8º CONGRESSO IBEROAMERICANO DE ENGENHARIA MECANICA

Cusco, 23 a 25 de Outubro de 2007

ANÁLISE QUALITATIVA DAS TENSÕES RESIDUAIS LONGITUDINAIS EM
BARRAS TREFILADAS DE AÇO SAE 1045 ATRAVÉS DO MÉTODO SLLITING
M. Metz*, C. Santos *, A. Rocha °
* Gerdau Aços Especiais Piratini, Charqueadas - Rio Grande do Sul – Brasil
° Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
* e-mail: mauricio.metz@gerdau.com.br
RESUMO
Tensões residuais em barras de aço podem ser responsáveis por perdas de produtividade, devido ao aparecimento
de distorções e/ou trincas, além de poderem estar associadas a uma diminuição da vida em fadiga nos
componentes fabricados a partir deste material. Portanto, o conhecimento do estado destas tensões na matériaprima usada para os componentes automotivos é de suma importância para a garantia de qualidade e estabilidade
dos processos produtivos. Neste trabalho, estudou-se a influência de parâmetros de trefilação combinada na
distorção das barras após o alívio de tensões residuais pelo método "slitting". Os resultados indicam os
parâmetros de maior relevância que podem ser avaliados em detalhe por métodos qualitativos.
Palavras-chave: Tensões Residuais, Trefilação Combinada, Distorção, deflection methods

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Da mesma forma. semi-eixos. Consequentemente a seleção de um método adequado tornou-se uma tarefa complexa. químicos ou de conformação podem causar anomalias ou efeitos benéficos ao longo desta rota. as tensões são re-arranjadas e um novo estado de tensões é gerado. o conhecimento da magnitude das tensões residuais é fundamental para o projeto de produto e processo de fabricação de componentes automotivos. partes de suspensão entre outros [3]. aos quais são submetidos os componentes mecânicos durante sua fabricação. fadiga precoce e corrosão sob tensão. Controlar e atuar sobre estas tensões a fim de alcançar-se um estado de tensões benéfico. e em alguns casos. Quando a peça passa de um processo ao outro ao longo de uma rota de fabricação. As barras são então jateadas. Portanto. Uma analogia das tensões residuais geradas no processo de trefilação pode ser feita com o processo de shot peening (amplamente estudado). Dentro da indústria automotiva. As Figuras 1a e 1b apresentam o fluxo do processo e as variáveis envolvidas no mesmo. O processo de trefilação combinada consiste na produção de barras trefiladas a partir de rolos de aço laminado a quente. Durante o endireitamento com dois rolos as tensões tendem a ser aliviadas gerando novamente tensões compressivas na superfície [5]. Por outro lado. Este trabalho visa entender a influência dos parâmetros de trefilação combinada nas tensões residuais em barras de aço SAE 1045 e ao mesmo tempo utilizar um método qualitativo com agilidade e baixo custo de execução na estimativa do nível de tensões residuais. De maneira geral propriedades físicas devem ser medidas para as tensões serem calculadas.INTRODUÇÃO A partir do desenvolvimento de programas de qualidade e produtividade baseados nos conceitos de estabilidade dos processos produtivos. A trefilação combinada permite o acabamento a frio de barras de aço com alta produtividade e excelente condição superficial e é comumente usada na fabricação de barras para hastes de amortecedores. trefiladas e então endireitadas em um processo com dois rolos hiperbólicos. Estes efeitos influenciam diretamente no desempenho de produtos. são responsáveis pelo estado final de tensões residuais do componente pronto. ao longo do tempo de estocagem ou mesmo durante a utilização do produto. surge a necessidade de conhecimento e controle de efeitos não esperados nos mesmos. Os avanços na tecnologia e instrumentação disponível para o estudo das tensões residuais têm permitido a inclusão destas na modelagem matemática e projeto de componentes. um comportamento altamente favorável a redução da tensão de serviço. . ângulo de trefilação e ângulo de endireitamento. tensões residuais compressivas na superfície são comumente utilizadas para aumentar a vida de componentes em fadiga. Tensões residuais trativas junto à superfície são particularmente perigosas. a causa imediata de falhas por fratura frágil. Existem também efeitos. Ao longo dos processos produtivos distorções podem ocorrer após operações intermediárias. Qualquer incerteza na medição ou nos valores das propriedades pode causar importantes erros nos resultados da medição. Quando a mesma é superficial (baixa redução). as tensões são compressivas na superfície e trativas no interior. No processo de trefilação. podendo resultar em um estado benéfico ou não ao final da mesma. é de suma importância o conhecimento destes efeitos nos projetos de processo e produto. A grande dificuldade é que tensões residuais ou provenientes de cargas externas não podem ser medidas diretamente. pois diversas características devem ser consideradas nesta seleção [2]. Estas bobinas são endireitadas em um processo com múltiplos rolos. Portanto. no entanto caso a profundidade alcançada pela deformação seja menor que os defeitos presentes na superfície o efeito pode ser contrário [4]. no entanto este perfil pode ser invertido dependendo do nível de redução necessário. As tensões residuais. neste processo a conformação se dá basicamente na superfície a qual é mantida em compressão pelo interior. ao mesmo tempo em que se preserva a produtividade e as propriedades do material tornou-se o grande desafio da atualidade [1]. o perfil de tensões residuais é basicamente uma resposta à profundidade da conformação exercida. Tensões residuais têm sua origem nas transformações de fase. a necessidade de flexibilidade e respostas rápidas aliadas à diminuição gradativa de estoques em processo não suportam reprocessos e instabilidade dentro das linhas produtivas. térmico ou termo-mecânico). A variedade de métodos de medição de tensões residuais aumentou fortemente nos últimos anos. além das variáveis avaliadas no trabalho como revenimento no material de partida. muitas vezes erroneamente não quantificados. decorrentes dos diversos processos térmicos. bem como nas mudanças de volume e nas deformações plásticas não homogêneas que ocorrem como resultado de um determinado processo de fabricação (mecânico. Os diferentes processos. diversos trabalhos foram desenvolvidos no intuito de conhecer os efeitos destas tensões em componentes como rolamentos. formação de novas fases e segregações.

