UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
DEPARTAMENTO DE DIREITO PÚBLICO
CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

Rafael Gomes de Queiroz Neto

A APLICAÇÃO DA TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES
COMO FORMA DE AMPLIAÇÃO DA PROTEÇÃO JURÍDICA DO
CONSUMIDOR

Natal/RN
2014

Rafael Gomes de Queiroz Neto

A APLICAÇÃO DA TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES COMO FORMA
DE AMPLIAÇÃO DA PROTEÇÃO JURÍDICA DO CONSUMIDOR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso
de graduação em Direito da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, como requisito para obtenção do grau
de bacharel em Direito.
Orientador: Prof. MSc. Fabrício Germano Alves

Natal/RN
2014

Drª. MSc. Fabrício Germano Alves . Samuel Max Gabbay – UFRN Examinador .UFRN Examinadora ______________________________________________ Prof.UFRN Presidente _______________________________________________ Profª. MSc. Patrícia Borba Vilar Guimarães .Rafael Gomes de Queiroz Neto A APLICAÇÃO DA TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES COMO FORMA DE AMPLIAÇÃO DA PROTEÇÃO JURÍDICA DO CONSUMIDOR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aprovado em: 22/08/2014 BANCA EXAMINADORA: _______________________________________________ Prof. como requisito para obtenção do grau de bacharel em Direito.

À minha família. nos dias mais árduos. por sua capacidade de acreditar em mіm e não medir esforços para a realização desse sonho. . foram sеυs cuidados е dedicação que me deram. Pai. Mãe. а força necessária pаrа seguir em frente. sυа presença significou segurança е a certeza dе qυе não estou sozinho nessa jornada.

Sem o apoio e o amor incondicional de vocês eu jamais conseguiria concluir essa etapa. que são como filhos pra mim. por despertar em mim o interesse pelo tema deste trabalho e pelo material emprestado durante sua elaboração. por me mostrar que posso ser mais forte do que pensava ser. exemplo. enquanto alunos. A esta Universidade e ao corpo docente do curso de Direito. A todos que. contribuíram para a minha formação. por me suportarem nos momentos difíceis e me ajudarem durante toda a caminhada. o meu agradecimento sincero! . e nos ensinar a ser profissionais comprometidos com a sociedade e dispostos a transformá-la. por aceitar orientar este trabalho antes mesmo de me conhecer e pelo essencial suporte oferecido durante o desenvolvimento da pesquisa. pelo apoio e por tudo que sempre fizeram por mim. É com um orgulho imenso que eu compartilho essa vitória com vocês. Aos meus dois sobrinhos. A vocês. que me aconselharam nos momentos de dúvida e me acolheram nos dias de tormenta. amizade. minha mãe Sebastiana e meu irmão Francisco de Assis. A doçura e a inocência de vocês me fazem enxergar o mundo com muito mais entusiasmo! Aos meus colegas do curso. e carinho. A minha querida amiga Sandra Nogueira Alves Maciel. fundamentais na construção do meu caráter. Ao meu orientador. todo o meu respeito e toda a minha gratidão. Aos demais amigos. Fabrício Germano Alves. por acreditar no nosso potencial. pela simplicidade. João Pedro e João Gabriel. direta ou indiretamente.AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus. Ao meu pai José de Arimateia.

(John Kennedy) .Consumidores somos todos nós.

RESUMO

O presente trabalho objetiva, valendo-se de uma pesquisa bibliográfica na doutrina
jurídica afeita ao tema (livros, artigos e revistas especializadas), bem como da análise
da jurisprudência e da legislação em vigor; avaliar como a aplicação da teoria do
diálogo das fontes pode contribuir para a coerência do sistema jurídico e para a
ampliação da proteção do consumidor. Percebe-se que os complexos conflitos
normativos oriundos do pluralismo pós-moderno trouxeram grandes desafios para o
aplicador do Direito que não podem ser superados satisfatoriamente através dos
critérios clássicos de solução de antinomias. Nesse contexto, a adoção da teoria do
diálogo das fontes no Direito brasileiro representa uma mudança no comportamento
do jurista diante das antinomias jurídicas, pois afasta a necessidade de excluir uma
das normas conflitantes do sistema e introduz a ideia de aplicação simultânea e
coerente das diversas fontes normativas do Direito. Enfatiza-se que através dos
múltiplos diálogos realizáveis entre o Código de Defesa do Consumidor, o Código Civil
e outros diplomas normativos é possível tornar a defesa do consumidor muito mais
abrangente, pois qualquer disposição normativa do sistema jurídico será aplicada com
essa finalidade. Verificou-se, ainda, que a jurisprudência pátria já adota o diálogo das
fontes como método interpretativo e de resolução de conflitos normativos,
reconhecendo seus benefícios não somente no direito do consumidor, onde nasceu e
se desenvolveu, mas nas diversas disciplinas jurídicas.
Palavras-chave: Pluralismo. Conflito de normas. Diálogo das fontes. Proteção do
consumidor.

ABSTRACT

The present work aims, availing oneself of a bibliographic search in the juridic doctrine
used to the theme (books, articles and specialized magazines), add to that the analysis
of jurisprudence and the legislation in force, evaluating how the apllication of the
dialogue of the foutain's theory can contribute to the coherence of the judicial system
and to the amplification of the consumer protection. It perceives that the normative
conflicts complex arising of the post modern pluralism brought big challenges to the
Law applicator that can not be dominated satisfactorily through the classic rules of the
solution of antinomies. In this context, the adoption of the dialogue of the foutain's
theory in the Brazilian Law, legitimated by Private Law constitucionalisation and by the
recognition of the surface effectiveness of the fundamental rights, it represents a
change in the lawyer conduct in front of the judicial antinomies, because it removes the
necessity of excluding one of the rules conflictiing of the system and it introduces the
idea of simultaneous application and coherence of the several normative foutains of the
Law. It emphasizes that through of the multiples possible dialogues between the
Defense Consumer Code, the Civil Code and others normative diplomas it's possible to
become the consumer's defense much more comprehensive, because any normative
disposition of the juridic system will be applied with this finality. It was examine, still,
that the native coutry jurisprudence at once adopts the fontain's dialogue like
interpretative method and the normative conflicts resolution, recognizing its benefits
not only in the consumer law, where it rose and developed it, but in the several judicial
disciplines.
Key-words: Pluralism. Conflict of rules. Fontain's dialogue. Consumer's Protection.

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 9

2

O

PROBLEMA

DA

CONFLITUOSIDADE

NORMATIVA

NA

PÓS-

MODERNIDADE .................................................................................................................... 12
2.1 O PLURALISMO JURÍDICO ....................................................................................... 14
2.2 A INSUFICIÊNCIA DOS MÉTODOS CLÁSSICOS DE SOLUÇÃO DE
ANTINOMIAS.......................................................................................................................... 17
3 A TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES COMO SOLUÇÃO DE
CONFLITOS NORMATIVOS ............................................................................................. 23
4. A UTILIZAÇÃO DO DIÁLOGO DAS FONTES NA APLICAÇÃO DA
NORMATIZAÇÃO CONSUMERISTA ............................................................................ 32
4.1 DIÁLOGO ENTRE O CÓDIGO CIVIL E O CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR....................................................................................................................... 34
4.2 DIÁLOGO ENTRE O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E OS
DIPLOMAS NORMATIVOS INTERNACIONAIS .......................................................... 38
4.3 DIÁLOGO ENTRE O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E A
LEGISLAÇÃO PROTETORA DOS HIPERVULNERÁVEIS ..................................... 43
5

INCORPORAÇÃO DA TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES PELA

JURISPRUDÊNCIA PÁTRIA............................................................................................. 52
6

CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................ 56

REFERÊNCIAS...................................................................................................................... 58

parte vulnerável da relação de consumo. pelo Congresso Nacional. No entanto. já que a Constituição Federal dedicou especial atenção a quem precisa de maior tutela. inclusive. também foi erigida à categoria de direito fundamental (artigo 5º. criado microssistemas específicos com o escopo de melhor proteger alguns desses grupos. tanto no que tange aos sujeitos nele envolvidos quanto à quantidade de fontes legislativas. tendo o legislador ordinário. Mesmo após o cumprimento. Essa exigência de aplicação harmoniosa das Leis nasce da própria Constituição Federal de 1988. o diálogo das fontes propõe a utilização coordenada das diversas Leis e fontes do Direito. ainda são enfrentados sérios obstáculos para a sua efetivação. mostrando ser possível a coexistência de normas que aparentemente conflitam através da aplicação plural e simultânea das fontes normativas. valorizando-a como sujeito de direito e ampliando em favor dela o rol dos direitos fundamentais e os mecanismos para a sua efetivação. sempre objetivando preservar a unidade do Direito. Afasta-se a anacrônica ideia de monossolução. que elegeu como um dos seus fundamentos a dignidade da pessoa humana (artigo 1º. em que a tutela do consumidor passa a ser um direito basilar de qualquer cidadão brasileiro. inciso XXXII). os deficientes (artigos 23. segundo a qual apenas uma norma pode regular determinado caso concreto.9 1 INTRODUÇÃO Em um Direito que se mostra cada vez mais plural. inciso XIV) e os idosos (artigo 230). O olhar voltado para a pessoa humana e sua dignidade também pode ser verificado na proteção que é dispensada aos hipossuficientes. Surge. pois. Nesse contexto. em que pese estar-se despertando para um momento novo. inciso III). Em vez de anular a aplicabilidade de uma norma. a teoria do diálogo das fontes. Esse é o maior desafio do intérprete pós-moderno: procurar uma perfeita harmonia do ordenamento jurídico. a defesa do consumidor. tornouse imprescindível que o jurista saiba proceder a uma interpretação coordenada das disposições normativas. da determinação constitucional inserta no artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais . como as crianças e os adolescentes (artigo 227). a fim de tornar o sistema jurídico mais coerente e justo. inciso II e 24.

Este trabalho possui também a finalidade de procurar maneiras práticas de superar a atual crise de credibilidade que afeta todas as áreas do Direito. inclusive a consumerista. inciso XXXII e 170.078/1990)1.CDC (Lei Federal nº 8. fazendo um contraponto com o período histórico que a antecedeu. limite que não foi observado pelo legislador.10 Transitórias (ADCT). a partir daí. Partimos da necessidade de estudar maneiras viáveis de dar efetividade aos artigos 5º. qual seja. 1 Atente-se para o fato de que o cumprimento foi parcial. que dificulta uma aplicação integrada e sistêmica do Direito. abordamos o problema da conflituosidade normativa no contexto da pós-modernidade. Explicamos também os métodos clássicos de resolução de antinomias para. a pesquisa foi dividida em 6 Capitulos. a modernidade. . inciso V. mediante o estudo de uma teoria que pode contribuir para alcançar esse objetivo. demonstrar sua insuficiência. Para cumprir com esses objetivos. notadamente diante da multiplicidade de diplomas legais em voga (pluralismo jurídico). apontando suas principais características e como o Direito é atingido pelos fenômenos decorrentes dessa fase atual da sociedade. considerando que as oportunidades de aplicação da teoria do diálogo das fontes são inúmeras e não estão restritas ao Direito das Relações de Consumo. a elaboração do Código de Defesa do Consumidor . Eis. com o plus de trazer para o Direito a harmonia que tanto necessita nesses tempos de multiplicidade normativa e insegurança jurídica. da Constituição Federal. qual seja. ainda são inúmeras as dificuldades para alcançar resultados satisfatórios na concretização dos preceitos normativos constantes do Código. tendo em vista que o dispositivo estabelecia o prazo de 120 (cento e vinte) dias para a elaboração do Código de Defesa do Consumidor. No capitulo 2. teoria desenvolvida pelo alemão Erik Jayme e disseminada no Brasil por Cláudia Lima Marques. frente à hodierna complexidade e pluralidade do ordenamento jurídico. portanto. o maior objetivo desse trabalho: discutir como a adoção do diálogo das fontes. pode contribuir para a coerência do sistema jurídico e a ampliação da proteção jurídica do consumidor. incluindo a presente Introdução (Capítulo 1) e as Considerações Finais (Capítulo 6).

nunca com a finalidade de limitá-los. Por derradeiro. entre as quais a de que a utilização do diálogo das fontes no dia a dia forense será capaz de possibilitar um avanço considerável na proteção do consumidor. abordamos as repercussões práticas da adoção do diálogo das fontes na proteção do consumidor e na efetivação da sua tutela. Destacamos ainda os diálogos que podem ser estabelecidos entre o Código de Defesa do Consumidor e os demais diplomas normativos. por nos fazer apreender que o papel de tutelá-lo é de todo o sistema jurídico. No capítulo 4. esclarecendo que essa teoria só pode ser utilizada para ampliar direitos.11 No capítulo 3. fizemos uma análise dos principais julgados fundamentados no diálogo das fontes. revelamos nossas conclusões gerais sobre o tema. . nacionais e internacionais. e não somente do seu Código de Defesa. que reconhecem seus benefícios para a defesa do consumidor. como uma alternativa viável para solucionar os conflitos normativos contemporâneos. legitimada pela constitucionalização do Direito Privado e pelo reconhecimento da eficácia horizontal dos direitos fundamentais. apresentamos a teoria do diálogo das fontes. a fim de confirmar a paulatina consolidação dessa teoria na jurisprudência dos Tribunais brasileiros. No capítulo 5.

com todas as pretensões de unidade. São Paulo: Cortez. que propicia o surgimento. são inúmeros os olhares e interpretações. Zygmunt. ed. 2005. 4 BAUMAN. que são rígidos e precisam sofrer um conflito de forças para moldar-se a novas formas4. Em volta do fenômeno pós-moderno. de Miranda. Plínio Dentzien. porém. 5 Fragmentarriedade. A pós-modernidade é o tempo da fluidez. em uma sociedade mundial sem fronteiras3. artístico. A pós-modernidade é um fenômeno complexo que transita por todas as formas de relações sociais e de manifestação de pensamento humano (político. dada a sua abrangência e aplicação em vários campos do saber. compreendida como incompletude das ideias. do pluralismo jurídico. 2. ed. nesse contexto. p. . Modernidade Líquida. 25102. parece haver concordância com o fato de que esse contexto representa uma época de rupturas e incertezas quanto à continuidade de uma visão geral de mundo construída e vivenciada ao longo dos últimos séculos. em que a tecnologia dos meios de transporte. independentemente da sua nacionalidade. diferentemente dos sólidos. 2003. heterogeneidade de conceitos e ecletismo. Tal fenômeno expandiu-se nas últimas décadas pelo mundo inteiro e é o responsável pelo que chamamos de “civilização globalizada” ou pós-moderna. A característica da liquidez vem do fato de que os líquidos não têm uma forma. 1989. José B. Assim é o contexto pós-moderno: fluído e descontínuo. Trad. Boaventura de Sousa. inserindo o individuo. 3 LYOTARDE. Boaventura de Sousa (Org. Os processos de globalização. In: SANTOS. levantando preocupações quanto às suas atitudes e seu destino. o fluxo veloz de informações e a comunicação instantânea relativizaram os conceitos de tempo e espaço. na medida em que admite que todas as vozes legítimas que ressoam da sociedade têm o direito de serem ouvidas e consideradas.Lisboa: Gradiva. A globalização e as ciências sociais. época em que a sociedade avança em vários sentidos. 2 SANTOS. A condição pós-moderna. Ao contrário da modernidade.). A par disso. científico etc). 3. Trad. são fluídos que se acomodam segundo o recipiente nos quais estão inseridos. descontinuidade dos discursos.12 2 O PROBLEMA MODERNIDADE DA CONFLITUOSIDADE NORMATIVA NA PÓS- O contexto histórico contemporâneo pode ser definido como pósmoderno2. no Direito. marcado profundamente pela fragmentariedade5. Jean-François. Rio de Janeiro: Zahar.

