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cartas-a-um-jovem-escritor

Cartas a um
jovem escritor
e suas respostas
Orelhas do livro:
De
a Mário de Andrade

Fernando

Sabino

Era para eu já ter conhecido você em 1939, quando esteve aqui em Belo
Horizonte. Mas meus minguados 15 anos me emprestaram a timidez que me
impediu de aparecer na casa do Guilhermino César, na hora em que você
estava lá, conforme eu e ele havíamos combinado. Como eu lamento hoje
essa burrice minha. Enfim, não há de ser nada. No fim dá tudo
certo.
B.H. 15.1.42

Outra razão de minha falta de tempo: além do CPOR filho-da-mãe de manhã
cedo, da Secretaria onde estou agora, da Faculdade à tarde e do amoreco
o tempo todo, estou dando aulas de português num Ginásio daqui. Mas
vamos deixando de falar de mim, que senão agora mesmo estou lhe dizendo
que me tornei fabricante de broinhas de fubá mimoso, ou jardineiro da
Praça da Liberdade nas
horas
vagas.
B.H. 3.5.42

O que há de mais melancólico em tudo isso é a gente saber que "a
mocidade vai acabar". Então a gente se acomoda na vida, e passa a sofrer
bem: aprende a curtir o sofrimento interiormente, a aproveitálo como
força criadora. Eu sei que isso é bom, é uma evolução,
esse
amadurecimento do espírito. Mas é tão melancólico saber que nosso
espírito
vai
amadurecer.
B.H. 11.3.43
--De
Mário
a Fernando Sabino

de

Andrade

No auge do prestígio literário, verdadeiro monstro sagrado como Papa do
Modernismo, Mário de Andrade leu ao acaso de uma noite insone em 1942
aquele livro de contos enviado pelo desconhecido autor. E resolveu
escrever-lhe, manifestando com franqueza a sua opinião: "Se você está
rodeando os 20 anos, de 20 a 25, como imagino, lhe garanto que o seu
caso é bem interessante, você promete mesmo."
Suas palavras representaram verdadeiro impacto para o jovem escritor.
Tinha ele então apenas 18 anos de idade e os contos daquele seu primeiro
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cartas-a-um-jovem-escritor
livro,"Os Grilos Não Cantam Mais", foram concebidos desde
anos.

os

quatorze

Com o entusiasmo de sua juventude, Fernando Sabino
respondeu
emocionadamente, nascendo daí entre
os
dois
uma
intensa
correspondência que durou até a morte de Mário de Andrade, em 1945.
As cartas deste valem como precioso depoimento sobre a dimensão
apostolar de um grande escritor. E sua influência sobre a formação
intelectual de Fernando Sabino, antes deste tornar-se consagrado,
constitui precioso roteiro para quem deseja iniciar-se nos mistérios da
criação literária.
--Cartas a um
jovem escritor
e suas respostas
De FERNANDO SABINO
Os grilos não cantam mais, contos - A marca, novela - A cidade vazia,
crônicas de Nova York - A vida real, novelas - Lugares-comuns,
dicionário - O encontro marcado, romance - O homem nu, contos e crônicas
- A
mulher do vizinho, crônicas - A companheira de viagem, Contos e crônicas
- A inglesa deslumbrada, crônicas - Gente, crônicas e reminiscências Deixa o Alfredo falar!, crônicas e histórias - O encontro das águas,
crônica sobre Manaus - O grande mentecapto, romance - A falta que ela me
faz, contos e crônicas - O menino no espelho, romance - O gato sou eu,
contos e crônicas - O tabuleiro de damas, esboço de autobiografia - De
cabeça para baixo, relatos de via gen - A volta por cima, crônicas e
histórias - Zélia, uma paixão, romance-biografia - Aqui estamos todos
nus, novelas - A faca de dois gumes, novelas - Os melhores contos,
seleção - As melhores histórias, seleção - As melhores crônicas,
seleção - Com a graça de Deus, leitura fiel do Evangelho segundo o humor de
Jesus. - Macacos me mordam, conto em edição infantil - A chave do
enigma, crônicas e histórias - No fim dá certo, crônicas e histórias - O
galo músico, contos e novelas - Livro aberto paginas soltas ao longo
do tempo. ( Editora Record) - A vitória da infância, crônicas e
histórias - Martini seco, novela - O bom ladrão, novela -Os restos
mortais, novela - A nudez da verdade, novela - O outro gume da faca,
novela - Um corpo de mulher, novela - O homem feito, novela - Amor de
Capitu, recriação literária - Duas novelas de amor - Cara ou Coroa?,
seleção infanto-juvenil. (Editora Atica) - O pintor que pintou o sete,
história infantil, inspirada em quadros de Carlos Scliar (Editora
Berlendis & Vertecchia) - Obra reunida (Editora Nova Aguilar) - Os
Caçadores de mentira, história infantil, (Editora Rocco).
De MÁRIO DE ANDRADE
Há uma gota de sangue em cada poema, poesia
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-

Pau

licéia

desvairada,

cartas-a-um-jovem-escritor
poesia - A escrava que não é Isaura, poética - Primeiro andar, contos Losango cáqui, poemas - Amar, verbo intransitivo, idílio - Clã do
jabuti, poesia - Macunaíma, rapsódia - Remate de males, poemas Modinhas imperiais,estudos -Música, doce música, estudos - Belasarte,
contos - O Aleijadinho e Álvares de Azevedo, ensaios - A música e as
canções populares no Brasil, ensaio - O samba ru ral paulista,folclore
- Os compositores e a língua nacional, ensaio - Namoros com a
medicina, ensaio - A expressão musical nos Estados-Unidos, crítica Música do Brasil, folclore - Poesias - A Nau Catarineta, folclore Pequena história da música - O baile das quatro artes, ensaios - Aspectos
da literatura brasileira, ensaios - Filhos da Candinha, crônicas - O
empalhador de passarinho, crítica literária - Padre Jesuíno do Monte
Carmelo, biografia - Lira paulistana, poemas - O Carro da Miséria,
poemas - Contos novos - Poesias completas - Aspectos das artes
plásticas no Brasil, - Aspectos da música brasileira - Música de
feitiçaria no Brasil, - Danças dramáticas do Brasil.

Fernando Sabino
Mário de Andrade

Cartas a um
jovem escritor
e suas respostas

EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO - SÃO PAULO
2003

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Sabino, Fernando, 19235121 e
Cartas a um jovem escritor e suas respostas / Fernando
Sabino, Mário de Andrade. - Rio de Janeiro: Record, 2003.
ISBN 85-01-91060-0
Página 3

cartas-a-um-jovem-escritor
1.
Sabino, Fernando, 1923- - Correspondência. 2.
Andrade, Mário de, 1893-1945 - Correspondência. 3.
Escritores brasileiros - Correspondência. 1. Andrade,
Mário de, 1893-1945. II. Titulo
CDD - 869.96
03-0877

CDU - 82l.l34.3(81)-6

Capa:
Dounê Spinola
Concepção de F.S.

Proibida a reprodução integral ou parcial em livro de qualquer
espécie ou outra forma de publicação sem autorização expressa do autor.
Reservados todos os direitos de tradução e adaptação.
Copyright © 2003 by Fernando Sabino.
Rua Canning, 22, apto. 703, 22081-040, Fax 021-2247-1528
Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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ISBN 85-01-91060-0
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Caixa Postal 23.052
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EDITORA AFILIADA

"Leva-se um longo tempo para vir a ser jovem."
PABLO PICASSO

"Nesta
Rua
envelheço,
e
nem
sei
quem
Mamãe!
me

Ser
desconhecido
Como estes nomes da rua."

Lopes
foi

Página 4

Lopes
essa
e

Chaves
envergonhado
Chaves.
lua,
ignorado

cartas-a-um-jovem-escritor
A CASA número 546 da Rua Lopes Chaves, em São Paulo, era conhecida em
todo o Brasil. De lá partiam numerosas cartas numa letra miúda e
segurÍssima (algumas datilografadas, quando o assunto exigia que se
tirasse cópia). Cartas dirigidas a escritores, artistas, ou simplesmente
amigos de todo o país.
Uma delas certo dia me chegou às mãos em Belo Horizonte. Mãos
pressurosas em rasgar avidamente o envelope, na excitação dos meus 18
anos, tão logo dei com o nome do remetente e o famoso endereço. Era a
propósito do meu livro de estréia, do qual eu ousara enviar-lhe um
exemplar e que ele havia lido quase por acaso, numa noite de lazer. Foi
o início de uma correspondência e de uma amizade (apesar dos trinta anos
de diferença entre nós dois) que durou até sua morte.
*Improviso do Amigo Morto,"Gente", Editora Record, 1975.
7
NAQUELE tempo, ser escritor era ser artista.
Eu lhe confiava as minhas dúvidas e preocupações literárias com
o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do
artista, a importância ou desimportãncia do sucesso, a necessidade de
escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a
opção entre a arte social e a arte pela arte, e outros temas em moda na
época. Com sua paciência apostolar (e epistolar), ele me respondia longa
e minuciosamente, procurando me orientar no cipoal
de
minhas
contradições.
Aos poucosfui passando das questões artísticas ou meramente
estéticas para os problemas pessoais. Deveria ou não aceitar aquele
emprego? Resistiria às tentações da facilidade, por mim confundida,
segundo ele, com um falso conceito de felicidade? Em outras palavras: o
casamento emperspectiva, sendo eu tão jovem, não seria fatal para a
minha vocação de escritor?
"Ah, mocidade perversa, amor insaciável!" como ele próprio me
respondia, com condescendente ternura. Mas de súbito me assustei, quando
me vi ante a perspectiva, nao apenas do compromisso oficial a que a
paixão juvenil me precipitava: teria como padrinho da noiva na cerimônia
de casamento, a convite do Governador, meu futuro sogro, ninguém menos
que o próprio Presidente da República, cuja ditadura eu já aprendera a
repudiar. Não haveria melhor desagravo,para o homem independente que eu
pretendia vir a ser, em contrapartida ter como meu padrinho Mário de
Andrade, sabidamente um dos maiores adversários do ditador.
O convite foi feito por mim pessoalmente em encontro nosso no
Rio só para este fim. Ele aceitou, mas pouco depois
8
alegava numa carta alguns motivos o seu tanto evasivos, para que eu o
dispensasse de comparecer, sugerindo que alguém mais o representasse.
Guardei comigo a decepção, mas me retraí. Até que uma queixa sua
a um amigo meu, em termos ferinos de que tomei conhecimento, provocou o
estouro: despejei numa carta toda a minha mágoa ante o que me parecera
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uma deserção.
celebrarmos a
corresponder.

cartas-a-um-jovem-escritor
Ele respondeu se defendendo,fui a São Paulo
para
paz. E depois de longo intervalo, voltamos a nos

FORAM numerosas cartas de parte aparte, ao longo de três anos - às vezes
uma por semana, com alguns telefonemas de permeio. Representavam o que
podia haver de mais precioso para um jovem que pretendesse ser escritor.
Teria adiantado? Relidas agora, diante dos problemas de hoje,
parecem falar de um tempo morto e de assuntos já sem memória, como se
estivéssemos discutindo o sexo dos anjos. Que lugar ocuparia ele
atualmente, na ordem das coisas? No entanto, a sua presença na vida
cultural do Brasil era a de um gigante, de corpo e alma, através da sua
obra e da influência pessoal. O papa do modernismo! Cada novo livro seu
era uma sensação nos meios literários. Basta lembrar suas cartas a
Manuel Bandeira, Carlos Drummond deAndrade, Prudente de Mora es Neto,
Rodrigo M. E de Andrade, Pedro Nava, Rachel de Queiroz, Portinari, Lúcio
Rangel, Moacir Werneck de Castro, Murilo Miranda, Carlos Lacerda, para
mencionar apenas alguns amigos. E os de Minas: Henriqueta Lisboa,
Alphonsus de Guimaraens Filho, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende,
Paulo Mendes Campos, Iodo Etienne Filho, Murilo Rubio, Wilson Figueiredo
e tantos outros.
9
A sua penúltima carta para mim, cerca de dois meses antes de
morrer, encerrava-se com palavras que me emocionaram, mas cujo sentido
de dramática premonição só mais tarde pude apreender:
"Não se arrependa e não me poupe nunca - é o melhor jeito de me deixar
leal para comigo. Mas estou abatidíssimo, de fato estou destroçado. E um
abatimento de mim; provocado pela sua carta, mas causado por mim. Este
esgotamento preventivo que dão as fatalidades que a gente não pode
mudar"
Mas a verdade é que o nome dele é hoje ode a uma rua do Rio, no
Jardim Botânico, ali no Largo dos Leões e ainda há pouco uma jovem amiga
que sabe as coisas me disse que não sabe quem foi Mário de Andrade.
"Mamãe!
Ser
Como
FS.

me


desconhecido
esses
nomes

essa
e
da

lua,
ignorado
rua."

A ÚLTIMA vez que o vi foi à saída de um bar na Avenida São João,
depois de uma rodada de chopes com vários amigos comuns, por ocasião do
Congresso de Escritores, em fevereiro de 1945. Ele se despediu de mim na
calçada, ejá se afastando voltou-se, ergueu a mão no ar num gesto largo
muito seu, dizendo: ""Adeus." "Adeus, por quê?" - protestei:"Você não
pretende morrer, e eu muito menos. Vamos nos ver breve, se Deus quiser
aqui ou no Rio." Ele sorriu e se afastou sem dizer mais nada. Alguns
dias depois eu recebia a notícia de sua morte.
"Quando eu morrer quero ficar,
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de vinte a vinte e cinco como imagino. muito nítido e muito atilado. não lhe posso dar aplauso que valha. As mãos atirem por aí. denunciando fartas possibilidades." 10 11 S. Com um bocado mais de apuro estilístico e de conhecimento técnico da linguagem. já estudou muito (você parece de fato se preocupar com a expressão lingüística) e está homem-feito. respeitada 13 Seu livro já está muito bem escrito. Paulo. De extremo bom gosto. Fernando Sabino. neste caso é bom. muito firme. Sepultado em minha cidade. As tripas atirem pro Diabo. Tavares Sabino. Saudade. Neste caso o livro fica medíocre. Antes de mais nada: eu achava que os estreantes deviam pôr nos seus livros a idade que têm. 10-01-42 Fernando Tavares Sabino Si você quiser continuar sendo escritor. a grafia de certas palavras que lhe era própria. como bom mineiro (?) tem o sentimento da língua. Mas si você já tem trinta ou trinta e cinco anos. E tem no que escreve um sabor brasileiro. Me desculpe esta sinceridade e entremos pelas outras. Si você está rodeando os vinte anos. lhe garanto que o seu caso é bem interessante. Que desvivam como viveram. Fernando Tavares. Saio do seu livro com a convicção de que você é um escritor. Quero dizer: você não cai em nenhum exagero de brasileirismo falso. que você promete muito. Não há dúvida nenhuma que você. sem o menor interesse. enquanto a impressão é nítida. das linguagens populares do Brasil. como expressão de pensamento. uma estréia promissora. Que idade tem você? Isso importa extraordinariamente num caso como o seu. por causa justamente das possibilidades fartas. É apenas um dos muitos --*AS cartas de Mário de Andrade foram transcritas na íntegra. só nesta noite de sábado pude ler os seus contos e lhe escrevo imediatamente.cartas-a-um-jovem-escritor Não contem aos meus inimigos. Muita ocupação. E o livro. como cultura eprincipalmente como estilo. é um artista. mas é uma estréia excelente. Não que o livro seja bom. Que o espírito será de Deus. O que é impossível é Fernando Tavares Sabino. Adeus. Página 7 . antes de mais nada tem que encurtar o nome.

Longe de prenderem a gente por uma idealidade humana definitiva qualquer. ou irônicas transposições realísticas da vida. por falta de tomar fôlego. Mas ainda eu me pergunto si sua tendência é realmente para o conto e não para o romance. Será você de fato um contista? Este problema é dos mais graves e dos quevocê precisa resolver pra si próprio. Mas não como um Jorge Amado. a meu ver. Pela faculdade de observa ção naturalista. talvez grande escritor. pouco trabalho. romancistas verdadeiros. Estou pensando em Machado de Assis. se dispersam no conto. 546-S. O problema. em última análise. excepcionalfaculdade de invenção.. lhe garanto que você pode ir longe. Conformea idade. descaídas lastimáveiS. pelo livro. Aí é que a arte. como o admirável "Anos Verdes".. De uma língua que já é indiscutivelmente. 14 No gênero dos seus contos. Não nego que sejam "contos" os contos de você. É incontestável que você não tem nenhum conto verdadeiramente forte como assunto. e em você. pra salvar seus contos na arte. Paulo Andrade Página 8 . nacional. grosseiro.. Seus contos estão longe de ser impressionantes. no realismo humorístico com que você esteriotipa gestos e expressões verbais. é tanto mais grave no caso de você que nele se intercala o da sua personalidade de ficcionista. grande imaginativa. de Monteiro Lobato. como Pedro o Barqueiro. Como um Machado de Assis. como beleza de criação técnica. Si você não fizer coisas maravilhosamente bem feitas como técnica. Seus contos são leves e delicadas transposições líricas da vida.cartas-a-um-jovem-escritor você chegará a ótimo. Cujo assunto imponha o conto por si mesmo. ignorância muita. pela riqueza de tipos psicológicos. erram de espécie. aliás. Mário de R. é muito engraçado e me fez rir bastante. que por preguiça.. tratado sem tacto. que você tenha forte imaginação criadora. bacalhoada de Portugal com arrotos e todas as faltas de medida. não posso negar. você tem.principalmente para o lado anedótico. Lopes Chaves. como bom gosto espiritual. de abandonar qualquer colorido mediterrâneo e se esquipar no senso de medida dos franceses. a meu ver. Mais você que o livro. E não lhe seria possível botar um bocado mais de responsabilidade humana coletiva nas suas obras?.. é. sem delicadeza. Mesmo o caso do telefone que. Você tem que trabalhar dia por dia. deAfonso Arinos.. como estilo. Apesar das oservações. como arte de escrever. contos como As Rosas Iam Murchar e o Padre Venâncio. não sei. e na delicadeza espiritual de ingleses e nórdicos. sinto em muitos dos nossos contistas. Não sei si você consegue perceber que no fundo seu livro me interessou muito. mas não parece. você será apenas "mais um". como Os Faroleiros. excelentes. são simples anedotas simplórias de lastimável descontrole e nenhuma autocrítica. criação de sobra. Quando você tem. quando são romancistas legítimos. interfere definitivamente para impor e justificar um criador.

se fosse possível."As Rosas Iam Murchar" e "O Telefone"). toca em pontos de grande importância. justamente os mais antigos. Mas meus minguados 15 anos me emprestaram a timidez que me impediu de aparecer na casa do Guilhermino César. Quanto à idade. como veio me ajudar essa sua carta hoje recebida. conteúdo humano. Pediria até a você que me escrevesse outra vez. Gostaria até que. quanto às possibilidades. Foram classificados como crônica. um ponto de partida). na hora que você estava lá. o diabo a quatro. Pelo que eu vi suas cartas ajudam muito a gente. Que é que eu podia concluir daí? Que aos 14 anos eu tinha uma vocaçãozinha literária. para os outros. caso seja possível. como "Telefone".H. Temo que você agora passe a achar que um valor possivelmente notado aqui ou ali não seja senão o resultado de um maior ardor de juventude ou de um feliz momento de criação inconsciente e ignorada. estéril. quando esteve aqui."As Rosas Iam Murchar" e outros. etc. foram escritos e publicados há mais de 4 anos. Pois bem . Explico-me: há muito esperava sua opiniao. Quero. Era para eu já ter conhecido você em 1939. Antes de sua carta. E o meu medo de sua opinião a respeito dos contos se modificar muito. Pode você calcular. Acabo de receber sua carta. Os outros não prestavam para nada..cartas-a-um-jovem-escritor 15 B. pois tenho 18 encabulados anos. bem intencionado.a orientação esperada partiu de você. você me esclarecesse isso. amigo.de" Os Grilos". Só se justificavam. Confesso que pensei nela antes da publicação do livro (e esta foi para mim apenas um meio de orientação. sua opinião a respeito da linguagem. Ando desanimado. sabendo a importância que tem para mim: se sua opinião sobre "Os Grilos". de início. E como se eu tivesse publicado o livro apenas para recebê-la. Para mim ela vale mais do que tudo que falaram . Queria lhe dizer várias coisas mais. etc.ou poderiam falar . mergulhado num pessimismo que você nem faz idéia. pois. pois. que você saiba de minha gratidão. Você me desculpe a desordem e a extensão desta minha carta. é um pouco menor do que você achava. se modificou ao saber a minha idade. Você me indica caminhos. mostra os defeitos. é a respeito dos Contos anedóticos e por que são eles inferiores aos outros. conforme Página 9 . Um ponto que me deixa satisfeito pela maneira com a qual você o esclareceu. três contos ("Festinha em Família". questões como aquela sobre se serei mesmo um contista. perdida inteiramente hoje! Todo mundo está falando que meus contos nem contos são. mormente sabendo que alguns deles. eu estava absolutamente desorientado. descobrindo cultura onde os outros descobriram ignorância) me alegrou sobremaneira. força criadora. com essa carta. que não é pequena. Era isso o que eu desejava e precisava. Também o que você falou da linguagem (achando qualidade onde os outros só acharam timidez e acanhamento. interessado. 15-1-42 Prezado Mário de Andrade. com ansiedade incontida. um marco. Você não pode calcular quanto valor têm para mim certos esclarecimentos seus. depois de recebê-la. no que ela pudesse me servir.

Sou mineiro. lá vai um abraço. me ajudando muito. e também. nada mais. Paulo. de Belo Horizonte mesmo. eu lhe peço. Mário. que no fim dá tudo certo. 18 19 S. não deixe de dizer).e agora. Desculpe o tamanho da carta. vi que ela só poderá te chatear. boa viagem por essa bagunça de carta afora. Agradeço muito a sua lembrança de enviar-me as poesias. No fim dá tudo certo. Relendo esta carta com calma. pois trata de um assunto que provavelmente não tem solução. e cuja resposta sua provavelmente seja tocar para a frente e deixar as coisas correrem. FS. 1458 Belo Horizonte Sabino P. Você não se importe se eu lhe escrever novamente. Mário de Andrade. mas muito mesmo (se você tem mais coisas como aquelas para me dizer. que quase comprei . Sei que posso começar a abusar de sua camaradagem e interesse. O que eu quero com esta página (que aqui acrescento. Como eu lamento hoje essa burrice minha.S. logo que recebi a sua. que até agora me deixam embasbacado. então. gostei. Estou encantado com essa sinceridade. que diabo. Esta minha carta foi escrita com arrebatamento. sim. 25-1-4 2 Fernando Sabino Página 10 . Enfim. que eu desde já me sinto amigo seu e é por isso que estou confiando em você. na sua franqueza me dizendo se devo ou não continuar querendo saber ou se devo aguardar.cartas-a-um-jovem-escritor 16 17 eu e ele havíamos combinado. etc. e no mais. aumentando escandalosamente o volume da carta). não se preocupando com esses negócios. de tanto valor para mim. não há de ser nada. e muito: tão encantado que já aceitei sua sugestão e encurtei meu nome: Fernando Rua Gonçalves Dias. é que você me desculpe a chateação.

Mas antes exijo que você pense muito seriamente sobre você. tem desprezo pela frouxidão alheia e quer chegar e há-de chegar Eu sei o que é a desconfiança de si mesmo: os maiores a têm. os esperneios. Não hesito um só segundo em lhe garantir que.. É simplesmente o processo mais modesto de alcançar o terceiro lugar Você deve querer ser tudo e o maior Só se dando uma empreitada dessas. Esse orgulho que é o despimento das vaidades minúsculas . e uma ensolarada saúde mental. auxiliar você no que eu possa. se apeffeiçoando. é natural. Você não irá estourar por aí. Você tem os direitos da idade.essa vaidade tão comum nos artistas menores. antes de se decidir a exigir esta correspondência. Apenas.forte. que se satisfazem com migalhas. Veja bem: você tem direito de exigir minhas cartas e explicações. é tudo. preliminarmente. ansioso de saber. me basta e. voce nem imagina. ospapelões que faço pra não virar medalhão duma vez. se acovarda. Tanto mais que."belo. que tenho muitíssimo trabalho e também uma correspondência enorme. nos artistas frouxos. é muito inteligente. apesar de tudo isto. Si posso ser útil. me fazendo perder tempo. jovem" como disse de si mesmo o Vinícius de Morais. uma paciência enraivecida. a gente sente que podia dar mais. não me pesará em nada lhe escrever muito.. Ora. acho que você não pode sedarpordestino conseguir um segundo lugar: você tem que pretender ao primeiro. E deve abolir do seu espírito e da sua timidez natural a idéia de que está me chateando.cartas-a-um-jovem-escritor Recebi sua carta e refleti sobre ela.feminino. Fernando. Só os esforços. um desejo de se "vingar" da vida. progredindo aos poucos: um belo dia (si você agüentar o tranco) os outros percebem que existe um grande escritor. uma Raquel de Queiroz. Você é moço. Não tenha vergonha de se confessar a si mesmo (não a mim) que você tem ótimas qualidades. pela ambição voluntariosa. ganhando a batalha de um golpe só. No seu caso. como um Lins do Rego. Você tem isso? Não seja tímido nem humilde não. Seu destino artístico é miúdo. num verdadeiro exame de conciência. A conclusão mais séria pra mim éa seguinte: Vejo que estamos os dois na iminência de iniciar uma correspondência longa e nutrida. Sucede. pra agüentar com um destino desses. Me escreva pois quanto e quando quiser. Sinto que você não foi feito pra isso nem poderd nunca fazer isso. antes de mais nada. parece até cinismo de idiota pretender ser o Primeiro. de nhem-nhem-nhem. Pra você. muito árduo e sem brilho. irá escrevendo. o seu caminho na arte é pesado. Seria estúpido eu não saber que sou"consagrado". é insatisfação de si mesmo. pois. pelo orgulho. épreciso ter uma ambição enorme. Você irá escrevendo. é um sofrimento horrível causado justamente pela confiança que temos em nós. O caso da "água mole em pedra dura". Isso lhe basta. de querer saber e de querer ser. é orgulhoso de si. que então é fracasso na certa. As vezes a gente se assusta um bocado. cheio da vida e ainda não"consagrado". pelo que seu livro indica como tendências pessoais. você E. aliás. meu tempo esta ganho. Pra mim vai. Página 11 . moço. Mas esta psetído-desconfiança na verdade é confiança. eu desejo que voce se examine bem. Fernando. isso não vai ser difícil. Não é.

cartas-a-um-jovem-escritor Página 12 .

o problema é exclusivamente seu e é sempre uma indelicadeza que nos abate a gente dizer que se sente forte e se deu um grande destino. com todos. E o que há de lindo. E em máxima parte esse castigo de ser artista. o deus das artes nacionais e internacionais. Você não precisa me responder sobre isto. você terá só um sentimento dentro de si. Coisa danada o destino. de maravilhoso mesmo.. voce sentirá vagamente que a consagração foi pouco.cartas-a-um-jovem-escritor 20 21 será honesto. não se contentará com migalhas. festa acabada. A resposta será você continuar me sugando. A festa foi pouco. tirando de mim tudo o que possa auxiliar você. um congresso de intelectuais te sagrando o príncipe. não se deixará levar pela vida. não se afrouxará. um banquete de cinco mil talheres.. Quanto a você. no dia em que você tiver a maior consagra ção possível. essa decepção eternamente insatisfeita creio que vem desse desequilíbrio Página 13 . decepção. o rei. neste "você" que importa. Isto é: uma forma coletiva de vida humana. é que o que importa não é exatamente você mas a obra-de-arte. porque a única coisa que importa é você. a psicologia do artista. fazer o mesmo com os outros.

Você. E preciso pra você ter muita saúde mental pra não se amolar com os outros. pra se afirmar diante de um espelho e com toda a seriedade que a arte é uma coisa muito séria. Todos os gêneros sempre efatalmente se entrosaram.. O que importa éa validade do assunto na sua forma própria. Repare que só do artista já se disse. Principalmente nós. Porque na sua idade. pra paulista ou paranaense. eis que se acha de posse de um assunto. gente do sul. Meu Deus! inda não comecei esta carta!. Não é verdade que os seus contos dos 14 anos sejam seus milhores contos. não há limites entre eles. um elemento intermediário. Isso tudo é latrinário. Dezoito anos é idade muito sem significação pra mineiro.cartas-a-um-jovem-escritor insanável. então vamos principiar Bom: também não faça desse problema um caso de vida ou de morte. sem falsa humildade. preferia que você tivesse vinte e um. A linguagem tem Página 14 . riqueza) tem outra finalidade que o rendimento. de útil? Você expõe uma realidade da vida? você castiga ou exalta uma classe. agora é ver o que ele rende como arte. Creio que vou deixar muito assunto pra outra vez. são crô nicas etc. O que épreciso é você ter coragem. uma necessidade social? Bem. com as incompreensões alheias. Si você tem coragem pra tanto."sexualmen te" como um santo. na sua idade.. Discutir "gêneros literários" 22 23 é tema de retoriquice besta. de outrem. todo o trabalho. Si você tem orgulho sufi ciente pra mandar o mundo à puta-que-o-pariu. sem que isto seja uma compensação propriamente. Este é o mistério bravo do destino do artista: visara obra-de-arte. Não se amole de dizerem que os seus contos não são "contos". Você progrediu. Vem disso: vem do elemento de eternidade que está implícito na obra-de-arte. um missionário. da obra-de-arte. criou um elemento de eternidade. em benefício desse mesmo mundo imbecil. sobre si tem coragem e força pra agüentar o tranco duro que vai ser o seu.. mais europeu. sem mais a interferência de você. si o seu assunto você acha que tem qualquer validade funcional. Mas.. sobre si você sente mesmo em si a fatalidade pesada de ser artista. que por mais que renda (aplausos. menos equatorializada. Resumindo o que falei: Você se analise. por mais desvirtuada e incompreendida visa a permanência e busca a eternidade. Não há-de ser nada. o desenvolvimento é mais vagaroso. pense seriamente sobre você. que diabo! épau isso da gente ter apenas dezoito anos. voce visou. não tem a menor importância em arte. toda a dor em proveito. tem o destino de Deus. dessa duplicidade irreconciliável: a gente dar tudo o que tem. um soldado. Você não age diretamente. por si mesmo. e quantas vezes! que ele é como um deus. E é nesta procura de rendimento que o fundo (o assunto) acha naturalmente a sua forma. com as humilhações. Ele vale? Com ele você obtém qualquer coisa de humano. Mais garantido também. visar uma transcendência aleatória e problemática. todo o pensamento. uma virtude. A primeira coisa a fazer é analisar friamente o seu assunto. um chefe. Você cria um objeto que vai agir sozinho. a única coisa que tem importãncia pro artista verdadeiro.

novos close-up afazer. está no plano do consciente. Depois. etc.cartas-a-um-jovem-escritor de ser esta. A coisa principia difícil. embora pouco importe que muitas vezes o assunto exija que ofim esteja no princípio. etc. De resto. O simples fato do artista estar sinceramente entregue ao pensamento do seu assunto. o poder criador. é preciso saber esperar Mas isso do sujeito que só se põe escrevendo "quando sente disposição" é estupidez mas da miúda. Aqui entra de novo essa fatal sinceridade na argumenta ção: É certo que o artista não deve ter pressa. ou poesia em prosa. tenho verdadeiro horror delas. coisa lenta. a tomar notas de frases. vá trabalhando sem disposição mesmo. é bobagem. De fato o poeta só deve criar quando em estado de poesia. descobrirá coisas pra encher os vazios. E esta chega mesmo. Mas isso não é sentir disposição. Em grande parte éfeito durante a criação epode ser feito depois. quea coisa vai ser conto. correntemente oupenosamente (isto depende da pessoa) você está dizendo coisas acertadas. no trabalho de polimento. então. de idéias o vai predispondopsicologi camente para o ato de criação. princípiomeio-e-fim. O prosador lida com a inteligência lógica. Arre que chega por hoje! no princípio do mês lhe mandarei as Página 15 . tanto trabalho posterior. Principalmente para o prosador. Estas preocupações preliminares como que esfriam a criação. tanto preparo anterior. a sinceridade. São cortes e mais cortes. inventando belezas. É a vaidade e também a deshon estidade do artista que as inventou. O seu discurso tem cabeça. Você. crônica ou romance. o tamanho tem de ser este. O prosador não. E a eterna e repulsiva confusão entre o artista e a obra-de-arte que lhes dá uma aparência falsa de legitimidade. essa autocrítica também. Mas não imagine que mesmo feito antes esse trabalho esfrie a criação. Esfria pros frouxos e isto não pode ter interesse nenhum nestes problemas. etc. escreve besteira. quando falei que de posse de um assunto o artista tem que pesar os possíveis valores funcionais dele (que podem ser também apenas de beleza) e depois decidir do instrumento estético que vai realizar milhormente esse assunto. não faz maL De repente você percebe que. Não tem disposição? Não se trata de ter disposição: você é um operário como qualquer outro: se trata de ter horas de trabalho. das relações de causa e efeito. É muito mais o tamanho deduzido do conteúdo do assunto que determina o gênero do continente. e não decidir assim sem necessidade mas se prendendo a um preconceito. a espontaneidade do artista não tem significação nenhuma. já é estar fatalizado por uma impulsão interior de que ele não tem a culpa.por favor. de traços psicológicos. você cortará o que não presta. e o princípio no meio. é imprescindível. deformas. vá escrevendo. Então. difícil. forças. O que épreciso é que haja esse trabalho crítico. você hesita. 24 25 Não há como a fatura de um filme pra exemplificar bem o trabalho de todo e qualquer artista. nunca venha me argumentando com as palavras "espontaneidade" e "sinceridade". a vontade de criar Não esfriam nada. Pra obra-de-arte. de forma alguma exigi que isto fosse feito antes da criação. tronco e membros. penosa.

essa carência a que me referi: acha você que isso irá impedir de me realizar como escritor? E imprescindível que eu dispense essa oportunidade de ser feliz. chegamos a um assunto que sua nova carta agora recebida vem suscitar novas reflexões em torno dele. que eu sofra vendo os meus sonhos desabarem.cartas-a-um-jovem-escritor minhas Poesias. Sem mais delongas. Mário. Com um abraço do Mário de Andrade B. Em duas palavras: eu tendo em vista uma felicidade muito esperada. decisivo para minha vida. quanto é importante essa questão que lhe confio. ou tem de ser a negação deliberada de toda felicidade. de força humana que só o sofrimento é capaz de proporcionar. estou certo. Mas é que sempre tive a convicção (e exemplos) que os bons agüentam o tranco. Estou sínceramente às suas ordens desque você sepredisponha a ser honesto. e que só interessa a mim) mas. como dizia. discutir. etc. conversando com o Murilo Rubião (aliás. minhas esperanças frustradas. esse sofrimento. que trazemos dentro da gente. como você pode imaginar. e você compreenderá então. de Deus. O de uma felicidade dependente de circunstâncias exteriores. desanimador que existe. propriamente). que nasce com a gente. anterior e inato. porque acho que isso é afinal uma coisa aqui entre nós. E mais uma vez: não se amole em me escrever. Não sei se me exprimo bem. mas vão pra diante de qualquer maneira. vem a ser o da não-realização de outros ideais. Como eu não sabia dessa história. não vou publicar nada. se ela não ê a objetivação palpitante da vida do artista (não no sentido autobiográfico. trata-se do seguinte: é certo que a obra de arte exige do artista tudo aquilo que ele tem de vida.. para que venha a criar alguma coisa? Você já deve ter compreendido o quanto isso é decisivo para mim. Ou simplesmente a angústia em face do desconhecido. tem de ser uma dor posterior. 30/1/42 Prezado Mário. Mas o probllma aí está: este sofrimento.H.. (Se foro caso. Ontem. Sei que sou o animador mais. etc. Sem isto a obra deixa de ser arte. que a próxima escreverei a máquina. e talvez não consiga que você entenda nem a minha letra.. do infinito. conversando com o Murilo. Vou tentar resumir: aquilo que a realização da obra de arte exige de nós é este sentimento que já tenho. essa tortura interior. de não-se-sabe-o-quê nem por quê. adquirida? Vou objetivar mais ainda. me avise. dão por paus e por pedras. tudo fracassado na vida. Página 16 . Essa marca profunda que nos diferencia dos outros. que não me apagará. de todo ideal fora da arte. e mostrou a sua resposta. ele me contou que lhe escreveu pedindo para publicar sua primeira carta dirigida a mim...) 26 27 E Não é fácil me fazer entender por escrito sobre um assunto grave que só uma longa conversa pessoal haveria de esclarecer. o quanto vale para mim uma resposta sua. Tanto mais que se trata de um caso pessoal. independente de quaisquer circunstâncias. por exemplo. imprescindível. em me perguntar coisas. discordar. uma possibilidade de realizar essa felicidade.

