em encontros com o governo Sarney, protocolou a plataforma em torno do que se queria negociar: reajuste automático de acordo com a inflação, redução da jornada de trabalho, salário-desemprego, congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade, salário mínimo do Dieese, reforma agrária e não pagamento da dívida externa. Desse modo, a intervenção da CUT funcionava mais como uma denúncia da política econômica do que uma busca efetiva de acordo.

Em 1990, a direção da CUT voltou à mesa de negociações, agora numa outra perspectiva. A CUT exigia apenas reposição das perdas salariais 31. Mais do que incorporação de valores neoliberais, a tendência majoritária na CUT passa a adaptar-se a institucionalidade sindical vigente no país, incorporando a sua inércia estrutural, que, sob o novo complexo de reestruturação produtiva, tenderia a disseminar, como excreção ideológica, um novo tipo de “egoísmo de fração”, ou seja, o neocorporativismo setorial.32 As greves do final dos anos 1970 e nos anos 1980 vão refletir nos anos 1990 essa perspectiva neocorporativista do sindicalismo cutista. Segundo Mascarenhas (2000, p. 74), entre 1978 e 1988 ocorreram um total de 4.247 greves no Brasil. Para observarmos o fenômeno neocorporativista, deveremos fazer uma análise qualitativa das greves, ou seja, a forma de ser das paralisações, o que refletiria, de certo modo, a mutação das estratégias sindicais no país.
30

DORTA, Édson. Jair Meneguelli, de presidente da CUT a diretor da FIESP. CMI, 2004. Disponível em: <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/03/275631.shtml> Acessado em: 30 de outubro, 2008. 31 Ver Pacto social, de Collor a Itamar. Centro de Pesquisa Vergueiro. Disponível em: <http://www.cpvsp.org.br/portal/acervo/documentos/> Acessado em: 2 de novembro, 2008. 32 Sobre essa tendência neocorporativista do sindicalismo brasileiro ver SOARES, José de Lima. Para onde vai o mundo do trabalho? Crise e perspectiva do movimento sindical. In: SOARES, José de Lima. A ofensiva neoliberal, reestruturação produtiva e luta de classes. Brasília, 1996.

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As greves assumiram várias modalidades , ou ainda, formas de ser  greves por empresa, greves gerais por categoria, greve geral, greves com ocupação de fábricas. No entanto, o que relaciona greve com práticas neocorporativistas refere-se às greves por empresa em oposição às greves gerais por categoria. A partir de 1980, afirma Antunes (1991, p. 85), aumentou o número de paralisações por empresas, chegando a representar 75,5% do total de greves desencadeadas, em 1984, e 60,8%, em 1985. Essa tendência do “sindicalismo de resultado” caracterizou o sindicalismo da Força Sindical (central concorrente da CUT). No interior da própria CUT, sob a era neoliberal, “desdobrar-se-ia uma tendência similar, de cariz neocorporativo, com o sindicalismo de participação, que privilegia a estratégias propositivas; um novo sindicalismo, cada vez mais defensivo, disposto a incluir, em sua pauta de resistência, a parceria com o capital” (ALVES, 2000. p.291). Nos anos 90, as greves gerais de protesto e as campanhas contra a política econômica do governo cederam lugar as diversas tentativas de acordo com os governos de Collor, Itamar e FHC. Na década de 90, tivemos apenas duas greves gerais, uma em 1991, outra em 1996. E ainda, Boito Jr.(1999, p.145) afirma que essas duas greves tiveram baixa participação de trabalhadores devido à discordância de importantes parcelas de sindicatos como as direções dos sindicatos do ABC na greve de 1991. 2.4- Sindicalismo no setor Público Enquanto uma parcela do sindicalismo cutista dava sinal de esgotamento e mudança de postura, uma outra, que surgia devido ao crescimento do sindicalismo de classe média nos anos 80, vai resultar, segundo Boito Jr.(1991, p. 43), na inclusão no sistema sindical de Estado de um dos setores mais numerosos e ativos da classe trabalhadora: o funcionalismo público. Excluídos até então, o sindicalismo no setor público organizavase por meio de associações que tinham um caráter cultural e de ajuda mútua, porém, a partir da década de 80, transformou-se em movimento reivindicatório e combativo. Nessa perspectiva, destaca Boito Jr.(1991, p. 64): “Os servidores públicos passaram a desempenhar na conjuntura dos anos 80 um papel semelhante ao daquele desempenhado pelas Ligas Camponesas nos anos 60, no que respeita a estrutura sindical.” Nesse sentido, provaram que era possível organizar os trabalhadores sem a presença do Estado e, ao mesmo tempo, conquistar a representatividade sem o reconhecimento oficial do Ministério do Trabalho. Portanto, se existiu um “novo sindicalismo” nos anos 1980, que negou a estrutura sindical do Estado e se constituiu fora dela, pode-se afirmar que foi o sindicalismo no setor público. O autor ainda destaca que esse setor “sustenta-se sem o recolhimento de contribuições sindicais compulsórias e consegue forçar o patronato a negociar sem a muleta da data-base e da medição da Justiça do Trabalho” (BOITO, 1991, p. 65). Analisando os movimentos grevistas do período podemos observar que a maioria das greves se desenvolveu dentro do funcionalismo público e fora da estrutura sindical oficial, ou seja, fora do sindicato, legalmente, reconhecido pelo Estado. Os funcionários públicos, que até então não marcavam presença nas manifestações de trabalhadores finalizaram, a década de oitenta como a categoria que mais greves realizou. Dentre os trabalhadores industriais, os metalúrgicos, devido, entre outros fatores sua forte representação e organização sindical, foram responsáveis por 34,8% de todas as greves realizadas de 1978 a 1986 e por 71% daquelas organizadas no setor industrial. Os funcionários públicos vão se destacar entre os assalariados de “classe média” como responsáveis por 72% das greves executadas no setor. Em 1988, 46

estatísticas apontam que dois terços dos grevistas eram funcionários do setor público. Nesse mesmo ano, o número de grevistas do setor público superou o do setor privado atingindo um número de 6.163.690 de grevistas contra 3.542.330 do setor privado.33 A partir da eleição de Collor, inaugurou-se uma política de desindustrialização, ao ponto de abrir o país para a entrada de carros importados. Neste contexto, ocorreu uma ofensiva em direção ao funcionalismo público. De acordo com Castro e Carvalho (2002, p.123), Collor em seu governo abarcou tanto medidas de estabilização monetária quanto ações que disseram respeito à regulamentação da economia, “privatização de empresas estatais, venda de imóveis da União, reforma administrativa, extinção de órgãos federais e um Plano Nacional de Desestatização, entre outras.” A corrente majoritária da CUT assumiu uma posição abertamente contrária a política neoliberal. Segundo Boito Jr.(1999, p.175), “no movimento sindical dos servidores públicos, a Articulação Sindical assumiu a luta contra a reforma administrativa e da previdência.” No entanto, em nota a imprensa, o então presidente da ANASPS (Associação Nacional dos Servidores da Previdência Social), Alexandre Barreto Lisboa , afirmou que a Reforma de Estado promovida por Collor, que fundiu e extinguiu órgãos públicos sob pretexto de reduzir o tamanho da máquina e de enxugar o Estado, produziu 46.196 aposentadorias, recorde jamais igualado em um ano, além de colocar quase duas dezenas de milhares em disponibilidade. Já Fernando Henrique Cardoso, que teve mais tempo para promover e intensificar medidas neoliberais, obteve mais êxitos (nas reformas as quais se propôs). Segundo levantamentos da ANASPS, em oito anos de governo FHC, em função da lª. Reforma da Previdência que promoveu com o objetivo de acabar com as conquistas constitucionais e os direitos sociais dos servidores, nada menos do que 152.235 servidores se aposentaram.34 Na primeira fase das privatizações (1990-1994) foram privatizadas, cerca de 33 empresas.35 Essa luta se mostra contraditória com o “sindicalismo propositivo” dos anos 90, no interior da CUT. No entanto, os números mostraram que a posição da categoria em ralação ao governo não representou barganha para a mesma, pois, as reformas como foi descrito acabaram por eliminar os postos de trabalho de grande parcela da categoria.

2.5- As câmaras setoriais A CUT começou a se efetivar no modelo “neocoporativista” a partir do momento que seus dirigentes observaram a possibilidade de os trabalhadores se aproveitarem das contradições e disputas no interior do bloco no poder,36 aliando os interesses da
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Fonte: NEPP/Unicamp. Apud, MASCARENHAS, Ângela Cristina Belém. Desafiando o Leviatã – Sindicalismo no Setor Público. Campinas. Alínea, 2000, p.60-61. 34 Ver Imprensa ANASPS. A política de desmanche do Estado brasileiro levou 250 mil servidores a se aposentar entre 1991 e 2003. Disponível em: <http://www.anasps.org.br/index.asp?id=976&categoria=29&subcategoria=50> Acessado em: 15 de novembro, 2008. 35 Ver SILVA, Eduardo Fernandez. Nota sobre as privatizações no Brasil para informar missão de parlamentos sulafricanos. Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/internet/publicacoes/estnottec/tema10/2005_10641.pdf> Acessado em: 20 de novembro, 2008. 36 As políticas neoliberais acirraram as disputas no interior do bloco no poder, pois esta política beneficia, principalmente, a burguesia financeira e contraposição à burguesia estatal e industrial nacional.

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burguesia industrial aos seus para dessa forma obter força na luta contra o desemprego. A CUT tentou explorar essa contradição para obter benefícios. O caminho escolhido foram os fóruns tripartites que se efetivaram a partir das câmaras setoriais. Esses fóruns reuniram representantes do governo, empresários e sindicatos de trabalhadores de determinado setor econômico que se via ameaçado pela política de abertura comercial. Essa nova política da CUT não conseguiu barrar o crescimento do desemprego e a desindustrialização da era neoliberal e, ainda, colocou a CUT a reboque dos interesses das montadoras de veículos (ALVES, 2000, p.112). Segundo dados do Sindicato das Indústrias de Autopeças (Sindipeças), só nesse setor, entre 1991 e 1996, o número de empregados caiu de 255.600, para 190.000.37 De acordo com Boito Jr. (1999, p. 164), no caso da câmara do setor automotivo, “o governo Itamar, através do ministro da Fazenda Ciro Gomes, proibiu, em outubro de 1994, o reajuste de salários, que era um dos pontos mais importantes do acordo para os operários, dando início a desativação daquela câmara.” As montadoras, por sua vez, no curto período de três anos em que a câmara funcionou, entre 1992 e 1994, aumentaram seu funcionamento em mais de 50% e reduziram sua participação no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de 2,0% para 1,1%. Após terem obtido redução do IPI, facilidades creditícias para venda de veículos e aumentado enormemente seu faturamento, as montadoras não viram nenhum mal no fim da câmara setorial. No que refere as câmaras e seus acordos, Andréia Galvão destaca:
Em São Bernardo do Campo o contingente de trabalhadores empregados pelas montadoras diminuiu ao longo dos anos de vigências dos acordos da câmara setorial. Em 1991, elas empregavam 53.916 trabalhadores. Esse número foi caindo de maneira regular e, em 1994, atingiu a casa dos 48.727 trabalhadores. A despeito do grande aumento da produção, foram suprimidos mais de cinco mil postos de trabalho (GALVÃO, 1996, p. 112).

Entre março de 1990 e maio de 1995, os salários caíram muito para a maioria dos metalúrgicos do ABC  entre 5 e 41%, dependendo do setor considerado. No setor de autopeças a queda foi pequena, de 3,6%, enquanto o operariado das montadoras teve uma melhora significante de 0,3%. Verifica-se uma piora geral, porém, hierarquizada: o operariado das montadoras perde menos que o restante da sua categoria legal.38 Galvão (1996, p. 113) conclui, ainda, que os objetivos declarados do acordo da câmara do setor automotivo “que mais interessavam aos trabalhadores (aumentar 4 mil postos de trabalho nas montadoras e 90 mil em toda cadeia e recuperar os salários com aumento real de 20% entre abril de 1993 e abril de 1995) não foram cumpridos.” Os objetivos que interessavam diretamente ao patronato, por sua vez, foram largamente ultrapassados. De 1991 a 1995, a produção de veículos no Brasil, considerando todas as montadoras do país, cresceu 70,33%, saltando de 960.219 unidades para 1.635.541. A produtividade passou de 8,8 unidades por trabalhador em 1991, para 14,8 em 1994. O faturamento das montadoras saltou de 12 para 19 bilhões de dólares. As montadoras foram as grandes beneficiárias da câmara setorial.39 No caso da câmara tripartite o que Tumolu (2002) considera como “movimento policlassita”, não existiu luta contra a
37

Fonte: Sindipeças, apud ALVES, 2000, p.228.

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GALVÃO, Andréia. Participação e fragmentação: a prática sindical dos metalúrgicos do ABC nos anos 90. 1996. 223 f. (Dissertação de Mestrado), Unicamp. Campinas, 1996. 39 Dados da Anfavea publicados na revista Veja, edição de novembro de 1994, Apud Boito Jr., 1999, p.167.

