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10.5216/rpp.v13i1.

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ESPORTE E CULTURA: ANÁLISE ACERCA DA
ESPORTIVIZAÇÃO DE PRÁTICAS CORPORAIS NOS
JOGOS INDÍGENAS
Arthur José Medeiros de Almeida

Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil
Dulce Maria Filgueira de Almeida Suassuna
Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil

Resumo
O trabalho que se segue é um recorte da dissertação de mestrado apresentada ao
Programa de Pós­graduação em Educação Física da Universidade de Brasília. O
estudo construiu um diálogo entre os campos da Educação Física e Ciências Soci­
ais, tendo como delineamento o estudo de caso. O objeto investigado foi constituí­
do por meio de apropriações das técnicas corporais em relação ao esporte, com
base na análise da IX Edição dos Jogos dos Povos Indígenas. O objetivo foi inter­
pretar em que medida esta competição contribuiu para a ressignificação das práti­
cas corporais das diversas etnias indígenas. Os resultados apontam que há um
intercâmbio entre valores e práticas tradicionais e modernas, ocorrendo uma res­
significação das práticas corporais dos povos indígenas participantes.
Palavras­chave: Práticas Corporais ­ Cultura ­ Jogos Indígenas

A

Introdução
o realizar uma análise acerca das práticas corporais apresentadas
nos Jogos dos Povos Indígenas, tem­se a compreensão que o ob­
jeto de estudo perpassa por diferentes campos disciplinares, entre eles
destacam­se as Ciências Sociais e a Educação Física. É relevante ob­
servar que esses campos “compartilham determinados objetos de estu­
do, ainda que não necessariamente com os mesmos interesses e
enfoques” (MAGNANI, 2001, p. 17).
Neste ínterim, pretende­se realizar uma discussão acerca das práti­
cas corporais tomando­se como recorte os jogos e as brincadeiras in­
dígenas. O objetivo é compreender os sentidos e significados dessas
práticas a partir de uma leitura do contexto no qual estão inseridas, is­
to é, os IX Jogos dos Povos Indígenas realizados em 2007. As práticas
corporais observadas durante este evento – que tem como um dos sig­
Pensar a Prática, Goiânia, v. 13, n. 1, p. 1­18, jan./abr. 2010

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Goiânia. Fazem parte do patrimônio cultural imaterial desses povos. por conseguinte. pelas lideranças indígenas. pos­ suem uma lógica que orienta seu funcionamento e que tem como fundamento os valores coletivos apreciados pelas diferentes etnias. a serem apre­ sentadas ao público não­índio. Viveiros de Cas­ tro (1987)./abr. 1. mas que signifique a in­ terpenetração das perspectivas socioantropológica e da Educação Física. são compostas por estruturas que. os quais con­ tribuem de modo a ampliar o conhecimento sobre as sociedades indígenas. influenciam a consci­ ência do indivíduo e. v. Nesta perspectiva. Não obstante. 2010 2 . nesse âmbito. n. aparece como um meio de interação entre distintas comunidades indígenas e dessas com a sociedade nacional. enten­ de­se que os sentidos apresentados pelos objetos simbolizados têm fundamental importância para a compreensão do comportamento indí­ gena e. compartilhados e alterados. jan. com abordagem qualitativa.10. Giddens (1989). portanto. neste estudo. 13. se deu por meio de es­ tratégias de pesquisa definidas por fases distintas. Bourdieu (1983.5216/rpp. A investigação. sendo construídas e reconstruídas culturalmen­ te com base nos diferentes sistemas de representações. possibilitam a compreensão das práticas corporais como manifestações que expressam sentidos e sig­ nificados para determinados grupos sociais.8946 nificados a competição esportiva – constituem um conjunto de mani­ festações da cultura corporal de movimento de cada etnia indígena e são previamente autorizadas. de suas sociedades. Inicialmente. Esta fase consistiu em fazer um levantamento detalhado de livros.v13i1. a um referencial teórico do qual fazem parte autores como Lévi­Strauss (2007). ressaltam­se os trabalhos de Vinha e Rocha Ferreira Pensar a Prática. em função de determinados interesses (BOURDIEU. na qual uma identificação de pesquisadores e de pesquisas relacionadas ao tema se fez pertinente. foi re­ alizada uma consulta bibliográfica. arti­ gos e publicações que contribuíssem para a formulação de hipóteses e que fornecessem subsídios teóricos em relação ao objeto. recorreu­se. 1990. Estas. a elaboração dos sentidos. p. aos seus modos. Neste ínterim. Geertz (1989) e Cardoso de Oliveira (1998). a interação social – em que os agentes e as institui­ ções sociais estão interligados – fomenta relações nas quais os símbo­ los são criados. Mauss (2004). 1­18. Ressalta­se que o diálogo proposto com estes autores faz com que a discussão não se limite à es­ fera de determinado campo de conhecimento. em certa medida. 2008) e Kunz (2006). O esporte. por seu turno. em assim sendo. 2008). Isso posto. interpretados.

