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Racismo e sexismo no Brasil

Para melhor analisar o papel da mulher negra no Brasil é necessário entender
a dinâmica das duas formas de discriminação que ela enfrenta no país: o racismo e
o sexismo. É importante ressaltar que a situação da mulher negra (suas lutas, suas
opressões) não resulta apenas da justaposição das condições das duas minorias
que ela representa; o feminismo negro possui uma agenda particular que, mais do
que promover a igualdade racial ou de gênero, buscam libertá-la dos papéis que a
sociedade designa.
Lélia Gonzales, em Racismo e sexismo na cultura brasileira, destaca três
estereótipos: a mulata, a doméstica e a mãe preta. Ela os descreve e demonstra
como foram inseridos na cultura e no inconsciente coletivo nacional pelo discurso do
dominador, estabelecendo um paralelo com a psicanálise e utilizando os conceitos
de memória e consciência.
A mulata possui um papel central no Carnaval, o evento que ajuda a sustentar
o mito da democracia racial brasileira. A crença de que não há discriminação racial
no Brasil e que todos aceitam a miscigenação inerente a composição demográfica
do país reforçada durante a época de festa, quando as pessoas se relacionam sem
aparente discriminação racial e dançam ao som de músicas que poderiam ser
africanas, na democracia dos blocos de rua.
A ideia de democracia racial é, por definição, a negação do racismo no Brasil,
o que constitui uma das principais dificuldades para enfrenta-lo. Sua inexistência e a
presença do racismo no país podem ser atestada por algumas ideias do senso
comum, como exemplifica Gonzales:
A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo
mundo acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria. Por
que? Ora, porque ele tem umas qualidades que não estão com nada:
irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice, etc. e tal

Por ser o elemento mais representativo da promoção da imagem de um país
inclusivo e livre de preconceitos, a mulata é a mais afetada pelo fim do Carnaval e
subsequente enfraquecimento do mito, saindo do extraordinário para o comum.
Segundo a autora:
Como todo mito, o da democracia racial oculta algo para além daquilo que
mostra. Numa primeira aproximação, constatamos que exerce sua violência
simbólica de maneira especial sobre a mulher negra. Pois o outro lado do

de sofrer com os outros escravos da senzala e do eito e de submeter-se aos castigos corporais que lhe eram. partia para a apelação. seus irmãos ou seus filhos são objeto de perseguição policial sistemática (esquadrões da morte. É por aí. determinadas por sua postura sexual. por meio de seu trabalho na Casa Grande. a doméstica. Hahner. no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica. estão reunidos homens e mulheres negras na luta contra o racismo. Essa dualidade mulata-doméstica pode ser encontrada. também são unificadas pelo feminismo. Por outro lado. Pode-se perceber uma certa preponderância desse movimento no sentido em que são mais comuns reinvindicações de “enegrecer o feminismo” do que “tornar o movimento negro mais feminista”. como houvesse negros que disputavam com ele no terreno do amor. que também assume o papel da mãe preta. A moderna versão da mucama. sendo responsável pelas atribuições da família e da casa desta. como afirma a autora: Isto porque seu homem. segundo Gonzales: Isto porque. que se veja quem é a maioria da população carcerária deste país). pessoalmente. cuidava dos filhos da senhora e satisfazia as exigências do senhor. Mas uma das .endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher. A opressão do patriarcado recai fortemente sobre as mulheres na forma de objetificação. Mas as mulheres. Outro aspecto relevante da mucama é o de. também. assim a descreve: a escrava de cor criou para a mulher branca das casas grandes e das menores. É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade. com menos de trinta anos. fácil e da maior parte das vezes ociosa. Tinha seus próprios filhos. “mãos brancas estão aí matando negros à vontade. observe-se que são negros jovens. mas ganha algumas atribuições devido a perda da mão de obra no núcleo familiar. aumentar as diferenças entre as próprias condições e as da mulher branca. o senhor acabava por assumir posições antieconômicas. no período escravocrata. destinados. além das suas próprias. apesar das diferenças raciais. em A Mulher no Brasil. lavava. na figura da mucama. ou seja. a tortura e a venda dos concorrentes. esfregava de joelhos o chão das salas e dos quartos. perde algumas dessas atribuições. que é também característica do sistema escravista. Nesse aspecto. Mas ela também é responsável por uma mudança. June E. passava a ferro. o dever e a fatal solidariedade de amparar seu companheiro. condições de vida amena. mesmo que sutil no status quo. Cozinhava. que se constata que os termos mulata e doméstica são atribuições de um mesmo sujeito.