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desindustrialização e recessão, mais sim, regalias fiscais e creditícias para o setor automotivo. Diante disto, coloca-se a seguinte pergunta, será que a classe trabalhadora se viu beneficiada na defesa desses itens? Uma das principais características das câmaras setoriais que foram apresentadas pela corrente majoritária cutista como a “salvação da lavoura” é o neocorporativismo. Essa que seria a alternativa ideal para a estratégia do sindicalismo dos anos 1990, segundo Boito Jr.(1999, p.165), na lógica corporativa de funcionamento das câmaras, o sindicato é levado a propor soluções para o problema do “seu” setor e essas soluções, em pontos fundamentais, colidem com interesses e propostas dos trabalhadores de outros setores. O sindicato dos Metalúrgicos do ABC defendeu e obteve facilidades para as montadoras de automóveis importarem equipamentos para a sua “modernização”, exatamente o oposto do que os sindicatos do setor de máquinas e equipamentos, que pleiteavam a proteção alfandegária para o setor nacional de bens de capital. Com a câmara setorial, a Central transferiu de certa forma a contradição de interesses que se encontrava no interior do bloco no poder para o seu próprio interior. A disputa agora é entre os próprios sindicatos a ela filiados:
Num plano mais geral, instaurou-se, hoje, no Brasil, uma luta mais ou menos velada entre os sindicatos, de diferentes categorias ou setor, e por investimentos privados, para sua categoria ou base territorial. Segundo depoimentos de sindicalistas da CUT, além da “guerra fiscal” entre Estados para atrair investimentos, há uma disputa entre sindicatos, da própria CUT, no qual o sindicato se compromete a reivindicar menos, em troca de um novo investimento no “seu” município (BOITO, 1999, p.164).

Essa fragmentação, bem como esse “corporativismo setorial” em que se encontra o sindicalismo cutista na década de 90, seria o que Gramsci, grande crítico do sindicalismo chamou de “egoísmo de fração”. Os anos de 1990 vão se caracterizar por uma metamorfose político-ideológica da CUT que tenderia a privilegiar não mais a confrontação, tal como ocorreu no decorrer dos anos 1980, mas a destacar a negociação ou a “cooperação conflitiva”. Isto é, “de uma atuação mais confrontacionista evolui-se para uma atividade que poderíamos chamar de cooperação conflitiva, em que o conflito é explicitado, mas, ainda assim, há uma preocupação com a cooperação.”40 Nessa nova perspectiva, a qual uma bibliografia significativa chamou de sindicalismo propositivo e de participação, circunscreve os interesses dos trabalhadores apenas às medidas que afetam, diretamente, o setor da economia no qual estão inseridos. A nova proposta política da CUT, entre outros fatores, foi construída a partir do aspecto participacionista da política neoliberal que incentivou uma ação sindical caracterizada pela “livre negociação”. A concepção que valorizava a luta sindical de massa por direitos sociais e trabalhistas se viu abandonada. Os sindicatos oficiais viram suas bases constituídas pelas categorias legais previstas na CLT, subdividirem-se na luta prática em setores e por empresas. São exemplos significativos dessas tendências o crescimento no sindicalismo bancário, da divisão entre funcionários dos bancos públicos e os dos bancos privados. Também, pode-se citar o sindicalismo

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ALVES, Giovanni. Os fundamentos ontológicos do sindicalismo neocorporativo. Anais. ANPOCS: Caxambu, 1999. Disponível em:< www.biblioteca.unesp.br/bibliotecadigital/document/?down=3131> Acessado em: 13 de novembro, 2008.

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metalúrgico da Grande São Paulo, em que ocorreu a divisão entre o operariado das montadoras de veículos e os demais metalúrgicos. Para Boito Jr.(1999, p.168), esse novo corporativismo, “distinto do corporativismo de Estado populista, é, em face dos trabalhadores, e diferentemente do que sugere a grande maioria dos estudos sobre o tema, uma estrutura de dominação e não uma estrutura de representação de interesses.” Essa estrutura envolve, divide e despolitiza o movimento sindical. Observe como o discurso do sindicalismo cutista, nos anos 90 tornou-se participativo e propositivo em contraposição ao seu momento dos anos 80. Vejam a seguinte passagem do documento editado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema:
A câmara setorial representa uma alternativa como fórum de discussões amplas, onde, a despeito das inevitáveis divergências de diagnósticos e propostas entre vários segmentos que compõe o setor, existe a perspectiva de significativos avanços. O aumento da produtividade é fundamental para a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional. Acreditamos que compete a uma nova política industrial, antes de mais nada, basear-se numa estratégia para o tipo de inserção do Brasil no cenário da economia mundial (REESTRUTURAÇÂO DO COMPLEXO PRODUTIVO BRASILEIRO, 1992, p.15, 21 e 22).

Essa nova estratégia nega a luta de classes que foi um dos princípios que se pregava no início da década de 80, na Central. Vejamos:
[...] a CUT caracterizou-se, desde suas origens, como uma central que apontava a ruptura com o sistema capitalista vigente. A CUT é o resultado do acúmulo das lutas que eclodiram no final dos anos 70, que se caracterizavam pela marca da independência de classe e pelo confronto com a classe patronal. Sua característica é a radicalidade classista. Seu ideário está nitidamente em contrário com o da Força Sindical. Enquanto a CUT nasceu de uma base radicalizada no confronto capital x trabalho, visto e assumido como um confronto de interesses de classes opostas e irreconciliáveis (TUMOLU, 2002, p.125).

O autor destaca ainda que:
[...] nos últimos anos, delineou-se, articulou-se e estruturou-se na CUT uma compreensão de que a solução para a crise capitalista será encontrada no sindicalismo de negociação, na participação dentro da ordem dominante. Assim, a CUT procurou dirigir suas lutas para a conquista de maior distribuição de renda e melhoria para os trabalhadores, não colocando como horizonte a supressão da sociedade de classes. Manifesta-se na CUT forte influência do sindicalismo predominante nos países imperialistas, principalmente europeus, vinculados a CIOSL  central mundial que contribuiu com vultuosos recursos financeiros decisivos a criação da CUT e a consolidação, em seu interior, de uma tendência vinculada política e ideológica a seus princípios reformistas (TUMOLU, 2002, p. 125).

Corroborando para essa nova tendência participacionista e propositiva (propositivismo dentro da ordem), teve papel direto à filiação da CUT a CIOSL (Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres), em 1992, essa Central internacional de caráter social-democrata e pró-capitalista vai marcar a debandada da CUT. 50

Para Tumolo (2002, p.189), a incapacidade global da CUT de dar respostas ao projeto neoliberal, destaca-se principalmente a sua incapacidade de responder ao canto da sereia da mudança da sua perspectiva estratégica. Isto é, passar de um sindicalismo classista, de confronto, com uma perspectiva estratégica socialista, a um sindicalismo de parceria entre capital e trabalho. Um sindicalismo vislumbrado com a palavra “tripartite”: empresários e trabalhadores, sentados na mesa junto com governo situado acima das classes. Sindicalismo de “concertação social”, como se fala na linguagem sindical da CIOSL. Para encerramento da discussão concorda-se com Boito Jr.(1996) que é preciso frisar, desde já, que a CUT não se converteu numa central sindical neoliberal. Pelo contrário, a ação sindical de resistência ao neoliberalismo só tem sido implementada pelos sindicatos cutistas. Contudo, essa resistência tem sido ineficaz. A estratégia da corrente dirigente da CUT na década neoliberal - Articulação Sindical -, faz concessões à ideologia e a política neoliberal, facilitando a implementação e o avanço dessa política e contribuindo para a difusão daquela ideologia junto aos trabalhadores brasileiros, o que colaborou definitivamente, para a hegemonia da política neoliberal tornando-a, a nível de discurso, como única via.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Abandonando algumas críticas pessoais e, referindo-se a algumas considerações a respeito do tema, deixa-se em aberto a interrogação a cerca da valorização que merece um modelo econômico e social como o neoliberal que, quando aplicado de acordo com sua cartilha (muito bem elaborada por Hayek, e outros), gerou desemprego em níveis inéditos. De nada vale um orçamento fiscal equilibrado, ou uma inflação “baixa”, ou ainda, um superávit na balança comercial, se os trabalhadores desempregados são uma legião cada vez mais numerosa, se o emprego se torna precário e os salários se tornam insuficientes. Tudo isso, acompanhado de uma série de problemas sociais que se agravaram como a violência, a miséria, o uso e tráfico de drogas, etc. No que remete-se ao movimento sindical brasileiro da década de 1990, esse não é o mesmo dos anos 1970 e 1980. Até mesmo pela conjuntura, em que, se encontra inserido. Nos anos 90 constata-se que as políticas neoliberais alteraram de modo significativo a política de empregos e o mercado de trabalho, pode-se afirmar que a organização sindical, como parte importante da sociedade civil, encontra-se numa encruzilhada entre uma proposta política de confronto (característica do sindicalismo dos anos 80), e uma proposta política de participação na sociedade capitalista da era neoliberal. A fórmula para a solução desse conflito pode ser dada, utilizando-se da lição apontada pelo próprio neoliberalismo. Portanto, deve-se não ter nenhum medo de estar absolutamente contra a corrente política de seu tempo. Hayek, Friedman e outros integrantes da sociedade de Mont Pèlerin tiveram o mérito (mérito, aos olhos de qualquer burguês, inteligente e contemporâneo) de colocar uma crítica radical ao statu quo (quando a fizeram era muito impopular). E tiveram paciência e postura de oposição marginal durante longo período, quando a sabedoria convencional os tratou como excêntricos ou loucos, até o momento em que as condições históricas mudaram e suas oportunidades políticas chegaram. Portanto, nunca é tarde lembrar que “tudo que é sólido se desmancha no ar”. 51

Sendo assim, este texto encerra-se numa perspectiva pós-neoliberal concordando com Perry Anderson (2007) que para se pensar uma superação do neoliberalismo devese atacar enfaticamente e agressivamente no terreno dos valores, questionando-os e ressaltando o princípio da igualdade, como critério central de qualquer sociedade verdadeiramente livre.

REFERÊNCIAS

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RESUMO 57

Este trabalho discute a relação do neoliberalismo com a classe trabalhadora no Brasil. Deste modo, percebe-se que as medidas neoliberais implantadas a partir nos anos de 1990, no país, desenvolveram um desequilíbrio ainda maior na relação capital trabalho. Esse processo refletiu nas organizações representativas, que não conseguiram dar respostas à nova ofensiva do capital. Palavras-chave: representativas. neoliberalismo; classe trabalhadora; organizações

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Educação e Reprodução na Abordagem Sociológica de Bourdieu e Passeron

Maria Angélica Peixoto*

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Resumo: O texto apresenta alguns dos principais conceitos da sociologia da educação contidos na obra de Bourdieu e Passeron: A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. Trabalha os conceitos de ação pedagógica, violência simbólica, capital cultural, capital lingüístico, entre outros, e a sua importância para a compreensão do sistema de ensino e seu papel de reprodução das desigualdades e estrutura de classes. Aponta, ainda, algumas saídas para que dentro do campo educacional consiga romper com o processo de reprodução da cultura e da estrutura de classes da sociedade capitalista, qual seja, a de que é possível realizar um trabalho que possibilite ao aluno e aluna tomarem consciência da relação de força que subjaz o trabalho pedagógico, levando-os a superar a força arbitrária da ação pedagógica.

Bourdieu e Passeron (1982) assinam juntos uma das obras mais importantes para a sociologia da educação. A Reprodução (publicado originalmente em 1970), tem sido um importante marco para o pensamento sociológico, não só por tentar fazer uma síntese teórica das várias abordagens sociológicas: Durkheim com seu objetivismo, Weber com seu subjetivismo e Marx como expressão do pensamento dialético, segundo distinção epistemológica feita por Pereira (1970), mas principalmente por, partindo desta síntese realizar uma análise complexa do fenômeno educacional. Veremos abaixo como Bourdieu e Passeron analisam o sistema de ensino, quais as contribuições presentes em A Reprodução e outras obras e principalmente quais as implicações desta teoria do sistema de ensino na sociedade moderna, bem como a questão da mudança no interior do campo educacional. O ponto de partida destes autores é a afirmação de que toda ação pedagógica é uma violência simbólica, pois é uma imposição arbitrária de uma cultura de um grupo ou classe a outro grupo ou classe e esta imposição oculta, mascara, as relações de força que estão na base de seu poder.

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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG. Professora da Universidade Católica de Goiás (UCG) e Universidade Paulista (UNIP). Mestra em Sociologia (UnB).

