GUIMARÃES ROSA

Guimarães Rosa:
do sertão às savanas

Pós-Doutora pela Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique). GUIMARÃES ROSA Rita Chaves . Professora da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo. Doutora em Letras (Letras Clássicas) pela Universidade de São Paulo.

A relação autor/obra/leitor. que sobretudo nos últimos anos se vêm realizando no Brasil. Mia Couto. GUIMARÃES ROSA Abstract Based on interviews and testimonials by the Mozambiquean writer Mia Couto. Mas não são propriamente esses os problemas que nos mobilizam no momento. Estudiosos de seu trabalho se espalham por universidades americanas e européias. Angola e Moçambique. tomando como baliza os territórios que foram até os anos 70 do século XX ocupados por Portugal. oralidade. the text focuses on decisive aspects about João Guimarães Rosa’s relevance to literary system formation in countries like Angola and Mozambique. destacada por Candido (1976). sendo também conhecida a imensa repercussão de sua obra em outros continentes. modernidade. precisa ter ali. Utopia and politics. cujos resultados demonstram www. em seu notável Literatura e sociedade. colocando-o como um dos nomes mais importantes da nossa história literária. o que equivale a buscar marcas que revelem a dimensão do escritor mineiro na produção de autores fundamentais na Literatura de Angola e Moçambique. who identifies other meanings for linguistic reinvention processes. seja através da crítica jornalística. Mia Couto. A despeito da qualidade de alguns trabalhos. As constantes reedições. a organização de coletâneas. com aspectos muito interessantes para o campo da Teoria Literária e da Literatura Comparada. Portuguese language. and politics. como a base do processo de sistematização da literatura no quadro da vida nacional. por exemplo. não tiveram tempo para a consolidação do exercício crítico como parte importante do seu quadro cultural. seja através da produção universitária. mas no processo de produção da literatura. 138 Países de independência recente. Tradição/modernidade. evidencia o prestígio de seus livros em muitos países. Tradition/modernity. Como o assunto é Guimarães Rosa.Resumo Com base em entrevistas e depoimentos do escritor moçambicano Mia Couto. Utopia e política. Mia Couto. is revisiting concepts like tradition. nesses dois contextos. O índice de inscritos nos eventos. um enquadramento particular. Palavras-chave Guimarães Rosa. o texto focaliza aspectos determinantes para a relevância de João Guimarães Rosa na formação do sistema literário em países como Angola e Moçambique. Keywords Guimarães Rosa. Utopia.br/angulo . Conceitos como tradição. revistas e eventos em torno da obra e da vida do autor comprovam a força de seu trabalho em nosso contexto cultural. entretanto. modernity. A edição dessa revista vem confirmar o fato. à relevância da atividade literária não tem correspondido uma prática de leitura que interfira vivamente na formação de seus sistemas literários. as adaptações de seus textos para outras linguagens. Como intelectual e criador. utopia e política são revistos por Mia Couto. Sobre a recepção de Guimarães Rosa no Brasil não pode haver dúvida. Há. a produção de trabalhos acadêmicos. orality. que identifica outros sentidos para os processos de reinvenção linguística que também o ligam a Guimarães Rosa. Afric. o que pauta esse texto é o levantamento de alguns elementos que nos ajudem a identificar sinais da recepção de Rosa. Guimarães Rosa ultrapassou os limites do seu país. África. Língua portuguesa. outras faces da repercussão dessa obra que podem ser identificadas não no desenvolvimento de estudos literários. which also tie him to Guimarães Rosa. É esse o caso do continente africano.fatea.

