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Geografia e Literatura: a

paisagem geográfica e ficcional
em Morte e Vida Severina de
João Cabral de Melo Neto

José Elias Pinheiro Neto
 joseeliaspinheiro@hotmail.com

Resumo
Atualmente, é muito grande o interesse em estudar obras literárias
analisando-as a partir de uma abordagem geográfica. Essa junção
aparece como uma ideia primeira de valorização e recuperação de
categorias da Geografia que estão descritas em fontes literárias, as
quais demonstram como a vida humana é percebida em todos os
lugares, sejam os que nos rodeiam ou os mais distantes de nós e,
ainda, os que possamos imaginar. Em qualquer situação, é o
sentimento de ver o mundo que dá subsídio ao escritor para criar
e levar até o leitor a percepção da realidade. Esta imaginação cria

Boletim Campineiro de Geografia. v. 2, n. 2, 2012.

experiências humanas com a natureza e dá ao geógrafo a
construção de imagens mentais que influenciam na intrínseca
relação entre o homem e o meio. Este trabalho descreve alguns
aspectos da percepção da paisagem no poema Morte e Vida
Severina, escrito por João Cabral de Melo Neto e publicado no ano
de 1956. O texto cabralino narra uma história de saída do homem
nordestino do sertão, interior do país, passando pelo agreste, para
chegar até a zona da mata, lugar em que tenta buscar a
sobrevivência e a tranquilidade úmida da vida.
***
PALAVRAS-CHAVE: paisagem, Literatura, Geografia.

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algumas considerações sobre a abordagem literária para o estudo da Geografia. cada forma vista. numa . n. passo a passo. Cada ser humano sente o mundo de maneira particular. nem mesmo para duas pessoas residentes na mesma localidade. quando a Geografia se institui como ciência. mister se faz explicar que a figura do homem está contida na natureza porque. Nosso estudo faz. biológico. tendo como aporte a arte literária. Santos (1997). v. as reações humanas diante da natureza. Aí estão entrelaçados os símbolos. Foi a Geografia Cultural que se pôs a discutir o imbricar que resulta entre o natural e o cultural. explicando que a natureza não está formada apenas pelo que se tem de físico. para entender a imagem a ser decodificada. Esse concretismo literário se dá em toda a construção poética de Melo Neto. escreve que as características humanas sobrepõem as físicas. a partir de uma revisão da geografia da literatura que trata da percepção e da experiência subjetiva da paisagem. p. mostrará como Severino descreve as imagens e o meio social. demonstrando a importância dessa categoria. apontar que o poema de Melo Neto. O texto propõe uma apreciação da poesia de João Cabral de Melo Neto. o fazer poesia era como uma construção predial. os desejos. antes de tudo. as crenças. formando um contexto de sociedade. 2012. Para o autor. Aqui. O que se busca com este texto é. 2. 2. é. mas sobretudo e também pela interação com o ser humano. explicando sobre natureza social. além de mostrar a importância do estudo geográfico. poderia levar mais de um ano para finalizar um poema. as atitudes e os pensamentos que nunca serão iguais. as ações. 15). A história que envolve toda sua trajetória no decorrer da existência é que constrói e seleciona. A discussão a ser feita. 1997. parte integrante do que se tem como natural. dessa forma. onde esta é continente e conteúdo do homem.José Elias Pinheiro Neto Introdução Existe uma relação muito forte entre a imagem e a experiência de vida daquele que decifra o que vê. Há o que ele chama de sobrenatural (não-natural). por esse motivo. ele é animal. 323 Boletim Campineiro de Geografia. O autor diz que “referimo-nos ao que podemos chamar de sistemas de natureza sucessivos. percepção da paisagem. percepções. Isso porque Severino descreve as paisagens vistas/sentidas pela concretude cabralina. antes de tornar-se o ser social que é. a realidade esmagadora e as perspectivas” (SANTOS. no homem. incluindo os objetos. com relações entre seus pares. não de forma aprofundada. antes vividos pelo poeta e depois pelo protagonista do poema dramático. por etapas. O termo paisagem vem sendo discutido desde o século XIX.