n. ed. o emprego de formas contratuais simples e complexas e. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina. das instituições e dos hábitos sociais. mar. é verdade. 8 MARQUES.). éticas e mesmo religiosas de seu tempo” 8. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. 1. 2003. que passa a ser enxergado como um processo em transformação. econômicas. combinadas com as desestruturações sociais citadas atestam o quadro de transição em que estamos inseridos. In: Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Direito – PPGDir. a fragmentação. p. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ela se manifesta a todo momento na nossa realidade. encontrando6 SILVA. Claudia Lima (Coord. multiplicidade e complexidade das relações jurídicas. uma era de crise de valores e de modelos. 2012. a fluidez dos relacionamentos entre os indivíduos. As conquistas recentes que se espraiam nos diversos domínios do conhecimento. tais como. A pós-modernidade não é apenas um movimento intelectual. 2. In: Revista Sequência. a internacionalização. In: MARQUES. Presenciamos. ou meramente um aglomerado de ideias críticas a respeito da modernidade. n. p. p. . a fusão dos conceitos de direito púbico e privado. e o diálogo das fontes. a partir da modificação dos valores. Cláudia Lima. Contratos de “bens vivos”: uma realidade desafiadora e instigante. A cultura pós-moderna apresenta características bem específicas. a pluralidade. São Paulo: Revista dos Tribunais. fenômenos típicos da sociedade atual. 2008. 142.13 coerência e universalidade de valores./UFRGS. como expressão cultural de um povo. 7 BITTAR. a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais e totalizantes são os marcos do pensamento pós-moderno. a utilização de conceitos novos e tradicionais a um só tempo e no mesmo contexto6. Sendo o Direito uma das formas de expressão cultural da sociedade. Evelise Leite Pâncaro da. 57-58. “Laudatio para Erik Jaime – Memórias e Utopia”. o pluralismo de fontes do direito e dos sujeitos que atuam no cenário internacional. históricas. sofre reflexos maiores ou menores das mudanças valorativas. é diretamente afetado pelas variações que emergem da cultura pós-moderna. ainda. 57. em que “o direito. Eduardo Carlos Bianca. O direito na pós-modernidade. a provocar transformações sociais e jurídicas. dos costumes. diferentemente da visão estática e acabada que lhe emprestava a ideologia iluminista dos séculos XVIII e XIX7. 356. Essas mudanças representativas da pós-modernidade também se projetam no âmbito do Direito. uma época de mutações. dez. permeável às novas demandas e adaptável aos novos atores sociais.

estar apta a assumir a resolução de seus conflitos de maneira também pluralista. A cultura pós-moderna emerge em todas as manifestações da cultura atual. não tem mais a mesma adesão de antes quando comparada com as tendências atuais de descodificação e constitucionalização de normas privadas.406/2002) divide espaço com outros códigos. de culturas. Identité culturale et intégration: le troit internationale privé postmoderne. que germina do desejo da própria sociedade. com o fenômeno da pós-modernidade começamos a conviver com uma realidade ambígua e multiforme. como um todo.. compreendidos como personificação da unidade e coerência normativa na modernidade. se vê diante do desafio de se reconstruir e adequar seus institutos jurídicos a um mundo marcado pela fragmentação das ideias. cuja principal particularidade é significar uma grande quantidade de fenômenos heterogêneos e interligados.g. 1995. da qual o Direito faz parte. em convulsão e em plena evolução. Sa na modernidade os traços dominantes eram a racionalidade.1 O PLURALISMO JURÍDICO É correto afirmar que a sociedade contemporânea é. de valores etc. repleta de pluralidades. caracterizada pela multiplicidade de 9 JAYME. sempre com aceitação e respeito à individualidade e à diferença de cada um de seus habitantes. Um dos principais sintomas de influência do paradigma pós-moderno no mundo jurídico é a hipercomplexidade. leis esparsas e microssistemas (v. 36. In: Ruceil de Cours de l’Académie de Droit International de la Haye. Haye: Nijhoff. Erik. . junto com ela. que se transforma cada vez mais velozmente. perdendo a centralidade no ordenamento jurídico que tivera outrora. Através dessa aspiração. de agentes a proteger e de sujeitos de uma relação de consumo9. a tradição de elaborar códigos. por exemplo. seja de interesses. O pós-modernismo é a época do pluralismo. pois. Hoje o Código Civil – CC (Lei Federal nº 10. p. surge a ideia do pluralismo jurídico. A ciência jurídica. com reflexos nítidos no Direito quando nos deparamos com pluralidade de leis especiais. o microssistema consumerista). No âmbito do Direito Privado. a sistematicidade e a pretensa universalidade dos conceitos. 2. necessitando assim.14 se.

O pluralismo nos impõe o dever de respeitar a identidade cultural dos povos e os direitos humanos de forma geral. Ele refina nossa sensibilidade às diferenças e reforça 10 AZEVEDO. São Paulo: Revista dos Tribunais. 60. Se observarmos bem. Claudia Lima. como crianças. p. reconhecendo que é necessário tratar desigualmente aqueles sujeitos da sociedade considerados vulneráveis ou mais fracos. como forma de praticar o princípio da igualdade real. No primeiro período. In: MARQUES. compreendido quase sempre num aspecto formal. trabalhadores e consumidores. 2000. E esse direito à diferença é também um dos aspectos da igualdade. p. . O direito à igualdade é um dos pilares do Direito moderno. no segundo. É necessário esclarecer que tanto a modernidade quanto a pósmodernidade são baseadas no discurso dos direitos. ou seja. O "diálogo das fontes" como método da nova teoria geral do direito. 12 MARQUES. jan. 11 MELLO. reconstruída por ações positivas do Estado em prol do indivíduo inserido em determinado grupo. Revista de Direito do Consumidor. direito de defesa que determina a não intervenção na esfera particular dos indivíduos por parte da sociedade e do Estado. Não há nada mais diferenciador.15 fontes jurídicas. materiais e formais. ed. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. da segurança e da ordem institucional. Antonio Junqueira de. Claudia Lima (Coord. 9/15. 3. o reconhecimento de seus próprios valores e visões de mundo (o direito à diferença)10. por sua vez. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade.). deficientes. O saber pós-moderno não é somente instrumento dos poderes. temos o discurso dos direitos adquiridos. Celso Antônio Bandeira de. mais individual. 123-129. In: MARQUES. Ele exige que destinemos tratamento jurídico diferenciado para situações diferentes. vista num aspecto material. 33. o exercício dos direitos fundamentais é o próprio exercício da individualidade e do direito que cada um tem de ser diferente12. mais essencial e justo do que o reconhecimento dos direitos do homem. contudo. dessa vez. como direito negativo à igualdade. ao invés de valores compartilhados. 2012. Claudia Lima (Org. 2012. o enfoque se dá nos direitos humanos e fundamentais. p. como resultado de um objetivo de política legislativa que vê com um enfoque material o princípio da isonomia.). por exemplo11./mar. idosos. O direito pós-moderno e a codificação. Numa sociedade plural nos deparamos com o direito a ser e permanecer diferente. a regular uma pluralidade de grupos e interesses sociais que buscam. n. São Paulo: Revista dos Tribunais. Malheiros: São Paulo.

1995. Identité culturale et intégration: le troit internationale privé postmoderne. no entanto. 120. 251. Haye: Nijhoff. Especificamente no âmbito jurídico. mas também o direito à diferença. admite pôr em destaque a ligação entre o direito e a pós-modernidade. Passagem da teoria sistemático-moderna à teoria finalística ou pósmoderna. a forte tendência de valorização dos direitos humanos e o pluralismo15. carentes de 13 MARIGHETTO. vivenciamos o revival dos direitos humanos. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. de forma a auxiliar na interpretação teleológica e no efeito útil dos seus diplomas normativos. a escolha desses valores da cultura pós-moderna parece ser arbitrária. Erik Jayme identifica as características da cultura pós-moderna. p. dez. Conforme ensina Erik Jayme. positivando assim os objetivos do legislador. 14 No idioma original: “Ce qui caractérise la culture postmoderne est que l‟idée de la diference entraîne surtout le droit au respect de l‟identité culturelle”. JAYME. Direito Internacional Privado e Cultura Pós-Moderna. (JAYME. A narração significa um novo método de elaboração de normas legais. não mais editadas para regular condutas. Por sua vez. 2. “o que caracteriza a cultura pósmoderna é que a ideia de diferença faz nascer sobretudo o direito ao respeito à identidade cultural”14. Erik. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. Claudia Lima (Coord. Essa necessidade invade também o Direito (v. Erik. Também se refere ao individualismo e aos conflitos que podem ocorrer como consequência das diferenças entre os povos e suas culturas. 15 Para Jayme.16 nossa capacidade de suportar o incomensurável. n. no sentido de não admitir a imposição de estilos de vida ou paradigmas dogmáticos13. suas finalidades. . A cada dia o mundo se torna mais sedento de comunicação. que tende a se internacionalizar. Quanto ao pluralismo. criando forte insegurança e imprevisibilidade quanto às soluções a serem adotadas nos casos concretos. A pós-modernidade caracteriza-se pela rejeição à catalogação e à sistematização. ed. In: Ruceil de Cours de l’Académie de Droit International de la Haye. p. Por derradeiro. pois as pessoas difundem informações com mais frequência e trocam experiências com indivíduos de lugares totalmente diferentes. a liberdade./UFRGS. é. p. 2012.). quais sejam: a comunicação. São Paulo: Revista dos Tribunais. seus princípios. A comunicação sem fronteiras é um valor básico do mundo pós-moderno. e sim para narrar seus objetivos. In: Cadernos de Pós-Graduação em Direito – PPGDir. principalmente em decorrência da centralidade que a pessoa humana conquistou no ordenamento jurídico. Andrea. com os valores antinômicos coexistentes numa mesma sociedade (a relação consumidor x fornecedor. muitas vezes difusos como são os consumidores. através dos elementos sociais ou ideológicos extraídos de fora do sistema positivado. por sua própria natureza. 2004. 59). o retorno aos sentimentos (le retour des sentiments) é a volta da emocionalidade no discurso jurídico. com o fenômeno da descodificação. observamos sua manifestação quando nos deparamos com a multiplicidade de fontes legislativas regulando um mesmo fato. 1.g a crescente importância do estudo do direito comparado e do número de normas com eficácia transnacional). a narração. o “retorno do sentimentos”. antinômica) e com o exponencial aumento dos sujeitos. A pluralidade que emerge na cultura pós-moderna valoriza a autonomia da vontade. In: MARQUES.

Antes disso. Brasília: Editora UNB. Sem dúvidas. que não raras vezes disciplinam assuntos convergentes. . a fim de sanar prováveis antinomias. 2. assegurando a conformidade entre elas e a supremacia da Constituição Federal e. nasce a exigência de um ordenamento jurídico coeso e justo. Teoria do ordenamento jurídico./UFRGS. Na tradicional compreensão do sistema jurídico.2 A INSUFICIÊNCIA DOS MÉTODOS CLÁSSICOS DE SOLUÇÃO DE ANTINOMIAS A existência de normas conflitantes ou com mesmo campo de regulação é um problema com que se depararam juristas de todas as épocas17. esse fato colocaria em dúvida o principio do direito intertemporal. Norberto. de legislações nacionais e internacionais. a integração e a interpretação das normas jurídicas não mais pressupõem a eliminação de uma das regras do sistema. p. In: Cadernos de PósGraduação em Direito – PPGDir. acolhendo a teoria do diálogo das fontes. 1. Direito Internacional Privado e Cultura Pós-Moderna. 81. 1994. mais ainda. há também a pluralidade de agentes ativos de uma mesma relação. Contudo. admitir que o ordenamento jurídico contém antinomias é também admitir a falibilidade do aparelho estatal. 17 BOBBIO. em número e complexidade. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2. p. é deslegitimar o Direito e assumir sua 16 JAYME. derrogação. o diálogo das fontes possibilita a coordenação e coerência sistemática das várias fontes do Direito. Erik. dos seus valores e direitos fundamentais. 2004. No contexto de um sistema de Direito que pretende abarcar múltiplos sujeitos e múltiplas fontes legislativas de diferentes naturezas.17 proteção estatal. tais quais os fornecedores. o aspecto mais importante da influência do pluralismo pósmoderno no mundo jurídico relaciona-se ao crescimento. n. que cada vez mais se aparelham em cadeias e em relações extremamente despersonalizadas16. segundo o qual a preservação da unidade e coerência desse sistema exigiria a exclusão de ao menos uma dentre essas Leis (ab-rogação. No entanto. dando ensejo ao pluralismo de fontes normativas. ed. a aplicação. Além disso. como resultado de uma antinomia ou de um conflito de normas. dez. revogação). 36 e ss.

pois se dará da forma que 18 19 Ibid. em caso de antinomia. a três tipos de incompatibilidades. Por último. sempre que uma for geral e outra especial. quais sejam: entre uma norma que comanda fazer alguma coisa e uma norma que proíbe fazê-lo.. em caso de conflito entre duas normas criadas ou vigoradas em momentos cronológicos distintos. Nesse contexto. que consiste na prioridade dada. sobrepõe-se a norma posterior. a uma norma portadora de status hierarquicamente superior ao seu par antinômico. 85 Ibid. esclarecerá qual o preceito deve ser descartado e qual deve ser declarado válido. alguns critérios são oferecidos19. Normas incompatíveis são aquelas que não podem ser ambas verdadeiras. A especialidade (lex specialis derogat generali) é o segundo critério a ser utilizado. A depender da quantidade de critérios que estejam envolvidos no conflito normativo. sendo o ordenamento jurídico um sistema. O primeiro deles é a anterioridade (lex posterior derogat priori). entre uma norma que comanda fazer e uma que permite não fazer e. Para solucionar essas antinomias e manter a unidade sistemática do ordenamento jurídico. que é promover a paz social através da segurança jurídica. temos o critério hierárquico (lex superior derogat inferior). finalmente. Nesse caso. mas se tornam parte de um sistema. dando ensejo. ou seja. prevalecerá a segunda. p.. que. p. Antinomias de 1º grau são as que envolvem apenas um dos critérios acima expostos. podemos nos deparar com diferentes graus de colisão. As normas que constituem um ordenamento não estão isoladas. pois qualquer choque entre elas pode ser resolvido recorrendo-se aos mecanismos fixados pelo próprio sistema. 91. dado que certos princípios agem como conexões pelas quais as normas são reunidas de modo a constituir um bloco sistemático.18 incapacidade de cumprir com um dos objetivos principais para o qual foi criado. entre uma norma que proíbe fazer e uma que permite fazer18. . segundo o qual dentre as normas incompatíveis. a incompatibilidade entre normas jamais será intransponível. Em suma. adota-se a tese de que o Direito não tolera antinomias. portanto. a solução é simples. necessariamente.

todas as hipóteses mencionadas são de antinomias aparentes. havendo uma norma superior-geral e outra norma inferior-especial. não pode existir qualquer conflito. in abstractu. entre uma norma especial anterior e outra geral posterior. sem contrariar a adaptabilidade do Direito.. pois. expressada no livro “Teoria pura do direito”. Embora. Não se pode. Se uma norma do escalão inferior é considerada como válida. ela constitui a unidade na pluralidade destas normas. mas de um caso de antinomia real. quer dizer. entre uma norma que determina a criação de uma outra e essa outra. prevalecerá o critério da especialidade. não existindo. Havendo conflito entre norma superior anterior e outra inferior posterior. ele parte do pressuposto de que os conflitos de normas no material normativo que lhe é dado podem e devem necessariamente ser resolvidos pela via da interpretação de escalão inferior. as antinomias de 2º grau envolvem dois dos critérios analisados. [. que não poderia ser solucionado através de uma regra geral. Assim. 1999. pois há uma gradação entre eles. genericamente. contudo. os mecanismos devem ser aplicados na ordem em que foram citados. lei especial revoga lei geral e lei superior revoga lei inferior). segundo os ensinamentos 20 Conhecida a teoria de Hans Kelsen. tem de se considerar como estando em harmonia com uma norma do escalão superior”. negar-se a possibilidade de os órgãos jurídicos efetivamente estabelecerem normas que entre em conflito umas com as outras.19 acabamos de descrever (lei posterior revoga lei anterior. estabelecer uma regra que dê preferência à hierarquia ou à especialidade da lei.] Como. dada a importância do Texto Constitucional20. 228/232). São Paulo: Martins Fontes.. porém. prevalece também a primeira (critério hierárquico). de maneira que o da anterioridade é o mais frágil e o da hierarquia o mais forte de todos.. João Baptista Machado. A depender do caso em análise é que se escolherá um desses critérios. Nessas situações. Até agora. o conhecimento do direito procura apreender o seu objetivo como um todo de sentido e descrevê-lo em proposições isentas de contradição.] Um conflito de normas surge quando uma norma determina uma certa conduta como devida e outra norma também determina como devida outra conduta. já que podem ser resolvidas através de um procedimento delineado abstratamente. que aduz: “Como a norma fundamental é o fundamento de validade de todas as normas pertencentes a uma mesma ordem jurídica. No conflito entre o critério hierárquico e o da especialidade. . p. [. No entanto. qualquer prevalência entre eles. não estaríamos diante de um conflito aparente. nessa circunstância. o problema ocorre quando se tem conflito entre uma norma geral superior e outra norma especial e inferior.. não é possível. sendo declarada aplicável a primeira norma. Teoria pura do direito. Hans. Esta unidade também se exprime na circunstância de uma ordem jurídica poder ser descrita em proposições jurídicas que não se contradizem. Trad. (KELSEN. Por sua vez. pois a norma do escalão inferior tem seu fundamento de validade na norma do escalão superior. inconciliável com aquela. pré-estabelecida.