Publicações de Rocha Ferreira (2002) sobre esporte em terras indígenas. também contri­ buíram para a análise. n. Vivenciar o momento de realização do evento intercultural possibilitou observa­ ções com base no contato direto com o objeto estudado.8946 (2005) que. “Ao fazê­lo. O trabalho de campo ocorreu durante a IX edição dos Jogos dos Povos Indígenas. especificamente. momento em que o pesquisador inscreve o discurso social. 1989.5216/rpp. A compreensão é que os indivíduos participantes desse encontro inter­ cultural – Jogos dos Povos Indígenas – são sujeitos sociais que estão imersos em um contexto formalizado do qual faz parte um conjunto de representações. de Vinha e Rocha Ferreira (2003) com os índios Kadiwéu. nas cidades de Recife e Olinda. as técnicas utilizadas para lograr tal descrição foram as seguintes: observação participante; entrevistas com roteiros pré­estruturados; coleta de registros fotográficos. e de Grando (2004. ao realizarem estudos na IV e na VII edição dos Jogos dos Povos Indígenas. Rubio.v13i1. Ainda em relação ao evento. que trata do futebol indígena. por seu turno. Em seguida. 1999) dos Jogos dos Povos Indígenas adquirido junto à Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Esporte e Lazer (SN­ DEL) do Ministério do Esporte. em Pernambuco. 1. que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente” (GEERTZ. Grando (2005b). além de anotações em diário de campo referentes às práticas corpo­ rais. referentes às práticas corporais. p. 13. 2005a) acerca da educação do corpo indígena. jan. analisa a influência que o evento exerce sobre a educação escolar indígena do povo Bororo de Mato Grosso. no período de 23 de novembro a 1º de dezembro de 2007. Este trabalho se propõe a uma análise compreensiva. procedeu­se a uma análise do Regulamento Geral (BRASÍLIA. p./abr. 2010 3 . Fu­ tada e Silva (2006. O propósito foi de compreender as diretrizes e os princípios norteadores da realização desta ação voltada aos povos indígenas.10. 1­18. p. Goiânia. de Fassheber (2005). Naquele momento. que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência. ao cotidiano do evento e às redes de relações estabelecidas. 112) contribuíram para a formulação de premis­ sas ao afirmarem que “o que se assiste nas últimas edições é o acirramento da disputa entre as diversas nações por uma melhor colo­ cação”. 29). apresentam a compreensão que as lideranças indíge­ nas possuem sobre o evento. em um relato. v. buscando a Pensar a Prática. ele [o pes­ quisador] o transforma de acontecimento passado. de áudio e de vídeo.

