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Fichamento do Livro

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BOSI, E. Memória e sociedade: Lembranças dos velhos.14 ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 2007. 484p.
PALAVRAS CHAVES:
Experiência profunda; o sujeito que lembra

PREFÁCIO

“ Já se sabe: o que define a classe social é a posição ocupada pelo sujeito nas
relações objetivas do trabalho” ( João Alexandre Barbosa, in Bosi, 2008. P.11)
“ Os velhos são duplamente oprimidos: pela dependência social e pela velhice” (
João Alexandre Barbosa, in Bosi, 2008. P.12)

INTRODUÇÃO

-Sujeitos da pesquisa: Pessoas com mais de 70 anos que tenham em comum o
contexto social da cidade de São Paulo.
-Objetivo: Registro da vida e pensamento através dos relatos. Buscar mostrar a
memória pessoal, social, familiar e grupal. “[...[ interesse no que foi lembrado
[...]”(BOSI, 2008.p.37)
- Método: Formação de vínculo de amizade e confiança.
Sobre observação participante:
“Roman Jakobson refletirá que a observação mais completa dos fenômenos é a
do observação participante. Uma pessoa é um compromisso afetivo, um trabalho
ombro a ombro com o sujeito da pesquisa. E ela será tanto mais válida se o
observador não fizer excursões saltuárias na situação do observado, mas
participar de sua vida. A expressão “observador participante” pode dar origem a
interpretações apressadas. Não basta a simpatia (sentimento fácil) pelo objeto da
pesquisa, é preciso que nasça uma compreensão sedimentada no trabalho
comum, na convivência, nas condições de vida muito semelhantes. Não basta

age e atua na consciência presente (p. O observador participante dessa condição por algum tempo tem. a qualquer momento.“sombra junto ao corpo” – Bergson (BOSI.. Exercício de fixação= homem-ação.p.] a memória permite a relação do corpo presente com o passado [.p. p. 39) MEMÓRIA-SONHO E MEMÓRIA-TRABALHO “[. refere-se a aspectos práticos da vida cotidiana..Duas memórias: Memória hábito: Com ação limitada. Significa sofrer de maneira irreversível. as visitas ocasionais ou estágios temporários no lócus da pesquisa. se a situação torna-se difícil (BOSI.38) Ser. relacionando-se mais a aprendizagem e repetição. pela sua própria enunciação. possibilidade de voltar para sua classe. P.47).trabalhar alguns meses numa linha de montagem para conhecer a condição operária. sujeito e objeto. A memória interfere.. . 2008. “Lembrança puxa lembrança [.] (BOSI.. 2008.47).. 2008. ação. p. ao mesmo tempo.. . 2008. (p. o destino dos sujeitos observados (BOSI. sem possibilidade de retorno à antiga condição.47) . fala Passivo: escuta.38) Sobre comunidade de destino: “Comunidade de destino já exclui.38) Ativo: perguntas. silêncio. 2008.]” (BOSI.

as memórias. p. p. influência as recordações.. uma função própria: a de lembrar” (BOSI. (p.63). 59) . “Na maior parte das vezes. Lembrança= tesouro..63) “Há um momento em que o homem maduro deixa de ser um membro ativo da sociedade. São memórias de lembranças isoladas. reconstruir. no que se é atualmente. (p.]” (BOSI. toda lembrança “vive” em estado latente. (p. relaxamento. presente.Memória lembrança/memória sonho: É a lembrança pura..56) “Diferença entre os contextos” . p. 2008. 2008. São conflitivas (p. potencial” (BOSI. (p. 55) . idéias e interpretações podem surgir.58) .63) .56) Halbawachs diz que ao ler um livro já lido na juventude.60) . (p. As interpretações.O estado atual.55). as experiências do passado” (BOSI.A velhice: “sujeito que lembra” (p. outras não se revelam como faziam naquela época devido ao nosso estado no presente.51). independente das sensações do passado.48) “[.53). O tempo traz limitações. (p.Há dificuldades em reviver o passado tal com qual. p.A memória para o adulto é como um estado de prazer. repensar. Novas impressões surgem. (p. com imagens e idéias de hoje.] memória como conservação do passado [.. 2008. . Novas sensações. “Antes de ser atualizada pela consciência. devaneios = sonhador. 2008. estão baseadas no hoje.Tradição: memória coletiva de cada sociedade. mas refazer. deixa de ser um propulsor da vida presente do seu grupo: neste momento de velhice social resta-lhe. lembrar não é reviver. no entanto. Para o velho. ele nos parece “novo” ou “remanejado”. refere-se a situações definidas: tem ação livre. o lembrar é dar sentido para a vida.A linguagem como agente socializador da memória.

