A RECEPÇÃO DO POSITIVISMO NA FORMAÇÃO: ELEMENTOS PARA

PENSARMOS AS INFLUÊNCIAS DO PENSAMENTO COMTEANO NO
CENÁRIO EDUCATIVO.
Estéfani Dutra Ramos
INTRODUÇÃO
O Curso de Filosofia Positiva (1978), de Auguste Comte, traz em seu bojo os
principais elementos para compreendermos o pensamento filosófico e sociológico do
autor. Influenciado por transformações de sua época, especialmente as oriundas da
Revolução Francesa e Industrial, e por filósofos com Bacon, Descartes, Galileu,
Condorcet e Saint Simon; Auguste Comte fundamenta teorias que, ao longo de sua
escrita, culminam na ênfase ao cientificismo e na hierarquização das Ciências em suas
diferentes áreas do saber.
Embora a corrente positivista seja passível de críticas, não podemos negar a
importância do pensamento positivo no constructo teórico da própria história do
pensamento humano universal e nem suas influências na formação, isto é, nos seus
fundamentos, papéis e fins. Por essa razão, o objetivo de nosso trabalho é analisar não
só as principais ideias que norteiam a filosofia de Comte, mas o modo como elas se
refletem na educação, já que sua filosofia está estreitamente vinculada ao modo como a
pedagogia é pensada e colocada em prática nos dias de hoje.
Para tanto, nossa proposta consiste em analisar as duas lições presentes no
Curso de Filosofia Positiva, de Auguste Comte, intituladas “Exposição da finalidade
deste curso, ou considerações gerais sobre a natureza e a importância da filosofia
positiva” e “Exposição do plano deste curso, ou considerações gerais sobre a hierarquia
das ciências positivas”; para, por fim, relacionarmos o pensamento comteano à
formação educacional no sentido de pensarmos os modos como o positivismo influencia
a formação dos indivíduos em nosso tempo.
A análise das lições referidas acima e o estudo sobre o seu reflexo na educação
justificam-se pelo atual diagnóstico sobre a formação no nosso presente, centrada em
noções como o desenvolvimento de habilidades e competências no âmbito do saberfazer que ofuscam uma formação centrada na autonomia e na emancipação dos
indivíduos. Nessa lógica, podemos afirmar, com certa segurança, que as noções de

progresso e desenvolvimento, pensadas por Comte, assumem verdadeira importância,
nos dias de hoje, nos modos como aprendemos, ensinamos e fazemos pesquisa.
Essa importância pode ser notada se pensarmos o quanto a ciência tem
determinado os nossos modos de ser, pensar, sentir e agir sobre nós mesmos, sobre os
outros, sobre os objetos e sobre a nossa natureza. Amparados no conhecimento lógico,
racional, matematizado e comprovado cientificamente, aprendemos a dominar a
natureza e sujeitá-la a nós, bem como aprendemos a infringir violência sobre nós
mesmos, dominando nossos instintos mais primitivos e inaugurando novas formas de
experimentação, através do método e da empiria.
É por essa razão que afirmamos que a racionalidade comteana e a divisão dos
saberes influenciou e tem influenciado nossas ações e nosso pensamento quando
aprendemos, ensinamos e fazemos ciência, pois, na ótica do autor positivista, há
divisões nas áreas do saber que determinam a importância do que deve ser estudado e
ensinado, assim como há um método racional que deve atuar entre nós e nosso objeto de
pesquisa de modo a validar como conhecimento aquilo que pode ser nomeado,
classificado e dominado pela lógica do pensamento instrumental.
Diante do exposto, nosso trabalho pretende analisar brevemente os principais
elementos do pensamento comteano, quais sejam: a elaboração da Lei dos Três Estados
e a Hierarquização das Ciências, no sentido de pensarmos as fases de transição que
perpassam o movimento do pensamento mítico à racionalidade científica e,
consequentemente, a proposta de divisão do conhecimento em áreas de saber que o
organizam mediante uma ordem simples à mais complexa.
Finda essa análise, nosso objetivo é relacionar as teorias de Comte à educação
no sentido de pensarmos o quanto as noções de progresso, desenvolvimento, habilidade
e utilidade estão enraizadas na formação e determinam os objetivos, meios e fins
pedagógicos na formação dos indivíduos em nosso tempo. Para tanto, iremos pautar
nossas discussões, de modo geral, na crítica ao tecnicismo, à hierarquização do
conhecimento, ao desenvolvimento de habilidades necessárias ao progresso do aluno e
da sociedade, à transformação dos espaços de formação, sejam eles no âmbito da
Educação Básica ou do Ensino Superior, em empresas prestadoras de serviços à
coletividade e, por fim, ao modo como nossas pesquisas denotam uma lógica racional
cujo método está pautado na pretensão de busca e construção de verdades sobre os

No pensamento positivo. por meio de uma reforma intelectual do homem. Em seus estudos. Bacon. Nessa lógica de pensamento. embora a sociedade já houvesse adentrado numa época iluminista. Galileu. em suma. desenvolvimento e racionalidade. a sociedade se constrói em consonância ao espírito de seu tempo. O primeiro é a fundamentação da “Lei dos Três Estados” e o segundo a “Classificação das Ciências”. Por essa razão. em fazer uma leitura. deve ser conhecido para garantir a ordem e o progresso social da humanidade. portanto. havia promovido. o autor acreditava que a sociedade constitui um corpo que funciona de uma determinada forma e que. pois quando se conhece a sociedade é possível antever os acontecimentos. sejam elas . Nesse sentido. Descartes e Isaac Newton. Essa reorganização foi impulsionada pelo desenvolvimento da ciência e da técnica. No Curso de Filosofia Positiva. segundo Comte. embora necessária. análise e crítica dos ensaios presentes no Curso de Filosofia Positiva e relacioná-los à educação para refletirmos sobre nossa prática e sobre os fins da Bildung. Nosso trabalho consiste. podemos observar que há dois eixos norteadores de seu pensamento positivo. O PENSAMENTO POSITIVO DE AUGUSTE COMTE: DO MISTICISMO À RAZÃO E À HIERARQUIZAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO. qual seja. de Auguste Comte. Comte afirma que era preciso fundar novas formas de pensar que fossem correspondentes ao estado evolutivo da ciência de sua respectiva época. as duas lições que compõe a referida obra tratam diretamente da necessidade de Comte em promover uma reorganização social (considerando-se que a Revolução Francesa. Tal reforma é justificada por Comte em face da hipótese de que. criar condições à reorganização social ancorada na ciência e na racionalidade. Oriundas das aulas que o autor ministrou em sua própria residência no ano de 1826. Obviamente. É neste cenário que Comte idealizou uma Filosofia Positiva cujo intuito era. Comte constatou que os fenômenos possuem uma regularidade que possibilitam ao indivíduo conhecê-los e antever o seu comportamento. o de uma ordem regular e estável em que se faz possível conhecer positivamente a realidade. já aparente nos séculos XVI e XVII com as contribuições teóricas de Copérnico. uma anarquia social) fundada em métodos de ordem. esse funcionamento. prever problemas e propor soluções. progresso.objetos que pesquisamos. o autor pretendia conhecer os fenômenos e os problemas sociais. ela ainda alimentava formas de raciocínio abstratos ou míticos. essa teoria de Comte não prevê as modificações sofridas no interior da sociedade.