contribuem para a dinâmica social ao longo do tempo e do espaço. p. 1995. Toda técni­ ca ou atitude corporal tem. ou seja. apreendem valores. “por ser ele o meio de contato primário do indivíduo com o ambiente que o cerca” (DAÓLIO. pode­se reconhecer uma cultura. 2010 4 . primordialmente. 2003. seu controle torna­se basilar para o desenvolvimento de padrões de conduta específicos. Na medida em que as diferentes socie­ dades se expressam. pois. p. condicionam o controle reflexi­ vo do corpo. As técnicas corporais são objeto de uma grande quantidade de es­ tudo nas Ciências Sociais. 1­18. 39). p. v. as habilidades de controle do corpo cons­ tituem o núcleo da interação social que.v13i1. desde o nascimento. n. Goiânia. e eficácia. 63). sua especificidade. p. de sociedade a sociedade. pois auxiliam o homem a solucionar problemas de sua vida ordinária. normas e costumes so­ ciais por meio dos seus corpos. onde se manifestam as re­ lações humanas. As técnicas corporais são as “maneiras pe­ las quais os homens. 1989. Por outro lado. Dentre elas. portanto. “Tais habilida­ des alicerçam­se. 13. Práticas corporais indígenas: diferentes sentidos O olhar sociocultural sobre o corpo traz o entendimento de que as semelhanças ou diferenças físicas são frutos de um conjunto de signi­ ficados inscritos por diferentes sociedades ao longo do tempo. as técnicas do movimento. visto que são suas estruturas que. sendo apreendidas por meio de processos educativos própri­ os de cada cultura. Mauss (2003) enumera uma série de técnicas corporais que estão presentes desde o início e acompanham o ser humano durante toda vida. em certa medida. por meio dos corpos de seus membros. A cultura ordena o meio a partir de regras; no caso do corpo.8946 interpretação de um fenômeno complexo e relacional que se coloca no contexto de uma sociedade moderna.10./abr. 401). O seu apren­ dizado pode revelar o modo de vida de uma sociedade.5216/rpp. entende­se a linguagem corporal como um discurso convencionalizado e normati­ Pensar a Prática. 1. por seu turno. no controle normativamente regu­ lado” (GIDDENS. mas cujas bases têm por funda­ mento elementos das sociedades tradicionais. Neste sentido. esses são vistos como uma construção cultural. bem como no esporte. jan. um conteúdo cultural é incorporado ao seu conjunto de expressões. Os indiví­ duos. dando sentido aos movimentos de seu corpo. de forma tradicional sabem servir­se de seus corpos” (MAUSS. que são utilizadas nos jogos e brincadeiras indígenas. Possuem tradição.

p. Exemplo disso pode ser encontrado em A fabricação do corpo na sociedade xinguana. a transmissão de técnicas corporais é necessária para que se possa assu­ mir uma posição social. pensar e sentir que são específicas por gênero e idade em cada etnia. Essas mudanças produzidas no corpo proporcionam outras de posição social e. atuar no corpo implica atuar sobre a sociedade na qual esse corpo está inserido” (DAÓLIO. na qual Viveiros de Castro (1987) assinala que em determinadas sociedades – como as que vivem em aldeias do Alto Xingu – o corpo humano é “fabricado” a partir de processos intencio­ nais e periódicos. v. Goiânia. a criança está se apropriando de sua cultura. por conseguinte. n. até alterações da forma desse corpo. a segurança e a destreza nos movimentos que. Uma posição social supõe uma “identidade” construída por meio de relações sociais em que uma série de sanções normativas se aplica ao agente; portanto. Nesse momento. construindo sua identificação com seus pares.10. p. modificando sua essência e se ma­ nifestando desde a gestualidade. 2010 5 . que o conjunto de posturas e movimentos corporais representa valores e princípios culturais. “reconhece­se a capacidade da criança de apren­ der a partir dos jogos e brincadeiras” (GRANDO. “As posições sociais são constituídas estrutu­ ralmente como interseções específicas de significação./abr. “Para as sociedades indígenas. 1. 2005a. jan. 1­18.. p. As práticas corporais como rituais ocorridos nas aldeias cum­ prem a função de ensino e aprendizado da maneira de fazer. compreende­se o en­ raizamento de determinados valores nestas práticas sociais que em sua dinâmica definem a identidade de um povo. Os jogos.5216/rpp. 1989. por conseguinte. construindo a pessoa. assumindo uma posição nessa socie­ dade. Consequentemente. Nestas sociedades.] transformam o corpo biológico em corpo social e possibilita que a pessoa passe a se identificar em seu grupo e por ele seja identificado” (GRANDO. 42).8946 vo. lhe permite uma resposta coordena­ da às exigências que os meios social. 1995. as formas de transmissão das técnicas corporais [. “Fica evidente. p. 2006. portanto. dominação e legitimação que se relacionam com a tipificação dos agentes” (GID­ DENS. de identidade social. as danças e as brincadeiras são formas lúdicas de apreen­ são da realidade que formam uma identidade fundamentada nos senti­ Pensar a Prática. cultural e natural impõem ao seu corpo. p. ao indivíduo. 13.v13i1.. A “fabricação do corpo” é intervenção consciente da cultura sobre o cor­ po humano. 231). A sociedade fornece. 67). Nesse sentido. 167).

