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O VIÉS ENVIESADO: A MIGRAÇÃO RURAL FEMININA A PARTIR DO

OLHAR MASCULINO1
Rodrigo Kummer 2
Resumo: Os espaços rurais na região Oeste de Santa Catarina convivem com uma crise de
reprodução das unidades produtivas familiares. É latente a tendência à migração dos jovens para os
espaços urbanos, mais enfaticamente entre as moças. Tem-se uma conjuntura de envelhecimento e
masculinização da população do campo que pode inviabilizar a reprodução de tais práticas sociais.
As moças estão cada vez menos dispostas a permanecerem na condição de subalternidade a que são
expostas no ambiente rural. A mulher recebe a conotação de uma “funcionária imprescindível” nas
atividades e na vida agrícola, porém não possui renda fixa, tampouco autonomia para tomar
decisões. Esse paradoxo, onde a mulher é tida como importante, mas desvalorizada faz com que as
moças estendam uma projeção de vida vinculada ao urbano. Negam-se a casar-se com rapazes do
meio rural e continuar vivendo sob tal paradoxo. Essa posição se justifica se analisados os discursos
dos próprios rapazes do meio rural, onde há uma reprodução do discurso de dominação e
subalternidade das mulheres. Para tanto este artigo analisa a opinião de 12 rapazes do meio rural do
município de Palma Sola/SC em relação aos motivos que justificam o êxodo das moças e
ponderadamente também a importância que elas têm para a reprodução desse modo de vida.
Palavras-chave: Jovens rurais. Migração. Representações.

Introdução
Os espaços rurais brasileiros passam por intensas transformações nos últimos anos. Além
dos rearranjos produtivos, da tecnificação e da conurbação com o urbano verifica-se a continuidade
do êxodo rural. Não é um êxodo maciço e estrutural, mas dinâmico e intermitente, isto é, não são
exatamente famílias abandonando a atividade, mas os jovens filhos de agricultores. Compreende-se
essa conjuntura como uma “tendência à saída”.
Entre os jovens rurais migrantes as moças são maioria. Elas parecem abandonar a
proposição do papel “natural” que lhes era determinado, ou melhor, o de continuarem vivendo do e
no meio rural. A aceitação de um destino manifesto não se constata com facilidade entre as jovens
rurais e estas demonstram que ensejam tornarem-se partícipes de seus projetos de vida. A decisão
de migrar se entrelaça com anseios de novos projetos profissionais, de estudos e de vida não rural.

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Este artigo faz parte das discussões estabelecidas na dissertação de mestrado “Juventude rural, entre ficar e partir: a
dinâmica dos jovens rurais da comunidade de Cerro Azul, Palma Sola/SC” defendida em junho de 2013 junto ao
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unioeste, campus Toledo/PR, sob a orientação do Prof. Dr. Silvio
Antônio Colognese.
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Mestre em Ciências Sociais pela Unioeste (2013) e docente da Unipar/Campus de Francisco Beltrão-PR. E-mail:
kummer@unipar.br

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X

288. A migração feminina no contexto rural A análise das opiniões aqui expostas se relaciona aos jovens do sexo masculino da comunidade de Cerro Azul. entre os estados do Rio Grande do Sul e Paraná e no eixo Leste-Oeste entre o Rio do Peixe e a fronteira do Estado de Santa Catarina com a República Argentina. Buscava-se “colocar os filhos”. permitir que estes se estabelecessem na atividade agrícola assim como seus pais. 2009. O estudo se refere à comunidade rural de Cerro Azul. Na essência. obrigava as famílias a gerar excedentes para que pudessem atender aos filhos que viessem a se emancipar da unidade familiar. município de Palma Sola. como um bem a ser adquirido. demarcada pelo rio Peperi Guaçu. uma vez que a acumulação de riqueza dentro do grupo familiar de trabalho nem sempre permitia a compra de novas terras e o alojamento das novas famílias desmembradas do núcleo original. 763 Km² e um quantitativo populacional de aproximadamente 1. p. isto é. cada vez mais. lugar de destaque (SCHALLENBERGER. formando um território de 27. localizada no interior do município de Palma Sola/SC. Passaram a buscar no meio urbano novas oportunidades de vida. 148). A disposição da propriedade.000 habitantes. a ocupação de espaços devolutos4 por agricultores oriundos do Estado do Rio Grande do Sul. de tal sorte que a produção de bens para o mercado foi ocupando. 