as causas primeiras e finais de todos os fenômenos que o atingem. a forma como os indivíduos explicavam os fenômenos da natureza era através do mito. Nesse sentido. concebe os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos. Na primeira lição do Curso de Filosofia Positiva. Adorno e Horkheimer relatam. na era mitológica. cuja arbitrária intervenção explicaria todas as aparentes anomalias do universo. Nas palavras de Comte (1978. conforme já dito. era a superstição que permitia ao homem compreender a existência dos fenômenos. 36): No estado teológico. isto é.econômicas. de início.. conforme descrita por Comte.).). passa sucessivamente por três estados históricos diferentes: estado teológico ou fictício. já que o autor previa uma ordem natural e estável de seu funcionamento. estado científico ou positivo. uma visão geral sobre a marcha progressiva do espírito humano (. numa palavra. . que.. os homens criaram mecanismos próprios. p. O conhecimento da sociedade por Comte deu-se. (COMTE. Em seus escritos sobre o progresso do pensamento humano e da ciência. o espírito humano. O Estado Teológico pode ser pensado não só no contexto da Idade Média. Adorno e Horkheimer (1985) esclarecem ainda que. da infância à idade adulta. se igualarem a ela e usá-la em seu favor por meio de sua projeção individual. em O Conceito de Esclarecimento (1985). Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais. 1978. A Lei dos Três Estados. está organizada pelo Estado Teológico. isto é. rituais mágicos para tentarem influenciar a natureza. através dos eixos que norteiam sua filosofia. de qualquer fenômeno natural que lhe percebido como desconhecido ou ameaçador. políticas. 35). O primeiro deles é a Lei dos Três Estados. p. Estado Metafísico e Estado Positivo.. dos acontecimentos. para os conhecimentos absolutos. mas na Mitologia também. Creio ter descoberto uma grande lei fundamental. estado metafísico ou abstrato. sociais ou culturais. através de um percurso linear e progressista cujo fim último é a perfectibilidade histórica dos homens: Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e o caráter próprio da filosofia positiva.. é indispensável ter. cujo movimento pode ser comparado ao crescimento do homem. dirigindo essencialmente as suas pesquisas para a natureza íntima dos seres. dos comportamentos. cada ramo de nossos conhecimentos. o autor justifica o modo como o espírito humano evoluiu segundo uma ordem. enfim. a que se sujeita por uma necessidade invariável (. para sobreviver.

para cada elemento que representasse a vida. Essa doutrina é analisada por Comte quando o autor afirma que também na Idade Média ainda pensávamos supersticiosamente. por meio dos preceitos religiosos. Essa moral cristã. enfim. A aproximação do homem aos deuses.. à medida que o conhecimento evolui e os acontecimentos históricos também. Na Idade Média. por exemplo. então. Nesta feita..) Muito cedo deixaram de ser um relato. à ameaça e à extinção da vida. É por essa razão que Zeus significa a supremacia dos céus. pois era ele quem explicava a natureza. nas Confissões de Santo Agostinho. os homens sentiam-se satisfeitos. 20). (ADORNO. para se tornarem uma doutrina”. era adestrado. embora já houvéssemos superado a mitologia. Desse modo. podemos notar o quanto a religião determinou as ações e escolhas dos homens ao estabelecer os castigos e as punições para cada tipo de comportamento religioso e socialmente inadequado. mas também a vida humana e natural. a religião perde espaço e o mito religioso já não é mais suficiente . sacrifícios. o universo ainda era explicado graças a um deus que regia nossas ações. pintavam seus corpos. A religião e a fé explicam não só a natureza. permitiu que se atribuíssem a cada ser mitológico uma forma representativa da natureza. invocavam os deuses da natureza. portanto. denominar.Para sobreviver ao medo. determinava a hora de nascer e morrer. 1985. não questionavam o saber religioso. até determinada medida. era preciso uma intervenção divina e mágica que auxiliasse os homens a compreenderem a vida e os seus mistérios. Poseidon o deus dos mares. Hades o deus dos mortos. uma forma de esclarecimento. por si só. mas mantém a coesão social ao fundarem a vida moral dos indivíduos. amparados por um deus único e salvador. e mesmo a morte. mas também expor. ou seja. Afrodite a deusa do amor. (. seguros e. dizer a origem. p. Obviamente. que deveria ser assumida como ideologia e colocada em prática. os homens. por exemplo. havia um deus que regia a existência dos indivíduos e explicava não só o surgimento do universo. Ares o deus da guerra. que é o fenômeno mais desconhecido e ameaçador. “o mito queria relatar. a existências dos males que afetam a vida. a ocorrência dos fenômenos. explicar. HORKHEIMER. controlado e regrado no corpo e na alma para não desobedecer e manter essa coesão e a moral cristã. é tão fortemente assumida pelos indivíduos que. realizavam trocas. fixar. podemos afirmar que o mito era. enfim. Atenas a da sabedoria. O indivíduo.

a manifestação pela experiência das leis que nossas funções intelectuais seguem em suas realizações. Finda essa fase. do Politeísmo e do Monoteísmo. pela religião. (COMTE. os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas. o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. e. mas a sua regularidade. a metafisica é descrita pelo autor como fase de transição e tão somente isto. verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo. a causa e o fim dos fenômenos. que no fundo não é mais que uma modificação geral do primeiro. na metafísica. 1978. O Estado Metafísico pode ser observado no Século das Luzes cuja máxima kantiana consistia na ordem de que o homem saísse de sua menoridade. segundo Comte. por fim. p. Através do desencantamento do mundo. 36). mas por um pensamento racional pautado na empiria e no método que coloca como cerne de seu pensamento a busca da verdade: Tal deve ser o primeiro grande resultado direto da filosofia positiva. cuja explicação consiste então em referir para cada um a entidade correspondente. químicas e vitais que regem e organizam o universo de modo que seja possível explicar a sua natureza.. O uso desse esclarecimento. os seres deixam de ter vida própria para serem justificados por deuses que os criaram para. Contudo.para explicar os fenômenos da natureza. por covardia ou preguiça. o estágio final do saber humano é aquele em que não mais buscamos explicar a natureza. serem regidos por um só deus cujo universo está submetido a ele. portanto. Essa transição é sentida no movimento do Estado Teológico nos períodos do Fetichismo.. pelo sobrenatural ou pela abstração das ideias. ainda é especulativo. o mito e a religião perdem espaço para um saber mais racional. Nesse sentido. cuja característica é a substituição do pensamento mítico pela abstração: No estado metafísico. e concebidas como capazes de engendrar por si mesmas todos os fenômenos observados. 17). conforme justificam Adorno e Horkheimer (1985. sua origem e seu fim. Na metafísica crê-se que há forças físicas. Por essa razão. Essa fase de transição é descrita por Comte no Estado Metafísico. “no sentido mais amplo do progresso do pensamento. por . por meio da razão e fizesse uso de seu esclarecimento. Em termos gerais.) O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo”. (. p. matematizado e empírico que passa a comprovar a ocorrência dos fenômenos do universo. os fenômenos não são mais fundamentados pelo mito.