Todos os métodos mecânicos utilizados para a medição de tensões residuais baseiam-se na medição da deformação devido ao alívio das tensões que são então estimadas a partir da teoria linear da elasticidade. 1a: Fluxo e variáveis do processo de trefilação combinada Fig. a diferença entre os métodos mecânicos está ligada não apenas a forma de aliviar as tensões mas também ao monitoramento e tratamento de dados obtidos do corpo de prova. Foram também desenvolvidos métodos de remoção em diversas seções em que cada etapa de remoção é gravada e utilizada em análises tridimensionais por elemento finitos (FEA) para o cálculo das tensões residuais [6]. Portanto. Os métodos existentes podem realizar medições de deformação com extensômetros em diferentes pontos da peça e realizar a remoção repetitiva de camadas por usinagem (layer removal method). são eles: método do furo e medição por difração de raio-x. podem ser citados dois que são amplamente utilizados de forma prática em qualquer tipo de componente como pontes e peças de aviões. . no entanto estes métodos consomem tempo e podem gerar erros devido à tensão gerada pelo processo de remoção. 1b: Fluxo e variáveis do processo de trefilação combinada MÉTODO EXPERIMENTAL Existem diversos métodos e tecnologias disponíveis para a medição de tensões residuais.Fig. Por outro lado o método do furo possui um baixo alcance em profundidade.

68 P 0. onde as barras são fixadas para a respectiva medição. foi preso um bloco magnético (prisma). E é o módulo de elasticidade e R é o raio de curvatura da viga quando fletida. Para conhecer a influência de parâmetros utilizados nos processos de fabricação da matéria-prima na distorção de componentes automotivos. o perfil de tensão é calculado a partir das deformações causadas pela introdução de corte progressivamente. Os resultados mostraram a importância do ângulo de entrada no processo de deformação e posterior distorção das barras [8]. portanto.07 0. onde tensão (σ) é correlacionada com a teoria linear da elasticidade [7]: M σ E = = I c R ( 1) onde M é o momento de flexão aplicado a barra. A seguir.22 (redução de 16. A tensão existente em barras dificilmente é linear.22 S 0.16 Cr 0. 2: Método slliting utilizado para medir as tensões residuais em barras Em estudos anteriores. I é o momento de Inércia.011 Cu 0. as quais podem ser estudados posteriormente em detalhe pelos métodos mais convencionais como o método do furo ou difração de raios-x. desde o simples corte com uma serra até por métodos de remoção parcial sucessiva do material.83 mm e trefiladas para a bitola de 20. O corte em seção para permitir o alívio de tensões em componentes pode ser realizado de diversas formas. O equipamento possui uma mesa de desempeno de granito com furos com rosca para fixações. medidas através de strain-gages. Caso não ocorram deformações pode-se assumir que a causa das distorções está no processamento final do componente e não na matéria-prima. Nesta mesa. foram medidas as deflexões em um equipamento medidor por coordenadas Mitutoyo Beyound 710.44 Si 0. utilizando o software GEOPAK-WIN.Desde o início do ultimo século. Fig. as formas mais comumente encontradas na indústria. principalmente na verificação das condições das peças em produção.5%) com a seguinte composição química: Tabela 1: Composição Química do aço utilizado Elemento Químico Peso Percentual (%) C Mn 0. A seguir.08 Cada grupo consistia em 10 barras as quais foram cortadas longitudinalmente por 200 mm com um equipamento de eletroerosão a fio (EDM) conforme a Figura 3. Neste último. podem-se utilizar métodos destrutivos de alívio de tensões e correlacionar a distorção após o alívio como uma variável resposta. c é a distância em relação ao eixo neutro. . foi posicionado um esquadro e. um esforço considerável têm sido feito para melhorar os métodos de medição em vigas e cilindros. σ é a tensão. escreveu-se um programa de medição geométrica 3D de coordenadas. O material utilizado para o experimento são barras redondas de aço SAE 1045 laminadas a quente em bobinas na bitola de 21. Considerando geometrias simples e medição de estados de tensão biaxiais não existe a necessidade de utilização de métodos custosos. foi analisada a influência da geometria da fieira no estado de tensões e posterior distorção das barras antes do processo de endireitamento. a partir deste. RESULTADOS OBTIDOS O seccionamento das barras foi realizado em um equipamento de eletroerosão a fio Mitsubishi FX 10K. este método deve ser assumido como qualitativo podendo indicar etapas críticas do processo. A derivação das fórmulas comparando a distorção causada pelo corte de barras e as tensões internas da barra é baseada na teoria da barra em flexão.023 Ni 0.