2014. pela norma geral e hierarquicamente superior. 100. nessa circunstância. a trazer nitidez e confiança ao sistema jurídico. esses critérios foram. Maria Helena. fazendo sempre as diferenciações exigidas fática e valorativamente22. p. § 1. e. que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes. explica como proceder diante do conflito entre lei geral e especial24. sempre que houvesse uma superposição entre os campos de regulação das leis ao juiz caberia decidir o conflito. A supremacia do critério da especialidade se sustentaria.657/1942). a antítese (lei nova) e a síntese (revogação). ed. utilizando-se dos critérios clássicos. seja quando expressamente declarado na novel legislação. a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue. § 2. Na visão perfeita dos métodos de Bobbio. declarando a prevalência de uma lei e excluindo as demais do sistema23. ou quando esta é incompatível com a norma até então vigente. Teoria do ordenamento jurídico. Os critérios para resolver os 21 Um dos três preceitos de Ulpiano (jurista que influenciou profundamente o direito da Roma Antiga). Norberto. descreve os casos de revogação da lei anterior por lei mais recente. 2. . Conflito de normas. típica da modernidade. com alicerce no mais alto princípio da justiça: suum cuique tribuere21. São Paulo: Saraiva. no § 2º do mesmo artigo.º Não se destinando à vigência temporária. 1994. quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior. deva-se optar. independentemente do tipo de antinomia verificada (se de 1º ou 2º graus. o fato é que. já o que é diferente deve receber tratamento distinto. teríamos a tese (lei antiga).º A lei nova. 23 BOBBIO. 10. Ainda que realizando esse esforço interpretativo para adaptar a teoria de Bobbio aos casos mais complexos. inclusive. que em seu artigo 2º. se considerarmos que por vezes um direito previsto na Constituição só pode ser exercitado quando minuciosamente detalhado na norma infraconstitucional. em situações específicas essa premissa pode não apresentar a solução mais justa. baseado na interpretação de que o que é igual deve ser tratado como igual. Esse princípio serviria até certa medida para solucionar antinomias.º A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare. teoricamente. 22 DINIZ. Brasília: UNB.20 de Bobbio. p. incorporados no ordenamento jurídico brasileiro através da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Decreto-Lei nº 4. não revoga nem modifica a lei anterior. Em partes. Os outros dois são: viver honestamente (honeste vivere) e não ofender ninguém (neminem laedere). aparente ou real). 24 Art. tratando igualmente o que é igual e desigualmente o que é desigual. § 1º. que quer dizer: dar a cada um o que lhe pertence. 50.

pois o dinamismo e complexidade do Direito pósmoderno exigem uma visão sistêmica e flexível que permita a coexistência das normas. da Constituição Federal. o gênero norma jurídica. apesar da clareza com que pretendiam enfrentar os problemas das antinomias. inciso XXXII e 170. pode não propiciar soluções jurídicas que se mostrem adequadas. Teoria de los derechos fundamentales. tornaram-se insuficientes para tal desiderato. demonstra que os critérios apontados por Bobbio. Diante da constitucionalização do Direito Privado e da multiplicidade de diplomas normativos vigentes. Identité culturale et intégration: le troit internationale privé postmoderne. É que os complicados problemas contemporâneos e o pluralismo exigem uma eficiência não apenas hierárquica. 1995. junto com as regras. p. especialidade e hierarquia. Robert. segundo a qual os princípios também possuem força normativa. Mas em tempos de pós-modernismo. 26 É inquestionável no direito brasileiro a aplicabilidade da proposição de Robert Alexy. a priorizar-se a hierarquia. Haye: Nijhoff. O autor alemão ensina que “os princípios são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível. mas principalmente 25 JAYME. Madrid: CEPC. 86). que estão caracterizados pelo fato de que podem ser cumpridos em diferentes graus e que a medida devida do seu cumprimento só depende das possibilidades reais senão também das jurídicas”. Portanto. princípios são mandados de otimização. notadamente se cotejadas com o mandamento constitucional de proteção do consumidor insculpido nos artigos 5º. abstratas e simplistas técnicas de solução de antinomias já não são mais satisfatórias. se impõe ao exegeta uma mudança de paradigma: da exclusão (ab-rogação. notadamente com o constitucionalismo de valores e a força normativa que foi reconhecida aos princípios jurídicos 26. em sua “Teoria dos direitos fundamentais”. com vistas a restabelecer sua coerência25. dentro das possibilidades jurídicas e reais existentes. 259. 2002. p. . inciso V. As clássicas. a fim de que se possa obter uma maior proteção dos direitos que decorrem das relações jurídicas desequilibradas. compondo.21 conflitos de leis seriam apenas três: anterioridade. embora dotados de rigor técnico. (ALEXY. o uso dos métodos ortodoxos. De fato. essas regras não são mais exclusivas ou suficientes para resolver os problemas de colisão entre normas. In: Ruceil de Cours de l’Académie de Droit International de la Haye. derrogação e revogação) de uma das normas em conflito à harmonia e coordenação entre as regras e princípios do ordenamento jurídico. A dinâmica jurídica recente. em que uma das partes é legalmente reconhecida como vulnerável. Erik. Ernesto Garzón Valdez. Trad.

n. 27 MARQUES. In: Revista da ESMESE. Cláudia Lima. p. jan/jun. Propõe-se. a visualização da possibilidade de coordenação sistemática destas fontes.22 funcional do Direito27. . Superação de antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasileiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. 43. no lugar do conflito de leis. através de um autêntico diálogo das fontes. Aracaju: Escola Superior da Magistratura de Sergipe. no afã de favorecer o consumidor com a norma de campo de aplicação material mais benéfico. 7. 2004.

reconhecidamente mais fraco na sociedade. n. 2011). Têm como valores essenciais a solidariedade e a fraternidade. São os direitos difusos e os coletivos. p. nomeada pela doutrina como constitucionalização do Direito Civil28. mas também aos fornecedores que colocam produtos e serviços no mercado. são normas jurídicas./mar. argumentando que todos os direitos de uma geração seguinte se acumulam aos das gerações anteriores. MARTINS. Os direitos do consumidor são direitos humanos de terceira dimensão29 objetivados na Constituição Federal também no artigo 170. 141. 29 Os direitos fundamentais são tradicionalmente classificados em gerações. e não meramente programas ou discursos sem 28 Para aprofundamento. ver: LÔBO. Leonardo. Paulo Luiz Neto. como alimentação. tudo isso na condição de não profissional. Os direitos de primeira dimensão são os que buscam restringir a ação do Estado sobre o indivíduo. cabendo a todos respeitar a integridade e concretizar a defesa deste ente vulnerável. saúde. . Brasília: Secretaria de Edições Técnicas do Senado Federal. inciso XXXII). (DIMOULIS. segurança. São Paulo: Revista dos Tribunais. seguindo uma tendência mundial de influência do Direito Público sobre o Privado. impedindo que este se intrometa de forma abusiva na vida privada das pessoas. não são excludentes. de destinatário do que o mercado produz. numa tentativa de transmitir a ideia de que eles não surgiram todos em um mesmo momento histórico. Teoria Geral dos Direitos Fundamentais. Por sua vez. adotou como princípio fundamental a defesa do consumidor (artigo 5º. precipuamente os direitos fundamentais.23 3 A TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES COMO SOLUÇÃO DE CONFLITOS NORMATIVOS A Constituição Federal de 1988. Aqui. De fato. lazer etc. 99-109. 1999. os direitos de terceira dimensão são os que não protegem puramente interesses individuais. destacam-se o direito do consumidor. Constitucionalização do Direito Civil. jan. Os direitos de segunda geração são os que envolvem prestações positivas do Estado aos indivíduos (políticas e serviços públicos). passíveis de serem exigíveis e executáveis. o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e o direito ao desenvolvimento. Esse direito é reconhecido na Constituição Federal como fundamental pelo fato de que o consumidor procura no mercado a satisfação de suas necessidades básicas. mas transcendem a órbita dos indivíduos para alcançar a coletividade. Foi a necessidade de conferir proteção jurídica aos direitos dos compradores que os tornou direitos fundamentais. portanto. educação. o comando constitucional que determina a proteção do consumidor é de importância sublime e deve ser interpretado de forma a lhe conferir máxima efetividade. Dimitri. Dimitri Dimoulis e Leonardo Martins criticam a utilização do termo “gerações” e sugerem que seja empregada a expressão “dimensões de direitos”. com efeito vinculante não só em relação ao Estado. In: Revista de Informação Legislativa. mas foram fruto de conquistas progressivas da humanidade. pois a Constituição Federal e os direitos nela assegurados. inciso V.

As modernas Constituições preveem a dignidade da pessoa humana como fundamento da estrutura estatal e social. Se até pouco tempo tínhamos uma legislação de cunho liberal.24 força normativa30. 1991. que adquiriu. É essa necessidade de salvaguardar a dignidade do ser humano e os demais direitos fundamentais que faz com que os comandos da Constituição Federal 30 Para aprofundamento. a socialidade. sendo o seu respeito de observância obrigatória em todas as ações desenvolvidas no meio social. 2013. Trad. por exemplo. ver: HESSE. São Paulo: Revista dos Tribunais. Porto Alegre: Safe. BESSA. através do qual se procede a interpretação do Direito Civil. funcionando como centro irradiador e marco de reconstrução do Direito Civil. 32 BENJAMIN. Robert. voltada para a proteção da propriedade. A Força Normativa da Constituição. Desse modo. que se manifesta. 28. preocupado com a eticidade. segundo essa nova ideologia. Tal cenário foi essencial para o surgimento da ideia de que os direitos fundamentais não existem somente como forma de defesa do indivíduo frente ao Estado. 5. a Magna Carta passou a atuar como filtro axiológico. Trad. A Constituição é o sustentáculo e o limite desse Direito Privado que se reconstrói sob seus valores (principalmente os direitos fundamentais). Antonio Herman de Vasconcellos. uma nova significação. Konrad. transformando-o em um “Direito Privado solidário32. 2002. Ernesto Garzón Valdez. . o papel de contribuir para a realização dos valores da pessoa humana. da isonomia e da dignidade da pessoa humana. que agora fazem parte do rol de preceitos próprios do Direito Civil. mas também representam uma ordem objetiva de valores que vale para todos e em qualquer âmbito do direito31. Leonardo Roscoe e MARQUES. Nessa nova perspectiva que se lança ao Direito Privado. ed. Teoria de los derechos fundamentales. p. a Constituição exsurge como o núcleo e ápice do ordenamento jurídico. presenciamos agora o alvorecer de um sistema de Direito Privado que se reveste de caráter social. Madrid: CEPC. Gilmar Ferreira Mendes. causando-lhes. Princípios como a autonomia privada são conciliados (e mitigados) pelo da solidariedade social. a boa-fé e a tutela dos vulneráveis. Manual de Direito do Consumidor. enfim. no reconhecimento da eficácia horizontal dos direitos e liberdades fundamentais. Cláudia Lima. 31 ALEXY.

se expandido para os demais países. rel. que a jurisprudência pátria vêm entendendo pela possibilidade (e até necessidade) de aplicação dessa doutrina. relª. 2011). com ela. os direitos fundamentais são vistos como liberdades e garantias. Nessa perspectiva. os direitos fundamentais foram concebidos com o fito de limitar a atuação do Estado. No RE 201819/RJ35. É certo que a vinculação do Poder Público aos direitos fundamentais decorre da própria gênese desses direitos.). O termo “vertical” é utilizado para enfatizar que o enfoque se dá na relação entre Estado e indivíduo. ainda mais se consideramos que alguns grupos econômicos detêm mais capital e poder econômico do que muitos países juntos.20. Assegura-se.2005. (DIMOULIS. O tema foi aventado especialmente na doutrina e jurisprudência alemã da segunda metade do século XX. 11. no que chamamos de “eficácia horizontal dos direitos fundamentais”33. RE 201819/RJ. ou seja. os destinatários dos preceitos constitucionais são também os particulares. pode-se concluir. persistindo até hoje a discussão se essa eficácia se dá de forma direta ou reflexa. em seguida. restou evidente que grandes corporações também podem causar danos aos direitos da personalidade dos indivíduos. a evolução da sociedade demonstrou que não é só o Estado que pode violar os direitos básicos das pessoas. No entanto. São Paulo: Revista dos Tribunais. . (Ibid.2005. 35 STF. Leonardo. direitos de defesa do cidadão frente ao poder estatal. para proteger um particular de violações decorrentes de condutas de outros particulares. DJ. j.10. de forma que determinados bens e interesses fossem protegidos das violações advindas do poder soberano. Dimitri. p/ o acordão Min. 34 A eficácia vertical dos direitos fundamentais refere-se à aplicabilidade desses direitos em favor dos governados como limitadores da ação dos governantes. a Suprema Corte enfatizou que as violações aos 33 Segundo a teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais. Principalmente após a revolução científica e industrial inaugurada no século XVIII. 27. Gilmar Mendes. Esta é a “eficácia vertical dos direitos fundamentais”34. mesmo sem adentrar na discussão das teses jurídicas sobre a forma de vinculação dos particulares aos direitos fundamentais. sejam pessoas físicas ou jurídicas. tendo. idealizados com o objetivo de colocar os indivíduos a salvo das interferências estatais abusivas. Teoria Geral dos Direitos Fundamentais. Analisando algumas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito da aplicação dos direitos fundamentais nas relações privadas. MARTINS. objetivando-se proteger da interferência ilegal do Estado as liberdades individuais da pessoa humana. Minª Ellen Gracie.25 penetrem nas relações jurídicas privadas. Em verdade. A aplicação dos direitos fundamentais nas relações entre o particular e o poder público não se discute. que os direitos fundamentais sejam aplicados também às relações privadas.