os fenômenos se vinculam uns aos outros de modo que essa relação incide na divisão das áreas do saber. a partir daqui. sua regularidade: No estado positivo. são subordinadas agora à observação. reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas. Não aleatoriamente. pois ele se ocupa de elementos subjetivos. não é mais. totalizante.conseguinte. Por meio dessa justificativa. peculiares nos estágios anteriores. Nesse sentido. Por essa razão. No espírito positivo proposto por Comte. 1978. o conhecimento preciso das regras gerais convenientes para proceder de modo seguro na investigação da verdade. com os progressos da ciência. 36-37). sua imutabilidade. conforme discutiremos mais adiante. p. a imaginação e a argumentação. matematizado e. só pode ser válido como conhecimento aquilo que pode ser visto e comprovado empiricamente. das suas relações invariáveis de sucessão e similitude. pelo uso bem combinado do raciocínio e da observação. 1978. isto é. Cabe ressaltar que o autor não objetiva aqui conhecer as causas dos fenômenos. Este é um dos elementos passíveis de crítica no positivismo. p. portanto. do que a ligação que se estabelece entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais cujo número tende. O que é da ordem do subjetivo e do sensível. A explicação dos fatos. pesquisar suas leis. para se dedicar apenas a descoberta. mas conforme mencionamos. (COMTE. Se os fenômenos possuem regularidade. renuncia a procurar a origem e o destino do universo e a conhecer as causas íntimas dos fenômenos. 61). o espírito humano. a diminuir cada vez mais. a leitura que Comte faz da Psicologia parte do pressuposto de que o método psicológico não seria válido. No Estado positivo. na ótica de Comte. Comte nega a redução dos fenômenos a um só princípio (deus ou a natureza em si mesma). pois incidirá na ênfase à importância de determinadas áreas do saber em detrimento da menor importância de outras. Na verdade. classificar e hierarquizar os saberes por meio dos quais os seres e os fenômenos estão inseridos. a Ciência e cada ramo do conhecimento se ocupa com um grupo de fenômenos que podem ser ordenados em um conjunto de teorias próprias. portanto. (COMTE. fenômenos obscuros e duvidosos. das suas leis efetivas. portanto. então. reduzida então aos seus termos reais. podemos afirmar que o pensamento positivo consiste no uso da racionalidade cujo objetivo é a busca da verdade de todos os fenômenos que são visíveis e observáveis. Essa . Comte argumenta que é possível organizar. portanto. é sobrepujado por esse raciocínio que se pretende instrumental.

e não o seu contrário. Nesse sentido. sentida por nossa inteligência. Nos argumentos do autor. a regularidade possibilitou a Comte organizar os saberes em suas diversas áreas próprias. conhecer. recorrência e similitude entre os fenômenos que fazem com que eles sejam submetidos a uma mesma lei. Desse modo. que nada escape à lógica do pensamento instrumental. a saber. químicos ou orgânicos podem ser compreendidos e fundamentados pelas leis da Física. antes de tudo. basta pensar um instante nos efeitos fisiológicos do espanto. dos gerais aos mais particulares. Para perceber quanto essa necessidade é profunda e imperiosa. segundo Comte. p. que consiste na sua disposição pela ordem de seu aparecimento. Essa primeira divisão. daí previdência. respectivamente. os corpos não estão suspensos na superfície terrestre. cuja dependência das diferentes áreas do saber faz com que se determine a ordem em que devem ser estudadas. “ciência. e Didática. A necessidade dessa classificação. quando o pensamento conquista seu caráter de racionalidade e cientificismo é possível determinar. isto é. sobre a Classificação das Ciências. em razão da gravidade. para Comte. previdência. ou seja. a hierarquização do conhecimento percorre um caminho didático cujo movimento consiste na compreensão de fenômenos mais simples aos mais complexos.) As ciências possuem. o desejo de estudar a natureza é movido pela atitude de ação sobre ela: (. mais geral. significa prever os acontecimentos e usá-los a favor dos homens.organização está fundamentada pelo autor na sua Segunda Lição.. Comte hierarquiza os conhecimentos em Práticos e Teóricos. por exemplo. para que nada escape daquilo que observamos e deduzimos sobre o objeto. e considerar ser a sensação mais terrível que podemos sentir aquela que se produz todas . a classificação das ciências proposta pelo autor está pautada em uma justificativa Histórica. que. da Química e da Biologia. por exemplo. Desse modo. Nesse sentido. a de satisfazer à necessidade fundamental.. conforme mencionamos anteriormente. 1978. é defendida pelo autor quando ele afirma que é preciso conhecer primeiro os fenômenos para depois colocar esse conhecimento em prática. que é a Terra quem gira em torno do sol e dela mesma. de conhecer as leis dos fenômenos. Com essa justificativa. fica bastante evidente o vínculo entre saber e poder. (COMTE. que fenômenos físicos. destinação mais direta e mais elevada. daí ação”. 77). enfim. pois o objetivo do conhecimento vincula-se à possibilidade mesma de não deixar que nada nos espante. A regularidade nos fará compreender. Nesse sentido. é justificada pela relação.