O SE R T ÃO N O ÍN D I CO Os primeiros contatos de um leitor brasileiro com a obra de Mia Couto. Suas colocações oferecem pistas produtivas para o evidente e valioso esforço de alguns de nossos estudiosos na tentativa de elaborar um quadro de análise que desvende essa intrincada rede de relações no domínio da Literatura Comparada. GUIMARÃES ROSA largamente a energia de sua presença não só no itinerário de ficcionistas./dez. A necessidade de contrariar os excessos do realismo 6. que chegou aos sertões e a seu principal escritor pelas mãos do angolano José Luandino Vieira. o moçambicano Mia Couto. vindas ao Brasil. numa comunicação apresentada na Academia Brasileira de Letras e a que deu o título de O sertão brasileiro na savana moçambicana e em julho de 2007. todavia. A impossibilidade de um retrato da nação. o escritor moçambicano vai além e avança na direção de alguns pontos que estariam na base do terreno sobre o qual se dá o tal abalo. ele discorre sobre três aspectos: 1. Podemos localizar pelo menos dois momentos em que ele elabora sínteses da sua própria interpretação da importância de Guimarães Rosa em sua trajetória de escritor: em agosto de 2004. Sem se deter nas consequências que podemos ver materializadas em seu texto.. Na Universidade Federal de Minas Gerais. 3. 2008. os elos se mantêm e encontram eco também na criação literária e na sua capacidade de exprimir o jogo de semelhanças e diferenças que a história vai elaborando. A urgência de um português culturalmente remoldado 7. Quem conhece o percurso de Mia Couto. pode entender muito bem a valorização da não exclusividade da atividade literária que ele assinala no itinerário de Rosa. 5. 136-143. Nas duas ocasiões. O exemplo de uma obra que se esquivou da obra. Conhecedor. revistos. Do conjunto de escritores que podemos visitar. na sequência. A construção de um Estado Centralizador e a recusa de homogeneidade. laços que nascem com o tráfico de pessoas na industrialização da escravidão. 4. São sete os pontos abordados por ele: 1. 2. out. p. ele passa em revista a espécie de abalo sísmico provocado em sua alma pelo encontro com Rosa. atualizados. Em diversas entrevistas e sobretudo em suas ângulo 115. em diversas oportunidades e na forma de textos que abrem perspectivas para a leitura das ressonâncias inscritas no diálogo entre as literaturas em português. Mia Couto é convidado a falar de sua relação com o Brasil. tem explicitado o seu tributo. com Guimarães Rosa. que conduziu Guimarães pelos interiores do Brasil pode ser associada ao trabalho de biólogo que o 139 . colocam-no diante da notória presença do escritor mineiro na história da narrativa produzida em língua portuguesa na África. à partida. do contexto sócio-cultural em que se ancora o seu trabalho. A instauração de um outro tempo. Vale destacar que são já vários os trabalhos produzidos no Brasil sobre a relação entre Luandino e/ou Mia e o autor de Grande Sertão: veredas1. Chama a atenção. O confronto entre a voz autoral e a prática de sua escrita pode apontar atalhos para aqueles que desejarem persistir na exploração dessas travessias. com a Literatura Brasileira e. 3. concentramo-nos na transcrição de algumas passagens de entrevistas e depoimentos do autor de Terra sonâmbula que indicam rumos para o estudo dessas intertextualidades conscientes e cultivadas. somos levados a refletir acerca dos laços que se criaram entre o Brasil e o continente africano. 2. A sugestão de uma língua que se liberta dos seus regulamentos. Modificados. intitulada Encontros e encantos – Rosa em Moçambique2. um dos mais conhecidos escritores africanos entre nós. A construção de um lugar fantástico. Mia Couto concentra sua atenção em problemas que estão na origem de algumas convergências que os estudiosos vêm detectando. A afirmação da oralidade e do pensamento mágico. numa conferência em Belo Horizonte. de modo especial. mas que não se encerram com a abolição oficial da escravatura. o processo de desmontagem do idioma imposto com a colonização e somos levados a pensar no complexo problema da expressão num contexto sóciopolítico-cultural marcado pela heterogeneidade e pela contradição. mas também na história recente dos universos culturais em que eles se inserem. A importância do escritor poder não ser escritor. E. É que a função de médico. Tendo em vista a idéia principal desse texto — abrir o espaço às vozes dos escritores —.