do goiano Brasigóis Felício. Esse imbricar entre Geografia e arte já chama a atenção dos geógrafos há muito tempo.. que no ano de 1956 publica. Pierre Monbeig (1940). passando pelo agreste. Nessa obra. um dos poemas mais geográficos da literatura brasileira. Por sua vez. Fernando Segismundo (1949) e Yi-Fu Tuan (1947). do também escritor goiano Bernardo Élis. 2. como bem nos ensinam Marandola Jr e Gratão (2010) — especialmente a Literatura tem sido o melhor aporte para esses cientistas. Marandola (2007) traça o caminho percorrido por Severino. a caatinga. sua fuga da morte e a busca por mais vida. escrito em versos. podemos apontar alguns: Ferreira (1990) defende sua dissertação analisando. Nesse périplo. 85). No Brasil. Cirqueira (2011) identifica as paisagens na obra “Veranico de Janeiro”. Sousa (2008) analisa e faz uma apresentação da cidade de Goiânia. compreendendo-os sob a luz subjetiva dos escritores/poetas: “assim o fizeram John K. e Gratão (2010). O texto é um auto de natal. Os trabalhos “desenham” o sertão nordestino: a seca. “Literatura e Paisagem: perspectivas e diálogos”. por último. Todas essas obras apresentam trabalhos diversos que convergem para o mesmo tema: Geografia. p. apresentamos três obras que são especificamente direcionadas ao estudo em tela: “Geografia e Boletim Campineiro de Geografia. “Geografia. o autor descreve a jornada de Severino. 2007. comparando o rio com o homem. entre vários trabalhos. seca e água. a percepção geográfica da paisagem dos gerais. organizado por Marandola Jr. paisagem e lugar. depara-se com as mais variadas paisagens 324 . com o intuito de estudar categorias como região. para citar apenas alguns” (MARANDOLA JR. 8). como objeto de pesquisa. organizado por Alves e Feitosa (2010) e. dentro de seus textos. n. apresenta relações que aproximam a ciência da arte. GRATÃO. esse estudo também se desenvolve há alguns anos. Literatura e Arte: reflexões”. Literatura: Ensaios sobre geograficidade. e o autor escolhido para esta pesquisa é João Cabral de Melo Neto. v. Wright (1924). a descida tanto do rio quanto do homem em busca de mais vida — provocando questionamentos.. poética e imaginação”. a monocultura. Ainda nesse sentido. A autora faz um contraponto entre morte e vida. assim como toda a sua poética. 2010. p. 2012. e como objeto para sua pesquisa utiliza a obra “Viver é devagar”. Literatura e arte. e ainda “pintam” as relações sociais advindas da força do sertanejo e do rio Capibaribe. porque a cada medida vão se formando sucessivas paisagens. Abordamos o estudo geográfico da paisagem tendo como corpus a Literatura. organizado por Silva e Silva (2010). afirmando que “até os rios são severinos” (MARANDOLA. com marcantes características narrativas. dentro da obra “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa. até chegar à zona da mata.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina.. 2. que sai do interior do sertão brasileiro. intitulado Morte e Vida Severina.

na formação do espaço geográfico. cidade e indivíduo. apresentaremos um breve estudo sobre a relação entre Geografia e Literatura. sem perder seu teor científico. sociais. 1999. Nesse sentido. Nesse sentido. que ocorrem entre os seres. econômicas. um desses aspectos é o espaço. podemos perceber a relação existente entre o homem e o lugar em que vive. Essa realidade é fruto das relações. É uma transdisciplinaridade de grande relevância. com o objetivo de buscar outras fontes para a identificação de suas categorias. que diminuir sua essência. em suas categorias que a sustentam enquanto ciência. como bem nos ensina Suzuki (2010). 2012. ao tomar como objeto de sua pesquisa a poesia de Carlos Drummond de Andrade para estabelecer uma relação existente entre modernidade. p. tanto fictício quanto real. entre outras. perceptível na forma com que lida com os diversos aspectos da vida do homem. mesmo resultando da ficção. ou ainda com outras ciências. o referido autor analisa a composição do ser e de suas partes no contexto citadino a partir do poema “A Rosa do Povo”.José Elias Pinheiro Neto e as demonstra pelo caminho. A arte enquanto mimese aproxima-se do real. O autor aproveita para. sem . Essas relações. Reflete seus (des)sabores. escreve que: 325 Boletim Campineiro de Geografia. já naquela época. No trabalho. Esse sentimento é despertado pela percepção social que forma as representações das paisagens ou de imagens filtradas pela percepção humana. na qual o pesquisador constroi e identifica o espaço e a paisagem real. fingir é revelar” (CASTRO. 2. não está impedida de fazer uma ponte com as outras áreas de conhecimento. sejam elas culturais. n. coletando informações preciosas em obras ficcionais. como a arte. são partes integrantes do imbricar que o indivíduo e/ou grupo sentem do lugar em que estão/estiveram. 48). aportar na Literatura. podemos entender que a Literatura é um dos caminhos para se compreender o mundo. Por meio das ações e sentimentos do personagem ficcional. está diretamente ligada às experiências vividas. 2. A Literatura como corpus para o estudo da Geografia A Geografia. “Por isso a ficção é tanto mais real quanto mais for ficção. como é o caso da Literatura. Isso se dá porque o texto está além do escritor. Então a Geografia pode. na fala dos personagens. objetivando dinamizar e compreender melhor seus procedimentos sob diversas abordagens. para então identificarmos no texto cabralino a categoria geográfica no nordeste brasileiro. v. denunciar a grilagem e o abuso dos grandes na tomada da terra daqueles que conseguiam apenas arrancar um roçado das cinzas. A seguir.

“a geografia do romance nos diz que a nossa humanidade não vive na gelada abstração do separado. cujos vínculos foram sendo construídos na história de um e de outro (SUZUKI.. 2010. social. A ficção e a realidade são aproximadas pela Literatura. […] A leitura da obra poética em si e em suas mediações com a história pessoal do escritor e a história da cidade em que viveu. natural. p. reconstrói o mundo e a relação do ser humano com ele e faz emergir a imagem poética da alma e do coração do ser humano” (ARAÚJO. p. mas no latejo cálido de uma variedade infernal que nos diz: ‘Não somos ainda. tanto quanto a História. em que se mesclam elementos próprios da história pessoal do intelectual (o indivíduo histórico) e os inerentes à construção da obra poética. 35). Isso porque As obras literárias. a Filosofia e as demais ciências. entre outros. O corpus resultante da experiência emitida pelo escritor carrega em seu bojo uma transmissão subjetiva de seu conhecimento. A Literatura abre objetos que embasam a construção científica do conhecimento. as relações ou as representações sociais descritos na arte — como.] imaginação redimensiona as realidades. trazendo à vida uma relação entre o homem/personagem e o mundo que o rodeia. Essa relação nos permite ampliar a compreensão de abordagens em vários aspectos do cotidiano humano. n. v. Boletim Campineiro de Geografia. econômico. Chave mestra nesse contexto é a percepção. Estamos sendo’”. 2. Na medida mesma em que não querem ser documento. para a ciência geográfica. quais sejam: cultural. 2010.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. no entender das questões analisadas. como objeto de pesquisa.. O que nos remete à utilização do texto literário. 247). mesmo não pretendendo ser e não sendo um mero registro histórico. por exemplo. aporta subsídios perceptivos ao analista para compreender seu objeto de pesquisa. Dentro desses aspectos é que podemos identificar fenômenos a serem filtrados pelo leitor e aproximar a percepção de categorias geográficas estudadas a partir do texto literário. porque a “[. 2012. É bastante comum avaliarmos as viagens. p. E a subjetividade. novas objetividades. comprometida com 326 . Temos como referência a noção de poeta como sujeito ficcional. seu caráter autônomo lhes permite uma liberdade de registro e transmissão que escapa à historiografia oficial. 2... Como afirma Fuentes (2007. A Geografia está presente nas manifestações artísticas. ao discutirmos a formação territorial do Rio Grande do Sul em O Tempo e o Vento. escrito por Érico Veríssimo. acabam sendo também uma historiografia inoficial. Os textos transcendem suas capas e o próprio homem em constante evolução. Forma novos ares a serem respirados na junção de novas ideias. 189).

