You are on page 1of 637

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

1

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Sumário
Introdução..................................................................................................................................................3
Os Conventos Primitivos...........................................................................................................................5
O Segundo Surto Construtivo..................................................................................................................10
Similitudes e Diferenças..........................................................................................................................12
Adros........................................................................................................................................................14
Fachadas...................................................................................................................................................19
Torres........................................................................................................................................................26
Galilés e Subcoros....................................................................................................................................31
Coros........................................................................................................................................................40
Naves........................................................................................................................................................46
Arcos Triunfais e Capelas Mores.............................................................................................................59
Capelas de Irmandades e Ordens Terceiras..............................................................................................75
Sacristias..................................................................................................................................................80
Vias Sacras e Escadas das Matinas..........................................................................................................92
Portarias...................................................................................................................................................97
Claustros.................................................................................................................................................102
Salas Capitulares....................................................................................................................................106
Cozinhas, Refeitórios e De Profundis....................................................................................................111
Dormitórios e Salões de Esquina...........................................................................................................122
Bibliotecas..............................................................................................................................................126
Enfermarias, Cárceres e Outras Dependências......................................................................................135
Coberturas, Forros e Pinturas.................................................................................................................141
Azulejos.................................................................................................................................................184
Cercas, Fontes e Banhos........................................................................................................................234
Mosteiros................................................................................................................................................246
A Terceira Ordem...................................................................................................................................301
Conventos do Sudeste............................................................................................................................369
Os Conventos do Norte..........................................................................................................................412
Outros Franciscanos...............................................................................................................................443
Economia Franciscana...........................................................................................................................487
Ordens Terceiras, Sem Primeiras...........................................................................................................535
Franciscanos Pardos e Pretos.................................................................................................................571
Outras Ordens........................................................................................................................................601
Conclusão...............................................................................................................................................625
Bibliografia............................................................................................................................................628

2

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Introdução
Comecei a interessar-me pelos franciscanos ao visitar os conventos de Recife, Olinda e Igarassu. De
muito tempo, interessava-me a história e, embora superficialmente, já conhecia os conventos de
Salvador, Cairu e Paraguaçu. Não tinha, porém, visitado um convento no seu conjunto, filmando,
fotografando e procurando compreender a vida que existira antigamente no seu interior.
Em maio de 2010, estava em Pernambuco a trabalho e, numa breve pausa, aproveitei para conhecer o
Convento de Santo Antônio do Recife, incluindo a e a Capela Dourada da Ordem 3ª. Mais breve, ainda,
foi a visita a Nossa Senhora das Neves de Olinda, onde cheguei próximo da hora do fechamento e
apenas consegui visitar a igreja.
Porém, a impressão mais forte foi em Igarassu, onde cheguei num sábado ao meio-dia, estando o
convento já fechado. Afortunadamente, tinha no celular o número da Pinacoteca e consegui falar com
alguém que ainda estava lá. Por especial favor, pude visitar a igreja e o claustro e fiquei muito
impressionado pela beleza das talhas, pinturas e azulejos. Terminada a visita, ainda fiquei algum tempo
fotografando a fachada e as pinturas da galilé.
Procurei, depois, informar-me sobre esses e outros conventos, pesquisei em livros e na Internet,
revisitei, mais detalhadamente, o Convento de Cairu, e, dispondo de quinze dias livres durante as
minhas férias de 2011, decidi aproveitá-los para percorrer todos os conventos do Nordeste.
Nessa oportunidade, visitei, em Sergipe, o Convento do Bom Jesus da Glória (São Cristóvão); em
Alagoas, Santa Maria Madalena (Marechal Deodoro), e Nossa Senhora dos Anjos (Penedo); em
Pernambuco, Santo Antônio (Sirinhaém), Santo Cristo (Ipojuca), e tornei a visitar, mais
detalhadamente, os conventos de Recife, Olinda e Igarassu. Por fim, na Paraíba, percorri
demoradamente o Convento de Santo Antônio de João Pessoa. Em todos esses locais, fui cordialmente
recebido e prometi enviar, em retribuição, cópias do trabalho comparativo que pretendia elaborar.
Retornando dessa viagem, concentrei-me em contextualizar os materiais obtidos, além de revisitar
detalhadamente os conventos da Bahia: Cairu, Paraguaçu, Salvador e São Francisco do Conde. Numa
primeira ampliação do escopo, passei a documentar o Recolhimento da Boa Viagem e os dois
conventos da segunda ordem franciscana: Nossa Senhora da Lapa e Nossa Senhora do Desterro.
Paralelamente, ia tratando as imagens, editando os vídeos e coletando bibliografia.
Inicialmente, visava, apenas, compartilhar essa coletânea de fotos e documentos com as pessoas e
instituições que me ajudaram nesse percurso. As imagens recolhidas foram organizadas por convento e,
dentro dele, pela área ou objeto particular (igreja, sacristia, pinturas, azulejos etc.) de modo a facilitar a
busca e o confronto das semelhanças e diferenças encontradas. Sempre que possível, complementava a
pasta de cada convento com plantas, imagens de satélite, informações de tombamento, documentos e
descrições de diversos autores. Em pastas separadas, coloquei informações e documentos não
especificamente referentes a cada convento em particular, tais como normas gerais (liturgia, regras,
estatutos, constituições), antecedentes artísticos e iconográficos, bibliografia, etc.
3

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Incluí, ainda, documentação específica sobre conventos localizados em outras áreas, tais como a
Província da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne os franciscanos da região Sul – separada da
Província de Santo Antônio, que conservou apenas os da região Nordeste – e outros situados no
exterior, com especial interesse nos localizados em Portugal. Embora não fizessem parte do escopo
principal, os primeiros eram de interesse por terem a sua origem nesse escopo e os segundos, por
constituírem a raiz de ambas as províncias, posto que todos os conventos brasileiros foram fundados
por frades portugueses, tomando como base os que existiam no seu país de origem.
Na medida em que esse trabalho se avolumava, percebi que, sem um texto que estabelecesse os
vínculos, esse material teria escassa utilidade. Não bastava compartilhá-lo em bruto. Precisava
transmitir, com ele, o que vi e o que interpretei, as relações que encontrei entre esses elementos. Por
outra parte, senti que essas observações poderiam ser úteis para outras pessoas. Não apenas para
aquelas que colaboraram e com as quais podia estabelecer contato direto ou epistolar, mas também
outras, desconhecidas, que, seja onde for, se interessassem por este assunto.
Assim nasceu este arquivo, que não pretende ser um livro, mas apenas um documento em PDF, passível
não apenas de gravação em mídia ótica como também de compartilhamento público através da Internet,
propositalmente editado em baixa resolução para minimizar o seu tamanho.
Grande parte dos textos e imagens inclusos neste trabalho têm, ou podem ter, direitos de autor ainda em
vigor. Sempre que possível, indiquei o autor e a fonte. Nos documentos oficialmente publicados na
Internet, entendo que os próprios autores e/ou editores estão autorizando a distribuição gratuita.
Também implicitamente gratuita é a distribuição de obras de autores antigos, tais como Jaboatão, Frei
Vicente do Salvador, Pozzo, Serlio, Vignola etc.
Alguns autores autorizaram a inclusão. Contam-se neste caso as obras de Frei Hugo Fragoso e os
arquivos – plantas, textos e fotografias - cedidos pelo arquiteto Francisco Santana, bem como as
fotografias disponibilizadas pelo Museu de Igarassu, pelo Instituto Ricardo Brennand, do Recife, e pelo
Centro Cultural São Francisco, de João Pessoa. Porém, seria inviável entrar em contato com todos os
autores citados. Nesses casos, limitei-me a indicar a fonte, dando o devido crédito e esperando que o
caráter cultural do meu trabalho e a gratuidade da distribuição justifiquem essa utilização.
Uma última advertência: Não é este um trabalho profissional e, muito menos, científico. Todas as fotos
foram feitas e editadas com equipamentos domésticos, escassamente alterando o posicionamento dos
objetos e aproveitando a iluminação naturalmente disponível nos diversos locais.
Quanto à análise das informações recolhidas, não sou formado em História nem utilizei método algum,
além da observação e o bom senso. Se, de algum modo, isso compromete a confiabilidade dos
resultados, pode, também, ser vantajoso, na medida em que chego ao tema ingenuamente e sem o
compromisso de levantar teses cientificamente fundamentadas. Isso me permitiu duvidar – sem a
pretensão de refutá-las cientificamente – de algumas hipóteses que, de tão repetidas, passaram a ser
aceitas e citadas como verdades e que, na minha modesta opinião, estão muito longe de ser
comprovadas. Autores mais capacitados poderão analisar essas dúvidas e tirar suas próprias conclusões.

4

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os Conventos Primitivos

Até o período das invasões holandesas, praticamente não houve registro iconográfico dos conventos.
Os portugueses não tinham tradição de pintura de paisagens ou edifícios, exceto como complemento da
cartografia ou como simples ambientação das cenas religiosas. Nas cenas religiosas, os ambientes eram
imaginários ou copiados de originais europeus. Na cartografia, representavam locais específicos, porém
sem preocupação pelos detalhes, posto que, para fins administrativos ou militares, bastava localizar os
diversos elementos, convencionalmente identificados como ancoradouro, forte, convento, igreja etc.
A invasão da Bahia, em 1624, e a sua reconquista, no ano seguinte, deram oportunidade às primeiras
representações detalhadas da Cidade do Salvador. No detalhe da esquerda, tirado da Planta da
Restituição da Bahia, de Manoel Teixeira Albernaz, cartógrafo da Coroa portuguesa, o convento
franciscano, identificado com o número 14, é representado por um simples retângulo, aparentemente
circunscrevendo um claustro de dois andares. Não há indicação da igreja.
O detalhe ao centro, proveniente de um quadro de Juan de la Corte, pintor flamengo a serviço da coroa
espanhola, aparenta maior precisão. Há um claustro com alas que se prolongam em várias direções e,
no extremo direito, o que parece ser a antiga capela, doada aos franciscanos e demolida em meados do
século XVII para construção da igreja atual. Entretanto, não há coincidência entre esta representação e
a descrição feita por Jaboatão no Novo Orbe Seráfico. Para ser mais preciso, parece-me que Juan de la
Corte utilizou informações recolhidas posteriormente e acabou incluindo elementos não existentes em
1626. Ou seja, a imagem estaria retratando a época em que foi pintada, um momento de transição entre
os conventos primitivo e atual. Lamentavelmente, a fachada da igreja se encontra na sombra, o que nos
impede apreciar seus detalhes.
Deve destacar-se, ainda, que nenhum dos pintores esteve presente no momento da reconquista, tendo
executado suas obras por encomenda com base em informações de fontes diversas. Se isto dificultava a
correta representação dos detalhes pelos cartógrafos portugueses e espanhóis, imagine-se a situação dos
holandeses ou de outras nações inimigas. Existem não apenas plantas como também prospectos em
elevação da encosta da cidade. Porém, as indicações de edifícios são igualmente convencionais, em
muitos casos com características nitidamente nórdicas, tais como as torres e telhados extremamente
empinados por causa da neve.
5

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Essa convencionalidade é claramente visível na planta de Pierre Mortier à qual pertence o detalhe na
imagem da direita. As igrejas – entre as quais o convento franciscano, identificado com a letra D – são
convencionalmente identificadas por torres idênticas. Aliás, fora de contexto, posto que as torres com
cobertura em cúpula não eram, ainda, usuais na Bahia.

Bem mais precisas são as representações que encontramos na área sob controle holandês. Embora ainda
tenda a exagerar a inclinação dos telhados, a gravura acima apresenta uma visão bastante fidedigna
para quem se aproxima pelo lado do mar. O convento franciscano – identificado com a letra C – está
pouco detalhado, mas pode observar-se claramente uma área murada ou cerca de pau-a-pique,
precedida pelo típico cruzeiro, e uma construção reativamente complexa, onde se notam a lateral da
igreja e duas construções que parecem insinuar as alas um claustro ainda não totalmente fechado.

Observação minuciosa encontramos, finalmente, nas obras de Franz Post, pintor holandês que
acompanhou a Maurício de Nassau e chegou a ilustrar o libro de Barlaeus que narra os seus oito anos
de governo. Lamentavelmente, essas ilustrações, que pretendem oferecer uma visão geral de cada
cidade, são demasiadamente distantes para oferecerem um detalhamento adequado.

6

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Na página anterior, esquerda, o convento de Sirinhaém (letra B, atrás da casa dos governadores)
apresenta apenas três corpos de construção com pouco ou nenhum detalhamento além dos telhados. No
centro, o convento de Igarassu, que, pese a aparecer em segundo plano, após a Igreja dos Santos Cosme
e Damião, apresenta todas as características essenciais da pintura que veremos logo a seguir. Já do
convento da Paraíba (direita), apresenta-se, apenas, uma visão lateral a partir do rio e a bastante
distância da costa.

Muito mais detalhadas – aliás, as melhores que conheço – são as pinturas que o mesmo Post fez de
Igarassu. Não acredito que tenham sido pintadas do natural. Retornando à Holanda, Post aproveitou,
durante décadas, os apontamentos recolhidos durante sua estada na América para satisfazer as ânsias de
luxo dos seus conterrâneos, burgueses bem mais dispostos a consumirem pintura de paisagens que os
seus religiosos e aristocráticos contemporâneos portugueses e espanhóis.
De fato, conforme pode apreciar-se na capa deste trabalho, os quadros de Post são pinturas de paisagem
onde os edifícios foram utilizados para dar uma nota de exotismo. Porém, tudo indica que as
representações são absolutamente fidedignas.
Pelo que pode apreciar-se nessas imagens, as primeiras construções franciscanas no Brasil foram
simples, mas não precárias. A residência é pequena. A capela, bastante singela. Porém, já se notam nela
as mesmas técnicas construtivas que seriam utilizadas nos conventos maiores.
Os “Estatutos da Província”1, aprovados em 1705, porém “tirados de vários estatutos da Ordem”,
certamente anteriores à construção de Igarassu, dispunham que “de nenhum modo se possa fundar caza
de novo sem haver pessoa, ou pessoas, que se ofereçam a fazella logo de pedra, & cal, ou dar notável
esmola para ella, com que logo tenha principio, sem se fazer primeiro outra de barro; porque a
experiencia tem mostrado que as primeyras fundações, que nos seus principios naõ foram logo de
pedra, & cal, pelos annos adiante resfriou o zelo dos que pediram o tal Convento, com que os
Religiosos com seus discursos, e mendigações nem se podem bem sustentar, nem fazer o Convento
para o seu recolhimento”. Ou seja, a construção em pedra não era um luxo e sim, uma previsão para
evitar novas despesas no futuro.
1 “Estatutos da Província de Santo Antônio do Brasil”, aprovados em 14/02/1705 e confirmados em 03/01/1708.
7

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
No caso, notam-se grandes áreas de paredes rebocadas, porém delimitadas por bloques de cantaria que
garantem o alinhamento das portas e das esquinas da construção. O mesmo sistema se observa nos
edifícios atualmente conservados, sendo particularmente evidente no de Paraguaçu, que, por encontrarse em ruínas, deixa ver claramente a estrutura interna dos seus muros.

Fora os alicerces, esquinas e aberturas, as paredes eram preenchidas com pedras irregulares, entre as
quais intercalavam-se camadas de tijolos para facilitar o alinhamento horizontal. Esquinas e alicerces
eram esmeradamente alinhados com grandes blocos de cantaria. Arcos, portas e janelas tinham seu
formato definido com ajuda de tijolos. Este método de construção foi importado da Europa e encotra-se
claramente ilustrado neste desenho de “Os Quatro Livros da Arquitetura”2.

As portas e janelas de verga reta eram guarnecidas por arcos de descarga embutidos nas paredes. O
andar superior, que suportava apenas o peso do telhado, era construído apenas com tijolos para reduzir
o peso e os custos.

2 Andrea Palladio: “Os Quatro Livros da Arquitetura”. Edição veneziana de Bartolomeo Carampello, impressa em 1601.
8

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Voltando ao quadro de Post, a cantaria é claramente visível nas esquinas da capela, nos suportes laterais
do portão, no muro de contenção e nos degraus do patamar que sustenta o cruzeiro. Há, ainda,
molduras de cantaria nas janelas e peças de pedra no campanário, chegando a insinuar-se, no
coroamento, duas formas curvas que parecem volutas, já constituindo uma aplicação mais decorativa.
Também as colunas que sustentam o alpendre parecem ter sido esculpidas em pedra.
A capela é bastante simples. Não há galilé nem coro avançado. Porém, já se aprecia um alpendre, que
será o precedente da galilé e constituirá um traço comum a grande parte das capelas rurais brasileiras.
Acima dele, um grande óculo ajuda à iluminação interna, complementado por quatro janelas, duas na
parede do evangelho e duas na da epístola, o que pode constatar-se observando ambas as pinturas.
Considerando as dimensões da capela, essa iluminação natural deveria ser bastante eficiente.
O convento é pequeno. A julgar pelo número de janelas, a quadra do claustro parece equivaler à metade
da largura atual, mesmo deixando de considerar a ala depois construída para o noviciado e que hoje
hospeda a pinacoteca. Na pintura da capa, apreciam-se uma ala frontal – recuada, em relação à fachada
da igreja – e uma lateral, oposta à igreja, com o mesmo número de janelas que a frontal. A planta
existente no livro da restauração do convento3 (próxima página) sugere que apenas a igreja e a ala
frontal estavam prontas. Porém, a pintura parece indicar que, quando Post visitou o convento, ao menos
esse lado estava igualmente concluído.
Mesmo assim, o espaço interior devia ser bastante reduzido. Considerando que já naquela época
moravam 12 frades, é de supor que grande parte dele fosse ocupada pelos dormitórios, o refeitório
comum e a cozinha, que, aliás, é claramente identificável pela chaminé retangular de estilo alentejano.
Um pequeno telhado – visível na primeira pintura, junto à capela, entre o convento e o muro – pode ter
sido utilizado como portaria. Outras dependências, tais como a sala do capítulo, podem estar ocultas
pelo muro, que impede a visão das janelas inferiores. Também é possível que essas dependências não
existissem, sendo as reuniões provisoriamente efetuadas em outros espaços, tais como a igreja ou o
refeitório.
Além desse conjunto, a segunda pintura evidencia a existência de uma edificação posterior, de menor
altura, não necessariamente vinculada às construções frontais. Também as casinhas que se observam no
morro parecem pertencer ao convento, talvez uma delas sendo uma capela externa, como de fato
existiram em diversos conventos. Também é possível que constituíssem áreas de serviço.
Quanto ao campanário, não parece tratar-se de uma torre. Lembra, mais exatamente, uma “espadana”,
sineira vazada num plano só, semelhante às que ainda existem em muitos templos europeus. Exemplos
desse tipo podem observar-se nos conventos de Portugal e do sudeste do Brasil.
É digno de consideração o recuo do muro, cujos lados convergem na fachada da igreja ajudando a
definir o adro, elevado em degraus sobre o terreno circundante e hierarquizado pelo cruzeiro,
provavelmente de madeira, sobre um pequeno pedestal de pedra.

3 Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva: “Igreja de Santo António de Igarassu – Conservação e Restauro”.
9

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O Segundo Surto Construtivo
Assim como o testemunho visual de Post sobre o Convento de Igarassu ajuda a recriar, com bastante
aproximação, o aspecto dos conventos primitivos, o dos seus restauradores pode auxiliar a
compreensão da fase construtiva e reconstrutiva que se iniciou após a expulsão dos holandeses.

Após a invasão, o convento de Igarassu permaneceu despovoado até 1654. Expulsos definitivamente os
holandeses, diversos conventos começaram a ser reconstruídos. Mas este processo não seria imediato.
Embora em 1655 já tivessem começado a normalizar-se as atividades com a nomeação de um novo
guardião, Jaboatão informa que, apenas em 1665, Fr. Euzebio da Expectação “deixou feita de novo a
Igreja, e varanda”4 e que, ainda nesse mesmo ano, o seu sucessor “Fr. Francisco da Conceição,
aperfeiçoando esta Igreja nova, collocou nella o Santíssimo”. Modificações mais drásticas iriam
acontecer em 1686, quando Fr. Daniel da Assumpção, “lançando a abobeda da capella mór abayxo
por defeito, lhe mandou levantar as paredes sinquo palmos mais, como taõbem o arco da ditta capella
outros tantos palmos, e mayor largura, fazendo-se de pedra lavrada”5.
Maiores detalhes nos oferecem as pessoas que participaram da restauração. No livro da Fundação
Ricardo do Espírito Santo Silva, encontramos as duas plantas acima reproduzidas. Embora apresentem
algumas inconsistências, podem servir como base para descrever as sucessivas alterações.
A igreja – mais baixa, ainda sem a re-entrância que a planta apresenta no ângulo superior esquerdo e
possuidora de uma capela-mor de altura proporcionalmente inferior – teria sido reconstruída em
maiores dimensões. Confirmou esse fato a prospecção arqueológica, segundo a qual apenas a parede da
4 Devemos entender por varanda a atual galilé? Esta palavra poderia também referir-se à restauração do antigo alpendre,
mas o destaque dado no texto permite acreditar que se tratava de uma ampliação de vulto, muito provavelmente
correspondendo ao lançamento do coro sobre os arcos.
5 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”. Disponível em http://archive.org/.
10

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
epístola aparenta ser original. A parede do evangelho foi demolida e reconstruída para aumentar a
largura da nave, o que pode ter originado a re-entrância acima indicada. Feita essa reforma e aumentada
também a altura, o arco e a abóbada da capela-mor ficariam fora de proporção, o que, unido ao
deterioro mencionado por Jaboatão, levaria à sua reconstrução, onde não apenas aumentaria a sua altura
como seria ampliada em profundidade.
Também o claustro foi expandido, permanecendo no local apenas a parede que o separa da igreja –
precisamente, a da epístola, acima mencionada – e sendo reconstruídas as alas restantes. A essas
ampliações, já afastando-se da quadra do claustro, agregou-se, posteriormente, uma ala inteiramente
nova para instalação do noviciado.
Em algum momento – provavelmente, na reforma concluída em 1665 – a galilé substitui o alpendre e o
coro foi ampliado por cima dela. Tempo depois, provavelmente já no século XVIII, uma nova sacristia
foi construída transversalmente, por trás da capela-mor. Também entre os séculos XVII e XVIII, foram
construídas uma nova torre sineira e uma grande capela lateral para uso da Ordem 3ª. Essa capela não
mais existe. Todo o conjunto, inclusive a nova fachada e o profundo adro com cruzeiro, pode ser
apreciado nesta foto6, anterior à demolição da capela.

Similar sorte tiveram os demais conventos, alguns reconstruídos após a ocupação holandesa, outros
novos, criados logo que a vida da colônia foi recuperando a normalidade. Todos, porém, foram
construídos ou reconstruídos por partes, ao longo de várias décadas e absorvendo diversos estilos
arquitetônicos e artísticos.

6 Cortesia de Jorge Paes Barrêtto, diretor do Museu de Igarassu, quem também proporcionou informações
complementares sobre as reformas acima indicadas.
11

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Similitudes e Diferenças
Conforme já expressado na introdução, o objetivo deste trabalho é fazer um estudo comparativo entre
os diversos conventos. Por simples razões de acessibilidade e delimitação de escopo, limitou-se,
inicialmente, aos conventos do Nordeste brasileiro, entre os estados de Bahia e Paraíba. Ou seja,
aqueles que formam parte da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil.
Há muitos aspectos em comum, mas também existem aspectos diferenciais, seja em razão da
localização, da época de execução de cada uma das suas partes ou por simples opção individual dos
seus executores. É nesse jogo de confluências e discordâncias que consiste a riqueza histórica – e,
também, artística – desse conjunto de edificações.
Normalmente, a construção começava pela capela-mor, imprescindível para a celebração dos ofícios.
Concluida essa fase, continuavam as obras com a edificação da nave, coro, subcoro galilé e fachada.
Quanto ao convento, começava-se pelo dormitório, cozinha e refeitório, essenciais ao assentamento dos
frades, só se cuidando das restantes instalações depois que, ao menos, a capela-mor estivesse pronta. O
claustro se fechava tardiamente, quando os recursos possibilitavam a conclusão das três alas.
Exceção a essa regras era quando o convento recebia em doação uma capela já edificada, o que
aconteceu, por exemplo, em Olinda, Cairu e Salvador. Nesses casos, podia cuidar-se logo da construção
do convento, deixando para mais tarde a reforma ou substituição da capela para melhor adequá-la às
necessidades do culto.
“Depois de vista a traça, e aprovada – rezavam os Estatutos - a entregará a quem houver de correr
com a obra, e não alterará nela coisa alguma, para que assim nos não seja necessário desmanchar
erro, ou permiti-lo com escândalo, ou perda dos que deram suas esmolas”. Porém, sendo a planta
executada ao ritmo das esmolas recebidas, essa construção podia levar várias décadas, com o que era
inevitável a realização de alterações, melhoramentos ou simplesmente adequação aos estilos em voga.
Durante a segunda metade do século XVII e a primeira do XVIII, o ritmo de construção foi intenso,
chegando vários conventos a encontrar-se simultaneamente em obras. Considerando essa
simultaneidade e as semelhanças que se observam, alguns autores levantaram a hipótese da constituição
de equipes itinerantes, envolvendo arquitetos, entalhadores, pintores etc. Não encontrei registros
contemporâneos dessa prática. Os relatos da época apenas mencionam a participação individual de
frades ou artesãos que já tinham atuado em outro convento, o que também pode responder a uma
indicação dos Estatutos:
“Tendo o Ministro assentado com todos os Definidores, nemine discrepante, para que se aceite, e se
edifique algum Convento, escolherá o sítio acomodado com pessoas, que o entendam, e fará traçar a
casa a nosso modo Capucho por quem souber arte de edificar por algum outro Convento nosso”. Ou
seja: por falta de escolas mais formais, quem aprendera o ofício na prática, participando da construção
de um convento, aplicava depois seus conhecimentos na construção de outros. Surgia assim – de fato e
não de direito – a chamada “Escola Franciscana de Arquitetura”.
12

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
È possível identificar esses frades ou artesãos? Raramente. Diversos autores são citados para o projeto
de fachada triangular utilizado em Cairu, Paraguaçu, Recife e João Pessoa. O mesmo acontece com o
teto da nave da igreja, também em João Pessoa. Às vezes, um recibo de pagamento dá uma pista sobre
a identidade do autor. Ocasionalmente, há um registro mais explícito, como o que Jaboatão fez de Frei
Luiz, o torneiro que executou diversas talhas na igreja e na sacristia do convento de Salvador. Porém,
as mais das vezes são obras anônimas sobre as que os estudiosos se debruçam tentando identificar os
autores por simples comparação estilística.
Neste estudo, preferi não enveredar por esse caminho. Não sou um experto no assunto e as atribuições
existentes costumam ser bastante polêmicas. Tende-se a atribuir as obras a autores dos quais se conhece
trabalhos similares (às vezes, documentadamente; outras, também por atribuição – o que torna a cadeia
de inferências ainda mais duvidosa). Ignora-se, em muitos casos, a existência de inúmeros artistas e
artesãos, ainda não conhecidos, cujos trabalhos poderiam apresentar semelhanças com os de autores já
identificados, seja por simples imitação, acompanhamento de estilos em voga ou, até mesmo, por cópia
dos mesmos originais. Sabe-se, por exemplo, que muitas representações sacras encontradas em pinturas
ou azulejos eram reproduzidas de gravuras europeias, muitas vezes por expressa encomenda dos
contratantes.
Por outra parte, para este estudo, tal identificação tem escassa importância. No Brasil dos séculos XVII
e XVIII, nem a arte nem os artistas gozavam do status que hoje se lhes atribui. A arte tinha finalidades
eminentemente utilitárias e escassamente se diferenciava artistas de artesãos. Os contratantes definiam
a encomenda e os artistas eram valorizados pela perfeição com que a executassem. E, geralmente, a
perfeição – no juízo desses encomendantes – não consistia na originalidade da obra e sim, na fidelidade
ao modelo a ser reproduzido.
Nesse contexto, era raro aparecer um artista revolucionário. A evolução técnica e estética era gradativa
e dispersa, tornando-se a arte uma criação coletiva. Assim, as confluências e discordâncias que
encontramos nos diversos conventos respondem muito mais aos próprios franciscanos, à sociedade em
que estavam inseridos e às influências que, direta ou indiretamente, recebiam da Europa, que à criação
autônoma do artista.
Além disso, não podemos ignorar que grande parte das obras que hoje encontramos nos conventos era
importada. Se a dificuldade de transporte levou logo a formar arquitetos, entalhadores e escultores em
pedra, o mesmo não ocorria com as imagens, com frequência trazidas de Portugal, bem como com os
azulejos e esculturas em lioz, dos que não existia produção no Brasil. Quanto à pintura, as dificuldades
de transporte seriam menores se as obras forem de pequenas dimensões, mas a necessidade de cobrir
grandes superfícies – tais como os tetos das igrejas, sacristias e salas capitulares – gerou um fecundo
campo de trabalho para os artistas locais.
Em síntese, o que hoje observamos nos conventos é um conglomerado de realizações heterogêneas,
algumas de produção local, outras importadas, feitas ao longo de vários séculos, aproveitando
iconografias que evoluíram desde o cristianismo primitivo até os avatares da Reforma e Contrareforma. Isso tudo, reunido num conjunto coerente: São os conventos que os franciscanos construíram,
na fase áurea da expansão da Ordem no Nordeste do Brasil. Essa coerência lhes dá o caráter de
testemunhas mudas – porém extremamente eloquentes – de um lugar e uma época determinados. Daí a
sua importância histórica e a principal razão para que tenha sido sugerido o seu e tombamento como
Patrimônio Cultural da Humanidade.
13

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Adros

Mais uma vez, o convento de Igarassu nos serve de base para exemplificar uma
característica comum a todos eles. O reduzido patamar com degraus que sustenta a cruz,
no quadro de Franz Post, já prefigurava os adros dos conventos posteriores. O adro atual
– bastante ampliado e com uma fachada inteiramente nova – conserva o seu formato
ligeiramente trapezoidal, precedido por uma grande cruz sobre pedestal de pedra.
Esse formato, cujas linhas de fuga
confluem na fachada da igreja, aparece
claramente nas imagens de satélite,
principalmente, em Igarassu e João
Pessoa. Outros conventos tiveram seus
adros prejudicados pela abertura de
ruas e praças, o que atualmente não nos
permite perceber claramente o seu
traçado original.
Todos os conventos franciscanos eram precedidos por esse grande patamar, transição
entre o espaço profano das cidades e o espaço sagrado das igrejas. Ao formato
trapezoidal – que faz o efeito de uma seta e está presente em vários deles – agrega-se,
em alguns, a sucessão de degraus, de tal modo que o visitante segue um percurso
ascendente até chegar ao templo, que se encontra no ponto mais alto. Esse percurso se
prolonga, ainda, no interior da igreja, onde a grade, denominada de “cancelo”, se
encontra sobre um degrau e o altar-mor, sobre um patamar em forma de U, ao que se
acede subindo mais quatro ou cinco degraus, tornando-se o ponto mais alto do conjunto.
Ali se encontra o retábulo e, como centro dele, o trono do Santíssimo Sacramento.
14

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Todos os adros franciscanos eram identificados com uma cruz. Há, até, registros
contemporâneos indicando a existência de três cruzes, o que, aparentemente, acontecia
com mais frequência nos assentamentos missionários. Isto leva a supor que, mais do que
uma simples identificação simbólica, como lugar de culto cristão, essas cruzes
constituíssem uma representação do Calvário, talvez associada às celebrações da
Semana Santa.
Nos conventos, o cruzeiro é único, porém
monumental. Às vezes, sobriamente executado.
Outras, barrocamente imponente, tal como se
apresenta em Salvador, Paraguaçu – onde o
pedestal está ornado, em relevo, com motivos de
frutas, conchas e estranhas máscaras com barbas,
cabelos e sobrancelhas em forma de volutas – ou
em João Pessoa, coroado com esculturas que
representam águias e pelicanos.
O adro de João Pessoa apresenta outra particularidade. Distribuídos ao longo dos muros
laterais, há meia dúzia de painéis de azulejos representando passos da Paixão de Cristo.
Eles estão inseridos em nichos, a modo de capelas rasas, e apresentam uma sequência de
claro sentido processional.

A observação dessa sequência revela que – mais do que servir ao culto da comunidade
externa – essas imagens veiculavam a devoção dos próprios frades, em procissão
circular conhecida como “rasoura”. A ordem cronológica – oração no horto, prisão,
flagelação, coroação de espinhos, caminho ao Calvário – começa junto à galilé, segue
até o cruzeiro e volta pelo muro contrário até alcançar novamente a galilé. Essa via sacra
constituía, então, uma extensão do convento, fechada em si mesma, o que não impediu
que a população de João Pessoa a tomasse como própria e escolhesse o adro do
convento como ponto de saída ou retorno das procissões públicas.
15

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Fora de João Pessoa, o adro melhor conservado é, paradoxalmente, o de Paraguaçu,
apesar da destruição geral do convento. Ele é, também, o mais imponente, o mais
movimentado e o mais barroco dos adros do Nordeste, talvez perdendo, no Brasil,
apenas para o do Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo.

Situado em frente do lagamar do Iguape, o adro nasce no ancoradouro e, encerrado entre
arcos e muros coroados por grandes pináculos, sobe diversos lances de escadas que se
curvam e se bifurcam, para rodear o pedestal do cruzeiro, até alcançar a estupenda
fachada triangular que prolonga, em sentido vertical, as linhas de fuga dos muros
laterais. Visto a voo-de-pássaro, aparece assim:

16

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Vale, ainda, ressaltar o conteúdo iconográfico. Além dos relevos já mencionados, no
pedestal do cruzeiro, tanto os muros laterais quanto a fachada da igreja apresentam
abundante decoração de folhas, frutas e outros motivos naturais, provavelmente
carregados de simbolismo religioso.

Dentre os demais conventos, dois apresentam características particulares: Salvador, que
desde a reconstrução da sua igreja ficou com seu adro inserido entre imóveis
particulares, que não podiam ser removidos, e São Francisco do Conde, reformado no
século XIX com a adição de um jardim gradeado, ornado com palmeiras imperiais.
A palmeira imperial é uma espécie exótica, importada das Ilhas Maurício durante a
Regência e plantada, pela primeira vez, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, chamado
então de “Jardim de Aclimação” e depois de “Imperial Jardim Botânico”. Dali se
espalhou, como artigo suntuário, passando a ornamentar espaços nobres e, entre eles, os
caminhos de acesso às casas-grandes dos engenhos do Recôncavo.

17

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O adro de São Francisco do Conde é o único, no Nordeste, que não tem
cruzeiro. Visitando o convento, indicaram-me um pequeno pedestal
como sendo o local onde antigamente ficava inserida a cruz. Porém, é
pouco provável que fosse esse o cruzeiro original do convento, não
apenas pela simplicidade e pequenas dimensões como por encontrar-se
desfavoravelmente localizado, próximo ao muro, em posição lateral com
relação ao jardim e à fachada da igreja.
Quanto a Salvador – rodeado de edificações pré-existentes – não houve outra opção
senão construir o monumental cruzeiro no centro do largo que antecede o convento.
Assim, o largo ficou relativamente sacralizado, apesar do entorno, claramente profano.

18

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Fachadas
Característica quase invariável dos conventos franciscanos
do Nordeste é a fachada triangular onde três ou mais arcos de
meio ponto formam a galilé e sustentam, aproximadamente,
metade do coro. A outra metade encontra-se após a porta de
entrada, geralmente apoiada sobre duas colunas ou sobre um
amplo arco abatido.
O tipo mais primitivo é o que se observa no quadro de Frans
Post (página 7): Fachada inteiramente lisa, com duas janelas,
um óculo e, ainda, sem galilé, embora o alpendre de telhas
sobre quatro colunas já cumpra, aproximadamente, essa
função. O frontão, triangular, é totalmente desprovido de
adornos e acompanha rigidamente a forma do telhado.
Ligeiramente mais evoluída é a fachada de Ipojuca. Três
arcos sustentam o coro, no qual se abrem outras tantas
janelas de formato retangular, também desprovidas de
qualquer adorno. Uma simples guarda de volutas –
certamente, agregada em data posterior à da construção da
fachada – delimita o frontão triangular, ainda claramente
definido. À direita, em posição oposta à portaria do
convento, uma torre com cobertura em cúpula – também, certamente, de construção posterior –
apresenta-se alinhada com a porta principal e com a fachada original do convento, o que sugere que
fosse também essa a linha da fachada original da igreja, anterior à construção da galilé.
Jaboatão nos revela um detalhe
curioso desta fachada. O terreno em
frente da igreja, era tão abrupto que,
ao construir-se a galilé, não restou
espaço para entrar e sair pelos arcos
da frente, sendo obrigado o ingresso
pelo arco lateral da direita, único ao
qual chegava uma ladeira adequada
ao ingresso ao templo. Só muito
depois, mediante a realização de um
grande aterro, foi criado o adro
atualmente existente, possibilitando,
também, a ampliação do convento
com a construção da ala frontal onde
se encontra a atual portaria.
19

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Quando foi construída esta fachada? Certamente, não em 1606, que é a data nela inscrita. 1606 é o ano
em que a Câmara fez a solicitação formal para o estabelecimento do convento, que começou a ser
construído em 1608 e passou a ser habitado em 1610, não necessariamente com a fachada que
conhecemos. Como já foi expressado, a construção começava pela capela-mor e costumava levar várias
décadas para completar a nave, o coro e a galilé.
Bastante mais precisa é a indicação de Jaboatão sobre o convento de Salvador. Ele afirma que “Pelos
de 1622 se alargou o choro da Portaria athe os arcos”. Refere-se à igreja primitiva, recebida em
doação pelos franciscanos e sucessivamente ampliada até ser substituída pela construção atual, na
segunda metade desse mesmo século.
A expressão “se alargou o choro da Portaria athe os arcos” é
sugestiva. Ela permite imaginar que os arcos já existissem, ou seja,
que a galilé constituísse um exo-nartex, talvez semelhante ao da
Igreja de São Francisco de Évora7. Admitida esta hipótese, os arcos
constituiriam, apenas uma cobertura para a galilé, potencialmente
mais duradora que o alpendre de telhas, sendo depois aproveitados
como suporte para a ampliação do coro.
Bem diferente é a expressão utilizada por Jaboatão ao referir-se à
frustrada intenção de implementar similar solução na igreja nova:
“Este defeito da longitude da Igreja se pretendeo remediar, quando
se continuou a sua fabrica, lançando adiante da parede principal do
frontispicio huã parte do choro sobre arcos”. Neste caso, o objetivo
inicial é claramente a expansão do coro e os arcos, o meio a ser
implementado para atingir esse objetivo.
De fato, essa parece ter sido a regra geral durante todo o século XVII: Fachada com galilé de três arcos
e coro avançado com três janelas. Ainda são assim as igrejas de Ipojuca, Igarassu, Olinda, Penedo,
Marechal Deodoro e São Cristóvão, constando em Jaboatão que também Cairu e Paraguaçu respondiam
a esse esquema. Aliás, essa disposição não era privativa dos conventos franciscanos, ocorrendo também
em diversos estabelecimentos carmelitas e beneditinos.
Um padrão inteiramente novo é o representado pelas igrejas de Recife, João Pessoa e – a partir das
reformas ocorridas no século XVIII – também em Cairu e Paraguaçu. Numa criação eminentemente
erudita, a fachada toda é inscrita num triângulo, tendo como vértice superior o topo do frontispício e
como extremos, dois arcos adicionais, perfazendo um total de cinco. Dentro desse triângulo virtual,
toda a estrutura do edifício fica escondida atrás de uma complexa estrutura de volutas, pináculos e
outros adereços.
Fora a intenção exclusivamente estética, essa estrutura tinha a vantagem funcional de reunir, num
conjunto único e monumental, os acessos à igreja, ao convento e às dependências da Ordem 3ª. Essa
função está claramente sintetizada nas descrições de Jaboatão:
Sobre Recife: “...e hum bem ordenado antiportico, correspondente aos sinquo arcos de pedra lavrada,
três sobre que assenta a parede principal do Frontispício, e dous aos lados destes três, hum, que dá
entrada para a nossa portaria, da parte do Norte, e outro ao Sul para a portaria dos Terceyros”.
7 Imagem de Georges Jansoone, reproduzida do site Wikimedia Commons.
20

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Sobre João Pessoa: “O seo frontispício he
o mais vistozo, naõ só de todas as nossas
Igrejas, mas ainda das que por estas
partes se achaõ. Está fundado sobre
sinquo arcos de pedra lavrada, e da
mesma saõ todos os seos cornijamentos, e
mais obras, com que se remata. Três
destes arcos correspondem ao corpo da
Igreja, e sobre elles assenta parte do
choro. Os outros dous, que ficaõ aos lados
destes, pelo da parte esquerda se entra
para a caza da Portaria, e pelo outro da
parte direita se passa para a capella, e
obras da Ordem Terceyra”.
A mesma junção ocorre em São Francisco do Conde, embora a fachada desse convento – também com
cinco arcos – não se inscreva no formato que estamos analisando, sendo a fachada marcadamente
vertical, delimitada por duas torres. Em Cairu, também com fachada de cinco arcos, essa junção não
chegou a ocorrer. Observando a planta, é possível que essa intenção tenha existido, mas não pode ser
constatada porque a igreja da Ordem 3ª ficou inconclusa. Já no convento de Paraguaçu, talvez pelo
afastado do local ou por estar dedicado ao noviciado, não parece ter sido constituída uma Ordem 3ª.
Quanto aos conventos com galilé de três
arcos, a junção se observa também –
embora em forma mais modesta – no de
Igarassu, onde a galilé conta com portas
laterais que cumpriam a função de integrar
ambas as ordens. Essa função foi perdida
com a demolição da Ordem 3ª, ficando em
uso apenas a porta da direita, que ainda
serve de acesso à portaria do convento.
A fachada triangular com cinco arcos, três janelas e cruz no topo é uma criação ao mesmo tempo
original, bela e funcional. Ela sobrepõe a uma base de arquitetura chã portuguesa elementos diversos
de origem clássico-renascentista que possibilitam a diluição da arquitetura numa forma ideal.
As volutas foram utilizadas desde a
antiguidade clássica. Assim, por exemplo,
constituem, em duplas, a característica
essencial do chamado capitel jônico.
No Renascimento, Leon Batista Alberti
utilizou volutas invertidas – em curva e
contra-curva – para esconder os telhados
das naves laterais de Santa Maria Novella,
em Florença, e Vignola repetiu a
experiência na Igreja de Jesus, em Roma.
21

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
A fachada franciscana, dividida em três corpos,
utiliza dois pares de volutas: um vinculando o
corpo inferior ao médio e outro, o médio ao
superior. Em conjunto, essas volutas ajudam a
organizar o espaço em forma triangular, porém
afastando a rigidez geométrica, suavizando os
contornos e criando movimento visual.
No Convento do Paraguaçu, a cada voluta
corresponde um grande pináculo. Esses pináculos
geram um vigoroso movimento vertical reforçado
pelo formato do frontão. Todo o conjunto,
passando pela imagem do frontispício, culmina na
cruz, no topo, apontando diretamente ao céu.
Por cima das janelas do coro, as igrejas de Cairu e São Francisco do Conde apresentam nicho central
com a imagem do orago, o que também ocorre em São Cristóvão, Marechal Deodoro e Olinda. Pelo
contrário, Ipojuca, Recife, Igarassu e João Pessoa exibem o brasão franciscano, em relevo. Paraguaçu e
Salvador se diferenciam por apresentar ambos os elementos, sobrepostos e Penedo, por não apresentar
nenhum deles. No seu lugar, diretamente em baixo da cruz, há um escudo coroado e sustentado por
dois anjos onde, sob uma estrela, aparece o nome do orago: “Santa Maria dos Anjos”.

Quem – e quando – criou essa fachada triangular? Repete-se, em forma quase inconteste, que se
originou em Cairu, depois espalhando-se para outros conventos. Não encontrei, em abono dessa
hipótese, outro indício que a data de início da construção. Sendo Cairu (1654) anterior a Paraguaçu
(1658), teria lhe precedido também no desenho da fachada. Já Recife e João Pessoa, embora anteriores
pelas datas de fundação, foram muito danificados durante a ocupação holandesa, sendo reconstruídos
em datas posteriores.
Ignora esta tese que os conventos eram construídos aos poucos e, normalmente, começando pela
capela-mor para terminar na fachada. Muito embora os Estatutos dispusessem que “quem houver de
correr com a obra não alterará nela coisa alguma” é fartamente evidente que tais alterações não
apenas aconteciam como eram inevitáveis em obras que se prolongavam por várias décadas e, mesmo
depois de concluídas, podiam ser objeto de diversas reformas.
22

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
No caso, parece-me indubitável o testemunho de Jaboatão, que estudou em Paraguaçu, visitou Cairu,
ensinou em Salvador e Recife, foi guardião de João Pessoa e foi, ainda, oficialmente incumbido de
fazer a crônica da Província. Ele afirma, categoricamente, que a Igreja de Cairu “Tem tres altares como
as mais, e parte do choro sobre três arcos de pedra lavrada, que formão a perspectiva do frontispício”.
Ainda mais explícito, ao falar em Paraguaçu, esclarece que “Tem a Igreja o frontispício sobre tres
arcos para a parte do Poente, e bem á margem das agoas do Rio, para o qual se desce por alguns
degráos de tijolo com seos pateos entre meyo, athe o cais aonde desembarcaõ os que por aquella parte
querem subir à Igreja, que os que tomaõ outros portos mais abayxo, entraõ pelo arco do lado
esquerdo, e por bayxo do choro, por onde passaõ á Igreja pela porta principal, ou para o Convento
pelo outro arco do lado direito, em que está a Portaria”.
Em nenhum destes casos indica que os frontispícios se encontrassem inconclusos, cabendo interpretar
que foram concebidos exatamente assim, que estavam prontos, em perfeito uso, e que só vieram a ser
modificados em datas posteriores.
Por outra parte, em Paraguaçu encontramos duas datas gravadas:
1660, na porta da igreja, e 1686, na portaria avançada. Partindo da
base que a primeira pedra foi colocada em 1658, não podendo a
data 1660 referir-se a essa solenidade, cabe interpretar que ela
indica a conclusão da igreja com sua fachada inicial (não
necessariamente com galilé) e a segunda dessas datas registra a
ampliação da portaria do convento, hoje inserida no vão do arco
lateral esquerdo da galilé.
Que essa construção é anterior à galilé de cinco arcos o evidencia
a deficiente adaptação desse vão com a cartela que encima a
entrada da portaria. A obstrução parcial da porta e do brasão leva a
inferir que o prolongamento do coro foi realizado sobre apenas
três arcos, não prevendo, ainda, a extensão que levaria a galilé a encontrar com a portaria. Quando o
quinto arco foi adicionado, o topo do brasão ficou ligeiramente abaixo da linha das abóbadas da galilé.
Pode-se concluir, a partir destas informações, que a atribuição da primazia a Cairu estava errada e que
tanto ele como Paraguaçu copiaram esse modelo de Recife ou João Pessoa? Certamente, não. Jaboatão
estudou em Paraguaçu em 1717 e permaneceu na região até 1725. Posteriormente, esteve em
Pernambuco (1736-1737) e na Paraíba (1741-1742 e 1751-1753). Retornou a Salvador em 1755, mas
não consta ter revisitado os conventos do Recôncavo. Portanto, ao tempo que ele escreveu, eles
poderiam estar já reformados sem ter chegado ao seu conhecimento.
Também não podemos estabelecer as portadas de três e cinco arcos como fases sucessivas. É inegável
que as primeiras precederam e serviram de base ao desenvolvimento das segundas. Porém, também é
certo que nem todos os conventos optaram pelo novo desenho. Enquanto igrejas antigas, como as de
Olinda e Igarassu, tiveram suas fachadas reformadas para – mesmo sem os cinco arcos – imitarem o
desenho triangular, outras mais recentes, a exemplo de Penedo, Marechal Deodoro e São Cristóvão,
mantiveram o formato tradicional. Quanto à de Sirinhaém, não é possível inscrevê-la em nenhum estilo
porque foi demolida em consequência do desabamento da torre. Salvo o registro de Jaboatão 8, segundo
o qual a igreja tinha galilé de três arcos, não encontrei testemunhos escritos nem imagens que permitam
reconstituir a fachada em seu conjunto.
8 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.
23

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Resta analisar dois casos que se afastam de
ambos os padrões. Em primeiro lugar, o
convento de Salvador, sede da Província, capital
do Brasil e a mais importante cidade portuguesa
ao sul do Equador, teve a sua igreja reconstruída
entre o último quartel do século XVII e o
primeiro do XVIII.
O Brasil já não era o mesmo. Expulsos os
holandeses, retomado o crescimento econômico
e aberto um ciclo de prosperidade que o
colocava à cabeça das colônias, fazia questão de
mostrar a sua opulência.
A igreja conventual, excessivamente modesta
para as necessidades do momento, foi sendo
substituída aos poucos.
O novo edifício começou pelo claustro do antigo
convento, onde foram edificados a capela-mor e
o transepto até a altura dos púlpitos.
Derrubado o muro que a separava da nave antiga, a construção continuou até atingir o nível da rua,
onde o coro deveria prolongar-se sobre arcos, o que não chegou a acontecer por oposição dos
proprietários das casas vizinhas. Em lugar disso, a fachada cresceu lateralmente, com duas grandes
torres gêmeas, a exemplo da Sé, das matrizes e da Igreja do Colégio, que lhe ficava em frente.
O típico modelo franciscano limitou-se ao frontão, triangular, com volutas, cruz, brasão e nicho do
orago. O resto é rígido, com abundância de cantaria, aberturas de formatos não demasiado harmônicos
e tímidas volutas sobre as janelas, tentando dar algum barroquismo a um conjunto onde predominam as
retas e curvas “bem comportadas”, próprias do Renascimento. As torres, quadradas, alinhadas com a
fachada e coroadas por coberturas piramidais de feição bastante arcaica, destoam consideravelmente do
frontão barroco. O conjunto é imponente, mas tem uma aparência estranhamente quebrada, como se
fosse construído colando partes de igrejas diferentes.
Essa impressão não é exclusivamente minha. Carlos Ott, que foi franciscano, afirma: “Os frades de
Salvador já eram demasiado bairristas e convencidos da sua cultura superior […] introduzindo
enfeites barrocos, trabalhando só com tesoura e cola, sem saber dar harmonia ao novo frontispício.
Assim, continuaram a predominar as linhas renascentistas quando quiseram construir uma igreja
barroca. Que no interior conseguiram dar um aspecto barroco, foi devido à sua abstenção na
decoração, que entregaram a entalhadores profissionais”9.
Bastante mais harmônica é a fachada de São Francisco do Conde. O convento também era antigo,
fundado em 1618, e fora reconstruído em maiores dimensões em 1649, mas a igreja ainda era a
original. As obras da nova igreja foram iniciadas em 1718 e a fachada, construída em 1723, sofreu
evidente influência da que estava sendo concluída em Salvador – especialmente, na incorporação das
duas torres com coberturas piramidais – mas soube manter uma integração mais fluente com o modelo
imperante nos demais conventos.
9 “A Contribuição Baiana na Formação da Arte Regional”, em UNIVERSITAS, Revista de Cultura da Universidade da
Bahia, N.os 6/7, maio a dezembro de 1970.
24

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
A galilé está plenamente desenvolvida em
cinco arcos que – à semelhança de Recife e
João Pessoa – vinculam os acessos à igreja, ao
convento e às dependências da Ordem 3ª.
Há um equilíbrio adequado entre a cantaria e
as superfícies lisas, rebocadas e pintadas.
Tanto o frontispício quanto as molduras,
máscaras e volutas são francos, decididos.
Todo o conjunto apresenta uma harmonia de
desenho muito superior à que pode observarse em Salvador. No desenho da sua fachada,
esta foi a última das grandes construções
franciscanas no Nordeste.

25

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Torres
Assim como a primazia de Cairu no desenvolvimento da fachada triangular, supor que a
torre “recuada” é característica distintiva dos conventos franciscanos do Nordeste é
afirmação que vem sendo repetida por diversos autores, chegando alguns deles a
insinuar, como origem, as basílicas de São Francisco e Santa Maria dos Anjos, em Assis.

Em ambos os casos, o recuo é muito maior que nas igrejas brasileiras e responde a
critérios bem mais antigos. As torres encontram-se próximas do fundo da igreja. Mais
precisamente, próximas da sacristia e das áreas privativas do clero. Nas ordens
monásticas, situavam-se em posição aproximadamente central quanto ao grupo de
edifícios (e, consequentemente, à comunidade usuária), como ainda pode observar-se em
Salvador, nos conventos da Lapa e Santa Clara do Desterro.
A partir dos embates entre Reforma e Contra-reforma – e, muito especialmente, a partir
do Concílio de Trento – esse enfoque mudou radicalmente. A pregação passou a ser
objetivo central e as igrejas se voltaram para a população leiga. As fachadas adquiriram
fundamental importância e as torres passaram a integrá-las, como chamariz visual e
sonoro para a afluência de fiéis aos cultos comunitários. Nesse contexto, não mais
haveria uma razão funcional que motivasse o recuo.
Além disso, não é verdade que todos os conventos franciscanos do Nordeste tenham
adotado esse “recuo” e tampouco que os franciscanos tenham sido os únicos a utilizá-lo.
Apenas Cairu, Igarassu, Ipojuca, João Pessoa, Olinda, Paraguaçu e Recife apresentam
essa disposição. Penedo também apresenta recuo, porém em diferente proporção.
26

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Marechal Deodoro, Salvador, São Cristóvão e São Francisco do Conde não apresentam
recuo algum, mantendo as torres na linha da fachada.
Quanto à suposta exclusividade dos franciscanos, cabe assinalar, como exemplo, que
tanto o convento carmelita de Cachoeira quanto o das ursulinas da Soledade, em
Salvador, têm exatamente a mesma disposição de igreja, galilé e torre. Já no mosteiro de
São Bento de Salvador – à semelhança de Penedo - a galilé avança da linha das torres
com três arcos de largura e dois de profundidade.
Considerando apenas os conventos franciscanos e relacionando-os com as fases da sua
construção, observa-se que o suposto recuo corresponde, quase exatamente, ao
alinhamento original das respectivas fachadas. Veja-se como exemplos – da esquerda à
direita – as plantas dos conjuntos monumentais de Cairu, Ipojuca, Paraguaçu e João
Pessoa, onde a quadra original do claustro e igreja foi destacada em azul, a torre em
verde e a galilé, em rosa.

Pese a aparentar o contrário, o mesmo
pode ser constatado em Olinda (direita). A
torre estava alinhada com as fachadas da
igreja e do convento. Só que, neste caso,
também cresceu a portaria – hoje, capela
de Santa Ana – aqui sinalizada na cor
amarela. O mesmo aconteceu em Salvador,
onde a portaria original foi ampliada até
emparelhar com a fachada da igreja. Por
esses exemplos, fica claro que não é a torre
que é recuada e sim, a galilé que avançou à
frente das fachadas originais.
27

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Isso não significa que, necessariamente, toda torre recuada deva estar no alinhamento de
uma fachada anterior. Tendo ocorrido algumas vezes e passando a constituir um
exemplo, o recuo pode ter sido incorporado aos usos construtivos dos franciscanos. De
fato, isso pode ter ocorrido em Penedo, onde a torre parece ter sido intencionadamente
recuada até encostar na capela da Ordem 3ª, possibilitando uma galilé mais ampla, com
três arcos frontais e dois laterais (hoje escondidos atrás de um telhado que alberga duas
capelas internas). A torre foi construída por último, o que fica evidente pela cornija do
fundo da galilé, que ainda aparece embutida no interior da torre.

Via de regra, a torre era construída junto à igreja e do lado oposto ao convento,
comunicando-se com este através do coro. Assim ocorre em Cairu, Igarassu, Ipojuca,
João Pessoa, Olinda, Penedo e Recife. Pelo contrário, em Marechal Deodoro, Paraguaçu
e São Cristóvão, ela fica do lado do convento, por cima da portaria.
Salvador têm torres nos dois lados. São Francisco do Conde, também. Porém, apenas a
torre do lado do convento é utilizada. Embora exista, no coro, a porta correspondente, a
segunda torre não tem sinos e, em ambos os casos, o corredor que deveria conduzir a ela
não chegou a ser construído.
Todas as torres tem planta quadrada e janelas sineiras em arco de meio ponto. As
paredes são rebocadas ou azulejadas, com esquinas de cantaria, podendo apresentar
janelas para iluminação das escadas.
Em três conventos – Cairu, Salvador e São Francisco do Conde – as torres têm
coberturas piramidais revestidas com azulejos, de nítido padrão renascentista. As
restantes tem pequenas cúpulas, geralmente sobre tambores curtos de formato octogonal.
28

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As mais elaboradas são as de Recife e João Pessoa, que, embora mantendo o formato
octogonal, apresentam acabamento globular em degraus, coroado por cataventos de
ferro. A torre de Recife tem um relógio adaptado nos arcos das janelas sineiras. Em João
Pessoa, inscrita em azulejos no tambor de base, consta a data de conclusão: 1783.

Vários conventos tiveram relógios. Ainda existe o de Recife. Em Salvador, só restou o
mostrador. Também em São Francisco do Conde, artisticamente elaborado em azulejos.
Em Cairu e Ipojuca observei máquinas, mas não há mostrador à vista. Suponho que se
trate de dispositivos temporizadores para automatizar o toque dos sinos.

Duas torres desapareceram: Sirinhaém, que desabou em 1880, e São Cristóvão,
demolida em meados do século XIX porque a base, de adobe, não suportava o seu peso.
Em 1908, os frades alemães que estavam restaurando a Província reconstruíram essa
torre num formato bastante criticado. Dizia-se que lembrava um capacete antigo.
Em 1938, uma nova reforma lhe deu um aspecto Art Déco, visivelmente inadequado ao
resto do convento.
Finalmente, em 1941, o IPHAN optou por uma solução conservadora, baseada num
simples telhado, quase plano.
29

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não foi a solução mais feliz, mas sim, talvez a mais prudente. Visto do nível da praça, o
telhado não aparece e a torre parece estar descoberta, dando à fachada uma aparência
estranhamente trunca. Responde, entretanto, a um critério já aplicado em outros
monumentos históricos: “O que não se sabe, não se inventa”.
Se não se conhece a aparência original de um edifício, a reconstituição hipotética tem
grandes chances de ser equivocada e, transcorrendo algum tempo, confundir não apenas
os observadores quanto os estudiosos, que terão dificuldade em diferenciar o que é
original do que foi imaginariamente recriado.
Diante dessa possibilidade e da ausência absoluta de fotografias, pinturas ou qualquer
outro elemento que permita reconstituir o monumento com fidelidade, a atitude mais
prudente é apenas restaurá-lo nas suas funções básicas (no caso, portaria e torre dos
sinos), dando-lhe o acabamento mais simples que for possível e abstendo-se de imaginar
o que não houve forma de conhecer.

30

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Galilés e Subcoros
Praticamente todos os conventos franciscanos tinham um acesso coberto, que podia ser
desde um simples alpendre até uma galilé de três ou cinco arcos como vimos nas
fachadas brasileiras. Alguns autores enxergam nisso uma influência dos nartex
bizantinos. Menos distante me parece a influência do renascimento italiano e, através
dele, da arquitetura greco-romana. Basta folhear os livros de Palladio, Serlio e Scamozzi
– certamente, conhecidos pelos arquitetos franciscanos – para encontrar exemplos não só
de arcos e abóbadas como de nartex completos com três, cinco ou mais vãos (sempre em
número ímpar para destacar, simetricamente, uma entrada principal centralizada).
A presença de um pórtico sustentado por colunas arquitravadas já era habitual nos
templos gregos, então rodeando quase por completo o recinto central. Os romanos
inventaram o arco, que permite suportar pesos maiores. Aplicando o mesmo princípio,
desenvolveram também a abóbada e a cúpula. Com a necessidade de suportar estruturas
mais pesadas, sacrificaram-se parte das aberturas limitando-se a área porticada ao centro
da fachada principal. Embora circular, a igreja de Santa Agnese, desenhada por Palladio,
já apresenta um nartex bastante similar às galilés franciscanas do Nordeste.

31

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Quanto à prática de estender o coro sobre a galilé – não necessariamente sobre arcos de
meio ponto – há numerosos exemplos em Portugal, onde era mais habitual a presença de
um único arco abatido, como pode observar-se nas seguintes ilustrações10:

No Brasil, já consideramos, como antecedentes, o alpendre de Igarassu, em Franz Post, e
a ampliação do coro de Salvador sobre os arcos, na menção de Jaboatão.
Observando o estado atual dos conventos, percebemos dois tipos de cobertura. Apenas
em Cairu e Paraguaçu a galilé está coberta com abóbadas de arestas. Nos restantes
conventos, a cobertura é, simplesmente, um forro de madeira escondendo o piso do coro.

Nos exemplos acima – Cairu e João Pessoa – pode observar-se que, embora os arcos
frontais sejam de meio ponto, os internos são abatidos para aumentar a profundidade da
galilé. O mesmo ocorre em Paraguaçu, mas não em São Francisco do Conde, onde todos
os arcos são iguais.
Excepcionalmente, em João Pessoa, o mesmo recurso foi utilizado para ampliar, com
arcos abatidos, os acessos ao convento e à Ordem 3ª, nos dois extremos da fachada, o
que não diminui a importância da igreja, acessível pelos três arcos centrais.
10 De esquerda a direita: Santo António de Monção, Santa Maria de Mosteiró e Santo António de Ponte de Lima. Fotos
reproduzidas de Ana Paula Valente Figueiredo: “Os Conventos Franciscanos da Real Província da Conceição”,
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2008.
32

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outra diferença é a existência ou não de decorações. Em Cairu e Ipojuca, por exemplo,
as coberturas são lisas. Em Paraguaçu há moldagens em relevo no cruzamento das
abóbadas (esquerda). João Pessoa e São Francisco do Conde (direita) apresentam
imagens pintadas. Igaraçu (centro) tem teto em caixotões com retratos – certamente,
hipotéticos – de diversos santos franciscanos. Em todos os casos, o motivo central é o
brasão da Ordem.

Outra característica especial do convento de Igarassu é o particular recurso arbitrado
para a sustentação dos arcos. Cada pilastra é ornamentada com duas colunas por lado, de
maneira que o arco parece apoiar-se nas colunas e não na pilastra. O efeito é
particularmente delicado, simultaneamente clássico e barroco11.

11 Diagrama de Germain Bazin reproduzido de “Igreja de Santo Antonio de Igarassu. Memoria e Futuro. Continuidades
Barrocas”. Fundacao Ricardo do Espirito Santo Silva.
33

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Embora a galilé fosse, por definição, um espaço aberto, a sua conservação e adequado
asseio aconselhavam restringir o acesso abusivo ou em horários impróprios. Apenas
Igarassu e Ipojuca se conservam totalmente isentos de proteção. Paraguaçu, Cairu,
Marechal Deodoro e João Pessoa têm grades de madeira, sendo que as de Paraguaçu,
repostas em data recente, são serradas em corte reto e as outras três, antigas, torneadas.

Passando a galilé, encontra-se a porta da igreja, geralmente almofadada, cuja moldura
pode ser simples, como em Igarassu, ou mais elaborada, como em São Francisco do
Conde. Em João Pessoa existem uma porta principal e duas secundárias, todas elas
emolduradas com elaborados trabalhos de talha em pedra calcária.

Em alguns casos, há indícios de ter sido esse o nível original da fachada. Por exemplo,
em Paraguaçu, onde a porta da igreja – extremamente simples – exibe a data 1660,
enquanto a da portaria – um pouco mais elaborada – registra a de 1686. Como pode
observar-se na página 23, a falta de alinhamento dessa porta com a linha das abóbadas
indica que a galilé foi construída após essa data e a referência de Jaboatão aos três arcos
originais permite inferir a existência de um momento ulterior em que foram
acrescentados os dois arcos restantes e completada a atual fachada triangular.
34

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Entrando na igreja, encontramos o subcoro. Esse espaço está coberto pela metade interna
do coro, encontrando-se a outra metade sobre a galilé. Normalmente, essa parte do coro
se sustenta sobre duas colunas, aos lados do corredor central, mas também pode
prescindir delas, apoiando-se sobre mísulas ou numa viga embutida nas paredes laterais
da igreja. Exemplo da primeira solução é Sirinhaém (esquerda), coincidindo com ela as
igrejas de Cairu, Igarassu, Ipojuca, João Pessoa, Penedo, Salvador e São Francisco do
Conde. A segunda solução pode observar-se em Marechal Deodoro (direita), aparecendo
também em Olinda, Paraguaçu e São Cristóvão.

Na maioria dos conventos do Nordeste, o forro do subcoro é
plano. Porém, em Olinda e Cairu, ele se curva nos extremos,
lembrando o formato de um arco abatido.
Esse formato é bastante comum nos conventos portugueses,
onde acompanha o arco abatido que serve de acesso à galilé.

35

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A pintura do forro pode ser um simples medalhão, como em Marechal Deodoro,
Penedo e São Francisco do Conde, ou abranger um conjunto de três painéis, em
caixotões, como em Igarassu, ou integrados, como em João Pessoa.

36

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Salvador, à semelhança do teto da nave, a pintura do forro do subcoro está composta
em caixotões de inspiração serliana.

Habitualmente, o subcoro alberga uma ou duas pias de água benta, destacando-se as de
Salvador, que, segundo registro existente no convento, foram doadas pela Coroa sob o
reinado de D. João V.

Nem todos os conventos conservam o acesso com galilé e subcoro. Em Salvador, a
galilé não chegou a ser construída por oposição dos proprietários dos imóveis vizinhos.
Em Sirinhaém, o desabamento da fachada antiga levou obrigou a demolir a galilé. Em
Olinda, Recife e Penedo, a galilé foi sacrificada para aumentar a capacidade interna das
respectivas igrejas. Essa incorporação é claramente visível em Olinda, onde o subcoro
ainda conserva a sua pintura original enquanto o teto da galilé apresenta um forro de
madeira lisa em caixotões, visivelmente agregado para preencher esse espaço.
37

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Vários conventos apresentam capelas laterais nas áreas de
ingresso. O mais comum é ficarem aos lados da galilé. Porém, em
dois deles as encontramos junto ao subcoro.
Em Ipojuca, uma capela, do lado direito, é utilizada como
batistério. Conserva-se nela o brasão franciscano que encimava o
arco da capela-mor à época do incêndio.
O outro caso é o de Penedo, que apresenta características bastante
peculiares.

Também em Penedo a galilé foi sacrificada para ganhar espaço no interior da igreja.
Porém, à diferença dos demais conventos, ela não tinha a profundidade de um arco
normal, nem o arco foi abatido para aumentá-la. A galilé tem a profundidade de dois
arcos plenos, ocupando totalmente a superfície em baixo do coro. Ao fechar-se a galilé,
um telhado lateral possibilitou a transformação desses dois arcos em capelas.
38

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Finalmente, cabe considerar um elemento bastante comum nas igrejas brasileiras do
período colonial e que apenas em três casos encontrei nos conventos em estudo: É o
tapa-vento, elemento que tinha grande utilidade, não apenas para evitar que o vento
apagasse as velas, mas também para garantir o recolhimento do ambiente, isolando,
visualmente, o interior da igreja das perturbações externas.
O mais interessante é o de Cairu: um painel de madeira, pintado com motivos florais de
ambos os lados e com imitação de mármore na base, provisto de rodas para facilitar o
seu deslocamento.

Em Salvador, o tapa-vento não tem rodas e sim, bases fixas de madeira. Em
compensação, ele apresenta porta de duas bandas, permitindo a abertura ou fechamento
conforme a necessidade do momento. A mesma solução foi usada em Olinda. Porém, as
portas envidraçadas e a montagem com ferro em L evidenciam tratar-se de uma
implementação relativamente recente.

39

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Coros

Tipicamente, o coro dos conventos franciscanos do Nordeste é um espaço quadrado ou
retangular, cercado em três dos seus lados por linhas de assentos – chamadas cadeirais –
e aberto o restante para a nave da igreja, limitado apenas por uma grade de madeira
vazada, a modo de guarda-corpo, centrada esta por um retábulo onde, geralmente, há um
Cristo crucificado. No centro do coro está o ambão, suporte giratório de madeira para
textos e partituras.
Tinha esse coro especial importância, constituindo-se em local preferencial para os
cultos internos do convento. Enquanto a nave da igreja servia, principalmente, para
receber o público leigo, os religiosos se reuniam no coro para fazer a oração
comunitária.
Nos conventos brasileiros, o coro fica aos pés da igreja, por cima da galilé e do trecho
inicial da nave que, por essa razão, é chamado de subcoro. O relacionamento com o
40

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

público assistente, possibilitando a interação nos cultos comunitários, acontecia através
de uma abertura central, em baixo do retábulo, acrescida, às vezes, de uma sacada a
partir da qual um frade podia falar ou cantar dirigindo-se ao público reunido em baixo.

Tanto o cadeiral quanto o ambão costumam ser esmeradamente entalhados com volutas
e motivos vegetais e animais, que também podem ocorrer na ornamentação do retábulo.
As três fotografias precedentes são de Igarassu. Abaixo, a partir da esquerda: cadeiral de
João Pessoa, ambão de Salvador e suportes laterais do retábulo de Igarassu.

Nos coros assim estruturados, tem especial destaque o retábulo central, em formato de
lira, ornado com volutas e motivos fitomorfos. Dourado, policromado e protegido por
um dossel para possibilitar o seu fechamento com cortinas na Semana Santa, hospeda
sempre um Cristo crucificado, geralmente de grandes dimensões e feitura muito
elaborada. No verso – ou seja, do lado que fica visível ao público reunido na nave – há
um círculo de raios que lembra uma custódia com o Santíssimo Sacramento no centro.
Não se observa esses detalhes em todos os conventos, mas sim, ao menos, em Cairu,
Igarassu e João Pessoa, onde foram registradas as seguintes fotografias.
41

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O coro de Salvador tem características especiais. Uma delas é a presença, no retábulo,
de anjinhos que apresentam os símbolos da Paixão de Cristo.

Porém, mais especial ainda é a inclusão das relíquias. Cada um dos pequenos nichos
ovais, nos lados do retábulo, contém uma relíquia de um santo diferente. A chave para
compreender o seu significado a encontramos nas Constituições do Arcebispado12:
“Nenhum Catholico pode duvidar que as Reliquias dos Santos approvadas pela Igreja,
ou sejam parte do seu corpo, ou outras cousas que em vida, ou depois da morte os
tocassem, devem ser veneradas, porque assim o dispoem o Sagrado Concilio Tridentino,
condenando por erro affirmarse o contrario. Por tanto, mandamos que assim se faça, &
guarde, & que estejam postas em engastes, vasos, ou relicários, & guardadas em
lugares taõ decentes como convem, & quando as mostrassem ou expusessem, seja com
velas acesas no Altar estando o Ministro com a sobrepeliz vestida”.
12 Sebastião Monteiro da Vide: “Constituições Sinodais do Arcebispado da Bahia” - 12/06/1707.
42

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Além das relíquias contidas nesses receptáculos, um crânio completo se destaca em
baixo do crucifixo. A explicação dessa presença está em Jaboatão e vale a pena de ser
reproduzida na íntegra:
“No anno de 1700, hindo votar, como Custodio desta Província o Irmaõ Pregador Fr.
Vicente das Chagas no capitulo Geral celebrado em Roma neste mesmo anno, em o qual
foi eleito em Ministro de toda a ordem o Reverendíssimo Fr. Luiz da Torre, Hespanhol, e
sendo Pontífice que ao tal capitulo prezidio, o Sanctissimo Padre Innocencio XII, este
Summo Pastor, que foi affectuozissimo a todo o Rebanho da Religião dos Menores,
merecendo a honra de lhe beijar o pé o Irmaõ Custodio, e pedindo-lhe alguã Relíquia
para que constasse á sua Província desta graça, e do seo especial agrado, lhe mandou
dar o Santo Padre a calvaria inteyra de hum Santo Martyr, que por se naõ saber com
certeza individual qual fosse o seu próprio Nome, Sua Santidade lhe impôz o de Saõ
Fídelis, sem duvida bem merecido pela fortaleza e constância deste fiel Servo do
Senhor. Taõbem lhe concedeo pudesse rezar este convento, como athe o prezente se faz
da Santa Relíquia, como Notável, e com Rito de Duplex Maior, em o dia vinte e seis de
Março todos os ânnos”.
Nem todos os conventos conservam o coro nestas condições. Apenas em Cairu, Igarassu,
João Pessoa, Recife e Salvador se observa o conjunto de cadeiral, ambão e retábulo.
Ipojuca os perdeu num incêndio. Olinda e São Francisco do Conde conservam o cadeiral
e o ambão, mas não o retábulo. Em Marechal Deodoro e Sirinhaém não vi esses
elementos, mas não posso afirmar que não existam porque ambos os conventos se
encontravam em restauração. Penedo conserva parte do cadeiral. Não vi nada em São
Cristóvão, pese a ter sido já restaurado. Quanto a Paraguaçu, cujo acervo foi
inteiramente desmontado, uma parte do cadeiral se encontra hoje em Recife, no Instituto
Ricardo Brennand.
43

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, a falta desses elementos não prova que não tenham existido. De fato, vários
conventos passaram por reformas nos séculos XIX e XX sem que ficasse registro exato
das peças que foram retiradas. Além disso, no incendiado convento de Ipojuca, a origem
do Santo Cristo – tido como milagroso – encontra-se intimamente relacionada ao Cristo
do coro. Foi a queda deste que motivou a aquisição da imagem atual. Obtida em Lisboa,
em circunstâncias um tanto misteriosas, acabou sendo grande demais para ser colocada
no coro, ficou durante séculos na capela lateral e, salva do incêndio, foi finalmente
entronizada no altar-mor. Consta, entretanto, que uma imagem menor foi colocada no
coro e, certamente, deve ter permanecido ali até ser destruída pelo incêndio.
Outro aspecto digno de nota é a importância do coro na atividade dos conventos. Em
todos os casos, ele se encontra no nível do claustro superior e próximo ao dormitório
principal, o dos “irmãos do coro”. Mais afastados ficavam os dormitórios dos irmãos
leigos, noviços e hóspedes. Para entrar ao coro, nas chamadas “horas canônicas”
(matinas, laudes, terça, sexta, noa, vésperas e completas), era obrigatório persignar-se
com a água benta existente numa pia próxima da porta. O coro era também,
habitualmente, o caminho de acesso à torre, o que garantia aos frades o controle de todo
e qualquer aviso a ser dado mediante o toque dos sinos.

Finalmente, cabe mencionar um detalhe encontrado apenas em Salvador e, mesmo
assim, somente através de registros antigos. Anexas ao coro, existem duas varandas
arredondadas. Em uma delas, houve um órgão. Vejamos o relato de Jaboatão:
“Nos dous cantos do choro da parte da Igreja junto ás primeyras janellas das tribunas;
no mesmo andar se formarão agora dous tabernáculos em forma de varandas sahidas
para fora, de facie rotunda, com a mesma formatura de cornijas, correspondentes ás
44

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

que correm do choro, de molduras de madeyra, e da mesma forma das de pedra do
assento das portas das tribunas donde se accomodou no da parte dos Terceyros, hum
orgaõ de boa, e vistoza fabrica, com duas entradas para elle, huã por dentro do mesmo
choro, por donde entra quem o toca, outra pela parte da tribuna, na qual fica a cayxa
dos folles. O da outra banda que só se fez por correspondência, serve para accomodar
nelle em os dias Solemnes as Pessoas de mais distinção, que entraõ para elle por huà
parte da mesma tribuna, que ficou correndo igual em grades com as varandas destes
retretes”.
Não encontrei indícios desse órgão, a não ser no registro de Jaboatão. Também não vi
plataformas similares nos outros conventos, o que permite inferir que, se houve órgãos,
deveriam ser de menores dimensões. Entretanto, esse instrumento era habitual nos
conventos portugueses. Boa parte deles ainda os possui e, onde não estão, restam
algumas plataformas.
Um deles acabou na Sé de Mariana, onde
ainda se conserva. É um instrumento de
altíssima qualidade, obra do alemão Arp
Schnitger, doado pela Coroa durante o
reinado de D. José I13.
Embora o caminho até ali percorrido seja
desconhecido, o brasão que o anjo segura
sob a mão esquerda prova que antes de ser
destinado a essa diocese, pertenceu a um
convento franciscano.
É possível que tenha sido retirado dele em
decorrência de uma reforma da Ordem que,
mais uma vez, procurava restaurar a antiga
pobreza expurgando dos conventos o que
chamava de “curiosidades supérfluas”.
É bem possível que essa mesma reforma
explique a falta de instrumentos similares
nos conventos brasileiros.

13 Imagem reproduzida de http://www.orgaodase.com.br.
45

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Naves
Para compreender a estrutura das igrejas, é interessante
partir da planta de uma delas. Escolhi, como exemplo, a
de Cairu, que considero bastante representativa. As
referências indicam: 1: adro; 2: galilé; 3: subcoro; 4: nave;
5: púlpito; 6: cancelos; 7: área restrita; 8: altares
colaterais; 9: arco; 10: presbitério; 11: altar-mór; 12: trásaltar; 13: capela lateral; 14: claustro; 15: vias sacras; 16:
escada das matinas; 17: sacristia; 18: lavabo.
Todas as igrejas franciscanas do Nordeste são de nave
única, o que, além de ser condizente com o princípio da
pobreza, atende orientação do Concílio de Trento no
sentido de facilitar a visualização das celebrações por
todos os assistentes.
A nave – acessível, a partir da galilé, através de uma única
porta ou de uma principal e duas secundárias – começa
em baixo do coro e se estende até o arco que a separa da
capela-mór. Em ambos os lados do arco – conhecido
como “arco triunfal” - há altares colaterais, que podem
estar encostados nas paredes ou colocados em ângulo, nas
esquinas da nave. Antes deles há um degrau e uma grade,
que separam o espaço profano, aberto à circulação dos
fiéis, da área sagrada, restrita aos frades e o clero.
O mesmo tipo de grade existe no acesso à capela lateral,
habitualmente utilizada pela Ordem 3ª. Trata-se de um “cancelo”,
definido no Dicionário Aurélio como “Grade nobre nas salas de
audiência dos juízos, tribunais, capelas, etc.”. Embora, em ambos os
casos, se encontre sobre um degrau, nem sempre a grade se encontra
afastada da borda o suficiente para que esse degrau possa ser utilizado
como genuflexório, o que torna duvidosa a identificação como “grade
de comunhão” presente em alguns textos. Em Salvador, cancelos
similares delimitavam o cruzeiro e as seis capelas laterais.
46

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A planta da igreja de Salvador é uma exceção
entre todos os conventos da Província. Talvez
por influência da arquitetura jesuítica – da qual
tinha um exemplo bem próximo, na atual
Catedral – ela foi desenvolvida com transepto
inscrito e seis capelas laterais intercomunicantes.
As referências numéricas indicam: 1: entrada ; 2:
subcoro e nave; 3: acessos secundários, sob as
torres; 4: entradas laterais; 5: capelas laterais; 6:
capelas do transepto; 7: púlpitos; 8: altares
colaterais; 9: cancelos; 10: arco; 11: presbitério;
12: altar-mór; 13: corredor; 14: vias sacras; 15:
sacristia; 16: escada das matinas; 17: claustro;
18: portaria; 19: adro da Ordem 3ª; 20: sede da
Ordem 3ª.
Para uma correta interpretação desta planta, é
preciso esclarecer que ambos os acessos laterais
comunicavam diretamente ao exterior, ficando
boa parte da igreja adiantada com relação às
demais construções.
Esse destaque se perdeu em meados do século XVIII, quando a portaria foi ampliada até
quase emparelhar com a fachada da igreja, ficando a porta desse lado como um acesso
interno. Outra alteração significativa, já no século XX, foi o sacrifício da via sacra do
lado do evangelho para criar um novo cemitério para os frades. Também no século XX
foi retirado o cancelo frontal da nave, hoje instalado na portaria.
A construção de altares e capelas adicionais, fora da capela-mor, possibilitava a
existência de cultos e devoções diferenciados, de grupos, irmandades ou até de
particulares. A agrupação que não era rica o suficiente para custear um altar ou uma
capela, simplesmente pedia licença para depositar a imagem de sua devoção num dos
altares já existentes. Assim, vários conventos hospedavam, nos altares colaterais,
imagens de São Benedito deixadas em custódia por irmandades de negros e mulatos.
No caso de Salvador, a existência de múltiplas capelas intercomunicantes permitia a
realização de cultos simultâneos. Outra vantagem era a de possibilitar percursos
processionais pelos corredores que essas capelas determinavam. Além dessas vantagens,
de ordem prática, a menor altura das capelas com relação à nave e ao transepto dava ao
interior da igreja o clássico formato de planta em cruz atina.
47

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nem todos os conventos mantém as plantas das suas igrejas como foram concebidas.
Exemplos relativamente bem conservados são Cairu, Penedo, Olinda e São Cristóvão.
Nota-se, em todos eles, a capela-mor com seu arco de ingresso e os dois altares
colaterais, bem como o púlpito, enfrentado ao arco que dá acesso à capela da Ordem 3ª.
Lamentavelmente, não podemos fazer a mesma afirmação sobre os elementos internos.
O teto de Cairu foi repintado no século XIX. O de Penedo, perdeu por completo a sua
pintura original. Também nesse século foram substituídos púlpitos e retábulos na maior
parte dos conventos. Dos exemplos aqui exibidos, creio que Penedo é o que melhor
conserva seus bens integrados, inclusive a talha dourada e as pinturas que emolduram o
arco triunfal, já perdidas na maioria dos outros conventos.
Para imaginar como eram essas igrejas, é preciso fazer abstração dos bancos.
Normalmente, cada quem trazia o seu assento ou, simplesmente, ficava em pé. Também
não havia pisos. Apenas tampas retangulares, de madeira, onde se enterrava os defuntos.
48

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Embora mostrando uma certa curvatura pelo efeito do grande angular, a foto acima
oferece uma visão bastante global do interior da igreja conventual de Salvador. No
primeiro plano, os arcos das entradas laterais e as quatro colunas – duas completas e
duas meias-colunas – que sustentam o coro. Nas duas centrais, destacam as pias de água
benta doadas pela Coroa durante o reinado de D. João V.
Um pouco mais longe estende-se a sucessão de capelas intercomunicantes com seus
respectivos cancelos de jacarandá. Em cima, duas varandas arredondadas, sendo que a
da esquerda hospedava o órgão e a da direita era reservada às autoridades.
Entre as colunas centrais alcança-se a perceber, vagamente, os arcos do transepto. No
centro, os dois altares colaterais, o arco triunfal e a capela-mor. Em cima, o teto,
dividido em caixotões.

49

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Olhando por outro ângulo, vemos, a partir da esquerda, uma tribuna sobre a capela-mor,
um arco do transepto, um púlpito, mais tribunas sobre as capelas laterais, a varanda
arredondada de uso das autoridades e uma das entradas laterais. Todos esses elementos
se repetem simetricamente do lado contrário, sendo que a varanda do evangelho estava
destinada ao órgão. Ao fundo, o coro, o subcoro e o tapa-vento, na entrada principal.
O modelo original das capelas intercomunicantes deve-se,
indiscutivelmente, à planta elaborada por Giacomo Barozzi
da Vignola para a igreja da Companhia de Jesus, em Roma.
Porém, a igreja franciscana de Salvador adotou uma nova
estrutura.
Tanto naquela igreja quanto nos modelos, mais próximos,
do Colégio de Jesus e da Sé de Salvador, as capelas são
quase independentes, apenas interligadas por estreitas
passagens que apenas possibilitam o deslocamento de uma
pessoa por vez.
Pelo contrário, a solução adotada pelos franciscanos parece
com as galilés dos seus próprios conventos, especialmente
de Cairu e Paraguaçu, numa sucessão de abóbadas de
arestas emendadas em corredores contínuos.
Dessa solução – também presente em São Bento do Rio de
Janeiro – resultaram dois amplos corredores. Não fossem
os cancelos e o degrau que eleva as capelas, dir-se-ia que
constituem naves laterais, numa planta de tipo basilical.

50

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nas fotos da página anterior pode observar-se a presença dos confessionários. São
móveis de madeira de confecção muito simples, em nada condizente com o luxo
ornamental do resto da igreja. Não tenho informação sobre eles, mas não parecem ter
feito parte da mobília original.
Poucos indícios encontrei dos confessionários
antigos. Em Cairu (esquerda), dois vãos, nas grades
da capela lateral, parecem ter suportado pranchas
perfuradas, semelhantes às que existem na maioria
dos conventos portugueses. Na foto à direita, detalhe
de uma solução similar, num dos confessionários do
convento de Santo Antônio de Ponte de Lima. Em
baixo, o mesmo recurso, ainda presente nas capelas
laterais dos conventos de Penedo e João Pessoa.

Também no cancelo principal da nave podia haver confessionários, às vezes postiços,
como no exemplo abaixo, do convento de São Bento de Arcos de Valdevez. Talvez essa
característica explique a escassa presença
desse tipo de confessionários no Nordeste
brasileiro.
Outro detalhe interessante, nessa grade, é o
genuflexório de madeira que prolonga o
degrau de mármore, sugerindo a existência
de uma adaptação específica ao rito da
comunhão. Entretanto, não achei nenhum
desses elementos nos conventos em estudo.
Os cancelos – onde ainda existem - são
retos e quase rentes ao degrau.
51

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outro tipo de confessionário, bastante comum
em Portugal, é o que fica embutido em vãos da
parede que separa a igreja do convento, sendo o
acesso dos fiéis pela nave e o dos frades, pelo
corredor do claustro. Encontram-se, geralmente,
em número de três. O exemplo à esquerda é,
também, de São Bento de Arcos de Valdevez,
mostrando que ambos os tipos podiam coexistir
no mesmo convento e, somados, possibilitarem
maior número de confissões simultâneas.
Isso não é de assombrar, considerando que tanto o número de frades quanto a afluência
de fiéis e a frequência das confissões era bem maior do que na atualidade. Porém, hoje
esse tipo está ausente nos conventos brasileiros. Os vãos de Sirinhaém – abaixo – só
foram recuperados durante as obras de restauração.

Nas duas fotos acima pode observar-se a parede da epístola. Na da esquerda, vista do
claustro, o corredor da portaria mostra três arcos cegados com tijolos. No interior da
nave (direita), retirados os painéis de azulejos, os tijolos destacam das pedras na área em
restauração. Na planta (centro), marquei, em azul, o trecho da parede onde esses arcos
estão localizados.
Ora, praticamente todos os conventos do Nordeste tem suas naves ornadas com grandes
painéis de azulejos figurativos. Será que não foi essa a razão da desaparição dos
confessionários embutidos em arcos? Sabemos que, desde épocas bem antigas, as igrejas
brasileiras tiveram azulejos. Porém, eram de padrão tapete ou de figura avulsa, podendo
facilmente adaptar-se ao preenchimento de superfícies descontínuas. A incorporação de
grandes painéis figurativos, em meados do século XVIII, pode ter sido a causa da
inexistência desses confessionários e/ou da eliminação dos já existentes14.
14 Similar vedação foi identificada no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. Em Santa Teresa de Salvador
(carmelitas descalzos) ainda existem oito confessionários embutidos nas paredes laterais (Ver planta na pág. 390).
52

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outro elemento imprescindível, na nave, é o púlpito. O exemplo da esquerda, da igreja
de Igaraçu, responde ao modelo mais comum em Portugal: bacia retangular de pedra e
guarda-corpo de madeira entalhada e dourada. A mesma estrutura, porém mais pobre em
detalhes, observa-se em Marechal Deodoro, onde o guarda-corpo foi substituído com
simples madeira envernizada.
A segunda fotografia, de Recife, apresenta um modelo circular, presente apenas ali e em
Olinda. Na parte superior apresenta uma sanefa, elemento este também usual nos
púlpitos portugueses. Nos painéis, em volta do guarda-corpo, estão representados os
quatro evangelistas em baixo-relevo policromado e dourado.
A terceira foto é de Penedo e apresenta um desenho bem mais elaborado. A sanefa
cresceu, transformando-se em um abaixa-voz. Embora o formato básico seja ainda
retangular, tanto as curvaturas do contorno quanto os entalhes apresentam características
do estilo rococó.
A última, de João Pessoa, é claramente barroca. Tanto o púlpito quanto o abaixa-voz têm
contornos retangulares, porém ornados de talhas douradas de grande volume, algumas
chegando a constituir esculturas isentas. O dossel apresenta uma meticulosa imitação de
tecido; anjos meninos enfeitam as quinas e os painéis do guarda-corpo; a pomba do
Espírito Santo centraliza o abaixa-voz e, em cima dele, um grande arcanjo segura a sua
lança em atitude vigilante. Lamentavelmente, o estado de conservação e a iluminação
desfavorável não me permitiram obter fotografias mais detalhadas. Mesmo assim, vale a
pena incluir algumas imagens. Na próxima página, de esquerda a direita, o abaixa-voz
com anjinhos, arcanjo e dossel, os painéis centrais da bacia e do guarda-corpo com a
pomba no centro do abaixa-voz e uma visão lateral, mostrando, ao fundo, parte da
pintura ilusionista do teto da nave.
53

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Mais uma vez, a igreja de Salvador diferencia-se de todas as demais. Enquanto a norma
habitual dos conventos franciscanos é ter apenas um púlpito, no convento de Salvador
existem dois, e tão integrados à decoração geral que, num enquadramento amplo,
tornam-se até difíceis de enxergar.

Olhando mais de perto, percebemos a profusão de anjinhos barrocos, em tudo similares
aos do resto da igreja, evidenciando a presença de um único projeto global.
54

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Todas as igrejas franciscanas têm seus
púlpitos na parede que limita com o
convento, aproveitando como acesso o
corredor superior do claustro, que serve
também como circulação das tribunas.
Porém, a igreja de Salvador é muito alta.
Os corredores das tribunas independem
do claustro e ficam por cima das capelas
laterais, o que obrigou a posicionar os
púlpitos numa altura intermediária.
A solução foi tornar as pilastras que limitam o cruzeiro ligeiramente mais largas e ocas,
deixando dentro uma passagem que possibilita o acesso ao púlpito. Esse vão, a pouco
mais de um metro de altura, torna-se acessível com auxílio de uma escada móvel.

Excetuando os painéis de azulejos, as paredes laterais das igrejas são lisas, raramente
exibindo pinturas, entalhes e outros elementos decorativos e iconográficos. Porém, além
do púlpito e das capelas, elas são ritmicamente interrompidas por tribunas, o que
também pode observar-se na capela mor.
À semelhança dos púlpitos e coros, o acesso a essas tribunas, pela parte dos conventos, é
feito pelo corredor superior do claustro. Do lado contrário, podem existir corredores
auxiliares ou bem tratar-se de simples janelas, sem acesso externo, porém decoradas
como tribunas para manter a harmonia com as tribunas reais.
Todas as tribunas têm guarda-corpos e, com poucas exceções, também sanefas ricamente
decoradas, às vezes combinando, estilisticamente, com púlpitos e retábulos. As fotos
acima são de Olinda e Penedo. Na próxima página vemos detalhes das sanefas de
Penedo e João Pessoa.
55

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esta descrição das naves não estaria completa sem considerar os pisos e tetos. Poucos
pisos originais foram conservados. Na maioria, as sepulturas foram substituídas por
pisos de ladrilho hidráulico. Porém, ocasionalmente, uma obra de restauração permite
observar a estrutura original, como no caso de Sirinhaém, na foto abaixo, à esquerda.

Excetuando o corredor central, reservado para circulação, o piso da nave era dividido em
campas retangulares onde os corpos eram sepultados sob tampas de madeira. Números
gravados, como em Paraguaçu, na foto à direita, permitiam levar o controle dos corpos
que ali jaziam.
Passando o cancelo, também podia haver sepulturas. Porém, era um outro nível. Ali
eram sepultadas pessoas principais, muitas vezes colaborando com a construção ou
manutenção dos altares em troca do espaço consagrado para o seu descanso. Neste setor,
quando conservadas, as tampas são de mármore (à esquerda, em São Francisco do
Conde) ou de pedra de lioz, podendo exibir inscrições muito detalhadas, como a de dona
Brites da Rocha Pita, sepultada em Paraguaçu em 1778 (direita).
56

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Passando a considerar os tetos, vemos, abaixo, quatro exemplos – não necessariamente
sucessivos – e quatro soluções diferentes, encontradas nos conventos de Olinda, João
Pessoa, Penedo e Salvador.

57

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O forro de Olinda (em cima, esquerda) aparenta ser o mais antigo. Consta de três fileiras
de pinturas avulsas, em caixotões, cada uma distribuída num único plano, porém
inclinando ligeiramente as fileiras laterais para facilitar a visão a partir do corredor
central. Solução similar se encontra no teto da capela da Ordem 3ª, porém sem a
inclinação das laterais, provavelmente em razão da capela ser de menores dimensões.
Em ambos os casos, as pinturas, embora independentes, tem unidade temática e
estilística, formando conjuntos iconográficos claramente programados.
Em João Pessoa (direita), o conjunto iconográfico foi unificado num imenso painel,
emoldurado com perspectiva ilusionista e medalhões com cenas e personagens
secundários. A quase totalidade da superfície é plana, curvando-se ligeiramente nas
laterais. Esse formato permite a visualização integral do programa iconográfico sem, no
entanto, abrir mão de uma aparência abobadada, bastante condizente com a arquitetura
simulada e com a posição dos personagens a ela integrados. O mesmo formato, embora
com menor qualidade pictórica e em precário estado de conservação, encontra-se na
igreja de São Francisco do Conde. O mesmo ocorre em Marechal Deodoro, porém
restrito a um medalhão central sobre fundo branco que parece ter sido realizado em data
relativamente recente, talvez por causa do deterioro da pintura original. Também
Paraguaçu teve esse formato, do qual apenas resta a estrutura de suporte.
Cairu e Penedo (em baixo, esquerda) adotaram soluções similares, porém curvando não
apenas as laterais como também os extremos, definindo o formato chamado “de
gamela”. O mesmo formato encontra-se em Recife, porém sem a pintura ilusionista,
limitando-se a decoração a um medalhão central rodeado de filetes dourados. O mesmo,
embora sem os filetes, ocorre em São Cristóvão, onde áreas raspadas durante a
restauração parecem indicar a presença de uma pintura anterior, de conteúdo
desconhecido.
O forro de Salvador (direita) também adota o formato de gamela, porém conservando a
divisão em caixotões, o que foi claramente um acerto, porque se integra admiravelmente
ao resto da decoração da igreja, que dificilmente teria combinado com um teto em
perspectiva ilusionista.
Por outra parte, em comparação com o forro de Olinda – constituído por simples
octógonos enfileirados – a esmerada combinação de octógonos, losangos e estrelas, bem
como a volumetria e douração das molduras e florões, indicam um sentido estético
apurado e um conhecimento bastante atualizado das correntes estéticas europeias.

58

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Arcos Triunfais e Capelas Mores
É possível que o arco não existisse nas
capelas primitivas, doadas pela população
aos franciscanos como bases para o seu
assentamento, o que se deu, por exemplo,
em Cairu, Olinda e Salvador. Porém, logo
que eles começaram a construir as suas
próprias igrejas, esse elemento passou a
ficar claramente definido.
Em alguns casos – por exemplo, em
Salvador – os frades começaram por rasgar
a parede do fundo para dar lugar ao arco e
à capela mor. Em outros, como em Olinda,
parece que a capela inicial foi aproveitada
como capela mor, passando-se, a partir
dela, a ampliar a igreja com a construção
de uma nova nave, coro e galilé.
Nos edifícios novos, começava-se pela
capela mor, que, quando pronta, era
consagrada e utilizada precariamente como
igreja até o acabamento da nave.
A transição entre a nave e a capela mor dava-se através de um
arco pleno, formato que continuava, logo após, no forro do
teto, em abóbada de canhão, e no topo do altar, que a essa
abóbada se amoldava. Essa sequência formal pode ser
claramente apreciada em Penedo (acima).
Às vezes, esse arco se integrava com a parede frontal da nave,
incorporando os altares colaterais, as pinturas, sobre eles, e a
própria decoração do arco, num conjunto único. Poucos
conventos conservaram esses elementos. Porém, eles
aparecem claramente em fotos antigas, como a da esquerda, da
igreja conventual de João Pessoa.
59

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os arcos podiam ser pintados diretamente sobre a pedra – inclusive com douração, como
pode apreciar-se em Cairu – ou revestidos com madeira, que por sua vez era
policromada e dourada, como em Penedo. A retirada desse revestimento, na igreja de
Paraguaçu, permite apreciar os furos e os pregos que serviam para fixar a madeira.
Tanto essa foto quanto a próxima, abaixo, à esquerda, evidenciam que, ao menos em
Paraguaçu, a decoração pintada foi uma primeira fase, precedendo ao revestimento em
madeira entalhada. Também, em Igarassu, a restauração revelou pinturas sob o
entalhamento do arco. Na restauração de Penedo, foi descoberto um brasão franciscano
em relevo, até então oculto pelas talhas. Isso pode atribuir-se à falta inicial de recursos,
substituída por trabalhos mais caros na medida em que a comunidade prosperava.

Também em Penedo, durante a restauração, descobriu-se que uma das pinturas que
ornam a parede, em volta do arco, escondia um detalhe propositalmente coberto em
intervenções anteriores. A imagem da virgem, ao ser raspada, revelou uma criança no
seu ventre. Essa imagem e o lírio completam o sentido do texto: “Beata es virgo Maria
que omnium portasti creatorem: genuiste, qui te fecit, et in eternum permanes virgo”.
60

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nem todos os conventos o conservam, mas parece ter sido característica geral a presença
do brasão franciscano no topo do arco. Embora um tanto prejudicados pela grande altura
e a indisponibilidade de equipamento adequado, vemos,abaixo, detalhes de Marechal
Deodoro, Penedo e Salvador.

61

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Todos os brasões têm, no topo, uma coroa, que se destaca do resto pelo volume da talha.
É a expressão do padronado real, vigente durante todo o período colonial. Em baixo, os
símbolos são variados, porém não podendo faltar o da estigmatização, constituído pelos
braços cruzados de Cristo e São Francisco sobre o fundo da cruz.
O de Marechal Deodoro é, artisticamente, o mais simples, constituindo um
prolongamento do arco que – à exceção da coroa – pouco se destaca da parede. O
escasso relevo se vê compensado pelo contraste do ouro sobre a madeira (ainda não
restaurada) e pela conjunção de símbolos. Além da estigmatização, restrita ao quarto
superior esquerdo, exibe em baixo as cinco chagas e à direita, as armas de Portugal e
Algarve.
O brasão de Penedo é bem mais evoluído. Além de a talha e a policromia serem mais
apuradas, a coroa é totalmente isenta e dois anjinhos, igualmente isentos, ladeiam o
conjunto, como que apresentando o brasão ao público assistente. A composição é
dinâmica e equilibrada e todos os seus elementos destacam claramente do arco e da
pintura do forro.
Menos feliz foi a solução de Salvador. Seis anjos – quatro infantes e dois de aspecto
adolescente – ladeiam um conjunto excessivamente disperso, onde destacam o escudo
com as armas de Portugal e Algarve, as cinco chagas e o cordão. Os braços, a cruz e a
coroa de espinhos recortam-se dificultosamente sobre a coroa, recuada, e sobre as
molduras do forro em caixotões. Embora criativo, o conjunto é de difícil visualização e
facilmente passa despercebido na emaranhada decoração da igreja.
Um destaque especial merece o brasão de Ipojuca. Ele não apresenta características
especialmente notáveis. Apenas o conjunto da estigmatização, as cinco chagas e, no
topo, uma coroa, quase no mesmo plano.
Especial, mesmo, é o fato de ser a
única peça que restou da antiga
decoração, exceto a imagem do Santo
Cristo, salva das chamas pela imediata
ação dos fiéis e, após a reconstrução,
entronizada na capela mor.
Contrariamente, esse brasão suportou o
incêndio até o fim e, simbolicamente
conservado sem restauração, encontrase hoje no batistério da igreja15, junto a
uma placa com os seguintes dizeres:
15 Os conventos não tinham batistério. Na igreja de Ipojuca existe um porque ela está sendo utilizada como matriz.
62

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Relíquia do incêndio 1935
Trinta e cinco, um de março. Ano e dia
em que o fogo o teu trono atingiu.
Foi a noite de maior agonia
que o teu povo fiel já assistiu.
Contra as chamas lançou-se teu povo.
Sto. Cristo, te trouxe nas mãos,
para que no teu trono, de novo,
socorresses os nossos irmãos.
Domingos de Albuquerque
O convento de Igarassu apresenta uma particularidade: Uma grade de madeira, a modo
de cancelo, fecha o acesso à capela mor exatamente na passagem do arco.
Coincidentemente, a nave dessa igreja não tem cancelo. Poder-se-ia pensar que houve
uma simples troca de local. Porém, fotos antigas sugerem uma outra interpretação.
Na foto ao centro (Paraguaçu, 191116) há, claramente, duas grades: uma na nave –
certamente, a que hoje se encontra no Museu de Arte da Bahia – e outra na entrada da
capela mor. À direita (Salvador, 193317) vemos apenas uma: a da capela mor. O cancelo
da nave – hoje, na portaria do convento – tinha sido retirado em 1922.

16 Manoel Querino: “Artistas Baianos”.
17 Frei Pedro Sinzig: “Maravilhas da Religião e da Arte”.
63

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Constata-se, assim, que, ao menos nessas duas igrejas, existiam duas vedações
sucessivas: uma logo após o púlpito, separando a área destinada aos fiéis do corredor de
circulação do clero, abrangendo as duas portas, altares laterais e acesso à capela mor, e
outro na entrada da capela mor, o local mais sagrado do templo e, portanto, reservado
exclusivamente ao clero.
Essa interdição estava explícita nas Constituições: “Para que os Officios Divinos se
possaõ celebrar com devoção, & menos impedimento, & os Sacerdotes tenham aquella
preferencia no lugar, que de direyto lhes he devida. Nós, conformandonos com a sua
disposiçaõ, & da extravagante do Santo Papa Pio V, ordenamos, & mandamos, que em
quanto se disser Missa, & celebrarem os Officios Divinos, nenhum leygo esteja na
Capella mòr”18.
Consoante com essa sacralidade, a transição para o presbitério podia ser marcada com
um degrau, após o qual era preciso, ainda, subir mais quatro ou cinco para atingir o
patamar elevado onde se localiza o altar mor. Na quase destruída igreja de Paraguaçu,
restou essa base, como amostra da sua antiga grandeza.

Um pouco mais conservada, embora bastante danificada pelo descenso do terreno de
massapé, apresenta-se a base do altar mor de São Francisco do Conde19.

18 Sebastião Monteiro da Vide: “Constituições Sinodais do Arcebispado da Bahia”, livro 4 º, título 28, §736.
19 Cabe esclarecer que, em ambos os casos, os degraus são retos. A curvatura que se observa na foto de São Francisco do
Conde deve-se ao efeito da lente grande-angular.
64

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também os pisos dos presbitérios recebiam especial atenção. Mesmo quando continham
sepulturas, as tampas não eram de madeira e sim, de materiais mais nobres como o
mármore ou a pedra lioz. Dentre os que não as contém, São Francisco do Conde e
Salvador merecem destaque pelo complexo trabalho de mosaico elaborado com
diferentes cores de mármore.

Apesar das diferenças estilísticas, em quase todas as igrejas conventuais – e, ainda, na
maioria das capelas das ordens terceiras – o altar mor responde ao esquema abaixo,
desenhado durante a restauração do
convento de Igarassu e reproduzido, com
pequenas alterações, do livro da Fundação
Ricardo do Espírito Santo Silva.
A forma básica, já insinuada no arco de
entrada e no forro abobadado, repete-se
num arco pleno – sustentado, ao menos em
aparência, por colunas inteiras ou meias
colunas – que delimita o camarim onde se
encontra o trono. Embaixo, fechando a
base do arco, estão o altar, o sacrário e o
expositório.
Este desenho essencial atravessou quase
incólume os períodos barroco, rococó e
neoclássico. Nos retábulos mais antigos, as
colunas são salomônicas e há profusão de
dourados e figuras agregadas. Num período
intermediário, na segunda metade do
século XVIII, as cores se tornam mais suaves, o ouro, mais escasso, e a decoração se
65

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

afasta do figurativo e simbólico para adquirir uma função mais ornamental,
característica do rococó. Já no século XIX, a influência do neoclássico introduz grandes
áreas brancas, colunas lisas ou caneladas e a douração se limita a destacar os contornos
sem, por isso, abrir mão das curvas herdadas do rococó.

Nas seis imagens acima, podemos seguir a evolução do barroco ao neoclássico:
Primeiro, Marechal Deodoro, numa foto tomada durante as obras de restauração. Apesar
do estado precário e da iluminação desfavorável, pode-se perceber as colunas
salomônicas, quase escondidas numa profusão de elementos figurativos e simbólicos, as
cariátides, na base, e o trono em cinco degraus. Falta a mesa do altar, provavelmente
retirada para restauração.
Na segunda foto, Igarassu. Trata-se do retábulo representado no desenho da página
66

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

anterior. É de meados do século XVIII, já com influência pombalina. As colunas são
retas, caneladas e com capitéis jônicos. Embora conserve numerosos detalhes barrocos
sobrepostos, as superfícies são mais limpas. O trono, nitidamente barroco, foi
aproveitado do retábulo anterior. O orago (Santo Antônio) ocupa o lugar central, mas
pode ser retirado para expor o Santíssimo Sacramento. A caixa do altar hospeda o
Senhor Morto, o que acontece, igualmente, na capela da ordem terceira do Recife.
A terceira foto é de Penedo. Elaborado na segunda metade do século XVIII, este
retábulo apresenta nítida feição rococó. Voltaram as colunas salomônicas, mas a ênfase é
na ornamentação. A douração é reduzida, aumentou a policromia e um dossel quebra o
formato do arco projetando-se frontalmente em imitação de pano. Não há anjos nem
representações animais ou vegetais, mas há um elaborado conjunto iconográfico,
centrado num calvário (Jesus, Maria e João) ladeado por imagens de São Francisco e
São Bernardino de Siena. O orago (Nossa Senhora dos Anjos) é uma imagem de
menores dimensões, contida no lado esquerdo de um expositório triplo onde novamente
aparece o Cristo – exatamente sobre o sacrário – e, do lado contrário, São José,
completando a Sagrada Família.
Em São Cristóvão, ainda mantendo influências rococó, o dossel evoluiu para um
baldaquino sustentado em oito colunas. Porém, é um trabalho menor, com programa
iconográfico mais simples e execução mais barata. Similar simplicidade pode observarse em Olinda e Cairu, já com marcada influência neoclássica.
O século XIX assistiu à substituição de numerosos retábulos, em parte justificada pelo
avançado deterioro, porém também motivada pela rejeição a estilos que se considerava
ultrapassados. O menor poder aquisitivo, à época, levou a utilizar materiais mais
econômicos e mão de obra menos especializada, o que derivou, em muitos casos, em
obras estilisticamente híbridas e de escassos méritos artísticos. Mesmo assim, observa-se
certa unidade de concepção com os modelos mais antigos.
Em São Cristóvão, o retábulo avança e o camarim se prolonga lateralmente entre as
colunas. Em Olinda, o camarim toma um formato absidal e o retábulo combina linhas
rococó com colorido neoclássico. Dos três, Cairu é o mais decididamente neoclássico.
Todos, porém, mantém os mesmos elementos: Arco, camarim central ladeado por
conjuntos de duas, três ou quatro colunas (às vezes, com imagens entre elas), trono em
vários níveis (de três a cinco, quase sempre constituído por plataformas octogonais), e
sacrário, no centro do altar, encimado pelo expositório que às vezes (como no já citado
exemplo de Penedo) pode ser tripartido para conter mais imagens.
Não podemos incluir, neste grupo, o altar mor de São Francisco do Conde, substituído,
no século XX, por um retábulo de inspiração centro-europeia. Quanto a Salvador,
Paraguaçu e João Pessoa, convêm analisar as fotografias antigas.
67

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A julgar pela imagem, o desaparecido retábulo de João Pessoa tinha características
nitidamente barrocas, com arcos concêntricos sustentado por colunas salomônicas, trono
piramidal de quatro degraus e sacrário com expositório triplo. Já o de Paraguaçu,
também desaparecido, aproximava-se mais do rococó. O trono – também de quarto
degraus – tinha contornos curvilíneos e as colunas – em grupos de três, com contornos
menos carregados – apresentavam duas imagens de cada lado do altar.
O altar mor da igreja de Salvador foi
drasticamente modificado em 1930. Dos
quatro degraus do trono, os dois de cima
foram eliminados para dar lugar ao
conjunto escultórico da estigmatização,
elaborado por Pedro Ferreira com base no
óleo de Bartolomé Esteban Murillo.
Também foram retirados o crucifixo, que
hoje se encontra na entrada lateral direita,
e as imagens de São Francisco e São
Domingos, que ficavam entre as colunas
e hoje estão no corredor da sacristia.
Mesmo com essas mudanças, o retábulo
do altar mor conserva a mesma estrutura
básica que se observa nos outros
conventos: arco, colunas, camarim, trono,
mesa de altar com frontal e sacrário com
expositório sobreposto.
68

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Algumas diferenças devem ser destacadas entre os diversos sacrários. Embora todos eles
tenham expositórios sobrepostos, as soluções são bastante diferenciadas. Em Olinda, o
expositório é fechado com duas portas em arco (o sacrário está em baixo, fora da foto).
Em Penedo, como já foi dito, existem três expositórios, sendo que o sacrário fica em
baixo do central (na foto, coberto com pano verde). Em São Cristóvão, o expositório
adota a forma de um templete circular sustentado por quatro colunas torsas.