nem sempre com êxito. uma ideia de futuro que faz sentido nos dois países. de discursos tão diversos que não parecem caber numa mesma identidade nacional. tem sido uma das funções que a literatura se atribui em espaços marcados pelo selo da periferia. via de regra. A negação dessa globalização doméstica é. cuja aproximação pode ser compreendida do seguinte modo: Moçambique e o Brasil são países que encerram dentro de si contrastes profundos. Para os que guardam alguma familiaridade com os estudos rosianos. de universos. muitas vezes. com a literatura entre elas. auxilia-nos a compreender a magia do sertão como um lugar inventado pela escrita de Rosa.] Rosa não escreve sobre o sertão. Ele escreve como se ele fosse o sertão”. A tradição surge como uma espécie de lugar congelado da cidadania. 2007). definida por ele como uma indisciplina. Esse posicionamento político não formulado se inscreve no tratamento da linguagem. na sua conversão em cosmos. de conceber a totalidade de um país. 2007). A novidade está certamente na maneira de observar essa questão trazendo-a para o contexto moçambicano. 2007). enquanto criaturas portadoras de História e fazedores de futuro. Esse lugar fantástico “é uma espécie de lugar de todos os lugares”. Mia Couto vê na obra de Guimarães um contraponto a uma “idéia uniformizante e modernizante de um Brasil em ascensão”. a fragmentação do olhar. Incorporando dessa maneira o que vê como uma lição de Guimarães Rosa.. um porto de abrigo para onde devem convergir e de onde devem partir as referências com que se constrói o patrimônio cultural.fatea. como se fosse uma resposta em que quando chega a noite eu tenho que pôr uma certa ordem naquele caos e essa ordem é a minha escrita. não por tomada de posse mas porque nele podemos encenar a ficção de nós mesmos.. Inventado pelo drama do colonialismo.br/angulo . Mia defende a necessidade de se entregar a outras tarefas como modo de enriquecer o seu trabalho de criador: Eu quase que só me vejo criando nesse caos. afirma Couto (2007). o país vê-se confrontado ainda com ameaças de desinte- 140 gração. E traça um paralelo com a situação de seu país: Também Moçambique vive a criação de uma razão de Estado. encarando-a no quadro de um momento chave da história do país: o momento da independência: Em Moçambique nós vivíamos e vivemos ainda o momento épico de criar um espaço que seja nosso. Entendendo a construção de Brasília como um marco do esforço de modernização do Brasil no decurso dos fervilhantes anos 1950/1960. Mas de culturas.GUIMARÃES ROSA moçambicano desenvolve pelas terras espalhadas de um país ainda em fase de consolidação de sua própria territorialidade. quer dizer. ou talvez melhor. frequentemente. Nos países africanos esse processo está em curso. tendo em vista que a criação do estado ainda não completou quatro décadas. investigam maneiras de integrar a diversidade. apostando na legitimidade de fazer da literatura um lugar de encontro das diferentes realidades. se têm conferido. na recriação da linguagem há a sugestão de uma utopia. o escritor faz uma leitura politizada de alguns procedimentos que. violentado por quase duas décadas de guerras. Se os governos. a missão de assegurar a coesão interna para evitar o que consideram o desmantelamento da pretensa unidade nacional. Consultado. uma nação que só vive estando morta. são apresentados como transcendentes. nessa dispersão. O sertão é um mundo construído na linguagem. [. Tratavase não de erguer uma nação mistificada mas da construção do mito como nação (COUTO. Então penso que essa maneira de fragmentar o meu olhar pelas coisas diversas que faço acaba por ser essencial. Na verdade. fazendo da multiplicidade uma espécie de ponto de fuga. de processos de uniformização linguística e cultural. era isso a utopia de um mundo sonhado que tivesse tudo de sonho e pouco de mundo (COUTO. África profunda e outras entidades folclorizadas têm sido erguidas do lado de fora e de dentro de África. que pode ser vista como uma maneira de apreender. em algumas entrevistas sobre a divisão da sua vida entre dois mundos tão diversos como a literatura e a biologia. África tradicional. as colocações não instauram novidade. as artes. Não se trata apenas de distanciamento de níveis de riqueza. não vejo outra maneira (COUTO. para quem: O sertão e as veredas de que ele fala não são da ordem da geografia. Participar na organização desse caos. Era isso a independência nacional. O que a escrita de Rosa sugeria era uma espécie de inversão deste processo de recusa. As vezes que eu tentei dizer assim ‘vou parar e vou me fechar para escrever’ não aconteceu nada. A escrita de JGR é uma es- www. feita por via da sacralização daquilo que se chama tradição.