p. A poética de Melo Neto demonstra um caminho geográfico. O autor escreve que esta é.] o homem utiliza a percepção para analisar a própria ação” (PINHEIRO NETO. 2010. e ainda mostra as subjetividades da percepção da paisagem. percepção. no sentido de. 164). CAVALCANTE. Ele continua afirmando que em nós. cortes e deformações que as relações de produção lhes impõem (KOTHE. v. em sua experiência.. a percepção da paisagem está coberta por “características particulares. p. subjetivo. do topo da Serra Dourada ou das margens do Rio Vermelho. Um caminho desafiador das “gavetas” tradicionais do conhecimento. dado que expressa não só uma civilização. “[. 135). de concepção e de ação” (2010. 2. p. n. pelo protagonista e pelo leitor — este último reescreve a obra. 2010. que dá. 2010. A autora justifica sua assertiva no sentido de buscar no imaginário fatos reais ou existências ficcionais. “perceber a paisagem significa uma maneira de ver. ao fazer um estudo da poética da cidade. 36). p.José Elias Pinheiro Neto as omissões. de compor o mundo externo numa 'cena'. Gratão. “Um descobrir experiencial e vivencial que (des)vela as ‘coisas mesmas’ no espaço existencial” (GRATÃO. descobrindo novos caminhos a serem trilhados na busca da realidade estrutural da ciência geográfica. p. seres humanos.. 1976.. para os animais. 14). 313). 78). aportes e/ou fundamento epistemológico que vão embasar o presente estudo — o filtro realizado pelo pesquisador. das realidades de uma cidade. Para Feitosa. E. como agente modificador da paisagem. São 327 Boletim Campineiro de Geografia. Essa aproximação apresenta fenômenos. que se dá pelo autor do poema.. apresentar suas considerações sobre a percepção da realidade “ficcional” analisada. [. ou para cada um de seus habitantes que (per)correm por cada um dos seus becos. onde a arte corre ao encontro. resposta às cenas e visões que são captadas por um ou mais sentidos. 2001..] participa dos esquemas de que a descreve. Ela é experienciada e vi(vi)da de maneira diferenciada por cada um que mora e vive na cidade (2010. a experiência de mundo. também. 2012. Geografia e Literatura. [.. A percepção revela o homem . em face dos atributos e da intencionalidade do perceptor. Ainda nesse sentido. tanto o escritor quanto a imagem descrita. porque ela “constitui um documento chave para compreender as culturas. vale mencionar a concepção dada por Feitosa (2010) sobre a percepção da paisagem. podendo se constituir em um simples registro ou implicar desdobramentos sucessivos pelas relações suscitadas” (FEITOSA. através da Literatura. Por último. p. 2. p. afirma que ela não é a mesma para aqueles que chegam e a veem do alto do Planalto. 313).] A paisagem configura-se como uma marca. o único que subsiste frequentemente para as sociedades do passado” (CLAVAL.

. 2012. aspectos importantes para a formação de um todo os sentidos que moldarão o leitor na formação das paisagens. bem própria da pós-modernidade. hoje conhecido como Ensino Médio. Como resultado. e Boletim Campineiro de Geografia. Retomando a tradição. identificando e relacionando o espaço geográfico expresso numa linguagem poética. Oliveira e Machado (1971) utilizaram o recurso literário para analisar como o aluno do segundo ano colegial. com a representação da realidade dando ao leitor recursos concretos que devem ser estudados. O uso concomitante de várias formas clássicas. atualiza a tradição e cria uma nova categoria genérica. p. e nele está inserido Morte e Vida Severina. uma breve apresentação da obra e do autor analisados para entendermos a razão pela qual é conhecido como o poeta do concreto e realiza uma poética com aspectos geográficos. 328 . os alunos conseguiram acompanhar a caminhada de Severino. Existem como produto de uma profunda análise sensitiva que se rompe no momento final da obra. Em um estudo sobre o conceito de região. como aponta o trecho acima. Na Literatura. É preciso um estudo temporal e espacial com o intuito de identificar o espaço do que foi criado. 42). O poema está dividido em 18 trechos. fazem parte do universo.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. desde o sertão até o litoral.. agora. O recurso textual como fonte do estudo científico é uma ponte entre o escritor e o leitor que recebe uma informação da realidade de pessoas ou coisas que. Morte e Vida Severina e o autor O livro Duas águas foi publicado pela primeira vez em 1956. também como ele identificava e relacionava o espaço geográfico com outros conceitos estudados. Já existem vários estudos sobre o poema. depois de criadas e/ou personificadas. entendia essa categoria. Isso pois “não podemos formar uma ideia de paisagem a não ser em termos de suas relações associadas ao tempo. 1998. mostrando uma enorme jornada que sai da nascente do rio Capibaribe até seu encontro com o mar e a chegada na cidade de Recife. mesmo expressos numa linguagem poética. n. tanto na parte literária quanto na Geografia. O poema utilizado foi Morte e Vida Severina. dentro de um contexto espacial e temporal. v. porém dentro de um contexto espacial e temporal. 2. colocando em questão a poesia. uma análise da estrutura do drama cabralino feita por Oliveira (1994) mostra bem essa capacidade do poeta em assimilar a produção literária da tradição e inová-la. ao longo dos quais o protagonista Severino descreve um rosário. Faremos. Vejamos alguns deles. Melo Neto rompe com a mesma para recriar uma nova forma de expressão. 2. num processo dicotômico entre o espaço e o tempo. bem como suas relações vinculadas com o espaço” (SAUER. naquela época.