4 Embora tida como área devoluta antes da chegada dos colonizadores a região já era ocupada por grupos indígenas Kaingang e Xoclenks. Enquanto artifício de desenvolvimento das estruturas do espaço regional pode-se dizer que esse movimento colonial garantia a sua continuidade pautando-se em critérios específicos de reprodução das unidades familiares de produção agrícola. este processo interferiu na organização da propriedade familiar. no eixo Sul-Norte. isto é. As características dessa região se estabelecem a partir do processo de colonização. além da população cabocla. Quando se trata do movimento do êxodo da juventude rural um fator latente é a perspectiva de 3 A região Oeste catarinense situa-se delimitada.Neste artigo busca-se analisar como os jovens rurais masculinos compreendem e representam esse processo de “esvaziamento feminino”. Contudo a partir da década de 1970 com o acelerado processo de tecnificação agrícola os jovens e candidatos a novos agricultores deixaram de efetivar tal prática. Para tanto era necessário ter acesso a terra e garantir o desenvolvimento das novas estruturas econômicas. circunscrito a região Oeste de Santa Catarina3. 2013. Na primeira explicitasse o local da pesquisa e os elementos relativos à migração feminina. Florianópolis. o que não era tarefa simples. Na segunda e última parte analisam-se as opiniões dos jovens do sexo masculino a respeito da migração ou permanência feminina no meio rural. As moças tornaram-se massa preponderante no êxodo rural. O texto se divide em duas partes. ISSN 2179-510X .200. 2 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos).

Primeiro. principalmente com vistas à preparação para um emprego na cidade (BRUMER. p. Constata-se que os rapazes acompanham o pai nas atividades. 2013. pela desvalorização das atividades femininas no espaço rural. referindo-se a estudo da CEPAL de 1996 afiança que o campo é. um local mais atraente para os rapazes. p. p. uma autoridade de gênero em relação ao pai ou aos irmãos do sexo masculino. em grande medida. pela autoridade etária em relação à mãe e segundo. 2007. 40). “as moças investem mais na educação do que os rapazes. Se aqueles herdam terra ou têm apoio para levar adiante atividades produtivas. p. entre outros fatores. para o que o acesso à educação é a principal demanda. Florianópolis. “Para todos. 2007). vivendo uma submissão total. Além disso. 1999). entretanto. Essa prática é mais recorrente no caso das filhas. uma vez que muitos pais esperam 3 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). Invariavelmente são as moças que deixam o meio rural em maior número. de fato. consideradas organizativas (passivas). o meio rural à sociedade brasileira. gerando o celibato camponês. devido. ISSN 2179-510X . Além disso. 2007. o que provoca a masculinização das áreas rurais (CAMARANO & ABRAMOVAY. os jovens rurais demandam por educação. Para as moças. (STROPASSOLAS. 2007. diante de aspirações de vida em outro meio cultural e ocupacional. 243). estimulando o desenvolvimento de “projetos profissionais não agrícolas”. Mesmo em graus diferenciados entre rapazes e moças. uma vida como esposa de agricultor – conhecendo outras alternativas possíveis – pode ser rejeitada ou objeto de resistência. apenas ajudam (2007. podem elaborar projetos de vida que são alternativas válidas em relação à migração para a cidade. consideradas “produtivas” (ativas). Stropassolas. 286).” (WANDERLEY. efetivamente. percebendo nela uma possibilidade de melhoraram de vida. ou como Weisheimer (2007) que afirma que culturalmente entende-se que as moças (mulheres) não trabalham (produzem). pela “invisibilidade de seu trabalho”. o desejo de vencer o isolamento. É uma dupla submissão. conforme Weisheimer (2007). Por sua vez a ameaça do celibato influência os rapazes também a migrarem para as cidades abandonar a agricultura e migrar para a cidade (CARNEIRO.gênero referente aos diferentes espaços de sociabilidade ocupados entre os jovens pelos rapazes e as moças. A concentração dos rapazes no meio rural dificulta-os a encontrarem uma parceira para cassarem-se. Essa dinâmica impulsiona-as a abandonarem o campo e buscarem uma ocupação no meio urbano. integrando. Carneiro reafirma essa situação ao declarar que as moças além de não serem reconhecidas como trabalhadoras agrícolas não desejam para si esse papel. muitos pais incentivam os filhos a seguir os estudos. a possibilidade de sucessão na atividade. Os rapazes vivem uma submissão relativa perante o pai. De acordo com Brumer (2007) isto decorre. A vida no campo é mais atraente para os rapazes que para as moças. 33). As moças geralmente acompanham a mãe nas atividades.

