RIO DE JANEIRO

Carta do Brasil
Maria João Avillez  Email
25/2/2016, 11:33

Em Brasília tentarei aperceber-me da saúde política de Dilma,
do estado das oposições, dos trabalhos dos tribunais, dos
caminhos do Brasil. Aqui no Rio – peço desculpa da
franqueza – celebrarei a vida
1. Qual Rio será agora o meu, pergunto-me, prestes a chegar. Deixando
vagamente esfumar-se a versão número quatro do Orçamento de Estado,
o caso Cameron/União Europeia onde ninguém se portou bem, os
refugiados, a Síria, as inquietantes eleições norte-americanas… Que aqui
no Brasil, são coisas do “exterior”, sempre vistas ao longe, “ideia” que no
mínimo exige período de adaptação a uma europeia.
Durante anos, o Rio de Janeiro foi só um e sempre o mesmo, desenhado
para mim por José Aparecido de Oliveira, quando me adoptou. Mas isso
foi há muito tempo, quando o Brasil era uma esperança e servia de
exemplo. Agora a “cidade maravilhosa”, fatalmente espelhará as ilusões
semi-perdidas: o país está endividado, dividido e desacreditado, parte da
classe política está sob suspeita, o governo é fraco, há mais violência,
maior corrupção, pior desigualdade (e até um mosquito assassino e com

dos Negócios Estrangeiros no governo de Itamar Franco e embaixador em Lisboa. ocupava-se sobretudo da celebração da vida. patrocinando talentos. o Embaixador Aparecido. espevitando espíritos. social e economicamente.nome próprio). Credibilizando interna e externamente o seu país. tonificando-o politica. trinta anos. nos meios culturais. activista contra a ditadura militar. O Rio de Janeiro foi-me um dia milagrosamente oferecido pelo Embaixador José Aparecido e como não honrar agora a memória de um dos maiores e mais generosos amigos que Portugal contou deste lado do Atlântico? Aparecido era um mineiro de gema. com veia política e culturalmente dotado. Cerzindo a sua rede de afectos. há cerca de vinte anos. Um político excepcional. vocações – e era-o genuinamente. E mesmo que haja finalmente poderosos e políticos corruptos na prisão. Jornalista. que longe vai a estação forte de Fernando Henrique Cardoso… Quando. depois. uma miragem. há quinze. cruzando gente interessante e diversa. Possuía a arte de viver que cumulava com ser um homem de amigos. animando as artes. Fernando Henrique. já reformado de altas funções. mas acreditou (quase) sozinho. foi ministro da Cultura de Tancredo Neves. Circulando com igual à vontade e pertinência pelo poder em Brasília. virou a face do Brasil: disciplinando-o financeiramente. Bons ventos. na bondade da qual acreditou com fervor. trabalhou com Jânio Quadros na Presidência da República. Era alguém transversal a gerações. nos . profissões. Hoje. vinte. em tertúlias intelectuais. presidindo com raro acerto a este “continente”. 2. bons tempos. Com afã e afinco inventou a Comunidade Países de Língua Portuguesa. apesar de dirigir instituições e fundações de prestígio. meios sociais. Na época que recordo hoje. salvando a sua moeda (“foi o criador do Plano Real”) e. deputado.