deveria ser estudada. Conforme ressaltamos.as vezes que um fenômeno nos parece ocorrer de modo contrário às leis naturais. Para estabelecer a filosofia positiva. que nos são familiares. (COMTE. 78-79). a física. a divisão e a classificação das Ciências comteana podem ser organizadas de modo que as Ciências Abstratas estão subdividas pela Matemática. é possível concluir que as indicações de Comte não foram ignoradas no cenário político e educacional brasileiro. essa lacuna é a Física Social que. moral e político cuja concretude estaria submetida. Essa educação deveria acompanhar o espírito da época e as necessidades da civilização moderna. Assim. portanto. Além disso. os preceitos positivistas foram assumidos pela nossa educação ao tomarem para si ideais de progresso. Diante do que expusemos até aqui. é certo que o conjunto de nossos conhecimentos sobre a natureza e o dos procedimentos que daí deduzimos para modificá-la em nosso proveito formam dois sistemas essencialmente distintos em si mesmo. investigar e estabelecer as leis da física social que regem a ordem e o progresso da sociedade. p. especialmente. é o último fim do pensamento positivo. (. As influências do positivismo na educação são inúmeras e . a química e a biologia seguem uma ordem cujo saber parte do mais simples ao mais complexo. Essa disposição é justificada por Comte que afirma que havia ainda uma lacuna na fundamentação das leis gerais do conhecimento científico. (COMTE. era. Na ótica do autor.) Seja como for. Ela seria. Comte privilegia os conhecimentos teóricos pois são eles que fornecem “a base racional duma física concreta verdadeiramente sistemática”. que a reforma da sociedade segue um percurso intelectual. pelas Ciências dos Corpos Brutos (Astronomia. O objetivo do autor. Física e Química) e pelas Ciências dos Corpos Orgânicos (Fisiologia/Biologia e Física Social/Sociologia). Podemos afirmar. p. a base sólida da reorganização social. pela reforma na educação. 1978. é possível notarmos que a matemática. havia chegado o momento adequado e oportuno da ciência da sociedade atingir seu Estado Positivo. cabe ressaltar. seguridade econômica ou mesmo ordem. Nessa classificação final. a Sociologia.. 1978. Comte evidencia que a reforma educacional previa uma mudança na formação europeia que ainda estava centrada em preceitos teológicos. prosperidade. em suma. No contexto de progresso e industrialização do nosso país. por ser mais complexa. de igual modo como nas outras ciências. portanto. metafísicos e literários.. podemos perceber que a Física Social. 85).

com o intuito de modificar a formação europeia ainda teológica. podemos afirmar que a prática do ensino quase sempre centrada na figura da mulher é uma das influências mais visíveis do positivismo na educação. moral e. incorporou ideais positivistas em seus currículos. seja ela Básica ou Superior. São de ordem moral na medida em que. planejamentos e mesmo no modo de se fazer pesquisa nas universidades. Nesse sentido. Comte evidencia que as exigências colocadas ao estabelecimento do Espírito Positivo são de ordem política. por fim. são de ordem educacional no sentido de. elas estão refletidas também no Ensino Superior e nos modos como fazemos pesquisa. a sociedade deveria percorrer o ritmo do progresso. No Curso de Filosofia Positiva (1978). São de ordem política na medida em que.podem ser pensadas nos meios. metafísica e literária. por fim. nos propomos a discutir essas influências e pensar os aspectos que nos permitam estabelecer o vínculo entre Positivismo e Formação. Embora não seja de nosso interesse tratar exaustivamente de cada uma dessas reformas é importante ressaltar que todas elas incidem diretamente sobre a educação e os fins que foram almejados para a formação ao longo do progresso da história da educação brasileira. educacional. tendo fundado a Religião da Humanidade. A começar pela reforma moral e profissionalização docente feminina. sobretudo. os modos como a educação. E. objetivos e fins da educação nos dias de hoje. nos propomos a pensar aqui o vínculo entre reforma moral e profissionalização docente centrada na figura feminina. pela industrialização e pelo desenvolvimento da técnica. Comte acreditava que uma nova fundamentação moral poderia ser exercida pelas mulheres. no próximo item de discussão. o autor transparece o quanto ela inviabilizava a instauração de um ensino que poderia ser praticado por meio da hierarquização natural e imutável dos fenômenos idealizado na classificação das ciências. Embora saibamos que as instituições responsáveis pela Educação Infantil se emanciparam de suas noções . Por essa razão. Além disso. impulsionada pelo capitalismo. da ordem e do desenvolvimento. AS RAÍZES DO PENSAMENTO POSITIVO NA EDUCAÇÃO: ANÁLISE DOS ELEMENTOS QUE FUNDAMENTAM AS INFLUÊNCIAS POSITIVISTAS NA FORMAÇÃO EDUCACIONAL. e. o estreitamento entre reforma política e fins econômicos lançados à educação.

Comte atribui à mulher. segundo Mello (2007). em associação à Virgem Maria. a hierarquização de papéis para cada gênero culminou. consequentemente. podemos compreender o papel da mulher no cenário educativo pelo vértice mãe-educadora-professora. Nessa separação de papéis fica evidente o cerceamento da mulher e sua responsabilidade na manutenção da ordem social. (MELLO. da afetividade. era papel da mulher o cuidado com a família e. Na ótica de Comte. Aos homens. e mesmo inatingível. Essa instrução caberia. era de sua incumbência reprimir comportamentos agressivos e antissociais dos homens. até nos dias de hoje. . pela função protetiva e pela educação moral que a mulher é eleita ao exercício docente. desse modo. colocar em prática a moralidade e auxiliar a fundar e manter uma sociedade positiva. Portanto. a profissionalização docente quase sempre se pautou na figura feminina de modo que. da proteção. ao menos na Educação Infantil. na submissão feminina cuja atividade se restringiu apenas ao cuidado materno e moral da família. pois. couberam a prática social. Esse diagnóstico se justifica pela inferiorização da mulher em relação ao homem. nos escritos de Comte. Para o autor. Nesse sentido. Embora não seja de nosso interesse trazê-la à discussão.cuidadoras e protetivas. do carinho. Embora Comte tenha elevado a condição social e moral da mulher em seus escritos. a Religião da Humanidade ocupa certo destaque. na verdade. à mulher cuja perfectibilidade moral lhe dava autoridade para exercer o ensino. grande parte do professorado brasileiro. do amor e da prática moral. se associa à prática da moralidade cujo exercício só poderia ser dispensado à mulher. É nesse cenário disposto pelo ambiente do lar. corroborou o aprisionamento do sexo feminino e mesmo sua submissão. política e o labor diário como forma de sustento da família. Influenciado por Clotilde de Vaux. sendo ela o composto afetivo e amoroso da sociedade. do cuidado. passando a assumir função educativa. Na ótica de Mello (2007) a divinização da mulher e sua representação como um ser superior. é importante reconhecer que a idealização da mulher está estreitamente vinculada à ela. esse papel. com a sociedade. o homem só seria dispensável no exercício próprio da instrução dos sujeitos. somente a mulher possuía o dom da maternidade. A valorização da mulher. é composto por mulheres em razão da ideia de cuidado. 2007). Dentre os principais temas que perpassam a filosofia comteana.