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Sendo assim, “as ações sociais são concretamente realizadas pelos indivíduos, mas as chances de efetivá-las se encontram objetivamente estruturadas no interior da sociedade global” (Ortiz, 1994:15). A ação pedagógica é uma ação objetivamente estruturada e é uma violência simbólica porque impõe um arbitrário cultural, ou seja, impõe uma concepção cultural de grupos e classes dominantes e esta imposição terá no sistema de ensino seus sustentáculos. A pedagogia, neste sentido, é inculcação de valores e normas de um dado grupo ou classe a outros grupos ou classes. Podemos reafirmar então, que a ação pedagógica é uma violência simbólica, pois tem por objetivo aplicar sanções, impor um arbitrário cultural. Bourdieu então, através do estudo da “distribuição estatística dos produtos pedagógicos segundo as diferentes camadas e classes” chega a seguinte conclusão: a chance de cada indivíduo é determinada pela sua posição dentro do sistema de estratificação e, partindo da análise específica do sistema de ensino ele demonstra que o sistema de ensino tem uma dupla função: a reprodução da cultura e reprodução da estrutura de classe. O sistema de ensino promove os aptos a participarem dos privilégios e do uso da força (poder). Então, para entendermos seu raciocínio voltaremos à questão da ação pedagógica: toda ação pedagógica requer uma autoridade pedagógica para que ocorra a inculcação de um arbitrário cultural. “A ação pedagógica se realiza através do trabalho pedagógico que são atividades contínuas e sistemáticas de inculcação dos princípios culturais que devem persistir após a cessação da ação pedagógica” (Freitag, 1979: 66). Neste sentido, é o trabalho pedagógico que garante a imposição dos conteúdos culturais de grupos e classes dominantes sobre os demais no interior da escola, mantendo assim, a perpetuação da ordem estabelecida, garantindo uma formação social durável. O trabalho pedagógico operado pelo sistema de ensino conduz os alunos pouco a pouco a irem interiorizando “certos códigos de normas e valores”. Bourdieu, enfatiza a importância de se estudar o modo de estruturação do habitus através das instituições de socialização, ou seja, o trabalho pedagógico tende a estruturar o habitus (“predisposições dos agentes agirem segundo um certo código de normas e valores que os caracterizam como pertencentes a um grupo ou classe”) ou mais, os agentes tendem a reproduzir as mesmas condições da classe de origem. E os professores ao negarem as especificidades dos alunos e alunas através de ações uniformizantes e uniformizadoras contribuem para a reprodução da ordem vigente e através das suas comunicações impõem um arbitrário cultural. Bourdieu aponta que a língua não é somente instrumento de comunicação/conhecimento, mas um dos mais poderosos instrumentos de poder (Bourdieu, 1994:161). E que portanto, é um instrumento de manipulação, pois dependendo da posição do aluno no sistema de estratificação a possibilidade de mobilidade social se restringe demasiadamente se caso o seu capital lingüístico for diminuto e, esta relação de poder fica bem expressa no que diz respeito à relação professor e aluno: “A estrutura da relação de produção lingüística depende da relação simbólica entre os 60

dois locutores, isto é, da importância de seu capital de autoridade (que não é redutível ao capital propriamente lingüístico): a competência é também portanto a capacidade de se fazer escutar. A língua não é somente um instrumento de comunicação ou mesmo de conhecimento, mas um instrumento de poder. Não procuramos somente ser compreendidos, mas também obedecidos, acreditados, respeitados ... os que falam consideram os que escutam dignos de escutar e os que escutam consideram os que falam dignos de falar” (Bourdieu, 1994:160-161). Entra aqui, outro elemento de grande importância para a análise de Bourdieu, o conceito de capital cultural, ou seja, cada indivíduo recebe um quantum social de informações desde o seu nascimento, principalmente através da família e será esta quantidade de informação que determinará a posição do indivíduo na sociedade. A triagem e seleção serão explicadas em termos de falta de habilidades, capacidades, mau desempenho, justificando assim, as desigualdades sociais. A ideologia das aptidões naturais oferece importante auxílio para explicar as desigualdades do ponto de vista dos grupos e classes dominantes. A ideologia das aptidões naturais naturaliza as desigualdades ao explicá-las a partir de uma ordem estritamente biológica. A ideologia das qualidades inatas foi analisada no texto de Noelle Bisseret “A Ideologia das Aptidões Naturais”, onde o autor leva-nos à compreensão desta e como que se tornou possível a sua difusão. Segundo Bisseret, por meio da Psicologia Diferencial, os ideólogos da burguesia criaram uma nomenclatura onde definiam os aptos e inaptos por natureza a possuir ou não os cargos de comando. Vale ressaltar o fato de que os aptos eram quase sempre pertencentes à classe dominante ou as demais classes privilegiadas. Segundo Bisseret: “...a noção de aptidão, (...) serve progressivamente de suporte para justificar a manutenção das desigualdades sociais e das desigualdades escolares que traduzem e perpetuam. Como a nova sociedade e as instituições escolares são colocadas como igualitárias, a causa das desigualdades só pode ser atribuída a um dado ‘natural’”(Bisseret, 1979: 31). Neste sentido, toda ação pedagógica só se realiza se encontrar condições concretas para se efetivar. Portanto, toda ação pedagógica para se realizar estabelece uma relação de comunicação. Por meio desta relação ela impõe um arbitrário cultural impondo e inculcando certas significações, convencionadas pela seleção e exclusão. A ação pedagógica confere à imposição grande legitimidade que por sua vez é aprovada por aqueles que a ela estão submetidos. Daí observarmos o quanto é importante o momento em que os professores selecionam (levando em conta é claro, o peso das demais instituições e do Estado nesta seleção) os conteúdos que repassam para os alunos e alunas. Esta seleção trás em sua base as condições necessárias para a reprodução objetiva da multifacetada cultura e estrutura de classe da sociedade capitalista. Tais conteúdos reproduzem a posição dos alunos na estrutura social e já carrega em si as possibilidades de um dado grupo de 61

alunos e alunas estarem sendo assimilados e ou selecionados ou, ao contrário, eliminados da escola. O capital cultural juntamente com a ação pedagógica impositora é a chave que destrancará as portas que fornecerão subsídios para compreendermos como se opera o processo de seleção e eliminação de alunos e alunas do sistema de ensino. Os grupos e classes dominantes detêm pela posição privilegiada, as condições necessárias para se imporem aos demais grupos e classes. Suas idéias, valores, crenças, concepção de mundo e gostos estéticos se tornam legítimos e são inculcados subrepticiamete aos demais grupos e classes através das escolas e dos meios de comunicação de massa. Tudo isto é percebido como legítimo, pois a violência simbólica da ação pedagógica dissimula a arbitrariedade e a apresenta como algo legítimo. Os demais grupos e classes por desconhecerem a verdade objetiva da ação pedagógica reforçam as relações de força exercidas pela ação pedagógica aumentando ainda mais sua eficácia. Daí Bourdieu afirmar que o desconhecimento do poder de imposição da ação pedagógica por parte daqueles que a ela estão submetidos, é a condição dela se exercer, ou seja, impor valores, idéias, gostos, crenças àqueles que a ela se conformam. Este processo gera a negação das especificidades dos demais grupos, o que faz com que seus valores, idéias, gostos estéticos, crenças e outros elementos sejam negados pela força consensual dominante. No âmbito da escola tal fato adquirirá expressão máxima por meio das verdades uniformizantes, isto é facilmente percebido pela estrutura escolar que, ao contrário, do que enuncia (repasse de saberes comuns a todas às classes e grupos) impõe sua verdade férrea a todos os demais grupos e classes desprivilegiadas negando as especificidades. Aqui temos uma importante contribuição de Bourdieu, pois hoje muitos educadores e pesquisadores enfatizam a necessidade de se compreender e trabalhar a questão das especificidades nos sistema escolar. Atualmente se atribui grande importância em estarmos pensando num perfil de educadoras e educadores atentos às características e necessidades de alunos e alunas em diferentes níveis de desenvolvimento, “ou seja, começamos a pensar na criança, no adolescente, no jovem, no adulto, que se encontra escondido atrás da palavra ‘aluno’” (Campos, 1999) Fazendo isto e pensando sobre a Declaração de Salamanca de 1994 fica mais fácil pensarmos na menina e no menino de origens sociais distintas, étnicas, regionais ou oriundos do campo e da cidade, no jovem e adolescente dos subúrbios e das áreas privilegiadas dos centros urbanos, enfim, faz com que pensemos também no adulto que tardiamente, embora a tempo, queira ser compensado pela precariedade ou completa ausência de sua educação formal. Para alguns autores, em diferentes situações e independente do nível ou modalidade que a aluna ou aluno se encontre, a educadora/educador crítico têm que possuir sólida formação, sua prática tem que englobar saberes tais como disciplinares, curriculares, profissionais (juntamente com os das ciências da educação e da pedagogia) e os saberes experienciais (Tardiff, 2002). Outros reconhecem a necessidade de repensar a escola e apresentam a proposta de uma escola oniforme (Gadotti, 1995) e não uniforme, isto é, “um espaço de convivência de diferentes e diferenças”. Um espaço de apropriação dos saberes centrados nas necessidades das crianças, buscando o pleno desenvolvimento de suas potencialidades. Também se questiona a separação entre ensino e cotidianidade. Segundo Paulo Freire,

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“... não é possível a educadoras e educadores pensar apenas os procedimentos didáticos e os conteúdos a serem ensinados aos grupos populares. Os próprios conteúdos a serem ensinados não podem ser totalmente estranhos àquela cotidianidade. O que acontece, no meio popular, nas periferias das cidades nos campos – trabalhadores urbanos e rurais reunindo-se para rezar o para discutir os seus direitos – nada pode escapar à curiosidade arguta dos educadores envolvidos na Prática da Educação de Jovens e Adultos” (apud. Gadotti & Romão, 2000, 15-16). A Prática da Educação exige que se reconheça a educação como prática política (Freire, 1996). Neste sentido, a desconsideração pela formação integral do ser humano, a sua redução a puro treino necessita ser superadas. Só há prática democrática quando há intenção explícita por parte do educador de falar com. No entanto, em que pese o reconhecimento da necessidade de trabalhar a questão das especificidades no sistema escolar é mister reconhecer também que a escola continua sendo “uniformizadora” e impositora, e isto se encontra, tal como coloca Bourdieu, na própria essência do sistema de ensino. Na abordagem de Bourdieu, a escola existe para impor um arbitrário cultural e, portanto, a “formação integral”, ou segundo a concepção marxista, a formação do homem omnilateral (Manacorda, 1991) seria impossível no seu interior, já que é próprio de sua natureza e função impor um determinado tipo de saber, o escolar, que visa a profissionalização, a reprodução de conhecimentos especializados, técnicos, e formação de valores e comportamentos que são importantes para a reprodução da sociedade, reproduzindo assim a estrutura de classes. Como, então, superar concretamente essas condições objetivas? Como se poderia transformar a escola, mudando o seu papel de reproduzir a estrutura de classe e a cultura dos grupos e classes dominantes que compõe a sociedade capitalista? Será que estamos numa rua sem saída? Bourdieu não focalizou e aprofundou a questão da transformação da sociedade e nem de mudanças estruturais nos diversos “campos” que ele vê como sendo suas partes constituintes, inclusive o campo educacional. A sua análise se limita a abordar a existência dos diversos campos, suas leis gerais e específicas (Martins, 1987) e não focaliza a questão da transformação social. Apesar disso, ele nos traz elementos que podemos utilizar para realizar uma análise crítica do fenômeno educacional, seja acrescentando a contribuição de outros autores seja encontrando em sua própria obra recursos teóricos para trabalhar a questão da mudança e transformação, tanto em sentido global quanto em sentido mais restrito, como no caso do campo educacional. Segundo Bourdieu, aqueles que estão submetidos à ação pedagógica desconhecem o poder de imposição dela. Ora, o desconhecimento deste poder propicia à burocracia escolar o exercício da força e submete professores e alunos a uma relação de força onde o primeiro se encontra em flagrante vantagem (impõe conteúdos, formas de avaliação, uso do tempo escolar, etc.) pois no topo da hierarquia o professor se encontra em posição dominante (pelo menos no que tange a relação professor e aluno). Então a possibilidade de mudança estaria no processo de conhecimento do significado e compromissos assumidos pela ação pedagógica. Este conhecimento 63

permitiria a mudança da prática docente e daqueles que estão submetidos à ação pedagógica. Se o desconhecimento do poder é elemento para sua perpetuação, então o conhecimento é elemento para sua superação. Aqueles que executam ou são vítimas da ação pedagógica podem, ao ter consciência deste processo de imposição, buscar alterar este processo, no sentido de romper com a reprodução automática dela e abrindo brechas para mudanças, que, no entanto, só poderiam se concretizar efetivamente com uma transformação social total, isto é, dos vários campos e do conjunto da sociedade. Muitas ações se tornam possíveis neste contexto e a elaboração de propostas e ações neste sentido têm na consciência de que a ação pedagógica é uma forma de violência simbólica uma pré-condição. Esta consciência permite novos posicionamentos e ações no interior da escola, tanto por parte de professores quanto alunos, pois permite se buscar criar um projeto alternativo de escola, abrindo novos caminhos. Além disso, permite a busca de ações extra-escolares que não reproduzem a estrutura da ação pedagógica produzida no seu interior. Mas todas estas iniciativas, já esboçadas por várias concepções pedagógicas e ações no interior da escola e fora dela, só podem se realizar a partir da percepção do processo educacional enquanto um sistema que impõe um arbitrário cultural. Neste sentido, temos uma importante contribuição de Bourdieu. A partir de Bourdieu podemos compreender o sistema de ensino e apresentar projetos para sua transformação. Referências Bibliográficas BISSERET, Noelle. A Ideologia das Aptidões Naturais. In: DURAND, José Carlos Garcia (org.). Educação e Hegemonia de Classe. Rio de Janeiro, Zahar, 1979. BOURDIEU, Pierre & P ASSERON, Jean-Claude. A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. 2ª ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Lingüísticas. In: ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu. Coleção Grandes Cientistas Sociais. 2ª ed. São Paulo, Editora Ática: 1994. CAMPOS, Maria Malta. A Formação de Professores para Crianças de 0 a 10 anos: modelos em debate in: Revista Educação e Sociedade, no 68, 1999 p, 126-142. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 28ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1996. GADOTTI, Moacir & ROMÃO, José (Orgs.). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. 3ª ed., São Paulo: Cortez, 2001 MANACORDA, M. A. Marx e a Pedagogia Moderna. São Paulo: Cortez, 1991. MARTINS, Carlos Benedito. Estrutura e Ator: A Teoria da Prática em Bourdieu. Revista Educação e Sociedade. No 27, Setembro de 1987. ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu. Coleção Grandes Cientistas Sociais. 2ª ed. São Paulo, Editora Ática: 1994. TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

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O Papel do Direito no Capitalismo e sua Inaplicabilidade no Comunismo

Rubens Vinicius da Silva *

RESUMO Pretende-se nesta pesquisa analisar o Direito enquanto intrínseco componente ideológico no tocante às relações de produção capitalistas, bem como, seu papel de garantidor da reprodução destas mesmas relações de produção. Também, se pretende efetuar a ligação entre o Direito e o Estado, e a impossibilidade da aplicação de ordenamentos jurídicos numa sociedade sem classes sociais. Palavras-chave: Direito; Estado; ideologia; modo de produção; relações de produção; classes sociais.