E o tal negócio: sua boa vontade." Se está barafunda mesmo. desorientado. porque não posso perder esta oportunidade de esclarecer isto. camaradagem. sou um operário com horas certas de trabalho" . Você se propõe ajudar-me. Arquive minhas cartas. Porque eu não rejeito. Não pode calcular a xaropada em que foi se meter. 1 6-11-42 Fernando Sabino.quem sabe até pessoalmente. Vou pegar esta segunda-feira de carnaval pra lhe responder mais longamente. franqueza. etc. isso é que não. ah. Você com uma carta resolve uma porção de coisas para mim. Trata-se de renegar muita coisa. para se preservar em sua integridade. Não passarei dessa página. A arte é tanto mais bela e perfeita quanto mais feia e imperfeita for a vida do artista? Ou paira acima e independente.cartas-a-um-jovem-escritor Mário. pela realização daquilo que eu quero ser. se você vier aqui ou eu for aí. que eu hei de ser. e oportunamente conversaremos .e eu levei ao pé da letra. Será preciso? Se você não me entendeu. Paulo. por exemplo. em conversas a noite inteira. sempre achei que você poderia me ajudar. dominando a vida e não sendo dominada por ela? Queria saber o que você acha. Você já deve ter recebido um cartão meu a respeito do assunto que você mepropôs. Mas não quero chatear você de maneira nenhuma. seu Mário. E sou um sujeito chato pra burro. Em resumo o que você me pergunta é o seguinte: Sendo a arte um produto direto da insatisfação humana. vou tentar mais uma vez. dando com a cabeça na parede. escreva um cartão assim: "Não entendi aquela sua barafunda. Não se acanhe: escreva-me dizendo se está sem tempos se não pode no momento. Em duas linhas você me esclarece mais que os "intelectuais" daqui. É que a sua carta respirava um tal desejo de saber logo o que eu imaginava sobre o problema que tocava imediatamente a prática de sua vida. Você disse. o artista. O assunto aliás é de uma complexidade enorme. que eu"não devo esperar a disposição. que eu não quis deixar você numa espera mais longa. Grande abraço e a amizade certa do Fernando 29 S. me levaram além das medidas. 28 É isso. tem que renegar toda e qualquer facilidade que lhe aparecer na vida Página 17 .

embora quase nunca elas sejam completas. Não há dúvida nenhuma que a arte tem entre os elementos que a constituem a insatisfação. E no entanto. nos seus dezoito anos. ela adquiriu sua maioridade eprinci30 31 pia fazendo estrepolias incríveis. si amor. mas também nempodiapôr consciência na sublimidade em que estava pela extensão mesma desta sublimidade que me obnubilava Página 18 . Mas desde o momento em que você tornar pública a sua obra e ela for viver independente de você. sem mais inquietações financeiras. si escrito em pleno estado de possessão (a primeira redação foi feita inteirinha em seis dias). deu tudo o que tinha. O que eu tenho sofrido com o "Macunaíma". deve ser uma destas duas. Há satisfações momentâneas. nunca serão artistas "verdadeiros": são medíocres. Ele não pode mais mandar na sua obra. a arte não é só filha mas esposa. Ela o é. nada de mais psicologicamente lógico. são francamente rúins. Como artista você foi"moral" dando tudo o que tinha. Quanto às satisfações momentâneas. meu Deus! os satisfeitos. Prefiro dizer insatisfação. As incompreensões serão fatais. si riqueza. O artista verdadeiro jamais estará satisfeito consigo mesmo nem com a obra-de-arte que produziu.. mas eis que. A sua obra se identifica com você. Os desvios ainda mais fatais. está claro. pois que ela é tudo o que você é. derivada desse equilíbrio relacional entre você e a sua obra. noivado. Só há uma resposta possível imediata: Aceite o que a vida lhe oferece e experimente. sem fadiga. Podem ser também as duas juntas: amor sinceríssimo que acontece ser rico. casamento legal e vida arranjada. na sua discreção de primeira hora. Não use então modéstia falsa: se diga com lealdade que você considera a sua obra excelente. em que eu não sofria nada no ímpeto sublime da cria çao. as insatisfações virão. Mas você há-de observar em toda a sua vida que os "satisfeitos" com sua missão e com as obras que realizam. você nem pode imaginar.. Mesmo que seja assim. a vida agarrou você na esquina e lhe ofereceu um ótimo presente vital. não quis dizer logo com franqueza qual era o gênero defacilidade (repare que insisto em"facilidade".. E você sente então uma espécie natural de satisfação. principalmente com ele. não hesito um segundo em responder que aceite. E você está receioso de aceitar. dizem e você repete na sua carta. que você julga sera sua felicidade. E há. e os desgostos.cartas-a-um-jovem-escritor prática ? Não é isso mesmo que você quer saber? O que imagino é isto: você está decidido com grande honradez moral a ser artista. companheira quotidiana e mãe. o seu deve. Você. A obra-de-arte está realizada com todas as forças de qualquer espécie que você tem. A obra-de-arte é você inteirinho. Você. cumpriu entusiasticamente. e isso desgosta prodigiosam ente o artista.. Você há-de necessariamente sentir a consciência tranqüila e com isso uma espécie de satisfação. como artista. enquanto a você. e todas as suas possibilidades críticas a consideram excelente. A arte é filha da dor. e da insatisfação. temendo que isso venha a prejudicar o seu destino de artista. evitando a palavra "felicidade"). que é mais dinâmico. E natural que você não veja. isto é.

e isso é sempre agradável ao artista verdadeiro. De uma coisa eu tenho certeza: por maior que seja afacilidade (felicidade) que você conquistar. não é bem respeito.cartas-a-um-jovem-escritor qualquer estado de conciência analítica. que você é católico. com o que foi depois. si não já conquistou. Toca pra frente! Você confundiu. pelos seus escritos. você jamais 32 33 ficará satisfeito: há-de querer mais. seja você arvista. Mas agora veja bem: não imagine não que eu VOU bancar o incompreendido e sustentar o valor crítico do meu livro! Eu tenho bastante saúde mental pra reconhecer que a vida é uma luta. sofrer a falta de organização moral dele.pra tentar desmanchar a convicção alheia. Eu também sou deformação católica. enquanto a mim. porque não existe um só artista verdadeiro que não artefaça com a intenção de ser amado. Eu desconfio. Será tudo o que você quiser. Getúlio ou ladrão.. inventor. uma organização coletivizada das nossas relações e deveres pra com Deus. Mas o que eu queria dizer é que. certamente deformação católica. quando Macunaíma estava publicado e não tinha mais nada comigo. Imoral porque desvia o indivíduo da sua integridade. ou pelo menos. Respeito. um deslumbramento. É difícil. Stalin. Está bem. nacional. que ele satiriza). sei que morrerei (si morte con ciente) em estado católico. em nossas relações pessoais. eu não deixava de sofrer pelo meu herói. você não podia ter empregado a palavra felicidade pro seu caso atual. por isso mesmo de você estar catolicizado. Se encheram e se encherão sempre. você perceberá que o sentido popular em que você empregou a palavra é defeituoso e até imoral. seja você o que for. o que posso lhe jurar é que Macunaíma foi detestavelmente doloroso pra mim. epor maiores que sejam os meus descaminhos. "acredito"por demais na con ciência alheia.. fraqueja mais uma vez e prefere ir viver o brilho"inútil" das estrelas. e que nesse jogo do Macunaíma eu perdi de um a zero: eu errei. Mas é estranho como não tenho a menor"religião". da sua destinação coletiva e mesmo individual. o tremendamente difícil é você. conservar a integridade moral do seu destino de artista. Nos momentos mais anedóticos. de reprovar o que ele estava fazendo contra a minha vontade. ainda não sei. meus olhos se encheram de lágrimas. um delírio sublime que você está prestes a conquistar. Macunaíma é uma"obra-prima" que falhou. Mas os pouquÍssimos que refletiram sobre o livro: ou foram uns porque-me-ufano-do-meu-país que recusaram a sátira e continuaram muito satisfeitos da vida. E aqui é que está o busílis: O difícil. porém não é impossível. Si você chegar a uma conceituação verdadeiramente filosófica do que seja Felicidade. Nisto não há mal: é a marca divina Página 19 . (do brasileiro. acredito vorazmente em Deus. mais engraçados do entrecho. ou foram os que só retiraram do livro um reforço conciente de seu amoralismo. Mas felicidade não é não. Tenho ouvido os maiores elogios ao meu livro . como fazem todos. no convívio de sua facilidade (principalmente si for a riqueza). E quando no fim Macunaíma no ponto de se regenerar. Coisa muito mais alta que uma facilidade momentânea ou mesmo permanente. isso não trará a menor sombra. Mas isso ainda não é nada. Hitler. o dificílimo. nisso em que a religião é uma religação. felicidade com facilidade.

eu faço isso nofim do ano. todas as pobrezas. São macunaimáticos. Quando o princípio moral verdadeiro. toda felicidade é desmoralizante. Fixe uma data anual para o seu retiro espiritual. é justo o contrário: nós devemos viver sempre nascendo: tudo deve ser sempre objeto de aprimoramento pessoal e a busca da perfeição. a vida tem de ser. quis também a maçã. Não são homens. são água. completado em si mesmo e insolúvel.. paternalmen te. embora seja difícil. o conformismo. Ela principia já por ser fisiológica: é a lei da estabilização. É você não perder jamais de conciência que a sua experiência de felicidade deve ser também um objeto de aprimoramento pessoal. Mas há um jeito muito humano da gente consertar essa tendência sorrateira: afixação de uma data comemorativa da sua grandeza de homem e de artista. Não hesito em afirmar: toda facilidade. as mais diversas mulheres. muito mais que um viver-se. No entanto nada disso lhes serviu para se tornarem um ser. que é continuidade. A felicidade. sem realizarem uma"ação ". cem poderes. isso é"desvio" (ah. matar dragões nem atravessar o mar a nado: sujei tou-o apenas a uma prova de felicidade.. No seu caso particular de artista: o operário.. embora buscando sempre aumentar insatisfeitamente a"felicidade" con quistada (isto é. a seqüestrar a idéia da gente se repensar e se reverificar em seus trabalhos. o jardim das delícias. parece estar cheirando a confessionário.. meu Deus! nossas idades são tão afastadas uma da outra! Não se deixe desleixadamente viver como a maioria infinita dos nossos artistas brasileiros. o prazer. E só isso lhe peço quase. Esta é a cilada que o homem encontra quotidianamente em seu caminho. o"altruísmo" etc. a lei que eu chamo da "preguiça". embora pretenda se aumentar. Página 20 .) Próprio de meninotes e das frágeis mulheres. E se "brincou". a psicanálise!. O que fiz este ano que passou? no que isso me acrescenta em minha obra ou a prejudica? o que preciso fazer este ano próximo? no que devo me completar? Afinal das contas estou lhe dizendo coisas banais. um Ford nunca deixará de pretender o aumento de sua riqueza. É difícil. insatisfeito. e são os mais inexistentes dos espíritos. Deus não sujeitou Adão a sete provas de infelicidade. o mal é que você. às vezes até "desviando" a pretensão para apolítica. que. aos banais. cada vez que principia trabalhando. nós vivemos morrendo.. Mas a gente tem vergonha de se repensar.. rockfellerizou-se.. se dissolvem nos seus atos ... O mal é que. a facilidade tende a esquecer isso..).cartas-a-um-jovem-escritor do homem. Nisso a simbólica da criação é admirável. As vezes são riquíssimos de atividade e variedade vital: tudo lhes aconteceu. todas as riquezas. Como eles são pobres de humanidade!. Não será tão banal assim. Você precisa reverificar constantemente os seus instrumentos de trabalho.. um ser íntegro. a facilidade também é uma prova por que a gente passa.. Mas Adão. um continuado repensar-se. não azeita a máquina? Você também precisa estar sempre alerta. cem saúdes. pra que seu trabalho seja legítimo. Fazer exame de conciência. que e mais fácil e inesquecível. Mas então como conciliar a minha até intimação de você aceitar a felicidade que a vida está lhe oferecendo e esta convicção de que a felicidade é desmoralizadora? É simples. você principia agindo sorrateiramente como si estivesse satisfeito: é o conform ismo. a esmola. cem doenças difíceis. o amor. não reverifiCa os seus instrumentos de trabalho? não afia afoice."Eu sou um Sp frito forte!". meu irmãozinho.

intencionalizar. O que sucede. O difícil é você. Página 21 . mais indefeso é o homem no momento da ejaculação: ele fica por completo inerme. apaixonadamente. julgar. muita fadiga. é que esse momento é rapidíssimo (como a ejaculação). dirigindo friamente o trabalho de aperfeiçoamento e no entanto. O momento da criação é um prazer sublime. bem conceituado e bem consciente dos seus deveres pra consigo e pra com os homens. entre o filho e a obra-de-arte. Mas é estranho como neste trabalho longo. como si eu tivesse veleidade de decidir de todos os problemas humanos. como dizia o samba. é incrível como você "inventa". Tudo o que houve e que foi bom. Festa acabou e você sente um vazio inconsistente. Não: a arte não é um sofrimento. Parece que você está gélido. polir. exatamente. nos dias de maior realização amorosa escreveu a "Tristesse dOlympio". Você já reparou num fim de festa de que você participou de corpo e alma. que só o sofrimento é capaz de proporcionar". como que não foi bastante! Não recuse afelzcidade. o auxílio que pode derivar da minha experiência e do meu pensamento mais amadurecido. O momento de criação égostosíssimo. Pelo menos você afirma peremptoriamente:"e essa realização. é tamanha a integração. essa assimilação da criação artística com o parto. você apenas tirará de suas facilidades mais uma força de aperfeiçoamento. criticar. A felicidade no amor nem é apenas justa. nem é só o sofrimento que a pode legitimamente proporcionar. em seguida. desque essa facilidade seja justa. O ser mais frágil do mundo. E Vitor Hugo. como falei desde a primeira carta. que é mais importante que a gente. dirigir a obra-de-arte. Mas si você estiver bem definido. que não chega a doer.. Estou apenas lhe dando. mais escravo. Goethe não se perdeu. sacrificar coisas que gosta em proveito de uma significação funcional da obra-de-arte. que a gente não se pode ilhar num estado de conciência crítica e se analisar. não chega a ser desilusão. Deriva certamente da semelhança objetiva.. o diabo.. A verdade mais insolúvel é essa. verdadeiramente aquela sublimidade de integração e de dadivosidade do ser. Não tenho. é uma espécie de dever. e estou completamente em desacordo com os que o consideram um parto. Afinal das contas. Esse o momento da criação artística. você Constantemente se vê atirado de novo à volúpia da criação.. Nem posso compreender mesmo.. Você na sua carta me pareceu que está um pouco místico a respeito da necessidade do sofrimento pessoal para a realização artística. O momento há-de vir em que você perceberá meio assustado que ela foi imensa e que não foi bastante. E logo a gente principia o trabalho mais pen oso e principalmente muito mais inquieto de artefazer.cartas-a-um-jovem-escritor 34 35 Não é justo a gente se recusar uma facilidade que a vida nos ofereça. corrigir. E ainda existe esse mistério de "infelicidade me persegue". dura alguns segundos. etc. em que a gente fica na ejaculação sexual. cumprir com os deveres humanos que essa facilidade lhe impõe. Mas vejo assustado que estou no caminho de mais cinco páginas de datilografia! E também fico um bocado com medo das minhas cartas se tornarem pretensiosas. Nisso é que vem muito sofrimento. creio. muita indecisão. não chega a ser nada de nitidamente qualificável: você apenas atinge uma noção vaga de mesquinhez.. etc. Nem mesmo a riqueza deixa de ser justa. É tão sublime mesmo. é inequívoco.

a arte jamais é independente da vida: há interdependência insolúvel e irrecorrível.. éfatigante. Isso é individualismo pretensioso. em proveito de uma finalidade maior. porque se servindo de elementos estéticos (a beleza.cartas-a-um-jovem-escritor até no desistir voluntariamente de uma coisa que você gosta. Por exemplo: nofim quase da sua carta. A arte não há dúvida nenhuma que é uma espécie de mentira. é simplório por demais. que seja mesmo apenas o equilíbrio formal da obra-de-arte.. dominando a vida e não sendo dominada por ela". mais operário. sob certo ponto. paire acima da vida. você está em plena volúpia criadora. A arte é “uma tortura". inquietante e insatisfatório. como você diz? Apenas eu lhe pergunto uma coisa: você conhece qualquer profi ssionalidade humana que. épenoso. é sobretudo inquieto. que faz com que nem a vida domine a arte nem esta àquela. É preciso ser mais humilde. etc. Ainda havia o que comentar na sua carta. E não estaremos por acaso insultando os vegetais?. não se esqueça que os provérbios também são uma derivação da lei da preguiça. A tortura é de todos e se confunde com o que de-fato seja viver humanamente. ainda aqui. até você se fixar num estado de conciência suficiente pra organizar em você uma atitude coordenadora do seu trabalho futuro.. o material transposítor. é másculo. e nos oferece uma síntese nova dessa mesma vida.) ela nunca é a vida mesma. lhe bastam? Si não bastarem continue discutindo. a crítica da vida. um viver morrendo. mas no sentido em que você diz ao enfermo que ele está milhor ou à criança que si ela brincar com fogo. Até como aspiração elas são a mesma coisa: pois tudo não aspira a uma vida milhor?. você retorna a um estado ativo de poesia. não pode se alimentar de provérbios. mas estou cansado. Mas é gostoso também. mesmo nesse sacrifício. Não desligue assim proverbialmente duas coisas que são a mesma coisa. você me pergunta si a arte "paira acima e independente. não seja uma tortura também? E a vaidade do artista individualistizado que o leva ao seu "atendite et videte si est dolor sicut dolor meus". justamente por ser um intelectual. O que sucede é que a maioria dos seres (e também dos artistas) vegeta em vez de humanamente viver. mija na cama. mas justo na intenção de atingir um beneficiamento maior.. É dolorido. Com um abraço do Mário de Andrade 38 39 Página 22 . Você não mente com a intenção de enganar. é. inda épossível aceitar. Afinal das contas você. você 36 37 pratica uma ejaculação. sobretudo. Isso é provérbio. Eu aconselharia desde logo a você não se prendera equações muito nítidas e simplórias. Mas por tudo isto mesmo. e não mistificar por demais essa história da arte ser filha da dor. Será que estas digressões escritas ao léu do pensamento e sem ordenação. realizada com dignidade. Que a arte. de uma grande dignidade.

Nem pude ler sua carta quando ela chegou. sei lá. bondade. é amor dos bravos. que eu me sinto capaz de conservar a integridade moral do meu destino de escritor. Agradou demais. Mário. e você pode rir de mim. nada mais certo para mim. pode crer que é digna que você a conheça. E se a minha confusão de felicidade e facilidade foi resultante de uma simples troca de nomes. não me abrindo inteiramente com você. Você não pense nem um instante que sua carta nãO me agradou. Por isso ainda não lhe escrevi. rompeu a conjuntiva e causou uma grande erosão na córnea. casamento legal e vida arranjada. Não ficou sabendo ao certo que espécie de facilidade a que me referi. e entrou de ponta num dos olhos.). mas o único medo que eu tenho é da guerra atrapalhar. de minha falta de sinceridade. no qual você antecipava a resposta que iria dar à minha carta. e que morre apenas aflora à superfície.. e toda dúvida que eu tivesse você dissipou. chamando eu "felicidade" o que deveria ser chamado de "facilidade". Exatissimamente aquilo que você diz: "amor sinceríssimo que acontece ser rico. Preciso muito da orientação que você pode me dar. Só muito recentemente consegui recuperar a vista (perdi o Carnaval. É amor. Mário. me completa de uma maneira assustadora.. dentro do livro de Poesias que você tão gentilmente me enviou. como se não fosse uma certeza que mora no fundo. Mário. não é medíocre não. leram para mim.. Estou até de licença na Secretaria da qual sou burocrata convicto. Sinceridade. Foi bom. Mas não estou falando Página 23 . nem nos outros. Vou te contar por que não pude e escrever no mesmo dia em que recebi. agora você imagine. que senão esta carta não acaba mais. franqueza..cartas-a-um-jovem-escritor Belo Horizonte. noivado. contudo. E me envergonhei logo às primeiras linhas suas. Tenho pelo menos a impressão que vai ser mesmo assim. Recebi o seu cartão. Uma coisa que me impressionou foi sua referência à religião.. no mais profundo do nosso ser. Mário. mesmo julgada imparcialmente. Apesar da posição dela. Poderei desejar alguma coisa mais? Só poderá me ajudar. que diabo. Eu precisava dela. Isso na quinta-feira de antes do Carnaval. Tive que fazer um tratamento muito intensivo. E vou parando de falar nela. se riqueza. pois ainda faltava uma prova no concurso do vestibular de Direito (prova que tive de fazer com metade da cara anestesiada). Dá certo mal-estar na gente ficar falando em "destino de escritor". Ela me compreende como nunca pensei que houvesse alguém capaz. e não estou muito em condições de grande esforço visual. 10 de Março de 1942 Meu caro Mário. desaparece tão logo se transforma em palavras. disso tenho certeza. verdadeiro irmão mais velho. ou qualquer outra coisa. sem mais inquietações financeiras". está do Lado da gente. muito bom o que você disse para mim. se amor. é de nossa espécie. só hoje: uma baqueta (da bateria que costumo tocar nas horas vagas) escapuliu de minha mão. Esta resposta tambem recebi.. 40 Me desculpe. e não atribua este silêncio senão a um pouco de timidez.

o resto interessa exclusivamente pela possibilidade que oferece de me levar a tal fim. Por que sem isso não experimento coisa nenhuma. pois. da angústia e da insatisfação. É preciso em resumo. a você. Sei agora que esta será na verdade uma prova. me espanta muito não ter ficado até agora. Mas não há de ser nada. a dificuldade na vida. e muito. e sim segurá-la com unhas e dentes. fazer tudo para não perdê-la e é isso que vou fazer. o Murilo Rubião me disse que está também muito entusiasmado com os Poemas. facilidade. e muito. Há mesmo alguns que não entendo bem. Pude entender e ate sentir a possibilidade de experimentar a felicidade que tenho em vista. Não recusá-la. fica para sempre. você poderá calcular mais ou menos o quanto me ajudou. O que me importa é aquilo que eu hei de ser. não é assim? Vem. e pretende escrever a você por estes dias respondendo à carta sua. Você tem toda razão de ficar chateado com isso. a que eu poderia ter fugido na minha carta. que alcançarei se o esforço feito e a capacidade existente o tenham merecido. e vou esperar um pouco. é indiscutível que não me impede. Aliás. 42 Depois de tudo que ficou dito. ou passa. se tivesse refletido um pouco.cartas-a-um-jovem-escritor para os outros. Tenho medo. consegui colocar nos devidos lugares certas noçoes que se confundiam em meu espírito. Até me perdoar certas ingenuidades indesculpáveis. como objeto de aprimoramento pessoal. o que é quase uma forma diferente de falar comigo mesmo. mas ajuda. Consegui distinguir a infelicidade. E a felicidade que tenho em vista. Eu tenho necessidade de escrever ainda. Depois de lida muitas vezes sua carta tão preciosa num momento como esse para a minha vida. Como recusá-la? Vejo tudo claro. O que eu hei de fazer . estou 41 falando para você. Consegui compreender a possibilidade da insatisfação e a angústia coexistirem ao lado da pseudo-felicidade ou como diz você. me ferir. me esforçar no sentido de que ela se realize. Sentia vagamente que haveria de ser assim mesmo. uma experiência um caminho como qualquer outro que me levará a algo mais. porque não estou podendo fazer esforço visual muito grande e além do mais esta carta está ficando longa. tamanha a compreensão de que te sinto capaz. Tanto mais que você ainda terá que desculpar a extensão das minhas cartas. E como você diz: tocar para frente. cus te o que custar. Achei o Noturno de Belo Horizonte uma maravilha. E é mais do que justa essa facilidade que está se oferecendo para mim. Creio que já o lera. o quanto sou agradecido por suas palavras de bondade. e Página 24 . por mais difícil que isso seja. mas foi vOcê quem colocou tudo nos devidos lugares. sem me tocar. Mas vou deixar para falar nos poemas em outra carta. sem me marcar. Ou se não me impede de lá chegar. Queria discutir comvocê certos pontos de suas cartas. e tudo o que você vem fazendo por mim. As Poesias têm me impressionado. não sei aonde. e eu ficar agradecido a você também por lê-las e responder com essa presteza que desconcerta.

para que você me diga se vale alguma coisa. Eu tinha muita. antes que me esqueça. Pretendo até lê-lo novamente. Mas daí a não reconhecer esse valor. E pessimismo demais. já milhorou bastante? Mas tome cuidado. Eu acho engraçado hoje ele ter-me impressionado. Quanto a você não estar desses argumentos. Mário. Ora fiquei chateado com essa história de você ter machucado os olhos. animado exclusivamente por você. mas muita vontade de lhe falar no Macunaíma. Penso que há bastante pessimismo. te dou toda razão. que estou tentando novamente. Acho. Aproveite a convalescença Página 25 . e toda essa boa vontade que está tendo para comigo. por exemplo. Penso que alguma coisa deimportar. Ah."sinceridade e "espontaneidade". assim que tiver oportunidade de lê-lo outra vez. Pelo menos influem. isso é que vai ser o diabo). pessimismo injustificável. eu lhe pediria que falasse qualquer coisa com respeito à leitura. e sem poder nadar. e acho que não sai nada. só porque não foi compreendido. 21-III-42 Fernando Vou aproveitar este espacinho de sábado pra lhe escrever logo. Também sobre o Macunaíma 43 queria lhe falar. o diabo é que terei de passar muito tempo tomando cuidado. Um grande abraço do amigo Fernando 44 45 S. tanto que já falei nele num artigo como uma das obras maiores e mais sérias já escritas no Brasil. Bem. quando diz que com Macunaíma você perdeu de um a zero: “uma obra-prima que falhou Pelo que você diz. Eu tinha uma novelinha abandonada. Mas acho que você não deve mesmo bancar o incompreendido e sustentar de público o valor do livro. pois tinha 14 ou 15 anos quando o li. Mas está duro pra burro.cartas-a-um-jovem-escritor outros de que discordo. como si a vida fosse acabar amanhã. É que na época que o li ele me impressionou profundamente. se você puder me escrever novamente. dadas certas coisas que a respeito você diz na sua carta. coisas que seria bom que eu lesse e que provavelmente ainda não li. Paulo. Não posso concordar com isso. dependendo do caso e do sentiem que você os emprega. Peço licença para lhe escrever novamente quando sarar de todo (vou sarar de todo. heim: não se bote aí lendo que mais lendo. vai muita distância. que você exagera quando diz que espontaneidade e a sinceridade do artista não importam nada para a obra de arte. você se baseia para afirmar isso apenas na incompreensão daqueles que opinaram sobre seu livro. Vou juntar aqui um conto escrito 6 meses atrás. mais uma vez agradeço a você do fundo do coração o auxílio prestado.

Aí o advogado lembrou de comprar um rádio. morando numa casinha que o pai deixara pra elas. E cada vez que o advogado aparecia. Não tem dúvida que você caracterizou psicologicamente o professor. mas além de pôr demais psicologia anedótica (repare que o tipo é um pouco impossível. mas as meninas pediam a ele fazer ofavor de vir nessa segunda mesmo. por isso é que o tinham chamado. as duas ficaram cegas. Bem. só uns conhecidos de longe em longe. não lembro si invenção dele. mas não tinham no que gastar porque não sabiam gastar e estavam muito velhas. O advogado bem sabia que não era possível ter qualquer urgência nas meninas mas veio assim mesmo. as "meninas" envelheceram e a casa da Rua Quinze recebeu uma oferta de dois mil contos. É preciso saber aproveitar até os inconvenientes que surgem: deve ser estranho a gente pensar que não pode ler. Instalou-se o rádio e quando ele principiou funcionando foi aquele deslumbramento. Não tinham herdeiros. ficava se contendo. Também este era de dificílima realização. Gostei muito do"Companheiro" epouco do Professor. era aquela queixumeira. E aí principiou o martírio delas. Até quando uma delas carecia de ir lá dentro no quartinho.cartas-a-um-jovem-escritor justo pra não ler. até quiseram beijar a mão dele. Isso as meninas botaram o rádio no mais forte da sua pujante gritaria e ficavam ali rentinhas escutando que mais escutando. Eram duas velhinhas irmãs. repare como o monólogo interior não rendeu. Chegou. quando as velhinhas o abraçaram chorando. ou os anúncios de futebol. Você não poude escapar da pobreza Página 26 . se contendo até não poder mais. por exagero). que ele vinha mesmo na quarta. com a dama-de-companhia que o advogado ajustara pra ler pra elas. Escusado dizer que as meninas nada sabiam da Inglaterra e ainda menos de futebol. Vinham do tempo da guerra do Paraguai. que era urgente. será que o dinheiro delas dava? Mas além do dinheiro para as cinqüenta missas por alma delas. na Rua da Imperatriz. e ligavam pro estrangeiro não entendendo língua estrangeira. no tempo da guerra do Paraguai. a mulher não gostava de ler os falecimentos. e agora o advogado que tratava da fortuna delas. creio que você escolheu o processo mais pobre pro caso: o monólogo interior. E comentavam as diferentes PR. E já não havia mais dama-de-companhia na cidade com mais de um milhão de habitantes que não tivesse passado pelas meninas.foi dizer "bomdia". E fosse por que fosse. seus contos. Numa psicologia escassa como a do professor. As "meninas" venderam a casa. 46 47 Gostou? Bem. toda quarta. que o resto tudo fosse empregado em doar um rádio igualzinho àquele para cada instituto de cegos do Brasil. E foi justo quando chegou a Semana Eucarística e as meninas que eram completamente católicas puderam assistir inteira a Semana Eucarística. ulava as notícias do rei da Inglaterra. Uma inda enxergava um bocadinho esfregando o nariz no livro de reza mas a outra nem isso. Eu sei uma história que o Antônio Alcântara Machado me contava. Ora sucedeu que a Rua da Imperatriz acabou se chamando Quinze de Novembro. É que as meninas eram muito curiosas e gostavam de saber o que se passava nesse mundo. muito pobres. quando não custava oito.. Ora já na segunda o advogado recebeu o telefonema. que esse precisava ficar por causa do inferno. tudo por causa do rádio. Podiam morrer apesar da saúde imensa e queriam modificar o testamento já. não tinham parentes.. que acabou num domingo triunfal.

Você poria em evidência a pobreza interior do tipo. muito encontrável nos livros de leituras de grupo.ficou literariamente pobre de verdade.ficOU muito fino e sem concessão ao sentimentalismo fácil. Não digo o mesmo do Rufinho. um submarino do Eixo como uma pena engasgante me fazem 49 Página 27 . de um irregular psicológico excelente. Realmente acho esse conto apenas regular. Mas não se preocupe muito com isto ainda não. Mas isto é uma nuga que até pode ser apenas implicância minha. ambos de uma pureza. Será preciso atingir a linguagem escrita . A linguagem está muito gostosa. se livrando da gramática. todos nós já sabemos que ela vai topar com o sapo. pernóstica. Como escrevo cartas sem guardar cópia e o mais."Qual. mas enriqueceria essa pobreza com a sua observação pessoal de autor.. teria sido preferível a descrição de autor. Ora.cartas-a-um-jovem-escritor de memórias e sensações: eapobreza. Afinal não estou escrevendo um tratado mas apenas nos procurando viver milhor. A pena é o esperado do sapo. Mas os outros dois estão ótimos. O problema da sinceridade. Mas surge o "nosso"final. em vez do monólogo interior. A coisa fica de um esperado deses perante e desapontante. sustento sempre que um quase desastre de automóvel. Você já está escrevendo com muita naturalidade e clareza. ainda poderia interessar. ora. Até você pode cortar. não se lembrava. num estilo perfeitíssimo como arte.figura completamente protocolar e conhecida. o"lhe" sem que o sentido e o ritmo expressivo se prejudiquem. Fica prejudicada apenas a gramática. porque o finzinho conserta tudo. que 48 facilidade! Felizmente você escapou disso e o final. Tem muito jeito de dizer isso evitando o"se lhe" que não é da índole brasileira normal. mas não esqueça nunca que a língua é que faz a gramática e não a gramática que faz a língua. Virá com o tempo. da espontaneidade: não me lembro o que lhe disse na carta anterior. os casos estão bem escolhidos e o Rufinho não chega a atrapalhar.. desde já exijo de você a complacência com os calos! Entendeu?! Me explico: Exijo de você que aceite os meus exageros e até contradições. Já o Companheiro é muito milhor: você desenhou com deliciosa delicadeza de toques os dois meninos. as fisionomias se embaralhavam na memória" Ou "na memória dele" contentando até a gramática. Custódio e Nicinha. Você já refletiu sobre a sintaxe: "as fisionomias se lhe embaralharam na memória"? Repare como está ficando desagradável. espontânea e sinceramente possível. e vai levá-lo ao Custódio.isto é o dificílimo. quinze minutos antes. Ela pega no sapo. A volta sucessiva dos mesmos fatos (efatos poucos) ficou duma grande monotonia e de um já sabido que só mesmo realizado numa linguagem. uma dorzinha nos calos ou de-corno. Quando ia chegando nofim me assustei muito. Creio que pro seu assunto. lusitana e só encontrável em linguagem pretensiosa. Assim que Nicinha vai correndo até o alicer por causa da pneumonia do companheiro. em vez dedesapontar. apesar do nojo. Mas também não chega a atrapalhar. embora numa linguagem um pouco falada. embora cara cterizante.

Bem. a espontaneidade são coisas que se modificam constantemente. é esse da sinceridade. Mas. méirmão. Realmente o escolho grande que tenho encontrado na minha vida. E também Selma Lagerloef que não me lembro como se escreve. É impossível detalhar Mas não são muitos não. Você precisa de uma cultura literária geral. gostando de antemão. tanto como um raciocínio novo ou uma atitude social. por favor. arte feitura. da parte dos outros. que não deve ser feita duma vez só. Numa edição crítica boa. E a Bíblia. E com ordem de gostar. Como elementos conci entes da arte. nos Lusíadas e nos Sonetos pelo menos. piasote. ou com o que a gente tem a convicçâb que deve ser? Se eu espontaneamente. todas as ignorâncias técnicas e até todas as safadezas morais! Contam do Olegdrio Mariano que jamais lê um livro "pra não se influenciar". Você precisa ler Camões. Engraçado: estou me lembrando que depois de bem sistematizado o "pra" em mim. É a porta aberta pra todas as preguiças mentais... espontaneidade não pode ser elemento estético nem muito menos técnico! A sinceridade é. porque assim ao menos ele era sincero e conservava a pureza lá dele! Onde que vamos parar com a sinceridade!. Sinceridade. arte fazer. Há certas coisas que a gente carece conhecer e gostar Gostar de. deixava escapar um"Parece-me que". onde que eu fui sincero? Seria a sinceridade fugir à minha convicção.. tornado espontâneo e subconci ente. não se esqueça! Enfim há uns dez homens essenciais. quando me sucedia ter que ler algum escrito antigo. sem a gente querer. sinceridade e espontaneidade só podem ser academism os.. Que bom ter sua idade pra ler. Você me pede que lhe aconselhe algumas leituras.cartas-a-um-jovem-escritor forçara nota ou até mudar de opinião.. mas dentro de um programa que pode durar ponhamos seis anos.. Enfim: em arte não existe o problema da sinceridade. está claro todo o Shakespeare. você não imagina cada sobressalto que eu tinha! topava um "pra" e a sensação imediata e muito desagradável que eu tinha era de me pegar num erro de linguagem! Sinceridade de quando você.. vinte anos de escrever"Parece-me". Sinceridade com o que a gente é. dia por dia. Dante na Divina Comédia inteira e na Vita Nuova. mas depois corrigia pra"Me parece que". Não sei bem o que você já leu. em 1922.. à sinceridade do espírito. Têm de ser repudiadas como elementos conci entes da obra-de-arte que é artificial. faz parte da dignidade humana do indivíduo. respeitando a sinceridade espontânea manual? Esta não passava de uma memória quase exclusivamente muscular. preguiça e ignorância. Isso é difícil como o diabo. Sinceridade pra com o quê? Espontaneidade imediata ou posterior? Você conhece coisa mais espontânea que uma fábula de La Fontaine? Pois tem algumas que foram refeitas dez vezes. ainda por atingir.. que a gente lê. com ordem de Página 28 . chegava ao repúdio de tudo quanto não fossem as tendências espontâneas do ser. o Goethe do Fausto e dos romances (si souber alemão também as tragédias e os lieder). Isso não é nada: ainda não faz três dias um amigo meu aqui + ou da sua idade. passadism os. você já leu Catherine Mansfield? já leu Rilke? Como atualização do seu ser artístico você precisava ler bastante esses dois. reconheço: tudo é porque não conceituam sinceridade nem espontaneidade. levado pela convicção de uma sinceridade nova.. eassimpordiante. nadava de cachorro ou de hoje que você se prolonga no silvo elástico de um crawl? A sinceridade. levado por vinte anos dessa sinceridade do meu ser. Exclusivamente. E Cervantes. Você precisa ler da mesma forma.

Fui lendo. Me parece um pouco canalha a gente conhecer Anatole France e não ter lido as "Cartas Chilenas". o correspondente do que foi o estilo de Machado deAssispro tempo dele. Veja o problema do estilo: si você escrever. Um pouco também (um pouco só) de Vieira. dava obra-prima. isso não tem dúvida. chegar a escreverno estilo de Machado deAssis você se esculhamba por completo. mas. me falaram. creio. O problema é delicadíssimo. com perfeição de estilo a mais. ponho bastante esperança nela. Machado de Assis não deve ser pra você um companheiro de vida. Mas eu sou assim mesmo. creio (nunca pensei muito no caso). Gostei muito. e gostando a posteriori. é que você estabeleça um plano de leitura e o siga contra tudo e contra todos. Os dois critérios principais. Gilda Morais Rocha. de tanto que tem me prejudicado: que eu era "o animador mais desanimador que existe". às vezes me arrependo. se perde. Deve ser difícil agüentar o tranco do meu gostar não-gostista. disse a ela e entreguei os originais. já falei. E. Fernando. Mas si se embalar. Diz-que eu tinha gostado muito. Meu Deus! aqui também entra a noção da dignidade do indivíduo. De preferência os antigos: uns poucos. É mais uma questão humana de proximidade. quero lembrar sempre o Rabela is. "A Vida do Arcebispo" acho indispensável. mas apenas um tesouro onde você vai roubar. não no estilo nem no espírito mas na delicadeza de sentimento. Mas você precisava chegar a um estilo que fosse em você e em 1952. O Companheiro é muito bom. tome cuidado sempre de não ler demais. jogando o resto fora. Portanto o que eu peço mesmo a você éficarsemprealerta: não vá aceitando sem mais nem menos tudo o que eu falar. Pois ela me deu uma crítica que fizera do "Otít ofthe Night" pra ler e opinar. Ler os brasileiros. devem ser esses: 1 Página 29 . 50 51 Em seguida há o caso da língua. O Professor falhou porque você não tinha o estilo que o salvaria. Outro dia ainda se deu um fato que achei assombroso.. Faz parte da dignidade do ser. Não fico zangado por isso e me evite essa coisa deficarpesando com precisão cada frase e opinião minha: táfeito? Pois o que eu acho. quê que hei-de fazer! Nos fins do ano passado me falaram uma coisa de uma perversidade que hoje considero deveras maligna. que publicou uns contos em "Clima" é minha prima. vive aqui em casa. Olha. Felizmente que ela riu. Mas sempre não se esquecendo que você pode roubar errado. você precisa muito de ler Machado de Assis. lembrando outras dicções pra certas frases. mas nos originais não tinha quase frase sem sugestões minhas de mudança!!! Vai ser duro de você agüentar o tranco.. É inteligentíssima. Fernão Mendes Pinto e as "Décadas". Roube dele tudo quanto possa ser útil a você. Disto ainda estes dois contos novos me convencem inda mais.falar de Proust e não falar de Gregório de Matos ou Cruz e Souza. etc. roubando ele. e o Ibsen do "Peer Gynt" junto com Cervantes). Você precisa ler certos clássicos portugueses. eu não quero desiludir você com a minha severidade.cartas-a-um-jovem-escritor gostar. em principal. mas ler com reler. (Me desculpe. sugerindo coisas. plagiando ele.

onde fui passar a Semana Santa. só falando outro dia. Conhece Ouro Preto? Vale a pena conhecer. As leituras imprescindíveis não podem ser devoradas. esta mais que a espanhola. que em si não valem nada. Bem. Os contos que lhe mandei são aquilo mesmo que você disse: eu gostava. Com um abraço do Mário B. Com isso. fico agradecido pelo seu interesse. 54 55 fazendo tão generosamente a crítica de um ou dois contos sem importância Página 30 . si quiser que eu fale. Você me ajuda extraordinariamente com isso. entrecho. Tinha muita vontade que você lá estivesse. E fazendo uma mistura bem equilibrada de tudo. Gostei muito da história das velhinhas do Alcântara Machado. por mim desconhecida. Se você não dissesse quem lhe havia contado. Ia gostar. Só não posso nadar ainda. etc. Quanto à minha vista. 2o O critério da proximidade: a) Proximidade do ser social (suas tendências políticas. era de"O Companheiro" embora soubesse que havia uma possibilidade. não sabia porquê. Dá um conto e tanto. eu perguntaria logo se fora ele. palavra. Horizonte. mas o motivo do atraso se justifica: eu a recebi no dia em que partia para Ouro Preto. a européia mais quea chinesa). insista. religiosas e outras) b) Proximidade do ser individual (suas tendências egestos e idéias de artista) 52 53 c) Proximidade do ser vital (em princípio a arte atual deve interessar mais que a do passado) d) Proximidade do ser étnico (em princípio a literatura brasileira deve interessar mais que a portuguesa. etc. de ser melhor. não pode descer à linguagem. O sujeito que critica um livro de contos não pode ajudar ao autor tanto quanto um que critica um conto apenas: preocupado com a extensão do conjunto. com dor na mão. E não é possível um intelectual sem filosofia nem orientação social. a latina mais que a germânica. quero apenas dizer que você. Já "O Professor". Sei que são apenas dois contos. Hoje estou já cansado. Mas afinal. eles podem constar de um bom ou um mau livro. Só hoje respondo sua carta. isso é que é importante. para evitar infecção. mas não se preocupe: já estou inteiramente bom. a história.cartas-a-um-jovem-escritor Leituras imprescindíveis para a dignidade do intelectual. sua carta. acho que você consegue uma boa cultura literária. enxergando até o que não devo. 7 de Abril de 42 Meu caro Mário. eu sabia que tinha falhado. mas não sabia que era no processo adotado. Mas sobre isto. Mário.

Estou pensando mesmo em continuar a exigi-lo. mas aos que ainda farei. ela é bem boa. não recebi os 5 exemplares. Se você os conhece.8. Servem muito. força psicológica. isso só mesmo com os"animadores mais desanimadores" como você.cartas-a-um-jovem-escritor como fez. Reclamei. O que existe é uma capacidade de não se deixar vencer pelo entusiasmo (ou pela repulsa). Mas a fixação de tipos. poderia reclamar para mim? Creio até que estão interessados em representação da revista aqui. Para mim o tal "gostar gostando" contrário ao seu é a coisa mais improcedente do mundo: pode animar a gente. Antes que me esqueça: esta história de "animador mais desanimador" é uma autêntica balela que lhe pregaram. E qualquer plano a seguir é sempre preferível a plano nenhum. Nada mais do que isso. Você também não gosta daquele conto? Eu por mim achei-o estupendo. espontaneidade". fazer nascer dentro dele uma força nova. Meu Deus do céu. e fiquei sabendo bem porque em arte não prevalece a sinceridade. leveza e facilidade de narrar. mas como não quero abusar dessa boa-vontade que nunca encontrei em ninguém. há muito tempo eu não lia uma coisa tão boa como aquele "Week-End com Teresinha" publicado em Clima. etc. Por falar em Clima. que tinha um artigo meu (sobre"Eça de Queiroz em face do Cristianismo". agora concordo com você. pois pelos 3 primeiros números que aqui chegaram. você não acha?). o que você me sugeriu é muito bom. mas penetrar no indivíduo. venho pedir licença antes: estou aqui às voltas com outro conto. me ajuda muito. se é que ela ainda não morreu (o que seria de se lastimar. Põem o animado satisfeito consigo mesmo. Meus parabéns por ter aí na Lopes Chaves mais essa artista de marca. Quanto a aquela história da"espontaneidade e sinceridade". isso nunca. achei simplesmente admiráveis. Fico agradecido a você pelas indicações de leitura que me deu. não em relação só a estes. Gilda Morais Rocha é então sua prima? Pois olha. sobre o qual desejava ouvir sua opinião. e estiver com algum daqueles rapazes. pois de qualquer maneira indicam um plano a seguir. Mário? Não existe em você "gostar não gostando" nenhum. uma capacidade criadora que ele desconhecia. que é a fonte de criatividade do artista. Os apenas"animadores" não conseguem efeito nenhum com sua animação. 56 57 Página 31 . você conhece aquele pessoal? O Antonio Candido de Melo e Souza me escreveu dizendo que me mandava cinco exemplares do n0. Depois. E não queria ficar com a coisa atravessada na cabeça. destruindo assim a insatisfação. a naturalidade. e parece que ele não recebeu. Agora compreendo bem a tal espécie de"sinceridade. Por isso sou tão agradecido a você pelo auxílio prestado. Ele vale para mim apenas como a primeira coisa que consigo fazer depois de meses de absoluta esterilidade e desânimo quase total. pode pôr o sujeito crente que está abafando. nem os grilos chegaram a cantar. e que iria fazer a crítica de "Os Grilos Não Cantam Mais". É verdade que os diálogos têm um pouco de cassange que não faz muito o meu gênero. Não são insuficientes como você pensa. É que não tinha compreendido bem. imagine). quem é que podia ter chamado você disso. Pretendo levar a coisa a sério e segui-lo de fato. que você tem horror até de ouvir falar.