parecia se reforçar a hierarquização de papéis entre os gêneros. o mesmo cuidado.Essa educação obviamente se iniciava em casa. Com essa separação de papéis também fomentada nas escolas. transposta à professora. com o matrimônio e com os filhos. nas escolas. nessa dimensão. foi habilmente exercida pela mulher e assim continua sendo até a temporalidade do presente. a Educação Infantil parece operar como uma extensão do ambiente doméstico cuja figura feminina. não podemos ignorar que grande parte de seu exercício tenha sido fundamentado em noções de cuidado e proteção. Nas instituições educativas. função esta que é aparente também nos dias de hoje com o professorado sendo majoritariamente composto por mulheres. podemos inferir que os papéis femininos pensados pela Filosofia Positiva incidem na Educação na medida em que tomou a mulher como principal representante da função docente. Coube à mulher. posteriormente. as primeiras atividades educativas percebidas no Brasil foram exercidas pelos jesuítas que. Contudo. Espera-se. compreendida como prolongamento do lar. no período colonial. constitui também um prolongamento da figura materna. Não aleatoriamente. Segundo Di Giorgi e Leite (2010). obviamente o exercício docente não era eleito pelos homens. e a eles os conhecimentos úteis necessários à formação da cidadania e do trabalho. isto é. a prática docente. social e econômica da sociedade. que a mesma proteção. Finda esta temática. os cuidados com o lar. quando percebeu-se que a educação constituía o mote para a reforma moral. podemos pensar que uma segunda influência do positivismo na formação é a exigência da laicidade do ensino. Por essa razão. foram responsáveis pela cristianização dos indígenas e difusão da . carinho e amor dispensados aos filhos pequenos no ambiente doméstico sejam também exercidos no espaço escolar. já que a mulher estava encerrada nele. Em suma. portanto. A elas se ensinavam as prendas domésticas. 2012). Desse modo. nas escolas de Educação Infantil. Ao menos são esses os cuidados esperados pelas mães quando deixam seus filhos recém nascidos nas creches e. (MELLO. embora a Educação Infantil tenha se emancipado de sua definição estritamente cuidadora para alcançar a dimensão educativa. podemos concluir que a educação nos termos positivistas. Conforme dito anteriormente. então concluiu-se que a educação deveria ser exercida também fora de casa. os conteúdos ensinados aos meninos e às meninas eram diferentes. porém. o que os fariam colaborar ao progresso social.

Nessa medida. respeitando-lhe a integridade da personalidade em formação. a educação se incumbia apenas de formação técnicoburocrática. 2006. a sua . Assim. portanto. os jesuítas alfabetizaram e instruíram os índios para que eles pudessem não só ser incluídos na catequese como também aprender a língua portuguesa. é possível perceber a importância atribuída à educação quando. Para realizar esse intento. na República.cultura ocidental. entre o teológico e a cultura. Após a Independência. passando a atender cada vez mais aos interesses da elite. por exemplo. do comércio. com o crescimento da industrialização. Nesse sentido. tal sistema só começou a ser articulado com a vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808. Nesse contexto. é instaurada a gratuidade do ensino. à pressão perturbadora da escola quando utilizada como instrumento de propaganda de seitas e doutrinas. por exemplo. do proletariado. das estradas de ferros e rodovias e dos portos marítimos. Essa laicidade do ensino parece dialogar com o ideal de reforma educativa comteana já que. houve a separação entre ensino e religião uma vez que foi preciso separar o que era da ordem do teológico da ordem do científico: A laicidade. das indústrias. o que favoreceu a expulsão dos jesuítas por Marquês de Pombal. P. cabe ressaltar. relação esta que durou até a reforma pombalina. podemos afirmar que o reconhecimento da educação como direito de todos. não podemos negar que as primeiras atividades educativas no país mantiveram um vínculo estreito entre religião e ensino. subtrai o educando. a necessidade da formação é ainda maior. com vistas a formar mão-de-obra de uma pequena e seleta elite. podemos notar que o progresso sentido no país colocou como cerne do debate educacional medidas que visavam a construção de um sistema de ensino que fosse capaz de atender às demandas sociais da época. Nesse período. Desprovidos de um sistema de ensino no período pombalino. da urbanização e dos movimentos sociais se iniciou uma considerável campanha para combater o analfabetismo e novas ideias fermentaram a discussão educacional. Com o progresso da agricultura. é possível notar que após a expulsão dos jesuítas e as transformações históricas que influenciaram também o ensino. (O MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA. que coloca o ambiente escolar acima de crenças e disputas religiosas. a sua obrigatoriedade. já no Império. alheio a todo o dogmatismo sectário. 193). o insucesso de uma sociedade positiva era fruto das raízes teológicas e metafísicas no ensino. Embora a Colônia de Jesus tenha sofrido alterações em seu sistema de ensino. segundo Comte.

Ao menos essa é a ideia originada na República e que tem prevalecido nos fins pedagógicos na nossa atualidade. no contexto da educação brasileira. ou seja. o reconhecimento de que a formação não ficou imune ao desenvolvimento do espírito de nossa época e às necessidades da civilização moderna. e. mas resolver os problemas sociais.garantia como responsabilidade do Governo Federal. reformas estas que irão fazer com que se compreenda a educação como solução de problemas sociais e como processo de formação de indivíduos competentes e habilidosos para o mercado de trabalho. as alterações nas relações sociais provocadas no Brasil com a extinção da escravatura e o fato de o proletariado iniciar sua história no contexto brasileiro provocam a expansão do ensino elementar. Nessa esfera. à sobrevivência. Do mesmo modo. então podemos afirmar. agir sobre ela. A Revolução de 1930 ocorreu em meio a grande efervescência de ideias e seu programa era o da Aliança Liberal: realização de eleições. essa era a exigência posta por Comte quando afirmou que a educação deveria constituir a base sólida da reorganização social. o ensino seria uma forma de controlar a população a favor dos interesses do capital. Isso porque. mas o indivíduo competente e apto a inserir-se na divisão social do trabalho. no plano educacional. como também ser capaz de preparar mão-de-obra para que isso acontecesse: Portanto. na ótica da classe dominante. Para isso. a educação deveria não só ofertar condições ao progresso do capital. portanto. qual seja. com certa segurança. Na filosofia positiva de Comte é evidente a aproximação do conhecimento à previdência e. que a educação não deixa de assumir essa mesma finalidade. já se tornou um consenso reconhecer uma noção salvadora da formação como aquela que oferta aos indivíduos as condições para que ele possa não só intervir e transformar sua realidade. No cenário da educação esse vínculo se expressa na visão produtivista da formação em detrimento da formação civil democrática. Todo o cenário descrito até aqui parece fomentar o que consideramos uma terceira influência do Positivismo na educação. a educação passa a ser concebida não como o processo mediante o qual se forma o cidadão consciente de seus direitos e deveres. a difusão do ensino técnico-profissional como meio de preparação de . elaboração de uma nova constituição. Estados e Municípios e a sua laicidade constituem importantes fatores para se pensar reformas na educação. antever e prever o seu comportamento. cuja existência passava a ser reconhecida. Se a Ciência tem a finalidade de intermediar o nosso conhecimento sobre a natureza. busca de soluções para a “questão social”.

