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2 CASO SENSACIONAL: A CRIAÇÃO DO PSEUDOENTORNO PELOS
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JORNAIS NO DISCURSO DA REVOLUÇÃO ACREANA
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Gilberto Mendes da Silveira Lobo1
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Mestrando em Letras: linguagem e identidade - UFAC. e-mail: loboacre@gmail.com

9RESUMO: Este texto tem o objetivo de mostrar como o espanhol Luiz Galvez de Arias
10utilizou os jornais de Belém e do Amazonas para conquistar a opinião pública para legitimar
11um conflito internacional, a partir da passagem do navio de guerra norte americano
12Wilmington pelos rios da Amazônia, sem prévia autorização do Governo do Brasil, no ano de
131899, criando um pseudoentorno, teoria em que o jornalismo apresenta duas visões de mundo,
14na qual metade é verdadeira e a outra artificial. Isso porque uma fração do que se sabe é
15construída de narrativas contadas por meio do jornalismo, da história ou de outros meios.
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17Palavras–chave: enunciado, jornalismo, opinião pública, pseudoentorno, revolução acreana
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20SENSATIONAL EVENT : THE CREATION OF NEWSPAPERS IN
21SPEECH BY PSEUDOENTORNO REVOLUTION OF ACRE
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23ABSTRACT: This text aims to show how the Spanish Luis Galvez of Arias used the
24newspapers of Belém and the Amazon to win public opinion to legitimize an international
25conflict , from the passage of the North American warship Wilmington rivers of the Amazon
26without prior authorization from the Government of Brazil , in 1899 , creating a
27pseudoentorno , theory that journalism presents two world views , in which half is true and
28the other artificial. That's because a fraction of what is known is constructed from narratives
29told through journalism , history or other media.
30KEYWORDS: statement , journalism , public opinion, pseudoentorno , Acre revolution
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33INTRODUÇÃO
34 Johann Gutenberg de Maniz criou em aproximadamente 1450 uma prensa gráfica. Segundo
35Asa Brigs e Peter Burke (2006), 50 anos depois, as máquinas de impressão gráfica estavam
36espalhadas por mais de 250 regiões da Europa e cerca de 13 milhões de livros haviam sido
37impressos. Os autores destacam que ao lado da pólvora e da bussola, a imprensa provocou
38grandes mudanças no estado e na face das coisas pelo mundo. Mesmo não sendo unânimes, os
39panfletos, os livros, os jornais e outras formas de impressão gráfica estiveram presentes em,
40como citou Brigs e Burke (2006), acontecimentos rotulados como a Reforma, as guerras
41religiosas, a guerra civil inglesa, a Revolução Gloriosa de 1688 e a Revolução Francesa de
2X Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação, 2015
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114) 57 Mas com o surgimento da imprensa na Europa. foi. as Escrituras estavam acessíveis em outra língua que não 66o latim”. 49prática presente na vida comunitária desde a Grécia antiga. Enquanto eu não sei que o poder é algo dos homens associado a seus interesses de domínio e exploração de outros homens. Revolução Acreana. “Pela primeira vez. podia ser visto. Ciro Marcondes Filho (2000) explica que: 69 70 71 72 73 74 75 76 O primeiro jornalismo. P. somada às 63outras estratégias utilizadas por Martinho Lutero. como livros e panfletos. (Filho. foi quando utilizou a imprensa como ferramenta para induzir a 82sociedade a participar da guerra. 115). (THOMPSON. foi criado a Comissão de Propaganda 83Governamental. de 1789 à metade do século XIX. Hannah Arendt (1987) diz que essa criação da esfera 67pública baseada na mídia facilitou também a tentativa de uniformização do pensamento. ou como ficou registrado na historiografia oficial brasileira. (DEFLUER. onde eram promovidos os debates. eu acredito que ele é “natural”. E mesmo com uma parcela muito grande da 61população ainda analfabeta. tanto no sentido de exposição do obscurantismo à luz quanto de esclarecimento político e ideológico. Eles contam que Woodrow Wilson. A tecnologia da impressão demonstrou. Essa nova publicidade atingiria um número maior 60de pessoas e não dependia de um lugar físico. ela tem essencialmente um caráter dialógico. p. por aqueles poucos indivíduos que calhavam de estar presentes. Em resumo. 