1 INTRODUÇÃO No presente trabalho pretende-se estabelecer a conexão entre ideologia e Direito, além da necessidade de as classes dominantes criarem instituições que têm por objetivo a reprodução (seja pela ideologia ou por outras formas) e legitimação das relações de produção. No primeiro capítulo procurar-se-á esboçar entendimentos acerca de modo de produção, notoriamente ao capitalista, elencando alguns de seus elementos fundamentais. Tentar-se-á efetuar uma caracterização do Estado, bem como do papel
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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

66 desempenhado pelo Direito para reforçar as bases materiais da sociedade (conceituadas aqui estrutura ou infra-estrutura). No segundo capítulo irá se trabalhar o conceito marxista de ideologia, além do enquadramento do Direito como instituição formadora de ideologias, sendo realizada uma breve definição de alguns dos papéis desempenhados por este na sociedade burguesa. Finalmente, buscar-se-á o ponto de enfoque, o aprofundamento de alguns conceitos acerca do conteúdo de classe expresso pelo Direito e da sua inaplicabilidade no modo de produção comunista, o qual será brevemente delineado de forma prospectiva, onde deverão ser ressaltadas suas principais deturpações ocorridas no decorrer do século XX. 2 MODO DE PRODUÇÃO, ESTADO, SUPERESTRUTURA E DIREITO 2.1 MODO DE PRODUÇÃO O ser humano possui uma relação com a natureza no tocante à sua sobrevivência, ou seja, desde que o homem passou a viver em agrupamentos sociais (e até antes desta constituição), este recorria aos elementos presentes a sua volta para promover suas necessidades básicas de existência. Isto implica dizer que as formas pelas quais os indivíduos lidam com a natureza na busca pelos meios de subsistência estão inexoravelmente conectadas ao estabelecimento de determinadas relações entre os mesmos. De acordo com Pannekoek (2007, p.19) “na base da sociedade encontra-se a produção de todos os bens necessários à vida”, não esquecendo de que a produção dos bens necessários à vida não se resume à relação homem e natureza, mas também com as técnicas utilizadas e aprimoradas pelas coletividades humanas ao longo da história e sua aplicação aos “elementos naturais” que as rodeavam. Partindo destas premissas, afirma-se em primeiro momento conceber a expressão modo de produção como sendo a maneira pela qual se organiza o processo em que os homens agem sob a natureza tendo como objetivo a satisfação de suas necessidades. Seus fundamentos essenciais são as relações de produção, ou seja, as relações que os indivíduos ou os agrupamentos de pessoas estabelecem entre si no processo da produção de bens. Porém esta definição torna-se de certa forma insuficiente, tendo em vista a necessidade de se obter a real noção da maneira pela qual os bens produzidos num determinado agrupamento social são distribuídos. Pode-se definir segundo os escritos marxistas que a maneira como os bens são produzidos e distribuídos numa sociedade é a razão que determina o caráter destes mesmos bens, pois tal relação tende a condicionar o conjunto das relações sociais (relações estabelecidas entre os membros de uma sociedade). Com uma abordagem mais ampla, modo de produção pode ser definido como a constituição de uma estrutura de

67 relações recíprocas e de relações humanas com a natureza, sendo que a forma pela qual os homens se relacionam num dado modo de produção tende a ser o fator determinante para a própria lei desta relação, pois esta assimila em si todas as formas estruturais. (MENDONÇA, 2007a, p.13). A maneira pela qual a produção dos bens em dada sociedade e sua conseqüente distribuição é pautada encontra-se nas relações de produção, o modo de os homens se relacionarem. É o caráter, a representação material das relações de produção que vem a determinar um dado modo de produção. Estas relações de produção, por serem sociais, não podem ser entendidas como relações de ordem individual, sendo que o conjunto de indivíduos que ocupa o mesmo lugar no processo de produção é desta forma pertencente à mesma classe social. Diz-se com isso que os modos de produção possuem dada historicidade, isto é, têm sua dinâmica, surgimento e posterior transformação como decorrente de certos períodos históricos. Esta historicidade surge de outro fator que não somente a modificação das relações sociais de produção, mas também do grau em que se encontram desenvolvidas as forças produtivas. Por forças produtivas compreendem-se os conjuntos de instrumentos e técnicas que fazem com que seja possível a produção dos bens em dado modo de produção. Aduz-se desta forma que quanto mais desenvolvidos estejam estes instrumentos e técnicas essenciais à produção, em maior grau de evolução estarão as forças produtivas, tornando muito mais acessível aos seres humanos a produção de sua vida em sociedade. (MENDONÇA, 2007b, p.13). A evolução destas forças produtivas permite o surgimento de novas necessidades à humanidade, necessidades estas que podem ser facilmente satisfeitas. Diante deste quadro pode-se perfeitamente descrever que cada modo de produção possui superioridade ao seu antecessor, na medida em que é capaz de satisfazer um número muito maior de necessidades advindas das coletividades humanas. Nas primeiras formas de organização social, as chamadas sociedades primitivas, não existiam classes sociais, exploração, dominação, tampouco a propriedade privada dos meios de produção. As relações sociais eram igualitárias e a busca pela sobrevivência se pautava na cooperação e ajuda mútua entre os membros das comunidades. Os meios de produção eram de propriedade comum de todos os membros da tribo, de maneira que o processo de produção e distribuição dos bens era coletivo, não existindo a divisão social do trabalho. Com o surgimento da propriedade privada dos meios de produção, observa-se o aparecimento das classes sociais e por conseqüência das lutas de classes. As classes proprietárias possuem o monopólio dos meios de produção e constrangem os demais setores da sociedade à submissão. O trabalho deixa de se basear na ajuda mútua e passa a ser regido pela divisão social do trabalho, na qual uns dirigem o processo de produção (classes proprietárias) e outros são meros executores do processo produtivo (classes produtoras). (VIANA, 2008a, p.13). As lutas de classes manifestam-se na medida em que as classes subalternas resistem e se organizam face à exploração e opressão das classes dominantes. No modo de produção escravocrata, as lutas de classes apareciam sob a forma de assassinato dos

68 senhores de escravos (que juntamente com os guerreiros configuravam a classe dominante), a fuga de escravos e por fim a rebelião escrava, cujo exemplo notório foi a rebelião de Spartacus, na Grécia Antiga. No feudalismo havia a figura da propriedade feudal. As classes feudais (família dos senhores feudais), o trabalho compulsório, cobrança de tributos, a Igreja, por meio da religião, sendo a figura máxima dos interesses dominantes, e em contrapartida ocorria a resistência por parte dos vassalos (servos), por meio do roubo de lenha e busca do comércio, até a chegada das rebeliões messiânicas. (VIANA, 2008b, p.14-15). O que diferencia especialmente o modo de produção capitalista dos seus antecessores é a produção e extração de mais-valor (ou mais-valia), fruto da exploração do conjunto do proletariado pela burguesia, algo que vai muito mais além do regime do salariato. Para caracterizar a mais-valia (ou mais-valor), faz-se necessária a definição esboçada por Nildo Viana (2008c, p.16) que estabelece a mais-valia como sendo
um excedente que só pode existir devido ao trabalho humano, vivo, concreto, que transforma as matérias-primas, utilizando ferramentas e máquinas, em um produto novo, com um valor acrescido ao anterior. O trabalho humano realizado acrescenta valor às mercadorias produzidas, produz um excedente. Este excedente, portanto, é produto do trabalho vivo da classe operária. Esta classe, ao acrescentar valor às mercadorias, ao produzir um mais-valor (ou “mais-valia”), permite a acumulação de capital e o predomínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo, isto é, da classe capitalista sobre a classe operária.

Existem duas formas de extração da mais-valia: a mais-valia absoluta e a maisvalia relativa. A mais-valia absoluta é aquela cuja produção decorre do aumento da jornada de trabalho do operário, bem como da intensificação do uso de sua capacidade produtiva. Esta intensificação da capacidade de produção é percebida na medida em que o aumento da cadência (sucessão regular e harmoniosa de movimentos realizados na produção de mercadorias, o ritmo em que se realiza a produção) dos meios de produção ocorre, pois devido a isto o trabalhador produz em 8 horas a mesma quantidade de mercadorias que produzia anteriormente numa jornada de trabalho com duração de 10 ou 11 horas diárias. Para realizar tal processo, os detentores dos meios de produção (capitalistas) utilizam conhecimentos médicos, econômicos, psicológicos e os advindos da engenharia com especialidade em racionalização e simplificação do trabalho, sendo que o papel desses especialistas é justamente o de realizar estudos relacionados à maneira pela qual os meios de produção vêm sendo utilizados e sua relação com a fisiologia do operário, com o intuito de reduzir os tempos, isto é, encontrar um número mínimo de movimentos a serem executados para a realização de determinado trabalho, eliminando em sua totalidade os movimentos tidos como desnecessários, com vistas a aumentar em escala cada vez maior a produtividade do trabalho (CEDAC, 1981a, p.18). Já a mais-valia relativa é obtida com base na diminuição do tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de mercadorias. Este método está conectado ao aumento da produtividade do trabalho de maneira tal que o tempo de trabalho que antes

69 era necessário para a produção do sustento do operário diminui. Isto acontece quando a introdução de meios de produção mais novos e avançados tecnologicamente, que propiciam que o sustento do operário seja realizado em mais ou menos 2 horas. Com isso pode-se dizer que o capitalista, numa jornada de 8 horas diárias, dispõe de 6 horas em decorrência do uso da força de trabalho do operário. O tempo de trabalho socialmente necessário é de 2 horas, enquanto o tempo suplementar (que será aproveitado pelo capitalista) é de 6 horas, o que permite uma maximização da taxa de mais-valia extraída. (CEDAC, 1981b, p.18). Com base nisso depreende-se que o aumento da extração da mais-valia está intimamente ligado à transformação permanente desta em capital e à incorporação de novos progressos nas técnicas de produção, o que acirra ainda mais a concorrência entre os capitalistas, na medida em que quanto menos avançado for o parque industrial de dada empresa, menos mercadorias dali serão produzidas, pois os custos de produção encarecem o preço final da mercadoria, o que pode levar diversas empresas à falência. Outra característica concernente ao capitalismo é que este se trata de um modo específico de produção de mercadorias, e esta especificidade pode ser observada quando da produção de mais-valor, de onde resulta a exploração e a formação das duas classes sociais inerentes ao capitalismo: a burguesia (proprietários dos meios de produção, os quais extraem o mais-valor produzido pelos vendedores de força de trabalho-operários-) e o proletariado (conjunto dos indivíduos desprovidos dos meios de produção, produtores diretos de mais-valor, e que para sobreviver submetem-se à venda de sua força de trabalho). (VIANA, 2008d, p.18). Este processo de produção de mercadorias se alastra por todo o conjunto da sociedade, fazendo com que quase tudo possua a forma de mercadoria, ocorrendo a mercantilização da vida social, onde as próprias relações entre os indivíduos, aqui entendidas por relações sociais, estejam pautadas na figura de portadores ou nãoportadores de mercadorias. A supervalorização do ter, preenchendo o vazio do ser. (VIANA, 2008e, p.49). Cabe aqui ressaltar que há uma imensa distinção entre a mudança das relações de propriedade e a transformação radical das relações de produção, esta sim caracterizando o aparecimento de um novo modo de produção. A explicitação deste tema será tratada quando das linhas finais deste trabalho. Passa-se agora a uma análise e caracterização do Estado.