para que se complete o desenho de sua vida" (BOSI. como por exemplo os avôs. 2008. A narração da própria vida é o testemunho mais eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar. (63) .65) Quando um grupo trabalha intensamente em conjunto. “universos de significados”. “[.] qual a forma predominante de memória de um dado indivíduo? O único modo correto de sabê-lo é levar o sujeito a fazer sua autobiografia. p. 2008. "Os projetos do indivíduo transcendem o intervalo físico de sua existência: ele nunca morre tendo explicitado todas as suas possibilidades. verdadeiros “universos de discursos”.A velhice: “o sujeito que recorda” (p.Obrigação social do velho= lembrar.74) ... 2008. Me parece uma chance de reeditar a paternidade e aproveitando o melhor. Antes. p. 2008. p. Os idosos. É sua memória (BOSI..] a sociedade extrai energia da divisão de classes[. 2008. que dão ao material de base uma forma histórica própria. histórias e brincadeiras” (BOSI.77) A VELHICE NA SOCIEDADE INDUSTRIAL (p.67). uma versão consagrada dos acontecimentos” (BOSI.Ação adulta= PRESENTE..73) “ Aos avós não cabe a tarefa definida da educação do neto: o tempo que lhe é concedido de convívio se entretém de carícias. longe das responsabilidades educativas que muitas vezes distanciam a criança. p. morre na véspera: e alguém deve realizar suas possibilidades que ficaram latentes.68). medem suas atitudes baseados no que é melhor para o desenvolvimento da criança. p.75). CAPÍTULO 2 . tratam as crianças de igual para igual.77) . “[.. principalmente os pais. há uma tendência de criar esquemas de narração e de interpretação dos fatos. Os adultos.A história escrita e a falada (memória) são entregues à criança na infância..]” (BOSI. (p.

88) . p. p. 80) . Ela não visa a transmitir o “em si” do acontecido. ela o tece até atingir uma forma boa. (p. 2008. afastado da vida cotidiana. é a-histórica.Informação: atrai enquanto novidade.“O artesão acumulava experiência. o trabalho operário é uma repetição de gestos que não permite aperfeiçoamento. 2008. 2008. p. e os anos aproximavam da perfeição seu desempenho. SOBRE APOSENTADORIA (p. 78).A sociedade burguesa entende a morte como algo longe. pois não há lenta mastigação e assimilação.A memória precisa ser lapidada pela reflexão que se baseia no presente. Enquanto o artesão realizava sua obra em casa. (p.84) . 82) . o velho trabalhador tem que se deslocar” (BOSI.81) . 80) . valor imediato. momentâneo.O ato de narrar perde espaço para a informação. (p88) “A morte vem sendo progressivamente expulsa da percepção dos vivos” (BOSI. p.86) . a não ser a rapidez. por isso é que seu espectadorperde o sentido da história” (BOSI.87) “A narração é uma forma artesanal de comunicação. Hoje.Relembrar traz sentidos a vida. Faz de tudo para mantê-la no esquecimento. A comunicação em mosaico reúne contrastes. Recebe um excesso de informações que saturam sua fome de conhecer.Degradação prematura pela sociedade à pessoa que trabalha (p. episódios díspares sem síntese. era um mestre de ofício.Lembrança= sombra. na oficina doméstica. (p. 2008. Narração: algo maior.87) “O receptor da comunicação de massa é um ser desmemoriado. carregada de sentidos e significados.88) . incham sem nutrir. ( p. (p. Investe sobre o objeto e o transforma” (BOSI.

(p.são guardados de maneira individual. a memória pode ser evocada de forma diferencia. 2008. (p. Na idade adulta a rotina faz pensar em uma “pobreza de acontecimentos”. Parece-me que neste ponto a singularidade de cada ser humano molda a memória. cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva” (BOSI.. mesmo tendo ocorrido coletivamente. mudanças que nos fazem lembrar mais facilmente. 407). 2008.] muitas de nossas lembranças. O que não é compartilhado.(p. -A memória pode ser múltipla: diante dos inúmeros pontos de vista de quem vivência o fato.. 2008. 406) “[.. (p.89) Sobre narrador. ao qual retorna tudo o que deixou à luz do sol”(BOSI. 407) .Na infância e na juventude há uma riqueza de situações.Em uma situação em que o lembrar é evocado. 408) -Laços de convivência são a base da formação da memória coletiva. . 406) . p. 413).415) . um outro pode trazer luz aquelas lembranças difíceis de resgatar na íntegra. Memória como organizador cronológico. Talvez no futuro estas lembranças sejam compartilhadas com outros grupos sociais. (p. é vista como duvidosa para o sujeito que lembra. (p.O individual constitui-se através do social = processo inconsciente.413) . muitas vezes. (p.91) . p. lança uma ponte entre o mundo dos vivos e do além.O relembrar: “Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado. ou mesmo de nossas idéias não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros” (BOSI.. falecimento. A memória evidencia-se por marcos.Situações compartilhadas facilitam o processo da memória. (p. p. torna-se uma lembrança difícil de ser recordada e.Contudo. 408) “ Para Halbawachs. há fatos que.89). (p.. que são pontos de significação de vida concentrados: casamento.