Tais práticas demons­ tram os gostos do grupo social. a manei­ ra de tratá­lo.5216/rpp. se confun­ dem com a coletividade. em princí­ pio. A simetria do jogo (esportivizado) decorre da instituição de regras iguais para ambas as equipes e a assimetria pro­ vém dos acontecimentos que dependem da intenção. 162). A influência do campo esportivo sobre as práticas corporais tradi­ cionais Com o intuito de analisar a influência do esporte sobre práticas corporais nos Jogos dos Povos Indígenas.. penetra na vida ordinária das sociedades. de diferenciar e de apreciar práticas e obras classificáveis. p. da sorte e do ta­ 1­“Princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e./abr. Institui a união ou estabelece uma relação orgânica entre os participantes que foram separados no início e que. definindo suas características morais e intelectuais. tornou­se oportuno refletir sobre o desenvolvimento humano proporcionado pelo esporte. “O corpo é a objetivação mais irrecusável do gosto [. A con­ tribuição de Lévi­Strauss (2007. que. 48) vem no sentido de explicar que o jogo (esportivizado) é “disjuntivo”. capacidade de produzir. Isto é. O jogo tradicional (ritualizado) apresenta­se de forma simétrica e inversa ao jogo esportivo.8946 dos e significados específicos de cada cultura. jan. Pensar a Prática. colaborando para definir o estilo de diferentes culturas (CAILLOIS. 1994). posto que ele é “con­ juntivo”. 1­18. cuidar dele. ou seja. seriam igualitários. p. mas no final da partida se diferenciarão entre vencedores e vencidos. 1. 2008. n. que é reveladora das disposições mais profundas do habitus1” (BOURDIEU. Portanto. pois permitem a incorporação de um princípio de classificação que comanda as escolhas dos indivíduos. ao mesmo tempo. p. sustentá­lo. as influências dos princípios e das categorias dos jogos se manifestam fora desse es­ paço delimitado por um tempo próprio. 2010 6 . Goiânia.]. ele resulta de uma divi­ são entre jogadores. 2008. alimentá­lo. individualmente ou em equipes. ou seja. As escolhas por determinadas práticas corporais – jogos e brinca­ deiras – demonstram o modo de se distinguir de um grupo.10.v13i1.. 13. 179). no final. Propõem que determinados comportamentos sejam seguidos evitando reações adversas e contri­ buindo para a continuidade da ordem social. sistema de classificação (principium divisionis) de tais práticas” (BOURDIEU. v. p.

Sua abrangência é tamanha que difunde pelo mundo seus sentidos de maximização do rendimento e racionalização dos meios. o campo esportivo possui leis que determinam seu funcionamento. O esporte­espetáculo. ressalta­se que o esporte é um fenômeno contraditório que possui características próprias diferenciadoras de outras práticas soci­ ais e corporais. Em seu entendimento. p. Trata­se. de forma lúdica. 2010 7 . ou seja.10. influencia a vida social do indivíduo. a competição exerce uma dominação no seu significado atual e estaria relacionada à conjuntura hipercompetitiva da sociedade ocidental mo­ derna. jan. Outra característica predominante no jogo esportivizado é a sua es­ sência competitiva. entre iniciados e não­iniciados e consiste em unir todos do mesmo lado. por exemplo. Portanto.v13i1. veiculado pelos meios de comunicação de massa.8946 lento. O sentido de esporte reiterado nos diferentes âmbitos da socie­ dade contemporânea é o do esporte de alto rendimento. 1. Bourdieu (1983. Pensar a Prática. p. Nesse sentido. o esporte que. nas mais diversas práticas corporais. De acordo com Kunz (2006. 1990) apresenta uma leitura do esporte em que as instituições. Goiânia. devem ser levadas em consideração as trans­ formações históricas acarretadas nas sociedades pela difusão desta dimensão do esporte e sua influência em eventos que a princípio não teriam este sentido. entendido como aquele que possui “as características dos empreendimentos do setor produtivo ou de prestação de serviços capitalistas” (BRACHT. 2003. Outro aspecto que merece consideração é o desenvolvimento de um processo de espetacularização dessa prática na contemporaneida­ de. n. da especialização e da instrumentalização”./abr. 1­17. p. Estes princípios trazem como consequências os “processos da seleção. 13. estão diretamente relacionadas às estruturas da personalidade humana. propiciando que as técnicas corporais assim como a organização do espaço físico e os materiais utilizados sejam cada vez mais normatizados e padroni­ zados. a fim de produzir “campeões”. v. 18). No jogo (ritualizado) ocorre o inverso. em sua dimen­ são de alto rendimento.5216/rpp. Embora o esporte possa ser vivenciado em dimen­ sões educativas e de participação. 22). a assimetria é preconce­ bida. está apoiado em uma ciência que busca soluções para um aper­ feiçoamento físico e técnico. ou as estruturas sociais. possui os princípios básicos da “sobrepujan­ ça” e das “comparações objetivas”.