Por mais que eu fizesse.R.* é cair na cama e começar outra vez no dia seguinte. Nasceu daquele conto a que me referi na última carta. há pouco tempo. escrevendo. e a única coisa a fazer. onde estou no primeiro ano do curso. como todo mundo tem a suazinha. Tenho um maldito C. Não há de ser nada. mas gentil. o Gentil Noronha. Se der alguma coisa. só terminando às 8 e meia. como pretendia.e o maior ladrão. Não se assuste: tentativa somente (ou tentação). pois saio do serviço às 5.. 9 horas. em conversa com ele. para ver o que acontecia. As horas vagas. e não me sinto ainda nem na metade. Muito obrigado por sua boa vontade. 3 de Maio de 1942 Meu caro amigo Mário. O papel está acabando não vou mudar de folha para não te chatear muito.P.O. no fundo de um bar no Carnaval. vendo se me garanto um pouco e deixo a Secretaria. como já tive no ano atrasado. de novo à noite. eu tenho muita vergonha de confessar. pedindo licença para mandá-lo a você. É só você não contar a ninguém. escreve até cansar. (Estou agora vendo se arranjo para dar umas aulinhas de português num ginásio daqui. lembra-se? se referiu a mim. aquele. e me esqueci: você esteve. Quando chega às 7.O. Você. Depois continua. Só ME ESCREVA SE SOBRAR TEMPO. mas. Mas tentativa que está me pondo de cabelos brancos. que é meu amigo também. Camarada louco. todo dia às 5 da manhã. etc. Grande abraço do Fernando Belo Horizonte.) Das 4 às 7 tenho aula na Faculdade de Direito. Então resolvi ir escrevendo. Eu não sabia que você conhecia o Gentil. Tenho muito medo de ser besteira minha. o que duvido. aí em São Paulo. embora seja a mais gostosa do mundo. Mário. que me estão roubando todo o tempo . A gente sente vontade de escrever. senão tocar o tango argentino.cartas-a-um-jovem-escritor Mas você não calcula como é a minha vida. com um amigo seu aqui de Belo Horizonte. às 11 e meia lá vou eu para a Secretaria das Finanças me burocratizar um pouco e lidar com os maiores capadócioS que já encontrei em toda a minha vida. Vou ver se mando o conto. isso não tem dúvida.R. sempre se arranja um tempinho para se defender e tocar para a frente: o consolo da gente é que não estamos SOS. não quero sacrifício algum de sua parte. por uma porção de razões. nem tenho tempo de ir em casa: três vezes por semana. A essa hora já não consigo dar um passo: sou da Cavalaria. 59 Página 32 . não é? Não te escrevi até hoje. Perco uma aula diariamente.. que hei de fazer? é um romance. o conto não acabava. então vai lá. me elogiando. C. --*Verso de Manuel Bandeira. o amor velho de guerra se encarrega de encher Mesmo assim. já escrevi bem mais de 100 páginas à mão.P. Antes de tudo quero mencionar um assunto que ia falar na minha última carta. das 7 às 9. Mas que é gostoso como o diabo. e tal (pelo que ele me disse).

Se você puder me escrever. e não é o melhor. Tenho um medo desgraçado de fazer besteira. me diga por favor o que achou do rodapé do Álvaro Lins a respeito de seu"Poesias". é lógico. nas horas vagas. pois estou sentindo muita falta de notícias suas. que você não pode compreendêlo. Mário. Mas vamos deixando de falar de mim. que eu tinha muita vontade de saber. Horizonte Gonçalves Dias Página 33 1458 . e nem sei se você recebeu minha última carta. você é que não sabe. (O que. ou metendo o pau nos outros. aliás. sem fazer nada de sério. quando você o censura e aos outros por causa desse fracassismo inequívoco. E depois. Gostei muito. etc. me aceitando lá. Bem. contando o desmembramento e a inatividade da turma. da Faculdade à tarde e do amoreco o tempo todo. só sabem ficar no café conversando fiado. Um dia lhe mando um conto dele e você vai ficar besta. sem nem escrever coisa nenhuma. te dei toda a razão. e essa coisa toda. e dava tudo para tê-la ouvido (já falei isto na primeira página? Não sei. para esclarecer cá umas dúvidas. avisando que vai me escrever. Achei o tipo da besteira da parte dele. Tinha vontade de saber o que você achou. Disse-lhe que era o cúmulo da incoerência ele se confessar. dizendo que não. achei que ele está sendo muito burro com você.P. bebendo o tempo todo. Mário. Li no Diário de Notícias.R. É isso que eu acho e que falei a ele. fracassado em toda a acepção da palavra. a si e ao resto da turma. ele protesta. Outra razão de minha falta de tempo: além do C. meu velho Mário. dentro do bolso do paletó). Mando-lhe um grande abraço e vou esperar suas notícias com ansiedade (sempre salientando que só quero que você me responda caso tenha tempo e se não for chateação). sem saber aonde. No Anuário Brasileiro deste ano há um conto dele. que senão agora mesmo estou lhe dizendo que me tornei fabricante de broinhas de fubá mimoso. eu bem que gostaria. uns boas-vidas. mas sempre amargo. ora injusto. (Está meio empastelado. Mas só se isso não te chatear. mas de muito valor mesmo. da Secretaria onde estou agora. está na hora de se encerrar esta gaita. estou dando aulas de português num Ginásio daqui. Tivemos uma discussão outro dia. porque Murilo é um rapaz de valor. não fazem coisa nenhuma. Murilo Rubião me disse que você lhe escreveu. Também não se assuste: não tenho culpa nenhuma do diretor do ginásio ser maluco. muito analítico. e pelo que ele me contou.) É possível também que nessa história toda eu esteja ouvindo o galo cantar. chamado"Eunice e as Flores Amarelas".cartas-a-um-jovem-escritor pretendo ficar amadurecendo essa coisa por muito tempo ainda. meio queimado mesmo. ou jardineiro da Praça da Liberdade. Se você puder.O. Mas pelo que me contou.) Soube pelos jornais de sua conferência no Rio. Fernando Rua B. sem eu ter lido a sua carta. Não li nem as cartas dele a você nem as suas a ele. ora justo. Eu por mim achei-o amargo demais. dá uma olhada e verifique. São quase cinco horas da manhã. Ela já está ali. filho da mãe de manhã cedo. Sempre seu amigo. São fracassados mesmo.

meditações. O papel está acabando e você me perguntou sobre o artigo do Álvaro Lins sobre as"Poesias". nove e meia e jurei principiar a semana lhe escrevendo. seu jeito é esse. Não sei. além de ser mesmo uma delícia produzir pra quem tem mesmo a bossa. versos. romances quase sempre ficados pra acabar"mais tarde". pegasse aquilo pra ler rindo de mim. uma criada. E era aquela devastação. porque já tinha mudado. passavam dois anos. Aliás releio sua carta e veja que desta vez posso escrever pouco porque não há verdadeiro assunto. pelo simples ato macho de produzir. É pau isso. 8-VI-42 Fernando Arre que sua última carta data de três de maio e eu sem lhe responder! Mas as ocupações se acumulam e eu queria que você espiasse só aqui sobre a cômoda de meu estúdio as coisas que amontoei pra fazer nesta semana. E ainda me estoura casa a dentro a possibilidade de ir no Rio por uns quatro dias! Resultado: as coisas ficarão pra semana que vem e aí é que a coluna vira Gatírisankar Mas é de manhã. Você adquire compromissos com o seu próprio passado. Um dia era preciso desentulhar as gavetas e eu ficava uns quinze dias lendo um autor esquisito que não era meu desconhecido. contos. Mas como vai o conto que virou romance? Mande contar mais detalhadamente o assunto e como é que você o está desenvolvendo. Quase tudo ia pra cesta. talvez seja humildade natural. mas que eu não reconhecia bem mais. Mas não se esqueça de mim e mande contar coisas. maior delícia é isso da gente ser moço e ir escrevendo sem nenhum compromisso. é uma coluna. E é só por hoje. é muito amargo. vem dez mil ocupações dispersivas e você vê com mais que melancolia. E tenho a certeza que foi honestíssimo. muito pau. irmão pequeno. três. isto é. Eprincipiava entulhando gaveta outra vez. Paulo. Com o abraço do Mário 62 63 Página 34 . está preso e sem seu reino: senta na mesa e escreve o artigo pra ser publicado. livre/gratuito? no meu reino sem fadiga de criar! Era bom efoi tantas vezes sublime! Depois a vida passa. vá escrevendo. As coisas iam se acumulando. adquire um nome e como neste país não se vive de escrever ficção. E você. rasgadinhíssimo pela preciosa vaidade de que ninguém. mais que os da camaradagem. mas gostei. o lixeiro. Quando me lembro os milhares de páginas que escrevi. Mas como não publicar! Só virando jardineiro mesmo ou vendedor de vassouras automáticas que também são jeitos de ganhar dinheiro. vê mas é com um desgosto amargo que você senta na escrivaninha e o que vai escrever tem de ser publicado. minha manhã. Vá escrevendo. mas a dúvida não prova que ele esteja enganado. Mas o que você não pode é não ganhar dinheiro.cartas-a-um-jovem-escritor 60 61 S. Haveria por certo o que discutir. e bem rasgadinho.

Porque não posso mais nem ouvir falar em "Os Grilos". Me perdia em conversas de rua. Não vou dizer que não goste mais. estava fazendo mil e uma coisas ao mesmo tempo. estudando. O tal que de um conto passou a romance. aqueles contos não me interessam. amando. pois eu precisava tomar um rumo certo. não sei por quê.. Fiz. do que estou precisadíssimo. escrevendo sem parar. e terá o pobre Fernando Sabino no 64 seu acampamento de manobras do Exército. não ressoam mais em mim. estou vendo agora se ponho nos devidos lugares.. Mas as coisas aqui comigo aconteceram às dezenas por dia. Isso não aconteceu. Sinto náuseas. amarga para você. com grandes esperanças de ainda encontrá-lo lá. para fazer. achei sua carta extraordinariamente amarga. não Página 35 . dando aulas. Quando recebi sua carta estava de partida para o Rio. Comigo não se deu assim. feliz porque posso organizar minha vida agrícola. Estou escrevendo. sempre afobado. por ser da Cavalaria. Basta dizer que estou com 262 mordidas de carrapato (fora umas oito. de caráter suspeito. Vou recomeçar a trabalhar com afinco no livro. imagine um inferno. pois você saíra de lá dois dias antes de eu chegar. não sei bem. Que coisa dolorosa aquilo de você contar as suas tentativas de romance. a da Agricultura. uma espécie de nojo dele. ou então desisto. minha vida se complicou mais ainda. A verdade é que isso foi muito bom para mim..P. Sei que você disse não foi para impressionar. dispersivo. Como eu ia não dava certo não. Mário. o glorioso Exército Brasileiro. Não amarga para mim. 13 de Julho de 1942 Meu velho Mário. A complicação a que me referi é que fui de repente tirado de lá do meu lugarzinho humilde de extranumerário de uma Secretaria.O. me meta dentro dele. em relação ao que estou fazendo. cheguei ontem ou anteontem. bom.. Mas. Horizonte. Não há de ser nada. Agora vou poder trabalhar com calma. Mas vamos parar de falar de mim. Pensar seriamente nos meus planos..R. Não estou chorando mágoas não. corria de cá para lá e de lá para cá. Uma semana. tenho sempre um amor secreto pelo livrinho. que estava se organizando. Agora tudo passou. como se eu. É um absurdo eu ter demorado tanto a te escrever. Ou eu faço desta vez um troço sério. ler bastante. Aqui estou. escrevendo. de grandes obras que morreram no fundo das gavetas. posso tocar para frente. e chamado sem mais nem menos para fazer parte do gabinete de outra. Logo que cheguei do Rio encontrei um acampamento do C. fosse obrigado a comer bosta de cavalo. que não considerei) com ínguas de quatrocentos réis nas pernas e o estômago mais arrebentado ainda de tomar sopa de sebo. por perder essa ocasião de conhecer você pessoalmente. ou nossos (meu e dela). não sei explicar.. Mário.cartas-a-um-jovem-escritor B. escrever muito. Mas. minha vida está mais ou menos assegurada. não me impressionei com o que você disse. Fiquei triste. mas impressionaria qualquer um.

veja depois o que escrevi sobre eles e me mande dizer o que acha.por isso quero saber se valem alguma coisa em si. O favor que eu quero de você é me dizer. de tomar seu tempo dessa maneira? É que sinto uma necessidade de conversar com alguém. etc. te falando de coisas que naturalmente não te interessam nem por sombras. sem fixar o pensamento. e assim não vai. me interessa extraordinariamente. etc. que me sinto besta como nunca. Mas leia-os antes. Apelo para você. Acho isso muito estranho. talvez. Engraçado. (Nem sei se convém mesmo te mandar esta carta imbecil. tenho lá eu algum direito de te chatear com meus carrapatos. quando tiver tempo. sua opinião.) Antes de te falar de uma coisa.: Mário. Com certeza foi esse acampamento desgraçado que me pôs assim. Mais uma vez. Vira. por ser a única pessoa capaz de me ajudar. Bem. Desculpe a chateação. como se tivesse me imbecilizado um pouco (ou mais ainda). Leia-os. Fernando Página 36 . Aqui atrás desta folha vou escrever te contando de quem são. que diabo. Mas é que tenho a impressão que essas indicações devem influir muito no julgamento deles . O que você me responder a esse respeito. mais do que tudo o que você me tem orientado e ensinado. se há poesia. vou te pedir um grande favor: tem uma pessoa que escreveu os quatro poemas que mando aqui junto com esta carta. pode parecer idiota essa história de eu escrever só nas costas desta página as indicações relativas aos quatro poemas que lhe remeto junto. Não vou falar nada a respeito do autor. de me abrir com um amigo. muito obrigado. e a amizade certa do Fernando PS. Vou aguardar suas notícias. Mário. se são mesmo poemas. Assim como se você os houvesse achado na rua. Mário. nem das circunstâncias interessantes em que foram escritos os poemas. mexe. Nestes últimos dias. numa carta rápida. por favor. estou num estado meio apático. Digo apenas que não são meus. imensamente grato Sempre seu amigo.cartas-a-um-jovem-escritor despertam nenhum sentimento por eles. E é só. Ando assim meio no 65 ar. tão idiota. Agora é que vou tentar recomeçar. Você é um sujeito amigo. os carrapatos. escreva-me se puder. independentemente de quaisquer circunstâncias. o que acha deles. nem escrever tenho conseguido. vou ficar por aqui. Afinal. Por isso é que esta carta está tão besta. estou falando de mim. Isso será talvez conseqüência da mudança que se deu em meus meios de vida. desnorteado. pois quero saber se valem alguma coisa.

. em cartas. A verdade é que ela escreveu os poemas sem saber que os escrevia. Mas é longo. como você pode compreender. Mário. Desculpa ter escrito a mão. se bem que haja niuitíssima coisa que eu quero te falar (a respeito da Conferência. Bem. que eu acho que acabo te escrevendo sobre a Conferência.) Gostaria de saber o que você acha. Estou passando à máquina. sem saber que eram poemas. Mário. pois ela completou 17 anos apenas em janeiro. num delírio desgraçado. Um abraço do Fernando B. numa época em que me achava mergulhado em dúvidas terríveis e juvenis. E se assustou muito quando lhe disse que 66 67 sentia poesia neles. Vem-me uma vontade imensa de desabafar com você tudo o que ela me fez sentir. pensando seriamente em ingressar no rol dos homens sérios.ando por aqui. a respeito da influência que isso poderia exercer no meu destino como artista (?). (São os únicos que ela fez. Escrevo apenas para te comunicar que já estou. Estou te escrevendo rapidamente. que acabei de ler agora). mas esse pedaço de papel rabiscado foi somente para te participar o noivado. a você que tanto tem me animado e auxiliado.. Isso ainda demorará um pouco. Vou esperar ansiosamente sua opinião. e meus 19 incompletos não se impõem muito ainda. Me interessa muito. Outra coisa: terminei o bruto. 28 Julho 42 Meu caro Mário. isto é. Horizonte. Recebeu? Bom. Estamos aqui na maior ansiedade aguardando sua resposta à minha última carta. e pode esperar. despretensiosamente. ostentando galhardamente uma rosquinha de ouro num dos dedos da mão direita. desde poucos dias. Mas isso não interessa. Conte sempre com a amizade do Fernando 68 69 Página 37 . e desde já te agradeço muito.cartas-a-um-jovem-escritor Como eu já tive oportunidade de te contar. É com imenso prazer e alegria que te conto isso. não tenho o direito de tomar seu tempo e te chatear. um grande abraço para você.

ou de repente ou aos poucos fica outra coisa. Está claro que a primeira coisa que fiz foi virar a folha datilografada e ver de quem eram os versos. Não sei o que ela leu. si tiver paciência.. eu não imaginasse logo que os versos mandados eram de sua noiva! Bom: talvez pra não prejudicar. Digo isto sem o menor receio de fazer vocês dois sofrerem. muito hábil. de "à la manière de". Eu juro que você tem talento de escritor. só pra ter certeza da minha certeza. ou tanto poderá pôr uma bomba no Palácio da Liberdade como uma flor nos cabelos. o que poderei dizer sobre vinte versos! E principalmente sobre vinte versos gostosos! Não digo nada! Ou terei que dizer um tratado de psicologia criadora! Os versos de sua noiva não permitem dizer nada. Paulo. veja a dificuldade em que você me deixou: é que nem esse ranço de imita ção prova nada! Nem siquer posso dizer a ela que mude de rumo porque quem sabe ela vai dar a um rumo feito. "Aceitam tudo porque já não é mais hora de enxergar". fiquei danado com você. Provam que se trata de pessoa muito nova. Quando lhe escrevi espontaneamente e acreditei no seu valor que só faltava você justificar e só você pode justificar. com toda a rudeza. mas nada mais juro. mostrará. a sua coroação definitiva! É fácil dizer diante do gostoso incontestável destes versos: Continue.cartas-a-um-jovem-escritor S. Foi pelo ruim ou fraco que eu decidi. Porque ou ela continua mesmo. 70 Os poemas têm o mesmo ar sibilino de vários dos milhares de poetas e da corrente da poesia atual. Aliás. que se esforçaram por demais por ser discretos. não provam nem negam poesia.. Justo o que não interessa dizer. Mas eu não sou desses. Murilo Mendes e outros. si os epígonos ou os ecos.. e isso independerá totalmente do que eu disse. vendo neles um fraco ou ruim que não eram os da bestidade ou da desimportãncia. mulher de sua casa. eu me decidia diante de um volume inteiro. Diante dos vinte ou trinta versos da sua noiva eu só posso dizer: Continue. vocês dois me deixem que lhes diga que estes versos têm até ar depastiche. mas pelos outros. ela escreverá. porque tenho a convicção de que si sua noiva for de-fato poeta. Fernando."Esses pungas de rapazelhos diz-que não têm a menor piedade pela gente!" etc. publicará e será poeta Os versos de sua noiva. Depois me irritei. mãe de seus filhos. Prometem tudo e não prometem nada. Mas você julgava siquer imaginável que diante dos termos da sua carta. É certo que sua noiva lê e conhece bastante a poesia cnova do Brasil. ou pelo menos. nem eu deva analisar o ridículo sublime que vocês alcançaram: releia com sua noiva. a terceira estância das "Bodas Montevideanas". disse o diabo. Porque não diz nada. mesmo que eu ordene ela a nunca mais escrever versos. E si juro nem é tanto pelos seus contos milhores. E assim mesmo com muita reserva e discreção. Página 38 . poucos assim. Porque Fernando. 6-VIII-42 Fernando Juventude perversa. e muito inteligente. nascida de Augusto Frederico Schmidt. Mas. amor insaciável.

toda essa poesia desmintidora de vidas reais. A transferência era admissível. E aliás são mais estados-de-poesia que poemas. bruxulean te. de insatisfação. querendo amar o universo. os amigos que vieram por causa do professor Herskovsitz que veio me visitar também. sobre o amor. Os culpados são vocês. o que a gente está vivendo. Deus. mais do Página 39 . me lembrei de lhe escrever Agora são três horas da manhã e vou dormir. me assusta. Seja feliz. às 24 horas. contraditória com as vidas reais.é fatal. Vocês não zanguem com esta carta. si sua noivafor-de-fatopoeta. Mas porque sua noiva não escreve uns versos dizendo que gosta de você. Eu digo: continue. O que me consola nesta posição injusta em que vocês me colocaram é que.. que quer casar. ele se utilizava sempre de experiências que todos temos. sofrendo. Onde está a poesia? Toda poesia não será poema-de-circunstância? E porque nos poemas-de-circunstância (poemas de desejo) essa necessidade de tomar o elevador. é inegável que são. que almas desempenadas! Mas perco um dia todo. gozando na terra? Será possível"transferência" tamanha! Quando Vitor Hugo nos braços felizes do amor escrevia a "Tristesse DOlympio". Fiquei numa irritação tamanha que me foi impossível ir dormir na hora legítima. E quando saíram daqui. Que os versos são gostosos. não adianta nada eu desanimar A fatalidade sobrepujará o desânimo. Mais você que ela.. me deixa tímido. 71 Talvez esteja certo. tudo cheio. em parte porque a vida me atira aos limites extremos da intensidade. não sem razão. era mínima. que se irrita com a espera e até que chora de raiva. divindade total desta vida.. Toda essapoesiaprofunda e sibilina. as irritações. me assombra. os protocolos do dia. uma dor-de-dente. O que será? tenho curiosidade. E querendo. e ainda excitação sobrando. Fernando. Eu não digo mais sobre estes poemas. As contrariedades.. ansiosa por mistérios e valores eternos. esperança e. Fiquei contente de saber que você acabou o seu romance. como hoje. sem sim nem não. Não tenho pra onde me mexer na alma e no corpo. Será que sua noiva é capaz de escrever duas quadrinhas sobre a violeta. Si ela não continuar. não posso orientar. a culpa será dela. talvez nem isto seja possível e eu esteja sendo injusto. que ela seja tudo. arranjando papéis pra me registrar professor na Secretaria do Trabalho. um tal de "Frederico Paciência". Me vi de-repente de novo professorando História da Música no Conservatório daqui e já estou completamente perdido de paixão pelos alunos. estudando o que há de frágil e misturado nas grandes amizades da rapazice. Ou não será culpa: será simplesmente a verdade. Não tinha ainda lhe escrito em parte pela dificuldade desta carta bamba. Que ela lhe dê. estava tão excitado que ainda acabei um conto difícil. medo . muito moço pra amar o amor pelo amor. épor isto que esta carta vai já.cartas-a-um-jovem-escritor Não quero. Mas será possível que a poesia escrita desminta desse jeito. ou o sentimento da morte? Mas na mocidade. irpro vigésimo andar dos arranha-céus da imaginação?. Aliás. Fernando. sobre um maltrapilho. sublimidade. E que vocês nunca botem a culpa em mim. a perda do dia me arrasou.

P. Prova preocupação pelas coisas do sentimento intelectual. 1 Set. Antes de tudo mil desculpas por não ter respondido sua carta antes. ela estará absolutamente desamparada. Com o abraço do Mário de Andrade 72 73 B. porque não quero ser o culpado caso eu esteja enganado. Mas ser artista é outra coisa e se ela o é. E um pouco desumano. etc. O ela escrever versos é muito bom. 42 Meu caro Mário. porque você nos serviu extraordinariamente. Não pode calcular como lhe sou agradecido.só que agora você vai desculpar a maldade inconsciente que fizemos com você. nada mais detestável no mundo do que uma literata frustrada. Não é. que atrasei esta carta. que diabo. não depende de mais ninguém.que não a recebi. meu amigo. apertadíssimo por causa disso. dá margem a que se tenha espe74 rança. Pretendo ficar amadurecendo aquilo por muito Página 40 . Aquela história da influência da poesia brasileira moderna é verdade. meu velho Mário. o curso do C.que não fiquei satisfeito com ela. a gente na iminência de ser convocado. Quanto ao meu romance. Era daquilo que ela estava precisando. porque cerceou um pouco o otimismo natural de meu julgamento.R. pois. Justamente daquilo. que eu encontrara alguém que me servia. Mas valeu. etc. Ou sabonete.. Mário. Foi bom. Essa história de guerra. e mais do que nunca. E mais verdade ainda é o que você disse. Mas desde que recebi sua carta me deu uma grande vontade de conversar com você sobre o assunto. é você. Pois saiba que. afinal estou te chateando muito com essa história toda. por isso. Essa demora pode fazer você pensar duas coisas: 1O . A verdade é que aqueles 4 poemas por si só não podiam mesmo significar nada. mas ela tem de ficar entregue à própria sorte: não devo interferir. o completamento adequado de você. vai indo. Você se mostrou mais uma vez. e se depender de mim. capinando.H. aliás: nada mais justo do que você dizer que eu desejo que ela seja tudo. Estou passando a máquina. Eu desejo sim . Bem. Uma espécie de sabão. remendando. Mas eu não animo de maneira alguma.cartas-a-um-jovem-escritor que a glorificação absoluta do estupefaciente. concluindo. 2 . pelo qual você tão generosamente se interessou. Encontrei mesmo. e que. Aquela história de mandar os poemas serviu para me orientar e não a ela.O. como você disse. ao contrário. Que Deus os abençoe. esta sim. ela me agradou tremendamente. É que as coisas como sempre complicadas nos impedem de fazer alguma coisa aproveitável. Se eu insisto é porque conheço alguma coisa mais do que isso: uma novela que ela está fazendo. Você tem razão. te colocando naquela posição constrangedora.

se não queremos acabar loucos ou suicidas. porque já estão se findando os 18 anos de se fazer besteiras. A gente não se engana. homem por homem. Mário. Senti nas suas palavras a impressão cruel de ter de pronunciá-las um dia. desnorteada e pervertida. O corpo se adapta. um ponto mínimo que fosse de otimismo. Falei na sua conferência. e um grande abraço do sempre seu amigo Fernando 76 77 S. 9-X-42 Página 41 . Que vontade a minha de ter vivido na sua época em que havia para onde olhar. venceu. o que a gente esperava ontem.Los? O pior é aquilo que eu te disse: não há a mínima esperança. é preciso sufocar de uma vez a nossa vida anterior. você me desculpe. Porque a verdade é que é esse o nosso fim.cartas-a-um-jovem-escritor tempo. trata-se de um homem que não deve nada a si mesmo. em perdoar este desabafo. desculpe mais uma vez. Mário. Não há nenhuma possibilidade de conseguirmos sintonizar o nosso espírito com os acontecimentos. Que amargura desgraçada me deu Lendo aquilo. O que a gente pensava ontem. que minha geração. O culpado sou eu mesmo. aos bombardeios. voce realizou. Mas. é verdade. quando estiver se esbatendo. Quem é que agüenta? Mário. Encontrei nas suas palavras finais um pouco do fim que esperava para todos nós. viveria enfim. então sim. estudava. a tudo. Mas o espírito nunca. quando a gente sente tão bem que é chegado o fim. 75 está fadada à destruição total. Muito obrigado. já é diferente do que se tem de pensar e esperar hoje. que nada mais é possível fazer. à velocidade inconcebível dos aviões. Paulo. Não repare. É preciso resistir às horas de marcha. se queremos continuar a viver. não se consegue tempo suficiente para sofrer tudo o que está acontecendo. por causa da destinação tremenda que é a nossa. que devia esperar melhor momento para te escrever. Conto com sua amizade. de ouvir as últimas notícias. A vertigem brutal dos acontecimentos é muito culpada disso. a gente se esforçava. a luta sustentada à procura daquilo que afinal nunca se conseguiu achar. de que adianta viver hoje? Você tem cumprido os seus compromissos. continua sempre o bom amigo que se mostrou um dia disposto a me ajudar. E se há em você a sensaçao imperdoável de ter fracassado. No próprio ar se sente já que é preciso se adaptar urgentemente. Esta carta só segue porque é preciso que lhe escreva para saber que recebi a sua. Mário. escrevia. tempo para sofrer os homens que estão morrendo. E nós? Afinal. deixando de ler os jornais. o desequilíbrio se acentua. Se ainda restasse alguma esperança. Mário. já na memória da gente. E que você continua a me ajudar mais do que tudo. não significam nada os compromissos assumidos com nós mesmos um dia? Então a gente não se envergonharia de não poder cumpri. e que ela me agradou extraordinariamente. coisa por coisa. Ainda mais agora. Cada dia os choques são maiores.

como rendimento. tem de vir. quinta-colunismos!!! Puxa. Como fica difícil agora eu continuar falando. o nosso problema humano não consiste em esperar. Repito: é um problema de rendimento e não de recompensa.. noiva. na sua idade isso é natural: preocupações de guerra. pura máscara acovardada dessa coisa sublime que é o amor dos homens. Bom. sem que os meus pensamentos e sentimentos interfiram mostrando um caminho que eu sei certo. mas o que eu me pergunto é si se trata de colocar o problema do ser num sentido de esperança? Bom. isto não basta. Fernando. é uma espécie de egoísmo hediondo. O rendimento do ser não é só de dentro pra fora.. uma quente e gostosa esperança nos homens.PO. não quero agora de palanque me agarrar a uma palavra que você escreveu e afinal das contas não será o seu sentimento-pensamento completo. Não é você. De-fato: nunca vi carta mais feia. O nosso problema moral. Olha. eu tenho que render. como ficou horrível você dizer que "não épossível mais tera mínima esperança"!. Porque é quase impossível eu continuar apenas na tese. Tem vindo sempre e continuará vindo. eu tenho que mover o gesto do meu braço.. mais errada. ela há de vir. é tão comum esse jeito de pôr tudo na esperança.consiste mas emfaze fazer imediatamente. e tomando as formas perigosas do conselho. mas com efeito nos momentos íntimos de covardia indefinida. estudos que a gente não sabe si deve continuar no momento. está claro.. a palavra da minha boca. mas como inação. O que o torna angustioso em momentos como o atual é que esse rendimento tem de se condicionar não apenas à humanidade do ser. em minha conciência do meu ser e em meu amor humano. mas à atualidade humana do mundo.cartas-a-um-jovem-escritor Fernando Você terminava sua carta dizendo que só a mandava pra eu saber que você recebera a minha anterior. com essa recompensa coletiva que uns acham garan tidacomo eu... amando a sua noiva é rendimento. em ter esperança numa vida milhor . mobilizações. A vida milhor vem. como recompensa! Afinal das contas a esp erança principalmente no sentido de uma vida milhor que é o da sua carta. Eu não quero aconselhar você no que você tem afazer eu apenas afirmo que você tem que fazer. Des que você não confunda puerilmente "vida milhor" com felicidade total e perfeição. afinal das contas. Não é que essa vida milhor seja difícil ou mesmo"impossível" como você afirma em sua desistência de moço (?).. Fernando. o diabo . 78 79 Página 42 . escrevendo o seu romance com honestidade artística é rendimento. eu devo. de covardia que a gente recalca e não chegará jamais à conciência moral. mais que apenas moral. Como ser individual e como amante de humanidade. Porque isso é desfigurar por completo o problema do ser: você coloca o sentido da vida não como ação. Você fazendo o seu serviço militar é rendimento.tudo isso é natural que encha o peito de um moço sensível e inteligente e estoura em. Está claro que não épossível deixar de ter uma formidável. milhões fazem essa"imoralidade". C.R. Mas eu não tenho nada. essa vida milhor. outros improvável e outros impossível.

E agora já posso lhe dizer que me sinto mais nobre e mais viril. Será que me completarei? Meus gestos novos não estarão acaso errados?. não cruza os braços e nem por sombra lembra esse pior entre os verbos. mas de descaminho. não se contenta de milhoras transitórias. que os moços ainda estavam mais velhos que eu. Minha conferência é um desses casos amargos em que.. Percebi. assombrado em minha ingenuidade. eu costumo dizer.. Não me interessam semelhantes "esperanças". quando eu me colocava em favor dos outros. na minha con ciência esportiva da vida. Inesperadamente fiz um gol. o que lhe garanto é que jamais você terá uma"mocidade". Infelizmente não rendi como queria. e só colho gols de desistência e de desãnimo contra mim. apenas eu vivo você apaixonadamente. a meu favor. De não ter rendido. E afelicidade humana nisto tudo é que Fernando de Belo Horizonte. eu persevero na tese do rendimento condicionado à atualidade humana. Ejá te quero muito bem. Não podia . Não. com toda a honestidade. Si eu publiquei aquela confissão tão dolorosa. Horizonte. Eu é que me decidi. meu caro. não de fracasso. isto não há dúvida. Mas eu fiz um gol sim. A contagem dos pontos desta vez. Minha conferência que tanto impressionou você e impressionou vários. José de Campinas... Os "modernistas" do meu tempo aqui me advertiriam discretos que isso e messianismo".. não pensei nisso. o "escore". sua carta me brutalizou... foi dois a um. Mas isso é mil vezes milhor do que adquirir no fim da vida a conciência de não ter vivido. eu reconheci e julguei incompleta. Uma lavada. de conciência nítida e impiedosa.cartas-a-um-jovem-escritor Você tem medo da morte? Você terá pena de morrer na sua mocidade? Si tem pena. Do meio da multidão espirra a morte violenta. sim.. Nós estamos vivendo uma vida de morte. si tem medo. desistir. Parece que lhe estou dando uma lição de moral. Eu é que tenho (não esqueça sempre do "na medida das minhas possibilidades") reagido contra a minha recompensas e ando agindo no sentido de completar aquela vida de intelectual que. perdi o jogo. 29 de Outubro 42 Meu caro Mário. Teofrasto do Nordeste.. Porque eu também fiz um gol. é que decidi dos meus atos atuais. Porque só mesmo falando assim.. Mas eu não tenho medo das palavras. embora laureado de recompensas.. fez mal. de algo errado. foi na "esperança" de dar aos mais novos uma conciência mais determinante do momento. Mário de Andrade 80 81 B. Sei que. pode ser Maria de SãTo Luís. Me sinto. Recebi sua carta no dia em que completava Página 43 19 anos. "antes que chegue o tempo da velhice". na conferência. Por detrás de cada morro a morte erguendo o rabo espia a cidade. Feliz naquela exatidão da infelicidade que não se conforma. Estou sempre dentro do meu assunto. não se consola. digo vida.. feliz? Feliz. E com toda a paixzo movo os meus gestos.

não existe vida intelectual completa. envenena a gente.. mas que levará mais longe. Mário. Se você se sentia assim. como você achou pela minha carta . moços. Que a tremenda crise de espírito dos nossos dias não destruísse a necessidade dessa coisa. me inflamou. pelo sentimento de um homem que de repente se viu só. se não obteremos nenhum resultado? Porque... saber que aquele Mário de Andrade. como se ela trouxesse algo de decisivo para todos nós. Parece que você é que tem 19 anos. a gente acha que não.cartas-a-um-jovem-escritor ganhar melhor presente de aniversário. como se esse fosse o "rendimento" para os meus esforços. Eu não desejo nenhuma vida melhor. como erradamente conclui na conferência. sim naquele dia (hoje estou um pouquinho melhor. Mário. Não pode calcular a minha satisfação ao sentir seu entusiasmo de moço.. que diríamos nós? Se você achava que se realizou errado. nesses momentos. (As vezes. significam para nós a sua experiência. que talvez não poderemos sequer nos realizar? Eu não espero recompensa alguma. O que aconteceu. Muito mais do que significa para você a nossa vida e as nossas tentativas.. acabava tendo a consciência de ter se"desencaminhado".o mais áspero.que realmente era apenas um momento de fraqueza. os nossos momentos de desânimo e as nossas vitórias. foi fruto talvez disso tudo. quase de vencido. talvez. Qual o intelectual que tem a consciência honesta de se ter completado? Nenhum (a não ser o Cláudio de Souza. que você tanto repreendeu.. para acompanhála avidamente. Não que ela seja incompleta. Na verdade. você bem sabe: se você. os seus menores atos intelectuais. de ter tido um"alvo errado". é provocado. e sim de poder fazer alguma coisa. me detenho a pensar se não sou um velho. me contagiou de entusiasmo (e ao mesmo tempo de vergonha pela minha mocidade tão enrugada). o que será de nós? Me faltava esperança. o mais estreito. houve nela uma coisa que me agradou mais do que as outras: a notícia de que você está procurando completar sua vida intelectual. E de tudo. em outras condições que não as nossas. Eu não tenho medo da morte. Engraçado e que senti em mim uma espécie de compensação. Minha carta. com que ansiedade de participação quase. a quem a literatura brasileira devia tudo o que tinha de mais rico. que diríamos nós. E chega. Falemos de você. eu sei. E a tal história: de que adianta fazer. Você não imagina com que interesse.) Como nos dá alento saber que você ainda sente que tem gestos para seu braço esboçar. E como nos apunhala o temor de que você possa tomar como sendo o fim aquilo que por sua própria natureza é ainda um caminho . Esse pessimismo é profundamente contagioso. Mário. ainda tem palavras para sua boca dizer. autor de 82 83 "Macunaíma". Mais do que tudo na sua carta. de que adianta tentar.. a gente se debruça sobre sua vida. do Movimento Modernista. a sua arte..) Mas não esperança de dias melhores. Mário. que a gente lia sem entender direito Página 44 mas empolgado pela . abandonado pelos outros que ficaram no meio do caminho.) Mas aquele seu pessimismo quase doentio.