Também os tronos divergem, não apenas no número de degraus como também no
formato. O de Igarassu tem forma de cálice octogonal, com duas asas em forma de
conchas, apoiado num tambor reto, também octogonal. Em Marechal Deodoro, cinco
cálices de tamanhos decrescentes foram empilhados formando uma pirâmide.
Lamentavelmente, a decoração das superfícies não se encontrava presente. Não tendo
podido conversar com os restauradores, ignoro se essa decoração foi perdida ou foi
69

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

retirada para facilitar o restauro. Já em Salvador, os cálices são quatro e tem uma asa em
cada aresta, sendo que – dos dois que se conservam – o inferior tem asas em forma de
volutas com folhas de acanto e, no superior, as asas foram substituídas por anjos em
meio corpo, com caudas também em forma de volutas.

Entre o final do século XVIII e meados do XIX, o tratamento vai se tornando cada vez
mais simples e esquemático. Em São Cristóvão, os degraus são apenas dois, e o seu
formato mais relembra uma flor do que um cálice. Em Olinda, há uma sobreposição de
simples tambores octogonais, sem mais destaque que uma dupla borda dourada nos
cantos superiores. Em Cairu, há um um patamar único que se estreita em direção da
base, com uma grinalda frontal e alguns filetes dourados por todo ornamento.

70

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também as colunas sofreram uma esquematização gradativa. Em Salvador, cume do
barroco, há anjinhos, aves, folhas e cachos de uva. Nessa profusão de detalhes, a torsão
das colunas salomônicas fica quase diluída, sendo apenas sugerida pelo movimento das
guias da videira. Em Penedo, a torsão é explícita, mas os detalhes sumiram. Fileiras de
folhas ainda destacam o movimento das colunas, mas não há uvas nem aves e a
superfície não coberta pelas folhas só recebeu um marmorizado em tons de azul.
Em Olinda, a simplificação é ainda maior. As superfícies são brancas e lisas, com apenas
a linha das folhas lembrando a torsão das colunas salomônicas. Em Cairu, todo e
qualquer indicativo de torsão foi esquecido. As colunas são retas e lisas – exceto as
bases, caneladas – e até os capitéis derivaram do jônico para um traçado quase
exclusivamente constituído por linhas retas.

Nos forros, com predomínio da abóbada de canhão, a decoração é bastante variada. Em
Marechal Deodoro (esquerda), há um forro em caixotões, porém sem pinturas
figurativas. Há, apenas, composições abstratas com base em círculos e volutas. O
mesmo padrão apresenta João Pessoa (centro), porém com pinturas figurativas
representando cenas da vida de Santo Antônio. Lamentavelmente, as molduras foram
retiradas. As pinturas, cobertas com tinta azul, foram redescobertas em data recente.
Salvador (direita) apresenta um padrão mais arrojado em que os caixotões se entrelaçam
em composições geométricas com total ausência de pinturas.
Igarassu (página seguinte, esquerda) tem abóbada de arestas. Em Recife – caso único –
há uma verdadeira e sólida cúpula revestida de azulejos (centro). Penedo (direita),
concluído em época mais tardia, insinua uma composição em trompe l'oeil cercando um
simples fundo de céu com nuvens. O óculo não corresponde ao projeto original. Foi
aberto, no século XX, para melhorar a iluminação sobre o altar mor.
71

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esta descrição da capela mor não estaria completa se fossem omitidos alguns detalhes
que, às vezes, passam despercebidos. É necessário mencionar, inicialmente, a lâmpada
que deveria ficar permanentemente acesa diante do Santíssimo Sacramento. Vários
conventos as conservam, mas nenhuma delas se compara à de Salvador.

72

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Essa lâmpada foi doada durante o guardianato de frei João de Jesus Maria (1758-61).
Está elaborada em prata cinzelada e tem quase dois metros de altura. Peças menores,
ainda existem em Olinda e Penedo.

Também em Penedo encontra-se um
detalhe já desaparecido na maioria das
igrejas visitadas:
Óleos, vinho de comunhão e hóstias,
depois de consagrados, não podiam ser
jogados em local onde ficassem expostos a
profanações. Sumidouros, especialmente
destinados para o culto, ficavam junto do
altar mor. Neles, após as celebrações, eram
despejados os restos da consagração e da
comunhão.
Uma pequena sala, chamada “trás-altar”, costumava ficar no fundo da igreja, por trás do
altar mor. Isso pode observar-se nas plantas de Cairu e Sirinhaém20 (páginas 46 e 52).
Essa sala – separada da capela-mor por uma parede ou simplesmente dividida pelo
fundo do retábulo – podia ser utilizada como depósito. Em alguns casos, interligava as
vias sacras, oferecendo uma passagem direta do convento até o cemitério dos frades ou
até as instalações da Ordem 3ª. Porém, não tinha comunicação direta com a capela mor.
Ficando ao mesmo nível da igreja, essa sala era demasiadamente baixa para permitir o
acesso aos níveis superiores do altar-mor. Esse acesso costumava ser feito através de
uma porta lateral, no nível do corredor superior do claustro, a partir da qual se transitava
pisando nas tábuas do retábulo, a modo de passarelas, para possibilitar essa arrumação.
20 Em Sirinhaém, essa área foi reformada para ser utilizada como sacristia em substituição da antiga, já demolida.
73

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A imagem da esquerda, vista a partir desse acesso, é da igreja de Olinda. A da direita, de
Salvador, onde tanto a nave quanto a capela mor são excepcionalmente altas. Nesse
caso, o acesso ao altar mor é feito através de uma porta lateral, aberta na escada que
conduz à biblioteca, biblioteca esta que se encontra ao nível de um segundo andar, por
cima da via sacra superior.

74

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Capelas de Irmandades e Ordens Terceiras
Além das capelas mores, existem diversas capelas menores: duas no subcoro de Penedo,
uma na galilé de Cairu, uma – a de São Benedito – em João Pessoa, e ainda, em
Salvador, as duas que formam o transepto e as seis laterais intercomunicantes.
Entretanto, fora essas ocorrências diferenciadas, há uma capela que forma parte do
projeto básico da igreja conventual franciscana. A utilizada pelas ordens terceiras.
Ficava essa capela num dos lados da nave – normalmente, o oposto ao claustro – sendo,
sempre, a de maiores dimensões, apenas inferior à capela mor. À semelhança dela, o
acesso era feito através de um arco, geralmente bastante ornamentado.
Internamente, dependendo dos recursos da irmandade, podia variar desde um simples
vão abobadado, com um só retábulo, até uma igreja plenamente desenvolvida, com nave,
tribunas, altares laterais e/ou colaterais e capela mor.

A menor de todas se encontra em Sirinhaém (esquerda). De fato, é apenas um grande
nicho para hospedar o retábulo. Em Cairu (centro), é mais profunda, conforme pode
observar-se nas plantas de páginas 46 e 52. Similar estrutura e dimensões tem em
Marechal Deodoro (direita). Nos três casos, janelas laterais asseguram a iluminação do
altar. Cabe esclarecer que as fotos de Sirinhaém e Marechal Deodoro foram tiradas
durante as obras de restauração, o que explica a ausência dos respectivos retábulos.
75

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Olinda (acima, à esquerda) a capela dos terceiros é, praticamente, uma igreja
completa, com bancos, tribunas, púlpito, teto em caixotões, dois altares laterais, arco,
altares colaterais e retábulo mor. O arco de entrada é ricamente decorado. A foto foi
tomada desde o púlpito da igreja conventual, evidenciando que se opõe exatamente à
entrada da capela. Essa é a localização habitual em quase todos os conventos.
Similar estrutura se observa em Penedo (centro) e São Cristóvão (direita). Nesta última,
a visualização ficou prejudicada porque a capela foi transformada em museu, o que
explica a presença de vitrines.
A capela de João Pessoa (abaixo, esquerda) aproxima-se do ideal barroco da igreja toda
de ouro, interrompido pela edificação, em terreno contíguo, da “casa de oração” ou
“casa de exercícios”, que absorbeu boa parte das suas funções, desestimulado
investimentos no acabamento da ornamentação. Já a de Recife (direita) – com toda
justiça conhecida como “Capela Dourada” – realizou completamente esse ideal e até
possui um cadeiral e um coro, interposto no arco que a vincula à igreja conventual.
76

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Algumas ordens terceiras, com maiores recursos, optaram por criar, além da capela, uma
“casa de exercícios”, quase independente da igreja conventual. Entretanto, em sinal de
respeito pela primeira ordem, esse templo ficava sempre recuado e sem sinos, conforme
pode observar-se na foto de Marechal Deodoro (acima, à esquerda).
Em Recife – mesmo mantendo a Capela Dourada – a casa de exercícios (direita) – foi
ampliada às proporções de uma igreja e ganhou uma fachada em mármore português
reaproveitada da vizinha igreja do Corpo Santo. Em João Pessoa (em baixo, esquerda) é
grande, mas permanece como área interna, dentro da cerca conventual.
Também em Cairu começou a ser construída uma capela à parte, mas não chegou a ser
concluída. Existem, apenas, as paredes que iriam constituir a capela- mor. Em Igarassu e
São Francisco do Conde existiram capelas laterais da Ordem 3ª, mas foram sacrificadas,
demolida a primeira e dividida a segunda em vários cômodos.
Em Salvador não há capela lateral. Existem a casa de oração (direita) e o noviciado ou
casa dos santos, que serão analisados no capítulo correspondente.
77

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outras irmandades mantinham, também, imagens,
altares e até capelas nos conventos franciscanos.
Destacam-se, no Brasil, as de São Benedito, que
reuniam negros e mulatos. À diferença do que
acontecia nas freguesias, onde costumavam agrupar-se
na devoção a Nossa Senhora do Rosário, nos conventos
franciscanos era comum venerarem a imagem de São
Benedito por ser frade dessa Ordem.
A imagem à direita é de
João Pessoa, onde existe
uma verdadeira capela,
contígua à da Ordem 3ª.
Em São Cristóvão, na foto
à esquerda, também há um
altar desse santo e, a julgar pelo arco insinuado na parede,
estava prevista a construção da capela, que não chegou a
ser concretizada.
Em Sirinhaém, não há Ordem 3ª. Os negros é que fizeram o
arco e até encomendaram os azulejos que deveriam decorar
a capela, mas não conseguiram concluir a obra.

É o único ciclo historiado dedicado ao santo negro.
Curiosamente, as cartelas estão em português, sendo que,
habitualmente, eram escritas em latim.
Descontinuada a obra, o arco foi aproveitado como capela rasa
para hospedar o crucificado do coro, considerado milagroso e,
por isso, exposto à veneração popular. Os azulejos foram
montados na portaria, transformada em capela de São
Benedito, onde se encontram até hoje. Também em Cairu, a
capela da portaria é que hospeda a imagem de São Benedito.
78

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nos conventos onde não havia capela, a imagem do santo ficava em outro altar enquanto
se esperava a ter condições de dedicar a ela um lugar mais adequado.
Mais uma vez, Salvador apresenta um caso particular. Na igreja conventual, as
irmandades negras não tinham uma capela, senão duas. A primeira da direita estava
dedicada a São Benedito e a primeira da esquerda, a Santa Ifigênia.
A santa etíope não era franciscana. Por que foi
escolhida? Provavelmente, para receber o culto de uma
agrupação negra feminina, visto ser mais difícil
encontrar uma santa franciscana dessa raça.
As capelas estão enfrentadas. Certamente, visando
evidenciar que se complementavam, vinculando e, ao
mesmo tempo, separando as devoções de ambos os
sexos. Será que se pretendia evitar a promiscuidade?
Imediatamente antes dessas capelas ficam os acessos laterais da igreja e, sobre eles, os
mesmos santos, pintados no teto. Santa Ifigênia é claramente visível. São Benedito não
teve a mesma sorte. A pintura está escurecida e dificilmente perceptível. Porém, com um
pouco de esforço, ainda pode ser reconhecida.

Surpreende, inicialmente, que dois santos negros estejam tão em evidência, sendo os
primeiros altares que se encontra ao entrar na igreja. Cabe, entretanto, uma segunda
interpretação: Do ponto de vista religioso, os espaços são mais sagrados quanto mais
próximos estejam do altar mor, situado na “cabeça” da igreja. Nessa localização, os
altares reservados às irmandades negras estariam situados no ponto mais distante.
Literalmente, “aos pés”. Será que houve nisso alguma intencionalidade?
79

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Sacristias

Tipicamente, a sacristia de um convento franciscano – nesta página, exemplos de Cairu é uma sala quadrangular com duas portas, conduzindo à capela mor através das vias
sacras, pelas que o sacerdote transita antes e depois da celebração.
É um cômodo de utilidade prática, onde se guardam os acessórios do ritual, mas também
é um local sagrado onde, em privado, o sacerdote se prepara física e espiritualmente para
a realização do seu ministério.
Costuma estar mobiliada com um arcaz – usualmente, dois módulos gêmeos que
ladeiam um retábulo – e um ou dos armários gaveteiros. No lado oposto, não há portas.
Apenas janelas e o lavabo, ricamente esculpido em mármore ou pedra lioz, geralmente
contido num vão abobadado a modo de capela.

80

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Há diferenças claras entre os arcazes brasileiros e os dos conventos portugueses. Lá, o
retábulo e seu entorno formam parte da decoração parietal – seja em forma de pinturas
(Orgens), nichos para imagens ou relíquias (Viana do Castelo) ou um misto de ambos
(Ponte de Lima) – ficando o arcaz por baixo, num único módulo contínuo de gavetões.

Na solução brasileira, as talhas e pinturas fazem parte do arcaz e o retábulo é,
geralmente, completo, até o chão, tal como pode observar-se na sacristia de Salvador.

Tanto na talha quanto nos detalhes em bronze, observa-se um trabalho muito mais rico
que nos exemplos portugueses.

81

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Há grandes semelhanças, mas também grandes diferenças. O arcaz de Salvador não tem
pinturas. Apenas entalhes não figurativos. As pinturas são quadros, que se espalham
pelas paredes e o teto, formando um vasto programa iconográfico.

No arcaz de Olinda, também ressaem as talhas, mas há duas pinturas: São José e Nossa
Senhora com o Menino. Entre elas, o retábulo não vai até o chão, mas ressalta em
dorado refulgente sobre o preto profundo da madeira do arcaz, que, neste caso, é
inteiriço, continuando por baixo do retábulo, como nos conventos portugueses.

Entre as pinturas e o retábulo, uma nota surpreendente: dois espelhos. Não são espelhos
de vidro. São superfícies metálicas, precariamente alisadas, que nos devolvem reflexos
distorcidos dos azulejos, das janelas, e de nós mesmos. Em Igarassu, também há, mas
são espelhos convencionais.
Não é este o formato mais comum. Em Cairu, Igarassu, João Pessoa, Paraguaçu, Penedo,
Salvador, São Cristóvão e São Francisco do Conde, os arcazes são dois. Em Recife, é
apenas um, porém com o retábulo recuado, formando um genuflexório que interrompe a
sequencia das gavetas. Em Ipojuca há um único arcaz, que não parece ser antigo. Pode
ter sido substituído após o incêndio. Também não é antigo o arcaz de Sirinhaém. Não
tive oportunidade de ver o de Marechal Deodoro, cujo convento se encontrava em obras.
82

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nos espaldares, há ciclos de pinturas. Marianas, em Cairu, Paraguaçu e São Cristóvão. A
Paixão de Cristo, em São Francisco do Conde. Retratos de santos, em Recife, e de
doutores da Igreja, em Igarassu e João Pessoa. Vemos, abaixo, detalhes de Cairu,
Paraguaçu21, João Pessoa e São Francisco do Conde.

Dentro do retábulo de Olinda há outra curiosidade: duas pequenas vitrines, em forma de
braços, exibem relíquias de algum santo. Aparentemente, fragmentos de ossos. Não é um
caso isolado. Também, na sacristia de Cairu, observei a existência de um crucifixo com
função de relicário.

Enfrentados, normalmente, no centro das paredes laterais da sacristia, costuma haver
dois armários embutidos. Por fora, estão divididos em múltiplas gavetas quadradas,
idênticas em forma e dimensões, mas essa aparência engana. Por trás desses puxadores,
distribuídos a intervalos perfeitamente regulares, há gavetas pequenas, gavetões de
quatro módulos, portinhas de dois – deixando vãos verticais aptos para guardar missais –
e até portas maiores, abrindo prateleiras da largura total de cada armário. Na próxima
página, vemos exemplos de Cairu, Olinda, Salvador e São Francisco do Conde.
21 Após a desativação do convento, o arcaz de Paraguaçu foi dividido. Um módulo se encontra na igreja de Salinas da
Margarida. O outro, após permanecer por algum tempo no Solar Monjope, foi adquirido pelo Instituto Ricardo
Brennand, do Recife. A fotografia aqui reproduzida é cortesia de Paula Andrade Coutinho, museóloga desse Instituto.
83

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em localização privilegiada, no fundo da sacristia, às vezes numa capela abobadada,
encontra-se o lavabo. Esta é a disposição adotada em Cairu (esquerda), Igarassu,
Paraguaçu e São Cristóvão. Em Salvador (direita), Penedo e São Francisco do Conde,
não há capela. O lavabo está rente á parede do fundo, porém, também no centro. Recife,
Olinda e João Pessoa constituem exceção: Em vez de o lavabo ficar em frente ao
retábulo, há duas capelas laterais enfrentadas, ficando o lavabo em uma delas. O armário
gaveteiro – neste caso, apenas um – fica no fundo da sacristia.

84

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Cabe esclarecer que, à diferença da maioria dos conventos, em que a sacristia é
transversal ao corpo da igreja, em João Pessoa se prolonga, longitudinalmente, por trás
da capela mor, com o conjunto retábulo-arcaz do lado direito e o armário embutido, no
esquerdo. Assim, o lavabo está no fundo da sacristia e a capela a ele enfrentada encosta
no fundo do altar mor.

O lavabo mais comum fica semi-embutido na parede, ressaindo
uma grande bacia apoiada sobre pedestal do mesmo material.
Normalmente, a bacia tem ornamentação não figurativa, como
pode observar-se em Cairu (esquerda). Em Penedo (direita) o
pedestal assume a forma de uma águia de duas cabeças.
Encontramos este padrão de lavabo em Cairu, Igarassu, João
Pessoa, Penedo, Recife, Salvador, São Cristóvão, São Francisco
do Conde e Sirinhaém. O mesmo padrão existia em Paraguaçu.
Vendido, foi remontado no Solar Monjope, onde chegou a ser
tirada a fotografia á direita. Não sei onde se encontra hoje.
85

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Com poucas exceções, em cada lavabo existem dois bicos. A água sai pelas bocas de
máscaras humanas (Salvador, Penedo, São Francisco do Conde) ou golfinhos
entrelaçados, (Cairu, Igarassu, João Pessoa, Paraguaçu, Recife, São Cristóvão,
Sirinhaém). Há uma certa tendência a estilizar essas figuras com cristas e detalhes
fitomorfos, claramente visíveis nos golfinhos de Cairu (esquerda). Em Penedo (direita),
quatro volutas com uma rosa no centro formam, em conjunto, a figura de uma cruz.

86

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na parte superior (página anterior, esquerda: Cairu), o programa iconográfico costuma
ser mais complexo, predominando os símbolos da estigmatização (braços cruzados), não
raro em combinação com as armas de Portugal, as cinco chagas, os cordões, a coroa,
representação do padroado real e, por cima de todo o conjunto, a cruz. Em Salvador
(direita), há um nicho central com a imagem de Santo Antônio, detalhe este que lembra a
estrutura das fontes utilizadas no exterior dos conventos.

Não existindo água corrente, cada lavabo era abastecido por um reservatório embutido
na parede (acima, esquerda: Cairu). Esse reservatório era abastecido manualmente, por
fora da sacristia, onde também havia uma saída para escoamento da água já utilizada
(direita: João Pessoa).
Ficando a sacristia elevada, construía-se uma escada para facilitar o abastecimento
(abaixo, esquerda: Cairu). Porém, em alguns casos, a altura era demasiada, obrigando a
encontrar soluções alternativas. Em Penedo (direita) o reservatório era abastecido
lateralmente, sem sair da sacristia.
87

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Normalmente, o teto da capela era abobadado e coberto com telhado a duas águas. Uma
exceção se encontra em São Cristóvão, onde existe uma pequena cúpula sobre tambor
cilíndrico perfurado por janelas seteiras.

Também são exceções os lavabos de Ipojuca e São Francisco do Conde. Ambos têm
rostos humanos e carecem de pedestal, sustentando-se exclusivamente na parede. O de
Ipojuca é pequeno, com apenas um bico. O de São Francisco do Conde tem três.
Estilisticamente, são bastante diferentes: o primeiro, pleno de curvas barrocas, tendendo
ao rococó. O segundo, com pouca profundidade e desenho muito limpo, predominado as
líneas retas e as superfícies lisas, já se aproxima ao neoclássico.
É de destacar a perfeição dos rostos, especialmente o de Ipojuca, de feições muito
expressivas.
Não sei se, originalmente, esses lavabos tinham torneiras. Hoje, muitas delas são
adaptadas e até abastecidas com água corrente. Mesmo assim, é digna de nota a torneira
de Ipojuca, que apresenta um desenho zoomorfo bastante particular.
88

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Totalmente fora dos padrões está o lavabo de Olinda. Trata-se de uma coluna isenta das
paredes, com bacia circular e torneiras radiantes a partir de um eixo central, claramente
abastecidas com água corrente. Mais do que para servir a um sacerdote, parece ter sido
desenhado para o compartilhamento num local público. A evidência de que não é
original a constituem a parede do fundo, completamente lisa, e o lado externo da capela,
onde subsiste a escada antigamente utilizada para abastecer o lavabo embutido.

Do conjunto destas observações, surge, inevitavelmente, a comparação com os lavabos
dos conventos portugueses. Muito simples, absolutamente distantes, não apenas da
suntuosidade como do elaborado simbolismo dos existentes no Brasil. De fato, essas
imagens lembram as peças que aqui se conservam nos refeitórios e de profundis. Mesmo
admitindo que a maioria dos lavabos brasileiros tenha vindo de Portugal, a opulência do
Brasil, no século XVIII, reflete-se no luxo das encomendas e no complexo programa
iconográfico que os nossos lavabos apresentam.
Via de regra, as sacristias atualmente existentes foram resultado de ampliações além dos
fundos da igreja e do convento, o que derivou em ambientes espaçosos, localizados
transversalmente ao corpo da igreja, bem iluminados e arejados por janelões em três dos
seus lados. Excetuam-se Ipojuca, cuja sacristia ainda está inscrita no corredor posterior
89

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

do claustro; Sirinhaém, onde foi feita uma nova sacristia no espaço do trás-altar e
construída uma nova capela para o lavabo, e João Pessoa, que, conforme demonstrado
na página 85, adotou uma orientação longitudinal, sacrificando assim parte das janelas.
Em Salvador, foi obedecido o padrão transversal, porém inscrito na linha do claustro, o
que limitou a disponibilidade de janelas à parede do fundo. A localização, nos
conventos, pode ser apreciada nas plantas reproduzidas na página 27.
Também via de regra, essas sacristias transversais compõem um retângulo quase perfeito
com o corpo da igreja e a capela mor, exceto em Salvador, onde, sendo a igreja muito
mais larga, a sacristia não está alinhada com suas paredes externas e sim, com os limites
entre a nave e as capelas laterais, conforme pode observar-se na página 47.
Mesmo existindo todas estas diferenças, uma característica comum a todos os conventos
é a absoluta linearidade das plantas. Plantas curvas, tão comuns nas igrejas mineiras do
ciclo do ouro, são extremamente escassas no Nordeste. A única exceção a encontrei em
Igarassu. A sacristia, bem mais larga que a capela mor e sem a segunda via sacra,
tradicionalmente oposta ao convento, integra-se à edificação anterior fazendo
reentrâncias côncavas nas esquinas. Apenas o lado onde entronca o acesso da via sacra é
concluído em ângulo reto. A localização desses elementos na planta do convento pode
ser observada na página 10.

Para concluir este capítulo, é interessante ressaltar mais um detalhe, aparentemente
restrito ao convento de João Pessoa: À semelhança do presbitério de São Francisco do
Conde, o piso da sacristia exibe desenhos geométricos elaborados com materiais de
cores contrastantes.

90

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, neste caso, não é apenas mármore. As áreas mais escuras – bastante desgastadas
pela baixa resistência ao atrito dos passos de múltiplos visitantes – são de argamassa
misturada com mirra. À menor fricção, exalam um penetrante aroma. Seria essa mirra
ostentação ou misticismo?
“A mirra, resina antisséptica usada em embalsamamentos desde o Egito antigo, nos
remete ao gênero da morte de Jesus, o martírio, sendo que um composto de mirra e
aloés foi usado no embalsamamento de Jesus (João 19:39-40)” 22.
A paixão de Cristo era preocupação central dos franciscanos. Não apenas todos os
conventos eram precedidos por uma cruz. No altar mor, no coro e na própria sacristia, a
imagem principal era o Cristo crucificado. O rito da missa é a renovação simbólica desse
sacrifício e a sacristia, o local em que o sacerdote se prepara espiritualmente para
celebrá-lo. Nesse contexto, não parece provável que a mirra fosse apenas um luxo.

22 Wikipédia: Verbete “Três Reis Magos”.
91

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Vias Sacras e Escadas das Matinas
Observando em detalhe a planta da igreja de Cairu,
reproduzida na íntegra na página 46, percebe-se que, de
ambos os lados da capela mor (10, 11 e 12), há corredores
simétricos (15) que conduzem à sacristia (17).
Esses dois corredores, conhecidos como “vias sacras”,
possibilitavam o trânsito do sacerdote – já paramentado
para os ofícios – entre a capela mor e a sacristia. Do lado
do convento, tinham caráter mais aberto, não apenas para
os religiosos como também para o público externo
eventualmente admitido ao interior do convento. O lado
contrário era mais reservado e, em vários conventos,
utilizado simultaneamente como ossuário da comunidade
(Coemeterium Fratrum).

Pelo lado do convento (acima, Igarassu e São Cristóvão) a via sacra é uma extensão do
corredor do claustro que nasce na portaria e, beirando a capela-mor, estende-se, em linha
reta até a sacristia. Portanto, pode assumir-se que tanto ela quanto a sacristia fossem
locais relativamente públicos. Acessíveis, ao menos, a visitantes autorizados.
O acesso pode ser de verga reta (exemplos acima) ou em arco (página seguinte), que
pode ser pleno (esquerda e centro: Cairu e João Pessoa) ou trilobado (direita: São
Francisco do Conde, diferente de todos os demais, inclusive do claustro adjacente).
92

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Internamente, a via sacra pode ser muito simples, como em São Francisco do Conde,
onde é apenas uma área de circulação sem maiores detalhes (esquerda), ou estar
primorosamente decorada com azulejos e forros pintados, como em Olinda (direita).

Perto da entrada da capela mor, costuma haver pias de água benta (Sirinhaém, Olinda).

93

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Salvador, a linha do claustro fica bastante afastada da capela mor, o que permitiu
criar uma via sacra mais ampla, precedendo a sacristia. Outra diferença é que, tendo a
igreja sido deslocada frontalmente, a via sacra se encontra ao lado do claustro e não à
continuação deste. Ainda, por trás da capela mor, há um ornada com pinturas e azulejos,
interligando o claustro com as vias sacras e com a Ordem 3ª.
Painéis de azulejos com cenas do Antigo Testamento ornam a via sacra. O teto, em
perspectiva ilusionista, apresenta um Cristo ressuscitado entre anjos, ainda portando a
cruz e protegendo santos franciscanos. Na passagem transversal há duas áreas: Uma, no
final da via sacra, representa a parábola do banquete nupcial em que um dos convidados
entrou sem estar devidamente ataviado. Outra, por trás da capela mor, apresenta, em
quatro caixotões, medalhões com motivos alegóricos como a pomba e o cacho de uvas.
Os azulejos se prolongam ao longo da escada e do salão superior. Nas paredes, cenas de
caça. Nas colunas, alegorias dos cinco sentidos, dos quatro continentes – ainda sem a
Oceania – e dos meses do ano, com os trabalhos que os caracterizam.

94

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A escada que aparece nas duas fotos superiores é conhecida como “escada das matinas”.
Creio que o nome seja uma sobrevivência dos costumes monásticos medievais. Ela
possibilitava o aceso direto dos dormitórios, situados no andar de cima, à capela mor,
onde se localizava o coro dos monges, para a reza das matinas, a primeira das horas
canônicas. Nas ordens de pregadores mendicantes, pós-Trento, o coro se localiza aos pés
da igreja e o dormitório dos frades tem acesso direto a ele, o que dispensaria esta
comunicação preferencial. Mesmo assim, todos os conventos franciscanos conservam –
provavelmente, por tradição – uma escada especialmente ornamentada comunicando a
via sacra com os corredores do andar superior.

A escada – sempre reta e de um único lance – pode ser simples e austera, como em
Igarassu (esquerda), ou ricamente decorada, como em Olinda (centro). Em ambos os
casos, a escada está contida entre paredes. Quando não é assim, (por exemplo, em
Marechal Deodoro) a decoração mais elaborada se concentra no corrimão (direita).

O corrimão de Cairu é de madeira, com os extremos formando volutas em curva e
contra-curva. Em João Pessoa, é de pedra lioz. Máscaras e folhagens cobrem as volutas.
Em Penedo, as volutas se inscrevem num contorno quadrangular coroado por uma pinha,
desenho este que se aprofunda em Marechal Deodoro, onde as volutas são simples
relevos sobre pilastras claramente quadrangulares. No andar superior, a escada é
complementada com balaustradas de madeira a modo de guarda-corpo.
95

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nem todas as escadas têm os extremos iguais. Em Salvador, o inferior tem volutas nuas.
No superior, estão cobertas por máscaras e folhagens. Em Sirinhaém, a mudança é mais
surpreendente: A balaustrada do andar superior termina num peixe ou monstro marinho
que engole uma cabeça humana. Não há indícios do corpo, a não ser o pescoço, que
surge da boca do peixe. Supõe-se representar a história de Jonas. Porém, a cabeça, cujo
rosto está bastante danificado, tem o cabelo tonsurado à maneira de um frade.

96

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Portarias

Junto à entrada principal da igreja, numa esquina do claustro, existe sempre uma área
reservada ao atendimento externo. Costuma ter um pequeno sino, que, em Igarassu, está
na entrada da portaria, assumindo-se que a galilé dá reparo suficiente para o visitante
esperar até ser atendido. Já em Recife e São Cristóvão, que não dispõem de uma área
externa coberta, a própria portaria serve como sala de espera e o sino está dentro, no
início dos corredores do claustro. Em todos os casos, há uma corda ou corrente para o
visitante anunciar a sua presença23.
Geralmente, a portaria é de dimensões moderadas. Na sua forma mais simples, é uma
passagem de largura igual ao corredor do claustro (abaixo: São Cristóvão e Sirinhaém).

23 Não se observa essa corda na foto de Recife. A causa, provavelmente, é que estavam sendo realizadas obras de pintura e
restituição dos azulejos, após a restauração.
97

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em alguns casos (São Cristóvão, Penedo, Salvador), uma pequena janela comunica com
a sala anexa, a partir da qual podia ser feito o atendimento de pessoas que não
precisassem entrar no convento. Nessa sala, costumava-se guardar alimentos para serem
distribuídos aos pedintes. Em Salvador, entre outros conventos, essa janela comunicava
diretamente com a sala capitular. Em tempos da restauração por frades alemães, essa
comunicação foi eliminada por considerar-se que representava um uso profano, abrindose uma nova recepção ao lado da portaria.

Havendo espaço disponível, acrescentava-se uma imagem, como em Cairu, ou até um
retábulo completo, como em Penedo. Estando o convento e a igreja fechados, esses
acréscimos faziam da portaria uma capela permanentemente acessível aos fiéis. Em
alguns casos (página seguinte) houve verdadeiras capelas anexas às portarias, como
ainda se percebe em Paraguaçu, onde resta o vão, e em Igarassu, onde subsiste o arco
cego. Em João Pessoa, o arco cego indica que a capela se encontrava na galilé.
98

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Duas portarias se destacam, não apenas pelas suas dimensões, como também pela
riqueza da decoração. Ambas foram ampliadas, em meados do século XVIII,
sacrificando as salas contíguas e crescendo frontalmente até quase emparelhar com as
fachadas das igrejas.

99

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Uma delas é Olinda, onde o andar térreo virou
Capela de Santa Ana, suportando em cima duas
grandes bibliotecas.
Interiormente (página anterior) apresenta um
grande retábulo, um ciclo de painéis de azulejos
representando os momentos mais marcantes da
vida da santa e um teto pintado, com mão não
demasiadamente segura, porém com uma
grande riqueza de símbolos.
Hoje, o acesso não é mais feito por essa
entrada. Uma nova portaria, bem mais simples,
foi criada ao lado, poupando a Capela de Santa
Ana da passagem de inúmeros visitantes.
Porém, a destinação original como portaria
ainda é evidente pelas colunas que emolduram
a entrada e que, na época, deviam suportar um
alpendre, já desaparecido.
Outra portaria que foi ampliada é a de Salvador. Originalmente, não deveria vir muito
aquém da grade de madeira (que, aliás, era o cancelo da nave, retirado e transportado
para este ambiente em meados do século XX). De fato, a porta de arco que se vê na
segunda foto é uma das entradas laterais da igreja, que acabou ficando dentro da
portaria. A entrada oposta ainda existe e serve de acesso a partir do adro da ordem 3ª.

Também neste caso a decoração é muito rica. Inclui um ciclo de azulejos com imagens
de eremitas, outro de pinturas com cenas da vida dos principais santos franciscanos e um
enorme painel em quadratura reproduzindo o mesmo conteúdo iconográfico que a
“Glorificação dos Santos Franciscanos”, na igreja de João Pessoa.
100

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Segundo informação oral – recolhida de frei Modesto Backlage por frei Hugo Fragoso –
o retábulo desta portaria (abaixo, esquerda) não seria original. Ele teria sido deslocado
da sacristia de São Francisco do Conde (centro). Entretanto, comparando as marcas que
restaram na parede, parece-me que casariam melhor com outro retábulo que se encontra
lá mesmo, na portaria de São Francisco do Conde. Para experimentar essa possibilidade,
preparei a montagem fotográfica que se observa no quadro da direita.
Será que houve um erro de frei Modesto? Ou será que esse retábulo só veio
temporariamente para Salvador e, em algum momento posterior, foi devolvido a São
Francisco do Conde sem, no entanto, ser reposto no seu lugar de origem na sacristia?
E qual é a procedência do retábulo de Salvador? Será que sempre esteve ali? Será que
foi temporariamente substituído para restauração e depois recolocado no mesmo lugar?

101

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Claustros

Os claustros – nesta página, o de Salvador – eram o centro e a origem da vida
conventual. A partir deles se estruturavam todos os espaços. A igreja ocupava um dos
seus lados. Nos três restantes, distribuíam-se a portaria, a via sacra, a sala do capítulo, a
escada regral, o refeitório etc.

102

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para iniciar a construção de um convento, traçava-se uma planta, aproximadamente
retangular ou quadrada, inscrevendo nela a igreja e todos os ambientes principais. Não
necessariamente era tudo construído de imediato. Feitos a igreja e os cômodos mais
necessários, podiam passar décadas até que o projeto todo fosse implementado.
Observando as imagens mais antigas, não parece que esse plano estivesse definido.
Uma aproximação mais detalhada da ilustração
mostrada na página 6 revela que, à época em
que Post o visitou, o convento de Sirinhaém
tinha três blocos construídos com telhados
claramente independentes, sem as interseções
que deveriam definir o claustro.
Muitos anos depois, já na Holanda, Post voltaria a representar o
mesmo convento. O enquadramento é idéntico – provavelmente
baseado no mesmo esboço, tirado do natural – embora a pintura seja
bastante mais detalhada.
O bloco frontal mostra um óculo e duas seteiras (ou, talvez, as janelas do coro, ficando a
porta da igreja atrás das árvores). Há janelas isoladas nos blocos laterais e – como em
Igarassu – uma espadana sobre o telhado. Desta vez, o conjunto parece mais compacto,
mas nada garante que se trate de um claustro.
É claro que, à época em que Post o visitou, o convento de
Sirinhaém encontrava-se inconcluso. Já o de Olinda –
ainda reanalisando as gravuras da página 6 – aparece
bastante avançado, mostrando claramente blocos de dois
andares. Porém, também desta vez os telhados não se
encontram. São construções independentes.
É provável que essas construções – pouco mais do que hospícios temporários – fossem
improvisadas conforme os frades iam conseguindo recursos para estabelecer-se. Ao lado
da capela – às vezes, recebida em doação – iam construindo seus abrigos e, aos poucos,
conformando a estrutura do convento.
Pelo contrário, os conventos edificados ou construídos na segunda metade do século já o
fizeram num Brasil pacificado e próspero onde, mesmo para uma ordem mendicante, era
possível planificar e concretizar obras mais ambiciosas.
Todos os conventos dessa fase estão estruturados em torno ao claustro. Normalmente,
quadrado, embora existam exceções. Sirinhaém, por exemplo, passou por diversas
vicissitudes e, embora o convento seja quadrado, o claustro acabou ficando retangular,
com cinco arcos de frente a fundo e apenas quatro no sentido transversal.
103

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também o claustro de Recife (esquerda) é retangular, porém, em sentido contrário ao de
Sirinhaém. Em Recife, a maior dimensão é a transversal, com seis arcos, enquanto os
corredores paralelos á igreja têm apenas cinco.
À semelhança de Igarassu, Ipojuca, João Pessoa, Olinda, Paraguaçu, Penedo, Salvador,
São Cristóvão, São Francisco do Conde e Sirinhaém, esses arcos estão sustentados por
colunas. Em cima, colunas similares, porém de menor altura, suportam diretamente o
entablamento do telhado.
São exceções a essa regra os claustros de Marechal Deodoro (direita) e Cairu, onde os
arcos são sustentados por pilastras de seção quadrada.
Outra diferença notável é a sucessão de abóbadas de aresta que, em Recife e Salvador,
serve de cobertura aos corredores do andar térreo. Nos restantes conventos, os
corredores são cobertos com forros lisos, de madeira.
Quanto aos pisos, o normal é o tijolo. Porém, em alguns conventos foi substituído por
ladrilho hidráulico.

104

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também o formato dos arcos muda de um convento para outro. Em Recife, Igarassu,
Ipojuca, João Pessoa, Marechal Deodoro, Olinda, Salvador e São Cristóvão, são arcos
plenos. Em Cairu (esquerda, na página anterior), Penedo, São Francisco do Conde e
Sirinhaém são abatidos.
Destes últimos, um caso extremamente particular é o de São Francisco do Conde
(direita). Em cada corredor do claustro, três grandes arcos abatidos sustentam seis arcos
de largura igual à metade dos inferiores. É o único caso em que há arcos no andar
superior, o que obrigou a reduzir a sua largura, porém mantendo uma correspondência
harmônica onde cada arco do térreo equivale a dois arcos do superior, conservando-se,
assim, um perfeito alinhamento vertical nas colunas.
Esse recurso, não habitual no Brasil, é bastante frequente
em outros países de América, podendo citar-se como
exemplo o convento de agustinas de Santa Mónica, em
Sucre, Bolívia (direita). José de Mesa e Teresa Gisbert24
atribuem esse arranjo de arcos sobrepostos a uma
supervivência da arquitetura árabe.
Também pode atribuir-se influência mourisca ao arco trilobado que dá
acesso à via sacra (página 93). Esse traço estilístico – que só começou a
ser utilizado no Brasil a partir do ecleticismo do século XIX – é
igualmente frequente nas construções barrocas da América hispânica,
conforme pode apreciar-se na porta de entrada à igreja conventual de São
Francisco, em Potosí (esquerda).
Lamentavelmente, não posso descrever por completo o claustro de Paraguaçu. Embora
algumas colunas se conservem, as bases foram reconstituídas e nenhum dos arcos
sobreviveu para dar exemplo do seu formato original.

24 Tanto essa afirmação quanto as fotografias foram reproduzidas de José de Mesa e Teresa Gisbert: “Monumentos de
Bolivia”. Editorial Gisbert, La Paz, 2002..
105

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salas Capitulares

São poucos os conventos que conservam suas salas capitulares. Alguns já não precisam
delas porque foram desativados como tais e, portanto, não existe neles vida conventual.
Porém, mesmo os que ainda funcionam como tais, sofreram reformas que
descaracterizaram esse ambiente quase por completo.
Das salas que subsistem, a mais conservada é a de Salvador. Observamos nela a
estrutura básica: grande arco de ingresso, pela parte do claustro, protegido por grades de
madeira torneada e, na parede oposta, o retábulo, ladeado por duas janelas simétricas25.
Ela é, também, a mais suntuosa de todas. Azulejos
recobrem a metade inferior das paredes. A superior
está coberta, por completo, com pinturas emolduradas
por talha dourada. O retábulo, de madeira policromada
e dourada, integra-se estreitamente a esse ambiente,
complementado pelo teto, em caixotões, formando
estrelas e octógonos e centrado por um lustre de cristal
pendendo de um brasão com símbolos marianos.
No frontal do altar, seis molduras ovais exibem
relíquias de diversos santos. Dentre as inscrições
existentes, identifiquei: “s.Ignat.Loy.”, “s.Vincent.M.”,
“s.Joan.Bapt.”, “s.Taddæi Ap.”, “Ex Cineribus” e
“s.Franc.Assis.”.
25 No século XX, a janela da direita foi substituída por uma porta que comunica com a nova portaria. A esse efeito, o vão
da janela foi rasgado até o chão, com sacrifício dos azulejos, porém conservando a mesma largura e a sanefa original.
106

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O aceso à sala do capítulo dava-se, geralmente, pelo centro do corredor frontal do
claustro, através de um arco pleno, vedado não com porta maciça e sim, por uma grade
de madeira artisticamente trabalhada (esquerda, a de João Pessoa). O próprio arco podia
estar ricamente decorado, destacando-se o de Cairu (direita), pintado em ouro
diretamente sobre a pedra.

107

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para definir o padrão genérico, tomarei como base a sala de Cairu (página anterior) por
ser uma das melhor conservadas e representar o tipo básico mais fielmente que Salvador,
cuja sala é bem mais ornamentada. Mesmo assim, é preciso fazer algumas ressalvas.
Grade, piso de tijoleira, azulejos e teto são originais. Porém, o retábulo que havia entre
as duas janelas foi retirado e substituído por uma terceira, centralizada. Em
consequência, o banco que beira as paredes em volta da sala também não é original,
posto que invade a área que esse retábulo ocupava. A barra de azulejos – inexistente
nesse trecho – foi completada com peças retiradas de outras áreas. Esse retábulo se
encontra, hoje, no topo da escada das matinas. Quanto às imagens, não são do convento.
Foram ali guardadas para viabilizar as obras de restauração da Igreja Matriz.

Na parede oposta, de um lado e do outro do arco, há dois grandes quadros que ocultam
armários embutidos. A imagem central mostra um deles, aberto. O interior dos armários
também está pintado, porém apenas com motivos apena decorativos. Cada armário tem
diversas divisões e até uma prateleira retrátil, a modo de escrivaninha.
Na parede que limita com a
portaria, uma pequena janela
possibilita o atendimento das
pessoas que não necessitem
entrar ao convento (ver São
Cristóvão, Penedo e Salvador
na página 98). As imagens
exibidas nesta janela também
pertencem à Igreja Matriz.
108

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para melhor compreensão da estrutura básica das salas capitulares, vale observar as
ruínas de Paraguaçu. Na parede que dá ao exterior, uma capela abobadada hospedava o
retábulo. De um lado e do outro, duas janelas. Aos lados da capela, os bancos – aqui
construídos de alvenaria – contornam a parede do fundo, as laterais e chegam até o arco
de entrada, claramente definindo o local de reunião dos frades. Junto ao arco, um nicho
vazio parece sugerir a existência de um armário embutido similar ao que se encontra na
sala capitular de Cairu.
Também se encontra capela abobadada em
João Pessoa. Em São Francisco do Conde,
onde essa sala foi transformada em portaria,
não mais existe, mas permanece o arco na
parede.
Em Ipojuca há um pequeno retábulo embutido
(direita). Em São Cristóvão, desapareceu o
retábulo, mas subsiste o nicho na parede.
Tanto as capelas quanto os retábulos ficavam,
quase sempre, centralizados entre duas janelas.
Construída em meados do século XVII, a sala de Olinda é, de certo modo, atípica. Bem
menor do que as outras, encontra-se localizada no fundo do corredor direito do claustro.
A pesar dessas diferenças, ela já apresenta todas as características mais usuais e – não
apenas pela sua antiguidade como pelo caráter primacial do convento de Olinda – pode
ter sido modelo para as salas capitulares mais recentes.
Encontram-se nela o arco de entrada, o retábulo, ladeado por duas janelas, o teto em
caixotões, os azulejos e, todo em volta, o longo banco de alvenaria com plano superior
de madeira. Duas particularidades se destacam: a presença de imagens secundárias, aos
lados do retábulo, e a lápide tumular brasonada que marca o túmulo do doador, seus
filhos e demais herdeiros.
109

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

110

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Cozinhas, Refeitórios e De Profundis

111

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A grande chaminé que Franz Post registrou em Igarassu ainda existe em Cairu,
Paraguaçu, Penedo e São Cristóvão. Ela identifica a localização da cozinha e, em
consequência, do refeitório e do “de profundis”, que quase sempre ficavam perto dela.
Lamentavelmente, pouca cousa subsiste do interior dessas cozinhas. A de Cairu – uma
das mais conservadas – ainda permite intuir a distribuição original.

O ambiente mais escuro, no primeiro plano, corresponde à planta principal e está
sobreposto pelo corredor dos dormitórios. À esquerda, fora da foto, há um depósito de
mantimentos. O ambiente mais claro, com porta, janelas e telhado à vista, é uma
construção adicional, conforme pode ser apreciado na imagem externa.

Na área mais clara há uma pia e uma bancada de alvenaria. À direita, um arco abatido dá
passo à “casa do forno”, em baixo da chaminé. O interior, muito alterado, apresenta dois
nichos na base do cone. Tanto os azulejos quanto o piso são reformas recentes. Também
o arco, embora mais antigo, foi aberto a posteriori, chegando a mutilar o nicho esquerdo.
A janela, dentro do arco, é uma alteração ainda mais recente.
112

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Paraguaçu encontramos similar disposição. Porém, é a cozinha toda que se projeta
para fora da planta principal e essa extensão foi aproveitada para estender, sobre ela, o
andar superior, formando um amplo salão com janelas conversadeiras. Além desse
ponto, a casa do forno projeta-se completamente fora do edifício.
Na parede, despida do reboco, nota-se um arco abatido – a entrada do forno - e, sobre
ele, um arco pleno, usado como descarga para distribuir o peso da chaminé. Outro arco,
mais ao centro, protege um grande tanque junto ao qual há uma pia de menores
dimensões. Os vãos quadrados são janelas que foram cegadas com blocos pelo IPHAN
para evitar a depredação das ruínas.

No interior da chaminé também há nichos absidais. Porém, mais explicitamente que em
Cairu, os restos de construção esclarecem a sua função. Certamente, eram fogões de
alvenaria, similares aos que ainda hoje são utilizados nas residências rurais. Junto a eles,
receptáculos, também de alvenaria, seriam, provavelmente, utilizados para armazenar a
lenha recolhida nas proximidades do convento.
113

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Perto da cozinha ficava o refeitório. Era um amplo salão com duas longas mesas de
madeira sobre suportes de pedra. Ao longo das paredes, bancos, similares aos da sala
capitular. Num dos extremos – o oposto à porta de ingresso, podia existir uma terceira
mesa, de menores dimensões. Não existindo ainda água encanada, a de beber era colhida
num filtro, geralmente próximo da entrada. Havia, também, um nicho maior, com
degraus, que era utilizado como púlpito para leituras sagradas durante as refeições.
Pretendia-se, assim, alimentar, simultaneamente, o corpo e o espírito. Vemos, em cima,
as ruínas do refeitório de Paraguaçu. Em baixo, mais conservado, o de Cairu.

114

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Cairu, preside as mesas um cristo crucificado.
Porém, não era isso o mais comum. Normalmente,
colocava-se, no refeitório, um quadro da Santa
Ceia. Aliás, o famoso mural de Leonardo da Vinci
também foi pintado no refeitório de um convento.
Lamentavelmente, as condições de iluminação não
me permitiram obter boas fotografias das pinturas.
Mesmo assim, considero importante registrá-las.
O quadro acima é de Igarassu e está, atualmente,
na pinacoteca do convento. O da direita é de
Ipojuca e ainda se encontra no refeitório.
Na imagem abaixo vemos o quadro de Olinda.
Ele foi retirado do refeitório e se encontra no de
profundis, que hoje faz as vezes de ante-sala, no
ingresso ao convento pela portaria nova. Cabe
lembrar que a portaria antiga – a capela de Santa
Ana – não é mais utilizada como acesso.

Uma exceção, pela técnica, é a Santa Ceia do refeitório de Salvador, integralmente feita
em azulejos. Encontra-se, como sempre, no fundo do refeitório.
Sobre a porta de entrada há um crucifixo. No lado de dentro, o brasão franciscano. A
pintura do teto – visível na foto central da próxima página – não cabe neste tópico. Foi
deslocada do antigo cemitério e será considerada oportunamente.
115

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A ante-sala do refeitório – geralmente um local amplo e aberto a todas as áreas do
convento – era chamada “De Profundis”, em alusão ao salmo 130 (129 da vulgata): “De
profundis clamavi ad te, Domine;/ Domine, exaudi vocem meam. Fiant aures tuæ intendentes
in vocem deprecationis meæ./ Si iniquitates observaveris, Domine, Domine, quis sustinebit?/
Quia apud te propitiatio est; et propter legem tuam sustinui te, Domine./ Sustinuit anima mea
in verbo ejus:/ Speravit anima mea in Domino./ A custodia matutina usque ad noctem, speret
Israël in Domino./ Quia apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio./ Et ipse
redimet Israël ex omnibus iniquitatibus ejus.”

É um dos chamados “salmos penitenciais”. Um visitante inglês em Portugal esclarece a
a relação deste salmo com o refeitório dos conventos: “Antes de cada comida usam os
monges estarem de pé em sisudas fileiras em volta do refeitório, silenciosos passando
pela idéa quão precária é a nossa frágil existência, e deprecando pela salvação das
almas dos seus predecessores.”26
O de profundis não servia apenas para lembrar dos defuntos e meditar no efêmero da
vida humana. Também nesse local eram velados os frades que faleciam no convento.
Dali partia a procissão fúnebre em direção à capela mor e ao cemitério dos frades.
Frei Lucas, do convento de Cairu, me disse que o de profundis era construído cuidando
de que essa procissão seguisse um caminho sempre reto. Isso nem sempre se observa nas
plantas dos conventos. No convento de Salvador, não apenas o percurso não era reto
como obrigava a procissão a subir e descer escadas, posto que tanto o cemitério quanto o
de profundis ficavam num nível inferior ao da igreja. Observando as plantas, embora em
várias delas possa constatar-se um certo alinhamento, apenas em Cairu e Paraguaçu27
observei uma linearidade absoluta.
26 Diário de William Beckford em Portugal e Espanha, publicado em 1835.
27 Plantas elaboradas pelo arquiteto Francisco Santana (IPHAN).
116

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

117

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Uma característica comum é a presença do lavabo, que pode ficar no de profundis ou em
local próximo a ele. Ali, os religiosos, em trânsito para o refeitório, higienizavam-se
física e espiritualmente.
Em geral, esses lavabos são menores e mais simples que os existentes nas sacristias
brasileiras, porém tanto ou mais elaborados que os conservados nas sacristias
portuguesas, o que indica claramente a sua importância do ponto de vista ritual.
Em baixo, podemos ver os lavabos de Cairu, Igarassu, João Pessoa (faltando a bacia),
Olinda (com a inscrição “Louvado seja o Santíssimo Sacramento para sempre”),
Paraguaçu e Penedo. É interessante ressaltar que o lavabo de Paraguaçu está entre as
poucas peças que se salvaram da destruição e do saqueio.
Ainda está lá, nas ruínas do convento.

118

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

ANDAR TÉRREO

SUBSOLO

Uma área do convento do Paraguaçu sobre a qual não não encontrei informações claras é
a destacada na planta acima, reproduzida do livro de Fernando Fonseca28.
Inicialmente, é preciso esclarecer que essa planta contém alguns erros, provavelmente
provocados pelo estado de destruição e pela presença do mato que tinha invadido as
ruínas. Hoje, após os trabalhos de limpeza e consolidação realizados pelo IPHAN, notase que a parede e a porta, no meio desse espaço, não correspondem ao mesmo nível e
que os degraus marcados na planta, simplesmente não existem.
Nesse ponto, o terreno vai descendo, o que possibilitou a construção de alguns cômodos
em baixo do andar térreo29. A parede é um muro de contenção e a suposta porta, um
trecho desse muro que desabou, descendo com ele parte do aterro. Certamente, esse vão
deu a Fonseca a impressão de tratar-se de uma escada encoberta pela vegetação.
Atualmente, observando as ruínas, já limpas, nota-se, nas paredes, a linha de perfurações
que suportava os barrotes do piso de madeira. Desaparecido esse piso, desabado o muro
de contenção e cobertas as ruínas pelo mato, não é surpreendente que Fonseca tenha
confundido os níveis. Aliás, também as três portas enfileiradas atravessando essa ala
fazem parte dos espaços construídos por baixo do nível geral do convento.
Para melhor compreensão, redesenhei esse setor da planta diferenciando os dois níveis,
que, talvez impropriamente, chamarei de “térreo” e “subsolo”. Digo impropriamente
porque não está soterrado e sim, construído em terreno mais baixo.
Observa-se, assim, que o que pareciam duas salas é, em verdade, um grande salão, plano
e contínuo, sendo que parte dele estava sobre terreno firme e parte, sobre um piso de
madeira que desapareceu por ação do tempo.
28 Fernando L. Fonseca: “Santo Antônio do Paraguaçu” - Publicação do Museu do Recôncavo Wanderley Pinho – 1973.
29 Provavelmente, oficinas ou depósitos.
119

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Observando esse salão, nota-se que tem dimensões muito similares às do conjunto
refeitório/de profundis e que está igualmente precedido por um lavabo. Não tem as
clássicas pilastras para suporte das mesas, o que é perfeitamente compreensível porque
elas deveriam ficar exatamente onde o piso era de madeira. Caso houvesse ali mesas,
certamente não teriam suportes de pedra.
Quanto às janelas, há um detalhe que também levou Fernando Fonseca a uma conclusão
errada. “O convento teve um andar intermediário – escreveu – pois a fachada lateral,
do lado oposto à igreja, deixa a mostra uma série de óculos elípticos, cuja cercadura é
feita de tijolos”. Novamente, a furação do piso, nas paredes, prova que nunca houve um
andar intermediário. Se os óculos ficam acima do nível normal é porque não serviam
como janelas e sim, apenas para entrada de ar e luz.
Que função teria esse segundo refeitório? Por que razão não tinha janelas como as do
refeitório principal, apresentado na página 114? E por que o lavabo tem duas datas
sobrepostas?
120

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Observando, acima, o detalhe do lavabo, nota-se que a data 1698 foi precariamente
alterada para 1780. É possível que essa alteração seja o registro de um remanejamento
do lavabo, talvez de um outro convento, para ser aproveitado nesse segundo refeitório.
Esse salão se encontra fora da quadra do claustro, o que me leva a pensar que não fosse
utilizado pelos frades. Lembrando que Paraguaçu era noviciado, cabe imaginar que esse
fosse o refeitório dos noviços e, talvez por essa mesma razão, era um ambiente mais
reservado, desprovido de janelas. De fato, existem apenas uma, na entrada, antes do
lavabo, e uma seteira, junto à parede do fundo.
Lamentavelmente, não posso confrontar essas hipóteses com o convento de Igarassu,
que também era noviciado. Ali também existe uma ala que se afasta do claustro, mas
nada dentro dela foi conservado. Hoje é um grande salão vazio aproveitado como
pinacoteca.

121

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Dormitórios e Salões de Esquina
Subindo a escada próxima ao de profundis
– chamada, habitualmente, de “escada
regral” – chegava-se aos corredores que
interligavam os dormitórios.
Conventos ainda em fase inicial podiam
carecer de andar superior, dormindo os
frades, provisoriamente, no andar térreo.
Essa ocupação podia subsistir – talvez por
falta de espaço – mesmo depois de os
dormitórios ficarem prontos. Porém, via
de regra, essas áreas privadas ficavam
sempre no andar de cima. O esquema ao
lado30 apresenta as técnicas construtivas
mais utilizadas.
A caixa estrutural, feita de alvenaria, envolvia apenas as paredes externas. Do andar
térreo para o superior, tendia-se um piso de madeira dobre barrotes, em cima do qual
eram construídas divisórias com materiais mais leves. As celas se alinhavam ao longo
das paredes, podendo ser de ambos os lados ou de um lado só.
Normalmente, junto aos corredores do claustro havia corredores internos, abrindo-se a
eles as celas, construídas apenas do lado externo. Já nas alas que irradiavam para fora do
claustro podia haver celas de ambos os lados, beirando um corredor central.
Nas esquinas, a fileira de celas se interrompia e o corredor se ampliava para formar um
salão destinado ao convívio dos frades. Diferenciando-se das celas, cujas janelas eram
pequenas e aproximadamente quadradas, as desses salões eram rasgadas até o chão e
ladeadas por assentos de alvenaria denominados de “conversadeiras”.
Antigamente, em Europa, era comum a existência de dormitórios coletivos. Essa prática
não parece ter sido usual no Brasil, ao menos para dormitório dos frades, que aqui
contavam com celas, o que não significa que fossem sempre individuais. Apesar das
pequenas dimensões, há registros de que, nas épocas de maior lotação, chegavam a
dormir até quatro frades por cela. Já dormitórios coletivos, não parecem ter existido, a
não ser nos períodos de construção ou para alojamento dos noviços.
30 Reproduzido do Relatório Intermediário do Plano Diretor de Conservação do Conjunto Franciscano de Olinda.
122

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As duas fotos acima são do convento de Salvador. A da esquerda, próxima ao claustro,
tem celas de um lado só. No fundo alcança-se a ver um salão de esquina. A foto da
direita é da ala que foi ampliada fora do claustro, apresentando celas de ambos os lados.

As janelas das celas são pequenas, sempre quadradas ou retangulares, à exceção das de
Igarassu, cujas vergas superiores são ligeiramente arqueadas. Inicialmente, fechavam-se
com duas bandas cegas, às vezes com portinholas possibilitando a abertura parcial.
Vidros, existiam, mas, pelo seu custo, eram reservados para os altares. Só no século XIX
o preço os tornou acessíveis para serem usados em janelas. São dessa época os modelos
de duas bandas com vidros e os de guilhotina, então chamados de “janelas inglesas”.
Sob as janelas, costuma haver cachorros de pedra similares
aos utilizados para sustentar telhados (direita). Não sei, ao
certo, a função que desempenhavam. uma explicação comum
é que eram destinados a colocar vasos de plantas, como ainda
se vê em Olinda (acima, esquerda).
123

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outra hipótese é proposta por Fernando Luiz da Fonseca31: “Logo acima desses óculos e
sob os peitoris das janelas – se refere à parede norte do convento de Paraguaçu – vemos
grandes cachorros salientes, de pedra, que deveriam, em priscas eras, ter sustentado os
muxarabiês rotulados, numa lembrança da herança muçulmana de nossa arquitetura”.
Esta explicação não me parece muito verossímil, não apenas porque não encontrei
vestígio algum desses muxarabiês nem informação da sua existência em outros
conventos, mas porque vai de encontro à função essencial desse elemento. Tanto entre os
árabes quanto, posteriormente, na Espanha, Portugal e suas colônias – entre elas, o
Brasil – rótulas e muxarabiês eram utilizados, na arquitetura residencial, para ocultar da
rua as mulheres da casa, permitindo-lhes observar o exterior sem serem observadas.
Com que intuito eles seriam utilizados em edifícios cuja população era exclusivamente
masculina e que, na época, encontravam-se bastante afastados das ruas?
Por outra parte, voltando à explicação habitual – fundada, segundo alguns autores, no
amor dos franciscanos pela natureza – parece um tanto exagerado usar cachorros de
pedra como suporte de tabuinhas, embora possa alegar-se que esses cachorros eram
mais duráveis que simples suportes da mesma madeira. Porém, rodeados os conventos –
como então eram – de uma ampla área cultivada, não parece que os frades precisassem
de plantas nas janelas para estar em contato com a natureza.
Não comentarei o interior das celas porque não achei indício algum da sua mobília
original. Quanto ao corredores, eram apenas vias de circulação, normalmente vazias.
Vale, sim, mencionar os “salões de esquina”, habitualmente localizados nas esquinas do
claustro, que, por seu próprio formato, não ofereciam condições favoráveis para a
divisão em celas. Porém, salões essencialmente similares podiam ser criados nos
extremos das alas ou em cima das sacristias.

31 Fernando L. Fonseca: “Santo Antônio do Paraguaçu” - Publicação do Museu do Recôncavo Wanderley Pinho – 1973.
124

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Característica desses salões é a presença de janelas rasgadas até o chão e ladeadas por
conversadeiras. No exemplo da página anterior, as da biblioteca do convento de
Salvador, que será especificamente analisada no próximo capítulo.
O que neste momento interessa é o formato das janelas. Observe-se que o vão é similar
ao de uma porta, porém ocupado por uma janela de guilhotina com vidros, deixando em
baixo um fechamento de parede mais fina. De um lado e do outro, dois bancos de pedra
de profundidade aproximadamente igual à da parede principal.
Esses bancos enfrentados – às vezes sobrepostos por assentos de madeira – favoreciam a
convivência entre os frades, além de proporcionarem locais generosamente iluminados
para o trabalho e a leitura.
Um detalhe interessante – e repetidamente encontrado em diversos conventos – é o
sistema de escoamento, na parte inferior das conversadeiras. Levando em conta que os
pisos eram de madeira, a chuva acumulada poderia danificá-los. Esse perigo era evitado
elevando a soleira de pedra e inclinando-a, ligeiramente, em direção a um furo praticado
na parede. Caso alguém esquecesse uma janela aberta, a água da chuva escoaria
naturalmente através desse orifício.

125

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Bibliotecas

Um ambiente de especial importância, em todos os conventos, era a biblioteca,
habitualmente localizada num amplo salão do andar superior para contar com luz e
ventilação abundantes. Local ideal para esta utilização era em cima da sacristia, onde
ainda se encontra a de São Francisco do Conde (foto), lamentavelmente despojada de
todo o mobiliário original.
Nesses ambientes, as conversadeiras não serviam para conversar e sim, para ler junto às
janelas, beneficiando-se da abundância de luz solar. Nos espaços vagos, entre as janelas,
localizavam-se as estantes para os livros. Na parede oposta, junto à capela mor, duas
portas – por cima das vias sacras – possibilitavam o compartilhamento da biblioteca
entre o convento e as dependências da Ordem 3ª. Entre ambas, mais estantes e, no
centro, um retábulo, dando à leitura um caráter sagrado.
Apenas dois conventos – Olinda e Salvador – conservam suas bibliotecas com a mobília
original. Porém, nenhum deles obedece à localização habitual, em cima da sacristia.
Em Olinda, não há uma e sim, três bibliotecas. A ampliação da portaria, que deu origem
à Capela de Santa Ana, possibilitou, em cima dela, a construção de duas bibliotecas
sobrepostas, sendo a principal localizada no andar superior. Ela tem apenas quatro
janelas – duas na frente e duas nas laterais da área ampliada – o que possibilitou a
colocação de um bom número de estantes numeradas e, consequentemente, a
disponibilidade de uma grande capacidade de armazenamento e classificação de livros.
126

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para dar à leitura a devida sacralidade, entre as duas janelas da frente, entre duas
estantes, existe um retábulo onde, atualmente, há um pequeno crucifixo. Não me parece
que seja esta a imagem original. No teto – este, sim, certamente original – a Imaculada
Conceição, ladeada por diversos símbolos (detalhe).

No andar intermediário, a mobília e bem mais simples e – certamente – também mais
moderna, destacando-se apenas o arco de entrada com grades torneadas – aliás, similar
ao da biblioteca principal – e a pintura do teto.
Também esta pintura é mais simples, porém bastante antiga. A particularidade é que, se
bem é comum a presença das armas de Portugal em reconhecimento ao padroado da
Coroa, habitualmente se apresentam conjugadas com o brasão franciscano, o que não
acontece neste caso. A pintura central é, claramente, o brasão nacional de Portugal e
Algarve. Apenas, nas quatro esquinas da sala, aparecem símbolos entre os quais pode
identificar-se o brasão franciscano das cinco chagas. Os restantes são a eucaristia, a cruz
da Ordem de Cristo, entre quatro outras cruzes de menor tamanho, e o monograma da
Virgem Maria.
127

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A terceira biblioteca não forma parte deste conjunto. Ela está instalada no andar térreo,
ao fundo do claustro, e carece por completo de mobiliário antigo. Merece atenção,
apenas, pelo seu teto, dividido em numerosos painéis que intercalam imagens de
intelectuais da Igreja com arranjos simplesmente decorativos de aves e motivos vegetais,
entre os que se reconhecem frutos brasileiros como o abacaxi e a melancia32.

32 Mais uma vez, devo esclarecer que este trabalho não foi feito com equipamentos profissionais, o que também neste caso
prejudicou a reprodução das pinturas. Não sendo adequada a iluminação dos tubos fluorescentes instalados entre os
quadros, foi utilizada a luz das janelas, que incide lateralmente, provocando uma diferença notável no painel à esquerda.
128

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A biblioteca de Salvador é a que está
melhor conservada. Lamentavelmente, ao
tempo de realizar estas fotos se encontrava
desativada para restauração. O seu aspecto
original, com os livros, pode ser apreciado
na foto ao lado.
Ela se encontra localizada junto à capela
mor, por cima da via sacra e do andar dos
dormitórios. A partir desse andar superior,
chega-se a ela por uma escada especial,
utilizada também como acesso para a
arrumação e limpeza do retábulo mor.
No topo da escada, a porta de entrada, artisticamente trabalhada, exibe duas datas: 1751,
a inauguração da biblioteca, e 1914, a da restauração, efetuada durante a intervenção dos
frades da província alemã da Saxônia.
129

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Durante essa restauração, foram queimados numerosos
volumes, não por desleixo mas por impossibilidade de
recuperação. Pelo menos, com os recursos disponíveis
naquela época. Mesmo assim, ainda resta um valioso
acervo de livros antigos e raros. Frei Hugo Fragoso,
historiador do convento, cita os seguintes33:
LIVROS DO SÉCULO XVI:
1.- BÍBLIA, LUGDUNI, in officina Jacobi Mareschal, 1019 (?), (1519)
2.- DE LOCIS THEOLOGICIS LIBRI DUODECIM, a. D. DOMINI MELCHIORIS CANI Episcopi Canariensis,
Salmanticae, 1563
3.- F. FRANCISCI GONZAGAE: DE ORIGINE SERAPHICAE RELIGIONIS FRANCISCANAE, Romae, 1587, 4 vol.
LIVROS DO SÉCULO XVII:
4.- PONTIFICALES MISSAE, 1610, fac simile
5.- ROBERTI BELLARMINI POLITIANI S.R.E. CARDINALIS, SOLIDA CHRISTIANAE FIDEI DEMONSTRATIO
V.P.F. BALDUINI JUNII, Ordinis Minorum, Antuerpiae, 1611, 3 vol
6.- ROBERTI BELLARMINI POLITIANI, SJ: DE CONTROVERSIIS CHRISTIANAE FIDEI ADVERSUS HUIUS
TEMPORIS HAERETICOS, Coloniae Agripinae, 1615, 2 vol
7.- SANCTI JOANNIS DAMASCENI OPERA, Parisiis, 1619
8.- ENCHIRIDION DE EPICTETO GENTIL, COM ENSAYOS DE CHRISTIANO Y LA DECLARATION DE LA
TABELA DE CEBES PHILOSOPHO THEBANO Y PLATONICO, Amberes, a. 162534
9.- COMMENTARIA IN EPISTOLAS CANONICAS... A LAPIDE SJ, Lugduni, 1627
10.- COMMENTARIA IN DUODECIM PROPHETAS MINORES, a R.P. CORNELII A LAPIDE SJ, Antuerpiae, 1628
11.- ECCLESIASTICUS JESU SIRACIDIS EXPOSITUS a C. a LAPIDE SJ, Lugduni, 1634
12.- COMMENTARIA IN ACTA APOSTOLORUM a C. a LAPIDE SJ, Lugduni, 1637
13.- CORNELII A LAPIDE SJ... IN LIBRUM SAPIENTIAE COMMENTARIUS, Parisiis, 1639
14.- THEATRO MORAL DE LA VIDA HUMANA Y DE TODA LA PHILOSOPHIA DE LOS ANTIGUOS Y
MODERNOS, Antuerpiae, d. 1648
15.- TERTULIANI OMNILOQUIUM ALPHABETICUM (OPERA OMNIA), Parisiis, 1657, 2 vol.
16.- SCRIPTURA SACRA IN LOCOS COMMUNES, auctore R.P. ANTONIO DE BALINGHEM SJ, Coloniae Agripinae, 1659
17.- TERTULIANI OMNILOQUIUM ALPHABETICUM RATIONALE SIVE TERTULIANI OPERA OMNIA a F.
CAROLO MOREAU, Parisiis, 1663, 2 tom.
18.- EUSEBII PAMPHILI ECCLESIASTICA HISTORIA graece et latine, Moguntiae, 1672
19.- SOCRATIS SCHOLASTICI ET HERMIAE SOZOMENI HISTORIA ECCLESIASTICA graece et latine, Moguntiae, 1677
20.- SANCTI AURELII AUGUSTINI HIPPONENSIS EPISCOPI OPERUM, Parisiis, 1679-1690, 14 vol.
21.- COMMENTARIA IN PENTATEUCHUM MOSIS auctore R.P. CORNELIO CORNELII A LAPIDE SJ, Antuerpiae, 1680
LIVROS DO SÉCULO XVIII:
22.- COMMENTARIUS IN JOSUE, JUDICUM, RUTH auctore R. P. CORNELIO CORNELII A LAPIDE SJ, Venetiis, 1701
23.- THEOLOGIAE MORALIS, a PAULO LAYMANN SJ, Venetiis, 1706
24.- COMMENTARIA IN EPISTOLAS CANONICAS... A LAPIDE SJ, Lugduni, Antuerpiae, 1714
25.- SANCTI BERNARDI ABBATIS PRIMI CLARAE-VALENSIS GENUINA SANCTI DOCTORIS OPERA, Parisiis, 1719, 3 tom.
26.- DIONYSSII PETAVII DOGMATA THEOLOGICA, Venetiiis, 17721-1724, 6 vol.
27.- SANCTI PATRIS NOSTRI JOANNIS CHRYSOSTOMI OPERA, graece et latine, Parisiis, 1724-1737, a BERNARDO
DE MONT-TAUCON, 12 vol.
33 Frei Hugo Fragoso (OFM): “Biblioteca do Convento de São Francisco”, em http://www.histedbr.fe.unicamp.br/
34 É neste livro que estão baseados os painéis de azulejos do claustro inferior do convento.
130

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
28.- SANCTI HILARII PICTAVIENSIS EPISCOPI OPERA, Veronae, 1730, 2 vol.
29.- SANCTI IRENAEI EPISCOPI LUGDUNENSIS ET MARTYRIS, Venetiis, 1724, 2 vol.
30.- SANCTI PATRIS NOSTRI JUSTINI PHILOSPHI ET MARTYRIS OPERA, Venetiis, 1747
31.- BRASILIA PONTIFICIA per P. SIMONEM MARQUES SJ, Ulyssipona, 1749, 2 vol.
32.- CHRONICA SERAPHICA DA SANTA PROVINCIA DOS ALGARVES, Lisboas, 1750, 3 vol.
33.- DECISIONES SACRAMENTALIS a JOANNE CLERICATO, Anconae, 1757, 2 vol.
34.- COLLEGIUM UNIVERSI JURIS CANONICI, a P, LUDOVICO ENGEL, Beneventi, 1760
35.- R.P. CORNELII CORNELII A LAPIDE SJ COMMENTARIA IN OMNES DIVI PAULI EPISTOLAS, Venetiis, 1761
36.- BIBLIA SACRA VULGATAE EDITIONIS sub directione P. GERMANI CARTIER, Constantiae, 12763, 3 tom.
37.- JUS CANONICUM UNIVERSUM a R.P. F. ANACLETO REIFFENSTUEL, Venetiis, 1763, 4 vol.
38.-SANCTI GREGORII PAPAE I. OPERA OMNIA, Venetiis, 1764, 4 vol.
39.- VETUS ET NOVA ECCLESIAE DISCIPLINA, a LUDOVICO TOMASSINO, Venetiis, 3 tom., 1766
40.- R.P.D. AUGUSTINI CALMET COMMENTARIUS LITERALIS IN OMNES LIBROS NOVI TESTAMENTI,
Wirceburgi, 1787, 4 vol.
41.- R.P. AUGUSTINI CALMET COMMENTARIUS LITERALIS IN OMNES LIBROS VETERIS TESTAMENTI,
Wirceburgi, 1789, 11 vol.
COLEÇÕES IMPORTANTES:
1.- PATROLOGIAE CURSUS COMPLETUS SEU BIBLIOTHECA UNIVERSALIS... OMNIUM SS. PATRUM,
DOCTORUM SCRIPTORUMQUE ECCLESIASTICORUM, Series latina, J.P. MIGNE, Parisiis, 1878-1890, 221 vol.
2.- SANCTORUM PATRUM OPUSCULA SELECTA a H. HURTER SJ, Oeniponti, 1868, 33 vol.
3.- ACTA SANCTORUM, JOANNES BOLLANDUS SJ, Parisiis, 2ª ed. (1868), 54 vol. (de 1/I/ a 14/X)
4.- BULLARIUM DIPLOMATUM ET PRIVILEGIORUM SANCTORUM ROMANORUM PONTIFICUM, Augustae
Taurinorum, 1857-1865, 10 vol.
5.- ANNALES ECCLESISTICI, CARD. CAESAR BARONIUS, Barri-ducis, (1864-1883), 37 vol.
6.- JUS CANONICUM UNIVERSUM a R. D. VICTORIS PELETIER, Parisiis, 1866-1870, 7 vol.
7.- JUS ECCLESIASTICUM, a R, P. FRANCISCO SCHMALTZGRUEBER SJ, Romae, 1845, 12 vol.
9.- WADDINGUS: ANNALES MINORUM, ad Claras Aquas, 1934, 35 vol.
10.- CONCILII TRIDENTINI DIARIORUM, Friburgi Brisgoviae, 1901-1930, 9 vol.
11.- DOCTORIS ECCLESIASTICI DIONYSII CARTUSIANI, 1896, 132 vol.
12.- BIBLIOTHEK DER KIRCHENVAETER, Muenchen, 1924-2926, von O. BARDENHEWER und K. WEYMAN und J.
ZELLINGER, 83 vol.
13.- COLLEGII SALMANTICENSIS FR. DISCALCEATORUM...CURSUS THEOLOGICUS, Parisiis, Romae, 18711883, 20 vol.
14.- OEUVRES COMPLETES DE BOSSUET, Parisiis, 1845-1846, 12 vol.
15.- SUMMA THEOLOGICA S. THOMAE AQUINATIS, Parisiis, 1864, 9 vol.
16.- SUMMA THEOLOGICA SANCTI THOMAE AQUINATIS, Barri-Ducis, 1869, 8 vol.
17.- SUMMA THEOLOGICA SANCTI THOMAE AQUINATIS, Augustze Taurinorum, 1888, 6 vol.
18.- THEOLOGIAE R. P. SUAREZ SJ SUMMA SEU COMPENDIUM a R. P. FRANCISCO NOEL, Parisiis, 1888, 4 vol.

131

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

À semelhança de Olinda, a biblioteca de Salvador tem as estantes numeradas para
facilitar a localização dos livros. Tem, ainda, um fichário, ocupando parte de uma das
janelas. Porém, não me parece que ele seja muito antigo. Considerando a forma em que
foi adaptado e o material em que está confeccionado, suponho tratar-se de um agregado
feito na reforma de 1914 ou até em data mais recente. Mesmo assim, preciso é admitir
que ele se integra agradavelmente no ambiente geral da biblioteca.

O teto foi executado com critério similar ao da biblioteca do térreo de Olinda. Porém,
aqui a composição é mais erudita e, talvez por isso mesmo, um pouco mais
convencional. Os retratos dos teólogos alternam com painéis menores representando
anjos que portam legendas. Na imagem aqui reproduzida: “Sapientia ædificavit sibi
domum” (A sabedoria edificou para si uma casa).
Observe-se que se trata da mesma legenda que o anjo
exibe no painel central do forro que Antônio Simões
Ribeiro pintou no teto da biblioteca dos jesuítas,
exatamente em frente do convento, do outro lado do
Terreiro de Jesus. Esse teto inaugurou a pintura ilusionista
no Nordeste e dificilmente seria desconhecido dos
franciscanos.
O ponto central de toda a biblioteca é o retábulo. Aqui, – à diferença de Olinda – a
imagem conservada é, certamente, a original. Trata-se de São Boaventura, filósofo e
teólogo escolástico franciscano, declarado Doutor da Igreja com o título de Doutor
Seráfico. No livro – invisível para quem está em baixo – está escrito: “Sapientiam Hanc
amavi et exquisivi a iuventute mea et quaesivi sponsam mihi eam assumere” (Amei a
sabedoria, busquei-a desde a minha juventude e procurei tomá-la por esposa).
132

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No convento de Recife, a biblioteca fica no
andar superior, porém não está situada em
cima da sacristia e sim, num ambiente
contíguo, já iniciando a ala posterior do
claustro.
Toda a mobília foi substituída. Não mais
existe o retábulo e as estantes numeradas.
As prateleiras dos livros são protegidas por
portas de vidro.
Quatro grandes janelas – duas em cada
extremo – iluminam o ambiente. O formato
sugere a existência de conversadeiras, não
mais conservadas.
Da biblioteca original, conserva-se apenas o forro, formado por
cinco painéis planos dispostos em gamela e profusamente
ornamentados com motivos vegetais em curvas e contracurvas.
O painel central apresenta os dizeres “Melior est Sapientia Cunctis
pretiosissimis et omne desiderabile ei non potest Comparari.
Proverb. Cap. 8. V. 11”, o que, livremente traduzido, significa “A
sabedoria é melhor que as coisas mais preciosas e nada do que é
desejável pode comparar-se a ela”.
Do texto bíblico original, foi omitida a palavra “enim” (por,
porque), que o vinculava ao versículo precedente. Assim, a citação
adquiriu independência como frase autônoma.
133

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Embora não se conserve praticamente nada, não resisto á tentação de fazer uma
referência à biblioteca de Paraguaçu. Certamente, é sobre ela que, sem saber, escreveu
Fr. José Pohlmann ao descrever as vicissitudes pelas que os frades restauradores da
Saxônia passaram durante a epidemia de febre amarela.
“Para verificar quantas celas ainda eram habitáveis, nomeou o P. Praeses uma
comissão, e precisamente, Fr. Carlos, Fr. Mauricio e ainda um terceiro. Eles
examinaram o teto, inspecionaram a casa, e chegaram assim diante de uma cela.
Abriram a porta, e Fr. Mauricio entrou para... no mesmo momento despencar no fundo.
Os dois outros gritaram alto e cheios de horror. O que sucedera? A cela não tinha mais
piso, e assim Fr. Mauricio caiu do primeiro andar no chão da Sacristia”35.

O que Frei José chamou de “cela” ainda está sem piso. Sem recursos para uma
restauração completa, o IPHAN limitou-se a cobrir a área com telhado novo para
proteger o que ainda resta. Não há mais como chegar lá em cima. Porém, visitando o que
restou da sacristia, pode-se apreciar, em cima, as janelas conversadeiras o os vãos que
ocupavam as estantes embutidas.
Ao observá-las, não posso evitar a reflexão sobre o quanto se perdeu. Essa era a
biblioteca do noviciado. Será que, ao desativá-lo, esses livros foram recolhidos para
algum outro convento? Ou será que se perderam por completo?

35 Fr. José Pohlmann OFM: “A Epidemia de Febre Amarela na Bahia (1896)”, em Cadernos da Restauração, vol. 6, “As
Cruzes da Restauração: Incerteza da Missão - Prova de Fogo do Martírio - Dureza do Empreendimento”. Gráfica
EPSSAL, edição coordenada por Fr. Hugo Fragoso OFM.
134

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Enfermarias, Cárceres e Outras Dependências
Nem sempre conseguimos localizar, nos conventos, todas as dependências que podem
ser encontradas na documentação antiga. Além das celas do dormitório dos frades –
chamado, também, às vezes, de “dormitório do coro” – existiam áreas separadas para os
noviços e para os hóspedes. Em tese, o setor de hóspedes tencionava receber frades que
estivessem em trânsito, de ou para Portugal, para outros conventos ou, ainda, para as
missões. Porém, não podemos esquecer que, em épocas pretéritas, considerava-se um
dever de caridade receber e hospedar os viajantes. Era costume, na idade média, e
persistiu durante muito tempo em áreas que tinham especial necessidade desse auxílio,
tais como o chamado “Caminho de Santiago”, abrangendo, na verdade, vários caminhos
em terras de Portugal, Espanha e França. Não me consta que isso ocorresse no Brasil,
mas o creio bastante provável, especialmente nos primeiros tempos da colonização e no
período da guerra contra os holandeses.
Havendo necessidades mais constantes,
poderia até ser criado um recolhimento à
parte, como foi feito em Salvador com o
Hospício da Boa Viagem. Tratava-se, de
fato, de um mini-convento, com adro,
cruzeiro, igreja, sacristia, refeitório,
dormitórios e até cemitério. Porém, como
se dizia na época, “sem forma de casa”,
ou seja, sem a organização institucional
de um convento.
Na página seguinte se apresenta as plantas
de ambos os pavimentos, reproduzidas do
livro de tombamento do IPAC - Instituto
do Patrimônio Artístico e Cultural de
Estado da Bahia.
Cabe esclarecer que o chamado
“barracão da galeota” é o local onde hoje
se guarda a embarcação que conduz a
imagem do Senhor dos Navegantes na
procissão marítima de Ano Novo.
135

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Voltando a tratar das dependências internas dos conventos, muitas são as mencionadas
na documentação, desde as simplesmente utilitárias, como barbearias, marcenarias, etc.,
até outras mais específicas de uma comunidade religiosa relativamente fechada em si
mesma, tais como a enfermaria e o cárcere.
Pouco é o que resta dessas dependências. Relativamente desprovidas do caráter sagrado
que ajudou a preservar igrejas e sacristias, foram livremente reformadas ou até extintas
na medida em que perdiam a sua primitiva utilidade.
Dentre as enfermarias, subsiste, apenas,
a entrada da que existiu em Salvador.
Situava-se no corredor superior da ala
que se afasta do claustro em direção
sudoeste.
Pelas orientações gerais, em uso na
época, a enfermaria devia ficar em lugar
relativamente afastado da circulação do
convento, alto e bem arejado. Era
também recomendado que tivesse uma
varanda ou salão aberto para recreação
dos convalescentes.
136

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No vestíbulo, que comunica diretamente com os corredores e com a escada regral,
existem duas janelas com conversadeiras e uma porta, almofadada, encimada por uma
cruz de azulejos. Junto a essa porta, um painel maior, também de azulejos, apresenta o
brasão franciscano. No interior, apenas um grande armário, também almofadado. Tudo o
mais foi reformado, inclusive os azulejos, que são antigos mas não pertenciam à
enfermaria. Foram aproveitados de uma área demolida, próxima da portaria.
Por referências escritas, sabe-se que as enfermarias franciscanas tinham botica, quarto
do enfermeiro, sala de enfermagem com “cubículos” para os doentes, varanda para os
convalescentes e até um pequeno retábulo para que os internos pudessem fazer as suas
orações. Hoje, em Salvador, existe uma enfermaria, mas já não fica nessa área e está
implementada em padrões mais modernos. Não tenho notícias da subsistência de
enfermarias nos outros conventos.
Outro âmbito diferenciado era o cárcere, também desaparecido na maioria dos
conventos. Hoje, soa até estranho que, num convento, exista uma área de reclusão penal,
podendo imaginar-se que se tratava de pequenos castigos, de âmbito quase doméstico,
mas não era assim. Na época, havia numerosos foros especiais. Nobres, clérigos e até
moradores de determinadas cidades, às vezes em prêmio de serviços prestados à Coroa,
tinham direitos e imunidades especiais e não estavam sujeitos à alçada da justiça
comum.
Para os clérigos seculares, existia o aljube, palavra de origem árabe que significa poço
ou cisterna, sendo igualmente utilizada para designar prisão e, especialmente, prisão
obscura e profunda36. Os regulares, habitualmente, eram presos nos seus próprios
conventos ou, em casos mais graves, recolhidos ao cárcere da província respectiva.
36 Wikipedia: Verbete “Cadeia do Aljube”.
137

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não encontrei rastros do cárcere em Salvador. Apenas vagas informações sobre a área do
convento na qual estava localizado. O único cárcere relativamente conservado – aliás,
identificado e parcialmente recuperado durante a restauração do convento – é o de Cairu.
Constava de dois recintos contíguos, um deles fechado com paredes e o outro, com
grossas grades de madeira das quais ainda restam os furos onde encaixavam os barrotes.
Nesse segundo recinto, subsistem, ainda, os restos de uma latrina, indispensável à
condição de recluso. O resto dos frades serviam-se de instalações sanitárias de uso
comunitário.
Segundo frei Lucas, morador do convento, fora do recinto, porém visível através das
grades, existia um pequeno retábulo para que o preso pudesse fazer as suas orações.
No convento de Paraguaçu, o cárcere é um ambiente único, aberto a um pequeno
corredor através de uma grade de madeira, já desaparecida. Os furos para fixação dos
barrotes estão abertos na pedra. Também neste caso (direita) identifica-se o canal de
esgoto sobre o qual ficava a latrina.

138

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Pouco se sabe sobre os locais de trabalho. Em Salvador, grande parte dos móveis mais
requintados foram elaborados no próprio convento. Segundo informação de Jaboatão,
foram obra de frei Luiz, o torneiro. Em Penedo, houve uma produção considerável de
imagens de santos. Muito do que se usava nos conventos era feito ali mesmo, seja pelos
próprios frades, por irmãos leigos, empregados ou escravos. Mas essas oficinas não
foram conservadas. Onde ficavam? Formavam parte dos conventos ou eram edificações
anexas que, por serem de construção mais precária, acabaram desaparecendo?
Vários conventos foram construídos em terrenos enladeirados. Como exemplo, em São
Cristóvão, toda a ala posterior foi construída sobre arcos para superar o desnível. Sob o
claustro, os arcos são cegos. O pé direito era insuficiente para possibilitar o seu
aproveitamento. Já no prolongamento dessa ala, na direção leste, o declive se torna mais
pronunciado, o que possibilitou a criação de uma varanda e de um amplo salão. Estes
dois setores não se comunicam, o que afasta a possibilidade de essa varanda ter sido
utilizada como vestíbulo.

Em Salvador, a área em desnível é tão grande que deu para fazer nela cemitério,
refeitório e de profundis. Junto ao cemitério, consta ter existido uma marcenaria. Além
do de profundis, por baixo da ala oeste, há um corredor de celas e, virando em direção à
rua, um amplo salão sobre arcos. Em Paraguaçu também há um ambiente com arcos, em
baixo da ala que avança até o lagamar, e em São Francisco do Conde, onde o terreno
plano não permitia construir em baixo, há arcos nos extremos das alas leste e sul.
Parece-me que estes salões, sempre localizados em nível térreo, nas alas que se afastam
do claustro, eram locais de trabalho dos frades e/ou do pessoal de serviço.
139

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outra utilização dos arcos é para facilitar a passagem de um lado a outro do convento.
Isso nunca acontece no claustro, mas sim se observa nas alas adicionais. Por exemplo,
em João Pessoa e Marechal Deodoro. Neste último caso, a passagem foi, posteriormente,
fechada com grades e transformada num cômodo. Em Olinda, onde as alas adicionais
fecham um segundo pátio, o acesso a este se dá através de um arco similar.
Um espaço que não cheguei a ver, em nenhum dos conventos, é a adega. Em Salvador,
frei Hugo Fragoso recolheu testemunhos de frades já falecidos que disseram tê-la
conhecido, indicando que era uma pequena sala subterrânea em baixo da igreja, mas
ninguém soube informar-me a sua localização atual. É possível que tenha desaparecido
em alguma reforma.
A adega tinha uma função muito importante, não apenas pelo vinho que era bebido nas
refeições como pela sua utilização no ritual da missa. Sem os aditivos químicos que
atualmente facilitam a sua conservação, o vinho estragava facilmente. Para retardar esse
processo, era guardado em depósitos subterrâneos que o protegiam da luz e do calor. De
fato, o subsolo da antiga alfândega de Salvador – atual Mercado Modelo – foi construído
com essa finalidade, não sendo utilizado porque, devido a um erro de projeto, foi
invadido pelo mar, ficando permanentemente alagado.
Cabe mencionar, por último, as acomodações dos escravos. Em Salvador, encontrei
informações sobre a localização das senzalas, mas o local está tão modificado que não é
possível tirar observações válidas sobre o seu aspecto original. Essa falta de conservação
não é surpreendente se imaginarmos que esses alojamentos fossem levantados com
materiais bem mais precários que os utilizados nas casas conventuais.
Conforme já indicado na página 7, os Estatutos proibiam a construção de conventos de
barro, exigindo que fossem edificados com pedra e cal. Porém, nada indicavam sobre as
senzalas, oficinas, e outras dependências periféricas. A ausência atual destas instalações
me leva a imaginar que, em geral, fossem construções precárias, feitas de adobe ou
taipa, ou até mesmo simples palhoças que o tempo não respeitou.

140

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Coberturas, Forros e Pinturas
Todos os conventos do Nordeste têm cobertura de telhas.
Mesmo em Recife, onde a capela mor está coberta com
cúpula, há, por cima, um teto de telhas. Apenas nas torres
e em pequenos detalhes, como na capela do lavabo de
São Cristóvão, observam-se cúpulas descobertas.
Via de regra, os telhados são retos e a duas águas,
sobrepondo-se conforme a altura dos diversos setores.
No diagrama das coberturas do convento de Sirinhaém37,
observam-se, na igreja, três níveis sucessivos, o mais alto
cobrindo a nave, o intermediário, a capela mor e a
sacristia e o menor, o lavabo.
Em sentido transversal á nave da igreja, um pequeno
telhado cobre a única capela lateral.
Também com teto a duas águas, porém um pouco mais baixo com relação à igreja,
cobrem-se as outras três alas do claustro. Neste caso, a interseção de cumeeiras na
mesma altura resolve-se emendando os telhados na diagonal.
Os demais conventos respondem aos mesmos critérios.
Porém, em alguns casos – em geral, mais recentes – nota-se
a existência de tetos a quatro águas. Isto acontece em
Olinda38, no bloco que foi reformado, em meados do século
XVIII, para ampliar a portaria e criar, por cima dela, as duas
bibliotecas. Também ocorre em João Pessoa e Marechal
Deodoro, nos “torreões” localizados nas pontas das alas que
se destacam do claustro. Em São Cristóvão, cuja altura é
uniforme, um setor triangular, no extremo da ala adicional,
dá a essa ponta do telhado um acabamento chanfrado.
De todos, o teto mais complexo é o da sacristia de Igarassu,
por causa das esquinas côncavas. Lamentavelmente, não
encontrei imagens de satélite com resolução suficiente.
37 Arquivo cedido por Frei Sinésio Araújo. Faz parte do relevamento elaborado pela arquiteta Terezinha Silva.
38 Foto Google Maps.
141

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Internamente, os tetos da área residencial dos conventos são muito simples. Têm forros
lisos ou carecem completamente de forro. Excetua-se o refeitório de Salvador, cujo teto
foi remanejado do antigo cemitério dos frades.
Pelo contrário, os ambientes de utilização ritual, tais como a igreja, sacristia, sala
capitular ou até mesmo a portaria, que em diversos conventos funciona como capela,
têm forros ricamente decorados.
Já considerei os forros das galilés (página 33), subcoros (36), capelas mores (71 e 72) e
bibliotecas (127, 128 e 132). Pretendo, agora, considerar os conjuntos iconográficos
mais destacados: principalmente, naves, sacristias e salas capitulares.
Por lógica, nas naves, a parte das igrejas que mais se presta ao reforço da pregação,
deveríamos encontrar as obras mais destacadas. Porém, isto nem sempre acontece.
Algumas perderam seus forros originais, outras conservam forros muito antigos e
bastante deteriorados ou foram repintadas por mãos inexperientes. Em compensação,
sacristias e salas capitulares, sendo áreas de menor importância e, por isso, pintadas
depois das igrejas, às vezes apresentam estilos mais evoluídos e melhor estado de
conservação.
Estudando a pintura das naves, não podemos esquecer as ordens terceiras que, em
muitos casos, construíram verdadeiras igrejas, com tetos iguais ou superiores aos das
conventuais. Em algumas – Olinda, Salvador, São Cristóvão – há clara definição de
nave, capela mor e até mesmo o coro.
Não se conservam forros do século XVI. Os mais antigos, de meados do século XVII,
apresentam forros em caixotões, geralmente ocupados por pinturas, que podem ser
simples galerias de santos ou apresentar complexos programas iconográficos em torno a
um determinado tema, como pode observar-se na igreja conventual de Salvador. Os
caixotões podem ser simples quadrados ou retângulos ou adotarem composições mais
elaboradas, combinando octógonos, hexágonos, losangos, estrelas etc.
Na primeira metade do século XVIII, desaparecem os caixotões. Os tetos se unificam
em grandes composições, emolduradas numa simulação de arquitetura em perspectiva,
mal chamada de “ilusionista” ou “trompe l'oeil”. Digo “mal chamada” porque, à
diferença dos seus modelos italianos, os tetos brasileiros não se propõem enganar a
percepção. A arquitetura simulada não é continuidade da real e, embora o entorno esteja
em perspectiva, os personagens centrais são apresentados frontalmente.
Antes de analisar mais detalhadamente estas características, procurarei, nas próximas
páginas, fazer uma pequena galeria dos forros mais interessantes, complementando-a,
em cada caso, com breves comentários para contextualizar a pintura e, eventualmente,
agregando imagens de outras obras – pertencentes ou não aos conventos em estudo –
que apresentem similitudes ou ajudem a interpretar o seu significado.
142

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Cairu: Forro da nave
Pintura popular, imitando perspectiva
arquitetônica.
A cena central mistura o tema de São
Francisco do Conde (acima) e da
Ordem 3ª de São Domingos de
Salvador (abaixo), representando o
sonho do papa Inocêncio III em que
São Francisco evita a queda da cúpula
da Basílica de São João de Latrão.
A inscrição “Primeira pintura 1749.
Reedificação da mesma 1875” revela
que houve uma pintura anterior, . É
possível que essa pintura ainda exista
por baixo da atual.

143

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Igarassu: Forro da nave
Imaculada Conceição (medalhão central) e
cenas da vida de Santo Antônio (seis
medalhões secundários, três dos quais sobre o
coro). Barroco, em sua essência, o conjunto
apresenta marcada tendência ao rococó.
Por sobre a cimalha, no fundo do coro, está
escrito “o Rabelo. Novembro de 1749
acaboce” (acima).
Segundo Clarival do Prado Valadares, trata-se
de “José Rabelo (ou Rebelo) de Vasconcelos,
ativo entre 1749 e 1800, que chegou a
Coronel do Regimento das Milícias dos
Homens Pardos”.
Além desta obra, Valadares atribui a ele –
aproximadamente trinta anos mais tarde – a
decoração parietal e o forro do teto da
Conceição dos Militares de Recife (abaixo).
Nesta última obra, motivos similares aos
utilizados em Igarassu ganham volume ao
serem entalhados em madeira, com detalhes
em ouro sobre fundo branco. Também, nas
pinturas, nota-se um traço mais maduro e
maior riqueza de símbolos.

144

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ipojuca: Forro e parede da nave, sobre o arco da capela lateral
Lenda do Santo Cristo: Um noviço é admitido ao convento. Por descuido, deixa cair o Cristo do coro. Para substituí-lo, o pai manda
comprar outro em Lisboa, onde um misterioso vendedor entrega o Cristo e não volta para receber o pagamento. Chegado a Ipojuca,
encontra-se uma árvore com o formato natural de uma cruz, que é aproveitada sem emendas. O Cristo passa a ser adorado como
milagroso e o noviço é perdoado.
As pinturas são do século XX, feitas após o incêndio da igreja. A história é fiel ao relato de Jaboatão. Porém, ao representar o convento
como é hoje, o pintor incorreu num anacronismo. Na época em que Jaboatão descreveu esses fatos, ainda carecia de adro.
Tanto esse adro quanto o bloco frontal do convento, o cruzeiro e a escadaria são de construção mais recente.

145

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

João Pessoa: Forro da nave
Glorificação dos Santos Franciscanos: Sob a bênção da
Santíssima Trindade e da Imaculada Conceição, São
Francisco apresenta os missionários que evangelizaram os
quatro continentes (Europa, América, África e Asia).
A iconografia apresenta pontos de contato com os tetos de
diversas igrejas da região, entre elas a basílica menor da
Conceição da Praia (acima) e a igreja do hospício de
agostinianos de Nossa Senhora da Palma (abaixo).

146

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

João Pessoa: Ordem 3ª
O teto da capela lateral está dividido em caixotões, primorosamente
esculpidos, porém não preenchidos com as pinturas às que estavam destinados
(acima). Apenas foram concluídas a Santa Ceia, que se vê na foto, e duas
pinturas parietais, aos lados do altar principal.
Abandonando a ornamentação da capela, os esforços da Ordem 3ª se
concentraram na nova Casa de Oração (direita), um longo salão, quase sem
divisões, cujo forro – em perspectiva arquitetônica um tanto precária –
apresenta um único motivo iconográfico: um medalhão central representando
São Francisco que, à semelhança do profeta Elias, sobe aos céus num carro de
fogo. Cena similar – embora lateralmente invertida – aparece num quadro da
sacristia de Salvador (em baixo).
A arquitetura deste forro é extremamente detalhada. Porém, a perspectiva é
imprecisa. Muros, arcos e balaustradas têm pontos de fuga desencontrados e
parecem prestes a desabar sobre os fiéis.

147

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Olinda: Ordem 3ª e Nave
Retratos de santos franciscanos em caixotões
marmorizados de formas variadas. No centro, a
Imaculada Conceição.
Esse teto é, formalmente, uma evolução com
relação ao forro, bem mais simples, da nave da
igreja conventual (detalhes acima e em baixo).
Em compensação, esse forro apresenta uma rica
iconografia mariana, de difícil visualização por
causa do escurecimento das pinturas.

148

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Penedo: Nave e Ordem 3ª
O forro da nave, numa perspectiva precariamente
implementada, apresenta um medalhão central
representando o orago principal da igreja: Nossa
Senhora dos Anjos.
Por sobre a cimalha, no fundo do coro, está escrito
“Liborio Lazaro Lial Afes Anno.d1784” (acima).
No forro da Ordem 3ª (abaixo) a perspectiva
arquitetônica é mais segura. O medalhão central
apresenta a estigmatização de São Francisco.
A claridade, na parte superior desta imagem,
procede de um óculo aberto no forro para melhorar
a iluminação da igreja.
Também o forro da nave foi parcialmente mutilado
com três óculos, perceptíveis na borda direita da
fotografia ao lado.

149

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Recife: Capela Dourada
À semelhança de João Pessoa, os terceiros optaram por construir a casa de oração independente da igreja conventual. Mesmo assim, a
capela lateral da igreja foi concluída e está ricamente ornamentada.
No teto, todos os caixotões – exceto um – foram preenchidos com pinturas da vida de São Francisco. Outras pinturas, emolduradas,
ornamentam as paredes.
O painel central – único em vidro – está iluminado por transparência. A presença do Cristo da estigmatização é apenas sugerida pela visão
das asas. A cabeça, o tórax e um dos braços do crucificado são tardiamente percebidos, centrando toda a atenção na figura do santo.
Também os extremos da capela apresentam pinturas parietais, por cima do coro e do altar principal.

150

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salvador: Forro da nave
Estas pinturas, atribuídas ao
português Antônio Simões Ribeiro,
culminam a fase do teto em
caixotões antes de entrar
definitivamente na era das grandes
composições em perspectiva.
A composição dos caixotões,
combinando quadrados, estrelas e
octógonos e alternando pinturas com
entalhes dourados, está,
provavelmente, baseada em Serlio,
como também estão as da sacristia e
da sala capitular, certamente
realizadas no mesmo período.
A iconografia, minuciosamente
analisada por Luís de Moura Sobral
em “Ciclos das pinturas de São
Francisco” (“Igreja e Convento de
São Francisco da Bahia” Odebrecht
- Versal Editores), aborda temas
marianos num sentido mais
alegórico que biográfico,
incorporando assuntos do antigo
testamento como prefigurações
eternas da santidade de Maria.
Nas estrelas, anjos, rodeados por
querubins, exibem símbolos
marianos tais como o sol e a lua.

151

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salvador: Ordem 3ª
Também baseado em Serlio, este
forro combina cenas completas, em
molduras retangulares, com
hexágonos contendo retratos de
santos rodeados por anjinhos.
A alternância, perfeitamente
harmonizada, de painéis plenamente
coloridos com outros quase
monocromos, cria um interessante
efeito plástico de conjunto.
Obs: O desencontro das linhas,
no lado direito da imagem, deve-se
a um erro de alinhamento no
software de montagem utilizado
para reunir as fotografias.

152

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

São Cristõvão:
Ordem 3ª e Nave
À semelhança da Ordem 3ª
de João Pessoa, a capela usa
um grande e complexo
entorno arquitetural para
emoldurar uma iconografia
relativamente simples.
Tal como aconteceu em
Penedo, a falta de luz levou
a abrir uma claraboia no
forro, mutilando a pintura.
Na igreja conventual, o teto
é todo branco à exceção do
medalhão central, na
fotografia acima.
Próxima dele há uma
mancha azul e cinza
(abaixo). Não tive
oportunidade de falar com
os restauradores, mas
imagino tratar-se de uma
área raspada, deixada
propositalmente para
evidenciar a existência de
uma pintura anterior.

153

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

São Francisco do Conde:
Nave e Ordem 3ª
Ambos os forros – muito danificados – parecem
inspirados em gravuras dos Elogia Mariana, de
Martin Engelbrech (acima).
O da nave representa a São Francisco e São
Domingos pedindo clemência para o mundo. O da
Ordem 3ª – a Virgem, triunfante sobre o dragão – é
tudo que resta da antiga capela, hoje desativada.

154

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Cairu: Forros da Sacristia e
da Sala Capitular
A sala capitular (ao lado)
representa a última fase evolutiva
dos tetos em caixotões e, à
diferença do teto da igreja, ainda
conserva a sua pintura original.
A estrela central apresenta a
Imaculada Conceição. Nos
hexágonos, símbolos marianos.
Nos triângulos, as frases “Electa
ut solis”, “Pulcra ut luna”,
“Quasi aurora consurgens” e
“Quae est ista progreditur”.
No forro da sacristia (acima),
enquadrado em perspectiva
arquitetônica, símbolos marianos
circundam uma cena central em
que Santo Antônio recebe o
Menino Jesus de mãos da
Virgem.
Segundo o restaurador Dilson
Argolo, os símbolos nos escudos
dos anjos correspondem às
ordens franciscana, mariana,
jesuítica e terra santa.
Nas esquinas, medalhões
monocromos exibem cenas da
vida de Santo Antônio.
Obs: O desencontro das linhas
deve-se a um erro de
alinhamento do software.

155

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Igarassu: Forros da Sacristia e da Sala Capitular
O forro da sacristia também está enquadrado em perspectiva arquitetônica,
apresentando um estilo bastante similar ao de Cairu. Porém, apresenta menos
símbolos e o entorno arquitetônico está restrito a uma balaustrada com anjos
(abaixo).
No medalhão central (acima), a Virgem está rodeada por querubins e anjos
músicos, dois dos quais exibem partituras com cânticos marianos.
A sala capitular está completamente desmantelada, conservando apenas a
pintura do teto em precário estado de conservação (direita).

156

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Sacristias:
João Pessoa e São Francisco do Conde
O forro da sacristia de João Pessoa pretende simular
uma perspectiva arquitetônica, porém sem o
necessário domínio do sombreamento e da
perspectiva (acima).
O motivo central é o Espírito Santo, rodeado por
medalhões com retratos apenas esboçados.
Em São Francisco do Conde, subsiste apenas o
medalhão central (direita), onde a Virgem estende o
seu manto sobre os franciscanos.
Obs.: Na imagem de João Pessoa,
as áreas de cor marrom preenchem
áreas em que faltaram imagens para completar
a montagem. Lamentavelmente, não tive
oportunidade de voltar para sanar essa deficiência.

157

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

.

Olinda:
Sacristia e Sala Capitular
O forro da sacristia está dividido em caixotões
octogonais, o do centro representando à
Virgem com o Menino e os restantes, diversas
situações em que ela ajudou os franciscanos.
Entre os octógonos, intercalam-se losangos
com arranjos de flores e frutas. Embora o
estilo de pintura seja diferente, essa
intercalação lembra os painéis com flores e
frutas existentes na biblioteca do térreo.
Na sala capitular, o forro está bastante
deteriorado. O medalhão central divide-se em
duas áreas, aparentemente representando a
Anunciação e o Nascimento. Os quatro
painéis das esquinas retratam cenas da
infância de Jesus. Os intermediários, mais
próximos do centro, estão preenchidos com
anjinhos e flores.

158

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salvador: Forro e Quadros da Sacristia
Na sacristia de Salvador, quadrados e hexágonos se combinam
formando octógonos num padrão similar ao da capela da Ordem 3ª.
No centro do teto, num octógono similar, porém sem pinturas, o
brasão franciscano, em talha dourada, foi perfurado para dar suporte
a um lustre de cristal (acima).
As pinturas não se limitam ao teto. Numerosos quadros, de formas e
dimensões variadas, espalham-se pelas paredes, compondo o ciclo
sobre a vida de São Francisco (abaixo).