96. tais como boa-fé objetiva. cita o fenômeno da constitucionalização do Direito Privado. os direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal não vinculam tão somente os poderes públicos. Além disso. RE 160.243 (DJ 19. tendo em vista que este constitui norma principiológica que disciplina um direito fundamental previsto expressamente no artigo 5º. que classicamente se regiam exclusivamente pelo Código Civil. mais especificamente do Direito Civil. Relevante mencionar que os entendimentos consagrados pelo STF nos julgados mencionados se aplicam perfeitamente ao Código de Defesa do Consumidor. submetendo-as à revistas íntimas. Sepúlvera Pertence). rel. min.222 (DJ 1.6. aplicando os princípios da ampla defesa e contraditório em relação privada entre cooperado e cooperativa. as relações privadas já não são mais inteiramente apartadas das limitações que emanam da imprescindibilidade de preservar os direitos fundamentais36. rel.95. Por conseguinte. O Ministro Joaquim Barbosa. em que foi aplicado diretamente o princípio constitucional da igualdade numa relação trabalhista. mas identicamente nas relações entre pessoas físicas e jurídicas de Direito Privado. RE 158. min. Conforme aduziu o Ministro Marco Aurélio (relator do caso). através da técnica legislativa de adoção de cláusulas gerais37. salienta que entre nós a aplicação dos direitos fundamentais na esfera privada é decorrência de diversos fatores. uma das formas de irradiação da eficácia dos direitos fundamentais para as relações privadas são as cláusulas gerais.9. para que uma empresa francesa situada no Brasil fosse compelida a estender aos seus operários brasileiros as vantagens conferidas aos franceses que aqui laboravam. Portanto. atualmente são permeadas pelos princípios de Direito Público. Marco Aurélio). as relações privadas. citado por . inciso XXXII.97.26 direitos fundamentais não acontecem somente no terreno das relações estabelecidas entre o cidadão e o Estado. rel. quando restou decidido que empresa especializada no comércio de lingerie não pode violar a dignidade das suas empregadas. em seu voto-vista no processo citado. Até nos Estados Unidos. que exerceriam a função de “porta de entrada” dos direitos fundamentais no domínio do Direito Privado.12. da Constituição Federal. Carlos Velloso). função social do contrato etc. o 36 Outras decisões do STF a respeito: RE 161. O primeiro deles é o gradativo rompimento das barreiras que separavam o Direito Público do Direito Privado até o século XIX. min. 37 Um conceito multissignificativo de cláusula geral é fornecido por Karl Engisch.2154/RS (DJ 7. Realmente. estando voltados também à tutela dos particulares em face dos poderes privados. onde há um grande esforço visando a superação da doutrina da state action. já destacado neste Capitulo.

406/2002) e o Código de Defesa do Consumidor (Lei Federal nº 8. a intimidade. 289. abr.). expresso no artigo 1º. constituem disposições normativas que utilizam. por consequência. 2004). uma linguagem de tessitura intencionalmente aberta. professor da Universidade de Heidelberg e orientador do doutorado da . Cláusulas Gerais e o Novo Código Civil. O princípio da dignidade da pessoa humana. nos seus enunciados. E conclui que as cláusulas gerais equivalem a normas jurídicas cujo preenchimento só se dará pelo magistrado quando da análise de um caso concreto. a integridade físico-psíquica. 46. 39 Jurista alemão. reconhece a dignidade como elemento fundamental e legitimador do sistema jurídico nacional. (JORGE JR. O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. na Alberto Gosson. para a realização de uma comunicação entre ambas as leis. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Saraiva. Bolson38 justifica a aplicação direta dos direitos humanos às relações de consumo também utilizando-se do princípio pro homine. caracterizando-se. p. conduzida pelo método do diálogo das fontes. princípio que abarca. Segundo ensina. ao asseverar que a cláusula geral é aquela que se contrapõe a uma elaboração casuística das hipóteses legais. Claudia Lima (Org. Simone Hegele. No nosso caso. 38 BOLSON. inciso III. indubitavelmente./jun. que coloca a pessoa humana em seu centro. Tal teoria é iluminada pelos valores constitucionais e os direitos fundamentais. pela ampla extensão de seu campo semântico. sob o manto constitucional. A expressão “diálogo das fontes” foi criada por Erik Jayme39. no contexto das relações de consumo também acontecem violações à dignidade do ser humano. como nos casos de atos ilícitos de fornecedores que ferem a honra. Justamente essa visão civil-constitucional do sistema jurídico é que possibilita a materialização do diálogo das fontes no Direito brasileiro. relações de consumo e o dano moral ao consumidor. a imagem e outros atributos da personalidade do consumidor. a dignidade do consumidor. Alberto Gosson. também. In: MARQUES. essa pessoa é o consumidor. foi de suma importância para a consolidação paulatina da constitucionalização do Direito Privado e. 2003. Corroborando essa afirmação. fluida ou vaga. A aproximação principiológica entre o Novo Código Civil (Lei Federal nº 10. que alberga todas as pessoas (incluindo-se ai o consumidor). em termos de grande generalidade. responsável por cunhar um novo Direito Privado.078/1990). as cláusulas gerais devem ser compreendidas como as formulações das hipóteses legais que. Revista de Direito do Consumidor. n. Não sendo apenas cláusulas de intenção. Segundo ele.27 microcódigo se abriu para a aplicação dos direitos fundamentais nas relações que disciplina. abrangem e submetem a tratamento jurídico uniforme todo um domínio de casos.

p. A teoria do diálogo das fontes foi criada por ele e exposta pela primeira vez em 1995. que têm como consequências a insegurança jurídica e a desvalorização do sistema jurídico. A essência da ideia de Jayme é. que não raras vezes confunde até mesmo os juristas mais renomados. no Curso Geral de Haia. Migra-se da noção de conflito de leis para a de coordenação entre elas.28 tentativa de propagar a imperiosa necessidade de uma aplicação coerente das diversas leis de Direito Privado existentes no sistema jurídico. pois a volumosa quantidade de leis esparsas que se edita no país dificulta um olhar sistêmico sob o ordenamento jurídico que possibilite ao legislador apontar claramente o campo de regulação de uma lei nova. 9268. Haye: Nijhoff. por exemplo. portanto. Erik. refutando a tradicional exclusão mútua de fontes40. Identité culturale et intégration: le troit internationale privé postmoderne.347/85. seja complementarmente. inchaço. seja permitindo a opção voluntária das partes sobre a fonte prevalente. É cediço que o mundo contemporâneo e pós-moderno é complexo e farto por natureza. 4º. 42 Caracterizada pelo aumento generalizado. Por tal motivo. a fim de aplicá-las conjuntamente. o autor afirma que o jurista deve estabelecer uma “conversa” entre as fontes do Direito. A revogação expressa. Nesse contexto de “inflação legislativa”42. seja subsidiariamente. 40 JAYME. 1995. O principal motivo para a aceitação do diálogo entre as normas é a funcionalidade que ele traz para o sistema jurídico. tem se tornado cada vez mais incomum.17 e 18. transfere-se para o intérprete professora Cláudia Lima Marques. a maioria dos diplomas normativos aduz apenas que “revogam-se as leis em contrário”. A premissa que lhe dá amparo é a visão de um ordenamento jurídico plúrimo. Convivemos com uma quantidade excessiva de diplomas normativos. 5º e com os artigos 15. sem que o próprio congressista saiba realmente quais são as leis em contrário afastadas. Ao apresentar a temática central dos seus estudos. In: Ruceil de Cours de l’Académie de Droit International de la Haye. a concepção de que as normas jurídicas não se excluem apenas pelo fato de pertencerem a ramos jurídicos diferentes. mas unitário. . “Diálogo” no sentido que há influências recíprocas e porque se pretende a aplicação de diversas normas ao mesmo tempo e ao mesmo caso. intumescência de diplomas normativos. todos da Lei Federal nº 7. com os §§ 3º. que ocorre quando a própria lei diz quais normas são eliminadas do sistema quando da sua entrada em vigor41. mas se complementam. 41 É o que ocorreu. 5º e 6º do art. revogados expressamente com o advento do CDC.

29 a árdua tarefa de realizar um exame atento. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro.). 2009. Ricardo Luis. caracterizada pela abertura do sistema. p. . é inquestionável que a ideia do diálogo das fontes nasce para dar soluções mais justas aos casos de conflitos normativos. O sistema jurídico pressupõe uma certa coerência. Trad. Teoria da decisão judicial: fundamentos de direito. 2012. Apresentação. ed. deve buscar coordenar as fontes. por uma pluralidade de fontes e pelo número progressivo de conceitos indeterminados43. 45 MIRAGEM. Nessa tempestade de fontes jurídicas. avaliando a solução que melhor cumpre com os escopos constitucionais. tornando o Direito mais flexível e humanitário. p. Essa viabilidade de interligação de diferentes leis que permite a aplicação de todas elas na solução de uma mesma situação é sempre orientada. São Paulo: Revista dos Tribunais. diretamente. O diálogo das fontes servirá como o vetor que nos guiará nesse mar de intempéries. 2004. Trata-se de uma teoria visionária. Direito Internacional Privado e Cultura Pós-Moderna. 10. In: MARQUES. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Claudia Lima (Coord. cronológico e da especialidade. existentes ou coexistentes no mesmo ordenamento. pois o direito deve evitar a contradição. 2. Tendo como base a dignidade do ser humano e a aplicação imediata dos direitos fundamentais. a fim de determinar com precisão as leis atingidas e os limites da revogação tácita. Erik. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1. O diálogo vai servir exatamente para situações em que nos deparamos 43 LORENZETTI. cujos critérios são: hierárquico. O juiz. No Brasil. essa inovadora tese surge como alternativa à clássica técnica de resolução de antinomias jurídicas. A sociedade atual vive na era da desordem. o papel do operador do Direito passa ser o de reconstruí-lo em cada caso concreto. Claudia Lima Marques. tudo isso através da análise das diversas leis que o regulam e da aplicação concomitante dos princípios que dão suporte a essas normas. resguardando o indivíduo vulnerável. na presença de duas fontes com valores contrastantes. n./UFRGS. Bruno. dez. 59-129. pela proteção dos direitos fundamentais e da pessoa humana45. por sugerir a substituição do paradigma de conflito entre leis pela noção de coordenação entre as fontes normativas. através do diálogo entre elas44. In: Cadernos de PósGraduação em Direito – PPGDir. 44 JAYME.

A antinomia se configura. 2012.).30 com conflitos de princípios e regras no tempo. No entanto. “a lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare. solucionar com justiça os casos de conflitos normativos com que nos deparamos diuturnamente. que não tem relação com a data de promulgação da lei. Diante da incapacidade dos critérios da escolástica em lidar com a atual complexidade do ordenamento jurídico e da imprescindibilidade de restaurar a coerência desse sistema. Até pouco tempo atrás os critérios Bobbianos de solução de conflitos eram as únicas opções disponíveis ao jurista. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. no que chamamos de antinomia jurídica. essa teoria clássica mostrou-se incapaz de. liberdade e solidariedade. Tais critérios encontram-se previstos no Direito pátrio através da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Decreto-Lei nº 4. não se podem tolerar antinomias em seu bojo. 31. Em consonância com o seu artigo 2º. tendo prevalência nesta aplicação a mais valorativa e depois dela. quando no mesmo ordenamento jurídico haja confronto entre duas normas com o igual âmbito de abrangência. em que a nova hierarquia é a harmonia dada pelos valores constitucionais e a prevalência dos direitos humanos. O que a teoria do diálogo das fontes propõe é a alteração do método de resolução de antinomias. do “monólogo” de uma só norma para o diálogo 46 MARQUES.657/42). as demais. Claudia Lima (Coord. a nova especialidade é a noção de complementação ou aplicação subsidiária das leis especiais. In: MARQUES. p. O "diálogo das fontes" como método da nova teoria geral do direito. sozinha. São Paulo: Revista dos Tribunais. Claudia Lima. ou seja. urge estabelecer um novo olhar para os antigos métodos. Como o ordenamento jurídico deve ser uma unidade sistêmica. ainda mais frente à constitucionalização do Direito Privado e à necessidade de uma maior flexibilidade na aplicação das leis que esse fenômeno impõe. quando duas normas estejam supostamente aptas para serem aplicadas ao mesmo caso concreto. e a nova anterioridade. mas sim com a necessidade de adaptar o sistema toda vez que uma lei nele é acrescida pelo Poder Legislativo46. § 1º. sempre objetivando realizar os valores ideais da Constituição de igualdade. conforme fora explicado. . no que couberem. quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior”.

In: Revista da ESMESE.31 entre elas47. BESSA. Eppur si muove: diálogo das fontes como método de interpretação sistemática no direito brasileiro. Cláudia Lima. já parte da premissa de que haverá aplicação simultânea delas. ed. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. o raciocínio jurídico clássico apresenta algumas deficiências tanto na resolução de conflitos de normas quanto para a integração do Direito. Nesta senda. 49 BENJAMIN. Superação de antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasileiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. Cláudia Lima. 67-109. Nisso reside a importância do diálogo das fontes. In: MARQUES. 48 MIRAGEM. . p. variando somente a ordem e o tempo da aplicação. e no direito do consumidor. 44. encontra terreno fértil para desenvolvimento48. 5. que é a efetivação das regras e princípios insculpidos na Constituição Federal e dos valores e direitos humanos em geral. em vez de forçar o intérprete decidir pela aplicação de uma das leis. 2013. Bruno. 2012b. 47 MARQUES. n. p. a teoria do diálogo das fontes desponta precisamente com o escopo de sanar essa insuficiência.). Antonio Herman de Vasconcellos. Claudia Lima (Coord. Leonardo Roscoe e MARQUES. 7. pois só a convivência coordenada dos preceitos conflitantes é capaz de cumprir com a verdadeira ratio do Direito contemporâneo. São Paulo: Revista dos Tribunais. 97. que. dada a necessidade de maior flexibilidade que sua índole protetiva exige. Efetivamente. jan/jun. Manual de Direito do Consumidor. Aracaju: Escola Superior da Magistratura de Sergipe. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2004. de forma a restabelecer a continuidade das normas e a coerência do sistema49.