Todavia construíram uma argumentação relativa à pertinência da permanência das moças no meio rural. às dificuldades de relacionamento e às representações sobre os papéis sociais das mulheres em ambientes agrícolas. lavar. 28 anos remete ao argumento de que além do trabalho forçado ele é ainda menos lucrativo para as mulheres. numa acepção de que se alteraram as demandas e as posições femininas no ambiente rural. atualmente percebem outras oportunidades do que permanecerem nessa condição. Elas projetam a transferência e se articulam para isso. 20 anos estende o paradoxo de naturalidade dessas saídas. As mulheres querem a oportunidade de ter uma renda própria e de fazer escolhas por/para elas mesmas. Entre eles há o consenso de que as moças são mais propensas à saída. Na sua percepção as 4 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). Pedro. 28 anos a explicação reside na característica de que as atividades no meio rural são “trabalho pesado”. embora seja pouco esperado. cuidar do marido e dos filhos. Vejo este dado com naturalidade. 2013. os homens”. 28 anos é mais enfático. sem necessariamente estudarem. sair do meio rural seria uma forma de libertar-se. porém também apregoa certa naturalidade diante deste fenômeno. muito mais penoso para as mulheres que. mesmo que auxilie nas atividades do campo. 247). pois entendem que “não está reservado às filhas mulheres o papel de sucessoras na administração da unidade produtiva” (WEISHEIMER. ISSN 2179-510X . pois postula que as jovens procuram desde cedo relacionamentos pessoais e afetivos que as ligam à cidade. Claudio. São depoimentos de 12 jovens do sexo masculino. 2007. visto que predomina a cultura machista no meio rural. Quem vai ficar vão ser os filhos.para elas um trabalho não-agrícola. Questionados sobre essa conjuntura alguns dos migrantes não souberam explicar o motivo da maior probabilidade de saída das jovens do que dos jovens rurais. Os estudos abririam essas possibilidades. Ainda predomina a cultura de que a mulher deve ser submissa ao marido. Florianópolis. Francisco. como se fosse uma definição de seu destino. Algumas buscam opções diretamente no mercado de trabalho urbano. José. Diz que “muitas são atraídas pelas oportunidades de estudo nas cidades”. no momento da pesquisa. Esse argumento justifica-se porque entre os agricultores da comunidade havia. Para Agenor. apenas uma moça que permanecia e entre os rapazes foi possível identificar mais de uma dúzia. 21 anos afiança que “mulher nenhuma vai ficar pra trabalhar na roça. Neste aspecto. de poder realizar sonhos que vão muito além de cozinhar. Reforça que quem sai busca crescimento profissional e nesse caso depreende-se que as mulheres tanto desejam mais essa condição quanto aspiram conseguir uma boa condição se permanecerem. p. de ter acesso à novas experiências. onde as mulheres não têm expectativas muito além de chefiar o lar e cuidar dos filhos. Percepções masculinas diante da migração rural feminina Essa abordagem refere-se às entrevistas qualitativas realizadas com alguns jovens que deixaram a comunidade de Cerro Azul e outros que permanecem no local.