52 53 54 55 56 O evento público era um espetáculo que. Além disso. a população pacífica foi convertida em população assustada e 84armada. de manutenção da autoridade e do poder. 1999. quando foi 79eleito presidente dos Estados Unidos em 1916. foi criado “um novo tipo de 58publicidade ligada às características da palavra impressa e a seu modo de produção. 2000. como a publicidade de co-presença traz como consequência a reunião de indivíduos num mesmo lugar. A 44grande contribuição da imprensa nesses eventos refere-se à conquista da opinião pública e a o 45surgimento da esfera pública. Para isso. era possível a transmissão rápida e extensiva de informações para 62um grande número de pessoas e lugares. decidiu que o país precisa participar da 80Segunda Guerra Mundial. 1999. mas para tal feito seria necessário convencer a população de que 81havia tal necessidade. da 68massificação de ideologias. 11) 77 Ignácio Ramonet e Naom Chomsky (2002) apresentam um bom exemplo dessa nova 78publicidade baseada na força da esfera pública. 114) e em um lugar específico. que Deus e a natureza criam homens para mandar e outros para servir. Em seis meses. 2015 6 Página 2 . p. o conflito conhecido pelos bolivianos como Guerra del 43Acre. poderia confrontar até o 65poder da igreja. talvez até cheirado ou sentido de alguma maneira. p. a partir de materiais impressos. “um evento se tornava público quando era 47representado diante de uma pluralidade de indivíduos fisicamente presentes à sua ocorrência” 48(THOMPSON. ouvido. O controle do saber e da informação funcionava como forma de dominação.4 421789 e no caso analisado neste texto. difusão e 59apropriação” (THOMPSON. pronta para entrar no conflito internacional “que queria ir a la guerra y distruir todo ló 5X Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação. 46 Antes do invento de Gutenberg. 1999.1993. assim o da “iluminação. 50Thompson (1999) como publicidade de co-presença. o que foi chamado por John B. 39). assim como facilitava a submissão e a servidão. caracterizada pela presença da “visão” e 51“audição”. “aparência visual” e “palavra”. que a exposição para um grande número de 64pessoas. p.

p. semelhante ao Mito da Caverna de Platão. dava os detalhes e características da belonave que fundeara no porto às 6 1/4 horas da tarde do dia antecedente (TOCANTINS. que por algum tempo esteve encarregado 125da gerencia do Commercio do Amazonas”. como também as perspectivas psicológicas dos indivíduos. p.p. acompanhado do clichê de uma unidade da esquadra norteamericana. (DEFLEUR. teria saído do Amazonas em direção ao Pará como anuncia o 123jornal Commercio do Amazonas. desprezar a todos os alemanes. Mas 8X Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação. no povo. Pará e Rio de Janeiro. 1993. reportagens e transcrições em jornais do Brasil.7 85que diera a alemãn. 87 88 89 90 91 92 Ao final do século XX. pois se referia à visita da canhoneira de nome Wilmington. assim. principalmente do 108Amazonas. a visão de 95 mundo é dividida em duas partes: uma metade é verdadeira e a outra artificial. daria inicio a uma intriga internacional cujos verdadeiros fundamentos até hoje se ignoram. na primeira página d’A Província do Pará. no qual as 99 sombras eram reconhecidas como o reflexo de uma população que vivia na caverna. Dessa 100 forma. embora não a tenha assinado. 102 103O LADO ARTIFICIAL DA VERDADE 104 Segundo Miquel Rodrigo Alsina (1993) é fundamental para a compreensão de uma 105notícia o enquadramento dela em um modelo de mundo referencial. 2015 9 Página 3 . na edição de 16 de fevereiro de 1899. da história ou de outros meios. O resultado dessa mediação seria então a 98 construção de um “pseudoentorno”. no ano de 1899. E o fato 110escolhido foi o destacado pelo historiador Leandro Tocantins (2001): 111 112 113 114 115 116 117 118 119 A história começou em Belém do Pará. mescla inextricável de verdade e fantasia. permanecendo. p. Walter Lippmann (2003) destaca a própria mudança na 94 percepção da realidade provocada nas massas. E o fato encontrado que inicia 107uma série de artigos. 126 Os jornais da época dizem que o comandante da canhoneira chamava-se Chapman Todd. O 127militar norte-americano afirmou que a missão da equipe comandada por ele seria de paz. livros e revistas. 8-9). O registro da folha paraense. 