Ando num batente desgraçado. que encontrei num sebo aqui. Sabe por quê? Não é pretensão não. Até enterro desilude.B. deve ser a mesma coisa. Tudo aquilo que senti desabar fragorosamente.. não é bem crise: aquele estado de abatimento geral. para nós. de desilusão. sou um sujeito bem claro às vezes. Enfim. as influências. O livro vai indo. de desgosto de si mesmo. Na verdade o que eu sentia era que estava no Página 45 .. ele ainda está aí esbofeteando a face da ccmocidade.cartas-a-um-jovem-escritor melodia maravilhosa . agora. 84 85 N S. Enfim esse terrível"no dia seguinte". embora mais humano. Agora. Hoje. Com uma sede de vitória e perfeição. cheguei em casa de volta do cem itério. 6-XII-42 Fernando Sua carta chegou aqui quando eu estava em crise. porque se o fizesse naquele mesmo dia. Muito entusiasmado.. e que me deixou simplesmente abafado. Imagino que pra todos os artistas. na qual me mostra que você ainda continua ignorando o pior dos verbos. você é menos palpável. que você está vivendo. você estaria perdido: a resposta seria maior ainda do que está sendo. enterrado meu Pai. e a sua me causou um bem enorme. galhardamente.ele não morreu como os outros. ante sua carta. Isto é. e foi bom. Minha carta te brutalizou. Paulo. Hte. com um ardor que nós. Bem. moços é que devíamos ter. Só hoje pude lhe escrever respondendo. mas você me pareceu então muito mais à nossa altura. Já estava muito fatigado de sofrer pra que o sofrimento me empolgasse e me tirasse o sentido normal da vida. aliás pra toda gente. Até logo e um abraço do Fernando R. de quando a gente acaba uma coisa. eu tenho a impressão que você. como você sabe. Gonçalves Dias. Foi a coisa mais. aquele que é a própria Eternidade. (E quis a sorte que eu contasse com a amizade e o auxílio de vocês dois. que é perfeição por si só.) É por isso que. Acabei de ler os seus contos do"Primeiro Andar". Só um homem encontrei que me desse essa impressão de eu estar vivendo antecipadamente a minha própria vida: Octavio de Faria.. você é que não sabe. vi levantar-se de novo agora.. Não posso esquecer do momento em que. Mário. os defeitos à vista. é como um símbolo (desculpe) de nossa vida mesma. na eternização da obra de arte. 1458 . pode ser também que essas idéias sejam apenas a influência de Gide. às vezes. as qualidades. cujo"La Porte Étroite" acabei de ler ontem. que eram como que o filão que você iria mais tarde explorar. sim: mais desilusória desse mundo. busca e acabará encontrando.. nas últimas páginas da conferência.. como ele.. Tive muito melhor impressão do que eu esperava.

terminando o grande esforço de composição do Café. me dá um malestar danado. nas lágrimas. gentes. Gostei muito de você gostar do Otávio de Faria. Aliás poucas vezes uma cria çao minha tem me desgostado tão desilusória e hesitantemente como esta. 86 À Mas me botei trabalhando noutras coisas. si a vida der. perdi a data exata. Sei jogar fora com facilidade quando acho ruim o que faço. Acho que vou meter a mão noutro conto. Mas terminei. me'rmãozinho e dê duro pra ver o que sai. comece outro. creio que a oitava ou nona redação de um conto que anda atravessado na minha vida desde creio que 1924. Tenho sempre essa mesma sensação de abatimento quando acabo um trabalho e principalmente publico um livro. Queria continuar na "festa" do sofrimento. Resolvi dormir milhor sobre a coisa e ainda estou dormindo. Também andei mexendo noutro. uma angústia que chega a ser física. terminei a composição de dois livros.. um de ensaios e outro de crônicas leves. Mande me contar como vai o seu romance. Dezenove anos. Mas é mês de muita atividade obrigatória e tenho que ir no Rio. Mas desta vez não pude me convencer de jogar fora nada. Estou numa curiosidade vasta. Trabalhe muito. Está muito pau isso. Que coisa fantástica ter dezenove anos! Com um abraço do Mário Página 46 . um caso de poço bem fortezinho. Eu tenho enorme admiração por ele e considero o romance dele a coisa mais intensa e mais séria da nossa novelística. Pois estava assim. Mas cada vez que lembro dela. talvezfiquepra janeiro. no mexe-mexe do enterro.cartas-a-um-jovem-escritor dia seguinte de um fato extra-quotidiano e que tudo estava continuando no seu terra-à-terra normal. Mas também é trabalho que jáfiz duas redações diferentes e ainda não me agrada suficientemente. Como caso. e não havia mais nada. Si não prestar.. papéis. Foi horrível a desilusão que senti. este mês. tudo já publicado em jornais e revistas. e é constante.

quer passar apenas por um bom burguês. Que a coisa é duríssima. pois. 30 de Dezembro de 1942 Meu caro Mário. etc. ou já está lá. Gostei muito dele pessoalmente e o admiro muito. é ir trabalhando. se deixar vencer pela vida social. É possível? Se não for. por exemplo. Página 47 . Enquanto isso. por exemplo. Mesmo porque vou poder passar aí só uns três ou quatro dias. não é? É o mal de todos os mineiros. de modo que prefiro deixar para falar nisso em ocasião oportuna.P.. O Abgar Renault esteve aqui e fez uma conferência sobre Tagore. de modo que esta se deixa ver a todo momento como um artifício. me prende aqui pelo menos até março. seria ótimo uma carta sua me dizendo qual a melhor época para eu ir. Guilhermino. Será mesmo? Enfim. O diabo é que o sujeito acaba ficando burguês mesmo. Você se dá com ele? É pena um sujeito como ele. Bem. como disse. sua atividade atual. vamos ao favor que eu queria de você. tudo se arranja. não se constranja.cartas-a-um-jovem-escritor 87 Belo Horizonte. a minha vontade de saber como anda o seu trabalho sobre Portinari. Isso me interessa muito. Enfim. com a graça de Deus e dos céus. confessa que procura esconder o mais possível a sua condição de escritor.. podendo ser um grande artista e se perdendo assim. Cyro dos Anjos. Alphonsus. parece que você é que tem 19 anos. para evitar amolações. quando. Não pode calcular.. se fosse possível: me mandar o tal conto que anda te chateando desde 1924. se não levar pau. ou já foi. no máximo uma semana. Tenho medo de me ter prendido a uma orientação muito preestabelecida no que concerne à técnica. Ser muito passivo. E eu que ia te pedir que me dissesse o que anda fazendo. te peço um grande favor. O que você disse a respeito de sua atual atividade me deixou entusiasmado com você e envergonhado comigo: é como digo. seus planos. burguesa. mal de que pretendo de qualquer maneira fugir: se perder em outras atividades. sairei aspirante. eu leria o conto e lhe mandava imediatamente de volta.. mas descolando uma licença médica. e eu não nasci. Todos aqui são assim.R.. Mas o problema é muito mais sério do que parece . mas estou empenhado firmemente em reduzi-lo ao essencial.O. política. Preciso de uma coragem desgraçada. não ter coragem suficiente para passar o pé em tudo.. Mas pode ser constrangedor para você.tanto mais que o C. mais do que você pode pensar. Não sei se o publico. esses da velha guarda vão todos ficando assim. Bem. Nem queira saber como tenho interesse em lê-lo. Só mesmo os que nasceram para aquilo. Ou outra coisa qualquer que você tenha feito ultimamente. você iria ao Rio. Tenho esperança que depois de pronto eu consiga que você passe os olhos nele para dar sua opinião. Bem. O meu livro vai indo. Peguei no bicho de novo depois de pronto e estou cortando todo supérfluo. Recebi sua carta e ela me entusiasmou de tal maneira que estou disposto a dar um pulo a São Paulo para te conhecerpessoalmente. O caso é saber se você estará mesmo aí.

que só a mim interessam. qualquer coisa que sou eu próprio. você há de compreender tudo e perdoar: você parece ter 19 anos. Nunca vi inconsciência tamanha.. qualquer coisa que está acordando agora.. Procurei retardar a resposta à sua carta. Nem queira saber que drama tem sido isso para mim. É que não percebia que estava adormecendo qualquer coisa em mim. pudor. facilidade. pensando que assim poderia passar sem lhe chatear como das outras vezes. Esta desgraçada. Nada pior para um indivíduo do que o dia em que percebe que não há compreensão possível. E isso não pode. É inútil. eu topo mesmo. Agora. tão facilmente moldável. ou se perde mesmo. E minha obra. se for necessário. por diletantismo? Isso para mim será pior do que a morte. Mas então é preciso mesmo mandar tudo à merda e tocar pra frente. Mas é necessário? E até que ponto é preciso reagir? Será preciso sacrificar tudo? Tenho atravessado uma crise tremenda.. Mário. Mário. tão cego de entus iasmo. como agora. estou emaranhado demais. uma espécie de vergonha. Mas sacrificar os outros. nem queira saber. de conciliar tudo tão facilmente. abandonar tudo e todos. como consegui pensar que havia possibilidade de ser de outro modo. Porque isso de sacrificar amor. que diabo. ter filhos. Mário. como se a gente não fosse mesmo um ser maldito desde o nascimento. Estarei indo pelo mesmo caminho? Será que conseguirei reagir a tempo. Mário. não pode acontecer de maneira nenhuma. fugir daqui para poder se agüentar? Sinto perfeitamente que se continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles.e literatura mesmo. tudo que acontecer será apenas sofrimento. Como consegui me enganar por tanto tempo. estou disposto. E lá vou eu.. lá vou eu. estava até admirado de ser tão dócil. e no fim.. um bom emprego. que isso é quimera. tudo enfim.. criar galinhas. Acabo desabafando mesmo. e que ele será sempre como uma região amaldiçoada onde ninguém consegue penetrar. com minhas preocupações. É o caminho de todos nós se aqui ficamos: casar. horas vagas! É o cúmulo. Mas afinal. Mário. quanto antes! Porque se eu caso para depois resolver a questão (e a questão é quase toda essa. Ou o sujeito foge terra aqui é 88 89 daqui (como fez o Carlos Drummond e recentemente o Oswaldo Alves). romper com tudo e todos. Cheguei a um ponto em que sinto que é preciso tomar alguma decisão. será sacrificada com isso? Eu estava tão adormecido. que não via nada disso. Um abraço do Fernando 90 91 Página 48 .cartas-a-um-jovem-escritor camaradas que podiam ter feito grandes coisas. ou me agüentar a-pesar de tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas. constrangimento para com você. Mário... E essa angústia toda que me tem assaltado nesse fim de ano. Coragem eu tenho. como você deve compreender) depois é que não resolvo mesmo. condição social . achava que tudo nadava em rosas.

acredite. E são todas essas qualidades delicadas que prejudicam bastante os mineiros. a timidez. é muito subtil. Há uma certa grandeza nisso. Em que até os plutocratas confiam. Talvez seja um pouco bom confiar no acaso do futuro. e justo pela maneira intelectual mineira. são uns "políticos" de primeira ordem. por exemplo. Muita gente detesta isso. sobretudo. Falta ingenuidade a vocês.cartas-a-um-jovem-escritor S. É que há neles uma espécie de primarismo (estou falando em geral. um ar de safadeza. diz-que os mais hábeis políticos do Brasil. Vocês desconfiam demais. nunca vêm à frente. sem favor: eu adoro os mineiros. Talvez eu "ame" mais os nordestinos que os mineiros. é claro) que os torna por assim dizer mais leais. de semvergonhice. a inteligência mais completada do Brasil. mas vocês são de todos os brasileiros. não é o provincianismo. que eu amo. puxa como V é mineiro cem por cento. tudo transparece franco. Terei compreendido? Uma palavra errada poderá ferir muito a sua alma delicada. Deixe que eu lhe diga uma vez por todas. a falta de brilho exterior. mas ter excesso de conciência. uma clarividência que não é mais dinâmica mas céptica e tendendo para a inatividade e o esconderijo. No entanto seria a maior das falsidades dizer que vocês têm realizado uma criação intelectual maior que a dos outros brasileiros em igualdade de situação produtiva. Aliás é possível que V tenha escrito a sua última carta num desses momentos de angústia grande em que a gente precisa mesmo recorrer a algum amigo sinãb estoura. Passado o momento da chamada"Escola Mineira". em referênda à moral da civilização cristã. é o exército do Pard. Mas disso tudo deriva uma consciência que não é mais exatamente lógica mas excessiva. o pudor. brutal e toma. 23-1-43 Fernando Acabo de reler a sua carta e fiquei da mesma forma que da primeira vez: numa impossibilidade muito grande de responder. E eu não sei. Eu compreendo. a esperteza. Os nordestinos também são espertos e os paraenses. e devido não tem dúvida à maneira da inteligência deles. Mas quando os do norte fazem esperteza e sao espertos. Não éterconciência que prejudica a vocês. a ironia. a que mais harmoniosamente reúne todas as qualidades e caracteres da Inteligência. Paulista não:paulista é pesadão. Vocês. Veja um caso bastante divertido: é sabido que os mineiros. Não há dúvida que pra mim vocês sejam. Primeiro falemos dos mineiros. vocês se limitam sempre a ir na cauda do cordão. a maneira de sensibilidade dos mineiros. mas continua terrivelmente provinciana. São Paulo pode ser maior que Belo Horizonte. sempre em geral. Imagino que agora V já estará mais calmo embora sempre sofrendo muito as suas indecisões. Paulo. Não tem dúvida que os mineiros são as inteligências mais sensíveis e também mais completadas do Brasil. Eu gosto muito de certas qualidades de vocês. Durante o regime do PR. O assunto quando se refere a V se torna de tal forma grave e ao mesmo tempo tão evasivo que tenho medo de qualquer palavra minha e mesmo compreensão. os únicos que eliminaram o anjo-daguarda. Esse caso de esperteza.P foi assim e enquanto os paulistas Página 49 . a qualidade intelectual derivada disso.

talvez nunca Minas tenha atravessado um período detamanhapasmaceira de engrandecimento interno como de 1930 pra cá. políticos semvergonhas. si continua ininterruptamente espesinhado no que chamaríamos dignidade moral. sempre nobre. dos moços como você. mas também prefere não se amolar. sobre o valor pessoal. mineiros moços (e aliás de vários moços paulistas também) está muito assim. vocês exigem saber o que vão encontrar no fundo obscuro do túnel. Povo inerme. o ato que pode fazer. nem Página 50 . continua a menina-dos-olhos do governo. enquanto os outros estados todos ficavam sob o jugo ditatorial das"interventorias". e por isso sofrem muito. O que fazer com esses mineiros incomodativos? Era preciso um jeito de eliminá-los. Essa é a conversão acomodatícia que o diferença a ele e aos mais. está conosco. Mas como você é moço e ainda não está "acomodado" na vida. naquele estado dinâmico do sofrimento que exige perpetrar um gesto. Minas se engrandecia 92 93 k É verdade que a riqueza do café foi tamanha que ainda permitiu que muita coisa ficasse aqui dentro pra engrandecimento da terra.o que também é um jeito depensarpor dentro: Minas que se arranje! Enquanto o governo do país é obrigado a cuidar de e proteger todos os outros estados. sei que duvida até do seu crachá lustroso. internamente. Ele já sofre bem. Não é conciêncía: é excesso de con ciência. Assim. Minas duvida. Foi criado esse privilégio ridículo da "presidência". além do seu ritmo de engrandecimento interno mais normal devido à sua riqueza. vocês olham isso e enxergam. V se exaspera e se desespera. E o governo não se amola com Minas. de Walt Disney. O próprio São Paulo odiado do governo com razão e sem razão. Você exige de si mesmo o gesto. eu vejo o reflexo disto tudo na sua carta. Mas você e vários outros moços d'aí. mas uma porcentagem infinitamente maior se escoava na compra do gostinho de mandar. em que se vê um túnel confuso e aquele como que caixão de defunto se bota andando e se anula túnel a dentro? A inteligência de vocês.politiquentos internamente. Mas veio a inteligência diabólica de Getúlio Vargas.ambos são a mesma coisa. capitalistas infamemente cínicos. E sofre muito. Mas que sustos dá constantemente no governo! Epreocupações! Minas? Minas brilha com o crachá da presidência napeitaria. Você se lembra em "Fantasia". Fernando. imaginavam cartas-a-um-jovem-escritor mandar e mandavam. numa espécie de volúpia branda. aquela passagem da Fuga de Bach. Além da dúvida. E tão interrogativo o fazer! e então é um Ciro dos Anjos que não faz como é um politicão que não faz . mas ao mesmo tempo a qualidade mineira da sua inteligência enche V de perguntas e não sabe o gesto. mas que quando desprovida de ingenuidade nos imobiliza em caixão de defunto. pelas mil e uma exigências da sua economia interna que reflete imediatamente sobre a do Brasil. Minas que se governe! . E vocês não têm certeza que seja uma qualquer espécie de dia. Um João Alphonsus sofre bem. uma coisa moralmente horrível que me envergonha. na sua "prosápia".

cartas-a-um-jovem-escritor
mesmo o caixão se bota andando. O crachá da inteligência relumia
napeitaria enganada. Mas é a estagnação. De muitos moços mineiros e
paulistas tenho ouvido ultimamente os julgamentos, as análises mais
implacavelmente clarividentes sobre o confusionismo do momento que passa
e as incertezas pessimistas sobre o futuro próximo. O que me assombra e
me entristece muito, éque toda essa clarividência sádica é um pretexto
para não fazer.
94 95
E é preciso antes de mais nada,fazer Fernando, épreciso fazer.
Eu creio que você vive justamente num elemento estagnado em que o seu
dever é fazer. Você está arripiado de perguntas inúteis. "Coragem eu
tenho, sifor necessário. Mas é necessário?";"Cheguei a um ponto em que
sinto que épreciso tomar alguma decisão. Porque si eu caso para depois
resolver a questão, depois é que não resolvo mesmo";"Porque isso de
sacrificar amor, felicidade, tudo enfim, eu topo mesmo, estou disposto.
Mas sacrificar os outros?";"Nada pior para um indivíduo do que o dia em
que percebe que não há compreensão possível, isso é quimera, e que ele
será sempre como uma regzao amaldiçoada onde ninguém consegue penetrar.
E minha obra será sacrificada com isso?". Tomei a paciência de copiar
estas frases da carta de V pra que você as guarde consigo. Foram
escritas aos dezenove anos! em 1943!!! Em 1843 os Álvares-de-Azevedo do
tempo escreviam essas mesmas frases. E você sabe como elas saíram
vividas, verdadeiras de dentro de você. E você. Mas eu sei como elas
saíram igualmente vividas e sofridas dos Álvares-de-Azevedo maiores e
menores de todos os tempos. Mas você me interromperá com todíssima
razão:"Mas eu não tenho nada com Álvares de Azevedo e si coincido com
ele, ele que se fornique! É o meu sofrimento, é o meu caso que eu tenho
que resolver". E você tem razão, Fernando. O que eu quis foi apenas dar
mais humanidade ao seu egoísmo. Digo mesmo: dar mais egoísmo, dar mais
profundidade ao seu sofrimento e ao seu egoísmo. Porque você ainda não é
o"egoísta" no sentido em que Milton, Goethe, Dante, Camões oforam, no
sentido em que o artista, o homem tem de ser egoísta. Pra se realizar.
Você pensa"nos outros", hesita em"sacrificar os outros", e
esta
aparência de humanidade é que me parece deshumana. Mesquinhamente
humana. Apoucadamente humana, como si a sua humanidade de você se
resumisse às quatro ou cinco pessoas que você toca com a mão!
Eu não sei, Fernando, eu não estou aconselhando nada, V tem de
resolver sozinho. Mas haverá mesmo o que resolver! Tudo não estará indo
certo? E neste caso o seu sofrimento e as suas dúvidas não derivam nem
das circunstâncias da sua vida, nem da sua mocidade ávida do sofrer, mas
das próprias realidades tão confusas da vida atual do homem. Não será
talvez preferível e mais profundamente egoísta você não sacrificar nada,
nem facilidades, nem amor, nem gozo, nem inimigos, nem incompreensões,
mas viver tudo isso junto, em tudo procurando apurar o que é você e
buscando se superar em você? Pra que imaginar si do outro lado do túnel
faz dia ou faz noite? Só tem um jeito de saber: é ir até lá. O perigo no
é encontrar noite la, mas encontrar a noite e imaginar que é o dia.
Talvez o milhor segredo da dignidade de ser homem é ter a força de
dizer: "perdi". Porque, Fernando, nós perdemos. Nós perdemos sempre... O
indivíduo humano será sempre essa"região amaldiçoada" em que não é
Página 51

cartas-a-um-jovem-escritor
exatamente que ninguém consiga penetrar, mas em que toda explora ção é
imperfeita, incompleta. E por isso deformadora. Até para o indivíduo
mesmo. É o signo da maldição.
Dê mesmo um pulo até São Paulo, Fernando, eu gostava muito de
conversar mais com você, ler suas coisas com você aqui, lhe mostrar as
minhas. Não me animo a lhe mandar o conto que durou vinte anos quase se
fazendo. Não desejo que ele seja lido em separado por causa da
delicadeza do assunto. Aliás não tenho atualmente duplicatas dos meus
contos e tenho medo muito do nosso correio, embora não deva me queixar
muito dele. Só lhe peço uma coisa: me prevenir mais
96 97
ou menos com uma semana de antecedência, da sua vinda. Vivo sempre de
horas marcadas e assim poderei reservar muitas horas para a nossa
convivência.
Este mês já escrevi dois contos mas estão apenas emprimeira
redação, como sempre, muito fracos. Talvez possa tirar alguma coisa
deles, mas não sei, nem quis reler. Apenas sei que um deles, epor certo
o milhor, terá que ser totalmente modificado, por enquanto não passa de
um rosário de anedotas que, si caracterizam a psicologia de uma
professorinha velha que tem uma crise de sexo, ainda não chegam a
aprofundá-la. O outro conto, é um puro efeito de contraste, não vale
nada si não conseguir escrever em estilo muito bom, que o sustente. Crio
um ambiente de mistério e malestar que deve durar por todo o conto, mas
que no último parágrafo se resolve
numa
piada
humorística,
voluntariamente larvar. Um caso de virtuosidade pura. Mas eu careço de
me desfatigar ás vezes, nestes virtuosísmos gratuitos das coisas mais
sérias que me abalam muito. E típico: completado o"Café", me meti em
contos cômicos e nada doloridos. É sensível que fui levado a isso pela
precisão de me desafagar.
Bem, chega por hoje e estou escrevendo
estefinalzinhojá
de-tarde. A carta foi escrita de-manhã. Até breve. Não conto ir no Rio
tão cedo. Sifor, avisarei você pra nossas viagens não se desencontrarem.
Com o abraço do
Mário

98
B. Horizonte, 11 de Março de 1943
Meu caro Mário,
Há bem uns oito ou dez dias que não apareço por aqui na
Secretaria: o Secretário viajou, de modo que a coisa andou meio frouxa
por esses dias. Minha noiva está em Caxambu descansando, para onde não
fui também por causa do C.P.O.R., se eu faltasse um dia seria suspenso
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cartas-a-um-jovem-escritor
cinco. Acontece que faltei esse um dia e fui suspenso os cinco. Em vez
de ir para lá, me enfurnei em casa e descasquei a novela com tamanha
fúria que ela está acabada. Para celebrar, o Carnaval mesmo serviu e
agora quem está acabado sou eu: aqui estou curtindo a ressaca.
Não quis fazer outra coisa senão trabalhar na novela esses dias,
por isso não lhe escrevi há mais tempo respondendo sua carta, de que
aliás gostei muito. Peço desculpas pela demora. Mandei um cartão rápido
no último dia que estive aqui, não sei se você recebeu.
Hoje, antes de sair de casa, reli sua carta pela 3a vez ou 4a
vez. Muito me entristeço por não poder pelo menos por ora dar um pulinho
aí. Seria fabuloso para mim te conhecer de perto. Além do mais você nem
queira saber o que isso significaria em orientação e ajuda. Estou louco
para que você passe os olhos na novela. Ela me deixou um sentimento
muito desagradável: certo carinho meio desdenhoso e superior, por causa
da tremenda decepção que tive - pois não é ainda o que eu esperava de
mim. Tenho a impressão que não consigo tocar mais no fundo de mim mesmo.
Até aquilo que é pura experiência pessoal sai assim
99

com ar de virtuosismo, de coisa inventada e besta. Já viu só? Ela ficou
bem menor do que eu esperava, graças a Deus, e espero encurtá-la mais
(pretendo agora passá-la a máquina, definitivo) umas sessenta páginas
datilografadas. Depois guardo na gaveta para chocar, ver se vale alguma
coisa mais tarde. Não quero publicar não. Se eu for aí, levoa para que
ela fique com você. Não me atrevo a enviá-la, pois sei o quanto o seu
tempo é curto. Eu tenho vontade de passar uma semana aí, de modo que o
C.P.O.R. dando brecha eu bato as asas no mesmo dia.
Com respeito à minha última carta, você tem razão, Mário:
escrevi-a num momento de angústia em que precisava desabafar. E como
você diz,"continuo mais calmo, embora sempre sofrendo muito as minhas
indecisões". (Aliás, tirei um peso de cima de mim depois que terminei a
novela. Estou mais leve, mais descansado. Vai fazer um ano que estava
mexendo com ela! Consegui dormir umas noites deliciosamente tranqüilas.)
Acredito que seja o excesso de consciência que me prejudica; mas isso
decorre de minha natureza mesmo e não do fato de eu ser"mineiro cem por
cento", como diz você. Você acha que nós mineiros desconfiamos demais.
Que falta ingenuidade em nós. Pode ser, mas em mim é o contrário: há
ingenuidade demais... E é por causa desse excesso de ingenuidade (e não
de consciência) que me preocupo muito com meu futuro: estou querendo
ingenuamente enxergar o que há do outro lado do túnel. Não que me
exaspere contra a minha condição de mineiro. Mas é que sou moço, quero
fazer, e não há de ser porque os outros não fazem que eu vou deixar de
fazer.
O que há de mais melancólico em tudo isso é que a gente sabe que
"a mocidade vai acabar", e chegará um dia em que todo esse entusiasmo
nos parecerá pueril - então a gente se acomoda na vida, passando a
sofrer bem, aprende a curtir o sofrimento interiormente, a aproveitá-lo
como força criadora. Eu sei que isso é bom, é uma evolução, esse
Página 53

" Nunca verdade alguma me encheu de tanta melancolia. mas nunca se volta sobre o caminho andado para constatar que apenas perdeu. uma coisa engraçada: falamos de Cyro dos Anjos. Mário.você leu"O Lodo das Ruas". Porque a gente sabe. Pois seu Mário. não? Pois bem. Me fale nele quando me escrever. E depois. E de repente esbarra com uma verdade tão dolorosamente grande: nós perdemos sempre. recebi ontem uma carta do Octavio de Faria que me fala nos romances dele. Além disso. Mas é tão melancólico saber que nosso espírito vai amadurecer. E amargo demais. Disso tudo.. diz ele que já escreveu para mais de dois volumes e meio e ainda falta muito. faz com que a gente de 19 anos se sinta às vezes um velho. Nós perdemos sempre.enfim. prosseguindo a série Tragédia Burguesa. Você sabe bem que em mim nunca haverá estagnação. Página 54 . eu aproveito com melancolia as suas palavras mais impressionantes de crua verdade . Fernando. Naquele mesmo clima do Amanuense Belmiro. se continuar no mesmo pé. Parece que vai ser um belo romance.de tudo que você me tem dito foi o que me tocou:"Talvez o milhor segredo da dignidade de ser homem é ter força de dizer: perdi. acho que ele está fazendo ou vai fazer o que há de mais importante em nossa literatura. mais que Graciliano e quem sabe mais tarde mais mesmo que Machado de Assis. A propósito daquele caso dos mineiros. pois os personagens se entrosam. Pois acontece que ele me ofereceu outro dia para ler as 40 páginas de seu novo romance. e diz que não pode escrever um sem escrever o outro. definitivo. pelo que me ajudou. tão sofrido é: trata-se da confissão do Armando com o Padre Luiz . Que homem extraordinário. enquanto a mocidade ao mesmo tempo grita em nós que está errado. mas melhor ainda... nós perdemos. Mário: tenho uma admiração desgraçada por ele. assim escrita. puxa! Está escrevendo dois romances ao mesmo tempo. a sua opinião.cartas-a-um-jovem-escritor amadurecimento do espírito. desejava muito saber se você também acha importante assim (Nossa Senhora. Por falar em romance. defeitos .. E acontece que o segundo tomou um desenvolvimento tal que está ameaçando abrir um novo ciclo.. Na verdade eu quis saber se do outro lado do túnel era dia ou noite. tenho por ele grande amizade. fiquei besta com o que li: está muito bem escrito.. Você já fez algum estudo sobre ele? Tinha vontade de saber. me animou (assim como você) quando eu era ainda um menino. Porque. amadurecido. o conflito nasce do fato de o espírito mineiro já nascer maduro. Mário. Onde é que ele arranjou cabeça para caber tanta coisa dentro? Tem medo de ficar louco: eu tenho medo é de que ele não tenha tempo de fazer tudo o que tem para fazer e é capaz. eu até o aproveitei para exemplo do marasmo em que anda a literatura por aqui. Mas é verdade também que eu vou até lá. que vem escrevendo 100 101 há muito tempo e só produziu 40 páginas até hoje. pela Tragédia Burguesa. me sufocou tanto a alma como essa. quatro páginas!) a obra dele.

falo:"hoje vou trabalhar um pouco na novela e quando acabar escrevo para o Mário.R. ontem "Um dos Quatro Grandes. vejo bem que na verdade não nos afastamos. sim? Por falar em Portinari. que eu gostaria." E quando acabo já são duas. E o retrato do Chateaubriand também. estou caindo de sono. Desde que vim daí. Os trabalhos que vi nem se fale. Deus te guarde de minhas cartas. te dê muita saúde e caso contrário dinheiro para poder pagar o médico: pode ficar certo que se eu for suspenso outra vez no C. Mas já estou bom. Formatura de C. festas pro Presidente. aquela série bíblica me deixou grogue. muito camarada. três da manhã.P.R. uma porção de coisas. E você? Foi bem de Rio? Soube que não chegou a ver a exposição do Segall. Estou pensando em ir ver a do Portinari. Mário. E não só os livros a falta que estou sentindo do nosso bom tempinho aí.. Toda noite chego em casa. Fiquei de arranjar uma pedra-sabão para ele. acabava aparecendo mesmo um vastíssimo Mário de Andrade metido Página 55 . mas estou arranjando. gostei muito dele. de tanto esperar. Jurei a mim mesmo não passar de hoje e escrever a você. eu iria até mesmo a São Paulo te buscar. me tratou muito bem. apesar do meu silêncio nesse tempo todo desde que voltei. do chope no Franciscano. 197S. você vai? Podíamos não analisar e ir juntos. amanhã vou mandar encadernar o"Amar. passei por uma série de complicações até hoje. por exemplo. 24-25 de Maio de 1943 Querido Mário. eu e o Hélio sentadinhos esperando até que.O. aí estarei firme para um papinho. almocei com ele. um grande abraço e a amizade do Fernando 103 Belo Horizonte. quatro páginas em tempo de guerra não é sopa não. Até lá. Agora mesmo. acabei doente.P. em"Gente". Engraçado. é difícil.O. estava lendo "O Baile das Quatro Artes".gostei demais dele. Bom sujeito. Sempre assim. Mário: eu estava pensando agora. Editora Record.cartas-a-um-jovem-escritor 102 Bom. e me responda. 104 encontrei o "Aleijadinho" numa livraria. que é que você acha? Uns dois dias. Veja se topa. Verbo Intransitivo" que está desmanchando.

Me deixou meio atordoado a primeira leitura. o ambiente em que você estará lendo esta carta." (Ia falar que tive saudade dela. adivinhe. Ele chegou ontem do Rio. Estou copiando em definitivo para te mandar.R. o Hélio está com medo de te mandar os poemas. palavra.mais ainda. um sorriso maior ainda. me deu saudade. que aquilo tudo é uma porcaria. a sua tão acolhedora simpatia para comigo. me enriqueci muito mentalmente. estou lendo o "Baile das Quatro Artes". telefonei para ela que ainda devia estar acordada e falei -"Você vai ficar boba com uma coisa que aconteceu. Diz que ficou burro para sempre. inclusive uma Santa Clara de 3 metros para a capela da Pampulha. já falei com ele que Santa não pode ser nua não. Depois de longa demora recebi o registrado com os livros. Me comoveu a sua solidariedade de companheiro. sem uma vírgula. Você não imagina a curiosidade com que fui recebido pela Helena no Rio. no"Café". Queria saber isso e mais aquilo de você. sem faltar o mínimo detalhe. Gostei muito de"O Artista e o Artesão". meu velho Mário. E isso é mais do que eu podia esperar. Ele confunde aquilo com cultura. E a cabeça dela. e eu também estou querendo saber. Nunca pensei que fosse possível a uma pessoa exprimir integralmente o meu pensamento a respeito de uma coisa. Está sem saber como. Falar nisso.) Ela então disse: "Ah. o Mário chegou aqui. Sabe que saí oficial do C. Mário. ele pediu. mais uns quinze dias e acabo. confunde tudo! Bem. Muito obrigado por mais essa camaradagem." Nem falei em saudade nenhuma. o que eu penso. Não demora muito e estarei aí de novo. até sobre a cor daquele seu sobretudo comprido. queria conversar com ele sobre o"Café" e me esqueci. vai largar de escrever de uma vez. para poder assentar um juízo 105 definitivo. Eu sabia sim que você iria me receber de braços abertos. com a graça de Deus. Mas me comoveu. Sinceramente.PO. Minha novela vai indo bem. cultura com erudição. Se não acabar meu livro antes estou desgraçado. sua generosa paciência ante minha curiosidade em te conhecer . ganhei certa confiança em mim que não tinha. largando as coisas importantes que tinha de fazer para conversar com a gente. só isso.cartas-a-um-jovem-escritor num sobretudo enorme. Gostei dessa sua casa. esculpida pelo José Pedrosa? Mande dizer que tal achou. vou ficando por aqui.senti que de algum modo você acredita em mim.. ali por meia-noite.? Pois saí. um bom amigo.. conforme disse. A conversa foi toda sobre você. É aquilo. O Drummond esteve aqui. nem queira calcular. foi bom te encontrar: conheci um amigo. o estágio de três meses em Três Corações. Por falar em poeta. Tenho pensado muito.. obrigado. fazendo a crítica de "Fantasia" do Walt Disney. sabia você um bom sujeito. Agora. todos os dias. Você nem imagina como fiquei te querendo bem . Foi bem boa para mim esta viagem. Falei que faz bem e ele ficou safado.. Inda há pouco. Vontade de ler outra vez. já sei. discuti com Murilo Rubião sobre aquela história de virtuosidade. Uma hora e dez já. Página 56 . cheio de encomendas. como você. no meu esforço para produzir alguma coisa.

recibos. 3-6-43 Mário. Sempre seu o Fernando Página 57 . que estou impressionado com essa história de emagrecer 12 quilos. Soube que você anda pitimbado (Alfonsinho me disse). Ando com vontade de bater um papo com você. se estiver com ele. Vamos. para te buscar. não?) Estou com vontade de ir. Use daquela franqueza de pôr a gente pra fora a hora que estiver cansado senão o dia amanhece. o Pedrosa está nervosinho aqui me olhando. e se puder mande notícias. Quem sabe você já ia mesmo? irmos à exposição de 106 107 B. Como é? Resolveu alguma coisa a respeito do Portinari? (Deve ter recebido minha carta. Se você não se importar. Surgiu uma porção de problemas. Eu queria que você soubesse de verdade o quanto foi bom encontrar você. Um grande e saudoso abraço do sempre amigo Fernando P. incondicionalmente mesmo.: Me responda sobre aquela idéia de Portinari. levarei eu mesmo. dinheiro e tudo e mandar para ele. você morre de sono e ainda não saímos. Bem. que achei excelente o artigo sobre o Cyro. vou reunir os números não vendidos. Um grande abraço para você. Estou esperando o livro da Oneida Alvarenga. saudoso de meu tempo aí. ponha-me para fora. Como ele na certa vai te procurar. diga que recebi a carta dela e que vou responder logo. conforme for. tinha muito interesse. diga que hoje mesmo escreverei a ela. À Gilda eu envio um abraço. Quando estiver com ela dê-lhe lembranças. faça força! Eu dou um pulo aí. o quanto você é importante para mim. meu velho. Fala com o Antonio Candido. Mário. é lógico. estou vendo se arranjo a colaboração para Clima. Bom. A novela está acabando e me acabando também. que diabo. vou arrematar. O Pedrosa está aqui na Secretaria todo afobado: vai embarcar para o Rio e de lá para aí. se não há um jeito dele me enviar as críticas anteriores para eu ver. Estou louco para saber sua opinião. que diabo é isso? Ainda é aquela encrenca do fígado e adjacências? Desejo que voce fique bom depressa. Diga a ela que todo mundo gostou de "Rosa Pasmada". Lembranças à Gilda. mas com você.cartas-a-um-jovem-escritor tenho de dormir e a carta já vai longa.H. pedi que esperasse um pouquinho para eu bater na máquina este bilhete. tenho trabalhado pra burro todo dia.S. A prova disso é que estou pensando em voltar aí: logo que a novela estiver pronta. É que eu estou vendo se recebo o pagamento dos exemplares de Clima que consegui vender.

que concedi também. que 108 109 S. me pediu só mais uma semana. Estou saindo da Secretaria e resolvi te mandar este cartão. Outra.. Amanhã te escrevo mais longamente. A mim me parece que fragiliza o globo ocular sem adiantar muito como expressão pessoal. é coisa que já se sustenta por si. Apenas. No sábado parto pra chacra do Tio Pio e desta vez quero ver si nem penso. Recebi sua carta e não respondi ainda é porque estava brigando com Deus e todo mundo aqui para dar uma fugida a São Paulo e estar com você pessoalmente. Uma amiga me fez jurar pôr em experiência dois meses de tratamento severo e dieta legítima. Com Rio e coisas-de-Rio piorei muito.prefiro o globo ocular liso.. 16-VI-43 Querido Fernando. Mas senão essa é que não vai hoje. Estou seriamente preocupado com o Pedrosa. Um grande abraço do Fernando Gostei muito da sua carta. Recebi um convite dos alunos (aqueles que estiveram aqui) da E. Você me fala em nos encontrarmos no Rio na exposição Portinari. as minhas Santas Mulheres hão-de me botar forte. muito bem construída. Eu não sei não. No Giro dos 110 Anjos há talvez uma certa preocupação realista inquietando um bocado o silêncio do material. 20 dias de descanso total. A cabeça não é promessa não. não pensei bem no caso e agora não tenho tempo pra pensar. Eu tenho mesmo que escrever a monografia Página 58 . Andei ruim mesmo. Estou na angústia com a exposição do Portinari. Mas é apenas um problema que eu queria perguntar a ele. A coisa principiou no 15 de maio e com um mês já estou muito milhor outra vez. deixa para falar amanhã. rica de planos. pelo menos do fígado. uma síntese bem escultórica. fiquei palito e verde. O resto vai indo. não sei me exprimir direito. Mas creio que as Mulheres. pra fazer uma conferência na exposição. Ah! me esqueci de falar a ele aqui: será que ele faz muita questão mesmo de acusar a menina dos olhos? Fez isso na Helena e no amanuense Belmiro. Daqui a pouco chega a criada com o " janta tdna mesa" mas vou principiar lhe escrevendo assim mesmo. de Belas Artes. Paulo. irmão pequeno. não tenho opinião formada sobre. De resto todo o busto da Helena está de uma simplicidade muito nobre. de choro. importante e bela eforte de verdade. Até agora não consegui nada. Outra pediu mais um mês pra ela e eu não pude recusar. A cabeça de Helena está aqui. finalmente. acho que pode ir longe. de linhas.cartas-a-um-jovem-escritor Mário. Mas falar nisso é chato.

Ah. Eu sinto é verdade que. Você não me falou que impressão teve do Otávio de Faria. Fernando. aliás. a não ser por obrigação ou caso absolutamente excepcional. E apenas isso. Não falo como realiza ção que isso ele não me satisfaça. Antes de mais nada preciso me "desintoxicar". lá por 15 de julho posso pensar portinarices e a exposição dele se fecha a 19 seguinte. não sei nada e nem a você dou o direito de me perguntar nunca"Em que ficou o projeto do Vademecum". duas conferências na Fac. foi o convite que recebi pra ir a Belo Horizonte. ele foi um como que completamento de uma etapa. Aliás sem muita dor de coração.. Está claro que.Só recomeço a carta às 22 e 30. uns amigos estiveram aqui. me vêm dores-de-cabeça tão horríveis que fico desesperado. Se trata apenas de um projeto muito vago. mas o que eu ia falando é que bem mais interessante que a ida ao Rio. Página 59 . te mando naquela parte. O "Café" não me satisfaz. E si você contar vai ser esse sofrimento chato de todo dia a gente escutar"E o Vademecum como vai?". ele me completa também. eu deveria falar. funcionalidade da arte. nada científico mas cheio da minha verdade pessoal. Você não imagina. eu sei pelas Santas Mulheres que um descanso total agora vai me fazer um bem prodigioso. basta ler duas horas seguidas.. Mas. Tanto que até os rodapés musicais da Folha da Manhã já bati malemal uns cinco pra deixar aqui. cada vez mais difícil. Em todo caso. coisas assim. Bem. mas antes de mais nada não se esqueça que o"Café" não me satisfaz. De maneira que só na volta. da obra-de-arte. Guarde pra você o que estou lhe contando. mas eu sinto. mas eu sei que ele seria um completamento de mim só si eu morresse agora. Mas neste caso o que me obrigou a recusar foi a impossibilidade de falar o que. que se chamaria "Vademecum para os Artistas de boa-intenção". o artista. pra um 111 Centro. Sim. uma espécie de divagações sobre estética. mas queria fazer isso só quando voltasse das férias. estou disposto a não falar mais em público na minha vida. pra moços e estudantes. de grande violência moral. Até logo . mas sem palavra-feia. nesse sentido. Mas é que não me agüento mais. Fernando. já vêm mais raramente agora. no instante. do artista. nem ele nem nenhuma obra minha. Vou recusar a conferência. porque embora amigo íntimo do Portinari epessoalmente o preferindo de muito ao Segall. de Direito. arte.cartas-a-um-jovem-escritor "Portinari" pra Argentina. como está difícíla minha vida. e agora? o que fazer? Me lembrei de um livro de combate. tem havido briguetas e intrigas de rivalidade entre os dois e não quero me sujar nessas baixuras de interesseiros ou simplesmente sentimentais. Coisas assim. drástico: ou o artista é honesto ou é filho da puta. diz o médico. só imaginado em desordem. coisa que não parece muito provável. de que nada está escrito. cada vez mais me sinto na obrigação de ou falar o que devo ou me calar duma vez. Não é questão de fazer conferência que. A janta tá na mesa. Você me falou que desejava ler outra vez o "Café" pra ter opinão mais livre. não sei como vai ser. quero dizer: no sentido de que eu não posso ficar nele. Você tem razão. já. nunca. Seria um livro como ode Tolstoi. escrever duas horas.

cartas-a-um-jovem-escritor Pergunto porque na sua carta anterior você me perguntava sobre ele e não preciso lhe responderporquejá conversamos aqui sobre. mas têm os seus. mesmo que esteja disposto a não gostar nem publicar Fiquei gostando muito dele e ele me inquieta com os seusproblemasferozes. do seu sofrimento pessoal. sobretudo que vulcão caótico vocês têm por dentro. não. de esperanças. Que vocês terão que fazer. Efico tão inquieto. medo por todos os lados. Nada impede uma carta falando de Helena. A literatura é uma coisa grande mas a literatura é de passagem. Ficou verdade e ficou simples. nem por esperança. puxa! Na sua idade eu era nada. Não épor sentimento. E ficou tudo tão notável! Estou sorrindo por causa da beleza perigosa que me nasceu do. do que. E creio que é só. A sua presença aqui veio apagar essas necessidades e tudo ficou muito mais nobremente humano. é para distinguir o carácter da amizade que nos liga a mim com 50 Página 60 . e o mesmo se dará com você. Você precisava de mim. Fernando. Achei vocês dois diabolicamente inteligentes. com tanto medo por vocês.. Ficamos libertos e gratuitos. Agora você poderá nem perguntar mais nada. do que você promete. Mas foi muito bom você vir aqui. A não ser que virem aquele palavrão que ficou atrás. Ah. dominadora. É por.. Está claro. se entrevivem sem interesses imediatos mais que essa glória de entreviver por coincidência. Não pensa que estoufalando palavras grandes. os deste tempo a mais. que é tão necessário como perguntar E havia sempre e também aquele meu egoísmo de não querer perder tempo com gente inaproveitável. nem eu perguntar mais nada. nada impede uma carta contando que vou pra fazenda. meu Deus! não é só do meu sentimento. nada mudou e tudo mudou completamente. eu me agradarei de quando você gostar do que eu faço. que era superior. sim. E eu precisava de você. que nasceu de mim todo. Como deve ser difícil ser moço neste tempo que vivemos! Aqui sim. reconheço: deve ser muito mais difícil do que já ser da minha idade... E agora nós ficamos mais humanos. eu respondendo coisas. E com a vitalidade intelectual de vocês dois.. tudo se engrandeceu. eu imagino que. Agora somos dois estraçalhados humanos que sabem que se querem bem. E probleminhas tão outros. Um futuro de que vocês serão responsáveis. E que eu sei que agora eu dava a vida por você. Os que eu tinha vocês têm. Mas repare como tudo se quotidianizou doutra forma. se estimam. das suas cartas.. Olha. Insista com ele pra que me mande os versos. Você continuará perguntando coisas. o contacto teve essa magia. nem si quer pelo seu futuro em que creio. Havia como que uma necessidade em nós. ficarei menos completo quando você não gostar. que eu não tive. são das mais simples. pra dar o resultado da minha experiência. pra responder. é certo que eu gostava muito de você. tem o Hélio. nem só do meu pensamento. A presença. de perguntar coisas pra saber. ficou tão despido de inquietações. e no meu modo de ver muito desencaminhadora do 112 113 sentimento sublime da amizade.

sem demagogia nem exagero. voltei para as cartas. recusa e cai morto. mas tive medo de você ainda não ter voltado. enquanto os corais degu erra se amontoam por detrás do muro do cortiço. Confesso que fiquei comovido. (Esta máquina está desgraçada de mim. Mesmo porque si não houvesse a comcidência. E eu ele. se detém. Soubera que eu tinha recebido uma carta sua. De noite. Si você dissesse o mesmo. dos quais um parte assim que entrega o moribundo às mulheres. li todas elas desde a primeira até a última que tanto me purificou. não pode mais falar. Fernando.. Com o abraço mais perfeito do Mário Lembrança pra Helena. Nisto vem a visita-da-saúde e o moribundo repara no moço que ficou parado ali. Chegamos à conclusão de que você é o melhor sujeito do mundo. passei para os seus poemas. antes de receber sua carta dizendo que ia para a fazenda do tio Pio. triste. Bem entendido: como o moço revolucionário que foi arriscar a vida de novo por alguma coisa maior que o indivíduo. Página 61 . tem aquela cena muda em que chega o chefe revolucionário malferido e morre.H. mas no 30 ato do"Café". Este se irrita. Eu já tentara me comunicar com você várias vezes. A carta aumenta a saudade e um pouco da apreensão pela sua saúde. Etienne me telefonou ontem dizendo que recebeu uma carta sua. fomos sentar num banco da Praça da Liberdade e ficamos conversando sobre você até quase de manhã. vivendo. Saímos. que eu digo. sentindo todo o bem que já quero a você me melancolizando. saudoso. Você não se lembra bem. que eu hoje dava a vida por você. Dessas cartas que enchem a vida da gente. E assim. que nem eu mesmo sei. cheguei a pensar que era vontade de escrever. coitado. dizendo: Besta! vá viver! Hoje o que eu desejo simplesmente.) Falei na sua carta: você nem queira saber a alegria que ela me trouxe. mas o outro fica. Eu pensava mesmo de lá dar um pulo até aí. decerto. Foi quando o Hélio brotou quase milagrosamente à porta do meu quarto naquela hora da madrugada. lá para uma hora. enxuga uma lágrima. não deve ter sido tão grande como a minha ao falar com você. Vem trazido por dois companheiros moços.cartas-a-um-jovem-escritor anos e você com 20. me dilatando a alma. Recusava o seu adeus inútil. 20-7-43 Querido Mário. O moço vai pra partir. quer dar um beijo de adeus nos cabelos do chefe. além. Senti muito ter ido ao Rio sem você. eu ficava danado como o chefe revolucionário. Hélio e Rubião. li você de novo.. queria saber de mim as novidades. não seríamos amigos. Por maior que ela tenha sido. acima do que você promete em arte é saber você. Faz um gesto enérgico. mandando que o rapaz siga o seu destino de lutar. Fiz ele ler a carta pelo telefone mesmo e fiquei sabendo por ela a sua alegria ao receber meu telefonema. alegre. moço. volta. que fiquei de escrever a 114 115 B. e tive de repente desejo de contar a você uma porção de coisas de minha vida.