de “espaços estruturados de posições cujas propriedades de­ pendem das posições nestes espaços. 13. além da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Fundação Nacional da Saú­ de (Funasa). Nesse campo. p. aparecem como o núcleo da interação entre distintas etnias e destas com os não­índios no âmbito das relações estabelecidas pela estrutura do evento. o funciona­ mento e a estrutura desse campo específico. 1989. n. os interesses. podendo ser analisadas indepen­ dentemente das características de seus ocupantes” (BOURDIEU. Pensar a Prática. definindo­as como de uma certa espécie e su­ jeitas a uma determinada gama de sanções” (GIDDENS.10./abr.8946 contudo. 1990). os objetos de disputa só são percebidos por aqueles que estão preparados a adentrá­lo. en­ tende­se estrutura como “conjuntos de regras que ajudam a constituir e regular as atividades. a integração e o intercâmbio de valores tradicionais. visto que foi executado pelo Ministério do Esporte e envolveu ações dos Ministérios da Cultura. tem­se como objetivo promover a cidadania indígena. com vistas a incentivar e valorizar as manifes­ tações culturais próprias destes povos (BRASÍLIA. 1­17. nesse cenário. orienta as estratégias a serem seguidas (BOURDI­ EU. 2010 8 . uma luta é travada por grupos com diferentes inte­ resses. 89).5216/rpp. As práticas corporais. seja ele econômico. Tais instituições representam uma estratégia de consoli­ dação de uma política pública específica destinada aos indígenas. p. 1983. 70). v. Os sentidos das práticas corporais nos Jogos dos Povos Indígenas: competição e espetáculo Os Jogos dos Povos Indígenas foram idealizados por dois irmãos indígenas representantes do Comitê Intertribal de Memória e Ciência Indígena e se configuram como uma ação governamental e intersetori­ al. p.v13i1. acumulado no curso das lutas anteriores. Estrutura essa que inde­ pende da vontade dos indivíduos e é capaz de orientar suas práticas e representações por meio da relação de poder entre os agentes ou as instituições engajadas na apropriação do capital específico. da Justiça e da Educação. Portanto. cultural. De acordo com o documento oficial que orienta o evento. social. nessa perspectiva de análise estão envolvidos em um processo de interação os atores sociais. 1. as instituições e suas estru­ turas. No entanto. seja simbólico que. 1999). jan. Não obstante. Significa dizer que se deve obter conhecimentos que façam identificar as leis. Goiânia.

n. Foi necessário compreender que tais práticas realizadas por grupos distintos dentro de um mesmo contexto social possuem uma relação de interação e conflito. 13. delimitar o campo de ação dos outros envolvidos.10. Em seguida. reconhecidos em suas falas como “competidores”; a mídia de diferentes segmentos; e o pú­ blico composto em sua maior parte por não­índios que. representados por funcionários de menor prestígio nas instituições organizadoras e por colaboradores. transporte. visto que é um procedimento concretiza­ Pensar a Prática. percebeu­se a insatisfação dos executores em relação às orientações dos idealizadores. dentre outras: alimentação. jan. Um fato observado foi em relação à restrição de liberdade de iniciativa imposta pelos idealizadores aos últimos. Fazi­ am ainda parte desta estrutura os voluntários. Por serem vinculados a órgãos públicos. 1. na escala hierár­ quica. Cada comissão deveria realizar atividades específicas. que prestavam serviços de todas as ordens; os indígenas participantes. como um aspecto central e interessante a ser analisado. Indivíduos que ocupavam posições superiores na hierarquia organizacional gozavam de prestígio e poder para desempenharem seus papéis. Estes eram os idealizadores do evento que possuíam a função de estabelecer as normas gerais e. Esta última elaborou o regulamento que normatizou as práticas corporais. As observações realizadas durante a pesquisa de campo demons­ tram que a estrutura organizacional do evento foi composta por hierar­ quias de posições sociais. portanto. eram convidados a participar das apresentações./abr.8946 A estruturação imprime determinado “sentido” às atividades em que os indígenas se envolvem. estavam os chefes de comissão. Goiânia.v13i1. Nesse âmbito. com isso. respeitavam a hierarquia de suas instituições. vez por outra. o reconhecimento das estru­ turas objetivas e a identificação das representações construídas pelos agentes no evento foram consideradas dentro do universo das práticas corporais. consentidas por todos. demonstrando o conflito de interesses entre esses atores dentro do campo.5216/rpp. bem com fiscalizou seu cumprimento e registrou os resultados. nas quais seus ocupantes eram responsáveis por desempenhar determinadas funções. O congresso técnico aparece. p. se encontravam os executores. Logo abaixo destes. de certo modo. v. Em alguns momentos. 2010 9 . em sua maior parte composta por funcionários dos órgãos governamentais que foram os responsá­ veis por suprir todas as necessidades para a realização do evento. 1­17. documentação e esportiva.