85). o rio Capibaribe executa todo o seu percurso. pelo que se vê. E o leitor encontra este Severino saindo do sertão. p. O rio barra o oceano que tenta destruir o mangue. 2006. Identifica. até os rios são severinos. Nesses aspectos. se tornam densas como o sangue de um homem. não apenas na sua presença.José Elias Pinheiro Neto Afinal. Outro autor que trabalha o poema é Godoy (2009). na medida em que banha várias cidades. A água é. prolongando o seu deslocamento e sua travessia existencial. mas principalmente em sua ausência” (MARANDOLA. A autora revela. 2007. porque em todos os lugares por onde Severino passa. 2007. o autor foi considerado pela crítica um dos maiores poetas brasileiros da segunda metade do século XX. 2. Recife é o depositário de toda a migração do Nordeste. com a proximidade do mar e a intromissão humana. 2. a partir de seu teor original. vilas e arruados. a transformação sofrida. arvoretas/cana/cacau e pobreza/riqueza. que escreve que nessa obra “Cabral irá operar um processo em que a palavra. seca/água. preparando-se para uma grande batalha contra o mar. a fuga da morte com a busca pela . para a capital. 83). ficar. Severino percebe as paisagens por onde passa: vida/morte. dentro do dualismo descrito sobre o rio e a seca. 2012. de ralas. até sua foz: o encontro com o oceano em Recife (MARANDOLA. “brincando” no título “Ser(tão) Severino”. fundindo-se com as pessoas em cada passagem: “e o rio e o homem terminam por afogar-se e diluem as suas diferenças em nome da declaração da mesma homilia da paridade” (GALVE. seguindo firmemente seu curso até a última Ave-Maria. em sua experiência. iniciando seu caminho em direção ao Recife. Ensina ainda. viver. por cada lugar que passa. o protagonista percebe todas essas paisagens oferecidas pelo rico caminho pernambucano. De acordo com a autora. tenta trabalhar. dizendo que o caminho de Severino é do interior para o litoral. A autora escreve que. trabalhar. sem dúvida. p. elemento central que permeia ‘Morte e Vida Severina’. acompanhando o Capibaribe. Como diz João Cabral. em sua travessia. 137). que “neste caminho. tentando. vida. É para lá que todos os severinos buscam fugir da morte. e nessa luta é humanizado. apontando no périplo. Mas como já foi dito. p. pois suas águas. Em todas as “Ave-Marias” o rio traça uma paisagem geográfica. v. em sua pesquisa histórica sobre o poema. Galve (2006) trata. 329 Boletim Campineiro de Geografia. e ele segue seu curso. n. das memórias poéticas de Melo Neto. Marandola (2007) faz uma pesquisa em que analisa os caminhos de morte e de vida do rio e de Severino. todo o caminho é de morte. Sua coletividade pode ser entendida como o renovar da esperança.