. convencional. logo que o ler te falarei o que achei.. 197S. Estou com vontade de te mandar. e o certo ser o dos dois contos que falei (eles e a novela são dois caminhos Página 62 . você não acha? Ninguém aqui conhece Portinari. mas você ainda não tinha chegado. Com isso esperemos que melhore. Então no dia seguinte quis agradecer a você por telefone. sabe quem é. Por falar em achar. todo mundo ler para comprar mais livros. de modo que só fazendo um artigo de divulgação para o pessoal daqui.. 116 117 livraria daqui. já que tirei uma cópia para ficar com você. Estou querendo escrever alguma coisa sobre ele para Mensagem (esta máquina. cujo diretor acha que o jornal deve ter um cunho popular. A novela é uma.) mas sou imensamente burro para escrever sobre pintura. mas sempre que penso em te mandar alguma coisa me lembro logo dessa sua vida agitada aí. nós todos fazemos votos. inclusive poetas de rádio. Acabei. Também tenho tido minhas dores de cabeça.. a não ser que é um pintor que pinta negros de mãos e pés enormes. Será mesmo? Por isso sua opinião é importante."Gente". Aliás. Imbecil. Não é isso propriamente. diga como vai passando. escrevi dois. contrafeita.. Editora Record. e estou sentindo que não fiz nada. Em todo caso. Minha novela há muito tempo está pronta para te mandar. É muito camarada comigo. Acho que nunca saberei te contar o imenso bem que sua amizade me faz. Não sei se o Etienne conseguirá dobrá-lo. por falar em Mensagem. etc. torcida e profundamente literária.. mas não o fiz até agora por causa de seu estado de saúde. dessa sua dor de cabeça que me deixa muito apreensivo (se puder me escrever. e você me promete não deixar ela aumentar sua dor de cabeça. deve ser insuportável!). A verdade é que saíram alguns burros respeitáveis da direção e o Etienne entrou de secretário. e dele também. Quando afinal consegui te encontrar não agradeci nada. A turma toda comprou. Deixei uma cópia com o Carlos Drummond. tenho a impressão de que você está achando que o jornal vai entrar numa nova fase. Você não pode continuar assim. Escuta aqui: por que você não experimenta levar à sério um médico por uns bons tempos? Há de haver alguma causa.cartas-a-um-jovem-escritor e eu vim dormir inteiramente pacificado e sem solidão mais. apenas uma coisa mal desenvolvida. O pior é que tenho medo de haver entrado por um caminho errado. Mas ela continua sendo apoiada financeiramente por uma livraria daqui. mas ca a meu modo.. ela vai. Andei tentando o conto de novo. encontrei um monte de "Namoros com a Medicina" numa --* Um dos Quatro Grandes. Gostei muito da exposição do Portinari. no Rio. para ser simpatizada pelo público. esta máquina. Ele hoje vai me entregar o artigo do Roger Bastide.. Te interessa? Acho que ainda deve haver por lá alguns. toda mediocridade possível..

De modo que eu.. aquilo tudo que você já sabe: "é o cúmulo o noivo da filha da gente ir ao Rio para ver exposiçao de pintura! Malandragem!" É assim mesmo. pensar. Parei um pouco. não bajulei. mais ou menos naquela ocasião em que estive aí. Graças a Deus estamos eu e ela conseguindo atravessar isso tudo com dignidade. respeitabilíssima e honrada família mineira considera literatura boemia. sem nenhuma importância. e você a tome como tal. as intrigas ainda estavam sendo feitas. que tanto me alivia. Engraçado é que de certo modo já esperava uma coisa assim. ele sai.. todo mundo contra mim. Você achará que a solução para tudo isso é casar. que não tem o que fazer.nada de pessoal. eu sem saber direito o que se passava. eu ser criticado. Não leve ela a sério. preocupações afinal passageiras. Mas não precisa xingar. deram agora para ficar contra mim. mas naquela época tudo ainda estava acontecendo. que no princípio não conhecia as divinas vantagens da hipocrisia. e então eu sou farrista. O Hélio queria ficar noivo. é lógico. Mas a tradicional. E eu não tenho conseguido calma para me concentrar. Mas a coisa andou feia. velho Mário.e vai por aí afora. Pois é. cheguei a ter vontade de mandar tudo à merda e ir embora de uma vez. Pensei em te pedir algum conselho. tomei posição. o que seria melhor. e que nos aproxima como amigos. e que positivamente não interessam. Gostei muito da idéia do livro sobre sua posição estética. 118 119 Mas. embora a guerra seja dura. só mesmo um sujeito como eu. Esta carta era exclusivamente para responder a sua. embora me sinta observado nos meus menores gestos. Mas a verdade é que tenho 18 anos e um medo desgraçado de casar (aqui entre nós). unicamente. Agora tudo já serenou um pouco. ela está do lado de cá. li o que escrevi. não estou Página 63 . e fiquei com uma vergonha imensa de estar te contando. nós nos entendendo. Eu me recolho. os bajuladores entram em cena. fiquei contra o que achava errado. me chateando. mas que ele não me veja nunca: eu entro. caluniando cada vez mais por verem que o terreno é propício.. coisa de vagabundo . Qualquer hora o tempo fecha e eu arrumo as malas. que atribulam a vida da gente quando essa vida é mesquinha. Helena sempre do meu lado. por que estou dizendo tudo isso a você? Para aumentar sua dor de cabeça? Talvez apenas para satisfazer esse desejo de te contar tudo o que se passa comigo. censurado. Bom. a ponto de ficar louca com a oposição que me fazem. me abstive de lamber os pés de ninguém como os outros. tudo saindo ao contrário. Helena não. pode crer.cartas-a-um-jovem-escritor completamente opostos). Mário. e tem razão. Daí haver atritos. para voce ver. fazendo suas. Ou então tudo se resolve bem. namorador. mas também não posso chegar ao cúmulo de elogiar aquilo que acho errado. ele vai. eu não vou. me atrapalhando. eu falei: fica. leviano e literato. Minha vida cada vez mais agitada. que o Hélio disse que te contou.. estamos os dois mais ou menos entrincheirados. como o caso da Folha de Minas. Minha posição de futuro genro do Governador é a mais insustentável possível . fico quieto no meu canto.

depois Página 64 de ter feito . Mas uma vez te peço que não Leve minhas complicações a sério. Como então as doenças desapareceram pelo menos por enquanto? Ainda bem. Conte a ela a minha alegria e peça que me mande notícias. a gente pode acompanhar muita coisa de sua vida literária justamente pela despretensãO das crônicas. não se chatear). Gostaria de passar o nosso aniversário junto. Fiquei contente por ter conversado com você pelo telefone. vida melhor. Não recebi o Clima não. eu dou um jeito de arranjar uma licença Lá. Mande dizer como você vai passando. Não sei se você concorda com isso. muito vagas.cartas-a-um-jovem-escritor perguntando como vai o Vademecum não. Estou fazendo uma bruta força para passar uns dias aí antes do estágio. Livraria Martins Editora. Ultimamente andava sem notícias suas. mas vale sim. Gostei de saber que a Gilda ficou noiva. Estou arranjando para ser em Juiz de Fora em vez de Três CoraçõeS. teria se extraviado? Escrevi para a Gilda. mas acho que consegui. mas no caso de concordar. pois tenho muita vontade de ir aí te dar um abraço. o meu e o seu. Pode-se ficar sabendo o que voce pensa de certas coisas que pelos outros livros a gente não sabia. salvo as que recebi por intermédio do Oscar Mendes. 16 de Agosto de 1943 Querido Mário. mais alegre. se Deus quiser. eu que o diga. por três meses. Helena também te manda um abraço. ficou muito contente de eu ter conversado com você e de você ter perguntado por ela. Enfim.* Ficou realmente muito bonito e estou gostando até onde já li (metade mais ou menos). Seu amigo de sempre Fernando 120 121 Belo Horizonte. Você pensa que um livro assim não vale nada. Hoje. o gênero ajuda. encontrei o livro que você me mandou. J. pois fiquei sabendo que em outubro possivelmente estarei no estágio do Exército. se é que pode haver vida melhor num quartel de cavalaria. --* "FiLhos da Candinha". naquela condição (só ler quando puder. ao chegar em casa. com certeza em Três Corações ou Juiz de Fora. vou nem que seja fugido. noivado é uma coisa muito engraçada e divertida. de Fora é melhor. ela não recebeu. com todo o meu reconhecimento e amizade. tem grande significação. Tenho grande estima por ela. viu? Estou muito chateado. Vou escrever de novo. mais perto daqui e do Rio. tive grande alegria. Vou ver se mando a novela e os contos. O estágio é no princípio de setembro. e quando é que fica folgado de novo este ano. Por enquanto me contento em mandá-lo por escrito. Dê-lhe um abraço e lembranças minhas. É difícil conseguir essa troca.

Sua poesia estudada assim de plano traçado. mas acho ainda um pouco dialético. Segue junto o artigo do Roger Bastide que eu devia ter te mandado há mais tempo e não mandei porque queria escrever a você. Você então gostou de meu conto? Estou muito ansioso para saber detalhes. Sei. o Mário! Às vezes.cartas-a-um-jovem-escritor cálculos enormes de quanto tempo a gente levava de Três Corações até São Paulo. que exige muito coração. e todo dia pergunta: Fernando. e de sua ajuda. deixar-se penetrar por eles. O Hélio anda por aqui. isso é que era preciso. não olhar meio de fora não. Acabou vencendo a imensa vontade que tenho de saber sua opinião. Não tem escrito muito não. E o do Murilo.. se encharcar mais. Mas eu não quero pensar em publicar sem saber se você acha que devo. sacudimos a cabeça e falamos: Mas que sujeito bom. naquele seu jeitão de sempre. isso sim. Mas vai assim mesmo. que não tenho agora à mão. Me interessa muito porque são contos. concordamos que ninguém compreende ainda a sua poesia como merece. esmagar os versos nas mãos e sentir o seu cheiro como a um torrão de terra. não vai. talvez. Caso ele não queira ou então não possa editar ainda este ano. Bastide. me prende. Vi que não era vantagem. por causa disso gostei. Mas nesse artigo do Roger Bastide já se sente qualquer coisa mais. depois de muito pensar. acho bonito. meio frio. não sei. Sentir mais. e se for possível uma ligaçãozinha com o comandante. Foi o que o Álvaro Lins fez. Conversei muito com Henriqueta Lisboa outro dia sobre você. a gente faz um orçamento na Gráfica dos Tribunais e arranja para ele lançar. Também pode ser que eu esteja errado. não sei por quê. e o que o Roger Bastide fez também um pouquinho. Era preciso penetrar mais ainda na poesia do que ele penetrou. Muito agitado como de hábito. você acha que devo mandar meus poemas ao Mário? Depois ficamos pensando em você. Mando hoje outro. Por isso mando a você e se você achar que devo publicar. e depois da novela comecei a escrevê-los não sei por quê. Estava com medo de complicar mais ainda a sua vida. Juiz de Fora é só um pouco mais longe. Pois acho que era preciso deixar de muita teoria e muita análise. que já começa 122 123 a ser compreendida. orientado. tem cartaz com aquela editora. E chega de falar nisso que não estou escrevendo para te chatear. vê para mim se o Martins publica este ano.. é o seguinte que eu queria te dizer: o Aníbal Machado prometeu entregar a novela ao José Olympio. vida ali é mato. Vou te mandar minha novela. mergulhar nos poemas. Quanto ao negócio do Martins. me atrasa. pregar um rótulo nela. caso publique. de que muito gostei. quando pretendiam fichá-la. e não há dúvida que ele é um bom padrinho para isso. e Página 65 . Por isso digo que ainda não compreenderam até agora sua poesia. poderei ir aí em outubro como tanto desejava. Talvez foi esse artigo do R. e por esses dias o terceiro. para passarmos nosso aniversário juntos."Eunice e as Flores Amarelas"? Eu gosto daquilo. não sei. Por isso quero saber sua opinião. tão cheia de coisas. pois perco oportunidade. quando vamos a algum lugar. sem a menor simpatia humana. mas agora sinto. que não devo passar desse ano. caso você não tenha outros planos. Mas acho que ainda está para surgir quem descreverá aquilo que sua poesia faz sentir.

Quando resolvemos ir embora.. Te deixávamos em casa. Mas resolvemos o problema te levando na garupa da motocicleta do irmão dele. Página 66 e bem mais .. Se puder. líricos e melancólicos.. como você pretende quando vier aqui.. feliz. que é bonito. coitadinha. Imagine aquilo". É todo dia. hoje ele não dorme.. Mas é mentira. saíamos. Outro dia. pensando em você. tudo. Aí vai "A Marca". olhando aquilo tudo. sentindo uma alegria muito grande de viver. só se for sem nenhum constrangimento de sua parte. o Mário!" 124 125 O Hélio acha graça.. para variar. Na Praça tem um banco perto do lago. escreva. De vez em quando nós íamos te procurar. você ficou morando na casa do Hélio. Você nem queira saber a vida sossegada que nós três temos levado na casa do Hélio. coisas ruins. Um saudoso abraço do Fernando Mais umas páginas e termino"Filhos da Candinha". dávamos uma volta de barco na represa. (Hélio tem uma casa lá). a gente fica lá conversando a noite toda. na garupa. no meio da rua. Deixa a gente leve. Há ainda umas coisas que consertarei mais tarde. bestas. que você dois iam é levar o diabo na primeira curva. felicidades aí nesse São Paulo frio. e você ia embora. imagine se o Mário estivesse aqui agora. o Hélio dirigindo. Mário. e lá ia você com suas pernas enormes. o Hélio arremedando seu jeitão de falar doce e nós sentimos saudades. Fernando B. pensamos assim: Hélio. E nós ficamos sorrindo como dois bobos. Ando com saudades suas. diz que eu escrevo para você todo dia. Mário. Quando você ler. onde. ele deve estar rondando por aí. Um grande abraço para voce. Telegrafarei ou telefonarei avisando."Imagine se o Mário estivesse aqui. Boa noite. sabe o que eu vou fazer agora? Senti vontade de procurar o Hélio. O diabo era o transporte. voltávamos para a cidade e íamos fazer inveja no Etienne. sozinho. na Pampulha. Quanto à história da Editora do Martins. um bate na perna do outro:"Mas é um bom sujeito. e eu morrendo de rir. pensamos em te levar na Pampulha. que a casa do Hélio é meio longe do ponto de ônibus. F. 13-8-43 Querido Mário. etc. Entrego o seu livro a ele. se Deus quiser. Acho que vou mesmo aí no fim do mês. sem falar. Delicioso importante do que eu esperava. Toda tarde você vinha para a cidade tomar um chope com a gente no Trianon. Imagine isso. Escreva dizendo se concorda. Bom. Mas estou esquecendo que escrito a mão sou ilegível.cartas-a-um-jovem-escritor isso sempre. Depois saíamos pela noite. Não se chateie com isso. São onze horas.H. ainda irei este mês. marca (sem trocadilho) tudo. sem ninguém para te chatear.

O Malaquias não tem dúvida. Paulo e ir engulir a gota que não sei que gosto tem. Talvez psicologicamente um pouco exagerado. desista do "nosso" aniversário. Além disso. que não sobrará nenhuma hora bem nossa. Também por questão de gente muita. pra ler. eu preciso reler isso pra megarantirmais numa opinião assentada. como não é de ninguém. uma coisa de primeira ordem. Você já estará la. um milhão de coisinhas pra fazer. Bem. Me diverti muito com a minha viagem de motocicleta. leríamos juntos a novela. Também por isso lhe escrevo. e comentando e conversando. Pretendo sair de S. do conto e da carta. Resolvi que ele não vai existir. 24-VIII-43 S. E nada de conferência nem entrevista em cima do jornal. Mas não prejudica ninguém. Mas não publique já. Opinião. A sensação que eu tenho.cartas-a-um-jovem-escritor 126 127 S. Hélio e você Mário Querido Fernando Acabo de ler duma assentada o conto de Astolfo Malaquias e a novela. e a gente só não se é. Fernando. eu já falhei as aulas da manhã de hoje pra poder ler o seu livro e estou por aqui de trabalho. que por mais assentada. o que acho de hesitante nele. Passo. Paulo. pois dia 4 de setembro vou ao Rio. Quanto a outubro. Te vos abraço. Helena. o correio foi fiel. não modificará muito o sentimento de agora. antes de eu lhe escrever. antes do seu estágio militar. mas as vontades de ir a Minas estão amargando demais e creio que não vou esperar a próxima Semana Santa. Mas não tinha o menor gosto de encontrar você la. A vida entre amigos só. aliás. tenho tanta gente pra ver e negócio a tratar. porque as dispersões são tantas. de medos e até de tristezas."O galo" não tenho tempo pra comentar. Olha. Irei nas férias si Deus quiser. Paulo. é que você acaba de escrever uma coisa muito grande. Creio que dá coisa de 1a ordem e quero comentar antes. Neste momento sim. Só porque preciso mesmo lhefalar. não consegui me interessar muito. abandonando a vida. Desta eu saí completamente estupefato e desnortiado. da novela.Contos. E só pra acusar o recebi mento. Si puder vir venha logo. Mas vamos falar: I. Mas é pouco. E o resultado sempre insatisfatório da festinha. 21-VIII-43 Querido Fernando Estou em aula! mas dei uma tarefinha aos alunos só pra poder lhe escrever. muito riso e pouco siso. Assim pode ficar sossegado. findo o estágio. Não demoro muito nao. Desses contos que servem galhardamente pra que o livro tenha 290 páginas e a revista se varie nos Página 67 . atravessada de sustos. ontem. serve? Fiquei muito assanhado com a possibilidade de você vir agora a São Paulo. é o tipo do momento do "não analisa não": como eu queria que você estivesse aqui comigo. Por isso hoje só quero lhe falar sintético. Sua carta estava uma delícia. entre-só com as visagens. Mas me dê uns 15 dias.

de inútil. com todas as suas liberdades. pra você se libertar desse livro. si falar isso é um elogio. ela já ultrapassou o tamanho que imaginava lhe dar E preciso pensar mais no assunto. cacófatos. Você volta. Fernando. que não me entristece. bastante amarga pra impedir essa piada. II-A Novela: A novela. O seu entrecho é novo (e isto é que importa). mas de hedonístico. Mal mas adiante. nem sei bem. Só tem um jeito: publicar imediatamente já. principalmente o Nordeste e o Rio. vital. no estado atônito em que estou. e não o mistério pelo mistério) e de malestar. mas é por ignorância. Página 68 . já se escreveu adiante de Machado de Assis. na vida da vida. inútil não posso dizer. Você está escrevendo tão bem como Machado de Assis! 128 129 Não estou exagerando o meu sentimento. estupendo pra um estouro do herói. pra lhe mandar. mas é certo que não senti nenhum ranço de academismo. e o estouro existe. e tanto mais um estilo de tamanha pureza e simplicidade como o que você conseguiu. não é a primeira vez que é tratado. embates desagradáveis de sílabas."Seu Fulano. A psicologia de quem está contando a novela é bastante abatida. Uma coisa que não é novidade (inexplicável. de tristeza impregnan te. nem com "sense of humour". eu não posso desenvolver este assunto nesta carta. Já li isso. veja bem. essa coisada toda que os modernos afetam desprezar. que é gravíssimo. de força de verdade. É uma coisa admirável a sua linguagem e o seu estilo. Mas eu sinto que há qualquer coisa de dissolvente. você está escrevendo "clássico"! você está "ático". Na realidade uma obra-de-arte muito perfeita. mas me preocupa. o senhor pode me informar a que horas de que dia de que semana! de que ano! o senhor acaba de matar vovô!". De vez em quando você tem descaídas pueris de expressão lingüística. de mistério realista (um mistério legítimo. E publique já. coisa assim. magistral! Análise psicológica muito bem feita e intensa. mas que você trata com verdadeira maestria de discreção. desta vez. O bemfalar existe. Olha. até pode ter sucedido mesmo. Depois de Machado de Assis. lá pela semana que vem. corrigirei o que imagino. nós logo percebemos. infinitamente pobre de espírito no infinitamente rico sofrimento. Mas não tem a menor espécie de importância. Porque o fato grave é que você está. Isso é tolice da grossa. Porém a frase que ele vai dizer ao farmacêutico jamais será uma piada"erudita". meu irmãozinho. E nunca mais não fazer outro do mesmo gênero. de-fato. Substitua a frase do estouro por outra menos piada. mais bem escolhida e bem amarga. Isto. é assombroso como você está escrevendo bem a prosa de ficção. estrompante. Só uma descaída besta que você vai modificar imediatamente pra não rompermos relações: a piada do moto-contínuo. Confesso que isso é assustador. e se tem a sensação de que tal fundo só vazado em tal forma.cartas-a-um-jovem-escritor assuntos. não tenho mais tempo. Na releitura. não é novidade como base. Fernando. mas na vida da arte não tem realidade nenhuma. dissolvendo uma família. de arte pela arte na sua novela. E não sei si tenho razão. O lugar é. Forma e fundo formam um conjunto harmoniosíssimO. com todos os seus brasileirismos. Quanto ao assunto: mesmo caso da linguagem.

Mas que você fez obra de beleza não tenho dúvida nenhuma. pior. por favor. não como julgamento de valor que apenas poderá aumentar ou diminuir de intensidade. Mas si lhe vier alguma inspiração de novo tema de romance. Que notícias você tem da publicação na Martins? Ele já resolveu alguma coisa? Era bom que resolvesse logo. São três meses no duro. Ando abafado porque minha convocação para o estágio até hoje não saiu e temo que eu ainda esteja lá quando você vier aqui. Mário 132 B. e muito principalmente por tradição. você está adquirindo o seu instrumento de trabalho. assim meio no ar. pode variar. situação. pra você se livrar duma talvez obra-prima que está escravizando você. sentir outra vez. já fiz ele uma porção de vezes. Depois vou te mandar para saber o que você acha. que quero literatura "social". no sentido em queafazemporaí.fiquei com preguiça. está difícil como o diabo. Ciao. que no fim dá certo. Mas como é difícil desenvolver este assunto! Não pense. Estava aqui na Secretaria quando me deu uma vontade de conversar com você. Verbo Intransitivo"? De minha parte ando quebrando a cabeça num conto aqui. e quanto mais demorar. Tentei refazer o capítulo da novela. para que saísse o mais depressa Página 69 . O que é que você fez de bom por lá? Logo que puder escrever me conte. pró: careço pensar mais. senti vontade de descer e voltar. Ando muito afastado dela. Mas repare bem: o que lhe digo aqui não é opinião fixa. você também vem "marcado" pelas leituras. mas será sempre o mesmo. H. não estou conseguindo penetrar de novo naquilo. seguindo seu sistema. Tenho recordado com muita saudade os dias felizes passados aí. "A Marca" precisa ser publicada já. Tenho medo de sair artificial. A argumenta çao pro ou contra é que de pró pode virar contra. Foi tudo muito rápido. Tive notícias de você no Rio. E como foi pau aquela nossa despedida na estação! Fui ter a consciência de que estava indo embora depois do trem já ter saído. Em todo caso vou esperando.cartas-a-um-jovem-escritor Afinal das contas você tem 20 anos. Já acabou a revisão do "Amar. Vou falar com o Martins. O abraço irmão do Mário Não reli.famílía. analise ele 130 131 mais pra ver si vale a pena desenvolver. e de contra. 16 de Setembro de 1943 Querido Mário.

Quando eu vou aí. a agitação aqui está desgraçada. sim. mas que não me são cotidianos. de pijama. e vai por aí afora. vou batendo a máquina sem saber o que ficou para trás. Hoje vou passar o poema do Carlos para te mandar. de qualquer coisa semelhante a uma exclusiva preocupação artística que nos torna aparentemente apolíticos. achando que a arte não conduz a nada. Agüenta firme que acaba indo tudo. Nada de literatura. calados. não vou Página 70 . estou pensando agora que você deve ter uma ternura bem grande pelos nossos draminhas. Chegando aqui. 133 Você nem acredita.. Provavelmente já disse. não dá certo não. mas que coisa desgraçada de complicada! Uma perna pra dentro. Você aí na sua mesa atulhada de papéis e cartas por responder. Não há dúvida que você apanhou bem uma face do nosso problema. isso foi recebido com entusiasmo aqui. inflamado de pensamentos que conheço. Não me esqueci das outras coisas. enfim.quer saber de uma coisa? Tenho mais o que fazer. sabe?. querendo agir. outra pra fora. me sentindo torcido no meu elemento. e estou falando.. a peruca) ha de se inclinar para trás lendo isso. e muito mais grave do que eu estava pensando. Bom. quando sentiu. começo a pensar que o que não conduz a nada é a agitação e o bracejamento do pessoal aí.. muita conversa. e que não pode ser muito pavoneado no meio da rua. com que agudeza! que a mocidade está engasgada. tentei recordar como é a tal cadeira em X que você tem aí. e a coisa inflamou o auditório. qual. volto inteiramente desorientado. Aliás.. Me fale sobre sua vinda aqui. não posso pensar com calma para escrever a você.cartas-a-um-jovem-escritor possível. sacudir a cabeça falando: esses meninos. engasgaram a mocidade. muito falatório. que está me preocupando muito um possível desencontro. te escrevi uma longa carta que felizmente rasguei e joguei fora. Vou aguardar notícias suas nesse sentido. que há algo de muito mais importante fermentando por baixo desse nosso alheamento todo. eu mais ainda e . O carpinteiro fica doido. não permaneço neles o dia todo. No discurso apresentando Afonso Arinos (que fez uma conferência na Escola de Direito) um aluno transcreveu grande trecho de seu prefácio ao livro do Otávio Freitas Júnior. Volto cheio de entusiasmo. Engraçado. chinelos e aquela peruca de lã (indispensável. Ontem de noite eu estava muito abafado longe da noiva que está no Rio e eu aqui sozinho sem ninguém. Mário. fui ficando pior. andei pensando e conversando muito a respeito daquela tendência que você descobre em nós de nãoparticipaçãO. as broinhas e odicionarinho. para mandar fazer uma igual. meu Deus e com que penetração. que quem está participando somos nós. eu sou um sujeito engraçado: comecei esta carta pensando em não te falar nisso. Aliás. se já disse o que queria dizer. Mário. Sabe o que concluí? Que qualquer coisa existe sim. no nosso elemento. com as nossas forças. Só mesmo voce podia inventar uma coisa complicada daquelas. Por falar em draminhas. de um hedonismo estético. Achamos que de nada vale ser artista de arte pura. mas não achamos graça em sermos apenas conscientemente bestas.

se tenho recebido notícias suas. como sempre. que ele é assim. Quando chegou exatamente a meia-noite e quinze. e que ganha pitos dele quando não faz as coisas direito. o coitado fica des orientado. me escreve dizendo que tudo há de se arranjar. deixa eu trabalhar. viu? E um abraço amigo do Fernando 134 135 Não me esqueci dos retratos não. meu Deus do céu. São João (e os outros também). Com todo mundo que precisa dele. Se você me escrever. E também para pedir notícias do Martins quanto à minha novela. ele também sofre comigo como se tivesse brigado também. estudar.cartas-a-um-jovem-escritor reler. gostei muito dele. dá remédio. com mais medo que você. fez hoje um ótimo poema.Hélio. Continuo esperando. Escrevi apenas para matar as saudades. Dê um abraço no Antonio Candido e na Gilda. Hélio. eu já estando na cama e quase a apagar a luz. A gente fica doente. fiquei pensando com ternura em você.. Inclusive o que tiramos na Av. é tudo filho dele espalhado 136 137 Página 71 . o Hélio me assobia do portão. o que que eu fui arrumar. Ele trata da gente. GuilherminO já foi embora. Hélio. conte bastantes coisas suas. Grito para ele entrar. é filhos do Mário . é muito camarada. Você já viu coisa igual? E não é de hoje. travessa. sofrendo pela gente. sem juízo. moleque. Mais um abraço. (Você já reparou como sou bom datilógrafo?) Belo Horizonte. Uma das coisas que mais me encheu de alegria ao conversar com você ontem foi você ter afirmado que só viria aqui quando eu aqui me achasse de volta do estágio. ele falou que estava voltando da casa de uma colega onde fora para. Então eu contei a ele que tinha conversado com você. E não prega olho a noite toda.essa cambada desgraçada de grande. Bem. eu escrevo para ele dizendo que briguei com a noiva. chega para ele e diz: olha aqui. Você esteve com o Carlos Drummond no Rio? Não tenho tido notícias dele. No mais tudo bem. Ontem no telefone Helena perguntou por você. Desliguei o telefone. Mário. bota a gente na cama. ensinando o que sabe para a gente não se estrepar. e lhe disse: . gastando tudo que tem de bom com a meninada. e ele cuidando da gente. 23 de Setembro de 1943 Querido Mário. O Hélio do mesmo jeito de sempre. Mário.. você já reparou como o Mário é bom? Mas que bom sujeito. O que nós somos. A gente fala que está com medo de ficar doente.

acho que você não entendeu bem. mandando meu endereço. E saudade da Helena aqui. Apenas esgotamento. Isso antes de conversar com você. E.cartas-a-um-jovem-escritor por aí.. não sei se poderei pagar. Quando tiver tempo diga o que pensa dele. Nunca pensei que pudesse existir um sujeito assim. eu estava pensando em publicá-la no Martins. Mário. Te mando hoje um conto meu. E orçamento. pois eu nem tomara conhecimento de que ela lá estava e que o Zé Olímpio queria publicá-la. o coitado passa dois dias lendo a novela comigo. Quando. A história dos contos positivamente não me interessa. escrevi ao meu irmão que se encontra presentemente no Rio. Hoje recebi uma carta do Carlos muito boa. e sai com a gente." Quanto à minha novela. Estou aflito para receber sua carta. de acordo com você. apresentação. Mário. pedindo que apanhasse ela com o Aníbal. para que é que fui falar nisso! Se Deus quiser ela chegará amanhã. e que havia conseguido a custo a devolução da novela pois o Zé Olímpio se interessava em publicá-la. meu Deus. etc. como estou te dando chateação! Como te disse vou para o estágio dia 4. falei com ele que se arranjasse para publicar no José Olímpio seria bom. Agora. E quanto aos retratos. Que é que você acha de tudo isso? Creio que você pode pedir ao Martins para me mandar a novela. mande logo que puder. e perde tempo. Vai aqui um meu para que você Página 72 . Clima morreu mesmo? Bem. Vamos ver em que é que dá isso. do pessoal aí. Nós temos andado recolhidos cada um para o seu canto. Bem. e que insistisse comigo. (Agora. estudando. Logo que chegar lá em Juiz de Fora te escrevo.) para ler a novela. isso é bom de vez em quando. que me interessa muito saber. já desconfiei que eu fico é inventando assunto para não interromper a conversa com você.. Não se preocupe com a saúde do Hélio. Antes de uma hora concluímos solenemente que você é a melhor pessoa do mundo. diz que minha novela é isso e mais aquilo. mandei meu irmão se entender lá com ele. orienta. da Gilda. Mas agora está nos eixos. O Zé Olímpio falou com o mano que caso eu quisesse. um pouco de literatura. eu é que pedi a ele para ler. e o Hélio foi embora. concordando com tudo. papagaio. o Hélio ouvindo tudo. e que diz assim: "o nosso professor continua sublime. você não dê importância ao fato do Martins não querer lançá-la sozinha. não é assim? Como você vê. Vai lá um abraço. ele se comprometia em publicá-la no primeiro trimestre de 44. O que há é o seguinte: o Aníbal Machado pediu (quer dizer. creio que não há inconveniente em atendê-lo. caseiro.) Passei hoje o dia todo mexendo com o Exército. Sempre às suas ordens. Meu irmão vai me escreve que este já a entregara ao editor conforme eu pedira. ver se ela não diminuiu por causa do telefone. Como eu não havia tomado conhecimento desse interesse. a respeito do José Olímpio. Mande notícias do Antonio Candido. Escreveu um prefácio para o livro de Otávio Freitas Júnior que é uma beleza e de uma brutalidade de achatar. E muito mais coisas que falei. e já não era sem tempo. Ele escreve para a gente. doutor. Tomei as providências para que você receba a Mensagem que deseja. lá vou eu para São Paulo. não fica mal ela voltar para lá. sem nenhuma solenidade: eu acho que é mesmo. e como o Zé Olímpio pediu ao meu irmão que conseguisse para ele a minha preferência. ajuda.

está claro. Enfim o Martins decidiu alguma coisa de positivo sobre o seu livro. na Bahia. o caso editorial está resolvido e também não se afobe com a minha ida aí.. é muito difícil. sindo impossível a gente se reconduzir a esse espírito. Bem. Paulo. Vai trabalhar em Sombra. É dar o fora enquanto pode. Ele está animado e nós muito tristes. Bom. velho Mário.. E Helena heleníssima. 140 141 o espírito de Belazarte se acabou em mim e os contos ficaram por fazer Pois V sabe uma coisa estranha? Está claro que me seria impossível hoje Página 73 . belas baianas.cartas-a-um-jovem-escritor 138 139 veja como minha cara ficou ao saber que eu ia para Caravelas. o tempo foipassando. e morar com o Marques Rebelo.. Realmente quando a gente sai do espírito dum livro. nem posso imaginar Belo Horizonte sem você com Hélio.. Tenho um caso quase dramático na minha vida que são dois assuntos de contos concebidos por Belazarte que. Ciao com abraço Mário São Paulo. Hoje vou mandar buscar "A Marca" no Martins. Irá por estes dias. Acho que ele faz bem."E você deve ir para. Veja só que literatura."Você deve ir para Caravelas. mas quer (Foi aqui que o seu telefonema interrompeu a carta.. 22-IX-43 Fernando. e eu compreendo isso. S. uma revista lá.". cidade praieira. nem espalhe muito. mais um abraço cheio de amizade do Fernando Murilo resolveu ir para o Rio. não sei onde irei parar.. Bem. Fernando". pescadores o mar. Edita sim. que seria muito bom para mim. Só irei com você em Belo Horizonte. Mais um mineiro livre. principiemos outra carta) Você me diz que está sentindo dficuldades em refazer o capítulo da novela. Mas no dia seguinte não tive força pra levantar da cama e nela estive até ontem. O Hélio disse que é pena ter sido engano.. 28-IX-43 Fernando Só hoje vai a carta que lhe escrevi naquela noite do seu telefonema. Está o diabo esta história..