Não tem!”. É praticamente impossível. O marido pode em alguns casos consultá-la. Daí tu tem que dar aquela quantia de dinheiro pra pagar todo ano e se tu tiver que pagar os empregados ainda tu vai ter um custo muito elevado. Ele precisa de uma companhia e essa companhia que é difícil de encontrar. Não existe essa possibilidade”. Embora seja um dos jovens que permanece no meio rural sua visão é de que a permanência é um projeto de vida dificultado e também remoto. mas na maioria dos casos tomará a decisão por conta própria. ali eu vou investir em mim. 2013. reforçada no meio rural. Essa representação se entrelaça com uma cultura de machismo. lavar a roupa. Intrigante que a ideia de proletarização de terceiros não aparece nas falas. entre outras coisas. E daí acontece de dar uma estiagem. Tu não tem o dinheiro pra dar lá 80. como preparar o alimento. Caio. vamos dizer assim. somadas a lavoura. a ordenha e os afazeres domésticos. Fica evidente que a visão do jovem é a de que ele precisa não apenas de companhia. cuidar dos filhos. Rodrigo: Uma companheira faria esse trabalho? Caio: Uma companheira tu já não tem que pagar pra né ela te ajudar.mulheres são mais propensas a buscarem novas condições de vida. ali dá pra se manter. Qual que é a diferença de ter esposa ou ter um ou dois empregados? Caio: A diferença é o custo. Rodrigo: Você fala no sentido de ter uma companheira. tu vai comprar uma propriedade de terra. infelizmente não consegue”. um empregado. pra um jovem. financeiro. ISSN 2179-510X . A mulher dificilmente terá participação ativa nas decisões da propriedade. E se ele tiver. Como diz Caio “são poucos os que buscam a própria propriedade pra trabalhar sozinhos. em termos sentimentais. pra trabalhar. uma esposa. tu vai financiar. foi interpelado sobre essa possibilidade. Florianópolis. Tu já tem que. A pergunta que se seguiu foi: “Por que você acha que não consegue?” Como resposta justificou que o trabalho no meio rural. principalmente relacionado à pecuária leiteira não permitiria que apenas uma pessoa trabalhasse para dar conta de todas as atividades. são possibilidades bastante remotas. Essa é a questão. no caso. 20 anos desmistifica a oposição entre oportunidades tendenciais para os rapazes no meio rural. mas de braços a servirem ao trabalho. tu além do custo tu vai. Na sua opinião “não tem oportunidades nem pros rapazes e nem pras moças”. No caso de Caio. não vai ter o retorno. pois entende que elas são mais dedicadas e o trabalho na roça seria mais difícil para elas. O diálogo foi determinante. Um rapaz não vai sozinho comprar uma terra e trabalhar sozinho e pagar. A “ajuda” da mulher não seria remunerada. colher sua opinião. além de que ela possuiria atributos específicos. tu vai financiar. 90 mil reais por uma propriedade de terra. Mesmo que os discursos pareçam afinados no tocante a dizer que “aqui todos participam das decisões” há uma diferença nos níveis dessas discussões e principalmente na forma de participação 5 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). limpar a casa. “São mínimas as possibilidades de continuar na comunidade. não pensa assim. sozinho não consegue.