o poeta se prende ao social e ao político. 2. encontra-se na gênese da vida que se renova a cada dia. p. v. principalmente da morte severina. um dos maiores poetas brasileiros. chefe de gabinete do Ministro da Agricultura. o autor revela que pararia de escrever. a ponto de dizer que é preciso ‘sevilhar’ o mundo” (OLIVEIRA. 2009). do homem e das cidades pernambucanas — o escritor levou às últimas consequências o sentido lógico da poesia. Poemas pernambucanos e o segundo volume de poesias completas Museu de tudo e depois. Sua infância passou nos engenhos de açúcar em São Lourenço da Mata e Moreno. 2012. 1994. Dentre os principais prêmios recebidos destaca-se o “Luís de Camões”. n. CAVALCANTE. Longe de tratar da temática religiosa. a cada nascimento. Morte e Vida Severina tem como subtítulo “Auto de natal pernambucano” e remonta à transposição do nascimento de Cristo para os manguezais do Recife. Entrou para a Academia Brasileira de Letras e em 1990 aposenta-se como embaixador.. filho de Antônio Cabral de Melo e Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. O rio. que é tido como o mais importante concedido a escritores da Língua Portuguesa. atualizando o gênero e dando ao auto uma nova dimensão estética. que reproduz alguns de seus textos. 23). Em 1940. o pesquisador afirma que a obra atinge sua maturidade estética. A educação pela pedra. no dia 9 de janeiro de 1920. 61). aquele que soube falar sabiamente da morte ainda em tenra idade. 330 . Ainda na década de 1990. p. Cada criança que vem à luz é a representação de um novo Cristo. que nasceu na cidade do Recife. Crime na calle relator. o ato final do drama cabralino é o grito de esperança da humanidade. Oliveira (1994) descreve a trajetória intelectual vivida por João Cabral de 1 Melo Neto . Com isso. O sentido de religiosidade. de que Cabral “reflete o fazer dos grandes 1 Dentre suas principais obras. Os três malamados. próprio de um auto. principalmente com o intuito de livrá-lo da depressão. Sofria de uma doença degenerativa que não tinha cura e uma interminável dor de cabeça. apresentando seu rígido estruturalismo em falar poeticamente da Geografia do rio. Dois parlamentos. participa de um Congresso de Poesia na capital pernambucana apresentando o texto Considerações sobre o poeta dormindo. entra para a Academia Pernambucana de Letras e recebe vários prêmios literários. no Recife. O engenheiro. estão o seu primeiro livro. Auto do frade. e em 1988. Nesse ano. p. Tomando de empréstimo as palavras de Oliveira (1994. estado do Pernambuco. bravamente combatida por fortes homens (PINHEIRO NETO. denunciando as mazelas do povo pernambucano. e o Jabuti. retirante.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. Doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pela Universidade Federal do Pernambuco. a possibilidade de bonança na vida de cada Severino que empreende sua travessia pela aridez existencial. porque Sevilha foi a cidade com que sempre se identificou. que nasce para a remissão dos pecados da humanidade. Entra então em cena sua esposa. O cão sem plumas. Foi embaixador. Morre aos 79 anos de idade. Quaderna. em 1999. lança a antologia Boletim Campineiro de Geografia.. 2. 16). Nessa perspectiva. publica Sevilha andando — “de modo novo retoma temas antigos. passa a exprimir outros significados” (2009. intitulado Pedra do sono. Psicologia da composição.

História. mas elas despertam no pesquisador o sentido perceptivo de categorias geográficas analisadas no plano ficcional. na verdade. 2. Filosofia. em análise. entre outros. uma estrada por onde o protagonista caminha — sua intermitência. auxiliando no entendimento da relação entre homem e natureza. não conseguindo o protagonista cumprir seu objetivo maior. Os textos de Melo Neto são “construídos” a partir de uma concretude literária. Porém há uma abertura que a categoria permeia no seio da ciência e da arte. poesia pode ser feita com palavras como “nuvem”. A abordagem da paisagem tendo como recorte uma obra literária pode ser realizada. 2. mostra o vislumbrar de um local altamente seco. é que passaremos à análise de seu “Auto de natal”. Isso corrobora a importância e a busca de outros profissionais pela Geografia. Sociologia. E quando apontamos a paisagem em Severino. mas que. e em contraponto a essa assertiva há uma naturalização do homem. “sono”. n. A transformação da espacialidade é resultado das percepções das paisagens vividas. Mas como segui-lo agora 331 Boletim Campineiro de Geografia. “pedra”.José Elias Pinheiro Neto escritores ou artistas plásticos do nosso tempo”. pela . trata-se do curso de um rio naquele momento de seca. assim descrito pelo autor do poema: Pensei que seguindo o rio eu jamais me perderia: ele é o caminho mais certo. São inspirações com características pouco utilizadas para se fazer poesia. Para o escritor. parece complexo. Na poética de Melo Neto existe uma humanização da paisagem. 2012. que corrobora para reflexões no contexto de uma perspectiva experiencial. uma vez que o estudo nesse âmbito traz à Geografia importante contribuição. que é o de levar a vida. com uma vegetação de pelos que arranham: duros e espessos. O texto. e vai além. e ainda de suas transformações no ambiente. “cidade”. tais como os das áreas de Letras. v. A paisagem em Severino Fazer uma análise geográfica tendo como corpus a Literatura. a partir da definição de paisagem. de todos o melhor guia. Tampouco cumpre o objetivo de encaminhar-se ao seu destino final na busca pela sobrevivência. Concomitante a isso. estamos também descrevendo que ele a “vê” e a sente.

Essa concatenação do natural com o humano os fortalece para que consigam alcançar seus sonhos. nas quais o leitor percebe a vegetação nordestina com arvoretas espinhosas e secas. Eles se desenvolvem numa mesma luta severina. Severino retrata a imagem da caatinga e se aproxima do rio cada vez mais. sua intermitência.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. 332 . é comum. 180). que escreve que a compreensão subjetiva das imagens. os dois em plena harmonia. n. e ainda para que possam neles desvelar imagens ficcionais apresentadas no poema.. v. aliada à identidade. Existe nos dois seres um enfrentamento com a dureza do sertão. destinos. desde seus nascimentos na “Serra da Costela”. com pernas que não caminham. buscando sempre melhores dias. que interrompeu a descida? Vejo que o Capibaribe. 2007. (MELO NETO. a convivência e a simbiose de dois ambientes diferentes. direciona um possível imbricar com o rio — o homem e a água estão direcionados no mesmo sentido perceptivo da paisagem. traçam seus Boletim Campineiro de Geografia. na mesma luta. Contudo. p. aproximando homem e natureza como formadores e identificadores da imagem ficcional “criada” pelo escritor. encarnados em um único corpo. 2. pela escassez de água. Essa junção “simboliza a comunhão terra-água. ele coloca “pernas” no rio para identificar seu corte. A percepção do protagonista é mostrada no texto por intermédio de suas palavras. 2012. é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina e no verão também corta. Na comparação.. 104). Nesse “perceber”. o encontro com o mar. 1956. 2. tanto o homem naturalizado quanto o rio humanizado lutam em busca da sobrevivência. Naquela localidade. como os rios lá de cima. formando um novo ambiente” (MARANDOLA. Diz a lenda pernambucana que o rio Capibaribe se junta ao rio Beberibe para. Nessa perspectiva. Essa hibridização do homem com o rio é apontada por Gratão (2002). Severino para melhor viver e o rio Capibaribe para sua sina final. o homem e o rio. partida da saga. formarem o Oceano Atlântico. dando a ele características humanas. o rio interromper sua descida.