52 DUQUE. Mais tarde. 03.04. eliminando suas antinomias e dando-lhe efetividade.2011. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. como também à potencialidade de desenvolvimentos posteriores.12. Min.ª T. DJ. parece deixar claro que a teoria do diálogo das fontes pode ser aplicada nas diversas esferas jurídicas.08. Indubitavelmente. Visão a partir da teoria do diálogo das fontes. Min. j. essa teoria se revela como uma das maiores construções do Direito contemporâneo. 1. .2009. o diálogo contribui para a evolução do Direito como um todo.. 2012. veja-se que em Direito Ambiental esse método foi aplicado pelo STJ no REsp 994. Herman Benjamin. A teoria geral dos contratos de adesão no Código Civil. Se não se discute mais que a aplicação simultânea de fontes normativas não está restrita ao Direito das Relações de Consumo.. p. inicialmente foi proposto um diálogo necessário entre o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor.2009. de que os direitos previstos no Código não excluem outros assegurados em normas diferentes (o que constitui o principal fundamento para a coordenação e aplicação conjunta de distintas leis com o fito de atingir um resultado que assegure maior nível de proteção aos consumidores). ainda mais evidente é que.). Min. o que foi decisivo para a potencialização e desenvolvimento dessa matéria.10.2009. não podendo estar restrita a uma especialidade específica. no Processo Civil. j. e no Direito Administrativo. 25. DJ. 31. ou serviria de igual maneira para interpretação das demais normas jurídicas. Castro Meira. foi reconhecido que entre todas as áreas do Direito existia a possibilidade de aplicação do diálogo das fontes51. 01. In: MARQUES. rel. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. Claudia Lima. 2. Flávio. 208. A UTILIZAÇÃO DO DIÁLOGO DAS FONTES NA APLICAÇÃO DA NORMATIZAÇÃO CONSUMERISTA Na âmbito consumerista. DJ. 2.554-RS. São Paulo: Revista dos Tribunais. DJ. j. rel. Marcelo Schenk. no REsp 1184765-PA. constituindo-se em um verdadeiro marco no estudo do Direito das Relações de Consumo. não encontrar similaridade em outras leis. A evolução dos estudos doutrinários e das decisões judiciais. 06. em virtude da visível aproximação principiológica entre esses dois sistemas50. In: MARQUES. Com esta proposição afastou-se a noção de que o Código Consumerista seria um microssistema jurídico totalmente isolado e autossuficiente em relação ao restante do ordenamento.ª T. no entanto.08.11.2010. 2. 24. 27. Claudia Lima (Coord. Herman Benjamin.2010.ª Seção. Luiz Fux.139.ª T. 129. 51 Em virtude da previsão consignada no artigo 7º do CDC.183-RS. Em virtude da riqueza dos seus argumentos. principalmente na contemporaneidade plural e complexa em que vivemos 52.. nesta 50 TARTUCE. rel. 09.08.10.2009 e o REsp 1.2009. j. O transplante da teoria do diálogo das fontes para a teoria da Constituição. 2012. São Paulo: Revista dos Tribunais. rel. Min.120-RS. p. A título de exemplo. questionou-se inicialmente se o diálogo das fontes seria método aplicável apenas ao direito do consumidor.32 4. citem-se o RMS 29.

que não podemos admitir. 61. Se adotássemos o diálogo como “uma via de mão dupla” para afirmar ser possível a preponderância de Lei menos favorável em alguns casos. só será válida quando ampliá-los. O "diálogo das fontes" como método da nova teoria geral do direito. p.). Defender o contrário seria analogia in pejus. ampliar a proteção jurídica ofertada aos sujeitos mais vulneráveis. dado o escopo do diálogo das fontes. travados não exclusivamente com o Código Civil. incluindo Tratados e Convenções Internacionais que disciplinem relações de consumo. Claudia Lima (Coord. Claudia Lima (Coord. pois só é legítima se beneficiar o consumidor. In: MARQUES. não é permitido aplicar conjuntamente as normas para chegar a resultado menos favorável ao consumidor. Importante destacar que. o método em questão é claramente orientado ao acréscimo de direitos ao consumidor. Diferentemente dos critérios tradicionais. 100/101. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. não estaríamos adotando diálogo. In: MARQUES. dado o motivo maior que a norteia. o seu principal diploma normativo. qual seja. mas com inúmeras outras disposições normativas. . Nesse sentido. mas “monólogo de Lei especial in pejus”53. a promoção dos direitos humanos.). é passível de múltiplos diálogos. 2012. Cabe mais uma vez ao aplicador do Direito estar atento para realizar essa análise. Certo que estamos acostumados com a ideia de que os métodos interpretativos e de integração podem ser utilizados “para o bem e para o mal”. Essa técnica jamais deverá ser utilizada para retirar direitos. Eppur si muove: diálogo das fontes como método de interpretação sistemática no direito brasileiro. o diálogo das fontes não se 53 MARQUES. a fim de rejeitar resultados que possam de qualquer maneira limitar ou dificultar o exercício dos direitos do consumidor 54. As luzes que clareiam a teoria em estudo têm sede nos direitos humanos. Bruno. na Constituição Federal e nos valores nela albergados. São Paulo: Revista dos Tribunais. Claudia Lima. mas com a teoria de Erik Jayme é diferente. 2012. São Paulo: Revista dos Tribunais.33 área. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. p. 54 MIRAGEM. jamais quando prejudicá-los. resulta daí a conclusão de que os laços comunicantes entre as fontes só podem ser estabelecidos quando culminarem no alargamento da tutela constitucional estampada no inciso XXXII do artigo 5º. elegendo como filtro a Constituição Federal. como veremos adiante. o Código de Defesa do Consumidor. qual seja. Frente ao disposto no artigo 7º do CDC.

o paradigma da diferença56. mas da aplicação do Direito no caso concreto respeite o sistema jurídico e efetive os objetivos específicos da área em que estiver sendo aplicado. Somente nos permitimos conhecer e utilizar aquilo que estamos preparados para conhecer e utilizar 55. Cláudia Lima. n. por exemplo. 4. cujo espírito e teleologia estão ligados a um novo paradigma. e o estágio pós-moderno é o período em que a sociedade mais precisa e está mais apta a abraçar o diálogo das fontes. aqui o foco maior é no resultado da sua aplicação. Apenas nesse momento histórico reconhecemos que o ordenamento jurídico não é um sistema completo. 2004. Pinharanda Gomes. mas completável. 7. Aracaju: Escola Superior da Magistratura de Sergipe. que reconhece um dos sujeitos da relação de consumo como merecedor da tutela estatal por ser vulnerável diante da superioridade do fornecedor. A finalidade é que não somente o resultado da interpretação. Em tempos passados esse novo método não teria conquistado espaço. ideia que é pressuposto básico para a sua utilização. é necessário observar que o Brasil adota um modelo de Direito Privado que conta com dois Códigos separados: um microssistema específico de proteção ao consumidor. Martin. de caráter 55 HEIDEGGER.34 ocupa apenas da interpretação das disposições normativas. se o diálogo está sendo utilizado no Direito Ambiental. Os fenômenos da insegurança normativa. o intento vai ser alargar a proteção do meio ambiente. . Carta sobre o humanismo. 56 MARQUES. 1985. A teoria de Erik Jayme não poderia ter vindo em época mais adequada. Assim. flexibilidade e a efetividade que o Direito atual precisa.1 DIÁLOGO ENTRE O CÓDIGO CIVIL E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR Antes de tudo. jan/jun. Lisboa: Guimarães. p. Trad. no nosso caso. da fragmentariedade e do pluralismo são determinantes para a aceitação da teoria do diálogo das fontes como a forma de trazer a sistematicidade. haja vista que os valores do modernismo não eram favoráveis a sua aplicação. Superação de antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasileiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. esse olhar é voltado para a ampliação da proteção jurídica do consumidor. e um Código Civil. Mas o cenário agora é outro. 23. In: Revista da ESMESE.

p. p. Aracaju: Escola Superior da Magistratura de Sergipe. 45. senão conexos. estabelecendo-se laços comunicantes entre as normas em questão. n. São Paulo: Revista dos Tribunais. p. afinal o Código Civil é a Lei basilar do Direito Privado brasileiro. 58 MARQUES. São três os diálogos possíveis entre o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor. principalmente se uma Lei é geral e a outra especial. apenas antinomias aparentes que podem ser resolvidas com o uso da aplicação ordenada. ferramentas que se interpenetram e dialogam permanentemente para a promoção da solidariedade e do personalismo constitucionais57. as quais não deixam de ser. uma pode servir de base conceitual para a outra. Em sendo o CDC Lei especial para as relações de consumo. A norma consumerista de 1990 torna-se permeável toda vez que a incorporação de outras disposições normativas contribuam para a realização do mandamento constitucional de proteção ao consumidor. Código Civil e complexidade do ordenamento. portanto. não há conflito real entre essas Leis. ou subjetiva). Cláudia Lima. se uma é o cerne do sistema e a outra um microssistema específico. Revista de Direito do Consumidor. out. quando da aplicação concomitante de duas Leis. Gustavo. 56. No diálogo sistemático de coerência. no âmbito intrincado do ordenamento. . de âmbito restrito às relações envolvendo consumidores (especialidade ratione personae. que trazem como resultado a consecução da ratio de ambas. muitos institutos jurídicos nele mencionados 57 TEPEDINO. Temos aqui um dos diálogos mais comuns. diálogo sistemático de complementariedade e subsidiariedade em antinomias aparentes ou reais. Esses Códigos não podem ser considerados diplomas divergentes.35 geral. Cláudia Lima (Org. não acabado materialmente. em seu âmago. e o CC Lei geral sobre o Direito Civil. In: MARQUES. quais sejam: diálogo sistemático de coerência. dialogam ambos os diplomas legislativos no mesmo sistema. 9/11. mas tão-somente com completude subjetiva de proteção de um grupo da sociedade59. criado para regular as relações entre iguais. In: Revista da ESMESE. 23. enquanto que o CDC é norma especial. 59 Ibid. diálogo das influências recíprocas sistemáticas58. e. n. jan/jun. Código de Defesa do Consumidor. 2004. subsidiária e especial do Código Civil e do Código de Defesa do Consumidor.)./dez. 2005. No entanto. relações civis. 7. Superação de antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasileiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002.

63 Art. 61 Como também é conhecido o Código Civil Brasileiro de 2002. 31). n. se trazem normas mais favoráveis ao consumidor (MARQUES. em que. uma lei pode complementar a aplicação da outra. In: MARQUES. todas os conceitos de contratos em espécie capitaneados na Lei Civil serão utilizados. 2004. 732: Aos contratos . diante de casos concretos. já que. 2012. das obrigações e dos contratos podem ser retirados do Código Civil. É o que acontece com as nulidades. prescrição e tantos outros conceitos não definidos no microssistema. se fundir com as do CDC. Art. como acontece nos artigos 721. pelo fato de o jurista Miguel Reale ter sido o supervisor da sua comissão elaboradora.36 estão disciplinados apenas no Código Civil. Aracaju: Escola Superior da Magistratura de Sergipe. 17-66. São Paulo: Revista dos Tribunais. os conceitos gerais e as regras básicas acerca das relações jurídicas. por exemplo. In: Revista da ESMESE. p. as demais eram excluídas do sistema. a fim de complementá-lo. Cláudia Lima. a própria norma abre uma opção para o intérprete atingir sua ratio através da aplicação simultânea de outras Leis que também tratam de determinada matéria62. O segundo tipo de diálogo (diálogo sistemático de complementariedade e subsidiariedade em antinomias aparentes ou reais) é o que mais se contrapõe à antiga forma de superação de antinomias. O "diálogo das fontes" como método da nova teoria geral do direito. Aqui. Superação de antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasileiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. 62 Na aplicação coordenada das duas leis. decidindo-se pela aplicação de uma Lei. são diplomas complementares e harmônicos60. decadência. o conceito de pessoa jurídica. Para os casos em que o legislador não previu essa possibilidade 60 MARQUES. CC63. as cláusulas gerais de uma lei podem encontrar uso subsidiário ou complementar em caso regulado pela outra lei. p. por exemplo. quanto de seus princípios. Assim. 7. Como se percebe. Subsidiariamente o sistema geral de responsabilidade civil sem culpa ou o sistema geral de decadência podem ser usados para regular aspectos de casos de consumo. Claudia Lima (Coord. Para além dessa conclusão. mesmo se estivermos tratando de contrato de consumo. jan/jun. em vez de leis conflitantes. o mais importante é a constatação de que as normas do Código Reale61 podem. a depender de seu campo de aplicação no caso concreto a indicar a aplicação complementar tanto de suas normas. prova. no que couber. Assim. 721: Aplicam-se ao contrato de agência e distribuição. 732 e 777.). no que couber. que devem ser examinados à luz do CC. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. as regras concernentes ao mandato e à comissão e as constantes de lei especial. numa compra e venda realizada entre fornecedor e consumidor. Por meio desse diálogo. no que for necessário ou subsidiariamente. a primeira conclusão a que chegamos diz sobre a não revogação do CDC de 1990 pelo CC de 2002. Claudia Lima.

65 MARQUES.37 expressamente. In: MARQUES. São Paulo: Revista dos Tribunais. 960.). p. Código Civil comentado e legislação extravagante. Flávio. toda vez que um ato normativo assegurar algum direito para o consumidor. 777: O disposto no presente Capítulo aplica-se. No que se refere à prescrição. tem aplicado o prazo geral do CC (artigo 205: dez anos) às relações jurídicas de consumo66. pois. no que couber. por exemplo. 45. naquilo em que suas normas não divergirem diretamente com as do CDC. jan. agrupando-se na tutela especial e tendo a mesma primazia no trato da relação de consumo. In: MARQUES. nada obstante a regra clara prevista no artigo 27 do CDC sobre a prescrição quinquenal. . que dispõe sobre a proteção dos aderentes64./mar. A teoria geral dos contratos de adesão no Código Civil. são aplicáveis. São Paulo: Revista dos Tribunais. 66 NERY JUNIOR. de transporte. Noutros termos. n. Visão a partir da teoria do diálogo das fontes. NERY. 71-99. é possível. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. ele poderá ser adicionado ao microssistema do CDC. Exemplo típico de diálogo de subsidiariedade ocorre com os contratos de consumo que também são de adesão. a proteção dos consumidores constante do artigo 51 do CDC pode ser complementada e ampliada pelo artigo 424 do CC. 2003. seja através de outra previsão legal mais benéfica. À vista disso. que permite a proteção do consumidor da forma mais abrangente possível. ed. artigo 421 (função social do contrato). e artigo 187 (abuso de direito) etc.). São Paulo: Revista dos Tribunais. 13. os preceitos constantes da legislação especial e de tratados e convenções internacionais. precipuamente as constantes no CC. temos o diálogo das influências recíprocas sistemáticas. 2012. p. aplicarem-se às relações de consumo as cláusulas gerais. numa alusão clara ao diálogo ora estudado. Claudia Lima (Coord. Rosa Maria de Andrade. se possibilitarem uma situação mais favorável a esses. 2013. o artigo 7º do CDC serve como norma de abertura do sistema. p. nesses casos. Revista de Direito do Consumidor. O Código Civil aplica-se às relações de consumo. Por último. Art. Diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor e o Novo Código Civil: do „diálogo das fontes‟ no combate às cláusulas abusivas. quando couber. que pode ser usado juntamente com os dispositivos do CDC para regular aspectos de casos consumeristas. seja através do próprio microssistema. outra hipótese apontada pela doutrina65 concerne ao sistema geral de decadência traçado no Código Civil. Nelson. Claudia (Org. desde que não contrariem as disposições deste Código. artigo 422 (boa-fé objetiva). o STJ. 209. 64 TARTUCE. aos seguros regidos por leis próprias. Cláudia Lima. em geral. em certas situações específicas.

uma das normas pode servir de base conceitual para a outra. um diálogo de coordenação e adaptação sistemática”68. as definições de consumidor strictu sensu e de consumidor equiparado podem sofrer modificações finalísticas do Código Civil. 94.38 Esse tipo de diálogo se manifesta quando uma Lei tem seu campo de atuação redefinido em virtude da alteração de institutos previstos em outro diploma normativo. a precisão conceitual definida pelos juristas para princípios ou institutos presentes em uma Lei. São Paulo: Revista dos Tribunais.2 DIÁLOGO ENTRE O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E OS DIPLOMAS NORMATIVOS INTERNACIONAIS O diálogo das fontes requer uma nova forma de agir do jurista. 209. por exemplo. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. p. . Visão a partir da teoria do diálogo das fontes. ed. Partindo desse pressuposto. São Paulo: Revista dos Tribunais. atribuídas inicialmente pensando nas relações previstas no CDC. podemos concluir que a teoria em estudo também possibilita a aplicação simultânea do Código de Defesa do Consumidor e Acordos/Tratados/Convenções Internacionais. Claudia Lima. mas que são comuns a dois sistemas normativos. 5. BESSA. deve pretender. Dessa maneira. A teoria geral dos contratos de adesão no Código Civil. In: MARQUES. 68 Ibid. p. 2013. pode suprir uma 67 BENJAMIN. Exemplo disso são as significações atuais de “abuso do direito” e do “princípio da boafé”. Nessa espécie de diálogo. Manual de Direito do Consumidor. 2012. pois existe na verdade “influência do sistema especial no geral e do geral no especial. sob as luzes e valores constitucionais. mas que com a superveniência do CC foram para ele transplantadas. Deste modo. 4. Leonardo Roscoe e MARQUES. é possível afirmar que “os diálogos de influências recíprocas sistemáticas estão presentes quando os conceitos estruturais de uma determinada lei sofrem influências da outra”69. Flávio. Assim. conciliar os diversos diplomas legais. Dessa forma. 69 TARTUCE. Cláudia Lima. aproveita-se no espaço de aplicação de uma das normas o sentido alcançado pela interpretação doutrinária desenvolvida para outro diploma normativo. Antonio Herman de Vasconcellos. que antes de ver revogação ou derrogação da disposição normativa. sejam eles nacionais ou não. servem para ambos. Fala-se aqui das mútuas influências que o Código Civil tem no Código de Defesa do Consumidor e vice-versa67.