alguém que usa poderes que não provenham da ciência nem da técnica. como se tivéssemos ali um reflexo direto do uso do idioma. o que Mia faz não é resultado de pesquisas dos desvios que os moçambicanos impõem à norma culta. p. 2007. remoldar a língua não significa propriamente para Mia Couto incorporar a fala dos habitantes cujo contato com o português não resultou num domínio efetivo do idioma. podemos atentar GUIMARÃES ROSA pécie de viagem em cima dessa linha de costura. mas é uma espécie de contrabandista entre a cultura urbana e letrada e a cultura sertaneja e oral. Por isso. 2008. A despeito dos vínculos muito fortes com a História. Esse é o desafio de procura incessante de uma identidade plural que ainda hoje enfrenta o Brasil. no fundo. a distância entre os territórios reconhecidos como províncias era imensa. É verdade que ainda hoje a maioria dos moçambicanos não tem o português como primeira língua e o baixo nível de escolarização e até da difusão da língua portuguesa são fenômenos que interferem na sua apropriação. Os séculos de dominação colonial impuseram a esses povos. Necessita-se da ligação com aqueles a que Rosa chama de “os do lado de lá”. O que oferece é um modo de inventar o Brasil (COUTO. Mia Couto exprime na sua visão do Grande sertão: O personagem Riobaldo não é apenas o protagonista-narrador de Grande Sertão Veredas. em Angola e Moçambique./dez. muitas diferenças persistem. Sem ignorar esses dados. E as referências da oralidade constituem um legado fundamental. ângulo 115. out. como se pode observar num esclarecedor artigo de Gonçalves (2000. a noção de liberdade deve ser levada ao extremo também no que diz respeito à língua. Angola e Moçambique. E em sua obra. tem se pautado pela busca de uma dimensão estética em sua linguagem. Uma das lições aprendidas com as narrativas rosianas. e correta. inscreve-se como um compromisso a que a literatura não se pode alhear. p. 136-143. hoje situados entre os limites geográficos que a dominação colonial sagrou. a atividade literária não ignora o compromisso com a criação e o processo de invenção afirma-se como uma nítida preocupação de alguns escritores. a necessidade de contrariar os excessos do realismo e a afirmação da oralidade e do pensamento mágico. mas sobretudo. Mais que um ponto de charneira necessita-se hoje de um medium. gerando uma fala pontuada por desvios ao que poderia ser encarado como português padrão. diga-se de passagem. um conjunto de contradições que. Por razões várias. legitimam plenamente a que ele identificou como sexta: a urgência de um português culturalmente remoldado. porém. para colocar esses universos em conexão. É isso. Remoldar a língua significaria para Mia Couto aceitar aportes das línguas do grupo bantu com que se exprimem parcelas consideráveis da população. do mesmo tipo daquela que assombra o seu país. da existência de uma variante da língua portuguesa em Moçambique faz levantar no leitor a suspeita de que a linguagem utilizada por Mia corresponde ao modo de falar dos moçambicanos. a quinta e a sétima razão detectadas como expressão do tal abalo sísmico..Muito frequentemente acusada de estar presa ao documento. A idéia. p. como grande parte dos países colonizados. construídos sobre um conjunto de povos e delimitados por fronteiras desvinculadas de sua própria história. Em função do lugar que ocupavam no tabuleiro dos interesses dos colonizadores. isto é. 212-223). entre forma épica e as lógicas do relato tradicional. Dessa maneira. 112) Mia Couto vê na arte e no que ela tem de libertador a possibilidade de desempenhar tal papel. O mesmo desafio enfrenta Moçambique. com as dificuldades das circunstâncias que enfrenta em cenários de funda instabilidade. O ritmo e o tipo de modernização imposta a certas zonas acabam por criar hiatos profundos no interior desses países e é preciso investir em processos que impeçam a desagregação. A modernidade estilística que marca a obra de Rosa é considerada por ele uma recusa da modernização automática e excludente. À altura da independência. muitas vezes e sob muitos aspectos. com áreas tocadas em maior ou menor escala pelos ocupantes. que é o próprio Brasil. coloca em cheque o sentido de nacionalidade que foi base da conquista da independência. ajudando a garantir a comunicabilidade entre os vários mundos que habitam essas sociedades. 141 . apresentavam enormes diferenças regionais. uma ponte entre a modernidade e a tradição rural. Legitimar a invenção do outro – o invasor . os espaços hoje identificados como cada um desses países. A escrita de João Guimarães Rosa empreende algo que está para além da literatura: uma mestiçagem de sentidos. a literatura. compreender e potencializar a sua ligação com as matrizes culturais que fazem do seu um país de inegável mestiçagem. 2007). Esse lado está dentro de cada um de nós (COUTO. O que ele busca na escrita: um retrato do Brasil? Não.