o sertão. Nesse trajeto. 2012. em termos de uma percepção que busca interpretar a integralidade do sentido de espaço/mundo vivido.José Elias Pinheiro Neto Caracterizamos a percepção subjetiva da paisagem pelo protagonista do poema Morte e Vida Severina. busca na zona da mata. 2. Essa junção traz uma contribuição de experiência vivida para a ciência geográfica e pode. v. a paisagem é percebida geograficamente. p. a partir de quem observa. 1990. Cada um deles estabelece uma relação de distância/proximidade com o espaço. Nesse momento. terra menos dura.Muito bom dia senhora. para identificar-se enquanto lavrador. o cheiro. que nessa janela está. 160). o leitor percebe que o . apresentando a terra. cultivar mesmo em calvas pedras. n. efeitos de sentidos importantes são manifestados nessa relação sensorialidade-espaço (2009. que o explicitando escreve que Portanto. porque pouca terra existe para lavrar. envolvidas nas dimensões da experiência (FERREIRA. 169). utilizando-nos de todos os aparelhos sensoriais. a água. Sabe dizer se é possível algum trabalho encontrar? . estes que nos dão a capacidade de (des)gostar. mas sim. 2. p. apresenta a aspereza da terra a ser lavrada pelo sertanejo. não como um mundo único e objetivo. quando um diálogo é estabelecido com uma mulher que estava em uma janela. uma vida que lhe seja menos severina. como também daquilo que constitui a natureza especial das atitudes e intenções humanas. passando pelo agreste. imbricar os conhecimentos físicos aos que são subjetivos no ser humano. e ainda de melhor sentir o estado da alma. Severino. Esse sentimento é descrito por Ferreira. suas lembranças e todos os requisitos básicos para se identificar a paisagem vivida pelo protagonista do poema. Ele. Porém vale pela representação da diferença perceptiva entre o que se vê agora e o vivido no sertão: .Trabalho aqui nunca falta 333 Boletim Campineiro de Geografia. aponta a capacidade de conhecimento adquirido não pode ajudá-lo na lida com a terra. Portanto. sem mais esperança de sobrevivência em sua terra natal. Borges Filho afirma que o ser humano se relaciona com o espaço circundante através de seus sentidos.

assim como também se apontam características humanas para o natural. como no termo “calvas pedras”. Dessa 334 . limite da Paraíba”. do humano. v. (MELO NETO. p. A descrição da paisagem no texto inicia-se nas primeiras falas do personagem protagonista. ele vem da “Serra da Costela. além de uma aproximação íntima. então.Pois fui sempre lavrador. Severino busca uma nova forma de vida. 185). . 2. pouco existe o que lavrar Mas diga-me. que mais fazia por lá? . seria bem mais fácil.. Não há espécie de terra que eu não possa cultivar. em busca de melhores dias. a cada momento. 2. 1956. uma nova paisagem. Por ser um dentre muitos severinos. Consegue trabalhar em terra dura e agora. 2012. filho de várias marias e de tantos zacarias. Mas até a calva da pedra sinto-me capaz de arar.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. retomando a dureza vivida no sertão com o trabalho duro em suas “calvas pedras”. revelando. Apresenta o saber cultivar em qualquer tipo de terra. Boletim Campineiro de Geografia. a quem sabe trabalhar O que fazia o compadre na sua terra de lá? . desvela-se a sensibilidade humana na busca pela sobrevivência. n. castigados pela seca. lavrador de terra má. No texto. ao identificar-se. são dados para a paisagem valores da emoção. e que esta lhe seja mais segura financeira e qualitativamente. A análise geográfica da literatura transforma em imagem as palavras do protagonista. retirante. No caso do poema Morte e Vida Severina. Tanto o homem quanto o rio saem do interior pernambucano.Isso aqui de nada adianta. de uma cumplicidade entre o homem e o rio.Também lá na minha terra de terra mesmo pouco há..