I: O transportador é responsável pelo dano causado em caso de morte ou lesão corporal de um passageiro. unicamente. a indenização do transportador é objetiva. cujos princípios. Portanto.39 lacuna. Acima dessa quantia a responsabilidade é subjetiva. Já o transporte aéreo realizado exclusivamente dentro do território nacional é regulado pelo Código Brasileiro de Aeronáutica – CBA (Lei Federal nº 7. podem possibilitar a ampliação dos direitos e garantias contidos separadamente em seus textos. desde que não exceda um valor máximo. desde que o acidente que causou a morte ou lesão haja ocorrido a bordo de aeronave ou durante quaisquer operações de embarque ou desembarque.000 Direitos Especiais de Saque por passageiro. O transporte aéreo se divide em internacional e nacional. na medida em que exceda de 100. que não exceda de 100. que foi substituída pela Convenção de Montreal (1999). correspondente à quantia aproximada de U$ 133. O primeiro foi disciplinado pela Convenção de Varsóvia (1929).000 Direitos Especiais de Saque por passageiro. II: O transportador não será responsável pelos danos previstos no número 1 do Artigo 17. com relação aos danos previstos no número 1 do artigo 17. embora com culpa presumida (art. inciso II. quando aplicadas conjuntamente. tendo em vista que o transportador aéreo poderá desobrigar-se do dever de indenizar se comprovar que o dano não se deveu à culpa ou a outra ação ou omissão sua ou de seus prepostos ou que o dano é decorrência. não diferem daqueles adotados pela Convenção de Montreal. inciso I) 70. No sistema de Montreal. com base na teoria do risco da atividade (artigo 17. a Convenção de Montreal é. Analisando a questão da responsabilidade civil do transportador aéreo por danos causados aos passageiros (e seus bens) tornaremos compreensíveis essas afirmações. ou b) o dano se deveu unicamente a negligência ou a outra ação ou omissão indevida de um terceiro. notadamente no que tange à responsabilidade civil do transportador. . aprovada no Brasil por meio do Decreto Legislativo nº 59 e promulgada em 27 de setembro de 2006 pelo Decreto 5. da conduta de um terceiro. sob a ótica de coerência do ordenamento jurídico. Após a promulgação do CDC estabeleceu-se a controvérsia em relação 70 Artigo 17. alíneas “a” e “b”) 72.00 (artigo 21)71. 72 Artigo 21.565/1986). 21. desde 2006. 71 Artigo 21: O transportador não poderá excluir nem limitar sua responsabilidade.910. se provar que: a) o dano não se deveu a negligência ou a outra ação ou omissão do transportador ou de seus prepostos. ou mesmo.000. o diploma legal que regula o transporte aéreo em escala internacional no Brasil.

2. Transporte aéreo – Atraso – Viagem internacional – Convenção de Varsóvia – Dano moral – Código de Defesa do Consumidor.000 (sessão de 4 de abril).04. merece reparação sem qualquer limitação (STF. “o dano moral decorrente de atraso em viagem internacional tem sua indenização calculada de acordo com o Código de Defesa do Consumidor” (REsp 235. 12. Sálvio Figueiredo Teixeira. Retificação de voto. 4ª T. a 3ª Turma do STJ decidiu que a responsabilidade do transportador não pode ser restringida em casos tais74. 74 .95. no AI 209.ª T.2000. 18. REsp 154.10. nessa parte. a jurisprudência dessa Corte firmou-se em sentido contrário. essa corte. Em outras ocasiões.12.1999).04. Min. em que. 75 Civil – Transporte aéreo – Atraso de voo internacional – Dano Moral – Convenção de Varsóvia – Código de Defesa do Consumidor – Aplicabilidade – Precedente da Turma – Orientação do Supremo Tribunal Federal – Agravo desprovido. DJ..04. DJU 14 de fevereiro de 2000). e. não afasta as disposições especiais contidas no Tratado73.535 e 169.763-MG. (STJ. II).943-DF. 73 STJ. 20. se discutia a limitação ou não do valor da indenização. Transporte aéreo – Extravio de bagagem (danos à bagagem/danos à carga) – Indenização (responsabilidade) – Código Brasileiro de Aeronáutica e Convenção de Varsóvia – Código de Defesa do Consumidor: 1. Recurso dos autores conhecido em parte. Min.. 28. Segundo a orientação formada e adotada pela 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça. diante do extravio de bagagem de passageiro. a indenização por danos morais no transporte aéreo.96.11. de caráter geral (no caso. Min. colocando em lados opostos os defensores da Convenção e do CBA. 17. (STJ. DJ. entretanto. concluiu pela aplicabilidade do CDC e. 04.08. mencionando precedente do STF. II – Segundo decidiu o Supremo Tribunal Federal. 3. j. No REsp 154. Recurso especial conhecido pelo dissídio mas desprovido. Min. por entender que a Lei superveniente. DJ. pregando a prevalência desses diplomas normativos em relação ao CDC.40 à limitação quantitativa prevista na então Convenção de Varsóvia (hoje de Montreal). j. O dano moral decorrente de atraso em viagem internacional tem sua indenização calculada de acordo com o Código de Defesa do Consumidor. 14. j. REsp 58.2000). arts. VI. 3ª T.2000. Eduardo Ribeiro. rel. j. 29. rel. 25 e 51 § 1º. rel. 2. 13.678-SP.06. RE 172.736-MG.. quando ali se ultimou o julgamento dos REsp 158. em casos que tais (Código de Defesa do Consumidor. Demais questões não conhecidas. 3ª T. reconhecendo a existência de diálogo das fontes entre todas essas normas. 05.. a propósito de extravio de mala.720-RJ. Marco Aurélio. Inicialmente. Nilson Naves. Ag. Posteriormente. quando se debatia sobre o diploma normativo que seria aplicado diante de dano moral decorrente de atraso de voo internacional. o STJ se posicionou pela prevalência da Convenção de Varsóvia e do Código Brasileiro de Aeronáutica. rel. 6º. DJ. a responsabilidade do transportador não é limitada. as hipóteses de responsabilidade civil tarifada não podiam persistir nas relações de consumo. pela reparação integral75.943-DF. consequentemente. o CDC). I – Nos termos da orientação firmada em precedente da Turma. e os que sustentavam que diante princípio da reparação integral estatuído no microssistema.2000).1999.

77 GRASSI NETO. j. seguros e desenvolvidos. deve-se verificar. Assim sendo. Se é verdade que no século XX medidas que favoreciam sobremaneira o transportador eram compreensíveis./dez. Luiz Felipe Salomão. Min. se estivermos diante de uma relação de consumo. bem como princípio geral da atividade econômica (artigo 170. CDC) de distinta especialidade. Antônio de Pádua Ribeiro. 24. n..2001.41 Essa sucessão de julgados76 confirma que. REsp 196031-MG. devendo prevalecer as disposições mais benéficas ao lesado hipossuficiente. época em que o transporte aéreo afigura-se como um dos mais lucrativos.2001. parcialmente provido. São Paulo: Revista dos Tribunais. 4.04. Ruy Rosado de Aguiar. j. não podemos aceitar a prevalência de convenções que foram elaboradas com o intuito de atender as necessidades de grandes grupos econômicos.2000. . Min. independente do que esteja disposto nos Tratados Internacionais. da Constituição Federal. toda a interpretação da legislação aplicada no Brasil deve ter por norte a proteção do consumidor. 4. em virtude do princípio constitucional cravado no art. rel. REsp 235. 23.. como de fato são as empresas aéreas.ª T.). 14. os conflitos normativos serão resolvidos sempre em conformidade com o permissivo do artigo 7º do Código. REsp 156240-SP. 2007. Recurso da ré não conhecido.11.02. 167-213. DJ. que institui a proteção ao consumidor como princípio inscrito dentre os direitos e garantias individuais (artigo 5º. 5º. 24.04.2000. Ruy Rosado de Aguiar. STJ.1999. rel. embora o CDC não revogue o CBA ou o Pacto de Varsóvia/Montreal (que continuam integralmente aplicáveis às relações de natureza civil). out. 02. DJ 23. rel. j. 3. DJ 21. j 21.ª T. Claudia Lima (Org. mas em prol do sujeito de direitos nela tutelado. Quando tratamos de relações consumeristas. inciso V)77.2000). inciso XXXII).678-SP.10. dada a incipiência da indústria aeronáutica.2008. imperioso se tornou considerar afastados. In: MARQUES. STJ. XXXII.12. 4ª T. o mesmo não pode ser dito na contemporaneidade.2008. norma de ordem pública (artigo 1º. através do diálogo das fontes. 64. AgRg no Ag 878886-SP. DJ. 76 Outras decisões pertinentes: STJ. Min. (STJ.10.ª T. rel. Em se tratando de relação de consumo. a fim de dar cumprimento ao que aduz a própria Constituição Federal de 1988. Roberto: Crise no setor de transporte aéreo e a responsabilidade por acidente de consumo. Revista de Direito do Consumidor. Min. Com o advento do CDC. qual a norma mais proveitosa ao consumidor. que atua não em consideração ao objeto.11. p.

inciso XXXII). mas de igual maneira modificou o que estava estatuído nas Leis especiais então vigentes. estabeleceu uma ordem jurídica uniforme e geral designada a tutelar os interesses patrimoniais e extrapatrimoniais de todos os consumidores. São Paulo: Atlas. . foi promulgado para instituir uma Política Nacional de Relações de Consumo.078/1990 criou “uma sobreestrutura jurídica multidisciplinar. artigo 5º. 360. toda a principiologia protetora do microssistema se espraia pela legislação específica que rege a matéria (Convenção de Montreal e CBA). Fato é que a Lei Federal nº 8. 79 Ibid.42 pelo menos no que se refere às relações de consumo. Tendo em mente que nessa consolidação de princípios concernentes ao consumidor não foram excepcionados privilégios assegurados em Leis anteriores. A contrario sensu. assim como a defesa à sua dignidade. pois concentrou em um único diploma a disciplina legal de todas as relações contratuais e extracontratuais do mercado de consumo do Brasil. os dispositivos das Convenções de Varsóvia/Montreal e do Código de Aeronáutica que estabelecem a indenização limitada. Novamente. dessa vez entre o Código de Defesa do Consumidor e os diplomas normativos internacionais. que adotou expressamente a possibilidade de incorporação ao ordenamento jurídico brasileiro dos direitos “decorrentes de tratados e convenções internacionais de que o Brasil seja signatário”. afastando dispositivos como o da indenização tarifada. aplicável em todas as áreas do Direito onde ocorrerem relações de consumo”79. é imperioso conceber que o objetivo da nova Lei foi justamente extingui-los78. 394. p. Assim procedendo. ed. que implicam em retrocesso social e vilipêndio aos direitos conquistados pelo consumidor. saúde e segurança (artigo 4º). Programa de Responsabilidade Civil. O Código de Defesa do Consumidor. ou seja. e. sendo o transporte aéreo um contrato de consumo. não apenas regulou aquilo que ainda não estava regulamentado. 2014. p. através do diálogo das fontes. em observância a preceito constitucional (Constituição Federal. quando as previsões contidas nessas normas 78 CAVALIERI. 11. se legitima através da abertura dada pelo artigo 7º daquele. Sérgio. o diálogo das fontes. não mais harmônicos com a atual realidade social.

Claudia Lima (Coord. 4. In: MARQUES. de uma tutela ainda mais efetiva por parte do ordenamento jurídico. Claudia Lima. portanto. pessoas com necessidades especiais. caso ocorram.. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. estrangeiros. 41. por exemplo. não cumprem o necessário papel de oferecer maior tutela para o consumidor que se encontra em situação de vulnerabilidade intensificada. São Paulo: Revista dos Tribunais. índios.3 DIÁLOGO ENTRE O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E A LEGISLAÇÃO PROTETORA DOS HIPERVULNERÁVEIS Um dos princípios-chave insculpidos no CDC (artigo 4º. com o objetivo de lhes destinarem proteção peculiar.43 internacionais forem prejudiciais ao sujeito mais vulnerável da relação de consumo.). . o regramento específico dado pelo Direito protetivo interno é que deverá preponderar. determinando que são deveres da sociedade e do Estado efetivar os direitos dessas pessoas. proteção mais acentuada pelo fato de. diplomas normativos diferentes que. punir os responsáveis. no entanto. sem ostentarem. quando aplicados de forma apartada. inciso I) é o da vulnerabilidade. além de serem consumidores. Atente-se para o fato de que este conjunto de indivíduos também atuam diuturnamente como consumidores na sociedade contemporânea. carecendo. é condição presumida. O que há é a legislação específica (como Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso) e o CDC. inciso I. Permitir que a legislação específica de tutela desses grupos seja 80 MARQUES. atualmente reconhecem-se também situações em que dentro de um grupo de vulneráveis alguns indivíduos apresentam uma fragilidade intensificada. enfermidade ou deficiência. do Código. quando tratamos de consumidores pessoas físicas. são os hipervulneráveis80. 2012. que. tais como idosos. Uma série de Leis especiais foi editada para regular as situações de vulnerabilidade potencializada de alguns agrupamentos de pessoas. cabendo a este último protegê-los de todo tipo de ameaça ou violação e. Indo além da presunção trazida pelo artigo 4º. a chamada hipervulnerabilidade. doentes etc. crianças e adolescentes. O "diálogo das fontes" como método da nova teoria geral do direito. estarem ainda mais fragilizados em decorrência da idade. p.

o PLS 283 tem como enfoque principal o combate ao superendividamento e cria a figura do "assédio de consumo". que ocorre quando o fornecedor pressiona de alguma forma o consumidor para que contrate o crédito. A proteção dos consumidores hipervulneráveis: os portadores de deficiência. é permitir que os direitos humanos fundamentais tenham eficácia horizontal (Drittwirkung). classes ou categorias. assegurando mais agilidade no trâmite dos processos e prioridade no julgamento dessas causas. 18. estabelecendo que as normas e os negócios jurídicos devem ser interpretados e integrados da maneira mais favorável ao consumidor e dispõe sobre normas gerais de proteção no comércio eletrônico. mais padecem com a massificação do consumo e a "pasteurização" das individualidades que caracterizam e embelezam a sociedade moderna. e./dez. para tanto. de alguma vulnerabilidade mais acentuada desse sujeito. por doença ou qualquer outro motivo. No CDC. é garantir que a Constituição Federal cumpra o seu papel de humanizar o Direito Privado81. justamente por serem minoritários e frequentemente discriminados ou ignorados. já o PLS 282 disciplina as ações coletivas. utilizando-se.44 aplicada juntamente com o CDC é realizar. 83 O Projeto de Lei no Senado (PLS) 281 propõe mudanças no CDC. um diálogo entre valores constitucionais. Adolfo Mamoru. por serem consideradas hipervulneráveis. n. inciso IV (fraqueza em decorrência da idade. os idosos. além do diálogo entres essas fontes. O prefixo hiper (do grego hyper) é designativo de alto grau ou daquilo que excede a medida do normal. NISHIYAMA. as crianças e os adolescentes. São Paulo: Revista dos Tribunais. Cláudia Lima (Org. 76. mas especialmente os hipervulneráveis. Tal terminologia parece ter sido também acolhida pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) quando asseverou que ao Estado Social importam não apenas os vulneráveis. saúde. a ideia de vulnerabilidade agravada é percebida nos artigos 37. p. em virtude de determinadas características pessoais. out. conhecimento ou condição social) e aparece ainda mais claramente na atualização proposta pela Comissão Temporária de Modernização do Código de Defesa do Consumidor (PLS 281 a 283/2012)83. In: MARQUES. quer expressar que alguns consumidores possuem vulnerabilidade maior do que a medida normal. § 2º (crianças) e 39. notadamente quando trata da figura do assédio de consumo. 2010. certas pessoas. Assim. para proteção de sujeitos vulneráveis nas relações privadas. haja vista serem esses que. por último. não é ser menos 81 Ibid. necessitam de proteção maior do que os consumidores em geral82. Revista de Direito do Consumidor. Roberta. quando somado à palavra vulnerável. para aperfeiçoar as disposições gerais constantes do Capítulo I do Título I. Ser diferente ou minoria.). DENSA. 82 . além de garantir eficácia nacional para a decisão dos casos que tiverem alcance em todo o território brasileiro.