159

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salvador: Forro e Quadros da Sala Capitular
Também na sala capitular, diversas pinturas se espalham pelas paredes (abaixo). Estão ricamente
emolduradas, ao ponto de confundir-se com a douração do retábulo, e compõem um ciclo sobre
as Litanias da Virgem baseado nos Elogia Mariana, de Engelbrecht (detalhe).
No teto (acima), retratos octogonais de virgens mártires alternam com anjos músicos contidos
em estrelas. No centro do forro, também inscrito numa estrela, o brasão mariano, coroado e
rodeado de cabecinhas de anjos, também foi perfurado para possibilitar a fixação do lustre.

160

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Vias Sacras:
Olinda e Sirinhaém
Em ambos os casos, as pinturas
estão bastante deterioradas.
Em Olinda, retratos de três papas
cobrem o trajeto entre a capela mor
e a sacristia. São pinturas simples,
sobriamente emolduradas
formando uma faixa contínua.
Em Sirinhaém, a pintura é mais
detalhada e de melhor qualidade.
O motivo central é o Bom Pastor,
emoldurado com volutas que se
estendem até os extremos da via
sacra.
De fato, essas volutas formam
molduras adicionais que bem
poderiam ter contido outras
imagens. Porém, apenas motivos
florais decoram as beiradas. Não
há indícios do que foi – ou poderia
ter sido – pintado nesses espaços.

161

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salvador:
Corredor entre a Capela Mor e a Sacristia
Em Salvador, a sacristia não tem continuidade com a capela mor. Entre elas passa o
corredor posterior do claustro, que se prolonga até as dependências da Ordem 3ª.
Para melhor compreensão, no detalhe da planta estão indicados:
1. Igreja
2. Capelas do transepto
3. Capela mor
4. Claustro do convento
5. Claustro da Ordem 3ª
6. Via sacra (foto do forro na próxima página)
7. Escada das matinas
8. Corredor no fundo da via sacra (foto acima)
9. Corredor atrás da capela mor (foto ao lado)
10. Sacristia
A pintura do corredor, no trecho indicado com o número 8, representa a parábola do
banquete nupcial em que um dos convidados entrou sem estar devidamente ataviado.
Por trás da capela mor, no trecho indicado com o número 9, há quatro caixotões com
símbolos tais como o pelicano e o cacho de uvas.
Obs.: A foto ao lado, correspondente ao setor 9,
está virada em 90 graus com relação à planta.

162

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Salvador:
Forros da Via Sacra
e do Cemitério
No teto da via sacra, Jesus
Cristo, carregando a cruz,
é apresentado como
protetor dos franciscanos.
A arquitetura, ornada apenas
com grinaldas, não inclui
símbolos nem imagens
secundárias. Serve, apenas,
para enquadrar e concentrar
a atenção no assunto principal.
A área em branco, na qual se
insere este texto, corresponde
ao vão da escada das matinas.

A pintura ao lado, em três painéis sucessivos, era o forro do teto do antigo cemitério, atualmente
remontado no refeitório do convento. Esta fotomontagem evita mostrar os frisos laterais, pintados
especialmente e agregados durante a remontagem para adequar a pintura às proporções do refeitório.

163

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Portarias: Cairu e Olinda
Apenas em três portarias achei forros pintados: Cairu, Olinda e Salvador.
Em Cairu, o teto está dividido em quadrantes delimitados por motivos vegetais
semelhantes aos do arco da sala capitular. No centro de cada quadrante há um círculo,
talvez pensado para conter um símbolo ou um retrato. Porém, de fato, estão vazios.
Em Olinda, a portaria foi ampliada para construir a Capela de Santa Ana. Delimitado por
uma balaustrada com flores, o teto é rico em símbolos.
Sob o olhar protetor de Jesus Cristo, um São Francisco com asas e estigmas encerra,
entre cordões, o “orbis seraphicus” (mundo seráfico), simbolizado por um círculo com os
nomes dos quatro continentes: Asia, África, Europa e América. Na legenda circular,
consta: “Em todas as partes do mundo tem a religião ou orbe seráfico”.
No chão, jazem diversos
símbolos do poder terreno.
Fitas esvoaçantes sintetizam a
mensagem: “Beati mites
quoniam ipsi possidebunt
terra”; “Tanquam nihil
habens, et omnia possidetis”;
“Terra in qua hoc religio stat
terra sacta est”; etc.
Os retratos, em volta do globo,
não têm identificação
individual. Cada um deles
representa uma categoria: reis,
rainhas, santos, bispos,
cardeais, papas etc., indicandose, em números, quantos deles
pertenceram à comunidade
franciscana.

164

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Salvador: Portaria
Não apenas o esquema
compositivo é idêntico ao da
igreja de João Pessoa como
também o é o tema central: O
Céu abençoa a obra missionária
dos franciscanos.
Ignoro qual destes forros
precedeu ao outro, bem como
se são do mesmo autor
(hipótese formulada por Carlos
Ott, mas rejeitada por outros
estudiosos), se foram autores
distintos e um influenciou o
outro ou, enfim, se ambos se
basearam num modelo em
comum, já desaparecido.
No entorno também aparecem
papas e cardeais. Porém, os
medalhões, que em João Pessoa
mostravam cenas da vida de
São francisco, aqui exibem
retratos de santas (Clara, Inês,
Isabel da Hungria e Rosa de
Viterbo) ladeadas por anjos e
alegorias da Fé, da Esperança,
da Caridade e da Justiça.
Nas paredes, há oito grandes
quadros. Nas fotografias,
abaixo, São João de Capistrano
pregando e São Francisco
tirando almas do Purgatório.

165

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A origem da utilização dos caixotões devemos buscá-la
em Palladio39, a quem pertence o desenho ao lado: um
corte do Panteão de Agripa. Nesse caso – como, em
geral, na arquitetura greco-romana – os caixotões não
continham pinturas. Eram depressões na superfície
interna das cúpulas e abóbadas, destinadas a aligeirar o
seu peso, porém mantendo um esqueleto estrutural
suficientemente sólido para suportar a estrutura.
É inegável que, além disso, esses caixotões possuíam
um efeito estético, percebido por Piranesi (abaixo,
esquerda) e por Palladio, que aproveitou a ideia em
projetos próprios, como a igreja de Santo André, em
Mantua (centro). Posteriormente, Filippo Terzi se
incumbiria de levar o recurso a Portugal, utilizando-o no
Mosteiro de São Vicente de Fora (direita).

Não temos forros greco-romanos conservados para saber se esse recurso já era usado na
madeira. Porém, é claro que já se tinha consciência do seu valor estético e se tentava
imitá-lo em outros suportes.
Na Vila de Adriano, em Tívoli, onde as
menores dimensões da abóbada tornavam
desnecessário o uso de caixotões, o
mesmo desenho foi simulado com pintura
a fresco, já ensaiando recursos puramente
decorativos (esquerda).
Também a Domus Aurea, residência de
Nero, atualmente em ruínas, apresenta
abóbadas pintadas por setores, embora
não respeitando uma geometria tão
regularmente definida.
39 Andrea Palladio: “Os Quatro Livros da Arquitetura”. Edição veneziana de Bartolomeo Carampello, impressa em 1601.
166

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não se conservam forros de madeira da época clássica. Porém, foi assim (esquerda) que
Luigi Canini reconstituiu, em meados do século XIX, o teto da Basilica Ulpia, um dos
imóveis que formam parte do Fórum de Trajano. Cometeu Canini um anacronismo ao
basear-se em obras posteriores – tais como o forro que Giuliano da Sangallo fez para
Santa Maria Maggiore no século XVI (direita) – ou essas obras posteriores basearam-se
em restos de obras romanas ainda existentes?
Seja como for, o certo é que o renascimento e o barroco espalharam caixotões de
madeira policromada e dourada por toda Europa e suas colônias. Em Espanha, aliaramse com a tradição mourisca para criar o chamado “teto mudéjar”, como pode observar-se
no Palácio dos Reis Católicos, na Aljafería de Zaragoza (esquerda). Já em Portugal, essa
quadrícula teria uma aplicação inteiramente nova: a de hospedar amplos ciclos de
pinturas, como as do Convento do Salvador, em Braga (direita).

É desta tradição que derivam os caixotões brasileiros. Não era estranha à tradição
italiana a representação de ciclos pictóricos. Veja-se como exemplo, os afrescos de
Giotto na Basílica de São Francisco de Assis e na Capela Scrovegni, os de Carraci no
Palazzo Farnese, os de Michelangelo, na Sistina, ou as Logge di Raffaello, no Palazzo
Apostólico do Vaticano. Porém, parece privativa dos portugueses a associação desses
ciclos com a estrutura em caixotões dos forros das igrejas.
167

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Durante muito tempo, essa tradição permitiu unir o trabalho de cavalete com a cobertura
de grandes superfícies. Enquanto a pintura a fresco exigia um trabalho rápido e em
condições desvantajosas, visto ser feita diretamente nas superfícies de destino enquanto
o reboco estava ainda úmido, os caixotões admitiam pinturas feitas individualmente, no
chão, sobre placas avulsas de madeira e pintadas a óleo, possibilitando uma elaboração
demorada e minuciosa.
Inicialmente, os caixotões eram quadrados ou retangulares, perfeitamente enfileirados,
formando quadrículas regulares. É assim que se observam na capela dourada de Recife e
na capela mor de João Pessoa.
Embora a antiguidade romana registrasse exemplos
de caixotões octogonais alternados com losangos,
como pode observar-se na Basílica de Maxêncio –
que Piranesi40 registrou confundindo-a com a Domus
Aurea de Nero (detalhe ao lado) – o Renascimento
inicial ignorou estes exemplos, atribuindo-os a
desvios da perfeita ordem clássica. Seria preciso
aguardar a contra-reforma e o barroco para que os
“desvios” fossem adequadamente valorizados.
Essa nova utilização foi difundida pelos diagramas compositivos
de Sebastiano Serlio41. Impossível deixar de reconhecer a sua
influência nos tetos de Salvador. Nave, sacristia, sala capitular e
capela dos terceiros seguem fielmente estes esquemas.
Porém, não se trata de uma reprodução mecânica. Serlio não
colocou pinturas nesses diagramas. Os seus eram simples
esquemas decorativos, similares aos utilizados em Roma. A
iconografia, as pinturas, os entalhes e a integração em ciclos
narrativos são agregados inteiramente independentes.
Essa influência também está presente na sala capitular de Cairu. Já
a nave de Olinda apresenta características de transição, fugindo da
quadrícula original, porém sem quebrar a linearidade do
alinhamento. A linearidade é mais tênue na sacristia e na capela dos
terceiros e é definitivamente quebrada na sala capitular, única a
apresentar um esquema de caixotões de formatos diferentes
organizados em torno a um painel central. Talvez as pequenas
dimensões da sala tenham facilitado essa composição inusual.
Também a pintura ilusionista tem antecedentes na Roma antiga.
40 Giambattista Piranesi: “Vedute di Roma”, 1765.
41 Sebastiano Serlio: “Regole Generali di Architetura”, 1537.
168

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Diversos afrescos, especialmente os conservados em
Pompeia e Boscoreale, após a erupção do Vesúvio, simulam
pórticos ou janelas através dos quais se divisam paisagens
urbanas ou rurais.
Eram recursos para tornar mais abertos e espaçosos os
ambientes onde não era possível abrir janelas verdadeiras.
Por exemplo, em dormitórios da classe alta, tais como o que
se observa na foto à direita, da vila de Fannius Synistor, em
Boscoreale.
A ilusão não é perfeita por falta de domínio da perspectiva.
Há uma tentativa de escorço, mas a observação atenta revela
o desencontro dos pontos de fuga.
A correta ilusão de profundidade só viria a aparecer no
século XV, quando as experiências de Filippo Brunelleschi,
sistematizadas por Alberti e popularizadas por Vignola,
reduziram o problema a regras geométricas (esquerda)42. A
partir dali, os pintores passaram a desenhar, previamente, o
“esqueleto” da perspectiva, para depois pintar, por cima, os
detalhes do quadro.
Esse método, ao mesmo tempo garantidor de ordem e de
realismo – princípios caros à mentalidade renascentista –
tornou-se uma marca da pintura desse período, atravessando,
também, o barroco e o neoclássico.
O aperfeiçoamento da perspectiva, unido às novas técnicas
de iluminação e sombreamento, não apenas agregou
realismo às pinturas como potencializou a utilização
ilusionista com uma eficácia nunca antes alcançada. O teatro
– incluindo as representações religiosas – foi uma das
atividades mais beneficiadas por esse progresso.
A imagem à direita é um detalhe do palco do Teatro
Olímpico de Vicenza. Apenas o arco do primeiro plano –
obra de Andrea Palladio – têm volume real. Os dois
quarteirões com estátuas foram pintados por Vincenzo
Scamozzi como telão de fundo para a apresentação de
“Édipo Rei” na sessão inaugural do teatro, em 1585.
42 Giacomo Barozzi da Vignola: “Le due regole della prospettiva pratica” - Bolonha 1583.
169

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para chegar aos tetos ilusionistas, faltava
alguém abrir uma janela virtual e colocar nela
os personagens. Isto, por sua vez, supunha o
domínio do escorço, não apenas arquitetônico
mas, também, da figura humana.
Entre 1465 e 1474, Andrea Mantegna
decorou a Camera degli Sposi do Castelo de
San Giorgio, em Mântua, com pinturas
ilusionistas onde, através de arcos simulados
nas paredes, avistavam-se cenas alusivas ao
triunfo da família do proprietário.
No teto, numa óbvia referência ao Panteão de
Agripa, um óculo, igualmente ilusório,
apresenta diversos personagens simbólicos
que parecem olhar para o interior da estância.
O céu, acima desses personagens, prefigura a utilização religiosa que iria acontecer
pouco mais tarde. A igreja, necessitada de apelos poderosos para combater a reforma
protestante, não desperdiçaria essa oportunidade de abrir janelas virtuais para o Paraíso.
Não é outra a interpretação que pode ser feita da
Ascensão da Virgem, pintada, em 1524, por
Correggio, na cúpula da catedral de Parma.
Camadas de anjos, em perspectiva, ascendem,
entre nuvens, até o círculo central. Nele, isolada
num círculo de luz e quase irreconhecível pelo
escorço, a Virgem é elevada aos céus.
Ainda não há arquitetura simulada. Porém, as
figuras se integram de tal modo ao formato da
cúpula que se torna difícil distingui-las da
arquitetura real.
Trabalhos similares pontuaram as igrejas da
Contra-Reforma, executados, entre outros, por
Pietro da Cortona, Giambattista Tiépolo, Luca
Giordano e outros.
Um deles, indiretamente, iria exercer influência
decisiva no aprendizado das leis da perspectiva
pelos pintores de Portugal e suas colônias: o
jesuíta Andrea Pozzo.
170

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Além de pintor e arquiteto, Pozzo era cenógrafo, o que o obrigava a criar ambientes
puramente fictícios. Essa experiência foi, certamente, determinante ao projetar o teto da
igreja jesuítica de Santo Inácio, em Roma. Da cimalha para cima, tudo é ilusório,
inclusive as janelas do clerestório, os arcos, e até mesmo a cúpula do transepto, que
chegou a ser projetada mas nunca foi construída. Tudo está pintado num forro
absolutamente plano, porém tão integrado á arquitetura real da igreja que parece quase
impossível determinar o que é real e o que é fictício.
O próprio Pozzo, que já vinha experimentando esses recursos em outras igrejas italianas,
posteriormente levou essa influência a Áustria, onde decorou os tetos da Companhia de
Jesus de Viena e do Palácio de Verão de Liechtenstein. Logo, os próprios jesuítas se
encarregaram de espalhar o exemplo, nas suas igrejas de Itália, Áustria e Alemanha, e
diversos pintores fizeram que chegasse a outros países. Depois, aproveitando que a
gravura em cobre facilitava a impressão de desenhos detalhados, com linhas nítidas e
abundância de meios-tons, o livro de Pozzo43 iria levá-lo até os países mais remotos.
Foi esse livro que trouxe ao Brasil o conhecimento preciso das técnicas da perspectiva.
Se os autores de muitos tetos brasileiros parecem ter bebido em fontes indiretas, a
Conceição da Praia, a portaria de Salvador e as naves de João Pessoa e São Francisco do
Conde evidenciam, de forma inequívoca, o conhecimento direto das gravuras de Pozzo.
43 Andrea Pozzo: “Perspectiva pictorum et architectorum”, 1693/1698.
171

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Apesar disso, a influência não é completa. A imitação de Pozzo restringiu-se à simulação
da arquitetura. Nas igrejas brasileiras não há, propriamente, uma visão “di sotto in su”. A
arquitetura em perspectiva forma uma simples moldura para a imagem central, que não
está em escorço e sim, em visão frontal de boca-de-teatro. A que se deve essa diferença?
“À distância”, diriam alguns.
Os pintores brasileiros não tiveram
oportunidade de observar os tetos de
Pozzo. O foco do livro está na
perspectiva arquitetônica, e é isso que
os brasileiros aprenderam e imitaram.
Mesmo quando Pozzo reproduz, no
livro, o teto de Santo Inácio, limita-se
a mostrar a arquitetura. Nem o céu
nem os personagens em escorço
aparecem na gravura.
Então, como os pintores brasileiros
iriam tomar conhecimento da presença
desses elementos nas igrejas italianas?
A hipótese é tentadora, mas não chega a convencer. Mesmo em Portugal, onde o
conhecimento direto dos exemplos italianos era mais acessível, o teto em perspectiva
costuma emoldurar um painel central absolutamente frontal e claramente delimitado.
Houve quem afirmasse que os pintores
brasileiros – mormente autodidatas não conheceriam o escorço da figura
humana. Isso não é verdade. Pintores
portugueses trabalharam no Brasil e
brasileiros estiveram em Portugal. Na
sacristia de Cairu (esquerda) e na
portaria de Salvador (direita), vemos
tentativas bastante bem sucedidas. Se
bem – talvez por falta de prática com
figuras nuas – não se chegou à
perfeição dos mestres italianos, esses
exemplos provam que existia, sim, a
consciência de que a figura humana se
transforma em função da sua posição e
do ponto de vista do observador.
172

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por outra parte, mesmo em Roma, o ilusionismo de Pozzo não era unânime. Giovanni
Battista Gaulli, que chegou a incorporar esculturas para conseguir maior realismo, não
abdicou da arquitetura bem definida e das imagens centrais contidas em molduras
claramente diferenciadas, mantendo uma frontalidade apenas quebrada por um ligeiro
escorço44. É que as imagens “di sotto in su” eram impactantes, mas de difícil leitura.
Por outra parte, a eficácia da ilusão era relativa. No teatro, o público ficava restrito a um
único ponto de vista. Não assim, nas igrejas, onde o fiel podia deambular com certa
liberdade.
Tomemos, como exemplo, a Igreja de
Jesus, em Viena. Observada do centro
na nave, a cúpula, também pintada por
Andrea Pozzo, parece real, mas essa
ilusão se desvanece ao observá-la no
sentido contrário. Do ponto de vista a
capela mor, torna-se irreconhecível.
Em Roma, para garantir a ilusão, foi
preciso afixar um disco no chão, no
centro da nave, indicando a posição
ideal para observar o efeito.
Apesar das limitações, a influência dessas pinturas se espalhou com rapidez. Além das
igrejas, as nascentes monarquias absolutistas adotaram o estilo nos tetos dos seus
palácios, seja apresentando-se como humildes e dedicados servos de Deus, seja
comparando-se aos deuses do Olimpo para exaltar a própria magnificência45.
44 Esquerda: “Triunfo de la Ordem Franciscana”, na Igreja dos Santos Apóstolos. Direita: “Adoração do Nome de
Jesus”, na Igreja de Jesus.
45 Página seguinte, à esquerda: “Gloria de la Monarquía Española”, de Luca Giordano (Madri - Mosteiro do Escorial).
Direita: “Apoteose de Carlos VI, representado como Apolo”, de Paul Troger (Austria - Abadia de Göttweig).
173

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Viena e Paris, a requisição das ordens religiosas e a adesão dos monarcas geraram
oportunidades de trabalho para artistas locais. Paul Troger decorou as abadias de Melk e
Göttweig. Antoine Copel e Francois Le Moine pintaram os tetos de Versalhes. Em
Madri, Carlos II chamou Luca Giordano (seu súdito, posto que, na época, Nápoles
pertencia a Espanha) para pintar os tetos do palácio/mosteiro de El Escorial.
Giordano – que, na Espanha, passou a ser conhecido como Lucas Jordán – trabalhou na
escada imperial e na basílica, pintou onze abóbadas, mas não chegou a fazer escola.
Talvez por tradicionalismo, talvez por causa da crise da economia espanhola, mantevese a tradição mudéjar, o que explica a falta de tetos ilusionistas no mundo hispânico.
Em Portugal, Niccolò Nasoni – que, no Porto, virou Nicolau – realizou diversas obras
como arquiteto e pintor. Entre elas, o teto em quadratura da Sé de Lamego. Em Lisboa,
Vincenzo Bacherelli realizou uma autêntica pintura ilusionista na portaria de São
Vicente de Fora46. Iniciou-se, com ele, o português Antônio de Simões Ribeiro, autor dos
tetos da Biblioteca Joanina de Coimbra (1724) e do Colégio de Jesus da Bahia (1736).

46 Julgando pelas fotos dessa obra, presentes na Internet, parece que a realização de uma pintura de grandes dimensões,
com pé-direito tão reduzido que dificulta a visualização de conjunto, não é um erro exclusivo da portaria de Salvador.
174

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ambos os trabalhos denunciam a proximidade
com os modelos italianos, chegando a tentar um
tímido escorço nas figuras centrais, porém sem
comprometer a frontalidade necessária à normal
visualização das cenas representadas.
Mesmo assim, é evidente que Simões Ribeiro
progrediu no seu estilo. A biblioteca de Salvador é
uma obra mais madura. O tratamento das figuras é
muito detalhado e a arquitetura em perspectiva
(esquerda) está melhor desenvolvida.
Aliás, essa parece a preocupação técnica dominante no Brasil. Exceto em alguns
trabalhos de Simões Ribeiro, todo o esforço de perspectiva centra-se na arquitetura e
pouca ou nenhuma atenção se dedica ao escorço das figuras, principalmente as que
fazem parte da cena central.
Aliás, Simões Ribeiro não foi o primeiro.
Quatro anos antes, Caetano da Costa Coelho
tinha pintado, no Rio de Janeiro, o teto da
Ordem 3ª de São Francisco (direita), onde já
aparecem, nas sacadas, os papas que depois
veremos em Salvador e João Pessoa.
Há, nos anjos e bispos do entorno, uma
evidente tentativa de escorço. Porém, o
conjunto central, com a figura de São
Francisco, está apresentado frontalmente.
Isso é constante em todo o mundo português. Não apenas o plano central é sempre
frontal como também o entorno, em perspectiva, é frequentemente quebrado por óculos
ou medalhões com cenas secundárias, igualmente frontais.
Além disso, a arquitetura fingida não é uma prolongação das paredes reais. Trata-se, em
todos os casos, de modelos italianos onde arcos, absides e cúpulas se misturam sem uma
lógica espacial clara e sem relação alguma com a arquitetura das igrejas.
Forçoso é concluir, então, que a pintura brasileira em perspectiva não tenta iludir os
olhos. Não é que o “trompe l'oeil” seja imperfeito. É que, simplesmente, nunca existiu
na intenção dos artistas. O emoldurado arquitetônico era um simples modismo.
Surge, então, a pergunta: Por que razão a ilusão, que na Itália e na Europa central era tão
valorizada, tão afanosamente procurada e teorizada, que tantos e tantos significados
encerrava, não apenas de experimentação visual como também de simbolismo religioso
e, até mesmo, político, não entrou nas ambições de portugueses e brasileiros?
175

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Uma resposta simples seria: “Porque eles não tiveram Renascimento”.
Embora tenha exercido influência em toda Europa, o Renascimento foi um fenômeno
especificamente italiano. Nasceu nas repúblicas de mercadores – especialmente, em
Florença – e se consolidou em Roma, com apoio do pontificado. E o Barroco foi a
evolução do Renascimento. Sem ele, não poderia ter acontecido.
Parte essencial desse âmbito era a efervescência intelectual que se viveu nesse período.
O trabalho experimental de Leonardo, de Michelangelo, de Brunelleschi, de Pozzo, era
tema de conversação e assunto de interesse geral, ao menos, para os nobres e a alta
burguesia. Nada disso acontecia em Portugal.
Por outra parte, o Lácio e a Toscana estavam cheios de ruínas romanas que os novos
intelectuais mediam e analisavam meticulosamente. Não era, apenas, a busca pelo
conhecimento. Era uma tentativa de resgate da identidade nacional.
Porém, a maior diferença estava na oportunidade e na função que a pintura desenvolvia
em cada um desses países. A arte barroca, em Itália, tinha uma função essencialmente
propagandística. Engajada no ardor da contra-reforma, procurava – através dos sentidos
e das emoções – convencer as ovelhas descarriadas a voltarem para o rebanho dos fiéis
e, para isso, nada melhor do que oferecer-lhes uma visão panorâmica do Reino dos Céus.

176

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A imagem da página anterior é a parte central do forro de Santo Inácio, de Roma, já
mostrado na íntegra na página 171. Nela, alegorias dos quatro continentes em que os
jesuítas desenvolviam o seu trabalho missionário47 projetam a atenção em sentido
ascendente, passando por diversos personagens até Santo Inácio de Loyola que, por sua,
vez, dirige as atenções às imagens de Jesus Cristo e Deus Pai. No centro desse turbilhão,
o espectador é, visualmente, sugado em direção ao Paraíso.

Vale a pena comparar esta visão com a registrada no teto de João Pessoa48.
Trata-se, no fundo, de uma nova representação da mesma mensagem, agora aplicada aos
franciscanos. Em ambas, os personagens se ordenam em sentido vertical, sendo que em
Roma essa verticalidade está desenvolvida em profundidade e em João Pessoa, num
plano único, perpendicular à visão do observador.
Em João Pessoa (e na portaria de Salvador), a alegoria está dividida em dois níveis:
47 Não consta a Oceania, que, além de ser descoberta nova, estava em mãos protestantes.
48 Esta comparação vale, também, para a portaria de Salvador, cuja iconografia é essencialmente idêntica.
177

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No nível superior – que poderia ser chamado de celestial – prevalece, pelo tamanho, a
imagem da Imaculada Conceição, numa composição que lembra as representações da
Coroação pela Santíssima Trindade. Porém, no lugar da coroa, a Virgem segura uma
bandeira com símbolos franciscanos.
No nível inferior (reproduzido à direita) São Francisco apresenta os frades que levaram a
religião aos quatro continentes. Em João Pessoa, para maior clareza, um anjo segura
uma bandeirola com a legenda “Terra in qua hoc Religio Stat terra Sacta est”49.
O teto de Pozzo é profundamente mobilizador. Apela, essencialmente, aos sentidos e às
emoções. O espectador fica envolvido no movimento do quadro, mesmo que,
inicialmente, tenha alguma dificuldade em compreender o seu significado.
Pelo contrário, em Salvador e João Pessoa a exposição é mais didática. Sob a proteção
da Imaculada Conceição – transformada em advogada e protetora dos franciscanos – e,
por sua intercessão, da Santíssima Trindade, fonte de todo poder, os franciscanos levam
a santidade a todos os povos. Não há dificuldade alguma em compreender a mensagem.
Sintetiza-se, nessas duas abordagens, a diferença entre a arte italiana e a praticada em
Portugal e suas colônias. Em Roma – como, aliás, em toda a Europa central – a
prioridade era lidar com a Reforma protestante. Não era preciso ensinar e sim,
convencer. Era uma arte propagandística e militante.
Pelo contrário, para o mundo português, o protestantismo era um fenômeno distante.
Não havia “ovelhas descarriadas” a reconduzir ao rebanho. Prioritário era ensinar os
novos cristãos, não envolvendo nesse nome apenas os “cristãos novos” – ou seja, os
convertidos coercitivamente e de cuja sinceridade se duvidava – mas, também, um
número potencialmente infinito de novas almas que poderiam ser convertidas, pela
persuasão, tanto na Asia quanto na América, bem como os próprios filhos dos
portugueses, que precisavam ser doutrinados na religião dos seus pais.
Essa foi a razão essencial para o predomínio da pintura em caixotões – que funcionavam
como livros visuais para uma população mormente analfabeta – e, mesmo com a moda
avassaladora do teto em perspectiva, resistiu, não apenas na frontalidade do painel
central como na presença de inúmeros detalhes agregados à quadratura do entorno, nem
sempre acompanhando a perspectiva da arquitetura à qual se sobrepõem.
Contam-se, entre estes detalhes, anjinhos (putti), anjos adultos portando símbolos,
personagens individualmente identificáveis (por exemplo, os papas e cardeais, nas
sacadas de João Pessoa, de Salvador e da Ordem 3ª do Rio de Janeiro), cartelas com
símbolos e monogramas e medalhões com retratos ou cenas avulsas.
Boa parte destes recursos são sobreviventes dos antigos caixotões.
49 São quatro anjos arautos, situados fora do painel central, nas esquinas do teto. As restantes legendas são: “Iesv dulcis
memoria”, “Et macula non est in te” e “Stigmata Domini Iesv in corpore meo porto”.
178

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Qual era, então, dos pontos de vista funcional e artístico, a originalidade dos nossos tetos
em perspectiva? Era, simplesmente, um modismo, vazio de conteúdo? Como resposta a
essas questões, vejamos os diagramas da nave e da portaria do convento de Salvador. 50
50 Ambos os diagramas foram reproduzidos de Luís de Moura Sobral: “Ciclos das pinturas de São Francisco” (em “Igreja
e Convento de São Francisco da Bahia” Odebrecht - Versal Editores). Entretanto, os números foram substituídos para
melhor exemplificar a análise aqui efetuada. No original, cada caixotão tem um número, identificando, individualmente,
as cenas e personagens representados.
179

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No diagrama da esquerda, observamos o teto da nave. Os octógonos, identificados com
o número 1, contêm pinturas narrativas, constituindo um ciclo onde cenas da vida da
Virgem se entrelaçam com outras do Antigo Testamento – tidas como prefigurações da
sua vinda – e cenas puramente alegóricas, glorificando a sua santidade. As estrelas (2)
contém anjos portadores de atributos marianos. As elipses (3) contém anjinhos,
completado a decoração das esquinas do forro em gamela. Os losangos são
preenchimentos em talha dourada, sem conteúdo figurativo.
A beleza composicional desse diagrama é inegável. Também está fora de dúvida a
qualidade das pinturas, atribuídas a Antônio Simões Ribeiro no apogeu da sua carreira
artística. Entretanto, conforme pode apreciar-se na página 151, a leitura de conjunto é
dificultosa e dispersa. A distância prejudica a visualização dos painéis e a ordem de
leitura não é suficientemente intuitiva. Mesmo considerando que, em muitos casos, se
tratava de iconografia bastante conhecida pelos fiéis, dificilmente se alcançaria a
mensagem de conjunto sem ajuda de alguém que guiasse o percurso e esclarecesse o
significado dos diversos painéis.
Pelo contrário, na portaria, o sentido é claro e imediato. Na cena central (1) a ação dos
franciscanos sobre os quarto continentes e a proteção da Santíssima Trindade e da
Virgem são perfeitamente compreensíveis e estão muito valorizadas, não apenas pelo
tamanho como pelas linhas de fuga criadas pela perspectiva. Tudo conflui na mensagem
central. Aliás, essa é a função essencial da perspectiva nos tetos brasileiros.
Em muitos casos, tudo limita-se a isso: um grande painel central e um entorno em
perspectiva arquitetônica, utilizado não para criar ilusão de realidade e sim para
valorizar a cena central. Porém, na portaria do Salvador encontramos outros elementos.
Quatro medalhões (2), emoldurados como retratos e claramente destacados da
perspectiva, apresentam santas franciscanas: Clara, Inês, Rosa de Viterbo e Isabel da
Hungria. Duas delas são ladeadas por anjos. As restantes, por alegorias: Fé, Caridade,
Esperança e Justiça.
Nas sacadas, à semelhança da Ordem 3ª do Rio de Janeiro, papas (3) e cardeais (4) –
todos eles, franciscanos – parecem esgueirar-se para observar o que acontece em baixo:
Nicolau IV, Alexandre V, Xisto V, Clemente IV, São Boaventura, Francisco Ximénez de
Cisneros, Élie de Bourdeille e Bertrand de la Tour. Tudo, minuciosamente organizado
para ser facilmente visualizado e identificado pelos fiéis.
Em João Pessoa, a organização é muito similar. Apenas, em lugar das santas, os
medalhões contêm episódios da vida de São Francisco (nascimento, renúncia às
riquezas, estigmatização e exumação das relíquias). Em volta, além dos papas, há
cartelas com símbolos (estrela, lírio, sol e folhas de acanto) anjos arautos com legendas e
anjinhos com cruzes e atributos penitenciais (cilício, terço, chicote e livro de orações).
180

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nem todos os tetos possuem essa riqueza de significados. Em São Francisco do Conde e
nas ordens terceiras de Penedo e São Cristóvão, a quadratura, embora bem construída, é
apenas um entorno para a cena central, apenas interrompido por grinaldas e por anjinhos
que se assomam às aberturas. Em outros casos, como na nave de Penedo e na Ordem 3ª
de João Pessoa, a quadratura é precária e parece desabar sobre os observadores.
Há casos, como o da Capela de Santa Ana, em Olinda, em que a arquitetura é apenas
sugerida por uma balaustrada. O painel central, rico em significados, organiza-se em
forma completamente independente desse entorno.
Também em Igarassu51, no teto da nave, a quadratura é
sugerida por uma estreita balaustrada, a modo de
moldura. O resto é plenamente rococó. Não há
intenção de iludir a visão. Nenhuma pretensão de
realismo. Apenas um medalhão central com a
Imaculada Conceição (1), seis painéis menores com
milagres de Santo Antônio, orago do convento (2), e
quatro cartelas com anjinhos portando atributos
marianos (3).
O trabalho em curvas e contra-curvas lembra algumas
igrejas mineiras, tais como a Ordem 3ª do Carmo de
Serro e a Matriz de Santa Bárbara. Porém, o tratamento
é mais livre. É a visão que mais tarde, na Conceição
dos Militares de Recife, iria quebrar a planimetria do
teto com a aparência de uma espuma ondulante, feita
de madeira entalhada em branco e ouro.

51 Diagrama reproduzido de “Igreja de Santo António de Igarassu – Conservação e Restauro”. Lisboa - Fundação
Ricardo do Espírito Santo Silva.
181

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Contudo, os estilos aqui apontados não apresentam uma sucessão rigidamente
delimitada. Em Salvador, muito depois de pintar o teto em quadratura da biblioteca dos
jesuítas, Antônio Simões Ribeiro ainda era contratado para pintar caixotões em São
Francisco e na Misericórdia. O gosto pelo teto em perspectiva só começou a predominar
na segunda metade do século XVIII.
Podemos datar a evolução desses tetos pelos trabalhos atribuídos a José Joaquim da
Rocha: João Pessoa (1766), Conceição da Praia (1774), Ordem 3ª de São Domingos
(1781), Hospício da Palma (1785), São Francisco do Conde (início do séc. XIX).
Em João Pessoa, nem a atribuição nem a data são unânimes. Glauce Burity52 menciona
um certo José Ribeiro que teria pintado esse teto entre 1761 e 1763. Carla Oliveira53 o
atribui a Manoel de Jesus Pinto, autor do subcoro da Igreja de São Pedro dos Clérigos,
em Recife, transferindo a datação para o final do século XVIII ou início do XIX.
A atribuição de Burity está embasada num registro do Livro dos Guardiães segundo o
qual teria sido executado um painel “das grandezas e excelências da Ordem, o que fica
ainda na Casa do Pintor José Ribeiro”. De tratar-se da mesma obra, a informação de
encontrar-se na casa do pintor sugere que não apenas os caixotões eram pintados em
forma avulsa. Também os grandes forros em quadratura seriam pintados separadamente,
taboa a taboa, para depois serem montados como um imenso quebra-cabeças.
Quanto à atribuição a José Joaquim da Rocha, referendada por diversos autores, se a
data de 1766 for verdadeira o encontraria em início de carreira, o que dificilmente se
combina com a perfeição que pode ser observada nesse forro.
Ainda outros dados interferem nessa cronologia. No forro de Cairu, repintado em 1875,
consta, como data de origem, 1749. Será que a nova pintura tentou reproduzir a
anterior, em cujo caso teríamos, muito antes de José Joaquim da Rocha, um exemplo dos
tetos da segunda metade desse século? Ou será que o pintor de 1875 tentou uma obra
nova, diferente da anterior, talvez imitando o teto de São Francisco do Conde?
Finalmente, no forro de Igarassu, que não parece ter sido repintado, consta a mesma data
– 1749 – para a realização de uma obra com características ainda mais modernas. Com
base nessa informação, o rococó desse forro seria contemporâneo – se não anterior – da
maior parte dos tetos de quadratura barroca.
O mesmo desencontro aparece ao comparar o barroco do Nordeste com o de Minas
Gerais (este último, bem mais influenciado pelo rococó). Durante a segunda metade do
século XVIII, até parte do XIX, as igrejas da Bahia, Pernambuco e Paraíba mantiveram
um enfoque mais conservador, ainda procurando a perfeição minuciosa e italianizante da
52 Glauce Burity: “A Presença dos Franciscanos na Paraíba, através do Convento de Santo Antônio”. Rio de Janeiro;
Bloch Editores.
53 Carla Mary S. Oliveira: “Um artista recifense na Paraíba colonial?” - Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v.
9. n. 24, Set/out. 2008.
182

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

arquitetura em perspectiva, enquanto as de Minas – onde não existiam conventos e a
maioria das igrejas estava em mãos de irmandades – a preferência era por um estilo mais
solto e ornamental, já com bastante influência francesa. Assim, dois estilos que a história
da arte entende por sucessivos, no Brasil aparecem como tendências regionais
relativamente contemporâneas, podendo o forro de Igarassu vincular-se estilisticamente
com diversos tetos mineiros.

183

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Azulejos
Se, no caso da pintura, os conventos franciscanos do Nordeste se inscrevem, mesmo
com influências externas, na evolução de uma arte relativamente autóctone, o mesmo
não pode ser dito a propósito dos azulejos. Não parece ter havido produção local de
azulejos durante todo o período colonial.
À semelhança da pedra lioz, os azulejos vinham de Portugal, no fundo dos porões dos
navios, na dupla função de carga e de lastro. Inicialmente, tinham padrões repetitivos, de
montagem relativamente simples. Depois, quando entraram em uso os grandes painéis
figurativos, gravavam-se códigos, no verso, indicando, como num imenso quebracabeças, a posição que cada pedra deveria ocupar na igreja ou no convento.
Os azulejos mais antigos costumam encontrar-se nas
áreas internas dos conventos, talvez reaproveitados das
igrejas, ao serem substituídos pelos grandes painéis
figurativos característicos do século XVIII.
O exemplo à direita é do refeitório de Cairu, mostrando
um padrão de tapete tipo “massaroca”. Efeito parecido,
conhecido como “padrão de laçaria”, encontramos no
refeitório de Salvador (abaixo).
Caracterizam-se por motivos repetitivos em duas cores
(azul e amarelo) contrastando sobre o branco dos
azulejos. Tanto em Cairu quanto em Salvador, o
conjunto de azulejos do mesmo padrão é limitado por
uma barra imitando pérolas e folhas de acanto.
Ainda em Salvador, encontramos padrões similares no
de profundis e na escada regral.
Em João Pessoa, há peças de padrões semelhantes na
galilé e no claustro do convento.
Não encontrei azulejos deste tipo no interior das
igrejas, exceto na cúpula do presbitério de Recife,
coberta deles, inclusive nos arcos de descarga.
Provavelmente foram conservados porque estavam no
alto, acima da linha de visão dos fiéis.
184

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O costume de revestir as paredes com azulejos é de origem árabe e se manteve na
tradição mudéjar, principalmente na Andaluzia. Inicialmente, eram mosaicos de peças
monocromas, laboriosamente combinadas em arranjos geométricos. Esta técnica,
exemplificada na imagem da esquerda, denomina-se de “alicatado”54. Em forma mais
modesta, peças quadradas de cores contrastantes podiam ser montadas em xadrez, como
ainda se observa na via sacra de João Pessoa. O fato de limitar-se às áreas baixas
evidencia uma intenção mais utilitária que decorativa, servindo para minimizar as
necessidades de manutenção em zonas expostas à umidade.
Ainda na Andaluzia, foram desenvolvidas técnicas que possibilitavam a elaboração de
peças com cores justapostas. A dificuldade era isolar os pigmentos, que, aplicados
diretamente na cerâmica, tendiam a derreter-se e misturar-se, durante a cocção. Uma
primeira solução foi traçar sulcos preenchidos com matérias gordurosas que evitassem a
irradiação dos pigmentos. Esse método, chamado de “corda seca”, foi largamente
empregado em Sevilha, onde foram produzidos os azulejos do Palácio Nacional de
Sintra (direita)55.
Outro método para obter resultados similares era o de “aresta” ou “cuenca”, que
utilizava moldes de madeira ou metal para criar, no barro ainda mole, bordas em relevo
separando as zonas de cores distintas. Essas duas técnicas possibilitaram a
uniformização dos azulejos que, sem perder variedade decorativa, passaram a ser
produzidos em formatos padronizados, o que facilitava sensivelmente a montagem.
Já era habitual, nessa época, o uso de formatos padronizados na colocação de pisos,
geralmente compostos de ladrilhos quadrados. O mesmo formato foi adotado nos
azulejos, oscilando entre 13 e 15 centímetros de lado.
Inicialmente restritos à imitação dos antigos alicatados, os produtores de azulejos logo
passaram a experimentar desenhos mais ousados, como os primeiros padrões em tapete.
Porém, embora mais livres na criação dos desenhos, essas técnicas ainda ficavam
limitadas à aplicação de cores sólidas, sem gradações.
54 El-Hedine, Marrocos. Foto Fabos. Wikimedia Commons.
55 Sala das Pegas. Palácio Nacional de Sintra. Foto de Joana Rodrigues/EPI.
185

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A virada decisiva, tanto na popularização quanto na variedade decorativa, foi a
introdução da maiólica, desenvolvimento italiano que consiste em aplicar, sobre a
cerâmica, uma vitrificação prévia com um esmalte a base de estanho e chumbo, que lhe
dá uma cor branca e permite pintar diretamente sobre a peça. As tintas são baseadas em
óxidos de cobalto (azul), cobre (verde), manganésio (roxo ou marrom), antimônio
(amarelo) e ferro (vinho). Após a pintura, a peça é submetida a uma segunda cocção, a
fogo intenso, que termina de fixar as cores e dá a vitrificação final. O amarelo de
antimônio exige, ainda, uma terceira cocção a fogo mais brando.
Foi nesta fase (meados do século XVI) que começaram a operar as primeiras fábricas
portuguesas – principalmente, em Lisboa – popularizando-se os padrões em tapete e
tornando-se a produção acessível aos conventos, igrejas e particulares mais acomodados.
A introdução da maiólica possibilitou o aumento da produção, o barateamento dos
custos e, do ponto de vista estético, uma mudança que seria transcendental: A
possibilidade de gerar meios-tons, sugerindo, pelo sombreamento, o volume dos objetos,
o que viria facilitar a representação de pessoas e cenas realísticas.
Com a invasão holandesa em Pernambuco, apareceu, no Brasil, um novo estilo de
azulejos. Muito finos, resistentes e fortemente influenciados pela porcelana chinesa,
limitavam-se à utilização de diversas gradações de azul de cobalto sobre o branco do
esmalte. Temos exemplos desse tipo de azulejos no convento do Recife, onde foram
aproveitados para formar um longo friso por cima dos arcos do claustro inferior.

Não se tem certeza sobre a origem dessas peças, mas parece fora de dúvidas que são de
procedência holandesa, provavelmente produzidas em Delft. Retratam motivos muito
variados: jarros com flores, animais, sereias e monstros marinhos, cavaleiros, navios,
crianças brincando etc. É possível que as peças que hoje apreciamos tenham sido
importadas durante a construção do Palácio de Friburgo. Ele ficava dentro das terras do
convento, razão pela qual parece natural que fossem nele reaproveitadas após a
reconquista56.
56 O Palácio de Friburgo, ou Frijburg, foi residência de Maurício de Nassau e – incluindo jardins e dependências diversas
– ocupava toda a área da Praça da República. Tribunal de Justiça, Teatro Santa Isabel e Palácio do Campo das Princesas.
186

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Característica deste conjunto de peças é a figura avulsa
que centraliza cada azulejo, como também são
característicos os pequenos desenhos nas esquinas que
facilitam o alinhamento e a integração do conjunto.
Em geral, os azulejos de figura avulsa tinham desenhos
simples e de fácil execução, sendo costume que os
aprendizes treinassem nessas peças antes de enfrentar
trabalhos maiores. Para dar-lhes mais unidade, os
conjuntos podiam ser emoldurados com bordas
especialmente desenhadas.
Da Holanda, onde parece ter-se originado, esse estilo de
azulejos passou a Portugal, onde foram produzidas as
peças hoje existentes na galilé e portaria do convento de
Cairu (foto à direita).
Também no século XVII começaram a ser produzidos os
azulejos de “albarrada”, assim chamados os conjuntos
cujo motivo principal é um arranjo de flores, geralmente
beirado por anjos, golfinhos, pássaros e outros elementos
simbólicos ou ornamentais. Inicialmente isolados, logo
começaram a ser reproduzidos em padrões repetitivos,
formando frisos.
Embora com acabamento mais profissional que os
azulejos de figura avulsa, os padrões de albarradas
tornaram-se acessíveis ao serem produzidos em série.
Conjuntos idênticos encontramos nas igrejas e claustros
de Cairu (esquerda) e Paraguaçu (abaixo), podendo
imaginar-se não apenas que tenham a mesma origem
como que façam parte da mesma encomenda.
Barras horizontais e verticais,
formando espirais de folhas
de acanto, limitam os painéis
por cima, por baixo e nas
laterais.
Ainda, em baixo, uma guarda
de flores, emulando losangos,
dá suporte visual e equilíbrio
ao conjunto de azulejos.
187

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Paralelamente a esses desenvolvimentos,
gestava-se o processo que iria abrir o
caminho para a realização dos grandes painéis
de azulejos historiados do século XVIII.
Despontava o século XVI quando Francisco
Niculoso se deslocou da sua Toscana natal
para ornar os templos da nascente monarquia
espanhola. Levou com ele não apenas a
técnica italiana da maiólica como também a
estética naturalista, o sombreamento e a
perspectiva, recursos próprios da pintura
renascentista57.
Apesar da reduzida paleta que lhe permitiam
as cores então disponíveis para a pintura em
azulejos, criou retábulos de alto impacto
visual, combinando cenas de complexa
teatralidade com um marco arquitetural
fictício, fortemente influenciado pela pintura
ilusionista.
Não contente com o status de artesãos,
frequentemente anônimos, que os azulejistas tinham
na Espanha, Niculoso apresentou-se como um
verdadeiro artista, deixando a sua assinatura pintada
nas suas obras58. Fiel ao costume da época, ela está
em latim e o identifica como “pisano” por seu lugar
de origem.
A partir de Sevilha, onde se estabeleceu, a
obra de Niculoso influenciou diversos artistas
espanhóis e portugueses, tais como Marçal de
Matos59. Porém, ainda não havia condições
econômicas e sociais adequadas a um amplo
desenvolvimento das artes do azulejo. A
produção ibérica continuaria, por muito
tempo, a ser realizada com estrutura e
procedimentos mormente artesanais.
57 Direita: Francisco Niculoso. Retábulo da Visitación (detalhe). Oratório dos Réis Católicos (Sevilla). 1504
58 Esquerda: Francisco Niculoso. Retábulo do Mosteiro de Tentudía. Calera de León (Badajoz). 1518
59 Direita: Susana e os Anciãos. Atribuído a Marçal de Matos. Quinta da Bacalhôa (Azeitão). 1565
188

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O grande impulso para o desenvolvimento
dos ciclos de painéis figurativos iria
acontecer nos Países Baixos. Fortemente
liderados por cidades mercantilistas em
fase de expansão, eram o cenário ideal
para o crescimento de uma arte que, de
fato, tinha muito de indústria.
A técnica da maiólica foi levada a
Antuérpia pelo italiano Guido di Savino e
após a queda dessa cidade em mãos
espanholas, espalhou-se para Holanda e
Frísia, acompanhou a expansão comercial
e, já em meados do século XVII, não
apenas os produtos eram exportados para
outros países como grandes serviços eram
produzidos sob encomenda60.
Porém, a policromia em cerâmica era dispendiosa e demorada. Além de exigir a
aplicação sucessiva de pigmentos de várias cores, exigia um cozimento adicional, posto
que alguns desses pigmentos não suportavam a temperatura inicial de vitrificação,
devendo ser aplicados posteriormente e cozidos a temperatura mais branda. Isso tudo
afetava o preço, comprometia a produtividade e conspirava contra a expansão de uma
indústria que pretendia atingir fortemente o mercado exportador.
Bem mais simples de produzir, o azulejo
monocromo, apenas em gradações de azul de
cobalto sobre o branco do esmalte 61, resolvia
todos esses problemas. Inspirado nas cores da
porcelana chinesa – já então muito valorizada
na Europa – era recebido com prazer em
todos os mercados.
Além disso, a monocromia do azulejo
combinava agradavelmente com a talha
dourada das igrejas, evitando a sobrecarga da
decoração e facilitando a leitura da mensagem
evangelizadora. Na segunda metade do século
XVII, a Holanda já dominava esse mercado.
60 Direita: Painel com o brasão dos duques de Bragança, atribuído à oficina de Salm. Paço Ducal. Vila Viçosa. 1558.
61 Esquerda: Jan van Oort. Eremitas na Igreja da Madre de Deus de Lisboa. 1698-99.
189

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, nem toda a produção holandesa se ajustava a esse
padrão de qualidade. Até bem entrado o século XIX,
extensas coleções de peças de figura avulsa – mormente,
procedentes de Utrecht – eram reproduzidas em série,
seguindo modelos padronizados62.
Mesmo em ambientes luxuosos, era habitual a utilização
de azulejos de figura avulsa63. Tanto na Holanda quanto
na Inglaterra e Alemanha, os painéis figurativos
compostos de vários azulejos são escassos e dificilmente
alcançam a dimensão que tiveram em Portugal.
Isto leva a pensar que os clientes portugueses não
apenas encomendavam o conteúdo. Como clientes
preferenciais, determinavam, também, a forma e as
dimensões das obras importadas, adequando-as à sua
própria idiossincrasia. Eram, em cera forma, coautores
das obras que encomendavam.
Muito ao gosto português, dois pintores de Amsterdam
– Jan van Oort (página anterior) e Willem van der
Kloet64 – parecem ter-se especializado nesse tipo de
encomendas, cobrindo todos os espaços com azulejos
historiados de altíssima qualidade.
Esse fluxo se interrompeu, em 1687, quando uma lei
protecionista proibiu a importação de azulejos. A
proibição durou até 1698, quando uma nova lei
isentou da proibição os procedentes da Holanda.
Porém, nesse intermédio, o espanhol Gabriel del
Barco – pintor de tetos que, até então, intermediava
as encomendas de azulejos de van Oort e van der
Kloet – tinha assumido a continuidade do serviço e
dado início à infra-estrutura que, pouco depois,
serviria de base ao chamado “ciclo dos mestres”.
Portugal tinha conseguido substituir as importações
da Espanha e estava decididamente a caminho de
concorrer com o nível artístico e industrial das
oficinas holandesas.
62 Direita: Castelo de Anholt (Holanda). Século XIX
63 Abaixo: Palácio-castelo de Hohenaltheim (Alemanha). 1739
64 Abaixo: Igreja Nª. Sª de Nazaré. Sitio da Nazaré (Portugal). 1709
190

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na virada do século XVIII, as corporações de
artesãos deram lugar a empreendimentos de tipo
industrial, investindo na atualização tecnológica e na
contratação de pintores reconhecidos. Um deles era
Antônio de Oliveira Bernardes65.
Iniciou-se pintando a óleo, entre 1681 e 1683. Pintou
telas, paredes e tetos. A partir de 1695, alternou esse
trabalho com a pintura de azulejos e, após 1710,
concentrou-se exclusivamente nessa atividade.
Afirma-se que não fazia a produção integral das suas
obras, limitando-se a pintar as cenas centrais e
deixando as cartelas, cercaduras e outros detalhes
secundários por conta de ajudantes e aprendizes, o
que já indica um princípio de divisão do trabalho.
Bernardes fez escola. Formaram-se com ele não
apenas seus dois filhos, Inácio e Policarpo, mas
também vários dos principais representantes da
geração seguinte, tais como Teotônio dos Santos e
Nicolau de Freitas.
Deixou numerosos trabalhos em Sintra66, Lisboa, Évora e
Estremoz, destacando-se pela composição e a relação cênica
entre os protagonistas das cenas representadas.
Nos conventos franciscanos do Nordeste, se lhe atribuem67, entre outras, as autorias da
Santa Ceia do refeitório de Salvador (centro) e dos painéis da Estigmatização e da
Aparição do Menino Jesus a Santo Antônio, na sacristia de Olinda (esquerda e direita).

65 Direita: Imaculada Conceição (cerca de 1695) Diocese de Beja.
66 Esquerda: Capela da Quinta. Santa Ceia. 1721
67 Essa atribuição não é unânime. Segundo outros autores, essas obras poderiam ser de Antônio Pereira, autor documentado
das cenas de caça na Capela Dourada de Recife.
191

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por volta de 1715, Portugal não importava
mais azulejos. Novas oficinas, como a de
Bartolomeu Antunes, tinham não apenas
capacidade para abastecer o mercado
interno como também para atender as
encomendas do Brasil. Mais ainda do que
no século XVII, os templos se cobriam de
azulejos a tal ponto que, em vez do ideal
barroco da “igreja toda de ouro” poder-seia falar na “igreja toda de azulejos”.
Em Almancil, toda a Igreja de São Lourenço – inclusive o
vedamento dos arcos, que deveriam ter dado acesso às
capelas laterais – foi coberta de azulejos por Manoel Borges
(acima). Policarpo de Oliveira Bernardes, filho e discípulo
de Antônio, incumbiu-se de revestir a cúpula do cruzeiro
(esquerda) e a abóbada da nave (abaixo)68.
Tanto o revestimento da cúpula quanto o da abóbada
apresentam elementos típicos da arquitetura em perspectiva.
Especialmente, a abóbada tem todas as características de um
teto pintado em quadratura. Porém, a ausência de outras
cores, além do azul, afasta por completo a intenção de iludir
os sentidos Como em todos os tetos portugueses, primam,
essencialmente, critérios didáticos e decorativos.
Essa cobertura não existe nos conventos franciscanos.
Nos portugueses, os painéis de azulejos são escassos,
predominando os de padrão repetitivo ou figura avulsa.
Nos brasileiros, são abundantes os conjuntos historiados,
porém limitados às áreas baixas onde, além de proteger
da umidade emergente do solo, podem ser mais
confortavelmente observados pelos fiéis.
Para além da função decorativa, observa-se um sentido
claramente didático. Nos grandes conjuntos figurativos –
alguns dos quais serão analisados a seguir – prevalecia
um propósito instrutivo e moralizante, complemento
ideal das pinturas de teto. Resistentes e de fácil
visualização, esses painéis atravessaram os séculos como
verdadeiros catecismos visuais.
68 Diversas imagens, nestas páginas, foram reproduzidas de http://www.geschichte-der-fliese.de/portugal.html
192

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em João Pessoa – provavelmente, um dos conjuntos mais antigos – a estrutura é bem
semelhante à de Cairu e Paraguaçu. Uma barra de folhas de acanto cerca longos frisos, o
maior dos quais – do lado da epístola – ocupa todo o comprimento da nave, exceto o
altar colateral e a porta que dá acesso ao claustro.
Anjinhos, alternados com as volutas, dão à barra um aspecto mais barroco. Porém, a
principal novidade é o friso central que, em vez de um padrão repetitivo de albarradas,
retrata, em grandes cenas pictóricas, a história de José no Egito.
À diferença de van der Kloet, na igreja de Nazaré, cujos azulejos relatam a mesma
história (ver foto na página 190), em João Pessoa não há divisão em quadros. A história
se organiza em forma linear, sutilmente pontuada por árvores ou elementos
arquitetônicos que separam uma cena da outra, mantendo todas elas como elementos de
uma grande paisagem em visão panorâmica.
Não se espere fidelidade histórica. O antigo Egito que hoje conhecemos só chegou a
Europa com a campanha de Napoleão. Nem em Nazaré nem em João Pessoa veremos
pirâmides, nem templos com esfinges, colunatas e pilonos.
A arquitetura é claramente italiana e o faraó usa turbante, o que não
surpreende se lembrarmos que o Egito estava em mãos muçulmanas.
A carruagem, claramente barroca (página seguinte), lembra a que,
em 1690, Jan van Oort representou no “Triunfo de Alexandre”, na
Quinta dos Viscondes da Portela de Sacavém (direita).
193

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Pese a esses anacronismos, o conteúdo educativo e moralizante está muito bem
estruturado e a execução é primorosa. Tanto a perspectiva e o sombreamento quanto a
anatomia e as atitudes dos personagens revelam a mão de um mestre da pintura, à par de
todos os avanços do renascimento e do maneirismo.

Surpreende um pouco, no contexto da Paraíba colonial, encontrar, numa igreja, uma
nudez tão explícita quanto a da mulher de Putifar.
Embora inicialmente provocasse certa resistência, a nudez chegou a ser aceita nas
igrejas romanas, conforme pode apreciar-se, por exemplo, no teto da Capela Sistina.
Porém, não me parece que isso fosse igualmente normal no Brasil, onde o renascentismo
era bem mais tímido. As mulheres permaneciam recluídas atrás de treliças e muxarabiês.
Nas ruas, deviam mostrar-se severamente recatadas. Até nos templos ocupavam lugares
separados dos homens. É possível que esse painel revele uma influência da pintura
italiana e me pergunto qual seria, diante dele, a reação dos fiéis brasileiros.
194

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Desde outro ponto de vista, surpreende que tenha sido dado um destaque tão grande à
vida de José, um episódio relativamente menor do Antigo Testamento. Mais do que pela
história em si, explica-se pelo valor simbólico que se lhe dava na época ao considerar a
história de José como uma prefiguração da vida de Jesus Cristo.
Da mesma maneira, a crença nas relações simbólicas entre
presente, passado e futuro se expressa em múltiplos episódios
da vida de São Francisco, tais como a imposição dos
estigmas, o ascenso aos céus em carro de fogo ou o
nascimento numa manjedoura, que aparece representado num
dos medalhões do teto da mesma igreja.

Outro conjunto de aspecto panorâmico – porém, de temática completamente diferente –
é o existente no claustro da Ordem 3ª de Salvador.

Cada trecho de corredor apresenta um longo friso com vistas de Lisboa. Como em João
Pessoa, as barras são retas. Porém, a presença de grinaldas que pendem sobre a figura e
as cariátides que delimitam os extremos denunciam a elaboração um pouco mais tardia.
A representação minuciosa dos edifícios reais pode assimilar-se ao “Grande Panorama
de Lisboa” (abaixo) – atribuído a Gabriel del Barco e originalmente localizado no
Palácio dos Condes de Tentúgal – ou aos panoramas de Antuérpia, Hamburgo, Colônia,
Constantinopla, Londres, Middelburg, Rotterdam e Veneza, atribuídos a Cornelis
Boumeester e conservados no Palácio da Ega, também em Lisboa.
Porém, essas obras concentravam-se na descrição das cidades. Se algum personagem era
incluído, servia apenas para compor o cenário. Nada, nessas representações, quebrava a
intencionada atemporalidade. Pelo contrário, o ciclo existente em Salvador retrata uma
cidade em movimento, num momento específico, com minucioso detalhamento dos
personagens e das atividades que estavam desenvolvendo.

195

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

É por demais conhecido que esses painéis retratam a Lisboa desaparecida no terremoto
de 1755. Até aqui, nada além do “grande panorama”, também realizado antes dessa
data, ou até mesmo de outras vistas de Lisboa conservadas no consistório da mesma
Ordem Terceira.
O que distingue este conjunto dos anteriores é o registro de um momento muito especial:
o cortejo nupcial do Príncipe do Brasil – futuro rei, D. José I – ao contrair matrimônio
com a princesa espanhola Mariana Vitória de Bourbon.
À diferença do conjunto de João Pessoa – que só por características estilísticas pode ser
datado no primeiro quartel do século XVIII – este, certamente, deve ter sido realizado
em 1729 – ano em que a boda foi celebrada – ou pouco depois. Caso contrário, o tema
teria perdido atualidade.

Fora das carruagens – onde se intui vagamente a presença da família real – é muito
detalhada a representação de pessoas, vestimentas e atitudes: nobres, religiosos, homens
do povo e até crianças.
Nem toda a arquitetura que se observa é permanente. Os arcos, identificados, por escrito,
com os nomes das corporações ou comunidades nacionais que os construíram – “arco
dos confeiteros”, “dos ingerzes”, “dos alamois”, dos “omes de nogosio” – eram obras
efêmeras, construções temporárias para maior solenidade do evento.
196

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tema bastante comum, nos conventos do Nordeste, é a vida de Santo Antônio, com
especial ênfase nos milagres. Ela se encontra na capela mor de Cairu (página 221) e nas
naves de Igarassu e São Francisco do Conde (acima). Em pinturas, o mesmo tema se
observa nos tetos de Igarassu (página 144) e da capela mor de João Pessoa (página 71).

Os azulejos de Igarassu (esquerda) e São Francisco do Conde (direita) obedecem a um
mesmo modelo, identificado durante a restauração da igreja de Igarassu69.
69 Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva: “Igreja de Santo António de Igarassu – Conservação e Restauro”.
197

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No Gabinete de Estampas do Museu de Arte Antiga de Lisboa, a equipe de restauro
encontrou um conjunto de gravuras intitulado “Vita Sancti Antonii Paduani, Ordinis
Minorum, Magnis. Miraculis, Signis ac Prodigiis Illustrata”. Os desenhos são de
autoria de Thomas Scheffler (1700-56) e o impressor, Martin Engelbrecht (1672-1755).
A semelhança pode ser apreciada comparando as gravuras com as imagens a seguir,
ambas fotografadas em São Francisco do Conde70.

Essa semelhança não é de estranhar. Naquela época, pinturas e azulejos não eram
consideradas “obras de arte”, no sentido atual. O artista era, apenas, o executor de uma
encomenda, especificamente definida pelo contratante. O objetivo não era que fosse
original, mas que cumprisse sua função decorativa e didática. Para isso, quanto mais
claramente estivesse definida a encomenda, menor seria o risco de receber um trabalho
diferente do desejado.
Nesse contexto, os livros de gravuras funcionavam como catálogos. O encomendante
escolhia as gravuras, media as áreas a cobrir e enviava essa informação para a oficina,
em Portugal. È provável que, às vezes, enviasse o livro junto com o pedido. Em outros
casos, apenas indicaria as gravuras desejadas, incumbindo-se o executante de
providenciar outro exemplar do livro para usar de modelo. Não é de se descartar, ainda,
que livros de uso frequente, como o que estamos considerando, fossem habitualmente
usados pelas oficinas de azulejos, podendo, eventualmente, serem sugeridos, como
modelos, para clientes que não tivessem uma ideia clara do tema que desejavam.
Vários desses livros foram identificados, tanto com temática antoniana e franciscana
quanto de assuntos bíblicos, alegóricos ou moralizantes. Veremos, ao longo deste estudo,
uma variada gama desses assuntos. Além de Igarassu, João Pessoa e São Francisco do
Conde, já analisados, há grandes ciclos de azulejos nos conventos de Olinda
(franciscanos, marianos e relativos a Santa Ana), Recife (bíblicos), Sirinhaém
(franciscanos) e Salvador (franciscanos, moralizantes, alegóricos e profanos).
Esses ciclos de azulejos serão considerados a seguir.
70 À esquerda, milagre da bilocação (o santo foi visto pregando simultaneamente em dois lugares). À direita, milagre do
coração do avarento (o coração estava dentro da arca onde o avarento guardava seus tesouros).
198

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Obviamente, o tema mais comum, nos conventos franciscanos, é a vida do próprio São
Francisco, uma vida com características de lenda, cheia de episódios maravilhosos,
milagres e símbolos.
Além do painel da estigmatização, na sacristia de Olinda, existem ciclos de azulejos no
claustro desse mesmo convento (acima), na igreja de Sirinhaém e na capela e subcoro de
Salvador. Cabe lembrar que, sobre o mesmo tema, também existem ciclos pictóricos, nos
quadros da sacristia de Salvador (páginas 147 e 159) e nos medalhões do teto de João
Pessoa (página 146).
Nas representações de Olinda, Francisco é muito mais do que um homem santo. Recebe
incumbências de Jesus Cristo, partilha dos estigmas, prega para aves e peixes, lida com
demônios e até mesmo tira almas da boca do inferno. Cenas similares encontramos nos
demais ciclos, tanto em pintura quanto em azulejos.

199

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esta visão se enlaça com a literatura franciscana dos séculos XIII e XIV, que estabeleceu
uma biografia oficial claramente marcada pela religiosidade medieval, onde homens e
demônios interagem fluentemente e até o próprio inferno adquire personalidade, tal
como pode apreciar-se na imagem acima, em que uma boca monstruosa se apresta a
engolir as almas pecadoras em direção ao fogo eterno.
Outra característica marcante é a influência da chamada “tipologia bíblica”, teoria
exegética muito difundida, já mencionada ao descrever a igreja de João Pessoa, na
página 195.
Segundo esta teoria, os acontecimentos narrados no Antigo Testamento prefiguram os do
Novo. Assim, os desígnios divinos estariam escritos numa teia de relações, coincidências
e até oposições que permitem identificar um plano evolutivo com raízes na antiguidade
remota e projeções sobre os tempos recentes, o presente e o futuro da humanidade.
Essa interpretação, que permeia todos os evangelhos, baseia-se nos escritos dos profetas
para legitimar o cristianismo nascente como consequência última e perfeita da antiga
aliança entre Deus e os homens por ele escolhidos71.
Recurso similar foi utilizado pelos primeiros franciscanos. Buscando legitimar a sua
nova visão do cristianismo, foram transformando a “imitação de Cristo”, que ele
humildemente pregava, na vinda de um “novo Cristo”, onde muitos episódios da história
sacra se repetiam, com sentido real ou simbólico.
Essa visão, já presente nos afrescos de Giotto em Assis, observa-se claramente nas séries
de gravuras que serviram de modelo aos azulejos conservados nos conventos de
Salvador, Olinda e Sirinhaém. Nas próximas páginas, compara-se parte dessas gravuras72
– e respectivas legendas – com as imagens fotografadas nesses conventos.
71 Daí, traduzir antiga e nova “Aliança”, que alguns autores acreditam ser mais exato que “Testamento”.
72 Reproduzidas de Justus Sadeler: “Seraphici Patris S. Francisici Ordinis Minorum Fondatoris Admiranda Historia”
(1610). Disponível em http://web.sbu.edu/friedsam/scan/Whole_Books/Admiranda_Historia_D10,478/index_2.htm.
200

SIMILITUDES E DIFERENÇAS
Legendas:
A. “Nascido Francisco, conturba-se o inferno”.
B. “O Anjo, em forma de peregrino, pega o
menino em braços”.
C. “Prediz as insídias que deverão fazer contra
ele os demônios”.
D. “É feito prisioneiro em Perugini”.
E. “Um caminhante prevê a sua santidade”.
F. “Beija um leproso, que logo desaparece”.
G. “Em Roma, pede esmolas, sentado entre os
pobres”.

Em Olinda (direita) prevalece a representação
dos demônios, claramente baseada em Sadeler.
A anunciação foi substituída pelo nascimento,
que vagamente tenta evocar um presépio.
Em Salvador (abaixo) vemos, à esquerda, a
chegada do anjo. No centro, o presépio, entre
ruínas clássicas, vincula o nascimento de São
Francisco ao de Jesus Cristo. À direita –
copiando, literalmente, a gravura de Sadeler –
o anjo faz as suas predições.
À direita do painel, quatro demônios agitamse, impotentes. É o inferno que se conturba.
Sintomaticamente, de todo o painel, os rostos
desses demônios são as únicas áreas que
parecem ter sido intencionalmente danificadas.

201

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Legendas:
A. “A imagem do crucifixo fala a Francisco”.
B. “Vende o cavalo e as roupas”.
C. “Oferece à Igreja o dinheiro que obteve”.

Múltiplos gravadores representaram esta cena73. Nenhum deles parece ter conhecido o
Cristo de San Damiano (em cima, no ângulo direito desta página). Apenas Giotto, mais
próximo no tempo e no espaço, evidencia o
conhecimento da verdadeira imagem.
Também não parece que os gravadores tenham
se preocupado em representar o estado de
ruínas do templo – evidente na pintura de
Giotto – limitando-se a atribuir à mensagem do
Cristo o sentido mais genérico de restaurar a
Igreja como instituição.
Nos três conventos do Nordeste em que esta
cena aparece, a ambientação parece estar
baseada em Sadeler. Porém, a inversão das
posições e o acréscimo da legenda lembra as
gravuras de Galle e Galignani.
73 Acima, de esquerda à direita, gravuras de Andrea Vaccario, Philippe Galle e Simon Galignani.
202

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Essa disposição condiz com a mensagem escrita: “Vá, Francisco, repara a minha casa”.
Lendo as imagens da esquerda para a direita – o sentido mais comum nas línguas
ocidentais – tanto a pintura de Giotto quanto as gravuras de Sadeler e Vaccario
enfatizam a ação de Francisco ao elevar sua devoção até o Cristo. Já Galle e Galignani
dão maior destaque ao comando do Cristo, que incumbe Francisco de consertar a sua
Igreja. Essa foi a orientação adotada nos três conventos.
Em Olinda (direita), a cena de San Damiano ocupa todo o painel e
São Francisco tem um halo rodeando a cabeça. Em Sirinhaém
(abaixo), todas as cenas da gravura de Sadeler estão presentes,
incluso a do cavalo, omitida nesta fotografia. Em ambos os casos,
notam-se a inversão lateral e o acréscimo da legenda. Acima
referenciada.
Mais uma vez, a representação em Salvador é mais detalhada. A
cena central é a mesma. Porém, a legenda é mais pormenorizada:
“Vá, Francisco, repara a minha casa com teu trabalho”.
As cenas do cavalo e da renúncia ao mundo estão
claramente definidas. O tratamento das imagens é mais
detalhado, obra de um pintor de grande qualidade. No
fundo, desdobra-se uma paisagem ribeirinha, com várias
embarcações e diversos edifícios.
Parece-me que essa ambientação – inclusive o vestiário –
é mais elaborada e menos holandesa. Porém, também não
corresponde ao tempo de São Francisco. Lembra,
claramente, uma cidade portuguesa do século XVIII.

203

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A. “Manda frei Bernardo pisar nele”.
B. “Se faz arrastar nu com corda no pescoço”.
A. “Seu pai manda prendê-lo”.
C. “No céu lhe aguarda um lugar sublime”.
B. “Restaura três igrejas”.
D: “Manda demolir as celas suntuosas”.
C. “Deus Pai aprova a regra a pedido de Cristo”. E: “Pede esmola de porta em porta”.
D: “É visto no céu, com o estandarte da cruz”.
F: “A sua cadela adora Cristo durante a missa”.
Legendas:

A imagem da esquerda é de Sirinhaém. A da direita, de Olinda.
Num tratamento tipicamente hagiográfico, destaca-se principalmente
os exemplos de humildade e sacrifício.
Ao dado histórico da aprovação da Regra pelo Papa, sobrepõe-se a
aprovação por Deus Pai, a instâncias do Filho. Mesmo assim, em
Sirinhaém está representada a outra versão sobre a origem da regra:
o sonho de Inocêncio III.
Essa representação (direita), de cunho mais naturalista e até um
pouco ingênuo, é bem diferente da visão alegórica que se observa no
teto de Cairu (página 143).
204

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Legendas:
A. “Tentado pela luxúria, joga-se no fogo”.
B. “Tentado pelo demônio, deita na neve, nu”.
C. “Deserdado pelo pai, vai até o bispo, nu”.
D: “Colhe rosas por virtude divina”.

A. “Orando, no topo do monte, o demônio se
esforça em perturbá-lo ”.
B. “Batem nele os demônios”.
C. “Meditando, é alimentado por um anjo”.

Acima, à direita: Sirinhaém. As outras
duas imagens são de Olinda.
Mais uma vez, prevalece o exemplo. O
santo é submetido a inúmeras provações.
Porém, Deus não o abandona.
Isolado, em oração, após ter sido tentado
pela luxúria e espancado pelos demônios,
um anjo o reconforta e lhe oferece
alimentos.

205

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Legendas:
A. “Imitando Jesus, converte água em vinho”.
B. “Faz jorrar água da pedra”.
C. “Alimenta, milagrosamente, mais de cinco mil
frades no capítulo de Assis”.

A. “Mostrando a cruz, espanta uma serpente que
aterrorizava a cidade de Assis”.
B. “O Papa o vê sustentar a igreja de Latrão nas
costas”.
C. “As aves se deixam tocar por ele”.
D: “Os peixes escutam sua pregação”.

A imagem da esquerda é de Sirinhaém. A da direita, de Olinda.
Não poderia faltar, numa hagiografia, a representação dos milagres do santo biografado.
Porém, neste caso, essa enumeração é especial porque se enfatiza, especificamente, na
imitação de Cristo: “Miraculorum Cristi Imitatio”.
A conversão de água em vinho lembra as bodas de Caná. A alimentação milagrosa, a
multiplicação dos pães e dos peixes.
Além do sonho de Inocêncio III, a segunda gravura inclui a dominação da serpente pelo
sinal da cruz. Porém, nos azulejos de Olinda, essa cena foi omitida. Adotando um ponto
de vista tipicamente franciscano, toda a ênfase do painel foi colocada em destacar o
relacionamento do santo com as aves e com os peixes.
206

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Legendas:

A. “É adornado por Cristo nas mãos e pés e sente
os cravos traspassando as feridas, das que
mana abundante sangue. No lado, recebe outro
ferimento, como se fosse de uma lança”.

A. “Cristo crucificado, em forma de serafim, lhe
imprime os sacros estigmas”.
B. “Frei Leone vê descer sobre Francisco a
inscrição 'Hic est Gratia Dei'”.
C. “Orando, em Roma, é abraçado pelos santos
Pedro e Paulo”.

B. “Duvidando dos estigmas, o Papa Gregório IX
vê encher um cálice com o sangue que jorra
das feridas”.

Acima, esquerda: Olinda. Acima, direita,
Sirinhaém. Ao lado, Salvador (capela mor).
Embora a imagem de Sirinhaém esteja
invertida e bastante alterada, a relação
entre os estigmas e o sonho que confirma a
sua autenticidade coincide com a gravura.
Em Olinda, a reprodução é fiel à gravura.
Em Salvador, a cena da estigmatização de
São Francisco está isolada.
207

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A. “Deita-se com os braços em cruz, e abençoa”.
B. “Se vê a sua alma sair como uma estrela”.
A. “Perto da morte, faz uma ceia com os frades”. C. “Sobe com ele a alma de um certo ministro”.
B. “Montado em um asno, é recebido pelo Papa”. D: “É recebido por Cristo, sua Mãe e uma
C. “Salva muitas almas do Purgatório”.
multidão de santos”.
Legendas:

Ambas as imagens são de Olinda.
A identificação com Jesus Cristo é evidente. Pouco antes da morte há uma última ceia
(omitida em Olinda). A entrada triunfal em Roma, montado em asno, lembra a de Jesus
em Jerusalém. Também o poder de salvar almas é prerrogativa divina.
Na cena da morte, foi omitido o recebimento no céu. Apenas se vê a alma subindo. Não
consegui identificar o ministro cuja alma sobe junto à de São Francisco.
Parte dos azulejos está danificada pela ação do tempo. A fixação inadequada e a
proximidade do mar favorecem a penetração de sais que atacam a vitrificação. Porém,
há vários casos em que o dano parece intencional. Quase invariavelmente, as faces dos
demônios estão destruídas, como pode observar-se, na próxima página, nos painéis de
Olinda (esquerda) e Sirinhaém (direita).
208

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O fato parece compreensível. Para espíritos simples, combater os demônios – mesmo em
efígie – pode ser visto como atividade edificante. Mas não são apenas os demônios que
se encontram danificados. Em alguns painéis de Olinda, também o rosto de São
Francisco, parece ter sido deteriorado intencionalmente.
Quem é que, num convento franciscano, iria agredir o orago principal da instituição? O
centro das devoções? No tempo dos holandeses, sabe-se que imagens e altares foram
profanados como parte da oposição entre católicos e calvinistas. Porém, esses painéis
são posteriores. Frei João Sannig, ex-guardião do convento, observa – apenas como
hipótese – que as imagens danificadas são aquelas em que mais expressamente se
destaca a identidade de São Francisco com Jesus Cristo.
A imitação de Cristo, essência da doutrina franciscana, é sempre exaltada como virtude.
Porém, para alguns “puristas”, essa identidade com Jesus Cristo podia ser vista como
um sacrilégio. Apenas Jesus é Deus. Como um simples ser humano poderia compartilhar
com ele os estigmas? Não seria um modo de – indignamente – equiparar-se a Deus?

209

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ambos os conjuntos (Olinda e Sirinhaém) são de meados do século XVIII e já
apresentam barras barrocas recortadas limitando painéis individuais (embora – à
semelhança das gravuras – alguns deles possam conter duas ou três cenas conjugadas).
Entre um e outro painel há pilastras simuladas. Em cima e em baixo, cartelas apresentam
símbolos piedosos e penitenciais (crânios, missais, cruzes, cilícios etc.).
Das imagens abaixo, as duas primeiras (esquerda e centro da primeira linha) são da
igreja conventual de Sirinhaém. As restantes são do claustro de Olinda.

Em Salvador, as barras não são recortadas e sim, apenas pintadas nos azulejos, que
continuam, no branco do esmalte, até completar o retângulo em que estão inscritos.
Curiosamente, restos de um painel mutilado ladeiam a porta principal da igreja. Não
encontrei explicação para esse fato. A data inscrita em cima da porta é 1720. Portanto,
muito anterior à elaboração e fixação desses painéis.

210

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Apenas em Olinda encontrei um ciclo completo de azulejos
marianos. Essa escassez surpreende porque era uma devoção
especial dos franciscanos, orago principal nos conventos de
Olinda e Penedo. Ainda, nos conventos em que não era orago
principal, a imagem de Maria presidia, ao menos, um dos
altares colaterais. Ela é figura central dos tetos de Igarassu,
João Pessoa, Penedo e Salvador, bem como de diversas
sacristias e salas capitulares.
As imagens de Olinda integram-se num ciclo narrativo
similar aos dos arcazes de Cairu e Paraguaçu (página 83).
Estão inscritas em painéis individuais, de barra barroca
recortada com cartelas identificatórias em latim.
Não encontrei informações sobre a sua origem, mas, certamente, são azulejos
portugueses de meados do século XVIII.

211

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Alguns dos painéis da nave: Começando na página anterior, de esquerda a direita:
Casamento, Anunciação, Visitação, Nascimento, Circuncisão, Réis, Fuga, Pentecostes,
Morte e Coroação.
212

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Bastante similar é o ciclo existente, no mesmo convento, na Capela de Santa Ana. Neste
caso, há duas anunciações. Na primeira, a santa, grávida, recebe a notícia de que sua
filha será mãe de Jesus. Na segunda, Maria recebe a notícia da sua própria gravidez
enquanto José, em sonhos, é tranquilizado pelo anjo sobre a virgindade da sua esposa.

Também há dois nascimentos, podendo interpretar-se que um deles seja o de Maria e o
outro, de Jesus.
As representações são bastante similares, com a cama do
parto à esquerda e o grupo rodeando o recém-nascido no
centro. Na segunda imagem, no alto, Deus Pai abençoa o
nascimento.
Aqui não há legendas explicativas. No seu lugar, as cartelas
exibem atributos marianos, tais como a torre, a estrela, o sol
e a porta fechada. Lamentavelmente, vários painéis estão
danificados, com numerosas peças fora de lugar.
213

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Há azulejos do Antigo Testamento na via sacra de Salvador. Acima, à esquerda, Jonas é
jogado ao mar, cuspido pela baleia; direita, Rebeca alimenta os camelos dos enviados de
Abraão. Outras cenas – identificadas por Frei Pedro Sinzig74 – são: Sacrifício de Isaac,
Agar no deserto, Salvamento de Moisés pela filha do faraó, Afogamento dos egípcios no
Mar Vermelho, Adoração do bezerro de ouro, Retorno dos exploradores da terra
prometida, Luta de Jacob com o anjo, Escada de Jacob, Elias no carro de fogo, Salomão
e a rainha de Sabá etc.
Não sei se essas cenas são isoladas ou constituem um ciclo, expressando um sentido de
conjunto. Essa unidade, entretanto, é evidente nos azulejos bíblicos de Recife.
Lá, a sequência começa na via sacra e se prolonga pelos quatro corredores do claustro.
Desde as primeiras imagens, nota-se a vinculação com as Loggias Vaticanas de Rafael
Sanzio (esquerda). Porém, essa influência não foi exercida em forma direta e sim,
através das gravuras de Jean-Baptiste de Marne75 (direita).

74 Frei Pedro Sinzig: “Maravilhas da Religião e da Arte”. IHGB, 1933.
75 Laurent-Etienne Rondet: “Figures de la Bible”. Com gravuras de Jean-Baptiste de Marne.
214

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Lidos ordenadamente e complementados com a tradução aproximada das cartelas –
originalmente em latim – os painéis apresentam a seguinte sequencia76:

76 Exceto a Torre de Babel, aqui reposicionada na ordem bíblica.
215

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

216

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

217

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

218

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Todas as cenas estão na ordem em que aparecem na Bíblia, exceto a Torre de Babel, que
se encontra no final do percurso. Não consegui encontrar um significado para essa
alteração, que poderia derivar de um simples erro de montagem. A promessa de Deus,
“multiplicar a descendência de Abraão como as estrelas dos céus”, me parece um final
mais significativo.
Sílvia Barbosa Guimarães Borges, que analisou esses azulejos77, arrisca a seguinte
hipótese: “O primeiro, “criação de Adão”, e o último painel, “torre de Babel”, do
claustro encontram-se como a fechar uma linha de pensamento, um ciclo preciso da
criação do mundo. Da criação do homem à povoação do mundo em várias línguas,
passando pela formação dos vários povos”.
Não me parece que essa fosse a intenção. Suponho que os frades se preocupassem mais
com a origem do cristianismo que com a origem das raças. Não esqueçamos que, na
interpretação da tipologia bíblica, o sacrifício de Isaac prefigura o de Jesus Cristo e a
descendência de Abraão poderia identificar-se com o povo escolhido e com a origem da
própria Igreja.
Formalmente, são painéis de barra barroca recortada.
Cada painel inclui uma cartela com a correspondente
citação bíblica em latim.
Em alguns casos – não em todos – indica-se a
localização do versículo citado.
Coincidentemente, o painel deslocado – a Torre de
Babel – não tem essa indicação, o que pode ter
facilitado a troca. Omitida a fixação no local certo, a
saída pode ter sido colocá-lo no fim da sequencia.
77 Sílvia Barbosa Guimarães Borges: “Azulejaria portuguesa no Convento de Santo Antônio de Recife”.
219

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

De longe, o maior e mais variado acervo de azulejos é o que se encontra no convento de
Salvador. Há azulejos na portaria, no subcoro, na capela mor, na sacristia, no claustro
inferior, na via sacra, na escada das matinas, no claustro superior, na escada regral, no
refeitório e na antiga enfermaria.
Na portaria e na antiga enfermaria encontramos conjuntos de painéis com figuras de
eremitas. A distância entre esses dois ambientes não deve confundir. Consta que, já no
século XX, os painéis atualmente na enfermaria foram deslocados para criar um acesso
direto ao convento por ocasião da reforma das edificações contíguas à portaria. Ou seja,
originalmente, formavam parte do mesmo conjunto.

O tema é muito similar ao representado na via sacra de Cairu (direita)78. Ambos
conjuntos lembram os eremitas de van Oort na Madre de Deus de Lisboa (página 189) e
também não diferem muito de algumas imagens de franciscanos em Olinda e Sirinhaém
(página 206, esquerda). Será que elas pretendiam representar os primeiros seguidores de
São Francisco, que levavam uma vida muito mais dedicada ao retiro espiritual e ao
contato com a natureza?
Já comentei os azulejos do subcoro (páginas
201 e 203). Da igreja, resta comentar os da
capela mor, que parecem formar com eles um
conjunto, mas apresentam um detalhe que
levou a diversas atribuições errôneas. Num dos
painéis, do lado da epístola, há una cartela com
o seguinte texto: “B.meu Antunes a fes nas
olarias em Lxa no de 1737”.
78 Tanto em Cairu como em Salvador, observa-se uma quebra da monocromia. Embora a cena dos eremitas esteja
composta em tons de azul de cobalto, existem rodapés com detalhes marmorizados em roxo de manganês. Observei a
presença desse recurso em outras obras. Por exemplo, na fachada do hospício da Boa Viagem.
220

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Conforme registrado na página 188, alguns pintores de azulejos assinavam seus
trabalhos, o que levou a interpretar essa inscrição como uma assinatura autoral e, por
semelhança, a atribuir a Bartolomeu Antunes trabalhos similares encontrados em outros
conventos. Foram a ele atribuídos, por exemplo, os azulejos da nave de Igarassu (pagina
197) e os da capela mor de Cairu (abaixo, esquerda).

Comparando esses painéis com os de Salvador (direita), a semelhança é evidente e não é
de se descartar a hipótese de que tenham sido executados pelo mesmo pintor. Contudo,
não necessariamente esse pintor foi Bartolomeu Antunes.
De fato, no seu testamento, ele se identifica como “mestre ladrilhador”. Segundo Sílvia
Barbosa Guimarães Borges, “Cabia ao oleiro os aspectos técnicos da obra e ao
ladrilhador a articulação com a olaria e com os pintores. O azulejador tratava das
obrigações com os encomendadores. Havia ainda oficiais oleiros e um medidor,
responsável por conferir se os azulejos aplicados estavam de acordo com as cláusulas
contratuais e, é claro, os pintores”79.
Ainda citando Sílvia Borges: “É importante ponderar sobre a flexibilidade destas
funções, podendo um indivíduo assumir mais de uma atividade simultaneamente, ou
mesmo, intercalar a atuação em distintas áreas. A figura de Bartolomeu Antunes é
emblemática neste sentido, pois este indivíduo, que se intitulava “mestre ladrilhador do
Paço”, assumia vezes de mestre azulejador e de mestre ladrilhador”.
Tratava-se, aparentemente, de uma tradição familiar, sendo Bartolomeu parente de João
e de Domingos80, ambos ladrilhadores, assim como Antônio, filho de Bartolomeu, a
quem deixou em testamento as obrigações contratuais inconclusas.
Contudo, Bartolomeu não se contentou com a atividade de ladrilhador, logo
incursionando no papel de azulejador e, a partir de 1725, montando a sua própria olaria,
onde empregava oleiros, ladrilhadores, medidores e pintores numa estrutura que poderia
79 Sílvia Barbosa Guimarães Borges: “Questões em Torno de Autorias na Arte Azulejar: O Caso da Igreja do Convento
Franciscano de Salvador”. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, 2011.
80 Provavelmente, pai de Bartolomeu, com quem teria se iniciado na obra do Convento dos Oratorianos de Estremoz.
221

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

ser chamada de “empresarial”. Assim, mais do que uma assinatura de autor, a inscrição
existente em Salvador poderia ser considerada uma “marca de fábrica”. Constam
marcas similares na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Matacães, na Igreja de São
João Novo, no Porto, e no Convento dos Lóios, em Vilar de Frades.
Além do seu filho, Antônio, trabalharam com ele seu sobrinho, João Nunes, e seu genro,
o pintor Nicolau de Freitas, discípulo de Antônio de Oliveira Bernardes. Também
empregava outros pintores, como Valentim de Almeida, que por sua vez foi pai de
Sebastião de Almeida, depois diretor artístico da Real Fábrica de Azulejos do Rato.
Para além do interesse biográfico, esses dados revelam a crescente complexidade no
negócio de azulejos. Inicialmente pouco diferenciado em suas funções, posto que os
próprios oleiros decoravam suas peças, passou a integrar tarefas bastante especializadas,
inclusive a de medidor, posto que os azulejos historiados precisavam casar exatamente
com as superfícies para as quais eram planejados.
Diante da dificuldade do encomendante em controlar a integração entre oleiros, pintores
e medidores, surgiram os ladrilhadores e azulejadores, que se incumbiam de coordenar
essas funções. Gabriel del Barco, antes de assumir a produção por conta própria,
desenvolvia, de fato, essa função de integração entre os encomendantes portugueses e as
longínquas oficinas de Amsterdam.
Já João Antunes, ativo entre 1672 e 1701, tinha sua própria olaria e se intitulava, no seu
testamento, como “mestre do ofício de azulejador”. Porém, não parece que tenha
desenvolvido a sua própria marca, o que sim fez Bartolomeu, dono de olaria na Calçada
do Monte, de 1725 até a sua morte, em 175381.
Esse período marca o apogeu dos azulejos historiados, em grande parte estimulado pelas
encomendas do Brasil. A produção portuguesa facilitou as encomendas de além-mar e,
por sua vez, as novas encomendas abriram um amplo mercado para essa produção.
A maioria das obras que encontramos nos conventos procede desse período, mas não
necessariamente dessa olaria ou desses pintores. Diversos produtores já competiam por
esse mercado, não apenas em Lisboa como também no Porto.
Nesse contexto, o terremoto de 1755 viria forçar uma drástica interrupção. A perda das
instalações existentes e a necessidade de reconstrução rápida dos imóveis danificados
levariam ao retorno dos padrões repetitivos, produzidos em grandes quantidades, e à
aparição de oficinas mais industrializadas, baseadas em técnicas de reprodução
mecânica. Assim, ficando os azulejos de encomenda restritos aos clientes de maior poder
aquisitivo e entrando a economia do Brasil numa prolongada crise, a importação de
azulejos historiados tornou-se inviável.
81 Entretanto, as inscrições só aparecem em obras datadas de 1736 a 1742, indicando, provavelmente, o principal período
de expansão da sua empresa. Obras posteriores são comprovadas apenas pela documentação.
222

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tanto em Salvador quanto em Cairu82, as barras são muito detalhadas e tendem a cobrir
todo o espaço disponível, com detalhes arquitetônicos emoldurando portas e janelas.

Na sacristia de Cairu (página 80), os azulejos cobrem de piso a teto, emolduram portas e
janelas e formam, em torno ao lavabo, um dossel aberto por anjos. Também as sacristias
de Igarassu, Olinda e São Francisco do Conde estão totalmente cobertas de azulejos.

82 Acima, esquerda: Capela mor de Salvador. Direita e meio, esquerda: Capela lateral de Cairu (Santa Rosa de Viterbo).
Meio, direita: Capela mor de Cairu. Em baixo: Sacristia e capela do lavabo de Cairu.
223

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Retornando ao convento de Salvador, saindo da igreja, encontramos o claustro e, nele,
uma série surpreendente: imagens alegóricas aparentemente profanas, com ambientação
greco-romana e sem nexo aparente com os ciclos que vimos nos demais conventos.
São 37 das 103 ilustrações de “Quinti Horatii Flacci Emblemata: Imaginibus in aes
incisis, notisque illustrata”, série de gravuras sobre os “Emblemas de Horácio”
publicada por Otto van Veen em Antuérpia, em 160883.
Ainda em Antuérpia, sob o título de “Theatro Moral de la vida humana y toda la
philosofia de los antiguos y modernos” foi publicada, em 1648, uma edição comentada
em espanhol, um de cujos exemplares ainda se encontra na biblioteca do convento84.
Teria esse livro sido utilizado como modelo? Ou apenas serviu para escolher as gravuras
e fazer a encomenda? Embora essa edição seja em castelhano, as cartelas – em latim –
coincidem com os títulos das gravuras na edição original de vanVeen.

83 Acima, esquerda. Uma edição completa, de 1612, pode ser consultada em http://books.google.com.br/.
84 Abaixo, esquerda. No mesmo endereço, há uma edição feita em Bruxelas (1669) e duas em Amberes (1701 e 1733).
224

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não pretendo aqui apresentar o ciclo completo, não apenas pela sua extensão como
porque já foi bastante analisado em diversas publicações85. Baste, além da menção já
feita, indicar que os azulejos têm a vitrificação bastante deteriorada, precariamente
protegida com telas para evitar a total perda da pigmentação.
Porém, além desses danos, produzidos por fatores naturais, também aqui há indícios de
dano proposital. Praticamente todos os rostros da morte foram destruídos, como pode
observar-se nas seguintes imagens:

Mas não é apenas no claustro que se observa esse dano.
Também no subcoro, no painel correspondente ao
nascimento de São Francisco, os rostos dos demônios
foram intencionalmente destruídos.
Portanto, essa destruição não foi um evento exclusivo de
Olinda. Houve ocorrências em diversos conventos e em
detrimento de diversos personagens.
Ainda no andar térreo, há painéis historiados com motivos bíblicos na via sacra (páginas
84 e 214). À semelhança do claustro, são de tipo barroco com barra recortada,
diferenciando-se apenas pela temática abordada.
Na sacristia, há painéis figurativos, com cenas de caça, preenchendo todos os espaços
que os móveis e pinturas deixam livres (próxima página, esquerda). Na sala capitular,
azulejos repetitivos, de albarradas, cumprem a mesma função (direita).
Não parece que exista uma intenção especial na escolha destes azulejos, exceto a
necessidade de preencher todos os espaços. Não há uma mensagem evidente. A
motivação principal é o chamado “horror vacui” (horror ao vazio), típico do barroco,
mas também característico em outros períodos da história das artes.
85 Frei Hugo Fragoso: “Claustro do Convento de São Francisco: Um Teatro em Azulejos” (Livreto à venda no convento).
Frei Hugo Fragoso: “Azulejos do Convento de São Francisco”, em “Igreja e Convento de São Francisco da Bahia”
Odebrecht - Versal Editores.
Humberto José Fonseca: “Um Teatro Moral em Azulejos”, em UESB - “Anais do III Encontro Estadual de História”.
Adriana Mônica Martin: “Restauração Digital dos Desenhos Gráficos no Claustro do Convento de São Francisco,
Salvador, Bahia”, em UFBA - “Revista Brasileira de Arqueometria, Restauração e Conservação”. Vol.1, No.3.
225

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Especialmente surpreendente é a sensação que se tem ao subir a escada das matinas. Em
todos os conventos, essa escada tem um tratamento destacado. Embora seja o acesso às
áreas privadas, ainda está em contato direito com as públicas e, mais ainda, com as
sagradas. È o acesso principal entre o convento, à via sacra, à sacristia e à capela mor.
Porém, ao subir essa escada, normalmente encontramos sóbrios corredores, quase
desprovidos de ornamentação, a não ser alguma imagem religiosa, no topo, sacralizando
o acesso ao corredor dos dormitórios.
Contrariamente, no convento de Salvador, a visão que se encontra é impactante.

A decoração é palaciana. O caráter alegórico das figuras, representativas dos “trabalhos
dos meses”, dos “cinco sentidos” e das “quatro partes do mundo”, não consegue
esconder a função de “figuras de convite”, similares às que, na época, recebiam o
visitante nos palácios e casas senhoriais.
Ainda, em volta, mais cenas de caça, em painéis completos, com barras barrocas
recortadas. A seguir, o claustro superior, inteiramente decorado com cenas profanas.
226

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A exuberância do barroco justificava-se com o argumento de que “Qualquer luxo para
Deus é pouco”. Assim, o ouro, as pinturas, os brocados, os azulejos, tudo seria válido e
necessário, posto que dedicado a Deus. Porém, essa escada era o acesso ao mundo dos
homens. Mesmo que fossem religiosos, eram simples homens. Aliás, homens que tinham
feito votos de pobreza.

Cada uma das pilastras tem seus lados cobertos por figuras em pé, parcialmente
recortadas. Além das alegorias86, nas esquinas do claustro há soldados romanos em
atitude vigilante, como a guardar a segurança dos que ali transitam.

Nos corredores, há batalhas, cenas marítimas, caçadas, viagens. Em algumas aparecem
camponeses e pessoas do povo, mas em todas predomina um olhar aristocrático.
Há fortificações, castelos e mansões nos que transitam damas e cavalheiros conversando
e passeando em amplos jardins ornados com fontes e estátuas.
Até nos guarda-corpos – tanto dentro quanto fora – há frisos de azulejos com cenas de
temática similar.
86 Para uma análise dessas alegorias, ver Pedro Moacir Maia: “Os cinco sentidos, os trabalhos dos meses e as partes do
mundo em painéis de azulejos no Convento de São Francisco, em Salvador, Bahia”. Brasília: Senado Federal, 1990.
227

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não há, quase, utilização de azulejos nas fachadas. Apenas as coberturas das torres
foram, em alguns casos (Cairu, Ipojuca, Recife, São Francisco do Conde), cobertas com
azulejos ou cacos de louça, fosse para dar brilho ou para protegê-las da intempérie.
Salvador é uma exceção. Ambas as torres estão totalmente recobertas de azulejos
nacarados, brancos e azuis colocados no guardianato de Frei José de São Sebastião
(1805-1808). Antes, em 1783, a torre de João Pessoa foi artisticamente decorada com
azulejos de cores contrastantes.
Surpreende um pouco a escassa utilização nas fachadas, sendo que esse recurso era
muito comum na arquitetura residencial brasileira. Não parece que fosse costume
portuguesa. Esse uso, como proteção contra o sol e a umidade, foi desenvolvido no
Brasil e depois adotado em Portugal. A maioria dos imóveis portugueses que hoje os
apresentam são do século XIX ou final do XVIII, o que pode explicar a escassa
utilização nos conventos franciscanos, cujos recursos já começavam a diminuir.
Ainda em João Pessoa, a ocorrência de azulejos historiados no adro da igreja é a única
entre os exemplos aqui analisados: São os seis painéis com Passos da Paixão (ver o
entorno na página 15), atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes.
A série completa é a seguinte:
228

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por força da sua localização, além dos agentes naturais, esses azulejos estão muito
expostos ao vandalismo. Seria recomendável substituí-los por réplicas e, devidamente
restaurados, expô-los numa área mais reservada do Centro Cultural São Francisco.

229

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para terminar este capítulo, é preciso mencionar
alguns acervos já parcialmente perdidos, sendo o
mais grave o dos ex-votos do Hospício da Boa
Viagem, em Salvador.
Dentre as diversas edificações franciscanas do
Nordeste, essa igreja é a única cuja fachada está
totalmente coberta de azulejos, lamentavelmente
muito danificados. Porém, a principal riqueza
está no interior.
No início do século XX, todos os azulejos da nave foram sacrificados ao retirar as
paredes laterais. Visava-se aumentar a capacidade da igreja incorporando os corredores,
ficando a nave central sustentada por colunas.
Ladeando a capela mor, conservam-se os únicos ex-votos que restaram. Cada um deles
inclui uma cartela com a explicação detalhada do milagre:

“M. q~ fes N. S.ra da boa Viage~ a Bernardo da Costa. Vindo das ilhas p.a Lix.a lhe sahiraõ
quatro Naus de mouros e pegandose com m.ta fé com a dita S.ra socedeu leuantar-se hum
grande temporal que logo desaparecerã no anno de 1725”.
“M. q~ fes N. S.ra da boa Viage~ a Antonio Dias. Vindo do Maranhaõ topou com duas naus
de mouros com q.m pelejou 5 horas e por entercesaõ da S.ra naõ perigou nimguem no anno
de 1726”.
“M. q~ fes N. S.ra da boa Viage~ a Antonio Roiz. Vindo na frota do brazil p.a Lix.a socedeu
cahir o mar e botandocelhe uma taboa foy a mesma S.ra servida livralo de todo o perigo e
lhe deo m.tas graças no anno de 1731”.
“M. q~ fes N. S.ra da boa Viage~ a hum seo deuoto. Vindo do Rio de Janeyro p.a
Pernambuco deu a Não de noite sobre os abrolhos paçando's sem perigo no anno de 1737”.

230

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A originalidade e o movimento destes painéis são surpreendentes. Frente à iconografia
bíblica e hagiográfica – já consolidada havia séculos – estes milagres são individuais e
muito próximos no tempo e no espaço. Não há estereótipos visíveis, exceto a
representação da santa que, obviamente, devia responder aos atributos já consagrados.
Pode-se argumentar que não é rara a existência de exvotos relativos aos perigos das viagens, batalhas
navais e naufrágios. Porém, dificilmente poderiam
consolidar iconografias suficientes para embasar uma
obra deste porte. A maioria deles – como no exemplo
à direita – são peças de pequenas dimensões, obras
precárias de pintores ingênuos, mais importantes por
sua significação religiosa do que pelo valor artístico.
Contrariamente, os azulejos da Boa Viagem são obra evidente de um pintor de excelente
qualidade. Fora a destreza do traço e da iluminação, observe-se a exatidão com que os
navios foram reproduzidos, o detalhamento das cordas, das velas, dos marinheiros
subindo, dos canhões, dos lampiões no castelo de popa, da meia-lua e o brasão
indicando, claramente, a que bando pertence cada embarcação.

Porém, o que mais surpreende é o movimento. Ele está sugerido na inclinação dos
navios, nas ondas que batem contra as rochas, na fumaça dos canhões, nas diminutas
figurinhas que puxam dos cabos e sobem o mastro, na agressiva atitude do leão de proa.
Uma característica dos azulejos historiados é a teatralidade. Mais do que imitar a
realidade, personagens e cenários parecem congelados na boca de um teatro. Já estes
painéis mostram paisagens abertas, cheias de movimento. Mais do que instantâneas de
uma peça, parecem fotogramas de um filme.
Em cima – único ponto das quatro cenas que se apresenta aprumado e calmo – surge a
figura salvadora de Nossa Senhora da Boa Viagem.
231

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outra igreja que sofreu uma drástica reforma é a de
Igarassu, cuja capela lateral – que pertenceu à Ordem
Terceira – foi completamente eliminada.
Tinha-se acesso às dependências da Ordem pela porta
lateral esquerda da galilé, simetricamente oposta á da
portaria do convento.
Como era comum, na maioria dos conventos, a capela
dos terceiros entroncava com a nave da igreja através
de um arco lateral, cuja marca ainda se percebe na
parede exterior, do lado do evangelho.
Essa capela foi totalmente desmantelada. Qual terá sido
o destino das imagens, dos retábulos, dos móveis, das
pinturas? Será que foram cedidos a algum outro
templo, a algum museu, a colecionistas privados? Ou
foram totalmente destruídos?
232

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Todas as paredes da nave – inclusive aquela onde se abria o arco para a capela da Ordem
Terceira – estão cobertas de azulejos (páginas 197 e 198). Observa-se, entretanto, que os
cinco painéis que recobrem essa área são mais estreitos que os restantes e – embora
acompanhem a mesma temática – diferenciam-se pelo tratamento das barras, de um
barroco mais próximo do rococó.
Sabe-se, por fotografias da época da reforma, que esses painéis ficavam na capela mor.
Tratar-se-ia de uma encomenda ligeiramente posterior, continuando nela o ciclo
antoniano já iniciado na nave. Embora se partisse dos mesmos modelos, os movimentos
estéticos da década de 40 do século XVIII teriam influenciado as diferenças estilísticas.
Resta fazer uma ressalva sobre o número dos
painéis. Na foto à direita87, registrando o lado
da epístola, notam-se claramente as marcas de
três painéis.
Assumindo que a decoração fosse simétrica,
podemos imaginar que no lado do evangelho
existissem mais três. Entretanto, hoje, na nave,
há apenas cinco. Isso parece indicar que, ao
fazer-se o remanejamento, ao menos um dois
painéis foi sacrificado.
A explicação pode encontrar-se no espaço a ser preenchido. A menos que se eliminasse a
porta lateral, na largura do arco bloqueado cabiam apenas cinco painéis. Levando em
conta que esse remanejamento foi feito no intuito de restaurar a estética da igreja e não
de proteger seu patrimônio histórico, é até compreensível – porém, verdadeiramente
lamentável – que esse painel tenha sido desprezado.