São os homens em estado de poesia. iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes da infância. p. p. nem tanto há guerra (EA. Publicada no livro de 1991. antecipa as sínteses que Mia Couto formularia quando chamado ou motivado a falar de Guimarães Rosa. Quem mais se engasga é quem não come (CNT. portanto. articulase perfeitamente com esses procedimentos. 77). para citar apenas uns poucos exemplos. a biografia atribui contornos especiais ao problema: Sou moçambicano. 51). p.] (CNT. p. 37) . 106). p. p. p. combati pela independência. para ser fiel às palavras do autor de Cronicando. filho de portugueses. mas. Alguns exemplos ajudam a compreender o que move a sua pulsão criativa: Contra factos só há argumentos (CNT. misantrôpego (CNT. Entre uma pátria que nunca houve e outra que está nascendo. Quando o li pela primeira vez experimentei uma sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de história da infância. 215) Nem tudo que luz é besoiro ( (CNT. 2007. Mas é fato que se deixa visitar por ela com constância e é por aí que situa com firmeza e exatidão a sua dívida para com Guimarães Rosa: E foi poesia que me deu o prosador Guimarães Rosa. vivi o sistema colonial. Esse brilho da palavra. (COUTO. 216).. duas palavras não bastam (EA. p. com certeza ignorar a convergência de procedimentos que surpreendemos nas obras. aurorava (EA.. podem exprimir melhor o sentido da criação ou da estréia do mundo como ele prefere em “O viajante clandestino”: A criança tem a vantagem de estrear o mundo.] (C. 2007. ciumava (VA. se é patente no Brasil. p. contra a vitória do senso comum que tende a congelar o movimento que mantém viva a sabedoria dos povos. é um vigoroso sinal: Quando falamos de mestiçagens falamos com algum receio como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos “pura”. o que é fundamental é atentar para outros níveis dessa relação tão forte.(. 56). insere-se num projeto político. recebeu algo que era nosso (COUTO. Muitos mais foram referidos por Fernanda Cavacas. acrescenta uma tónica [. Mia Couto recupera da poesia o seu caráter de elemento de coesão. Não se trata.br/angulo .. da qual a própria literatura. do outro lado. hematombos (CNT. da revolução à guerra civil. 137). essa infância autorizada pelo brilho da palavra. na sua interpretação. timiúdo (EA. 84).]para os quais nem tanto há mar. Mas não existe pureza quando se fala da espécie humana.] para meio entendedor... [. A vontade de trazer a mestiçagem para a lín- 142 gua literária. portanto. desarticulando construções convencionalmente estabelecidas e criando neologismos como podemos ver em perfumegante (EA. 128).fatea. está associado à utopia e. cujo sentido se renova em seu país e está na origem de sua ligação com o escritor mineiro.. Na elaboração dessa linguagem capaz de exprimir não só a concepção de um outro espaço. p. p. que. 25). à vida sempre recém-chegando. embora atacada pelos defensores do essencialismo. 102). revela-se ao olhar mais atento. força constitutiva de uma escrita que ataca a regulamentação e apela a recursos que. eu me www. p. estridentou (CNT. Prosador consagrado. p. efetivamente. 59). vivi mudanças radicais do socialismo ao capitalismo. Quem faz uma crónica. Outros a elas se semelham. teatroso (VA. Essa condição de ser de fronteira marcou-me para sempre. Não se pode. p. p.. No seu caso. buscando nela a possibilidade de restabelecer elos que a grande cisão gerou. E se nos mestiçamos significa que alguém mais.) A poesia veio em meu socorro para criar essa ponte entre dois mundos distantes (COUTO. 153). mas de outra. 62). a crônica.. de repente. como tão bem discute Alfredo Bosi em O ser e o tempo da poesia. 80). Conversa puxa silêncio [. p. nessa passagem. da mestiçagem que se vê na cor da pele e que. 116) [. como produto da modernidade.. tão evidente na sua obra. Mia Couto explora as potencialidades do idioma.. 60). p. Coerente com a sua recusa de incorporar a tradição como um espelho imóvel. 66). boquiaberturas (TS) .. A culatra saiu pelo tiro (C. mas também a instauração de um outro tempo. p. Mia Couto apenas de vez em quando visita a poesia como gênero 3. 43). Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se. em Mia Couto: Brincriação vocabular. pois. uma fonte de águas repetidas. atentando. Nasci num tempo de charneira entre um mundo nascia e outro que morria. Mia Couto também investe na recriação de provérbios. lusco-focaram (TS). p. p. 103) açucaroso (VA. ali parece rarefeita aos nossos olhos de estrangeiro.GUIMARÃES ROSA para a dimensão da mestiçagem a que ele se refere tantas vezes. mal-desentendidos (EA. p. 1991.