os canaviais. mais molhada. 174-175). Há uma harmonização entre o homem e a natureza. n. Isso porque ele pinta as arvorezinhas espinhosas. Sofrem as mesmas agruras impostas pela seca. a esperança caminha junto com esse rio/homem ou com esse homem/rio. essa intenção de natural/humano pode nos dar percepções da poética cabralina sustentada no concretismo literário. O sal do mar. O homem coloca-se Contudo. v. podendo mapear o seu percurso até o Recife. caracterizada pela caatinga. dentre outros. . / onde uma terra que não dá / nem planta brava” (MELO NETO. poderá ser o alimento da alma e do corpo. lá no sertão.José Elias Pinheiro Neto feita. atraído pela mesma esperança. Ele é. 1956. sucessivamente.Foi por ele que a maré 335 Boletim Campineiro de Geografia. 1956. pp. 2012. mesmo que tortuosos. assim como os humanos. “. estão sozinhos em suas grandes buscas. representa o homem e retrata a dureza da vida. Esse aproximar.Todo o céu e a terra lhe cantam louvor Foi por ele que a maré Esta noite não baixou. temos a delimitação da paisagem nordestina.Onde a Caatinga é mais seca. p. 172). como mostra o poema: . ao deparar-se com um funeral. para cumprir seu destino. é “magra” e “ossuda”. com a intenção de individualizar-se. suplantando a morte e dando esperança de dias melhores. o homem caminha em direção ao litoral em busca de um pouco de vida. o mar. mas com todos os lutadores sertanejos. ele sabe que precisa cavar a terra. e com isso aumentam suas forças. Assim como o rio. até o final. o rio ou a falta dele. Saindo da seca. Os dois representam a natureza dura do sertanejo. menos seca. geograficamente. que pulula de vida. na batalha vital. num patamar igualitário com a natureza. Sua sina é o mar. A paisagem. podemos identificar. não somente entre si. assim como os retirantes que buscam melhor vida. E assim segue. fugindo da dureza que viveu no início da jornada. Logo na segunda parte. a cada momento. que se confunde com o sal de seu suor. 2. eles se confundem e se identificam. o local de origem de Severino. e Severino apresenta-se em suas descrições com as mesmas características: “no mesmo ventre crescido / sobre as mesmas pernas finas” (MELO NETO. Por isso. o protagonista encontra o mangue. 2. Nessa nova paisagem a vida impera. havendo sempre razão para se viver. fazendo-o acreditar em dias melhores. . irmão das almas. O rio não tem outra saída. A serra tem “costela”. traçar caminhos.

p. 2. 2012. A paisagem. torna-se dadivosa: a maré não baixa.. v. sob uma perspectiva romântica.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. . Fez parar o seu motor.E a alfazema do sargaço. . 211).E a língua seca de esponja que tem o vento terral veio enxugar a umidade do encharcado lodaçal. vê-la surgir como há pouco 336 . o poema muda de tom. 1956. ou Boletim Campineiro de Geografia. (MELO NETO. o mau cheiro não “voa” e o rio enfeita-se de estrelas: E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar o seu fio (que também se chama vida). . ver a fábrica paciente que ela mesma se fabrica.. Veio varrer nossas ruas Enviada do mar distante. ainda de que o homem vê a natureza de acordo com seus sentimentos. Ácida.Todo o céu e a terra lhe cantam louvor. 2. e o que antes era tristeza e morte transforma-se em exuberância. alegria e vida. A partir do nascimento. desinfetante. de que a natureza retrata o sentimento do homem. E cada casa se torna num mocambo sedutor. n. A lama ficou coberta e o mau-cheiro não voou.

imaginou. Mesmo quando é explosão como a de há pouco. 2. fazê-lo tecendo um rosário por várias cidades. sabendo que todas estavam dentro do nordeste. participa da construção do que se faz enquanto marco histórico na vida social. para fugir da seca. História ou estória. pp. reflete a experiência . A vivência do protagonista mostra que a paisagem pode. que nem sempre é a mesma. também. ser resultado da ficção. ainda. transformando as paisagens e colaborando na formação do espaço poético. Uma obra literária descreve a expressão de um tempo. franzina. n. ao mesmo tempo. 1956. Real ou imaginário. apresentando as diversas faces e experiências que o homem nordestino viveu naquela época. Aquele que lê revive todos os sentimentos de uma determinada época. Estudar a Geografia através da Literatura é uma forma de apresentar ao mundo uma nova realidade. viu ou interpretou dentro de seu cotidiano. Mesmo quando é a explosão de uma vida severina). 221-222). Mas essa mudança também se faz pelo estado de espírito do personagem. Verdade ou criação. Como bem ensina 337 Boletim Campineiro de Geografia. à medida em que ele rompe o caminho — uma mudança real da paisagem. pois os seus sentimentos também se alteram. real ou fictícia e. Todas essas abordagens não limitam as características da arte literária.José Elias Pinheiro Neto em nova flor explodida. influenciando a percepção dos espaços. O retirante. A arte influencia e. (MELO NETO. (Mesmo quando é tão pequena a explosão ocorrida. sentiu. diferentemente de novos tempos em que o nordestino busca melhor vida no sudeste brasileiro. mais uma vez. 2012. Reflexões finais do escritor em relação ao espaço por ele vivido. é influenciada pela sociedade. sentindo a experiência dos aspectos vividos pelos personagens em uma determinada localidade. A paisagem descrita por Severino vai se alterando. Ela representa tudo o que o autor percebeu. podia. v. que se altera e se renova. 2.