87 Cortesia de Jorge Paes Barrêtto, do Museu de Igarassu.
233

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Cercas, Fontes e Banhos

Originariamente, cada convento possuía uma grande área de terreno. Não era um luxo.
Era uma questão de sobrevivência. Nessa área obtinha-se água potável, plantava-se,
criava-se animais para alimentação, lavoura e transporte, etc. Embora imprecisa por falta
de informações detalhadas, a comparação entre as áreas original e atual dá uma ideia do
quanto é reduzida a noção que hoje temos desses conventos.
Palavras de Jaboatão sobre Recife: “Da terra para o sitio, que foraõ cincoenta e seis
braças de testada, começando na ponta da Ilha, que chamavaõ dos Navios, e he a
mesma, em que está o Convento, com toda a largura de praya a praya, fez a data
Marcos André em quatorze de Dezembro deste mesmo anno de 1606”88. Mais adiante,
esclarece: “Para se acrescentar a cerca para a parte da Barreta se comprarão depois a
Manoel Francisco, e Izabel Gomes sua mulher, por escriptura de 19 de Dezembro de
1627, trinta braças de terra, por preço de noventa mil reis, a qual terra ja antes desta
compra com beneplácito de seos possuidores, estava incluza na mesma cerca, por naõ
ser suficiente para ella a da primeyra data; e o que entaõ pareceo naõ bastar em boa
consideração, se veyo alargar depois para as obras dos Irmaõs Terceyros”.
Delimitado com base nessa descrição, o convento de Recife era possuidor de toda a área
demarcada em vermelho, incluindo o Palácio do Campo das Princesas, a Praça da
República, o Palácio da Justiça, o Teatro Santa Isabel e o Liceu de Artes e Ofícios.
Porém, essa posse não iria durar muito. Em 1630, Pernambuco foi invadido e o
convento, transformado em forte. Na área da cerca, até a ponta da ilha, Maurício de
Nassau iria construir a sua residência: o Palácio de Friburgo, concluído em 1642.
88 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.
234

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Expulsos os holandeses, os franciscanos recuperaram o convento e – como já foi dito –
podem ter aproveitado parte dos azulejos do palácio. Porém, não parece que tenham
retomado toda a área original e, aos poucos, foram perdendo o que lhes restava. Hoje
ocupam, apenas, o setor destacado em amarelo, apertadamente restrito aos edifícios
principais.
Salvador, na imagem da direita89, também é exemplo de uma drástica redução. Segundo
informações de Jaboatão, a área de propriedade do convento chegava até o muro do
Desterro. Não sei, ao certo, se continuava, na linha do muro, abraçando o terreno
atualmente ocupado pela Matriz de Santana, ou se apenas beirava o barranco que
antigamente limitava o adro dessa igreja90.
Também essa posse não foi pacífica. Em 1624, invadida a Bahia pelos holandeses, o
convento foi transformado em quartel dos invasores e o riacho que cortava a área foi
interceptado com três barragens para formar um grande dique, a maneira de fosso, para
defesa contra os portugueses que tentavam retomar a cidade.
A estratégia não foi bem sucedida. As muralhas, improvisadas com barro, desabavam
com a chuva. O lago artificial se encheu de serpentes e jacarés. Mesmo assim, o dique
ficou. A cidade foi retomada em menos de um ano, mas as hostilidades continuaram e, já
em mãos dos portugueses, foi mantido como defesa até o fim da guerra.
Só em 1654, finda a guerra e desmanchadas as barragens, puderam os franciscanos
retornar sua propriedade aos limites originais e construíram fonte e aqueduto, trazendo
água potável dos confins do Desterro. Porém, os problemas não tinham acabado. Por trás
da Câmara, à beira desse riacho, ficava o abatedouro da cidade e nele, sem o menor
cuidado, eram jogados os restos do abate que as águas se incumbiam de levar embora,
não sem antes arrastá-los pelas terras do convento. Dali veio o nome de “Rio das
Tripas”. Não admira que os franciscanos reclamassem da incômoda vizinhança.
Em meados do século XIX, a cidade tinha crescido e o trânsito era precário. O riacho foi
entubado e, sobre ele, construída a chamada “Rua da Vala”, unindo o centro da cidade à
península de Itapagipe. Era a primeira “avenida de vale”. Com a abertura dessa rua,
hoje conhecida como “J. J. Seabra” ou, mais popularmente, “Baixa dos Sapateiros”, o
convento perdeu, definitivamente, o direito a essas terras.
Não tenho informações precisas sobre a área original dos demais conventos. Porém –
também aproveitando as fotografias de satélite capturadas no Google – tentarei
demonstrar, visualmente a situação atual.
Na próxima página há imagens de Igarassu, Ipojuca, João Pessoa, Marechal Deodoro,
Olinda e Paraguaçu. Não me foi possível obter fotos de Cairu, Penedo, São Francisco do
Conde e Sirinhaém por causa do excesso de nuvens nas imagens dessas localidades.
89 Ambas as fotos foram reproduzidas do Google Maps.
90 Não existia, ainda, a Ladeira de Santana, que foi formada no século XIX com terra retirada do Campo da Pólvora.
235

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Embora bastante reduzida, nota-se ainda a densa mancha verde que rodeia os conventos.
Nessas áreas, localizavam-se currais de bois, cavalos e porcos, plantações, fontes e
outros recursos necessários à sobrevivência do convento. Hoje, não apenas pela redução
do espaço como pela maior dependência da vida urbana e pelo menor número de frades
– ou até pela desaparição dos mesmos, nos conventos que foram desativados como tais –
essas áreas contém apenas árvores frutais e algum galinheiro. Mesmo assim, as áreas
que ainda subsistem são protegidas por seu valor histórico e ambiental.
236

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Dentre as obras ainda conservadas, é de especial interesse o aqueduto de Paraguaçu. As
águas, captadas de um minadouro, fora do povoado, eram canalizadas até um poço, nos
fundos do convento, em volta do qual há uma área murada de forma quadrangular91.
O muro é baixo, aparentemente dimensionado para sentar,
interrompido a intervalos por partes mais altas, provavelmente
destinadas a apoiar objetos. Num de seus lados, uma bancada com
orifícios circulares parece ter hospedado recipientes de cerâmica,
como se observa na foto à direita, numa tentativa de restauração feita
pelo IPHAN. No fundo, à esquerda, um muro de maior altura, com
dois orifícios circulares, pode ser melhor visualizado na foto abaixo,
também documentada durante os trabalhos do IPHAN92.
Presumo que esse recinto fosse uma casa de banhos,
também utilizada para o lavado de roupas e outros objetos
de uso dos frades. A água contida no poço podia ser extraída
com baldes, usando o recinto murado, em volta dele, como
uma grande banheira coletiva, os recipientes de cerâmica,
como bacias de lavar e o muro do fundo, como suporte de
tanques para lavar objetos de maiores dimensões.
Na borda posterior começa o aqueduto sobre arcos. Pelas dimensões do poço e a altura
dos arcos, não me parece haver espaço suficiente para a rotação de uma nora.
Provavelmente a água fosse extraída com baldes e despejada manualmente no canal do
aqueduto.
Esse canal é côncavo e – excetuando o trecho inicial, onde a água do poço era despejada
– corre coberto com telhas, formando um tubo perfeitamente fechado que desce, em
suave pendente, até a cozinha do convento.
91 A curvatura que se observa na foto é decorrente da montagem fotográfica.
92 Fotos cedidas pelo arquiteto Francisco Santana.
237

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na planta à direita – detalhe da existente na
página 11793 - observa-se o percurso da água,
partindo do poço (17), circulando pelo aqueduto
(18), contornando a casa do forno (15) até
despejar no tanque da cozinha (19).
Esse contorno fazia com que a água chegasse
ao tanque aquecida, facilitando a lavagem dos
utensílios gordurosos. Do lado externo, uma
vala escoava as águas servidas (16).
Um segundo poço, aparentemente destinado ao abastecimento das embarcações, ficava à
beira-mar, do lado norte do convento. Ignoro se era abastecido a partir da mesma origem
ou se era resultante de uma canalização separada.
93 Planta elaborada pelo arquiteto Francisco Santana (IPHAN).
238

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Embora não tenha informações seguras, não posso omitir, neste trabalho, uma afirmação
que o arquiteto Francisco Santana – técnico do IPHAN – afirma ter ouvido da boca de
Diógenes Rebouças, também arquiteto e grande pesquisador desse período. Dizia ele –
não sei com base em que informações – que o chafariz existente na Academia de Letras
da Bahia – anteriormente residência de Francisco Marques de Góes Calmon, governador
do estado da Bahia e grande colecionador de objetos do período colonial – foi retirado
do convento do Paraguaçu.

Salvando as diferenças estilísticas, esse chafariz assemelha-se, funcionalmente, ao que
ainda existe no convento de João Pessoa. Ambos têm ornamentação esculpida com
volutas barrocas, ambos têm nichos centrais para colocação de imagens, ambos dão
vazão á água através de bocas de animais (leão e golfinho) e, sobretudo, ambos foram
desenvolvidos para localizar-se em áreas externas, podendo até mesmo partilhar-se com
a comunidade. De fato, parece que esses chafarizes serviam também ao público externo,
complementando o abastecimento de água da cidade.

239

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não encontrei inscrições na fonte da Academia de Letras. Já na de João Pessoa, há
cartelas com os seguintes textos94:
Original em latim

Tradução

POSTERITATI
Quod cernis, lector,
quaeris quo munere factum?
Amor fraternus
egit hoc opus
Sumptibus
1717

À POSTERIDADE
O que tu aprecias, ó leitor,
indagas com que trabalho foi feito?
O amor fraterno
construiu esta obra
com muito custo
1717

Fontes
Dicite
Hymnum Domino

Ó Fontes
dizei
um hino ao Senhor

S. Antoni
ora pronobis

Santo Antônio
orai por nós

Restos de uma fonte similar encontram-se no
convento de Olinda. Porém, está construída em
tijolos e muito danificada pela ação do tempo e as
reformas efetuadas em diversas épocas.
O receptáculo da água foi substituído por quatro
bacias quadradas, em linha, separadas por muros
que delimitavam banheiros banheiros individuais,
dos quais apenas um se mantém de pé.
Da fonte original só resta o muro, com nicho para imagem
ladeado por volutas e pináculos. Esses detalhes, elaborados
em estuque, também sofreram os danos do tempo e da
intempérie, tendo o pináculo esquerdo e boa parte da voluta
desaparecido por completo. Em baixo, um entablamento
com pilastras simuladas completava o retábulo, cercando o
arco de descarga que protege a tubulação.
Da fonte de Salvador, destruída – como já indicado – por ocasião da abertura da Baixa
dos Sapateiros –, só restou a descrição de Jaboatão: “Está a casa desta fonte sustentada
pela parte da fronteyra, que olha para o convento, e responde a capellinha de S.
Francisco95, sobre duas columnas de pedra inteiriça de bastante altura com suas bazes,
e capiteis correspondentes, e pela parte de trás, ou do muro em hum paredão de pedra,
94 Transcritos por Glauce Burity. Traduzidos por Afonso Pereira da Silva.
Em Glauce Burity: "A Presença dos Franciscanos na Paraíba, através do Convento de Santo Antônio".
95 Refere-se a uma capelinha que existia dentro da cerca, também desaparecida na abertura da Baixa dos Sapateiros.
240

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

e cal. No baixo, e meyo deste vem entrar hum cano de tijollo, e abobeda pelo qual corre
a agoa por mais de sincoenta passos, começando este ja bem pegado ao muro, a par do
qual vay a estrada, ou Rua pela frontaria da nova Igreja de S. Anna e Matriz do
Sacramento para o Desterro. […] Dentro da casa da fonte desagoa em bastante
quantidade, e sempre sem accrescimo ou diminuiçaõ, por hum cano de bronze embutido
em pedra com suas carrancas, e molduras lavradas a modo de lavatório, e cahe dentro
de huã pia taõbem de pedra, e desta corre para fora a incorporar-se com as do Brejo.
Tem a caza seus poyais de tijolo, e azulejo donde se assentavaõ os Religiozos, quando
alli hião, ainda que hoje ja o naõ podem fazer, por naõ ter a agoa sahida bastante para
fôra. […] No meyo, e alto da parede, sobre o lavatório por donde sahe o cano de bronze
tem nicho de pedra lavrada, e nelle collocada huã Imagem taõbem de pedra do nosso
gloriozo Santo António”.
Notam-se, nesta descrição, a recorrência da bacia de pedra, das molduras lavradas, do
nicho – aqui dedicado a Santo Antônio – e das figuras animais – aqui chamadas de
carrancas –. Também parece evidente a semelhança dos “poyais de tijolo, e azulejo
donde se assentavaõ os Religiozos”, com o muro retangular que rodeia o poço de
Paraguaçu.
Apenas João Pessoa conserva a sua fonte em atividade e na sua localização original,
fixada a um longo muro de arrimo na parte inferior da ladeira. Depois de cair na bacia,
as água escoam para um pequeno lago artificial. Não sei se esse lago é original do
convento ou se faz parte de um projeto de jardinagem desenhado em data mais recente.

Além da canalização de fontes naturais, outra alternativa de captação de água era o
recolhimento da chuva nos telhados, que costumavam confluir numa cisterna, sob o
claustro. No centro dele, ficava um poço do qual podia extrair-se água por meio de
baldes. Adicionalmente, utilizando tubulações semi-subterrâneas, a água podia ser
conduzida a casas de banho e cloacas construídas nos níveis inferiores.
241

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Olinda, uma grande cisterna foi construída sob um terraço, fora do claustro. Em
baixo dele, ainda existe a casa de banhos.

É um recinto abobadado com pé direito alto e piso rebaixado com relação ao nível da
entrada. Pela parede do fundo corre um longo banco, deixando no centro um tanque de
formato retangular. Nas paredes laterais observam-se aberturas, algumas delas cegas.

Em cima da cisterna, na esquina livre do terraço, apoiado no topo de uma pilastra
quadrangular, há um relógio de sol perfeitamente conservado. Encontrei outro similar
em João Pessoa, porém apenas o mostrador, faltando o gnômon. Em ambos os casos, as
horas estão indicadas em números arábigos.
Em nenhum dos conventos observei integração de aquedutos e cisternas com os lavabos
da sacristia e do refeitório que, em todos os casos, contavam com reservatórios
abastecidos manualmente. Parece que os esforços de canalização dirigiam-se à
satisfação de necessidades mais primárias como o aprovisionamento de água potável, o
lavado de roupas e utensílios e o escoamento das instalações sanitárias.
242

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A canalização da cisterna para os sanitários ficou evidente na restauração de Cairu, que
revelou a cloaca que circulava em baixo dos retretes.

A água recolhida no claustro abastecia uma cisterna localizada em baixo da escada
regral. Dali, aproveitando o declive do terreno, abria-se uma ampla galeria, ventilada por
várias janelas de arco, dentro da qual circulava uma vala sob os retretes, que estavam
localizados em cima, no andar térreo. Uma porta, também de arco, permitia entrar nessa
galeria e realizar a limpeza dos dejetos, a cujo efeito deixava-se circular pela vala a água
saída da cisterna que, finalmente, era desviada para fora do convento. Um orifício
retangular com tampa possibilitava o controle da água, liberada, quando necessário, para
efetuar a limpeza.
Encontrando-se o convento à beira-mar – como era o caso de Paraguaçu – essa limpeza
tornava-se mais simples. Os retretes estavam no extremo da ala norte, cuja base fica
submergida durante a maré alta. Essa câmara, provista de orifícios, era naturalmente
limpada pelas águas sem necessidade de intervenção humana.
243

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tanto na vista exterior quanto na interior percebe-se, pelo depósito de lama cinza, o
nível habitualmente atingido pela maré alta. Nos orifícios retangulares, inseriam-se os
barrotes que sustentavam o piso do andar térreo, onde se abriam os retretes despejando
para essa fossa, naturalmente higienizada pelas marés.
Também os rios, quando existentes, eram bastante aproveitados. Permita-se-me, como
conclusão, citar alguns trechos de Jaboatão.
A propósito de Igarassu:
“Além de huã porta que tem o muro pela parte fronteira á rua, que atravessa pelo
frontispicio da igreja, pela qual entraõ os carros, e bestas, que conduzem as esmollas
dos arrebaldes, tem outra no fim da quadra do muro, que desce para o rio pela parte do
nascente, a qual dá entrada ás lenhas, que se manda a cortar dos mangues para o gasto
da cozinha. Junto a esta no principio da outra quadra do muro, que pela bayxa do
Convento corre sobre a margem do rio está huã caza de pedra, e cal, que ao principio
servia de lavatorio e hoje de recolher o sal, que se tira de esmolla para o Convento na
Ilha de Tamaracá, com huã porta, que responde ao Convento, e outra para o rio, com
alpendre cuberto sobre a margem deste, poyaes de assento, e no meyo huã escada com
degraos de pedra lavrada, pela qual se desce, e entra para a agoa; e aqui vaõ taõbem
os Religíozos, quando lhes he necessário tomar seos banhos, porque o rio he para isso
excellente de maré vazia, ficando em agoa doce, clara, e corrente, de arêa limpa, e
pouco fundo, sem que sejam os que nelle entraõ vistos dos moradores da villa”.
A propósito de Ipojuca:
“Da bayxa do Convento caminho do poente, a pouca distancia, corre o rio com o
mesmo nome da Povoação, e de largura de vinte braças com pouca differença. As suas
agoas saõ approvadas pelos médicos conforme as experiências, que dellas tem feito,
pelas mais salutiferas dos banhos em varias enfermidades. Correm por arêas claras,
244

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

ainda que em partes com poços fundos, em as mais se entra por ellas athe os joelhos, e
cinta, conforme querem os que alli os vaõ tomar, ou por remédio, ou divertimento. [...]
Nesta mesma bayxa da parte do interior do muro no principio do alto, que começa a
subir para o Convento está a caza do poço, que dá a agoa para a serventia commua, e
ao lado deste pela parte de cima corre por huã levada, que se abrio, outra agoa
encaminhada e trazida da parte de fora de huã pouca, que nasce ao pé do monte da
Povoação da mesma parte do Poente, com a qual se rega a horta junto ao poço na
mesma bayxa. A que se há de beber se vai buscar ao rio”96.

96 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.
245

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Mosteiros

“Assim como em o Céo da Religião dos Menores, e na sua primeyra ordem foi António
aquelle luminozo Astro, ou luzido Sol, a quem depois seguirão tantos, e taõ
resplandecentes Planetas; taõbem no mesmo Céo desta Religião, e na sua segunda
ordem foi a glorioza Santa Clara outra nova constellaçaõ, taõ Clara, como ella mesmo,
e taõ luzente, como Clara, a quem seguirão no Céo das Virgens Seraficas, como a seo
Planeta Superior, tantas, e taõ luminozas Estrellas, e filhas suas. E pois neste nosso
novo, e Seráfico Orbe do Brazil temos visto os Planetas da primeira Ordem, que
seguirão o Sol de António, he justo vejamos taõbem as Estrellas, que na segunda
seguirão a sua Santa Madre Clara, como a celeste Astro maior deste segundo Céo das
Virgens”97.
A despeito da simetria entre planetas e estrelas que o texto de Jaboatão sugere, as
histórias da primeira e da segunda ordem franciscanas são bastante diferentes. Francisco
iniciou a sua ordem inscrevendo-se na linha dos pregadores mendicantes. Isto é, voltado
para a evangelização do público externo. Porém, quando, em 1215, Clara expressou a
sua vontade de acompanhá-lo, Francisco orientou-a a seguir a Regra de São Bento, ou
seja, uma vida monástica, em comunidades fechadas98. É por essa razão que prefiro dar a
este capítulo o título de “mosteiros” e não “conventos”, como o Desterro e a Lapa
costumam ser denominados.
97 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.
98 Regras específicas para as clarissas foram emitidas em 1219 (Forma de Vida do Cardeal Hugolino de Segni), 1247
(Forma de Vida de Inocêncio IV), 1253 (Regra de Santa Clara), 1259 (Regra de Isabel de França) e 1263 (Regra de
Urbano IV). Esta última predominou até o século XX, em que houve a tendência de voltar para a Regra de Santa Clara.
246

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outra diferença – esta última, específica das colônias portuguesas – é a relação desses
estabelecimentos com a Coroa. Enquanto os conventos masculinos, franciscanos ou não,
eram protegidos e estimulados, a Coroa resistia duramente à fundação de mosteiros.
Essa situação é patente desde a primeira solicitação para a instalação das clarissas em
Salvador. Diz a carta do Rei: “sobre a pretençaõ, que a mesma Cidade tinha para lhe
haver de conceder licença de se poder erigir nella hum Mosteiro de Religiozas: naõ fui
servido deferir a este requerimento por alguãs razões e difficuldades, que se
considerarão, e me foraõ prezentes”99.
Não é difícil imaginar as “razões e difficuldades” que se consideraram. Desde os inícios
da colonização, a carência de mulheres brancas era um serio problema. Em 1550, o
primeiro Ouvidor Geral denunciava que muitos dos moradores estavam “amancebados
com hum par ao menos cada hum de gentias”100 e o jesuíta Manoel da Nóbrega afirmava
“Nesta terra há um grande peccado, que é terem os homens quasi todos suas negras por
mancebas […] segundo o costume da terra, que é terem muitas mulheres”.
Denunciava, ainda, Nóbrega, que, admoestados os colonos “huns se casão com alguãs
mulheres, se as achão, outros com as mesmas negras, e outros pedem tempo para
venderem as negras e se casarem”. Sugeria, como solução, que fossem enviadas
mulheres de Portugal “ainda que fossem erradas […] contanto que não sejam taes que
de todo tenham perdido a vergonha”101.
O problema não era apenas de moral. Na mesma época, o Provedor-Mor informava que
a cidade do Salvador estava “muy vazia asy de casas como de jente”, ponderando que
“aproveita mais hum homem casado que dez solteiros, porque os solteiros não percurão
senão como se am dir e os casados como am de enobrecer a terra e sostenta la”102.
A solução adotada pela Coroa foi enviar para o Brasil as mulheres condenadas ao
degredo, bem como as órfãs que não tinham quem por elas zelasse em Portugal, e –
obviamente – restringir toda e qualquer ação que desviasse as solteiras, já residentes no
Brasil, do necessário caminho do matrimônio.
Assim, todas as solicitações para estabelecer mosteiros femininos no Brasil foram
indeferidas até que, em 1665, a insistência dos moradores conseguiu dobrar a resistência
da Coroa. Porém, esse deferimento evidenciava mais uma das “razões e difficuldades”.
Depois de uma longa enumeração de motivos, finalmente se concedia licença “aos
Officiaes da Câmara da ditta Cidade do Salvador, e aos Moradores della para que na
mesma Cidade possaõ fundar á sua custa hum Mosteiro de Religiozas”103.
99 Carta de D. Joaõ IV à Câmara da Cidade do Salvador, 13/07/1646 (em Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”).
100Carta de Pero Borges, Ouvidor Geral do Brasil, ao rei D. João III, em 07/02/1550.
101Carta de Nóbrega ao Padre Mestre Simão Rodrigues de Azevedo, em 09/08/1549.
102Carta de Antônio Cardoso de Barros, Provedor-Mor do Brasil, ao rei D. João III, em 30/04/1552.
103Provisão real, assinada por D. Pedro II de Portugal, em 06/07/1665. O grifo é meu.
247

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Desde os princípios da conquista, a Coroa auspiciou de boa vontade o estabelecimento
das ordens religiosas. Jesuítas, franciscanos e carmelitas foram bem-vindos como
vanguardas da colonização, não apenas estendendo, pela persuasão, a influência
portuguesa aos pontos que não se conseguira atingir pela força das armas como,
também, ajudando a controlar os díscolos moradores portugueses.
Não se esperava obter a mesma utilidade na fundação de mosteiros femininos, que se
caracterizavam pela reclusão e pelo quase absoluto isolamento do mundo externo.
Nessas condições, pouco ou nada podiam oferecer para a administração e expansão do
Reino, constituindo, para a Coroa, um ônus relativamente improdutivo. Essa falta de
interesse fica evidente ao expressar o rei que a Câmara e os moradores deveriam fundar
o mosteiro “á sua custa”.

Para instalar o novo mosteiro, foi concedida licença “aos officiaes da Câmara, Nobreza,
e Povo da Cidade do Salvador”, para utilizar como sede a ermida do Desterro104 –
provavelmente, coincidente com a atual capela mor – “por ser o lugar mais decente e
accommodado, que ha em toda aquella Cidade para vivenda, e clausura das
Religiozas”105. Mesmo assim, durante vários anos, o local foi disputado com carmelitas e
agostinhos até, finalmente, ser ocupado, em 1677, por um grupo de quatro clarissas
urbanas, deslocado do mosteiro de Santa Clara de Évora e especialmente comissionado
para fundar o mosteiro em Salvador.
104Logo que inundada pelos holandeses, a vala ocupada pela atual Baixa dos Sapateiros foi infestada de sucuris, que
permaneceram após a reconquista, enquanto o dique foi conservado. Um homem, atacado por uma delas, encomendouse a Nossa Senhora do Desterro, comprometendo-se, em troca de sua vida, a construir essa capela no local do milagre.
105Provisão real, assinada por D. Pedro II de Portugal, em 07/02/1665.
248

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

À semelhança do mosteiro de Évora, Santa Clara do Desterro conta com dois claustros.
Porém, à diferença daquele, onde o segundo claustro é bem menor que o primeiro,
ambos os claustros do Desterro são praticamente equivalentes, conforme pode observarse na planta da página anterior106.
Não me é possível confirmar se essa duplicidade é ou não decorrente de orientação das
fundadoras, que teriam tomado como modelo o próprio estabelecimento de origem. A
construção levou muito tempo. Segundo o tombamento do IPAC, em 1718 ainda faltava
completar a última quadra para fechar a clausura do claustro inicial. Em 1795 existia
apenas a ala esquerda do segundo, faltando as três restantes para completar a planta
atual. Entretanto, a centralidade da torre permite inferir que – ao menos, em 1720 – já
existisse um projeto global contemplando ambos os claustros.

Essa duplicidade tinha um sentido. Em torno do primeiro claustro agrupavam-se a
portaria, a igreja, o de profundis, a sala capitular e os dormitórios das freiras. Em torno
ao segundo estavam os dormitórios das noviças, bem como diversas áreas de serviços.
Cada claustro contava com uma capela interna, independentes entre si.
Por esses tempos, a demanda de vagas já superava a capacidade do Desterro e foi
autorizada a fundação de um segundo convento. Como na vez anterior, um grupo de
freiras foi deslocado – agora, do Desterro – para fundar o novo convento, de Nossa
Senhora da Conceição da Lapa. Não encontrei nele dois claustros mas sim, diversos
indícios de que houve a intenção de construí-los.
À semelhança do Desterro, o convento da Lapa estende-se em forma longitudinal, com a
igreja inserida num dos seus lados. Porém, o claustro correspondente a ela não se
completa. Apenas o segundo – neste caso, o primeiro, porque não há outro – foi
totalmente construído. Entretanto, sob o corredor que beira a igreja há uma arcada cega
e o corredor que deveria separar ambos os claustros parece estar inconcluso.
106 Reproduzida do Guia de Bens Tombados do IPAC-BA.
249

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

250

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na página anterior, acrescentei à planta de tombamento do IPAC algumas observações
visando demonstrar os indícios da existência do segundo claustro. Sob a letra A, nota-se
um trecho de parede e nele, uma janela conversadeira ao nível do andar térreo. Levando
em conta que, nesse ponto, o nível do terreno vai descendo, a utilização dessa janela
seria inverossímil sem um piso que lhe desse sustentação.
Ainda, na primeira foto, nota-se um arco cego, no nível do andar superior (B). Na
segunda, além do arco cego, nota-se que o telhado se interrompe abruptamente. É outra
indicação de que essa ala foi projetada para ser continuada. Caso contrário, as águas do
telhado teriam um direcionamento diferente, conforme pode observar-se nos demais
extremos, na imagem de satélite107.
A quarta fotografia mostra o corredor lateral da igreja (C) correndo por baixo da galeria
de arcos cegos que deveria formar parte do segundo claustro. A torre (D) – aqui, mais
vinculada com a igreja – não fica exatamente no centro, como no Desterro, mas ainda
conserva uma posição relativamente equilibrada com relação aos claustros. Na planta, o
setor destacado em azul representa, estimativamente, a área da construção que não
chegou a ser concretizada.

O que encontramos, hoje, na entrada de ambos os conventos108, não respeita
rigorosamente a Regra, mas a sua influência é evidente. À diferença dos conventos
masculinos, onde a portaria oferece acomodação interna para a presença dos visitantes,
tanto na Lapa quanto no Desterro encontramos um vestíbulo aberto, precedido de três
arcos e, só depois, a portaria propriamente dita. O vestíbulo tem bancos, para a espera
dos visitantes, pequenas janelas com grades, através das quais podiam ser feitos
atendimentos mais simples, e rodas com diversos compartimentos para passagem de
objetos. No centro, maciçamente protegida, a entrada principal que, unicamente após
uma rigorosa triagem, poderia – apenas em casos excepcionais – dar acesso ao convento.
107 Foto Google Maps.
108 A foto corresponde ao Desterro, cujo vestíbulo está melhor conservado.
251

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A portaria, propriamente dita, está solidamente contida entre duas grossas portas de
madeira. A primeira tem um sino para solicitar o atendimento, uma portinhola para
identificação preliminar dos visitantes, um grosso ferrolho e três fechaduras, com chaves
diferentes. Ainda, na segunda porta, há mais duas fechaduras, a garantir a completa
inviolabilidade do convento.

A explicação desse rigor a encontramos na Regra de Urbano IV: “Cada mosteiro tenha
uma só porta para entrar e sair da clausura em caso de necessidade, de acordo com o
que está estabelecido nesta Forma de Vida. A porta não deve ter postigo ou janela e
deve estar colocada de tal forma elevada, que seja necessário o uso de uma escada
levadiça segura por uma corrente de ferro do lado das Irmãs. A escada deve estar
levantada desde as Completas até à hora de Prima do dia seguinte, durante o tempo do
descanso da tarde e durante a visita, a não ser que uma necessidade evidente aconselhe
outra coisa. A guarda da porta deve estar confiada a uma irmã temente a Deus, madura
de costumes, diligente e discreta e de idade conveniente. Uma das chaves deve ser
cuidadosamente guardada por ela, de maneira que a porta nunca se abra sem o
conhecimento seu ou da sua substituta. A outra chave, diferente desta, deve ser
guardada pela abadessa. Escolha-se também uma outra irmã dotada das mesmas
qualidades que a porteira, para a substituir em tudo, sempre que esteja impedida por
um motivo razoável ou ocupação urgente.[..] A porta deve estar bem segura com
fechaduras e ferrolhos de ferro e nunca se deixe sem vigilância, a não ser quando está
fechada com uma chave durante o dia e com duas durante a noite. E só se abra às
pessoas indicadas, de acordo com o que ficou estipulado nesta regra acerca das
entradas na clausura”.
Em nenhum dos conventos encontrei escada levadiça, e não parece ter existido, posto
que todo o percurso de acesso encontra-se situado num único plano, mas parece evidente
– ao menos, em tese, se a regra fosse rigidamente aplicada – que ninguém (nem mesmo
a abadessa) teria o pleno controle da entrada, posto que sempre haveria a necessidade de
uma segunda chave, que ficaria em mãos de outra irmã.
252

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A grade era destinada a atendimentos rápidos; Porém, os bancos que se observa no
interior sugerem que nem sempre essa rapidez era rigorosamente observada. A roda,
principalmente destinada à passagem de mantimentos109, só podia ser usada em
condições controladas, conforme pode observar-se pela janela com chave que veda o
acesso a ela desde o interior110.
Voltando à Regra, a prescrição era a seguinte: “Para que esta porta só se abra em
situações difíceis de resolver através da grade, mandamos que em cada mosteiro se
construa uma roda numa parede exterior da clausura, em lugar conveniente, visível e
acessível da parte de fora. Deve ser de tais proporções que não possibilite a passagem
duma pessoa dum lado para outro e de tal maneira que não se possa ver de dentro para
fora nem de fora para dentro. Abra-se num dos lados um postigo com fechadura de
ferro que se deve manter bem fechado nos dias de verão durante o descanso da tarde. A
abadessa designe uma irmã prudente e de idade conveniente, zelosa da honra do
mosteiro, para assistir à roda e despachar todos os assuntos necessários. […] As outras
Irmãs só podem receber ali visitas caso o locutório esteja ocupado, ou em situações de
manifesta necessidade e sempre com autorização da abadessa, que só raramente o deve
permitir, de acordo com o que ficou acima estabelecido”.
O locutório ao que esse texto se refere está definido em outro parágrafo: “O locutório
comum deve ser construído na capela, ou ainda melhor no claustro, em lugar cômodo e
conveniente, para não perturbar a paz da oração, o que facilmente aconteceria se
estivesse na capela. Que seja de dimensões convenientes, com uma lâmina de ferro
perfurada e cravada na parede de maneira a não poder abrir-se. A lâmina deve ser
guarnecida da parte de fora com cravos de ferro salientes e um pano preto de lã, de tal
forma que ninguém possa ser visto. A não ser por um motivo razoável, necessário e
inadiável, nenhuma Irmã se dirija ao locutório desde as Completas, que se devem
recitar em hora oportuna, até Prima do dia seguinte, nem durante as refeições e
109 Também nessas rodas teriam sido abandonados recém-nascidos que as mães não queriam ou não podiam criar.
110 As fotos externas são do Desterro. As internas, da Lapa.
253

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

descanso da tarde, nem durante a celebração do Oficio Divino. Nos casos em que o
grande número de Irmãs o justifique, pode construir-se um segundo locutório”.
Na prática, o Desterro conta com duas grades, duas rodas, e pode ter contado ate com
oito locutórios, identificados interiormente com inscrições policromadas sobre as portas.

Exteriormente, cada locutório se reconhece pela porta, sobreposta de arco. Algumas
delas desapareceram pela junção de dois deles em salas maiores. Porém, os arcos
permanecem. Alguns desses locutórios ainda tem, no interior, as duas grades,
convenientemente distanciadas para que as reclusas não pudessem alcançar as mãos dos
visitantes. Não há lâmina de ferro, mas é provável que, sim, houvesse um pano preto
impedindo a visão em ambos os sentidos.

254

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Igualmente restrito era o acesso à igreja, que não podia ser transitada pelas freiras
durante as celebrações. Para isso, existiam coros protegidos por cortinas e treliças,
desde os quais podiam assistir sem serem vistas pelos fiéis111.

Esse fechamento, comum nos mosteiros portugueses, não existe no Desterro. Pensei que
pudesse ter sido removido. Porém, ele também não aparece na gravura de la Barbinais,
feita no início do século XVIII112.

Mesmo para comungarem, as freiras deviam permanecer fora da igreja. Para esse efeito,
os conventos tinham janelas, igualmente gradeadas e acortinadas, que comunicavam
diretamente com a capela mor. A prescrição da regra era a seguinte:
“Queremos também que se coloque uma grade de ferro de forma conveniente, na parede
que separa o coro da capela. Deve ser de barras de ferro unidas e espessas,
entrelaçadas e guarnecidas de cravos de ferro com ponta para o lado de fora. Em vez
111 Ambas as fotos são da igreja da Lapa.
112 Le Gentil de la Barbinais: “Nouveau voyage au tour du monde”, 1717 (detalhe).
255

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

desta grade pode colocar-se uma placa de ferro crivada de pequenos orifícios, com um
postigo de ferro que se abra no momento da comunhão, através do qual o sacerdote
possa ministrar o Sacramento do Corpo do Senhor. Esta grade deve manter-se fechada
com chave de ferro, abrindo-se só quando é proclamada às Irmãs a Palavra de Deus e
na comunhão do Corpo do Senhor, ou quando da visita duma parente próxima da Irmã,
o que deve acontecer muito raramente e sempre com autorização da abadessa. Nestes
casos, a Abadessa deve consultar a comunidade antes de dar autorização. A parte
interior da grade deve estar coberta com uma cortina de pano preto, de tal forma que
ninguém possa ser visto. Além disso deve colocar-se uma porta de madeira com
ferrolhos de ferro e chave do lado das Irmãs, que se deve conservar sempre fechada e
segura, abrindo-se durante a recitação do Ofício Divino, ou nos casos atrás
mencionados. E ninguém fale através dessa grade, a não ser em casos de urgente
necessidade e por motivo razoável, obtida prévia licença da abadessa”.

A igreja da Lapa conserva a sua janela de comunhão, ricamente decorada. Porém, a
saleta onde as freiras ficavam não mais existe. O espaço está alugado a uma instituição
de ensino. Pelo contrário, o Desterro conserva a saleta, mas a grade foi retirada. Trata-se,
de fato, de duas janelas, sendo que numa delas notam-se as marcas da grade e na outra
há uma roda, similar às da portaria.

256

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Obedecendo à Regra, existe uma porta de madeira com chave, controlando o acesso pelo
interior do convento. A saleta está decorada com azulejos e possui genuflexório com
plano superior de madeira. Ignoro a função que a roda teve nesse local113.

Ao contrário dos conventos masculinos, onde o acesso principal da igreja – aos pés e por
baixo do coro – é hierarquizado com torre, fachada, cruzeiro e adro e, abertamente,
disponibilizado ao publico externo, nos femininos é extremamente discreto, feito através
de uma porta lateral, diferenciando escassamente o templo do resto do mosteiro.
No lado oposto, uma ou mais portas – sempre fechadas durante os cultos públicos –
comunicavam o templo aos corredores do claustro. Porém, isso não ocorre na Lapa
(direita), onde o arco correspondente foi cegado e aproveitado como confessionário.
Esse arco constitui mais um indício de que existia a intenção de construir um segundo
claustro, ao lado da igreja.
Aspecto especialmente conflitivo era a presença do capelão. Sendo a função sacerdotal
prerrogativa exclusiva do sexo masculino, era necessário um homem para celebrar os
ofícios divinos, o que, de fato, constituía um risco para a clausura dos mosteiros. Esse
risco estava previsto na Regra, que limitava: “Onde houver capelão próprio para a
celebração da Missa e dos Ofícios Divinos, que este seja religioso no hábito e na vida,
de boa reputação e não demasiado jovem, mas de idade conveniente e madura”.
Mesmo considerando que o capelão fosse maduro, as entradas na clausura eram
severamente restritas: “Quando alguma precisar de ser ouvida em confissão procure o
sacerdote para ser ouvida no locutório sobre os assuntos referentes à confissão. […]
Quando uma Irmã sofrer de doença tão grave que esteja impedida de se deslocar ao
locutório e sinta urgência em se confessar ou receber o Corpo e Sangue do Senhor ou
outro sacramento, pode solicitar a presença do sacerdote encarregado de administrar
os sacramentos. Neste caso o sacerdote deve entrar de alva, estola e manípulo,
113 Fotos na página anterior.
257

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

acompanhado de dois religiosos idôneos, vestindo um deles também alva ou sobrepeliz,
ficando assim vestidos enquanto permanecerem dentro da clausura. [...] Não se separem
uns dos outros, de forma que sempre se possam ver juntos”.

Consequentemente, as áreas deviam estar claramente diferenciadas. Igreja e sacristia
eram território do capelão, que residia fora da clausura, no pátio de acesso114.
Em princípio, a Regra, aprovada em 1263, atribuía as funções sacerdotais aos “frades da
Ordem dos Menores, ou dos que tiverem a faculdade para os administrar por mandato e
autoridade do Cardeal Protetor115”. Porém, a Provisão que autorizou a criação do
Desterro116 indicava que as freiras seriam “sujeitas, e governadas pelo ordinário da
Bahya, em razaõ do prejuízo, que se segue de o serem por Religiozos”.
Esta providência – visando, certamente, evitar a potencial promiscuidade entre as ordens
masculina e feminina – acabou gerando, no Desterro, uma situação anômala:
Não contando ainda a freguesia de Santana com sede própria, a capela do Desterro
acumulava funções de matriz e igreja conventual. Em 1727, sendo o capelão do
convento já bastante idoso, o prelado resolveu encomendar a capelania ao pároco, jovem
e – a que tudo indica – sem nenhum respeito pela clausura.
O pároco/capelão assediou as freiras durante 11 anos. Chegou a passar sobre o forro da
capela mor para tentar a invasão da clausura, só não conseguindo porque foi percebido
pelas freiras. O escândalo envolveu o Cabido e a Relação Eclesiástica, dividiu o
convento em duas facções, forçou a transferência emergencial da paróquia para a Igreja
da Saúde e constituiu-se em motivação essencial para a construção da Matriz do
Santíssimo Sacramento e Sant'Ana, inaugurada em 1752117.
114 À esquerda, a casa do capelão do Desterro. Direita, a da Lapa.
115 Que, pela mesma regra, era também “Governador, Protetor e Corretor da Ordem dos Frades Menores”.
116 Provisão real, assinada por D. Pedro II de Portugal, em 06/07/1665.
117 A crise do Desterro está relatada em Anna Amélia Vieira Nascimento: “Patriarcado e Religião: As enclausuradas
clarissas do Convento do Desterro na Bahia 1677-1890”. Conselho Estadual de Cultura da Bahia, 1994.
258

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Havida conta que não se entrava pelo subcoro, cada igreja podia possuir dois coros (alto
e baixo), sendo que o superior era reservado às freiras. O coro inferior, podia,
ocasionalmente, ser ocupado por visitantes.

Nos coros do Desterro, destaca-se a pintura do teto em caixotões, provavelmente do
início do século XVIII. O superior ainda conserva o cadeiral. No inferior, foram
remontados painéis de azulejos, encontrados num depósito do convento, cuja localização
original se desconhece. Outros painéis foram remontados na capela das noviças,
localizada no segundo claustro do convento.
O teto do coro baixo é plano. Os caixotões têm molduras quadradas em branco e ouro,
intercaladas com florões em relevo, também em talha dourada. Dentre os diversos
forros, é o que apresenta o padrão mais antigo.
259

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

260

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O forro do coro superior, também formado por caixotões quadrados, é gamelado,
preenchendo as quinas com formas triangulares em branco e dourado.

Os azulejos remontados no coro baixo foram
encontrados em barricas, nos porões do
convento. Estão bastante danificados e, em
alguns casos, incompletos. Não se conhece a
sua localização original.
Estilisticamente, são os mais antigos. Apesar
dos motivos arquitetônicos barrocos, ainda
apresentam barras retas.
Os painéis remontados nesta área constituem
um ciclo integrado por personagens alegóricos
exibindo atributos da Paixão de Cristo. Na
imagem ao lado, a coluna da flagelação.

261

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O coro alto (foto na página 259) tem janelas no fundo e no lado
direito. No esquerdo, não era possível porque dá ao interior do
convento. Porém, em prol da simetria, janelas fictícias foram
pintadas na parede (detalhe ao lado).
O efeito não convence. Porém, devia parecer bastante mais
verossímil com suas cores originais, hoje ofuscadas pela
fuligem e a ação do tempo. Além disso, é possível que,
antigamente, as janelas reais fossem protegidas por cortinas, o
que evitaria o forte contraste que hoje as diferencia das pintadas.
262

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Bastante mais convincente, embora igualmente fictícia, é a sucessão de tribunas que beira ambos
os lados da nave. Neste caso, apenas a grade envidraçada das janelas está pintada na parede.
Molduras, sanefas, e guarda-corpos são reais.
No lado contrário, também a grade envidraçada é real, mas as tribunas ainda são fictícias.
Ninguém pode assomar-se às janelas do lado do convento, porque estão pintadas na parede, nem
às do lado contrário, porque dão diretamente ao exterior. Por trás dessas janelas não corre galeria
alguma que possibilite o acesso. Os guarda-corpos são puramente decorativos.
Este é um recurso típico do barroco, raramente encontrado no Brasil. Consiste em simular a
arquitetura que deveria estar ali mas não foi possível construir. Assim como Pozzo simulou
abóbadas e cúpulas, diversos outros elementos, tais como escadas e janelas, eram, às vezes,
substituídos por suas representações pictóricas.
Já vimos este recurso nos tetos. Porém, como foi comentado no capítulo correspondente, era
mais um modismo estilístico que uma intenção consciente de enganar os sentidos. Os arcos,
cúpulas e outros elementos pintados nos forros não substituíam elementos faltantes nem se
relacionavam com a arquitetura real dos templos. Antes, refletiam a imitação de uma arquitetura
italiana. Já no Desterro, a substituição da arquitetura real é deliberada e evidente.

263

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Pouco resta da nave da igreja. Como aconteceu com
muitos outros templos, foi radicalmente reformada no
século XIX. Todos os retábulos foram substituídos. Dos
azulejos, restaram apenas um painel – mutilado no lado
esquerdo – e a parte superior do painel contíguo.
Salvaram-se os púlpitos e o forro de teto em caixotões,
de padrão similar aos da Ordem 3ª e da sacristia da
igreja conventual de Salvador. Certamente, foi
concebido para conter pinturas, mas está coberto
apenas de um tom azul claro com molduras douradas.

Trata-se de um forro inconcluso ou foi repintado por ocasião da reforma? Assim estava, por
exemplo, o da capela mor de João Pessoa até as pinturas do ciclo antoniano serem recuperadas
durante a restauração do convento. Será que, ocultas por essa tinta azul, também existem pinturas a
serem descobertas?
Outra característica interessante é a abundância de marmorizados. Eles estão presentes nas falsas
janelas e nos arcos do coro, nas molduras e guarda-corpos das tribunas, nos púlpitos e até na cimalha
do teto, constituindo mais um recurso substitutivo. À falta de mármore, ele foi simulado sobre a
madeira e sobre a pedra. Aliás, este sim, é um recurso bastante comum nas igrejas do Nordeste.

264

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No acesso à capela mor, destaca, sobre o arco, o brasão das clarissas, onde o símbolo dos braços
cruzados com os estigmas de Cristo e de São Francisco é sobreposto pela imagem de Santa Clara em
atitude de mando, com a custódia e o báculo de abadessa.

A capela mor conserva azulejos com arras recortadas. Em cima deles há tribunas similares às da nave.
Porém, neste caso são reais, abrindo-se a pequenas salas que permitem a visualização do ritual.

265

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O retábulo foi substituído no século XIX. Porém, ainda conserva o imponente sacrário de prata que
fazia parte do original. No topo há um grande Cristo com relicário no peito, também resgatado do
antigo retábulo. Lembra o tenebrismo espanhol pelo dramatismo e pelo o extremo destaque dos
ferimentos. Aos lados, entre as tribunas, as imagens dos dois fundadores: São Francisco e Santa Clara.

A capela mor é iluminada por uma claraboia octogonal, aberta
no forro e coberta por uma pequena torre-lanterna de metal.
Os altares colaterais também foram substituídos no século XIX
e acompanham o estilo do altar mor. Têm colunas retas,
caneladas, e capitéis de ordem compósita.
Estilisticamente, filiam-se ao neoclássico. Porém, à semelhança
da maioria das reformas executadas nesse período, não deixam
de apresentar algumas reminiscências do barroco e do rococó.
266

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A sacristia, anexa à nave e à capela mor, projeta-se para fora da
planta principal da igreja e do convento. Ela tem acesso externo e
comunica com a capela mor, mas não com o convento, posto que
era área reservada ao capelão e, portanto, inacessível às freiras.
É uma construção baixa, com telhado independente, e tem uma
porta e três janelas gradeadas. Dentro dela, uma escada dá acesso
ao púlpito da epístola. Ao púlpito do evangelho, se ingressa pelo
corredor do claustro.

No interior, destaca o magnífico lavabo, elaborado com várias
cores de mármore e ornado com símbolos franciscanos e
golfinhos entrelaçados.
O retábulo é simples e não está vinculado ao arcaz. Encontrase entre duas portas, comunicando uma delas com a nave da
igreja e a outra com a capela mor.
As imagens que se observa nestas fotos não pertencem ao
convento. Estavam ali guardadas para viabilizar as obras de
restauração da Matriz de Sant'Ana.
O forro do teto, lamentavelmente muito danificado, tem
pintura em perspectiva atribuída a Antônio Simões Ribeiro. A
cena central apresenta a Santa Clara, com báculo e custódia,
rodeada de anjos, sob a imagem do cordeiro pascal. Em volta,
quatro medalhões retratam santos da ordem franciscana.
A pintura está quase completamente escurecida. Entretanto,
forçando os contrastes com auxílio de software gráfico,
consegui obter a imagem ao lado, evidenciando que a obra
original está razoavelmente conservada e poderia ser
recuperada mediante um adequado trabalho de restauração.
267

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não foi apenas a chegada do estilo
neoclássico que motivou as drásticas
reformas sofridas pelas igrejas coloniais
na primeira metade do século XIX. Quase
tão determinante quanto ele foi o
deficiente estado de conservação.
Muitas reformas foram deflagradas porque
as igrejas estavam, literalmente, caindo
aos pedaços. Ao menos, isto é o que se
declara em diversos documentos da época.
É bem possível que, por trás desses
projetos de renovação, estivesse o desejo,
mais ou menos confesso, de acompanhar
as modas trazidas com a mudança da
Corte. Porém, na situação deficitária pela
que passava a economia do Império,
certamente não teriam sido executados se
não houvesse verdadeira necessidade.
Assim, a igreja do Desterro foi bastante
reformada, mas não aconteceu o mesmo com
a da Lapa. O arranjo interno, mormente
datado da segunda metade do século XIX,
muito provavelmente estava ainda em bom
estado e isso o salvou da onda de precárias
restaurações.
Digo “precárias” porque o conceito de
proteção ao patrimônio histórico ainda não
tinha sido desenvolvido. O que estava velho
– ou, simplesmente, parecia velho – trocavase por algo mais à moda.
Acrescentemos a isso que a precária situação
econômica dificultava a utilização do ouro –
cujo abuso, aliás, passou a ser rejeitado
como item fora de moda e de mal gosto –
como também limitava a quantidade e a
qualidade dos artistas que podiam ser
contratados.
268

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tanto os retábulos quanto as tribunas da Lapa inscrevem-se nitidamente no rococó. O
ouro não é mais dominante. Limita-se a pequenos detalhes: bordas, florões, anjinhos. O
resto é policromado, com ampla predominância do branco, o que dá à igreja um aspecto
claro e luminoso, efeito que é reforçado pela abundância de janelas e – hoje – pela
iluminação interna do camarim da Imaculada.
Ainda persiste, do estilo anterior, a imitação de dossel sobre coluna torsas. Porém, o
dossel é vazado e não há, nas colunas, pássaros, anjinhos barrigudos ou cachos de uvas.
À diferença do barroco, que nasceu dentro das igrejas, o rococó é uma arte
essencialmente palaciana, abundante em curvas e contra-curvas. Mesmo os anjos – os
únicos símbolos religiosos – são integralmente dourados, sem policromia, o que
subordina o tradicional realismo da representação ao efeito puramente decorativo.
O teto da capela mor – no
tradicional formato de abóbada de
canhão – é cortado por quatro
janelas que inundam de luz o
presbitério.
As bordas das janelas, em branco
e dourado, contrastam fortemente
com as pinturas, cada uma delas
centralizada no retrato de um
santo.
No centro da abóbada, também
emoldurada em branco, uma
custódia sacraliza o conjunto.
269

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O teto da nave, pintado na
segunda metade do século
XVIII, apresenta os elementos
típicos do barroco: arquitetura
em perspectiva, tipicamente
italiana, painel central frontal
organizado em três níveis e
diversas figuras secundárias. O
toque rococó – quase diria
francês – está nos atlantes
dourados que parecem sustentar
as esquinas do forro.
No conjunto central, Deus Pai,
Jesus Cristo, o Espírito Santo e
a Virgem, como intercessora,
protegem um grupo de clarissas
que, por sua vez, parecem zelar
pelo mundo, que, como em São
Francisco do Conde e na Ordem
3ª de São Domingos, está
simbolizado por uma bola
escura, sem detalhes.

270

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Fora o teto e os atlantes, a nave da igreja é bastante simples. É possível que as
dificuldades econômicas pelas que a Bahia passou em fins do século XVIII e inícios do
XIX tenham obstaculizado a conclusão da ornamentação interna.
Contudo, merecem menção os dois púlpitos, que, numa solução ingeniosa, têm as portas
embutidas no arco da porta principal e no arco cego que deveria ter dado acesso ao
segundo claustro. Assim, a clausura ficava melhor resguardada, posto que ambas as
entradas estavam dentro da igreja. Pelo contrário, como já indicado, o púlpito esquerdo
do Desterro só tem acesso pelo interior do convento.

O coro baixo também é bastante simples. Une-se à nave através de um amplo arco,
fechado por uma fina grade metálica.
271

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O coro alto – privativo das freiras – está desativado desde que o convento foi transferido
para outra localização. Portanto, não conserva o cadeiral, retábulos e demais elementos
próprios dessa função.

Em vez dos atlantes, o forro, sem pinturas, está sustentado por cariátides, figuras
femininas policromadas. A grade – esta, sim, aparentemente original – está feita de
madeira. Ainda conserva as cortinas e no topo, uma pintura que antigamente devia
emoldurar uma imagem, da qual restaram apenas os ganchos de suporte.
À semelhança do Desterro, a sacristia era externa ao convento, localizando-se no
extremo da igreja, logo após a capela mor.
Atualmente, está desativada, utilizando-se como sacristia o corredor interno – via sacra –
que a ela conduzia pela parte do evangelho.
272

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A sacristia ocupava o térreo de um bloco de dois andares que – hipoteticamente –
poderia ter sido esquina do convento, caso o segundo claustro tivesse sido concluído.
Hoje, ambos os andares são utilizados por uma instituição de ensino e nada se conserva
do arranjo interior, exceto o lavabo e o forro do teto. Considerando a dificuldade de
acesso a esse ambiente, por tratar-se de um cômodo já separado da igreja, darei especial
destaque a esses elementos.

O teto, bastante danificado e até mutilado
pela inserção dos tubos fluorescentes, é de
excelente feitura.
A virgem, no céu e rodeada de anjos, está
emoldurada por uma balaustrada com
flores – em perspectiva apenas insinuada –
interrompida, em cada um dos seus lados,
por medalhões que representam atributos
marianos.
273

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os medalhões estão pintados em forma quase monocroma, recurso de destaque já
apontado a propósito do teto da Ordem 3ª de São Francisco. Nas cimalhas, é de se
destacar a riqueza dos marmorizados e, nas esquinas, as mísulas, que, pela forma e
localização, lembram os atlantes e cariátides da igreja e do coro.

O lavabo – faltando, lamentavelmente, a torneira e a tampa do reservatório – é único
entre os exemplares aqui apresentados, não apenas pela originalidade do formato como
pelo forma de enchimento. O reservatório de água fica dentro dele e é alimentado por
cima, dispensando a necessidade de abastecimento externo.
Visto por baixo, o conjunto formado pelo lavabo, as
cimalhas marmorizadas, a balaustrada com flores, os
medalhões e a pintura central da Virgem com os anjos,
ainda dá uma imagem muito sugestiva, permitindo
sentir o clima geral que caracterizava esse ambiente.
Por um momento, parece que a antiga sacristia voltasse
à vida e estivesse intacta, pronta para começar a missa.
274

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Já mencionei que as igrejas dos conventos femininos
careciam de adro, sendo o acesso externo feito
diretamente da rua, através de uma porta lateral
escassamente ornamentada.
Em compensação, existia, sim, um espaço de transição
para o convento: um grande pátio murado ao qual se
abriam a portaria, a roda e os locutórios.
Chegava-se a esse espaço através de uma única entrada,
sobreposta por uma cruz e um nicho para imagens. Hoje,
em ambos os conventos, os nichos estão vazios118.
Nesse mesmo patio ficavam a casa do capelão e diversas
outras dependências externas à clausura.

Passada a portaria, no Desterro, chega-se diretamente ao claustro. Já a portaria da Lapa
conduz a um corredor interno, ficando o claustro mais recuado, conforme pode apreciarse na planta da página 250.
À diferença dos conventos masculinos, no Desterro e
na Lapa só há corredores abertos no andar térreo. No
andar superior, os corredores são internos, abrindo-se
para o claustro apenas as janelas. Ainda, no Desterro,
apenas três corredores do térreo são abertos. O
corredor da esquerda pode ter sido sacrificado para
construir mais celas119
118 Ambas as fotos são de Santa Clara do Desterro. O pátio da Lapa, utilizado atualmente pela Universidade Católica, está
coberto com toldos plásticos que impossibilitam uma fotografia de conjunto.
119 Também o claustro do Desterro está coberto por um toldo plástico. Por essa razão, estou incluindo uma foto antiga,
reproduzida do livro de Anna Amélia Vieira Nascimento.
275

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A foto acima reflete a situação atual do claustro do Desterro. Porém, a imagem da
página anterior revela mais detalhes sobre a estrutura do prédio.
Surpreende, numa composição aparentemente simétrica, encontrar tantos elementos
assimétricos. Não apenas falta uma galeria do claustro. As janelas, que deveriam ficar
alinhadas com os arcos que lhes ficam em baixo, estão claramente deslocadas. Chega-se
a perceber, no ângulo esquerdo do andar superior, uma pequena janela, estranhamente
dividida em duas bandas, em ângulo reto, cada uma delas correspondendo a uma das
paredes do claustro.
Segundo Prado Valadares120, esta era a cela de Soror Vitória da
Encarnação: “Por esta janela, estrategicamente angulada, a
Madre fazia vigilância ao claustro, pátio, escadório, galerias e
mirante”. Porém, essa afirmação não concorda com os
documentos consultados. Contrariamente ao que registrou
Valadares, que a chama de “freira superiora”, Soror Vitória da
Encarnação não foi abadessa nem parece ter ocupado cargo
algum que exigisse dela tal vigilância sobre as outras freiras.
Antes, a informação disponível a apresenta como introvertida e
mística, devotada a uma vida de humildade e sacrifício.
Apesar disso, a tradição lhe atribui essa cela. Caso haja um fundo de verdade, podemos
admitir duas hipóteses: ou não foi a cela das abadessas, ou bem, tendo sido, em outro
tempo, das abadessas, chegou a ser, ocasionalmente, ocupada por Vitória da Encarnação.
Observando a planta, outro aspecto que chama a atenção é a diferença de disponibilidade
residencial entre os claustros. Enquanto o segundo estava quase inteiramente disponível
para habitação, o primeiro tinha toda a ala direita ocupada pela igreja, a frontal, pela
portaria e locutórios, e a do fundo, pela torre e o refeitório.
120 Clarival do Prado Valadares: “Aspectos da Arte Religiosa no Brasil” - Odebrecht, 1981.
276

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Apenas a ala da esquerda e, no segundo andar, as alas da frente e do fundo, estavam
disponíveis para celas. Essa limitação poderia relacionar-se com o menor número de
freiras de véu preto, rigidamente limitado pela Coroa121. Porém, o número de freiras de
véu branco também era limitado e, mesmo assim, não conseguia ser preenchido por
causa da intensa procura por lugares de véu preto.
Informação de 1775, reproduzida por Anna Amélia Vieira Nascimento122, mostra mais
claramente as causas dessa desproporção. Haviam, nessa data, 51 freiras de véu preto, 7
educandas seculares, 17 recolhidas seculares, 40 servas forras, 5 escravas da
comunidade e nada menos que 250 escravas particulares. Certamente, toda a capacidade
do segundo claustro não era suficiente para hospedar essa população adicional e grande
parte da escravatura devia morar com suas amas ou em construções precárias que o
tempo já fez desaparecer.

Conforme já apontado, o convento da Lapa só possui um claustro, restando apenas
indícios que permitem inferir a intenção de construir um segundo, não concluído.
Surpreende, também, que o claustro existente se encontre recuado, distante da igreja e da
portaria do convento, e até num nível diferente, mais baixo que o resto do edifício.
Esse claustro constitui uma área de transição
entre o nível da igreja e o terreno que desce na
direção da Estação da Lapa, onde, antigamente,
ficava a horta do convento. Está rodeado de
aterros por três dos seus lados, (restando, num
deles, espaço para um corredor e algumas celas)
e – provavelmente em razão das limitações do
terreno – tem forma retangular, com três arcos
de largura e seis de comprimento.
121 A Provisão inicial limitava o seu número a 50.
122 Arquivo Histórico Ultramarino. Documento 8814.
277

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

De fato, não parece que os claustros fossem o centro da vida conventual. No Desterro,
essa função se apresenta limitada pela falta de uma das arcadas do andar térreo e a sua
completa ausência no andar superior, cujos corredores são internos, abrindo para ele
apenas as janelas das celas. Na Lapa, essa impressão é ainda mais acentuada. O claustro
é um espaço extremamente reservado, distante de todas as áreas de maior atividade.
Parece ter sido dedicado apenas para momentos de lazer, relativamente independentes da
vida da comunidade.
Também o segundo claustro do Desterro apresenta mais áreas fechadas do que abertas.
Apenas os corredores da frente e do fundo têm arcadas. Nos laterais, só há um arco no
centro, sendo o espaço restante ocupado por janelas. Como, de resto, no andar superior,
onde os todos os corredores são internos.
Aliás, também aqui, nas esquinas, nota-se a existência de janelas menores, como a que
se observa na cela de Vitória da Encarnação. Seriam mesmo para efeitos de vigilância?

É possível que essa falta de destaque do claustro nos conventos femininos se relacione
com o caráter introspectivo da vida monacal. Enquanto os conventos masculinos
constituíam agrupações de pregadores com uma atividade coletiva em prol da
propagação da fé, os femininos serviam para o recolhimento de mulheres
individualmente devotadas ao culto, quando não recluídas à força por seus familiares.
Isso se nota nas constantes queixas sobre a falta de frequência aos ritos coletivos e,
especialmente de comparecimento ao coro, chegando-se a afirmar que algumas delas
passavam mais de um ano sem participar dele. Pode explicar também que alguns
âmbitos de convivência, especialmente a sala capitular, tenham, nestes conventos, um
destaque bem menor que nos masculinos. Tanto na Lapa quanto no Desterro, não
consegui identificar o local que ocupava a sala capitular.
No Desterro, me foi dito, apenas como hipótese, que poderia ter sido utilizada como tal
uma sala com azulejos que fica no andar de cima, em frente à entrada do coro.
Lamentavelmente, não me foi possível visitá-la porque estava sendo utilizada como
depósito. Apenas fui informado de que os painéis de azulejos parecem representar
alegorias dos pecados capitais. Na Lapa, não achei nenhuma informação.
278

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No Desterro, o de profundis fica entre a capela mor e o refeitório. Por cima das portas,
há nichos com imagens de São Francisco e Santa Clara. No centro, um lavabo bastante
simples, ladeado por duas cruzes formadas com azulejos de figura avulsa. A estampa, em
cima do lavabo, é uma fotografia colorida do Cristo de São Damião. Obviamente, de
colocação recente.

Na Lapa, nada resta do de profundis, à exceção do lavabo, ainda mais simples que o do
Desterro. Porém, foi outorgada a ele uma dignidade adicional ao complementá-lo com
um pequeno retábulo, moldado diretamente na parede.
As imagens que aqui ficavam não se encontram nos seus nichos. Devem ter sido
removidas para a nova sede do convento.
279

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Dos refeitórios, nada resta, além dos salões onde funcionavam. O do Desterro ocupa a
ala intermediária entre ambos os claustros. O da Lapa está na ala do fundo do claustro,
no andar térreo, considerando como tal o nível da igreja e da portaria. Do seu aspecto
original resta, apenas, a linha de janelas conversadeiras.

Também há janelas conversadeiras no corredor que beira o refeitório, bem como,
seguindo em ângulo reto, no que conduz às imediações do coro baixo. Aliás, esse
corredor é bem mais largo que os outros, tem janelas de ambos os lados e – assumindo
que a hipótese dos dois claustros seja verdadeira – corresponderia à ala intermediária
entre eles.

Embora bem mais fechado, posto que tem celas em ambos os lados, recebendo
iluminação externa apenas nos extremos, o corredor que fica em cima do refeitório do
Desterro, intermediando os dois claustros, é bem mais largo que os restantes,
constituindo um amplo salão cuja utilidade não está muito clara, podendo ter sido usado
como área de trabalho ou convivência.
Essas observações me levam a imaginar que a convivência, nos conventos femininos,
ocorresse nas salas e corredores e não nos claustros, que eram apenas áreas de luz e de
circulação, sem a intensa vida social e religiosa que os caracterizava nos conventos
masculinos.
280

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não encontrei capelas internas na Lapa. É possível que tenham existido mas terão sido
desativadas com a mudança das religiosas e a transformação do edifício em instituição
de ensino. Pelo contrário, no Desterro estão perfeitamente conservadas e são
preciosidades ocultas que merecem ser detalhadamente analisadas.
A primeira delas, originalmente reservada às freiras de véu preto, encontra-se no último
trecho do corredor esquerdo, servindo-lhe de ante-sala, a partir do arco, o
prolongamento do salão registrado na página anterior.
Entra-se por uma porta com almofadas, parte das
quais foi transformada em janelas envidraçadas.
Sobre ela há quatro iniciais, parcialmente apagadas,
que interpretei como S.P.Q.R.123

123 Em latim, Senatus Populosque Romanum (Senado e Povo de Roma). O que levaria a escrever essa sigla na capela?
281

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A capela tem dois retábulos. O primeiro deles,
situado lateralmente em relação à porta de
entrada, tem uma volumetria muito antiga,
lembrando vagamente os retábulos dos santos
e virgens mártires da Catedral Basílica, que se
supõe terem sido aproveitados da primitiva
igreja dos jesuítas. Entretanto, a profusão de
volutas que cobre as superfícies já denota uma
transição para o barroco.
As imagens também são antigas, podendo ser
originais do retábulo ou até anteriores. No
centro, atrás do Cristo, há um receptáculo com
relíquias de diversos santos, identificados com
legendas escritas em pequenas fitas de seda.
O aspecto dessas legendas lembra o das
relíquias que se encontram embutidas no
frontal do retábulo da sala capitular do
Convento de São Francisco.

282

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O retábulo principal, é barroco, com volumetria acentuada e colunas torsas ornadas com
videiras124. Também as imagens tem mais movimento, destacando-se pelo panejamento e
a teatralidade. Além do Crucifixo, há duas imagens no retábulo e mais duas em nichos.
Note-se que esses nichos são de feitura bem diferente, apresentando douramento apenas
nas bordas e desenhando volutas sobre branco, já com tendência ao rococó. O interior
tem decoração floral pintada, semelhante à do retábulo antigo, o que permite inferir que
essa decoração tenha sido acrescentada no mesmo período.

Ambos os retábulos tem frontais similares, mormente planos, com tendência ao rococó.
Provavelmente, foram acrescentados na mesma época.
124 Há uma imagem integral deste retábulo na página 281.
283

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Além das imagens contidas nos retábulos, há diversas outras agregadas. Entre elas,
pequenas estátuas de Jesus menino – duas delas, de vestir – protegidas em sinos de vidro
e decoradas com capricho tipicamente feminino.

Outras imagens agregadas são da Madalena e
Santa Ana. Ambas eram exemplo de virtudes
femininas: Santa Ana, por ser mãe de Maria
e avô de Jesus, Madalena, por encarnar o
poder do arrependimento e da humildade na
expiação dos pecados. Aliás, a Madalena era
orago do convento masculino de Marechal
Deodoro e Santa Clara (página 36) decora o
teto do subcoro do mesmo convento.
284

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Dentre as que se encontram na ante-sala da capela, uma imagem que merece especial
destaque é a Imaculada Conceição, em pé sobre o globo terrestre, rodeada de anjos entre
nuvens, sendo coroada por Deus Pai e pelo Espírito Santo. Repete, em volume, um tema
habitualmente encontrado na pintura: A coroação da Imaculada Conceição pela
Santíssima Trindade. Só que, desta vez, o Filho não está presente. Ou será que está
implicitamente oculto, no ventre da Mãe?
No interior da capela, há um oratório doméstico com diversas imagens. Não sei se todas
elas são originais ou algumas foram agregadas ou substituídas. No centro, um Cristo
crucificado, talvez de marfim policromado, com resplendores de prata. Aos lados, dois
castiçais embutidos no fundo, ricamente dourado.

285

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na face interior das portas desse oratório, foram pintados seis Passos da Paixão. Em
cima, o Pai e o Espírito Santo completam a Santíssima Trindade.

Uma peça bastante inusual é o quadro ao lado,
elaborado com múltiplos recortes de metal
dourado. Ele imita um altar, com frontal,
retábulo com colunas, pintura central, com a
Virgem e o Menino sendo adorados por dois
santos, e duas figuras secundárias: Coração de
Maria e Coração de Jesus. No topo do retábulo
há uma custódia e, em cima, no centro do arco,
a pomba do Espírito Santo.
As estampas, impressas em gráfica, situam a
origem no final do século XIX ou início do
XX. Porém, o retábulo exibe uma eclética
mescla de estilos onde agulhas verticais
lembram o gótico e a profusão de elementos e
abundância de dourados ainda denunciam o
gosto barroco. Trata-se, indubitavelmente, de
um trabalho de muita paciência e de uma
minuciosidade tipicamente feminina.
Não me parece que todas essas imagens sejam da capela. Imagino que muitas delas
estivessem nas celas, dedicadas à devoção particular das freiras. Essa deve ter sido a
função original do oratório. Quanto às imagens avulsas, provavelmente ficavam nos
nichos que se observam em diversas celas, hoje utilizadas como salas de aula.
286

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na segunda capela, no claustro das noviças, também há um retábulo frontal e outro
lateral. Porém, neste caso, a divisão entre ambos os espaços é muito mais destacada. Um
arco separa um âmbito do outro tão nitidamente que até os respectivos tetos têm
orientações independentes. Em tese, uma simples cortina, fechando o arco, permitiria a
realização simultânea de ritos separados.

Entra-se, na capela, a partir de um corredor interno do segundo claustro, através de
várias portas cujas almofadas superiores foram também omitidas, deixando pequenas
aberturas para luz e ventilação. O lado contrário é amplamente iluminado por grandes
janelas que se abrem diretamente para o quintal do convento.
Os painéis do forro representam a Jesus Cristo endo batizado por São João Batista e,
após a flagelação, assistido pela Virgem. A primeira pintura é oval e está simplesmente
emoldurada. A segunda, cujo conjunto central é também oval, está emoldurada em
retângulo, com arquitetura simulada em perspectiva.
O tema da Paixão de Cristo é recorrente na capela. Ele se encontra representado nos
símbolos dos frontais de ambos os altares, bem como nas molduras douradas que
adornam o arco.
287

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As sanefas são muito elaboradas. As cimalhas e os cones, nas esquinas do teto, lembram
a sacristia do Convento da Lapa. Cabecinhas de anjos interrompem as cimalhas, a
intervalos regulares.

Ambos os retábulos são de um barroco já
avançado, enveredando decididamente para o
rococó. O principal, orientado em sentido
longitudinal à capela, está ornado com colunas
torsas (três a cada lado do nicho central e mais
uma em cada extremo, fechando os nichos
laterais). Todas as colunas estão ornamentadas
com videiras entrelaçadas. As centrais
sustentam anjos tocheiros para iluminação do
nicho central do retábulo.
O fundo dos nichos está pintado com motivos
florais, similares aos da primeira capela,
porém muito mais elaborados. Há dourações e
grinaldas. O fundo, que naquela capela era
branco, aqui exibe um tom azulado.
O frontal – que, como já foi apontado, exibe
os atributos da Paixão – acompanha fielmente
o estilo do retábulo, podendo assumir-se que
faz parte de uma mesma encomenda.
288

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O segundo retábulo é mais simples. Porém,
responde ao mesmo estilo.
Aliás, toda a capela, incluindo os retábulos,
sanefas, cimalhas e outros ornamentos, apresenta
uma grande unidade estilística.
Este retábulo mantém a mesma estrutura principal,
baseada em colunas torsas com videiras e anjos
tocheiros. Porém, tem apenas uma imagem e o
frontal é mais simples, com escassa volumetria.
A imagem – talvez
bastante anterior ao
retábulo – apresenta
rígida verticalidade e
segura uma custódia
que lhe cobre o rosto
quase por completo.
À semelhança do retábulo principal, o fundo dos nichos está
coberto com motivos florais. A qualidade do trabalho não é
ruim. Porém, a localização desfavorável, com relação às
janelas, impede a apreciação adequada. Fechadas, elas
privam essa área de iluminação. Abertas, ofuscam a visão
por causa do contra-luz. Assim, não apenas pela ubicação
lateral como pela escassa visibilidade, esse retábulo se vê
reduzido a uma função claramente secundária.
289

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No fundo da capela, sob uma imagem de São Domingos, há três painéis de azulejos que
foram encontrados em barricas, junto aos que estão no coro. Diferenciando-se, no estilo
e na temática, optou-se por colocá-los em outro ambiente.

290

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O estilo é típico de meados do século XVIII, com divisões imitando pilastras e barras
barrocas recortadas, imagens em azul de cobalto e rodapés em roxo de manganês.

De maneira similar aos ciclos franciscanos e antonianos, os azulejos representam cenas
da vida de Santa Clara.

É notável a semelhança com aqueles ciclos, não apenas no estilo de pintura como nas
cenas representadas. Assim como a vida de Jesus é vinculada aos sucessos do Antigo
Testamento e a de Francisco procura assemelhar-se à de Jesus, aqui a de Clara lembra a
de Francisco. Vemos aqui a mesma agitação dos demônios atingidos pela santidade
(páginas 201, 205 e 209) e a cena do crucifixo não pode deixar de evocar a de Francisco
diante do Cristo de São Damião (páginas 199, 202 e 203).
291

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A imagem de são Domingos é de excelente
qualidade. O sóbrio hábito branco e preto foi
matizado com luxuosas dourações e desenhos florais,
com panejamento muito movimentado. Também o
nicho de madeira, entalhada e dourada, exibe amplo
panejamento nas cortinas que pendem do dossel.
Surpreende encontrar esse santo em tal posição de
destaque. Apesar de pertencer a outra ordem, não é
estranho encontrá-lo lado a lado com São Francisco.
Assim estava no altar mor do convento de Salvador
antes da reforma de 1930 e assim aparece nos tetos
de São Francisco do Conde e da Ordem 3ª de São
Domingos de Salvador. Porém, não é costumeiro
encontrá-lo assim destacado, numa casa franciscana,
sem que a imagem de São Francisco lhe faça a
necessária complementação.
Finalmente, cabe mencionar dois genuflexórios que
se encontram na capela. Não me parece que tenham
pertencido a ela. São peças avulsas, que mais
sentido fariam numa cela e dali devem ter sido
recolhidas. Assim como o oratório e as imagens da
primeira capela, parecem indícios de um culto
pessoal, privado, que cada freira fazia na intimidade
da sua cela. Indícios, enfim, de que muitas delas
preferiam a solidão ao trabalho e à oração em
comunidade, tão caros aos conventos masculinos.
Numa esquina do claustro, bem em frente à primeira capela,
encontra-se a cela que se supõe ter sido habitada por Vitória
da Encarnação. Ali foi organizado um pequeno memorial,
incluindo relíquias, móveis da época e objetos que teriam
pertencido à freira.
Embora a mobília não tenha como objetivo primordial a
reconstituição histórica, visitando esse âmbito, é possível ter
uma ideia aproximada do que era uma cela desse convento no
século XVIII.
A imagem ao lado é uma representação de Soror Vitória e se
encontra formando parte desse memorial.
292

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Numa vitrine, encontram-se vários instrumentos de auto-mortificação que se acredita
terem sido utilizados por Madre Vitória.

Numa caixinha de madeira, uma
relíquia: parte do crânio da freira,
encontrada numa das obras de
reforma do convento.
Dentre todos os conventos que
visitei, este é o único caso em que
observei a veneração de uma
relíquia local. A biografia que lhe
dedicou Sebastião Monteiro da
Vide, Arcebispo da Bahia e Primaz
do Brasil, pode ser a causa desta
especial veneração.
293

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por cima dos coros, no Desterro, há um grande mirante, pesadamente sustentado em
amplos contrafortes que se prolongas das suas esquinas.

Também na Lapa há um mirante. Neste caso, com vários andares, fica em cima da
portaria do convento.
Não é estranho existirem espaços similares nos conventos masculinos. Aproveitam-se
como tais os salões que ficam no andar superior, nas esquinas na quadra principal ou nos
extremos das alas que dela se afastam. Distinguem-se, habitualmente, pelo maior
tamanho das janelas e a presença de conversadeiras, além da ausência de divisórias
internas, abrindo-se diretamente aos corredores dos conventos.
Porém, não é comum que se elevem além do nível geral do
edifício. Creio que a única exceção é o convento de João
Pessoa, cujo último bloco eleva-se um andar acima,
provavelmente oferecendo, na época da sua construção, uma
vista panorâmica do estuário do Rio Paraíba.
294

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Contrariamente, nos conventos femininos, esses mirantes se elevam dois e até três
andares por cima do nível geral dos telhados. Essa característica pode ser facilmente
observada em Espanha e Portugal, como podemos apreciar nos conventos de Santa Clara
em Cáceres, Carmona e Évora.

Mesmo os conventos femininos de outras ordens
utilizavam esse recurso. Em Salvador se acha, também,
no convento das ursulinas. (Nª. Sª. da Soledade).
Fora esses três, houve mais um convento feminino: o das
Mercês (também de ursulinas). Porém, o edifício
encontra-se tão descaracterizado que não é possível
constatar, hoje, se chegou ou não a ter um mirante.
A que critérios responde esse destaque do mirante nos
conventos femininos? Talvez fosse o respiro que tornasse
tolerável a clausura. Enclaustradas de por vida, rodeadas
de muros e grades, esses torreões inexpugnáveis seriam
os únicos locais dos quais poderiam olhar para o mundo
com certo grau de liberdade.
Existe, ainda, no Desterro, uma pequena construção,
elevada, conhecida como “eirado”. Fica na junção dos
claustros, logo após a capela mor.
O dicionário Priberam define esse verbete como “Espaço
descoberto, sobre uma casa, ou ao nível de um andar dela”.
Outros dicionários dão definições similares. Será que
alguma vez esse espaço foi descoberto, à maneira de um
terraço?
Pelos registros, não era um mirante de uso comunitário. Em
1849, a madre Leonor Querubina de Santa Efigênia Argolo
deixou em herança à sua irmã, madre Bernardina do
Coração de Jesus, diversas propriedades no convento125.
125 Arquivo do Convento de Santa Clara do Desterro. Pasta 72, citado por Anna Amélia Vieira Nascimento.
295

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O testamento incluía escravas, quintais plantados, uma casa dentro da cerca, uma cela
para moradia das escravas e o eirado “porque tem sempre passado de tias a sobrinhas”.
Citando esse documento, Anna Amélia Vieira Nascimento126, comenta: “É no mínimo
curioso esse aspecto de direito de propriedade de celas, casas no quintal plantado e
Eirado de família, dentro de um convento comunitário. Todos esses privilégios abusivos
de transmissão de bens foram aprovados pelo arcebispado. Esse aspecto de exceção
nunca foi mencionado nas célebres pastorais, cartas, ofícios, portarias arquiepiscopais
que, no entanto, sempre criticavam os abusos de comportamento das freiras do
Desterro. […] Como poderiam as abadessas e demais religiosas da administração
concordarem com semelhantes exceções? […] Das sete religiosas pertencentes a essa
família, três foram abadessas. Tiveram em suas mãos os destinos do convento e, desta
forma, conseguiram lugares separados, de que se afirmavam proprietárias. Não foram,
porém, as da família Argolo Queirós as únicas a alegarem propriedade de celas. Outras
o fizeram, da mesma forma, embora não acintosamente, um procedimento de exceção,
pelo prestígio social e econômico a elas conferido”.
A respeito, vale citar também o comentário de Maria Eugênia de Matos Fernandes 127: “A
partir do início do século XVII, a vida monástica feminina passou a assentar, quase
única e exclusivamente, na clausura, relegando-se para segundo plano outros
postulados, como os votos de pobreza, obediência e humildade”.
Tal como acontece com o 1º claustro, para fazer uma
análise da torre no seu ambiente original é preciso
partir de uma foto antiga.
Observa-se, nesta imagem, que ela se insere na ala
intermediária, não centralmente mas projetada ao
claustro principal, diretamente em cima da arcada do
fundo.
Fica, assim, claro que ela foi concebida para as
badaladas serem ouvidas em ambos os claustros,
porém integrando-se visualmente no principal. Isto é,
aquele ocupado pela igreja, a portaria e as celas das
freiras de véu preto.
Neste ponto do claustro, foi preciso estreitar a
galeria, já que o enorme peso da torre não poderia
ser sustentado sobre as paredes normais do convento.
126 Anna Amélia Vieira Nascimento: “Patriarcado e Religião: As enclausuradas clarissas do Convento do Desterro na
Bahia 1677-1890”. Conselho Estadual de Cultura da Bahia, 1994.
127 Maria Eugênia de Matos Fernandes: “Século e Clausura no Mosteiro de Santa Clara do Porto em meados do século
XIX”. Comunicação apresentada ao congresso “O Porto na época contemporânea” em outubro de 1989.
296

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O resultado pode ser apreciado nas fotos acima. Os amplos arcos abatidos do claustro
foram substituídos por grossas paredes com arcos plenos, de menor largura. No lugar do
arco central há um vão bem menor. No fundo, uma pequena janela fecha o espaço
restante.

Hoje, apenas a partir do mirante é possível obter uma imagem da torre mais ou menos
completa. Do mesmo ponto, com maior aproximação, podem se apreciar as janelas,
artisticamente ornamentadas, o relógio, com mostrador de azulejos, os sinos e, no topo,
o catavento de ferro em forma de anjo.
O acesso à torre é feito por uma escada de madeira, no andar superior da ala
intermediária. Subindo, pode-se ver o interior das janelas e as engrenagens do relógio.
297

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A máquina do relógio é acionada por pesos e contra-pesos e tem um mostrador interno
para facilitar a operação.

Em cima, martelos mecanizados transmitem aos sinos os comandos do relógio.

298

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os sinos têm imagens gravadas: a Imaculada Conceição,
uma cruz e uma custódia, atributo frequentemente
associado a Santa Clara.
A torre tem padrão globular, bastante estilizado. Algumas
áreas foram destacadas com cacos de louça para dar
brilho e contraste.
No topo, a silhueta de um anjo, recortada em ferro e
fixada a um suporte móvel, faz as vezes de catavento. Nas
mãos do anjo, ambos os atributos de Santa Clara: a
custódia e o báculo de abadessa.
O catavento é visível do exterior do convento,
constituindo uma marca distintiva do bairro de Nazaré.
A torre da Lapa é mais simples. Pobremente ornamentada,
tem cobertura piramidal de padrão arcaico, forrada de
azulejos brancos com uma faixa mais escura na base.
Está encostada ao fundo dos coros e sua escassa altura a
subtrai à observação de quem se encontra na rua. Pode,
apenas, ser vista, entre as árvores, por quem a olha a partir
do terminal de ônibus que ocupa o antigo quintal do
convento.
Caso o segundo claustro tivesse sido concluído, essa
localização seria menos desfavorável. Ela ficaria quase
centralizada, servindo ambos os claustros.
299

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As modificações sofridas pelo convento da Lapa ficam parcialmente esclarecidas por
esta planta, datada de 1756 e conservada no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa.
As referências indicam: A: “Convento”. B: “Pátio”. C: “Casas do capelão e algumas
servas”. D: “Capela de N. S. da Lapa” (trata-se da antiga capela, doada para servir de
base ao convento). E: “Igreja em construção” (a igreja atual, iniciada em 1750).
Note-se que ainda não existia a ala posterior, que se
prolonga em direção ao terminal de ônibus128. Trata-se de
uma ampliação provavelmente não planejada, executada
apenas com o intuito de ganhar mais espaço para celas.
Não concluindo-se o segundo claustro – talvez por
dificuldades do terreno ou por falta de verbas – a carência
de espaço levaria a estender o convento naquela direção.
Identificam-se, claramente, na planta acima, os espaços
ocupados pelos sanitários – cujos esgotos deviam correr
ladeira abaixo atravessando a quinta do convento – e
pela cozinha, próxima ao pátio de entrada. Interiormente,
nada resta desses âmbitos. Porém, olhando do pátio,
perto da portaria, ainda pode-se observar a grande
chaminé de estilo alentejano.
O espaço retangular, no fundo, não parece ter sido edificado. Era, provavelmente, um
terreiro murado utilizado como área de serviço.

128 Observe-se, na planta atual (página 250) a área identificada com o número 12 (Administração).
300

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A Terceira Ordem
Não tive oportunidade de realizar um estudo pormenorizado das ordens terceiras.
Inicialmente, não era o meu foco. Estava mais interessado nos conventos. Por outra
parte, o meu percurso foi rápido e – à diferença dos conventos, onde sempre havia frades
ou pessoal administrativo – várias ordens terceiras estavam fechadas e só poderiam ser
abertas procurando os respectivos responsáveis.
Não achei instalações da Ordem 3ª em Cairu. Existem, apenas, a capela lateral, de Santa
Rosa de Viterbo, e os muros da casa de oração, que não chegou a ser concluída. Em
Igarassu, todas as instalações foram demolidas. Em São Francisco do Conde, o edifício
subsiste, mas a Ordem foi desativada e tudo que existia no interior desapareceu, à
exceção do teto da capela, cuja imagem já foi incluída na página 154.
Não identifiquei Ordem 3ª em Ipojuca, embora conste ter existido. Provavelmente
ocupasse a capela lateral onde ficava a imagem do Santo Cristo até o incêndio de 1935.
Em Paraguaçu, não achei indícios da existência de Ordem 3ª. É provável que nunca
houvesse, visto tratar-se de um noviciado situado em área rural. Também não tive
informação da sua existência em Sirinhaém. A capela lateral, extremamente reduzida, foi
iniciada pela Irmandade de São Benedito e concluída pelos frades pela falta de recursos
que impossibilitou a conclusão por parte da irmandade.
Em João Pessoa, subsistem a capela lateral, a casa de oração e a sacristia, já expostas no
capítulo correspondente às Capelas de Irmandades e Ordens Terceiras. O mesmo
acontece em Olinda e Recife.
Não me foi possível entrar nas instalações da Ordem 3ª em Marechal Deodoro e Penedo,
porque se encontravam fechadas. Em São Cristóvão, onde essas instalações foram
transformadas em Museu de Arte Sacra, entrei, mas não me foi permitido tirar fotos
porque a pessoa que poderia autorizar-me estava ausente.
A Ordem 3ª que mais detalhadamente pude visitar é a de Salvador e a ela dedicarei,
essencialmente, este capítulo.
Em Salvador, a capela lateral – que, segundo Jaboatão, ficava em baixo do que hoje é o
coro do igreja conventual – foi sacrificada na construção dessa nova igreja. Em troca,
consta a cessão, pelos frades, de parte de uma ala já construída e de uma porção de
terreno adicional, dentro da cerca, para a construção de uma nova sede para a Ordem 3ª,
obrigando-se os irmãos a indenizar o convento pelas despesas já realizadas.
301

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Respeitando a subordinação devida à Ordem 1ª, os terceiros construíram o seu templo
sem sinos e recuado em relação à igreja conventual. Porém, a exuberante decoração da
sua fachada não esconde o poderio da que foi a irmandade mais rica da capital do Brasil.

302

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A área que antecede a fachada é murada e gradeada até quase encostar na fachada da
igreja conventual, porém respeitando um discreto recuo em sinal de subordinação. Na
grade, artisticamente trabalhada, os símbolos da Ordem e as armas do Império integramse quando o portão é fechado. Os mesmos símbolos, talhados na pedra, sobre o portão,
formam uma estrutura triangular que conclui em uma cruz, à semelhança do frontispício.

Sob a cruz e a coroa de espinhos, o frontispício exibe as armas do Império. Certamente,
uma alteração posterior à Independência, substituindo as armas de Portugal. São, sim,
portuguesas as coroas lavradas sobre as janelas do coro.
Não encontrei registros da época sobre a construção desta fachada. Marieta Alves – tão
detalhada em outros aspectos – não conseguiu recuperar documentos anteriores a 1738.
Para o período anterior, baseou-se em Jaboatão, que ao falar dela informa, apenas: “athe
o proprio frontispicio he de pedra entalhada toda, com grande custo”.
303

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A portaria é um amplo corredor com azulejos de albarradas e uma única porta que
comunica à nave da igreja. Ao fundo, dois arcos dão passagem para um segundo
vestíbulo que, passando mais dois arcos, leva ao claustro e à capela mor.

304

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nas paredes, abundam as pinturas. Na página anterior: Nascimento de São Francisco
(claramente aderindo ao mito da anunciação pelo anjo e do parto num presépio),
Pregação diante do Sultão e a Aprovação das Regras de São Francisco e da Ordem 3ª.

Outra pintura representa a Santa Isabel – rainha de Portugal e padroeira da Ordem –
evitando a luta entre pai e filho na Batalha de Alvalade129. No teto do segundo vestíbulo,
o forro – pintado, em 1884, por José Antônio da Cunha Couto – é um raro exemplo de
quadratura com escorço da figura central.

No século XIX, o interior da igreja foi inteiramente reformado, perdendo a maior parte
da sua decoração barroca.
129 Talvez numa tentativa de sacralizar essa cena, relativamente próxima no tempo, tanto D. Dinis e D. Afonso IV quanto
os respectivos exércitos vestem como soldados romanos do tempo de Jesus Cristo. Era comum, na época, a
representação de personagens bíblicos com ambientações atuais. Porém, raramente acontecia o contrário.
305

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, apesar da difícil situação econômica pela que atravessava o Brasil, a nova
decoração não foi tão pobre quanto a de outros templos edificados ou reformados nessa
época. A solvência da Ordem 3ª era, ainda, suficiente para contratar artistas capacitados
e fazer custosas encomendas a Portugal. Da cidade do Porto, por exemplo, vieram o
frontal de prata do altar mor e o piso de mármore do presbitério.

Altar mor, altares laterais, púlpitos, tribunas, grade do coro e ornamentos do órgão foram
entalhados na Bahia, em 1827. São de autoria de José de Cerqueira Torres. A estrutura
do teto, em caixotões, foi mantida. Porém, o próprio Cerqueira Torres se incumbiu de
refazer as molduras e os painéis foram repintados por Joaquim Franco Velasco130.

Repugnavam também, ao gosto da época, as antigas imagens barrocas. Assim, Manoel
Ignacio da Costa foi convocado para esculpir uma nova imagem de São Domingos 131
130 Franco Velasco faleceu antes de concluir seu trabalho. Assumindo o compromisso, a sua viúva subcontratou José
Rodrigues Nunes. Concluída essa obra, o mesmo pintor foi contratado pela Ordem 3ª para pintar dez quadros avulsos.
Também há, na igreja, obras de José Antônio da Cunha Couto e Manoel Lopes Rodrigues
131 Substituindo a imagem que, segundo Jaboatão, encontrava-se lado a lado com Santo Antônio no altar mór.
306

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“sendo esta de sette palmos e meio de altura e feita com toda a delicadeza, e aceio
proprio a nossa incomenda,, e gosto do d.o escultor […] ficando o d.o Snr. Obrig.do a
desbastar o corpo dos mais Santos da nossa Igreja, ao gosto moderno”132.

Manoel Ignacio da Costa aceitou fazer o trabalho gratuitamente, solicitando apenas o
pagamento dos seus auxiliares. Na mesma data, para fazer a nova pintura e encarnação
das imagens, foi contratado José da Costa Andrade133.
132 Termo de Resolução de 24/06/1833 (citado por Marieta Alves).
133 Termos de Resolução assinados em 05/10/1834 (idem). Contrariamente ao que normalmente acontecia nos conventos,
onde boa parte das autorias é ignorada e estabelecida por atribuição, apenas com base em semelhanças iconográficas ou
estilísticas, a minuciosidade dos registros da Ordem 3ª e a dedicação de Marieta Alves possibilitaram a comprovação
documental de autoria na quase totalidade das obras atualmente existentes. .
307

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tem-se atribuído a esta intervenção as deficiências da imagem de São Francisco. Maria
Vidal de Negreiros Camargo escreveu “Parece que, em bom tempo, o escultor só fez a
desbastação na imagem de São Francisco – que ficou completamente deformada –,
ainda presente no primeiro altar à direita da igreja. As demais imagens permaneceram
com sua aparência barroca, mas sem a policromia”134.
Observando as imagens na página anterior, não me parece que esta afirmação se
sustente. Não tenho conhecimento de documentação alguma que registre uma diferença
entre o tratamento dado à imagem de São Francisco e o que foi aplicado às restantes.
Quanto à observação visual, nota-se que a imagem de São Domingos, que, por ser nova,
deveria ajustar-se exatamente ao ideal desejado, tem abundante panejamento e supera
todas as outras em policromia e douramento.
Não sabemos como eram as imagens antes da reforma. É bem possível que o que
interpretamos como defeitos introduzidos pela reforma na imagem de São Francisco já
estivessem presentes desde a sua origem. Quanto à policromia, também não sabemos o
que existia e em que proporção foi retirado.

Praticamente toda a nova estrutura da capela mor foi obra de Cerqueira Torres, incluindo
a decoração do forro com fundo azul e estrelas douradas. Por cima do frontal e do
sacrário de prata, eleva-se um camarim com a imagem da Imaculada Conceição. Entre
ele e o Cristo, em imponente cruz aparelhada com prata em 1835, há dois expositórios
sucessivos. Um deles contém uma pomba, representação tradicional do Espírito Santo.
A outra custódia exibe um objeto de difícil identificação, mais ainda pela altura em que
se encontra. É um cravo, trazido de Roma por Jônatas Abbott, em 1833, e tido como
exata reprodução de um dos usados na crucificação de Jesus Cristo. Ele teria sido cópia
do original e ainda estado em contato com ele para garantir o seu valor como relíquia.
134 Maria Vidal de Negreiros Camargo: “Venerável Ordem Terceira: Retomando o caminho de Marieta Alves” (em
“Igreja e Convento de São Francisco da Bahia” Odebrecht - Versal Editores).
308

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No topo, dois anjos dourados mostram unidade de estilo com o que decora o órgão.
Porém, o estilo da caixa é muito diferente do resto da igreja e esse instrumento ainda não
existia135. É provável que Cerqueira Torres fizera apenas ornamentos para o antigo – já
mencionado por Jaboatão – e que em 1848, feita a encomenda do novo, tenha sido feita
uma nova caixa, porém aproveitando o anjo da anterior.

O velho órgão estava no fim da vida. Em 1834, Salvador Francisco Leite foi contratado
para fazer um novo, mas não cumpriu com a encomenda. Em 1845, o único organeiro da
cidade – provavelmente, ele mesmo – tinha falecido. Optou-se por tomar um
instrumento emprestado do convento e chegou-se a cogitar a compra de um órgão
pronto, no Rio de Janeiro ou na França. Por fim, um artesão local, que os documentos
chamam de “organeiro” e de “artista”, foi chamado para atender a encomenda.
135 O contrato de Cerqueira Torres foi assinado em 1828 com prazo de execução de 26 meses.
309

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esse órgão, fabricado entre os anos 1848 e 1850, merece especial destaque. Dentre todos
os que houve nos conventos franciscanos do Nordeste é o único que ainda se conserva.
Marieta Alves136 menciona os nomes de três autores: Carlos Tappes (órgão). Marcelino
Mariano de Castro (obras de talha) e José Raimundo (pintura e douramento), o que
reforça a hipótese de que, excetuando o anjo, foi feita uma caixa toda nova.

O contrato descreve detalhadamente a configuração do órgão. Tinha três foles, dois
teclados e 827 tubos. Levando em conta que o da Matriz de Tiradentes têm pouco mais
de 600 tubos e que o Arp Schnitger da Sé de Mariana tem 1039, essa capacidade não
parece nada desprezível. Tanto pela antiguidade como por tratar-se de manufatura
local137, é lamentável que ainda não tenha sido restaurado.

Junto da igreja, separada pelo corredor onde atualmente funciona a portaria, encontra-se
a casa dos santos, onde se guarda as imagens que a irmandade carregava nas procissões.
136 Marieta Alves: “História da Venerável Ordem 3ª da Penitência do Seráfico Pe. São Francisco da Congregação da
Bahia”. Bahia, 1948.
137 Os órgãos de Tiradentes e Mariana – ambos restaurados e em funcionamento – são de fabricação alemã.
310

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Este ambiente servia também como casa de noviciado. Tem a disposição de uma capela,
cada imagem no seu nicho individual, onde podia ser reverenciada por seus devotos
durante o ano todo. Além da comunicação com a igreja, tem um acesso direto, a partir
da rua. para facilitar a entrada e saída das imagens. A decoração tem influência
neoclássica, como corresponde à época da construção (1844 a 1849).

Na sua maioria, as imagens são de roca. Isto é, apenas a cabeça e as mãos são
entalhadas. O resto é uma estrutura de madeira leve que se cobre com roupas, o que
facilitava o transporte nas procissões.
Exceção a esta regra a constituem as imagens que precisam exibir o corpo todo, ou
grande parte dele, como, por exemplo, os diversos passos da Paixão de Cristo138.
Diversas irmandades competiam no ornato das procissões. Em Salvador, além dos
franciscanos, destacavam-se as Ordens Terceiras do Carmo e São Domingos.
Para os terceiros franciscanos, a procissão principal era a da Quarta-feira de Cinzas.
Não eram apenas os santos que desfilavam nessas procissões. Para entender a dimensão
das festividades, nada melhor do que reproduzir literalmente a descrição de Jaboatão:
138 Nancy Regina Mathias Rabelo, “Santos de Vestir da Procissão de Cinzas do Rio de Janeiro – Fisionomias da Fé”,
distingue três tipos de imagens: escultura completa, imagens de vestir anatomizadas e imagens de roca. Nas
anatomizadas, “os corpos são esculpidos anatomicamente e recebem uma policromia que imita uma 'vestimenta de
baixo' ”. Nas de roca, “a parte superior do corpo do santo se sustenta sobre ripas de madeira afixadas sobre uma base
quadrada, oval ou oitavada”.
A mesma autora alerta para o fato de que a utilização de imagens de roca não se limitava às procissões e que “o gosto de
vestir as imagens estendia-se às imagens de vulto, de forma que mesmo imagens esculpidas, douradas e policromadas,
adotavam mantos, ornatos, joias e vestes complementares”. Menciona, ainda, o costume de vestir imagens do Menino
Jesus, primorosamente conservadas em redomas de vidro como as que ainda podem ver-se no Convento do Desterro (ver
fotos na página 384).
Cabe, ainda, chamar a atenção sobre a frequência com que as vestimentas e ornamentos adicionais precisavam ser
substituídos. A cada ano, essa preparação abria uma ampla margem à criatividade dos organizadores das procissões,
certamente aproveitada para exibir o capricho e a opulência das ordens terceiras na disputa, não declarada, sobre quem
organizava o cortejo mais rico e mais impactante.
311

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“Primeiramente vai a figura do paraizo terreal, que se demostra em huã arvore
frondoza, com os pomos prohibidos, e aos lados Adaõ e Eva, nossos primeyros pays,
com as insígnias do seo trabalho, ja despidos da primeyra graça, e vestidos de pelles, e
detraz delles o anjo cherubim, lançando-os fora do paraizo, com huã espada de fogo, o
qual vay vestido rica, e especiozamente, cubertas as roupas de galões finíssimos, peças
de diamantes, e ouro batido. Segue-se logo a figura da morte, com as insígnias da
brevidade da vida; e depois a Santa Cruz com as armas da Ordem Seráfica,
acompanhada de dous anjos com brandões nas maõs. Seguem-se mais sette figuras,
vestidas de sacco penitente, com insignias nas maõs, que declaraõ as virtudes, que
reprezentaõ, como saõ a penitencia, confissão, contrição, satisfação, obediência,
memoria da morte, e desprezo do mundo, levando cada huã dellas adiante de sy um
anjo, com tarja na maõ, e letreiro do seo significado, levando a ultima dous pagens
mais aos lados, com peças de ouro em salvas, e outros despojos do seo desprezo.
Segue-se huã figura á Mourisca, com sua tarja em forma de bandeira, e nesta escripta a
sentença de morte dada contra os vinte e três martyres do Japão, nossos Irmaõs, os
quaes vaõ atrás, em figuras pequenas, vestidos com os hábitos das nossas Ordens, e
cruzes nas maõs com os alfanges nas partes, em que foraõ martyrizados, todos
passados com huã corrente pelo pescoço que leva o algoz mouro na maõ, mostrando
huã summa arrogância, e deshumanidade. Ao lado dos martyres vaõ dous anjos com as
palmas do triunfo, e coroas do martyrio, e atraz do mouro vay o anjo da guarda, vestido
á maneyra de cherubim, com lança na maõ resguardando aos martyres da mayor
violência do tiranno. Logo se segue outra figura da mesma sorte enriquecida, com
balança na maõ, e espada, que symboliza a Justiça Divina.
Por hum, e outro lado vaõ os Irmaõs terceyros de nossa Ordem, encorporados com os
de Nossa Senhora do Monte do Carmo, e pelo meyo da procissão vaõ vinte andores bem
ornados, cubertos de tella de ouro roxa, e nelles collocados os Santos da Ordem de
estatura ordinária, com toda a propriedade e aceyo, e os passos principaes das suas
virtudes. Da mesma sorte vaõ em andores Christo Senhor Nosso com a cruz ás costas,
participando as chagas a Nosso Santo Padre, e os passos principaes do mesmo santo
patriarcha pertencentes ao nosso santo instituto. A diante de cada andor vaõ dous anjos
com tarjas, e nellas escripto o nome do santo, e virtude, em que mais se exercitou, e aos
lados dos mesmos andores quatro tocheiros com tochas acezas. Por ultimo vay o andor
da Conceição da Senhora Padroeira da Ordem Seráfica riquissimamente ornado, e a
diante delle dous fermozos anjos, com capella de flores, e palmas. Sobre o mesmo andor
vaõ os Santos Doutores, que defenderão a Conceição Puríssima collocados de joelhos
aos pés da senhora, tudo com a maior grandeza. Segue-se outra figura, que reprezenta
a Ordem Terceira da Penitencia, vestida de sayal por cima, enriquecida de ouro, e
diamantes. Pelos lados fazem corpo as duas mezas das Ordens Terceiras Franciscana, e
312

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Carmelitana, que por convite annual, e que teve principio no anno de 1702, nos
acompanha em a nossa procissão, e lhe correspondemos acompanhando-a na sua, do
enterro do Senhor, que fazem na Sexta-Feira mayor. Depois das Ordens, vay a
communidade Franciscana, que por breve apostólico, que para isso tem sahe com esta
procissão, a qual se feixa com o Palio, e debayxo delle vay o sacerdote com o Santo
Lenho, acompanhado de seis anjos fermozos com incensários, seis Irmaõs com
lanternas, e oito com tochas”.
Os irmãos – e, muito especialmente os membros da Mesa Diretora – custeavam a
festividade, enquanto os noviços se encarregavam da arrumação dos “Anjos e demais
figuras”. Este costume começou a mudar findando o século XVIII, admitindo-se que os
noviços dessem dinheiro em vez de trabalho e passando a contratar a arrumação das
figuras por empreitada.
Mudança ainda mais expressiva ocorreu em 1767, quando a Mesa acordou alterar a
estrutura básica do cortejo, retirando as figuras “a tragica”139.
Essa decisão foi confirmada, em forma mais pormenorizada, pela Mesa seguinte,
indicando que “se tirarão as figuras a tragica, mouro, pregoeiro, Anjo da Guarda, e
Martyres”140.
Pensar-se-ia que restaram apenas os santos. Porém, passado um ano dessa reunião, outra
decisão141 revelava que a mudança não era tão drástica: “por parecer mais bem
ordenada, e com acertado principio foi concordado uniformem.e, q. para dar principio a
d.a Procissão se uzasse da mesma Arvore do Paraizo, seguindo-se Addam e Eva, e hum
Anjo q. não passase a ser figura a tragica mais q. vestido com o aceyo […] q. dos do
Andor de Nossa Sr.a da Conceição, Morte e Arvore da penitencia, e dous Eremitaes a
maneyra dos antecedentes; por não haver e se não fazer no ornato destas figuras gasto
considerado que ponha a esta Ven.l ordem em maior decadencia”.
Ou seja, evitavam-se os excessos, tendendo a uma procissão mais comportada, e
reduziam-se os custos, porém sem grandes alterações na estrutura básica do cortejo.
Antes de findar o século XVIII, cabe registrar, ainda dois acréscimos: Em 1772, foi
refeito o “andor das chagas” (ou seja, as imagens de Cristo e São Francisco na cena da
estigmatização). O termo especificava que devia ser feito “de espaldar com sua sanefa
tudo de damasco de ouro e o mesmo com galões, e franjas, que necessarias fossem de
ouro para melhor ornato, aceyo, e culto”142.
Além de remoçar o andor, o acórdão mudava a ordem da procissão, mandando que ele
“feixasse os demais da d.a nossa Procissão por parecer justo, e ser o nosso da Ordem; e
139 Termo de Sessão da Mesa, em 01/11/1767 (citado por Marieta Alves).
140 Acórdão assinado em 18/09/1768 (idem).
141 Termo de Sessão da Mesa, em 17/09/1768 (idem).
142 Termo de Acórdão e Resolução, em 01/02/1772 (idem).
313

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

que o andor de nossa Protetora a Virgem da Conceição,
que de antes feixava a d.a Procissão, fosse o primeiro
objecto de nossa vista, para como filhos lhe
tributarmos os mais affectuosos e reverentes por ser
esta guia, e melhor directora das nossas intençoens”.
Faltando pouco para o dia da procissão, acordava-se que
“havendo tempo se fizesse Imagem de Christo de vulto
grande ordinario, ou fosse a nossa da Capella mor, no
cazo de não poder apromptar aquela”. O Cristo ficou
pronto, mas nada se fala de São Francisco, cabendo
supor que foi aproveitada a imagem já existente.
O outro andor, incorporado em 1783, não registra
antecedente, cabendo imaginar que seja inteiramente
novo. Representa o Crucificado abraçando São
Francisco, inteiramente similar ao conjunto existente no
altar mor da igreja conventual. Porém, esse conjunto foi
esculpido em 1930, cabendo supor que o andor da
Ordem 3ª tenha-se embasado diretamente em Murillo143.
À semelhança do anterior, o acórdão144 descreve
detalhadamente a encomenda: “espaldar e sanefas de
damasco roxo de ouro guarnecido todo de galão de
ouro e as sanefas juntam.e com franja do mesmo, p.a o
q.l se mandasse fazer húa imagem do Snr. Abrassando
a de N.S.P. Tudo na sua ultima perfeição; e hum
Pendão de damasco roxo guarnecido de galão de
ouro, com franjas do mesmo honde fosse necessario
com as armas da mesma Ordem”.
No final do século XVIII, a ornamentação dos andores,
até então dedicadamente feita por irmãos e noviços,
passou a ser contratada por empreitada “em razam das
gr.des despezas que com ella se fazia pela falta de hua
prudente dereçam, e equinomia de quem a dirige”145.
Essa “terceirização” seria o prelúdio da completa
extinção. Já desde 1767, quando aconteceu a grande
reforma no cortejo, admitia-se que, aos noviços que
143 Ou em alguma gravura baseada nele, visto a distância em que o óleo original se encontrava.
144 Termo de Acórdão e Resolução, em 15/08/1783 (citado por Marieta Alves).
145 Termo de Acórdão, em 30/11/1794 (idem).
314

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“se queiram remir desta pensão (a obrigação de arrumar as imagens) se lhe aceite por
remissão della a q.ta de dez mil r.s […] declarando ser para o anjo e mais ornato desta
procissão”146. Daí a se aplicar esse dinheiro na contratação de quem fizesse o trabalho
era só um passo.
De fato, a sociedade barroca estava em decadência. Exibições que, anteriormente, eram
consideradas demonstrações de piedade, passavam a ser vistas como costumes arcaicas e
despesas excessivas. Durante todo o período de reforma da igreja (1827 a 1835) a
procissão parece ter sido omitida em razão das vultuosas despesas dessa obra.
Voltou em 1839. Porém, as dificuldades eram tão grandes que, já no ano seguinte,
novamente a procissão deixou de sair “não só p.r não haver dinheiro p.a tao grande
dispeza, como também pela razão da falta, q.' se tem conhecido, de quem carregue os
Andores, do que resulta huma falta da devida reverencia á um acto tão respeitável”147.
Essa situação se repetiu, em 1841, devido “a falta de fervor, q.' se tem notado nos
Irmãos no acto de carregarem os andores, do q.' tem resultado alguns desgostos, e até
pouca decencia a tal respeito.”
A procissão foi retomada, fugazmente, em dois períodos, 1850 a 1852 e 1859 a 1862,
porém sem a multitudinária adesão de épocas anteriores. Não parece haver registro de
procissões mais recentes.
A procissão das cinzas derivava de tradições espanholas e portuguesas. No Brasil,
começou em Olinda, por volta de 1620148, mas foi interrompida pela invasão holandesa e
nunca recuperou seu brilho por completo. Após a reconquista, a cidade foi reconstruída.
Porém, embora permanecesse nela a aristocracia açucareira e o bispado, criado em 1676,
fosse ali instalado, Olinda não podia competir, economicamente, com a pujança dos
comerciantes instalados no Recife.
Em 1695, uma nova Ordem 3ª foi instalada no Recife. Em 1708, a Mesa encomendou a
Portugal todos os elementos necessários para realizar a sua própria procissão das cinzas.
Além de concorrer, no brilho, com a já decadente procissão olindense, a novidade iria
esvaziá-la pela ausência dos terceiros do Recife, que até esse momento tomavam parte
ativa no cortejo. Assim, a Ordem de Olinda embargou a iniciativa. Se os terceiros do
Recife queriam fazer a sua procissão, que, ao menos, não a fizessem no mesmo dia,
reivindicação esta que obteve o apoio do Cabido, estabelecido em Olinda.
Não podia o Recife aceitar essa decisão, o que iniciou um pleito de mais de dez anos
chegando o Cabido a ameaçar os recifenses de excomunhão. Apenas em 1719, a
procissão do Recife foi autorizada a circular na data canonicamente estabelecida.
146 Termo de 22/11/1767 (idem).
147 Ata da sessão de 16/02/1840 (citada por Marieta Alves).
148 A Ordem 3ª precedeu não apenas todas as outras como também o próprio convento primacial, cuja instalação, em 1585,
foi amparada por terceiros já organizados na sede da Capitania.
315

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Um documento manuscrito, pertencente ao Arquivo da Ordem Terceira de São Francisco
do Recife149, regulamenta detalhadamente a forma em que essa procissão deveria ser
organizada, constituindo um bom exemplo de como aconteciam essas procissões nas
diversas cidades do Brasil150:
A procissão deveria iniciar com diversas “figuras”, eventualmente acompanhadas de
outras secundárias, às vezes complementando, ás vezes conflitando com as principais:
• Primeira Figura: “vestida até o pé, com grenhas e barbas, levará na mão uma
cruz grande na qual vão os braços do nosso Seráfico Padre São Francisco
ornados com uma nuvem e um letreiro na mesma cruz que diz agite penitentia”.
Acompanhavam dois anjos.
• Morte: “vestida como se costuma, na mão direita com uma matraca, na esquerda
com uma gadanha, uma ampulheta nas costas e uma tarja no braço esquerdo que
diz nemini cedo”. Era acompanhada pelo Anjo do Juízo.
• Monstro infernal: “com um letreiro que diz: inferno”. Acompanhado pelo Anjo
do Paraíso.
• Adão e Eva: “vestidos de folhas com cabeleiras sem polvilhos, Adão levará uma
eixada ao ombro […] e Eva levará uma maçã na mão”. Iria acompanhada pelo
Querubim, que “levará na mão um espadim nu”.
As figuras seguintes eram alegorias, cada uma delas acompanhada por um anjo:
• Árvore da Penitência “vestida de saial até o pé, cingida com uma fita parda pela
cinta com grenhas, barbas e descalço, levará nas mãos uma árvore seca com uns
galhos e neles penduradas disciplinas, cilícios e livrinhos, e na mesma árvore um
letreiro que diz: sumentes de fructibus cius”.
• Memória da Morte: “levará na mão direita uma salva de prata com cinza, em
cima e na esquerda uma caveira e um letreiro nas costas que diz: moria mortis”.
• Contrição: “levará na mão esquerda um crucifixo e na direita um coração
passado com uma seta”.
• Confissão: “levará na mão esquerda um crucifixo e na direita um gomil de
prata”.
• Satisfação: “levará na mão esquerda uma salva de prata com cilício, disciplinas
e na direita um crucifixo”.
• Oração: “levará as mãos postas e os olhos no céu”.
• Obediência: “levará os olhos vendados com um pano de lã e as mãos
algemadas”.
149 “Ano de 1739 - Livro em que se acha as formas de compor as procissões de cinza e enterro do Senhor”, em Fernando
Pio: “A Ordem Terceira de São Francisco do Recife e suas igrejas”.
150 Além das ordens terceiras do Nordeste, há constância da realização de procissões similares no Rio de Janeiro, São Paulo
e diversas cidades de Minas Gerais.
316

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

• Desprezo do Mundo: “vestida de saial com uma fita parda cingida pela cinta,
grenhas, barbas e descalço, com um crucifixo na mão esquerda e um letreiro que
principiará do braço da cruz até o pé da mesma, que diz: quid mihi est in celo e
a direita sobre o peito e nas costas um letreiro que diz: contemptus mundi”. Em
vez de anjos, esta alegoria era acompanhada por dois pajens.
• Os Doze Mártires do Japão: “irão três vestidos com hábitos e cabelos, e destes
dois levarão coroas como de religiosos e todos cada um com suas cruzes nas
mãos e seus cutelos nas cabeças e nove irão vestidos com túnicas como terceiros
com cruzes nas mãos e cutelos nas cabeças e todos com seus letreiros nas costas
e alpercatas nos pés, advertindo que todos devem ser meninos brancos”. Os
mártires eram representados por meninos e acompanhados por dois anjos.
• Tirano: “vestido à trágica, com peito, trunfa e uma catana numa mão e levará
dois pajens atrás”. Certamente, representava os infiéis que executaram os
martírios. Junto a ele, desfilava o Anjo Defensor.
Começava, aí o desfile dos andores, precedido pela Cruz da Comunidade: “carregada
por um religioso e acompanhada de dois irmãos sacristões”. Os andores, cada um deles
acompanhado por dois irmãos com seus tocheiros nas mãos, eram os seguintes:
• Nossa Senhora da Conceição, acompanhado por dois anjos:.
◦ Primeiro anjo: “vestido à trágica [...] levará na mão uma palma com um
letreiro no ombro esquerdo que diz: Quasi Palma e com outra irá tirando por
uma fita que sai do andor da Senhora”.
◦ Segundo Anjo: “vestido à trágica […] levará na mão um cipreste e um letreiro
no ombro esquerdo que diz: Quasi Sypressus e também irá tirando de outra
fita que sai do mesmo andor da Senhora”.
• Senhor com a Cruz nas Costas.
◦ Primeiro Anjo: “levará na mão uma cruz e no ombro esquerdo um letreiro que
diz: Arma Crucis”.
◦ Segundo Anjo: “levará na mão uma cruz e no ombro esquerdo um letreiro que
diz: Immitatores mei estate”.
• São Francisco com a Cruz às Costas: “a qual irá com o pé para diante”.
◦ Primeiro Anjo: “levará na mão uma salva de prata com cinza e um letreiro no
ombro esquerdo que diz: Quid Superbit Terra e Cinis”.
◦ Segundo Anjo: “levará na mão uma salva de prata e nela uma camisa e uma
véstia de seda dobrada com um letreiro no ombro esquerdo que diz: Dicam
patei meus qui est in celis”.
Pela mesma forma, cada um dos demais andores era acompanhado por dois anjos
portando atributos dos respectivos santos e identificados com legendas em latim.
317

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

• Pontífice confirmando a Regra (fotos tiradas no museu da Ordem 3ª do Recife):
“Vestido de pontifical, sentado em cadeira de damasco e o Nosso Senhor Padre
de joelhos recebendo a confirmação”.
• Ordem Terceira: “vestido com hábito de seda, como de terceiro com cabeção,
volta, cordão, meias de seda parda, sapatos e cabeleira sem polvilhos, levará no
braço direito uma tarja que diz: Ordem Terceira e no esquerdo outra que diz:
Scalla celli. Na mão direita levará uma palma, na esquerda uma escada”.
• São Lúcio “que levará na mão esquerda um crucifixo e na direita umas
disciplinas” e Santa Bona “que leva na mão direita umas contas e na esquerda
um crucifixo”.
• São Vibaldo: “de joelhos, dentro do tronco de um castanheiro com as mãos
levantadas e duas cidades no andor com suas torres e duas campainhas de prata
ornadas com pelúcia verde”.
• Santa Rosa de Viterbo: “em uma mão uma cruz de pau dourado e na outra um
livro e uma capela de rosas na cabeça”.
• Santa Anna de Fulgino: “abraçada com a cruz, lança, esponja e mais martírios
de Cristo Senhor Nosso”.
• Santa Isabel da Hungria: “leva na mão esquerda um crucifixo e na direita umas
disciplinas, uma mesa no andor, coberta com um pano de damasco e nela uma
salva de prata com uma coroa e cetro”.
• São Luís, Rei da França: “leva na mão esquerda uma coroa de espinhos, com
três cravos e na direita umas disciplinas e uma mesa no andor coberta de
damasco e nela uma salva de prata com coroa e cetro”.
• Santa Margarida de Cortona: “vai debaixo de uma árvore, que sai de um monte
coberto de pelúcia, leva na mão esquerda um crucifixo e na direita umas
disciplinas e cilício de ferro”.
318

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

• São Roque: “vestido de romeiro com uma mão levantando a ponta do hábito
para mostrar a chaga da perna e um anjo junto dele com um lenço na mão
fazendo que lhe alimpa, e ao pé do santo um cão com um pão na boca, e o santo
levará o bordão, cabecinha e chapéu atrás das costas”.
• Santa Isabel de Portugal: “levará na mão direita uma muleta e com a esquerda
irá apanhando o manto em que levava umas rosas e no andor uma mesa coberta
de damasco com uma salva de prata e nela uma coroa e cetro”.
• São Ivo, Doutor: “vestido com sobrepele, capelo e borla, levará uma pena na
mão direita e um livro na esquerda”.
• Senhor Glorioso: “levará na mão um pendão encarnado e na outra umas
moedas, e o Nosso Santo Padre de joelhos e uma nuvem ornada de voltas e
serafins”.
• São Francisco recebendo as chagas: “de joelhos com um monte ornado de
pelúcia verde e dele sai uma cruz com a imagem de Cristo crucificado dentro de
uma nuvem e ao pé da imagem do Santo uma igrejinha de pau dourado”.
• Trânsito de São Francisco: “o qual vai entre dois anjos cercado de um arco de
rosas e do andor sai uma nuvem para o alto ornada de volantes e serafins e do
meio dela sai um resplendor com uma estrela na ponta”.
À continuação, desfilavam diversos anjos, sendo dois com fruteiros de prata cheios de
flores, “as quais irão lançando pelas ruas diante do pálio”, dois com navetas, dois com
turíbulos e dois com lanternas pequenas, junto ao pálio.
Os terceiros que não intervinham como personagens se distribuíam da seguinte maneira:
“Para as varas do pálio: Seis sacerdotes irmãos terceiros com sobrepelizes e capas de
asperges roxas. Para oito lanternas junto ao pálio: oito irmãos terceiros dos mais
antigos e autorizados que tenham servido em mesa. Para governar a Procissão: seis
irmãos, dois sacerdotes da cruz da penitência até a cruz da comunidade. Da cruz da
comunidade até o nono andor: dois irmãos seculares autorizados que tenham servido
em Mesa. Do nono andor até o pálio: dois irmãos terceiros dos mais autorizados que
tenham servido em Mesa. Os irmãos ex-ministros, principiando o mais antigo ou que
tiver servido três vezes no andor do trânsito de Nosso Senhor Padre e mais se irão
seguindo por sua ordem conforme a sua antiguidade, preferindo os mais antigos aos
modernos e quando estes se cheguem a cobrir os andores se seguirão vice-ministros e
na falta destes os ex-secretários, aos quais se seguirão os irmãos ex-síndicos”.
O documento conclui com uma exortação: “A todos os quais irmãos se manda em
virtude da santa obediência assistam todos e cada um no lugar que lhe fica sinalado
com a maior compostura e modéstia, que pode ser e pede um ato como este, tanto do
agrado do Nosso Senhor Pai como do serviço de Deus”.
319

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não tive oportunidade de fotografar os
santos sem as suas vestes. Assim, tomei a
liberdade de reproduzir algumas fotos
encontradas na Internet.
Na imagem ao lado151, observa-se que os
limites entre as imagens anatomizadas e
de roca não são absolutos.
É mais comum que as partes superiores
sejam anatomizadas, o que dá às
vestiduras um caimento mais natural.
As partes inferiores – normalmente a partir da cintura - são substituídas por uma
estrutura de ripas finas para reduzir o peso. As roupas, amplas e soltas, não deixam
perceber essa simplificação.
Essa cena - a confirmação da regra pelo Papa Inocêncio III – é similar à representada na
página 318 e fazia parte de todas as procissões de cinzas. A imagem acima é da Ordem
3ª de São Francisco de Mariana, Minas Gerais. As seguintes – o Papa (centro) e os dois
cardeais (esquerda e direita) – são da Ordem 3ª do Rio de Janeiro152.