botecos das ruas. Quanto mais o tempo escorre sedimentando as coisas. pintura. Agarrando-me pela mão. o Jaguar. desenho. com insuspeito êxito. ou elaborando sobre a sua arquitectura (“o espanto mostra que a coisa é diferente. nas casas dos amigos. ou o Paulo. podiam ser ricos. gémeo igualzinho do Chico. aos 88 anos. cartoonista do Globo. se trocavam estados de alma entre melancólicas bonomias e festivas boémias. em grandes relvados. fossem em sofisticadas “coberturas” ou nas favelas. era o Chico Caruso. perguntando-me ainda. mulher do Chico. A minha sôfrega curiosidade encontrava amparo no insuperável cicerone que ele era: a partir dele. naquele atelier suspenso sobre o mar de Copacabana. mais me dou conta que há pouquíssimas pessoas a quem esteja tão grata como à memória do Embaixador Aparecido. ex-advogado). Podia ser o centenário jornalista e escritor Alexandre Barbosa Lima Sobrinho (ex-político. a escrever no “Jornal do Brasil” e a presidir à Associação Brasileira de Imprensa. continuava. o olhar tem de estar limpo para captá-lo”). levava-me com ele pelas suas moradas. E quando serviu com devoção. que nos melhores jornais exibiam o seu traço cáustico. fez da embaixada um porto de abrigo onde. serviu o seu país em Lisboa. Era Millor. e horrorizados. habitando grandes mansões. teatro. lesto e vivo. fazendo superlativamente humor. cinema. produtora . como o Ziraldo. contando-me um recente encontro com Álvaro Cunhal ali mesmo. pela “revolução comunista de 1974”. Ou então era outra banda de gente. que com cento e um anos. Podia ser Oscar Niemeyer. inventor do incomparável “Pasquim”. o Rio nunca mais foi senão uma tela onde o Zé Aparecido ia imprimindo gente com o estatuto de personagens. genial Millor Fernandes. podiam ser a pulposa Fafá de Belém e a fogosa Eliana.

Ah. Eram todos de esquerda. Diante da lauta feijoada despejavam-se com vertigem e voracidade. a Marila Kranz. Mas também houve Maria Betânia que fui entrevistar ao Rio. Era gente com o sentido agudo do convívio. pedindo para ver a sua presidente. E António Fagundes. Era a escritora Nélida Pinõn. em S. E voltámos a conversar várias vezes. ou o Jô Soares que entrevistei “in loco” no seu habitual cenário televisivo. Paulo. O mesmo aconteceria mais tarde com a maravilhosa Marília Pera que morreu em Dezembro. Uma vez entrei pela solene Academia Brasileira de Letras. o Brasil e a vida. e esse príncipe entre os príncipes do teatro… que era Paulo Autran. Nasceu cumplicidade instantânea que dura até hoje. tinham os seus códigos. e indefinível mulher. na dança. na tragédia. alguns da esquerda radical. um ser maravilhoso que certamente conhecia melhor os subsolos da alma humana que os outros. dono da melhor varanda da cidade. fabricavam a sua própria ordem. desprezavam alternadamente o poder. o sedutor “advogadão” Técio Lins e Silva.cultural. humor inteligente e ironia fininha. . o mundo. e Fernanda Torres e Tónia Carrero. numa casa na Gávea que tinha uma capela onde ela se quis recolher antes de conversar. É outro que “adora Portugal”. dezenas (e dezenas) de caipirinhas enquanto se desconstruía a politica. deixando os palcos vazios do seu génio tão versátil: no canto. na comédia. Aos sábados juntavam-se a almoçar no “Satyricon”. Como o Zé Aparecido fazia obviamente parte disto – ouvido à mesa como um patriarca – fiquei com lugar à mesa quando lá estava. o geólogo Luis Gravatá. que morava numa casa emoldurada pelo Jardim Botânico e me dizia que “chorava de emoção sempre que pisava um teatro português” (e chorava). a dinâmica editora Renata Lima. Depois fui eu própria abrindo novas alamedas. sóbria e discreta artista plástica… Um mundo. fascinante criatura com o que escrevia e dizia.