nas atividades de cultivo. ela mesma “menos importante”. “na” casa e suas imediações. Essas moças. Os filhos homens. quando em idade de trabalhar são consultados. suficientemente. Assim as moças seriam levadas a desconhecerem e terem pouco contato com atividades de cultivo. porém isso não determina que sejam ativamente partícipes das decisões. liberando a mãe para participar dos trabalhos na lavoura. Quando solteira atende as determinações do pai e ao se casar com um jovem rural irá ficar subordinada a família do esposo. o acesso ao lazer.dos atores no seio familiar. A ‘falta de liberdade’ é uma expressão bastante utilizada para se referir à condição da moça no meio rural. também fora da casa. sendo desde as “motoristas” da família. se expressa um formato de divisão social do trabalho que distancia as moças do trabalho na lavoura. é definido como menos importante. decidir como e com quem se relacionar. trabalhar. Florianópolis. na lavoura. 2010. como gastar seu dinheiro. o caminho é casarse e de toda forma submeter-se (ser submetida) ao marido. Contraditoriamente. fomentaria a moça como determinada ao trabalho do lar – fato potencialmente estimulante a sua migração e impróprio para as pretensões de rapazes que ao se casarem demandariam da “ajuda” da mulher. até as que tomam para si a responsabilidade por contratos e financiamentos – geralmente porque inexistem filhos homens na propriedade. Mesmo morando em “repúblicas” a sua autonomia será maior do que permanecendo no meio rural. na lavoura. p. ou melhor. Sem contar a sobreposição das jornadas de trabalho das mulheres no meio rural. ISSN 2179-510X . nem a uma renda fixa e nem a um ‘pedaço de terra’ que lhe seja próprio. Elas se responsabilizam a partir dos 10 a 12 anos de idade pelo almoço e pela limpeza da casa. conjuntamente. Como seu trabalho é doméstico se caracteriza como ‘não-produtivo’ e não gerador de renda. 6 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). a não ser no afazeres domésticos cujos quais não são para homens. Diferentemente. Uma terminologia para isso é dizer que as moças “ficam pra dentro”. entretanto. que se dedicam intensamente as atividades rurais sem exceção recebem comentários jocosos de que “parecem homens”. Isso engendra numa dificuldade de adaptação ao trabalho “na roça”. Existe de certa forma um espectro de que de forma alguma a moça/mulher terá autonomia no meio rural. elas não têm assegurado. trabalham na roça. (AGUIAR & STROPASOLAS. 2013. Se sair. Essa ‘condição’ acaba constituindo o arcabouço moral e cultural em torno da identidade da moça. Em outras localidades é possível (embora raramente) encontrar moças que participam ativamente da gestão da propriedade. no meio urbano ela pode morar sozinha. Se permanecer na casa dos pais ficará sob a tutela destes. 167). Os rapazes “ficam pra fora”. Elas se constituem numa força de trabalho importante para a reprodução da unidade familiar. Evidencia-se assim o caráter moral de marcação irrestrita dos papéis sociais no ambiente rural. Este aspecto. isto é. trabalham em casa.

Antônio se enquadra como jovem na comunidade. Essa conjuntura não determina que os jovens do meio rural estejam de todo modo se evitando. Para casarem-se precisarão oferecer e construir um projeto de vida junto de suas companheiras para e no meio rural. Em síntese eles representam uma ponte em relação ao destino pretendido. Florianópolis. Se esse perfil for pensado em relação a alguém que esteja disposta a permanecer no meio rural é. Estar “coisiada” diz respeito a pensar de acordo com valores urbanos. É preciso ter um meio de locomoção e procurá-las na cidade. 7 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). Nem mesmo que não possa ocorrer de uma moça ou rapaz da cidade vir a morar no meio rural. não é fácil de encontrar. As moças do interior. Portanto. A prática de morar junto com os pais do noivo. 2013. o êxodo das moças parece cada vez mais latente. pois não se encontra a pessoa com o perfil desejado. No sentido de casar-se diz que é complexo. pois os ritmos e a realidade de vida são muito diversos. mas esses casos são raros e não há uma tendência de que possam aumentar. O casamento torna-se paradoxal. O casamento nesse caso é ao mesmo tempo uma necessidade e uma dificuldade. ou da noiva é geralmente atribulada. difícil. É cada vez mais difícil encontrar uma moça disposta a permanecer no campo. 34 anos5 revela que é difícil encontrar uma parceira atualmente. Nas suas palavras: “tem dificuldade porque do interior é mais difícil. 5 Embora o recorte etário estabelecido para a categoria jovem rural foi o de 15 à 29 anos. 6 Moça “coisiada” nesse sentido seriam aquelas que além de não serem virgens tem pouca propensão de morar ou continuar morando no meio rural.Caio considera complicado para um rapaz do meio rural namorar uma moça da cidade. Antônio. de fato. Ao contrário. Por outro lado sem casarem-se os rapazes veem poucas chances de permanecerem. quase até vir as do interior vir no baile é mais difícil. mesmo não interditando relacionarem-se com eles não manifestam interesse de continuarem a relação se precisarem permanecer no campo. a não ser que as condições de vida e de trabalho ali forem interessantes e melhores que onde vivem. Mas comprar uma propriedade é também uma ação dificultada. sem casamento não tem como comprar uma terra. Essa projeção passará invariavelmente – no plano ideal – pela aquisição da própria terra. para o rapaz que fica no meio rural expressam-se dificuldades em encontrar parceiras. participa inclusive do grupo de jovens da localidade. As moças da cidade por seu turno têm poucas pretensões em estabelecerem-se no meio rural. pois elas anseiam em morar na cidade e os próprios rapazes de lá serão melhor aceitos como parceiros. vem aquelas “coisiada”6 nos baile e coisa então hoje é difícil o que tu quer. não é muito fácil de encontrar. o que tu procura não”. Se for o caso de um rapaz do meio urbano namorar com uma moça do interior esses problemas não têm a mesma magnitude. ISSN 2179-510X . Para muitos dos jovens o casamento torna-se uma ciranda: sem terra não há casamento.