A despeito da rusticidade da estrutura interior, rostos, mãos e outras áreas aparentes
eram primorosamente esculpidos e encarnados. Vestidas e ornamentadas, as imagens
atingiam um aspecto solene e extremamente expressivo, pronto para comover os
participantes e assistentes às procissões. As imagens seguintes – Santa Margarida de
Cortona, São Luiz da França e Santa Isabel de Portugal – são da Ordem 3ª de Salvador.
151 Reproduzida de Maria Helena Ochi Flexor: “Imagens de Roca e de Vestir na Bahia”. Revista Ohun, outubro 2005.
152 Reproduzidas de Nancy Regina Mathias Rabelo: “Santos de vestir da Procissão das Cinzas do Rio de Janeiro Fisionomias da fé”. http://www.dezenovevinte.net/obras/imagens_nancy.htm.
320

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Pese à qualidade e à expressividade dessas imagens, nem sempre elas foram
pacificamente aceitas pela hierarquia eclesiástica. Já as Constituições do Porto153,
aprovadas em 1585, dispunham que as imagens “se façam, pintem, & vistam com a
honestidade, & decencia conueniente aos sanctos que representam”, vedando,
expressamente, que “se vistam, & ornem com vestidos emprestados que ajam de tornar
a seruir em vsos profanos”.
Mais drasticamente, as Constituições da Bahia154, publicadas em 1707, determinavam
“que as Imagens de vulto se facaõ daqui em diante corpos inteyros pintados, & ornados
de maneyra que escusem vestidos, por ser assim mais conveniente. E as antigas que se
costumaõ vestir, ordenamos se faça de tal modo, que naõ se possa notar indecencia nos
ornatos, vestidos, ou toucados [...] E naõ sejaõ tiradas as Imagens das Igrejas, &
levadas a casas particolares para nella serem vestidas, nem o seraõ com vestidos, ou
ornatos emprestados, que tornem a servir em usos profanos”.
Para além do cuidado na separação entre o sacro e o profano155, na obrigação de fazer
imagens que “escusem vestidos” e na proibição de vestir as antigas em casas
particulares, nota-se o receio de que as imagens sejam “despidas” sem o devido respeito.
Neste sentido, a imagem de vestir apresentava uma particular vulnerabilidade, exposta a
diversos tipos de profanações. Mesmo assim, não apenas “as antigas que se costumaõ
vestir” continuaram a ser utilizadas como, até bem entrado o século XIX, encontra-se
numerosos comprovantes da encomenda de imagens novas, o que, de fato, constituía
uma flagrante violação ao determinado nesse texto.
153 Frei Marcos de Lisboa: “Constituições Synodaes do Bispado do Porto”.
154 Sebastião Monteiro da Vide: “Constituições Sinodais do Arcebispado da Bahia”.
155 Todas as constituições coincidem em que os objetos utilizados no culto devem ser novos, especificamente feitos para
esse fim, e que, no caso de descarte, devem ser destruídos conforme a procedimentos rigorosamente determinados.
321

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Provavelmente em decorrência dessa proibição, as
imagens de vestir raramente aparecem no interior das
igrejas, limitando-se, geralmente, ao uso processional.
Exceções são as capelas de irmandades e ordens terceiras,
onde – nos casos em que não há casa dos santos – as
imagens de roca eram guardadas e expostas nos altares,
concentrando devoções durante o ano todo.
Na Ordem Terceira de Penedo, por exemplo, todas as
imagens são de roca, inclusive o São Francisco do altar
mor. Todo o conjunto tem as características usuais do
andor da procissão de cinzas, sendo muito provável que –
como as outras imagens – fosse retirado da capela e
carregado nas procissões da Ordem.

Em todo o mundo português, a procissão das cinzas ocorria onde quer que houvesse uma
Ordem 3ª, vinculada ou não a um assentamento conventual.
Do Rio de Janeiro – ao que pertencem as imagens da página anterior – restou a seguinte
narração, escrita por Nancy Regina Mathias Rabelo com base em anotações de Jean
Baptiste Debret, que conheceu a procissão por volta de 1820:
“Segundo Debret (1839, 1996, p. 373), a procissão das Cinzas acontecia na seguinte
disposição: o pomposo séquito era inaugurado por oficiais, anjos e portadores de
candelabros e cruzes. O primeiro andor apresentava um casal de reis. Em seguida,
vinha um andor com imagens representando São Francisco com a cruz, ao lado de
Cristo também com a cruz, aludindo à similaridade da vida de S. Francisco com a de
322

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Jesus Cristo. O terceiro andor trazia o conjunto da Cúria, representando a entrega da
Regra de São Francisco ao papa, assistido pelos cardeais. O quarto andor trazia “um
rei e uma rainha de pé”. O quinto andor exibia a imagem de Santo Antônio de Noto.
Seguia-se Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da Ordem. Logo em seguida, a
imagem de Santa Margarida de Cortona, a pecadora arrependida. O andor seguinte
vinha com a representação de São Francisco e o Senhor crucificado. Após este,
aparecia o andor de São Roque seguido pelo de São Luís, Rei de França, e logo atrás,
Santa Isabel, rainha de Portugal. O último andor, que encerrava a procissão, era a cena
marcante do recebimento das chagas, em que São Francisco adora o Cristo Seráfico na
cruz e dele recebe os estigmas”156.
Observe-se que os temas se repetiam de uma cidade a outra, aparentemente baseados na
procissão do Porto, onde, aliás, eram encomendadas boa parte das imagens utilizadas
nas procissões brasileiras. Dali procederam, entre outras, as imagens originais do Recife
e do Rio de Janeiro.
Em Minas, mesmo não havendo conventos, os terceiros faziam a procissão: “a cruz da
penitência ladeada por dois círios, a morte (representada por pessoa com vestido
dotado de pintura com esqueleto), a árvore da ciência (com uma cobra enrolada), Adão
e Eva à trágica, um querubim com espada, a árvore da penitência, o rei penitente
(Davi), os Inocentes (mártires de Marrocos), o turco, o anjo defensor, a cruz da Ordem,
o andor da Ordem (São Francisco recebendo as Chagas); os andores da Conceição, de
São Francisco, da Cúria (Confirmação da Regra), de São Luiz, de Santa Isabel de
Portugal, do Amor Divino (São Francisco abraçando Cristo na cruz), de São Roque, de
São Ivo, dos Bem Casados (São Lúcio e Santa Bona) etc. Dentro desse escalonamento
simbólico, aparecia o andor do Cristo Crucificado, finalizando o cortejo”157.
Ainda em Minas, Selma Melo Miranda158 aporta um dado interessante ao registrar o
“aluguel de mulas para o transporte do andor da cúria, que conduzia as imagens de
São Francisco com o papa Gregório IX e dois cardeais”159. Além de confirmar a
repetição da mesma cena em diversas localidades, a referência evidencia que, ao menos,
esse andor específico – provavelmente, em decorrência da multiplicidade de
personagens, que, mesmo em estrutura de roca, tornava o peso excessivo – não era
carregado em ombros e sim, num veículo com rodas e tração animal.
156 Nancy Regina Mathias Rabelo: “Santos de vestir da Procissão das Cinzas do Rio de Janeiro - Fisionomias da fé”.
http://www.dezenovevinte.net/obras/imagens_nancy.htm.
157 Procissão das Cinzas de 1751, em Ouro Preto, descrita por Adalgisa Arantes Campos em “Semana Santa na América
Portuguesa: pompa, ritos e iconografia”. CNPq/UFMG.
158 Selma Melo Miranda: “A igreja de São Francisco de Assis em Diamantina”, 2009 - IPHAN – Programa Monumenta.
159 O texto incorre num erro ao atribuir o encontro ao papa Gregório IX, o que não invalida a referência à utilização de
mulas. De fato, Gregório IX foi responsável pela canonização de São Francisco, anos depois de a regra ter sido aprovada
por Inocêncio III, que é o papa representado no andor.
323

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Portugal, Simões Barrico160 registrou que os irmãos terceiros apresentavam-se
“como era costume nestes actos, sem capa, com coroas d'espinhos na cabeça, e a maior
parte descalços”. Em 1705, abria a procissão o estandarte, seguido pela cruz da
penitencia, árvore com a serpente, Adão, Eva, duas alegorias da penitencia, o querubim e
cinco anjos. Iam depois os andores de Santa Margarida de Cortona; Santo Elisiário
Conde; Santa Isabel de Portugal, São Luiz da França; Santa Isabel da Hungria; Santo Ivo
Doutor, São Lúcio e Santa Bona e São Francisco recebendo as Chagas. O mesmo autor
acrescenta: “No anno de 1738 supprimiram-se as figuras n'esta procissão como já o
tinham sido na do Enterro do Senhor”161.

Voltando à Ordem 3ª de Salvador, também a sacristia foi reformada no século XIX,
datando dessa época o teto e os retábulos. Do XVIII, conservam-se os gaveteiros, os
azulejos e o curioso lavabo, elaborado com incrustações de mármore de diversas cores.
160 Joaquim Simões Barrico: “Noticia Histórica da Venerável Ordem Terceira da Penitencia de S. Francisco da Cidade
de Coimbra e de seu Hospital e Asylo”, Coimbra - 1895”.
161 Será que esta menção de Simões Barrico corresponde às figuras “à trágica”, banidas de Salvador em 1767?
324

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em 1935, o piso, originalmente de madeira, foi substituído por mármore sobre a laje de
cimento que serve de teto ao ossuário, inteiramente reformado nessa oportunidade.
Era costume antiga enterrar os irmãos na igreja da ordem.
Consta ter havido sepulturas em baixo da capela mor. O espaço
atual foi ocupado em 1787, quando a Mesa resolveu “fazer
hum Carnr.o ou Simiterio [...] afim de se feixarem as sepulturas
da Igreja ficar esta com mais a ceyo”162.
Em 1835, a lei provincial número 17, de 2 de junho de 1835,
concedeu o monopólio dos sepultamentos à empresa
Cemitérios da Cidade, que se incumbiu de construir um
cemitério privado – o atual Campo Santo – em troca dos
direitos de exploração exclusiva pelo período de 30 anos, após
o qual a propriedade e a gestão reverteriam ao governo.
162 Termo de resolução, em 20/10/1787 (citado por Marieta Alves).
325

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Invocava-se razões de saúde pública. Porém, não escapava à população o caráter
especulativo do empreendimento, que várias empresas disputavam e que lesava não
apenas tradições e crenças religiosas como concretos interesses das confrarias e
irmandades, que obtinham dessa atividade boa parte dos seus lucros.
As reações da população não foram imediatas. Inicialmente, diversos setores apoiaram a
privatização e até o Arcebispado se prontificou a estabelecer regras que
compatibilizassem o novo cemitério com as exigências da religião católica. Porém, a
resistência contra essa medida organizava-se aos poucos, procurando, simultaneamente,
apoio jurídico e força de pressão.
Em 20 de outubro de 1836, faltando poucos dias para a inauguração do novo cemitério,
a Mesa da Ordem 3ª chamou todos os irmãos a reunião, na igreja da Ordem, convocando
também um advogado para prestar os devidos esclarecimentos. Nessa reunião –
provavelmente paralela às que as outras irmandades realizavam para o mesmo fim –
ficou decidido apresentar “representação ao Governo reclamando os direitos que a esta
Ordem pertenciam a 200 anos”. A assembleia, assim reunida, resolveu, ainda, que,
“emq.to não houver húa providencia a respeito, sejão os nossos Irm.s enterrados nos
Conventos da Villa de S. Fran.co ou S.to Ant.o de Paraguassú”163.
A representação alegava que “havendo p.a o dito fim suas Catacumbas apropriadas ao
tempo em que forão construidas, projectando fazer construir melhormente outras […]
ficam tolhidos de continuar no pio e religioso emprego das ditas Catacumbas, e de
exercer o livre direito de estabelecer outras no decurso dos 30 annos concedidos pela
citada Lei á Companhia emprezaria”.
Aduzindo que o novo local de enterramento feria intensamente a consciência dos fiéis
“q.' não vêm no Cemiterio da Companhia senão um Estabelecimento especulativo”,
argumentava, ainda, que “impetrando a Communidade dos Religiosos de S. Francisco
licença da Camara Municipal para construir e estabelecer um Cemiterio no
consentaneo sitio da Boa Viagem; estava de accôrdo com a Ordem 3ª dos Repr.es a
realizar o mesmo Estabelecimento; e sendo p.r essa vez desattendidos em sua supplica,
recorrerão á Assembléa Geral do Império, cuja impendente Decizão definitiva, ou
remissiva ao Corpo Legislativo Provincial […] he de mais uma razão […] em que se
acha o direito adquirido […] seja sobre suas antigas e existentes Catacumbas […] seja
a respeito da prevenção rezultante da mencionada concessão da Camara Municipal
para o proposto novo Estabelecimento no sitio da Boa Viagem164”.
163 Ata da reunião realizada da Igreja da Ordem, em 23/10/1836 (citada por Marieta Alves).
164 Representação encaminhada pela Ordem 3ª ao Governo provincial, em 23/10/1836 (citada por Marieta Alves).
Esta representação, com 76 assinaturas, é particularmente importante, não apenas por evidenciar a juridicidade das ações
iniciadas pela Ordem 3ª como por registrar que houve um projeto concreto de adequar-se às exigências sanitárias,
construindo um novo cemitério em local afastado. Cogitava-se, certamente, aproveitar terras pertencentes ao Hospício
da Boa Viagem.
326

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A resposta não se fez esperar. No mesmo papel, o governador escusou-se de atender o
pedido indicando que: “He dever deste Gov.o cumprir, e fazer cumprir exatam.te a Lei
uma vez sanccionada e o contracto celebrado em consequencia da mesma Lei”. Sugeria,
assim, encaminhar a representação à Assembléia Legislativa Provincial, “a quem cabe
conhecer da procedencia das razões pelos supp.es ponderadas”.
Diante da negativa, a Mesa se reuniu novamente e optou por deslocar os enterramentos
para fora do município, ficando “deliberado pagar-se ao Convento de S. Francisco a
esmola de 15$000 por sepultamento efetuado nas Igrejas dos mencionados Conventos
da Vila de S. Francisco e Paraguassú” e autorizado o Irmão Vigário “a procurar um
saveiro e todas as commodalidades precizas”.
No dia seguinte ocorreu o motim popular conhecido como “Cemiterada”165. Convocada
a Ordem 3ª de São Francisco a participar da passeata pela sua correspondente do Carmo,
essa participação foi submetida a votação, com resultado negativo. Assim, embora o
Visconde de Pirajá – apontado como um dos líderes da resistência ao projeto
governamental – fosse membro proeminente da Ordem 3ª, não parece que a mesma
tenha exercido participação ativa nos desmandos que levaram à destruição do cemitério.
E, de fato, não houve culpados. A polícia assistiu, impotente – ou conivente? – alegando
não ser possível conter tamanha multidão.
O inquérito foi arquivado sem identificar responsáveis. Em vista da explosiva
impopularidade do projeto, as autoridades procuraram distanciar-se dele. A Assembleia
Legislativa passou a discutir supostas deficiências de execução do cemitério e acabou
revogando a lei que autorizara a concessão. Os empresários pleitearam e conseguiram
uma indenização de noventa e oito milhões de reis e o governo acabou passando o
problema para a Santa Casa de Misericórdia pelo preço irrisório de dez milhões166.
Mesmo após a transferência, os enterramentos nas igrejas e ordens terceiras continuaram
e não se voltou a tocar no assunto até que, em 1849/50, uma epidemia de febre amarela
acendeu novo alerta sobre as condições sanitárias. Então, respondendo a intimações do
governo, a Ordem 3ª convocou uma junta médica para verificar seu cemitério. O laudo,
assinado por quatro “acreditados entendidos das Sciencias – Medicas”, atestava que
“p.r sua situação abaixo do nível da Igreja, sufficiente espaço, apurado aceio do local e
boa construção das sepulturas, não causará damno á saude publica”167.
No mesmo ano foi sancionada uma nova lei proibindo o sepultamento em igrejas.
165 Há uma descrição detalhada deste conflito em João José Reis: “A morte é uma festa: Ritos fúnebres e revolta popular
no Brasil do século XIX”. São Paulo: Companhia de Letras, 1991.
166 Próximo ao Campo da Pólvora, a Santa Casa tinha um cemitério para escravos e indigentes, “colocado na parte mais
prejudicial á cidade, por ser naquella, donde hé certa a periódica viração que todos os dias corre indefectivelmente,
vindo banhar a cidade”. Luiz dos Santos Vilhena: “Recopilação de noticias soteropolitanas e brasilicas”. Posto o
Campo Santo sob administração da Misericórdia, esse cemitério foi desativado em 1844.
167 Informação prestada em 10/11/1850 e laudo médico anexo (citados por Marieta Alves).
327

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, visando evitar novos conflitos, estabelecia diversas exceções, autorizava
explicitamente a construção de cemitérios por “Confrarias, Irmandades, Ordens
Religiosas e Casas Pias” e vedava a concessão a empresas particulares168.
Com base nessa lei e novamente apremiado pela epidemia de cólera que se abateu sobre
a Bahia em 1854/55, foi decidida a criação de um cemitério público, aproveitando-se
para isso a capela existente no alto das Quintas169. Aproveitando essa oportunidade e
tomando como base o artigo acima citado, a Ordem 3ª solicitou a concessão de uma
parcela – depois ampliada com a compra de terrenos particulares – para construir seu
próprio cemitério, ainda existente170.

168 Lei Provincial nº 404, de 02/08/1850.
169 A Quinta dos Lázaros (atual Arquivo Público do Estado) pertenceu aos jesuítas e foi posteriormente usada como
leprosário. Portanto, é bem provável que no alto, em frente dela, já existisse ali esse local de enterramentos, depois
ampliado para construir o cemitério público.
170 Outras irmandades optaram pela mesma alternativa. Em frente, do lado contrário da praça e ficando no meio o
cemitério público, encontra-se o da Ordem 3ª do Carmo.
328

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em 1854, a Mesa resolveu substituir o piso do corredor da portaria por pedra mármore
“pois que tal ladrilho já carcomido e estragado em muitas partes, alem de estar em
flagrante desharmonia com a riqueza do Templo á que serve de entrada, depõe contra
esta Confraria que gosa, com razão, do credito de abastada, e que na realidade o é, e a
certos respeitos não deve estar a quem de outras menos opulentas”171. Não satisfeita
com esse luxo, pouco depois decidiu estender o mármore ao corredor oposto e ao
claustro, substituição que ficou concluída em 1955.
São desta época – aproximadamente coincidente com a epidemia de cólera – as lápides
mais antigas do claustro. Porém, não parece que o ladrilhamento em mármore tenha sido
feito com essa intenção. Os registros da Ordem apontam, apenas, razões estéticas. Por
outra parte, a epidemia de febre amarela já estava longe e o cólera só viria se manifestar
em julho desse ano.
Talvez a utilização dos corredores como locais de enterramento tenha-se iniciado
impensadamente, como um recurso de emergência diante da superlotação do cemitério,
mas também é possível – como, de fato, acontecia em diversas igrejas e conventos – que
já existissem sepulturas no claustro e tenham desaparecido os sinais externos quando o
piso foi substituído. Seja como for, as lápides atestam que essa prática não se extinguiu
com o fim da epidemia e nem mesmo cessou com a inauguração do Cemitério das
Quintas. Todo o corredor do lado oposto à igreja está ocupado com túmulos que chegam
até a década de 1930.
O que sim, documentadamente, foi decorrente da epidemia, é o altar de São Roque,
protetor contra a peste e padroeiro dos inválidos e cirurgiões. Em setembro, ainda no
auge da peste, encomendou-se a confecção de uma nova imagem de São Roque “em
razão da q.' existe , a lem de ser de róca, não ter os emblemas de tal Santo”172.
171 Relatório discutido em Mesa, na sessão de 16 de julho de 1854 (citado por Marieta Alves).
172 Ata da sessão de 08/09/1855 (idem).
329

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No início do ano seguinte, a nova imagem foi
entronizada no centro do corredor frontal do claustro,
num altar construído especialmente: Junto dela,
colocou-se a seguinte inscrição:
“Foi dedicado este altar ao Glorioso S. Roque adv.
contra a peste, e nel'e colocado por F.r M. de S. Rosa
com viz. Desta V.O. no dia 10 d'Fvr.o 1856”.
Iniciou-se, assim, uma devoção duradoura, incluindo a
festa anual, a cada 16 de agosto. Porém, do retábulo
elaborado em 1856 subsiste apenas a imagem. Um
novo altar, construído no mesmo local, foi inaugurado
em 24 de agosto de 1919. Também o claustro foi
drasticamente modificado, sendo os telhados dos
corredores cobertos por platibandas com frontões
triangulares e molduras em relevo.

Em 1934, a Mesa resolveu transformar o antigo
cemitério em ossuário173, para onde – passada a
fase inicial de sepultamento no cemitério das
Quintas – seriam trasportados os restos dos irmãos
que quisessem repousar na sede da Ordem.
Atendendo a determinações da Saúde Pública, não
seriam usadas “caixas de folhas e sim de
marmore”174. A partir dessa data, não houve novas
lápides no claustro.
173 Entendido na acepção original de “lugar onde se guardam ossadas de defuntos”.
174 Ata da sessão de 13/05/1934 (citada por Marieta Alves).
330

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Passando a considerar as dependências administrativas, partindo do corredor lateral
esquerdo, uma escada, ricamente ornamentada, conduz ao consistório, que fica em cima
da sacristia, precedido por uma ante-sala com azulejos historiados, porta emoldurada em
pedra e teto em caixotões.

O consistório era o centro da vida social da irmandade. Nele eram tomadas todas as
decisões. Diretamente dessa sala, abrem-se portas para as tribunas da igreja e para a
capela mor, às quais os membros da Mesa tinham acesso privilegiado.
Embora conste ter sido ampliado em 1886, o consistório conserva, estilisticamente, as
características originais do século XVIII. É uma longa sala com janelas conversadeiras,
centrada numa grande mesa elevada sobre uma plataforma. Aos lados da porta há
armários similares aos da sacristia e, no extremo contrário, um retábulo barroco, único
sobrevivente dos que antigamente adornaram o templo e seus anexos.
331

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O repertório azulejar da ordem 3ª ultrapassa largamente o da maioria dos conventos.
Além da longa sequência do claustro, referente ao cortejo nupcial de D. José I e Mariana
de Bourbon175, o consistório apresenta diversas paisagens de Lisboa, especialmente
valiosas por terem sido pintadas antes do terremoto de 1755.

175 – Ver imagens comentadas nas páginas 195 e 196.
332

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os pequenos painéis, por baixo das conversadeiras, na sacristia e no consistório, estão
preenchidos com azulejos que retratam cenas bucólicas e de trabalho.

No corredor principal, além das albarradas, há diversas cenas historiadas, entre as quais
destaca, mais uma vez, a gravura de Sadeler sobre os milagres de São Francisco176.

A escada do consistório é ladeada por eremitas e cenas de batalhas.

176 Compare-se com as imagens da página 206.
333

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No claustro, podemos encontrar azulejos de todos os períodos. Além dos que
representam o cortejo nupcial de D. José I e Mariana de Bourbon – tentativamente
situados na década de 1730 – há dois painéis, ladeando o altar de São Roque, que têm
uma aparência bem mais antigua. O seu estado de conservação é precário, parecendo
que estiveram cobertos e foram recuperados durante algum trabalho de restauração. A
simplicidade do traço ainda lembra os azulejos holandeses de figura avulsa.

Contrariamente, os bancos de mármore que separam o pátio dos corredores estão
exteriormente revestidos de azulejos amarelos lisos, limitados por uma barra reta de
volutas em alto-relevo. Esses azulejos foram colocados em 1869. Pouco depois, em
1871, os assentos de madeira foram substituídos por mármore.

Resta mencionar, ainda, alguns azulejos que não chegaram a existir. Em 1859, foram
mandados colocar, no subcoro, dois painéis representando, respectivamente, “o passo
historico do nascimento do Nosso Santo Patriarcha”, e “endentico passo da Nossa
Matriarcha S.ta Izabel”. Conforme o registro, não foram executados “por não ter dado o
respectivo desenho quem delle se encarregou”177.
177 Ata da sessão de 15/05/1859 (citada por Marieta Alves).
334

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por falar em reformas, um acréscimo muito significativo foi a incorporação de sete
lâmpadas de prata, uma para cada altar. Hoje estão eletrificadas. Porém, antigamente,
eram alimentadas com azeite, o que também diz muito dos costumes da época.
Era bastante comum a doação para determinado altar de uma igreja. Ela podia incluir a
construção ou reforma do retábulo ou a disponibilização de algum acréscimo, como as
lâmpadas aqui referidas. Não raro, essa doação era acompanhada por alguma fonte de
renda destinada a abastecê-las de azeite para que ficassem eternamente acesas.
Em 1806, um ex-ministro da Ordem, o capitão Antônio Gonçalves Ferreira, mandou
trazer, do Porto, uma lâmpada para o altar de São Francisco. A doação incluía, também
um frontal de prata178 e “hua pedra para servir de estrado do mesmo Altar [...] para
debaixo da dita pedra ser o meu jazigo, não tendo a dita pedra Epitafio algum”179.
Logo após, a mesa mandou fazer uma lâmpada igual. Marieta Alves não achou o registro
dessa encomenda, o que nos impede de conhecer o seu destino. É possível que fosse
uma questão de hierarquia. Mesmo em se tratando de São Francisco, não poderia um
altar lateral ter maior ornamento que o altar mor. Porém, essa encomenda acabaria
motivando uma nova oferta. Em 1807, o mesmo artesão que fizera a lâmpada anterior
ofereceu-se para confeccionar mais cinco. Assim, todos os altares da igreja contariam
com o mesmo equipamento.
Além do seu caráter utilitário, como elemento de iluminação, esse acréscimo evidencia a
relativa independência desses altares, equipado, cada um deles, com os recursos
suficientes para a celebração de ofícios independentes e simultâneos. Somente assim se
explica a informação de Jaboatão segundo a qual celebravam-se, nessa igreja, “para
sima de vinte mil missas, nas quaes entraõ as que se dizem pelas obrigações, e encargos
da ordem, pelas almas dos Irmaõs defuntos, que determinaõ em seos testamentos se
mandem dizer em a nossa Igreja”180.
178 Depois, deslocado para o altar mor. Ver imagem na página 306.
179 Termo de Acórdão e de aceitação, em 30/04/1806 (citado por Marieta Alves)
180 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”. Esse total dá uma média diária de 55 missas ou
7 a 8 missas em cada altar. Além de evidenciar uma ocupação intensiva da igreja, esse nível de atividade devia constituir
uma apreciável fonte de renda para o convento, cujos frades eram, habitualmente, os celebrantes.
335

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Supreendeu-se Marieta Alves ao descobrir que apenas a porta central fazia parte do
projeto original da fachada. Ambas as portas laterais foram agregadas durante o intenso
período de reformas entre 1827 e 1835. Em 1830, “foi proposto pelo nosso dito Irmão
Ministro, que em razão de se achar a nossa Igreja reformada com o novo retabulo, que
se está findando, por se achar o que existia bastantemente arruinado, parecia justo, e
de razão gozar a Igreja da mesma Ordem de mais claridade, para melhor sair a obra do
novo Retabulo rasgar-se mais duas portas da frente da mesma Igreja, como tambem
para formoziar, e brilhar a frente da sobredita Igreja”181.
Pouco depois, contratava-se carpinteiro para executar a obra, com o seguinte
detalhamento: “Quatro meias portas, que feixadas figurem duas inteiras com desaseis
palmos de altura, e sete de largo, entrando neste espaço os caixilhos. Cada hua metade
com quatro almofadas cavadas, e levantadas, em estufo almofadado de moldura pelo
risco apresentado, emitando o estufo da principal. As ditas portas serão bem
engradadas, e rezistentes, molduras bem corridas, e lizas, e bem lixadas, que não
apareça exfarpamento. Serão feitas de Potomujú e caixilhos de madeira possante, ou da
mesma, recebendo o fabricante toda a madeira, e ferragem competente, para as dar
promptas em seo lugar”182.
Confesso que também fiquei surpreso. Porém, mais ainda me admirou a falta de
referências sobre o trabalho na pedra. Não é possível abrir uma porta sem furar a parede
e, no caso desta fachada, qualquer alteração seria extremamente complexa. Quem e
como teria feito a obra de talha para adaptar essas duas novas aberturas sem mutilar
sensivelmente a harmonia da fachada original?
Uma primeira hipótese, baseada no já constatado em outras igrejas, seria o
aproveitamento de janelas ou nichos de imagens, simplesmente estendendo as molduras
já existentes para rasgar a parede até o chão, respeitando a talha em volta.
181 Termo de Acórdão e Resolução, em 01/11/1830 (citado por Marieta Alves).
182 Contrato assinado em 15/01/1831 (idem).
336

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Observando detalhadamente a fachada, constatei a inconsistência dessa hipótese. O
espaço entre as colunas é pequeno e as portas o ocupam por completo. Caso existissem,
anteriormente, janelas ou nichos, certamente seriam mais estreitos. Além disso, se
houvesse janelas, não haveria falta de luz e, sendo nichos, provavelmente estariam no
alto, mais próximos do local dos óculos.

Feitas essas constatações, passei a observar detalhadamente as obras de talha. Apenas
como hipótese, cheguei a imaginar que toda a parte inferior tivesse sido substituída
nessa oportunidade. A fachada apresenta grande unidade. Porém, aproximando os
detalhes, advertem-se diferenças apreciáveis.
O friso lateral, em volutas fitomorfas, coincide com o existente na parte superior. Porém,
a talha é mais arredondada e menos profunda. Todas as obras de talha, nessa área, são
mais superficiais, com menor relevo, e os motivos fitomorfos são mais clássicos. A
disposição dos ramos, sob os óculos, lembra uma coroa de louros greco-romana sobre
um fundo absolutamente liso. Nas colunas, apenas rostos de anjos e volutas com folhas
que pendem verticalmente. Outras folhas, decorando o fundo, estão apenas esboçadas.
Os capitéis são jônicos, perfeitamente clássicos. Os rostos são serenos e olham
frontalmente. O movimento em S, que anima as figuras do plano superior, aqui está
totalmente ausente. Também não encontramos as máscaras, grotescamente barrocas, que
servem de base a essas figuras. Se a exuberância da parte superior lembra o plateresco
espanhol ou o barroco mestiço da Bolívia, a serenidade da inferior passa uma impressão
bastante próxima do neoclássico.
Havia, nessa época, escultores capacitados? Ao menos um
detalhe parecia abonar essa hipótese. No tímpano, as armas do
Império substituíram as portuguesas. É o corpo central do brasão
do 1º Império – vigente até 1870 – e é bem possível que tenha
sido executado como parte das mesmas obras de reforma.
337

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, falando em reformas, a mais drástica não chegou a ser executada. Em 1835, os
terceiros solicitaram do convento licença para “fazer levantar Torre, ou torres nos lados
do frontispicio da Igreja da Ordem, ou cederem V.V.R.R., mediante huma esmolla
annual, q.' arbitrarem, a torre do Convento da parte da Ordem, q.' se acha innutil, p.a
nella ou na q.las colocar os sinos q.' lhes forem mister p.a funebrizarem, ou solenizarem
os actos, e funções da m.ma Ordem, e até os do m.mo Convento, nunca porém os
externos”. Enquanto isso não acontecesse, os frades do convento continuariam, como até
então, “a m.dar fazer p.los Ir.os falecidos […] os 3 sinaes do costume” subsistindo a
obrigação dos terceiros de “pagar a meação da despeza de cada sino, q.' se houver de
quebrar, seja nas funções da Ordem, seja nas do Convento”183.
Não era habitual que as ordens terceiras tivessem sinos. Não apenas o respeito pela
primeira ordem exigia o recuo da fachada e a dependência dos sinos do convento como
essa dependência constituía uma fonte adicional de renda para os religiosos conventuais.
Os terceiros de São Domingos tinham torre, mas essa exceção se justificava pela
ausência da Ordem 1ª, que não chegou a estabelecer-se no Brasil. Também têm sinos as
ordens terceiras de Minas Gerais, construídas num período em que a legislação
portuguesa vedava o estabelecimento de novos conventos. Porém, que uma ordem
terceira ao lado da igreja conventual resolvesse construir torres era uma ousadia
inaudita184 à que, surpreendentemente, os frades aquiesceram.
Onde ficariam essas torres? Provavelmente, aos lados
da fachada, sacrificando apenas os pináculos que
delimitam o tímpano. Certamente, iriam sobrepor
ambas as entradas laterais185: a que dá acesso ao
corredor que conduz ao consistório e a que se abre em
direção ao claustro, entre a igreja e a casa dos santos.
Por razões que desconheço, essa obra não chegou a ser
concretizada, o que, segundo Marieta Alves, evitou um
“atentado de lesa-arte”. Porém, muitas igrejas da
época tiveram suas torres construídas posteriormente e
nem sempre acompanharam a talha do frontispício.
Pelo contrário, eram bem mais sóbrias e, mesmo
assim, integravam-se harmonicamente às fachadas.
Não tendo essa obra sido executada, não podemos
julgar, aprioristicamente, o resultado.
183 Requerimento apresentado aos franciscanos, em 29/11/1835 (citado por Marieta Alves).
184 Não existiam, ainda, as torres da Ordem 3ª do Carmo, construídas entre 1855 e 1860.
185 Como se observa em outras igrejas com sobreposições similares, essa construção exigiria o reforço de paredes e
alicerces, que avançariam até emparelhar com o nível da fachada.
338

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Além de providenciarem o enterramento dos defuntos e a encomenda das almas, as
irmandades e ordens terceiras desenvolviam outras atividades assistenciais:
empréstimos, assistência legal, auxílio alimentar, hospitais, recolhimentos, asilos etc.
Eram, em definitiva, funções similares às da Santa Casa de Misericórdia, exceto o fato
de que esta agia como instituição de caridade e aquelas, como entidades mutuárias. Ou
seja, limitavam-se ao atendimento das necessidades dos seus membros, o que muito
colaborou ao crescimento dessas instituições.
Ainda no século XVII, Luiz Dias Henriques deixou testamento “para os gastos do
hospital que a dita Venerável Ordem pretende mandar fazer para a cura dos enfermos
pobres, nossos Irmãos”. Com o mesmo intuito, Domingos Rodrigues Correia legou bens
para ordenado do capelão do hospital a ser criado186.
Porém, o projeto não evoluiu. Antecipou-se a Ordem 3ª do Recife, que, em 01/11/1723,
conseguiu colocar a primeira pedra. Em Salvador, similar decisão foi tomada apenas em
1802. Mesmo assim, para evitar novos atrasos, a Mesa abriu mão de construir um novo
edifício, optando por aproveitar duas casas já existentes, que foram transformadas em
enfermarias, para homens e para mulheres. Esse núcleo inicial foi, posteriormente,
incrementado com capela e outras dependências comuns.
Na mesma oportunidade, foi resolvido nomear “dois enfermeiros de hum, e outro sexo,
em cuja nomeação teriam preferencia os nossos Irmãos, se para isso tivessem aquella
capacidade necessaria a este respeito, para os quais se fariam os seus commodos
dentro das mesmas casas, para mais prompto socorro dos doentes”, bem como
“Medico, e Cirurgião, e barbeiro, e o mais que fosse necessario”187.
186 Testamentos citados por Marieta Alves.
187 Termo de Mesa e Junta, em 24/08/1802 (citado por Marieta Alves).
339

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A inauguração aconteceu em 05/10/1806. Com sucessivos consertos e ampliações, esse
hospital permaneceu em atividade até 1860, em que foi concluído o Asilo Santa isabel.
Marieta Alves aponta que “na realidade, por esse tempo o chamado Hospital não
passava de uma Casa de Asilo. Raramente o Irmão recolhido saía com vida”. Essa
reflexão – aliás, oportuna – precisa ser colocada no seu devido contexto.
Não apenas os recursos médicos eram insuficientes. A própria definição do conceito de
hospital estava ainda em evolução. Inicialmente vinculado à noção de hospedagem,
serviu, durante a idade média e boa parte da moderna, como alojamento temporário de
indigentes, peregrinos etc. Os havia a caminho de Santiago de Compostela, de Roma, de
Jerusalém. Hospedava-se, entre outros, idosos, doentes, crianças e mulheres privadas do
entorno familiar. Especula-se, até, que a prática médica associada aos hospitais tenha se
iniciado como uma atividade secundária, pressionada pela necessidade de controlar a
proliferação de doenças nessas habitações coletivas.
Inicialmente, era comum esses hospitais serem mantidos pela Igreja ou pelos mosteiros,
associando-se a eles a prática da medicina, misto de religião e ciência, porque “muytas
vezes a enfermidade do corpo procede de estar a alma enferma com o peccado”188.
Porém, no século XII, o exercício da medicina foi proibido, sucessivamente, aos
monges, canônicos regulares e clérigos seculares e, em 1312, o Concílio de Viena
decidiu que todo o tratamento dos enfermos seria feito por leigos.
Mesmo assim, à religião competia o direito de assistência espiritual e se advertia “a
todos os Médicos, & Cirurgiões, & ainda Barbeyros, que indo visitar algum enfermo,
naõ sendo a doença leve, antes que lhe appliquem medicinas para o corpo, tratem
primeyro da medicina da alma, admoestando a todos a que logo se confessem,
declarandolhes que se assim o naõ fizerem os naõ podem visitar, & curar por lhes estar
prohibido por direyto”189. Os médicos eram leigos. Porém, os hospitais continuavam
vinculados às entidades religiosas.
Nos séculos XVII e XVIII, a função de “cura dos enfermos pobres” já estava claramente
estabelecida. Porém, ainda não era estranho que os hospitais servissem de última
residência aos doentes que não tinham perspectivas de recuperação. Essa duplicidade
estava claramente presente no hospital da Ordem 3ª e ficou ainda mais patente ao ser
criado o Asilo Santa Isabel, desativando, simultaneamente, o hospital para incorporar as
suas funções ao novo empreendimento.
Em 1840, já concluída a reforma da igreja, foi apresentada a proposta de “continuar-se a
edificar huma Caza de Invalidos, e de educação dos filhos dos Irmãos pobres no mesmo
lugar, em q' já se havia dado principio em outro tempo a tal edifício”190.
188 Sebastião Monteiro da Vide: “Constituições Sinodais do Arcebispado da Bahia”.
189 Idem.
190 Ata de 26/02/1840 (citada por Marieta Alves).
340

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ignoro a que construção se refere esse registro. Talvez à ampliação do hospital iniciada
em 1813 e da qual Marieta Alves não dá informação sobre a conclusão da obra. O certo
é que essa obra interrompida não parece ter sido aproveitada. Em 1848, já reunido o
capital inicial para dar início à nova construção, acordou-se em Mesa “que fosse o
edificio levantado no terreno em que tem a Ordem um jardim posterior a Sachristia,
estendendo-se paro o quintal dos nossos Ir.os Religiosos”191.
Estender-se ia o novo edifício por trás da sacristia do convento, onde hoje existe um
pequeno cemitério, mas a licença foi negada pelos religiosos indicando que “não
obstante haver de nossa parte e do Difinitorio vontade de ceder o terreno pela Digna
Meza pretendido, a Communidade votou em sentido contrario, obrigado pela razão de
que está o convento por instantes a perder a maior parte de sua cerca e não convir-lhe
alienar-se do pequeno espaço que lhe resta”192. Certamente, não foi alheio a essa
negativa o receio dos frades pela construção da Rua da Vala 193, iniciada em 1849, que
iria mutilar boa parte dos terrenos de propriedade do convento.
Diante da negativa dos frades, os terceiros providenciaram um terreno alternativo, do
outro lado da vala, sendo a primeira pedra colocada em 08/10/1848.
O edifício foi construído em dois andares
em torno a um grande pátio retangular. Um
corredor central comunica todos os quartos,
deixando grandes salões no centro das alas
maiores e salas de estar em cada uma das
esquinas. O pátio ajardinado, onde destacam
uma fonte e um coreto, contribui a arejar os
quartos e constitui uma agradável área de
lazer.
“Assente em uma planura – registrou o
Jornal da Bahia, no dia da inauguração194 –
o edificio offerece de todos os lados livre
e excellente panorama; sua construção,
debaixo de todas as regras hygienicas, é
bem executada, o que muito concorre para
realçar o talento do engenheiro que deo o
plano”195.
191 Termo de Resolução e Acórdão, em 15/08/1848 (citado por Marieta Alves).
192 Resposta do Ministro Provincial, em 19/09/1848 (idem).
193 A atual José Joaquim Seabra, popularmente conhecida como “Baixa dos Sapateiros”.
194 Jornal da Bahia, 05/06/1860 (citado por Marieta Alves).
195 Refere-se ao Diretor de Obras Públicas da Província, Tenente Coronel de Engenheiros João Bloem.
341

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para salvar o desnível, foi construída uma extensa galeria sobre arcos, precedida por um
pórtico que deveria constituir o acesso principal pela recém-traçada Rua da Vala. Ainda,
em 1901, o terreno enladeirado possibilitou a construção de um grande jardim e de uma
escadaria imperial em vários lances, hoje escondida por trás das edificações comerciais
da Baixa dos Sapateiros. Degraus e balaustradas são de mármore. Para maior
ornamentação, foram importadas da Itália quatro estátuas representando as estações. A
magnificência desse acesso ainda pode ser apreciada desde os altos do Pelourinho196, na
imagem de satélite da página anterior197 ou na visão superior, a partir de uma janela do
segundo andar.

Hoje, galeria e pórtico perderam a sua importância. O acesso é feito pelo fundo do
prédio, na altura do primeiro andar. O portão de grades fica permanentemente fechado.
Arcada e pórtico viraram oficinas e depósitos.
O jardim, embora bem cuidado, é pouco visitado. A idade avançada dos hóspedes do
asilo – hoje denominado Lar Franciscano – lhes dificulta o trânsito nas escadas.
196 Foto na página 339.
197 Google Maps.
342

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Visando melhor aproveitá-las, as estátuas foram deslocadas para o pátio superior. Lá
pode observar-se, também, uma estátua de São Francisco, rodeado de aves, sobre uma
fonte sustentada por leões de mármore.

É pertinente observar que o vultuoso investimento que estas obras demandaram efetuouse precisamente no momento em que a primeira ordem, sacrificada durante todo o século
XIX, estava próxima da extinção. Apenas a chegada dos restauradores da Saxônia evitou
que os franciscanos desaparecessem do Brasil. Já os terceiros, com bons recursos e uma
economia bem administrada, ainda eram capazes de afrontar grandes empreendimentos.

Hoje, liberado das funções de hospital e educandário, o Lar Franciscano Santa Isabel –
ainda administrado pela Ordem 3ª – hospeda pouco mais de 120 idosos - mormente em
quartos individuais (exceto quando há relação de parentesco) e conta com serviços de
fisioterapia, enfermagem e uma capacidade estimada em 150 leitos.
343

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Dentre as propriedades administradas pela
Ordem 3ª, merece especial destaque a Capela
de São Miguel. Ou, mais precisamente, “do
Senhor Bom Jesus de Bouças Crucificado da
Via Sacra e São Miguel”.
Quem era o “Bom Jesus de Bouças”? Hoje
quase esquecida, essa era a denominação
original do Senhor de Matozinhos, o mesmo
do Santuário de Congonhas do Campo.
A lenda dessa imagem remonta à própria
crucificação de Cristo. São Nicodemo – o
fariseu convertido que, segundo o Evangelho
de São João, participou do sepultamento de
Jesus – teria ficado, inicialmente com o Santo
Sudário e, com base nele e nas suas próprias
observações, retratado fidedignamente a cena
da crucificação em imagens esculpidas em
madeira, ocas, dentro das quais teriam sido
conservadas diversas relíquias.
198
Um cronista do século XVIII identifica quatro delas, reputadas por autênticas: o de
Bouças, no Porto, o “de Berito” (antiga denominação de Beirute), o de Burgos
(Espanha) e o de Lucca (Itália), acrescentando, como provável, o de Orense (Galicia).
Porém, diversas outras cidades reivindicavam similar privilégio. Valência, também na
Espanha, intitula-se, até hoje, como herdeira do Cristo de Beirute.
A autenticidade de cada imagem legitimava-se por circunstâncias milagrosas. Elas
chegavam boiando em mares ou rios, e apareciam, sem intervenção humana, em locais
determinados pela divina Providência. Já imerso no ceticismo do século XIX, Johann
Alzog199 escreveu: “son tantas las efigies fabricadas por Nicodemus, y venidas por agua
a España, durante esta época, que solamente subidas por el Ebro contra la corriente
hay hasta tres, uma em Balaguer, otra em el Pilar de Zaragoza, y otra em Tudela”.
Segundo Cerqueira Pinto, a imagem de Bouças foi encontrada flutuando, perto da praia
de Matosinhos, em 142 D.C. Faltava-lhe um braço, que apareceu também boiando, 50
anos depois. Estava tão deteriorado que foi tomado por um pedaço de pau, até que uma
muda recuperou a fala para anunciar que se tratava do braço perdido.
198 António Cerqueira Pinto: “Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado, que com o titulo de Bom Jesus de
Bouças se venera no lugar de Matozinhos na Lusitania” (1737). Em http://archive.org/details/historiadaprodig00pint.
199 Johann Baptist Alzog: “Historia Eclesiástica de España: o adiciones a la historia general de la Iglesia” - Volumen 2
(1855). Em http://books.google.com.do/.
344

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Segundo a mesma fonte, a população de Matosinhos, já
evangelizada por São Tiago, erigiu uma primeira igreja,
onde a imagem200 foi cultuada até a invasão dos suevos. Em
409 D.C. visando evitar a sua profanação, Arisberto, bispo
do Porto, mandou escondê-la entre duas paredes do
Mosteiro de Bouças, onde teria permanecido igualmente
durante a ocupação muçulmana. Porém, tanto no tempo dos
suevos quanto no Islã, o culto teria subsistido – às vezes em
forma clandestina, às vezes publicamente – posto que em
ambos os períodos houve alguns soberanos tolerantes com a
religião cristã.
A despeito do pormenorizado detalhamento de Cerqueira
Pinto, não há registros históricos sobre a existência do
mosteiro em 409 D.C. O documento mais remoto em que se
faz menção a ele é do ano 944, estimando-se que tenha sido
construído por volta de 920. Quanto ao exame do Cristo –
bem como o das outras imagens atribuídas a Nicodemo – o
estilo das talhas permite situar a sua origem no período de
transição entre o românico e o gótico. Isto é, entre os
séculos XII e XIII.
Mesmo assim, a tradição reforçava a lenda e, quando o grau de deterioração do mosteiro
se tornou preocupante, a imagem foi transferida para a Matriz de Matosinhos,
inaugurada em 1550 e soberbamente reformada em 1737201.

200 Foto reproduzida de “Horizontes da Memória - O Senhor de Matosinhos”, RTP - Rádio e Televisão de Portugal, 1997.
201 Foto reproduzida de http://www.antoniochaves.com/fotografia-360-visita-virtual/igreja-de-matosinhos/.
345

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A capela de Salvador é, provavelmente, anterior a essa reforma. Pela data da sua
construção – e, também, pela manutenção do nome de Bouças – é possível que seja o
primeiro templo dessa devoção em território brasileiro.
O fundador, Francisco Gomes do Rego, iniciou o “Santo exercício da via Sacra” em
23/01/1725, vinculando a capela ao desejo “de perpetuar este Santo exercício”202. Não
consta, nos documentos, a data de fundação da capela. Porém, não pode ser posterior à
de 1732, que aparece nas placas ladeando a porta principal. Parte em latim, parte em
português, essas placas podem ser traduzidas assim: “Eis a via a ser percorrida. A Via
Sacra é comutação dos santíssimos lugares da nossa redenção”. “Jesus, Maria, José.
Eis o caminho do céu. Quem este caminho desprezar, não quer se salvar”.

Recolhe-se, assim, uma antiga tradição, segundo a qual a prática da via sacra é uma
forma mais acessível de alcançar os efeitos benéficos de uma peregrinação a Jerusalém.
Após o fracasso das Cruzadas, que tornou cada vez mais difícil a visita a Jerusalém, os
franciscanos – custódios do Santo Sepulcro – estimularam formas alternativas de
reproduzir o caminho ao Calvário. Assim nasceram os sacros-montes de Varallo,
Montaione e Braga, aos que se seguiram empreendimentos similares de outras ordens ou
mesmo fiéis devotos que os patrocinavam a título individual.

Em Matosinhos não há sacro-monte, mas existe uma bela via sacra203 representada em
talhas policromadas no interior da igreja. Não é possível apresentá-la, com absoluta
202 Petição de Francisco Gomes do Rego à Mesa da Ordem 3ª, em 04/10/1744 (citada por Marieta Alves).
203 Reproduzidas de “Horizontes da Memória - O Senhor de Matosinhos”, RTP - Rádio e Televisão de Portugal, 1997.
346

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

certeza, como antecedente da devoção de Gomes do Rego, posto que só veio a ser
executada como parte da reforma de 1737. Porém, é quase certo que ela deveria
continuar um culto já em voga na igreja original.
Aliás, a igreja toda evoca a Paixão de Cristo. No corpo central do retábulo, a Virgem
Dolorosa e São João Evangelista compõem o Calvário. Aos lados, José de Arimatéia e
Nicodemo. No arco triunfal, figuras alegóricas exibem panos com o rosto ensaguentado
de Cristo – o “Véu da Verônica” – os pregos e a coroa de espinhos204.

No Brasil, merecem menção os sacros-montes de Congonhas e Monte Santo. O culto
podia localizar-se também em grutas, como a de Bom Jesus da Lapa.
Onde não havia santuários específicos, se
imitava Jerusalém por meio de “passos” –
visitados nas procissões – embutidos nas
fachadas dos edifícios. Nenhum deles se
conserva em Salvador, mas há registros
como a foto ao lado, do antigo Palácio dos
Governadores, onde a porta com a cruz
inscrita corresponde a uma dessas capelas205.
No caso da capela de São Miguel, o fundador deixou instruções detalhadas: Em troca da
doação da capela, a Ordem 3ª devia fazer “vesitar enfalivelmente dous dias em cada
semana as cruses da Samta via Sacra publicamente em qual quer das partes onde
estiver plantada nesta cidade, por quinse pobres de qual quer dos sexos a que darão a
esmola de quarenta r.s a cada hum, e oitenta r.s ao capatas, por cada vez que fiserem
este santo exercicio, os quais hirão findar o acto na Igreja da ordem terceira, ou na dita
capella do Senhor Jesus, doada, donde fiser mais conveniencia e facilidade, para
204 Fotos reproduzidas de http://www.antoniochaves.com/fotografia-360-visita-virtual/igreja-de-matosinhos/.
205 Reproduzida de Gilberto Ferrez: “Bahia. Velhas Fotografias 1858-1900”. Banco da Bahia/Livraria Kosmos, 1988.
347

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

convocar e pagar aos mesmos pobres; ou tambem por Irmaons da dita ven.el ordē
tersseira congregados ou não congregados, como pelo tempo em diante millor paresser
aos doados, para conservação e perpetuidade do mesmo santo exercicio, que he todo o
fim a que elle doador encaminha esta doação; e nos dias chovosos que não poderē
sahir a rua para vesitarē publicamente as cruses da via Sacra, satisfarão com resarem
hum Rosario, terço, ou coroa na Igreja da ordē, ou na dita capella do Senhor Bom
Jesus”. Ainda, para não deixar dúvidas do que devia entender-se por “perpetuidade”, o
doador acrescentava: “e assim se hirá continuando em quanto o mundo durar”206.
Fora a perpetuação desse “Santo exercício”, Gomes do Rego exigia a celebração anual
de sete missas “tres no dia tres de Mayo ao Senhor crucificado, hūa no dia oito do
mesmo mez a Sam Miguel, outra em vinte e nove de Setembro ao mesmo Sam Miguel,
outra em coatro de Outubro a Sam Fran.co e a ultima em oito de Dezembro a Nossa
Senhora da Conceição”.
Junto com a capela, Gomes do Rego legou à Ordem 3ª todos os seus bens, incluindo a
“orta e terra athe o brejo” e pouco mais de vinte casas cuja renda deveria ser aplicada à
sustentação dessas obrigações piedosas. Ainda, sentindo-se, provavelmente, próximo da
morte, obrigava os terceiros “a conservarem a elle doador em quanto vivo for nas casas
em que se acha morando, ou em outra qual quer parte donde elle quiser estar e eleger
assim e na mesma forma e com a mesma liberdade que athe o presente tem e lhe darão
em cada hum ano em dr.o sincoenta mil r.s, que tanto reserva somente para sua
sustentação […] e lhe sustentarão e vestirão os tres escravos do seu servisso chamados
João, Sebastião, e Ventura, que da mesma sorte se comprehendem nesta doação e ficão
por ela precadoados a dita ven.el ordē tersseira”.
Dificilmente possa encontrar-se um documento da Ordem Terceira que melhor reflita as
contradições da época. Francisco Gomes do Rego, de quem nada se sabe a não ser que
“sendo homem de negocio, o largou, e se poz a viver espiritualmente na mesma caza
junto á capella”207, passou os últimos vinte anos da sua vida não praticando esse santo
exercício, mas pagando para outros praticarem. A eufemística denominação de “esmola”
fica logo esclarecida pela pré-determinação dos valores. Pode-se falar em “esmola
tabelada”? Para maior clareza, durante todo o período em que a Ordem cumpriu com
essa condição, arquivou os recibos, sempre assinados pelo capataz, que se incumbia de
distribuir a cada pobre a parte correspondente e se identificava, pitorescamente, como
“Capatás Vitalicio da Pobreza Mendiga”.
Em momento algum se menciona uma ação de caridade mais prática, em benefício de
alguém e sem receber nada em troca. Todo o “Santo exercício” se resume a uma
ritualidade cuidadosamente programada, a ser repetida “em quanto o mundo durar”.
206 Escritura de doação da capela, passada em 12/10/1744 (citada por Marieta Alves).
207 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.
348

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não longe dele, tinha o doador a oportunidade de exercitar uma obra de caridade. Os
seus escravos poderiam ser libertados desde logo ou, ao menos, após a sua morte.
Entretanto, ele nem sequer cogita essa possibilidade. Antes, exige a permanência deles
ao seu serviço e, após a morte, os deixa em doação à Ordem 3ª, perpetuando a sua
condição de escravos.
Mesmo a doação dos seus bens é dada em troca de rigorosas
condições: assistência, em quanto vivo, jazigo perpétuo, na
capela, missas após a sua morte e continuação da prática
ritual pela qual esperava obter o seu lugar no Paraíso.
Morreu pouco mais de um ano após a doação e, conforme
acordado, foi enterrado em sua capela. Com a modéstia
habitual no período – igualmente ritualizada e potencialmente
vazia – foi coberto com uma placa de mármore em que se lê:
“Francisco, grande peccador e indigno fundador desta
capella, pede misericordia aos seus irmaõs terceiros”.
A Ordem 3ª cumpriu rigorosamente com a Via Sacra durante
mais de um século. Em 1858, a Sé Primacial concedeu a
comutação dessa prática “em esmolas avultadas em beneficio
de pobres donzelas e viuvas recolhidas”208.

A capela é pequena, porém bastante alta. Além da nave, conta com capela mor, um altar
lateral, dois colaterais, cancelo, coro e tribunas.
208 Despacho do Arcebispo D. Romualdo Seixas ao requerimento da Ordem 3ª, em 17/08/1858 (citado por Marieta Alves).
349

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os altares colaterais hospedam imagens de São Francisco e
Nossa Senhora da Conceição. O lateral, de São Roque. No
altar mor encontram-se duas imagens: Cristo crucificado e
São Miguel.
Mas não é este o Bom Jesus de Bouças. O Cristo que está no
altar é o que ficava na Ordem 3ª até a reforma de 1827/35.
Em 1854, “existindo na Casa, uma antiga e perfeita Imagem
de Christo Crucificado, em ponto grande, e sendo a que
existe na capella de S. Miguel de mediocre dezempenho,
carecendo aquella apenas de ser encarnada, deliberou-se q.
se mandasse preparar, para ser collocada na dita capella de
S. Miguel em substituição da q. nella existe”209.
Não é de se admirar que, acostumada ao
movimento das imagens barrocas, a Mesa
considerasse como medíocre a rigidez do
Senhor de Bouças210, que, caso fosse fiel ao
original, tentaria reproduzir a aparência do
Cristo românico ao qual se dedicava a
devoção da capela211. Igualmente rígidos
são os Cristos de Burgos, Valência, Orense
e Lucca, bem como as reproduções do
Senhor de Matozinhos que se encontram
em Congonhas, Tiradentes, São João del
Rei e Paraíba do Sul.
Comparativamente, o Cristo retirado da Ordem 3ª deveria parecer muito mais natural e
emotivo. Muito mais familiar, aos olhos dos fiéis brasileiros do século XIX. De fato, é
uma bela imagem. Porém, não é o Bom Jesus de Bouças, ao qual Gomes do Rego
dedicou a via sacra e a capela.
Felizmente, a imagem retirada não foi desaproveitada. Na sessão seguinte, “deliberouse, q. na epocha em q. for substituida na Capella de S. Miguel, a imagem ali existente
do Senhor Bom Jesus de Bouças pela q. se mandou preparar, aquella seja collocada no
vão do Altar da m.ma Capella, mandando-se-lhe fazer os arranjos necessarios com a
devida decencia para poder ser exposta, e reverenciada pelos devotos”212. Assim, o
Senhor de Bouças foi transformado em Senhor Morto e colocado em baixo do altar.
209 Ata de sessão da Mesa, em 19/10/1854 (citada por Marieta Alves).
210 Foto reproduzida de http://www.antoniochaves.com/fotografia-360-visita-virtual/igreja-de-matosinhos/.
211 Foto reproduzida de “Horizontes da Memória - O Senhor de Matosinhos”, RTP - Rádio e Televisão de Portugal, 1997.
212 Ata de sessão da Mesa, em 12/11/1854 (citada por Marieta Alves).
350

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Essa transformação da imagem apresenta uma curiosa
coincidência. Falando do Cristo de Burgos213 – outra das
imagens atribuídas a Nicodemo – Cerqueira Pinto214
informa que “quando se achou, foy na figura de morto, e
da cruz descido […] E supposto que o de Burgos de muitos
annos a esta parte se venera na Cruz pendente o foy
porque os Religiosos Heremitas de Santo Agustinho
daquella Cidade, quando a seu poder chegou
milagrosamente este Sagrado penhor, lhe mudarão a
figura, que representava de Christo morto, e da Cruz
descido, na do mesmo Senhor, nella Crucificado”. Ou seja,
enquanto o Cristo de Burgos passou de morto a crucificado,
o de Salvador fez o caminho inverso.
Porém, onde está hoje o Bom Jesus de Bouças? Não encontrei imagem nenhuma em
baixo do altar. A cuidadora da capela me disse que foi retirada há algum tempo e não
soube informar-me a localização atual. Procurei na Ordem 3ª e observei que, na Casa
dos Santos, há duas imagens do Senhor Morto, uma em nicho específico, protegido com
vidro, sob a imagem de Nossa Senhora das Dores, e outra de maiores dimensões,
simplesmente depositada sobre uma plataforma forrada com pano. Todas as outras
imagens têm nichos específicos. É evidente que não foi feita para ficar nesse ambiente.

Será ele o Bom Jesus de Bouças? A reprodução não é exata. Porém, é bem possível que
o escultor não conhecesse o original e, simplesmente, o reproduzisse por informações de
terceiros. De fato, também a imagem de Congonhas não é exatamente igual ao original.
213 Imagem de Zarateman reproduzida do site Wikimedia Commons.
214 António Cerqueira Pinto: “Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado, que com o titulo de Bom Jesus de
Bouças se venera no lugar de Matozinhos na Lusitania” (1737).
351

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Uma característica essencial coincide: Os pés são paralelos, sugerindo que foram
pregados separadamente. Também a rigidez dos braços lembra a da imagem original.
Porém, o rosto é bem mais natural, aproximando-se claramente dos Cristos barrocos.

Curiosamente, a imagem que está no altar – essa, sim, nitidamente barroca – também
não parece ter sido esculpida para ser um Senhor Morto. Tanto a cabeça quanto as mãos
encontram-se levantadas, longe da posição jacente que corresponderia a essa
representação. Não fosse os pés estendidos, dir-se-ia que é o Cristo amarrado à coluna,
em atitude de receber, mansamente, os açoites.
Porém, também poderia ser que essa posição das mãos derivasse do remanejamento dos
braços do crucificado. Numa escultura barroca, essa flexão teria sido bastante natural.
Será que o Senhor de Bouças era esse? Ou bem, além desses dois, existe – ou existiu –
mais um Senhor Morto na Ordem Terceira?

Além do Senhor de Bouças, a capela tinha mais um orago: São Miguel. Obedecendo à
hierarquia determinada nas Constituições215, a sua imagem encontra-se no altar mor,
porém num nível inferior ao do Cristo crucificado, que está no topo do trono.
215 Sebastião Monteiro da Vide: “Constituições Sinodais do Arcebispado da Bahia”.
352

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Seguindo o padrão iconográfico adotado por Raffaello
da Montelupo no Castel Sant'Angelo216, veste como um
soldado romano, empunha uma espada e segura uma
balança217, símbolos da força e da justiça.
Essa estátua – feita em mármore, com asas de bronze e
destinada a ficar no topo do castelo – foi substituída, em
1753, por outra, inteiramente em bronze, executada por
Pierre van Verschaffelt sobre um projeto de Bernini218, e
encontra-se hoje num pátio interno da fortaleza.
A imagem de Bernini,
mais teatral e ajustada
ao fato representado219,
não tem balança. Porém,
ela estabelece o padrão
estético que irá caracterizar as representações do arcanjo
durante todo o período barroco.
Na sua qualidade de chefe das milícias celestiais, São
Miguel era devoção típica dos militares. Porém,
Jaboatão anotou que Gomes do Rego era negociante. É
possível que a opção
pelo arcanjo tenha mais
relação com a balança
que com a espada.
Desde a Idade Média, aproximadamente a partir do
século XI, São Miguel vinha sendo representado como
“pesador de almas”. Ainda sem atributos militares –
vestindo uma túnica até os tornozelos – pesava as almas
dos falecidos numa balança (possivelmente, herança do
Thoth egípcio), tendo por contra-peso um diabinho,
representativo dos pecados, enquanto diversos demônios
tentavam desequilibrar a balança, puxando o prato dos
pecados para empurrar a alma na direção do Inferno220.
216 Foto Cecilia Bermudez reproduzida de http://www.flickr.com.
217 Ambos elementos desapareceram na estátua de Sinibaldi. Porém, a mão direita ainda conserva a empunhadura da
espada e a posição da esquerda sugere a presença da balança perdida.
218 Foto Jorge Valenzuela reproduzida de http://commons.wikimedia.org/.
219 Em procissão contra a peste, no ano 590, o Papa Gregório I teve uma visão. No topo do mausoléu de Adriano – atual
Castel Sant'Angelo – São Miguel embainhava a espada, como a indicar o fim do flagelo que se abatia sobre Roma.
220 Afresco românico espanhol do século XIII, reproduzido de http://fineartamerica.com/.
353

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Essa iconografia tinha estreita relação com os
“Ars Moriendi” textos que visavam ajudar o
cristão a bem morrer, ou seja, a morrer na
graça de Deus, evitando a condenação eterna e
encontrando o caminho ao Paraíso.
Não bastava, para tal fim, agir corretamente.
Exércitos de demônios iriam cercar o leito do
moribundo. Para morrer santamente, era
preciso contar com a ajuda dos santos e dos
anjos. Assim, o cristão, nesses tempos, passava
boa parte da vida preparando-se para a morte.
Se a ajuda dos anjos era importante, mais ainda
o era a de São Miguel, considerado o chefe da
milícia celeste e o principal executor do Juízo
Final. Ninguém melhor do que ele poderia
interceder em favor das almas do Purgatório e
a ele eram devotadas numerosas irmandades,
conhecidas como “de São Miguel e Almas”.
Não há almas na capela de São Miguel. A
balança, de metal bem polido, apresenta
apenas caráter simbólico, remanescente a
partir da segunda metade do século XVIII.
Antes – na época da fundação da capela – era
habitual a presença delas, tal como pode
apreciar-se em diversas cidades de Minas
Gerais221. A ausência desse detalhe permite
inferir que a imagem, embora antiga, possa
não ser a original, certamente inclusa por
Gomes do Rego na doação da capela.
Mesmo assim, essa era, provavelmente, a razão principal do acréscimo desse orago.
Orando pelas almas do purgatório, Gomes do Rego estaria preparando o terreno para que
a sua própria alma – quando lá chegasse – recebesse o benefício de similares orações.
Tal era, em definitivo, o objetivo essencial do empreendimento. Fundando a capela,
iniciando o exercício da Via Sacra, tomando as providências para perpetuá-lo e
agregando-lhe o culto de São Miguel, ele estaria preparando o terreno para, após a sua
morte, ter um seguro e aprazível trânsito ao Paraíso.
221 Ao lado, detalhe de imagem conservada na Matriz do Pilar de São João Del Rei. Foto Rangel Cerceau reproduzida de
Adalgisa Arantes Campos: “São Miguel, as Almas do Purgatório e as balanças”, http://www.fafich.ufmg.br/.
354

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Antes de concluir com a Ordem 3ª, seja-me permitido voltar sobre a fachada para tentar
uma análise iconográfica.
Prévio à descrição pormenorizada de cada
uma das suas partes, vale fazer um
destaque para esclarecer a dimensão da
reforma executada em 1830.
Falando nela, cheguei a considerar a
possibilidade de que todo o corpo inferior
tivesse sido refeito. Porém, comparando
esse corpo com a portada do Solar do
Saldanha, também atribuída a Gabriel
Ribeiro, observa-se fortes semelhanças.
Também nessa fachada – onde igualmente existem estátuas a modo de hermas, frisos de
acanto, e mísulas em forma de volutas em curva e contracurva – os relevos variam
conforme a posição que ocupam. Os frisos de acanto que adornam as superfícies
externas são profundos e detalhados. Já nas áreas de menor destaque, como as faces
internas que emolduram a porta, as folhas estão apenas insinuadas e apresentam um
posicionamento muito similar ao que se pode apreciar, por exemplo, ladeando os rostos
de anjos que ornam os capitéis jônicos da Ordem 3ª.
Na observação atenta, percebe-se que apenas as superfícies retangulares que se
encontram entre as colunas, de um e outro lado da porta principal, foram sacrificadas
para abrir as portas laterais. Certamente, os óculos e a correspondente cercadura de
louros são parte dessa reforma. Já as colunas, os anjos, os capitéis e a cartela da porta
principal devem ter sido conservados da obra original.
O que havia entre essas colunas? Que entalhes foram sacrificados para abrir as portas?
Não há modo de sabê-lo. Porém, e bem possível que fossem, apenas, talhas decorativas,
sem conteúdo iconográfico relevante. Tipicamente, na estrutura da fachada-retábulo, o
maior conteúdo iconográfico se concentra nos corpos médio e superior.
Outro detalhe a ser esclarecido é a substituição do brasão real pelo brasão do Império.
Citando matéria do Jornal “A Tarde”, Frei Pedro Sinzig anotou que “A parte superior da
cornija é de pedra com o grau mais apertado. Nota-se um escudo ao centro, que é de
massa, parecendo ser feito posteriormente, em homenagem a D. Pedro I, na sua
passagem pela Baia”222.
Portanto, não há grandes trabalhos em pedra executados em 1830. O novo brasão foi
modelado em argamassa e, certamente, as cercaduras de louros devem ter sido
elaboradas com a mesma técnica.
222 Frei Pedro Sinzig: “Maravilhas da Religião e da Arte”. IHGB, 1933.
355

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não se conservam registros contemporâneos que expliquem ou interpretem a fachada da
Ordem Terceira. Não há “riscos e traças” nem contratos entre a mesa e os artífices que
descrevam o serviço a ser executado. A única menção de autoria está contida num
assento da Mesa segundo o qual “se presentarão nella varias e differentes plantas feitas
pelos Mestres Architectos desta cidade, para que de todas ellas se fizesse escolha da
que se mostrou melhor, segundo o parecer dos mais scientes votos, e por ella se
proseguir na fabrica das novas obras que esta Ven. Ordem 3.ª intenta edificar; e sendo
vistas e ponderadas com a maior attenção as ditas plantas se fez escolha de uma feita
pelo Mestre Gabriel Ribeiro, por ser ella a que se achou mais bem repartida em melhor
proporção e com todas as circunstancias conducentes ao magnífico da obra e luzes
della”223.
Em momento nenhum se fala em “riscos” ou “traças”, o que denotaria claramente um
projeto mais abrangente. Fala-se, apenas, em “plantas”, ou seja, distribuição espacial no
sentido horizontal, enfatizando que a escolha é feita por ser a “mais bem repartida”.
Também o acordo com os frades centra-se nos problemas de circulação e localização de
portas. Apenas a alusão às “circunstancias conducentes ao magnífico da obra” leva a
supor que o projeto envolvesse também a estética da fachada.
De fato, a menção de Jaboatão, segundo o qual “athe o proprio frontispicio he de pedra
entalhada”, foi feita na segunda metade do século XVIII. Não fosse a data sobre a porta
e a semelhança com o Solar Saldanha, poder-se-ia pensar que a ornamentação da
fachada é posterior à construção da igreja.
E quem era esse Gabriel Ribeiro? As informações são escassas. Ávila Lins224 indica que,
entre junho de 1684 e maio de 1685, trabalhou como carpinteiro na antiga igreja dos
oratorianos do Porto. Porém, o “Dicionário de Artistas e Artífices do Norte de
Portugal”225 atribui esse serviço a um outro Gabriel Ribeiro, diferente do que esteve em
Salvador. No que ambas fontes coincidem é em que o nosso Gabriel Ribeiro apresentou,
na Baía, em 1699 uma “carta de examinação” expedida pelo Senado da Câmara do
Porto, donde se supõe fosse originário.
Reunindo informações dessas duas fontes, sabemos que foi admitido na Santa Casa de
Misericórdia na qualidade de irmão “de menor condição”, que executou para a Câmara
Municipal uma obra “nas casas que foram do açogue”, que fez obras de carpintaria na
sacristia e consistório da Ordem Terceira do Carmo e que elaborou os riscos do
recolhimento e da escada de mármore policromado da Santa Casa Misericórdia.
223 Termo de concordata celebrada em 18/12/1701 (citado por Marieta Alves).
224 Eugênio de Ávila Lins: “O trabalho do Mestre Carpinteiro Gabriel Ribeiro na Ordem Terceira de São Francisco de
Salvador”, em Os Franciscanos no Mundo Português II, CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e
Sociedade, setembro de 2012.
225 “Dicionário de Artistas e Artífices do Norte de Portugal”. Coordenação: Natália Marinho Ferreira-Alves, CEPESE –
Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, agosto de 2008.
356

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não há, entretanto, comprovação documental da
sua autoria no Solar Saldanha, atribuída, apenas,
por comparação com a fachada da Ordem 3ª, de
comprovação igualmente dúbia. A demolição do
Recolhimento da Misericórdia impede o confronto
estilístico que poderia reforçar essas atribuições.
A escada, ainda conservada, é um trabalho de características completamente diversas226.
Quanto às obras de carpintaria, tanto no Carmo quanto na Misericórdia, podem ser
indícios de que Ávila Lins está certo ao identificá-lo com o Gabriel Ribeiro dos
oratorianos, mas não constituem prova definitiva. Cabe acrescentar que também a obra
do Oratório desapareceu na construção da igreja atual, de maneira que as possibilidades
de identificar um estilo próprio na obra de Gabriel Ribeiro são bastante escassas.
A identificação estilística da fachada tem sido igualmente controversa. A sua semelhança
com obras platerescas e churriguerescas foi sucessivamente afirmada e refutada por
diversos autores. Também as similitudes com o barroco mestiço do planalto boliviano e
peruano são evidentes, porém discutíveis em termos de influência mútua em função da
cronologia das obras e da escassa comunicação entre essa região e a Bahia.
É verdade que há grandes semelhanças entre a portada do Solar Saldanha e as de alguns
solares potosinos. O mesmo pode afrimar-se comparando a fachada da Ordem 3ª com La
Merced, San Lorenzo o La Compañía, também em Potosi. Porém, a observação atenta
revela que, nessas obras, não existem estátuas naturalisticamente tratadas. A talha é
profusa, porém quase plana, de efeito essencialmente decorativo, como um desenho
riscado na pedra. Predominou, nessas obras, a mão de obra de índios e mestiços que,
embora chegasse a criar um estilo de grande riqueza estética, distava enormemente do
classicismo europeu que observamos nas figuras da Ordem 3ª e do Solar Saldanha.
226 Ambas as fotos foram reproduzidas do trabalho de Eugênio de Ávila Lins.
357

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Quanto ao barroco da região do Porto, com influências italianas e espanholas, seria uma
marca natural na obra de Gabriel Ribeiro. Porém, não consegui identificar obra nenhuma
que possa ser, sem dúvida, apontada como modelo. A fachada da Igreja da Santa Cruz,
em Braga, e o portão da Casa da Prelada, no Porto, que apresentam certa similaridade
com as obras em estudo, foram concluídos em meados do século XVIII, razão pela qual
não podem ter servido de base para o solar Saldanha e para a Ordem 3ª.
Sem referências contemporâneas, só resta observar a fachada e tentar interpretá-la. É o
que fizeram, entre outros, Ana Palmira Bittencourt Casimiro227 e Percival Tirapeli228.
Ambos registraram observações parciais. Valiosas, porém, não totalmente corretas.
Tentarei, neste apartado, valer-me de suas anotações, aportando novas hipóteses e
retificando alguns erros sem, no entanto, apresentar uma análise conclusiva.
Sobre o portão principal e nas grades do muro encontramos
símbolos similares, porém de épocas distintas. O arco que cobre
o portão central exibe, entre volutas, a cruz, a coroa de espinhos,
os braços de Cristo e de São Francisco e, cercado pelo cordão
franciscano, um escudo dividido: à esquerda, as chagas; à direita,
o brasão português. No topo, dois pináculos e uma segunda cruz.
Esta, talhada em volume.
Era o acesso principal à igreja, então semi-escondida por trás de
um alto muro, similar ao que ainda se conserva no lado esquerdo
desse espaço.
Nos portões das grades que substituíram parte do muro, na
reforma de 1873, os símbolos são semelhantes. Porém, em vez
das armas portuguesas encontramos o brasão do Império e o
cordão franciscano foi substituído pelos ramos de fumo e café.
É uma substituição similar à que aconteceu no topo da fachada.
Porém, neste caso é mais drástica, posto que, lá, o cordão
franciscano foi conservado. Na grade, o predomínio dos símbolos
imperiais é quase absoluto, o que evidencia o crescente avanço
do estado leigo sobre a relativa independência das ordens
religiosas.
Passando o pequeno adro que resulta do recuo do templo dos terceiros com relação à
igreja conventual, encontramos a fachada, com estrutura de retábulo em três corpos,
cada um deles dividido em outras tantas ruas.
227 Ana Palmira Bittencourt Casimiro: “Mentalidade e estética na Bahia colonial: a venerável Ordem Terceira de São
Francisco de Assis da Bahia e o frontispício da sua igreja”. Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1996.
228 Percival Tirapeli: “Análise iconográfica da Fachada da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco”, publicado em
http://www.tirapeli.pro.br/artigos/artigos.htm.
358

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No corpo inferior, sob as cabeças de anjo e
os capitéis jônicos, as ruas são delimitadas
por colunas misuladas sobrepostas por
folhas de acanto, num arranjo muito
semelhante ao que decora os armários da
sacristia do convento, que Jaboatão atribui
a Frei Luiz, o torneiro. Será que essas
colunas influenciaram os armários ou foi a
inversa? Qual desses trabalhos precedeu o
outro?
Elementos similares se observam na portada do Solar Saldanha e – curiosamente –
também na Igreja da Congregação do Oratório do Porto, onde teria trabalhado Gabriel
Ribeiro. Porém, essa igreja foi quase totalmente reconstruída entre 1694 e 1703.
Mísulas em volutas, esculpidas em pedra lioz, servem de base aos
dois púlpitos do Oratório229, mas essas peças são, certamente,
parte da reforma ou posteriores a ela. Toda a nave da igreja foi
refeita, em maiores proporções, transformando-se a nave antiga
em capela mor.
Documentadamente, sabemos que Ribeiro trabalhou lá até maio
de 1685 e que em 1698 já se encontrava em Salvador pleiteando
o seu ingresso na Misericórdia. Será que, entre essas duas datas,
ele participou da reconstrução do Oratório e trouxe para a Bahia
os caracteres estilísticos utilizados naquele templo?
Retornando à análise da fachada, nota-se sobre a porta
central – a única existente no projeto original – a
existência de duas cartelas sobrepostas.
A primeira, que encobre a chave do arco, tem os
seguintes caracteres gravados: “1703 os S.D.P.M.”
Seja por erro de observação, seja de impressão, no
trecho do jornal A Tarde citado por Sinzig consta “S.
P. P. M. 1703”. Este erro foi mantido por Casimiro e
Tirapeli, levando-os a interpretar a inscrição como
“Seraphico Patri Posuit Merito” (Ao Seráfico Pai
Construiu Merecidamente).
De fato, a interpretação correta encontra-se, ainda, em Sinzig. Embora a transcrição da
legenda esteja errada, o texto proposto coincide com os caracteres que se observam:
229 Fotografia reproduzida de http://rgpsousa.blogspot.com.br/.
359

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“Ordo Seraphicus suo dono posuit merito”, que pode ser traduzido como “Em 1703, a
ordem seráfica entregou esta obra adequadamente terminada”. Trata-se, portanto de um
simples registro, equivalente às placas recordatórias da inauguração que ainda hoje se
coloca nas grandes construções.
Muito mais significativa é a segunda cartela, que se
encontra logo em cima, ainda claramente vinculada à
porta de entrada. Ela está centralizada no símbolo
“IHS”, que inicialmente era a abreviatura grega do
nome de Jesus, mas, à época desta fachada, já era
utilizado como uma sigla: “Iesus Hominum Salvator”.
A presença da cruz, os pregos e a coroa de espinhos
confirma esta interpretação.
Ladeiam esse conjunto duas figuras simétricas onde,
mais uma vez, determinados detalhes lembram as
talhas de frei Luiz. Os ventres avolumados e as linhas
de “pérolas” que rodeiam as cinturas lembram as
“cariátides” que ornam os cancelos da nave e capelas
laterais da igreja conventual.
O que significam esses ventres? No Antigo Testamento, o
ventre e a gravidez tem, quase sempre, um sentido
simbólico positivo. Contrariamente, a Idade Média
associou a nudez e o sexo ao pecado e povoou as igrejas
românicas de demônios femininos. Mesmo assim, a
maternidade de Maria era reverenciada, não sendo raro
representá-la grávida, com o recém-nascido em braços ou
até mesmo amamentando.
O Renascimento resgatou a representação do corpo nu com sentido positivo. Não de
outro modo podem interpretar-se os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina. Apesar
das resistências, a Igreja aceitou essa simbologia, que atravessou o maneirismo e teve
particular força no barroco, sendo bastante comum a representação de anjinhos nus com
clara representação dos órgãos sexuais.
É claro que não é a mesma coisa representar anjinhos – que, aliás, abundam na mesma
igreja conventual – que mulheres adultas, com seios bem definidos. Qual poderia ser o
simbolismo?
Não encontrei uma explicação clara. Porém, buscando exemplos de utilização similar,
tomei conhecimento do entorno dado por Bernini ao brasão dos Barberini nas bases das
colunas do baldaquino de São Pedro.
360

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nos pedestais, sob a tiara e as chaves, há oito brasões,
aparentemente iguais, encimados por rostos femininos.
Porém, de um a outro, a curvatura se acentua, como a
insinuar uma gravidez, e o pequeno rosto de mulher se
torna mais convulso. Nos últimos brasões, a curvatura
torna a diminuir e o rosto de mulher é substituído por
outro, infantil. A sequencia toda sugere um parto.
As interpretações são controversas. Uma delas, realmente
digna de consideração, supõe que, através do parto,
Bernini alegorizou o papel da Igreja como geradora da
salvação e da vida eterna.
A hipótese faz sentido e pode ter influenciado outras
obras. Isso explicaria as frequentes alusões à gravidez nas
igrejas barrocas.
Assumindo essa possibilidade, a cartela existente na Ordem 3ª poderia ser interpretada
assim: “Quem entrar por esta porta, será guiado pela Igreja até a Salvação”.
Porém, a salvação não é fácil e o caminho para alcançá-la
começa a ser considerado no segundo corpo da fachada.
Centraliza este corpo a imagem de São Francisco. Mas não é a
imagem pacificamente contemplativa que vemos na fachada da
igreja conventual, nem a que que foi retirada do altar mor,
segurando piamente um crucifixo. Com o rosto profundamente
consternado, a imagem da Ordem 3ª contempla uma caveira.
Está meditando sobre a morte.
Não é fácil relacionar essa imagem com as que a ladeiam, no
mesmo corpo. As duas mais próximas foram identificadas por
Percival Tirapeli como Hermes, o deus grego.
Mas, o que é que um deus grego faria ao lado de São Francisco? E quem é o personagem
representado nas duas imagens dos extremos?
“Não se pode esquecer – escreveu Tirapeli – que esta fachada foi financiada por
comerciantes, ricos portugueses que gastaram fortunas em tão dispendiosa obra”.
Entretanto, atribuir a escolha de Hermes à sua significação como deus do comércio não
me parece totalmente verossímil.
Na Ordem Terceira de Salvador – à diferença do Recife – não predominavam os
comerciantes. Assemelhava-se, melhor, à de Olinda, formada, essencialmente, pela
“nobreza da terra” e pela burocracia da Coroa. Em Salvador, os comerciantes
participavam mais ativamente na Ordem Terceira do Carmo.
361

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por outra parte, ainda eram muito vivas as concepções medievais segundo as quais o
comércio não é uma atividade honrosa. Honrosas são as atividades produtivas, porque
geram bens. Comércio e finanças foram, durante muito tempo, vistas como atividades
parasitárias e, por isso, deixadas em mãos dos judeus, que constituíram a base da
revolução mercantilista. Havia, sim, grandes comerciantes na Bahia. Porém, duvido
muito que se orgulhassem publicamente ao ponto de identificar sua igreja com os
símbolos da sua profissão.
Por último, devemos considerar que, se no âmbito administrativo a Mesa gozava de
grande autonomia, não acontecia o mesmo na religião. Todas as decisões, do ponto de
vista religioso, eram tomadas pelo comissário, um frade do convento especialmente
designado a esse efeito. É duvidoso que assunto tão sério quanto a iconografia da
fachada não fosse definido – ou, no mínimo, convalidado – por ele.
Hermes, caracterizado pelo pétaso – chapéu de abas
largas, que acabaram virando pequenas asas – foi
representado em atitude de caminhante e segurando o
cajado de pastor, conforme as representações mais
antigas da Grécia clássica.
A outra figura foi identificada por Tirapeli como anjo,
mas não tem asas, tem flores no cabelo e, observando
atentamente o lado do torso que fica em descoberto,
parece perceber-se um seio, apenas insinuado.
O que representam estas duas figuras, tão distantes da
ortodoxia católica que parece distinguir toda a atuação
das irmandades? Qual seria, na Bahia do início do
século XVIII, o papel dos deuses gregos na fachada
retabular da Ordem Terceira?
Ao resgatar a valoração positiva da cultura clássica, o Renascimento criou um problema
para os teólogos. A final, eram crenças pagãs e, por definição, estavam erradas.
Porém, boa parte dessa cultura coincidia com o pensamento cristão, o que não é de
surpreender, se considerarmos que o cristianismo inicial bebeu nas fontes grecoromanas, mas era um enigma para quem acreditava em revelação divina, absolutamente
independente de qualquer outro conhecimento anterior.
Uma teoria conciliadora passou a postular que já existia uma intuição parcial da
divindade. A noção de Deus caracterizar-se-ia pela totalidade, sendo esta a essência da
revelação. Porém, já existiriam intuições parciais. Virtudes ou potências divinas que, na
sua ignorância, os antigos personificavam em deuses diversos. Assim, os deuses grecoromanos não seriam outra coisa que percepções fragmentárias do Deus verdadeiro.
362

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Com base em argumentos como esse, a mitologia clássica invadiu não apenas os salões
da Toscana como os palácios pontifícios, recriando os mitos e incorporando-os, em
sentido alegórico, nas áreas mais específicas da iconografia cristã, onde, além de
participarem personagens mitológicos, figuras claramente cristãs assumem atributos
pagãos, tais como os raios que Jesus Cristo – assemelhado a Júpiter – ameaça lançar
sobre o mundo nos tetos de Cairu e São Francisco do Conde230.
Bem perto, no claustro do convento, encontramos imagens de
diversos deuses, inclusive Mercúrio, equivalente romano de Hermes.
Porém, não é esse o Hermes que está na Ordem Terceira.
O Mercúrio do claustro, baseado na gravura de Otto van Veen,
alegoriza a eloquência. O livro explica: “con maravillosa eloquencia,
les persuade el Amor de la Virtud; y con el caduzeo les muestra el
camino, señalando el Cielo”.
O Hermes da fachada não tem caduceo. A sua atitude é de
caminhante. Dir-se-ia, de peregrino. É uma imagem arcaica,
caracterizada pela bolsa e o cajado de pastor, ainda sem as sandálias
que lhe dariam o poder de voar.
A outra figura também parece estar caminhando. Assumindo a possibilidade de ser
feminina, as flores no cabelo levariam a pensar que se trata de Perséfone.
O que levaria a representar esses dois personagens? Recordemos o mito. Perséfone foi
raptada por Hades e levada ao seu reino subterrâneo. Hermes, que tinha trânsito nos
diversos níveis, foi enviado para resgatá-la, com a condição de que ela não tivesse
ingerido alimento algum. Porém, ela tinha comido uns caroços de romã e, por isso,
estava irremissivelmente vinculada às profundezas. Foi adotada uma solução de
compromisso: Passaria seis meses por ano no exterior e os restantes no submundo.
Assim explicavam os gregos o ciclo anual das colheitas.
Surgem, neste mito, associações que podem esclarecer o significado da fachada. À
semelhança de São Miguel, Hermes teria livre trânsito entre céu, purgatório e inferno,
podendo agir como intercessor. Por sua parte, o mito de Perséfone tem sido interpretado
como símbolo da queda da alma e do seu renascimento na fé. Assim, o conjunto –
inclusive a imagem de São Francisco refletindo sobre a caveira – poderia simbolizar a
expectação da morte e o penoso caminho da luta contra o pecado.
Ainda no corpo intermediário, há vários símbolos com menor destaque. A altura a que se
encontram e a aderência de diversas substâncias à superfície dificultam a sua leitura, o
que ocasionou diversos erros de interpretação.
230 Páginas 143 e 154. Para uma análise mais aprofundada, veja-se Juan M. Monterroso Montero: “Mitologia y
emblemática en la iconografía mariana”. Universidade do Porto. http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7547.pdf
363

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Acima da imagem de São Francisco, duas “sereias” suportam uma cartela contendo um
livro com alguns caracteres escritos. Segundo as fontes consultadas, nele se lê “Agite
poenitentiam” (Fazei penitência). Porém, não consegui ler essa frase por inteiro.
As sereias não têm rabos de peixe. Porém, a interpretação das volutas de acanto que
surgem das suas cinturas é inequívoca. Trata-se do conjunto que, em espanhol, costuma
ser chamado de “sirenas tenantes”.
Por cima deste grupo, uma águia, pousada sobre um mascarão,
segura, no seu bico, uma fita com a inscrição: “Per pænitentia
coelo apropinqvamos” (Pela penitência nos aproximamos do céu).
A águia, animal sagrado de Júpiter e símbolo do império romano,
foi apropriada pelo cristianismo e passou a representar João, o
evangelista, e o próprio Cristo. Entre outros simbolismos, associase, também, ao Juízo Final.
Há, ainda, a lenda, popularizada pelo Physiologus231, según a qual,
quando a águia sente que envelhece, eleva-se até o sol, que lhe
queima as asas, e depois se deixa cair numa fonte onde se banha
três vezes para sair rejuvenescida.
Completam este segundo corpo dois conjuntos de talha, situados acima das janelas do
coro, que Ana Casimiro descreveu como “corações (símbolos de Cristo?) que, ao invés
das tradicionais coroas de espinhos, portam coroas recobertas de pedras e pérolas,
símbolos do poder temporal”. Partindo dessa base, arriscou interpretar o conjunto
“como metáfora da união entre o poder terreno e o celestial”, destacando, ainda, “a
preocupação da Igreja da época com o esplendor devido às coisas divinas e à pratica
de se revestir de materiais nobres e jóias os objetos de uso religioso” e concluindo com
uma dúvida: “Qual seria então o verdadeiro significado da figura?”.
231 Manuscrito atribuído, entre outros, a Clemente de Alexandria, Basílio de Cesareia ou São João Crisóstomo e muito
difundido na Idade Média. Tido como real, era o que se tinha mais próximo de uma zoologia e acabou por ser
transformado num conjunto de alegorias cristãs (Wikipedia).
364

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, observando, com a aproximação
suficiente, percebe-se que o que está sob as
coroas não são corações. São instrumentos
penitenciais. De um lado, um cordão com
nós. Do outro, um cilício.
Completa-se, assim, o sentido deste segundo
corpo. O único caminho para enfrentar a
morte e atingir o céu é a penitência. O que,
aliás, era o objeto declarado da Ordem 3ª.
Embora, internamente, muito dinâmico, este segundo bloco está claramente delimitado
pelas duas cornijas e dividido pelos quatro conjuntos de mísulas e estátuas, conseguindo
organizar elementos tão complexos numa leitura retabular limpamente definida.
Conceitualmente, poderia ser interpretado como uma meditação sobre as incertezas da
morte, a luta contra o pecado e o valor da penitência.

A fachada toda é surpreendente. Única, no Brasil. Porém, nem por isso perde a sua
filiação ao estilo mais utilizado nos conventos do Nordeste, a começar pelo nicho central
com a imagem do orago entre as duas janelas do coro, e continuando com o corpo
superior que, apesar da profusão de detalhes, não esconde os caracteres essenciais:
frontão triangular, sobreposto por duas grandes volutas; nos extremos, pináculos; no
centro, brasão dividido e, no topo, a cruz, isenta, destacando sobre o azul do céu.
365

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Conforme já apontado, o brasão foi substituído no século XIX. Porém, conserva os
cordões, os braços estigmatizados, a cruz e a coroa de espinhos. Acima, no pedestal da
cruz isenta, quatro ossos e uma caveira lembram o motivo principal da fachada: é
preciso vivermos sempre atentos porque a morte está aguardando.
Mas, acima disso, encontra-se a esperança. Fiel à tradição, a cruz, no topo do
frontispício, não tem Cristo. Mesmo assim, Ele está implicitamente presente, lavando,
com seu próprio sofrimento, os pecados do mundo.

Dois pares de anjinhos ladeiam este conjunto. Os primeiros, apresentando o brasão,
estão em atitude convencional, sendo claramente figuras de suporte. Porém a segunda
dupla, modelada em volume aos lados do pedestal da cruz, é fortemente dramática. Dirse-ia que estão chorando pelos sofrimentos de Jesus Cristo.
366

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Diversas figuras secundárias completam o conjunto. Além das cabeças de anjos que
sustentam os capitéis do corpo inferior e do mascarão onde pousa a águia, dois anjinhos
de gola servem de base às estátuas de Hermes e duas faces monstruosas suportam as
figuras laterais.

Os anjinhos são, claramente, símbolos cristãos. Além da sua função decorativa, podem
ter o objetivo de sacralizar a utilização de um símbolo pagão como é a figura de Hermes.
Já os monstros – que poderiam ser interpretados como górgonas – eram usados, desde o
Românico, como símbolos das forças do pecado que, necessariamente, deveriam ser
vencidas para obter a salvação.

Além desses símbolos, mais evidentes, existem detalhes menos perceptíveis. Por baixo
das mísulas – aliás, acima das flores que ornam os cabelos – há flores e frutos, talvez
reforçando a identificação de Perséfone. Já nas pilastras laterais, praticamente saindo da
fachada, há duas pequenas cobras rastejando sob as cornijas. Mais duas delas, nos lados
externos da fachada, foram parcialmente sacrificadas pelas bicas dos telhados, de
construção mais recente.
367

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O que significam essas cobras, quase fugindo da fachada? Tradicionalmente, tanto
Hermes quanto Perséfone têm serpentes como atributos iconográficos. Porém, estas se
encontram demasiadamente distantes das estatuas, não havendo, aparentemente, nada
que as vincule.
Faz mais sentido pensar na simbologia bíblica da serpente, associada aos conceitos de
pecado e tentação. Ocultas, quase imperceptíveis e, por isso mesmo, surpreendentes ao
serem descobertas, elas funcionariam como um último alerta: Mesmo com todos os
esforços, apesar da meditação, das orações e da penitência, o pecado aguarda onde
menos se espera. A salvação nunca está garantida. A vida eterna deve ser conquistada e
defendida a cada instante.
Concluindo, não parece provável que um programa iconográfico tão complexo fosse
sugerido por Gabriel Ribeiro ou determinado pela Mesa. Ele evidencia uma erudição
que, muito provavelmente, só estava ao alcance dos frades do convento, como atestam
não apenas os azulejos e pinturas como também os volumes conservados na biblioteca.
Portanto, parece mais sensato atribuir a iniciativa desse programa ao comissário,
membro do convento e responsável direto pela orientação religiosa dos terceiros.

368

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Conventos do Sudeste
A Custódia de Santo Antônio do Brasil foi criada em
1584, como uma condição necessária para estabelecer
o convento em Olinda. Era impensável fazer com que
os conventos a serem instalados no Brasil ficassem
em dependência direta de Portugal. Mesmo sem total
autonomia, a custódia absorveria a fiscalização e as
decisões rotineiras, consultando e dependendo da
autorização da província apenas nos assuntos que
envolvessem decisões estratégicas.
Inicialmente, a jurisdição dessa custódia só tinha
como fronteira a linha do Tratado de Tordesilhas,
embora a ocupação real se limitasse a uma estreita
faixa da costa atlântica. Assim, foram estabelecidos
conventos em João Pessoa, Igarassu, Olinda, Recife,
Ipojuca, Sirinhaém, São Francisco do Conde,
Paraguaçu, Salvador, Cairu, Vitória, Vila Velha,
Macacu, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, São Paulo,
Santos e Itanhaém.

Em 1657, superada a árdua fase da ocupação holandesa, durante a qual foram
desativados todos os conventos entre Sirinhaém e João Pessoa, o esforço de
reconstrução coincidiu com a elevação da custódia a província autônoma.
Pouco tardou em perceber-se que a
administração dessa província era
quase tão impraticável quanto a
dependência de Portugal. Com as
comunicações da época, conduzir e
vistoriar conventos de Itanhaém a
João Pessoa era inviável. Apenas
dois anos depois, em 1659, uma
nova custódia, sob invocação da
Imaculada Conceição, era criada
para cuidar dos conventos ao sul de
Vitória, até Itanhaém.
369

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Mesmo assim, a coordenação de uma área tão ampla não era fácil. A nova custódia,
criada pelo Definitório Provincial, funcionou mais ou menos informalmente até 1670,
ano em que foi confirmada pelo Ministro Geral da Ordem, e, apenas cinco anos depois,
foi também transformada em província autônoma.
A partir desse ano (1675) a Província da Imaculada Conceição se afasta do foco deste
estudo, essencialmente limitado aos conventos do Nordeste. Porém, não posso ignorar
que a sua origem está estreitamente vinculada à Província de Santo Antônio e, mais
ainda, que ambas as províncias representaram conjuntamente a presença franciscana no
Brasil colonial e imperial.
Valha, então, fazer um parêntese neste estudo para analisar em que medida as
características até aqui estudadas diferem ou se assemelham com as que podemos
observar nos conventos do sudeste.
Não farei aqui um estudo detalhado, não apenas por sair do foco como porque não me
foi possível visitar todos os conventos. Aliás, nem poderia, posto que vários deles
desapareceram, total ou parcialmente.
Nada se conserva do convento de São Luiz, em Itu. De Macacu restam apenas ruínas.
Em Angra dos Reis, a igreja e uma pequena parte do convento foram retelhados, mas
nada resta do interior. De Bom Jesus da Ilha, só sobreviveu a igreja. Em São Paulo, o
convento cedeu lugar à Faculdade de Direito, restando apenas a igreja, muito
modificada, e a Ordem 3ª, atualmente em restauração. Foram demolidos, quase
integralmente, os conventos de Vitória e Taubaté, restando, de ambos, apenas as
fachadas232. O de Cabo Frio, também parcialmente demolido, foi aproveitado como
Museu de Arte Sacra. Os conventos da Penha, São Sebastião e Santos ainda existem,
mas suas igrejas foram profundamente modificadas. Apenas Rio de Janeiro tem seu
convento, igreja e ordem 3ª razoavelmente conservados.
Em linhas gerais, todos os conventos
franciscanos tinham estrutura similar,
centrada num claustro quadrangular em
volta do qual se distribuem a igreja, o
capítulo, o refeitório e o cemitério. Em
cima, os dormitórios233. A ordem 3ª, quando
existe, é construída do lado contrário,
ficando a igreja aproximadamente no
centro. Em frente, o adro e o cruzeiro. Em
volta, a cerca e as áreas de serviço: oficinas,
senzalas, plantações, currais etc.
232 O convento de Taubaté ainda existe, mas trata-se de uma construção nova, aproveitando apenas a fachada e os alicerces.
233 Na imagem, Rio de Janeiro (foto Google Maps).
370

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também as fachadas – na foto, Angra dos Reis – apresentam caracteres que já vimos no
nordeste: frontão triangular com óculo, três janelas no coro, galilé de três arcos e torre
única, entre a igreja e o convento, servindo, às vezes, de portaria.
Porém, nos conventos do sudeste, a impressão é de grande austeridade: fachadas
caiadas, muito brancas, quase total ausência de talha ou cantaria aparente. Não há
fachadas triangulares, como em Cairu ou João Pessoa. As volutas, quando existem, são
tímidas, disfarçando escassamente as linhas do telhado. Não há, propriamente torres.
Apenas, sineiras planas. Espadanhas, diria, para usar a denominação espanhola.
Aliás, a fachada toda, envolvendo convento, igreja e ordem terceira, é plana. Não há
recuo da torre nem da ordem terceira. Todo o conjunto abre-se como um friso, impondose, visualmente, não pela fachada da igreja – que, nos conventos do nordeste, destaca em
forte movimento visual de elevação – e sim pela totalidade da construção, amplamente
espalhada em sentido horizontal.
É, nitidamente, arquitetura chã, apenas disfarçada pelos contornos da sineira e dos
frontões. O barroquismo, tão presente no Nordeste, aqui só aparece como um ligeiro
verniz. Aliás, essas ondulações só aparecem em conventos que foram reconstruídos ou
modificados no século XVIII e, mesmo com essa reconstrução, o Rio de Janeiro
manteve-se fiel ao estilo marcadamente geométrico da fachada antiga234. No nordeste, só
encontrei frontispício similar no convento de Ipojuca.
No século XX, essa fachada foi alteada e
ornamentada com linhas curvas. Recentemente, a
equipe do CEPAC, incumbida de restaurar o
convento, pôs em descoberto as linhas originais e
pretende restabelecer o frontispício ao seu estado
anterior. Entretanto, não será possível restaurar a
galilé, o que exigiria sacrificar uma parte importante
do espaço interno da igreja.
234 Foto reproduzida de Gilberto Ferrez: “O Rio Antigo do Fotógrafo Marc Ferrez - Paisagens e Tipos Humanos” Editora Ex-Libris, 1985. (Detalhe).