Estou meio desgostoso com o livro. reconhecendo que"de nada vale ser artista de arte pura. Veja que no fim.cartas-a-um-jovem-escritor escrever como Belazarte em 1923 a 26. imagino. eu grifei o vocês "mio acharem graça" mas o "apenas" foi você quem grifou. eu não quero influir na sua vida nem na orientação que você possa tomar: isso é responsabilidade demais. pelo menos milhorar esse capítulo. como estilo e como assunto. A argumentação que você me dá é detestável efragílima. E no entanto . Mas me é impossível os apresentar no meu espírito atual. mas em poesia tem coisas ainda curiosissimas: é que ás vezes fazendo uma poesia você se percebe numa integridade que já foi sua ejá lhe ditou poemas. não creio que o desastre seja grave. se sustenta pra exigência normal dos bons. Fernando. que isso de ir lendo um livro de ficção em letra de forma e de repente ter de ler umas páginas datilografadas anexas. Agora na remodelação do "Amar Verbo Intransitivo". Deus me livre. ler a novela de jacto e tentar milhorar. Não sei si tenho ânimo pra tratar do outro assunto da sua carta. Eu noto certa diferença está claro. mas não achamos (vocês. excelentes. ainda foi por um caso sentimental de saudosismo. é complexo por demais: essa história departiczjaçao ou não participa çao. Eu creio que valerá a pena você insistir um bocado. aí). Mas si não conseguir. Mas além dos cortes e modificações itinerantes acrescentei um capítulo. mermãozinho. tem mesmo esse perigo de não repegar mais o espírito. mas os assuntos existem. mas si eu possuísse esse assunto (quepertenCeaJoãoAlphonsuS tanto quanto "Meu Japonês" pertence a Belazarte) me seria impossível escrever o conto! Em prosa não. Porque positivamente não se trata de ser besta. Talvez seja exigência demasiada da nossa parte. Essas coisas são bem curiosas. cortei muita coisa e talvez pud esse cortar mais. imagino. Olha. pegar um bom dia de vadiagem em Juiz de Fora. Mas quem mandou ser apenas concientemente besta! Isso de-fato não tem graça nenhuma pro intelectual verdadeiro. Vou passando bem mal. Mas não tenho tempo pra refletir nem ânimo. tem de causar um certo desequilíbrio. De resto si na cronica eu exagerei até a "besta" o intelectual que busca particzjar do amilhoramento político-social da humanidade. Imagino que há um bocado de superstição da parte dela. mas muito desanimado pra reescrever tudo a máquina. V chega a um argumento de natureza meramente saudosista e sentimental quando. no antigo estado integral do ser que está se repetindo no momento. mas não tamanha assim. Aliás. A Gilda achou completamente diferente como estilo. O capítulo assim como está.a poesia que você está fazendo no momento e ate as vezes muito diferente das que você fez. nem é besta um Carlos Drummond de Andrade escrevendo os Poemas que está fazendo agora. Carecia reescrever a máquina todo o livro e não tenho coragem pra. são assuntos que só a Belazarte era possível aproveitar! Da mesma forma com que acho ama obra-prima o "Sardanapalo" do João Alphonsus. São contos. graça em sermos apenas concientemente bestas. Estou bem cansado do dia parte do qual passei na cama e o resto chateado em aulas e ocupações que não adiantam. nem posso me qualificar de Página 74 ." Ora. são.

si pra minha amizade e pra condescendência de alguns e provavelmente de certa crítica. até nazista. Porque. meu Fernando! Esse é o princípio mesmo do nazismo. na véspera da sua partida.cartas-a-um-jovem-escritor 142 143 besta nessa seriação de páginas sofridas que estão em "Cultura Musical". Deforma que si V escreve "A Marca" e ainda por cima arreia a sua obra-de-arte de tão grandes elementos de beleza e encantação. E. nas crônicas musicais de agora e enfim no prefácio do Otávio. meu Deus. meu Fernando. quem não épor mim. o seu livro é independente de você mesmo como sendo de você. muito mais que a sua conciência. Que funciona. poderá nem que queira não participar. a sua criação. si não for um elemento do seu combate (o que é nobre). A Marca" era uma necessidade. Efaz bem. na "Elegia de Abril". nem nenhum artista. na "Atualidade de Chopin". da sua mística e da sua prática. Não quero lhe repisar nesta carta aquelas frases bem nítidas. A outra aceita a sua obra-de-arte. O que é pelo menos um aviltamento. como obra-de-a rte. escravocrata e. E isso ele reflete deslumbrantemente. queira ou não queira. Existem duas forças mais uma vez empenhadas em luta de vida ou de morte. você não poderá fugir. Necessidade pessoal. Porque o que você conta e canta é o homem que se reconhece e aceita na sua incapacidade definitiva e definidora de razão e de luta. no bar. Nem você. a sua concepção. Fernando.funcionar inteiramente independente de você e lhe virando as costas. Pra causa dela. no "Movimento Modernista". você está servindo a uma das duas forças que lutam. Disto. si você não quis ser nada disso e se tudo isso lhe será em conciência odioso. que lhe falei naquela nossa conversa tão grave. nada jamais não impedirá nunca que como obra-de-arte o seu livro seja uma obra vendida aos interesses da chefia. mas não procure se iludir em sua conciência com argumentos falsos que deslocam osproblemas. Um Página 75 . a expõe como modelo a seguir e si puder obrigará a repetição dela por você nos seus livros futuros e por todos os outros artistas. A con ciência se ilude com enorme facilidade. Porque o seu livro é mais. siga o caminho que quiser. uma obra de função odiosamente capitalista. Era mais um exercício que outra coisa e você estava adquirindo um instrumento de trabalho. digamos mais ou menos eufemisticamente: a força da coletividade e a força da chefia. ele é você todinho. Ou você não conformistamente se inclui na coletividade ou conformistamente se vende à chefia. é contra mim. nada impede. imagino. Mas será que V não enxerga logo o que é isso. Mas você envelheceu prematuramente e de sopetão e de surpresa você hoje tem duas realidades diante de si: um ótimo instrumento de trabalho e um ótimo livro. Não. No entanto a isso eu chamei e como imagem ainda posso chamar de ser "concientemente besta". uma avacalhação do seu destino de artista. E que vai. o seu livro funcionará em relação a você e será saudado. a odeia e si puder a destruirá. mas a sua obra. Só um problema existe pra um momento humano da vida como este que estamOS. Eu compreendo que para os vinte anos da sua mocidade. Ora. meu Deus! fará bem. a aplaude. não se esqueça. Você pode não participar da vida. Uma delas repudia o seu livro. será elemento pro combate dos outros.

não pode fazer naturezas-mortas nem paisagens. como você diz. já me sinto perfeitamente desligado dela. Não publicar é impossível. É por isso. Aos 30 anos eu ainda era um meninão do espírito e escrevia bobagem muita. O livro precisa sair quanto antes. Por isso é que eu chamei a sua novela de "especie" de obra-prima. E não se iluda: num desses partidos você há-de estar. Infelizmente. O personagem Vicente é. E si eu considero o seu livro uma obra admirável de beleza como estilo e expressividade humana. O que acontece e exatamente o que concluímos naquela noite da conversa no bar aí em São Paulo: o que se deu comigo foi um desenvolvimento espiritual menor que o intelectual. meu Fernando. quem lida com palavras. Pra depois você decidir que caminho tomar.cartas-a-um-jovem-escritor passo a mais e o fracassado implora a descida dos céus de um Fuehrer! Porque o que há de mais pavoroso na fragilidade humana é que não tem só chefes escravocratas. não passa de um escravo escravocrata. eu acho que V precisa publicar quanto antes o livro. um autêntico filho-da-mãe. no reconhecimento estatelado ("definidor" ébem o termo) da sua incapacidade. Muito fraternalmente o Mário 146 Juiz de Fora. mas que não fosse uma resposta impensada. ele me é profundamente desagradável pelas forças deshumanas e desmoralizantes. Mas você precisa se libertar dessa experiência em que você tão prematuramente envelheceu. com você. na minha"carreira artística". principalmente a coisa encarada através de"A Marca". por assim dizer. si o partido dos chefes. nem sambas e sinfonias mais fáceis de disfarçar (pros outros) o seu conformismo é não participaçãO. comece a pensar e sentir. que são elementos de con ciência. que completei anteontem 20 anos de idade provecta. Aos 20 você escreve A Marca" e chegou aos 30 anos do espírito. Mas acho que é coisa que não me compromete para o resto da vida. já ficou para trás. E o 144 145 herói do seu livro. tanto pra você como pra mim. Se essa novela foi um acidente. não é assim? Nada impede que eu agora. mas eu não sou um Vicente. o infamante é que há escravos escravocratas também. de que nenhuma beleza liberta nem libertará nada. muito depois de ter começado a Página 76 . É impossível. si o partido dos homens. Trouxe ela comigo para responder logo. 15 de Outubro de 1943 Querido Mário. Você tem razão. Recebi sua carta quando estava de partida para o estágio aqui em Juiz de Fora.

digo eu: fardado. só Página 77 . fala com ela para mandar notícias. Dê um abraço na Gilda. uns amigos violaram minha imobilidade forçada e medicinal. mas hoje rompendo a proibição. estou proibido pelos médicos. mas que estou totalmente depauperado e o organismo não queria reagir mais. exigida pelo médico novo que se assustou com meu estado geral. tenho de dormir. com seu artigo? Por acaso leu nela um conto meu chamado"Bernardo"? Tenho outro para te mandar. Você por favor dê notícias. 27-X-43 Querido Fernando Não posso escrever. E você? como vai reagindo na solidão do exército? Faça sonetos ou poemas em oitava rima e dez contos épicos hípicos sobre Caxias e Tiradentes. Palace Hotel. Estou esperando. do seu Fernando --* Obra póstuma do poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens."* conforme prometido. como você diz. A conclusão é que não há morte rondando nas vizinhanças. Você recebeu a Mensagem que lhe mandei. seu Mário. velho Mário. que eu recebo. aqui para o meu desterro. tinha vertigens por qualquer sustinho. Uma hora da madrugada. Imagine que reaprendi a sensação da vertigem esquecida aos 16 anos em que aos 14 a eles um rojão de crescimento me botara na manguari de altura que ainda tenho. Meus olhos já estavam se turvando e eu naquela perspectiva pândega da vertigem. mas vou esperar você sarar. 147 diga-lhe que mando a ele o"Pauvre Lyre. são horas. Paulo. Posição de sentido. perfilado e fazendo continência. estiveram aqui parolando umas três horas. Pois agora. que vou amanhecer a cavalo. Um saudoso abraço. E os poemas do Carlos para você também irão. caso possa escrever. Questão de tomar posição. Agora parece que já está principiando a reagir Mas me obrigaram a largar de tudo. de versos em S.. francês. Fizeram conferência. Já estou milhor com um tratamento brutal. cada injeção que parece pra cavalo. no dia seguinte dos meus anos. Pode mandar para o Tenente Fernando Sabino. Bem.cartas-a-um-jovem-escritor escrever. E também o Antonio Candido. Fiqueifeliz com o seu telefonema embora quase não pudesse me sustentar de-pé. Quando saíram. é só eu ter tempo de copiar.. e a galope. Era um palito. Juiz de Fora.

Mas como eu andei inquieto por causa de você aí. tanto mais que as coisas aqui também não andavam nada azuis.. mas estou na parte final. meu Fernando. nem sempre corresponde à comodidade verdadeira. Fernando. não. Te abraço emprestando a força do Hélio. está claro e virei homem-da-natureza. Escrever. Mandei fazer uma mesa pra cima de cama que é um labirinto. Agora o que eu tenho é uma úlcera do duodeno (que a radiografia provou.A carta ficou suspensa. queria comentar um bocado o caso dos "Dias Perdidos" do Lúcio Cardoso. serve pra tudo e que como sucede sempre com a teoria da comodidade. mas temia de vários temores. Dia 3. coisa besta. data espera desta carta. Agora vou interromper porque estão me avisando que o banho está pronto. E me escreva logo. mas Página 78 . mas porquê você não tira uns dez exemplares de "A Marca" em papel milhor. Recebi sua carta mas hoje não vou lhe responder ainda aos problemas que ela contém.cartas-a-um-jovem-escritor esperei eles saírem. é um tal de desânimo geral mas não deve ser nada. Eu ainda não acabei. Paulo.. é que esses médicos como não conseguem mesmo descobrir o que é que me dá dor de cabeça e menos ainda o jeito de me livrar dela. não tem dúvida) e resolveram me divertir com um mês de imobilidade na cama e uma alimentação em que. Queria escrever. Também. 1-XII-43 Fernando Amanheci me sentindo tão bem hoje. os outros acham que é uma maravilha e nela estou lhe escrevendo. toma todas as posições. Precisamos esclarecer bem certos pontos complicados em que estamos nos metendo a respeito do destino do artista. Mário 148 149 S. Em todo caso. Os boatos (ou não) que circularam aqui sobre Minas eram dos mais negros e afinal chegou a notícia de que você esta va ferido. Não quero pensar. Resolvi esperar na minha ansiedade e enfim sua carta chegou esclarecendo o seu ferimento. semana e meia faz. foi a primeira noite em que consegui dormir umas quatro horas seguidas. numerados. Mas não estou em condições de me meter em tais assuntos. E embora jurando não penetrar nos assuntos mais graves sobre a funcionalidade humana do artista.fora de mercado? Não deve ficar muito caro.freudianamente "substituíram". Não quero. depois que reentrei nesta cama odiosa. você bem pode imaginar O caso. Vivi em brasas. foi muito desagradável. Entrei aliás com coragem e sem nenhum espírito de tragédia. apenas por desânimo (queria. com estes já onze dias sem fazer a barba. não ando passando muito bem não. Fico esperando. Dei na fraqueza. voce leu? Leia que vale a pena sob certos pontos-de-vista. mas desisto) lhe dizer o que penso do livro. me irmão. por favor.. basta dizer. plorúm! e tive uma vertigem. Me mande você primeiro o seu juízo. Cuide bem disso. Estou repugnante. a ja semana só bebi leite..

mas quero ficar sabendo de tudo. mas antes um enorme bem. É preciso que eu saiba como você acha que certas coisas devem ser vistas. Ainda não tomei posição em face de certos problemas. sozinho também. Há momentos em que a gente se vê de repente sozinho no quarto. Nesse sentido. por exemplo.eu penso então que você está aí na Rua Lopes Chaves 546 em São Paulo. Belo Horizonte ficará pra quando pudermos estar juntos lá e eu sem muitas restrições alimentares. e o principal deles é este: eu absolutamente não tenho opinião formada sobre o assunto. Foi muito bom para mim receber sua carta. E suas respostas não me farão nenhum mal. Leite até que não é tão ruim assim. Pensei muito antes de te responder. as vozes humanas comprimindo o corpo de todos os lados . Mário. Mas cura quando a gente quer: eu. güentando a mão. só a custa de tratamento. tenho uma irmã que ficou inteiramente boa de uma.. sofrendo angústias enormes e irremediáveis complicações estomacais . os desencontros. dê lembranças minhas a ele. Vale mais que as visitas dos amigos. pois tinha ficado apreensivo com o fato de você não ter podido vir ao telefone. Fico contente por saber que você. Em resumo. quero que você tome sempre minhas palavras como perguntas. de sua parte. E vejo mais uma vez que. uma palavra sua resolve tantos problemas! As vezes te telefono. Também quero esclarecer alguns pontos. se Página 79 . Quando escrever ao Hélio. mas tudo se resolve. posso te garantir. 7-12-43 Querido Mário. função social da arte. Mário. chateado da vida. tenho medo de você estar pensando que neste assunto. já estou vendo as coisas de uma certa maneira. os ruídos. nem você. Um grande abraço pra você Mário 150 151 Juiz de Fora. só passaram a existir para mim depois que te conheci. que essa história de úlcera não é brincadeira. as paredes. acabo nada dizendo. Só espero que continue dando duro. que. Aquele injusto não há meios de mandar os versos. aquela história toda. uma carta. as coisas pesando sobre a nossa cabeça. está se submetendo a tratamento. e quero esclarecer que até agora eu não vi nada de maneira nenhuma.cartas-a-um-jovem-escritor receber carta é uma gostosura quando a gente está assim imobilizado numa cama. apesar de a contragosto.aumenta ainda mais a minha estima por você. você não pode calcular como me tem feito bem. ou te escrevo. a respeito da nossa conversa sobre a participação do artista.. cercado de livros. 152 Desde que te conheci. Eu não sei nada. enfim. para ficar bom de todo. embora eu tenha certeza que você já havia esquecido que gosto tem. principalmente porque as cartas não fumam e não empestam o quarto do enferminho. Mário.

Então está explicado. o leitor que não tem a mínima culpa. Saiu a Luz no Subsolo. Já te contei que vivo discutindo com Octavio de Faria a respeito do Lúcio. o autor dominando com muita perfeição os seus recursos. como a gente às vezes é levado a pensar. para lá de insuportável. Já li. Em todos os séculos dos séculos. e até escrevi uma carta para ele. foi ótimo para mim ter recebido. O que logo me impressionou niais foi o que você chama de"instrumento de trabalho". Então a gente se volta contra ele. Um livro cruel. golfada de sangue. eu tento explicar. por exemplo. diante dele. Ele acha que nós mineiros não colocamos o Lúcio no devido lugar. que isto aqui está ficando muito chato. E penso comigo que é esse. nenhuma faltando ou sobrando. Nada do que ele já fizera resolvia. não foi como queríamos a esperança da redenção tombando sobre nossa cabeça de vendidos à vida. Não dá a impressão de esforço por se exprimir. Além do mais gosto muito de conversar com você. numa vida melhor. mas não há meios de me fazer entender. em que o pensamento não se desvia. à procura da Palavra esperada. alguma coisa de mais dolorosamente vital se mexia nele. elas exprimindo exatamente aquilo que ele queria dizer. amém. Quer saber de uma coisa. que também se sente condenado. vomitado. Você me pergunta o que penso do livro do Lúcio. de procura ansiosa. Acho que o Lúcio está conseguindo jogar com os elementos que possui com muita habilidade e bom gosto. Essa sua última carta. Esteticamente acho o livro lindamente realizado. E nisso você tem razão. se dois maços de cigarro por dia é muito para minha saúde. impiedoso. insípido. Luz no Subsolo apenas me deixou mais ferido. seus conselhos e esculhambações de vez em quando. como deverá ser a capa do meu livro. de incerteza final se o livro deu certo.cartas-a-um-jovem-escritor torna simples como era no princípio. sangrando em sua alma. de vez em quando. A gente ia buscar um caminho e recebia uma punhalada. mas nada impede que eu fique sabendo como você resolveu. se meu último conto deu certo. inteiramente revolucionado por dentro. nem por um momento traindo o autor. cada uma no seu lugar. Mas acho que é um livro feito num momento em que o romancista de talento extraordinário se achava em pleno conflito consigo mesmo diante de certas coisas. me distraio com seu jeito de rir como se fosse engolir a gente. o motivo de sua revolta. não? Você com certeza pensará: certas coisas é preciso que ele não resolva como eu e sim como ele próprio. Mário? Eu tenho necessidade de saber o que você pensa de tudo. 153 Uma extraordinária precisão de palavras. que"Luz no Subsolo" seja um passo em falso. não nos trouxe nenhuma esperança num mundo melhor. Eu não acho. estéril. muito harmonioso principalmente nas duas primeiras partes. como você. que temos um inexplicável menosprezo pela importância dele como romancista. no íntimo. E alguma coisa além de simples literatura-mistificação. que de certo modo lhe faltava antes. deixa absolutamente esmagado. Unicamente nos aumentou a consciência terrível de Página 80 . se devo casar em abril ou maio. Falei com Lúcio que ao terminar a leitura do livro tive a impressão quase física de estar encharcado de sangue. diz que o livro é inútil. E nisto Octavio está absolutamente enganado.

e penso que foi isso que aconteceu com você. chafurdados como lesmas. Camilo e Carlos Eduardo são uma só pessoa. como os homens complicam as coisas! Nada existe de decisivo. nem o mal. cada frase provocando outra num completamento quase musical. que está certo. a linguagem do Lúcio exata. algumas cenas. mas qualquer relação que os liga? Chico e Pedro Borges. na minha opinião. estou certo que ainda aparecerá em Octavio de Faria. o romancista dominando a forma e o Octavio se deixando levar. Gestos inúteis. quaisquer que forem os seus descaminhos. palavras que não levam a nada. antes nos deixam cada vez mais escravizados e impotentes diante do impenetrável. consciente de sua capacidade para conseguir o que quer." Verdade que também nos foi dada por Octavio." E essa tremenda verdade a que ele chega. os abismos insondáveis a que for levado. que nele não é lá muito rica. E esta extraordinária Clara. Tudo o mais deriva daí. A impressão maior é a de um autor inteiramente senhor de si. nessa lama. decepcionados. no seu lugar. Coisa interessante: você reparou como há uma certa"correspondência" entre os personagens de um e de outro. que atingirão o mesmo destino por caminhos diferentes. enquanto escrevo. E um grande domínio da língua. em alguns pontos. Dois escritores absolutamente opostos na técnica. Lúcio diz:"Meu Deus. Jaques e o pai de Pedro Borges. ou será. a cena do carroussel é a festa de caridade onde Branco viu Geralda pela primeira vez. O amor de Sílvio por Diana é o amor de Branco por Geralda. só o desespero corrompe e mata. a briga de Sílvio com Chico. rasgando a noite com fogo aos olhos deslumbrados. Mistificação! Gritamos então. Já Dias Perdidos é outra coisa.cartas-a-um-jovem-escritor nossa miserável condição humana. não estou pensando detidamente nessa"correspondência". Há ainda a dizer a presença de Octavio de Faria. duas almas irmãs. e Octavio atacando aquela submissão com golpes implacáveis. tudo certo. nem por um momento duvido disso. nada é eterno sobre a terra. a de não saber amar. sabendo o que quer. Mas um equilíbrio que não quer dizer estagnação. condenados a viver sempre nesse sangue. é um livro que deu certo. tão ásperos. "como se quisesse colher estrelas". mas muitíssimo bem aproveitada. E é nisso que eu sinto a presença de Octavio no livro do Lúcio. um tanto incolor. como uma fonte de sangue. conforme aliás eu disse a ele que achava. na concepção. suficiente. e que se desprende aos nossos olhos de cada uma das palavras do livro: "Não há senão uma forma de pecado. harmonia. nem o bem. Contudo. Lúcio extraindo da miserável submissão do homem ao transitório e contingente uma melancólica filosofia de resignação e serenidade no sofrimento. Podemos dizer que é um livro que resolve? Pelo menos. Mas alguma coisa me diz que os dois romancistas estão muito mais intimamente ligados do que à primeira vista Página 81 . por caminhos tão tortuosos. Lúcio desprezando 154 155 elementos que Octavio aproveitaria. de modo que em muitas coisas pode ser que eu esteja enganado. Resultado: um modelo de equilíbrio. não "influência". embora Octavio a explorasse tecnicamente diferente. Sílvio e Branco. que Senti em todas as páginas. é uma outra briga de Branco e Pedro Borges. e sim equilíbrio no movimento.

Mário? Eu espero. assim de repente. que parece irá desabrochar suavemente. a não ser que isto aqui é ultra-paulificante. você não acha? Também a doença de Clara. às duas primeiras).. é o que já escrevi ao Lúcio. pois o romancista precipita um pouco as coisas. penso. Se não fossem esses pequenos defeitos de técnica eu chamaria ele de obra-prima.enfim. que estou meio preocupado. Agora. a primeira impressão.cartas-a-um-jovem-escritor se pode pensar. que ele acabasse mesmo encontrando Diana. contando mais ou menos isso mesmo. que acho perfeita. E também um conto meu. o autor ter-se prendido a um plano preestabelecido. devido ao fato de. querido Mário. o seu drama. Acho"Dias Perdidos" um grande livro. no Rio. e depois saindo pelo 156 157 mundo. Mário? Isso o que achei de"Dias Perdidos". Principalmente em relação à nossa conversa. sim. voltando à minha pergunta:"Dias Perdidos é um livro que resolve? Até que ponto a gente pode dizer que ele funciona.. parece meio arranjada para ela morrer. Pode ser que se deixasse Sílvio Viver por si nessa parte final. Muito embora certa aridez que a gente sente na 3a parte (que não acho superior. o que não acontece com a doença de Jaques.ao contrário. Assim. não deixe de mandar dizer o que é que você acha dele. Um grande abraço para você. os seus desencontros. fico esperando o que você achou. não importa quando. E não se esqueça: beba mais leite. acho que o Lúcio desde o princípio queria que o Sílvio voltasse a encontrar Diana anos mais tarde e se casasse com ela. fazendo agripinices. vou terminar. Mário. se o livro é alguma coisa além de arte-pelaarte . sem pensar muito. Tudo que estou dizendo. lembrança de um dia fugido que passei lá com ele. Nenhuma novidade em Juiz de Fora. O que não se modificará é a minha opinião geral. você me compreende. E como esta carta já está muito grande. Não é um livro estéril . como o pai. E que o casamento do filho. Página 82 . casando com ela. embora nada impedisse que ela adoecesse. que pode ser se modifique numa segunda leitura mais serena que pretendo fazer. esta semana. Mas do jeito que está a gente não fica sabendo direito se isto iria mesmo acontecer. trouxessem aos nossos olhos a lembrança do drama do pai. A Academia é um fantasma apavorante. O casamento então. francamente. não sei dizer. Te mando junto um poema do Hélio. e quem vai responder é você. principalmente em técnica. dando-nos a impressão de ligeira contrafacção. participa? Está aí uma coisa que. Fernando Não faça esforço ou sacrifício para me responder. sinto nele qualquer coisa de intimamente fecundo. Acho que tem mesmo muita coisa perfeita nesse livro. dá idéia quase de coisa "arranjada" para o livro dar certo. Mas. e estaria muito errado. E o Agripino Grieco. que ele me mandou de Belo Horizonte.

Os assuntos mais graves. preciso escrever pra você estas pequenas linhas de Natal. capaz de escrever sem esforço imenso de vontade e sem sofrimento imenso de toda a alma. capaz de ler. questão de ganha-pão. pudera! me permitiram sair da cama. bem disposto. os dados são muito poucos. Mas quero desde já lhe dizer que gostei muito do seu conto e muitíssimo da Poesia do Hélio. pedindo bênção pra cachorro e chamando gato de tio. careci reler uns escritos longos meus sobre Pastoris de Natal. seu Mano!Agora a frase acabou. e pois ontem até me sentei nesta máquina logo depois da janta. que horas eram?pois não vê que eram as. não é possível. é muito bom esteticamente. esse ritmo que vai aos poucos se inquietando e se quebrando mais e mais com o calor do estado poético de desespero pra alcançar no fim aquela série de versos ritmicamente destemperados. tudo ainda pode ser puro maneirismo de época e o Hélio o homempai-defamília que no tempo de estudante publicou um livro de versinhos pra sempre depois renegado. gozei e gozo isso mas de rolar no chão. E uma Página 83 . altas deshoras. Já este poema de agora gostei mesmo muitíssimo. si não é nenhuma opinião! Quanto ao seu conto. perdão! andei escrevinhando. sem dor-de-cabeça. estava mesmo chovendo e não podia sair um bocado. Paulo. estes são os primeiros dias deste ano em que sinto a cabeça levinha. Veja bem. seu Fernando. de amizade muito feliz e de princípio de principiar lhe respondendo a sua sucosa carta última. é o que eu já falei pra você: palavra de honra que acho ele uma perfeição. pra mim atualmente. sobretudo a graduação rítmica. O resultado. difícil de decidir qualquer coisa. como pode ser um poema ótimo de poeta bissexto. mas era de obriga ção. só conheço dele aquele outro poema de Mensagem que achei bonzinho mas um pouco perigosamente fácil. que será um dia grandepoeta: tudo isso pode ser E me dá uma angústia na barriga. dar um passeiozinho. Você está com um tal estilo. 158 159 você compreende. o resultado dessas horas nesta máquina foi uma bruta dor-de-corpo que me deu. Mas da mesma forma. de modo que quando tudo se acabou e as quatro páginas e pico do artigo estavam aqui. não consigo ter a menor opinião fixa . está claro. Mas quero. iii. leio. Mas eis os pontos principais dois. está ficando pau. escrevo. maneirismo de época. o ótimo instrumento de trabalho. levinha. porque tanto pode ser um fácil da essencialidade do indivíduo como um fácil mimetismo puro. 24-XII-43 Querido Fernando. só mesmo lá pelos primeiros dias do ano posso cuidar deles. Eu poderia mandar dizer tudo isto pra ele. estou muito fraco mas muito milhor. o material. como enfim pode ser um poema ótimo de um poeta ótimo. mas pra quê. das vinte-e-quatro horas. ôh! sem dor-de-cabeça. e resolvi escrever um artigo. penso coisa séria. colorido. a técnica enfim. de maneira que estou indo com muita sede ao pote. meu Deus. Mas agora explicar os meandros disto me obrigava a uma monografia que é impossível. Estou com uma dor de corpo danada. não saber mais nada que isso dele. Eu não posso ter uma opinião sobre o Hélio.pra quem viveu um mês deitado na caminha e imóvel ao possível.cartas-a-um-jovem-escritor S. que tudo quanto você escreve com trabalho honesto.

todos iguais a este como valor estético e artístico. Ai. mais digna de ser guardada que a lição do conto de você. é uma perfeição. e os casos. que eu aplaudo no seu conto e gosto deles? Arte é um fenômeno de relação. um formidável escritor.cartas-a-um-jovem-escritor coisa imensa. você faz coisas esteticamente excelentes. por intermédio da beleza) mais necessária. mas arte não é beleza só. também menos um caso (não tem importãncia) que um estado coletivo provocado pelo choque de duas psicologias que si não foram aprofundadas foram no entanto vigorosamente esboçadas e vivem como arte suficientemente.pelo menos entre dois indivíduos. excelentes do ponto-de-vista da beleza. então. em grandepartepOrqueo tem naturalmente por natureza (o que é um sintoma magnífico). e no entanto eu gosto mais do poema do Hélio que do seu conto. Mas não basta! Porque o estado que você nos propõe e revela neste conto. Mas não é tudo. si as suas obras são já agora esteticamente ótimas. E conseguiu uma delícia. com icidades etc. Tem nele uma intensidade. uma necessidade. uma fatalidadeque o torna artisticamente mais empolgante. como esteticamente já é ótimo. nem mesmo o leitor sabe exatamente ao certo o que está sucedendo (psicologicamente) e quem é dos dois seres chocados o que tem razão. está claro!) no artista nos revelar psicologias e os dramas. uma "lição" (a arte é sempre uma proposição de verdade. muito finamente observada e desenhada com muito fino senso artístico. E que a fraqueza de intensidade dramaticamente (ou satiricamente) humana do seu conto pode ser substituída pela quantidade. É tudo uma verdadeira delícia. um Machado de Assis. você será um grande contista. mas que dor no corpo. enfim. que é aquele estado malestarento final em que ninguém. essa relação consiste entre outras coisas (não posso enumerar tudo aqui. Você está me entendendo? Eu acho o seu conto muito mais perfeito que o poema do Hélio. não desleixe deshonestamente a obra-de-arte. neste conto menos aprofundando indivíduos que nos propondo. publicar cinco. não tem dúvida. puxa! Agora si você publicar alguns livros de contos do diapasão deste e o Hélio alguns livros de Página 84 . Não confunda: o seu conto é também artisticamente muito bom. com o seu estilo você. está claro. O conto de você é esteticamente ótimo. si é sutil. nascidos dessas psicologias e do choque de psicologias diferentes. isso não quer necessariamente dizer que elas sejam todas artisticamente ótimas também. o artista e o espectador. des que trabalhe honestamente. Deus me livre! Quais os elementos de arte. nos ensinar e nos propor também os indivíduos. si é delicado e difícil de observar e pegar bem o cômico delicioso dele não é sufi cientemente forte pra ser artisticamente ótimo. Na arte da prosa que é a que mais se aproxima fatalmente do pensamento lógico. um Maupassant. não estou negando isto. etc. Com o estilo que você adquiriu. E isso você fez. Mas agora entra a malvadez em 160 161 cena. como um Machado de Assis ou um Maupassant. Mas. é artístico sem contestação. Agora veja que malvadeza da vida: Si você. seis livros de contos. Quero dizer: sob o ponto-de-vista da beleza suas obras honestamente trabalhadas já são sempre reussidas.

com um fino sense ofhumour. até dois (Salgueiro) nada geniais mas excelentes. está divergindo. E ou não é verdade esta malvadeza da vida? Bom. Sim. E então a diferença de intensidade humana entre um e outro. não tem dúvida nenhuma. está concordando. mas muito bem mesmo. A vida podia ser tão boa.cartas-a-um-jovem-escritor poesias no diapasão desta poesia dele. da fome linda e generosa com que você está querendo ser e atrapalhara vida de todo mundo com a sua arte. pelo respeito que o Lúcio me merecia. Fernando era um temperamento delicado. E os estudiosos e os leitores dirão: Hélio era um temperamento violento. Fernando. que outro está chegando e que a gente vive. viver no gosto manso de conviver com os amigos verdadeiros. O caso do Lúcio tem sido uma das tragédias do. Paulo.. Estou vendo você. está discutindo. Tenho uma carta prometida a você sobre Dias Perdidos e o Lúcio. sarcástico. agora vou parar. você será um tão grande contista como ele grande poeta. não sei si diga do meu pensamento. será caracteriza çao artística. mas na certa uma das tragédias do meu pensamentear. Fernando. E agora viva a ternura! Estou lhe abraçando com o milhor e mais puro carinho amigo. nós podemos fazer bem boazinha a nossa vida particular. insuperável no revelar as situações subtis da psicologia humana. dramático. Mário 162 163 S. denunciando ótimas qualidades e o tipo da promessa em que a gente deposita confiança.. O livro é uma obra fracassada. É tão imenso isso. Quero porém desde já lhe afiançar que a minha opinião sobre o livro do Lúcio Cardoso diverge mas diverge abertamente da de você. si não voltou atrás (nem devia) buscou depois outro caminho que não era mais aquele atalho. Mas isso não basta. mas pelas credenciais dos livros anteriores. Se pode dizer que Luz no Subsolo é um atalho que levou ao Página 85 . nem os que garantem o Lúcio puderam defender nem sustentar o livro. pura perda. chega por hoje. mas guarde segredíssimo disto. Fernando. Nem Otávio de Faria. dando risada da sua inquietudice degestos. não por amizade. a minha tragédia principiou. Lhe explicarei o que penso na carta de janeiro. com um livro. pensando palavra que com muita comoção que um ano se foi. Nem o próprio Lúcio que. De vez em quando penso nele e vou pensando até que a insolubilidade e principalmente o malestar me faz aborrecer de tudo e meu pensamento muda de assunto. achando graça na sua cara. está tudo o que é intensamente glorioso na vida do homem indivíduo. Você faz esforço na sua carta pra defender o livro. o que era aquilo! Li o livro com atenção e principalmente com uma paciência enorme. está lutando. 2 -11-4 4 Fernando. em vez de ser valor artístico. meu Deus! Não tem dúvida nenhuma que ele principiou muito bem. o quê que hei-de-fazer!. ou si duma opinião apenas mais indecisa. Eis que estoura Luz no Subsolo. O que é o Lúcio.

pode ser pra pior). o Lúcio. E outra coisa. Porque a diferença espiritual entre Salgueiro e a Página 86 . Este não conseguiu se livrar de Otávio de Faria. Está claro: isto não implica rompimento de amizade e admiração pelo Otávio. O Schmidt tinha muita saúde. Não tem dúvida que uma análise 164 primeira prova um sintoma ótimo: Lúcio procurava aprofandar o romance nacional em sua capacidade de análise do ser e em sua profundidade de significado. traiu a missão. Aqui o caso psicológico do Lúcio e da "entourage" do Otávio de Faria se complica prodigiosamente. nenhum desenvolvimento normal de um espírito que se cultiva ou duvida e de repente não duvida mais. É estranho. Vinícius só poude se salvar. um dia resolve"se chegar". mas absolutamente nada. o terceiro e que eu saiba. Mas é que. de acordo. Nada denuncia em Salgueiro. aprincípio. se libertando totalmente do Otávio e vindo pro lado antivaloreternista da poesia. mas é incontestável: o Vinícius. Ora. pode também ser vaidade e mania de grandeza. não tenha se dado nenhuma evolução (já nem falo em progresso. mas apenas evolução que.cartas-a-um-jovem-escritor caminho novo. Mas uma coisa dessas.. então fico com muito pouca dúvida sobre a influência deletéria decisória do Otávio. a transformação que se deu depois.. o Manuel Bandeira que ele por vezes rastreou até conseguir a sua originalidade própria.filosófico. "estimando" mas com frieza. talvez. respeitando a gente de longe. Você repare: a mudança de "Luz no Subsolo" não representa nenhuma evolução nem de técnica nem de orientação nem de pensamento. financeira e si nao se perdeu. importa a significação. Eu desejava muito saber como e quando o Lúcio conheceu o Otávio. Mas não importa o valor do livro. não tem dúvida. ponhamos. e aqui é que está o âmago do problema: resta saber si o Lúcio tem 165 mesmo esse valor que o Otávio atribue a ele. que pode ser honestidade e esforço de trabalho. Livro pra dar que pensar. ou apenas está seguindo e realizando a missão. a mensagem que o Otávio deu pra ele epor isto é que este o supervaloriza. eu. o Carlos Drummond. é ou não é? E enfim. último caso. e você mesmo fala na sua carta que o Otávio insiste em que vocês. nada disso. assim como o valor-eternismo do Otávio o viciou. mas agüenta a mão efica da banda de cci. de Minas. a"mensagem" (oh!) que o Otávio dera pra ele. não dão ao Lúcio o valor devido.. e não posso decidir por mim. mas todos os escritores que o Otávio de Faria "garra" pra salientar. mas não impede que seja um atalho muito péssimo. Porque si foi entre Salgueiro e Luz no Subsolo. o antiestetismo do Otávio o prejudicou em definitivo. toma uns trancos logo de entrada. nem este é nenhum vil pra brigar por causa disso. O Vinícius foi integralmente um caso do que. Tudo isso seria ótimo.. ele ameaça prejudicar.

com a maior modéstia. pelo malestar que o caso me dá. sei que estou. eu sou maior que Goethe. de caracter urbano. vou dar descaradamente a pensar isto de mim! caso me imaginasse assim! Não tem dúvida nenhuma que quando eu estou criando. "profundo". o Lúcio me deixa inclassificável. não deixo por menos. sem a menor delicadeza de inteligência.cartas-a-um-jovem-escritor Luz no Subsolo éprincipalmente esta: Luz no Subsolo procura se afastar do cafagestismo do romance nacional contemporâneo. Mas isso principalmente é que eu tenho medo que o Lúcio represente: uma mania de grandeza. Eu e Goethe. ainda no cueiro. a mim me dá a impressão de genial. surgia com o Otávio. surge. Falo só no romance. não vou dizer de mim! nem mesmo siquer. eu acho muito maior que Huxley e outros. ruralista. estou fora de mim. com toda a razão. como e o caso sensível do Lúcio. Não estou depreciando ele não. era muito comentado na época. uma reação abusiva 166 contra o nosso complexozinho de inferioridade que era prejudicial mas que enfim tinha a simpatia de ser modesto. Eu e Aristóteles. gênio que pretendeu destruir Freud (Eu e Freud). pelo perigo de estar falsificando a psicologia do Lúcio de maneira depreciativa. que o Lúcio seguira nos livros anteriores). estar exagerando. inclassificável. estava ainda em caminho errado. limpando. surgia a corrente da Mania de Grandeza. eu faço todo o esforço pra ser maior que Goethe. e que o parente Tristão achava que destruiu Freud mesmo (não destruiu nada. valoreternista. de um dos maiores romancistas vivos). e quando acertou a mão. pois agora não me surge o cuja mulher fugi a de Sodoma com um romance que também não fica por menos* e ele mesmo. e o Lúcio. que Dante. Não tem dúvida nenhuma também que quando estou corrigindo. no romance. --* José Geraldo Vieira. do Modernismo pra cá (especialmente do cafagestismo nordestino. garantiu que não deixa por menos que Huxley e Morgan! Mas onde é que essa gente vai parar como sensibilidade de delicadeza! tem muita gente aqui no Brasil que. mas é de angústia raivosa. Desculpe. 167 porque. proftíndista. mas eu digo isso dos outros. e fazer obra (ah!)"universalista". O que o livro vem falando pra cima de moá é assim: Eu cá sou de Dostoievisqui pra cima. E então principiaram descobrindo um subsolo tão profundo que com outro mineiro (mineiro é cuera na mineiração mesmo!) Cornélio Pena se tomou tão profundo ou fundo que atravessou o globo terráqueo e foi parar no mundo da Lua. cujo romance"A mulher que fugiu de Sodoma". psicofilosófica. que todo o mundo. Agora não. 1931. Beethoven e Shakespeare. estetizando uma obra já criada. Mas antes Página 87 . bolas! Mas não era tudo (não passe estas minhas opiniões pradiante). e dostoievisquiano. Fernando.. universalista. cheio de intenções mirípiribirimirificas. eu.. com o Otávio. Eu e Proust.

antes de inventar meu assunto. mas que tem se prejudicado muito na aspiração vaidosa de ser excepcional. com saúde. de esforço intelectualpra descobrir motivos pra gostar ejustificar um livro. pois o Lúcio nem chega a ter estilo ruim como dizem do Otávio de Faria. E enfim atinge um mais modesto equilíbrio por ter feito um livro menos intencional. seria leviandade minha porque só lio livro uma vez. você ainda está muito puro em arte pra não se deixar levar pela melodia dos Dias Perdidos. é absurdo. O Otávio é muito superior a ele mesmo. talvez seja. Simplesmente porque não se pode ter. predetermina que tal filosofismo é profundíssimo. tendendo muitas vezes a torcer pra elogio o que na verdade é pejorativo (você fez isso sem malícia nem maldade. Está claro que não é 168 169 Página 88 . Um escritor romancista de bastante valor (engraçado. da poesia que dá o sentidérrimo de tudo. não devo. você gostou mesmo. e pré-faz a obra que vai criar. depois de criada a obra-de-arte e trabalhada esteticamente. nestes Dias Perdidos.cartas-a-um-jovem-escritor de criar. é quea minha obra. ele é o tipo do sujeito que a gente não pode chamar de"talentoso". Aliás acredito que não tenha sido esforço só. quero dizer predetermina que tem de ser profundíssimo. um tanto incolor. O milhor dos livros dele. se prejudica totalmente. Fernando. tal análise é profundíssima. Si tem muitíssimo valor não chega a se prejudicar porque a genialidade está sempre acima do indivíduo que a carrega. seu Fernando. não tem nada de brilhante nem de fácil como inteligência pessoal) talvez mesmo de muito valor. ninguém não tem culpa de ser gênio. Na verdade não existe nenhum domínio da língua. a verdade é que ele não tem estilo nenhum. antes de ter a tal de inspira ção eu não tenho a menor intenção possível de ser maior ou menor que ninguém. porque o que vai sair. coitadinha. si tem valor. E isso é o Lúcio. não impede que seja você mesmo a denunciar defeitos fundamentais do Lúcio. não passa de mínhazinha. Não vou criticar o livro. Mas a esperteza excelente das suas observações. o de que eu vou ter a tal de inspira çao não depende do meu conci ente. E então busca a excepcionalidade doprofundérrimo (Luz no Subsolo). o que eu verifico. Mas não completei meu pensamento: Si eu não posso ter nenhuma intenção possível antes. está claro:puro ato de amor). mas de vez em quando surge uma frase larvar de menino de grupo. do estranhérrimo (os livros seguintes). E quem tem. você ainda pode perder dias. Como éo caso. quem se predetermina iguala tanto ou superiora tanto por fazer a invenção desta forma. Da poesia valoreternérrima. uma boa dose de malinconia e outra boa dose de bom-humor. fui deixando e acabei não pegando mais no livro e não sinto a menor necessidade de pegar nele mais. do Otávio de Faria. me chateei definitivo efui deixando. É típico quando você afirma “um grande domínio da língua que nele não é muito rica. não consegui terminara terceira parte. simplesmente admirável de inteligência. Nem posso. mas ainda bastante irregular como fatura. sem exagero de genialidade. predetermina que só desta maneira a gente é profundíssimo. A sua crítica é. As vezes tem frases ótimas como ex-pressão integral do pensamento. mas muitíssimo bem aproveitada". si antes eu não posso ter intenção. Dostoievisqui continuou muito maior. Você reflita um bocado mais sobre o problema.