mais rapazes e menos moças”. Bernardo. Confessa que essa situação o incomoda: “você encontra uma namorada e tal. 28 anos. usando a expressão: “em moça que é meio. pois “tem pouca moça” no interior. daí ela vai sair e sempre vai ficar menos. fazer alguma faculdade. não é muito chegada”. Aditada a essa dificuldade entende que é imprescindível que se tenha uma companheira. por exemplo. Claro que tem algumas mulheres que trabalham também. os pais encaminham e preparam o rapaz para “pensar” o rural e não 8 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). vamos dizer. portanto tem maior tendência a saírem: “as moças são mais interessadas elas buscam mais o estudo e os jovens buscam mais. uma aventura.Everaldo. percebe que existem dificuldades para encontrar uma parceira quando o jovem decide permanecer no interior e isso pode influenciá-lo em algum sentido a sair. no caso da migração feminina. ela ia. Eu acho que as meninas (. Acrescenta que “o programa rural hoje ele tá direcionado ao rapaz”. mas eu acho que as meninas elas veem assim. eu acho que é assim todas elas né? Poucas que vão querer ficar aqui. dai ela vai querer fazer você ir pra cidade. Florianópolis.) talvez os rapazes eles gostam mais de ficar aqui não tanto talvez pelo serviço. acho que isso é um trabalho mais voltado pro homens. ela ficava muito brava. mas tipo pelos finais de semana. pois “vai chegar um momento que não vai ter mais moças no interior”. ela bufava de raiva quando ela tinha que ir junto. Explica que: “a moça na maioria das vezes não quer casar com alguém do interior porque não gosta da atividade e o rapaz pode querer continuar e ela não quer casar porque quer morar na cidade. 2013. o rapaz. você se reuni. a abandonar uma ideia inicial. dai ela terminou o ensino médio e foi pra faculdade. ISSN 2179-510X . define a falta de emprego para as moças ou pela falta de interesse na atividade agrícola. 19 anos diz que as moças são mais interessadas em estudar e.. Essa condição é analisada como problemática. Frederico. isto é.. Alex. Explica que a saída maciça das moças se deve a sua predileção pelos estudos e pelo distanciamento que tomam do trabalho “efetivamente produtivo” na agricultura. No seu caso não prevê dificuldade de encontrar uma parceira porque circula no espaço urbano e provavelmente não permanecerá na atividade agrícola... mas para quem fica retido apenas no ambiente rural é mais difícil. Mas no meio rural o que tá permanecendo mais é o jovem o rapaz. Eu acho que até pelo fato do trabalho. então por isso que (. a mulher está procurando mais o estudo”. ela tinha que ajudar a trabalhar e ela não gostava. 18 anos alerta para o fato de que a possibilidade de um jovem do meio rural se casar com uma moça disposta a acompanhá-lo na atividade é remota. Ainda assim considera difícil encontrar uma parceira para se relacionar. isso é uma coisa quase obvia”. 19 anos. elas não gostam muito e elas veem a oportunidade ao se formar no ensino médio começarem a estudar.) a minha irmã. Segundo sua opinião são que os rapazes têm mais opções de lazer e mais condição para saírem se divertir. ficar com os amigos e tal. uma companhia para permanecer na roça.