em um mesmo caso. Enquanto a vulnerabilidade “geral” do artigo 4º.ª T. REsp 989. 2. em que se discutia a possibilidade das mensalidades de plano de saúde serem reajustadas unicamente em razão da mudança de faixa etária do segurado. Rel.2009. que os colocam numa situação ainda mais rúptil na relação jurídica que estabelecem com o fornecedor.2008. Na jurisprudência encontramos várias decisões que permitem a fusão dos dispositivos do Estatuto do Idoso.316-MG. dar efetividade ao princípio da solidariedade e da dignidade da pessoa humana. do princípio da igualdade.. 20. 06. no caso concreto. os dispositivos do CDC e a legislação especial de tutela desses sujeitos. Proteger o hipervulnerável é. prodigalidade.04. em virtude da maior probabilidade de contração de doenças que os idosos apresentam. e. STJ.2008. REsp 586. Nancy Andrighi. enfermidade. se presume e é imanente a todos os consumidores. tampouco ser digno de direitos de segunda qualidade ou proteção apenas fictícia do legislador. DJ. nem menos cidadão. A teoria do diálogo das fontes aparece. deficiência física/mental ou qualquer outra situação que.11.45 consumidor. como o mecanismo que cumprirá com esse desiderato. Herman Benjamin. Min. essa proteção tornar-se-á muito mais eficaz se pudermos aplicar conjuntamente. demonstre a maior indefensabilidade do consumidor. 17. DJ. São exatamente os consumidores hipervulneráveis os que mais demandam atenção do sistema de proteção em vigor84.380-RN. novamente. inciso I. rel. A hipervulnerabilidade é o agravamento da vulnerabilidade em decorrência de circunstâncias pessoais aparentes ou conhecidas do fornecedor. Min. em última análise.03. da Lei dos Planos de Saúde (Lei Federal nº 9. j. Importante salientar que a ideia de hipervulnerabilidade emerge como corolário positivo da proibição de discriminação. pois era prática reiterada das seguradoras aumentar sobremaneira e progressivamente o valor das prestações após o segurado completar 60 anos de idade. dos maiores custos que recaem para as 84 85 STJ. j. Incontestavelmente. 19. incapacidade. a hipervulnerabilidade é condição especial de alguns grupos.. portanto. portanto. tais como idade reduzida/elevada.656/1998) e até mesmo das resoluções administrativas da Agência Nacional de Saúde (ANS) em benefício do consumidor de idade avançada. 3.ª T.2007.11. Admirável exemplo disso é um Recurso Especial oriundo do Rio Grande do Norte (RN)85. .

poderá o autor também impugná-la com base no CDC. Ari Pergendler. das disposições da Lei Federal nº 9. Tratados e até 86 STJ.46 operadoras que contam com clientes nessa fase da vida. cite-se que a Lei dos Planos de Saúde (1998) é superveniente ao CDC (1991). se buscarmos a realização do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana e reconhecermos a necessidade de fazer prevalecer a proteção da parte hiperfragilizada da relação de consumo. as operadoras de plano de saúde foram proibidas de realizar qualquer discriminação do idoso em razão da idade. j. EDcl no AgRg no Ag 431.2005. sem prejuízo. o que impede especificamente o reajuste das mensalidades que se derem por mudança de faixa etária.656/1998 e das resoluções da ANS sobre a matéria. para exigir a prestação dos serviços contratados. O uso dos critérios tradicionais concluiria fatalmente que o CDC não seria aplicável aos planos de saúde. 04. A propósito. decorrente de contratação direta ou estipulação de terceiro. também há julgado do STJ reconhecendo legitimidade ao beneficiário do plano de saúde. DJ. Além disso. dessa forma.656/98 é norma especial.. O diálogo das fontes. pois visa proteger todo e qualquer consumidor. por fim. além dos direitos assegurados no Estatuto do Idoso. Enquanto materialmente o microssistema é Lei geral (generalidade ratione materiae). essa vedação alcança até mesmo os ajustes firmados antes da vigência da Lei Federal nº 10. segundo o qual os direitos nele assegurados não excluem outros direitos que Leis gerais. 21. em sendo de trato sucessivo o contrato em análise. gozam de toda a proteção constante do CDC. Min.741/2003. que. já que regula especificamente as relações entre o aderente e o plano de saúde. . do Estatuto do Idoso. mais uma vez se alicerça no artigo 7º do CDC. Como consequência. 3. especiais. explicitando que se o ajuste tiver cláusula abusiva.ª T. esclarecendo.464. como resultado da premissa de que esses contratos devem estar em sintonia com as determinações do Código protetor86.10. nos termos do artigo 15.2005. que permite o equilíbrio do ordenamento jurídico através da aplicação simultânea de vários diplomas normativos. § 3º. no entanto. não restarão dúvidas de que existe diálogo de complementaridade entre as duas normas. ainda.11. rel. a Lei Federal nº 9. A referida Corte Superior decidiu que os idosos que contratam planos e seguros privados de assistência à saúde são consumidores.

no sentido de aplicar as disposições do Código ex officio. 1992. j. ver: GARCIA. 2014. não se operando nessa área o instituto da preclusão. A condição de hipervulnerável é de reconhecimento obrigatório e. In: MARQUES. ainda mais essencial será esse papel intervencionista do julgador para manter o equilíbrio contratual quando uma das partes da relação de consumo for hipervulnerável. 0320090012844. Combinando os dispositivos do Código de Defesa do Consumidor e do Estatuto do Idoso. Direito do Consumidor: código comentado e jurisprudência.47 resoluções administrativas da ANS trouxerem complementarmente ao consumidor. Nesse contexto. 23. pode ser levantada de ofício pelo magistrado. não dependendo de manifestação das partes para que possa ser integralmente aplicada87. . 3.2009. ou seja. 56/57). Salvador: Juspodium. Revista de Direito do Consumidor. Manual de Direito do Consumidor à luz da jurisprudência do STJ. considerando as circunstâncias do caso. podendo as questões ser revistas e decididas a qualquer tempo e grau de jurisdição88. Os princípios gerais do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. foi evidenciado o dever de informação que é imposto a todos os fornecedores. acertada fora a decisão judicial89 proferida no caso de um idoso analfabeto e de poucas posses. A não orientação. BRAGA NETTO. A doutrina é firme em aceitar a atuação de ofício do juiz nas relações de consumo. 25. ou a informação obscura ou omissa ministrada ao consumidor constitui defeito do serviço. Cláudia Lima (Org. de aplicação cogente. o juiz tem a função de apreciar qualquer matéria de ofício. 9. Nas relações de consumo. se nas relações que envolvem “consumidores normais” já é imprescindível uma atuação proativa do juiz. Salvador: Juspodium. que contratou serviço bancário (empréstimo consignado) que não desejava em caixa eletrônico. 2013. a atuação ex officio é impossibilitada pela exigência do prequestionamento (NERY JÚNIOR. Nelson. p. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. 88 Importante salientar que quando falamos em “qualquer grau de jurisdição” referimo-nos somente à instância ordinária. 89 JEC/Sapé-PB. ed. em sede de recurso especial e extraordinário. no afã de esclarecer o consumidor sobre a correta utilização dos produtos e serviços que são colocados no mercado. set. Leonardo de Medeiros. p 36. justificando esse entendimento no fato de que o CDC é norma de ordem pública e de interesse social. a reconhecer de ofício a situação de hipervulnerabilidade./dez. Repare-se que. n.09. já que na instância extraordinária.). inclusive. 87 A respeito. autorizando-o. ed. portanto. 10. Proc. Felipe Peixoto.

conforme prevê o artigo 3º.741/2003 como forma de melhor reparar os danos causados ao idoso.48 passível de responsabilização. em conformidade com o que restou consolidado na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2. como aconteceu na França94. 15/16. de crédito e securitária. do seu estatuto específico (Lei Federal nº 10. inciso I. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços. diante da dificuldade da pessoa idosa. 14. o reconhecimento. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. Cláudia Lima. Sendo assim. caput. e. O CDC está baseado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da defesa do mais frágil93. jan/jun.59191 e na Súmula 297 do STJ92. 91 Na ADIn nº 2. 2004. Superação de antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasileiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. Aracaju: Escola Superior da Magistratura de Sergipe. primeiro. No decisum mencionado. 92 STJ. Súmula 297: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras. principalmente quando dessa prática decorrem prejuízos mais significativos. 94 MARQUES.591 o STF resolveu pela aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor às atividades de natureza bancária. p. parágrafo único. Além da tutela oferecida pelo microssistema. ao reconhecer a sua vulnerabilidade no mercado de consumo. n. como o desconto indevido da sua aposentadoria em virtude de empréstimo consignado contratado sem a anuência expressa e consciente do idoso lesado. o que engloba atendimento preferencial e individualizado nos órgãos públicos e privados.741/2003). In: Revista da ESMESE. como veremos no Capítulo 5 deste trabalho. conforme aduz o artigo 14 do CDC 90. e no caso analfabeta. Esse processo representa o marco inicial de aceitação da teoria do diálogo das fontes pela jurisprudência brasileira. da relação de consumerista entre a instituição financeira e o indivíduo. mas “a criação de uma Lei (um Código) voltada à proteção do sujeito identificado pelo próprio legislador constituinte como vulnerável e. . 93 O respeito à dignidade do consumidor é mencionado expressamente no artigo 4º. financeira. como um dos objetivos da Política Nacional das Relações de Consumo e a sua fragilidade é evidenciada no inciso I do mesmo artigo. pelo julgador. ao consumidor já idoso também é garantida proteção integral. de utilizar os equipamentos bancários de informática disponíveis à população em geral. a generalização do atendimento ao idoso em caixas eletrônicos constitui descumprimento da determinação de tratamento diferenciado e prioritário constante do Estatuto do Idoso. A vontade do constituinte de 1988 não foi a de produzir uma Lei de regulação do mercado de consumo. ainda. 7. por essa 90 Art. independentemente da existência de culpa. nota-se. declarando constitucional o parágrafo 2º do artigo 3º daquele Código. a aplicação do diálogo entre o CDC e a Lei Federal nº 10. O fornecedor de serviços responde.

rel. ingenuidade. § 2°). 311.2010. devendo o diálogo entre as fontes protetivas (Estatuto de Criança e do Adolescente.). 23. 05. Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. ela seja somada ao CDC. as crianças. garante a justa reparação do dano. Min. Certamente as crianças (e os adolescentes) são o público mais vulnerável e suscetível aos efeitos persuasórios da publicidade. o artigo 7º do Código permite a realização do diálogo das fontes. em que o CDC. com o objetivo de que toda vez que uma norma garantir algum direito para o consumidor. garantindo indenização pelo dano moral resultante de sua violação. São Paulo: Revista dos Tribunais. j. Ante ao argumento de que era inaplicável o CDC ao caso. p. 2012. Conforme a Ministra.2010. credulidade. levando em consideração a dupla situação de vulnerabilidade em que esta se encontrava.03. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu pelo direito à indenização por ofensa à dignidade da criança em um caso em que determinada clínica médica se recusava a realizar exames radiológicos em um consumidor infante96. como consumidores especialmente frágeis. REsp 1037759-RJ. Ainda mais nas situações em que o prejuízo impingido ao menor advém de uma relação de consumo. sujeitos em peculiar estágio de desenvolvimento. entre os quais se insere o direito à integridade mental. do Código Civil. a Lei Federal nº 8. inciso VI.078/90 identifica as crianças. 96 STJ. fazem jus à proteção irrestrita dos direitos da personalidade.ª T. inciso X. determinando que a publicidade respeite a dignidade. caput. DJ. Pelo contrário.02. 3. em seu artigo 6º. conforme os artigos 5º. Acordos/Tratados/Convenções Internacionais e Código de Defesa do Consumidor) assegurar sua proteção integral enquanto pessoas que ostentam vulnerabilidade acentuada no mercado de consumo. especialmente sua idade. mesmo as de menor idade. da Constituição Federal e artigo 12. In: MARQUES. . in fine. Nancy Andryghi. sem realizar nenhuma discriminação no que se refere à condição de consumidor. inexperiência e o sentimento de lealdade dos infantes (artigo 37. merecedor da proteção estatal”95. Claudia Lima (Coord. 95 AZEVEDO. Os desequilíbrios gerados por vantagem e onerosidade excessivas no direito do consumidor e a possibilidade de aplicação do diálogo das fontes entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. Neste esforço de tutelar os diversos tipos de consumidores..49 razão. Fernando Costa de. a Ministra relatora Nancy Andryghi fundamentou-se no diálogo das fontes para defender a soma das proteções legais à criança consumidora.