P. 310-311). ao trabalho: . Obviamente a proposta dos pioneiros da Educação Nova era questionar e transformar a educação tradicional. 188)... As novas ideias pensadas no cenário educativo incidem no que pretendemos apontar como a quarta influência do positivismo na educação. 2010. que a formação não parece ser percebida como o processo de desenvolvimento da cidadania. mas se coloca diante de um imperativo que é o econômico. Os apontamentos feitos pelos autores também estão presentes no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). nesse sentido. (DI GIORGI. a sua formação politécnica e sua posterior atuação como professor no ensino politécnico evidenciam a propensão de Comte à formação tecnicista. sem o preparo intensivo das forças culturais e o desenvolvimento das aptidões à invenção e à iniciativa que são os fatores fundamentais de acréscimo de riqueza de uma sociedade. ponderar e julgar do sujeito próprias da noção da Bildung. a dimensão politécnica e tecnicista do ensino. LEITE. da emancipação e das capacidades de refletir. O que nos chama a atenção nessas primeiras linhas é a ideia em si da formação como exigência para reformar a sociedade. já nas primeiras linhas do documento. cuja análise demonstra novos fins colocados à educação na década de 30. É interessante observar. não lograram ainda criar um sistema de organização escolar. há um diagnóstico em que a educação aparece como principal fator de reconstrução social. porém convém reconhecermos que tal transformação pressupunha conformar a educação à competência. a educação não constitui apenas condição de reforma.). não podemos ignorar a sua importância no cenário histórico da educação. (. se a evolução orgânica do sistema cultural de uma país depende de suas condições econômicas. No documento.. exigência esta já citada por Comte no Curso de Filosofia Positiva (1978).. reforçando ideais de laicidade. (O MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA. da autonomia. na afirmativa acima. Embora o autor não tenha escrito nenhum programa educativo sobre este tema. à altura das necessidades modernas e das necessidades do país. p. mas também de desenvolvimento econômico: Pois. obrigatoriedade e qualidade. gratuidade. 2006.mão-de-obra qualificada para a indústria e o comércio (. já sentida nos escritos de Comte quando idealizou o Curso de Filosofia Positiva em 1826. é impossível desenvolver as forças econômicas ou de produção.) Todos os nossos esforços. qual seja. No Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). sem unidade de plano e sem espírito de continuidade.

São desenvolvidas habilidades intelectuais (formação. Valoriza-se. Essa formação é concretizada pela formação de habilidades muito específicas: adaptação. diagnóstico de problemas. conteúdos e saberes) e atitudes morais . Nessa lógica. No documento. não é apenas o método que realiza o acréscimo da produção social. nesse sentido. é o único método susceptível de fazer homens cultivados e úteis sob todos os aspectos.É certo que é preciso fazer homens. quando reduzimos os tempos da infância por meio da hierarquização de conhecimentos e práticas nos quais seja possível avaliar o aprendizado da criança. reconhecimento das causas e solução de problemas e formação constante e permanente. pois ela se identifica com noções de progresso e desenvolvimento. 196). o trabalho que foi sempre a maior escola de formação da personalidade moral. e adiantamos os tempos de formação preparando-as para o futuro desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Na nossa contemporaneidade essa exigência não é diferente. mas aquele no qual se formam habilidades e competências cujo fim é o utilitarismo do mercado. predomina na formação o desenvolvimento de habilidades e competências para que o indivíduo seja capaz de colocar em prática os ensinos recebidos em sua escolarização. Não aleatoriamente. Nessa lógica de pensamento. a manutenção da ordem capitalista vigente. antes de fazer instrumentos de produção. Desse modo. se evidencia. 192). que o trabalho é o elemento formador da educação cujo objetivo é fazer com que o educando se insira na “corrente do progresso material e espiritual da sociedade de que proveio e em que vai viver e lutar”. Mas. portanto. (O MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA. seu desenvolvimento perceptivo e motor por meio da observação. Ela ocorre desde a mais tenra idade da criança. Ela se concretiza quando o conhecimento científico se alia à técnica e tenciona os fins da educação aos fins sociais meramente utilitários. 2006. a escola não está imune à racionalidade técnica e à lógica empresarial. qual seja. espera-se formar um conjunto de habilidades e saberes que o permitam retribuir à sociedade aquilo que recebeu em sua formação. P. o “aprender a aprender”. P. Entende-se por educação não o processo originário da Bildung. (O MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA. 2006. o investimento em capital humano hoje é feito para que se produza capital. a formação contínua e linear e a aprendizagem permanente do aluno (já que a tecnologia se inova a cada tempo). inovação.

posteriormente. disponibilidade. a escola se transforma em empresa ou instituição prestadora de serviço. enfim a educação se volta quase que exclusivamente à lapidação dos alunos “diamantes”. 193) denomina essa realidade pedagógica de “indústria educacional” que consiste no processo “no qual o capital (investimento financeiro) invade a educação. Parece que as instituições responsáveis pela formação dos alunos se preocupam cada vez mais em identificar. os objetivos. no mercado de trabalho. isto é. 2014. às suas leis de valor e lucro”. hoje. os modos como se ensina e aprende estão vinculados ao positivismo. submetendo o próprio processo pedagógico às leis do mercado e. parece se esquecer dos “cascalhos”. portanto. iniciativa. etc) que produzam resultados expressos em produtividade e acúmulo de capital. cuja principal atribuição é dosar os saberes úteis e indispensáveis ao futuro do aluno. (HERMANN. p. o professor em técnico responsável pela transmissão de conteúdos e o aluno em cliente e depositário que deve assimilar e reproduzir os conteúdos. na medida em que a escola se identifica com o exercício de prever e antecipar os tempos da formação. fica evidente a preocupação das instituições em definir os fins. capitalista e burocrática. por exemplo. cuja inteligência e potencial lhe garantem um lugar na universidade e. as formas de avaliação e as formas de aprendizagem. apropriando-se de instituições de ensino. portanto. através do qual a formação em nível superior se define e se sustenta pela sua flexibilidade e sua habilidade para adaptar-se às mudanças e às transformações sociais da sociedade capitalista” (RAMOS. se expropria da educação a preocupação com a formação de valores deveras mais sensíveis às questões do nosso tempo.1994).(sociabilidade. Por essas vias de raciocínio. 122). Nessa ideia de indústria educacional. Dalbosco (2008. a própria estrutura organizacional da escola dá testemunho de uma instituição industrial. No Planejamento Escolar. a ética de si e do trato com o outro. Dessa forma. Ao nosso ver. p. A escola. os meios. dos alunos cuja . a universidade naquilo que Chauí (1982) aponta como “universidade operacional. como o respeito e a tolerância com o diferente. interferindo diretamente no processo formal de ensino-aprendizagem. descobrir e aprimorar os modos como os alunos aprendem para explorá-los em favorecimento da potencialização de capital humano.