O alívio de tensões foi realizado em fornos elétricos tipo campânula com atmosfera controlada por Nitrogênio. As outras variáveis listadas na Figura 1 são mantidas constantes durante o processo. ângulo de redução da fieira e ângulo de endireitamento. já na condição de fornecimento. T(°C) 700 600 500 400 300 200 100 0 0 1 2 3 4 5 t(h) Fig. 3: Posição do corte realizado nas barras Os cortes foram realizados medindo-se um sexto do diâmetro e a metade da seção com o intuito de representar o estado de tensões próximo a superfície e no núcleo da peça. ou seja.1/2 D 1/6 D Fig. Foi investigada a influência do processo de revenimento para alívio de tensão antes da trefilação no estado de tensões das barras. O ciclo testado para o revenimento é apresentado na Figura 4 e corresponde a um patamar de 650°C por um período de 3 horas. . sendo esta a única variável utilizada nesta etapa. após endireitamento com dois rolos. A partir da teoria da viga elástica uma aproximação da tensão relacionada ao deslocamento apresentado após o corte pode ser dada pela expressão (6): σ= 1. ou seja R para o corte a 1/2 e R/3 para o corte a 1/6 da seção. respectivamente. Foram trefilados inicialmente 2 grupos do mesmo lote para a avaliação do nível de tensão residual após o endireitamento. Durante o experimento três variáveis foram avaliadas: alívio de tensões prévio via recozimento. Este processo não tem influência na microestrutura do aço.65Erd L2 (2) onde d é a deflexão apresentada pela barra L é a altura total do corte (200 mm) e r é a posição relativa do corte. Todas as medições são então realizadas após a última etapa do processo. 4: Ciclo de revenimento utilizado no experimento A Figura 5 apresenta os resultados das medições realizadas indicando uma tensão longitudinal média compressiva na superfície e tensão longitudinal média trativa no centro.

apresentado na Figura 6. 6: Geometria da Fieira e ilustração do endireitamento com dois rolos + 60. Conforme a literatura a relação entre o semi-ângulo.8].000 1 2 3 -40. .000 -140.000 40.000 seção 1/6 ângulo de trefilação de 20° -80. comparando-se as deflexões medidas a 1/6 e 1/2. Esta diferença relativa é da ordem de 10% sendo praticamente desprezível frente ao processo de revenimento.000 - -120. o comprimento do paralelo (L) e o diâmetro final (d1) têm forte influência nas tensões residuais [5. nota-se um perfil mais homogêneo de tensões quando usado semi-ângulo α de 20°.000 -100. Conforme ilustra a figura 7.000 -20.+ Tensão residual - 80 60 40 20 0 -20 -40 -60 -80 -100 -120 seção 1/2 sem alívio seção 1/6 sem alívio seção 1/2 com alívio seção 1/6 com alívio Amostras (n) Fig. 7: Tensões Residuais medidas para as seções a 1/6 e ½ com ângulo de redução da fieira de 15° e 20°. Fig. 5: Tensões Residuais medidas para as seções a 1/6 e 1/2 com e sem alívio de tensões Em uma segunda etapa é avaliada a influência do semi-ângulo de entrada da fieira (α).000 4 5 seção 1/2 ângulo de trefilação de 15° seção 1/6 ângulo de trefilação de 15° seção 1/2 ângulo de trefilação de 20° -60. Este efeito pode ser explicado a partir da exigência de uma menor força de trefilação no processo.000 20.000 Tensão Residual 0.000 Amostras (n) Fig.