40) 93 E dentre as mudanças. Aqueles meios representavam uma forma de comunicação que influenciava não apenas padrões de interação nas comunidades e sociedades. com objetivo de legitimar um conflito financiado pelo 109governo do Amazonas e confiado ao jornalista espanhol Luiz Galvez de Arias. todos os quais amplamente utilizados na sociedade – estavam trazendo importantes mudanças para a condição humana. Certamente ninguém previu que uma notícia publicada em destaque. Isso porque 96 uma fração do que sabemos é construído a partir de narrativas contadas por meio do 97 jornalismo. na manhã de 11 de março. o que demonstra que ele não 122queria ligar seu nome à notícia. Para Lippmann (2003). 298) 120 Cerca de um mês antes da notícia do navio de guerra norte-americano. desautorizando conclusões positivas ou negativas do fato. y salvar así e al mundo” (RAMONET e 86CHOMSKY. que diz: “Para Belém 124seguiu ontem o nosso ativo cooperador Luiz Galvez. 2002. 2001. estava ficando claro para os pioneiros cientistas sociais de então que os novos veículos de massa – jornais. um mundo real que 106produz os acontecimentos utilizados na confecção da notícia. o jornalista 121responsável pela publicação. o jornalismo tornou-se um mediador entre as partes “verdadeiras” e “artificiais” do 101 mundo.

300) 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 Tocantins (2001) relata ainda que os jornais lançavam críticas ao pedido de desculpa dos representantes dos Estados Unidos da América. sendo bastante visitada segundo anuncia o Comércio do Amazonas. 2012. o espanhol Luiz Galvez de Arias. havendo solicitado licença ao Governador Ramalho Júnior para subir o Amazonas. a passagem do navio de guerra dos EUA por rios da Amazônia. com 129apoio de membro da delegação boliviana que montaria a Aduana no Acre. com a menor atenção do governo. que vai se desenrolar até um conflito internacional. porém. Wilmington teve fria recepção. e este recusado a concedê-la. em edição de 2 de abril de 1899. de suposições. como Huthoff. p. E na capital amazonense vai ocorrer o primeiro incidente da série de fatos que turvariam os propósitos da mission of friendship proclamados pelo comandante Tood. chamado Gulherme 130Uthoff1 foi o detalhe destacado pelo jornalista Jailson Soares Dantas (2012): 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 141 142 143 144 145 De Belém zarpa a Wilmington para Manaus onde aguardava igual acolhida por parte do governo e do povo. entre outros. nem ao menos a visita da saúde pública. 2006. repórter do jornal Commercio do Amazonas. recebido em caráter oficial pelo Governador. favorecia tanto a enunciação como o enunciado de um conflito bélico por terras que o governo brasileiro considerava serem bolivianas. segundo Michel Foucault (1987). Em Belém. P. A atitude do comandante Todd originou muitas críticas e restrições à sua missão de boa vizinhança.10 128o que ajudou na possibilidade do surgimento da narrativa construída por Luiz Galvez. O cônsul Kenndedy apressou-se a ir justificar na redação d’A Província do Pará o insensato gesto de seu compatriota. furtivamente. de um lado existia o entorno real. na volta de Iquitos. durante a noite. Aí começa o encadeamento de uma história constituída de retalhos. não contou. aonde regressou a 28 de abril de 1899. Ultoff e Utoff. mas que eram ocupadas por brasileiros e que geravam volumosas riquezas para o Estado do Amazonas e do Pará. tento em Manaus quanto em Belém. então do outro poderia existir uma versão dado pelo jornalista Luiz Galvez que poderia ser o envolvimento da tripulação norteamericana com a notícia de que: 111 Neste texto será a dotada a grafia Uthoff. de afirmativas e negativas reticenciosas. na primeira passagem pelo porto. mas em vários jornais o nome está escrito 12diversas formas. (TOCANTINS. mormente quando soube haver o Ministério do Exército Brasileiro concedido a necessária licença. cenário internacional e local. influenciando a opinião pública. de motu próprio empreender o cruzeiro rio acima. O ponto de partida foi o estranho procedimento do comandante da canhoneira que. com os faróis de navegação apagados. E como. Leandro 149 Tocantins (2006) diz que: 150 151 152 153 154 155 156 157 Em Manaus realizaram-se comícios públicos em condenação ao procedimento do comandante norte-americano que. (DANTAS. “não se pode falar em qualquer época de qualquer coisa”. Dessa forma. saindo de Manaus. criando um 148 “pseudoentorno” sobre o fato. resolvera. 13X Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação. 2015 14 Página 4 . de misteriosos informes. 39) 146 Percebe-se que a incongruência entre a fala do comandante da Marinha dos Estados 147 Unidos e ação dele deixou margem para a interpretação feita por Galvez. antes da autorização do Governo Federal. sabia que os vários elementos como economia.