questiona a visão compartimentada (disciplinar) da realidade sobre a qual a escola.2009). uma vez que seu estudo remete à necessidade de se recorrer a conjunto de conhecimentos relativos a diferentes áreas do saber. não são mais importantes que outras: Por tratarem de questões sociais. experiências pedagógicas brasileiras e internacionais de trabalho com educação ambiental. 1997. 1997. Sua complexidade faz com que nenhuma das áreas. os Temas Transversais têm natureza diferente das áreas convencionais. a problemática dos Temas Transversais atravessa os diferentes campos do conhecimento. 29). Refere-se. a necessidade de diálogo entre eles nunca foi tão sentida como hoje: A interdisciplinaridade questiona a segmentação entre os diferentes campos de conhecimento produzida por uma abordagem que não leva em conta a inter-relação e a influência entre eles. (ROSA. Além desta temática. a introdução dos temas da Ética. da Orientação Sexual. por exemplo. reconhece-se que o trato de questões que são importantes ao nosso tempo não são exclusivas e restritas a cada área de conhecimento e que. podemos elencar ainda como uma influência do positivismo na formação a problemática da organização dos currículos. tal como é conhecida. seja suficiente para abordá-los. currículos. Diante disso optou-se por integrá-las no currículo por meio do que se chama de transversalidade: pretende-se que esses temas integrem as áreas convencionais de forma a estarem presentes em todas elas.. p. O maior valor das Ciências Exatas em detrimento das Ciências Humanas é sentido até hoje na carga horária dos cursos.ausência de uma inteligência inata lhes nega o acesso às mesmas oportunidades educacionais dos alunos “diamantes”. da Pluralidade Cultural.) Considerando esses fatos. historicamente se constituiu. cuja utilidade é quase nula. Nesse sentido. seriados e divididos por áreas do saber. relacionando-as às questões da atualidade. Talvez em razão da cesura que sempre houve entre os campos do saber. 21) Nos Parâmetros Curriculares Nacionais que tratam dos Temas Transversais. O currículo fragmentado. tradicional. isoladamente. separado por áreas de conhecimento é sem dúvida de origem positivista. (BRASIL. grades universitárias e mesmo nos exames vestibulares e avaliações governamentais que avaliam o desempenho dos alunos. da Saúde e do Meio Ambiente exigem do currículo da Educação Básica a transversalidade e a interdisciplinaridade entre eles e as outras disciplinas do currículo. a uma relação entre disciplinas. (BRASIL. Ao contrário. (. por serem disciplinas fixas do currículo. orientação sexual e saúde têm apontado a necessidade de que tais questões sejam trabalhadas de forma contínua e integrada. .. portanto. p.

nesse sentido. parece haver na pesquisa brasileira uma exigência de produtividade para que os currículos fiquem inflados por produções ao passo que a qualidade dos trabalhos sejam mesmo questionáveis no que compete aos resultados e impacto social. fica evidente que a fragmentação dos currículos do ensino precisa ser questionada na medida em que. de modo que nunca houve tanta necessidade de se repensar a relação dos conteúdos com a vida dos alunos. se constitui daquilo que nos passa. o que favoreceria. daquilo que aprendemos ao longo da tradição cultural. uma aprendizagem efetiva e significativa para o aluno. a experiência que é da ordem do empírico daquela experiência que é da ordem da subjetividade. padecemos. observados e comprovados à luz do método e da empiria. No modo como fazemos pesquisa esse legado também é evidente. nos afeta e nos transforma . Separa-se. o uso extracientífico da pesquisa pressupõe grandes quantidades e resultados que nos fazem questionar se o nível de produtividade nas pesquisas está perpassado pela sua real qualidade e impacto social. quantificados. espaços e gerações até chegar a nós. O progresso é justificado pelo vínculo entre pesquisa e mercado que faz com que a investigação perca seu caráter de busca da verdade para submeter-se a fins econômicos de modo que os pesquisadores optam por investigar aquilo que pode ser útil ou lucrativo. se os resultados que produzem são para benefício de poucos ou para o bem comum da coletividade. além de promover uma separação entre as diferentes áreas do saber. especialmente com a Filosofia Clássica e Moderna. Segundo Zanotto (2005). ousaríamos afirmar que o uso da pesquisa está voltado à obtenção de diplomas e títulos que garantam o melhor emprego seja nas grandes empresas ou mesmo na universidade. portanto.De acordo com os PCN’s (1997). hierarquizando as de maior e menor importância. sofremos. o legado do positivismo na pesquisa é respaldado pelas noções de progresso e produtividade. em suma. ou então. Em suma. sistematizados. A experiência. Por essa razão. se promove um distanciamento entre o observável e o vivido. enfim. que é própria daquilo que vivemos. não promove a articulação entre elas. Por fim. isto é. Ele se sustenta na preconização de saberes que podem ser avaliados. Nesse caso. daquilo que ouvimos nas grandes narrativas e fábulas contadas pelos nossos avós aos nossos pais e que ultrapassava tempos. que. não poderíamos deixar de pensar a influência do positivismo na pesquisa e no modo como fazemos pesquisa.

Talvez isso aconteça. portanto. nos lançamos sobre ele e projetamos nossos fins nos resultados finais sem sequer nos identificarmos com os nossos problemas de pesquisa. Desse modo. por vezes. naquilo que nós mesmos determinados. na verdade. significativos. Em suma. O que parece ser um problema. Elimina-se. O objeto se converte. em termos científicos. eliminamos tudo o que escapa daquilo que queremos comprovar como verdade. ou aquilo que ele é em si mesmo. pois. classificamos e quantificamos. Além disso. p. muitos pesquisadores tentam forjar ou manipular dados de entrevistas ou .(LARROSA. e aquilo que impomos como sua significação. pois quando estipulamos nossos objetivos e hipóteses já apresentamos previamente os resultados de nossa investigação. esquematizados e quantificados em dados de nossas pesquisas cujo fim é comprovar a previsão que fazemos quando levantamos nossas hipóteses nos projetos de pesquisa. que quantifica dados. Obviamente seria ingênuo de nossa parte afirmar que não deve haver rigor e método na investigação. assim. Centrados nesses resultados. objetividade e distanciamento entre o observador e o seu objeto de investigação nos afastam daquilo que nos toca e nos afeta e que é próprio do fazer pesquisa em Educação. a especulação é substituída pela observação e comprovação de verdades que nos permitam construir e fundamentar epistemologias que se afastam. prendendo-se apenas aos fenômenos como fim e não como um ponto de partida para a compreensão de contextos maiores. 138) trata-se “de uma prática de investigação que se tornou mecânica. entre a singularidade do objeto. pois aprendemos a pesquisar mediante esta tradição. isto é. qualquer relação subjetiva com o objeto que possa transformar nosso olhar sobre ele. da nossa vida. Nesse caso. sem sequer nos deixarmos afetar por eles. é a distância que há entre nós e aquilo que pesquisamos. Nos modos como fazemos pesquisa. com o pensar qualitativo. portanto. noções como neutralidade. Não à toa. investigamos nosso objeto já prevendo e comprovando nossas hipóteses sobre ele. parece não haver lugar ou não é dado lugar para o espanto e o encanto que o objeto pode nos provocar. uma metodologia estritamente empírica que elimina a relação simbólica entre sujeito e objeto. globais. 2004) é sobrepujada por uma experiência na qual podemos comprovar que o que observamos da natureza e dos fenômenos podem ser organizados. não há em nossos métodos o lugar para a dúvida e a incerteza. Nas palavras de Zanotto (2005. predominando uma relação objetivada com ele.