o que leva a autora a questionar: Embora. Mata-se no discurso literário a prole da mulher negra.figuras citada por Gonzales escapa a essa lógica. como nos poemas de Gregório de Matos. de valores. tendo um papel importante na formação de crianças brancas. aquela que causa comiseração ao poeta. por exemplo. as mulheres negras surgem como infecundas e por tanto perigosas. que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira. Ela. a presença de outros estereótipos é identificada na literatura colonial. essa traidora da raça como quem alguns negros muito apressados em seu julgamento. assim como outros escritores mencionados no ensaio. pois influencia brancos e negros. a representação materna em muitos textos literários possa desagradar também às mulheres brancas em geral. cuida dos filhos dos brancos em detrimento dos seus. estamos garantindo emprego para que tipo de mulher? . e por parte do processo de socialização. da musa idolatrada dos poetas. A mãe preta é mencionada por Conceição Evaristo em Da representação à auto-apresentação da Mulher Negra na Literatura Brasileira: Um aspecto a observar é a ausência de representação da mulher negra como mãe. Representa um papel ambíguo. mesmo na condição de escrava: a mãe preta. como o histórico. simplesmente. Na ficção. procurando apagar os sentidos de uma matriz africana na sociedade brasileira? Teria a literatura a tendência em ignorar o papel da mulher negra na formação da cultura nacional? As representações literárias podem mostrar também outra diferença da situação da mulher negra e da mulher branca. contribuiu para o enraizamento desses preconceitos. o que se pretende argumentar aqui é: qual seria o significado da não representação materna para a mulher negra na literatura brasileira? Estaria o discurso literário. e é humanizada. No mesmo ensaio. tendo um impacto significativo na formação da cultura brasileira. é a mãe. porque o modelo estético de mulher é a mulher branca. quase sempre. Quanto à mãe-preta. como mostra Sueli Carneiro em Enegrecer o Feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero: Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar. mas que Gonzales sintetiza: O que a gente quer dizer é que ela não é esse exemplo extraordinário de amor e dedicação totais como querem os brancos e nem tampouco essa entreguista. Ela é responsável pelo ensino da linguagem. ou a bá. perfil delineado para as mulheres brancas em geral. matriz de uma família negra. Quando falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho. O poeta. de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de nada.

Ana Cruz e Mãe Beata de Iemonjá. como Geni Guimarães. Celinha. há um outro discurso literário que pretende rasurar modos consagrados de representação da mulher negra na literatura. objeto representativo do poder falocêntrico branco. é preciso observar que a família representou para a mulher negra uma das maiores formas de resistência e de sobrevivência. se inscreve no movimento a que abriga todas as nossas lutas. se a literatura constrói as personagens femininas negras sempre desgarradas de seu núcleo de parentesco. Assenhoreando-se “da pena”. Criam. as grandes responsáveis não só pela subsistência do grupo. a partir de uma subjetividade própria experimentada como mulher negra na sociedade brasileira. na literatura recente.A resistência a essas representações dá-se. pela auto-apresentação de mulheres negras. muitas vezes sozinhas. então. Como heroínas do cotidiano desenvolvem suas batalhas longe de qualquer clamor de glórias. como direito. Miriam Alves. Se há uma literatura que nos invibiliza ou nos ficcionaliza a partir de estereótipos vários. busca semantizar um outro movimento. como as das Casas de Axé. para se impor como sujeito-mulher-negra que se descreve. ou melhor. Conclusão Este artigo iniciou sua análise do papel da mulher negra na sociedade brasileira contemporânea por meio de uma contextualização histórica Abordou também a questão o duplo fenômeno do racismo e do sexismo no Brasil. e destacam a supressão desse papel como uma forma importante de perpetuação dos estereótipos relativos à mulher negra. que caracterizam a particularidade dessa ocorrência simultânea. Esmeralda Ribeiro. Além disso. as escritoras negras buscam inscrever no corpus literário brasileiro imagens de uma auto-representação. tratou da questão racial no feminismo . Pode-se dizer que o fazer literário das mulheres negras. assim como do seu reconhecimento como forma de resistência aos mesmos. Roseli Nascimento. assim como se toma o lugar da vida As duas autoras ressaltam o papel da mulher negra na formação da cultura brasileira. assim como pela manutenção da memória cultural no interior do mesmo. o papel da mãe preta e o dessas escritoras na resistência: Entretanto. uma literatura em que o corpo-mulher-negra deixa de ser o corpo do “outro” como objeto a ser descrito. Lia Vieira. Mães reais e/ou simbólicas. foram e são elas. Identificou a presença dos três na literatura brasileira e apontou um caminho de resistência às opressões no que Conceição Evaristo chamou de “auto-apresentação” literária. e as precursoras Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus. como demonstra Evaristo. Toma-se o lugar da escrita. Evaristo destaca. mais uma vez. tomando como base os três estereótipos identificados por Lélia Gonzales. para além de um sentido estético.

Ciências sociais hoje. 52-57. June Edith (Ed. com base nessas delimitações. Racismo e sexismo na cultura brasileira.Por fim. p. p. Conceição. p. 223-245. A mulher no Brasil. Racismos contemporâneos. . 1978. EVARISTO. Revista Palmares: cultura afro-brasileira. 1983. Civilização brasileira. 2003. 2005. atingiu o objetivo a que se propunha. 2. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. com uma análise do papel da mulher negra Referências: GONZALEZ. 49-58. Sueli. Rio de Janeiro: Takano Editora. HAHNER.). Lélia. Da representação à auto-apresentação da mulher negra na literatura brasileira. CARNEIRO. v.