2.2 ESTADO Para legitimar as relações de produção dominantes e reproduzi-las para o conjunto da sociedade, as classes exploradoras procuraram estabelecer certas instituições que com base em premissas demagógicas como “a supremacia do coletivo sobre o individual” mascaram o verdadeiro funcionamento da sociedade, com o intuito de amortecer os conflitos inerentes às classes sociais, controlar as classes exploradas e demais setores sociais oprimidos e manter intocáveis as relações sociais de produção.

70 O exemplo mais clássico e mais eficiente destas instituições é sem dúvida o Estado que procura parecer estar acima das lutas entre as classes sociais e de interesses privados e sendo o representante geral da coletividade, de modo que procura com isso macular a opressão, exploração e dominação, fazendo com que seu caráter de classe – instrumento das classes exploradoras- seja ocultado. Friedrich Engels (2000, p.191) mostra de forma clara o papel histórico e real significado de existência do Estado. Para ele:
O Estado não é, de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é, tampouco, “a realidade da Idéia moral”, “a imagem e realidade da Razão”, como pretende Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase de seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes antagônicas, com interesses econômicos contrários, não se entredevorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da “ordem”. Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado.

Com base nesta análise torna-se impossível de compreender o Estado senão na medida em que este surge do desenvolvimento econômico e material da sociedade, produto ele mesmo das lutas de classes, e como sendo uma instituição que visa manter inconciliáveis estes conflitos entre as classes sociais, embora procure aparecer como neutra. Este é o papel do Estado: um instrumento de repressão às classes exploradas e uma instituição das classes exploradoras, cuja razão de ser é legitimar e reproduzir as relações de produção dominantes e características num dado modo de produção. Dependendo do estágio no qual se encontra a luta de classes, o Estado apresenta diferentes formas que por sua vez expressam as necessidades das classes dominantes em manter sua exploração em diferentes regimes ou formas de acumulação de capital, resultado direto da luta de classes. Nildo Viana (2008f, p.20) concebe de maneira cristalina a íntima relação entre os regimes de acumulação de capital e as mudanças pelas quais o Estado. Menciona o autor que
um regime de acumulação é marcado por uma determinada forma de extração de mais-valor realizada no processo de trabalho, por determinada forma estatal e determinadas relações internacionais. A primeira fase do capitalismo foi marcada por sua formação incipiente, pela acumulação primitiva de capital e predomínio do capital comercial. O processo de trabalho capitalista era marginal e o sistema colonial e o Estado absolutista eram as fontes da acumulação que permitiria a revolução industrial e a consolidação do capitalismo. O regime de acumulação que emerge após este período é o extensivo, marcado por uma alta taxa de exploração fundada na extração de mais-valor absoluto, aliado ao neocolonialismo e ao Estado liberal (século 18 e primeira metade do século 19). Ele foi substituído pelo regime de acumulação intensivo, caracterizado pela busca de aumento de

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extração de mais-valor relativo via organização do trabalho (taylorismo) e pelo Estado Liberal-Democrático e Imperialismo Financeiro, fundado na exportação de capital-dinheiro (segunda metade do século 19 e primeira metade do século 20). Após a Segunda Guerra Mundial temos um novo regime de acumulação, o intensivo-extensivo, no qual predomina o fordismo enquanto organização do trabalho (busca de aperfeiçoamento do taylorismo com o mesmo objetivo, aumentar a extração de mais-valor relativo, através principalmente do uso da tecnologia), o Estado integracionista (de “bemestar social, ou “social-democrata”) e o imperialismo transnacional. Este entra em crise na década de 60, mas somente na década de 80 do século 20 é que temos um novo regime de acumulação, o regime integral. Este combina a busca de aumento da extração de mais-valor absoluto e relativo (“reestruração produtiva”), e uma nova forma estatal, o Estado Neoliberal, juntamente com um imperialismo mais agressivo e beligerante, o neoimperialismo. A ordem do regime de acumulação integral é: aumentar a exploração de todas as formas e em todos os lugares!

Com base nestas premissas entende-se que a classe capitalista no seu movimento incessante de reprodução e expansão de capital, marcado pelos regimes de acumulação, coloca todas as ações do Estado segundo seus interesses de classe e com isso ocorre a total dominação das instituições estatais e do conjunto de toda a sociedade pelas classes exploradoras. O próximo tópico trata da relação entre estas instituições estatais e a manutenção do modo de produção e situa o Direito enquanto uma destas referidas instituições.

2.3 SUPERESTRUTURA E DIREITO Analisou-se anteriormente que as classes dominantes de um dado modo de produção possuem a necessidade da criação de algumas instituições que tenham por finalidade a conservação e posterior reprodução das relações de produção, visando amortecer os conflitos entre as classes sociais em luta constante. Pode-se constatar também que a maneira pela qual o Estado surge, suas formas e representações são produtos destas determinadas relações entre os indivíduos no processo de produção dos bens, das lutas entre as classes sociais que fracionam estes indivíduos a partir do seu papel no processo produtivo. Numa palavra, as instituições de determinado modo de produção surgem de uma base material que lhes garanta finalidade, a qual o condiciona e da mesma maneira garante sustentação para o surgimento de outras instituições com as mesmas condições de existência, sendo que estas são resultado direto do grau de desenvolvimento das relações executadas nesta base material, proveniente do estágio do modo de produção que lhes deu origem. Esta base segundo a qual surgem determinadas instituições com o intuito de legitimar a dominação e a exploração decorrentes de dado modo de produção é chamada de estrutura ou infra-estrutura, e está relacionada diretamente com a totalidade da produção social, à economia, esta entendida aqui como a produção, acumulação, circulação e distribuição de tudo aquilo que é realizado em determinada sociedade.

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O conjunto de instituições oriundas desta base econômica, cuja finalidade é garantir no plano das idéias a manutenção de dada ordem social é a superestrutura, na qual se situam organizações cujos fins são sistematizar as idéias dominantes no seio da sociedade, dentre as quais a escola, a igreja, os partidos políticos, sindicatos, o direito, etc. Além das instituições estatais, que estão de modo inerente presente à superestrutura, aparecem instituições de natureza privada cuja finalidade consiste em macular a realidade social e produzir uma série de idéias e valores que tem como objeto a manutenção do capitalismo, tais como os meios de comunicação e as organizações nãogovernamentais (ONG’S). Assim, delimita-se a superestrutura em duas instâncias: a jurídico-política (Direito e Estado) e a ideológica (religião, moral, etc...), (ALTHUSSER apud MENDONÇA, 2007c, p.36) sendo que a primeira instância é “eminentemente institucional e tem como finalidade a coação e regulação da atividade social, e a segunda instância trata do conjunto de representações que cada indivíduo possui de sua própria realidade.” (IASI apud MENDONÇA, 2007d, p.36). É importante salientar aqui que as lutas de classes não ficam restritas à estrutura ou infra-estrutura. As classes exploradas procuram travar em seu processo de resistência e negação da ordem estabelecida uma luta também em torno das idéias, o que pode ser entendido como encampar uma luta cultural, na qual estão em permanente conflito as idéias dos exploradores e dos explorados, e que este enfrentamento pode se dar até mesmo nas instituições criadas pelas classes proprietárias, bem como pode assumir formas situadas à margem destes organismos, sendo resultado direto da cultura contestadora e do processo de tomada de consciência por parte dos setores explorados e oprimidos pelo capital em seus diversos níveis. Diante deste quadro, fica a pergunta: Por que o Direito se enquadra na superestrutura? Se for concebida uma análise da sociedade pautada nas relações estabelecidas pelos indivíduos no processo de produção de bens (relações de produção) como pedra angular de uma dada organização social, pode-se apreender desta concepção que com o surgimento da propriedade privada dos meios de produção, das classes sociais e em conseqüência das lutas de classes, bem como a origem e desenvolvimento do Estado, as classes exploradoras tiveram a necessidade de estabelecer certas regras de conduta social, sendo que estas regras abrangeriam desde as questões mais íntimas e particulares (direito privado) até o funcionamento e organização da sociedade. Entende-se deste modo que o Direito em seu conceito mais abrangente está por se enquadrar nas duas instâncias da superestrutura, uma vez que além de ser um conjunto de normas que visa legitimar a existência de um modo de produção, é também um arcabouço de idéias cuja razão de existência está na inversão da realidade, justificando deste modo a dominação de classe. (MENDONÇA, 2007e, p.36). As visões acerca da justiça e seus desdobramentos legais, enquanto elementos forjados segundo os interesses das classes sociais opressoras em todos os modos de produção, com o objetivo implícito de garantir e perpetuar as formas de exploração inerentes de sua criação é um dos elementos que não somente no plano das idéias, mas

73 também na materialidade das contradições e interesses inconciliáveis entre as classes fundamentais do modo de produção capitalista (burguesia e proletariado), possui sua mais nítida face sendo desvelada, como se demonstrará no decorrer das linhas dos seguintes capítulos deste artigo.

3 IDEOLOGIA, CAPITALISMO E ORDEM JURÍDICA

3.1 IDEOLOGIA E DIREITO Para garantir sua dominação e exploração as classes dominantes recorrem a métodos bastante “convincentes”, dentre os quais são assinalados o controle social por intermédio da ideologia, que pode ser observada de modo cotidiano ao se ligar um aparelho de televisão ou efetuar a leitura de algum jornal ou revista de grande circulação. Mas o que seria então uma ideologia? Sob a ótica marxista, pode-se concebê-la como sendo uma forma sistematizada de falsa consciência, o conjunto de idéias, valores, sentimentos, representações ilusórias da realidade sendo condensadas de forma complexa (em ramos como filosofia, teologia, ciência) que tem por finalidade justificar sociedades baseadas em antagonismos de classe. (VIANA, 2008g, p.14). Compreende-se ideologia como o fenômeno no qual as idéias e representações que os indivíduos elaboram a respeito de suas realidades são tidas como sendo o próprio real, ou seja, o que os homens acabam produzindo em suas próprias mentes acaba se impondo às suas próprias mentes. (MARX; ENGELS, 2004a, p.7). Trata-se de uma forma imediata de conhecimento das relações sociais que não consegue superar os limites daquilo que é real e observável, uma visão meramente superficial, fazendo com que sejam tomados como causas dos fenômenos os seus efeitos, por isso mesmo uma visão distorcida da realidade social, introjetada pelas classes dominantes com o objetivo de universalizar e aparentar como imutáveis as relações de produção. Os aspectos fundamentais que possibilitam o aparecimento da ideologia são a separação entre trabalho manual e intelectual e a divisão da sociedade em classes sociais com interesse antagônicos, sendo que o efeito da primeira é basicamente a pretensão do ser consciente em representar algo realmente sem representar algo real, em outras palavras, tornar como existente e presente algo que não possui existência alguma e desta maneira deixando-se levar por dogmas e temas teoricamente sem uma parcela de mudança histórica ou material. Já o segundo aspecto faz com que as classes exploradoras sintam a necessidade de, para manter-se enquanto tais, apresentar seus interesses de classe com sendo válidos para todas as outras classes. Em conseqüência disto tem total precisão a afirmativa de que as idéias dominantes de uma sociedade são sempre as idéias das classes dominantes, posto que estas possuem o monopólio dos meios de produção e as relações decorrentes desta premissa devem ser aquelas que beneficiem e garantam esta situação, sendo a principal função da ideologia justamente fazer com que as pessoas não

74 consigam enxergar e perceber as mediações e contradições que formam a realidade na qual são sujeitos transformadores. Com efeito, a ideologia é "justificação", é um instrumento de dominação de classe, que serve para manter um dado modo de produção. (MARX; ENGELS, 2004b, p.56-57). Os indivíduos ou grupos sociais fabricantes das mais diversas formas de ideologia podem ser caracterizados por ideólogos e constituem-se como classe auxiliar da burguesia, cuja razão de ser está diretamente conectada à conservação do capitalismo. Com base nestas afirmações, restará demonstrado o papel do Direito em situações peculiares ao modo de produção capitalista, cujo aparecimento causa polêmicas entre os ideólogos e representantes do capital, assim como aos demais grupos e/ou classes sociais. Imaginando uma situação específica no Brasil como o aumento da criminalidade entre os menores entre 16 e 18 anos, qual seria a solução, à luz do Direito? Uma das hipóteses levantadas é a da elaboração de um dispositivo legal que viesse ao encontro da redução da maioridade penal. Ao fazer a conexão entre o que se conceitua aqui por ideologia e o referido assunto pode-se perfeitamente conceber esta medida como ideológica, pois, ataca tão somente os efeitos e não as causas reais do aumento da criminalidade e ainda mais, trata de obscurecer o real surgimento e gênese das práticas tidas como delituosas em indivíduos com a referida faixa etária (as contradições de modo de produção capitalista). Ainda que se defenda a tese de melhorias no sistema de educação, (com igual conotação ideológica e que só seria aplicável caso uma lei a regulamentasse, posto que se vive num “Estado Democrático de Direito”) não seriam combatidas as reais bases, uma vez que tal situação de certa forma propiciaria um abalo às relações de produção capitalistas.