APL.1996). Min.2004.ª T. Ao se amparar o hipervulnerável.º. 01. 98 REsp 1245812-RS. 1. DJ. do CDC. destruindo seu tênis usado – Ofensa ao art. Herman Benjamin. José Delgado (rel.442-RS. garantindo-lhe a igualdade material. dentre outras práticas abusivas. por concretizar os princípios que lhe sustenta e garantem constância. Há. 21. instigando os consumidores. a abusividade da publicidade. j. condenando fornecedor que fez veicular na televisão propaganda em que uma apresentadora destruiu um tênis usado. a aflição e a angústia a que seja submetida. j. 241. DJ. decisões do STJ98 tutelando grupos inseridos em situações distintas das que estão expressamente previstas na Constituição Federal de 1988 (idosos. portanto. 2. estando igualmente sujeita a sofrer com o medo. inciso IV do CDC. a fim de impingirlhe seus produtos ou serviços. que aduz ser vedado ao fornecedor de produtos. rel. 14.2011. 07. Nesse viés. § 2. a criança não permanece apática à realidade que a cerca. quais sejam o da solidariedade e o da 97 PUBLICIDADE ABUSIVA – Propaganda de tênis veiculada pela televisão – Induzimento das crianças a adotarem o comportamento da apresentadora. prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor. Min. Rel. rel. Sentença proibindo a vinculação de propaganda confirmada – Contrapropaganda que se tornou inócua ante o tempo já decorrido desde a suspensão da mensagem. conhecimento ou condição social. saúde. 05/09/2005. Des. Recurso provido parcialmente.09. j. Ribeiro Machado.337-1/0. Luiz Fux). 11. Pelo exposto. tendo em vista a sua idade. Ac. quem acaba sendo beneficiada é a própria sociedade. (TJSP. por fim. merece também destaque decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo 97. crianças.07.12.11. O Tribunal compreendeu que o comercial televisivo utilizava-se maliciosamente da deficiência de julgamento e da pouca experiência desses consumidores para vender o produto. desde que a conjuntura em que se encontrem se enquadre nos critérios normativos de hipervulnerabilidade descritos no artigo 39. para que seus pais comprassem um tênis novo.. e declarou.06. notadamente as crianças.1996. Min. adolescentes e portadores de necessidades especiais). . 37.50 agregando-se na tutela especial e tendo a mesma primazia no trato da relação de consumo.. Mesmo tendo uma percepção diferente do mundo e uma maneira característica de se expressar. a se comportarem da mesma maneira. DJ. resta evidente que a proteção dos interesses e direitos dos hipervulneráveis é de incontestável interesse social.2001 e REsp 684.ª T.

o diálogo das fontes surge como forma de garantir a todas as pessoas. mais amplas . Diante dessa necessidade de potencializar a proteção. as possibilidades de desenvolvimento e inserção na sociedade.51 dignidade da pessoa humana. independentemente das suas limitações.

eventualmente abalada em determinadas conjunturas. assegura que é possível a aplicação conjunta de duas normas ao mesmo tempo e ao mesmo caso se reconhecermos que elas sofrem influências recíprocas. considerando especialmente o voto do Ministro Joaquim Barbosa. Frequentemente. Adiante. assevera ainda que.2007. DJ 13. na parte em que inclui no conceito de serviço abrangido pelas relações de consumo as atividades de natureza bancária. Em seu voto. o jurista irá deparar-se com fatos que exigem a aplicação de normas tanto de uma como de outra área da ciência jurídica.591. financeira. Foi exatamente com base neste escopo. Em alusão aos tipos de diálogo já estudados. serviu para incorporar.04. j. a jurisprudência atual vem. de início no âmbito do STF e.59199. a materialização de direitos fundamentais. paulatinamente. portanto. Carlos Velloso.06. ajuizada pela Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Consif) com o objetivo primordial de declarar a inconstitucionalidade do § 2°. 07. rel. se conscientizando da importância de adotar o diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor e outras Leis gerais e especiais como forma de efetivar o direito fundamental de proteção do consumidor garantido pela Constituição Federal.2006. Min. não há motivos para a exclusão formal de uma espécie normativa do sistema. de crédito e securitária 100. 99 STF. a priori. posteriormente. em diversos Tribunais do pais. o Ministro afirma que “o regramento do sistema financeiro e da defesa do consumidor podem perfeitamente conviver”.52 5 INCORPORAÇÃO DA TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES PELA JURISPRUDÊNCIA PÁTRIA Embora inicialmente a aplicação do diálogo das fontes tenha encontrado muita resistência por parte dos julgadores. ou de complementariedade e subsidiariedade. fazendo com que ela possa amoldar-se aos âmbitos normativos das diferentes Leis. O histórico julgamento da ADIn 2. do artigo 3º do CDC. isto é. a conclusão dos ministros do STF foi de que o CDC se aplica a todos os serviços e operações bancárias/financeiras. em virtude dos diferentes aspectos que uma mesma realidade apresenta. A ação foi julgada improcedente. que a jurisprudência pátria começou a recorrer ao diálogo das fontes. ADIn 2. a teoria do diálogo das fontes no Direito brasileiro. pois o diálogo das fontes permite que elas coexistam e se complementem perfeitamente. 100 .

04. é de 05 (cinco) anos.02. 4. Por tal motivo.05. 1. DJ 08. 3. inciso XXXII deve ser cumprida por todo o sistema jurídico. é interessante ver também: STJ. 106 No mesmo sentido.ª S.ª T.. 104 É o caso. o diálogo das fontes autoriza sua prevalência. rel. Reconhecendo a possibilidade de o prazo prescricional do CC reger as relações de consumo.2010. é importante celebrar o esforço interpretativo de analisar conjuntamente diferentes diplomas legais.2000.2012.2010. Min. mais favorável ao consumidor103. o legislador optou por um Código aberto. tantas quantas forem as normas que compõem o ordenamento jurídico.2010. j.2010. é ela que deve ser aplicada.ªT. 3. 23. Min. j. 14. 06. dispondo que “Prescreve em vinte anos a ação para obter do construtor indenização por defeitos da obra”.08. Ao inserir o artigo 7º no CDC. por ser a que melhor cumpre com os ditames constitucionais de defesa do consumidor106. 26.. 105 Trecho do voto da Ministra Nancy Andrighi no REsp 1009591-RS. Nancy Andrighi.. sem pretensão de ser exaustivo. STJ. da Súmula 194 do STJ. 23.03. In casu. DJ. rejeitando a postura tradicional de simplesmente considerar revogada uma das leis em detrimento da outra. a expressão “diálogo das 101 Independentemente da conclusão do julgamento. 05. as diversas normas do sistema “dialogarão à procura da realização do mandamento constitucional de fazer prevalecer a proteção da parte hipossuficiente da relação de consumo”105. disposto em seu artigo 27. Herman Benjamin. por exemplo. Ruy Rosado de Aguiar.2000.02. digno de nota é o entendimento. haja vista que o prazo do CDC. . esse prazo era de 20 (vinte) anos.03. REsp 238011-RJ. portanto.2010.04. 102 STJ. Min. e não apenas através de uma ou de outra Lei. se a norma mais benéfica é aquela contida no Código Civil. DJ. em diálogo de fontes. 13. Em verdade. j. j. DJ. Embora no CDC o prazo prescricional divirja do previsto na referida súmula (05 anos. REsp 1037759-RJ. em que a controvérsia era referente à possibilidade ou não da aplicação do prazo prescricional previsto no CC às relações de consumo. AgRg no EREsp 938607-SP. ainda que explicitado mediante voto vencido101. Nancy Andrighi.53 No âmbito do STJ. rel. Min. Nancy afirma que a determinação constitucional de proteção inserta no artigo 5º.ª T. embora seja perceptível a preocupação de aplicação simultânea e harmônica dos diplomas normativos no julgamento dos processos que envolvem em um dos polos o consumidor. REsp 1009591-RS. a fim de que se permita uma interação com as demais regras do ordenamento que possam beneficiar o sujeito vulnerável 104. rel. 103 No CC/16. pois o Direito das Relações de Consumo tem muitas fontes legislativas. por ser mais benéfica ao consumidor (diálogo sistemático de complementariedade e subsidiariedade). da ministra Nancy Andrighi no REsp 1009591-RS102. segundo o artigo 27). enquanto que o CC atual prevê o prazo prescricional geral de 10 (dez) anos.. rel. STJ.

REsp 724. Teori Zavascki. com o fito de legitimar a aplicação simultânea do CDC com mais de uma Lei geral ou 107 STJ. Min. DJ. 3. DJ.09.435-PR. j.2005. No âmbito dos Tribunais de Justiça dos Estados a teoria do diálogo das fontes também tem sido recepcionada nas decisões dos magistrados.. rel.ª S. resolvendo-se pela abrangência em todo território nacional das decisões prolatadas no processo coletivo.08. O Min. que ainda limita a eficácia territorial das decisões proferidas em ações coletivas.310-PR. mencione-se o REsp 911. importante consignar ainda interessante julgado proferido em 2010108. REsp 643.ª S. A ementa do julgado e o inteiro teor dos votos podem ser consultados utilizando-se os seguintes dados: CCOmp 109.: REsp 995. não foi possível comentar outras interessantes questões submetidas ao STJ e solucionadas através da teoria do diálogo das fontes. o Min. 01. Min. rel. j. 108 . 1. Honildo Amaral de Melo reconhece que com a aplicação da teoria do diálogo das fontes consegue-se harmonizar e integrar o sistema jurídico.802107.347/1985).2007.08. Em voto vista. Do mencionado Tribunal.2010.2004. 22. j.54 fontes” nem sempre é explicitamente citada nas decisões. 14. rel. Nancy Andrighi. DJ. 3. Napoleão Nunes Maia Filho.995DF. Herman Benjamin. acerca da eficácia territorial de decisão judicial proferida em ação coletiva. Entre as oportunidades em que se fez expressa menção ao termo “diálogo das fontes” no STJ. j. 16. não reflete a jurisprudência desse Tribunal sobre o assunto. j. Partindo-se dessa premissa e utilizando o diálogo sistemático de coerência. 1.ª T.2010.ª T. Min. 1.802-RS. DJ. rel. 28. em seu voto. 19.12.11. José Delgado. 01. o artigo 93 do CDC é a base conceitual que funciona como dispositivo integrador de todo o aparelho de tutela coletiva para conferir eficácia mais ampla do que a prevista no artigo 16 da Lei da Ação Civil Pública às decisões judiciais proferidas em processos coletivos com perigo de dano de abrangência regional ou nacional109. 28. infelizmente.06. no qual se discutia a legalidade de cobrança de tarifa básica em relação aos serviços de telefonia.2008..09. Luiz Fux... Nessa ocasião. Min. 15.ª T. 24.02. REsp 911.827-SC. v.2005.2010. DJ.2005.g. rel.2010. destacou a indispensabilidade do esforço de coordenação normativa que deve partir do juiz da pós-modernidade para enfrentar com inteligência a assustadora e complexa pluralidade de fontes heterogêneas e de filiação ético-política diversificada com que se depara cotidianamente.10. Min. o diálogo estabelecido foi entre o CDC e a Lei da Ação Civil Pública (Lei Federal nº 7.12. 109 Embora essa decisão do STJ esteja em consonância com o entendimento francamente majoritário da doutrina.. Dada a natureza desta pesquisa.

houve forte aproximação principiológica entre esse Código e o Código de Defesa do Consumidor. a utilização do diálogo das fontes pelos Tribunais como ratio decidendi dos seus julgamentos é comemorável. Sendo assim. e não apenas ao CDC. 2810834/3 (acerca do contrato de empreitada). 111 TJ-RN . 110 Corroborando essa afirmação: TJSC. É o que se depreende da decisão versando sobre compra e venda de imóveis exarada pela 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte na ApCiv 2009. TJSP. que é reconhecida.12. de forma ordenada e coerente110. Isso pelo fato de que o diálogo das fontes traz uma visão atualizada e coerente do ordenamento jurídico. no Enunciado 167 do Conselho da Justiça Federal”111. APL-Rev. j. que. há uma “conexão axiológica entre essas Leis. 421 a 424: Com o advento do Código Civil de 2002. a par da regulamentação existente em legislação específica (Lei Federal nº 4. concluiu. em detrimento da ideia de conflito de Leis no tempo. Juíza Maria Neize de Andrade Fernandes (Convocada).0106440. mostrando ser possível a coexistência e aplicação simultânea de normas aparentemente colidentes. ApCiv 2008. em virtude da imperatividade do Código de Defesa do Consumidor (Lei de ordem pública e interesse social) e dos princípios protetivos nele inseridos. uma vez que ambos são incorporadores de uma nova teoria geral dos contratos. Enunciado 167: Arts. uma vez que atribui a todo o ordenamento.2009. Afinal. 01. pois representa uma mudança de paradigma e um avanço considerável na proteção do consumidor. nos termos do voto da Relatora Neize Fernandes. no que respeita à regulação contratual. .AC: 106440 RN 2009. ApCiv 407574/8 (tratando de vícios relacionados à construção civil). rel. TJPR.079519-6 (sobre alienação fiduciária).010644-0. pela aplicabilidade do Código às relações imobiliárias. TJSP. Todos esses julgados foram colacionados a título ilustrativo para demonstrar não haver dúvidas de que a afortunada expressão criada pelo alemão Erik Jayme e introduzida no Brasil por Cláudia Lima Marques tem sido prestigiada pela jurisprudência brasileira. o papel de tutelá-lo. AgIn 0436009-4 (sobre prazo prescricional mais favorável ao consumidor em danos morais e materiais).591/1964) e no Código Civil. 3ª Câmara Cível. inclusive.55 especial.

em seu artigo 7º. coerente e simultânea das normas. através da coordenação das suas fontes. pois. Isso só ocorre porque o diálogo parte da premissa de que haverá aplicação sistemática. sobretudo para que sejam aplicadas as disposições de outros diplomas legais às relações consumeristas. As Leis nascem para serem aplicadas e não excluídas umas pelas outras. resta superada a ideia de que o Código Consumerista é um diploma jurídico totalmente isolado e autossuficiente. se quisermos enfrentar a era da desordem e trazer de volta a credibilidade que o Direito vem perdendo desde o advento desse período histórico. que. indicou a abertura do microssistema a um autêntico diálogo das fontes. e com a fragmentariedade. A pós-modernidade exige de nós isso. muito pelo contrário. sempre que sejam mais favoráveis ao consumidor e guardarem compatibilidade com o espírito protetivo e com a ordem principiológica traçados na Constituição Federal. Por esse motivo o diálogo das fontes representa uma ruptura com a visão moderna de antinomia jurídica.56 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante dos grandes desafios enfrentados pelo jurista contemporâneo. com o pluralismo. ele pode ser completado através do diálogo com as demais fontes normativas. Em virtude disso. É o que se conclui do Código de Defesa do Consumidor. contribui não somente com a logicidade do Direito. o diálogo das fontes tem emergido como uma técnica que possibilita ao intérprete manter a perfeita harmonia e coordenação do ordenamento jurídico. que aprendamos a lidar com as diferenças. como defendeu Noberto Bobbio. o emprego de um método de interpretação e aplicação das normas jurídicas que se utiliza de uma perspectiva sistêmica de todos os componentes do ordenamento jurídico. já que . sem a necessidade de declarar a invalidade de nenhuma delas. principalmente quando possuem campos de aplicação convergentes. sejam gerais ou especiais. todas podem conviver harmonicamente no sistema. Neste contexto. mesmo em meio à multiplicidade de diplomas normativos em voga. A necessidade atual é de estabelecer a convivência entre os diplomas normativos e não mais insistir na eliminação de uns pelos outros. mas igualmente para a reconstrução da confiança na sua autoridade.

portanto. de se conjugarem normas em vez de excluí-las. Especificamente no Direito das Relações de Consumo.57 deixa de enfatizar o confronto entre os diplomas normativos. a efetivação do direito fundamental positivado no artigo 5º. a nós apresentados pela pós-modernidade. que sejam reconhecidos e valorizados os laços comunicantes entre as fontes existentes. há ainda muito a ser desenvolvido. . Por estarmos tratando de um tema novo. todo o aparato legal pode ser considerado seu campo de atuação. principalmente se considerarmos que a teoria do diálogo das fontes é potencialmente aplicável em qualquer seara jurídica. pudemos verificar que há uma tendência. com o objetivo de defender com mais afinco o consumidor. em vez disso. afinal. relativizando sua incidência e assegurando a coexistência dentro do sistema. o melhor contragolpe aos fenômenos da insegurança normativa e da fragmentação. que começou nos Tribunais Superiores e se espalhou para o resto do Judiciário. Essa adoção do diálogo das fontes para fundamentar as decisões judiciais nos casos em que é necessário um olhar mais coevo e versátil das normas é louvável. adequando os seus institutos e a forma de interpretá-los às novas necessidades da sociedade. além de uma opção entre os demais mecanismos de sistematização do ordenamento jurídico. em prol dos direitos da parte mais fraca da relação jurídica de consumo. Essa teoria é. A teoria do diálogo das fontes insurge como mais uma ferramenta a serviço da integração do Direito. consequentemente. No que atine à jurisprudência pátria. é papel da jurisprudência renovar o Direito. propondo. sempre apto a ser aplicado de forma coerente. inciso XXXII da Constituição Federal de 1988. onde primeiro conquistou adeptos. tendo como escopo principal concretizar os direitos fundamentais da pessoa humana. Espera-se que a visão flexível e coordenada do ordenamento aqui proposta possibilite uma ampliação da proteção jurídica do consumidor e.

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