Porra também! cheguei na sexta página e ainda não principiei! Não quero fazer crítica do livro. obra que. que vem em seguida. não chega a ser estilo. Abra o livro em qualquer página. Coloque a mão no coração e responda: Não é verdade que diante da arte e do homem Otávio de Faria você ama. Não tem cor nenhuma! Não tem. gostosa ou desagradável. tem raiva ou dedicação? não é verdade que boa ou má. um valor impregnante que quando a gente faz um esforço e pega o livro. uma linguagem. Dias Perdidos é uma obra que se pode ler e tem mesmo. nesta minha carta e em você. Agora me fala uma coisa dolorosa: não é verdade que o Lúcio e a obra dele não são pedra nenhuma no meio do caminho de ninguém? não é coisa que a gente ame ou deteste? não é coisa que a gente perca muito tempo em defender nem em combater? pior: não é verdade enfim que. a verificação. reconheço. Fernando. mas você sem querer disfarçou com essa expressão que não é qualidade nem defeito. e vá riscando os lugares-comuns fraseológicos. obra e homem que a gente ou segue ou combate?. que como a criança balbuciante. a obra do Otávio é uma pedra no caminho de você como de todos. em língua. E o que é pior. o "um tanto incolor". simplesmente porque não é. Nesse sentido. você já é maior e tenente. mas porra! por representações coletivas.. respondo sim. O difícil é fazer novo esforço pra depois pegar no livro outra vez e continuar. não a mim. e não me perguntar como é que é. seu Fernando. Fernando.. Veja bem. de amor por seus amigos do Rio epor si mesmo. não é o lugar-comum que traz simplicidade. currente calamo. Ao passo que o Otávio. do homem que participa da vida e funciona nela por intermédio do valor estético que é a beleza). um estilo. si você fizer o primeiro esforço.cartas-a-um-jovem-escritor muito rica. E aqui chegamos ao que você me pergunta e e a única coisa que me importa neste caso do Lúcio. covardia de amor. E o pensamento inteiro que só se move porque tem amas ondas mecânicas movidas a gasogênio que fazem andar. Acho que enfim o Lúcio está chegando a um certo equilíbrio entre as suas desmesuradas ambições de escritor e as suas qualidades naturais de. simples. Ponha a mão no coração. modéstia e até vigor ao estilo. um pensamento que se move integralmente mecanizado. o Otávio não. domina você. como sucede com os escritores"áticos ". participa"? você me pede pra responder. também um fim. também um representante duma civilização.. de expressão de pensamento e você verá que o Lúcio não pensa por si. claros. isso basta. é coisa balbuciante. tem coisas ótimas ao lado de mais freqüentes coisas sem a menor integridade expressiva. se irrita. escritor. por meio de lugares-comuns. e esta sim é defeito grave.. o que me interessa é que você se coloque o problema pra sua integridade de artista (não de ccesteta mas de "artista". autor da "Marca". nem que seja pra detestar ainda mais e ser mais contra ele. não me interessa que você me dê razão. você detesta o que ele representa e não pode largar mais dele. duma coisa que se acaba. leva a gente até longe. ele agarra você. já deve responder às suas dificuldades morais por si mesmo. mas ser rica jamais foi qualidade em estilo. Covardia. Mas estou brincando. duma classe. que toda a gente confere que o Lúcio é um bom sujeito? Da mesma forma como das moças Página 89 . também. com a maior sinceridade de sentimento de que você for capaz e responda a si mesmo. Até que ponto a gente pode dizer que ele (Lúcio nos Dias Perdidos) funciona.

Não imagine nem de longe. por exemplo. eu também sei. O Lúcio acaba de elevar o nível do romance dele. é mesmo frouxidão. Depois acabo. todas as esquinas da vida como do pensamento pra nofundo explicar. e eu não vou atacar ele. profundo. uma desoladora incapacidade vital. Mas como eu no fundo sei que apalavra bruta é uma apenas larvaridade de síntese. ficarão indignados comigo! Você está vendo bem como ele não participa? É que pra gregos e troíanos ele não passa da "moça simpática" que nem zanga por a gente não dançar com ela durante um baile inteirinho. Você já viu certos rapazes das classes inferiorizadas. uma puta deporta aberta. mas é sobretudo outra coisa. da minha vontade de ser honesto pra com o valor dele.cartas-a-um-jovem-escritor feias a gente fala que"coitada. e que saem nos domingos a noite. que ele reprincipiara noutro lugar com"Luz no Subsolo". A gente lê. por Dios! O livro do Lúcio não adianta um isto em coisÍssima nenhuma. gigolôs. porque. éa mesma incapacidade vital que os faz criadores. Indica apenas que tudo isto me chateia muito. todos os sofismas. Veja bem. cheio de dignidade estética. Fernando. porque até os que estão do lado oposto ao dele. já éputa de apartamento. é um "esforçado". expor uma cova rdia. indique o menor menosprezo pelo Lúcio. do certos outros anjos .. Esse é o vício que o Lúcio ainda representa pra nós. criadores da divina eparanóica Beleza. Vou parar. mais doloroso mas igualmente infecundo dum escritor"bien". Mas esta"é um bom sujeito". é Página 90 . meio enjoativamente que "coitado. é sobretudo uma enorme. Dias Perdidos e toda essa melodia passiva que se esconde em todos os desvios. louca de vontade de ser inútiL E é o caso de você. Com "Dias Perdidos" ele chega enfim a uma solução inofensiva mas satisfatória. que a aspereza das comparações e dos juízos. o gênero e o nível de "Dias Perdidos" já não é mais. eu sei. Eu. uma certa dignidade me impede a masturbação total de burguesice que seria ler. Anatole France. semimasturbação semi-erudita de semi-burguês. é um bom sujeito". provar. Pra quê! meu Deus! pra quê!. Isto épuro problema pessoal meu. O Lúcio. tenho que ir no médico efaz hora e meia que estou te escrevendo. não épedra no meu caminho não. desgraçados e desgarrados. que. Vou falar nisto aqui pela última vez com você.agente Lúcio como de 170 171 confere. a não ser na personalidade de escritor dele.. e que o caso é mesmo isso. A gente diz uma palavra bruta: são frouxos. não há contradição nenhuma no problema interior danado de malestar que o Lúcio me causa. é a incapacidade que os fez artistas. pode ler por vício. de mão no bolso da calça acariciando o pau? Uma certa dignidade impede eles da masturbação total. Nesse gênero de arte que também é uma venda de corpo para o prazer. mumbavas. não indica. É como no caso dos diez caballos com que o espanhol saiu de Salamanca: Para nada. Enfim: "Dias Perdidos" são mesmo dias inteiramente perdidos.. meu Fernando. fica com a mesma cara. porque o Lúcio é um bom sujeito coitado".. sem dinheiro pra cumprir o chamado. ao menos pra mim. Então ficam nessa semimasturbação dolorosa e indiscreta. eporisso eu me semi-masturbo no gozo mais sutil. Não quero mais que conversemos sobre isto. que os faz não-participantes. é tão simpática".

fazendo o possível pra envenenar. um Cassiano Ricardo. meirmãozinho querido. a aconselhar a você uma tomada de posição que iria pôr você imediatamente em oposição com tudo o que perfaz você. Acho muito penoso e difícil você conseguir uma singularização do seu plural que te e me satisfaça. até o dos inúteis "bons sujeitos". com a família de sua noiva (não com ela. Você é muito solicitado pelo prazer e a facilidade da vida. mas não será nunca por aceitação nem consentimento. está claro. amargamente e chochamente insolúvel. mas lhe indicar diretamente só pra você. pra tornar bem apodrecida esta coisa que está por ai pra que estoure duma vez. Tanto mais que. pra enfraquecer os "donos da vida". eu creio que sempre hei-de querer bem você e sentir prazer na sua presença pessoal. um Getúlio e coisas assim. mais covardia) indicar os seus caminhos de homem isso é muita responsabilidade pra mim. cor-de-cinza. e faria da sua vida uma coisa sempre. lhe darei tudo o que tenho. Mas como eu me inquieto por Página 91 . o estético que você. É geral e não pra você em particular A não ser que você se tornasse odioso. me esforçando pra ter mais do que pra mim. A menos que não fique rubra duma vez . que estou fatigado. vai tornar a vida um inferno de sofrimentos. Você sabe o meu pensamento qual é. são e é. enfim. Você sabe muito bem que o meu pensamento. um ministro.cartas-a-um-jovem-escritor excessivamente doloroso e responsabiliza ntepra mim. os seus caminhos possíveis de homem-artista (não separe o homem do artista. mas não penso apenas: faço. com sua família. Você. outra cobertura. eu já quero tanto bem você. é outra safadeza que andam fazendo. você já está de tal forma dentro da minha vida que eu acho impossível a gente se detestar e mesmo se separar. sei). Que discutamos as estéticas da arte. mas não perdôo. si espiritualmente pode ser um descanso. em oposição e luta com seu passado. você sabe o que eu sou. Fernando. Chega de falar Chega de falar mesmo. tudo me levaria a indicar. tantas inquietações. Acho difícil. tantas dúvidas. De-fato você é tão solicitado pelo ambiente altoburguês que perfaz você. a sua vida particular. E martírios mesmo. a alma vai difícil. Mas não sentirei talvez prazer na sua presença espiritual conforme o caminho que você tomar. vamos parar com estas conversas sobre a "participação" do artista. o homem. Você deve ter lido minha entrevista nas Diretrizes. Poderei ficar calado. conjuga o verbo "tudoamar".o que si intelectualmente pode ser satisfatório. Então.. sempre insolúvel. que não sei como você vai ajeitar isso tudo. meu Deus! só repetindo o que falei ao Alphonsus outro dia: eu compreendo. Epor seu lado é muito sensuaL Mas. o corpo vai bem. deve ser talvez um engano da saúde que está voltando. Há-de serporperplexidade. Não imagine não que eu seja tão áspero como esta carta parece. você deve saber o que ando escrevendo.. o artista. epor outro lado você é tão sensual no gozo da vida e ama tudo. tome o caminho que tomar. onde estou e o que penso. desde o"Movimento Modernista" até o prefácio ao Otávio de Freitas Junior não pode mais implicar condescendência. você sabe. a sua vida pública. outro 172 173 disfarce.

Mas o caso é que com o tempinho que tinha. relendo a frio o que escrevi. ou prevenir com alguma antecedência quando vem. Mas agora que a coisa não está quente.mas quando é pra ceder um milímetro de sacrifício. não imagine isso de mim! Nada daquilo. me desculpe. a do dia 2 do mês passado. Eu estourei mais foi contra os"sujos". Ando precisando ficar pálido e desmerecido. si os exames forem satisfatórios: farra. mas questão de semana por lá no máximo. reconheço. não pus nela como estou fazendo agora. parece que se refere a você também! Por favor. Si pensou. que não me lembrava mais do nome. honra. 8-111-44 Querido Fernando Sou obrigado a lhe escrever. Si você ficou ferido. Lhe escrevi uma carta dia 2 do mês passado e faz dias que principiei ficando inquieto porque você não me respondia. glória. dignidade. aí. Princzalmente com as duas páginas finais. 174 175 Sentifalta de você.. Não recebeu ela e está esperando? Recebeu e se feriu? Porque pensei agora em lhe telegrafar mas como tinha um tempinho. mas tenho só 15 minutos. No momento reli a carta e não percebi isso. Não achei e mando esta pra Belo Horizonte. ainda querem querem querem! querem pra si o título de mártires e de heróis! decerto sou eu que não me conformo com o ser humano. Si é de-verdade que você pretende vir a São Paulo mande dizer. reli minha última carta pra você. de estouro"em geral". até saúde e amigos "do peito". riqueza. digo por vocês moços! Tem sido uma coisa dolorosa. o que me deixa por completo incompetente é ver como tem pessoas nesse mundo que acham que estão indo direitinho e se satisfazem com pouca coisa de si. como já andam percebendo. percebi logo que era muito possível você imaginar que se tratava de você também. virtude. fico com vergonha. foi muito. não pense mais. Mas o que me assombra. Paulo. Mas entrei no terreno da confidência. quando o Murilo Rubião esteve aqui. que como eu não tomei o cuidado de dizer que aquilo não se referia a você. coisas do SPHAN e. Querem tudo pra si. quando não dirigido pessoalmente. decerto em princípio de março. e me assombrei com a aspereza dela.cartas-a-um-jovem-escritor vocês! pelo Lúcio não. que nao me expressei claro. tudo. Eu estou com uma viagem ameaçada pro Rio. se refere a você. E eu estava sobretudo furioso com um Página 92 . não tenho jeito pra rosto com sangue. não vale a pena.fui procurar nas suas últimas cartas qual o seu hotel. posição. só dolorosa? mas não vale a pena falar. Sou obrigado a confessar: a carta foi principiada no dia dois mas não sei em que dia acabei. por causa da pureza da minha intenção. a culpa foi minha. Do seu Mário S. felicidade no amor e no jogo. o que não é nem de longe o seu caso nem você.

Acabo de receber. 23-V-44 Meu querido Fernando Estou despeitado mas vamos ser razoáveis. E a resposta foi que já tinham mandado um aéreo comunicando que não havia mais passagem pro dia 5 nem pro dia 9. mais ilustres e mais martirizados. esperei na Companhia que telefonassem pra lá. que agora acaba de ser negada. Isso. um telefonema da Panair. Você não imagina como eu me senti feliz com o seu desejo e como tudo se completou maravilhosamente quando conheci Helena. dias em que escrevi aquilo tudo! Ponha surdina. que pedi passagem pra Belo Horizonte. dia 17. de Pernambuco. Eu sinto que não devemos insisti. E isso se faz em nome da Arte Pura que não tem culpa dos coitados que a infamam! Morri de ódio desesperado. são onze horas. Só ontem. em principal. Desde quarta-feira passada. e com razão. indo todos os dias lá. neste momento em que os chineses são um dos povos mais dignos. Eu tive dela uma sensação tão grave de segurança. não me convém aceitar. de naturalidade de desartificialismo 178 179 Página 93 . Paulo. Nunca vi tamanha insensibilidade intelectual. Pra quê insistir num malestar que. num caso puramente social como esse. nem via Rio. tanto mais que essa minha paraninfagem não iria satisfazer muita gente. como você vê. Daí. avisando que não há mais lugardeavião pra mim. como eu estava áspero. sempre reservadas. você já sabe os porquês. pois foi ele quem pediu. Era incapaz disso e não havia razão! Com o abraço do Mário Quanto ao livro do Lúcio não sinto razão pra modificar minha opinião. Quem fez foi o Antônio Rangel Bandeira. o meu estouro. intitulado "A criação de Chineses". Meu secretário é testemunha. como não recebiam resposta de Poços. S. Só havia ainda a esperança de seguir via Rio. se preservando mais íntima e nossa. eu tenho que desistir de ser testemunha no casamento de você. Estou na mão. só pode ter uma satisfação o seu tanto obsessiva de nãomimportismo? Eu creio que a satisfação será muito mais perfeita. Mas só a opinião.cartas-a-um-jovem-escritor 176 177 dos defensores da arte-pura que publicara então aqui no "Estado" um não-sei-o-que meio surrealista. Não zangue comigo não e me escreva logo uma notícia falando que não está ferido. assim como quem faz criação de gado ou de galinha. Fernando. E o recurso de me servir duma das passagens oficiais. pro dia 5 ou 9 de junho que são os dias de avião daqui pra lá. mesmo pra nós. palavra. Eu não quis ofender você. Santo Deus! como eu devia estar "zangado" o dia. na Panair.

Poucas pessoas sabem. a carícia que Helena me fez aceitando. alguém mais consentâneo com as exigências do mundo. Sou uma besta. Depois. Do mundo exterior. Ser testemunha do seu casamento. seria apenas uma vaidade minha. e bem temerária. Mário Até que enfim. mas também fui bastante castigado que fiquei sofrendo e com o desejo esperdiçado. do seu convite amigo. mas estes danados de complexos que entorpecem a gente. arre! Com um abraço pra vocês dois do M. como vai Helena? Aquele dia do telefonema fiquei triste dela não vir me dar uma palavra no telefone. Não haverá desastre e vou mesmo. abusando da sociedade. fiquei safado comigo porque não pedi. como a trindade dos mistérios. dois críticos* perceberam que "A Marca" era uma marca mesmo. não pedi. me atirando num trem sacudido de trinta horas inteiramente desaconselhável pra minha úlcera que exige repouso. Épra avisar você que vou mesmo em setembro pra Belo Horizonte e só não vou si suceder algum desastre. Vamos evitar tudo. aqui. A obrigação era minha e esse seria o meu prazer. quis pedir mas hesitei. ardente. e só aí no Rio. outubro e Página 94 . Não acha mesmo? Um abraço afetuoso pra Helena epra você toda a felicidade deste amigo certo. ardendo. Não beberei mas pretendo viver de-noite. a minha felicidade amiga. sou uma besta.cartas-a-um-jovem-escritor e foi assim como si eu a conhecesse desde o princípio do mundo. e Lauro S. tudo isso o mundo exterior não poderá nunca destruir E guardaremos a nossa trindade. *Em anexo. Estou fazendo fosquinha em você com Helena pra ver si vocês criam virtude e vão também. quando a coisa é inesperada e não dá tempo pra raciocinar e reagir. Si não forem brigo por dois meses. o seu desejo amigo. Paulo. Mas hoje não épra carta não. 13-VIII-44 Fernando Primeiro um abraço prá esposinha. recortes de jornais com as críticas de Lívio Xavier Escorei. Procure entre os seus parentes ou de Helena. Não preciso de mais. Mas eu prefiro acreditar em Deus a mepôrà disposição do acaso dos desastres. Vai ser uma delícia de pelo menos uma semana de noitadas com o pessoal. é como acontece mesmo. Hoje eu sei que dependerá só de você preservar a felicidade da sua casa e a companheira admirável que encontrou. O nosso mundo.

mas por necessidade vital de esclarecer. E nesse caso eu ia daqui voando até o Rio e partiríamos daí no mesmo dia. 27 de Novembro de 1944 Querido amigo Mário. Si não forem de aéreo. tenho outros compromissos aqui. Não sei por quê. nesta carta que será longa e arrancada a força . tanto faz ficar doente no princípio como no meio de setembro. estou para ser pai. Mas alguma coisa ficou: o mesmo jeito de ser. etc. estou forte e me acham gordo. "pra tratamento da saudinha". cuja resposta eu adiei por uma porção de coisas exército. si possível partir dia 180 181 um daqui. Um beijo pras mãos de Helena e guarde o abraço deste Mário Belo Horizonte. e no entanto ir adiando. sou metódico. e estou perdendo. Como tenho que pedir licença no Conserva.. Me responda o mais tardar até dia 20 próximo. Carta importante. Porque positivamente eu não posso te perder como amigo. Depois vieram outras. que estabelece a relação entre nós. prefiro hotel que é muito mais cômodo pra mim e livre pra todos. Honestamente. e é porisso que estou fazendo esta violência em te escrever agora enquanto minha mulher dorme. mas ferindo te faça me escutar. tanta coisa aconteceu! Você que escreve cartas sabe como é insuportavelmente desagradável a gente precisar responder. Foi o que se deu comigo. mudei de idade. Precisa ser no mesmo dia pra evitar as dzficuL dades de hotel aí. podíamos até combinar pra irmos juntos pra disfarçar o sofrimento miúdo da viagem na Central. Me escreva com urgência respondendo si vai e quando prefere ir. No fim já não posso mais.cartas-a-um-jovem-escritor novembro. esta carta deveria ser a resposta de uma que você me escreveu faz hoje quase um ano. Eu prefiro logo no princípio. por causa justamente da importância da resposta. Só falta marcar a data e isso pode depender de você. Só espero resposta até esse dia pelo correio da manhã. de residência. Quanta humildade eu precisava ter.para que ela não te fira apenas. Vou de trem. Violência contra meu estado de convalescente de uma operação de apendicite há 8 dias atrás. quando eu estava em Juiz de Fora. e você está se negando a me ouvir. quase de madrugada. de emprego e de idéias. manobras. Não gosto de me hospedar na casa dos outros. acho que agora agüento melhor. que eu preciso de VOCê. etc. Si não vier resposta vou nesse meidia tratar das minhas passa gens. Casei. 1. você queira ou não! Sugere comunicação. e violência maior contra o estado a que as coisas chegaram entre nós dois. desperta estima. delicadeza. mais do que minha. mas épeta. Por culpa sua. não por dever. Página 95 . primeiro de setembro.

já me convidando para o banquete. numa certa época. Na janela do Hotel. está tendo para comigo apenas uma cordialidade convencional e bem comportada. talvez você não saiba e nem eu mesmo sabia. de sua obra. embora você hoje talvez não acredite mais. não responde às minhas cartas. vivo e capaz. que tenho eu com isso?" A verdade. escrever artigos. que a razão de tudo isso residia em mim subconscientemente. Você me conheceu um dia. No entanto você apenas me deu um tapinha nas costas. de sua úlcera no estômago. "sabido" e disponível. de me mostrar o perigo. sem me entregar nem me vender à vida. você me dava conselhos. e apesar de todos os desencontros. pura e simples amizade de menino. Quando falou que eu evitasse colaborar muito em jornais. e em vez de coisas duras disse palavras bem pensantes e cheias de amabilidade. de seus outros amigos. 184 as coisas estavam acontecendo em mim. enquanto outros tramavam ao redor. Este tempo todo em que estivemos afastados. não sei se você se lembra. para você. de sua própria vida. o meu silêncio e tudo mais. Mas eu sentia nas suas palavras meio procuradas que você se movia num terreno perigoso. fazendo estágio. evitar muita conversa Página 96 . irmão mais velho. mas a minha intuiÇão é de que você está desistindo de me ajudar. Era a hora de você me sacudir pelos ombros. que te assustava pelos perigos que ele corria. Era essa terrível certeza de que você já não está me reconhecendo mais. traições e ciladas que os meus tiveram e continuam tendo.cartas-a-um-jovem-escritor 182 183 Mário. que você bem sabia que eu aguentaria. de começar a vida no Rio. você acha que escapava? Pois eu estou escapando. num outro plano. numa conversa que tivemos no Rio nas vésperas de eu me casar. para você eu já não era o mesmo. aprovava minha decisão de me mudar. e você já me disse coisas duras que eu aguentei. e era a amizade que eu tenho por você. Então eu te digo que não me perdi como você temeu. Você certamente dirá:"a que propósito vem o Fernando com uma carta assim? Ele não me escreve. às mesmas solicitações. você era para mim um meninão companheiro de brincadeiras. Mas algo me impedia de te escrever. é que esta carta não devia ser assim. foi arranjar sarna para se coçar. ao contrário. o plano evasivo da relação de amizade apenas convencional. etc. Se você nos seus verdes vinte anos fosse sujeito aos mesmos golpes. me perder em rodinhas de café. Caí em definitivo. mas que você se dispunha a ajudar. Quando me encontrou de novo. no Rio. meu amigo. o mesmo. cuidou de suas coisas. Mário. era e é meu amigo. me dizer coisas duras. a-pesar-de tudo eu ainda estou aqui. dar entrevistas. eu estava pensando que você queria dizer era que eu evitasse de me esbanjar. você percebeu. Estando eu em Juiz de Fora. como continuo agüentando. toda essa coisa por onde um escritor se lança num determinado centro e se compromete. Mário. está com a vida diferente. em vez de mostrar o perigo você fugiu. em que tanta coisa me aconteceu. num mar de escolhos. Você conhece demais o Fernando Sabino de 20 anos. responder"enquetes". uma coisa amadurecia em mim.

não sei. com outra. De repente.todos esses perigos comuns aos provincianos que chegam ao Rio. mas a verdade é que eu me senti orgulhoso.Você sabia ter eu desassombradamente (é a palavra certa) afrontado tudo e todos. que só mesmo porque te quero muito bem é que tenho forças para exigir que você não se cale mais comigo. impossibilidade absoluta de comparecer . antagônica. sem coragem de dizer. o que realmente é e não poderá deixar de ser nunca. porém. Mário. perdendo sua confiança em mim. Tudo isso pode parecer bobagem. por uma causa que você achava justa. por pouco não deixei de vir a ser genro do Governador. por um amigo que você achava certo. porque não é verdade. Não agüento e não admito é que você não diga.cartas-a-um-jovem-escritor fiada . Você pensou isso e não teve coragem de me dizer. Mário. fraqueza. Então foi por fraqueza que você não se serviu de uma oportunidade daquelas? Era uma oportunidade que você tinha.achar que eu estou errado e não ter coragem de me dizer. Uma única coisa faria sua ausência justificável: algum problema de última hora. a coisa mais dura que você me disser eu agüento. enfrentando em público a causa que o Presidente da República representava. a explicação que você me deu em carta é das coisas mais melancólicas que tenho visto.* mas o meu seria um ilustre opositor dele chamado Mário de Andrade. Mas disse que não iria porque não tinha força para enfrentar as injustiças e os mal-entendidos dos amigos. você. Fique certo. prevendo um desastre e querendo adiar. Naquela nossa conversa no Hotel você talvez sem saber estava me dando por perdido. Oportunidade de topar uma parada.e não apenas tédio. Pois então fica decidido assim: para Página 97 . para não me comprometer. Você sabia que eu não ia te expor e depois tirar o corpo fora. preguiça. te apresentar ao ditador como um fiel admirador dele. Você tinha medo que eu escrevesse coisas que estaria pensando. injustiças e malentendidos. Eu ouvia suas palavras com atenção. e não venha me dizer que por fraqueza é que você não aproveitou. No entanto. Com isso eu não pude concordar. fique pensando como daquela vez que é melhor remediar. E te digo mais: compreendi perfeitamente o fato de você não ter comparecido ao meu casamento . arrostar tudo e todos. pode ter certeza. adiar um pouco . Você estava querendo me dizer que eu evitasse complicações. embora sabendo e você também que eu já não corria tanto perigo. que você representa. finquei o pé. O páreo foi roxo. idéias levianas que eu já teria aceitado. No entanto. timidez.você sabe muito bem que eu tenho compreensão e conhecimento de você para interpretar corretamente aquilo. não fui simplesmente porque achei chato e tive tédio. me convenceu que você não me poderia mais ajudar porque não tinha mais condições. envaidecido te convidando. Helena e eu. percebi que você estava querendo dizer 185 outra coisa e sem jeito. Disse que seria o meu padrinho apenas entre nós três. Porque eu não posso acreditar que você não me soubesse certo. e eu amo minha irmã como a gente ama as irmãs. Mário. amigos e inimigos. e te contando que eu tivera a coragem de mandar dizer ao Getúlio Vargas que ele podia ser o padrinho de minha noiva. eu também não fui ao casamento de minha irmã a um quarteirão de minha casa.

quantas vezes! Na Praça. no dia 12 de outubro de 1944. e mansamente mergulhei no que devia ser a minha própria razão de existir: a fé em Deus e a esperança no Cristo. bem empregada. Tudo isso foi o que constatei mais uma vez. Por este amor vou de encontro a tudo. Tudo mais decorre disso. Creio simplesmente que todos os males existem porque os homens cortaram as amarras que os ligavam a Deus e traíram a palavra que o Cristo lhes veio trazer. e me encolho de vergonha por não ser um santo. E no entanto. as costas doendo. navegando num mar de bostas (desculpe a pornografia. puxar angústia. no bar do Trianon com a minha turma. Os homens estão mortos. então Prefeito de Belo Horizonte. e só com o Cristo eles podem renascer da morte. mas de melancolia. querido Mário. Conversei com eles sobre você. botei as coisas nos lugares. Porisso.cartas-a-um-jovem-escritor mim. Na hora que li a sua carta recusando o convite. Depois me veio uma serenidade larga. Estou em Belo Horizonte. procurei durante horas seguidas de silêncio e solidão atingir um desapego e uma humildade absoluta. O Murilo Rubião te representou --* Também acabou não comparecendo . até mesmo da Igreja.foi representado Kubitschek. Preciso atingir a humildade que me falta para poder amar Página 98 . desde o meu livrinho de estréia. é cheio de emoção que eu te escrevo. para instaurar no mundo o reinado do pobre. a mão trêmula no papel. Eu existo. É nisso que eu creio. Me recuso a aceitar qualquer outra verdade que me queiram impor. já meio sem força. que nós falávamos.você descendo a Rua da Bahia. com um vastíssimo exame de consciência. tenho fé no Cristo. o Paulo e o Otto contavam.. chorei como um menino. descrevendo tudo noite a dentro. no banco onde vocês conversaram sobre mim. com a barriga cortada doendo. carregando o corpo como um fardo. eu escrevo. era um amigo que eles tinham e que eu quase nao tinha mais. Decidi então adotar com você todos os bons princípios de uma amizade convencional e bem comportada. no íntimo. Os casos seus que o Hélio. outra fórmula que não o amor. heim seu mano". E não aceito do mundo e de suas instituições. Mário. senti inveja. eu vivo. se esquivando. por Juscelino 186 187 condignamente. meu sentimento não foi de revolta. "Que vida mais caningada. como estou gozando esse pessoal! Como eles hoje me respeitam porque eu não soube respeitá-los! No dia de meu aniversário fiz uma coisa que foi como arrumar uma estante desarranjada. você veio. E quando me vi assim desfolhado. Mário. venha de onde vier. Olha. Você nem queira imaginar como me senti quando cheguei a Belo Horizonte da outra vez e dei com a cidade cheia de sua presença na minha ausência . tirar os livros todos e depois ir botando um por um no seu lugar. e o mais engraçado é que esse seu verso ficou como uma chave para trazer você para junto de nós numa tristeza doce. Trancado sozinho num quarto. no caso). eu morrerei por amor a Cristo. Mas pensei no quanto você já me ajudou. hospedado no Palácio da Liberdade. os olhos cheios de cansaço.. eu fiz 21 anos outro dia.

Em nome de nossa amizade. e praticava gestos. devemos deixar pra trás aquele nosso passado que principiou no dia em que Você me convidou pra ser padrinho do seu casamento. com muita grave calma. ter filhos. que nesta carta mesmo você prova ter interpretado. dizer alguma coisa de útil. apesar da letra infame. Eu creio que antes de mais nada. livremente. Toda e qualquer recusa será covardia. morrer por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. até agora. levados por não sei que esquecimento da verdade. eu é que desistirei de você. viu coisas que eu não vi. porque nós nos queremos realmente bem e eu vejo que você também. É fácilpra nós dois deixar essa nuvem de lado. tão delicado e a sua carta me deixou tão cansado Fernando. andar. não desista de mim. E criar por amor. porque seria tirar cópia e não quero ver mais esta carta. nem um momento siquer. eu tive quase sempre os olhos ümidos. se julgam no direito de interpretar os gestos e as palavras do outro. viver. e muito menos pelo que eu sempre fui pra com você.ficou indiferente Mas. como eu. mais uma vez eu constato que essas nuvens entre amigos verdadeiros são feitas de malentendidos. O que eu tenho a fazer pode não ser importante.cartas-a-um-jovem-escritor plenamente. a não ser para mim. e não pelo que o outro é e vinha demonstrando sempre que é. por si mesmos. Com um abraço da mais pura amizade do sua Fernando Escrevi a mão. tanto mais abomináveis que são os mesmos dois amigos que se querem. ainda preciso de você. Você sabe coisas que eu não sei. Eu lhe dizia palavras. 3-XII-44 Fernando Acabo de recebera sua carta e lhe respondo-á. Será talvez possível ao menos você imaginar que lendo. Espero que você não tire mais o corpo fora e lave as mãos. mesmo afogado no mais escuro dessa nuvem. que permanece e permanecerá inviolada. Não querofalhar mais esta vez. te peço que não me 188 189 recuse mais sua palavra. mas tudo o que eu tenho a dizer é tão difícil. Mário de Andrade. Então. Paulo. por sua própria conta e risco. e não te dispenso. escrever. Não tem importância e Vamos a ver si épossível i sem ímpetos dispersivos. que ela me dói. tentado a 190 S. não é a primeira vez. Página 99 . não apenas pelo que eles diziam. os únicos culpados desses malentendidos Porque ambos. Fernando.

basta apenas você lembrar os nossos trinta anos de diferença de idade eposição. Mas as suas interpretações foram falsas. de estilo de vida.cartas-a-um-jovem-escritor Tanto mais que nesta carta ainda você reconhece 191 eu tantas vezes ter lhe dito coisas duras. Sempre no meio das minhas mais destrambelhadas franquezas. diante da sua insistência. Agora você não era mais o escritorzinho dos grilos. a culpa das nossas culpas será minha. até veemente. Não terá importância ainda. eu juro. a sugestão da recusa. quem me deve carta é você. mas no convite que você me fez foi tamanha a insistência que você botou em que eu conservasse toda a minha "liberdade" de aceitar ou não. Pouco importa si desrazões. Não vale a pena esmiuçar. pouco importa si inconcientemente ou não. Eu me retraí por"minhas" razões. mas eram tais os desencontros desse desejo com a realidade prática e pública do seu casamento. que não queria que eu tivesse a mínima chateação. a aquisição de um oftcio e a transformação de função. foi porque eu chegara à convicção de que você preferiria que eu recusasse! Hoje eu sei que não foi. Então recusei. e foram tantas as vezes que você repetiu coisas desse jaez. Ambos fomos puerilmente culpados. Pelo menos a mim era. Malentendidos. Você está vendo? eu posso agora lhe pedir perdão de um sentimento errado. Duras pra você. Mas você não foi o único culpado. lhe escrevi desistindo de apadrinhar seu casamento em público. Mas eu nunca desejarei a você se ver na conjuntura abominável em que eu me vi. Fernando. mas tinha uma Marca que na minha opinião firme é uma obraprima. Tanto na vida como na arte. Tínhamos que começar uma correspondência. si culpa existe. eu também. mas que isso. Tínhamos. porque a sua carta permite. e com razão. quem devia começar essa correspondência era eu. mas: e o outro amor da sua bigamia? Mande contara idéia do Página 100 . Veja bem: nunca me passou pela cabeça e muito menos pelo coração. talvez sim. que eu iria me encontrar com pessoas que me desagradam. o passado não tinha sentido mais diante da realidade. a felicidade justa de um amor realizado. que eu senti em você. eu sabia. Você se retraiu por suas razões. Sempre de vez em quando lá vinha um telefonema de camaradagem. no caso. Mas nisto eu ganho de você numa vitória talvez escandalosa.feito. não que continuar uma correspondência. eu sempre sube interpretar como um sentimento mais profundo que camaradagem da sua parte: onde sube ver a dificuldade de retomar uma correspondência depois do trompaço vital de um casamento. Desejou sim. E pra ser suficientemente modesto e deixar você horrorizado. haverá sempre uma reserva. duras pra mim. vagamente. de invocara minha liberdade em recusar. E. Mas porque culpados? Aqui. e intelectualmente mais fácil. como é que é? Isso de amor é muito bom. apenas lhe mostro mais este malentendido: Si nem bem chego a São Paulo. desejou de coração pe. a mudança de cidade. por suas palavras. Mas eu nunca deixei de lhe responder a uma carta. Fernando. Foram exclusivamente suas. que eu senti você mesmo sentir preferível que eu recusasse. que você não desejasse que eu fosse padrinho do seu casamento.

Há nesta rua Lopes Chaves um ridículo homem que chegou à convicção que neste momento culminante da vida. o quase trágico da minha situação! Pois você não pode então imaginar que. numa retirada nada"estratégica". toda arte é pueril. mas apenas me ultrapassar): você se esquece que tem gente suficientemente vil. apesar de não ter disfarçado a humilhação da minha altivez numa carta fácil. todo indivíduo que não se sacrificar totalmente pela vida coletiva humana é um canalha. prova. De que resultou a sua carta. Fernando. gravemente. É uma conciência. que tinha o direito e o dever de fazer chegar isso a você. Porém antes de continuar deixe eu lhe estadear minha vitória escandalosa: apesar de toda a minha reserva. osprimeiros a não me perdoarem de mim. esse será mais ou menos o vago pensamento censurado. Há uma convicção em luta com uma conciência da realidade. Mas: e o outro amor da"minha" bigamia? E a reserva? Agora. pra publicar e assinar que eu sou Drácula me alimentando com o sangue dos moços? E você se esquece que. A conciência é que é clarividen te. Não se trata de condescendência nao. me rebaixei (a sensação era essa. nem de piedade. ou pouco menos. são incapazes de comprovar por sua própria psicologia.cartas-a-um-jovem-escritor seu livro novo. deixe eu tera coragem horrorosa de afirmar: Nada prova. eu não consigo justificar isso com um exclusivo interesse por ele. nada prova que eu não seja um Drácula! Fernando: há mais. Página 101 . a minha? E.. não será então possível a você imaginar o difícil. qualquer"chegada" minha a um escritor moço.fui eu. Há um homem que chegou à convicção de que só épossível lutar. sempre. Mas tudo isso não tem importância. sem nenhum disfarce de jocosidade. mas apavorada. Só você. mas seriamente.. Nada do que eu possa dizer. mas são seguidas por muitos moços . e só é preciso matar ou morrer. meu Deus! Nem a minha reserva! Mas pra acabar com o caso dela. a convicção é que é cega. que me. embora não a conciência de). Mas ao mesmo tempo a conciência desse mesmo homem repele a estupidez dessa convicção apaixonada e diz: Não os moços. de fuga. chovendo elogios que só servem pra me martirizar ainda mais? Ontem mesmo eu ainda estourava com um rapaz do Rio por causa disso. pode me provara si mesmo. me 192 193 lembrando jocosamente a você. Muito pior.e seguidas demais! E se vê de repente. é um canalha. imaginando. diante da sua convicção permanecida sempre íntegra e arraigada e vivíssima. desinteressado por mim? Você se esquece que são vocês mesmos. Mas mesmo que eu consiga me ultrapassar (não me provar.. moços. Mas esse homem vê horrorizado que as suas palavras são apenas aplaudidas prudencialmente pelos homens. de muitos dos meus contemporâneos de geração. há muito mais e o pior. Pra mim era mais fácil começar. Fernando. não tem importância. doloridamente fazendo chegar a você por algum amigo íntimo seu. nem a mesma paixão exteriorizada pela vida. eu só posso me socorrer do seu espírito inventivo de escritor.. a minha queixa e a censura. mesmo dentro de mim. mesmo sem semelhante baixeza. é um vendido. só porque não tendo o mesmo estilo de vida. Agora já não posso mais dizer que isso não tem importância. Se mentindo a si mesmo! Pra poder moderar os outros.

por favor: não de você como homem. ou diferente: com a angústia exacerbada e insatisfeita. É uma sofreguidão de lembrança que me persegue e atinge a 194 195 obsessão. Que eu não tive. principiei escrevendo assim numa espécie de estado mediúníco (não acredito em espiritismo). havia um despeito. Veja bem. epor sinal que ele se chama Fernando.. pelo contrário. Um enfraquecimento da esperança. A minha dúvida de você como artista. Fernando. De repente larguei o livro. e de artista verdadeiro. Você tem direito deperguntarporquê. eu percebi que estava escrevendo contra ele! Acabei o poema chorando. meu priminho. sejam os de assunto.tragaram. Que no momento que me puseram ele pela frente. Eos elementos fundamentais de que é feita a "Marca". o mais violento. equilibrada e necessária vontade elevada de ser amado e aplaudido (aplauso é compreensão e aceitação da obra) sem a qual não existe artista verdadeiro. épor coragem: eu tenho que me retrair e não dizer mais. do meu estado atual desarvorado? Eu tenho um afilhado. da minha incongruência. mesmo ansiando de amor pelo afilhado bem querido. Mas a segunda estância já terminava com uma reflexão muito amarga. Veja bem: não disse sua ganância de sucesso embora esta também talvez exista. Eu principiei. a duvidar de você como escritor. Amo ele como um filho. faz uns quinze dias.cartas-a-um-jovem-escritor Mas agora. também. com uma imparcialidade gélida. Com você. Não com você: com todos os que são você. mataram uma obra minha. A primeira estância ainda foi bem. num artigo de crítica falando em romance. Isso nada tem que ver com a sua vida. não existe. Se suicidaram. Seria simplesmente uma infâmia. Fernando Morais Rocha. era a saudade. longínqua. Fernando. E de repente. a lembrança do outro Fernando. isso foi um apefeiçoamento. não há mais. nada tem a ver com o seu filho que. denunciam essa ganância estética. Não há desilusão nenhuma. a própria vida muitas vezes se incumbe de refrear isso. tenente de aviação que está na guerra. Nada tem que ver com o seu casamento. absolutamente nada tem que ver com o seu cartório. Poderei dizer da sua "ganância" estética?. que você podia muito bem ter recolhido por si. com o natural arroubo e o natural excesso de vitalidade do moço. nada tem que ver com Helena que te engrandece. com semelhantes dados. É horrível. Chega. por enquanto. vem da sua psicologia. digna. miúda. Isso ainda nada. será possível à sua imaginação de escritor. naquela justa. era de-tarde. e sem compensações. Que todos os poucos que eu sei que tiveram. E aqui. absolutamente nada. sejam os técnicos. eu estava lendo aqui o Álvaro Lins. eu fazer uma experiência de psicologia artística com você. do solteirão que se bota amando uma criança com amores maca queados de um pai. Há uma reserva. Se es. Nunca percebi em você o menor laivo de "araísmo". mas há uma desesperança. que levou você cedo demais. Como artista. se perd eram. eu punha diante de você um problema que jamais você não deve ter. Porque si eu dissesse.. Outro dia. à"Marca". responsabiliza você muito. Mas como artista. Mas éfácil de refrear isso. Fazer você de cobaia! Isso eu não Página 102 . Assim: eu falo exatamente da sua ganância "estética". Fernando. recriar a reserva? Apenas um exemplo. A sua possível ganância de sucesso se confunde. não épor covardia não. Fernando. era um verso.