3.2 PACHUKANIS: O DIREITO COMO REGULADOR DA PRODUÇÃO Entretanto, o Direito possui outro aspecto que não apenas o ideológico. Este pode ser compreendido de maneira mais ampla, para além da ideologia. Neste sentido é que o teórico russo Evgeny Bronislavovich Pachukanis, em sua obra intitulada Teoria Geral do Direito e Marxismo, lança luzes para outro papel cumprido pelo Direito no modo de produção capitalista. Pachukanis (citado por MENDONÇA, 2007f, p. 38) afirma em sua obra que o Direito: “não existe somente na cabeça das pessoas ou nas teorias dos juristas especializados; ele tem uma história real, paralela, que tem seu desenvolvimento não como um sistema conceitual, mas como um particular sistema de relações”. Em outra passagem de seu livro, comenta o autor que
O objetivo prático da mediação jurídica é o de dar garantias à marcha, mais ou menos livre, da produção e da reprodução social que, na sociedade de produção mercantil, se operam formalmente através de uma série de contratos jurídicos privados. Não se pode atingir este objetivo recorrendo

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unicamente ao auxílio de formas de consciência, isto é, através, através de momentos puramente subjetivos: é necessário por isso, recorrer a critérios precisos, a leis, e a rigorosas interpretações de leis, a uma casuística, a tribunais e à execução coativa das decisões judiciais. É por esta razão que não podemos limitar-nos na análise da forma jurídica à “pura ideologia”, negligenciando todo este aparelho objetivamente existente. (PACHUKANIS apud MENDONÇA, 2007g, p. 38-39).

Embora não despreze a componente ideológica do Direito, Pachukanis procura dar ênfase ao fato deste possuir como característica o papel de garantir, através da regulamentação, a produção e posterior reprodução da sociedade atual. Em suma, a lei tem por objetivo não apenas garantir a reprodução do modo de produção capitalista através da justificação ideológica de sua aplicação, mas acima de tudo conceber a plena manutenção das relações de produção capitalistas, notoriamente no que se refere à detenção da propriedade privada, além do respaldo às ações estatais que venham ao encontro dos interesses das classes dominantes, como a repressão aos proletários organizados e ao conjunto da classe operária quando esta toma consciência de suas tarefas históricas (basta analisar premissas como manutenção da ordem pública e dos bons costumes, presentes em praticamente todas as legislações ao redor do planeta). Com isso é rechaçada a tese de que alguns princípios aplicados ao Direito sejam concebidos como algo imutável. O Direito, assim como os demais corpos no âmbito da superestrutura, tem seu dinamismo regulado pelas relações de produção capitalistas, estas por sua vez dependentes diretamente do estágio no qual se encontram os conflitos entre as classes sociais em permanente enfrentamento, mas sempre assumindo um conteúdo conservador, embora sua forma tenda a variar em determinados períodos históricos. A função primordial do Direito é condicionada pela dinâmica do processo produtivo do mesmo modo que toda a superestrutura, sendo que tutelar a infra-estrutura e consequentemente legitimar as relações de produção capitalistas e ações do Estado no mesmo sentido são suas tarefas essenciais. O viés intrínseco das ideologias dominantes e seu papel legitimador do modo de produção capitalista no Direito repousa de igual maneira na mediação que este realiza no confronto capital-trabalho. O Estado Capitalista conseguiu desarticular os setores mais radicalizados do movimento operário no início do século XX, ao atrelar os sindicatos ao poder de Estado e reprimir duramente os militantes mais combativos das organizações operárias de muitos países. Na maior potência capitalista a atividade organizada e consciente dos operários chegou a ser tratada como crime e ainda que seja sustentada pela quase totalidade dos juristas que a justiça tem como dever equilibrar a relação capital-trabalho, não há como se conceber uma neutralidade nesta questão, posto que o modo de produção capitalista é fundamentalmente baseado em conflitos entre classes totalmente antagônicas tanto econômica quanto culturalmente, e uma posição como esta logo aparece como conservadora, uma concepção burguesa na medida em que dá garantia e sustentabilidade no âmbito legal à ordem social estabelecida.

76 No último capítulo deste artigo será analisado o conteúdo de classe do Direito expresso na doutrina burguesa, aprofundando a relação entre mercadoria e forma jurídica, bem como a impossibilidade de suas existências no modo de produção comunista, o qual será feito numa abordagem prospectiva, ressaltando suas deformações ocorridas ao nível teórico e prático, no decorrer do século passado.

4 CONTEÚDO DE CLASSE DO DIREITO E SUA INAPLICABILIDADE NO MODO DE PRODUÇÃO COMUNISTA 4.1 O DIREITO PARA ALÉM DA IDEOLOGIA Embora tenha sido ressaltado que a crítica marxista ao Direito possui não apenas um viés ideológico esta não restou tão aprofundada, de modo que neste capítulo lhe será dada a devida atenção, tecendo comentários sobre as observações do marxismo no tocante à existência do Direito e sua plenitude no atual modo de produção. Cabe afirmar que em nenhum outro modo de produção se constatou tamanha conexão entre o Direito e a sociedade quanto no capitalismo. Deste modo, Pachukanis afirma que este só procura atender às exigências do modo de produção capitalista, e que o Direito tal como é conhecido em sua amplitude surgiu concomitantemente ao aparecimento da mercadoria, esta detentora de total relevância nos marcos do capitalismo. O autor procura situar os Direitos concernentes aos modos de produção predecessores do capitalismo como detentores de formas jurídicas com diferenças bastante significativas, mesclando-se com regras de convivência, idéias no campo da moral e até da religião, de maneira que tais regras eram em geral muito indefinidas. (MENDONÇA, 2007h, p. 39). O aparecimento da mercadoria, ainda de forma incipiente, pode ser observado já no modo de produção feudal, porém sua consolidação e generalização ao conjunto das relações sociais ocorre nos marcos do capitalismo. Tal é a trajetória do Direito, segundo o entendimento de Pachukanis, de maneira que busca fundamentar sua tese na medida em que
A evolução histórica não implica apenas uma mudança no conteúdo das normas jurídicas e uma modificação das instituições jurídicas, mas também um desenvolvimento da forma jurídica enquanto tal. Esta, depois de haver surgido num determinado estágio da civilização, permanece, durante longo tempo, num estagio embrionário com uma leve diferenciação interna e sem delimitação no que concerne às esferas próximas (costume, religião). Foi apenas desenvolvendo-se progressivamente que ela atingiu o seu supremo apogeu, a sua máxima diferenciação e precisão. Este estágio de desenvolvimento superior corresponde a relações econômicas e sociais inteiramente determinadas. Ao mesmo tempo este estágio caracteriza-se pelo aparecimento de um sistema de conceitos gerais que refletem teoricamente o sistema jurídico como totalidade orgânica. A estes dois ciclos de desenvolvimento correspondem duas épocas de desenvolvimento superior dos conceitos jurídicos gerais: Roma e seu sistema de direito privado e os séculos XVII e XVIII, na Europa, quando o pensamento filosófico descobriu a significação universal da forma jurídica como potencialidade que a

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democracia burguesa era chamada a realizar. (PACHUKANIS apud MENDONÇA, 2007i, p. 39-40).

Depreende-se da seguinte análise que o Direito possui correspondência ao capitalismo, pois a forma jurídica corresponde à forma mercadoria. A forma jurídica nada mais é do que o reflexo da relação social entre indivíduos proprietários de mercadorias. Tomando por base a premissa que no capitalismo as relações entre indivíduos são antes de tudo relações entre proprietários de mercadorias e que por meio da troca e circulação destas se garante sua manutenção e reprodução, constata-se que em decorrência destas relações inerentes ao modo de produção capitalista surge a necessidade de um meio pelo qual haja sua regulamentação. A este respeito, Marx descreve o fato de que
as mercadorias não podem por si mesmas ir ao mercado e se trocar. Devemos, portanto, voltar a vista para seus guardiões os possuidores de mercadorias. As mercadorias são coisas e, conseqüentemente, não opõem resistência ao homem. Se elas não se submetem a ele de boa vontade, ele pode usar da violência, em outras palavras, tomá-las. Para que essas coisas se refiram umas às outras como mercadorias, é necessário que seus guardiões se relacionem entre si como pessoas, cuja vontade reside nestas coisas, de tal modo que um somente de acordo com a vontade do outro, portanto cada um apenas mediante um ato de vontade comum a ambos se aproprie da mercadoria alheia enquanto aliena a própria. Eles devem, portanto, reconhecer-se reciprocamente como proprietários privados. Essa relação jurídica, cuja forma é o contrato, desenvolvida legalmente ou não, é uma relação de vontade, em que se reflete a relação econômica. O conteúdo dessa relação jurídica ou de vontade é dado por conta da relação econômica mesma. As pessoas aqui só existem, reciprocamente, como representantes de mercadorias e, por isso, como possuidores de mercadorias. (MARX apud MENDONÇA, 2007j, p. 40-41).

A doutrina burguesa conceitua a norma jurídica como sendo a pedra angular do Direito, uma vez que seu conteúdo imperativo define as condutas a serem devidamente realizadas, bem como, os comportamentos nos quais haja proibição e em contrapartida autoriza àquele que se sinta lesado em detrimento da violação de determinada norma, a faculdade de exigir a reparação pelos eventuais danos causados ou a reposição das coisas ao estado em que se encontravam (DINIZ apud MENDONÇA, 2007k, p. 41-42). Entretanto, não é a norma que determina as ações dos indivíduos e sim a continuidade e repetição de algumas ações é que podem ser convertidas em normas. Neste sentido, afirma Pachukanis:
uma vez que toda a vida econômica se alicerça sobre o princípio do acordo entre vontades independentes, cada função social encarna, de maneira mais ou menos refletora, um caráter jurídico, isto é, torna-se simplesmente não só uma função social, mas também um direito pertencente a quem exerce tais funções sociais. (PACHUKANIS apud MENDONÇA, 2007l, p. 42).

A norma nada mais é do que uma abstração das ações praticadas de modo continuado entre indivíduos no processo de produção de mercadorias. Convém assinalar que apenas no capitalismo a norma adquire tal abstração. Sobre este fenômeno Pachukanis assim se remete:
Foi apenas depois do total desenvolvimento das relações burguesas que o direito passou a ter um caráter abstrato. Cada homem torna-se homem em

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geral, cada trabalho torna-se trabalho social útil em geral e cada sujeito torna-se um sujeito jurídico abstrato. Ao mesmo tempo, também a norma reveste-se da forma lógica acabada de lei geral e abstrata. (PACHUKANIS apud MENDONÇA, 2007m, p. 42).

Observa-se com base nestes entendimentos que o Direito pode ser definido de modo geral como um conjunto de normas que por sua vez refletem relações estabelecidas entre indivíduos livres e iguais no tocante à troca e circulação de mercadorias e cuja efetivação é garantida pelo poder de Estado. O Direito possui forma e conteúdo burgueses, de maneira que é impossível torná-lo proletário, uma vez que no comunismo serão estabelecidas novas relações de produção as quais propiciarão a destruição por completo da forma e do aparato jurídicos. Qualquer medida que venha ao encontro do fortalecimento do Direito é hostil ao conjunto dos produtores de riqueza que, desprovidos dos meios de produção, nada tem a oferecer além de sua força de trabalho para sobreviverem. (MENDONÇA, 2007n, p. 46). 4.2 O MODO DE PRODUÇÃO COMUNISTA E O FIM DO DIREITO O comunismo não tem nenhuma conexão com os regimes totalitários ocorridos no Leste Europeu durante a quase totalidade do século XX, ou com o que acontece contemporaneamente em países como Cuba, China, Vietnã e Coréia do Norte. Serão delineadas de forma bastante sintética algumas das componentes do modo de produção encontrado nestes países. Nestes locais houve e ainda existe (como é o caso de Cuba e da Coréia do Norte) o capitalismo de Estado, modo de produção no qual a totalidade dos meios de produção é do Estado, onde ocorre a estatização dos meios de produção, medida que em nada altera as relações de produção, fundamento essencial de um modo de produção, pois conserva os elementos que caracterizam a sociedade capitalista (produção e extração de mais-valor, existência de classes sociais com interesses antagônicos e do Estado, exploração do proletariado, dentre outros). Nestas sociedades os produtores continuam desprovidos da gestão dos meios de produção, sendo que esta é realizada pela burocracia estatal, classe social constituída em sua essência por membros e funcionários do Partido, que desempenham o mesmo papel que a burguesia clássica no capitalismo. Outra característica pertinente ao capitalismo de Estado é a mudança nas relações de propriedade, na qual o Estado passa além de exercer o papel de instrumento de submissão de uma classe por outra a deter em seu poder de forma única e generalizada a propriedade dos meios de produção. Se no capitalismo tem-se como fundamento o mercado a livre concorrência, no capitalismo de Estado a totalidade da produção e da vida social como um todo está nas mãos da burocracia, que dirige e controla o processo produtivo através dos planos. Nestas sociedades ocorreu apenas a mudança na superestrutura, uma vez que os mecanismos de controle social são executados diretamente pelo Estado, e onde se usa o marxismo (expressão teórica do movimento operário) como mera ferramenta ideológica, bem como as bases essenciais da sociedade capitalista permanecem inalteradas. Tal deturpação tem origem na ideologia da conquista do poder estatal forjada pelo partido oriunda do pensamento bolchevique, além da idéia de que cabe à vanguarda do