rodeá-lo e nos aproximarmos dele sem. a Educação. ficam estagnados quando percebem que o seu objeto não irá comprovar suas hipóteses iniciais. talvez falte em nós uma conscientização acerca da violência que infringimos sobre os nossos objetos de pesquisa. manter com ele uma distância necessária para não expropriarmos sua singularidade. Nesse sentido. Talvez nos falte um olhar benjaminiano sobre a pesquisa cujo exercício consiste em nos aproximar do objeto mas. O desafio aqui parece ser o de repensar a nossa maneira de pesquisar para que possamos inaugurar novas significações sobre os nossos objetos. aprendizagem contínua e permanente e formação de atitudes próprias das grandes empresas. assumisse para si tais ideais. Essas influências se evidenciam nas noções de progresso e desenvolvimento. assistimos à transformação das instituições de ensino em empresas. emprego e seguridade econômica que. De modo contrário. portanto. que fez com que a educação. . desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. podemos justificar que vários são os fatores que nos permitem identificar as influências positivistas na educação brasileira. Talvez nos falte. já que elas nada diferem do sistema de treinamento. cuja busca de fragmentos e significados nos permitam preservar o objeto das verdades que o destituem de sua singularidade. Tais ideais se manifestam na compreensão da formação como garantia de sucesso. encontrar novas formas de narrar sobre o fenômeno que seja diferente da linguagem estritamente positivista. ao longo de sua história. meios e fins para que se formem habilidades e competências necessárias à formação de mão-de-obra do alunado para que ele não fique de fora da lógica do capital. herdados do pensamento comteano positivista. contudo. consequentemente. ainda. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em face do que expusemos neste trabalho. então. Nesse caso. para que possamos iluminá-lo. o imprevisto parece operar como algo que deve ser eliminado de nossas pesquisas. sobretudo a contemporânea. favorecem o progresso econômico do país. esse olhar do colecionador (BENJAMIN. de modo a ampliar seu campo de sentido. impormos nossas verdades sobre ele. cujo objetivo é conhecer o objeto e ordená-lo numa lógica estritamente racional. ajusta seus objetivos. 1994). Nos falta. ao mesmo tempo.observações que escapam ao previsto ou. Em busca dessas garantias.

Carlos Rodrigues (Coordenador).O Ensino Superior parece alimentar essa mesma lógica quando compreendemos a formação acadêmica como garantia de diplomas e títulos que nos permitam adentrar o mercado de trabalho e garantir a nossa sobrevivência. diante desse diagnóstico. Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. _______. Dialética do esclarecimento. de José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Batista. Os Pensadores. parecem dar testemunho da herança dos preceitos positivistas sobre o jeito de fazermos ciência e produzirmos resultados de pesquisa. . Escritos sobre uma espécie em perigo. Tradução de Guido Antonio de Almeida. COMTE. In: BRANDÃO. ponderar e julgar sobre as suas ações sobre o meio. parece urgente pensarmos criticamente a educação na contemporaneidade no sentido de reivindicarmos a Bildung nos espaços formativos. A. BENJAMIN. Dialética do esclarecimento. Discurso sobre o Espírito Positivo. Rio de Janeiro: Zahar. 1978. W. São Paulo. a lógica da produtividade. do progresso e mesmo o modo como investigamos nossos objetos.2003. 05-15. mas auxiliá-lo a pensar questões éticas e políticas de nosso tempo que o possibilitem refletir. & HORKHEIMER. M. por fim. A universidade sob nova perspectiva. Curso de Filosofia Positiva. O conceito de Esclarecimento. que o permitam. M. Discurso Preliminar sobre o conjunto do Positivismo. pp. sobre os fenômenos e os acontecimentos que afetam a sua vida. sobre a natureza. CHAUÍ. T. Catecismo Positivista. São Paulo: Abril Cultural. 1985. Brasiliense.In Revista Brasileira de Educação. escolher e agir eticamente de modo a não habitar nosso mundo de forma utilitária. M. Rio de Janeiro: Zahar. tradução de José Arthur Giannotti e Miguel Lemos. nº 24. Marilena. CHAUÍ. III. Essa é a missão da formação responsável por indivíduos éticos e justos. mas com sensibilidade e responsabilidade consigo e com o coletivo. muito além de indivíduos competentes e úteis. No campo da pesquisa. T. 1985. Obras escolhidas Vol. Auguste Comte: Seleção de textos de José Arthur Giannotti. & HORKHEIMER. W. Edições Graal. cujo objetivo é formar não prioritariamente um conjunto de saberes necessários à inserção do indivíduo no meio social do trabalho. “O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador”. In: ADORNO. O educador: vida e morte. W. 1982. Tradução de Guido Antonio de Almeida. REFERÊNCIAS ADORNO. 1994. Trad. Assim sendo. Rio de Janeiro.

Petrópolis.HERMANN. In: Para uma via não-fascista. Belo Horizonte: Autêntica Editora. A razão. Nadja. Linguagem e educação depois de Babel. . 377-388. A.. São Paulo: Cortez. M. ROSA. Os investimentos em “capital humano”. 17. São Carlos. S. SP: EDUFISCAR. Ideologias e Ciência Social: elementos para uma análise marxista. RAGO. NETO. O. RJ: Vozes. LARROSA. 1994. 2004. 2009. In: Teoria Crítica e Educação: a questão da formação cultural na Escola de Frankfurt. da. LÖWY. p. Belo Horizonte: Autêntica. 2006. Michael. a Teoria Crítica e a Educação. Jorge. V. ed.