. Contudo. (p. “[. 2008..Família como agente socializador: 1º contato da criança com o mundo.424).425) “Em cada fase da vida vão se alterando de leve os traços do parente em nossa lembrança” (BOSI.423) . também.] a memória grupal é feita de memórias individuais” (BOSI.... (p. 417. do sistema nervoso são violentados para seguir os vetores desse tempo sem margens.. para cada um. 2008.. p. para a dona de casa.“Reconstruir o episódio é transmitir a moral do grupo e inspirar o menores” (BOSI.417) “O ciclo dia e noite é vivido por todos os grupos humanos mas tem. irmão. (p.Famílias do interior conseguem manter os vínculos parentais. 2008. 2008.O indivíduo se modifica nos grupos que participa. homogêneo..425). 419) “O empenho do indivíduo em dar um sentido à sua biografia penetra as lembranças como um “desejo de explicação” ”(BOSI. 2008.423) . para o escolar.. 2008. (p.419. se filho.. grifo nosso).É uma fixação de papéis. torna-se criado” (BOSI.] O velho ritmo do estomago. onde qualquer ponto pode ser o de origem. p. As jornadas operárias em turnos alternados semanais afetam a coerência da vida da família.] A noite tem durações diferentes para o trabalhador braçal.] se solteiro. (p. p. o grupo familiar eterniza o seu papel: sempre ele será filho. (p.426) . onde não há marcos de apoio [. Atualmente os meios de comunicação se colocam. se patrão. roubam o passado e o futuro. lançam o trabalhador num tempo mecânico. O ritmo do sono. Impedem os projetos e a sedimentação das lembranças. .. p. aprendido desde a primeira infância.Atitude Símbolo: atuações da família/parentes que revelam a natureza íntima familiar. p. .424) .Famílias menores que outrora: tios e primos cada vez mais distantes. “[.Os marcos dividem a vida em períodos. neste papel. grifo do autor). sentido diferente [. p. torna-se pai. O operário mergulha na vertigem do tempo vazio em que sua vida se decompõe para que o objeto da indústria se integre e se componha” (BOSI.424) . é violentado. torna-se casado.

431) .(p. 2008. (p. ( p.Muitas vezes este centro do mundo alarga-se ao quintal.442) . neste ponto.os objetos que revelam status ( não se enraízam ) não acompanham o vivente: se deterioram.A casa do começo da vida. à árvore.. 436) . acertos objetos biográficos (versus objetos de consumo). (p. Eis alguns arrimos em que sua memória se apoiava” (BOSI. p.443) “Constituíram-se valores à práxis coletiva como a vizinhança (versus mobilidade).435) .A casa como centro do mundo para a criança.O sentimento de enraizamento envolve a participação dessas relíquias na vida do sujeito. família larga. O desenraizamento tem como causa a prevalência do dinheiro em relação a outros vínculos sociais. Os objetos biográficos permanecem (p. a importância do contato familiar com outros grupos sociais.441) OBJETOS DE CONSUMO ≠ RELÍQUIAS DA FAMÍLIA = Propriedade sagrada (p.424) . ARRIMOS = sustentação da memória. apego e certas coisas.441) . o rio. extensa (versus ilhamento da família restrita). Esse grupo social se aproxima do familiar quando intimamente ligados na infância.Dispersão de grupos: familiar distante pode ocupar um lugar mítico. de pessoa amada = fator de aproximação familiar. (p. (p.Os objetos representam um importante elo com a história. 447). (p. . especialmente para os idosos: eles revelam a identidade de seus donos = representante de experiências vividas. é sempre bem lembrada. à rua.Os vizinhos compõe uma importante parcela da formação do indivíduo. ou de uma nova vida. 437) . O capitalismo impede a sedimentação do passado. Revela-se.

2008. 462). decepa dedos distraídos”. crítica pessoal. p. (p. afinal. 459) “[.Sobre as mãos. sustentou uma existência..465) “A máquina..468) . CATEGORIAS DE ANÁLISE UTILIZADAS PELA AUTORA: o fato.. p. (p.481) . (p.471) . comunidade que a ação conjunta só poderia reforçar” (BOSI.. p.significação do trabalho: Tempo subjetivo do sujetio Vs tempo objetivo no interior da estrutura capitalista. 2008. 2008.“A identificação nasce de uma comunidade afetiva e ideológica entre o indivíduo e o grupo local dominante.471) “ Aquilo que se viu e se conheceu bem. também sabe cobrar exigindo que vele junto a ela sem cessar: se não.Alfredo Bosi (BOSI. a urgência de abandonar a casa e os pertences” (BOSI. 2008.] desenraizamento. se poupa o músculo do operário. passa (ou deveria passar) a outra geração como um valor” (BOSI.cumpre exata o que lhe mandam fazer. aquilo que custou anos de aprendizado e que. estereótipo mítico. dócil e por isso violenta. mas.