79 proletariado realizar a revolução social, o que contradiz totalmente a idéia de Marx segundo a qual a emancipação da classe operária será obra da própria classe operária. Já o modo de produção comunista é resultado da revolução proletária, processo no qual o proletariado através da sua luta auto-organizada subverte e transforma de maneira radical as relações de produção capitalistas e generaliza as relações sociais decorrentes desta transformação para todo o conjunto da sociedade, cuja realização destrói o aparelho estatal como um todo, onde ocorre a socialização dos meios de produção, ou seja, a propriedade dos meios de produção passa a ser efetivamente dos produtores, eliminando com isso a divisão social do trabalho, responsável pelo processo de alienação da classe proletária, desaparecendo os antagonismos resultantes da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. Em tal sociedade quem planeja a produção é a mesma totalidade de pessoas que posteriormente a executa. As relações entre os indivíduos no processo de produção serão totalmente igualitárias, no sentido de não existir mais exploração econômica, dominação política, opressão, diferenças entre o campo e a cidade e a divisão social do trabalho. Todos produzem e possuem total gestão da produção e, por conseguinte de toda a vida social. Por não haver classes nem relações sociais pautadas na produção e distribuição de mercadorias, inexiste a necessidade de instituições como o Estado e o Direito, as quais somente possuem real razão de ser em sociedades assentadas em antagonismos de classe, sendo que esta última alcança seu ápice a partir do desenvolvimento e consolidação do modo de produção capitalista. (MENDONÇA, 2007o, p. 34).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Desde a constituição das sociedades de classes, com o aparecimento fundamental da propriedade privada como condição de suas existências, as classes dominantes sentiram a necessidade de estabelecerem certa regulamentação no âmbito das leis, com o intuito de dar sustentabilidade ao modo de produção (notoriamente ao controle social por intermédio da ideologia). Entretanto, as formas jurídicas puderam alcançar seu grau mais elevado com o surgimento da mercadoria, fato que propiciou a correspondência total entre ambas, visto que, no capitalismo a mercadoria ocupa um papel preponderante e neste modo de produção impera a lei do valor e como esta relação possui abstração no tocante à materialização do trabalho, o Direito, por sua vez também possui um alto grau de abstração e isto pode ser evidenciado quando de uma análise do princípio da igualdade, o qual consagra inúmeras normas de conduta social. Este fato analisa a forma jurídica como reflexo das relações entre os proprietários de mercadorias, e como o capitalismo tem por especificidade a produção e circulação incessantes de mercadorias, o Direito é o espelho deste processo, ao observar a significação da norma esboçada neste artigo. Com base no que foi abordado no decorrer destes escritos e coerentemente com os argumentos utilizados, não há como pensar um aparato coercitivo surgido do desenvolvimento dos conflitos entre as classes e cujo propósito vem a ser somente a

80 manutenção da exploração econômica numa sociedade onde não mais existam classes sociais e Estado. Embora as classes sociais que possuem em suas mãos o poder econômico procurarem sempre a conotação mais favorável aos seus interesses às terminologias que reivindicam valores universais como a justiça, resta aqui sustentar a afirmativa de que um mundo realmente justo passa pelo fim do Direito.

REFERÊNCIAS PANNEKOEK, Anton. A Revolução dos Trabalhadores. http://ruivabarba.googlepages.com/home: Barba Ruiva, 2007. 1. ed.

VIANA, Nildo. Manifesto Autogestionário. 1. ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 2008. ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 15. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. MENDONÇA, José Carlos. A Ideologia do Socialismo Jurídico. 1. ed. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007. CEDAC, Coleção Brasil dos Trabalhadores-4 A Acumulação do Capital. 1. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1981. MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã 1º Capítulo seguido das Teses Sobre Feuerbach. 7. ed. São Paulo: Centauro, 2004.

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Para Compreender o Capitalismo Contemporâneo
Resenha do Livro “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral”

Marcos Lopes*

A sociologia e as ciências humanas na contemporaneidade possuem um grave problema: a falta de referenciais teóricos abrangentes que forneçam uma base explicativa da realidade do capitalismo contemporâneo. Sem dúvida, existem muitas obras (sociológicas e de outras áreas) sobre a realidade contemporânea, a “modernidade”, e outros temas. Porém, é necessário reconhecer uma limitação grave na grande maioria destas obras, seja por sua base teórico-metodológica, seja por suas deficiências analíticas próprias. Grande parte da produção sociológica sobre o mundo contemporâneo se fundamenta em teorias e métodos limitados, que, obviamente, irá promover uma limitação na explicação da realidade contemporânea. Muitos caem num factualismo ou empiricismo que compromete a percepção da realidade concreta, outros caem em especulações e abstrações que não colaboram no processo de compreensão da realidade contemporânea, sendo mais ficções do que realidade. Isso, em parte, é derivado do mundo cultural que nos cerca, os modismos, as representações cotidianas e a ideologia dominante, acaba sendo um obstáculo para uma visão mais ampla da realidade. Por outro lado, a própria complexidade das relações sociais e seu caráter mutável, é outro obstáculo. Assim, para o indivíduo conseguir perceber as relações sociais em que vive e como elas se formaram, é algo extremamente difícil. A obra recém lançada de Nildo Viana, O Capitalismo na Era da Acumulação Integral, é uma exceção. O autor oferece uma grande contribuição para se pensar o capitalismo contemporâneo. Para tanto, a obra conta com uma forte base teórico-metodológica, já desenvolvida pelo autor em outras obras, o que é um diferencial em relação a vários outros livros sobre o mundo contemporâneo. O autor não cai no empiricismo em momento algum, mostra as mudanças sociais e históricas, a continuidade e descontinuidade, bem como não fica num processo de criação de categorias abstratas que pouco acrescentam numa análise crítica e que revela os problemas e questões sociais que hoje enfrentamos. Também não cede ao processo fácil e recorrente de ficar
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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

82 citando sempre os mesmos autores para explicar a realidade social contemporânea, num “eterno retorno do mesmo discurso”, onde a ousadia intelectual e criatividade fica ausente e aí vem os repetidores dos “grandes nomes” para dizer sempre o mesmo, tal como os grandes nomes fazem. A obra de Viana não se limita a repetir o jargão e o discurso corrente de uma determinada ala acadêmica que se diz marxista e que estão sempre dispostos a cultuar autores da moda e salvadores da pátria da esquerda tradicional ou supostas alternativas e, assim, não se encontrará em tal obra a referencia a autores como Kurz, Meszaros e Chesnais. Também não se rende a uma necessidade de subordinação aos modismos e autores consagrados pelos grandes nomes da sociologia contemporânea (Giddens, Bauman), tanto pelo fato do autor não ser apenas sociólogo, sendo também filósofo, mas principalmente não se restringir a um mundo especializado e unilateral. Para aqueles que conhecem suas outras obras, sabem que o autor não só questiona a especialização do trabalho intelectual como adentra em inúmeras temáticas e disciplinas, o que o torna uma pessoa mais do que indicada para realizar uma abordagem da totalidade das relações sociais sob o capitalismo contemporâneo. É por isso que o autor consegue, dialeticamente, trabalhar a categoria de totalidade e entender o capitalismo como tal – indo além da mera análise chamada “econômica”, mas mostrando as relações recíprocas entre as mutações do processo de produção e as políticas estatais, as relações internacionais, as manifestações culturais. O autor faz uma análise do capitalismo contemporâneo e realiza sua periodização, dando conta de explicar não somente o processo histórico do capitalismo, como suas mutações e características específicas em cada período. Através da noção de regime de acumulação, retomada e ressignificada a partir da escola da regulação e Benakouche, dotando o termo de caráter social e não economicista, incluindo o Estado, a organização do trabalho e as relações internacionais, apresenta o desenvolvimento histórico do capitalismo e focaliza o modo atual, o regime de acumulação integral, marcado pelo neoliberalismo, toyotismo, e neo-imperialismos (globalização, termo amplamente criticado em uma parte da obra). O autor, no primeiro capítulo, apresenta as suas bases teóricas ao discutir a teoria dos regimes de acumulação. Além de discutir algumas das várias propostas de periodização do capitalismo, mostrando seus limites, o autor esclarece o conceito de regime de acumulação e oferece sua periodização que aponta para o entendimento de que a história do capitalismo é marcada por uma “sucessão de regimes de acumulação”, tal como Marx já havia percebido que a história da humanidade é marcada por uma sucessão de modos de produção. Na seqüência, o autor passa a tratar, o que é objeto de sua obra, do atual regime de acumulação. O regime de acumulação integral tem como elementos básicos e definidores a organização do trabalho comandada pelo toyotismo, a formação estatal de caráter neoliberal e por novas relações internacionais que instituem um neoimperialismos. Ele dedica a cada um destes elementos componentes do regime de acumulação integral um texto específico. O texto sobre neoliberalismo é excepcional, inclusive com críticas precisas e corretas a Perry Anderson e outros intérpretes. O autor mostra que o neoliberalismo não é mera aplicação de uma doutrina (surgida na década de 1940) e sim produto de necessidades do capital e são estas que constrange a retomada de ideologias produzidas em outras épocas, bem como a criação de novas e misturas que a realidade concreta da organização estatal produz. Assim, dizer que determinado governo não é neoliberal porque não se encaixa na ideologia de um determinado autor é um equívoco que a partir destas reflexões perde razão de ser.

83 O texto sobre toyotismo é revelador e crítico. Além de discutir a gênese do toyotismo e recuperar o significado do processo de trabalho no capitalismo, que é processo de valorização, e questionar o “léxico dominante” (o que fará em vários outros momentos do livro no que se refere a várias palavras e supostos conceitos da moda), especialmente a falácia da suposta “flexibilidade” (um eufemismo que é aplicado a tudo e não explica nada, escondendo o caráter nada flexível das mudanças do mundo do trabalho). O objetivo do toyotismo e tudo que se relaciona com a chamada “reestruturação produtiva” é aumentar a extração de mais-valor absoluto e relativo, que, para se realizar, precisa do Estado Neoliberal, seu complemento necessário. O texto sobre neo-imperialismos é esclarecedor, inclusive mostrando as especificidades dos Estados Unidos. Mostra a necessidade contemporânea do capitalismo de aumentar o processo de exploração a nível nacional e mundial, tanto nos países de capitalismo subordinado quando nos países imperialistas e a ampliação da exploração internacional. O autor não se limita a analisar a base real das mutações contemporâneas, ou seja, a mudança nas relações de trabalho, políticas estatais e relações internacionais, e, na segunda parte da obra faz uma análise crítica e extremamente útil de determinadas ideologias contemporâneas. Além da crítica de Toni Negri e da ideologia da crise da sociedade do trabalho, há dois textos que se destacam: a crítica ao pós-modernismo e à ideologia da globalização. A análise do pós-modernismo, além de mostrar que é uma “armadilha ideológica” e que não se deve tomar o discurso pelo o que ele diz ser, retoma as origens históricas de um conjunto de ideologias que emergem a partir do novo regime de acumulação e servindo aos interesses de reprodução deste. Ao analisar a gênese do que o autor denomina “pós-vanguardismo”, a manifestação da ideologia “pós-moderna” na esfera artística, e do “pós-estruturalismo”, a sua expressão na esfera científica, coloca em evidencia sua razão de ser e sua ligação indissolúvel com as mudanças sociais e históricas do capitalismo. A crítica da ideologia da globalização, que retoma os questionamentos de Bourdieu, Bauman e Forrester, indo além delas, coloca em evidência mais uma produção ideológica que cria fantasmagorias ideológicas para obscurecer uma real compreensão do mundo contemporâneo. Neste ponto, para quem não leu o livro, se daria por contente e entenderia que o autor faz uma introdução teórica que abre espaço para analisar o modo de produção capitalista em sua atualidade e sua íntima relação com a formação estatal e exploração internacional e também o mundo das ideologias, fornecendo um quadro geral da sociedade contemporânea. Porém, o autor não para por aí. Se desde o início as conseqüências sociais (aumento da pobreza, desemprego, entre outras), a última parte do livro focaliza as lutas sociais e as mutações que ocorrem neste contexto. Uma discussão crítica sobre a ideologia da exclusão social e a análise do processo de lumpemproletarização é realizada e seguida por uma análise das lutas sociais contemporâneas, lutas no México, Argentina, Europa, ação da classe dominante e das classes exploradas, indo até as lutas culturais, da auto-ajuda até o microreformismo e retomada de autores e concepções marginais (anarquismo, conselhismo, situacionismo) e pela necessidade capitalista de reprodução ampliada do mercado consumidor. O exemplo dos animais domésticos transformados em mercadoria que constrangem os indivíduos a comprarem outras mercadorias (ração, remédios, etc.) e o caso do computador que realiza o mesmo constrangimento, é útil para muitas pessoas refletirem sobre as ideologias da liberdade absoluta do indivíduo. Assim, as lutas sociais no México, o chamado “movimento antiglobalização”, a rebelião na Argentina, são colocados no interior de um quadro teórico e analítico que supera a mera descrição e mostra as bases e tendências das lutas sociais. Sem um grande