) Rodrigo: Que tipo de perigo? Maurício: Tipo as moça. “eles guardam mais dinheiro”. Os rapazes constituem uma visão de que as moças saem do meio rural por falta de interesse. 21 anos. que o rapaz é solto não tem perigo de (. olhando a casa”. sendo que as moças gastam mais que os rapazes. Controlam a moça. o cara tá em casa o cara olha em redor tem mato. pois os pais não conseguem segurar todas as moças. ISSN 2179-510X .. Questionado se na comunidade existiam mais moças ou rapazes morando disse novamente que eram os rapazes “porque as moças que tinha foram tudo pra cidade”. As disposições de permanência são. trabalham na esfera doméstica e não tomam contato nem “gosto” pela atividade. casa e casa”. a moça fica mais dentro de casa. pré-determinado. Maurício. A opção pelo 9 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos).a moça. As moças ficam à parte das discussões.. Nesse sentido reitera que mesmo com todo controle “sempre tem alguém” para se relacionar. Ensejam discursos que mantêm as moças como indivíduos isolados. o cara tá acostumado no meio do mato. desde cedo inseridos nas dinâmicas de produção e de aprendizado na gestão – mesmo que não a exerçam.. Esses aspectos influenciam os processos de envelhecimento e masculinização no campo. Entende também que o rapaz tem mais participação na divisão da renda obtida na propriedade do que as moças. Florianópolis.. o cara vai na cidade só tem casa. num ambiente paralelo. Ele prefere frequentar promoções e eventos de lazer no meio rural pela familiaridade e pelo conhecimento do local: “no interior a gente parece que. masculinas. mas na maioria dos casos não se questionam sobre as motivações disto. 2013. Acabou se contradizendo quando disse que eram os rapazes que mais saem do meio rural.). uma vez que “o rapaz é um que ele vai na agricultura. Maurício: Os pais parecem que tem medo que as moças vão. inegavelmente e preponderantemente. um caminho naturalizado através das práticas familiares. Ainda diz que é mais fácil para os rapazes saírem do que as moças já que os pais exercem maior controle sobre elas. Há um viés de gênero fortíssimo nos processos sucessórios. Considerações Finais Com base nos depoimentos dos jovens rurais masculinos da comunidade de Cerro Azul é possível identificar que há de fato uma percepção que formula um viés masculino tanto nos processos sucessórios quanto na imagem feita das mulheres. A forma de gastar o dinheiro é em festas e roupas. os pais seguram mais as moças presa em casa porque a moça pode sair engravidar lá vai saber de quem. Alguns chegam a perceber sua migração como algo natural. ele trabalha na roça e vê o serviço. vim pra casa e (. Os rapazes recebem uma carga maior de incentivo e são.