v. por outro.5216/rpp. danças e alguns jo­ gos e brincadeiras indígenas foram demonstradas ao público. o que foi proporcionado a estes atores sociais foi uma apresenta­ ção em forma de espetáculo de determinadas práticas corporais dos povos indígenas – muitas vezes interpretadas como inusitada e exótica no contato intercultural. e pode. percebeu­se que não houve modificações significativas no documento que orienta as práti­ cas corporais. por um lado. Neste encontro – do qual participaram apenas cinco lideranças das 27 etnias que estiveram no evento. as práticas corporais constituintes deste evento parecem ser objetos de controvérsia.v13i1. as práticas corporais indígenas passíveis de normatização foram realizadas de maneira competitiva. na sua dimensão de alto rendimento. Durante a realização do congresso técnico. p.10. práticas específicas como ritos. Essas observações trazem à tona uma questão: em que medida a competição e a espetacularização contribuem para a ressignificação das práticas corporais tradicionais presentes no contexto dos Jogos dos Povos Indígenas. 13. 1. engendrar formas de aproximação e apropriação da cultura indígena por parte dos presentes. Ainda que a competição esteja presente com diferentes Pensar a Prática. 2010 10 . 1­17. Essa atividade serviu apenas como uma apresentação da estrutura regulamentada que enfatizava a realização das práticas cor­ porais de maneira competitiva. de acordo com edições anteriores. pois. Vis­ to por este prisma.8946 do com o objetivo de estabelecer normas comuns para as práticas cor­ porais. ao serem normatizadas por um processo de construção técnica. sobre a regulamentação das práticas corporais tradicionais. Neste caso. contribuir para promover o deslocamento do sentido de deter­ minada prática da cultura corporal de movimento desses povos. além de três organizadores – observou­se uma relevante influência dos sentidos incutidos ao espor­ te. jan. Por outro lado. contudo. n. que a espetaculari­ zação de determinadas práticas culturais pode ter uma dupla significa­ ção. apesar de ter havido co­ mentários pertinentes à estruturação do evento. Pode. Goiânia./abr. aspec­ to que merece maior aprofundamento. não colaboram para explicitar a diversidade cultural existente entre as etnias indígenas. tomando como fundamento os horizontes se­ mânticos dos indígenas? As práticas corporais indígenas no sentido da esportivização Na IX edição dos Jogos dos Povos indígenas. Deve­se pontuar.