2007 ______. Texto policopiado]. O segundo texto foi cedido pelo próprio autor. ______. out. 3. CHAVES. Via Atlântica. Rio de janeiro: Nova Fronteira.Conduzido. Literatura e sociedade. 3 Autor de livros de ficção. REFERÊNCIAS BOSI. ______. Pensatempos: textos de opinião. e o que ele pode representar no nível do concreto e do imaginário para milhões de africanos. Entrevista com Mia Couto. 1997. ______. 1987. Tania. “O sertão e as veredas de que ele fala não são da ordem da geografia. Para entrar naqueles textos eu devia fazer uso de um outro acto que não é “ler” mas que pede um verbo que ainda não tem nome (ROSA.. O problema será também tratado por Fabiana Carelli em: Ruína e Construção: oralidade e escritura em João Guimarães Rosa e José Luandino Vieira. tem apenas duas coletâneas de poemas: Raiz de Orvalho. tese de doutoramento defendida na USP em 2003.) Rosa não escreve sobre o sertão. a quem agradecemos muito mais essa gentileza. Lisboa: Caminho. Maputo: Ndjira.” Mia Couto ângulo 115. 4. 2000. por José Luandino Vieira à ficção de Guimarães Rosa — como repete em depoimentos entusiasmados e como demonstra na consecução de seus textos — Mia Couto. Rita. [Conferência proferida na UFMG. (. reinventando travessias que lhe permitem refundar pontes com o sertão que faz e de que se faz o escritor mineiro. Lisboa: Caminho. São Paulo. 143 . CANDIDO. Tania Macêdo aborda o problema em dois ensaios. ancorado na distante margem do Oceano Índico. 1991 ______. COUTO. 1976.. 2007. Contos do nascer da terra. p. Terra sonâmbula. 2002. Vozes anoitecidas. 2008. segundo ele próprio em várias entrevistas. n. 2���������������������������������������������������� ��������������������������������������������������� O primeiro texto está publicado no volume Pensatempos – textos de opinião. NOTAS 1 Em Angola e Brasil: estudos comparados. Porto Alegre. O ser e o tempo da poesia. realimenta o sentido da proximidade com o Brasil./dez. ______. Perpétua. 1977. 2006. GONÇALVES. MACÊDO. 1996. em 2007. Veredas: revista da Associação Internacional de Lusitanistas. 107) MACÊDO. Maputo: Ndjira. São Paulo: Nacional. 136-143. Alfredo. Lisboa: Caminho. Ele escreve como se ele fosse o sertão. Cronicando. O sertão é um mundo construído na linguagem. de 1983. 1996. Antonio. Encontros e encantos: Rosa em Moçambique.ed. Estórias abensonhadas. p. São Paulo: Arte & Ciência e Via Atlântica. Tania. Mia. GUIMARÃES ROSA tivesse convertido num analfabeto selectivo. São Paulo: Cultrix/EDUSP. Angola e Brasil: estudos comparados. Para uma aproximação LínguaLiteratura em português de Angola e Moçambique..