A perspectiva de ficar na roça no caso das moças envolve um conjunto de situações que se especifica em torno do seu casamento com outro agricultor. MENEZES. Rio de Janeiro: Mauad X. Congregam uma rotina de trabalho maior que a dos homens e raras vezes têm acesso a uma renda autônoma. Maria José & CASTRO. Mulheres. ISSN 2179-510X . uma importância secundária. As jovens parecem mostrar-se resolutas em propor e interferir em seus projetos de vida e essa efetivação encaminha-as a abandonar a vida rural.). 10 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). Migrar é um caminho de libertar-se – pelo menos em partes – de uma esfera de vida que lhes imputa a parcialidade. via de regra não é remunerado e assume jornadas mais alongadas que dos homens. 2013. Essa constatação é tão verdadeira que continua a ser verificada nas vozes daqueles que por hora se preocupam com uma possível “solidão rural”. A mulher que ajuda não trabalha e é invisível no que tange a utilização autônoma da renda. V. Ao procederem de maneira parcial e superficial. R. V. In: SCOTT. São elementos aditivos.. BRUMER. antes de qualquer coisa. P. Florianópolis. alguém que ajuda. As moças em geral percebem que não é um “bom negócio” permanecerem e reproduzirem o modelo de dominação masculina no campo. Referências AGUIAR. todo modo. L. P. O temor dos rapazes em não encontrar uma “companheira” disposta a viver com ele no meio rural é. As problemáticas de gênero e geração nas comunidades rurais de Santa Catarina. Um trabalho que. V. STROPASOLAS. os jovens masculinos encaminham ainda suas relações sociais para o isolamento... mas não é identificada como um legítimo “ator social”. embora sem perceberem que suas representações alimentam o paradoxo. Anita. As mães incentivam as filhas a saírem para não terem o mesmo destino que tiveram. 2007. Florianópolis: Ed. CORDEIRO. M. Gênero e geração em contextos rurais. O contexto onde são representadas tais concepções é o mesmo em que se vive o dilema entre ficar e sair do meio rural. uma autonomia alcançada sob o abandono de um modo de vida e não na sua transformação. Elisa Guaraná de (orgs.). Na maior parte dos casos elas evitam tal vinculação. Há uma visível insurreição daquilo que se entende como expectativa manifesta. A recusa das moças em permanecer se espraia na condição de vida que a mulher tem no meio rural. Juventude rural em perspectiva.êxodo entre as moças se referenda quando analisados os papéis sociais a elas atribuídos. um temor pela falta de braços para o trabalho. (orgs. A problemática dos jovens rurais na pós-modernidade. É. In: CARNEIRO. 2010.

Rio de Janeiro: Mauad X. B.). This position is justified if analyzed the speeches of the boys themselves the rural areas. Maria José & CASTRO. 2007. 2009. 1999.CAMARANO. In: CARNEIRO. envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos. 2007. Elisa Guaraná de (orgs. Associativismo cristão e desenvolvimento comunitário: imigração e produção social do espaço colonial no sul do Brasil. The girls are increasingly less willing to remain in the condition of subordination to which they are exposed in the rural environment. Rio de Janeiro: Mauad X. Cascavel: EDUNIOESTE. WEISHEIMER. Has an environment of aging and masculinization of the population of the field that can derail reproduction of such social practices. A. Rio de Janeiro: Mauad X. This paradox. Rio de Janeiro: IPEA. more strongly among girls. It is the latent tendency to migration of youth to urban spaces. STROPASOLAS. Maria José & CASTRO. Refuse to marry boys from rural and continue living under such a paradox. Representations. Elisa Guaraná de (orgs. Keywords: Rural Youth. Migration. Socialização e projetos de jovens agricultores familiares. E. V. Juventude rural em perspectiva.). 2007. Jovens rurais de pequenos municípios de Pernambuco: que sonhos para o futuro. Elisa Guaraná de (orgs. where women are seen as important but undervalued makes girls extend a projection of life linked to urban. Juventude rural em perspectiva. Maria José & CASTRO. ISSN 2179-510X . but has no fixed income. Rio de Janeiro: Mauad X.). Maria José & CASTRO. In: CARNEIRO. N. 2007. Juventude rural em perspectiva. A woman receives the connotation of an "essential employee" activities and farming life. where there is a reproduction of the discourse of domination and subordination of women. nor the autonomy to make decisions. M. N. Juventude rural em perspectiva.). Florianópolis. CARNEIRO. In: CARNEIRO. & ABRAMOVAY. Êxodo rural. Elisa Guaraná de (orgs. SCHALLENBERGER. A. L. 11 Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos). WANDRELEY. The bias skewed: the migration from the rural female male gaze Abstract: Rural areas in western Santa Catarina live with a crisis of reproduction of family production units. Um marco reflexivo para a inserção social da juventude rural. 2013. Therefore this article analyzes the opinion of 12 boys from the rural municipality of Palma Sola / SC regarding the reasons for the exodus of girls and thoughtfully the importance they have for playing this way of life. R.