371

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para além do tradicionalismo e da austeridade, a
ausência de pedra aparente, nos conventos do
sudeste, pode atribuir-se à falta de material adequado.
No nordeste, abundava o calcário. Em Minas, a pedra
sabão. No Rio de Janeiro, predominava o granito, útil
para a construção, mas pouco adequado para a talha
por causa da sua dureza. Mesmo nos claustros, as
esbeltas colunas do nordeste são substituídas por
maciças pilastras quadrangulares que prolongam até
o chão a espessura das paredes que sustentam.

Por falar em claustros, outra diferença apreciável é a inexistência do corredor
avarandado nos andares superiores. À semelhança dos mosteiros de Salvador, os
dormitórios do sudeste só têm corredores internos, com celas em ambos os lados235.
A que se deve essa falta de varandas? Inicialmente, pensei
em relacioná-la ao clima da região, que apresenta invernos
mais frios. Porém, em Portugal, igualmente frio, o claustro
superior avarandado é quase onipresente. É mais provável
que a omissão dessa varanda, nos conventos do sudeste,
visasse, simplesmente, ganhar mais espaço para celas.
Apenas em São Sebastião236 – convento,
aliás, bastante atípico na província – há
varanda aberta no andar superior. O
formato das pilastras que sustentam o
telhado parece original. Porém, os peitoris
foram muito alterados. Os antigos podem
ser vistos na fotografia da direita.
235 Ambas as fotos são do claustro de Rio de Janeiro.
236 Fotografias cedidas por Frei Róger Brunório.
372

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Excepcionalmente, o claustro do Rio de Janeiro tem dois andares acima do térreo. Só
observei um caso similar em Olinda.
Essa característica foi a causa da reconstrução acontecida em 1750: “Vendo o Provincial
Frei Agostinho de São José, o nenhum cômodo que este convento oferecia aos seus
habitantes e que os antigos fundamentos eram insuficientes para qualquer
acrescentamento, tanto pelo limitado do risco como pela deficiência das paredes,
determinou, depois de ouvido o conselho dos padres graves da Província, a edificação
de um convento quadrangular, de dois sobrados”237.
Além de dois sobrados. O claustro do Rio de Janeiro tem
outra característica diferencial. Cada ângulo do primeiro
andar tem uma janela seteira, lembrando a que já foi
apontada a propósito do Desterro de Salvador. Conforme
demonstrado na imagem de corte238, essas janelas estão
cavadas diagonalmente nas esquinas.
Duas delas abrem-se a partir de
áreas de circulação, a terceira,
de uma cela239 e a quarta, da
Capela dos Três Corações, que
será analisada oportunamente.
A presença ostensiva – nos quatro ângulos do claustro – e
a falta de ornamentação reforçam a hipótese de essas
janelas terem servido para vigilância.
237 Tombo Geral, citado em Basílio Röwer: “O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro”. Ed. Vozes, 1937.
238 Detalhe de planta cedida pelo CEPAC.
239 Não necessariamente original. Pode ter sido criada posteriormente.
373

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Um caso particular é o do Convento de São Bernardino, em
Angra dos Réis, reputado como possuidor de dois claustros.
Não existem, na verdade, dois claustros completos, como se
observa no Desterro de Salvador240. Em Angra241, uma
pequena área foi adicionada à construção, deslocando a ala
do refeitório, cozinha e deprofundis para o extremo da
construção.
O claustro, propriamente dito, está perfeitamente definido.
Tanto é assim, que o “claustrinho” tem arcos em apenas
dois de seus lados. O corredor intermediário, que poderia
ter ficado aberto para facilitar o arejamento e a circulação,
foi fechado com parede, numa clara intenção de não deixar
dúvidas quanto à delimitação do espaço sagrado.
De fato, bem poderia ter sido construído um grande claustro retangular. Porém, o projeto
preferiu preservar o quadrado, longamente enraizado na tradição franciscana.
A extensão do claustro visava ampliar o espaço de celas, claramente perceptível na
planta do segundo pavimento. Outros conventos optavam por acrescentar construções
avulsas ou alas que se afastam do corpo principal.
Dois conventos não fecharam claustro. O terreno não o permitia. Os franciscanos eram
cuidadosos em escolher o terreno que melhor se adaptasse ao seu estilo construtivo.
Porém, nesses dois casos, não tiveram escolha. Trata-se dos santuários da Imaculada
Conceição, em Itanhaém242 e Nossa Senhora da Penha, na Vila Velha do Espírito Santo.

240 Comparar com a planta correspondente, na página 248.
241 Planta reproduzida de Rosa Maria Costa Ribeiro: “O Convento de São Boaventura de Macacu e a Vila de Santo
Antônio de Sá – história e arquitetura”. Em “Os Franciscanos no Mundo Português. Artistas e Obras”. CEPESE Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade - Porto, 2008.
242 Fotografia antiga, cedida por Frei Róger Brunório.
374

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O convento de Itanhaém encontra-se no topo de um morro243, local do primeiro
povoamento, onde foi construída uma ermida, inicialmente utilizada como matriz.
Posteriormente, a vila foi se desenvolvendo em baixo e uma nova matriz foi construída.
Porém, a ermida era especialmente valiosa por causa de uma imagem de terracota, nela
cultuada e tida como milagrosa. Despovoado o local pelos moradores, a guarda da ermida
foi cedida aos franciscanos, que acabaram estabelecendo um convento.
Inicialmente de taipa, aproveitando como base a antiga casa paroquial, o convento foi,
posteriormente, ampliado e reconstruído em pedra. Porém, o terreno abrupto dificultava o
fechamento do claustro. Foram construídas, apenas duas alas: uma colada ao corpo da
igreja, com dois andares de dormitórios sobre um corredor com arcos, e outra
perpendicular, prolongando a linha da fachada, onde foram instalados a cozinha e o
refeitório, também sobrepostos com celas.
Não parece que, nessa construção inicial, houvesse
sala capitular, provavelmente utilizando-se para esse
efeito o refeitório244. Entre 1734 e 1735, essa
carência foi motivo de uma ampliação de estética
bastante duvidosa, invadindo parte do adro e
obstruindo a torre da igreja.
Todas essas construções foram parcialmente
escavadas na ladeira. Assim, os dormitórios ficaram
no nível da igreja e o corredor, refeitório e sala
capitular, debaixo dele.
243 Foto Google Maps.
244 Aliás, mesmo contando com uma sala capitular de grandes dimensões, consta que, no Rio de Janeiro, as reuniões do
capítulo Provincial eram feitas no refeitório por causa da maior capacidade desse ambiente.
375

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em cima do capítulo, ao nível do adro, foi instalada a portaria. No andar de cima, havia
uma grande sala que Frei Basílio Rower245 acredita ter sido a biblioteca. O acesso,
inicialmente íngreme, foi melhorado, em
1752, com a construção de uma ladeira.
Em 1833, o convento sofreu um incêndio. A
igreja e as celas contíguas foram restauradas
em 1865. São dessa época os contrafortes que
sustentam essa ala para evitar que desabe246.
A outra ala e o bloco do capítulo
permaneceram em ruínas. Subsistem a igreja,
o adro e a ladeira, com seu cruzeiro.

O outro convento – o da Penha247 – teve melhor sorte. Ele se encontra numa situação
topográfica muito mais complicada. Porém, a aura de milagre que o rodeou desde a sua
origem tem ajudado à sua construção e até à sua conservação até os nossos dias.
A história do santuário iniciou-se com Frei Pedro Palácios, um leigo franciscano, com
vocação de eremita, que chegou à Vila Velha em 1558 e se estabeleceu numa cabana –
ou segundo outra versão, numa gruta – no sopé da penha onde mais tarde seria
construído o convento.
Ganhando logo fama de santidade, ele construiu duas capelas: uma ao pé da rocha,
dedicada a São Francisco, e outra no topo, onde entronizou uma pintura da Virgem que
trouxe de Portugal e que passou a constituir o orago principal.
245 Basílio Röwer, frade alemão que passou a maior parte da sua vida no Brasil, escreveu dois livros fundamentais, origens
principais das informações registradas neste capítulo: “O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro. Sua história,
memórias, tradições” e “Páginas de História Franciscana no Brasil”, publicados pela Editora Vozes em 1937 e 1941.
246 Foto reproduzida de Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
247 Foto reproduzida de Flôr (viajamos.com.br).
376

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Portugal, era comum localizar os
santuários no topo dos morros. Além de
reforçar o sentido de elevação espiritual,
a escalada das íngremes ladeiras (às
vezes, de joelhos) incrementava o
sacrifício – e, consequentemente, o
mérito – de construtores e peregrinos.
Segundo o jesuíta Fernão Cardim248, o
orago era Nossa Senhora da Pena249,
cultuada numa ermida – logo acrescida
de um mosteiro250 – no topo da rocha
onde mais tarde seria edificado o
Palácio Nacional da Pena, em Cintra.
Falecido o fundador em 1570, a ermida continuou a ser frequentada, mas carecia de
sacerdotes que administrassem o culto em forma permanente. Em 1589, o donatário,
Vasco Fernandes Coutinho, a ofertou aos franciscanos, mas estes preferiram instalar-se
em Vitória. Mesmo assim, a população e autoridades insistiram e, em 1591, os frades
acabaram aceitando a sua guarda. Tal como Itanhaém, começou sendo administrada
como um simples oratório, mas, com o tempo, acabou transformando-se em convento.
Tal como em Itanhaém, foi construída uma ala
beirando a igreja. Porém, a estreiteza do cume
não permitia a construção de alas transversais.
Assim, uma nova foi agregada mais em baixo,
seguindo o mesmo alinhamento251. O resultado
é um bloco compacto que inclui a igreja e
ambas as alas, praticamente dependuradas no
abismo. É de imaginar a dificuldade que
devem ter envolvido, não apenas a construção
como também a condução dos materiais até ali.
Mas não parece que essas dificuldades amedrontassem os franciscanos. Muito pelo
contrário, tinham especial predileção por esses conventos, considerando-se abençoados
pelo fato de sua província estar delimitada – e protegida – por dois importantes
santuários marianos. No fim da vida, era comum solicitarem a transferência para eles
com o propósito expresso de acabarem seus dias mais perto de Deus.
248 Citado por Basílio Röwer.
249 Equivalente a “penha”, no português antigo.
250 Desenho atribuído ao rei Fernado II, que logo após mandaria edificar ali o seu palácio. (http://parquedapena.no.sapo.pt)
251 Foto: Romero Gonzales Garcia. Reproduzida de um cartão postal publicado pela Litoarte.
377

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ambos os santuários têm uma característica em comum.
Como era habitual nos conventos portugueses – mas não nos
do nordeste do Brasil – em vez de torres sineiras, possuem
singelas espadanas252.
Na Penha, o sino é único. Em Itanhaém, também. Porém, tem
sobreposto um vão de menores dimensões onde, certamente,
houve um segundo.
Vitória, Cabo Frio,
Macacu, São Paulo,
Taubaté, Angra dos
Reis, Santos e Rio
de Janeiro utilizaram um esquema mais
complexo, com dois vãos de igual tamanho e
outro menor, no topo da espadana253.
Dentre eles, ao menos, Cabo Frio, Rio de
Janeiro e São Paulo implementaram uma falsa
torre254, por trás da espadana, fechada com
paredes finas, não estruturais, e coberta com
um simples telhado.
Não observamos esse agregado no que restou dos
conventos de Macacu e Vitória, mas é provável que tenha
existido e desaparecesse por causa da menor resistência
das paredes. Julgando pelo desenho255, o mesmo pode
imaginar-se sobre o já demolido convento de Taubaté.

252 Em arquitetura, prolongamento de uma parede em forma de espada, frequentemente utilizado como sineira.
253 Na foto, a espadana do convento de Vitória.
254 Röwer a chama de “cubículo”.
255 Reproduzido de Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
378

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A estrutura dessa falsa torre – cuja finalidade mais
provável era facilitar o acesso aos sinos a partir do
coro – pode observar-se mais claramente nas ruínas do
convento de Angra dos Reis256.
Que se trata de uma falsa torre, fica evidente na planta
do convento do Rio de Janeiro257. Observe-se que
apenas o trecho de parede que sustenta o peso da
espadana – destacado em amarelo – teve a sua
espessura proporcionalmente incrementada.

No convento de Santos, esse
cubículo não tem telhado e sim,
uma cobertura plana. Imita uma
torre, inclusive com vãos laterais
para colocar mais sinos. Porém, a
imagem antiga258 evidencia que
se trata de uma reforma.

256 Fotografias cedidas por Frei Róger Brunório.
257 Detalhe de planta cedida pelo CEPAC.
258 Reproduzida de Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
379

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A espadana – elemento herdado do românico –
não é exclusiva dos franciscanos. Por exemplo, a
mesma espadana de três vãos aparece em diversos
conventos carmelitas, como o de Santa Teresa, em
Salvador. Porém, trata-se de espadanhas isentas e
sem acesso direto pelo interior da igreja ou do
convento. Em Salvador, para chegar aos sinos, é
preciso andar numa passarela de tábuas por cima
da igreja, entre o forro e o telhado.
A integração coro-espadana através do cubículo é
uma solução ingeniosa e, certamente, mais
econômica que a construção de uma verdadeira
torre. Provavelmente por causa disso foi imitada
em diversas capelas da região. Por exemplo, em
Angra dos Reis, Nossa Senhora dos Remédios259,
Santa Luzia e Lapa da Boa Morte apresentam
soluções parecidas.

A mesma solução aparece no Mosteiro da Luz, em São Paulo, cujo risco original é
atribuído a Frei Antônio de Sant’Anna Galvão. Porém, apresenta características eruditas,
privilegiando não apenas a acessibilidade como também a funcionalidade e a estética.
Sobre uma galilé de três arcos, ergue-se uma espadana centralizada que se prolonga até
encontrar com a parede da nave, de planta octogonal e eixo transversal à porta de
ingresso. A foto de satélite260 permite observar a junção dos telhados.
259 Foto Zan Moreno em flickr.com (detalhe).
260 Google Maps.
380

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As três janelas sobre a galilé não correspondem ao coro que, como era habitual nos
conventos femininos, encontra-se em posição mais reservada. Por elas passa o corredor,
ligeiramente elevado para não limitar a altura dos arcos.
No centro da fachada há um nicho com imagem e, por cima dele, a clássica espadana de
três vãos. Porém, apenas os dois inferiores são ocupados com sinos. O vão superior é
mais um nicho e hospeda uma segunda imagem. Em compensação, as paredes laterais
são firmas ao ponto de hospedarem duas janelas com sinos adicionais. Quase daria para
dizer que se trata de uma verdadeira torre.
Não parece que Frei Galvão tenha visto essa
fachada, embora não possa ser descartado
que seja da sua autoria e apenas, como
muitas obras na época, demorasse a ser
completada. Em 1827 – cinco anos depois da
sua morte – William John Burshell ainda
registra um simples frontispício triangular261.
A fachada atual aparece, pela primeira vez, num
desenho de Miguel da Anunciação Dutra datado em
1835262 e foi construída for Frei Lucas José da
Purificação, sucessor de Frei Galvão, quem, na
opinião de Lima de Toledo, “mais uma vez foi ao
Largo de São Francisco buscar inspiração”.
261 Imagem reproduzida de Benedito Lima de Toledo: “Frei Galvão: Um Arquiteto Paulista” em “Barroco Memória Viva
– Arte Sacra Colonial” - UNESP. Edição coordenada por Percival Tirapeli.
262 Reproduzido de Monumenta: “Histórico do Edifício Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz”.
381

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Além da espadana, quase todas as fachadas do
sudeste apresentam a clássica galilé de três arcos.
Excetuam-se Cabo Frio e Itanhaém, onde – ao
menos, no presente – não existe galilé, Rio de
Janeiro, onde – como em Olinda e Recife – a galilé
foi sacrificada para aumentar o espaço interno da
igreja263, Penha, onde à fachada foi sobreposto um
ante-coro, construído no século XVIII, e Vitória,
único exemplo, no sudeste, de galilé de cinco arcos.
Vitória, convento do qual apenas se conserva a fachada,
apresenta o clássico frontispício com três janelas e sineira de
três vãos, porém precedido de um alpendre com cinco arcos
que se estende até a base da espadana264.
Röwer265 situa a construção desse alpendre em 1744, data que
consta no topo da fachada e na qual a igreja teria sido
“aumentada e aformoseada”. Nessa obra o frontão triangular
teria sido alterado com ondulações barrocas. Porém, não me
parece que apenas o acréscimo da galilé justifique a espressão
“aumentada”. É possível que já existisse uma galilé no
modelo habitual de três arcos sob o coro e, sacrificada para
aumentar a nave, o alpendre fosse construído em substituição.
No Rio, onde se entrava ao convento pela galilé, o
fechamento obrigou a criar um novo acesso. Foi aberta uma
porta frontal e acrescido um vestíbulo até emparelhar com a
fachada da igreja266. No topo, num pequeno nicho similar
aos das sineiras, foi entronizada uma imagem de Santo
Antônio que tem uma história bastante curiosa.
Essa imagem, feita por volta de 1620, ficava no antigo altar
mor da igreja conventual. Substituída, provavelmente, na
reforma de 1699, ganhou novo brilho por ocasião da invasão
francesa de 1710, quando foi promovido a capitão de
infantaria, homenageado com missas e colocado sobre o
muro do convento para presidir a batalha, que acabou com a
vitória dos portugueses.
263 Recentemente (foto ao lado) as obras de restauração colocaram em descoberto os arcos da antiga galilé.
264 Fotografia cedida por Frei Róger Brunório.
265 Basílio Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
266 Imagem de um antigo cartão postal, cedida pelo CEPAC (detalhe). Embora o alpendre ainda exista, prefiro usar essa
imagem porque atualmente está acrescido de um toldo.
382

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em gratidão, a imagem foi entronizada no frontispício da igreja e depois transferida para
o vestíbulo do convento. Por ficar permanentemente exposta, passou a ser chamada de
“Santo Antônio do Relento”. Está elaborada em terracota e, provavelmente por ter a
cabeça modelada em separado, gerou a lenda de que o frade que a elaborou não acertava
fazer a cabeça e que ela apareceu do nada em circunstâncias milagrosas267.

Outra construção que avança sobre o adro é um paredão com três frontões barrocos, hoje
sem função aparente. A imagem de Debret268 permite reconstituir a sua posição no
conjunto franciscano do Largo da Carioca. Vê-se, no primeiro plano, o chafariz, junto ao
qual corre a ladeira, passando pelo cruzeiro e concluindo exatamente nesse paredão.
267 Segundo o Livro do Tombo, foi deixada na portaria por um pobre que pediu uma esmola para jantar. Já Joaquim
Manoel de Macedo (“Um Passeio pelo Rio de Janeiro”, 1860) diz que, soando a campainha da portaria e saindo os
frades para ver o que era, encontraram a cabeça no chão sem ninguém por perto.
268 O prédio à direita é o hospital da Ordem 3ª, demolido em 1905. No centro, o cemitério da mesma ordem.
383

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Por essa ladeira subiam não apenas os
fregueses que visitavam o convento e a igreja
como também as procissões. Nesse paredão –
onde, segundo Röwer, havia diversos nichos
com imagens – os terceiros faziam a via sacra
e ali também era armado o presépio
“mandado vir de Lisboa pelo preço de 300 e
tantos mil-réis e ornado, posteriormente,
pelos grandes mestres Valentim, Raimundo e
Xavier das Conchas”.
E, para terminar com esta análise das fachadas, vale destacar um
detalhe curioso, dificilmente percebido pelo visitante. O galo de
ferro, no topo da espadana, é o mesmo que veio de Lisboa para a
primeira edificação do convento, tendo chegado ao Rio de
Janeiro em 1610.
É um catavento. Sobreviveu à reconstrução do convento, à
ampliação da igreja e à reforma da portaria e, embora hoje esteja
acrescido de um para-raios, continua ali, no ponto mais alto da
fachada, talvez lembrando por sempre que foi ele quem assinalou
quando Pedro, o mais fiel dos discípulos negou conhecer Jesus.
Do interior das igrejas, pouco resta que não tenha ido destruído ou drasticamente
reformado. No santuário da Penha269 e em Santos270 observam-se ornamentações e
retábulos que permitem situá-los na segunda metade do século XIX.

Não é alheia a esse “modernismo” a abundância de recursos que, na Penha, possibilitou
frequentes reformas. Santos não teve tanta sorte, mas também parece renovado.
269 Foto: Sérgio O. Rodher. Reproduzida de um cartão postal publicado pela Brascard.
270 Fotografia cedida por Frei Róger Brunório.
384

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A igreja conventual do Rio de Janeiro – aparentemente, mais conservada – está
conservada somente em aparência. Além da eliminação da galilé, o arco triunfal foi
várias vezes redecorado, o púlpito foi abaixado, os azulejos foram substituídos em
meados do século XX, as caixas do órgão – aparentemente, barrocas – foram agregadas
também no século XX, sacrificando as tribunas e aproveitando, apenas, os anjinhos
músicos que decoravam o antigo instrumento. Até mesmo o teto foi encurvado e não há
notícia das pinturas que possam ter existido nele. De original, sobraram, apenas, a capela
mor e os altares colaterais, além da capela primitiva dos terceiros, que – essa, sim – está
perfeitamente conservada.

385

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Está em andamento um projeto de restauração, coordenado e executado pelo CEPAC –
Centro de Projetos Culturais. Dentre os desenhos realizados, escolhi alguns que dão uma
certa aproximação ao aspecto original da nave. No lugar das caixas do órgão, tribunas,
cujas marcas existem na parede. Röwer achou que fossem simuladas. Não me parece. Ao
menos, do lado do convento, há um corredor que devia dar acesso a elas. É possível que
a simulação fosse do outro lado, o que limitava com a Ordem 3ª. Notam-se, também, os
vãos dos três confessionários271, a retirada das caixas do órgão e a restituição do forro ao
seu formato original.
O piso é o atual, colocado pelo IPHAN em
1953, mas os azulejos não são os recentes,
colocados em 1987, e sim os antigos, postos
em 1783/84 e removidos em 1920/26.
Eram painéis policromos, estilisticamente
posteriores ao terremoto de Lisboa. Restam
alguns exemplos na portaria do convento272.
Houve, ainda, outros mais antigos: Nove painéis na
igreja – provavelmente, historiados, colocados em
1707, talvez representados pelos diversos fragmentos
esparsos entre o refeitório, a Capela dos Três Corações
e algumas celas do primeiro andar – e dois na sacristia,
que ainda existem. Representam milagres de Santo
Antônio e são atribuídos a Valentim de Almeida273.
No centro do coro, houve um belo órgão, criativamente integrado à ritualidade
conventual. Estava afixado no centro do peitoril.
Da nave, via-se a caixa, barroca, com tubos
expostos e ricamente decorada com anjinhos
músicos. O verso continha o crucifixo, que
ficava à vista ao abrir duas portas ornadas com
pinturas de São João e a Virgem274 no Calvário.
Esse instrumento foi incorporado, em 1758,
obedecendo à decisão do Definitório que
instituiu o canto-chão com órgão em todos os
conventos da Província. Foi substituído em
1932, depois de vários anos de inatividade.
271 Comparar com as fotos de Penedo e João Pessoa, na página 51, e com Sirinhaém, na página 52.
272 Os desenhos e a foto dos azulejos da portaria foram cedidas pelo CEPAC.
273 Esta fotografia e a seguinte foram cedidas por Frei Róger Brunório.
274 A foto de uma dessas pinturas, na próxima página, foi reproduzida da nova edição do livro de Röwer (Zahar, 2008).
386

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os tubos do novo instrumento foram distribuídos em duas caixas de estilo próximo ao
rococó e ornamentados com os anjinhos recuperados do antigo275. Tive oportunidade de
fotografar esses anjos no atelier de restauração improvisado junto à capela mor da igreja.
O crucifixo e as pinturas estão, atualmente, na sala capitular.

Também na sala de restauro tive a rara oportunidade de observar de perto o conjunto de
imagens situado no beiral do coro276. São 18 esculturas em terracota representando os
mártires do Japão.
O tema – frequente na iconografia franciscana e recorrente nas procissões de cinzas – é
similar ao do coro de Igaraçu, exceto que, lá, estão pintados não apenas os supliciados
no Japão como também diversos outros grupos de mártires franciscanos (Ceuta, Bulgária
etc.). Para melhor comparação, na próxima página há detalhes dessas pinturas, já vistas
na imagem geral na página 41.
275 Fotografia cedida pelo CEPAC.
276 Esse beiral foi recortado, o que pode apreciar-se facilmente comparando as duas fotos.
387

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As imagens do Rio de Janeiro são “à trágica”, em atitudes variadas e com os ferimentos
graficamente representados. Porém, nem por isso deixam de ser representações
genéricas. Tanto no Rio quanto em Igaraçu, não são verdadeiros retratos e o número não
corresponde ao real. De fato, foram 26 mártires, sendo 6 frades franciscanos, 17
terceiros e 3 jesuítas.
São, certamente, representações simbólicas destinadas a estimular a piedade dos fiéis.
Mesmo assim, são de destacar a expressividade dos rostos e a excelente elaboração,
ainda mais se considerarmos que estavam destinadas a serem vistas a grande distância, o
que poderia, facilmente, dissimular uma execução mais simplificada.

O cadeiral do coro não é o original. Foi confeccionado por dois irmãos leigos entre 1920
e 1926. É, sim, original, o cadeiral de São Paulo (acima).
No Rio, o mais interessante do coro é o ambão,
que, sim, foi conservado. Está ali desde 1707.
Não se comprara aos melhores do nordeste,
mas conserva um objeto muito representativo
da rotina do convento:
É a lanterna277 que, pendurada no ambão com
ajuda de um gancho de ferro, possibilitava a
oração e os cantos no coro com independência
da iluminação solar. Essa independência era
imprescindível para o correto cumprimento das
chamadas “horas canônicas”.
277 Fotografia cedida por Frei Róger Brunório.
388

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O púlpito, barroco, de madeira dourada e policromada, está
entre os últimos púlpitos históricos conservados na província,
junto ao de Bom Jesus da Coluna e aos das ordens terceiras,
que serão oportunamente analisados.
Numa reforma anterior, tinha sido colocado em local mais
baixo para facilitar o contato com os fiéis, o que obrigou a
acrescentar uma escada de madeira. Originalmente – como era
costume nos demais conventos – o acesso era externo, a partir
do corredor superior do claustro. É intenção dos restauradores
recolocá-lo no local de origem.
O painel frontal exibe o brasão da Ordem. O peitoril está
ornado com cabecinhas de anjos “de gola”. No abafa-voz,
inteiramente dourado, paira a imagem do Espírito Santo.
Durante a minha visita, também esse púlpito se encontrava em
restauração, o que me deu oportunidade de captar alguns
detalhes. A fotografia ao lado, anterior à restauração, foi
cedida por frei Róger Brunório.

A fotografia da nave, na próxima página, mostra as localizações originais do púlpito (1),
das tribunas (2) e dos confessionários (3). O vão maior (4) foi aberto em época recente,
talvez sacrificando mais um confessionário que existiria entre os dos primeiros.
Os vãos dos confessionários são similares aos de Sirinhaém. Porém, não comunicam
diretamente ao corredor do claustro e sim às capelas que serão oportunamente
analisadas. É possível que o acesso aos confessionários fosse feito através das sacristias
dessas capelas.
389

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tanto em Sirinhaém quanto no Rio de
Janeiro, as paredes são grossas, porém não
o suficiente para que tanto o confessor
quanto o fiel fiquem dentro do vão, o que
sim acontece, por exemplo, no convento de
carmelitas de Santa Teresa, em Salvador.
A efeito de comparação, estou incluindo um
detalhe da planta da igreja conventual que
integra o Guia de Bens Tombados do IPAC
- Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural
do Estado da Bahia.
Note-se que as paredes onde se inserem os confessionários são mais
largas, cada vão formando uma espécie de túnel. Para maior clareza,
destaquei com cores os lugares dos confessores e confidentes.
Nos conventos franciscanos, apenas uma pessoa cabia dentro do
vão. A tradicional placa perfurada ficava rente a uma das paredes,
podendo o confessor estar no vão e o fiel, no interior da nave, como
se observa em São Bento de Arcos de Valdevez (página 52) ou, ao
contrário, o confidente dentro do arco e o confessor no corredor do
claustro, como evidenciam os indícios achados em Sirinhaém.
Röwer registra que vãos similares existem no convento de Nossa Senhora do Amparo,
em São Sebastião, esclarecendo que eram confessionários para homens. As mulheres
confessavam no cancelo da nave, a cujo efeito existiam também placas perfuradas,
conforme se observa em Cairu, Penedo e João Pessoa278.
Obedecia essa separação às Constituições279, que exigiam “numero de Confessionarios
em lugares publicos, & patentes, nos quaes se ouçaõ as Confissões de quaesquer
penitentes, especialmente de mulheres, às quaes nunca ouviráõ de Confissaõ no Coro,
Sacristia, Capellas, Tribunas, ou Bautisterio, nem outro lugar secreto da Igreja”.
Isso explica a coexistência de ambos os tipos de confessionário numa mesma igreja. Os
cancelos, por serem áreas muito públicas, de fácil visualização, eram preferidos para as
confissões das mulheres. Já nos nichos, na parede, estariam menos em evidência,
especialmente quando o fiel ficava dentro deles, como ocorria em Santa Teresa.
Röwer registra, ainda, uma evolução nos cancelos. Segundo ele, eram, originalmente,
bem maiores que os atuais. Seriam, talvez, herança dos antigos “tramezzos”, que
separavam, nas igrejas, os recintos mais reservados – presbitério e coro – do resto da
278 Ver fotos desses cancelos na página 51.
279 Sebastião Monteiro da Vide: “Constituições Sinodais do Arcebispado da Bahia” - 12/06/1707.
390

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

igreja, liberado à presença dos fiéis. Banidos pelo Concílio de Trento, que procurou
aproximar os fiéis do ritual facilitando a visualização, e deslocado o coro para os pés das
igrejas, ficaram os cancelos a delimitar o recinto sagrado.
Porém, eram altos, com grades bastante densas, que dificultavam a visão dos altares, e
ainda tinham, intercalados, os confessionários acima referenciados. Assim, diversos
conventos optaram por recortá-los, transformando-os em mesas de comunhão,
provocando a repreensão do provincial, que mandou retorná-los à sua altura original.
Porém, tanto a utilidade para a comunhão quanto a dificuldade que impunham à
visualização dos fiéis eram reais. Assim, o provincial optou por uma solução de
compromisso, mandando que os novos cancelos fossem feitos de barrotes finos e
espaçados, que os confessionários fossem limitados a dois e localizados nos extremos,
junto às paredes laterais da nave, e que a parte superior tivesse dobradiças, de modo a
poder descê-la até a altura adequada para a administração da eucaristia.
Não encontrei exemplos dessas grades altas. Com o
tempo, mesmo essa solução de compromisso acabou
sendo retirada. Porém, no seu tempo, Röwer alcançou
e até chegou a fotografar um exemplo de grades altas
em Bom Jesus da Coluna280.
Não tive oportunidade de visitar essa igreja. Porém,
pelas fotos encontradas na Internet, suponho que essas
grades não mais existem.
Todas as igrejas conventuais da província obedecem ao clássico padrão franciscano:
Nave única, capela mor profunda e abobadada, arco triunfal e dois altares colaterais.

280 Foto e informações extraídas de Basílio Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
391

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Santos (página 384), Rio de Janeiro (385) e São Paulo (página anterior) os altares
colaterais estão colocados em ângulo, à semelhança de Igaraçu, Ipojuca, Marechal
Deodoro, Olinda, Paraguaçu e São Cristóvão. Em Itanhaém281 e Cabo Frio282, são
frontais, localizando-se aos lados do arco triunfal, como em Cairu, João Pessoa, Penedo,
Recife e Sirinhaém.

Há duas igrejas onde a disposição dos altares colaterais é excepcional. Não ficam na
frente, aos lados do arco triunfal, senão embutidos nas paredes laterais da nave. São as
de Bom Jesus da Coluna e do Santuário da Penha283.

Em ambos os casos, são igrejas muito estreitas. Na Penha, a largura foi limitada pela
topografia do local. Na Ilha, não havia limitações físicas. Talvez a escassa largura tenha
sido determinada pelo uso inicial como hospício para frades convalescentes. Apenas
tardiamente, em 1719, foi decidida a transformação em convento.
281 Foto Bruno Thomaz (clickingthemoment.files.wordpress.com). Ver detalhes na página 395.
282 Foto MART (reporterrenatacristiane.blogspot.com.br).
283 Fotos Halley Oliveira (panoramio.com) e Claudio Perdido por ai (blogspot.com).
392

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A capela mor de São Paulo tem um belo
retábulo barroco. Porém, isso não deve
induzir a engano. Ele foi feito na Alemanha,
findando o século XIX, para substituir o
anterior, destruído num incêndio. Foi uma
contribuição da irmandade dos estudantes da
Faculdade de Direito.
No mais, predomina um estilo bem mais
conservador. No Rio de Janeiro, apesar da
talha excelente e da abundante douração, os
retábulos, do século XVIII, mantém as
características próprias do barroco nacional
português, com as típicas arquivoltas
concêntricas acompanhando a abóbada da
capela mor. Nota-se influências similares nos
retábulos de Itanhaém e Cabo Frio (página
anterior).
Algumas imagens – por exemplo, as dos altares colaterais do Rio de Janeiro – são de
madeira policromada e dourada. Porém, surpreende, nas igrejas da região – não apenas
nos conventos franciscanos como nos de outras ordens, capelas e matrizes – a
abundância de imagens de barro. Mesmo a imagem de Santo Antônio, no altar mor do
convento do Rio, é de terracota284. Substituiu, – provavelmente, na reforma de 1699 – a
imagem, também de barro, do “Santo Antônio do Relento”.
284 Fotografias cedidas por Frei Róger Brunório.
393

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também no nordeste existem imagens de terracota. Porém, não na
quantidade e nas dimensões em que se encontram no sudeste.
Na Bahia, nenhuma das imagens conhecidas de Frei Agostinho da
Piedade ultrapassa o metro de altura, limitando-se a bustos-relicário ou
pequenas imagens para capelas ou oratórios particulares. Já no sudeste,
seu discípulo, Frei Agostinho de Jesus, fez diversas imagens de
tamanho natural, Entre elas, as de São Bento285 e Santa Escolástica, no
mosteiro de São Bento da Parnaíba, cuja altura chega a 1,56m.
Entre os franciscanos, não apenas as duas imagens já apontadas são de
barro. No Rio, abundam, nas capelas da claustro, e boa parte dos
bustos-relicário são do mesmo material.
Porém, a peça mais interessante encontra-se em Itanhaém286. Ela é,
justamente, a imagem milagrosa que deu origem ao santuário. O
livro do tombo do convento conta a sua história assim:
“Veio da Baía Gonçalo Fernandes, homem de Portugal, a esta villa
de São Vicente, e juntamente atrás dele hua sentença da Relação
para o enforcarem por culpas que essa continha; e preso o dito
Gonçalo Fernandes se lhe leu a sentença da qual ele apelou, e
aceita a apelação para a Baía, ficando ainda preso, pediu o
carcereiro lhe mandasse vir um pouco de barro para fazer humas
imagens, o qual vindo fundiu duas imagens: hua de Nossa Senhora
da Assunção, outra de Nossa Senhora dos Anjos, a qual se
285 Reproduzida de http://bibliotecadomosteiro.com.br/ (Mosteiro de São Bento - São Paulo).
286 Reproduzida de http://www.flickr.com/photos/governomunicipaldeitanhaem/.
394

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

intitulou com o nome de Nossa Snra. da Conceição por causa da vila assim chamada, e
hum vulto de Santo Antônio que está na vila de São Vicente, em hua ermida; e a da
Snra. da Assunção na igreja Matriz, cuja vocação tem agora a vila de São Vicente;
acabadas as imagens, chegou ordem da Baía para se o homem não tinha padecido não
o enforcassem, porquanto não era nome o seu apelido; e assim ficou solto e livre; o que
vendo João Glvs. tão grande milagre, feito a dita Snra. trazendo um panicú nas costas,
e a pôs coberta com humas folhas em hum outeiro redondo chamado vaporá; e de onde
Francisco Nunes, homem velho, a trouxe às costas para esta vila, pondo-a em este
monte alto que está no confim desta vila chamada da Conceição, onde para o dito
outeiro se fundou huma ladeira que consta de oitenta e trés degraus com seus
taboleiros; e logo se dá em cima em hum terreno grande, a cuja vista fica a ponta da
igreja: estes degraus sobe de joelhos muitos devotos”287.
Eis aqui a origem do santuário, do convento, e também a primeira
imagem religiosa documentadamente feita no Brasil, estimativamente
datada em torno ao ano de 1560.
Tradicionalmente reconhecida como a Imaculada Conceição, Röwer
alerta que não corresponde a essa iconografia e até registra uma
tentativa de eliminar o menino para aproximá-la à iconografia
tradicional.
Embora Wolfgang Pfeiffer288 a identifique como Nossa Senhora do
Rosário, é mais provável que se trate da imagem de Nossa Senhora dos
Anjos, mencionada no Livro do Tombo. A da Imaculada Conceição –
trocada na origem, por razões ainda não devidamente esclarecidas –
acompanhou o Santo Antônio até a matriz de São Vicente e hoje se
encontra no Museu de Arte Sacra de Santos289.
Embora mais recentes e de qualidade bastante inferior,
também as imagens dos altares colaterais são de barro.
É provável que a frequência desse material, na região,
seja derivada da maior dificuldade de comunicação
com Portugal. Não é provável que todas as imagens
atualmente conservadas tenham sido feitas no Brasil,
mas é bem possível que muitas delas sejam, o que
indicaria a presença precoce de uma importante escola
de imagineiros locais.
287 Livro do Tombo de Itanhaém. Citado por Basílio Röwer em “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
288 Wolfgang Pfeiffer: “Imaginária Seiscentista e Setecentista na Capitania de São Vicente”, em “Barroco Memória Viva
– Arte Sacra Colonial” - UNESP. Edição coordenada por Percival Tirapeli.
289 Fotografia reproduzida do trabalho de Wolfgang Pfeiffer, citado na nota anterior.
395

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Se, nas igrejas conventuais, observa-se um estilo modesto e conservador, não acontece o
mesmo com as ordens terceiras. Especialmente, com as situadas em cidades importantes,
cujo poder econômico propiciava não apenas maiores despesas como também estilos
mais ousados.
Não temos notícias certas sobre a capela primitiva do Rio de Janeiro. Porém, quando ela
foi reformada e foi construída a nova casa de exercícios, nos anos 30 do século XVIII,
não se poupou despesas com a aquisição de materiais nobres nem com a contratação de
artistas gabaritados, vindos de Portugal.
Toda a capela primitiva foi redecorada. Até as paredes foram recobertas de ouro. No
retábulo – além da imagem da Imaculada conceição, certamente importada de Portugal –
observa-se um barroquismo plenamente desenvolvido, com grande movimento e figuras
que praticamente se destacam da talha como estátuas isentas. Além dos anjos, adultos e
infantes, são dignas de consideração a alegoria da Caridade com três crianças,
representada no conjunto superior, e o conjunto dos quatro evangelistas, ladeando o
trono e o tabernáculo.

396

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Porém, isso tudo empalidece quando comparado à casa de exercícios. Tudo é excessivo
e, ao mesmo tempo, harmônico. Caso raro entre as igrejas do período, praticamente tudo
é da mesma época e responde a um projeto único.

No arco, dois anjos, quase voando, apresentam um brasão coroado, igualmente isento.
Na capela mor, dragões alados seguram lampadários nos seus bicos290. Das balaustradas
das tribunas e do coro, quérubes e cariátides olham para os fiéis congregados na nave.
Mármores de diversas cores291 revestem o chão da capela mor e os balaústres do cancelo.
290 Detalhe similar observa-se na Matriz do Pilar, de Ouro Preto, posteriormente decorada pelo mesmo entalhador.
291 Compare-se com os pisos de Salvador e São Francisco do Conde, na página 65.
397

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Forros:
Capela mor, nave e subcoro
O forro do subcoro está pintado em
caixotões e com feitura bastante simples.
Já o da capela mor e, sobretudo, o da nave,
mais arrojados, constituem o exemplo
pioneiro de pintura ilusionista no Brasil.
Executados pelo português Caetano da
Costa Coelho, precederam em quase dez
anos à pintura de Simões Ribeiro na
sacristia dos jesuítas de Salvador.
O mesmo artista executou 16 pinturas
avulsas (8 nas paredes da nave e 8 na
capela mor) e foi responsável pelo
douramento da talha.
Posteriormente, trabalho na Igreja da
Candelária e no Mosteiro de São Bento.

398

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Foi responsável pelas obras de talha parietal
Manoel de Brito – já renomado pela sua
experiência como mestre entalhador na
igreja de São Miguel da Alfama e do
Convento de São Domingos, em Lisboa – a
quem se aliou, posteriormente, Francisco
Xavier de Brito, essencialmente incumbido
do arco triunfal e dos retábulos. Embora
não haja registros documentais, a similitude
de estilo e a contemporaneidade permitem
atribuir aos mesmos artistas as talhas da
capela primitiva.
Posteriormente, ambos artistas trabalharam
em Minas Gerais, sendo-lhes atribuídos
trabalhos na Matriz de Catas Altas e no
Pilar e Santa Ifigênia, de Ouro Preto.
Excetuam-se das autorias acima apontadas
as imagens – entre elas, o conjunto da
estigmatização do altar mor – que devem
ter sido importadas, já prontas, de Portugal.
Também em São Paulo o altar mor hospeda um
belo conjunto da estigmatização292. Aliás, esse
parece ser um motivo recorrente nas ordens
terceiras da região. A mesma cena encontra-se
representada em Angra dos Reis, Cabo Frio e
Santos.
No mais, a igreja dista muito da magnificência
do Rio. Além do menor poder aquisitivo, a
igreja paulista foi feita numa época em que o
barroco cedia terreno para o rococó. Grandes
superfícies azuis – talvez originalmente fossem
brancas – alternam com delicados filetes
dourados.
Mesmo nos retábulos, a presença do ouro é
discreta e a talha, bem menos abundante que a
que ornamenta a igreja do Rio de Janeiro.
292 Foto reproduzida de http://aparicaodelasalette.blogspot.com.br.
399

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

De fato, o mais interessante, na Ordem 3ª
de São Paulo, é a sua planta. A casa de
exercícios foi construída como uma cruz,
aproveitando a capela antiga – transversal
à nave da igreja conventual – como braço
do transepto da nova igreja. Sobre o
cruzeiro, chanfrado em forma octogonal,
há uma falsa cúpula, do mesmo formato,
dividida em oito setores, estando seis deles
– além do central, de formato circular –
preenchidos com pinturas alegóricas e os
dois restantes, envidraçados para entrada
de luz. Não sei se essas vidraças são
originais ou foram feitas posteriormente,
sacrificando duas das pinturas.
O mesmo formato octogonal apresenta a
falsa cúpula do Mosteiro da Luz. Porém,
neste caso, cobrindo a nave, enquanto o
coro e a capela mor – ambos retangulares –
prolongam-se em sentido transversal à
porta de acesso.
Também à diferença da Ordem 3ª, os oito
setores não são iguais. Sobre a capela mor,
o coro e as paredes laterais, são mais
largos. Os mais estreitos ficam, na frente,
sobre os altares colaterais e, no fundo,
onde, ladeando o coro, há duas tribunas
que, pelo seu formato, bem podem ter sido
utilizadas como púlpitos.
Nos quatro lados menores, inseridos nos
chanfros, sobre os altares e as tribunas, há
quatro grandes janelas que proporcionam
abundante iluminação sem perturbar o
recolhimento próprio do recinto.
Ambas as plantas são atribuídas a Frei Antônio de Sant’Anna Galvão, que, de 1776 a
1780, foi comissário da Ordem 3ª e, de 1788 a 1802, reformou o recolhimento,
incorporando a ele a antiga capela da Luz.
400

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A igreja é pequena, porém funcional e acolhedora. À semelhança do Desterro e da Lapa,
tem coros alto e baixo – o superior, gradeado, para uso das freiras – e acesso gradeado à
capela mor para administração da eucaristia. O acesso, como nos outros mosteiros, é
lateral e independente do claustro.

Carecendo de plantas, optei por identificar os
âmbitos com base em fotos de Google Maps:
Ordem 3ª: 1-Acesso à igreja. 2-Nave. 3-Cruzeiro
octogonal (coberto com telhado a quatro águas). 4Capela Mor. 5-Capela primitiva (aproveitada como
transepto, do lado do evangelho). 6-Transepto, do
lado da epístola (para onde foi remanejado o altar
da Imaculada Conceição).
Recolhimento da Luz: 1-Acesso à igreja. 2-Nave
octogonal. 3-Capela Mor. 4-Coro. 5-Claustro.
401

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Voltando aos conventos franciscanos, se, na
região, surpreendem pela sua austeridade,
surpreendem, também, pela abundância de
capelas e oratórios.
Além da estrutura habitual (capela mor,
altares colaterais e capela dos terceiros),
Angra tinha dois altares na nave, dedicados a
Santa Ana e São Benedito. Em Cabo Frio,
houve um altar de Nossa Senhora das Dores.
Em Santos, uma capela de São Benedito, Em
Taubaté, uma imagem de Nossa Senhora da
Piedade, tida por milagrosa. Em São Paulo,
Röwer registra a existência de três altares
desaparecidos sem indicar as imagens que
neles se encontravam.
Porém, a maior quantidade de oratórios se encontra no Rio de Janeiro. Não na igreja,
senão no claustro. Vários deles eram verdadeiras capelas, com tabernáculo e até
sacristia. Nem todas se conservam e algumas foram deslocadas ou alteradas. Com base
numa planta atual, cedida pelo CEPAC, tentarei demonstrar a distribuição original, logo
após a reconstrução do convento, acontecida na segunda metade do século XVIII.

402

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ambos os conjuntos de figuras do nascimento e morte de São Francisco já existiam no
convento antigo e foram remontados após a reconstrução. Também já existiam as
capelas do Ecce Homo e da Porciúncula.
As cenas acima fotografadas constam de figuras avulsas, montadas à maneira de um
presépio. No nascimento, faltam duas imagens: o pai e a mãe de São Francisco, que
ainda existiam em 1955 e hoje estão desaparecidos.
Essas cenas constituem apenas oratórios, sem sacristia. Já as capelas tem sacristias e até
sacrários, possibilitando assim a celebração de missas.

A capela da Consolação foi desmontada para criar uma área de atendimento na portaria.
Foi refeita na antiga capela do Ecce Homo, que por sua vez foi deslocada para uma nova
área, no início da via sacra.. A imagem de Nossa Senhora da Consolação foi perdida,
conservando-se apenas o retábulo, hoje ocupado por uma Imaculada Conceição.
403

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A imagem de Nossa Senhora das Dores é de roca, rodeada por pinturas que representam
as Sete Dores: Profecia de Simeão, Fuga ao Egito, Perda do Menino no Templo,
Caminhada ao Gólgota, Crucificação, Descida da Cruz e Sepultamento de Jesus.

Exceto o retábulo, a capela de São Joaquim é bastante simples e tem apenas uma porta
que conduz a sacristia. Já as de Nossa Senhora, ricamente decoradas, têm portas gêmeas,
sendo que apenas uma delas se abre à sacristia, limitando-se a segunda a restaurar a
simetria.
Não se conserva resto algum – a não ser o vão – da capela da Sagrada Família. Quanto
ao Ecce Homo e à Porciúncula, não me foi possível fotografá-las porque se achavam em
restauração.
Numa esquina do claustro, próximo ao de profundis, existia um retábulo com o Cristo
Crucificado que hoje se encontra no refeitório. Chamava-se este nicho de Capela do
Calvário. Nele eram encomendados os frades que faleciam no convento.
Além desses oratórios, existiam, no claustro, diversos nichos
com imagens avulsas. Essas imagens não se conservam. As que
atualmente podem ver-se, em alguns deles, são modernas.
Cabe lembrar, ainda, que, como era habitual nos conventos
franciscanos, existiam oratórios adicionais na sala capitular
(Santa Ana) e na portaria (Imaculada Conceição), além de áreas
dedicadas ao culto no refeitório e de profundis.
Existiam, também, capelas e oratórios na enfermaria, na
biblioteca, na enfermaria dos escravos e até no topo do morro:
Santa Bárbara e Santa Catarina.
404

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também em Cabo Frio há uma capela no topo do
morro. É a de Nossa Senhora da Guia e marca o
local onde a tradição diz ter passado o apóstolo
Tomé. Segundo a lenda, largamente difundida
em tempos coloniais, teria chegado a América,
deixando sinais em locais tão distantes como
Paripe, perto de Salvador, e Copacabana, à beira
do lago Titicaca.
Na Penha, além da capela principal, que deu origem ao santuário, havia outra, a meia
altura da montanha, dedicada a São Francisco.
Porém, a que mais surpreende também está no
Rio de Janeiro. Fica numa esquina do primeiro
andar do convento, em frente da cela ocupada
pelos guardiões. Era uma capela privativa?
Não. Apenas ficava nesse local por ser o melhor
custodiado. Certamente, era o melhor lugar para
guardar o que de mais valioso existia dentro do
convento.
É a chamada Capela dos Três Corações293 (de
Jesus, Maria e José). Nela se guardavam as
relíquias dos santos.
Somente no retábulo e no frontal do altar há
não menos de 26 relicários. Em cima do
retábulo há, ainda, duas palmas-relicário e nas
paredes, sete bustos-relicário colocados sobre
peanhas.
Cada relíquia está identificada. Sobre a maior, localizada
no centro do frontal, há um grande osso com a inscrição:
“S. Theodori M.” (São Teodoro, mártir).
Na antiga biblioteca, estão guardados,
mais sete bustos-relicário e diversas
palmas-relicário, já despojadas das
respectivas relíquias.
Röwer294 menciona, ainda, a existência
de um relicário oval, de 6cm x 5cm, contendo “nada menos do que
relíquias de todos os 12 apóstolos”.
293 Fotografia cedida por Frei Róger Brunorio.
294 “O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro. Sua história, memórias, tradições”.
405

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também na antiga biblioteca encontra-se guardado o altar portátil que pertenceu a Luís
Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias. Não parece que tenha origem franciscana.
Porém, após a sua morte, seus descendentes acharam conveniente colocá-lo sob a guarda
do convento e ali se encontra até hoje.
De fato, era propriedade particular de Lima e Silva e tem especial valor histórico para no
âmbito militar. Porém, não deviam ser muito diferentes os altares portáteis que os
franciscanos levavam no seu trabalho pastoral, frequentemente itinerante.
No nordeste, as missões franciscanas ficaram restritas às décadas iniciais da
colonização. Após diversos conflitos, os frades optaram por retirar-se aos seus conventos
deixando o trabalho missionário por conta dos jesuítas. Contrariamente, no sudeste do
Brasil, os jesuítas acabaram entrando em conflito com os colonos portugueses e os
franciscanos acabaram assumindo as suas missões.
Além disso, era frequente os franciscanos se deslocarem entre a população branca e
mestiça, dispersa ou reunida em pequenas comunidades, onde o acesso era difícil e
raramente chegava o clero secular.

O altar de Caxias é um baú de madeira, de 88x55x43cm, forrado de couro e reforçado
com pregos de metal distribuídos simetricamente em forma ornamental. Tem uma tampa
frontal e uma superior. O interior é dividido horizontalmente em dois compartimentos,
utilizados para trasportar os utensílios necessários para a celebração das missas.
Levantada a tampa, o compartimento superior serve de mesa e a própria tampa, em cujo
interior está pintado um quadro da Santa Ceia, serve de retábulo.
Durante suas campanhas – e, especialmente, antes das batalhas – Caxias mandava o
capelão celebrar missa implorando a proteção divina. Hoje, ele é considerado patrono do
Exército Brasileiro e o dia 25 de agosto, aniversário do seu nascimento, é comemorado
como Dia do Soldado. Nessa oportunidade, todos os anos, o altar é retirado e utilizado
novamente nas comemorações militares.
406

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ao tratar da construção dos primeiros conventos, citei disposição dos Estatutos295 no
sentido de que “de nenhum modo se possa fundar caza de novo sem haver pessoa, ou
pessoas, que se ofereçam a fazella logo de pedra, & cal, ou dar notável esmola para
ella”. Pois bem, a mesma disposição se continha nos Estatutos da Conceição296. Porém,
com uma sutil diferença: Entre “fazella logo de pedra, & cal” e “ou dar notável
esmola”, foi inserida a frase “se puder ser”. Esse acréscimo, aparentemente
insignificante, transforma o que era uma disposição taxativa em simples recomendação.
Por que razão essa disposição foi flexibilizada apenas para os conventos do sudeste?
Para achar a razão, devemos observar a localização dos conventos. Todos os do nordeste
se encontram próximos do mar. Além da pedra, abundava a cal, elaborada com conchas
de mariscos. Não acontecia a mesma coisa no sudeste, onde a colonização se estendeu
rapidamente para o interior.
Mesmo na Província da Conceição, os conventos situados à beira mar foram feitos de
pedra e cal. Grandes depósitos de conchas – chamados de “minas de cal” - eram doados
para a construção dos conventos. Na baía de Angra, as ilhas dos Cabritos, da Sundara e
da Lage foram integralmente doadas aos franciscanos com essa finalidade. Em Cabo
Frio, a Câmara cedeu várias “minas” , porém sem incluir as terras. Garantia-se, apenas,
o direito perpétuo a extrair quantas conchas forem necessárias.
Contrariamente, nas localidades do
interior não havia mariscos. Para a
caiação, usava-se um barro branco,
chamado “tabatinga”, mas ele não tinha
a solidez necessária para cimentar as
paredes de pedra. Em substituição, foi
amplamente usada uma técnica de
origem árabe, aqui chamada de “taipa de
pilão”, que consistia em armar formas de
madeira, desmontáveis, como as que
atualmente se usam para fazer estruturas
de concreto, e compactar barro dentro
delas com ajuda de um pilão297.
O barro era depositado em camadas de, aproximadamente, 20cm, reduzidos a 10 ou 15
depois de socados, até preencher a altura toda da forma. Concluído um trecho, a forma
era desmontada e novamente armada para fazer o seguinte.
295 “Estatutos da Provincia de Santo Antonio do Brasil”, aprovados em 14/02/1705 e confirmados em 03/01/1708.
296 “Estatutos Municipaes da Província da Immaculada Conceiçaõ do Brasil”, aprovados em 07/04/1710 e confirmados
em 25/03/1713.
297 Ilustração reproduzida de Patrick Bardou e Varoujan Arzoumanian: “Arquitecturas de Adobe”. Gustavo Gili, 1981.
407

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para melhorar a resistência, formava-se a base com alicerces de pedra, sobre os quais
dispunham-se os sucessivos trechos de taipa. Concluído um nível, a operação era
repetida nos superiores, até atingir a altura desejada298.
As formas não podiam ser retiradas sem que o trecho de taipa estivesse suficientemente
seco e consolidado. Querendo avançar mais rapidamente, várias formas simultâneas
podiam ser preenchidas numa mesma fase. Porém, para iniciar os níveis superiores era
imprescindível a prévia solidificação dos inferiores.
Na preparação do barro, cada mestre taipeiro tinha os seus métodos,
geralmente empíricos. Preferia-se o barro vermelho, com abundante
proporção de argila299, ao que podia misturar-se areia em proporções
determinadas. Para melhorar a resistência, misturava-se à massa
sangue de boi, estrume, palha, crinas etc.
Concluída a parede, podia ser caiada e pintada, o que, além de
melhorar a estética, ajudava a protegê-la da umidade.
Outros recursos para evitar a ação da umidade eram a construção
de alicerces altos – ultrapassando o nível do chão para evitar a
infiltração pelo solo – e o prolongamento dos telhados, formando
amplos beirais, como ainda pode observar-se no Mosteiro de
Nossa Senhora da Luz.
Edifícios assim construídos podiam ser quase tão sólidos e duráveis como os feitos de
pedra e cal. Muitos deles, como o convento de São Paulo e o Mosteiro da Luz, existem
até hoje. Também em Minas Gerais abundam as construções de taipa.
298 Ilustração reproduzida de Patrick Bardou e Varoujan Arzoumanian: “Arquitecturas de Adobe”. Gustavo Gili, 1981.
299 Fotografia reproduzida de Gui von Schmidt, Antônio de Oliveira Godinho: “Museu de Arte Sacra, Mosteiro da Luz”.
Editora Artes, 1987.
408

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não faltam testemunhos da durabilidade dessas construções nos relatos dos viajantes
estrangeiros no século XIX. Depois de descrever minuciosamente o processo de
elaboração das taipas, Mawe300 afirma: “Esta espécie de estrutura é durável. Vi casas
assim construídas que duraram duzentos anos e a maioria delas tem vários andares”.
Koseritz301 se admira: “Edifícios enormes, construídos na sua maior parte de taipa, mas
que ainda estão de pé. E será difícil demoli-los, pois, com o tempo, a taipa empregada,
que é de qualidade especial, se petrifica”.
Mais dois conventos da província foram feitos de taipa: Itu e Taubaté. Porém, não
tiveram a mesma sorte.

O convento de Itu302, construído em pouco mais de um ano, provavelmente não teve
tempo adequado de consolidação. Em 1728, contando menos de quarenta anos, uma das
alas precisou ser demolida e reconstruída por completo. Mesmo assim, em 1783, já tinha
“rachadas as suas paredes por várias partes, ameaçando de tal sorte o demolir-se por
si mesmo, que estaria lançado por terra se se lhe não acudisse com escoras, que ainda
o sustentam em pé”303.
A razão, segundo o Definitório, era que “a terra daquele continente, de que foram
fabricadas as taipas, que se vêm arruinadas, hé areenta, que por isso não liga huma
com a outra”. Ainda, segundo o Definitório, “sendo preciso por este motivo conduzir-se
diferente terra de outro lugar distante para se levantar a dita nova fábrica, e aliás
temos notícia, que a pouco espaço fora da dita vila se encontra pedra fácil de extrair, e
conduzir, sendo certo sem opinião, que as paredes de pedra prometem mais que
dobrada duração, e resistência à formiga a respeito das taipas, ordenamos ao Prelado
300 John Mawe: “Travels in the Interior of Brazil”. Londres, 1812.
301 Karl von Koseritz e Albrecht W. Sellin: “Bilder Aus Brasilien”. Leipzig, 1885.
302 Fotografia reproduzida de Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
303 Decisão do Definitório, citada por Röwer em “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
409

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

local, e aos seus sucessores, que façam fabricar de novo o sobredito Convento de pedra,
e barro no mesmo lugar que ocupa o velho arruinado, e com o mesmo espaço e largura
sem acréscimo, ou diminuição afim de que se aproveite a mesma igreja, que não padece
danificação notável, e as mesmas madeiras, que todas se mostram sem corrupção”.
A disposição do Definitório previa, ainda, a forma em que a obra deveria ser conduzida,
sincronizando o fornecimento de materiais com os esforços de construção e mantendo
sempre acomodações antigas enquanto as novas não estivessem prontas para não
interromper a rotina do convento. Porém, pouco ou nada disso foi feito.
O guardião do convento acabou seu período sem iniciar a obra.
Seu sucessor, vendo as dificuldades da empreitada, optou por
renunciar ao cargo alegando “total ruína do Convento e
impossibilidade moral de re-edificação”. A renúncia foi recusada
e a Província resolveu envolver-se diretamente nos esforços de
reconstrução, mas nem por isso a obra chegou a bom termo.
A opção pela construção em pedra e barro não foi concretizada.
Foram refeitas duas alas, ainda em taipa, e re-erguido o
campanário. Mesmo assim, a obra ficou mal acabada, motivando
novas intervenções em diversas oportunidades. Finalmente, em
1907, um incêndio destruiu boa parte do edifício e, em 1918, a
Província optou por desfazer-se das ruínas. Hoje, de todo o
Convento de São Luiz de Itu resta, apenas, o cruzeiro304.

304 Foto Ricardo Carretti em http://photo.qiz.net.br/ (detalhe).
410

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Quanto ao convento de Santa Clara, em Taubaté, aquarelado por Thomas Ender em
1817305, não achei registro de deficiências na construção. Porém, em 1843, sofreu um
incêndio “que reduziu a cinzas em poucas horas não só a sacristia com tudo que nela
havia, como quasi toda a igreja, e grande parte do Convento, ficando só as paredes,
ainda essas viciadas, com a força das chamas”306.
O Convento foi reconstruído, porém com
muita dificuldade. Em 1856, ao relatar o
incêndio e as obras executadas, o guardião
informava, ainda, que a igreja já estava em
uso, porém faltando o forro da nave. Em
1876, já desocupado pelos franciscanos, foi
colocado novo forro “pois o velho estava
podre e caia a pedaços todos os dias,
consertou em parte o telhado da igreja, fez
aplanar e arvorar o pateo do Convento, e
ergueu bonito e grande cruzeiro”307.
Hoje, nada resta da antiga igreja, a não ser
a fachada. Mesmo assim, alteada ao nível
da torre e acrescida de três estátuas e um
óculo em forma de rosetão.
Em 1891, depois de ter servido, por
algum tempo, como sede do Instituto de
Agricultura, Artes e Ofícios, o convento
foi cedido aos frades capuchinhos, que
efetuaram uma completa reconstrução
interior, aproveitando apenas as fachadas
e parte dos alicerces.

305 Página anterior. Reproduzido de http://www.almanaqueurupes.com.br.
306 Carta do guardião, Frei Joaquim das Dores, citada por Röwer em “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
307 Carta do padre Francisco Cosco, citada por Röwer em “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
411

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os Conventos do Norte
Conforme esclarecido anteriormente, o escopo inicial deste trabalho limitava-se aos
conventos do Nordeste, entre Bahia e Paraíba. Ou seja, aqueles que formam parte da
Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil.
Porém, feita menção aos conventos do sudeste, não poderia faltar uma breve referência
aos do norte do Brasil, antigamente chamado de Estado do Maranhão e Grão-Pará.
Não tive oportunidade de visitar esses conventos, razão pela qual me verei forçado a
referenciar outras fontes.

A costa norte da América portuguesa – inicialmente limitada ao trecho a leste da foz do
Amazonas – demorou a ter a sua posse efetivamente garantida. Em 1535, os primeiros
donatários falharam em tomar posse, limitando-se a estabelecer uma pequena povoação,
logo abandonada por causa da pressão indígena. Novas tentativas foram feitas, sem
sucesso, em 1539 e 1554/55.
Já nessa época, os franceses transitavam impunemente, chegando a instalar feitorias com
edificações de pedra, o que indica uma posse relativamente estável. Em 1612. animada
com esse sucesso, a Coroa francesa pensou em estabelecer, formalmente, uma colônia,
depois chamada de “França Equinocial”.
412

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O estabelecimento durou apenas três anos. Porém, além de criar o embrião da atual
cidade de São Luís – origem de todo o Estado do Maranhão e Grão-Pará – bastou para
deixar clara consciência de que o domínio português na costa norte não poderia ser
consolidado sem o envolvimento direto da Coroa.
Embora a reconquista do Maranhão tivesse sido executada por forças pernambucanas –
dependentes do Governo Geral do Brasil – a extrema dificuldade com que executaram
essa tarefa convenceu Filipe II de que não seria possível evitar novas invasões sem uma
presença forte, organizada, com suficiente autonomia política e militar e diretamente
vinculada a Lisboa. Assim, em 1621, optou por constituir um novo estado, independente
do Brasil, tomando como base a cidade fundada pelos franceses308.

O estabelecimento do Governo Geral, na Bahia, tivera ativa participação dos jesuítas.
Também o do Maranhão precisaria do apoio da religião. Porém, levando em conta o
difícil relacionamento dos jesuítas com os colonos portugueses e a imperiosa
necessidade de povoar o novo estado, as autoridades se inclinaram por chamar outra
ordem, optando pelos franciscanos da Província de Santo Antônio de Portugal.
Esse vínculo não deve estranhar. Além do natural centralismo da Coroa, é preciso
considerar que as comunicações da costa norte com Portugal eram bem mais diretas.
Não apenas o governo respondia diretamente a Lisboa como o novo Ouvidor Geral
reportava-se à Casa da Suplicação, sem relação nenhuma com a Relação da Bahia. Por
outra parte, da mesma província dependia a Custódia de Santo Antônio do Brasil, com
sede em Olinda e jurisdição sobre os conventos brasileiros.
Dois franciscanos de Olinda acompanharam as tropas que expulsaram os franceses.
Porém, eles foram como capelães do exército e, em 1616, após dois anos de campanha,
regressaram a Pernambuco. Pouco depois, em 1617 – antes mesmo da criação do Estado
308 Pintura de Johannes Vingboons (1665) baseada na gravura de Frans Post (1645) que ilustra o livro de Barlaeus
publicado em 1647. Post esteve no Brasil entre 1637 e 1644, período em que deve situar-se esta visão da cidade.
413

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

do Maranhão – quatro novos frades chegavam ao Forte do Presépio, origem da atual
cidade de Belém. Respondiam ao chamado de Jerônimo de Albuquerque Maranhão,
quem, após conquistar São Luís, tencionava consolidar a ocupação em direção à linha de
Tordesilhas, simultaneamente estabelecendo um dique contra os franceses – bem como
os ingleses e holandeses, que também incursionavam na região – e contra os índios, que
tanto poderiam hostilizar os portugueses como apoiar os invasores estrangeiros.
Instalados, inicialmente, numa palhoça vizinha ao forte, logo iniciaram seu hospício, no
sítio de Una, construído com a ajuda dos índios que começavam a evangelizar.
Ainda não constituíam uma custódia. Apenas, um comissariado. A criação da custódia
foi decisão da Coroa, decorrente da constituição do Estado, e só se fez efetiva, em 1624,
com a chegada de Frei Cristóvão de Lisboa a São Luís do Maranhão.
Já existia, desde o tempo dos franceses, um pequeno convento fundado pelos
capuchinos. Depois da expulsão, foi brevemente ocupado pelos capelães franciscanos e
depois cedido aos jesuítas, que também não permaneceram por muito tempo. Segundo
Berredo309, “como por esta occasião se abandonou aquella casa às ruínas do tempo,
quando Frey Christóvão de Lisboa chegou à Cidade de S. Luiz, achando-a incapaz de
habitação humana, se agazalhou na do Feitor Gaspar de Souza, que generosamente lha
offereceo”.
“Porém – continua Berredo – a milagres da sua diligencia, no brevissimo termo de
cinco dias, se levantou Igreja no mesmo sítio com varias officinas Religiosas, tecido
todo de palmeira brava, onde transladado, com seus companheiros, se celebrou a
primeira missa na festividade de S. Lourenço; e entrando logo na fundação de mais
capacidade, lhe lançou a primeira pedra debaixo do nome de Santa Margarida”.
Segundo Frei Vicente do Salvador310, tanto a igreja quanto o convento eram de taipa. E
não faltaram milagres durante a construção: “um foi que dizendo os pedreiros que para
se rebocarem as paredes eram necessárias 60 pipas de cal, e não havendo mais que 25
com elas se rebocaram, e sobejaram ainda 17 pipas, não sem grande admiração dos
oficiais, que com juramento afirmaram era milagre. Outro foi que trazendo-se para a
obra em um carro uma mui grande e pesada trave, caiu o carreiro que ia diante, e
passando a roda do carro por cima dele com todo aquele peso, não lhe fez dano algum,
mas logo se levantou são, e prosseguiu sua carreira, ficando-lhe só o sinal da roda
impresso no peito por onde passou para prova do milagre”.
Mal iniciada a construção do convento em São Luiz, passou o custódio ao Pará.
Hospedou-se inicialmente em Una e, passando a Belém, “por falta de convento, se
recolheu a uma casa particular”311.
309 Bernardo Pereira de Berredo e Castro: “Annaes Históricos do Estado do Maranhão”, 1749.
310 Frei Vicente do Salvador: “História do Brasil”, 1627.
311 Bernardo Pereira de Berredo e Castro: obra citada.
414

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O “conventinho”, iniciado em 1617, era um modesto hospício de madeira e palha
rodeado por um muro de pau-a-pique. Normalmente, os conventos eram construídos
pelos frades com base nas esmolas e na colaboração dos fiéis. Porém, provavelmente
por tratar-se de um sítio estratégico e ainda em formação, foi-lhes concedido “que por
conta de minha Fazenda se lhes ordene na dita Conquista uma casa e igreja de madeira
em que vivam, e celebrem os ditos ofícios, e se lhes dê por uma vez uma custódia de
prata para o Santíssimo Sacramento, e uma caixa para o Sacrário, e assim de
ordinária, em cada, um ano uma pipa de vinho de Canárias ou da Ilha da Madeira, que
irá em piroleiras, por respeito da broca que há naquelas partes, e um quarto de farinha
para hóstias bem concertado, e outro de azeite deste Reino, e duas arrobas de cera
lacrada, uma em velas e outra em rolos, e assim de oito varas de burel para cada
religioso, e de trinta alqueires de sal para gasto da comunidade”312. O mesmo alvará
esclarecia que a ordinária “se lhe pagará por tempo de cinco anos somente, visto não
haver por ora rendimento na dita Conquista, donde as possam haver de seu
recebimento”. Esperava-se, provavelmente, que, nesse prazo, a população progredisse o
suficiente para poder sustentar, com suas esmolas, a manutenção do convento.
Não sei se a construção de madeira chegou a ser iniciada. O certo é que, entre 1626 e
1627, começou a ser construído o Convento de Santo Antônio, já na localização atual,
em área doada pelo capitão Baltazar Rodrigues de Fontes. Também esta construção foi
feita integralmente em taipa.
Não cabe, neste caso, a observação feita a propósito de Itu, Taubaté e São Paulo. Tanto
São Luiz quanto Belém ficam à beira-mar e, certamente, não faltavam conchas. Talvez
as causas fossem a pressa por consolidar a ocupação, a falta de canteiros experientes ou
a carência de cantaria adequada para as construções. De fato, quando, em 1738, estava
em curso a reconstrução do convento, solicitou-se, através do governador, “ordenar-se
de cá em Portugal a pedraria necessária para os portais, arcos e colunas dos mesmos
edifícios”313. Negada essa ajuda, os próprios frades tiveram de procurar e transportar “na
canoa toda a pedra necessária com excessivo trabalho”314.
No dizer de Meira Filho, “humildíssima e simplória”315, a construção até antão existente
era, também, precária. A petição do governador justificava: “que o Convento de Santo
António do Pará de que Vossa Majestade é padroeiro está ameaçado de uma total ruína
por ser feito de taipa e terra solta, que por todas as partes se acha arruinado de
formigas, de que resulta cair muito a cada passo as paredes, principalmente no tempo
de inverno sem que sejam bastantes os muitos espiques de que se acha rodeado o dito
312 Alvará de Filipe II, de Portugal, em 16/06/1618. citado por Maria Adelina de Figueiredo Batista Amorim em “A
Missionação Franciscana no Estado do Grão-Pará e Maranhão” (1622-1750).
313 Petição do Governador do Maranhão, em 26/04/1738, com despacho negativo do Conselho Ultramarino. Idem.
314 Carta do antigo prelado no Estado do Grão-Pará, ao Definidor da Província, em 02/12/1761. Idem.
315 Augusto Santos Meira Filho: “Evolução Histórica de Belém no Grão-Pará” Grafisa, 1976
415

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

convento para sustentar aquela máquina sem alicerces firmes, nem para obviarem o
perigo e desgraça que por instantes está ameaçando aos religiosos nele moradores”.
A que atribuir tamanha fragilidade? Dos conventos do sudeste, apenas o de Itu se
ressentia de similares problemas e foi por causa da pressa na construção e do uso de
terra inadequada. Podemos também atribuir os defeitos de Belém à imperícia dos
construtores ou será que houve outras causas?
Pela descrição acima, ocorre-me pensar numa outra técnica de construção. Além da taipa
de pilão, existia a taipa de mão, que consistia em pressionar o barro sobre um esqueleto
de madeira, sendo por isso também chamada de “pau-a-pique”316.

Pela sua leveza e rapidez de execução, a taipa de mão era habitualmente utilizada, nos
conventos franciscanos, para fazer paredes divisórias. Especialmente, as dos andares
superiores, que descansavam sobre pisos de madeira. Porém, considerando a expectativa
de permanência destes edifícios, não se aconselhava seu uso em superfícies externas,
sujeitas à intempérie, preferindo-se para isto a pedra ou a taipa de pilão.
Mesmo assim, não faltam exemplos de grandes edifícios feitos dessa maneira,
especialmente quando era necessária uma execução rápida e não necessariamente
permanente. Assim foram construídas diversas igrejas nos distritos mineiros,
posteriormente complementadas ou substituídas por construções de pedra na medida em
que os povoados se estabilizavam e cresciam economicamente. Não seria de estranhar
que os conventos do norte – apressadamente edificados no contexto da consolidação da
posse contra as pretensões francesas, inglesas e holandesas – tivessem se servido dessa
técnica, embora sabendo que, mais cedo ou mais tarde, precisariam ser reconstruídos.
316 Sílvio Colin: “Técnicas construtivas do período colonial”, em http://coisasdaarquitetura.wordpress.com/.
416

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ao tempo da petição, já tinham sido iniciadas as obras da capela mor. Porém, “porque a
pobreza que o suplicante e os seus religiosos professam os impossibilitam para o
seguimento da obra”, o governador solicitava “a sobredita pedra de construção”, além
de ferro e “alguma esmola anual para as obras na igreja e convento”.
O governador – João de Abreu Castelo Branco – acabava de assumir seu posto e, não
tinha sido, ainda, influenciado pelos conflitos locais. Mais tarde, ao ser questionado
sobre a disponibilidade de verbas no Estado, a resposta foi menos comedida.
Afirmava o governador “que no Convento de Santo António daquela cidade via andar e
trabalhar bastantes índios na reedificação que continuam” e que “estes religiosos têm
missões com bastantes índios que aplicam à mesma obra e que mandam com canoas a
buscar drogas ao Rio das Amazonas”. Entendia, portanto, “que não pararia a sua obra
por falta de meios, e isto era o que não acontecia nas obras necessárias para a
fortificação e defesa daquele Estado, que estando umas em parte e outras em todo
arruinadas não tenha a fazenda real sobras com que lhe acudir, e lhe constava que,
quando eram para este efeito muitos índios, se achara sempre naqueles religiosos
bastante repugnância a dá-los”.
Aflorava, portanto, o conflito entre os interessados em explorar a mão de obra indígena e
a sua defesa pelos missionários, por sua vez acusados de explorá-la em seu próprio
benefício. Esse conflito foi constante em todas as regiões de missão e iria ter particular
influência na expulsão das missões, acontecida na era pombalina.
Mesmo assim, com base na mão de obra indígena e em doações de particulares, a
construção continuou avançando e em relativamente pouco tempo – de 1736 a 1743 – o
novo convento estava concluído. Desta vez, integralmente edificado em pedra e cal.
Não é fácil imaginar a feição original do edifício pela sua configuração atual. Para isso,
podem ser de grande ajuda os seguintes prospectos de Belém, estimativamente datados
da segunda metade do século XVIII.

417

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No primeiro317, publicado no século XIX – porém, aparentemente, representando uma
situação bem anterior – o Convento de Santo Antônio (primeira edificação a partir da
esquerda) lembra fortemente as casas franciscanas de Portugal, com um único e grande
arco abatido dando acesso à galilé, três janelas no coro e frontispício triangular simples,
sobreposto por uma cruz. Não há torres, mas já se nota a dupla espadana.
À semelhança de Recife, ficava à beira-mar, sendo depois afastado pelo aterro da praia.
Em frente a ele, notam-se o típico cruzeiro e uma pequena construção que avança sobre
o adro, hoje consideravelmente ampliada. No lado oposto, percebe-se-se o telhado da
capela dos terceiros, ainda sem a fachada externa e sem as instalações do hospital.

O segundo318 – estimativamente situado em torno a 1788 – é bem mais detalhado.
Sobre o telhado da igreja, nota-se a espadana, no ângulo interior do claustro. O arco
abatido foi reduzido para arco pleno e ladeado por duas janelas, também arqueadas. À
direita, mais um arco se abre no extremo da galilé mostrando, como hoje, a janela e o
frontispício com nicho. A despeito da fachada, voltada para o mar, esse acesso já se
insinua como principal por ser o melhor posicionado para quem chega da cidade.
À esquerda, notam-se parte da cerca e algumas construções de menor volume. Depois, o
convento e a sua prolongação frontal, em cujo andar superior se abre uma varanda a
modo de mirante. Do lado contrário, a capela dos terceiros apresenta três janelas e, logo
a seguir, uma construção maior, com frontispício bastante ornamentado, que poderia ser
a sede da Ordem Terceira.
Com certa dificuldade, por causa da similaridade de cores e das deficiências da
reprodução, percebe-se o cruzeiro, junto à cerca. Aparentemente, carece de pedestal,
sustentando-se, simplesmente, sobre um pequeno montículo de terra coberto de grama,
ao igual que o resto do adro. Na praia – embora o desenho não o destaque – é provável
que houvesse um ancoradouro para pequenas embarcações.
317 Reproduzida de Maria Adelina Amorim (obra citada).
318 Alexandre Rodrigues Ferreira: “Viagem filosófica pelas capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá
1784-1792”. (RIHGB, 1885-1888). Desenho atribuído a Joaquim José Codina.
418

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Hoje319, dois arcos de menores dimensões –
ambos, cegos – ladeiam o arco central no lugar
das janelas. Fora esse detalhe, não há
mudanças significativas, exceto a desaparição
do adro e do acesso à praia. A entrada principal
é mesmo o arco lateral, encimado pelo nicho
com a imagem de Santo Antônio.
Ainda não existe sineira frontal, mas há uma
pequena torre, construída pelos terceiros, no
ângulo entre a capela e a igreja conventual.
Três plantas da cidade aportam dados interessantes. A primeira, aproximadamente de
1630320, registra sumariamente o convento velho. A representação, bastante convencional
– mais interessada, de fato, em mostrar as localizações que os detalhes arquitetônicos –
limita-se a um telhado, algumas janelas e uma paliçada em volta. Interessa, porém, por
mostrar que, embora mais perto que o hospício de Una, ainda se encontrava bastante
distante do núcleo populacional e que essa localização acabou por definir, a partir do
Forte do Presépio, o principal eixo de expansão da cidade.
Era um sendeiro tortuoso, aberto na mata, ladeando o qual apenas se esboçava um
casario à beira-mar. No dizer de Meira Filho321: “Assumindo a liderança na ocupação
desse bairro, os padres de Santo Antônio abririam, não só a trilha que deveria permitir
a ligação entre a matriz e o seu largo, mas a vereda, o caminho primordial da expansão
de Belém naquele rumo”.

319 Foto Odilson Sá em http://www.panoramio.com/.
320 Reproduzida de Nestor Goulart Reis Filho: “Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial”, Edusp, 2000. (detalhe)
321 Augusto Santos Meira Filho: “Evolução Histórica de Belém no Grão-Pará” Grafisa, 1976
419

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Muito mais precisa é a planta ao lado322,
elaborada em 1753, poco depois da conclusão
do convento novo e da Ordem Terceira.
Não tem detalhes pictóricos como os da planta
anterior. É um trabalho técnico, provavelmente
elaborado por engenheiro militar.
O bairro da Campina já conta com várias ruas.
Uma delas leva diretamente à entrada lateral da
galilé.
Está claramente definido o polígono da cerca,
diferenciando uma área mais restrita, por trás
do convento, e outra mais ampla, com várias
construções secundárias.
O convento desenvolve-se em torno do claustro, porém evidenciando que, desde cedo, já
possuía duas prolongações no fundo (provavelmente, a cozinha e a capela mor) e uma na
frente (portaria e varanda).
A igreja, destacada em branco, mostra claramente o entroncamento da capela lateral.
Porém, além dela, a construção se estende, irregularmente, fora da cerca, sugerindo que
já existiam diversas dependências dos terceiros, provavelmente acrescentadas conforme
a necessidade, sem preceder um planejamento global do prédio.
Como nota curiosa, vale reproduzir uma
terceira planta323. Em 1773, o sargento
mor Gaspar João Geraldo de Gronfeldt
foi incumbido de projetar a fortificação
de Belém. Elaborou duas opções: uma
envolvendo somente o centro e outra
incluindo a área de Santo Antônio. Nesta
última, o convento seria conservado e
protegido, mas perderia grande parte da
cerca para construção dos baluartes.
Não parece que nenhum desses projetos tenha sido executado.
322 “Planta Geométrica da Cidade de Belém do Gram Pará, tirada por Ordem de S. Ex.ca o S.r Don Francisco Xavier de
Mendonça Furtado, Capitão General e Governador do mesmo Estado, em o Anno 1753”. Em Maria Adelina de
Figueiredo Batista Amorim em “A Missionação Franciscana no Estado do Grão-Pará e Maranhão” (detalhe).
323 “Planta da Cidade de Grampara fortificada pelo methodo mais simplex e menor despeza q' pode admitir a
irregularidade da sua figura e inegalidade de seu Terreno, e em parte pantanoso, e em parte dos obstaculos ou
difficuldade, q' se achaõ na Margem do Rio, q'offerece ao Ill.mo e Ex.mo Sn.r Joao Pereira Caldas, do Conselho de
Sua Mages.de Governador e Cappam General do Estado do Grampará, Maranhão, Piauhy, Rio Negro, do Sag.to
mor Gaspar João Geraldo de Gronfeldt, 1773”. Em http://www.nead.unama.br (detalhe).
420

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Internamente, pouco resta da igreja inaugurada em 1743. Sucessivas reformas trocaram
tetos e pisos, retábulos, mutilaram o coro a até isolaram a capela dos terceiros, que ficou
separada da igreja conventual324.

A capela mor foi aprofundada e adquiriu um formato absidal. Foi removida a parte
interna do coro, permanecendo apenas a área situada sobre a galilé. Consequentemente,
não existe subcoro325.
Além da substituição de pisos e forros, foram trocados os retábulos do altar mor e
colaterais, acrescentou-se um segundo púlpito e foram criadas seis capelas laterais,
vedando o acesso à da Ordem 3ª.
Da decoração original, restaram, apenas, os azulejos da capela mor. São dois painéis
historiados, emoldurados com simulação de arquitetura e barras barrocas retas,
provavelmente colocados durante a reconstrução de 1736/43. Cada painel é composto
por várias cenas, retratando episódios da vida de Santo Antônio, do lado do evangelho, e
de São Francisco, do lado da epístola326.
324 Fotografias reproduzidas de http://colegiosantoantoniobelem.blogspot.com.br/ e “A Missionação Franciscana no
Estado do Grão-Pará e Maranhão”.
325 Plantas baseadas em Stephanie Mendes: “Proposta de Restauração para a Igreja de Santo Antônio em Belém/PA”
LACORE/UFPA e Ana Léa Nassar Matos: “Os Azulejos do Convento de Santo Antônio” UFRJ/UFPA.
326 Fotografias reproduzidas de Stephanie Mendes: “Proposta de Restauração para a Igreja de Santo Antônio em
Belém/PA” LACORE/UFPA.
421

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

De ambos os lados, junto ao retábulo, há albarradas interpoladas. Certamente, foram
inseridas para preencher o espaço resultante do recuo do altar mor ao criar-se a abside.
Perto delas, há nichos, também azulejados, que – segundo informa Maria Adelina
Amorim327 – eram utilizados como apoio dos óleos consagrados.

Há albarradas similares na sacristia328. Têm barras retas com folhas de acanto. Lembram
as existentes nos conventos de Cairu e Paraguaçu (página 187). Porém, embora
apresentem os mesmos motivos, os desenhos são, formalmente, diferentes.

Quanto aos painéis historiados, cabe perguntar-se o que aconteceu com os que
ornamentavam a nave da igreja. Não é verossímil que houvesse painéis na capela mor e
não na nave.
Por outra parte, os painéis conservados costumam formar ciclos mais extensos,
vinculados à vida e milagres de cada santo. Seguindo a lógica, o ciclo antoniano deveria
continuar na parede do evangelho e o franciscano, no lado da epístola.
327 Obra citada na página 415.
328 Fotos reproduzidas de Maria Adelina Amorim (obra citada).
422

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A hipótese mais provável é que os azulejos da nave tenham sido retirados na construção
das capelas laterais e – se não perdidos – reaproveitados em outras partes do convento.
Numa capela do claustro – de invocação da Madre de Deus329 – há azulejos historiados
do ciclo franciscano. Têm barras recortadas de feição rococó e rodapés marmorizados
em roxo de manganês. Estão precariamente remontados, com trocas de localização e
perda de peças, o que leva a supor que tenham sido remanejados.

Não há dados certos sobre a data em que as capelas da nave foram construídas. Um
inventário de 1818330 menciona cinco capelas, não necessariamente correspondendo às
atuais: Santo Antônio, Nossa Senhora da Conceição (certamente, as dos altares
colaterais), Santíssimo Sacramento, Santa Ana e São Sebastião.
As capelas atuais – do coro à capela mor, pela parte do evangelho – são as seguintes331:

Em sentido inverso – da capela mor ao coro, pela parte da epístola – encontramos as
seguintes capelas:
329 Atualmente está dedicada a Nossa Senhora de Lourdes.
330 “Inventário das Alfaias pertencentes a este Convento de Santo António da Cidade do Pará, feito por Francisco da
Lapa, Guardião do dito Convento”. 02/12/1818. Reproduzido na íntegra por Maria Adelina Amorim (obra citada).
331 Reproduzidas de Stephanie Mendes: “Proposta de Restauração para a Igreja de Santo Antônio em Belém/PA”.
423

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Do coro, nada resta, além da plataforma em cima da galilé. O inventário de 1818 registra
“dois castiçais de pau, uma estante grande e uma pequena”, mas não fala no cadeiral,
que, certamente, deve ter existido. Menciona, sim, “uma imagem do Santo Cristo, uma
de Nossa Senhora da Assunção e outra de São José com o Menino Jesus, além de
painéis de Nossa Senhora e Santa Clara”.
Dentre os livros de culto,
relaciona “um
Psaltério, um Antifonário, um livro grande de
cantochão antigo e um caderno novo do dito com
o ofício do Santo Padre, um Breviário grande,
usado, um jogo de Breviários pequenos, com sua
capa dourada, um dito dos ditos, novo, com sua
capa preta, um Martirológio, um Missal muito
usado e dois livros de Oração Mental pelo P.e
Manuel Bernardes”332.
O teto, reformado, com gosto italianizante, apresenta grande variedade de desenhos333.

332 Texto ligeiramente simplificado para facilitar a leitura.
333 Foto: Fábio Fonseca (http://www.skyscrapercity.com). Diagrama: Stephanie Mendes (obra citada).
424

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na sacristia, um item particularmente interessante é a pintura do forro, datada de
1774334. É um dos poucos exemplos, na região, de forro em perspectiva arquitetônica,
incluindo albarradas, brasões, óculos envidraçados e personagens secundários cujo
escorço é apenas sugerido.
O corpo central é um medalhão em rocaille
representando a Santa Clara ladeada pelas palavras
“Fides” e “Silentium”335. Numa solução bastante
original, esse medalhão, inscrito numa moldura
oval de arquitetura simulada ornada com grinaldas,
parece estar pendurado com cordas irregularmente
amarradas aos balaústres.
O resultado de conjunto não consegue iludir os
sentidos. Não apenas não há uma correspondência
lógica entre a arquitetura real e a simulada como o
ponto de fuga está excessivamente próximo,
fazendo com que a balaustrada pareça desabar
sobre o espectador.
Mesmo assim, a ideia da corda é bastante
interessante. Pese à imperícia da projeção espacial,
a pintura está cuidadosamente executada e tem
bom efeito visual.
Do inventário, já mencionado, cabe destacar um altar com crucifixo, três imagens do
Menino Jesus e dois relicários, um deles com “a língua de Santo Antônio”. Essa relíquia
devia ser particularmente venerada, não apenas porque esse santo era padroeiro do
convento – e da Província toda – como também por ser universalmente afamado pelas
suas condições de orador.
É bem possível que, em decorrência da construção das capelas laterais, a dos terceiros
ficasse isolada, sendo preciso criar um acesso alternativo336. Porém, também é provável
334 Imagens capturadas de “Capela Santo Antônio, mais de 200 anos de história” em http://www.youtube.com/watch?
v=DZMSqWYXdCI.
335 Foto reproduzida de Maria Adelina Amorim (obra citada).
336 Foto Odilson Sá em http://www.skyscrapercity.com.
425

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

que desentendimentos com os terceiros –
frequentes, na maioria dos conventos – fossem
a causa inicial da divisão. Apenas, no conflito,
os frades teriam aproveitado a ocasião para
reformar a sua igreja.
O certo é que o arco foi fechado e foi aberta
uma nova porta ao adro, ornamentada com
frontispício, cruz, óculo, nicho e, até, uma
pequena torre de sinos, localizada justamente
no encontro de ambos os templos.
Em 1786, os terceiros solicitaram autorização
formal para abrirem porta para a rua. Ficava,
assim, franqueada a possibilidade para fechar
o arco e construir as capelas.
Porém, elas não aparecem no inventário de 1818 e, enquanto a fachada e torre têm
características barrocas portuguesas, as capelas são neoclássicas, de gosto romanizante.
Por outra parte, é possível que boa parte dos detalhes que hoje apreciamos não remonte
sequer ao século XIX. Stephanie Mendes337 registra uma reforma acontecida entre 1924
e 1927, na qual diversos detalhes da igreja teriam sido inspirados na Basílica de Nazaré,
cuja construção foi iniciada em 1909.
A Ordem Terceira de Belém existe desde 1668, mas
não consta que, nessa data, tivesse instalações físicas.
A primeira capela foi construída em 1694. Porém,
nada resta dela. A atual foi edificada de 1748 a 1754,
em decorrência da reconstrução da igreja conventual.
Internamente, apesar do criação do óculo, todas as
aberturas originais foram conservadas. Do lado de
evangelho, são tribunas. Do outro, apenas janelas.
A capela conta com vários altares, púlpito, coro,
capela mor e um forro abobadado com a pintura de
Cristo abraçando a São Francisco338.
Possui imagens e pinturas valiosas – em sua maioria,
de origem portuguesa – mas está muito deteriorada,
precisando de um projeto abrangente para sua
restauração integral.
337 Obra citada.
338 Foto Tarso Sarraf/Folhapress em http://www1.folha.uol.com.br.
426

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na galilé, ladeando a portaria do convento, há uma capela do Senhor dos Passos 339. Essa
localização permitia que em certas ocasiões – principalmente, durante a Semana Santa –
pudesse ser visitada a qualquer hora do dia ou da noite, independentemente de a igreja
estar ou não aberta aos fiéis.
Outra capela digna de consideração era a
de Nossa Senhora da Madre de Deus,
situada no fundo do claustro, junto à
sacristia. Conforme já registrado, está,
atualmente, dedicada a Nossa Senhora de
Lourdes.
Essa capela foi projetada por Antônio José
Landi, em 1769, para servir de sepultura ao
governador do Pará, Fernando da Costa de
Ataíde Teive.
Profundamente alterada por reformas
posteriores, dificilmente permite perceber
a ambiência do projeto original, registrado
no desenho do próprio Landi, que ainda se
conserva340. Na região, é um dos poucos
exemplos de pintura realmente ilusionista.
É possível ter uma ideia aproximada da concepção de
Landi comparando essa capela com outra de suas
obras – a de São João Batista, também em Belém –
que sofreu menos reformas e da qual também se
conserva o projeto original341. Embora o colorido
esteja bastante esvaído, é notória a intenção de criar
uma perspectiva de efeito cenográfico, na linha de
Andrea Pozzo e Vincenzo Scamozzi.
339 Imagens capturadas de “Capela Santo Antônio, mais de 200 anos de história” (Youtube).
340 Desenho original de Landi reproduzido de Maria Adelina Amorim (obra citada).
341 Imagens reproduzidas de http://ornamentoarquitetonico.blogspot.com.br/.
427

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O claustro é modesto342, com arcada aberta apenas no térreo e janelas nos andares
superiores. São cinco arcos por lado, emoldurados com pedra e sustentados por pilastras
da mesma largura das paredes.
À primeira vista, lembra o claustro de convento de Rio de Janeiro. Porém observando os
níveis superiores por dentro, o de Belém é bastante diferente.

342 Fotografias reproduzidas de Maria Adelina Amorim (obra citada) e http://colegiosantoantoniobelem.blogspot.com.br/.
428

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ambos têm janelas rasgadas. Porém, as do Rio abrem-se às celas. A circulação é feita
por corredores internos, deixando espaço para celas tanto do lado do claustro quanto do
exterior. Em Belém, há celas apenas do lado exterior. Os corredores de circulação
abrem-se diretamente ao claustro.
Outra diferença é que o segundo sobrado
parece ter sido feito aos poucos, visto que as
janelas são diferentes. No corredor que beira
a igreja, são venezianas de duas bandas, com
bandeira envidraçada em arco. No frontal,
de três níveis, bandeira reta envidraçada,
duas bandas de abrir e base em venezianas
fixas. No lateral, oposto à igreja, são de duas
bandas inteiriças, com vidros e venezianas
incorporados.
Apenas o corredor do fundo – recuado em relação aos restantes – acompanha as janelas
do primeiro sobrado, com bandeira em arco abatido e moldura de estuque. Ele é,
provavelmente, o mais antigo (ou bem, o que sofreu menos alterações).

Junto à igreja, emparelhando a ala que, desde a construção inicial, se projetava sobre o
adro, foi construída uma nova, aproximadamente similar, delimitando entre ambas um
jardim de ingresso de tipo palaciano, provávelmente posterior à saída dos franciscanos.

429

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Particularmente interessantes são as espadanas. Existem três.
Uma delas, montada sobre a empena da capela mor,
junto à sacristia343, lembra os antigos conventos
italianos, onde as torres sineiras ficavam nessa
posição. As duas restantes – em posição mais habitual
nos conventos brasileiros – estão montadas numa
pequena torre, no ângulo do claustro, sobre a portaria
e o antecoro344.
Essa torre constitui mais um indício de que o andar
superior foi acrescentado. Há, nela, um painel de
azulejos, resto de antigo relógio cuja máquina deve
ter ficado no interior.
Hoje, a visualização desse painel é, praticamente,
impossível. Ele se encontra perto da cumeeira,
faltando parte dos azulejos, que foram mutilados para
seguir a linha do telhado. Para poder fotografá-lo, foi
preciso passar a câmera pelo vão da espadana345.
Com a imagem invertida e muito distorcida
pelo ângulo do enquadramento, a visão do
relógio fica prejudicada. Para sanar essa
deficiência – com precários resultados por
causa da baixa resolução do original, obtido
na Internet – fiz o possível para melhorar a
visualização, restaurando o posicionamento
e restituindo a proporção.
Foi, assim, possível reconhecer um mostrador que
lembra o de São Francisco do Conde346: No centro, a rosa
dos ventos. Em volta, os 12 números romanos. Em
pequenas cartelas (em cima, em baixo e aos lados) os
números 15, 30, 45 e 60, indicativos dos minutos. Nos
ângulos, entre ornamentos barrocos, os quatro ventos
soprando em direção ao centro do relógio. Os elementos
são idênticos. Apenas, na Bahia, a rosa é menor, não
chegando a preencher o círculo interior do painel.
343 Ver foto à página anterior.
344 Foto ao lado, http://colegiosantoantoniobelem.blogspot.com.br/. Página anterior: Stephanie Mendes (obra citada).
345 Foto: Stephanie Mendes (obra citada).
346 Ver foto na página 29.
430

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Conforme registrado, o governador Castelo
Branco acusava os franciscanos de ter
“missões com bastantes índios que aplicam
à mesma obra e que mandam com canoas a
buscar drogas ao Rio das Amazonas”. Que
drogas eram essas?
À diferença do Estado do Brasil, onde tanto
as feitorias iniciais quanto o povoamento
posterior se assentaram ao longo da costa
atlântica, a costa norte foi apenas o ponto
de partida para penetrar nos rios.
Nesse sentido, a fundação de Belém foi visionária. Em 1654, o nome do Estado do
Maranhão mudou para “Estado do Maranhão e Grão-Pará”. Em 1751, o nome foi
invertido: “Estado do Grão-Pará e Maranhão” e a capital foi transferida para Belém.
Em 1772, foi dividido em dois: “Estado do Maranhão e Piauí”, com sede em São Luís,
e “Estado do Grão-Pará e Rio Negro”, com sede em Belém.
Era o reflexo do desenvolvimento da Amazônia347. Os rios facilitaram a penetração e as
“drogas” financiavam a empreitada. Ervas aromáticas, plantas medicinais, canela,
baunilha, cravo, castanha-do-pará, guaraná, urucum e outros produtos regionais eram
muito valorizados em Europa, recebendo o nome genérico de “drogas do sertão”.
Para os missionários, imbuídos do espírito expansionista da contra-reforma, o maior
objetivo eram as almas a conquistar. Porém, por falta de esmolas – que não se deviam
achar facilmente nos “sertões” – as “drogas” constituíam um bom recurso para o
sustento das missões que, em muitos aspectos, eram auto-suficientes, mas não podiam
prescindir totalmente das importações “do Reino”.
A expansão dos franciscanos começou logo após o estabelecimento da custódia. A
despeito da presença de religiosos de outras ordens, eles foram os primeiros a desbravar
a costa norte e os cursos inferiores do Tocantins e do Amazonas. Seria preciso esperar
mais duas décadas para que jesuítas, carmelitas e mercedários iniciassem o trabalho
missionário, atingindo, nessa fase, o curso superior do Amazonas e seus afluentes.
Preciso é lembrar, ao tratar deste assunto, que, excetuando a foz do Amazonas, toda a
bacia pertencia a Espanha em decorrência do Tratado de Tordesilhas. Como poderia essa
penetração portuguesa ser consentida pelos espanhóis? Será que a religião era tão forte
ao ponto de a coroa espanhola apoiar – ou, ao menos, tolerar – tal presença estrangeira?
Não me parece que fosse assim. Pese às veementes declarações em favor da expansão da
fé, cada coroa defendia ciosamente suas fronteiras e – sempre que possível – procurava
347 Mapa reproduzido de http://www.geocities.ws/terrabrasileira/contatos/missaoam.html.
431

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

avançar sobre os territórios vizinhos. Mais razoável parece atribuir essa inércia às
dificuldades que a Espanha enfrentava em outros terrenos e à difícil situação dos
territórios amazônicos.
Enquanto Portugal contava com uma via fluvial inteiramente navegável, Espanha, para
chegar ao Amazonas, precisava atravessar a Cordilheira dos Andes. Esse percurso,
passando por Quito, foi percorrido por diversas expedições, de ambas as nações, mas
distava muito de constituir um corredor comercial viável.
Assim, talvez involuntariamente, aproveitando-se da inação da coroa espanhola,
religiosos de diversas ordens, ocupando com suas missões a bacia amazônica,
constituíram-se em ponta de lança da expansão portuguesa que, em 1750, acabaria sendo
legalizada pelo tratado de Madri.
Avançavam, entretanto, a construção de fortes e o assentamento de colonos, a rivalizar
com os missioneiros na extração das “drogas do sertão”. Em 1682, um contrato
negociado entre o governo português e um grupo de acionistas tentou o monopólio do
comércio, na região, provocando uma sublevação popular. Quatro anos depois, a tensão
entre colonos e missioneiros pelo governo temporal dos aldeamentos indígenas derivou
na publicação do “Regimento das missões”.
Nessa altura, a expansão franciscana começava a perder não apenas a exclusividade
como também o fôlego. Embora conste que, de fato, encontravam meios para
administrar o trabalho indígena e extrair “drogas do sertão”, a regra da pobreza era um
sério empecilho. Não é fácil sustentar missões apenas com esmolas. Assim, os jesuítas,
que tinham como objetivo central o trabalho missionário e estavam oficialmente
autorizados a possuírem bens e indústrias com as quais sustentar as suas obras, levavam
grande vantagem. Mesmo assim – embora, em menor medida – até o início do século
XVIII, os franciscanos continuavam a organizar novos aldeamentos.
Porém, cresciam as divergências entre as ordens, cada uma delas tentando atribuir-se a
primacia no trabalho missionário. Os jesuítas alegavam que o trabalho missionário era a
prioridade na sua ordem, mas não na dos franciscanos. Por outra parte – ressaltando
intencionadamente a presença isolada de alguns pioneiros – apresentavam-se como
iniciadores desse trabalho na região, omitindo mencionar a presença organizada dos
franciscanos durante as duas primeiras décadas. Novamente forçada a intervir, a Coroa
resolveu parcelar o território entre as diversas ordens. Concedia aos jesuítas “tudo o que
fica para o Sul do Rio das Amazonas, terminado pela margem do mesmo rio e sem
limitação para o interior dos sertões”348, bem como os rios Urubu e Negro “e os mais
que houver da demarcação de seus domínios” desde que não se prejudicasse o trabalho
dos mercedários, que já tinham estabelecido alguns aldeamentos.
348 “Repartição das Missões do Estado do Maranhão”, 19/03/1693. Em Maria Adelina Amorim (obra citada).
432

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Aos antonianos, foi garantido “tudo o que fica ao Norte do mesmo Rio das Amazonas e
o sertão chamado do mesmo cabo do Norte [...] ficando-lhe sem limitação todo o
interior do sertão deste distrito”.
Já não eram os únicos franciscanos na região. “Aos religiosos da Província da Piedade,
que hão-de assistir no Gurupá, manda assinalar por distrito, todas as terras e aldeias
que estiverem junto da fortaleza, e assim todas as mais terras que ficam para cima da
Aldeia de Urubucuara, e, subindo pelo Rio das Amazonas, se compreenderão no seu
distrito os Rios de Xingú, dos Trombetas e o de Quiribi que tem muitas aldeias de paz e,
muitas mais por domesticar”.
Antes de autorizar a fundação de um novo convento, as Constituições Apostólicas
mandavam ouvir os representantes dos já estabelecidos para saber se as esmolas a serem
recolhidas seriam suficientes para todos. Isto não parece ter sido empecilho para a
chegada de outras ordens, vista a coexistência habitual de franciscanos, carmelitas,
jesuítas e beneditinos nas mesmas cidades, mas era um sério obstáculo para a criação de
conventos da mesma ordem. Assim, havendo conventos franciscanos em Belém e São
Luís, os recém chegados foram forçados a internar-se no baixo Amazonas e
estabeleceram sua sede junto ao Forte de Santo Antônio de Gurupá.
Não achei informações atuais sobre esta edificação, aparentemente desaparecida. Nas
fontes da época, ora se fala em “convento”, “hospício” ou, simplesmente, “missão”.
Entretanto, fica sempre claro que se tratava do assentamento principal, ao qual se
subordinavam todas as missões da Província da Piedade.
Observando o mapa, na página 412, percebe-se que Gurupá era um local privilegiado
para controlar o trabalho missionário na bacia amazônica. Não assim, para facilitar as
comunicações com Portugal, posto que as grandes frotas preferiam os portos de mar.
Assim, já em 1706 era decidida a construção de um hospício em Belém.
Outra província portuguesa a manter missões na Amazônia foi a da Imaculada
Conceição, separada da de Santo Antônio pelas Letras Apostólicas “Nuper pro parte”,
de 24 de abril de 1705. Essa divisão teria reflexos nas missões e conventos, que foram
divididos entre ambas as províncias, ficando a de Santo Antônio com o convento de
Belém e a da Conceição, com o de São Luís349.
Porém, São Luís não era mais o centro da vida colonial. Tanto para conduzir o trabalho
missionário na Amazônia quanto para facilitar as comunicações com Portugal, o ponto
estratégico era Belém. Assim, a exemplo da Piedade, também a Província da Conceição
procurou construir seu próprio hospício, o que viria a provocar um novo conflito com a
de Santo Antônio.
349 Em “Os Franciscanos no Maranhão e Grão-Pará”, Maria Adelina Amorim afirma que, “inicialmente, o Convento de
São Luís do Maranhão ficou na posse da Província de Santo António, que teve precedência na escolha, mas acabou por
ser trocado pelo Convento de Santo António de Belém”.
433

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O hospício de São José, da Província da Piedade,
começou como um pequeno alojamento, junto de
uma ermida, e evolui lentamente até a saída dos
frades, em 1757, ficando ainda inconcluso e sendo
aproveitado, sucessivamente, como depósito de
pólvora, quartel, olaria, hospital e presídio. Segundo
a reconstituição tentativa de Ana Paula Maroja350, já
existiam a ala frontal e a lateral, oposta à igreja,
ficando o fundo do claustro ainda aberto.
Mesmo sem referências iconográficas da
época, em 2002, após a desativação do
presídio, tentou-se, ao menos, evocar essa
estrutura, eliminando todas as construções
agregadas e substituindo-as por uma nova
ala, claramente diferenciada do edifício
histórico351. A observação do conjunto
sugere que, como era habitual, a construção
começou pela capela mor, avançando até a
fachada, que não chegou a ser construída.