Ele matará você artista. mesmo no tempo da nuvem . Fernando. Sabia que você estava trabalhando muito. E não diga que eu não disse: se lembre. Mas eu não sabia! Não é o assunto que eu não sabia: o assunto é estético. E também não disse..única correspondência que tenho aqui à mão. diante de 198 amigos "não analisa não" que queriam espontaneamente farrear com você. todo um pedaço insustentável desta sua carta confirma isso escandalosamente: a sua queda no"Cristo". me impondo uma sinceridade total. Mas você fez um esforço demasiado. E si eu já sabia disso pelos elementos de que é feita "A Marca". Vamos pra diante. na secretária. Si Cristo quiser 196 197 agir. mais perversa pra você do que pra mim. Faça um heroIsmo ainda possível. no bar. e basta apenas isso. Estou exausto. Não se"desculpe" em Cristo. que jamais guardei. Hélio se engrandece. que eu duvido. e apenas. tudo o que eu disse de duro naquela nossa conversa aqui no Largo do Paissandu. É certo que não falei em Cristo. perceba. o que é mais duro de dizer. mas você vai se perder. Você tem uma ganância estética que me faz duvidar da sua continuidade de evolução. Na sua idade e na sua vida realizada. E enfim. O que nem sempre adianta. eu tenho seguido. botando na sua mão a pena dum Coelho Neto qualquer. não da sua predestinação (ela é divina) mas do seu destino de artista. que desde muito eu Página 103 . E duma salvaguarda . Hoje eu prefiro a farra deles. mas porque. antes de ler "A Marca". Você agora se desculpa em Cristo. eu sei é da sua predestinação divina de artista. nem da espécie de crime que você praticou contra você mesmo. e isso foi ótimo. e já falei atrás que não é da sua vida que me cabe duvidar aqui. Sabia que você tinha coragem de estadear uma profissão de escritor.como todos os academismos. a sua vida de artista. e você não encontrará apoio nenhum para os elementos"estéticos" da"Marca". mesmo sem você sabe. O Cristo não salvará você da sua derrota como artista. da posição em que eu estava.foi tanto o esforço que eufiz que me lembro do lugar. que o tranco dum mistério até excita mais.o que eu não sabia era do esforço prodigioso que você estava fazendo pra se revestir dos 35 anos da força de homem do artista. o Cristo não passa dum academismo. E o fantasma do menino-prodígio que se gasta demais me persegue. e épor ela e pelos elementos da sua arte. Fernando. Talvez fosse melhor que eu não tivesse tocado nisso eposto na sua cabeça um mistério. mas não prejudica nem trai: eu não sabia. Mas você me obriga a isso com a sua carta. Você continua vivendo demais. como artista. Eu não estou tratando da salvação da sua alma. se dignifica em Cristo. Naquele tempo cheguei a considerar você mais perfeito que eles. por favor. em meio das nossas conversas de cartas . relembre os Evangelhos. da mesa. Fernando.. por amor de Deus! O seu caso não é o do Hélio.cartas-a-um-jovem-escritor faço. E depois disso. só porque jamais você se desculpara Nele.

Fernando. mas não posso provar: a minha dúvida é sobretudo um desafio. o seu grupinho. fale: que doença é essa que você tem. nada seperd eu. É possível que eu tenha perdido um pouco da amizade que tinha por você. tarde da noite. Você está vivendo artisticamente demais. Não comparando. Não só não tem importância. o Otto.. Vamos começar. mas nem um mínimo nada se perdeu da estima. nem depressa. Você. O que se perdeu foi apenas aquela necessidade de presença. Meu Deus! como eu leio incansavelmente tudo quanto escrevem sobre você. não voltarmos imediatamente a tratar de tudo o que estas cartas dizem. Não se trata de nenhum sacrifício não. o direito e a glória. de longe. Sempre: de artista. com saudade. chega de aparente impossibilidade. fale deHelena.. porque nada se enfraqueceu do alicerce. se desmanda a escrever cartas gratuitas. E como eu quero saber. Talvez seja milhor depois desta troca de cartas.. A amizade ia se esgotando por falta de alimento e poderia se acabar. Você tem que principiar caminho novo. você vai ver que havemos de sorrir de tudo isso. como o arquitetou. nada se Página 104 . Entre nós isso não épreciso. mas será 199 sempre melhor que seja pior. mas seprevina desde já. Que era preciso que detestassem você. E agora chega. o Hélio (nem tanto). abandonando em gravidade. deforma que tudo poderá voltar um dia ao que já foi. O romance que você conta estar fazendo. fazendo espírito! Isso é trair. quando abandonou tudo e reprincipiou com"Luz no Subsolo". trair a amizade.. E você. traira sua mineirice. a insatisfação. Isso se perdeu bastante. trair o grupo. se trair. Nunca deixei de querer bem você. você tem que fazer o mesmo esforço heróico e louvável do Lúcio Cardoso. porque a meu ver não há comparação possível de valor.. no Rio.. e ele agüenta firme qualquer reforma da nossa casa. Mas nada se perdeu da estima. Com que verdade de prazer eu vejo chegar seu nome nas conversas. "meu" Fernando.fale dofilhinho por vir. com todo o egoísmo. e se aturdir de palavras. Fernando. e nem na sua vida belorizon tina de artista. e não está sendo mineiro na sua vida carioca.. é uma instância normal da minha vida. em camaradagem. Você está escolhendo amigos que são más companhias pro artista Fernando Sabino. pode ser pior que "A Marca". embora dolorosa às vezes. readquirindo em gratuidade. Volte com seus problemas. Não se preocupe. Passado algum tempo. Já lhe disse mais duma vez: "A Marca" em qualquer sentido é um impasse. Vamos ser práticos. que são os únicos amigos que podem salvar você. Você está conquistando simpatias condescendentes mesmo nos grupos que deviam detestar você. aquela talvez mais bonita gratuidade de freqüentação. o Paulo. desprovido (por dentro) de Minas. Chega. Porque a minha"dúvida". quais as suas dúvidas sobre isso. Ou mesmo. eu só desafio você. coisa que eu posso justificar como fiz. O quê que eu posso fazer! Por enquanto. a exigência de convívio. E como a lembrança de você. Você está abandonando os seus amigos de Minas. E fale o que quiser. um fim de caminho. Eu lhe peço que me conte qual o assunto do seu romance.cartas-a-um-jovem-escritor estou querendo dizer mas sem força pra dizer: você não foi mineiro na criação da"Marca". é um artista acabado. afinal? Não é preciso falar muito.

é por isso. eprincipiei me deixando escrever Porque me deu agora de repente uma vontade de abraçar você eficar junto. calma e grave. Que homem extraordinario é você. não ausência do ardor. O que ela reflete exato é a minha tristeza machucada e o abatimento em que estou. provocado pela sua carta. me fez chorar. É um abatimento de mim. sem assunto. depois que deixei de pensar. Sua carta excelente me deixou ferido. Rio. E que Deus abençoe o Trio novo. Mário Fernando Torno a abrir esta carta. Não que esteja fria. 11/12/44 Querido Mário. pra lhe dizer que reli ela. que eu nunca chegarei a conhecer completamente! Página 105 . achei exatamente como eu queria.cartas-a-um-jovem-escritor acabou. Mas esse abatimento. Mário Telegrama a 10-XII-44: FERNANDO SABINO AV COPA CABANA 769 apt.porque o abraço dos meus braços não corresponderia ao que eu sinto por você. de corpo presente. Isso é o que eu tenho e que causou o timbre desta 200 201 carta. 601 COP RIO DE -RESPONDI MESMO DIA INTERMÉDIO HÉLIO NÃO SABIA ONDE VOCE ESTAVA NADA DE MAIS IMPOSSÍVEL QUALQUER QUEBRA AMIZADE ABRAÇOS HELENA VOCÊ MÁRIO. si agora provocado pela carta de você. Fernando. estou destroçado. Você tem razão . deixando a vida passar. amarrotado. Eu quero muito bem a você. Não se arrependa e não me poupe nunca: é o milhor jeito de me deixar leal pra comigo. Mas estou abatidíssimo. Até chego a achar bom que voce não apareça aqui neste momento. depois de sobres critada. E já neste fim de carta eu sinto que a amizade está se refazendo fácil. Um beijo nos cabelos de Helena. de fato. eu mereço. não é você que o causou. Mas acredite.é porque você tem razão. mas causado por mim. mas não lhe confia o ardor com que a escrevi. Este esgotamento preventivo que dão as fatalidades que a gente não pode mudar. Nem pus nela ao menos um xingo que a colorisse um bocado. mas que me ficou dela a sensação de não estar como devia estar si refletisse o sentimento perfeito do meu coração. mesmo com o timbre desta carta: eu quero um imenso bem a você.

me entregando todo. inclusive na tentativa de botar na 1a e 3a pessoa ao mesmo tempo (imitação de "Le Petit Chose" de Daudet. puro feito eu quero ser. E fui por aí afora. no duro. me recuso a partir daí a escrever mais uma só palavra. Ou por outra: é o meu retrato quando eu tinha dezessete anos. sem malabarismos. Quero. Você não se enganou com"Os Grilos" não. Mário. com o pai e a mãe. entrado e mexido nos lugares que lhe eram interditados. Só os grilos não cantam mais. esse brinquedo de copiar os outros. como dentista vizinho (que estava querendo namorar a mãe) . o conhecedor supremo chama a isso de arte? Então isso é que é arte? Essa macaqueação muito sutil. porque estava difícil achar um fim e então resolvi continuar a história do coitado ate o resto da vida. fui remexer nesta altura os originais do conto que acabou fracassado. Sabe. Comecei a escrever um conto. 202 203 estava no ginásio e namorava uma menina chamada Lourdinha. e então ganhou um vasto pito do vovô que o levara e que o botou de castigo no outro domingo por causa do feio que ele fizera. Página 106 . apenas ser é fiel ao que existe de unicamente verdadeiro em mim. como você disse.não foi uma revelação. Pois foi esse conto ingênuo que acabou virando uma novela. Mas não como quem faz um bolo. Foi dormir. seguindo fielmente a receita: prefiro comer o bolo que os outros fizeram. inspirado nos Evangelhos que o autor encontraria os elementos estéticos que o levaram a produzir"A Marca".todo mundo ia pro cinema e só o coitado do Russinho (comoomeninoeraassimchamado) ficou sozinho em casa. É escrevendo que consigo dizer as coisas. o crítico. avacalhado e espichado.. depois de ter fuxicado a casa inteira. Por isso eu tenho hoje por ele (e por ela) essa ternura de ficar olhando e falar: "que carinha mais engraçada que eu tinha". na esperança de que virasse uma "obra-prima de literatura".. não foi uma descoberta não: eu sempre fui assim. em vez de continuar tentando escrever. que ia até bem direitinho: a história de um menino de sete anos que um dia fez xixi no cinema por causa da emoção da fita de mocinho. eu sou "Os Grilos". então vamos reconhecer de uma vez que não sou nem nunca fui um artista. Sempre existiu . Você não percebeu e está negando. E não haveria de ser. e ao "crime cometido contra mim mesmo". Se um livro que eu vier a escrever (sincero. merda pra ela! De um jeito ou de outro só posso confirmar com isso o que você chama muito bem de minha"ganância estética". fiel a mim mesmo) acabar sendo dessa mesma espécie. que li na época). Teve um sonho de noite muito engraçado. roubado doce na despensa se regalando com a liberdade de estar sozinho. já estaria recolhido ao fundo de um convento. com a irmãzinha chamada Nenzinha. de arremedar. o artista. Mário. Que adianta a arte se faz a gente escrever"A Marca". de levar a sério a brincadeira e fazer um livro como"A Marca". e se você. para compensar. Porque se eu encontrasse nas Sagradas Escrituras apoio para justificar essa"ganância". Se toda literatura é feita assim.cartas-a-um-jovem-escritor Tanta literatura! E eu não quero mais ser um artista Mário. como escritor. e que e arte? Arte então não é mais nada além disso?! Porque se for só isso. Então ele fica na janela vendo o vovô sair.

inclusive você. se continuasse acreditando em você. Não sei como é que você. como disse você. Mas nas nossas discussões sobre arte social eu estava querendo saber ate que ponto essa ou aquela posição seria de maior proveito artístico. com tão poucos dados. Esta fidelidade eu escondia. Não será mais. Vamos ser práticos: se arte é fazer justamente aquilo que a gente não é. Poderia hoje ser apenas mais um de meus preconceitos burgueses. Mário. mas levariam. Por isso sua conversa aí no bar do Largo Pais sandu não adiantou nada. ser menos gratuito. eu mesmo não sei por quê. meus. Mário. Eu não tinha desenvolvimento mental suficiente para outra coisa senão tirar partido literariamente. querendo impor pela força aquilo que devia se ensinar pela humildade. empunhando a Cruz à frente das multidões em marcha. fazendo da Literatura apenas um jogo hábil para merecer os aplausos da crítica. cavalgando sinos. como você prevê. honestos. em que ficamos? Somente nisso: me refaço da ilusão de ter literariamente me revestido da importância de 35 anos. (Fui injusto com você. fazendo dela "segredo de alcova". É uma fé que eu trago em mim 204 205 desde a infância. Porque eu não quero com o Cristo me engrandecer artisticamente. soube me mostrar o perigo. E não é que eu já ia mesmo. a minha "consciência de arte". se me valeria apenas como um treino. De ter largado os meus contos. Agora darei o melhor de minhas forças para preservá-la. não guardei uma palavra: você estava falando grego para mim. Era como se você presenteaSse um menino de cinco anos com uma Metafísica de Aristóteles. descobri apenas a necessidade de ser fiel a ela. seria mais rica esteticamente. me perdoe. Meter o pé na bunda das considerações condescendentes. Me prevenir contra os amigos de ocasião. que. sinceros. não me trair mais.) Relendo suas cartas. Para isso é preciso ser coerente comigo mesmo. Você já sabe que estou querendo me corrigir. Você duvida da minha evolução literária. nem pode calcular. que me levariam devagar. um afiar de instrumento.cartas-a-um-jovem-escritor Bem. Pode ficar certo. mas justamente me perder em Cristo. então prefiro desistir de vir a ser artista. tentei sufocá-la e ela resistiu. por causa da "ganância estética". para me meter prematuramente numa experiência literária. Uma salvaguarda. Quando penso hoje no que deu o meu esforço. do heroísmo. A fé em mim não foi uma vitória. no seu conceito de arte. Não me desculpo no Cristo: não sou católico do tom maior. que afinal tem ao menos o mérito de achar que está certo). poderia também ter me levado inconscientemente para o terreno quem sabe da mistificação mais completa. ele matará o artista em mim". pela comodidade de ter com que me justificar. porque não lutei para merecê-la. menos disponível e menos bobo-alegre. concordo com VOC que"não analisar" teria sido muito melhor. eu fingi que entendi. Mas reconheço que você me fez um enorme bem. Para iludir os outros . e vem resistindo. que não me atemoriza saber também que "se Cristo quiser agir. algumas só fui entender agora. Porque eu não a descobri. Meu Deus! Eu também duvidaria. e ele ficasse pensando até onde aquilo lhe serviria para brincar. das Página 107 . Porque ainda está em tempo de se dar um jeito nisso. sem que eu pretendesse (como o Lúcio Cardoso. de embrulhada? Fugi como o diabo da cruz. nasceu e morrerá comigo.

" ("O Tabuleiro de Damas".cartas-a-um-jovem-escritor portas de livraria e dos bares amarelinho-vermelhinhos-douradinhos e me refestelei em casa e pensei que estava salvo. ficam para outra carta. com estas cartas longuíssimas. segundo ele. O melhor abraço do seu amigo e irmão pequeno . Ainda desta vez sou grato a você."Poesias" . do irmão mais velho. Aceito o desafio de sua "dúvida". Helena. Livraria MartinS S. fiz 21 anos outro dia. E você não é Drácula não . e graças a você.. Mário de Andrade. Vamos nós dois começar de novo. Mas jamais deixarei de precisar de você. muita no Hélio.) 206 207 Bem. Resolvi escrever aquela carta. e só depois o Paulo me deu conhecimento.* --*"Eu já morava no Rio e estava passando uns dias em Belo Horizonte. Editora Record.é meu amigo. meu desejo de ir aí. Imediatamente enviei uma carta ao Mário. Nesta quis apenas falar (sem ter falado) que de minha parte a nossa amizade se frutificou. E perdoe a minha petulância de moço. Você esteve tão longe! Você se lembrava de mim. Paulo me mostrou. alguma no Otto e nenhuma no Fernando.. Mário. ao Otto. Nada disseram. ainda assim à sua revelia. Sou moço. Editora. que me deu um tranco em cima da hora. só agora percebi. querido Mário: meu romance. 203. Estou saudoso do seu jeitão. vou começar de novo. a carta que havia recebido. Que nada. falava com os outros. acusando-o de covardia por não ter ido apadrinhar o meu casamento." Não me lembro como o Otto reagiu com o alguma que lhe coube. e por não me ter dito diretamente o que pensava de mim. Então a coragem veio e escrevi. pág. ninguém nunca me disse nada! Queixei-me ao Hélio. Mas antes como vai Página 108 . sem uma palavra. em que Mário assim se referia ao nosso futuro na literatura: "Tenho uma enorme esperança em você. do amigo. ganhando muito em profundidade. eles aqui não desanimam por tão pouco. meu filho por nascer. Fernando * Rito do Irmao Pequeno. 6-1-45 Fernando querido Tenho duas horas e vamos conversar um bocado. Me fale de novo que não estou te chateando.não "tão bonito como o pássaro amarelo"*. Já sinto você tão perto outra vez! O alicerce agüentou. mas já maior de idade. meu irmão. ao Paulo. Paulo. mas o meu mais nenhuma me deixou revoltado. do que você dissera de mim.

os grilos é o meu retrato ". reli sua carta e tomei o cuidado de grifar as frases autopunitivas que vêm nela. É que você se acovardou diante da Marca. Com seus artigos você tomou o alvitre de se comprometer consigo mesmo em público. principiou tendo medo do seu livro."o que existe de unicamente verdadeiro em mim". Porque. um momento você me perguntou (tínhamos conversado já o dia inteiro. E imagino que é o que você fez também. honestos e sinceros. Também isto já lhe repeti várias vezes e você sabe por si. "meus contos. digamos. E veio daí essa necessidade dolorosa deautopunição. eu desejaria fazer tudo pra tirar isso de você. a carta já está esclarecida. Que você tem de ir além. como estou imaginando.. "o crime ("A Marca") que eu pratiquei contra mim mesmo".. si acaso existir mesmo. A Marca não é insíncera e é arte. Não vou enumerar todas. que os seus. tive uma sensação viva de que você se desgostou. Mário. o que eu faria por carta: não sei. como aquele principalmente sobre os mineiros. Antes de principiar esta. não há dúvida: já lhe falei isso várias vezes e você mesmo diz isto nesta sua última carta.cartas-a-um-jovem-escritor Helena? e o pré-filho? E que tenhamos todos um bom ano. Me lembro que naquela viagem de automóvel aqui. pra se comprometer e se firmar Eu não fiz o mesmo no"Movimento Modernista"? Hoje eu sei que fiz."levar a sério a brincadeira" "eu chamo de arte aquilo que ainda vou fazer". Os seus próprios artigos. com que você destrói agora a Marca e a insulta. prevenindo-se em seu futuro. sem que isso chegue à conciência. direito e fecundo. você ficou horrorizado com as suas forças vivas que você reconhece. O sucesso foi grande demais entre os mais hábeis em compreender (o artigo do Lauro Escorel é estupendo). inferiores atualmente às forças da Marca. Fernando. Não será isso mesmo? É um jeito leal esse. Assim. ainda faltava esclarecer umas coisinhas. você também está convencido que escreveu uma "jóia". ou inquietou. E como eu falasse que completamente não. provam isso bem. Ou qualquer coisa assim. nós dois atrás. E se acovardou. o Décio* na frente. Que você tem de ir além de "A Marca" dentro dos mesmos caminhos de "A Marca"? Está claro que absolutamente náo. com razZo. esta sua última carta parece provar uma coisa que. "esse brinquedo de copiar os outros" (em "A Marca").foificando convencido de que o seu próximo livro não conseguirá chegar siqueraos pés da Marca eseacovardou. Página 109 .): . "si toda a obra-prima éfeita assim (como "A Marca") merda para a literatura.. Eu imagino. se reconhece frágil. incapaz --* Décio de Almeida Prado.Bom. A gente. 208 209 ou duvidoso de se vencer a si mesmo dentro consigo mesmo: e então afirma prematuramente. Mas veja si não é prevenir ofuturofrases como:"quero ser fiel".. sofrimentos psicológicos são bem grandes. meu Fernando. não vou discutir nada. Não vou argumentar contra a sua carta não.

Fernando."e artista eu posso deixar de ser". não economize nada. Em "A Marca" você fechou um beco. você está acovardado. Você não errou. "me traí escrevendo A Marca". ao reconhecer. Ora. Página 110 . Serdo insultuosas no momento em que você nYo puser a sua técnica.. desde que você não traia. Reconheça lealmente que. a sua visita me deixou um bocado de inquieta ção que a sua carta confirma.. que muitas vezes já falei isso a você. Fernando querido.cartas-a-um-jovem-escritor meus. a arte. e insistiu mesmo em preocupações "estéticas" que me pareceram bastante gênero tricô: escrever o livro na primeira pessoa.pra não esquecer nada: Também o livro novo pode ser um descaminho. Nisto. que eu maltrate você com essas palavras que lhe fedem a insulto. não é preciso tanto. E si o livro não sair bom. Sempre a sério. Primeiro: nunca o será ideologicamente. Não sei. um técnico. Suponhamos que você vá cair. meu caro. numa contradição digna de lhe puxar as orelhas e duma dúzia de palmadas. Mas. então prefiro mil vezes deixar de ser artista". que "A Marca " é uma traição. Mas estou me repetindo. se esbofe. você foi insincero. por um momento. As vezes eu imagino que Deus deve ser mais esportivo que nós e tomará as coisas e os homens com mais sense ofhumour. a ponto de se prevenir sobre a Possibilidade de abandonar a literatura! Você. a beleza. "prefiro lutar contra a minha arte". mas podem se tornar insultuosas.feita "A Marca". Não são insultuosas. gaste tudo. Fernando. jogue todas as suas cartas na mesa e não blefe. A Marca não é nenhum pecado mortal e trate de não fazer dela um trambolho na sua vida. tem cem anos por detrás dentro da língua e da estética do Brasil. Suponhamos que o seu romance futuro seja inferior (esteticamente) à novela. todos os valores eternos". mas "não no que ela representa ideologicamente"! Você está vendo? Não: Você não está errado. E não são insultuosas em relação à Marca que você mesmo tomou o cuidado de defender decisoriamente na sua carta. na carta. Apenas. "vou começar a minha arte". E serão outros. e tal. 4 Marca" é uma bela coisa. E vai por caminhos inusitados. dentro da sua ideologia. Os verdadeiros pecados mortais sendo em muito menor número do que nós imaginamos. com mais saúde ainda: mais esportivamente. a sua virtuosidade e o seu malabarismo a serviço de alguma coisa que seja pra todos digna e nobre. Esteticamente é muito provável que o romance futuro seja inferior à novela. você reconheceu quea ideologia dela era insuficiente em face de Deus e da vida. Mas você está atemorizado e acovardado. pra você. Pois tome esportivamente o seu caso. E resolveu fazer 210 211 coisa milhor. Esta. O seu romance futuro suponho que não tem dez. Não enrubesça. que me levariam devagar".. E a covardia é inútil. Ou."a minha realidade me interessa muito mais que a literatura. Porém no livro defeituoso ou fracassado você terá um caminho. diga: perdi."fazer justamente aquilo que a gente não é. talvez nem cinco. E tanto. da mesma forma com que em Marca não traiu. e coisas assim. você vai pra frente. Você aqui me falou muito. um virtuose e até um malabarista! Deixe. E comece outra partida. que desde os treze anos vem impregnado por fora e por dentro de literatura e de literatice! Você.. etc.

duma lealdade. Não me obrigue mais a lhe dizer tudo isto. é tão difícil de dizer. Pro caso de você. Ora. um Emil Farhat e 365 outros.. Com o mais afetuoso abraço pro Trio do Página 111 . Mas não se perderá o que há de mais elevado na relação entre os homens. é água-de-rosa. Não se esqueça por favor que você é um ancião de quinhentos anos no vício duma ideologia. uma coisa muito mais nobre que a es212 213 pontaneidade e muito mais espiritual que a sinceridade: a convicção. e a espontaneidade de você. Mas pra saber você precisa estudar e refletir muito. E você sabe que ela não vale um tostão. Não faz maL Mas adquira pelo sofrimento perfeito da análise da vida e dos "seus" autores. franca. Mas quis cumprir na íntegra o meu dever da imensa amizade que eu tenho por você. você tem de abrir é estrada larga. por bons que sejam um Oswaldo Alves.cartas-a-um-jovem-escritor pra. Você carece duma franqueza. E que sinceridade se você não é você! A sua sinceridade por enquanto é a sua espontaneidade. Uma convicção. e sobretudo. susto inteiro. é digno. trair "A Marca". duzentos anos de burguesia capitalista. horror é da água-de-rosa. Escorregar apenas. o seu maior perigo é ser si mesmo. Não tenha temor. áos que escorregam apenas. por favor "Ideologicamente" eles são tão insuficientes e tão beco-sem-saída quanto "A Marca". Mas os milhores quebram a cabeça. E no caso de você. a estima. Beethoven primeiro escreveu A Heróica pra depois escrever a PastoraL Num caso como o de você. Como assunto. Até agora escolheram por você. pra evitar todos os mil e um descaminhos dos sofismas. qualquer água-de-rosa é descaminho." Agora é que você vai construir a sua sinceridade. reservei uma espécie de pedido. carece você não se intoxicar muito pelos "Grilos". Agora é que você vai saber. Leve três anos pra escrever o seu romance novo.. você se tomou de amores"on revient toujours"pelos"Grilos". tenha medo. duma imparcialidade e duma ausência total de complacência pra consigo mesmo. pra se justificar diante de si mesmo. o único perfume possível é o do sexo. diante da vida e de Deus. preliminarmente. Porque agora é que você vai escolher. Corrija os seus temores. Si você está de fato disposto a se abrir um caminho seguro para uma vida literária mais utilmente viril: você tem que cuidar muito. Da ideologia de "A Marca". Que sejamos inimigos até pela convicção que você conquistar Que nos odiemos. você é milhor. deixar de vir é uma deserçao. Ou cinco. Pra este fim. vinte e um anos defilhinho de papai. Simplesmente porque. quinze anos de aluno de escolas e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. com o que o seu romance novo represente como funcionalidade. Você absolutamente não deixe de vir pro Congresso dos Escritores. Como ideologia. E no seu caso. tudo o que seja acertar no alvo (ideologicamente) ou quebrar a cabeça é nobre. E a sua espontaneidade são dez milhões de anos de crimes humanos. dois mil anos de traição ao Cristo. E é misterioso como o milhor pode errar mais. A tal de "sinceridade" que você invoca éo seu maior perigo. Pra abrir caminho. Isso é a sua "sinceridade". Parece que as coisas estão se aprontando de tal maneira que pros que têm alguma noção de dignidade e alguma conciência da Inteligência nacional.

Anatole. Campos. 14. Henrique Maximiniano. Andrade. 156. 170. 9. 9.Lúcio. 168. 135. 102. Frederico. Oswaldo. 213 9. Miguel de. Oneida. 106. Andrade. 168. 168 144 52 204 106 da. 178. João Daudet. Goethe. 9. 199. César. Azevedo. Dostoievski. 170. Bastide. 169. 107 Afonso. 167 Gide. Grieco. 9 101. 52. 84. Manuel. 143.58. Página 112 167. Beethoven. Carlos Drummond de. 51. 87. Alvarenga. 95. Octavio de. de. Otávio. 188. 116. 163. Àgripino. 156. Sigmund. EmiI. 96 ONOMÁSTICO 168 142 107 213 136. 166. 148. Anjos. Alves. 200. 166. 135 206 51. 164. Cyro dos. 210 Farhat. 123. 167. Aristóteles. Johann Wolfgang. 154. Antônio Rangel. Coelho Neto. 171 France. André. Walt. Cervantes Saavedra. Cruz e Souza. 144. Alphonsus de. 173 Freitas Júnior. 155. Arinos de Melo Franco. 165. 174 Freud. 17. Roger. 213 Faria. Alphonsus. 95. 198 165 124 165.cartas-a-um-jovem-escritor Mário ÍNDICE Alighieri. Paulo Mendes. Guimaraens. 51. 125 180. 166. 178 Bandeira. 148. Etienne Filho. João. 171.153. 151. Alphonse. 169.155. Rodrigo M. 173. João. 138. Alvares de. 207 Cardoso. 165 F. Fiodor. Disney. Bandeira. 85 168 158 . Guilhermino. Lauto. 172. 175 166. 167.154. Dante. 157. Escorei. 205 52 136 214 Chopin. 164.

126. 5 Pinto.133. 167 Picasso. Hitler. 107 108. Rangel. 138.135. Lacerda. 139 Pedrosa. Rebelo. 167 Nava. 59 Pedro. 104. 116. Editor. Machado. Mariano. 52. Hélio. 102.OttoLara. 198. Marques. 123. Henriqueta. de. Morgan. 149. Olegário. Aníbal. 123. Antônio de Alcântara. 9. Monteiro. Página 113 199. Lúcio. 137. Fernão Mendes. Martins. 140. Resende. Cornéiio. 130. 138. Marcel. Gregório de. 124. 188. Gentil. Huxley. 136. Joaquim Maria. 52. Machado de Assis. Graciliano.115. 167 73 33 72 Adolf. 111 Prado. 139. 50 9 196 123 138 55 162 50 139 52 162 147 71 9 21 9 9 Olympio. 9. 166 Queiroz. 138. Cândido. Vinicius de. Moraes. Moraes. 9. 162. 106 Pellegrino. Machado. 105. 52 215 Kubitschek. 124. Murilo. Charles. 151. 60.cartas-a-um-jovem-escritor Herskovstz. 52 102 9 140 207 . Hugo. Victor. Juscelino. 9. 129.127. Aldous. Murilo. Mendes. 125. neto. Noronha. Ibsen. 52 Portinari. Matos. 159. 158. 128. François. 120. Alvaro. Ramos. Lobato. Prudente de. Antonio Candido de. Lins.113. 160. José. Maupassant. 9 Rabelais. 207 Pena. 139. Décio de Almeida. 209 Proust. José. 119. 107. 199. Lisboa. Miranda. 14 Jean Carlos. 187 La Fontaine. Rachel de. Pablo. 46. Meio e Souza. Guy de. Henrick. 63.

Horizonte. Paulo. 52 182. Shakespeare. 94. 9 Xavier. 122. 30-1-42 / Paulo. 180. 71. Rocha. Valladares. S. 56. 8-VI-42 Horizonte. Paulo.H. B.42/74 78 / 82 86 / 88 92 / 99 / 104 108 110 116 / 122 127 . Belo S.cartas-a-um-jovem-escritor Ricardo. 139. 110. Paulo. Joseph. Augusto Segall. 108. B.H. 174 196 143 16 104 168 51. S. 114. 7 de Abril de Horizonte. 115. 136. 28 Julho Paulo. B. Vieira. 115. Getúlio. Gilda Morais. 33 Frederico.H.H. B. Belo B. 121. Livio. S. B. B. 1 6-11-42 Horizonte. 106. S. Lazar. Paulo. 187 Schmidt. Fernando Morais. José Geraldo. 107. Padre Antônio. Rocha. 10-1-42 15-1-42 / Paulo. Rubião. 209 187 167 Werneck de Castro. Horizonte. S. B. Stalin. Belo S.H. Belo S. 180 ÍNDICE S. Helena. 140. Belo B. Cassiano. B. Horizonte. 33. 208.H. 6-VIII-42 Paulo. 181. Vieira. 139. 53. Horizonte. Vargas. S. 174. 201. / / 1942 / 42 1942 / 1942 42 / 9-X-42 / 29 de Outubro 42 6-XII-42 / 30 de Dezembro de 1942 23-1-43 / 11 de Março de 1943 24-25 de Maio de 1943 3-6-43 / 16-VI-43 / 20-7-43 / 16 de Agosto de 1943 13-8-43 / Página 114 13 16 25-1-42/20 27 30 / 40 46 / 55 / 59 62 / 64 / 69 70 lSet. 9. 10 de Março de Paulo. 60. William. 13 de Julho de Horizonte. Moacir. 141. B. 21-111-42 Horizonte. Murilo. 128. Horizonte. 186. 3 de Maio de Paulo.

. aos 6 anos de idade. S. Paulo. ÍNDICE ÍNDICE / 217 24-VIII-43 Setembro de 23 de Setembro 28-IX-43 15 de Outubro 27-X-43 1-XII-43 Fora. Juiz de S. S.H. Conversavam os quatro (ou três. S. Paulo. três O "encontro marcado" com o seu parceiro Hélio Pellegrino foi no Jardim de Infância. a 218 começar pela vocação literária que os unia. Paulo.. Paulo. Paulo. O primeiro encontro com o parceiro Otto Lara Resende se deu na adolescência. Página 115 . S. Depois foram colegas de grupo e de ginásio. era campeão de natação e só falava futilidades. Paulo. Otto revelaria mais tarde que ficara impressionado porque "Fernando conhecia marcas de carro. 16 de Belo Horizonte. S. Rebeldes. B. Paulo. Preferiam exercer a criatividade animando com suas estripulias as ruas pacatas (sem eles) de Belo Horizonte daquele tempo. inconformados.para falar mal do ausente) dia e noite sem parar. Paulo. S." Com Paulo Mendes Campos ele iniciou a parceria também na adolescência: foi numa festa onde travaram uma discussão literária (na realidade estando um deles . Paulo. Belo Horizonte. E continuaram amigos pela vida afora. Rio. S. 21-VIII-43 / 128 216 217 S. 7-12-43 24-XII-43 2-11-44 8-111-4 4 23-V-44 13-VIII-44 27 de Novembro 3-XII-44 6-1-45 ONOMÁSTICO Fernando Sabino Cartas na Aos meus amigos para sempre / 1943 de 1943 / de 1943 / / / / / / / / de 1944 / / / 129 133 / 137 141 / 147 149 150 152 159 164 177 179 181 / 183 191 11/12/44/203 209 215 / mesa parceiros.cartas-a-um-jovem-escritor S. S. S. Juiz de Fora. Paulo. em Belo Horizonte e depois no Rio. Paulo. Paulo.interessados em impressionar uma linda jovem ali presente).ou ambos . Eram contra as convenções e conveniências. predominava entre eles a irreverência.

no banco da praça. face da eternidade?" (23/3/46) de em Hélio Pellegrino ". mas a alegria por ser chamado de cara.. portanto . as coisas eram simples e puras. tudo se resolvia depois de alguns chopes . E daí? Pior seria ler e não gostar. Bem.. ser apenas Sabino sem ser Fernando. O livro termina com uma entrevista extremamente indiscreta.cartas-a-um-jovem-escritor Encerravam as noitadas de andanças num banco da Praça da Liberdade. envelhecemos.. Assim designavam aquela espécie de ritual inspirado no que Miguel de Unamuno (um de seus autores prediletos) batizou de"sentimiento trágico de la vida".. Que importância tem isso.Sim.e de madrugada. Tudo isso (e muito mais) transparece nestas cartas (mais de 100) enviadas por Fernando Sabino quando em viagem aos seus três amigos. 19-2-48) ". sozinho numa mesa ao fundo? Quando me viu.ou por isso mesmo . Fernando. cara. 2 7-2-88) ". Hélio. parei o carro num barzinho da estrada para pedir uma informação.(e. e nela designados pelos desconcertante epíteto de"Quatro Mineiros do Apocalypse". você também. levando não apenas a moça... 12-8-44) ". não sonhar mais nunca. E quem estava lá senão você.. por extensão. Como precisamos um do outro!" (New York. com uma intimidade fraternal que iluminou esta verdade no meu espírito. Saí. semp re juntos. Durante cerca de 50 anos.uma vida inteira! Segundo chega ele a confessar. Se resta ainda algum consolo.. Mas que seja na base daquela muda afeição em que as verdadeiras amizades se sustentam. Otto. concedida por eles a uma revista. Como ébom sermos amigos.como no verso do Moraes sem ser Vinícius. " (Rio. O que não impedia o eventual interesse de um deles (ou dos quatro) por alguma atração feminina que acaso circulasse pela noite. "Eu queria ficar com vocês. Ainda outro dia nós éramos meninos. Paulo.elas ão uma idéia impressionante do que foi esta fabulosa relação de amizade. nunca me decepcionou. só se justificam pela insanidade do remetente . nos arredores de Petrópolis. Ontem nós éramos quatro amigos. Devo confessar. que te invejo por Página 116 ter um amigo . eu disse que já gostei da sua novela sem precisar ler. você apenas disse para a moça que estava comigo. "puxando angústia". "Esse cara nunca me decepcionou. . As vezes me dá vontade de não voltar mais nunca . de 1943 a 1992.. às vezes até o nascer do dia. dos destinatários)..... é o de esperar que a amizade persista para sempre entre nós quatro... e estou cada vez mais longe. Naquela noite. Sim. ainda não há na da definitivo quanto à minha Volta ao Brasil. Mesmo em linguagem às vezes meio destemperada . Hélio." (Rio.

Fernando Sabino chamou a atenção para o seu nome em 1944 com uma novela. Em 1979 surge o segundo romance.Rio de Janeiro. No fim de 1982. crônicas e histórias curtas que se sucederam." (10/10/58) Otto Lara Resende ". Em 1948. Deixa o Alfredo Falar! (1976) e O Encontro das Aguas (1977). Lançou ainda novo livro de crônicas e pequenas histórias em 1981. "Martini Seco" e "O Outro Gume da Faca". onde vivera cerca de três anos. isso já me deixa feliz. intriga e mistério: "O Bom Ladrão". relato suas andanças. E ainda em 1998. Também em 1994 foi editado pela Record Com a Graça de Deus. Mesmo que seja engano meu (ou seu). A Marca. vieram reafirmar suas qualidades de prosador. Em 1985. que logo ultrapassa a casa dos 100. Acontece que às vezes. A Mulher do Vizinho (1962). RJ . publicou com igual sucesso a coletânea de crônicas e histórias O Gato Sou Eu.. DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S. provocou verdadeiro impacto com o seu surpreendente livro A Faca de Dois Gumes. em 1956 abre à sua carreira um caminho novo dentro da literatura nacional.A. RJ . em 1991. o livro Zélia.tel. 2585-2000 Pedidos pelo reembolso postal: Caixa Postal 23952. A Inglesa Deslumbrada (1967). apresenta o terceiro romance. A Falta que Ela me Faz. voltando dos Estados Unidos. Em 1993 publicou Aqui Estamos Todos Nus.Rio de Janeiro. de Machado de Assis. que imediatamente conquistou verdadeira consagração nacional.00 À venda nas boas livrarias. seu invejoso. Uma Paixão. não sei por que razão. 171 . Espero que a recíproca seja verdadeira.20921-380 ." (20/6/84) Fernando Sabino Cartas na mesa Paulo Mendes Campos 336 páginas R$35. e tropelias pelo mundo a fora. Rua Argentina. Os livros de contos. reunindo as novelas "Um Corpo de Mulher".000 exemplares. inspirada no humor de Jesus. A Companheira de Viagem (1965). E em 1988 é lançado O Tabuleiro de Damas. uma leitura fiel do Evangelho. eu sinto que você acredita em mim.cartas-a-um-jovem-escritor como eu que te inveja tanto. Em 1990 lança A Volta por Cima. acrescida em 1976 da premonitória reportagem "Medo em Nova York". Em 1983. coletânea de crônicas e histórias curtas e. primeiro romance. O Menino no Espelho. "A Nudez da Verdade" e "Os Restos Mortais". O Homem Nu (1960).. recriação literária do romance Dom Casmurro. Com O Encontro Marcado. Gente 1 e 11(1975). uma trilogia de amor.20911-979 Iniciando-se na adolescência com um livro de contos. O Grande Mentecapto. Em 1998 a Editora Ática lançou Amor de Capitu. Página 117 . esboço de autobiografia que é a "trajetória do menino ao homem feito" e De Cabeça para Baixo em 1989. A Cidade Vazia. fez sucesso com um livro de crônicas.

e impresso em papel 0ff set 75g/m2 no Sistema Cameron da Divisão Gráfica da Distribuidora Record. crônicas e histórias. "contos e novelas da juventude à maturidade. Em 1999 foi agraciado com o prêmio Machado deAssis da Academia Brasileira de Letras pelo Conjunto de Obra e editou pela Record A Chave do Enigma. a Record editou o livro de crônicas e histórias No Fim dá Certo. Em 2001 reuniu em Livro Aberto as suas "páginas soltas ao longo do tempo". em corpo 11/14. Página 118 . e a correspondência com Clarice Lispector em Cartas Perto do Coração.cartas-a-um-jovem-escritor além de O Galo Músico. Este livro foi composto na tipologia Original Garamond. do desejo ao amor".