84 aprofundamento nestes casos específicos, já que não era o objetivo do trabalho uma análise pormenorizada e profunda de cada caso específico e sim a inserção destas lutas num movimento tendencial, revela o que gera tais lutas e como elas reconfiguram as manifestações culturais, ao mesmo tempo que são atingidas por estas. A ação estatal e o processo de violência e aumento da repressão, por um lado, e novas políticas estatais marcadas por um microrreformismo, são apresentados não como produto do acaso e sim como resultado de lutas sociais no interior de um novo regime de acumulação. A conclusão final do livro é surpreendente: enquanto muitos acham (e declaram) que o capitalismo está em crise, que as lutas na Argentina e México são os grandes exemplos a serem seguidos, que as revoltas na França ou o movimento antiglobalização é um novo movimento que veio para ficar, o autor afirma que, no fundo, não há nenhuma crise do capitalismo atualmente e que este continua se reproduzindo normalmente, assim como as lutas sociais contemporâneas (revoltas na Europa, rebeliões, etc.) são apenas as novas lutas cotidianas e ainda limitadas que tendem a se radicalizar com o continuidade do regime de acumulação integral, que tal como os outros regimes de acumulação anterior, não é eterno e também entrará em crise e que, todas as vezes que um regime de acumulação entra em crise, abre-se a possibilidade de sua transformação em crise do capitalismo, e, assim, torna-se possível a libertação humana e a autogestão social. Enfim, é uma obra que aborda um conjunto de questões e numa concepção totalizante. A categoria de totalidade, defendida e explicitada pelo autor em outras obras, se corporifica neste livro e oferece uma rara contribuição para se repensar o mundo contemporâneo. E acaba se revelando uma obra como poucas produzidas na sociologia brasileira, tornando-se leitura fundamental para todos os cientistas sociais e pessoas preocupados com o destino da humanidade.

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Século 21: Fim da Sociedde do Trabalho ou Intensificação da Jornada? Resenha do Livro “Mais Trabalho!”

José de Lima Soares*

Sadi Dal Rosso é professor titular de Sociologia da Universidade de Brasília. Ao longo de várias décadas vem desenvolvendo sua pesquisa sobre os seguintes temas: condições de trabalho, jornada de trabalho (história, duração, flexibilidade, intensidade, horas extras, redução de jornadas), sindicato (história, greves, reformas), transformação da força de trabalho na agricultura, educação superior (gratuidade, democratização, publicidade), movimentos sociais, método de pesquisa e teoria. Tem conseguido conciliar a militância sindical em defesa da luta dos professores por melhores condições de vida e trabalho (ANDES-SN), com a tarefa de pesquisador das condições de trabalho no Brasil, coordenando inúmeros projetos de investigação nessas áreas, tendo publicado, em 1996, o livro A jornada de trabalho na sociedade: o castigo de Prometeu, que se constituiu em uma referência obrigatória para os estudiosos da sociologia do trabalho. O novo livro de Dal Rosso vem a lume em um momento em que o sistema capitalista passa por uma profunda crise. Crise esta que acaba afetando o conjunto dos trabalhadores em todo o mundo. Nas últimas décadas, muito tem se debatido a respeito das mudanças no mundo do trabalho, da centralidade do trabalho e, até mesmo, do fim da sociedade do trabalho. Concomitantemente, tem-se falado de crise do trabalho, crise do capital, crise do capitalismo. Temas como a questão da jornada de trabalho, o controle dos tempos e movimentos pelo capital, trabalho produtivo e trabalho improdutivo, trabalho material e trabalho imaterial, os padrões de gerenciamento, os novos processos de trabalho e, conseqüentemente, a intensidade do trabalho tem servido de fontes de pesquisa para várias áreas do conhecimento científico, mas, sobretudo para a sociologia. Na contextualidade desse quadro, o trabalho de Sadi dal Rosso adquire uma dimensão importante. Não apenas traz à tona o debate da sociedade do trabalho, mas demonstra, com profundidade, como vem se manifestando a ofensividade do capital sobre o
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Doutor em Sociologia Política/UFSC. Professor do Instituto Federal de Goiás/IFG.

86 trabalho e de como a intensificação do labor tem afetado os trabalhadores no âmbito da sociedade contemporânea. Intensificação esta que perpassa o universo de todas as categorias de trabalhadores assalariados, além das implicações sobre a subjetividade, envolvendo problemas de saúde, de precarização das condições materiais de existência. O trabalho se divide duas partes (V capítulos). Uma que trata da base conceitual da intensidade do trabalho e da construção histórica da noção de intensidade do trabalho envolvendo os padrões de acumulação taylorista-fordista, passando pela acumulação flexível e o toyotismo; e a segunda parte, que trata exaustivamente da intensidade do trabalho, ao examinar e estudar em profundidade as fontes de dados, relacionando-as com a intensificação nos bancos, telefonia e comunicação, supermercados, ensino privado, construção civil, serviço público. O que fica evidente é que o capital, trabalho morto, submete mais e mais os trabalhadores a jornadas extenuantes, levando-os as condições as mais alienantes e brutalizadas. Ao desenvolver o conceito de intensidade do trabalho, o autor procura destacar que tal intensidade está diretamente ligada ao dispêndio de energias realizado pelos trabalhadores na atividade concreta. Nesse sentido, é possível observar que: “Há intensificação do trabalho quando se verifica maior gasto de energias do trabalhador no exercício de suas atividades cotidianas. Quando se trata de trabalho físico, os resultados aparecem em medidas tais como maior número de veículos montados por dia por pessoa etc. Quando o trabalho não é físico, mas de tipo intelectual, como no caso do pesquisador, ou emocional, como o que ocorre com o educador e a enfermeira, os resultados podem ser encontrados na melhoria da qualidade mais do que na quantidade de pessoas atendidas” (p. 21). Em Mais trabalho! Sadi Dal Rosso procura desmistificar a concepção neoliberal ditada pelos sicofantas do capital que seguem insistindo que chegamos ao fim da sociedade do trabalho e que só nos resta agora nos contentarmos com o que o mundo do capital pode nos ofertar. Como bem define Antonio Cattani (p. 9), na apresentação do livro: “A obra Mais Trabalho! é um desmentido cabal às interpretações apologéticas da superioridade do capitalismo e às teses equivocadas sobre o fim da centralidade do trabalho, sobre o surgimento da "sociedade da inteligência" ou da "comunicação", de um capitalismo pósindustrial sem trabalhadores”. A partir de uma análise marxista, consistente, rigorosa Dal Rosso desvenda a lógica destrutiva do capital, ao se indagar, por exemplo: “A quem serve o aumento da carga de trabalho no mundo contemporâneo? Quem se beneficia da intensificação da produtividade e do ritmo dos trabalhadores? Com certeza não são os próprios trabalhadores, que sofrem com os efeitos da dinâmica capitalista de elevar qualitativa e quantitativamente a produção a qualquer custo. É essa a lógica destrutiva do capital no início do século XXI! O autor ainda se propõe a descrever, com propriedade, as cobranças e práticas por maior qualidade, produtividade, eficiência, agilidade e velocidade as políticas implementadas pelas empresas públicas e privadas que acabam por esconder o movimento de intensificação do trabalho. Assim, a partir de uma profunda análise crítica das chamadas novas práticas de gestão, do que Dal Rosso chama de “ordem geral dos acontecimentos e sua conexão intrínseca” passando a discorrer sobre os movimentos determinantes do processo de intensificação do trabalho. O autor observa que o primeiro movimento diz respeito às práticas que objetivam aumentar o rendimento do trabalho – por alongamento de jornada, aumento do ritmo e velocidade, flexibilidade ou intensificação do trabalho – são concebidas e desenvolvidas no setor privado por agentes visionários que se valem da linguagem messiânica para gerar convencimento sobre os saltos de produtividade obtidos; o segundo movimento

87 onde é possível observar que técnicas assim geradas e testadas difundem-se rapidamente no mundo da economia privada e das empresas públicas, uma vez que as empresas buscam beneficiar-se dos novos ganhos de produtividade e, por fim, o terceiro movimento, onde, de acordo com o autor, ao serem implantadas nas empresas privadas e públicas, as práticas estão prontas para ser transferidas ao setor público, mesmo, em ambos os casos, enfrentando resistências (pp. 182-183). Com argumentos consistentes e investigação rigorosa, Sadi desafia aqueles que acreditam no fim da centralidade do trabalho e no surgimento de uma nova sociedade sem trabalhadores. Tomando como núcleo de sua pesquisa a realidade social de Brasília, cidade sem tradição de trabalho industrial, Sadi Dal Rosso apresenta as conseqüências negativas do excesso de trabalho, onde a cobrança por resultados e a exigência de versatilidade cobram custos altíssimos da saúde física e emocional dos trabalhadores. A obra desenvolve conceitos como intensidade do trabalho, a relação deste fenômeno com os trabalhadores e as conseqüências deste para a sociedade. O trabalho nos chama atenção pela vasta Bibliografia pesquisada, onde autor dialoga com grandes teóricos do marxismo e da esquerda, demonstrando a atualidade do pensamento de Marx, bem como dialogando com estudiosos da sociologia do trabalho, dentre eles, Claus Offe, André Gorz, Mészáros, além de uma vastíssima bibliografia de estudiosos da intensificação do trabalho certamente ignorada do público brasileiro. Chegando a conclusões originais, o livro Mais trabalho! demonstra empiricamente a atualidade da luta de classes, apontando quais segmentos sociais ganham com o enfraquecimento e a fragmentação das forças sociais do trabalho. O livro, pela a originalidade da pesquisa e do tema, deve ser indicado para todas as áreas das ciências humanas, bem como para todos aqueles que lutam não apenas contra a intensificação da jornada, a precarização do trabalho e a exploração da força de trabalho, mas para todos que aspiram a construção de uma sociedade, com bem lembra Istvan Mészáros, para “além do capital”, onde não haja lugar para a exploração do homem pelo homem e que o “livre desenvolvimento de cada um seja o livre desenvolvimento de todos”.

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO
A revista eletrônica Sociologia em Rede, editada semestralmente pelos participantes da Rede Social Sociologia em Rede, aceita propostas de artigos e resenhas para publicação. A revista mantém uma seção temática especial a cada número e uma seção livre de artigos sobre temas diversos da área de sociologia e afins. Os artigos e resenhas serão submetidos à avaliação do Conselho Editorial, ao qual cabe a decisão final sobre sua publicação. O editor após receber o parecer dos consultores, que pode aprovar, reprovar ou aprovar com sugestões de modificações, envia o resultado para o autor, que deve realizar as alterações no prazo estabelecido para não atrasar o lançamento periódico da revista, se estiver incluído na seção temática de um número (caso não esteja poderá ser publicado em números subseqüentes). O recebimento dos artigos para avaliação prevê, também, as seguintes normas: 1. Deve ser entregue uma cópia digital do artigo ou resenha via email abaixo especificado. 2. O texto deve estar digitado no programa processador de textos Microsoft Word for Windows versão 2000 (9.0), ou superior, com espaçamento entrelinhas duplo, fonte Times New Roman em corpo 12, margens padrão do Word, formato a4, sendo que os artigos devem ter de 10 a 30 páginas e as resenhas de 2 a 6 páginas. As resenhas devem conter um título e um subtítulo no qual explicita ser resenha de qual livro41. 3. No final do texto devem constar 02 (dois) resumos de, no máximo, 05 (cinco) linhas, sendo um em português e o outro em esperanto. Junto aos resumos devem constar, ainda, 03 (três) palavras-chave. (OBS: não serão aceitos trabalhos para avaliação sem os respectivos resumos e palavras-chave). No caso do esperanto, poderemos providenciar a tradução, desde que seja solicitado via email ao apresentar a proposta de publicação do artigo. 4. As citações, quando existirem, caso excedam a extensão de 03 (três) linhas devem estar destacadas do corpo do texto. 5. As referências bibliográficas existentes no corpo do texto devem seguir o sistema autor/data. Exemplo: (Korsch, 2009, p. 25). 6. A relação da bibliografia consultada para a elaboração do trabalho, cuja presença ao final do texto é obrigatória, deve conter todas as obras mencionadas nas referências do corpo de texto e nas citações. 7. O artigo ou resenha deve conter, ainda, em sua primeira página, como nota de rodapé, o vínculo institucional do autor, podendo conter também titulação e principais publicações (livros). 8. Os trabalhos deverão ser enviados para o seguinte endereço:

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Exemplo: “Tempo e Trabalho – Resenha do livro A Jornada de Trabalho na Sociedade” e em nota de rodapé os dados do livro: DAL ROSSO, Sadi. A Jornada de Trabalho na Sociedade. O Castigo de Prometeu. São Paulo, LTr, 1996.

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9. A Revista Sociologia em Rede também recebe livros para resenhas/ divulgação de lançamentos e outras comunicações, que devem ser enviados (as) para o editor da revista, pelo mesmo email para envio de propostas de artigos e resenhas.