O que hoje se conserva da igreja352 é, apenas, a capela mor. Por falta de referências
históricas, optou-se por deixar as paredes nuas, adaptando sobriamente o ambiente para
as necessidades mínimas do ritual. A entrada – correspondente ao que deveria ter sido o
arco triunfal – recebeu um simples fechamento em vidro temperado. Foi uma escolha
razoável, atendendo às normas atuais de restauração. Restaura-se o que se conhece. O
que não se sabe, não se inventa.
350 “O Espaço São José (Belém-PA): Liberto dos grilhões da lei e preso às imagens do tempo”, Unama, 2002.
351 Foto Octavio Cardoso, reproduzida de http://espacosaojoseliberto.blogspot.com.br.
352 Fotos Geraldo Ramos e Arquivo SJL, reproduzidas de http://espacosaojoseliberto.blogspot.com.br.
434

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não achei informações atuais sobre o hospício de São Boaventura, pertencente à
Província da Imaculada Conceição. Receio que tenha desaparecido por completo.
Existe, sim, uma planta353, elaborada em 1761 por ocasião da saída dos frades e a
transformação do hospício em arsenal e estaleiro.
353 Reproduzida de Maria Adelina de Figueiredo Batista Amorim em “A Missionação Franciscana no Estado do GrãoPará e Maranhão”.
435

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Embora dividido por uma paliçada (I) e com parte do muro (B) já derrubado para
construção do estaleiro, a planta deixa entrever que a área delimitada pela cerca
conventual era bastante ampla. De fato, mais do que seria de imaginar para um simples
hospício.
Não parece que os edifícios à esquerda da paliçada tenham pertencido ao hospício.
Trata-se, certamente, de construções projetadas, indicadas com as letras C-D: “Situação
do Estaleiro para Nau de 50 peças”, E: “Tilheiro p.a os Officiaes que devem trabalhar
as madeiras”, F: “Caza do Risco”, G: “Feytoria”, H: “Ferraria”, M: “Estalero dos
Navios da Companhia Geral do Commercio”, N: “Tilheiro p.a as obras da mesma” e O:
“Feytoria e Ferraria da mesma”. Pelo contrário, é bem possível que L: “Caza de
Canoas, p.a uzo dos Estaleros, e outras embarcações pequenas” aproveitasse uma
construção já existente.
O hospício (A) está sumariamente representado, mas tem suficiente detalhe para
perceber que não tinha claustro – tratando-se, aparentemente, de uma construção
compacta, sem pátios internos – e que a igreja está unida à residência e alinhada pela
fachada.
Essa interdependência motivou um processo, movido pelos antonianos. A construção
inicial tinha sido autorizada, em 1723, ressalvando que “só servirá de enfermaria, e
para o ministro que represente, porém que de nenhuma maneira poderá ser hospício”354.
Porém, como tudo tem seu jeito, oito anos depois o doador, desembargador José Borges
Valério, solicitou licença para, por sua própria devoção a São Boaventura, construir
“uma ermida ou igrejinha com o dito título e dedicação, aproveitando-se de uma parede
para parte dela das do mesmo Hospício e Recolhimento em forma que se evitam
maiores gastos, e fica ao cuidado dos sobreditos religiosos tratarem a sua limpeza e
dizerem missa aos fiéis”355.
Era um bom disfarce. Assumindo o doador a construção da capela – no seu próprio
terreno, ainda não doado – e aproveitando-se apenas da parede lateral do hospício como
parte dela, os frades – que seriam, apenas, encarregados – não poderiam ser imputados
de violarem a disposição real que autorizara a fundação do hospício.
Porém, esse subterfúgio legal não conseguiria vencer a resistência dos antonianos,
empenhados em evitar a concorrência de mais um convento franciscano na cidade.
Ainda antes da construção da igreja, os antonianos já alegavam “que o sobredito
hospício está feito com toda a forma regular de convento, excepto igreja, pois nele se
354 “Consulta do Conselho Ultramarino sobre uma petição da Província da Conceição do Pará sobre a edificação de
uma casa de enfermaria em Belém, tendo-se indeferido a intenção de os padres construírem hospício”, 21/06/1723.
(Reproduzida por Maria Adelina Amorim em “A Missionação Franciscana no Estado do Grão-Pará e Maranhão”).
355 “Traslado do processo da Câmara Episcopal sobre a fundação da igreja contígua ao Hospício de São Boaventura da
Província da Conceição da Beira e Minho na cidade de Belém do Pará”, 05/10/1732. (Idem).
436

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

acham dormitórios, celas, varandas e oficinas, todas como são despensas, cozinha de
profundis e refeitório com mesas e assentos para mais de doze frades, e com sino para
se tocar a ele”. Questionavam, ainda, a suposta inexistência das correspondentes
licenças para fundar igreja e hospício e pediam vistoria do bispado para constatar as
condições da construção.
As licenças existiam. Em 1730, fora emitida a licença do hospício “em que pudessem
recolher-se os religiosos assistentes nas Missões desta Capitania do Pará no tempo que
lhes fosse necessário curarem-se de algumas enfermidades ou receberem as coisas que
do Reino lhes vêm em navios, ou para melhor provisão de outras, algumas
necessidades”. Também a construção da igreja fora autorizada, em 1731. Mesmo assim,
a vistoria foi feita e confirmou as restantes alegações, acrescentando que o hospício
“tem prelado e porteiro na forma dos mais conventos”356.
Confirmada a existência das licenças, os antonianos pediram traslado de todo o processo
e solicitaram nova vistoria, destinada a constatar as comunicações entre o hospício e a
capela e entre esta e o exterior. O resultado foi um novo parecer afirmando,
taxativamente, que “achamos estar a dita Capela continuada com o dito Hospício,
porque na sala deste se abriram na parede que lhe servia de testada e serve juntamente
de parede da igreja duas portas, por uma das quais se entra no coro da dita Capela, e
pela outra para o púlpito, que se fez da parte da Epístola, e por outra porta do dito
Recolhimento se entra para uma varanda que corre pelo comprimento da capela da
mesma banda da Epístola, na qual estão abertas três janelas com rótulas, uma que olha
para o corpo da igreja, e duas para a capela-mor, e a dita varanda vai continuando por
detrás da dita capela-mor e voltando continua pela parte do Evangelho até ao
frontispício da dita igreja, e desta parte tem em correspondência [..] uma porta para o
coro e outra para o púlpito, e três janelas com rótulas em correspondência das que
ficam de outra parte acima ditas. E desta sorte fica pela parte superior toda a igreja
metida, e incorporada no dito Recolhimento, servindo-lhe como de muro a dita
varanda, e na igreja em baixo da capela-mor da parte da Epístola está aberta uma
porta para servir de serventia para o dito Recolhimento, assim por baixo da varanda
como pela cerca que se há-de fazer da dita parte, e em correspondência da dita porta
está outra por onde se entra para uma sacristia, a qual não tem outra saída para fora, e
a porta principal se fecha só por dentro; por cuja razão se dá entrada ao povo ad
libitum dos assistentes do dito Recolhimento, e fechada ela, a saída que tem a igreja é
só para o Hospício, e a entrada para ela é pelo mesmo Hospício ou Casa de
Recolhimento, com que fica incorporada”357.
356 “Vistoria ao hospício do Porto do Tição que requer licença para se tornar igreja pública”. (Idem).
357 “Traslado do processo da Câmara Episcopal sobre a fundação da igreja contígua ao Hospício de São Boaventura da
Província da Conceição da Beira e Minho na cidade de Belém do Pará”, 05/10/1732. (Idem).
437

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A razão óbvia de tanta insistência está registrada no mesmo processo, no traslado de um
acordo assinado, no ano anterior, por representantes de ambas as províncias.
Considerava esse acordo “que os religiosos da Província da Conceição não podiam
fundar igreja e erigir Hospício, em que mendicassem os tiatim nesta cidade e seu termo,
pelo prejuízo que dali resultaria aos religiosos da Província de Santo António, que já
têm fundado na forma sobredita”. Porém, por especial entendimento, os antonianos
concordavam na fundação do hospício, na condição de que “sem madura aprovação e
consentimento de ambas as Províncias da Conceição e de Santo António, e dos prelados
deste Estado de ambas as Províncias, nem o tal Hospício será Convento, nem os seus
religiosos habitadores mendigarão os tiatim nesta cidade, e seus distritos”.
Mesmo assim, surpreende tal zelo ao constatar que a pesar das disposições em contrario
– que autorizavam, apenas, a existência de oratórios privados – era comum os hospícios
terem igrejas abertas ao público e comunicadas internamente com as respectivas
residências, como pode constatar-se, em Salvador, nos de Boa Viagem (observantes),
Piedade (capuchinhos) e Palma (agostinianos). É possível que, no caso de Belém, a
intolerância se justificasse pela escassez de esmolas, posto que os missionários tinham
frequentes conflitos com a população branca pela exploração do trabalho indígena.
Como conclusão da vistoria, recomendava-se ao bispo “ordenar ao Desembargador
José Borges Valério, a quem concedeu faculdade de erigir a dita Capela, feche logo de
pedra e cal a porta do coro, por onde se continua mutuamente e se serve a dita Capela,
e a porta do púlpito da parte da Epístola, pela qual se entra só pelo dito Hospício. Que
se feche também a varanda da parte do Evangelho, para por ela não tenha o Hospício
acesso para as janelas que estão para a igreja e capela-mor, nem prospecto para ela, e
pela mesma razão se feche a porta que abriu na capela-mor na parte da Epístola, com
pena de excomunhão”.
A decisão do bispo foi notificada ao doador, apressando-se este a informar que ele e sua
esposa já tinham “dado inteiro cumprimento à notificação que se lhes intimou para que
se fechassem portas, janelas e tudo o mais que o descuido fez”.
Adicionalmente, foi exigido “fazer patrimônio ou dote à dita Capela, por ser assim
conforme a direito, e as Constituições porque se rege e governa este Bispado”, condição
que o desembargador atendeu fazendo “doação à sobredita sua igreja de um curral de
gado com vinte e cinco vacas [...] para de seu rendimento se acudir ao reparo da
sobredita sua capela, paramentos quando forem necessários [..] e toda a mais limpeza
precisa para se celebrar o santo sacrifício da missa”358. Certamente, essa condição –
imposta pelo bispado para benzer a capela – visava dotá-la de um patrimônio próprio
para sustentá-la com independência do hospício. Se essa independência realmente
aconteceu, o processo não chegou a registrar.
358 Todas as citações provêm do documento mencionado na nota anterior.
438

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Cabe apontar que, na planta em análise, igreja e hospício estão indicados com uma única
letra, A, referenciada como “Igreja e Hospício de S. Boaventura”. Adicionalmente, a
linha B, envolvendo claramente ambos os edifícios, está legendada como “Muro da
Cerca do mesmo Hospício”. Essas duas legendas deixam claro que – pese aos esforços
dos antonianos e às proibições do bispo – ainda em 1761 identificava-se a igreja como
parte do hospício.
Porém, nessa data já era um hospício vazio. As missões tinham acabado e, sem elas, esse
ponto de apoio não fazia mais sentido. Os frades o abandonaram – aparentemente, em
forma espontânea – retornando ao seu convento, em São Luíz.
Contrariamente ao que aconteceu com os jesuítas, os franciscanos não foram proscritos
pelas reformas de Pombal. Porém, seu trabalho missionário foi inviabilizado pela lei de
6 de junho de 1755 e o correspondente alvará, publicado logo no dia seguinte.
Determinava a lei a liberdade dos índios, tema que não era novo na legislação
portuguesa. Tanto, que o próprio texto citava leis anteriores, de 1647 e 1680. Porém, o
alvará, destinado a regulamentá-la, era inteiramente novo.
Alegando ser “prohibido por Direito Canónico a todos os Ecclesiasticos, como
Ministros de Deos, e da sua Igreja, misturarem-se no governo secular, que como tal he
inteiramente alheio das obrigaçõens do Sacerdócio [..] assim os Religiosos da
Companhia de Jesus, que por força de voto são incapazes de exercitarem no foro
externo até a mesma jurisdicção Ecclesiastica, como os Religiosos Capuchos, cuja
indispensavel humildade se faz incompatível com o império da jurisdicção civil, e
criminal” e visando acabar com a “impraticável confusão de jurisdicçõens tão
incompatíveis, como o são a espiritual, e temporal, seguindo-se de tudo a falta de
administração de Justiça, sem a qual não ha Povo, que possa subsistir”359, o alvará
revogava todas as leis que concederam aos missionários a administração temporal dos
seus aldeamentos.
Ora. Sem a administração temporal, não poderia haver missões. Em plena selva, não
dava para sustentá-las com esmolas. Os missionários poderiam ficar, porém apenas
como pastores espirituais. Os frades da Conceição retiraram-se imediatamente das
aldeias, recolhendo-se ao convento de São Luís. Os da Piedade, resistiram até 1757,
abandonando, então, as missões e deixando inacabado o hospício de Belém.
Quanto à Província da Conceição – levando em conta a quantidade de frades existente
no hospício e nas diversas missões – não parece razoável que todos eles se recolhessem
a São Luís. É mais provável que boa parte deles retornasse, também, a Portugal. Porém,
é certo que o convento continuou a funcionar e, documentadamente, teve nomeação de
guardiões até a terceira década do século XIX.
359 Alvará com força de Lei de 7 de Junho de 1755, em https://archive.org/details/euelreyfaosabe18port.
439

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Antonianos e concepcionistas ficaram dependendo de Portugal até 1829. Alegando que
essa dependência dava lugar “a que estrangeiros exerçam autoridade dentro do
território do Império”, os franciscanos foram intimados a, se quiserem continuar
residindo, “se mostrarem desligados de toda e qualquer obediência a tais superiores”360.
Essa exigência, que hoje pareceria improcedente, justificava-se pela supervivência do
padroado régio, anteriormente exercido pela coroa portuguesa e depois assumido pelas
autoridades imperiais.
Ambos os conventos declararam fidelidade ao imperador. Paradoxalmente, essa decisão
forçada, além de garantir sua permanência, os pouparia, em 1834, do decreto de
exclaustração que extinguiu todas as casas religiosas de Portugal e incorporou seus bens
à Fazenda Nacional, à excepção dos vasos sagrados e paramentos, entregues aos
ordinários das dioceses. No Brasil, já independente, os conventos continuaram.
Mas, também aqui, a situação não era boa. Restrita a entrada de noviços, suspensa a
ordinária que o governo repassava para a manutenção do culto e escasseando as esmolas
pela progressiva laicização da sociedade, o convento de São Luís se extinguiu por volta
de 1830. O de Belém, mais longevo, resistiu até 1877, ano em que, falecido o último
frade, foi entregue às freiras de Santa Doroteia de Frassinetti, que instalaram nele o
Colégio Santo Antônio, ainda existente.
É possível que essa longevidade tenha
ajudado a preservar boa parte da
construção histórica paraense, coisa
que não aconteceu no Maranhão.
A partir de 1838, extinto o convento, o
edifício passou a ser ocupado pelo
Seminário Episcopal.
Em 1864, a igreja foi demolida e
substituída por uma nova, inaugurada
em 1867361.
É uma edificação em estilo neogótico de inspiração medieval, sem relação alguma com
o “modo capucho”. Também o convento – embora conservado – sofreu importantes
reformas.
O interior da igreja não conserva traço algum do templo antigo. Apenas as capelas
laterais foram mantidas. Porém, toda a decoração interna é nova, reformada igualmente
durante os séculos XIX e XX.
360 “Aviso Imperial que Obriga os Religiosos Capuchos do Grão-Pará a Tornarem-se Independentes da Província, em
Portugal”, 03/03/1829. Citado por Maria Adelina Amorim em “Os Franciscanos no Maranhão e Grão-Pará”,
361 Foto Gaudencio Cunha (1908), reproduzida do guia “São Luis. Ilha do Maranhão e Alcântara”, publicado em
http://www.juntadeandalucia.es/
440

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não encontrei estudos bem documentados sobre o patrimônio material deste convento.
Possivelmente pelo fato de estar pouco conservado, não parece ter atraído a atenção dos
estudiosos. Todas as referências que encontrei são evocações nostálgicas do Maranhão
antigo, guias turísticos ou sites divulgativos da Internet. Na maioria delas, outorgou-se
mais lugar aos eventos – reais ou fictícios – que a ele se relacionam, tais como a revolta
de Beckman ou o curioso litígio conhecido como “processo das formigas”.
As fotos acima362 são do interior da igreja. Abaixo, capela lateral, cedida à Irmandade do
Senhor Bom Jesus dos Navegantes363.

As informações consultadas coincidem em destacar que essa capela é mais antiga que a
igreja e que foi conservada durante a re-edificação de 1864/67. Acrescentam a hipótese
de que essa fosse a igreja original, fundada em 1626 por Frei Cristóvão de Lisboa.
Porém, sem especificar fontes que abonem essa suposição.
Independentemente da decoração – estilisticamente datável do século XIX – a própria
localização da capela não parece condizer com essa hipótese.
362 Fotos http://averequete.blogspot.com.br/.
363 Fotos http://maranhaonocongressoslcentrohistorico.blogspot.com.br e http://maranhaonocongresso.blogspot.com.br.
441

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na visão do satélite, o telhado cinzento da
igreja nova ocupa um lado do claustro e sua
fachada abre-se para o largo, exatamente como
ocorria em todos os conventos do período
colonial. As telhas amarronzadas do convento
formam uma ala frontal, além da fachada. Essa
característica não é geral, mas também se
observa em diversos conventos. Entre eles, o
vizinho, situado em Belém e fundado na
mesma época. Por sua vez, a capela,
identificável pelo telhado vermelho claro, se
insere ao lado da nave, exatamente como
acontecia com as capelas dos terceiros.
De aceitar-se a tese atrás indicada, preciso seria admitir que todo o conjunto
experimentou uma rotação de noventa graus, encontrando-se o adro original onde hoje
se encontra o claustro. Em apoio dessa hipótese, poder-se-ia alegar que o convento tinha
seu acesso principal pelo mar e depois virou para ficar em comunicação mais fluente
com o centro da vila. Porém – embora próximo e admitindo a possibilidade de ter
acontecido um certo afastamento por causa dos aterros – não parece que o mar estivesse
tão perto para constituir-se na principal via de acesso.
Até prova em contrário, prefiro assumir que essa construção era mesmo uma capela
lateral, semelhante à que se observa na maioria dos conventos franciscanos, e –
possivelmente por encontrar-se sob os cuidados de uma irmandade ou ordem terceira –
não foi inclusa nas obras de demolição e reconstrução da igreja principal.

442

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Outros Franciscanos
Em 8 de setembro de 1612 – dia da natividade da
Virgem Maria – os capuchinhos da Ilha do
Maranhão saíram em procissão até o forte de São
Luís. Rito similar – sinalizando, ao mesmo
tempo, o domínio de Deus e do rei da França –
fora realizado na Ilha de Santana, e seria repetido
em cada novo assentamento.
“À frente de todos marchava um fidalgo levando
a água benta; outro o seguia com o incenso e
outro com o turíbulo; e atrás deste caminhava
um gentil-homem carregando um belíssimo
crucifixo que lhe fora dado pelo senhor du
Manoir. Dois jovens índios, filhos dos
principais, conduziam, de ambos os lados da
cruz, dois castiçais com seus círios acesos. [...]
Nós outros, religiosos, acompanhamos a cruz
em ordem, revestidos de sobrepelizes brancas.
Vinha em seguida o sr. de Rasil1y, loco-tenentegeneral de Suas Majestades, juntamente com a
nobreza toda e, finalmente, os outros franceses
de mistura com os índios. [...]
Chegando ao Forte, lugar escolhido para plantar a cruz (que era muito grande e aí já
se achava preparada) entoou um de nós o Te Deum Laudamus a que se seguiram outras
orações. Houve depois uma prédica com a qual se demonstrou aos franceses que
alcançavam, perante Deus e o mundo, honra, glória e mérito, por terem sido os
primeiros apóstolos a arvorarem gloriosamente o santo madeiro nessa terra infiel e a
ofereceram a Deus Padre esse sacrifício. […]
Terminado o sermão, explicou o sr. des Vaux aos principais dos índios e a outros que
assistiam à cerimônia, porque chantávamos a Cruz ali; e disse-lhes que o fazíamos em
testemunho da aliança firmada entre eles e Deus e em virtude da promessa solene por
eles feita de abraçarem nossa religião e de renunciarem por completo ao maldito
Jurupari, o qual jamais poderia subsistir diante dessa cruz.[…]
443

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Foi em seguida benzida a cruz de acordo com as cerimônias determinadas no pontifical
romano e ao depois por todos adorada. Em primeiro lugar por nós sacerdotes, em
seguida pelo. sr. de Rasilly e pelos fidalgos e afinal por todos os franceses uns após
outros. E era isso coisa mui agradável de ver-se, pois tão grande era a devoção de
todos, e boa a ordem em que a adoravam, que a cerimônia teria amolecido os mais
duros corações.
Durante a adoração da cruz, cantamos o hino Vexilla Regis Prodeunt364, repetindo-o
várias vezes até o versículo O Cruz ave spes unica. E ao terminarem os franceses a
adoração, adoraram-na, também os índios com grande humildade e respeito. Vestiam
belos casacos azuis celeste, com cruzes brancas por diante e por trás, e que lhes haviam
sido dados pelos loco-tenentes-generais para servirem nessa e noutras solenidades
análogas. Seguiram-se imediatamente os velhos e anciões e afinal todos os índios
presentes, todos em ordem, sem confusão, uns após outros ajoelhando-se de mãos
postas diante da cruz, como nos haviam visto fazer. [..]
Quem poderá descrever o fervor com que essa gente ajudou os franceses a erguerem o
glorioso estandarte em sua terra? Era de ver porfiarem todos por levantá-la com
indizível zelo e coragem, não pagã, mas cristã. Assim triunfavam de Jurupari, que desde
então publicamente abandonavam com essa ação heroica e cristã, destronando-o e
repelindo-o de seu reinado, a fim de acolherem e estabelecerem o soberano monarca do
céu e da terra, Jesus Cristo. [..]
Nunca poderei descrever a alegria nossa ante a felicidade de ver cumprirem-se as
promessas de Deus de ser erguido nessas longínquas paragens o sinal da cruz,
promessas feitas pela boca de seu profeta: Ecce levabo ad gentes manum meam, et ad
populos exaltabo signum meum”365 (Eis que levantarei a mão para os gentios e exaltarei
meu sinal para os povos).
Eram outros franciscanos. Invasores, do ponto de vista de Portugal. Também não
pertenciam às mesmas ordens que os franciscanos portugueses. Por volta de 1525 – já
bastante diluído o conflito entre observantes e conventuais – o frade italiano Matteo da
Bascio iniciou um movimento tendente a restaurar a estrita e rigorosa obediência à
Regra de São Francisco.
Além de uma renovada opção pela vida eremítica, os dissidentes insistiam em imitar
fisicamente os primeiros franciscanos, deixando a barba crescer e usando hábitos com
capuz, derivando-se dessas características os apelativos populares de “barbadinhos” e
364 “Os estandartes do rei avançam”, hino composto por São Venancio Fortunato (530-609), bispo de Poitiers, a pedido da
rainha-mãe Santa Radegunda, para celebrar a relíquia do Santo Lenho doada pelo imperador Justino II e sua esposa, a
imperatriz Sofia. O rei aludido no hino é Jesus. Porém, com ele avançavam, de fato, os estandartes do rei da França.
365 Claude d'Abbeville: “Historie de la mission des pères capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisines”.
Tradução de Sérgio Milliet. Martins Editora, 1945. A gravura foi elaborada por Leonard Gaultier para ilustrar a edição
original. Paris, imprimerie de François Huby, 1614.
444

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“capuchinhos”. Com o passar do tempo, esta ultima denominação passaria a identificar
oficialmente a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.
Claude d'Abbeville fazia parte de um grupo de quatro frades que acompanharam a
expedição de La Touche por ordem da regente Maria de Médicis. Talvez visando evitar
os conflitos que malograram a invasão do Rio de Janeiro, a conquista do Maranhão foi
revestida de uma aura de missão, claramente expressa no livro de Claude d'Abbeville.
A gravura – única sobre o trabalho dos capuchinhos inclusa na edição original – não se
caracteriza pelo realismo. Não há sinal do povoado, do forte ou de qualquer outra
construção, exceto as duas choupanas à direita. A vegetação é escassa. Excetuando as
figuras mais próximas, a maioria dos índios estão nus, como correspondia à visão
europeia das almas pagãs e não à realidade em que – conforme indica o próprio
d'Abeville - os índios já estavam vestidos de azul. Toda a composição dirige-se a
destacar o grande feito da exaltação da cruz sobre a multidão de selvagens.

Também não são de grande ajuda o prospecto de Frans
Post366 e a planta de Marcgraf367, feitas por volta de
1642, quando o convento dos capuchinhos já tido
abandonado por observantes e jesuítas.
Na localização estimada – indicada pelas setas
vermelhas – nota-se, apenas, um grupo de casinhas,
sumariamente representadas sem legenda ou qualquer
outra individualização.
Para saber como se instalaram os primeiros capuchinhos, é preciso procurar as escassas
referências espalhadas na obra de Claude d'Abbeville:
366 “Maragnon”, gravura de Frans Post que ilustra o livro de Caspar Barlaeus “Rervm per octennivm in Brasília et alibi
nuper geftarum, Sub Praefectura Illftriffimi Comitis I. Mavritii, Nassoviae, &c. Comitis, Nunc Vefallae Gubernatoris
& Equitatus Foederatorum Belfii Ordd. Fub Avriaco Ductoris, Historia”. Amsterdã, 1647 (detalhe).
367 “Vrbs S. Ludovici in Maragnon”, planta de Georg Marcgraf que ilustra o mesmo livro (detalhe).
445

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“Desejando os índios mostrar sua alegria e contentamento pela nossa chegada, logo
pela manhã muitos se encaminharam para junto do sr. de Rasilly e de nós quatro,
pondo-se a construir choupanas e cabanas de ramos de palmeiras, para nossa moradia,
enquanto se praparava o lugar escolhido para o forte. Próximo a este, demarcamos um
terreno onde se deviam construir uma capela e uma casa para nossa residência.
Rotearam eles também uma bela praça, no alto de uma pequena colina próxima do
local, cortando todas as árvores da vizinhança e tornando-a tão limpa quanto possível
para que levantássemos uma barraca e nela colocássemos o altar portátil que
carregávamos conosco.
No domingo seguinte, dia 12 de agôsto, cada um de nós celebrou o santíssimo sacrifício
da missa. […] Desnecessário me parece perguntar se essas pobres criaturas se
compraziam no espetáculo de tão belas cerimônias da celebração do santo mistério,
principalmente ante os lindos ornamentos de que nos revestimos. [...]
Quando chegamos ao ofertório, fechamos a porta da barraca por não permitirem as
ordenações da Igreja que esse divino mistério seja presenciado por infiéis. Mostraramse então muito pesarosos e espantados, não só por se privarem da satisfação de ver, mas
ainda por se julgarem ofendidos com o gesto. E mesmo entre os católicos muitos se
escandalizaram, pouco instruídos que estavam dessa separação entre catecúmenos e
infiéis, não sem grandes razões ordenada pela Igreja durante o divino mistério do
ofertório. Finalmente conseguimos fazê-los entender e, compreendendo os índios que só
podíamos admitir nessa ocasião os batizados, que são incluídos entre os filhos do
grande Tupã, logo manifestaram o desejo de se instruírem e batizarem, a fim de gozar
as graças e participar dos frutos admiráveis conferidos pelo Salvador do Mundo, que
lhes dávamos a entender estar presente de fato nesse Santíssimo Sacramento. Desde
então, ao fechar-se a barraca, quando assistiam à missa, de bom grado se retiravam,
contentando-se com imaginar o que não podiam ver. Assistiam, porém, aos batismos até
o fim como os franceses.[...]
Enquanto os frades realizavam os primeiros rituais, os soldados cuidavam da construção
do forte, contando para esse efeito com a ajuda dos índios que “começaram
imediatamente a trabalhar com muita alegria e boa-vontade, edificando logo cabanas
para os franceses, feitas de pequenas árvores de doze, quinze e vinte pés, conforme a
altura desejada. Enterrando essas árvores no chão, umas ao lado das outras, prendiamnas em seguida com outros paus atravessados, com barrotes e vigas. Por cima
estendiam ripas e cobriam tudo com folhas de palmeiras, pindoba, em sua língua, de tal
modo arranjadas que a chuva não penetrava de modo algum e que por dentro a cabana
se revela muito interessante na sua disposição. Em pouco tempo construíram várias
cabanas dessas, de um e dois andares, e mais um grande armazém para o qual
transportaram, eles próprios, toda a carga de nossos navios”.
446

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Encontramos, assim, mais uma forma de construção. Neste caso, aprendida dos índios e
aproveitando os materiais e a mão de obra ali disponíveis. Não apenas os franceses se
serviram dela. Após a expulsão, também os portugueses utilizariam amplamente essas
técnicas. Assim começou a cidade de São Luís e assim Frei Cristóvão “no brevissimo
termo de cinco dias”, levantou sua primeira igreja “tecido todo de palmeira brava”368.

Os paus que formavam a estrutura podem ser amarrados com cipós, ou bem encaixados
em forquilhas naturais ou entalhes feitos especialmente. Se necessário, os paus podem
ser arqueados para ajustar-se ao formato desejado369.

No formato mais simples, os paus podem reunir-se no centro, dando à cabana uma
feição redonda ou cônica, tal como pode observar-se na gravura de Gaultier. Em outros
casos, interpõe-se um segmento reto, facilitando a construção de ambientes maiores370.
Em alguns casos – talvez imitando a arquitetura feita em outros materiais – opta-se por
estruturas retangulares, com paredes verticais e uma ampla cobertura a duas águas. Essa
pode ter sido a opção dos franceses no maranhão, visto oferecer um formato de
habitação mais familiar para o gosto europeu371.
368 Bernardo Pereira de Berredo e Castro: “Annaes Históricos do Estado do Maranhão”, 1749.
369 Desenhos reproduzidos de http://www.osprojetistas.com/2013/12/arquitetura-indigena-brasileira.html.
370 Idem.
371 Fotos reproduzidas de http://img.socioambiental.org/ e http://pib.socioambiental.org/.
447

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Adequadamente cobertos com folhas de palmeira, podem ser construídos edifícios de
grandes dimensões, perfeitamente adaptáveis à função de capelas comunitárias372.

“A mil ou mil e duzentos passos desse local – continua relatando Claude d'Abeville –
deparamos com um belo e aprazível lugar, onde existe uma fonte, particularmente
bonita, de excelentes águas vivas e claras. Correm para o mar e é a fonte cercada de
palmeiras, guacos, murtas e outras árvores maravilhosamente grandes e copadas, sôbre
as quais se veem muitas vezes monos, macacas e micos que vão beber água.
Nesse lugar delicioso, derrubaram os índios tupinambás grande número de árvores e,
um pouco acima da dita fonte, construíram uma cabana espaçosa e comprida para
servir-nos de habitação, e outra ao lado para a capela e a celebração do santo
sacrifício da missa. E deu-se a esse conjunto de construções o nome de Convento de
São Francisco”.
Razoavelmente assentados em São Luís, concentraram-se os frades em visitar as aldeias
circundantes, procurando levar aos demais índios a mensagem do evangelho. Numa
delas, chamada Juniparã, numerosos índios declararam, insistentemente, que desejavam
ser batizados. Os frades aquiesceram ao desejo dos índios. Porém ressalvaram que “o
batismo deveria ser solene (assim o queríamos) e se tornava necessário uma capela
372 Fotos gibatrike (http://www.panoramio.com) e http://serradabarriga.palmares.gov.br.
448

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

para a celebração da Santa Missa. Então, ante a nossa observação, puseram-se logo a
derrubar numerosas árvores para construí-la a seu modo.
Enquanto assim procediam, mandamos aos outros padres, o Reverendo Padre Ivo e o
Reverendo Padre Ambrósio, alguns índios com uma carta pedindo que nos remetessem,
pelos portadores, um cálice, um missal, uma casula, hóstias, vinho, e o mais necessário
à celebração da missa, isto é, paramentos, toalhas, guardanapos, pedra d'ara, imagens
e outros objetos para guarnecer o altar, pois nada havíamos trazido a não ser
sobrepelizes, estolas e óleos sagrados para a administração de sacramentos em casos
urgentes. Nossos padres não deixaram de enviar-nos tudo o que solicitávamos.[...]
Trabalhavam uns em rotear a praça, outros em aplainá-la, outros em derrubar árvores,
cortar paus, e outros ainda em acertar o madeiramento. Enquanto uns preparavam a
pindoba para o teto, outros faziam esteiras de folhas de palmeiras, tão bem tecidas e
entrelaçadas em quadrados e outras figuras que se tornavam muito bonitas, dignas de
ver-se, e que nos serviam para ornamento da capela e do altar. Trabalhavam, enfim,
todos, de conformidade com suas fôrças e seus gostos e sem nenhum constrangimento.
Não tínhamos a intenção de construir um templo de Salomão, nem uma igreja
suntuosíssima, mas uma casa própria para residência do Rei dos Reis que preferiu
nascer numa estrebaria a vir ao mundo num Louvre ou num Palácio Real. [...]
Em seguida prepararam perto da capela uma casa grande para suas reuniões,
porquanto não queriam que o lugar do conselho e de suas assembleias se encontrasse
afastado da casa da devoção; assim também em pouco tempo edificaram uma cabana
para residência do Paí, entre a Capela e a Casa Grande.
Enquanto esses pobres índios com tanto zelo e diligência trabalhavam na construção da
capela, não se descuidava da cruz aquele que no domingo precedente prometera
aprontá-la. Ajudado por seus filhos, cortou ele uma bela árvore e a trouxe para o centro
da aldeia onde devia ser erguida e não descansou enquanto não terminou essa bela e
alta cruz, de mais ou menos 25 a 26 pés”.
Nascia, assim, a primeira de várias missões que os franceses iniciaram no Maranhão.
Todas elas seguiriam, pouco mais ou menos, as mesmas características. Já o
“conventinho” de São Luís, parece ter sido reconstruído com outros materiais. Porém,
Claude d'Abeville – que, quatro meses depois de chegar ao Maranhão, foi enviado de
volta à França com a missão de relatar os resultados da expedição ao rei e aos seus
superiores – não chegaria a registrar essa reforma.
Mesmo assim – caso a nova construção tenha chegado efetivamente a existir – também
não deve ter sido muito sólida. Conforme já apontado, em 1624, quando Frei Cristóvão
de Lisboa assumiu o seu posto em São Luís, achou-a “incapaz de habitação humana”373.
373 Bernardo Pereira de Berredo e Castro: “Annaes Históricos do Estado do Maranhão”.
449

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não havendo, na época, estabelecimentos capuchinhos em Portugal, passariam mais de
duas décadas antes de que outros membros dessa ordem apareceram em terras
brasileiras. Foi em 1642 que três missionários, também franceses, foram capturados na
ilha de São Tomé e conduzidos a Pernambuco por corsários holandeses.
França e Holanda eram aliadas. Porém, além de católicos, os missionários estavam em
território português, o que justificava a prisão por parte dos calvinistas holandeses.
Somente a política tolerante de Nassau – logo reforçada por uma carta do rei da França –
iria possibilitar que ficassem em liberdade no Brasil holandês.
A situação que encontraram não era das mais simples. Boa parte do clero português fora
perseguido durante o período inicial da invasão. Os calvinistas – e, mais recentemente,
os judeus, também amparados na tolerância nassoviana – pregavam abertamente e a
população portuguesa – mormente, católica – estava sem nenhuma assistência espiritual.
Os três frades optaram por ficar e pediram autorização para suprir essa deficiência.
Nessa conjuntura, os capuchinos eram uma força estratégica, não apenas para Roma –
que, através da recém criada Congregação para a Propagação da Fé (Propaganda Fide),
tentava recuperar para si a iniciativa do trabalho missionário, delegado às monarquias
europeias pelo instituto do padroado – como também para França, que – precisamente,
exercendo esse instituto – procurava unir à expansão da fé a da sua própria influência
internacional. Em agosto – a menos de oito meses da sua chegada ao Brasil – os três
frades já estavam investidos do status de missionários apostólicos, com as mesmas
faculdades de que gozavam nas missões da África.
Mesmo antes disso, contando com a colaboração dos vizinhos de Olinda, onde se
concentrava a maioria da população portuguesa, construíram uma capela – inaugurada
no domingo da Paixão, razão pela qual foi dedicada a Nossa Senhora do Monte Calvário
– e, junto dela, cinco celas e um pequeno refeitório. Não se sabe ao certo onde ficava
esse primeiro hospício, mas consta que era em cima de um morro com vista para o mar.
A intenção era, essencialmente, pastoral. Porém, apesar da aliança entre França e
Holanda, para os capuchinhos pesavam mais as diferenças de religião e acabaram se
envolvendo ativamente na luta dos portugueses.
Porém, essa participação não era simples. Fora o risco que supunha conspirar contra o
poder holandês, deviam lidar com a desconfiança da Coroa portuguesa, receosa do
espírito expansionista da França. Mesmo após a Restauração, que transformou a França
e a Holanda em aliados de Portugal na sua luta independentista contra Espanha, a
presença de frades estrangeiros num território tão conflitivo era um perigo latente. Só foi
aceito em face à absoluta carência de clero português que acompanhasse a luta e
condicionada a servirem de capelães e serem mantidos pela Coroa, abrindo mão de
qualquer subvenção oferecida pela França.
450

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Finda a campanha de reconquista, o hospício de Olinda não existia mais e os
capuchinhos optaram por fixar-se no Recife. Restaurada a ordem, Olinda, como sede do
bispado e de diversas ordens regulares, não precisava da sua ajuda. Pelo contrário, no
Recife, não apenas seriam bem aceitos como teriam maior liberdade para exercer a sua
missão sem interferências.
Surgiu, assim, o hospício de Nossa Senhora da Penha, na antiga Mauritsstadt, extra
muros da “Zuijpoort” (porta sul, depois denominada “Porta de Santo Antônio”) e a
poucos metros do Forte das Cinco Pontas.
Começou, então, a expansão missionária em prol do objetivo central: a evangelização
das populações pagãs. Em 1657 – apenas três anos após a capitulação dos holandeses –
os capuchinhos já declaravam ter penetrado 100 léguas pelo sertão374.
Dois anos depois, em 1659, sondava-se a possibilidade de estabelecer uma segunda
frente missionária. Foi concedida, como base, a ermida de Nossa senhora da Conceição,
no Rio de Janeiro, mas os recursos humanos eram ainda limitados. Só em 1664, com a
chegada de novos frades, a Propaganda Fide autorizou a ampliação da missão no Brasil
para abranger as capitanias do sudeste. O novo hospício foi ocupado em 1668.
O terceiro hospício, na Bahia, começou numa situação de conflito. Desde o início das
missões na África, capuchinhos italianos e franceses faziam escalas em Lisboa, Madeira
e Salvador para chegar a seus destinos. Ventos e correntes marinhas condicionavam esse
roteiro, habitual em todas as navegações. Nessas paradas – que, dependendo da
disponibilidade de transportes, chegavam a durar vários meses – alojavam-se em
conventos observantes ou em casas particulares – o que nem sempre era adequado e
confortável – e aproveitavam para pregar, ganhando-se, assim, a boa vontade dos
moradores.
Em 1679, capuchinos italianos fizeram celas provisórias e solicitaram licença para
levantar um hospício, tropeçando com a oposição dos franceses, que alegavam primazia
e concessão da Propaganda Fide para missionar no Brasil. A congregação confirmou ter
autorizado as missões, mas negou a exclusividade alegada pelos franceses.
As autoridades portuguesas receavam do expansionismo da França e os moradores mais
poderosos – alguns dos quais já começavam a ver seus interesses afetados pela
intervenção dos capuchinhos em prol da liberdade dos índios – rejeitavam taxativamente
o assentamento francês, apoiando em troca os italianos, que consideravam mais
maleáveis. Porém, prevaleceu a influência da rainha, dona Maria Francisca de Saboia,
forte representante dos interesses da França. Os italianos viram-se forçados a entregar a
construção aos franceses, que, em compensação, seriam obrigados a hospedá-los nas
suas escalas na Bahia.
374 Pouco menos de 700 km, provavelmente remontado o Rio São Francisco, onde localizaram a maioria das missões
chegando até a área hoje inundada pela barragem de Sobradinho.
451

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Mas a sorte dos franceses não durou muito. Falecida a rainha, em 1683, a sua influência
na corte decaiu automaticamente e recomeçaram os problemas. Além da rejeição dos
moradores mais influentes, o governo restringia a entrada de novos frades,
condicionando-a a um juramento de fidelidade incompatível com as orientações da
Propaganda Fide.
Paulatinamente, as missões dos franceses foram sufocadas e – emergencialmente –
transferidas para outras ordens. Ás vezes, sorrateiramente, mandando carmelitas ou
franciscanos observantes deixarem crescer as barbas e usarem hábitos similares aos dos
capuchinhos para que os índios não percebessem a diferença. Depois, paulatinamente,
acabariam sendo absorbidas por capuchinhos italianos.
É que a rejeição aos capuchinhos não era unânime. Em geral, eram bem vistos pela
população e, se dos franceses se desconfiava por causas principalmente geopolíticas, não
acontecia o mesmo com os italianos, provenientes de um país débil, dividido e sem
nenhuma possibilidade de expansão.
Além disso, tornara-se difícil, sem eles, dar continuidade à sua obra. Dentre 54
aldeamentos, na Capitania de Pernambuco, 11 estavam administrados pelos
capuchinhos, dividindo-se os restantes entre jesuítas, beneditinos, carmelitas,
franciscanos observantes e o clero secular. Também havia missões capuchinhas entre os
rodelas da Bahia, os goitacases do Rio de Janeiro e até no Ceará.
Em 1702, os últimos capuchinhos franceses abandonaram o Brasil. Ficando os hospícios
vagos, cogitaram-se diferentes alternativas. Na Bahia, o aproveitamento como hospital
militar. No Recife, como recolhimento para mulheres. Nenhuma destas ideias prosperou.
Em 1705, o hospício da Piedade, em Salvador, acabou sendo cedido aos capuchinhos
italianos. A mesma solução foi adotada, em 1709, com o hospício da Penha, em Recife.
Apenas o hospício da Conceição, no Rio de Janeiro, não voltou aos capuchinhos. Na
escritura de doação, constava cláusula de reversão à Prelazia no caso de abandono.
Elevada, em 1676, esta prelazia a bispado, carecia ainda de um palácio episcopal,
aproveitando-se para isso o terreno disponível junto do hospício. Embora, ao ser
requisitada pelos italianos, a construção original permanecesse intocada, já era
considerada propriedade do bispado.
Como eram as construções desses primeiros assentamentos? Pouco ou nada restou para
dar testemunho. Segundo Pietro Regni375 – de cuja obra foram extraídas boa parte das
informações deste capítulo – a Penha era “uma igreja de modestas proporções, com coro
e capelas laterais, uma das quais dedicada a S. Luís IX, Rei da França; um braço de
construção servia para morada dos frades, com oito celas, sala de estar, refeitório,
375 Pietro Vittorino Regni: “Os Capuchinhos na Bahia – Uma contribuição para a História da Igreja no Brasil”.
Tradução do italiano por Fr. Agatângelo de Crato. Edições Paulinas, 1988.
452

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

parlatório, dispensa e outros locais de serviço”. Entretanto, é possível que essa
informação, atribuída a frei Carlos Maria de Ferrara, prefeito de 1750 a 1754, já reflita
alterações feitas pelos capuchinos italianos, que – conforma o próprio Regni registra –
efetuaram obras de vulto entre 1733 e 1740.
De concreto, existe um desenho conservado no Arquivo Histórico Ultramarino376. É de
1801. Portanto, representa claramente a situação do hospício na sua fase italiana.
A fachada aparece em posição diagonal ao
resto das construções. Porém, a face lateral
ajusta-se às direções do arruamento. Assim, é
provável que o desvio da fachada seja uma
liberdade que o desenhista tomou para melhor
visualização.
O hospício, que, segundo informação do
CECI, fincava suas bases estruturais a 270
palmos da construção atual, ficava em frente,
onde hoje existe a Praça Dom Vital e aparece
rodeado por um grande largo em forma de L.
A igreja – de grandes proporções para um hospício377 – tem planta retangular, com três
portas, sendo a central de maiores dimensões, e um grande óculo no centro da fachada.
Ambos os lados parecem ter corredores com tribunas. No hospício, a portaria está
precedida de um pequeno alpendre.
Não existe o grande terreno em volta que caracterizava a auto-suficiência dos conventos
observantes. Apenas, um pequeno quintal, atrás da igreja, contendo, aparentemente,
palmeiras e árvores frutíferas.
O que mais se destaca, no desenho, é a altíssima torre, não ligeiramente recuada, como
nos conventos observantes, mas francamente situada no fundo da igreja, próxima à
sacristia, como era habitual nos antigos conventos italianos. Esta característica se repete
em diversas construções capuchinhas do século XIX. Segundo a proposta de
tombamento do CECI378, “A torre sineira da Penha funcionava como mirante e ponto de
orientação para as embarcações que entravam na cidade”
Na Bahia, uma imagem bem menos detalhada, porém bastante significativa379, foi
captada pelo engenheiro militar Amédée François Frézier.
376 “Perspectiva de vários edifícios entre os quais o 'Ospício de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos'”.
Reproduzido de http://www.sudoestesp.com.br/.
377 Lembre-se, a título de comparação, a disputa judicial sobre a construção do Hospício de São Boaventura, em Belém,
sintetizada no capítulo anterior.
378 “Conservação da Basílica da Penha - Proposta de Tombamento”. CECI, 2006.
379 Reproduzida de http://commons.wikimedia.org/.
453

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Faz parte de uma conjunto de vista panorâmica, planta e perfil de Salvador, do qual vale
reproduzir o detalhe abaixo:

Se comparado com edifícios vizinhos – o Mosteiro de São Bento, ainda em construção,
(10) e a Igreja de São Pedro (11) – o convento dos capuchinhos, indicado com o número
12, parece quase insignificante. Tem dois andares, mas carece de qualquer forma
arquitetônica destacada e nem sequer deixa perceber o volume da igreja. Essa falta de
detalhes poderia atribuir-se ao ponto de vista. De fato, mesmo considerando a ausência
dos edifícios altos que, atualmente, obstruem a visão, bem pouco do hospício poderia ser
visto do mar. Porém, a planta é igualmente parca.
Nota-se, claramente, que o hospício fica
extramuros, não apenas quanto à Porta de São
Bento (H), limite da muralha holandesa,
como à segunda muralha (G), identificada por
Frézier como “Remparts de terre Ruinée”
(Defesas de terra arruinadas).
De fato, parece formar parte de um pequeno subúrbio, rodeando o baluarte que, depois
de demolido, viria a dar lugar à Praça da Piedade. Além disso, não há nada, a não ser as
estradas de acesso à cidade.
Dificilmente essas visões se compatibilizam com a afirmação do governador João de
Lencastre, segundo o qual o hospício era tão grande e sólido “que quase pode ser
mosteiro fabricado de pedra e cal e cantaria”380. Igualmente exagerada parece a
expressão de Rocha Pita: “Fundaram formosa igreja e capacíssimo convento”381. Já mais
distante das rixas da época, Vilhena escreveria: “Fundaram estes uma igreja asseada,
posto que pequena, e convento suficiente”382.
Cabe lembrar que o próprio alvará que autorizava a construção do hospício, em
21/08/1679, estabelecia, como limitação: “hey por bem de lhe conceder que possam
380 Carta do governador ao rei dando conta do parecer da câmara sobre o pedido de licença dos capuchinhos italianos para
construírem hospício próprio na Bahia, independente do hospício dos franceses, em 10/07/1695.
381 Sebastião da Rocha Pita: “Historia da America Portugueza”, Lisboa, 1730.
382 Luís dos Santos Vilhena: “Recopilacao de noticias soteropolitanas e brasilicas contidas em XX cartas, que da cidade
do Salvador Bahia de Todos os Santos escreve hum a outro amigo em Lisboa, debaixo de nomes alusivos, noticiandoo do estado daquella cidade, sua capitania, e algumas outas do Brasil”, 1802.
454

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

fazer seu hospicio na Cidade da Bahia para os seos missionarios e em que se possão
recolher os que vierem do certão com declaração que no hospicio não estarão nunca
mais que seis até oito religiosos e so para comodidade deste numero se deixara fabricar
o hospicio”383.
Pouco depois – provavelmente, respondendo a novos questionamentos da Câmara, um
segundo alvará acrescentava: “que a licença que tenho concedido aos ditos religiosos
para fabricarem o dito hospicio não he para outro fim mais que para nelle se poderem
agazalhar os que forem a missão, e não para que sirva de convento que pello tempo
adiante queiram agregar outros para formar provincia no Brazil”384.
Tentando compatibilizar todas as informações, Regni descreve o hospício como “um
quadrilátero de notável grandeza, com um dos lados substituído, depois, pela igreja
contígua e os outros três usados para morada dos franceses. No claustro devia haver
um pórtico que o rodeava todo em duas ordens sobrepostas, enquanto as celas estavam
colocadas na parte externa do andar superior, o térreo era reservado para a cozinha, o
refeitório, o parlatório e para outros locais de serviço”.
Bem diferente seria o panorama encontrado por Rugendas385.

383 “Alvará para os barbadinhos franceses fazerem um hospício na Bahia”. AHU (reproduzido por Pietro Regni).
384 “Alvará de 28 de setembro de 1680 com que se confirma a licença dada aos franceses para a construção do hospício
na Bahia”. AHU (reproduzido por Pietro Regni).
385 “Hospice de N.S. da Piedade a Bahia” litografia de Louis-Julien Jacottet com base em desenho de Johann Moritz
Rugendas e figuras de A. Bayout. Thierry frères, Paris, 1835.
455

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os velhos baluartes deram lugar a uma ampla praça, povoada com todos os tipos
característicos do Brasil colonial. É evidente que se trata de uma composição, reunindo,
numa só imagem, observações diversas da sua visita a Salvador. Mesmo assim, a cena é
extremamente significativa e a reprodução do hospício é quase fotográfica, como pode
apreciar-se nas imagens captadas por Mulock (1861) e Gaensly & Lindemann (1890)386.

Nota-se, nas três imagens, que o grande esforço dos
capuchinhos italianos foi no sentido de ampliar e melhorar a
igreja, permanecendo o hospício com dimensões bem modestas.
Essa situação persistiria até o advento da república, quando –
eliminadas as restrições impostas pelo padroado – a Ordem
pôde, finalmente, estabelecer-se formalmente no Brasil.
Crescendo, em consequência, o número de frades, a falta de
espaço levou a acrescentar um segundo sobrado. Inicialmente,
na ala posterior, depois ampliada para todo o edifício. O claustro
– entretanto, permaneceu muito estreito, sendo, provavelmente,
um dos menores de Salvador.

386 Fotos Benjamin Mulock e G. Gaensly & R. Lindemann, reproduzidas de Gilberto Ferrez: “Bahia. Velhas Fotografias
1858-1900”. Banco da Bahia/Livraria Kosmos, 1988.
456

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Pelo contrário, a igreja é ampla e bem iluminada. Surpreendente, no contexto dos
templos baianos da sua época. Projetada por frei Archanjo de Ancona e reconstruída a
fundamentis entre 1809 e 1825, tem planta basilical com três naves, sendo a central mais
elevada, sustentada por colunas coríntias sobrepostas por grandes janelões a modo de
clerestório. Janelas similares iluminam a capela mor.
Cobrindo o cruzeiro, uma grande cúpula –
ultrapassando a largura da nave – equilibra-se sobre
quatro robustas pilastras embutidas nos arcos
enquanto, de ambos os lados, colunas similares às da
nave delimitam os deambulatórios. Montada sobre
um tambor com janelas e coroada por um lanternim,
a cúpula tinha, ainda, uma fileira de óculos, na parte
média da sua curvatura. Todos esses vãos inundavam
de luz o altar mor, situado exatamente em baixo.
Exteriormente, a cúpula tem uma escada que parte da
torre sineira e leva até o lanternim, em torno ao qual
roda uma pequena passarela.
Correntes, sustentadas por varas de ferro, fazem as
vezes de corrimão. Essas vias possibilitam a
realização de serviços de limpeza e conserto nas
áreas de difícil acesso.

Porém, lamentavelmente, a obra não era perfeita. Embora bem planejada, dos pontos de
vista estrutural e funcional, não estava preparada para suportar o sol e as chuvas
inclementes da Bahia.
457

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para paliar as infiltrações, foi, inicialmente, coberta com placas de chumbo e cobre que,
entre 1866 e 1868, foram substituídas por cerâmica esmaltada.
Na virada do século, frei Venâncio de Ferrara – primeiro
superior regular, de 1892 a 1906 – chegou a cogitar a
construção de uma nova cúpula, mas desistiu por casa do
custo, contentando-se com acrescentar uma cobertura de
zinco. Essa cobertura minimizou as infiltrações, mas não
conseguiu evitar a perda das pinturas de Presciliano Silva,
que, em 1915, decorou integralmente os tetos da nave,
cúpula e capela mor.
As pinturas emulavam outro teto – o que Tiepolo pintara
em Santa Maria di Nazareth, em Veneza, mais conhecida
como Chiesa degli Scalzi – que acabava de ser destruído
num bombardeio e Silva conhecia, apenas, por uma
fotografia em preto e branco.
Hoje, ambas as obras não existem. De Tiepolo, restam
umas poucas fotografias. De Presciliano, apenas uma
extensa superfície, escrupulosamente pintada de branco.
Os óculos foram sacrificados ao montar o revestimento de cerâmica. O lanternim e as
janelas subsistem387.
A cerâmica foi conservada, por baixo do zinco, e
resgatada numa nova intervenção, em 1984. Porém, as
infiltrações continuavam.
Atualmente – à espera de melhor solução – a cerâmica
está protegida por uma cobertura plástica que,
escassamente, permite a sua visualização.

387 Diagrama existente no Arquivo de Nossa Senhora da Piedade.
458

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para melhor compreensão do interior da igreja, vale inserir a seguinte planta,
reproduzida do arquivo de Nossa Senhora da Piedade.

Os números indicam: 1. Acesso – 2. Tribuna do órgão – 3. Nave principal – 4. Naves
secundárias – 5. altares laterais – 6. Deambulatórios – 7. Antiga localização do altar mor
– 8. Localização atual do altar mor – 9. Antiga localização do coro, hoje ocupada pela
imagem de Nossa Senhora da Piedade – 10. Portas abertas na gestão de frei Venâncio de
Ferrara, de 1898 a 1906 – 11. Sala para a qual foi deslocado o coro, mais tarde
transferido para o interior do convento – 12. Antigo cemitério – 13. Capela e acesso à
cripta – 14. Sacristia – 15. Torre – 16. Antiga portaria do convento – 17. Claustro.
Apreciam-se, aqui, diferenças notáveis com os conventos observantes. À semelhança do
desenho da Penha, a torre encontra-se no fundo, vinculada à sacristia e não ao coro.
Porém, como acontece em diversas casas capuchinhas, o coro se encontrava não muito
longe, por trás do altar mor. Consequentemente, não existe coro alto aos pés da igreja,
havendo, no lugar, apenas uma tribuna para o órgão.
Bastante criativa, a planta consegue conciliar, harmonicamente, o círculo da cúpula com
as formas retangulares da igreja e do convento. Adicionalmente, o espaço, mais largo em
baixo dela, cria uma ilusão de cruz latina, apenas sugerida, mas fortemente perceptível.
As colunas laterais separam adequadamente os deambulatórios, concentrando a atenção
no altar mor. Mesmo com o deslocamento deste para o fundo, ainda há perfeita
visualização do ritual em toda a extensão da nave.
459

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não existem altares colaterais. Há, sim,
seis laterais, tal como acontece nos
conventos observantes de Salvador e
Belém e em diversas igrejas de ordens
terceiras. Na origem, tanto os retábulos
quanto os altares eram de madeira. Em
1868, os altares foram substituídos por
mármore italiano.
Também foi feito em mármore o altar
mor, recuado até o arco. Uma plataforma
circular, com balaustradas do mesmo
material, foi criada em frente dele e hoje
hospeda o altar versus populum.
Todos os altares laterais tem painéis. Alguns, pintados na Itália. Outros, de confecção
local, atribuídos a José Teófilo de Jesus.

Dois dos altares laterais, no centro de cada nave, têm nichos com vidros, contendo
imagens jacentes de excelente qualidade.

460

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

De todas as imagens, a mais importante é a de
Nossa Senhora da Piedade, trazida de Lisboa
pelos capuchinhos italianos. Ela já estava no
altar mor quando Frei Agostinho publicou o
nono volume do seu catálogo de imagens
milagrosas388.
“Esta Santissima Imagem – diz o frade – he
de escultura formada de madeyra, estofada
primorosamente; sempre está cuberta com
hum grande quadro, em o qual está pintada a
mesma Senhora da Piedade; o qual se corre
aos Sabados à tarde, em que concorre muyta
gente, & com muyta devoçaõ a assistir à
Ladainha cantada, a que tambem assistem
ordinariamente os Governadores daquelle
Estado”.
O Santuário menciona, ainda, mais três
imagens. Duas delas – Nossa Senhora da
Graça e Nossa Senhora dos Prazeres – aos
lados desta, no altar mor.
A terceira, Nossa Senhora da Soledade, era de maior tamanho e estava “numa capella
collateral & particular sua, que se lhe dedicou, a qual fica à parte da Epistola”. Sendo
o Santuário dedicado, exclusivamente, às imagens de Nossa Senhora, não há menção de
outros altares ou imagens existentes na época.
No fundo da nave, destaca-se, ainda, o órgão de tubos, lamentavelmente fora de serviço.

388 Frei Agostinho de Santa Maria: “Santuário Mariano e Historia das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora”. Nono
volume. Lisboa, 1722. Edição da Imprensa Oficial da Bahia, 1949.
461

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A sacristia é simples. Comunica com a igreja por uma porta baixa e com a capela mor
através de uma das portas abertas por frei Venâncio. A grade, à esquerda da foto, dá
acesso ao convento passando pelo interior da torre.

Entre a torre e a sacristia, há um lavabo de lioz, de linhas simples, junto ao qual descem
cordas para controle dos sinos.

462

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os sinos têm imagens gravadas. Um deles mostra a cena do Calvário com Maria e João
ao pé da cruz e a inscrição “Mater Pietatis Ora Pro Nobis”.
O suporte do sino está modelado em forma de rosto.

O topo da torre tem cobertura globular, azulejada em azul
cobalto com motivos florais. Está cercado por uma
balaustrada a modo de mirante.
As abóbadas da nave, capela mor e capelas laterais estão
cobertas com telhas, o que lhes dá uma certa proteção
contra os efeitos do clima389. Mesmo assim, também
nessas áreas, as pinturas foram removidas porque a
umidade prejudicava os pigmentos.
389 Foto Google Maps.
463

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No início do século XX, as reformas de frei
Venâncio de Ferrara foram marcantes. Segundo
Regni, “canalizou as águas que, escavando ao
lado da igreja, ameaçavam sua estabilidade”.
Além de abrir as duas portas já mencionadas, “o
presbitério foi alteado a fim de dar uma visão
mais ampla do altar mor e do trono de N. S. da
Piedade”. Aliás, mandou fazer um novo trono
ficando a imagem ladeada por São João
Evangelista e Santa Maria Madalena.
Restaurou pinturas, abóbada e cúpula. Com o
recuo do altar mor, o espaço reservado ao coro era
já insuficiente, assim que mandou construir uma
nova sala por trás da capela mor.
Não alterou a fachada, mas iniciou o projeto, a ser
concluído por seu sucessor390.
“Os portais da igreja tiveram como ornamento
os umbrais e arquitraves de mármore. A parte
superior da fachada foi decorada com o
acréscimo de estátuas e ornamentações várias.
Sobre a cornija, correspondendo às quatro
grandes colunas em estilo corinto, colocaramse as imagens dos quatro Evangelistas. Para a
quinta imagem – a de N.S, da Piedade –
fizeram um nicho, em forma de ático, no centro
da fachada. Por cima do nicho campeia a Cruz
sustentada por um grupo de anjos”391.
O hospício não sofreu grandes alterações.
Excetuando a decoração superficial e o acréscimo
de um frontispício triangular sobreposto ao centro
da fachada, até 1930 ficou, praticamente, com a
mesma estrutura do século anterior392. Uma porta
em cada extremo, janelas no andar superior e
óculos no térreo. Não se aprecia, nas fotos,
nenhuma ampliação do espaço interno.
390 Diagrama existente no Arquivo de Nossa Senhora da Piedade.
391 Pietro Vittorino Regni: obra citada.
392 Cartão postal reproduzido de http://www.cidade-salvador.com).
464

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em fotografias dos anos 40393, nota-se que a
ala do fundo foi alteada e uma nova ala se
destaca da quadra inicial em direção dos
Barris394. As alas frontal e lateral não
sofreram mudanças significativas.
Observe-se que a cúpula continuava com a
cobertura de zinco acrescentada por frei
Venâncio, obstruindo por completo a visão da
cobertura cerâmica.
A última ampliação afetou as alas frontal e lateral, que foram emparelhadas com a do
fundo395. Assim, o claustro ganhou mais um andar, não porticado, como os anteriores,
mas envidraçado com janelas de guilhotina396. Na fachada, uma nova portaria foi aberta,
no centro, sendo a anterior transformada em capela externa.

393 Cartão postal reproduzido de http://www.cidade-salvador.com).
394 Ver imagem de satélite na página 463.
395 Fotografia reproduzida de http://i224.photobucket.com.
396 Ver foto na página 456.
465

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O assentamento do Recife teve uma vida
menos acidentada. Ao menos, desde que,
em 1882, a antiga igreja foi demolida e
reconstruída em novos moldes.
Também o hospício foi re-edificado. Fotos
da época mostram a basílica praticamente
isolada. Distante de outras edificações.
Apenas um muro e um portão ocupam o
lugar das construções atuais. Por trás deles,
somente folhagem, e um telhado baixo,
talvez remanescente do antigo hospício397.
O confronto entre fotografias feitas em
épocas diversas permite inferir que – exceto
a construção do novo convento, hoje sede
da Curia Provincial – não houve grandes
mudanças, podendo considerar-se o século
e meio desde então transcorrido como um
período de relativa estabilidade. A basílica
permanece, ainda hoje, praticamente igual à
construída em 1882.
Diferentemente da igreja de Salvador, que, embora evidencie inspiração em modelos
romanos e bizantinos, aparenta um projeto mais livre, a Basílica da Penha apresenta uma
dívida explícita a modelos palladianos. Destacam-se, particularmente, as igrejas
venezianas de San Giorgio Maggiore e del Santissimo Redentore. Vistas à distância398, as
semelhanças são evidentes e ficam, mais ainda, acentuadas pelo entorno de rios e canais.

Embora beneditina e transformada em basílica, São Giorgio fica bem perto da ilha da
Giudecca, onde está Il Redentore, a igreja dos capuchinhos. Além disso, tanto Palladio
quanto Frei Francesco, autor do projeto de Recife, eram naturais da região do Véneto.
397 Fotos Google Street View e http://www.safarihost.com.br.
398 Fotos Wikimedia Commons.
466

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A semelhança das fachadas é evidente, muito
especialmente, com a de São Giorgio Maggiore,
iniciada por Palladio e concluída por Scamozzi.
Tanto ela quanto a Penha estão estruturadas em
dois níveis, combinando o frontão de templo
clássico com a planta basilical em três naves,
própria das igrejas cristãs.
Ambas as fachadas foram horizontalmente
divididas com pilastras coríntias, têm nichos
ladeando a entrada e estátuas no frontão e nas
empenas das naves secundárias. Apenas, na
Penha, há nichos em ambos os níveis e portas
laterais para acesso às naves.

Na comparação entre as plantas, também prima a influência de San Giorgio (esquerda).
Il Redentore (direita) não tem naves laterais e sim, capelas intercomunicantes399.

399 Plantas e elevação da fachada reproduzidas de http://www.greatbuildings.com.
467

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A planta da Penha400 apresenta os seguintes elementos: 1. Entrada – 2. Coro – 3. Acesso
ao coro – 4. Nave principal – 5. Naves secundárias – 6. Capelas laterais rasas – 7.
Púlpitos – 8. Cúpula – 9. Altar lateral do transepto – 10 Capela lateral adicionada ao
transepto – 11. Altar mor – 12. Deambulatório – 13. Capelas rasas do deambulatório –
14. Sacristias – 15. Torres.
Novamente, como em Salvador, encontramos uma planta basilical, com três naves e suas
correspondentes portas de entrada, capelas laterais, abóbadas e cúpula. Há coro alto aos
pés, mas não tenha as dimensões necessárias para a reunião dos frades para a oração
comunitária. Segundo informação verbal recolhida na Basílica, essa função não teria
sido prevista por tratar-se de um hospício, ainda sem o status formal de convento.
Também coincidem com Salvador a presença da sacristia lateral e da torre a ela
vinculada, ressalvando-se que, no Recife, há duas sacristias e duas torres,
simetricamente localizadas. Essas semelhanças não me parecem casuais.
Independentemente da transcrição do modelo veneziano, foram, ainda, respeitadas as
necessidades funcionais próprias dos capuchinhos.
Com relação aos modelos venezianos, uma diferença
notável é a inscrição de todas as formas curvas numa
planta basicamente retangular. Tanto aqui como em
Salvador, as paredes externas são sempre retas,
excetuando-se apenas a capela do Santíssimo, agregada
– em forma um tanto forçada – ao braço esquerdo do
transepto. Até mesmo a abside da Penha está inscrita
dentro do retângulo. Porém, vistas de cima401, tanto a
abside quanto a cruz, delimitada pela nave principal e o
transepto, ficam claramente perceptíveis pela maior
altura com relação às naves secundárias.
Tanto Il Redentore quanto San Giorgio
Maggiore402 têm duas torres sineiras
gêmeas, embora, nesta última, tenha
maior destaque o grande campanile
isento, adicionado externamente do lado
do evangelho.
Na Penha, a posição das torres é a
mesma. Os três casos diferenciam-se,
apenas, pela forma das torres e pela
inserção no corpo do edifício.
400 Reproduzida de “Conservação da Basílica da Penha - Proposta de Tombamento”. CECI, 2006.
401 Foto Google Maps (As estruturas em volta da cúpula foram montadas para possibilitar os trabalhos de restauração).
402 Fotos Google Maps.
468

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

No Redentore, as torres são cilíndricas. Em
San Giorgio, hexagonais. No Recife, as
bases são quadradas, mudando, a certa
altura para a forma octogonal. Pequenos
tímpanos, em cada uma das faces, marcam
a transição de uma forma para outra.
Assim como os campanários venezianos, as
torres da Penha são finas e agudas,
lembrando minaretes, o que não é de
estranhar considerando as estreitas relações
que Veneza mantinha com o mudo árabe.
Ainda acompanhando os modelos venezianos, o topo do
lanternim é ornado com a estátua da padroeira. No caso,
Nossa Senhora da Penha, feita em cobre batido.
Diferentemente da Piedade, a cúpula da Penha foi feita
com técnicas modernas, sendo, provavelmente, a
pioneira na utilização de concreto no Recife. Mesmo
assim, ressente-se por causa da umidade.
Segundo o CECI, “as chapas de cobre na área do
coroamento encontravam-se desgarradas do anel de
pedra lioz, permitindo graves infiltrações pelo
intradorso”, havendo, também “desarticulação no
assentamento entre o cupulim e a espera da cúpula”,
deixando “uma brecha em torno de 10cm entre as duas
estruturas”. A fotografia mostra as obras executadas
para resolver esses problemas403.
No interior, além das colunas e
pilastras coríntias, o traço estilístico
que mais destaca são os caixotões.
Eles estão na cúpula, na abside, nas
abóbadas do transepto, no forro das
naves secundárias e até nas sacristias.
Em contraste, não há caixotões na
nave principal. Só pinturas – morte,
assunção e coroação de Maria – sobre
fundo branco e liso404.
403 http://www.ceci-br.org.
404 Portanto, os caixotões são um traço de estilo, já sem função estrutural, visto que o peso da abóbada se sustenta sem eles.
469

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não é provável que existam imagens do hospício dos franceses, no Rio de Janeiro. A
planta de Massé, executada em 1713405, escassamente nos permite ter uma ideia da
localização, indicada com a letra L. Aliás, nessa data, o hospício já tinha revertido para o
bispado, podendo a área indicada corresponder ao palácio.
O hospício encontrava-se no topo de um morro, escolhido por Massé como limite da
muralha que deveria defender a cidade pela parte da terra. O muro deveria isolar o
centro da cidade, unindo os morros da Conceição e do Castelo, por sua vez protegidos
pelas correspondentes fortalezas (A e C). O convento dos observantes, cuja cerca
destaca-se na área superior da planta, ficava fora da muralha.
Ao contrário da Bahia, onde os capuchinhos nunca mudaram de local, e de Pernambuco,
onde a mudança de Olinda para Recife aconteceu por própria iniciativa, os capuchinhos
do Rio viram-se obrigados a peregrinar por diversas sedes. Negada a cessão do hospício
dos franceses – onde, apesar da negativa, ficaram provisoriamente hospedados de 1723 a
1725 - os italianos ficaram, por um tempo, na igreja do Senhor Bom Jesus, pertencente à
Ordem 3ª de São Francisco, sendo obrigados a abandoná-la quando foi transferida para a
Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos.
Em 1738, em caráter precário, receberam a antiga ermida do Desterro, onde também não
poderiam ficar definitivamente por estar destinada a seminário diocesano, o que também
não aconteceu. Também não seria efetivada a cessão da ermida de Nossa Senhora da
405 Jean Massé: “Planta da Cidade de Saõ Sebastiaõ do Rio de Janeiro Com súas Fortifficaçõens” (Wikipedia).
470

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Ajuda, que enfrentou resistências da população, que advogava pela instalação de um
convento de freiras. Esse objetivo seria atingido, em 1750, com a conclusão do convento
das clarissas. No mesmo ano, na ermida do Desterro, as carmelitas iniciavam a
construção de Santa Teresa.
Cansados de tantas dilações, os capuchinhos optaram por procurar um terreno e
solicitaram licença para construir um edifício novo. Obtida licença da Coroa, em 1740,
iniciou-se de imediato a construção do Hospício de Nossa Senhora da Oliveira.

O crescimento da cidade já tornara inservível a
muralha inconclusa de Jean Massé. Francisco João
Roscio, um engenheiro militar português, foi
incumbido de projetar uma nova muralha, que
acabaria não saindo do papel.
No mapa de Roscio406, a muralha projetada
envolve por completo os morros do Castelo, de
Santo Antônio e da Conceição. O hospício dos
capuchinhos aparece ligeiramente extramuros,
perto do convento da Ajuda, e está indicado com a
legenda “Barbadinhos”.
406 Reproduzido de http://www.almacarioca.com.
471

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Existe uma imagem desse segundo hospício407.
Lamentavelmente, não tenho uma cópia de boa
qualidade. À esquerda, notam-se Santa Teresa e a
rua que, por causa do hospício, pasaria a ser
chamada “dos Barbonos” (atual Evaristo da Veiga).
Atravessam a cena os arcos do aqueduto.
A igreja é simples, com uma única porta e uma
janela no coro. Claramente, arquitetura chã.
Destaca-se, junto a ela, uma robusta torre quadrangular, ligeiramente recuada. A
cobertura é piramidal, com uma ligeira curvatura, lembrando alguns templos de Minas
Gerais.
O hospício, transversal ao eixo da igreja, está muito recuado. A comparação com a
planta de Roscio permite imaginar que se trate de uma única ala, sem claustro. Por trás,
nota-se uma construção mais elevada. Não é seguro que faça parte do hospício, mas bem
poderia corresponder ao setor que, na planta, se prolonga no fundo da igreja.
Nessa casa permaneceram os capuchinhos até 1808. Chegados a rainha e o príncipe
regente, o hospício foi requisitado para alojar os carmelitas, cuja igreja fora
transformada em capela palatina. Começou, assim, uma nova peregrinação, passando
pelas casas dos romeiros de N. S. da Glória e pela Igreja de Santo Antônio dos Pobres,
na Rua dos Inválidos. Assim desestimulada, a missão acabou se dispersando, migrando
alguns frades para outras localidades do Brasil e outros voltando para Itália, e só veio a
reativar-se em 1840. Desta vez, por iniciativa do governo imperial, que passava a
interessar-se pela catequese dos índios.
Como sede, foi-lhes oferecida a igreja de São
Sebastião, antiga Sé408, quase abandonada e
praticamente em ruínas. Deslocada, boa parte
da população, para as áreas baixas, com
centro na atual praça XV, o Morro do Castelo
ficara quase desabitado, oferecendo espaço
abundante para a expansão do hospício.
Adicionalmente, tinha a vantagem de ser um
local alto, bem arejado e com ampla vista
para a baía e os morros circundantes.
Tanto a antiga Sé (“F. La Cathedrale”) quanto o hospício dos franceses (“E: Les
Capucins”) aparecem na panorâmica de François Froger, datada de 1695409.
407 Reproduzida de http://wanderbymedeiros.blogspot.com.br.
408 Desenho de Franz Josef Frühbeck (wikipedia).
409 Reproduzida de http://www. acmerj.com.br.
472

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Na planta de Francisco Roscio, (página 471) a localização da
igreja, no Morro do Castelo, está indicada como “Sé Velha”.
O polígono irregular, destacado à direita, é o Castelo de são
Sebastião. O conjunto de construções que ocupa o centro do
detalhe é o Colégio dos Jesuítas, que o panorama de Froger
identificava com a letra D.
Todos esses edifícios desapareceriam por completo no
arrasamento do Morro do Castelo.
Inicialmente, os capuchinhos efetuaram,
na igreja, apenas consertos emergenciais,
dedicando-se logo à tarefa premente de
construir um alojamento para os frades. O
módulo inicial, ainda com a igreja sem
grandes alterações, pode ser visto na foto
ao lado410. O hospício formava um L,
rodeando a capela mor, principalmente,
pelo fundo e pelo lado da epístola. A
pendente do terreno impossibilitava a
construção pela parte do evangelho.
Segundo Moreira de Azevedo, o hospício tinha “dois pavimentos havendo no primeiro
a sala do refeitório e sete celas, e no segundo, doze celas e a sala do relógio”411.
Posteriormente à imagem acima, do lado da epístola e em nível mais baixo,
acompanhando o declive do terreno, foi construída uma nova ala, contígua ao edifício
original. Nunca houve claustro. As seguintes fotografias retratam o hospício no seu
momento de máxima expansão412.
410 Reproduzida de “Era Uma Vez o Morro do Castelo”, IPHAN, 2000. Salvo indicação em contrário, todas as fotos a
seguir procedem da mesma fonte.
411 Manuel Duarte Moreira de Azevedo, citado em “Era Uma Vez o Morro do Castelo”, IPHAN, 2000.
412 Na próxima página, a foto da direita é da mesma fonte. A da esquerda procede de http://api.ning.com.
473

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Durante as duas primeiras décadas, a igreja permaneceu sem modificações importantes,
até que – ainda segundo Moreira de Azevedo413 – “em conseqüência do temporal, que
caiu sobre a cidade, em 10 de novembro de 1861, estalou o madeiramento do teto, e
ficaram as paredes abaladas e fendidas. Em 2 de dezembro de 1861 transferiram-se as
imagens para a sacristia, e no dia 21 começaram as obras de reedificação; elevaram-se
todas as paredes da igreja e da capela mor, reconstruíram-se as torres, abriram-se
janelas laterais no corpo da igreja e na capela mor, levantou-se o coro, transformaramse em colunas os pilares que dividiam as naves do interior do templo; fizeram-se de
novo os forros, os assoalhos, portas e grades, construíram-se duas capela fundas, pelo
que ficou a igreja tendo nove altares, em vez de sete; preparou-se um púlpito, e ornouse o templo com obra de talha”.

Observando as fotografias da igreja reconstruída414 - ainda a risco de contradizer o autor
citado, que certamente, conheceu a igreja – vale fazer algumas ressalvas:
413 Obra citada.
414 Esquerda: http://api.ning.com (foto de Augusto Malta, 1906). Direita: http://www.semprerio.com.
474

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Nota-se que a torre da epístola se conservou intacta, ficando alinhada com o tímpano por
causa do alteamento da fachada. O fechamento das sineiras frontais sugere que houve a
intenção de aumentar-lhe a altura para corrigir essa deficiência. Já a torre do evangelho,
parece ter ruído por completo, provavelmente por causa do pronunciado declive. A
escada que se observa desse lado é, claramente, uma solução de emergência.
Aliás, a fachada toda apresenta-se estranhamente lisa, aparentando estar inconclusa.
Certamente, faltaram recursos para dar-lhe uma solução definitiva. Apenas foi rebocada
e foram abertas mais duas portas para dar acesso às naves laterais. Nem a torre da
epístola foi alteada nem a do evangelho, reconstruída.
Quanto ao interior415, creio que a divisão em três
naves por maio de pilares – conforme registra
Moreira de Azevedo – não deve ser original do
templo, construído em 1567. Provavelmente
derive da reforma efetuada entre 1790 e 1801,
por ordem do vice rei conde de Rezende.
As imagens mais antigas (páginas 472/473) têm
o aspecto típico das antigas matrizes de nave
única, com corredores laterais sobrepostos por
tribunas, capela mor e dois altares colaterais.
Em algum momento – talvez entre as datas
citadas – rasgaram-se as paredes que separavam
a nave dos corredores, ampliou-se a capela mor
e os dois altares colaterais foram substituídos
por seis altares laterais, nas naves secundárias.
Sendo assim, as contribuições essenciais dos
capuchinhos seriam as seguintes:
1 – Alteamento da nave.
2 – Substituição dos pilares por arcos e colunas.
3 – Abertura de duas capelas colaterais, ladeando a capela mor.
4 – Cobertura em abóbada, perfurada por janelões a modo de clerestório.
Mais uma vez, observamos aqui, como marca dos capuchinhos, a tendência à planta
basilical, com nave central elevada e abundante iluminação natural.
Lamentavelmente, a reforma exterior não alcançou a ser concluída. Considerado
insalubre e cheio de cortiços, o Morro do Castelo foi arrasado, em 1921, para deixar
espaço à Exposição Comemorativa do Centenário da Independência.
415 Foto Augusto Malta (1921) reproduzida de http://www.flickr.com/photos/andre_so_rio/.
475

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não encontramos, no hospício demolido, cúpula, abside,
planta em cruz ou torre ao fundo, vinculada à sacristia.
Evidentemente, o caráter precário da ocupação e a
escassez de recursos impossibilitaram uma completa
adequação aos modelos próprios da Ordem, limitando-se o
esforço construtivo a reformas emergenciais.
Mesmo assim, nota-se, nessa reforma, a intenção de,
dentro do possível, adaptar o interior da igreja a esses
modelos. O mesmo pode observar-se no Convento de
Santa Clara, em Taubaté, originalmente pertencente aos
observantes e cedido aos capuchinhos em 1891416.
Pelo contrário, todos esses elementos estão presentes no
novo convento417, construído, para substituir o anterior,
entre 1928 e 1931.
Nota-se, em todas essas construções, uma forte tendência ao neoclassicismo. Porém, não
é o neoclássico francês, introduzido por Grandjean de Montingy a partir de 1816. Tratase, de fato, de um neoclassicismo italiano, fortemente devedor de modelos romanos e
bizantinos.
A igreja da Piedade, projetada e iniciada em 1809, já apresentava marcadas influências
desse estilo. Contrariamente aos observantes, que estavam fortemente enraizados em
Portugal e – embora com influências renascentistas e barrocas – deram continuidade à
arquitetura portuguesa, os capuchinhos vinham diretamente da Itália, trazendo consigo
os modelos e tendências que ali imperavam. Mais ainda: até a implantação da Ordem –
já no período republicano – não houve noviciados capuchinhos que possibilitassem a
formação de frades brasileiros.
Constata-se, portanto, que os capuchinhos foram precursores do neoclassicismo no
Brasil, o que fica ainda mais claro ao considerar a Matriz de São Fidelis, também no
Estado do Rio de Janeiro418.
A Matriz de São Fidelis foi construída entre
1799 e 1809. Portanto, bem antes da chegada
de Grandjean de Montigny. Antes, incluso,
da chegada de D. João VI, em cujo séquito
poder-se-ia presumir a presença de pessoas
conhecedoras das novas tendências artísticas
em voga na Europa.
416 Ver fotografia na página 411.
417 Foto Google Maps.
418 Desenho de Charles Ribeyrolles reproduzida de http://www.saofidelisrj.com.br.
476

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Portanto, não podemos atribuir os traços clássicos da igreja a outra influência que a dos
próprios frades. Nas palavras de Charles Ribeyrolles:
“Foi delineado o plano pelo padre-cura dos indios, sob cuja direcção a pequena
basilica ergueu-se lentamente de estação em estação, quando a chuva cessava e
permitia o carreto das pedras.
Esta construção, hoje muito esboroada e quasi em ruínas, conserva ainda um certo
reflexo italiano e vê-se que, se a mão de obra foi de execução selvagem, o architectomonge nutria grandes e belas recordações.
A igreja de S. Fidelis tem a sua cupula como S. Pedro de Roma, galerias interiores,
fachada com frontaes, e frescos de tintas duras e já gastas. É um lindo albergue grego
sarapintado por Puris e Botocudos”419.

Vista de longe, o que mais destaca na igreja é a grande cúpula. A torre, isenta, é um
agregado posterior420. Conforme pode observar-se na imagem de Ribeyrolles, até perto
de 1859, data da publicação do seu livro, só existia um sino, montado numa estrutura
simples de madeira rústica. Essa estrutura é visível à direita, junto à portaria.
Porém, a característica mais original desta igreja é
a planta em cruz grega, perfeitamente apreciável na
imagem de satélite421.
No Brasil, são relativamente comuns as igrejas com
planta em cruz latina. Ou seja, com os braços
desiguais, sendo os do transepto equivalentes à
capela mor e o da nave, mais extenso. Pelo
contrário, a Matriz de São Fidelis apresenta uma
perfeita cruz grega, com quatro braços iguais.
419 Charles Ribeyrolles: “Brazil pittoresco”. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1859.
420 Fotos Cris Isidoro, reproduzidas de http://mapadecultura.rj.gov.br.
421 Foto Google Maps.
477

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esse esquema afunda suas raízes nos santuários paleo-cristãos, dedicados a honrar os
túmulos e as relíquias dos santos e mártires. A presença de objetos sagrados levou a
centralizar as plantas e a grande afluência de peregrinos, a criar espaços anexos para
abrigá-los. Por outra parte, a prática de cobri-los com cúpulas exigia grandes contrafortes, logo aproveitados como parte dessas estruturas periféricas. Assim, nasceram
santuários em cruz grega como o de São Simeão Estilita, na Síria422, rodeando a coluna
onde se afirma ter passado boa parte da sua vida.
Como muitas outras características da arquitetura clássica, esse esquema básico foi
reaproveitado no Renascimento. Primeiro, por Leon Battista Alberti, na igreja de San
Sebastiano, em Mântua423. Depois, por Giuliano da Sangallo em Santa Maria delle
Carceri, em Prato424. Donato del Pasciuccio, conhecido como o Bramante, lhe devolveria
o sentido original ao projetar a Basílica de São Pedro425, rodeando o túmulo do santo
com uma complexa estrutura de cúpulas, também dispostas em cruz grega. Porém,
passando os papas a residirem em forma permanente no Vaticano, essa disposição foi
alterada para maximizar a nave, necessária às funções de sede pontifícia.

Internamente, o aspecto mais surpreendente é a visão contraposta do céu e do inferno,
representados nas abóbadas da capela mor e do coro426. Ignoro a a autoria e a época
desses detalhes, que dão à igreja uma certa reminiscência medieval.
422 Reconstituição de Georges Tchalenko, reproduzida de “O Mundo da Arte: Cristandade Clássica e Bizantina”. Editora
Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1979.
423 Planta reproduzida de http://www.historiasztuki.com.pl.
424 Planta reproduzida de http://www.studyblue.com.
425 Planta reproduzida de http://www.historiasztuki.com.pl.
426 Fotografias reproduzidas de http://saofidelisnoticias.com.br.
478

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Tive oportunidade de conhecer mais um hospício,
em São Cristóvão, antiga capital de Sergipe.
Lamentavelmente, só restam dele a fachada da
capela e uma residência – não necessariamente
completa – transformada em vivenda particular há
várias gerações.
Teve, entretanto, origem oficial, carimbada pela Lei
nº 67, de 8 de março de 1841, da então Província de
Sergipe, cujo artigo 1º determinava: “Haverá nesta
capital um hospicio de religiozos capuchinhos
italianos, encarregados de missões por toda a
Província, da catequeze, e ensino da doutrina e
moral evangélica.” A mesma lei destinava aos
capuchinhos “o templo principiado do Senhor das
Misericórdias, ou de São Gonçalo”.
Porém, a lei não contemplava a concessão de verbas para a construção do hospício,
prevendo apenas um subsídio de 1.300$000 “para pagar-se os transportes de tres
religiozos, que por intermedio do Prelado metropolitano se pedirem á Sua Santidade”427.
Segundo Regni, a “alternância de conselheiros pouco favoráveis aos capuchinhos”
obstaculizou a cessão de verbas. Fez-se, de início um pequeno alojamento de madeira,
“capaz de hospedar quatro ou cinco religiosos”428, logo seguido por uma construção de
tijolos, no custo total de 52.000$000. Destes, apenas 2.000$000 foram aportados pela
Província e 600$000 foram concedidos como auxílio pelo imperador, D. Pedro II. O
resto foi laboriosamente coberto com esmolas e com o auxílio direto dos moradores.
Provavelmente em razão dessas limitações
o hospício não apresenta as características
típicas da arquitetura capuchinha. Quase
nada, nele, diferencia-se das construções
brasileiras do mesmo período.
Ali não houve, ao certo, frades arquitetos
vindos da Itália. O planejamento deve ter
sido feito com ajuda de mestres locais.
Curiosamente, esse despojamento o torna
mais próximo ao que deveria ser o aspecto
original dos demais hospícios, antes das
reformas efetuadas no século XIX.
427 “Lei nº 67, de 8 de março de 1841” (reproduzida por Pietro Regni).
428 Pietro Regni: obra citada.
479

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Visto de frente, o hospício apresenta uma única fila de janelas com oito aberturas
idênticas. Todas elas, vedadas com simples folhas de madeira em tiras verticais, sem
vidros. Não há portas frontais. O aceso é feito através de um corredor situado entre a
igreja e o hospício. No extremo contrário, há um portão, certamente mais recente.
Também parece um acréscimo a varanda com arcos, que tem telhado independente e
paredes mais finas que a construção principal.
Lateralmente, a edificação apresenta, apenas, duas janelas.
Porém, a imagem de satélite evidencia ser esse extremo apenas
prolongamento de um corpo maior, de forma quadrangular, com
telhado a quatro águas. Estimo que essa construção principal
ocupe seis das janelas frontais. Também se nota algumas
construções ao fundo, não necessariamente correspondendo ao
tempo em que o imóvel servia como hospício.
Por trás da fachada, nada resta da igreja. Nota-se, apenas, uma
área verde, murada, de forma retangular.
Também não encontrei características diferenciais nas igrejas de missão. A maioria delas
desapareceram ou foram profundamente alteradas. Das que restam, talvez a mais
fielmente conservada, apesar do abandono em que ficou durante muitos anos, seja a da
Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, Sergipe429.

429 Fotos: http://www.thydewa.org – http://portofolha.com – http://igorviniciusnascimentoandrade.blogspot.com.br.
480

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Possui a típica planta de nave única, com capela mor – ladeada por sacristia e
dependências – e dois altares colaterais em ângulo. A torre – coberta com cupulim
barroco – é frontal, a um lado da fachada, coroada por um frontispício triangular com
volutas, nicho e cruz. Tem três portas e três janelas, coro aos pés e óculos enfileirados
nas paredes laterais.
Seriamente danificada e com a cobertura
desmoronada, a igreja foi tombada e restaurada pelo
governo estadual em 2007, atendendo reivindicação
da comunidade indígena que ainda mora na ilha.
Segundo o Jornal da Cidade430, “os seus elementos
integrados originais foram substituídos por retábulos
de alvenaria, restando somente o púlpito, gradil do
coro e gradil do altar mor”.
Do “belo conventinho, cômodo e espaçoso na sua
simplicidade franciscana”431, ficaram, apenas, restos de
muros, visíveis perto da igreja, do lado do evangelho.
Do entorno, restaram o alinhamento das ruas – visível
numa das fotos da página anterior – e o muro do cemitério,
atualmente utilizado pela comunidade indígena432.
É pouco provável que tenha subsistido inalterada alguma construção do tempo das
missões francesas. Quanto aos italianos – após um breve interregno durante o qual os
aldeamentos foram administrados por outras ordens, limitaram-se a assumir o controle
dos já existentes, pouco investindo na remodelação dos edifícios e na criação de novas
missões.
De fato – no dizer de Regni – ao promediar o século XVIII, “o sistema tradicional da
catequese índia se encontrava numa fase de exaurimento interno”433. Após um período
de crescimento que durou até, aproximadamente, 1740, as missões começaram a
esvaziar-se, o que iria facilitar consideravelmente a aplicação das reformas pombalinas.
Aos poucos, os missionários foram tomando consciência de que a evangelização dos
indígenas era superficial e carecia de permanente vigilância para evitar que voltassem às
suas crenças e formas de vida tradicionais. Por sua parte, os colonos – interessados na
exploração do trabalho indígena e nas terras ocupada pela missões – não poupavam
esforços para enfraquecer o controle dos missionários, seja gerando intrigas junto às
autoridades, seja fomentando rebeliões internas entre os índios aldeados.
430 Edição de 11/03/2013 em http://www.jornaldacidade.net.
431 Pietro Regni: obra citada.
432 Foto http://igorviniciusnascimentoandrade.blogspot.com.br.
433 Pietro Regni: obra citada.
481

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Aos poucos, os capuchinhos foram percebendo que a imobilização dos missionários nos
aldeamentos os impedia de realizarem serviços mais amplos, como o das “missões
volantes”. Por outra parte, seja pela fuga e volta ao estado selvagem, seja pela
progressiva integração à população portuguesa, cada vez havia menos índios para
evangelizar e, em compensação, crescia uma população cabocla, já cristianizada, porém
extremamente dispersa.
Tanto os camponeses quanto os pequenos povoados careciam de clero permanente.
Apenas esporadicamente, um frade, um pároco ou um vigário os visitava – muitas vezes,
apenas por encontrar-se de passagem – aproveitando-se essas presenças para pregar,
batizar e celebrar casamentos, regularizando as numerosas uniões de fato.
Procurando paliar essa situação, os capuchinhos institucionalizaram essas visitas,
chamando-as de “missões volantes” ou “missões populares”. Não se fixavam. Porém,
permaneciam o tempo necessário para – além de pregar, batizar e casar – mobilizar as
comunidades para garantir a continuidade desses serviços.
Um bom exemplo dessa prática é frei Apolônio de Todi. Dos quase 50 anos que ficou no
Brasil, apenas quatro esteve num local fixo, como responsável da missão dos Rodelas.
Em 1820 – faltando, ainda, oito anos para sua morte, acontecida em plena atividade – ele
mesmo enumerava, entre cidades, vilas e povoados, umas cinquenta localidades onde
pregou suas missões “em humas duas vezes e em outras tres, em outras quatro, em
outras cinco”. Segundo Regni, “organizou lugarejos, construiu novas igrejas ou
consertou as que se achavam em ruínas e cuidou da criação de algumas freguesias”434.

Também, no caso das matrizes, é difícil observarmos características arquitetônicas
próprias dos capuchinhos, o que é compreensível, se levarmos em conta que agiam,
essencialmente, como mobilizadores do esforço comunitário. Dentre as obras de Todi,
Catu435 e Pedrão436 apresentam a planta habitual das matrizes brasileiras da época. Já São
José das Itapororocas – atual distrito de Maria Quitéria – lembra as igrejas capuchinhas
pela fachada sem torres e a sineira muito recuada, próxima à sacristia437.
434 Idem.
435 Foto Vicente Queiroz em http://www.panoramio.com.
436 Foto http://www.fecatolica.com.br.
437 Foto Chico Ferreira em http://www.flickr.com.
482

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A marca mais notável de frei Apolônio na
Bahia foi o santuário de Monte Santo438.
Já mencionei, nas páginas 346 e 347, a prática
dos Sacros Montes, iniciada pelos franciscanos
em Varallo, Montaione e Braga.
Os capuchinhos tiveram particular cuidado de
estimular essa prática nos lugares que
visitavam. Num morro perto de Bom Conselho
do Boqueirão – atual município de Cícero
Dantas – frei Apolônio fez construir uma capela
onde colocou três cruzes, simbolizando o
Calvário, além das imagens de Nossa Senhora
da Soledade, São João e o Senhor Morto. Esse
altar foi privilegiado com indulgências e logo
começou a atrair romarias.
Porém, nenhum dos santuários construídos no
Brasil se compara a Monte Santo, onde uma
longa trilha conduz da Matriz à Igreja da Santa
Cruz, no topo do morro. Embora atualmente
muito modificados, ambas os templos foram
construídos sob a direção de frei Apolônio.
Monte Santo não tem grandes obras de arte, como Congonhas e os santuários europeus.
A sua imponência vem da magnificência da paisagem e do esforço de milhares de
peregrinos que, todos os anos, percorrem o longo caminho até o cume.
Frei Apolônio de Todi chegou à Serra do Piquaraçá em 1785. Na época, só existiam
umas poucas fazendas e uma capela de taipa onde, a cada quatro ou cinco anos, o
Vigário de Itapicuru ficava uma semana fazendo a “desobriga”. Isto é a confissão,
batizado e casamento dos moradores. Frei Apolônio permaneceu lá menos de um mês, o
que foi suficiente não apenas para “desobrigar” como para estimular os moradores a
criar um circuito que deixaria marcas perenes.
Em 1º de novembro, festa de Todos os Santos, toda a comunidade subiu em procissão,
levando toscas cruzes de madeira, previamente confeccionadas, que foram plantadas no
caminho “no modo e na distância que ordenam os Sumos Pontífices”439. Tempo depois,
já transformado o morro em local de peregrinação, o próprio Frei Apolônio coordenaria
a edificação das capelas, ao longo do trajeto, e da igreja da Santa Cruz, como
coroamento da via-sacra.
438 Foto Google Maps.
439 Citado por José Calasans em “Subsídios à História das Capelas de Monte Santo”. EMTUR, Salvador, 1983.
483

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

O interior da igreja reproduz, por completo,
a descrição da capela erigida em Cícero
Dantas: Três cruzes, lembrando o Calvário,
Nossa Senhora da Soledade, São João e um
espaço em baixo do altar para hospedar a
imagem do Senhor Morto440.
O retábulo é de estuque, com adornos de
feição rococó, provavelmente do século
XIX. Da construção, apenas o presbitério
corresponde à capela construída por Todi. A
nave e a fachada foram refeitas em 1948.
Consequentemente, essa fachada não
interessa para o presente trabalho. Porém,
vista a igreja por trás da capela mor441, o
trabalho de Todi fica evidente e - embora
as paredes e telhados não se diferenciem
das técnicas de construção geralmente
usadas no nordeste – é possível perceber,
sobre a empena do fundo, uma singela
espadana, muito recuada, como era usual
nas sineiras projetadas pelos capuchinhos.

O caminho ascendente442 está pontuado por capelas a intervalos regulares.
440 Fotografia reproduzida de http://www.secretariamunicipalassistenciasocial.com.
441 Foto Jadd Pimentel, reproduzida de “A Arte e a Arquitetura Religiosa Popular do Antônio Vicente Mendes Maciel, o
Bom Jesus Conselheiro”. UFBA, Escola de Bela Artes, Salvador, 2011.
442 Foto Peixinho, reproduzida de http://www.cienciaecultura.ufba.br.
484

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Além da igreja da Santa Cruz, há três capelas maiores – Almas, Nossa Senhora das
Dores e Senhor dos Passos – e 21 menores, representando, sete delas, as Dores de Nossa
Senhora e as restantes, os Passos da Paixão. Inicialmente, a trilha era agreste. O caminho
murado foi construído, em 1884, por Antônio Conselheiro e seus seguidores, que
também consertaram e ampliaram algumas capelas443.
Em vez das imagens de vulto existentes nos santuários mais
ricos, Todi mandou pintar pequenos painéis, de autoria
desconhecida444.
Praticamente todos esses painéis desapareceram, conservandose apenas cruzes e pequenos fragmentos de pintura e de talha.
Segundo Regni, os painéis que ainda restam estão guardados
na igreja matriz.
443 Imagens reproduzidas de http://bahia.com.br (foto Rita Barreto), http://tododiaediadeteatroedanca.blogspot.com.br,
http://www.portaldenoticias.net e http://www.panoramio.com (foto Zeolithe).
444 Foto Jadd Pimentel (obra citada).
485

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

As missões volantes não se limitavam a construir igrejas e santuários. Edificadas as
matrizes, os capuchinhos serviam-se da sua condição de missionários apostólicos –
representantes diretos da Propaganda Fide e, portanto, da Santa Sé – para interceder
perante os bispos para que fossem criadas as correspondentes freguesias e, não raro,
essas freguesias se constituíam na origem de novas vilas e cidades.
Em Monte Santo, além do santuário, Todi construiu a matriz, fundou a irmandade do
Senhor dos Passos e cuidou da transformação em freguesia, concretizada em 1790. O
arraial passou a vila em 1837, a comarca em 1850 e a cidade, em 1929.
Do santuário, pouco depois das reformas do Conselheiro, ficaria o testemunho de
Euclides da Cunha:
“Monte Santo é um lugar lendário.[...] Vindo da missão de Maçacará, o maior apóstolo
do Norte impressionou-se tanto com o aspecto da montanha, "achando-a semelhante ao
calvário de Jerusalém", que planeou logo a ereção de uma capela. Ia ser a primeira do
mais tosco e do mais imponente templo da fé religiosa.[...]
E fez-se o templo prodigioso, monumento erguido pela natureza e pela fé, mais alto que
as mais altas catedrais da Terra. A população sertaneja completou a empresa do
missionário.
Hoje quem sobe a extensa via-sacra de três quilômetros de comprimento, em que se
erigem, a espaços, 25 capelas de alvenaria, encerrando painéis dos "passos", avalia a
constância e a tenacidade do esforço despendido.
Amparada por muros capeados; calçada em certos trechos; tendo, noutros, como leito,
a rocha viva talhada em degraus, ou rampeada, aquela estrada branca, de quartzolito,
onde ressoam, há cem anos, as litanias das procissões da quaresma e têm passado
legiões de penitentes, é um prodígio de engenharia rude e audaciosa. Começa
investindo com a montanha, segundo a normal de máximo declive, em rampa de cerca
de vinte graus. Na quarta ou quinta capelinha inflete à esquerda e progride menos
íngreme. Adiante, a partir da capela maior – ermida interessantíssima ereta num
ressalto da pedra a cavaleiro do abismo – , volta à direita, diminuindo de declive até a
linha de cumeadas. Segue por esta segundo uma selada breve. Depois se alteia, de
improviso, retilínea, em ladeira forte, arremetendo com o vértice pontiagudo do monte,
até o Calvário no alto! [...]
E quando, pela Semana Santa, convergem ali as famílias da redondeza e passam os
crentes pelos mesmos flancos em que vaguearam outrora, inquietos de ambição, os
aventureiros ambiciosos, vê-se que Apolônio de Todi, mais hábil que o Muribeca,
decifrou o segredo das grandes letras de pedra descobrindo o el-dorado maravilhoso, a
mina opulentíssima oculta no deserto”445.
445 Euclides da Cunha: “Os Sertões”. Laemmert & C. Editores, São Paulo, 1902.
486

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Economia Franciscana

Quem visita os conventos franciscanos, no Brasil, surpreende-se pela riqueza da
decoração. Não é apenas o ouro. É a talha, a policromia, a pintura, a diagramação das
fachadas, tetos e retábulos, executados pelos melhores artistas. É a qualidade dos
azulejos historiados, feitos sob encomenda em Portugal, trazidos de navio e
milimetricamente ajustados aos espaços para os quais foram projetados. É a qualidade
das imagens. Muitas delas, também, trazidas de Portugal.
Nem todas as igrejas conservam essa opulência. Durante o século XIX – seja por causa
do deterioro, seja por simples modismo – várias delas tiveram suas talhas douradas
substituídas por retábulos brancos de duvidosa inspiração neoclássica. Outras talhas,
simplesmente, desapareceram, como o interior todo da igreja de Paraguaçu e o conjunto
do arco triunfal e capela mor em João Pessoa, cujas fotografias podem apreciar-se nas
páginas 59, 63 e 68.
Mesmo assim, salvaram-se diversos sinais dessa antiga grandeza: alguns painéis de
azulejos, algumas capelas colaterais e, principalmente, as sacristias, negligenciadas por
tratar-se de ambientes mais reservados e, por isso mesmo, menos alteradas que as
respectivas igrejas, conservando toda a magnificência das pinturas, dos azulejos, dos
arcazes de jacarandá, primorosamente entalhados, dos lavabos de pedra lioz, trazidos
prontos de Portugal e reverencialmente emoldurados em capelas especialmente
projetadas, às vezes com abóbadas ou pequenas cúpulas.
487

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Observando tais evidências de riqueza, o visitante se pergunta como uma ordem
mendicante conseguiu reunir aquele acervo. Os franciscanos não viviam de esmolas? O
voto de pobreza não era o compromisso central da sua ordem?
Não é este o lugar para fazer uma história completa da ordem franciscana. Ao começar,
optei por circunscrever o escopo ao relevamento do acervo material (edificações e bens
móveis e integrados). Porém, não gostaria de concluir este trabalho sem fazer uma
sintética referência a essa questão, certamente relevante para compreender como esses
bens se integravam na vida das comunidades.
O conflito entre pobreza e riqueza não é exclusivo dos franciscanos. Toda a história da
igreja é uma perpétua tensão entre os ideais de austeridade e renúncia ao mundo e o
pragmatismo de assumir que nada – nem mesmo os objetivos essenciais dos religiosos –
pode ser feito sem alguma disponibilidade de bens ou de dinheiro, não raro escorregando
das boas intenções para o relaxamento e o enriquecimento individual ou coletivo.
Esse problema não era preocupante no tempo das perseguições. Porém, tornado o
cristianismo religião oficial do império romano e até passando, em alguns casos, de
perseguido a perseguidor dos outros cultos, logo houve quem aventasse a necessidade de
voltar às origens.
Já entre os judeus, morar no isolamento dos desertos era valorizado como provação e
como forma de aproximar-se da divindade. Tanto João, o Batista, quanto Jesus, parecem
ter passado por essa experiência, que seria amplamente imitada pelos eremitas dos
séculos IV e V. O próprio nome de “eremita” significava, em grego, “morador do
deserto”, por sua vez derivando de “eremos” (ermo, inabitado, vazio, desolado).
Era comum morarem em grutas e, embora procurassem deliberadamente a solidão, às
vezes juntavam esforços para construir uma igreja em comum, ou bem para suprirem
certas necessidades vitais, tais como cisternas ou plantações de subsistência. Evoluindo,
isso daria origem aos primeiros mosteiros, derivando esta palavra também do grego:
“monazein” (viver só) e “terion” (lugar para hacer algo). Ou seja: lugar para viver só,
embora, no caso, se referisse à solidão compartilhada em comunidades fechadas.
Aos poucos, essas comunidades tornaram-se autossuficientes e a necessidade de defesa
as levou a rodear-se de muros, como pode observar-se, claramente, no mosteiro de Santa
Catarina do Sinai. Simultaneamente, a necessidade de disciplinar a convivência levou a
estabelecer normas, chamadas de “regras”, sendo a primeira que se conhece a redigida
por Agostinho de Hipona, redigida na virada do século IV para o V.
Já então, a propriedade privada era rejeitada, ordenando-se que os monges “não
possuam nada como próprio, mas tenham tudo em comum, e que o Superior distribua a
cada um o alimento e a roupa, não igualmente a todos, pois nem todos são da mesma
compleição, mas a cada qual segundo o necessitar.”
488

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em Europa, não havendo desertos, os eremitas procuraram refúgio em lugares de difícil
acesso, tais como as altas montanhas. Neles foram, também, surgindo os primeiros
mosteiros. Num deles, situado em Monte Cassino, Bento de Núrsia escreveria, em 534, a
“Regula Monasteriorum” (Regra dos Mosteiros), normativa bem mais pormenorizada
que passaria a ser a base geral da atividade monástica europeia.
O capítulo 33, “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”, estabelecia:
“Especialmente este vício deve ser cortado do mosteiro pela raiz; ninguém ouse dar ou
receber alguma coisa sem ordem do Abade, nem ter nada de próprio, nada
absolutamente, nem livro, nem tabuinhas, nem estilete, absolutamente nada, já que não
lhes é lícito ter a seu arbítrio nem o próprio corpo nem a vontade; porém, todas as
coisas necessárias devem esperar do pai do mosteiro, e não seja lícito a ninguém
possuir o que o Abade não tiver dado ou permitido”.
O capítulo 48, “Do trabalho manual cotidiano”, acrescentava: “A ociosidade é inimiga
da alma; por isso em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e
em outras horas com a leitura espiritual”. Todos estavam obrigados a partilhar os
afazeres do mosteiro, incluindo a cozinha, a limpeza e o trabalho nos campos, quando
necessário. Até mesmo aos “irmãos enfermos ou delicados” devia ser designado “um
trabalho ou ofício, de tal sorte que não fiquem ociosos nem sejam oprimidos ou
afugentados pela violência do trabalho”.
Esse estímulo ao trabalho manual tendia a evitar a ociosidade – nem sempre desejável
no âmbito dos mosteiros – e igualava todos os monges, favorecendo a humildade e a
socialização. Porém, começou a ser negligenciado quando os nobres e poderosos
passaram a patrociná-los e interferir no seu funcionamento. Em 910, Guilherme I, duque
de Aquitânia, cognominado “o piedoso”, doou parte dos seus domínios ao Papa com a
proposta de estabelecer um mosteiro sob a sua proteção.
Tratava-se de uma interferência questionável. Porém, para Roma, constituía um meio de
influência mais direta em áreas que só controlava através dos bispos, nem sempre dóceis
a seu comando. Para Guilherme, por sua parte, o aval do pontífice garantia-lhe uma
vantagem considerável nas disputas pelo poder regional.
Patrocinado por Guilherme, o mosteiro de Cluny evoluiu em forma surpreendente,
tornando-se em centro de uma rede que, no século XII, chegou a contar com mais de
2000 mosteiros espalhados por toda Europa. A Ordem – baseada numa reforma da regra
beneditina elaborada por Bento de Aniane – apoiava-se na alta aristocracia, o imperador,
o rei da Borgonha, condes e bispos, exercia grande influência na política e chegou a
cunhar sua própria moeda.
A influência cultural da Ordem de Cluny é notável. Diretamente submetida à Santa Sé,
tornou-se a vanguarda da Igreja e instrumento essencial da reforma gregoriana.
489

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Liberados do trabalho manual, os monges podiam dedicar mais tempo à produção
intelectual e à reprodução de manuscritos, tornando-se, assim, um reduto de cultura e o
nexo essencial entre a antiguidade clássica e o Renascimento.
Porém, esse modo de vida distava muito do ideal de pobreza como aproximação a Deus.
Inicialmente, a resposta veio de dentro mesmo da poderosa organização cluniacense. Na
virada entre os séculos XI e XII, diversos mosteiros optaram por um modo de vida mais
austero, sendo sua principal cabeça o abade Bernardo de Claraval. Chamados de
“cistercienses” por derivação do nome da abadia de Citeaux, restauraram a obrigação do
trabalho manual, eliminaram a excessiva ornamentação das igrejas, o excesso de
imagens, os manuscritos miniados e iluminados a ouro e criaram um estilo austero que,
rapidamente, se estendeu por toda Europa.
Porém, os cistercienses não estavam sós. Seguindo à virada do milênio, que renovou o
espírito eremítico e penitencial com a expectativa iminente do fim do mundo, as
cruzadas se integraram numa profunda revolução econômica e cultural, caracterizada
pela abertura de novos mercados, pela ampliação do conhecimento geográfico e pelos
contatos com raças, culturas e religiões diferentes. O entorno vivencial das pessoas – até
então restrito ao feudo ou à aldeia – passou a abranger cidades e países diversos,
evidenciando as limitações dos modelos de religiosidade até então praticados.
No mesmo período – ainda seguindo a regra de São Bento – surgiram os cartuxos e os
camaldulenses. Apoiando as cruzadas, nasceram as primeiras ordens militares
(templários, hospitalários e cavaleiros teutônicos). Cruzados e peregrinos, com base no
Monte Carmelo, deram início a um eremitismo reformulado, do qual iria derivar a
ordem dos carmelitas. Ainda mais diferenciadas da religião oficial, influências orientais,
de raiz maniqueista, misturaram-se ao milenarismo e ao pauperismo cristão para gerar
diversas seitas de pregadores, como os cátaros e os valdenses.
À margem das diferenças teológicas, os pregadores representavam um perigo iminente
por razões bastante pragmáticas. Eles se vestiam como os pobres, falavam como os
pobres, e questionavam frontalmente o enriquecimento e o poder temporal da Igreja.
Pregavam a imitação de Cristo e dos apóstolos – hipoteticamente contrários a toda noção
de propriedade – e rejeitavam a intermediação do clero no relacionamento com Deus.
Postulavam a livre pregação, a leitura direta da Bíblia em línguas vernáculas e negavam
os sacramentos, vistos como um monopólio da casta sacerdotal. Ameaçavam, portanto,
não apenas as bases teológicas como também a estrutura econômica e política que
sustentava a instituição eclesiástica. E, logo, suscitaram a atenção de Roma.
Inocêncio III – dono de uma aguda percepção política – compreendeu que era preciso
dividir para conquistar. Os pregadores não constituíam um todo homogêneo. Não tinham
uma liderança geral e diferenciavam-se amplamente nas crenças e nas práticas
490

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

religiosas. Estava claro que algumas correntes precisavam ser combatidas. Porém, outras
poderiam ser assimiladas e integradas na estrutura eclesiástica.
Com os cátaros, não houve acordo e o próprio Inocêncio deflagrou a “cruzada contra os
albigenses”, assim chamados por terem seu principal centro na cidade francesa de Albi.
Pelo contrário, em 1208, um setor moderado dos valdenses – então conhecidos como
“os pobres de Lyon” - aceitou a autoridade pontifícia e recebeu a aprovação da sua
“forma de vida”, passando a serem conhecidos como “pobres católicos”. Em 1209, São
Francisco obteve a aprovação da regra dos “pobres menores”. Em 1210, o Mesmo
Inocêncio III aprovaria a regra dos “pobres lombardos”, outra corrente escindida dos
valdenses.
Todos esses grupos coincidiam no voto de pobreza. Na regra dos “católicos” lia-se:
“Temos renunciado ao século, dando o que tínhamos conforme o conselho do Senhor.
Temos decidido sermos pobres, de modo a não estarmos preocupados com o amanhã e
não recebemos de ninguém ouro nem prata nem nada semelhante para alimento ou
vestido. Temos decidido observar como preceitos os conselhos evangélicos de pobreza,
obediência e castidade” 446.
Marcava-se, assim, uma clara diferença com as regras monacais. Nem São Bento nem
Santo Agostinho rejeitaram o conceito de propriedade. Apenas, exigiam que a
propriedade fosse compartilhada. Nada era do indivíduo. Tudo, da comunidade. Já os
“pobres” do século XIII faziam votos de pobreza – tanto individual quanto coletiva – e
rejeitavam o dinheiro não apenas para si como para as instituições que integravam.
As regras franciscanas são enfáticas nesse ponto: “Quando os frades vão pelo mundo
não levem nada pelo caminho, nem sacola, nem bolsa nem pão nem pecúnia, nem
bastão, nem calçados”447. “Se encontrarmos pecúnia, não cuidemos, como se fosse pó
que pisamos com os pés”448. “Nenhum dos frades, onde quer que esteja e onde quer que
vá, de modo algum tome, nem receba nem faça receber pecúnia ou dinheiro nem por
pretexto de roupas nem de livros nem pelo preço de algum trabalho, mesmo em
nenhuma ocasião, a não ser por manifesta necessidade dos frades doentes; porque não
devemos ter e calcular maior utilidade na pecúnia e no dinheiro que nas pedras. […]
Guardemo-nos, portanto, os que deixamos tudo para não perder por tão pouco o reino
dos céus”449.
Os primeiros seguidores de Francisco não tinham conventos. O primeiro refúgio, em
Rivotorto, não passava de um abrigo para animais, constituído por três paredes de pedra
bruta e uma coberta de palha.
446 Bula de aprobación de los Pobres Católicos, citada em http://www.fratefrancesco.org.
447 Códice de Worchester. Fragmentos da regra antiga reproduzidos em http://www.procasp.org.br.
448 Exposição da Regra de Frei Hugo de Digne. Fragmentos da regra reproduzidos em http://www.procasp.org.br.
449 Regra não bulada (1221), reproduzida de http://www.procasp.org.br.
491

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A construção que hoje se conserva no interior do Santuário de Rivotorto não
corresponde integralmente à que foi habitada pelos primeiros franciscanos. Apenas o
recinto central – hoje descoberto, à exceção do pequeno telhado que cobre a cruz –
existia em tempos de São Francisco. As portas laterais dão acesso a dois espaços
agregados – um dormitório e uma cozinha – que, após a morte do santo, serviram de
residência a um único frade incumbido de custodiar o santuário.
Nessa construção – hoje conhecida como “Sacro Tugúrio” – dormiam todos juntos
durante sua permanência em Rivotorto, que não era constante, posto que, à diferença dos
antigos eremitas, os franciscanos se caracterizavam pela mobilidade exigida pela
pregação e a assistência aos pobres. Assim, era frequente se alojarem em grutas,
buscadas não apenas como refúgio senão, também, por encontrá-las parecidas com as
chagas de Cristo, a exemplo do Sacro Speco450 e do Eremo delle Carceri451.