10. Pelo contrário. e que se desenvolveram sob forma de demonstração. A disputa que en­ volveu a lança apresentou técnicas diversificadas na realização de seu lançamento. Estas práticas cor­ porais consistem basicamente em uma disputa entre dois lutadores que têm como objetivo desequilibrar e derrubar o oponente. com um sentido único. de reconhecimento do ambiente natural e de relação com o mundo espiritual. o arco e a flecha foram produzidos pela própria etnia; no entanto. promoveu uma semelhança en­ tre as técnicas apresentadas. Goiânia. a interação. na qual as práticas corporais possuem centralidade. 1­17. sua estruturação como “modalidade esportiva”. não se deve pressupor que a rotina é constituída de formas irrefletidas de comportamentos repetitivos. v. têm como função preparar o indígena para combates que exigem maior capacidade de destreza e força física. Quando esta interação torna­se rotineira apresenta caracte­ rísticas institucionalizadas do sistema social de cada etnia./abr. são conti­ nuamente trabalhados pelos atores em suas condutas do dia a dia. p. Cada qual possui suas peculiaridades; entretanto. desprovidas de seus elemen­ tos originais. a análise também foi feita em relação às práticas em que não há condições de normatização. assim como nas corridas que. assumem outros sentidos e significados diferentes da­ queles de fuga. 2010 11 . destacam­se as lutas corporais. no evento o sentido competitivo consistia em sobrepujar o resultado al­ cançado pelo adversário. O arco e a flecha e a lança são instrumentos tradicionalmente utili­ zados para a caça e a defesa da comunidade na aldeia. O mesmo fato pôde ser observado na “canoagem” e na “natação”. No entan­ to. por serem restritas a deter­ minados grupos. 13. geralmen­ te os lutadores – tradicionalmente reconhecidos como guerreiros – possuem maior prestígio dentro de sua comunidade. possuindo normas que controlavam as ações dos indivíduos. O uso desses instrumentos exige técnicas corporais específicas que possuem senti­ do e significado próprios em cada cultura indígena. Nessa direção. é situada no tempo e no espaço. n.8946 intensidades nos jogos tradicionalmente realizados nas aldeias.5216/rpp. de modo geral. a fiscaliza­ ção e a padronização). Pensar a Prática. Nos contextos das distintas sociedades indígenas.v13i1. Dentre as práticas corporais indígenas demonstradas. Nesta ocasião. 1. Observou­se que as práticas corporais reali­ zadas da forma levada a efeito no evento envolveram em seu conjunto elementos tradicionais (como as pinturas e adornos corporais) e outros referentes a aspectos modernos (como a regulamentação. jan.

em muitos casos. p. No entanto. posto que todas foram realizadas neste contexto com suas particularidades tradicionais. imbricadas com elementos mo­ dernos. presumem uma explicação mitológica para sua realização.10. as corridas. 35). 158). não foi alterada. em seus depoimentos. Estas práticas constituem­se em meios de interação entre o mundo dos espí­ ritos e o mundo real. Casos que podem ser explicados pelo arranjo promovido pela estruturação do evento às práticas corporais. v. Pode­se notar que o padrão de conduta re­ conhecido como apropriado sobressaiu­se sobre raros comportamentos desviantes. Por outro lado. 1990. p. 13. com efeito. Nesta perspectiva. a consciência discursiva. isto é. Goiânia. Vale ressaltar ainda que esses processos interétnicos geram “hibri­ Pensar a Prática. 1989. são em essência produto da interiorização das es­ truturas do mundo social” (BOURDIEU. 1. responsáveis por constituir a consciência da pes­ soa indígena e suas condutas. Nesse cenário de ocorrência de processos interétnicos. que relataram motivos relacionados a valores de sua etnia. a análise faz compreender que a estrutura interferiu significativamente na consciência prática do agente. p. jan. No entanto. se criou uma rotina diferenciada. as lutas corporais. os protagonistas do encontro social. Percebeu­se que as práticas corporais realizadas naquele espaço de interação interétnica possuíram em seu interior uma lógica. Isso significa dizer que a estrutura da ocasião social. 1­17. os ele­ mentos tradicionais permaneceram na consciência dos indígenas.v13i1./abr. No contexto dos Jogos dos Povos Indígenas.5216/rpp. cada etnia. que as coer­ ções sociais têm influência em seu comportamento. não foram capazes de reconhecer. em grande medida. caso de práticas seculariza­ das como futebol e o voleibol. visto que ocorreu à “monitoração re­ flexiva da conduta” (GIDDENS. a ocupação de uma posição social. Tal fato se explica. foi compreendida pelos indígenas. de acordo com sua dinâmica cultural. os jogos e as brincadei­ ras tradicionais estão apoiados no sistema de classificação de cada po­ vo. aquela que o indiví­ duo demonstra estar apto a relatar coerentemente suas atividades e fornecer as razões que as motivam. que carrega em seu conjunto valores modernos.8946 Neste sentido. se apropriou de práticas corporais de outros po­ vos em ocasiões de interação interétnica. um universo de significados que foram as­ similados pelos indivíduos. pela estrutura que conduziu os atores sociais a determinadas relações sociais. n. como: aumento do prestígio e. 2010 12 . pois “as estruturas mentais através das quais eles [os indivíduos] apreen­ dem o mundo social.