Fig.000 Tensão Residual 40. + 80. Em operação os dois rolos giram na mesma direção.000 -60. O processo de endireitamento com dois rolos consiste em um rolo convexo e um côncavo.000 -100. conforme ilustra a Figura 8. fazendo com que a barra.000 60. Desta forma o processo pode ser descrito como um processo sucessivo de flexão com a barra em rotação.000 20.000 Amostras (n) Fig. A barra gira e move-se a frente gerando um movimento em espiral. No caso do ângulo de endireitamento de 19°. montados em um ângulo oblíquo. presa entre duas guias.Na terceira etapa é avaliada a influência do ângulo utilizado no processo de endireitamento.000 -20.000 0. que para o ângulo de endireitamento de 16° e seção de corte a 1/2 a tensão média longitudinal é trativa.000 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 seção 1/2 ângulo de endireitamento de 16° seção 1/6 ângulo de endireitamento de 16° seção 1/2 ângulo de endireitamento de 19° seção 1/6 ângulo de endireitamento de 19° -40. podendo ser utilizado como base para a definição de parâmetros críticos no processo de trefilação.8: Endireitamento com dois rolos Nesta etapa de avaliação nota-se. ou seja. as tensões são compressivas. o que pode ser explicado pela menor conformação causada pelos rolos nesta configuração. conforme a figura 9. a descrição matemática e os fatores que influenciam no endireitamento são encontrados na literatura [9].000 - -80. O experimento realizado confirmou o que empiricamente já havia sido evidenciado no processo: ƒ O processo de recozimento para alívio de tensões utilizado tem influência no estado de tensões reduzindo as diferenças entre as medições em cada seção das barras. o comportamento é semelhante. próxima a superfície. sendo que a curvatura da mesma corresponde ao espaço existente entre os rolos. no entanto a diferença entre o comportamento das amostras nos cortes em cada seção é maior. gire em sentido contrário devido a fricção dos rolos. no entanto para a seção de corte a 1/6. CONCLUSÃO O método utilizado para a medição demonstrou ser uma alternativa rápida e simples para a verificação do estado de tensões médio na seção. . 9: Tensões Residuais medidas para as seções a 1/6 e 1/2 com ângulo de endireitamento de 16° e 18°.

Futuros estudos devem ser realizados detalhando melhor o perfil de tensões por métodos quantitativos. pg. P V Grant. 2003. Konaka. Handbook of Measurement of Residual Stress. REFERÊNCIAS 1. B. Wire Journal International. K. Deflection Methods Chapter. Journal of Material Processing Technology. Fukuda. Kandil. Totten. -W. H. como difração de raio-x ou método do furo.C. Chanb.W. 3. A. A Review of Residual Stress Measurement Methods. A. NPL Report. Residual Stress Measurement by X-Ray Diffraction. 2. Evaluation of Residual Stress: the Expectations of Car Manufacturers. M. From Single Production Step to Entire Process Chain – the Global Approach of Distortion Engineering. 4. 4-6. 9. Behavior of residual stress and drawing stress in conical-type die and circle-type die drawing by FEM simulation and experiment. 2000. Y. C. Stiftung Institut für Werkstofftechnik (IWT). O ângulo de endireitamento utilizado tem influência mais forte que o próprio alívio. UNIDADES E NOMENCLATURA M I σ c E R d r R n momento de flexão (Nm) momento de inércia (m) Tensão (MPa) distância em relação ao eixo neutro (mm) módulo de elasticidade (GPa) Raio de curvatura (mm) deflexão (mm) posição relativa do corte (mm) raio da barra (mm) amostras (adimensional) . E. G. T. 5. Wua. Zoch.ƒ ƒ A modificação do ângulo de trefilação tem baixa influência no estado de tensões em função do processo de endireitamento posterior. Nakagiri. Kim. Ueda. 108:328–334 7. Engineering Distortion Project. H. gerando tensões compressivas próximo ao núcleo da barra na medida em que é reduzido. pg. Asakawa. A T Fry. 89-98. T. 2002. Journal of Engineering Materials and Technology. 2001. Walton. A study on the precision modeling of the bars reduced in two cross-roll straightening.J. W. 8. L. F. J D Lord. M Barral. L. Leeb. Effect of die approach geometry and bearing length on residual stress after bar drawing. New measuring method of axisymmetric three-dimensional residual stresses using inherent strains as parameters. and Y.W. Aoa. Internacional Congress of Residual Stress 5. Sazaki. s. Maeder. Shishido. G. Yamano. SAE Report HS-784.C. Wire Journal International. 6. M.