450 Esquerda: Fotografia reproduzida de http://www.itf.org.br.
451 Centro e direita: Fotos Wikimedia Commons.
492

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também o Monte Alverne – onde se afirma São Francisco ter recebido a impressão das
chagas – tinha diversas grutas que costumavam visitar. De resto, hospedavam-se no
“tugúrio” de Rivotorto, que, segundo Celano, era “tão exageradamente reduzido, que
escassamente podiam sentar nem descansar”452.
Mas o grupo continuava crescendo e, em 1209, ao atingir o número de 12 – talvez
simbólico, por coincidir com o dos apóstolos453 – evidenciou-se como necessária a
elaboração de uma regra, que a tradição aponta ter sido redigida ainda em Rivotorto.
Essa primeira regra – hoje conservada fragmentariamente em fontes secundárias – foi
aprovada verbalmente por Inocêncio III, dando início e legitimação oficial à Ordem.
Em 1210, o crescimento do grupo levou São Francisco a pensar na necessidade de terem
uma sede estável e, para isso, cogitou conseguir “do bispo ou dos cónegos de São
Rufino, ou do abade de São Bento, uma igrejinha pobre onde poder recitar as Horas
litúrgicas, y ter ao lado uma verdadeira casa, também pequena e pobre, de barro y
caniços, onde descansar e realizar o trabalho necessário. Porque, certamente, o local
onde agora estamos não é apropriado, pois a habitação é demasiado estreita para os
irmãos que moram nela, e que Dios vai fazer numerosos. E, sobretudo, não temos igreja
onde recitar as Horas; e se algum morrer, no estaria bem enterrar-lo aqui, ou numa
igreja do clero secular”454.

452 Tomás de Celano: “Vida Primeira de São Francisco”.
453 Também os beneditinos costumavam iniciar novos mosteiros deslocando grupos de doze monges.
454 Citado por Frei Tomás Gálvez em “Rivotorto, cuna de la Orden Franciscana” (http://www.fratefrancesco.org).
493

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Obteve, dos beneditinos, a igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos, popularmente
conhecida como “La Porziúncola”455. Depois de San Damiano, cedido às clarissas, e San
Pietro alla Spina, hoje totalmente em ruínas, foi o terceiro templo que restaurou, fazendo
dele o centro do que alguns consideram o seu primeiro convento.
Conforme pode observar-se na página anterior, distava muito da estrutura dos conventos
posteriores. Além da igreja, existiam apenas duas pequenas construções passíveis de
serem usadas como locais de residência ou trabalho. Há, sim, uma cerca claramente
definida e quinze “aediculas”, pequenas capelas circulares destinadas à oração
individual. Doze delas estavam distribuídas em duas linhas de seis e, no fundo, observase mais três. Similares, porém fora de qualquer alinhamento.
São Francisco não deixou qualquer orientação para a construção de conventos. De fato,
parece que nunca pensou em grandes construções. Tinha perfeitamente claro o excesso
das beneditinas. Não apenas das cluniacenses como também das cistercienses,
desprovidas de adornos, porém ainda gigantescas, de grande impacto visual e, o que era
mais grave, de alto custo. Não queria isso para sua ordem, que privilegiava a pobreza.
Deixou, sim, uma breve regra para os eremitórios, limitando a capacidade a “três irmãos
ou quatro, no máximo […] um cercado em que cada um tenha sua celinha, na cual ore e
durma […] e no cercado onde morarem, não permitam entrar a pessoa alguma, nem
comam ali”456. Guardando as devidas proporções – posto que a Porciúncula era uma
sorte de eremitério base, hospedando uma maior quantidade de frades – essa descrição é
bastante coerente com a imagem da página anterior.
Essa ênfase na pobreza não é casual. Muito mais do que em épocas anteriores, a pobreza
real batia às portas das cidades. A progressiva urbanização e o desenvolvimento da
artesania e do comércio atraíam multidões de camponeses que, abrindo mão da proteção
dos senhores e dos seus próprios familiares, saíam a tentar a sorte e acabavam formando
cinturões de miséria em torno das muralhas. Não eram apenas pobres de dinheiro. Entre
eles, era gritante o desamparo dos enfermos. Em especial, de lepra, doença que assumiu
dimensões alarmantes com o retorno dos cruzados. Os leprosos eram o último degrau da
miséria e, por isso mesmo, tornaram-se objeto especial das atenções de São Francisco.
Em contraste, a riqueza das ordens monásticas e do clero aumentava constantemente. A
Igreja disputava com as monarquias o poder temporal sobre boa parte de Europa. Todas
as “heresias” do momento coincidiam em apontar esse contraste. Se a Igreja era esposa
de Jesus Cristo, como podia ser tão rica se Ele escolheu ser pobre?
Obviamente, esses questionamentos constituíam um ataque direto à instituição
eclesiástica. Para diferenciar-se, São Francisco fez questão permanente de declarar a sua
455 Imagem, na página anterior, reproduzida de http://www.iluoghidelsilenzio.it.
456 São Francisco de Assis: “Regra para os Eremitérios”.
494

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

fidelidade, solicitando a aprovação pontifícia, mandando seus frades respeitar o clero a
até proibindo-os de pregar sem autorização dos bispos. Mesmo assim, a sua negação dos
bens era um mudo reproche que acabaria suscitando graves conflitos durante um século.
Ainda durante a sua vida, a regra começou a ser alterada. O crescimento da Ordem
deixava espaço a outras tendências, nem sempre tão rigorosas, e a tutela de Hugolino de
Segni, então bispo de Óstia e designado por Inocêncio III como “cardeal protetor” dos
franciscanos, evitava que o radicalismo colocasse em risco a estabilidade da Igreja.
Em 1221, uma nova regra foi elaborada por São Francisco e pela comunidade dos
frades. Embora Hugolino participasse, essa regra, ainda enfatizando a pobreza e cheia de
citações bíblicas, não foi aprovada. Dois anos depois, uma versão mais enxuta e bastante
mais leve quanto à vedação da propriedade, criava a primeira exceção: “para as
necessidades dos enfermos e para vestir os outros frades, os ministros apenas e os
custódios, por meio de amigos espirituais, tenham solícito cuidado, segundo os lugares
e tempos e frias regiões, como lhes parecer servir à necessidade”457.
Em sucessivas disposições pontifícias, esses “amigos espirituais” passariam a ser
chamados de “procuradores” e, finalmente, de “síndicos”, adquirindo o poder de intervir
não apenas nas necessidades dos enfermos e do vestuário mas, também, em tudo aquilo
que fosse necessário ou conveniente para a construção e operação das igrejas e
conventos.
Em 1228, o próprio Hugolino – já como papa Gregório IX –
incumbiu-se de canonizar São Francisco, transcorridos apenas dois
anos da sua morte, e deu início à construção do Sacro Convento e
da Basílica que deveria custodiar a sua memória. Começava, assim,
uma época de grandes construções, absolutamente distantes do
espírito inicial da Ordem, cuja exagerada monumentalidade ficaria
ainda mais evidente quando – já no século XVI – a singela
capelinha da Porciúncula foi encerrada na imensa Basílica di Santa
Maria degli Angeli458.
Simultaneamente, com base em sucessivas dispensas pontifícias, a maioria dos
franciscanos – inicialmente chamados, simplesmente, “a comunidade” e depois
identificados como “conventuais” – passaram a dispensar o cumprimento de diversas
proibições contidas na regra.
Inicialmente, São Francisco “vestia um hábito como de eremita, sujeito com uma
correia; levava um cajado na mão e os pés calçados”459, mas logo trocou a correia por
um simples cordão e abandonou por completo o cajado e o calçado.
457 Regra bulada (1223), reproduzida de http://www.procasp.org.br.
458 Foto Georges Jansoone. Wikimedia Commons.
459 Tomás de Celano: “Vida Primeira de São Francisco”.
495

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Conserva-se, na Basílica de Assis, uma
túnica que a tradição afirma ter pertencido
a ele. É curta, de lã rústica, com remendos
de diversas tonalidades. Não era apenas a
carência que levava a isso.
A regra mandava, explicitamente: “todos
os frades vistam-se de roupas vis e
possam remendá-las com sacos e outros
retalhos com a bênção de Deus”.
Porém, evoluindo a Ordem, os hábitos
foram se tornando mais amplos e
compridos, à semelhança dos utilizados
por outras ordens.
Os franciscanos, passado algum tempo, não apenas moravam em conventos. Também
podiam usar calçados e andar a cavalo, recursos que a regra reservava aos casos de
“manifesta necessidade ou doença”.
Paralelamente, ia acontecendo uma progressiva clericalização da Ordem. Essas
alterações privilegiaram o estudo – que o grupo inicial considerava não apenas
dispensável como pernicioso para a humildade pelas distinções que estabelecia entre as
pessoas – e criaram uma casta sacerdotal diferenciada dos leigos, aos quais ficava
reservado apenas o trabalho manual nos conventos. Frades franciscanos passaram a
integrar escolas teológicas nas universidades e na Santa Sé. Em 1288, Jerônimo Masci
de Áscoli foi consagrado Papa com o nome de Nicolau IV.
Obviamente, não faltaram resistências. Os frades mais fiéis ao modelo inicial – então
chamados de “celantes” – insistiam no rígido cumprimento da regra e lembravam que o
fundador vedara todo direito à propriedade. Em 1578, Nicolau III tentou encerrar a
disputa diferenciando a propriedade e o uso. Todos os bens dos franciscanos seriam
propriedade da Santa Sé, reservando-se aos frades apenas o usufruto. Porém, não
escapou aos mais avisados que se tratava apenas de uma distinção teórica. Na prática, o
simples uso podia convalidar todo tipo de excessos.
Passou-se, então, a falar de um “uso pobre”. Não apenas a propriedade deveria ser
rejeitada, senão também o uso excessivo, tolerando-se, apenas, a satisfação das
necessidades mínimas. Porém, também este ponto admitia discussões. Podia, por
exemplo, considerar-se necessidade mínima a obtenção de recursos momentaneamente
desnecessários, porém potencialmente úteis como reserva para necessidades futuras?
O papa optou por um “uso moderado”. Inicialmente, tratava-se de dissenções internas,
eventualmente elevadas à Santa Sé sob a forma de solicitações de esclarecimentos sobre
496

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

a observação da regra, mas não demorou a perceber-se que a insistência trazia outros
problemas. Se a pobreza era importante, também o eram a humildade e a obediência às
determinações pontifícias, igualmente exigidas na regra dos franciscanos.
A discussão começou a tomar características de rebelião quando certos setores levaram o
assunto para o terreno teológico, unindo as preocupações tipicamente franciscanas com
questionamentos à legitimidade da igreja, baseados nas predições apocalípticas do
beneditino Gioacchino da Fiore. Após as eras do Pai (o Antigo Testamento) e do Filho (o
Novo Testamento), ele aguardava a vinda do Espírito Santo, que inauguraria uma nova
era, a ser iniciada em 1260, na qual a Igreja existente – não mais fiel aos ensinamentos
de Cristo – seria substituída por uma nova Igreja espiritual.
Obviamente, tais doutrinas ultrapassavam o limite do admissível para a estrutura
eclesiástica. Os “espirituais” entraram em direto confronto com a Santa Sé, que,
inicialmente, assumiu posturas vacilantes. Porém, a radicalização progrediu de ambas as
partes até o conflito estourar no pontificado de João XXII.
Seria muito longo, neste trabalho, detalhar todas as incidências desse conflito, que levou
diversos franciscanos à fogueira e acabou envolvendo o ministro geral da Ordem,
Michele da Cesena – que, aliás, nada tinha a ver com os espirituais – o imperador do
Sacro Império, Ludovico, o Bávaro – que aproveitou a ocasião para enfraquecer o poder
papal – e o franciscano espiritual Pietro Rainalducci, coroado como pontífice460 em
Roma em substituição de João XXII, então residente em Avinhão. O conflito acabou
com a extinção dos espirituais, a declaração oficial de que tanto Cristo quanto os
apóstolos tinham, sim, propriedades, e com a limitação da propriedade pontifícia às
igrejas e os conventos, deixando os bens menores diretamente na posse dos franciscanos.
Sanados esses empecilhos, a Ordem continuou crescendo em número e riqueza.
Colaborava a essa expansão a preferência dos doadores, então seriamente preocupados
com a morte. Acreditava-se, firmemente, que as doações iriam compensar os pecados
perante o julgamento de Deus e, sendo assim, que melhor destino que deixar os bens
para uma ordem de penitentes?
Nobres e burgueses desejavam ser enterrados com o hábito franciscano. Grandes obras,
como a Basilica di Santa Croce, em Florença, foram custeadas pelos principais
banqueiros, cada um deles reservando-se uma capela para a própria sepultura. A rainha
Isabel, a Católica, depois de custear, em Toledo, o convento de San Juan de los Reyes,
que deveria conter o seu túmulo, acabou optando pela recém conquistada cidade de
Granada, sendo sepultada no convento de San Francisco de La Alhambra. Em Portugal,
D. João V estabeleceu seu palácio no convento franciscano de Mafra, certamente
imitando o que Felipe II fizera com os jerônimos no Real Monasterio del Escorial.
460 A Igreja católica o considera um anti-papa.
497

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esses luxos não apenas eram incompatíveis com a regra. Mesmo com as mitigações
concedidas pelos papas as decisões dos capítulos gerais recomendavam mesura. Em
Narbona, em 1260, considerando “que o seleto e o supérfluo opõem-se diretamente à
pobreza”, foi decidido “que se evite rigidamente a delicadeza dos edifícios em pinturas,
talhas, janelas, colunas e outras coisas, bem como o excesso de longitude, largura e
altura conforme as condições do local”.
Dispunha-se, ainda, que “de nenhum modo as igrejas devem ser abobadadas,
excetuando somente o presbitério” e que “a sineira da igreja em nenhum sítio se
construirá em forma de torre”. Finalmente, mandava-se que “nunca se façam vitrais
historiados ou pintados”, excetuando-se que “por trás do altar mor possa haver
imagens do Crucifixo, da santa Virgem, de São João, de São Francisco e de Santo
Antônio”461. Essas disposições foram ratificadas pelos capítulos gerais de Assis (1279) e
de Paris (1292).
De fato, os primeiros conventos eram bastante austeros, diferenciando-se escassamente
dos eremitérios que lhes deram origem. Veja-se, como exemplo, algumas imagens do
Santuário de Monteluco462, antigo eremitério fundado por monges ortodoxos, por volta
do século V. Posteriormente, foi habitado por monges beneditinos e finalmente cedido
aos franciscanos, em 1218.

461 Normas aprovadas no Capítulo Geral de Narbona, citadas por Javier Martínez de Aguirre em “Espiritualidade
Franciscana e Arquitetura Gótica”. Universidad Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha.
462 Fotos reproduzidas de “Experiência Assis” em https://picasaweb.google.com.
498

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também a igreja de São Damiano foi reaproveitada, dando, posteriormente, origem ao
primeiro mosteiro de irmãs clarissas. O reaproveitamento de construção antiga explica a
presença de abóbadas, em geral rejeitadas pelos franciscanos. Fora esse detalhe, tudo é
de uma extrema austeridade, sendo especialmente notável a simplicidade do coro, em
nada semelhante aos elaborados cadeirais que encontramos nos conventos brasileiros463.

Porém, nem sempre essas disposições eram atendidas, o que era especialmente gritante
nas grandes basílicas, ornadas com torres, abóbadas, cúpulas e profusamente decoradas
com obras dos maiores artistas. Pietro di Giovanni Olivi e Ubertino da Casale – dois dos
principais teóricos do movimento rigorista dentro da Ordem – chegaram a anatemizar a
Basílica da Santa Croce de “sinal demoníaco”.
Já no século XIV, restaurado o pontificado em Roma após longa permanência em
Avinhão e superada a longa crise dos espirituais, frei Paoluccio Trinci solicitou licença
para estabelecer, em Brogliano, um eremitério no estilo antigo. Era uma proposta
ousada, mas Trinci conseguiu contornar as resistências com três condições, às quais
deveria submeter-se todo e qualquer frade que optasse por morar nos eremitórios: aceitar
integralmente a fé católica, usar o hábito normal da “comunidade” (ou seja, aquele
amplo e longo, que os rigoristas rejeitavam) e não condenar as práticas e procederes da
mesma comunidade.
Ao assentamento inicial de Brogliano agregaram-se diversos eremitérios. Vários deles
tinham sido habitados pelo grupo inicial de São Francisco e constituíam um simbólico
retorno ao franciscanismo primigênio.
Hoje, o convento de Brogliano está em ruínas, parcialmente restauradas, porém com
perda de quase toda a estrutura interna. Dos que se conservam, tem particular interesse o
de Greccio, onde se afirma que São Francisco fez o primeiro presépio. Notam-se nele
características especialmente austeras, próprias do retorno à regra “sine glosa”, tais
como a construção em pedra bruta e o abundante uso da madeira.
463 Fotos: Wikimedia Commons.
499

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Fotos: http://assisiwolfrider.blogspot.com.br e http://tracks.vagabondo.net.
500

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Obtida a autorização pontifícia, a observância cresceu rapidamente, evidenciando uma
opinião generalizada que propugnava uma volta às origens. Porém, a “comunidade”
também tinha uma parte de razão.
Embora longe de Assis, Rivotorto ficava perto do leprosário, o que facilitava as
atividades de penitência e caridade do grupo inicial. Com a progressiva clericalização da
Ordem, essas atividades perderam espaço em favor das pastorais e missionárias, que
dificilmente poderiam ser executadas nos eremitérios.
Inicialmente, a pregação era feita informalmente, nas ruas e praças e precedendo
autorização dos bispos. Porém, na medida em que os franciscanos ganhavam a confiança
de Roma e transformavam-se em braço oficial da Igreja, a pregação tornou-se mais livre
e chegou a ser formalmente dispensada da autorização episcopal.
Evidenciou-se, então, a necessidade de construir igrejas suficientemente amplas e mais
próximas das cidades, onde se achava a maior parte da população a ser evangelizada. A
uma primeira geração de eremitérios rurais sucedeu uma segunda, no imediato espaço
extra-muros e, por último, a construção de igrejas e conventos dentro dos muros das
cidades.
Os franciscanos não tinham experiência nesse ponto. Nos seus edifícios, aproveitaram a
planta habitual dos beneditinos, com todos os espaços distribuídos em volta de um
claustro, centro da vida comunitária. Fizeram, porém, algumas adequações, em parte
específicas da Ordem, em parte derivadas de orientações gerais da igreja.
Dentre as alterações específicas, a mais notória é a existência de celas individuais.
Contrariamente ao espírito de corpo que animava os beneditinos, os franciscanos
privilegiavam a oração individual, para a qual necessitavam de certo recolhimento, já
presente nas aediculas da Porciúncula.
Dessa alteração derivou uma maior necessidade espacial, posto que o conjunto de celas
individuais requeria mais espaço que o dormitório coletivo. Em geral, o problema foi
contornado mediante a edificação de claustros de dois níveis onde boa parte do superior
era reservado aos dormitórios.
Os observantes, inicialmente movidos pela ânsia de retorno aos eremitérios, também
perceberam essa necessidade e logo começaram a ocupar conventos nas cidades, por sua
vez provocando a reação de outros setores de inclinação rigorista. Assim surgiram, em
Espanha, os “descalços”, em Portugal chamados de “capuchos” que, paradoxalmente,
foram rejeitados pelos observantes e acabaram procurando o apoio da “comunidade”.
Em 1517 os “reformados” – como eram genericamente conhecidos os observantes,
descalços, capuchos, e outros grupos menores – já constituíam maioria dentro da Ordem
e a convivência entre os diversos grupos tornava-se mais e mais complicada. Então,
Leão X tentou uma solução drástica: Reconhecer, formalmente, a divisão entre
501

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“reformados” e “não reformados”, agrupando, sob o nome de “Irmãos Menores da
Regular Observância”, todas as tendências rigoristas surgidas durante o século XV. Os
não reformados – que, já de algum tempo, eram apelidados de “conventuais” –
passavam a constituir os “Irmãos Menores Conventuais”.
Os conventuais foram reconhecidos como uma ordem relativamente independente,
porém subordinadas ambas a um único ministro geral, eleito pelos observantes, o que
constituía uma inversão total da situação experimentada durante os dois séculos
anteriores. É possível que os conventuais fossem assim preteridos, simplesmente, em
razão de terem virado um setor minoritário (em 1517, representavam, apenas, 1/6 do
total da Ordem). Porém, não faltaram acusações de “lobby” e até de terem “comprado” o
apoio da Santa Sé por meio de vultuosas doações de esmolas arrecadadas para a
construção da Basílica de São Pedro.
A declinação dos conventuais acentuou-se durante as seguintes décadas. Em 1524, por
decisão de Clemente VII, os conventuais do Reino de Navarra foram obrigados a
incorporar-se aos observantes. Em 1567, Pio V ordenou a extinção dos conventuais em
Espanha e Portugal e a incorporação dos frades remanescentes às casas dos observantes.
Igual sorte correram os conventuais da Dinamarca e Flandres.
Pelo que a este estudo se refere, acaba aqui esta longa introdução. Unidas, em Portugal,
todas as correntes sob o padrão da observância, esse iria ser o tronco em que se
baseassem todos os conventos estabelecidos no Brasil. Cabe, apenas, fazer algumas
ressalvas:
A intenção de acabar com a divisões não foi bem sucedida. Mesmo com a reunião de
todas as correntes e a proibição de se estabelecerem novas, diversos grupos tornaram a
insistir na defesa da pobreza. Em Espanha, “recoletos” “alcantarinos” e “conventuais
reformados” insistiam na procura de vias relativamente independentes. Em Itália e
França, desenvolveram-se os capuchinhos, já comentados no capítulo anterior.
Em Portugal, as províncias de Portugal, Algarves, Açores (Conceição e São João
Evangelista) e São Tiago Menor da Ilha da Madeira mantiveram-se unificadas na
Regular Observância. Já a da Piedade (vinculada aos alcantarinos) optou por insistir no
rigor, iniciando o movimento da Estreita Observância, ao que paulatinamente se
incorporaram a Arrábida e Santo António, Soledade e Conceição.
Conforme já registrado, da Província de Santo António derivaram-se todos os conventos
observantes do Brasil, seja diretamente vinculados a ela, como o de Belém, seja como
origem de novas províncias, como as de Santo Antônio e Imaculada Conceição do
Brasil, seja – como em São Luís do Maranhão, em dependência da Imaculada Conceição
de Portugal. Apenas Gurupá – diretamente dependente da Província da Piedade – e as
missões e hospícios dos capuchinhos têm origens diferentes.
502

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Portanto, abaixo das regras, constituições e disposições complementares de ordem geral,
a fonte mais segura para entender como se articulava a economia dos nossos conventos
franciscanos é a consulta aos Estatutos que, segundo as folhas de rosto indicam, foram
“tirados de varios estatutos da ordem”. Ou seja, representam a continuação de práticas
longamente sedimentadas e – no que se julgasse necessário – adaptadas às necessidades
particulares de cada província.
Os Estatutos da Província de Santo
Antônio do Brasil foram aprovados em
14/02/1705, confirmados em 1708 e
publicados em 1709. Os da Imaculada
Conceição – certamente baseados neles –
datam de 1710, tendo sido confirmados
em 1713 e publicados em 1717.
Não havendo impressores no Brasil,
ambas as publicações foram feitas em
Lisboa, nas oficinas de Manoel e Joseph
Lopes Ferreira.
A datação desses estatutos é importante para contextualizar devidamente certas
disposições, tais como o número de frades permitido em cada convento. Ambos
coincidem em declarar que só se deve manter em cada convento os moradores “que
commodamente se podem sustentar” e especificam, taxativamente, os respectivos limites
considerando “o estado da Provincia, & esmolas de cada Casa”. Atingidos esses limites,
“naõ aceyte o Provincial algum mais Noviço senaõ conforme forem morrendo os
Professos”.
Na Província de Santo Antônio, o estatuto autorizava a presença simultânea de até 35
frades em Salvador, 20 em São Francisco do Conde, 20 em Paraguaçu, 10 em Cairu, 12
em São Cristóvão, 12 em Penedo, 10 em Marechal Deodoro, 15 em Sirinhaém, 16 em
Ipojuca, 22 em Recife, 25 em Olinda, 15 em Igarassu e 24 em João Pessoa.
Nos conventos do sudeste, o limite era de 60 frades no Rio de Janeiro, 16 em Vitória, 16
em Santos, 15 em São Paulo, 13 na Penha, 25 em Quiccububú 464, 16 em Angra dos Reis,
13 em Itanhaém, 8 em São Sebastião, 14 em Taubaté, 16 em Cabo Frio e 20 em Itu.
Os estatutos de Santo Antônio excetuam do limite as aldeias de índios, podendo aceitarse para elas os frades que forem necessários “de tal sorte, que sempre em cada Aldea
estejam dous Religiosos”. Já os da Imaculada Conceição incluem no limite as aldeias de
Campos, São Miguel e São João, especificando para a primeira o máximo de 3 frades e
limitando a 2 os permitidos em cada uma das restantes.
464 Provavelmente correspondendo a Macacu. O estatuto não menciona Bom Jesus da Ilha, que estava apenas no início.
503

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Essas disposições evidenciam um planejamento pragmático da economia, dirigido,
essencialmente, a garantir a sustentabilidade dos conventos. Estimava-se as esmolas que
poderiam ser recolhidas na área de influência de cada convento e, com base nelas,
calculava-se o número de frades que poderiam ser sustentados. As áreas de influência
eram definidas pelas respectivas províncias e, se necessário, alteradas para garantir a
sobrevivência dos conventos.
Por exemplo, em São Sebastião “por ser muito limitado o distrito em que os esmoleres
costumavam pedir esmolas, o Definitório resolveu, em sessão de 17 de novembro de
1797, adjudicar-lhe o termo da vila de S. Luiz de Piratininga, desanexando-o do distrito
do Convento de Taubaté. Também em Santos, em 1764, o Capítulo estabeleceu “que os
esmoleres do Valongo estendessem o seu peditório além do distrito de Mogi das Cruzes
até a freguesia de Jundiaí, proibindo ao mesmo tempo que de outros Conventos lá
fossem esmolar”. Essa situação durou até 1834, ano em que, entregue o convento de São
Paulo para instalação do Curso Jurídico, o Definitório determinou “que houvesse em
São Paulo um síndico e que aplicasse as esmolas do distrito daquele Convento às duas
Casas de Santos e Itanhaém”465.
Dentro da ordem, essa delimitação geográfica podia ser administrada pelas autoridades
provinciais. Porém, não era possível controlar o peditório das demais ordens, que
estabeleciam seus conventos ou mosteiros nas mesmas cidades, concorrendo com os
franciscanos nas mesmas áreas de influência.
Procurando limitar esse problema, os estatutos estabeleciam que “se acaso se fundar
outro Convento de outra Provincia, ou outra Ordem, que damnifique algum nosso já
fundado, encarregamos ao Irmaõ Provincial que de todos os meyos necessarios,
possiveis, & convenientes para atalhar tal dano, defendendo esta causa diante dos
Diocesanos, & ainda na Corte do Rey, & Roma, se necessario for”.
Temos, aí, explicitada a razão pela qual os frades de Belém opuseram tenaz resistência à
construção do Hospício de São Boaventura, da província da Piedade466. Também, no Rio
de Janeiro, o hospício dos capuchinhos teve que enfrentar a hostilidade dos franciscanos
observantes.
Os Estatutos da Província de Santo Antônio não tratam especificamente dos esmoleres.
Já os da Imaculada Conceição, têm um capítulo dedicado a esse tema. Os esmoleres
eram frades autorizados para saírem dos conventos e percorrerem a região solicitando e
recolhendo esmolas (que, necessariamente, deveriam ser em espécie, posto que os frades
não podiam tocar em dinheiro). Deviam andar descalços ou com socos, “sempre de
modo que se possam ver, e ouvir, hum ao outro” e não podiam entrar em casa alguma
“salvo naquella em que por ordem do Guardião se despeja a esmola”.
465 Frei Basílio Röwer: Obra citada.
466 Ver páginas 436 a 438.
504

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Mais liberdade tinha o síndico, que não era frade e, portanto, não estava limitado pelo
voto de pobreza. Por especial privilégio, concedido mediante “hum Breve do senhor
Papa Martinho IV, que começa: Dilectis filiis Generali, & Provincialibus Ministris
Fratrum Minorum, & Custodibus, &c.” era designado pelo ministro geral, ministros
provinciais ou custódios.
Trata-se, em verdade, da “Exultantes in Domino” – geralmente catalogada como bula –
que delegou nos dirigentes da ordem a nomeação e remoção dos síndicos, porém
mantendo o status de “Syndico e Procurador de Sua Santidade” e a autoridade para
contratar “em seu nome, e da Sé Apostolica”.
Visava, certamente, agilizar a vida comunitária dos frades e isentar a maquinaria
eclesiástica do ônus de administrar os bens de uma ordem cada vez mais numerosa e
dispersa. Não escapou aos rigoristas a percepção de que, mesmo mantendo a
propriedade em nome da Santa Sé, essa disposição deixava em mãos da Ordem muito
mais do que o “simples uso de fato”. Porém, a norma permaneceu.
Segundo os estatutos, o síndico devia ser “homem grave, devoto, & de boa consciencia,
abastado de bens, para que commodamente possa acodir ás necessidades dos
religiosos, & provimento do Convento”. Podia receber todo tipo de doações, tanto em
espécie quanto em dinheiro – ressalvando-se que não o fizesse dentro da sacristia ou
qualquer outro lugar do convento467 – e tinha exclusividade para contratar, cabendo a ele
comprar e vender em nome do convento, solicitar e quitar eventuais empréstimos e
receber oficialmente os bens imóveis, doados ou adquiridos, bem como aliená-los,
quando necessário, mediando para isso o consentimento da comunidade do convento,
que devia ser convocada “a campa tangida” e votar “de favas brancas, & negras” em
três reuniões sucessivas.
Para melhor operacionalizar o seu trabalho, o síndico tinha o direito de “substabelecer,
& substituir hum, & muitos Procuradores, quaes, & quantos quizer, & revogallos
quando lhe parecer, & crear outros de novo”. Porém, em vez de procuradores, Röwer
menciona a nomeação de vários síndicos para um mesmo convento.
Ocorria assim em Taubaté, que, além do síndico local, constituía outro em Parati para
“dar agasalho aos Religiosos que passassem por aquele porto em demanda dos
conventos do sul, hospedando-os às vezes por algum tempo”, bem como “despachar
para Taubaté as mercadorias que vinham por mar, em cujo transporte pela serra se
gastavam seis dias”468.
Mais particular é o caso do Santuário da Penha. Difundida a fama de milagroso, recebia
doações “de perto e de longe”, consistindo “não apenas em dinheiro e pequenos objetos
467 Não se menciona a igreja, talvez por óbvio, já que era o âmbito mais sagrado.
468 Frei Basílio Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
505

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

de valor […] mas também em gado”. Os síndicos se incumbiam de receber, transportar
e vender essas doações revertendo o produto em benefício do santuário. Mesmo em
1867, quando os demais conventos estavam em franca decadência, ainda “havia
síndicos nas seguintes localidades: Vitória, Campos, Itapemirim, Benavente, Serra, S.
Mateus, Caravelas, S. João da Barra, Itabapuana, Meiaípe, Guaraparim, Alcobaça e
Vila de Viana”469.
Além dos síndicos dos conventos, existiam síndicos gerais por província ou região. No
sueste, havia apenas um síndico geral para a província toda. Já no nordeste, um síndico
regional, com sede em Salvador, cuidava dos conventos situados entre Cairu e São
Cristóvão, em quanto que outro, morando em Recife, tomava similares providências
para os localizados entre Penedo e João Pessoa.
Incumbiam-se esses síndicos de providenciar os bens móveis necessários aos diversos
conventos. Em boa medida, cada convento era autossuficiente. Conforme as
possibilidades do local, se plantava, pescava, criava gado etc. Porém, certos insumos
precisavam ser importados. Um deles era o pano para confeccionar os hábitos. Não
apenas era a inércia de portugueses fora de Portugal que levava a importar os panos.
Também a padronização do hábito obrigava a usar os materiais já aprovados para uso e
identificação da Ordem.
As necessidades eram elevadas pelos guardiões dos respectivos conventos, consolidadas
pelos síndicos gerais e satisfeitas com importações anuais, pagas com o dinheiro das
esmolas recolhidas. Outras necessidades – nem sempre de consumo dos frades – eram
providenciadas pela mesma via, tais como os lavabos de pedra lioz, imagens, e demais
bens que precisassem ser trazidos de Portugal.
Frade nenhum podia exigir nada dos síndicos. Pelas disposições vigentes, eram
obrigados a solicitar humildemente. Também não podiam pedir contas do atuado.
Apenas os guardiões podiam e deviam tomar contas mensais dos respectivos síndicos,
ficando obrigados a levarem registro escrito e a prestarem, trimestralmente, informações
atualizadas à comunidade dos conventos.
O tema do vestuário é bastante detalhado nos estatutos, devendo ser encomendados e
importados “bureis para habitos, & raxetas para tunicas, como de panno de linho para
menores, & officinas dos cõventos”. Apenas os panos, posto que a confecção devia ser
feita pelos próprios frades, não podendo essa elaboração ser entregue a seculares.
Para os hábitos, os frades deviam conformar-se com o burel, de modo “que a vilesa, &
cor delle diga com o nosso estado” devendo os ministros evitarem rigorosamente que
“se valham de parentes, ou amigos para com esse pretexto excederem o estylo, ou forma
dos nossos hábitos”.
469 Idem.
506

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Quanto aos cordões – usados como cintos – especificava-se que “as cordas na grossura
não excedam o nosso costume, sem nenhum feytio, ou curiosidade de sirgaria, nem cor
postiça, & serão das que ordinariamēte se fazem de esparto sem alma”.
Algumas diferenças eram toleradas em função da idade, do estado físico ou do status
que os frades tivessem adquirido na ordem. Sobre o chapéu, especificava-se que:
“Nenhum Religioso, que pela Religião não seja reputado como Frade grave pelos annos
de habito, ou pelos cargos que tenha tido, terá chapeo sem licença do Prelado, & serão
de palha com forro de encerado, sem nenhum modo de curiosidade, nem de outra
qualidade”.
Quanto ao calçado, o uso de solas não era permitido “sem vinte & cinco annos de
habito, & licença do Irmão Ministro”. O mesmo ministro podia fazer dispensas “com os
enfermos, & fracos, examinada sua necesidade, & para com os que houvessem de andar
os caminhos compridos”. Mesmo assim, nenhum frade poderia usar solas nos
dormitórios nem no coro, a não ser com licença específica do ministro, que só poderia
ser concedida aos “Frades muito velhos, e necessitados”.
Na sua cela, cada frade teria direito a “duas mantas, huma esteira, & huma cabeceira de
burel chea, de lã”. Lençóis, nem doente. “Se tiver necessidade delles, o levarão à
enfermaria”.
De fato, é nesse tipo de restrições que parece manifestar-se o maior cuidado com a
pobreza, recomendando-se especial observância nas saídas e no trato com seculares.
Nota-se o mesmo cuidado no que se refere ao uso de cavalgaduras: “Porquanto é cousa
muyto escandalosa para os seculares verem frades nossos a cavallo sem constar
evidentemente da sua necessidade, ou infirmidade, mandamos que nenhum Religioso,
que não puder ir fóra de caza a pé, como deve, & he obrigação sua, lhe naõ dé o
Guardião licença para sair fóra de caza”.
A importação de panos durou até a invasão francesa de Portugal. Até então, usava-se o
hábito de burel cinzento que vemos nas pinturas da época470, imitando a mistura aleatória
de lãs brancas e pretas que caracterizava a vestimenta dos primeiros franciscanos.
Fechada a importação do pano português, a substituição pelos tecidos locais tornou-se
inevitável.
No sudeste, Röwer471 menciona a decisão do capítulo provincial de 08/10/1808: “Faz-se
necessário manifestar a toda a Província q. por unânime consenso, e deliberação do
Definitório, e Discretório foi determinado q. todos os frades, deixando o hábito de
ozória pela impossibilidade, em q. estamos, da fábrica de semelhante lanifício, se
vistam de pano de algodão tinto de preto, e tecido de um modo especial para o dito
470 As de Ipojuca, feitas após o incêndio da igreja, são anacrônicas, porquanto representam a história do Santo Cristo com
hábitos castanhos, só utilizado em toda a Ordem após o capítulo de Assis de 1895.
471 Frei Basílio Röwer: “O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro”. Editora Vozes, 1937.
507

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

efeito, de q. se apresentou a amostra, e foi geralmente aprovada. Continua-se aprender
com presteza o número de varas, que se requerem para toda a Província para a
primeira vestiaria deste ano e meio, e os Religiosos, q. tiveram hábitos novos de ozória,
os mandem tingir de preto de sorte q. apareçam uniformes todos em cada um de seus
Conventos”472.
Outro item típico de importação eram os livros, posto que a impressão só veio a ser
permitida, no Brasil, após o estabelecimento da Corte no Rio de Janeiro, em 1808. Os
conventos brasileiros não conheceram a época em que os livros eram manuscritos,
laboriosamente copiados nos scriptoria dos mosteiros, mas nem por isso eram tão
baratos quanto hoje. As edições eram reduzidas, só publicadas após várias censuras em
cascata, e o mercado consumidor também era magro, apenas constituído pela minoria da
população que, além de alfabetizada, dispunha de recursos suficientes para adquiri-los.
Claro índice da valorização dos livros é o registro nos estatutos de que “por Decreto do
senhor Papa Pio V, & Sixto V, incorre ipso facto em excomunhaõ mayor o que furtou, ou
por qualquer modo alienou livro das nossas livrarias, a qual excomunhão he reservada
a Sé Apostolica & não pode ser absolto sem primeyro satisfazer o dano”473.
Considerando essa dificuldade, “para que as livrarias se provejam de livros com
suavidade” os estatutos mandavam que cada guardião encomendasse – obviamente,
através dos respectivos síndicos – seis livros em cada período de ano e meio e mais seis
se ficasse no cargo por mais um período, o que perfaz uma encomenda média de quatro
livros anuais para cada convento.
Bibliotecas reunidas com tanta dificuldade deviam, necessariamente, serem bem
protegidas. Assim, o pregador mais novo devia morar na biblioteca do convento “& se o
dito Pregador não quizer morar na livraria, o Guardião o reclusará, & o penitenciará
até aceytar a dita morada, & chave da livraria”. Além de guardar os livros, era sua
incumbência emprestá-los aos demais pregadores e confessores, bem como registrar os
empréstimos e controlar a devolução.
Os livros que ficassem “dos Frades defuntos, ou por qualquer via forem deyxados à
Província” não podiam ser dados a nenhum frade em particular, senão que deviam ser
recolhidos à biblioteca do convento. Há, nisso, uma certa contradição, posto que, se
nenhum frade podia ter livros próprios, também não poderia deixá-los no seu
falecimento. Talvez este item registrasse uma situação de fato, assumindo que alguns
frades pudessem ter livros próprios, anteriores à redação dos estatutos. Excetuavam-se
dessas restrições os livros “que forem de pouca substancia, como são alguns de
devoção, ou outros pequenos de outras materias”, que poderiam ser distribuídos aos
472 Frei Basílio Röwer: “O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro”.
473 Vale ressaltar que ambos os papas mencionados publicaram suas decisões em tempos em que a impressão mecânica já
estava amplamente difundida, não podendo essa norma ser considerada como supervivência do tempo dos manuscritos.
508

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

frades pelos ministros provinciais ou guardiões dos conventos “com encargo de
encomendarem a Deos a alma do tal defunto por Missas, & Orações, segundo a cousa,
que do defunto receberem”.
Quanto aos imóveis, a regulamentação não é tão pormenorizada, talvez por tratar-se de
atividades não rotineiras e nem sempre sob o controle dos frades, posto que dependiam
em boa parte de doações, não apenas de dinheiro como de terra, materiais e mão de obra.
Os estatutos limitam-se a recomendar que “nos edifícios, & obras, resplandeça muyto a
santa Pobreza, não fazendo curiosidades superfluas, & desnecessarias”.
Na prática, costumava ocorrer uma doação inicial do terreno, às vezes incluindo alguma
capela preexistente para ser tomada como base do novo estabelecimento. A doação podia
ser feita por particulares ou pela população em conjunto, através das câmaras, sempre
intervindo o síndico como representante dos frades. Nas grandes cidades, era claramente
delimitada. Porém, em populações menores, era comum dar uma faixa de costa com
limites pouco definidos para o interior. Nesses casos, o limite costumava ser a primeira
linha de elevações, que possibilitava a captação de água potável para uso do convento.
Os materiais – pedra, cal, madeira etc. – costumavam ser doados por particulares, que
também emprestavam seus escravos para serem utilizados como mão de obra. Em
alguns casos, sabe-se de doações pontuais da Coroa, tais como as pias de água benta de
Salvador ou o cruzeiro de Angra dos Reis. Raramente – talvez por alguma consideração
estratégica, como a de estimular o povoamento de uma nova área de conquista – a Coroa
assumia o patrocínio da construção através de uma ajuda monetária a ser paga durante
um certo número de anos.
Fora os conventos e suas respectivas cercas, era rara a cesão de outros imóveis. À
diferença dos beneditinos e jesuítas, que chegaram a possuir grandes extensões de terras,
os franciscanos não podiam aceitar propriedades que não tivessem utilidade específica.
Há, sim, casos de doação ou compra de terrenos anexos para ampliação dos conventos
ou instalação de serviços auxiliares, tais como cemitérios, currais para o gado recebido
como esmola ou – conforme já apontado – “minas de conchas” para obtenção de cal.
Um tema particularmente incômodo para os historiadores franciscanos é a posse de
escravos. Não é possível negar que os possuíam, o que, visto com uma ótica atual,
parece incompatível com a vida religiosa e, muito especialmente, com a doutrina
franciscana. Alguns tentam justificar que o trato era benigno e que se adiantaram ao
governo em alforriar os próprios escravos, mas não pode negar-se que, durante todo o
período colonial e boa parte do imperial se utilizaram da mão de obra escrava sem que,
aparentemente, isso lhes representasse um problema de consciência.
Sobre esse tema, os estatutos são quase omissos, limitando-se a indicar que “conforme
os Estatutos de Segovia de 1621, nenhum Frade de qualquer qualidade que seja, poderá
509

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

ter particularmente escravo, ou moço secular, ou Donato para o servir dentro da cella,
ou fóra della”. Excetuavam-se os ministros provinciais, que “pelo tempo do seo governo
poderaõ ter hum escravo, ou moço destinado, como tambem hum Frade Leigo, ou
Donato, que os acompanhem pelos caminhos, quando andarem de visita pelos
Conventos, e os sirvam no que for pertencente ao governo da Provincia”.
O sentido é claro. O problema não era a escravidão e sim, novamente, a propriedade. Os
frades não podiam ter escravos, não porque a exploração dos cativos fosse imoral e sim,
para não quebrar o voto de pobreza. Como qualquer outra propriedade, a posse de
escravos particulares lhes era vedada.
Isso não era obstáculo para que, coletivamente, o convento os possuísse. Em 1775, por
exemplo474, o convento de Salvador tinha 56 “escravos da comunidade”, cifra bem
superior aos 41 dos carmelitas calçados, 37 dos descalços e 40 do Mosteiro de São
Bento. É bem verdade que os beneditinos e carmelitas calçados possuíam escravos
particulares. Porém, nos franciscanos, um número tão elevado de escravos comunitários
leva a desconfiar que pudessem ser ocupados em serviços particulares não declarados.
Considerando os demais estabelecimentos franciscanos, observa-se a presença de 6
escravos no hospício dos capuchinhos e 33 no de Jerusalém, pertencente aos esmoleres
da Terra Santa. Obedecendo às restrições impostas pelas respectivas ordens, nenhum
deles tinha escravos particulares.
O mesmo acontecia na Lapa, no mosteiro das concepcionistas, que contavam com 14
escravos comunitários e nenhum particular. Porém, a relação se invertia drasticamente
no Desterro, onde havia apenas 5 escravos comunitários enquanto os particulares
passavam de 250. Filhas de lares abastados mudavam-se para o mosteiro com todos os
bens que podiam levar. Entre eles, suas escravas. Pesquisando registros de batismo, no
arquivo da Cúria metropolitana, Anna Amélia Vieira Nascimento identificou até 16
escravos declarados como propriedade de uma única freira.
Na documentação consultada, não faltam indícios de que a escravidão era pacificamente
aceita pelos franciscanos. Aliás, quase toda a sociedade da época a considerava um fato
natural, juridicamente justificado por argumentos tais como a chamada “guerra justa”,
frequentemente considerada como origem das “peças” traficadas. Falando nos escravos
dos conventos, Röwer afirma que “não era raro receberem-nos como oferta a N.
Senhora, como acontecia no Convento da Penha”475.
“Generoso em dar carta de alforria – registra, ainda, Röwer – era Frei João do Amor
Divino Costa depois de investido no cargo de Provincial, isto é, depois de 1870. Na
festa da Penha de Vitória de 1871, além de libertar 16 escravos desse Convento,
474 “Mapa geral dos Conventos e Ospicios de Religiozos”, reproduzido em Anna Amélia Vieira Nascimento: “Patriarcado
e Religião: As enclausuradas clarissas do Convento do Desterro na Bahia 1677-1890”.
475 Frei Basílio Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
510

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

concedeu a mesma graça a outros em diversos Conventos. Ainda no mesmo ano, na
festa de S. Francisco, quis honrar ao santo Patriarca com a alforria de 20 escravos em
diverosos Conventos”.
Cabe lembrar que a “generosidade” de Frei João acontecia em tempos em que já estava
em plena discussão a campanha abolicionista, que não considerava a alforria como uma
graça e sim, como um direito da pessoa humana. Esse ato de magnanimidade, por
ocasião das festas, lembra a soltura de Barrabás nos Evangelhos.
Os franciscanos adiantaram-se, sim, à legislação civil quando, em 1859, o Definitório
Provincial determinou “que ficassem livres os escravos com mais de 60 anos de idade e
as escravas, que já tendo 50, houvessem dado aos Conventos seis filhos ao menos”.
Porém, mais uma vez, a medida não revela uma compreensão real do direito natural à
liberdade. Para ganhar essa alforria, os escravos e escravas precisavam chegar,
respectivamente, aos 60 e 50 anos – idades em que, certamente, representariam mais
uma carga que uma força de trabalho – e, no caso das mulheres, terem dado seis filhos –
ou seja, mais seis escravos – aos respectivos conventos.
Porém, o caso mais revelador o achamos em Jaboatão476: “Certo morador de S. Paulo
havendo-lhe fugido hum só escravo que tinha, se chegou ao Porteiro, rogando-lhe
fizesse recommendação a Deos para lhe apparecer, pois lhe fazia grande falta; e elle lhe
disse por modo de graça: e quantas arrobas de algodão há de mandar fiar para os meus
pobres? E respondeo o homem, que não tinha escravas, por quem o pudesse mandar
fiar; e elle lhe tornou, que bem podia mandar fiar até cinco. Assentio o homem; e
querendo repetir-lhe a supplica do seu preto, lhe disse o Irmão Fr. Jozé: Pois se essa he
toda a duvida; va aqui pela cerca do Convento, e quando chegar lá junto á porta do
carro, repare, que poderá ser que o ache ahi. Partio elle, e assim lhe aconteceo”.
Dentre outras graças “que mereceo do Ceo”, esse porteiro – popularmente conhecido
como “Fr. Jozé o Santinho.” – tinha a de “ser hum certo deparador de cousas perdidas,
com o conhecimento d'onde paravão”. Foi nessa qualidade que – segundo Jaboatão, por
milagre do “santinho” – o escravo perdido retornou ao cativeiro.
Fica, assim, evidente que – para a mentalidade da época – até mesmo Deus concordava
com a escravidão. O escravo era uma propriedade – tal como a terra, o arado e os bois
utilizados para puxá-lo – e como tal, devia ser devolvido ao seu dono.
Quanto ao sexo, todos os escravos de São Francisco e da piedade eram homens.
Também o era a maioria dos escravos de Jerusalém, onde havia, apenas, uma mulher. Já
nos conventos de freiras, predominavam as mulheres. Dos 14 escravos da Lapa, 10 eram
mulheres. No Desterro, todos os cinco escravos comunitários eram homens, assumindose que fossem necessários para executar as tarefas mais pesadas do convento. Em
476 Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão: “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.
511

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

nenhum dos casos se indica o sexo dos escravos particulares. Porém, é de supor que a
maioria, no Desterro, fosse constituída por mulheres.
A ausência de escravas nos conventos franciscanos pode ser atribuída ao voto de
castidade dos frades. Porém, havia 7 escravas comunitárias nos carmelitas calçados, 5
nos descalços e 5 nos beneditinos, sendo que todos eles formulavam esse mesmo voto.
Por outra parte, se, nessa oportunidade, não houve registro de mulheres em Salvador,
não pode pensar-se que essa ausência fosse absoluta em todos os conventos. Röwer477
transcreve, literalmente, uma ata de reunião do Definitório da Província da Imaculada
Conceição, ocorrida em 1781, onde se determina: “não podendo por ora providenciarse inteiramente os incômodos, que se originam de terem os conventos escravas ou
administradas, as quais em alguns só servem de um peso extraordinário à Religião,
vendo-se esta na precisa necessidade de as vestir, sustentar, e gravar por este princípio
aos povos com questuações [sic] desnecessárias à nossa subsistência, e só precisas para
aquele fim, […] que os irmãos Guardiães de todos os conventos façam com os
respectivos Irmãos Síndicos, que vendam, ou dêem liberdade, conforme julgarem mais
conveniente aos serviços de Deus, e as intenções do Sumo Pontífice, que é o Senhor de
todas as coisas de nosso uso, a todas as escravas solteiras, nem neles se receba daqui
por diante, ou seja por esmola, ou seja por legado, pessoa alguma deste gênero, e no
caso também de faltar o marido de alguma atualmente casada, logo se deve a viúva se
reputar solteira, para que com ela se pratique o que com as outras se ordena”.
Quanto às escravas casadas, “os Irmãos Guardiães porão todo o cuidado em apartá-las
das nossas senzalas, ou vendendo-as com seus maridos com a necessária intervenção
do Síndicos, ou sendo impossível esta venda, ou muito danosa aos conventos pela falta
dos maridos, que lhe são necessários, façam com os mesmos Síndicos que lhes
procurem habitação distante dos conventos, em que juntamente morem, e sendo
necessário para esse efeito, se concedam aos mesmos maridos dois dias na semana,
para que possam trabalhar a benefício da subsistência destas fora das senzalas”. A
determinação concluía orientando a “que apliquem os prelados todo o empenho em fazer
das senzalas dos conventos habitação somente dos escravos, de sorte que se possam
fechar com muro, para que só tenham serventia pelas nossas portarias”.
Röwer viu, nessa ata, “a supressão parcial da escravatura mais de 100 anos antes do
dia áureo 13 de maio de 1888”. Tenho o maior respeito pelo imenso trabalho por ele
desenvolvido historiando a ordem franciscana no Brasil. Porém, neste ponto, vejo-me
obrigado a dissentir. Mais do que um rechaço à escravidão, o documento em análise
evidencia critérios econômicos, procurando evitar a “precisa necessidade de as vestir,
sustentar, e gravar por este princípio aos povos” e disciplinares, indicando que “lhes
procurem habitação distante dos conventos” e que façam “das senzalas dos conventos
477 Frei Basílio Röwer: “O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro”.
512

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

habitação somente dos escravos”. Não apenas não se enuncia o objetivo da manumissão
como se deixa a critério dos síndicos a decisão de conceder a liberdade ou vender as
escravas, consequentemente admitindo a continuidade do seu cativeiro.
De fato, dentre as causas alegadas no documento, a principal é a despesa inútil que as
escravas ocasionavam para os conventos, podendo acrescentar-se a essa motivação
considerações tais como a dificuldade de controlar a promiscuidade dos escravos dentro
das senzalas e as dificuldades para resguardar a clausura dos conventos.
Poderia imaginar-se, também, o risco para a castidade dos frades. Porém, essa
preocupação não está explicitada, talvez por considerar que, dificilmente, os frades se
envolveriam com as suas escravas.
Ao menos um fato parece desmentir essa presunção, embora não
esteja suficientemente documentado. Visitando o convento de João
Pessoa, tive oportunidade de observar uma estranha gravura.
Representava um frade, uma mulher e um peixe – similar ao que
ornamenta a fonte do convento – sendo que a mulher mostrava,
claramente, um peito nu. Perguntando o que representava, me foi
dito que evocava o assassinato de uma escrava do convento por
parte de um frade que a possuíra e tivera um filho com ela.
Procurando fontes mais precisas, encontrei, no livro de Glauce
Burity478, uma citação de outro autor – Irineu Ferreira Pinto – tirada
do livro “Datas e notas para a história da Paraíba”, Volume 1.
A edição citada por Burity é de 1977. Porém, a publicação original
foi realizada em 1908479. O trecho citado é o seguinte:
“[...] a população da Capital é alarmada pela notícia de um grande crime cometido na
madrugada deste mesmo dia […]. Comentava-se que na Bica dos Milagres, no sitio dos
frades de S. Francisco, estava o cadáver de uma mulher de nome Thereza; a qual,
falava-se, vivia em companhia do fr. José Lopes. Com a denuncia que uma filha desta
mulher assistiu ao crime, levou o juiz a enterrogá-la. Constatado o crime por ciúme, o
frade foi condenado a prisão perpétua no convento da Bahia”.
Segundo Burity – não tive oportunidade de consultar o livro de Ferreira Pinto –
“Comentando ainda o fato, Irineu Pinto transcreve uma carta do comissário Provincial
dos Franciscanos, Frei Luís de Santo Antônio, acerca da prisão de Fr. José Lopes, na
qual ele, tendo sido informado do que estava ocorrendo, recomenda ao ex-guardião Fr.
José do Rosário que: “[...] aprontasse tudo o que fosse preciso para a sua segurança
segundo as nossas constituições, assim geraes, como municipaes”.
478 Glauce Burity: “A Presença dos Franciscanos na Paraíba, através do Convento de Santo Antônio”.
479 Irineu Ferreira Pinto: “Datas e notas para a história da Paraíba”, Volume 1, Editora Universitária, UFPb, 1908.
513

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Os trechos citados por Burity não esclarecem se a vítima era, efetivamente, escrava do
convento. A rigor, não se fala sequer na raça. Considerando a localização da fonte – a
bastante distância do convento, rodeada de abundante vegetação e, na época,
compartilhada com a população externa – devia ser um local ideal para os encontros
furtivos, seja que se tratasse de uma relação externa, indo a mulher à procura de água,
como muitas outras da vizinhança, ou sendo escrava e afastando-se do convento para
não ser percebida pelos outros frades. Quanto à filha, não parece que fosse do frade. Se
tinha idade bastante para testemunhar, forçoso seria admitir que a relação sacrílega
levava já muitos anos, sendo pouco provável que o frade conseguisse escondê-la durante
tanto tempo. Por outra parte, ao responder afirmativamente o interrogatório, ela estaria
denunciando o próprio pai.
Quanto à presença de escravas nos conventos masculinos, constata-se que – mesmo após
a decisão de 1781, continuaram a existir em diversos lugares. O de Angra, por exemplo,
tinha, em 1808, 24 homens e 9 mulheres. Em São Sebastião, predominavam as
mulheres: 13 em 1835 e 11 em 1852. Nas mesmas datas, os homens eram 11 e 6,
respectivamente. A Penha – que, até épocas bastante avançadas, manteve um elevado
número de escravos por causa das doações feitas ao santuário – tinha, em 1872, 15
escravos (3 pedreiros, 1 carpinteiro e 11 ocupados na lavoura) e 27 escravas (7
cozinheiras, 6 lavadeiras, 3 engomadeiras, 3 costureiras e 6 sem ofício)480.
Por falar em ofício, os escravos prestavam múltiplas utilidades. Além de prestarem
serviços no convento e na lavoura, acompanhavam os esmoleres, auxiliavam nas
construções e até se desempenhavam como músicos. Na Penha, um escravo era
organista do santuário e vários deles formavam uma banda para animar as procissões.
Também trabalhavam de ganho para terceiros. Segundo Röwer, o aluguel mensal de um
escravo, na Penha, podia chegar a 18$000, constituindo-se numa apreciável fonte de
rendas para o santuário.
Voltando ao tema da economia franciscana, parece inegável que, apesar das restrições
derivadas dos votos de pobreza, os frades desfrutavam de uma posição bastante
acomodada para sua época. Não apenas as igrejas eram ricas – o que podia justificar-se
480 Dados extraídos de Frei Basílio Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
514

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

com a conhecida alegação de que “para Deus, todo luxo é pouco” – mas também os
conventos apresentavam bastante comodidade. Construídos em pedra ou taipa de pilão –
ambos, materiais nobres e duradouros – eram amplos, bem arejados e iluminados, e
possuíam instalações sanitárias, aspectos esses raramente encontrados nas construções
coloniais, à exceção de alguns prédios oficiais ou vivendas das classes mais elevadas.
Quanto à decoração, concentrava-se, geralmente, nos adros, sacristias, claustros e salas
capitulares, locais onde podia ser justificada porque – embora em menor grau que a
igreja – eram, também, espaços rituais. Porém – ao menos, como exemplo – não me
parece que possa incluir-se nessa categoria o riquíssimo conjunto de azulejos que
ornamenta o claustro superior do convento de Salvador. Excetuando as alegorias dos
meses, dos continentes e dos sentidos – cujo conteúdo, se não explicitamente religioso,
é, ao menos, moralizante – os temas dos painéis historiados são inteiramente profanos.
Cabe lembrar que esse era o nível dos dormitórios, área tradicionalmente reservada aos
frades e inclusa nas restrições de austeridade relativas a esses espaços.
Como a Ordem arranjava esses recursos? Já foi mencionada, em diversas oportunidades,
a doação de capelas e terrenos para as construções iniciais, bem como a contribuição dos
moradores em materiais e mão de obra. Também não era de desprezar a existência de
legados e doações espontâneas. Porém, como não é possível assumir cargas certas com
verbas incertas, era necessário montar uma estrutura de arrecadação que assegurasse
uma certa continuidade nos ingressos.
Alguns conventos contavam com uma esmola oficialmente concedida pela Coroa,
usualmente chamada de “ordinária”. Consistia em vinho, azeite, farinha de trigo e cera,
podendo ser paga em dinheiro, porém com vinculação explícita à compra desses
produtos.
Fazendo essas doações, a Coroa não se envolvia na supervivência dos frades, aspecto
este que deveria ser resolvido com as esmolas particulares. O que a Coroa assumia era
uma ajuda para o culto: azeite para as lâmpadas, cera para as velas, farinha para as
hóstias e vinho para a consagração.
Nem todos os conventos recebiam essa ajuda. Naqueles que a recebiam, os valores
variavam entre 40$000 e 90$000 e, nas missões, 25$000. Não havia uma lei geral. A
esmola era concedida respondendo à solicitação de cada convento, levando em conta os
impostos recolhidos na região, e raramente eram reajustados.
Alguns conventos tiveram a concessão de ordinária negada por falta de recursos. Em
outros, a Coroa mandou que os moradores complementassem o que faltava. Em 1653,
D. João IV ordenou que as esmolas que não estavam sendo pagas aos conventos
desativados por causa da invasão holandesa fossem transferidas para auxiliar as
fundações recentes em Macacu, Penha e Angra dos Reis.
515

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Para sua sobrevivência, os frades contavam com o que pudessem plantar ou criar dentro
das suas cercas, com seu próprio trabalho ou com ajuda dos escravos, bem como o que
pudessem aproveitar da caça e da pesca nas proximidades dos conventos. Aliás, uma das
principais justificativas para a necessidade de escravos era a falta de irmãos leigos, posto
que os clérigos não mais queriam ocupar-se dessas tarefas e as vocações de leigos
escasseavam porque eram vistos como frades de segunda categoria. Dentre os leigos, as
ocupações mais frequentes eram as vinculadas ao planejamento, construção e decoração
das igrejas, tendo vários deles se destacado nesses ofícios.
Dentre as contribuições, além das que eram recolhidas pelos esmoleres ou depositadas
espontaneamente nas igrejas ou conventos, podia haver grandes patrocinadores, doando
terrenos para as construções iniciais, assumindo a ornamentação e manutenção das
capelas ou, simplesmente, deixando legados em dinheiro ou espécie.
Usualmente, quem doava o terreno para a construção do convento – havida conta que
não tivesse sido disponibilizado pela câmara – reservava para si e sua família o direito
de ser sepultado na capela mor. Outros patrocinadores podiam assumir a manutenção de
capelas ou altares secundários, frequentemente deixando legados para garantir essa
manutenção e incluindo nela o azeite para alimentação das lâmpadas. Outros, em troca
de sepulturas avulsas ou, simplesmente, de missas e orações pelas suas almas, legavam
doações periódicas – em dinheiro ou espécie – a serem continuadas pelos seus herdeiros
“enquanto o mundo durar”.
A continuidade desses legados, após a morte do doador, constituía um problema de
consciência para os franciscanos. Se nada possuíam, também não poderiam ser titulares
do direito à continuidade desse auxílio. Porém, não podiam ir contra a vontade dos
doadores nem negligenciar a manutenção das capelas. Para essas dificuldades de
consciência, os estatutos propunham as respectivas soluções jurídicas.
No caso dos altares e capelas, a solução era, no mínimo, curiosa. Era uma espécie de
privatização, “doando-os” a particulares, prévia constatação de que os mesmos fizeram
“renda sufficiente, & permanente” para “que se ornem, & sustentem, como manda o
Concilio Tridentino”. A doação era feita através do síndico “com consentimento da
Communidade, & Diffinitorio”, salvo no caso da capela mor, que só podia ser outorgada
com “consentimento do Capítulo Provincial, & parecer do Diffinitorio, & Discretorio”.
Certamente, já tinha acontecido de – após obtida a doação e a correspondente sepultura
– os donatários negligenciarem a conservação das capelas. O que fazer nesses casos,
posto que, além da propriedade ter sido transferida a perpetuidade, os franciscanos não
estavam autorizados para moverem juízo contra ninguém?
Havendo “Cappellas, ou Altares, que já estejam dadas, & não tenham fabrica, & os
donos a quem pertencem, as não provejam como convem” os estatutos dispunham que
516

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“se lhes faça hum humilde requerimento, para que lhes dem bastantemente, o que for
necessario para seu ornato, ou se desobriguem dellas para sempre, & não querendo os
donos fazer nenhua cousa destas, por via do Syndico pelos modos possiveis, & mais
convenientes serão requeridos provejam as suas Cappellas do que for necessario, &
não querendo, as tirarão. Porque é cousa muito escrupulosa, & contra toda a razaõ, &
justiça, que andem os Religiosos mendigando esmolas pelos fieis para ornarem, &
sustentarem as Capellas alheas, porq' a tençaõ dos q' daõ as suas esmolas, naõ he para
beneficiarem Cappellas, q' tem donos particulares”.
Também as sepulturas podiam ser doadas. As do arco e capela mor, na forma acima
indicada. No claustro e corpo da igreja, apenas com o consentimento do guardião e a
comunidade do convento, sempre com a mediação do síndico. Sendo os enterramentos
temporários – podendo, após algum tempo, serem removidos para os ossuários – não era
necessária a intervenção do síndico nem o consentimento da comunidade, bastando a
decisão dos discretos do convento. Em todos os casos, era de estilo retribuir com uma
esmola, exceto nas sepulturas do adro, reservadas para os escravos e indigentes.
Também os hábitos – utilizados como mortalhas – eram fonte de renda. Acreditava-se
que, se o fiel fosse enterrado com hábito franciscano, obteria indulgência especial no
último julgamento. Era normal oferecer esmolas para obtê-los. Porém, os estatutos
advertiam que essas esmolas não podiam ser exigidas e sim, pedidas “como esmola
puramente, & naõ como divida”.
Quanto aos legados, o problema era a continuidade. Doações unitárias, podiam ser
recebidas sem problema, posto que a vontade do doador era clara. Já a obrigação dos
herdeiros podia ser descumprida. E então, poderiam os franciscanos reclamar o direito?
A resposta é não. Da mesma maneira que não tinham bens próprios, também não podiam
reclamar o direito a recebê-los. Os estatutos o estabeleciam claramente: “Pela estreytesa
da pobresa, que profeçamos, naõ podemos ter bens alguns em commum, nem em
particular, nem podemos ter redditos alguns annuaes, como está declarado pela Sé
Apostolica”. Assim, determinavam que “nenhum Religioso possa persuadir a alguma
pessoa que deyxe a alguma caza nossa esmola perpetua, & se acontecer que se deixe
algua nesta forma não se poderà pedir em juiso”.
Porém, a verdade é que isso acontecia com frequência. Assim, os estatutos dispunham
que, sabendo o guardião dessa ocorrência, fizesse “hum protesto diante dos Discretos de
que se dará noticia ao herdeyro […] no qual dirá como somos por nossa Regra
incapazes de redditos perpetuos, & que assim naõ aceytamos, nem recebemos a tal
renda. Porem se quizer por via de esmola simples, cessando de todo o ponto a
obrigação do dominio, & propriedade, lhanamente receberemos a dita esmola por via
de esmola voluntaria”.
517

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Esclarecia-se, ainda, que as esmolas e legados, “ainda que naõ sejam perpetuos”, não
poderiam ser exigidos em juízo, nem os doadores serem condenados a excomunhão por
dívidas, devendo os religiosos solicitar o seu cumprimento “com submissão, &
humildade […] representando aos herdeyros, ou testamenteyros as necessidades, que os
Religiosos, & a caza tem”. Esse “protesto” deveria ser reduzido a termo e registrado no
livro do convento, após o qual a esmola poderia ser recebida “sem algum escrupulo”.
Analisado o procedimento no seu contexto, parece bastante improvável que, numa
sociedade tão religiosa e tão temerosa do além, os herdeiros se recusassem a cumprir a
última vontade do testador, ainda mais depois de os religiosos ponderarem “as
necessidades, que os Religiosos, & a caza tem”. De fato, as mais das vezes, o “protesto”
e seu respectivo registro não deviam passar de meras formalidades para legitimar a
continuidade do recebimento do legado.
Vale mencionar, como exemplo, o caso de um fazendeiro que doou ao convento de Cabo
Frio uma provisão anual de vinte e cinco bois, a ser continuada por seus herdeiros,
fazendo ressalva explícita de que “sendo caso que por alguma causa ou razão haja eu,
ou os meus herdeiros depois de minha morte, vender, aforar, ou por qualquer outra via
aliar, ou traspassar as ditas minhas fazendas a outrem, passarão sempre com o mesmo
cargo, e obrigação da dita ordinária”.
Em troca da doação, o fazendeiro pedia “ao R. P. Guardião, e mais Religiosos
assistentes no dito Convento de N. Sra. Dos Anjos me queiram dizer pelo amor de Deus
todos os dias hua Ladainha, por minha tenção à mesma Snra., e depois da minha morte,
além da Ladainha, hum responso”. A escritura481 foi lavrada em 1687, ratificada em
testamento em 1691, e as doações de bois foram pontualmente efetivadas até 1852.
Pouco depois, o último guardião do convento lamentava: “Até agora contávamos com o
legado de Campos, hoje, porém, nos tiraram”.
Eram outros tempos. Em 1852, fechados os noviciados, os últimos franciscanos
languidesciam nos conventos e os doadores eram cada vez menos. Não mais os frades
eram universalmente vistos como salvadores das almas. Muita gente os considerava
como uma classe parasitária e até como um entrave para o desenvolvimento do Império.
Outra fonte de renda – nada desprezível – era a atividade específica dos frades: missas,
batizados, casamentos, extrema-unções, encomendação de defuntos, participação nas
festas e procissões etc. Embora não se considerasse ético cobrar pelos serviços
religiosos, não se via empecilho algum em receber esmolas, se fossem livremente
oferecidas. Mais uma vez, era importante estabelecer a diferença entre obrigação e
esmola. Porém, não dá para ignorar que a prática da esmola era de praxe, tendo até
valores costumeiros como referência implícita para cada tipo de serviço.
481 Reproduzida por Frei Basílio Röwer em “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
518

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Um quadro bastante claro da dimensão desses serviços o oferece a prestação de contas
da Ordem 3ª de Salvador482, que, muito provavelmente, constituía o maior cliente
coletivo dos serviços religiosos do convento:
“Possue esta Veneravel Ordem o melhor de cento e dez contos de reis, cujos
rendimentos applica na administração de sessenta e nove capellas, que administra de
missas, esmollas, dotes e outros encargos, que instituirão varios defuntos nossos
Irmãos, as quaes capellas, no anno de 1758 proximo passado pelo juizo dellas se
tombarão, fazendo-se a cada hua patrimonio particular em propriedades, e dinheiro de
juros. Distribue a ordem annualmente por esta conta para sima de tres contos de reis,
fazendo celebrar pelos seos encargos sette mil trezentas e sinquoenta e oito missas,
consigna doze, ou treze dotes, e distribue mais pelos Irmãos pobres enfermos, trezentos
e dez mil reis. Por cada Irmão defunto applica cento e settenta e oito missas, que no
decurso do anno fazem o numero de sinquo mil pouco mais ou menos. Pelos Irmãos
vivos tãobem applica perto de duzentas missas annualmente; e pelos Irmãos defuntos
em geral pouco mais ou menos quinhentas. Os mais sobejos se applicão ao gasto da
Igreja da ordem, habitos e tumbas para os Irmãos pobres, e tudo se dá conta geral e
publica na mesma igreja no dia quatro de Julho na publicação da nova meza”.
Na exposição acima, fica claro que as ordens terceiras estavam entre as principais fontes
de renda dos conventos. Missas, enterramentos, procissões e outros serviços religiosos
eram habitualmente prestados pelos frades das respectivas ordens primeiras. Assim, não
é de surpreender que, na medida em que cresciam e se tornavam economicamente mais
fortes, as ordens terceiras procurassem meios para independizar-se desse ônus, passando
a contar com capelas independentes, cemitérios e até com torres próprias para evitar a
esmola que era dada aos conventos pela utilização desses recursos. Mesmo assim, não
raro, a autorização para iniciar essas construções só era concedida aos terceiros em troca
de uma esmola a título de compensação pela renda que os frades deixariam de perceber.
Outra fonte de recursos – esta, bem menos habitual e, geralmente, mais tardia – era o
arrendamento ou aluguel das propriedades não utilizadas. À diferença de outras ordens,
os franciscanos não tinham grandes extensões de terras ou imóveis urbanos que
pudessem ser explorados ou arrendados, posto que suas normas lhes proibiam a
aceitação de doações que não respondessem a necessidades concretas e relativamente
imediatas. Porém, às vezes acontecia que aquilo que anteriormente era necessário
deixava de prestar a utilidade prevista.
Acontecia isso, por exemplo, com as ilhas de Angra. Doadas ao convento para a
obtenção de cal, viram sua exploração diminuída quando as edificações foram
concluídas, retomada no século XVIII durante as obras reconstrução e absolutamente
482 Informação de Luiz Gomes Coelho, secretário da Ordem 3ª de Salvador, reproduzida por Marieta Alves em “História
da Venerável Ordem 3ª da Penitência do Seráfico Pe. São Francisco da Congregação da Bahia”. Bahia, 1948.
519

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

extinta quando os depósitos de cascas se esgotaram. Em 1790, perdida a utilidade para
os frades e invadidas as ilhas por diversos posseiros, o definitório deu licença ao síndico
para vendê-las, mas a venta não se concretizou. Em 1856, partiu-se para o arrendamento.
Em 1872, uma dessa ilhas – a Sundara – ainda rendia a “esmola” de 6$000 anuais.
O mesmo acontecia com a periferia dos conventos. Terrenos insuficientemente cercados
e cada vez menos utilizados, na medida em que diminuía o número de frades e se
contava com menos escravos para o trabalho, começaram a ser invadidos por famílias
sem teto. Ainda em meados do século XX – quando Röwer escreveu o seu trabalho –
moravam, em terras do convento de Angra, “cerca de 150 famílias, mediante diminuta
esmola a título de aluguel”483. Situação similar ocorria em diversos outros conventos e,
com a parcial ou total extinção de vários deles, áreas internas não ocupadas ou mesmo a
totalidade das edificações passaram a ser requisitadas por diversos órgãos de governo.
Em alguns casos, as requisições eram emergenciais, como aconteceu em vários
conventos na ocorrência de epidemias. Em outros, pedia-se a cessão em definitivo,
visando ocupar áreas não utilizadas ou mesmo a totalidade dos conventos com escolas,
hospitais e outros serviços. Às vezes, a cessão era gratuita, como ocorreu com a
instalação do curso de Direito em São Paulo, que acabou se tornando irreversível e
obrigando os frades a mudar-se para outros conventos. Até meados do século XIX,
diversos conventos foram ocupados sem receber em troca outra cosa que louvores aos
“sentimentos de caridade e filantropia que a mesma Corporação costuma manifestar
sempre que se lhe oferece a ocasião”484. Já no período seguinte, tornou-se frequente a
cessão a título de aluguel.
Em 1858, o convento de Bom Jesus da Ilha ficou a disposição da Associação Central de
Colonização mediante a esmola anual de 400$000. Em 1865, passou ao Ministério da
Guerra, sendo utilizado como aquartelamento de tropas. A esmola era de 800$000 por
ano. É de notar a extrema elastização da palavra “esmola”. De uma contribuição
espontânea – que não podia ser exigida e, muito menos, quantificada – passara a
constituir um eufemismo para designar o pagamento periódico e obrigatório de um
aluguel registrado em contrato.
Além dessas fontes de renda, os franciscanos contavam com certas isenções. Por
exemplo, alguns conventos e/ou províncias eram dispensados do pagamento dos
impostos de trânsito pelos bens recebidos como esmola e transportados até os
respectivos conventos. Também alguns artigos de importação, como o vinho, eram
objeto de isenção impositiva. Outras disposições isentavam os frades do pagamento de
passagens nos transportes fluviais e marítimos, mesmo no caso de o transporte ser feito
por prestadores privados.
483 Frei Basílio Röwer: “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
484 Carta do Ministro do Império em Frei Basílio Röwer: obra citada.
520

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Também neste caso, não existia homogeneidade no tratamento. As isenções eram
concedidas conforme eram solicitadas e valiam apenas para os solicitantes. Röwer cita o
caso de Vitória, onde, em 1720, o ministro provincial solicitou à Coroa que os frades
fossem isentos das passagem de e para o Rio de Janeiro “por serem huns Religiosos
mendicantes e muito pobres, que não tinham dinheiro para poderem satisfazer a tais
passagens, nem lhes era lícito uzar de dinheiro”.
Era um argumento bastante utilizado. A regra proibia os franciscanos de usar o dinheiro,
a não ser através dos síndicos, que nem sempre podiam acompanhar os seus
deslocamentos para fazer os pagamentos necessários. Podiam solicitar o transporte
gratuito, a título de esmola, mas nem todos os barqueiros concordavam em fazer essa
caridade. O mesmo argumento – porém, com mais entraves burocráticos – valia para o
pagamento de impostos que, normalmente, devia ser feito em dinheiro.
No caso de Vitória, D. João V aceitou a solicitação, ordenando que os canoeiros e
barqueiros “não levem estipêndio, ou paga algua, assim aos ditos Religiosos, como às
mais pessoas da sua comitiva, que os acompanharem nas passagens de mar, ou rios,
que fizerem, com pena de pagarem cada hua vinte mil réis para as despesas da Justiça,
e de ser remetido preso à cadeia desta Cidade, e repor o que tiver levado aos
Religiosos”485.
Outros conventos desfrutavam de similares isenções. Em Taubaté, ocorreu um caso
curioso. Em 1758, viajando o guardião desde São Paulo “e trazendo consigo os viveres
necessários para a Comunidade nos cavalos do mesmo Convento, o canoeiro o obrigou
a pagar-lhe dos cavalos, e gente do Convento que vinha carregada, de que lhe levou
oitocentos e oitenta réis”. Elevado o caso ao desembargador ouvidor geral e
considerando que “os Religiosos de S. Francisco são isentos pelos Decretos Reais que
se acham lançados nos livros da Câmara de Jacareí”, este dispôs “que o canoeiro da
dita passagem restitua a dita quantia, e fique advertido para não pedir mais passagem
aos Religiosos, e seus pertences, pena de prisão”.
Havendo lei que amparasse, forçoso é concluir que o ouvidor estava certo em ordenar a
devolução. Porém, resta uma dúvida: Se os franciscanos não podiam viajar com dinheiro
– impossibilidade esta que tinha dado origem à isenção da passagem – como é que, neste
caso, conseguiram pagar a quantia que desejavam ver restituída? Não se menciona a
presença de síndico ou procurador. Será que os guardiões contavam com alguma licença
especial ou é que a proibição do uso do dinheiro não era completamente observada?
Também em Taubaté aconteceu um outro caso de duvidosa juridicidade, perante as
regras e constituições franciscanas. Em 1674, lavrou-se escritura onde “foi dito pelos
ditos Oficiais da Câmara, Nobreza, e Povo que eles se obrigavam a fazer Igreja e
485 Documentos reproduzidos por Frei Basílio Röwer em “Páginas de História Franciscana no Brasil”.
521

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Convento à sua custa”. Mais especificamente, foi prometido “que eles davam duzentos
milréis em dinheiro de contado para princípio de paramentos do culto divino […] e
assim mais se obrigaram a dar doze peças de Gentio da terra 486, e a fazer em o sítio
escolhido […] cerca, e mais serventia com toda a capacidade necessária”487.
Às promessas da câmara, diversos moradores acrescentaram oferecimentos particulares
comprometendo-se a colaborar “com algum taboado”, bem como a disponibilizar
escravos, alternando entre os vizinhos dos diversos bairros de modo a “terem efetivos
quotidianamente trinta negros ao trabalho”. Mas as promessas não foram cumpridas.
Em 1677, com as obras paradas desde 1675, os franciscanos denunciavam a falta dos
tabuados e mais “sete arrobas, e dezoito libras de ferro para as obras, bem como dos
escravos que deveriam ter sido disponibilizados para o trabalho.
Com estes fundamentos, os frades solicitaram, da autoridade eclesiástica, a emissão de
carta monitória para que o vigário e o guardião do convento tomassem “conta aos
sobreditos seis Juízes daquela Vila do cobrado e por cobrar dos moradores, assim das
promessas particulares como da própria obrigação”, exigindo o cumprimento das
obrigações assumidas “com todas as penas e censuras necessárias, munindo-os a todos,
e citando-os para que sendo rebeldes sejam punidos, e castigados na forma de
Direito”488.
“Para dizermos a nossa opinião – comenta Röwer – não foi correto o procedimento de
Frei Jerônimo. Em virtude da escritura, a Ordem, ou, se quiserem, a Sta. Sé, não
adquiriu jus ad rem, e muito menos jus in re, e em tais casos a Ordem franciscana só
admite meios suasórios”. Mesmo assim, a carta monitória foi emitida, ameaçando os
juízes de “Excomunhão maior ipso facto incurrenda”489, e lida na matriz de Taubaté,
“em voz alta que foi ouvida do povo em dia festivo”490. Prontamente, os juízes se
comprometeram a providenciar tudo o que fosse necessário para atender os
compromissos assumidos e dar continuidade às obras do convento.
De fato, entre o que estava escrito na regra, nas constituições e nos estatutos e o que
acontecia na prática havia bastante distância. Mesmo admitindo a possibilidade de
existirem interesses políticos e/ou pessoais contrários aos franciscanos, o texto da
instrução do marquês de Valença, que vinha governar a Bahia em 1779491, é bastante
explícito quanto à ocorrência de diversos desvios:
486 Ou seja, a disponibilizar doze índios para auxílio na construção.
487 Escritura de Obrigação lavrada na Câmara de Taubaté em 25/04/1674, reproduzida por Frei Basílio Röwer em
“Páginas de História Franciscana no Brasil”.
488 Petição do guardião do convento, Frei Jerônimo de São Brás, ao Vigário da Vara, em 19/02/1677, reproduzida por Frei
Basílio Röwer. Obra citada.
489 Carta monitória emitida em 19/02/1677. Idem notas anteriores.
490 Certidão do escrivão do eclesiástico, em 15/03/1677. Idem.
491 Citada por Anna Amélia Vieira Nascimento em “Patriarcado e Religião: As enclausuradas clarissas do Convento do
Desterro na Bahia 1677-1890”.
522

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

“A desordem em que se acha a religião de que falo vem a ser, não querer frade algum
morar no convento, por que uns a títulos de esmoleres, residem continuamente nas
freguesias onde têm casas, como particulares, outros feitores de fazenda de parentes, e
alguns sendo frades capuchos e senhores de engenho ao mesmo tempo”.
Talvez por isso, os estatutos abundam não apenas em proibições como em castigos. Para
tudo existe uma pena específica, a ser aplicada pelos próprios frades, posto que estavam
isentos da justiça comum. O repertório de penas inclui “cárcere” – existia uma em cada
convento –, “privação de voz ativa, & passiva, & dos ofícios da Ordem”, “privação dos
actos legitimos”, “talião”, “tormento” e até “privação de sepultura Ecclesiastica”.
Para evitar que a proximidade entre os frades aliviasse a severidade dos julgamentos e a
aplicação das penas, enumeravam-se casos reservados ao julgamento dos ministros
provinciais, entre os que se contavam “inobediência contumaz”, “propriedade de
qualquer cousa”, “peccado da carne”, “tocamentos impudicos, ou enormes”, “solicitar
a outrem de certa sciencia ao peccado da carne”, “furto de cousas notaveis ou
frequentado”, “injecção de mãos violentas”, “falso testemunho em Juiso”, “compor,
lançar ou publicar libello famoso”, “falsificação de sello de algum Prelado da nossa
Ordem ou de outra pessoa notavel”, “abrir as letras dos Prelados, ou retellas
maliciosamente”, “falso testemunho infamatorio”, “depor falsamente em Juiso contra
algum religioso, principalmente sendo Prelado, ou induzir a outro para isso” e
“revogar, ou procurar se revogue o que com verdade em Juiso for visitado”.
Quanta distância entre essas penas e o preceito da regra não bulada: “E guardem-se
todos os frades, tanto ministros e servos como os outros, de perturbar-se ou irar-se pelo
pecado ou mal do outro, porque o diabo quer corromper muitos pelo delito de um; mas,
espiritualmente, como melhor puderem, ajudem o que pecou, porque não precisam de
médico os sãos mas os que estão mal”492.
A relação entre os membros da “fraternitas” era uma relação de irmãos. Daí, a
denominação de “frades”. Para evitar que essa fraternidade se quebrasse, quando
começou a evidenciar-se a necessidade de uma certa organização hierárquica, não se deu
ao superior do convento o título de “abade” (pai) mas o de “guardiano” (guardião). Ao
criar-se as autoridades provinciais, foram chamadas de “ministros” (servidores).
Certamente, Francisco tinha uma ascendência especial sobre seus companheiros, mas
não fazia questão de servir-se dela para mandar senão que insistia na importância da
humildade e do respeito por toda forma de vida.
492 A regra remete explicitamente aos evangelhos de São Mateus (“E os fariseus, vendo isto, disseram aos seus discípulos:
Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de
médico os sãos, mas, sim, os doentes”) e São Marcos (“E os escribas e fariseus, vendo-o comer com os publicanos e
pecadores, disseram aos seus discípulos: Por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores? E Jesus, tendo
ouvido isto, disse-lhes: Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos,
mas, sim, os pecadores ao arrependimento”).
523

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Francisco não fazia questão de cultura. Professava especial afeto a frei Junípero, o mais
simples dos seus frades. Na Regra não bulada – certamente, a mais fiel ao seu
pensamento original, embora já deixasse perceber notórias influências do Cardeal
Hugolino – orientava a que “nenhum se chame prior, mas em geral todos se chamem
frades menores. E um lave os pés do outro”.
Ele não pensou a ordem como mendicante. Muito pelo contrário, escreveu na regra: “os
frades, que sabem trabalhar, trabalhem e exerçam o mesmo ofício que sabem, se não for
contra a salvação da alma e puder ser feito honradamente. Pois diz o profeta:
"Comerás os trabalhos dos teus frutos; és feliz e estarás bem"; e o apóstolo: "Quem não
quer trabalhar, não coma"”. Só mais adiante agregava “E quando for necessário, vão
pela esmola como os outros pobres”. Ou seja, a esmola era vista como um último
recurso, quando o produto do trabalho não fosse suficiente.
O Testamento é ainda mais enfático: “eu trabalhava com as minhas mãos e quero
trabalhar. E quero firmemente que todos os outros irmãos se ocupem num trabalho
honesto. E os que não souberem trabalhar o aprendam, não por interesse de receber o
salário do trabalho mas por causa do bom exemplo e para afastar a ociosidade. E se
acaso não nos pagarem pelo trabalho vamos recorrer à mesa do Senhor e pedir esmola
de porta em porta”.
De fato, sabe-se que – além de realizarem suas práticas religiosas e de cuidarem dos
pobres e dos leprosos – os primeiros frades trabalhavam na lavoura, eram lenhadores,
hortelãos e executavam tarefas domésticas. Frei Egídio, o terceiro a incorporar-se ao
grupo, “recolhia lenha do mato, ajudava os lavradores na colheita das nozes, do trigo,
da azeitona, da uva e pisava a uva na confecção do vinho”493.
Pouco demoraram a aparecer as primeiras diferenças. Certamente, os frades que
acompanharam o fundador na primeira entrevista com o papa eram leigos. Porém,
aprovada a irmandade por Inocêncio III, cresceu rapidamente, incorporando numerosos
clérigos e até doutores em Teologia, que, mesmo concordando com os postulados gerais,
consideravam-se superiormente capacitados para as funções religiosas. Do outro lado,
muitos leigos reconheciam essa capacidade e, gradativamente, depositavam nos clérigos
a sua confiança na condução dos destinos da Ordem.
Em pouco mais de uma década, a Ordem passou dos doze frades que, em 1209,
acompanharam Francisco a Roma, para os cinco mil que, por falta de melhor
acomodação, deram nome ao célebre “capítulo das esteiras”, de 1221.
A fraternitas já não era mais a mesma. Desde 1212 organizava reuniões e, em 1217,
celebrou um capítulo geral formalmente estabelecido, onde se deu início às missões e se
dividiu a Ordem em doze províncias com seus respectivos capítulos provinciais.
493 Frei Orlando Bernardi: “O Franciscanismo de Santo Antônio”. Cadernos do IFAN, n. 18, 1997.
524

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Em 1220, a liberdade inicial teve duas importantes limitações. Para ingressar na
fraternidade, não mais bastava a expressão da vontade. Era preciso um ano de noviciado.
Também a saída não era mais livre: “Depois [de o postulante concluir o noviciado] não
lhe será lícito entrar em outra religião nem "vagar fora da obediência" de acordo com o
mandato do senhor papa e segundo o evangelho; porque "ninguém que põe a mão no
arado e olha para trás é apto para o reino de Deus"”. Ambas as limitações seriam
inclusas na Regra.
Em 1221 – no “capítulo das esteiras” – ficou evidente que a liderança de São Francisco
não era mais consensualmente aceita. Muitos reclamavam a necessidade de uma
organização mais rígida e propunham a adoção de alguma das regras existentes, fosse a
de Santo Agostinho, a de São Bento ou a de São Bernardo. Francisco insistiu em seguir
seu caminho e, nesse mesmo ano, concluiu a redação da sua própria regra. Porém –
mesmo com a evidente participação do cardeal Hugolino – ela não foi aprovada.
Em 1223, uma nova versão da regra conseguiu a aprovação de Roma, passando a
constituir a norma definitiva. Embora dê continuidade a diversos itens contidos nas
anteriores, trata-se de um documento enxuto, juridicamente formulado e muito distante
da mística inicial.
A essa altura, Francisco começava a desvincular-se da condução do movimento. No ano
seguinte – já doente e parcialmente desautorizado por seus confrades – afastou-se
definitivamente da direção da Ordem. No dizer de Luigi Pellegrini, “Francisco
começava a se tornar um obstáculo, um ‘escândalo’, ou ao menos um problema”494.
Pouco antes de morrer, Francisco fez do seu testamento uma última tentativa de
influenciar nos destinos da fraternidade. Com sua habitual humildade, expressava sua fé
nos sacerdotes declarando: “mesmo que me perseguissem, quero recorrer a eles […]
porque do mesmo altíssimo Filho de Deus nada enxergo corporalmente neste mundo
senão o seu santíssimo corpo e sangue, que eles consagram e somente eles administram
aos outros”. Fazia questão, também, de “respeitar todos os teólogos e os que nos
ministram as santíssimas palavras divinas como a quem nos ministra espírito e vida”.
Mesmo assim, reafirmava suas orientações fundamentais quanto ao trabalho e à “santa
pobreza” e determinava que “o ministro geral e todos os demais ministros e custódios
estejam obrigados sob obediência a nada acrescentar a estas palavras nem tirar coisa
alguma. E tenham sempre consigo este escrito, junto à Regra. E em todos os capítulos
que fizerem, leiam também estas palavras quando lerem a Regra”.
Como conclusão, ordenava severamente “sob obediência a todos os irmãos, clérigos e
leigos, que não façam glosas à Regra nem a estas palavras dizendo: "Assim é que
494 Luigi Pellegrini: “Itineranza antoniana e francescanesimo primitivo”. Em “Vite e vita di Antonio di Padova: Atti del
Convegno internazionale sulla agiografia antoniana; Padova 29 maggio-1 giugno 1995”.
525

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

devem ser entendidas". Mas como o Senhor me concedeu dizer e escrever de modo
simples e claro a Regra e estas palavras, assim as entendais, com simplicidade e sem
comentário, e observai-as com santo fervor até o fim”. Tentava, certamente, evitar que a
sua mensagem fosse ainda mais desvirtuada por supostas interpretações, mas seu
chamado acabaria virando letra morta.
Giovanni di Pietro di Bernardone – já então conhecido como “frate Francesco” –
morreu em outubro de 1226. Em março, o cardeal Hugolino assumiu o pontificado – sob
o nome de Gregorio IX – e logo iniciou o processo de canonização. Além da amizade
que lhe unira a ele, essa canonização era uma peça importante na sua própria política à
frente da Igreja. Também a população de Assis envolveu-se ativamente iniciando a
construção da basílica, para a qual os seus restos foram transportados em 25/05/1230.
Segundo Veronica Aguiar, era o que a cidade “necessitava para consolidar a sua
independência em relação à Perugia e Espoleto”495.
Pese às homenagens, o capítulo de 1230 foi dominado pelos clérigos, questionando
frontalmente a validade da Regra e do Testamento. Não se chegando a um acordo, uma
comissão de seis frades – entre eles, o português frei Antônio, depois canonizado como
“Antônio de Pádua” – foi conformada para solicitar o posicionamento de Roma. Todos
eles, à exceção do ministro geral, eram clérigos, conhecidos do papa e envolvidos no seu
projeto de expansão da Igreja e combate às heresias.
O resultado era previsível. A pergunta sobre o poder vinculante do Testamento foi
respondida negativamente. Seguindo princípios jurídicos em vigor, Francisco não podia
estabelecer novas normas sem o consentimento da comunidade (“quod omnes tangit, ab
omnibus approbari debet”) nem impor decisões aos seus sucessores no mesmo cargo
(“par in parem non habet imperium”). Portanto, ficava sem valor a exigência de “nada
acrescentar a estas palavras nem tirar coisa alguma” e aberto o caminho para fazer
glosas à Regra “dizendo: "Assim é que devem ser entendidas"”.
Foi justamente isso o que o Papa fez, não apenas usando a autoridade pontifícia mas
também alegando que “com motivo da longa familiaridade que o mesmo Santo teve
conosco, temos conhecido mais plenamente a sua intenção, e também estivemos perto
dele durante a redação da predita Regra e na apresentação perante a Sé Apostólica
para obter a sua confirmação”, e declarando limitar-se a esclarecer “pontos duvidosos
e escuros da mesma Regra”, bem como a dar “uma resposta sobre outros pontos
difíceis”. Mesmo sem ter conhecido Francisco nem participado na elaboração da Regra,
os “pontos duvidosos e escuros” acabariam se transformando na justificativa usual para
as intervenções dos demais pontífices, deixando uma ampla margem à realização de
alterações, quase sempre justificadas como simples interpretações ou esclarecimentos.
495 Veronica Aparecida Silveira Aguiar: “A construção da norma no movimento franciscano”. Universidade de São Paulo,
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História. São Paulo, 2010.
526

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

A definitiva clericalização da Ordem ficou estabelecida, em 1239, com a deposição no
generalato de frei Elias, e institucionalizada nas Constituições de Narbona de 1260, que
estabeleceram como precondição para a admissão de clérigos “suficiente conhecimento
de gramática ou de lógica” e limitaram a de leigos àqueles que fossem “de tal condição
que sua entrada produza muita edificação no clero e no povo”. E, para maior clareza, se
determinava: “Se, apesar desta ordem for preciso receber leigos para preencher os
serviços materiais, não se faça sem urgente necessidade e com especial licença do
Ministro geral”.
Consolidava-se, assim, a estrutura econômica que iria definir os franciscanos como
ordem mendicante. Reduzidos os leigos em número e representatividade na Ordem,
tendendo muitos deles ao sacerdócio como forma de legitimação e afastados os
sacerdotes do trabalho manual, os conventos passaram a depender quase exclusivamente
da esmola. Não mais se trabalhava externamente para angariar recursos e até as tarefas
internas passaram a ser desenvolvidas por servidores pagos ou escravos.
Com a bula de 1230 começou, na prática, a longa disputa pela pobreza que iria enfrentar
não já leigos com clérigos, posto que os primeiros tendiam a desaparecer, senão
correntes do pensamento erudito, com forte representação na Cúria e nas universidades.
Com base nas sucessivas “interpretações”, a Regra passa a ser cada vez mais elástica e a
discussão se perde em meandros jurídicos. Novamente citando Veronica Aguiar, passa-se
da “pobreza vivida” à “pobreza pensada”. Num estilo mais cáustico, Frei Miguel de
Negreiros escreve: “O regime interno da Ordem adopta o estilo da vida monástica, e
entra-se numa administração cada vez mais necessitada de novas justificações jurídicas
para poder dispor de dinheiro”. E acrescenta: “Com a distinção entre direito de
propriedade e simples uso de facto ficava ressalvada a pobreza à face da Lei, mas a
Dama Pobreza corria o risco de ser ultrajada com o pecado da infidelidade”496.
Transcorrido quase um século, a disputa entre “espirituais” e “conventuais” se acirrava,
envolvendo o pontificado e o império. Em 1312 – talvez influenciado pelos rigoristas –
o Papa Clemente V listou uma longa série de “abusos” cometidos pelos frades:
“Alguns conventos cobrem todas suas necessidades com a notável quantidade de juros
anuais percebidos. Outros vivem agitados por seus negócios em bens temporais,
fazendo-se defender por advogados e procuradores, e representar pessoalmente nos
litígios. Receben y gestionam a execução dos testamentos, e às vezes se intrometem em
negócios usurários ou em dispor ou retribuir os bens roubados. Em alguns locais não
somente têm hortas excessivas senão também grandes vinhas, das quais recolhem muito
vinho e azeite para a venda. Na época da vindima e da colheita recolhem mendigando
ou comprando tão grande quantidade de vinho y de grão, que, guardados em celeiros e
496 Frei Miguel de Negreiros: “Primeiro Século do Franciscanismo”. Em Cadernos de Espiritualidade Franciscana, nº 6.
527

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

depósitos pelos irmãos, lhes permitem passar sua vida o resto do ano sem recorrer à
mendicância. Buscam construir suas igrejas e demais edifícios com tal grandeza e
curiosidade de forma e estilo, e com suntuosidade tão notavelmente excessiva que no
parecem habitação de pobres senão de magnates. Em muitos lugares possuem
ornamentos eclesiásticos em tão grande número e tão notavelmente preciosos como
para sobressair em relação às grandes igrejas catedrais. Indistintamente recebem
doações de cavalos e de armas”497.
A bula esclarece que esses abusos foram denunciados por “alguns na ordem” e ressalva:
“Apesar disso, a comunidade dos irmãos, e especialmente seus reitores, afirmavam que
todas ou ao menos muitas das coisas mencionadas, não se faziam na ordem. E que se se
desse o caso de que alguns fossem surpreendidos em tales ações, eram duramente
castigados”. Porém, uma enumeração tão detalhada permite inferir que boa parte desses
abusos realmente acontecessem.
Por outra parte, além da cautela em não dar claramente a razão a nenhuma das partes, a
bula evidencia a preocupação do papa em guardar as aparências com frases como “não
só o mal deve ser evitado pelos varões perfeitos, senão também tudo o que tem
aparência de mal” ou “Deste modo terão boa fama também entre os de fora e, além de
satisfazer a pureza de seu voto, evitarão assim o escândalo dos próximos”.
Percebe-se, por estas notas, que, após algumas décadas de debates teológicos e
concessões pontifícias, a pobreza franciscana não era mais uma prática vivencial nem
mística. Era, simplesmente, uma construção intelectual e simbólica muito distante da
realidade dos conventos. Nunca saiu totalmente da pauta e, seja alegórica, seja
hagiograficamente, estava sempre presente na iconografia, porém quase ausente na vida
diária, como na opulenta basílica inferior de Assis, em cuja cúpula Jesus Cristo efetua o
casamento simbólico de São Francisco com sua esposa mística: a “Santa Pobreza”.

497 Clemente V: Bula “Exivi de Paradiso”, 1311/1312.
528

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Não mais Francisco utiliza os farrapos que descreve Celano. Na alegoria, ele está
“decentemente” vestido com o hábito amplo e comprido dos franciscanos conventuais. A
obra – atribuída a um pintor da escola de Giotto – integra-se fluentemente à riquíssima
coleção de pinturas que decora ambos os níveis da basílica.
Talvez por causa desses conflitos, a ordem franciscana aparece, na história, com uma
certa indefinição. Aproximou-se do monacato, porém sem a elaborada estrutura dos
beneditinos. Lutou contra as heresias, porém sem o protagonismo dos dominicanos. Foi
pioneira no trabalho missionário, mas acabou sendo superada pela pragmática atividade
da Companhia de Jesus.
Não apenas passou o primeiro século tentando definir uma interpretação válida da
Regra. Mesmo depois de João XXII acabar com as dissidências, novas correntes
apareciam com frequência, sempre tentando recuperar o legado – talvez utópico – da
vivência mística da pobreza que distinguia os fundadores e, após um período de intensa
renovação, acabavam cedendo às mesmas deficiências que lhes deram origem. Como
registra o anônimo redator das páginas históricas em http://www.fratefrancesco.org, “o
mais curioso é que, afinal, toda reforma franciscana desemboca sempre em una
inevitável "conventualização"”.
O mesmo site enumera possíveis razões. Entre elas, “A mitificação de São Francisco,
como modelo a imitar ao pé da letra, mais do que no espírito” e “A substituição do
"seguimento" de Cristo pela "conformidade" com Ele, fazendo do ideal una utopia
inatingível”.
Mesmo assim, o “mito” Francisco ainda sobrevive e, não raro, ultrapassa os limites da
Ordem. Basta lembrar as várias ocorrências no cinema, da versão muda de Giulio
Antamoro em “Frate Francesco” (1927), passando pelo despojamento franciscano de
Roberto Rossellini em “Francesco, Giullare di Dio” (1950), a reconstituição
hollywodiana de Michael Curtiz em “Francis of Assisi” (1961) e o romantismo
idealizado de Zeffirelli em “Fratello sole, sorella luna” (1972) até a versão televisiva de
Fabrizio Costa em “Chiara e Francesco” (2007).
Não faltaram, no último século, ocasiões para enxergar, na imagem de São Francisco,
uma esperança de solução aos problemas presentes. Diante das guerras e da opressão,
levanta-se a Oração a ele atribuída: “Senhor, fazei de mim um instrumento de Vossa
Paz”498. Diante dos excessos da economia globalizada, há quem levante a necessidade de
uma “Visão Franciscana da Economia”499.
498 Segundo a Wikipedia, “é uma oração de origem anônima que costuma ser atribuída popularmente a São Francisco de
Assis. Foi escrita no início do século XX, tendo aparecido inicialmente em 1912 num boletim espiritual em Paris,
França. Em 1916 foi impressa em Roma numa folha, em que num verso estava a oração e no outro verso da folha foi
impressa uma estampa de São Francisco. Por esta associação e pelo fato de que o texto reflete muito bem o
franciscanismo, esta oração começou a ser divulgada como se fosse de autoria do próprio santo”.
499 Veja-se a respeito Frei Celso Márcio Teixeira: “Uma visão franciscana da economia” em http://www.itf.org.br.
529

SIMILITUDES E DIFERENÇAS

Até mesmo a cúpula da Igreja, acuada pelas denúncias de corrupção, hoje apela
novamente à figura do Santo de Assis numa tentativa de recuperar a credibilidade.
No Brasil, pouco ou nada chegou a experimentar-se da disputa pela pobreza evangélica.
Quando a América começou a ser colonizada, observantes e conventuais, em Portugal, já
constituíam um corpo único. Durante o período inicial, houve uma heroica penetração
missionária que deixou vários mártires. Ainda depois do recuo perante a ação dos
jesuítas, podem considerar-se austeros e esforçados a fase inicial dos conventos e o
período de resistência à invasão holandesa, bem como as missões populares que, ao
longo dos séculos XVII e XVIII, se espalharam pelos sertões.
Porém, com a paz externa e o crescimento econômico da colônia, a Ordem ficou
confortavelmente institucionalizada ao ponto que pouco chegava a diferenciar-se das
demais ordens. Franciscanos, carmelitas e beneditinos faziam parte inseparável da
paisagem urbana colonial, desenvolviam atividades pastorais e assistenciais
relativamente similares e era de bom tom que toda família abastada tivesse entre seus
membros ao menos um frade, monge ou sacerdote secular. Em termos econômicos, o
século XVIII foi a época mais próspera, quando boa parte dos conventos foram
reconstruídos ou ampliados e receberam as mais ricas decorações internas e externas.
Uma nova fase se abriu com a era pombalina e, apesar da queda do marquês, prolongouse durante todo o século XIX. Os frades não eram mais bem-vindos na expansão do
território. Foram, apenas, tolerados nos locais onde já estavam estabelecidos. Nessa
época, muitos conventos tiveram suas ricas decorações substituídas por outras mais
precárias, de duvidoso gosto neoclássico.
A fase atual iniciou-se no fim do século XIX, quando, à beira da exaustão, foram
solicitados frades europeus para revitalizar os conventos brasileiros. Extinto o padroado
régio, as ordens religiosas ficaram sem apoio governamental, porém livres para
organizar-se do modo que achassem mais conveniente e eficaz. Paradoxalmente, o
definitivo abandono pelo governo favoreceu a restruturação das ordens religiosas.
Finalmente, cabe mencionar o retorno da intervenção estatal, não já em prol da religião e
sim, da conservação do patrimônio histórico. Com o rebrotar do nacionalismo, na
chamada “era Vargas” e a consequente criação do SPHAN, um novo interesse foi
depositado no que passou a ser chamado de “patrimônio histórico e artístico nacional”.
Se, por um lado, esse interesse – nem sempre bem conduzido – engessou a natural
evolução dos conventos, por outro evitou uma maior degradação com o estabelecimento
de diversas restrições e controles e com a injeção