2. La construcion de La noticia. Brasília: Thesaurus. 2002. entre brasileiros e bolivianos. o que abre possibilidade de um engodo propagado por meio da imprensa. 204BRIGGS. Barcelona: Paidós. de celebrar um acordo com os Estados Unidos para conservar sua soberania nos territórios do Acre. desde a invenção da prensa. 2092012. 304) 176 177 178 179 180 181 Nem a confirmação da participação do ministro boliviano. Espionagem no Acre: um caso sensacional. capaz de criar um pseudoentorno. 206CHOMSKY. RAMONTE. 2015 17 Página 5 . 208DANTAS. No caso do conflito 191 internacional. Os documentos mostrados para confirmar o acordo entre os bolivianos e os norte-americanos não foram assinados por nenhumas das partes. 182 183 184CONCLUSÕES 185 A imprensa. que culminava com o 196 arrendamento das terras do Acre para o Governo dos Estados Unidos. para legitimação de 186 discurso perante o público. 2005. possibilitou. sem a prévia autorização do Governo do 193 Brasil. revistas. Noam. parceiro de Galvez na proclamação da República do Acre. foi palco para ideologias. mediante concessões aduaneiras e territoriais. A única assinatura era a do espanhol Uthoff. 2. 10. (TOCANTIS. 205Rio de Janeiro: Jorge Zahar. apoiado na 190 parte real da convivência pública. 2006. 199 200REFERÊNCIAS 201 202ALSINA. Purus e Iaco. Hannah. As conversações já estavam adiantadas e na noite daquele mesmo dia o Ministro Paravicini tinha encontro aprazado com o cônsul norte-americano. guerras 187 foram iniciadas antes de tudo por enunciadores que usavam como meio jornais. Jailson Soares. Miquel Rodrigo. nem outras versões sobre o objetivo da missão da Wilmington foram encontradas. de Platão.15 170 171 172 173 174 175 O ministro Paravicini tratava. fatos que “justificaria” 197 um embate armado e a tomada de posse de uma terra reconhecida pelo Brasil como sendo 198 pertencentes ao país vizinho. 2001. BURKE. e sem. 16X Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação. Diante desse quadro. para ultimar os detalhes da proposta que. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 203ARENDT.ed.ed. secretamente. revoluções. 15. a artificialidade das notícias. Barcelona: 207Icaria.ed.ed. O poder da igreja católica foi questionado. até hoje uma justificativa plausível do real objetivo da missão norte194 americana. Ignácio. Peter. Asa. a 192 passagem de um navio de guerra pela Amazônia. em nome da Bolívia. dentro das páginas dos jornais uma versão do fato criado pelo 195 jornalista espanhol Luiz Galvez e seu parceiro Guilherme Uthoff. ele ia encaminhar ao Presidente Mac Kinkley. demonstrando como se cria um pseudoentorno. 1993. financiado pelo governo do Amazonas. Cómo nos vendem La moto. p. 188 panfletos e outros tipos de materiais impressos. o jornalismo pode ser 189 comparado ao Mito da Caverna. A condição humana. São Paulo: Forense-Universitária.

216Petrópolis: Vozes.Rio de Janeiro: Forense-Universitária. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Walter. 212FOUCAULT. Jhon B. 2003.ed. Michel. A arqueologia do saber.ed. Formação histórica do Acre I. 2001. Madrid: Langre. 2015 20 Página 6 . Leandro. Malvin L. 217LIPPMANN. 5.18 210DEFLEUR. 2111993. 3. 1999. Teorias da comunicação de massa. 218 219 220 221 222 223 19X Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação. Brasília: Senado Federal. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 2131987.ed. 214TOCANTINS. La opinión pública. 215THOMPSON. 2.