que nos exigia tudo na plateia. Sempre que chegava. conversador inesquecível. Pessoa… “Se gosto de Portugal?”. poetas e escritores de Portugal.actor portentoso. que doce seria. sensível. refinado. E com tanto que havia a contar. Conheci-o há quarenta e tal anos. apesar de já nada ser como foi. com 103 anos – era . alguns dos outros também não. escolhia alguns livros: Diogo do Couto. era culto. no saudoso Teatro Monumental onde viera com as pirandelianas “Seis personagens em busca de um autor” e a impressão foi tão forte que nunca mais o perdi de vista. que achávamos um magnífico interlocutor para o Paulo. Ia ao Campo Grande e convidávamos também o Jorge Silva Melo. ouvi eu a Oscar Niemeyer. tenho de ver isso um destes dias. A vida e o feitio que Deus me deu proporcionaram que viesse a entrevistar todo este vasto mundo. outros no écran. “É lógico que gosto. sempre adorei e li a literatura portuguesa…” Barbosa Lima Sobrinho – que morreu. Morreu com pena de não ter representado mais vezes em Lisboa. cosmopolita. dirigia-se a uma prateleira. Tinha uma pousada em Paraty onde gostava de ir. Quem sabe. uns no papel. Com tal espessura no palco. O Zé Aparecido já não está. recheadas de cronistas. 3. activo e lesto. Daria um livro e quem me dera poder agora continuar por esta estrada da memória. impressionará até aqueles meus compatriotas mais desconfiados e permanentemente descrentes sobre a condição portuguesa. Eça. E sei lá se ainda há tertúlia ou sequer o Satyricon. alguém se levantava. em Lisboa. há algo que terá de ficar aqui inscrito. Porque vale a pena e é bonito. Falo das estantes das muitas casas onde fui no Brasil. e a tertúlia do Satyricon certamente perdeu já um pouco do viço e da graça. Mas mesmo que fale como se evocasse outra encarnação (deles e minha). o Brasil é o prolongamento de Portugal.

. lera tudo.um cultor do português: “a língua portuguesa é a unidade do Brasil e a luta pela unidade do Brasil é uma luta pelo português. a S. Paulo e a Brasília. João de Barros. Da sua biblioteca “escorriam” para as minhas mãos Herculano. claro. Escrevi um livro sobre a língua portuguesa e tenho os clássicos todos”. também me falou da literatura portuguesa como se ela fosse da família: com intimidade e carinho. está entre eles para semear a discórdia. com biblioteca do tamanho do mundo (“a cultura capta os instantes dos homens. fiz até um conto sobre isso… Ao mesmo tempo sou também uma mulher alegre que fala muito e gosta da boémia. e nos levou ao Rio. Luís”). em longo e privilegiado diálogo. O mesmo com o filósofo. Corria a primavera de 1998. para o meu lado do Atlântico. no seu apartamento frente ao oceano. o fluxo das emoções desmedidas mas reveladoras”). 4. surpreendente e singular: “Se descasco uma batata é como se estivesse contando a história da humanidade numa tapeçaria. E Eça de Queiroz. voámos de Portugal para o Brasil para lançar o primeiro dos três volumes que fiz com ele. a olhar com gosto e sem sombra de complexos. escritor e ensaísta Gerardo de Mello Mourão. Camilo. Diogo do Couto. Tinha tudo. E Nélida Pinõn. sendo essa solitária…” São estes nomes excepções? Não me parece. conhecia a nossa História e amava as nossas letras. vários cronistas – Gaspar Correia. sempre: “Eu prefiro o Eça…”. sábia júri do Prémio Camões. em tournée. poeta. Também aqui andei com Mário Soares. que era do Ceará. Guardando ambas religiosamente em casa. O escritor Josué Montello (autor do inesquecível livro “Os Tambores de S. É antes o caso de uma elite cultíssima. Ferreira de Castro. a Niterói. autora de vasta obra.

Dos caminhos do Brasil. aclamado. não. Em Brasília será outra vida: Tentarei aperceber-me da saúde política de Dilma. enchendo salas e pedindo autógrafos. Aqui. do 25 de Abril. mimado. Depois.Soares era sistematicamente recebido como uma espécie de Rei de Portugal. pelas cidades onde andámos. intelectuais. . feliz. jornalistas. leve. ligeiro. solto. amigos. artistas. Era pura e simplesmente adorado. Como o Zé Aparecido fazia comigo. foi encontrando políticos. Jogava “em casa”. de esquerda ou direita. do estado das oposições. Sorvendo a vida com apetite. do seu futuro. o que de resto ele parecia achar natural: não havia um exuberante caso de amor entre o Brasil e ele. conhecidos ou anónimos. da liberdade. dos trabalhos dos tribunais. 5. requisitado. ele e o Brasil? Brizola foi buscá-lo ao aeroporto do Galeão para “o ouvir sobre o intricado momento político”. da democracia. deslizando entre grupos díspares de pessoas. Aqui no Rio – e peço desculpa da franqueza – celebrarei a vida. igual a si próprio. E deixando essa mesma assinatura impressa em todo lado. do seu destino. músicos. entrevistado. ricos ou pobres.