o enfoque foi dado sobre a influência do fenômeno esportivo – promovido pelo contato interétnico – em projetar um processo de ressignificação das práticas corporais apresentadas no evento.10. Desse modo. Goiânia. a noção de hibridação serve para “designar as misturas interculturais propriamente modernas”. observou­se que as práticas corporais foram confi­ guradas de modo a proporcionar a competição entre os indígenas.v13i1. Nesse contexto. isto é. neste trabalho. portanto. 1­17. tendo­ se./abr. foi construir uma leitura da re­ alidade observada durante a IX edição dos Jogos dos Povos Indígenas. 13. De acordo com Canclini (2003). nos usos e apropriações das práti­ cas corporais tradicionais que se reconfiguram por meio da adoção de elementos e valores tradicionais e modernos. com base em uma análise na qual se procurou explicar e compreender o objeto de estudo por meio das disposições da personalidade dos ato­ res. entende­se que essa ressignificação surge da recriação do patrimônio cultural por parte dos atores sociais envolvidos no evento. os processos de hibridação ocorrem em meio às contra­ dições da modernidade. da massificação em escala global de produtos simbólicos e dos conflitos de poder.8946 dações”. 2010 13 .5216/rpp. 1. que a estes são incorporados outros elementos que são. entende­se que o evento permitiu a construção de um processo híbrido na maneira de os sujeitos (povos indígenas) usarem e servirem­se de seus corpos. n. mas sim. no qual foram hibridados elementos que a identificam como práticas tradicio­ Pensar a Prática. Na construção desse olhar interdisciplinar. Considerações finais O que se pretendeu. Nesta direção. constituiu­se um outro arranjo a essas práticas. p. jan. v. característicos da modernidade. por seu turno. A estrutura que surge com a hibri­ dação evidencia que modernização e tradição estão imbricadas. bem como pelas coerções estabelecidas de acordo com a estrutura social. como resultante outra significação. compreende­se que elementos da tradição não são to­ talmente abandonados. Por meio da interação interétnica pode­se inferir a existência de uma afir­ mação – elemento crucial das relações entre índios e não­índios – po­ de ser constituído outro habitus. No processo de uma di­ nâmica cultural. Nesse ínterim. Partindo desta afir­ mação. conforme um sistema de disposições adquiridas pela aprendizagem promovida pelo contato interétnico sus­ tentado em um sistema de classificação distinto.

em sua dimensão de alto rendimento.8946 nais com elementos característicos das sociedades modernas. 13. Com esse enfoque. The investigated aim was composed by using approach of body techniques regarding sports. a relação dos indígenas com o uso e apropriação de seus corpos. contribuir para o estabelecimento de outro habitus e modifi­ car. v.10. Nessa perspectiva. Goiânia. assim. portanto. based on the analysis of the IX Edition of Jogos dos Povos Indí­ genas [Games for Indigenous People]. considering as outline the case study. os indíge­ nas assumem­se como “competidores”. o que pode. n. vale registrar que a oferta das práticas corporais nos Jogos dos Povos Indígenas. Com efeito. seguiu a lógica do esporte de alto rendimento.5216/rpp. Com base na construção dessa leitura. 1­17. in­ clusive. jan. sem abandonar os costumes das diferentes sociedades. foram assimilados pelos indígenas participantes do evento. Compreende­se. 1. observa­se que os princípios e peculiaridades do esporte. p. pode­se sugerir que a ressignificação das práticas cor­ porais ocorre na medida em que há a apropriação dos princípios do es­ porte de alto rendimento pelos indígenas participantes do evento. sendo o sentido de competição recriado por estes indivíduos ao adotarem um padrão de conduta con­ dizente com a expectativa da organização. em relação à sua estruturação. exposing a new mean for the body practices concerning the Indigenous participants./abr. Sport and culture: assessing the ‘sportivisation’ of body practices in Indige­ nous games Abstract This study is based on the Master’s thesis presented to the Graduate Programme for Physical Education of the University of Brasilia. as práticas corporais ressignificadas podem vir a interferir na consciência dos indivíduos. The results revealed an exchange between values and traditional. que esse evento contribuiu para reconfigurar – competição e espetaculari­ zação – as práticas corporais indígenas. 2010 14 . Com es­ ta noção. Keywords: Body practices ­ Culture ­ Games ­ Indigenous People Deporte y cultura: análisis referente al esportivização de las prácticas corpo­ rales en los juegos indígenas Resumen Pensar a Prática. The study consists of a dialogue between Physical Education and Social Science. modern practices; therefore.v13i1. The aim was to interpret the measure contri­ buted by such competition to offer a new mean regarding the body practices for the several Indigenous ethnic groups.

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