Instituto de Geociências e Ciências Exatas. ARAÚJO. 2012. 2010. RATTS. F.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. 3. além da morte e da vida: trata também da seca e do rio. espaço vivido. Geografia. 12. em sua experiência. v. SILVA. Literatura e paisagem: perspectivas e diálogos.). Florianópolis: Editora da UFSC. 2. Salvador: Edufba. 2010. Antonio Cordeiro. O. Ozires. não havendo mais barreiras entre as cátedras. FRÉMONT. A região. 2007. São Carlos: Claraluz. continuam com suas essências. Frémont (1980). Natureza do fenômeno literário. Rio de Janeiro: Editora da UFF. FEITOSA. Geografia: Leituras culturais. M. Em busca do poético do sertão: um estudo de representações. caracterizando. firma-se um imbricar entre as ciências de Letras e Geografia. Nesses aspectos. 2001. Paul. In: ALVES. De.. ALMEIDA. BARBOSA. Manoel Antônio. é o alvorecer de uma nova Geografia.. literatura e arte: reflexões. Goiânia: Alternativa. A. o autor descreve. que é de grande relevância para se entender o processo de percepção geográfica da paisagem. No poema em estudo. Rio Claro. n. Rogel et al. ed. FEITOSA. 1999.. FEITOSA. F. FERREIRA. 2. M. A percepção geográfica da paisagem dos gerais no “Grande Sertão: veredas”. n. contudo. Geografia e Literatura: um elo entre o presente e o passado no Pelourinho In: SILVA. No poema Morte e Vida Severina. O trajeto está recheado de uma atmosfera carregada de dualidade. Armand. 201 f. Ao analisar uma obra literária. M. CASTRO. 5. R. da carência social e daqueles detentores do poder econômico. foi apresentado um recorte revelando a viagem de Severino. a transformação sofrida. Espaço. pelo que ele viu e sentiu ao longo da caminhada. H. M. Manual de teoria literária. Na travessia. a hidrografia e o solo da paisagem nordestina brasileira e continua com a subjetividade do pensamento de Severino. Sob esse prisma. M. G. UFG. P.. ed. 1980. Solange Terezinha de Lima. retrata a vegetação. percepção e literatura. de Mia Couto. A percepção da paisagem na literatura africana de língua portuguesa: o romance terra sonâmbula. I. Universidade Estadual Paulista. M. da. da vegetação nativa e da intromissão da monocultura. . A. Geografia do romance. v. Heloísa Araújo de. Maria Geralda de. 2010. CIRQUEIRA. Dessa forma. A geografia cultural. que.. Márcia Manir Miguel. M. J. In: SAMUEL. Dissertação (Mestrado em Geografia) . Carlos. Literatura e paisagem: perspectivas e diálogos. retirando dela suas características e categorias geográficas. Rio de Janeiro: Rocco.M. BORGES FILHO. Rio de Janeiro: Editora da UFF. Coimbra: Livraria Almedina. uma geografia literária. 1990. o geógrafo abre-se ao mundo literário e a arte. FUENTES. 2011. Diogo Marçal. 2003. FEITOSA. 2009. In: ALVES. S. concedemos uma visão diferente da clássica aos sentidos da percepção da imagem. Bibliografia Boletim Campineiro de Geografia. 2. assim como o literato conhece o mundo geográfico. CLAVAL. F. O conhecimento e a experiência como condição fundamental para a percepção da paisagem. Petrópolis: Vozes. In: ALMEIDA. Ateliê Geográfico. o protagonista se percebe. As paisagens de Bernardo Élis na Obra Veranico de Janeiro. Severino identifica-se às paisagens por onde passa e as relata como vida/morte e seca/água. como ensina Almeida (2003). 1990. (orgs. In: BORGES FILHO. Fisicamente. 338 . relatando todas essas paisagens oferecidas pelo caminho pernambucano.. Poéticas do espaço literário. I.

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2012.com. Literature. to seek survival and humid tranquility of life. campus Catalão. which recuperación de categorías de la Geografía que show us how human life is seen everywhere. Sobre o autor José Elias Pinheiro Neto: Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Goiás. and yet muestran cómo la vida humana se ve en todas those who one can imagine.br/bcg Artigo recebido em maio de 2012. medio ambiente. construcción de imágenes mentales que influyen This paper describes some aspects of landscape en la relación intrínseca entre el hombre y el perception in the poem Morte e Vida Severina... y aún los que podamos allowance for the writer to create and brings us imaginar. passing through the Wasteland to que narra una historia de la salida del hombre get to the zona da mata.  BCG: http://agbcampinas. Literatura. This de ver el mundo que da subsidio al escritor para imagination creates human experiences with crear y llevar hasta el lector la percepción de la nature and gives the geographer the construction realidad. 2. En cualquier situación.Geografia e Literatura: a paisagem geográfica e ficcional em Morte e Vida Severina. a place where he tries del nordeste del “sertão”. the interest in studying literary Actualmente. Aprovado em agosto de 2012. In any situation. 2. Com pesquisa voltada ao estudo da paisagem na literatura cabralina. Este artículo describe algunos written by João Cabral de Melo Neto and aspectos geográficos de la percepción del paisaje published in 1956. This junction shows up un sesgo geográfico. se describen en las fuentes literarias. Esa imaginación crea la experiencia of mental images that influence the intrinsic humana con la Naturaleza y da al geógrafo la relationship between man and environment. KEYWORDS: landscape. n. *** ABSTRACT RESUMEN Geography and Literature: the geographical landscape and fiction in Morte e Vida Severina by João Cabral de Melo Neto Geografía y Literatura: el paisaje geográfico y la ficción en Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. sean los que nos rodean o los más is the feeling of seeing the world that makes lejano de nosotros. pasando por el agreste. analizándolas desde way is very significant. un lugar en que intenta buscar la supervivencia y la tranquilidad de la vida húmeda. Geografía. Geography. countryside. Membro do grupo de pesquisa Geografia. que those around us or the farthest from us. es muy grande el works by analyzing them from a geographical estudio de obras literarias. interior del país. es la sensación to the reader's perception of reality. escrito por Cabral's the João Cabral de Melo Neto y publicado en 1956. Nowadays. para llegar hasta la zona exit from the Northeast of interés en el da mata. it las partes. 340 . Boletim Campineiro de Geografia. Esa unión se presenta como as an idea of recovering geographical categories una primera idea de la valorización y de la that are described in literary sources. v. Literatura e Arte (GEOLITEART). PALABRAS CLAVE: paisaje. The text tells a story of en el poema Morte e Vida Severina.