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Obras de leitura obrigatória
afastam alunos do Secundário
césar santos

Maria Gabriela Silva garante que a


escolha de textos é errada

Isabel Teixeira da Mota

Há uma contestação generalizada às obras de leitura


obrigatória na disciplina de Português por parte dos
alunos do ensino secundário. A denúncia não seria
uma total novidade se uma docente da Escola D.
Pedro V, em Lisboa, não se tivesse dado ao trabalho
de ir saber porquê.

Maria Gabriela Silva fez um estudo de campo, entre


2000 e 2004, e concluiu que há muito de errado nas
escolhas das leituras para a disciplina de Língua
Portuguesa. E por isso recomenda ao ministério da
Educação que reformule tudo, ou quase tudo, o que
diz respeito à definição dos programas de leitura para
os adolescentes.

"Sabíamos há muito das reais dificuldades dos


adolescentes perante o acto de ler, mas esta pesquisa
veio esclarecer-nos sobre a situação. Concluímos que
num razoável número de casos a leitura precária se
deve ao facto de não existir, antecipadamente, uma
correcta selecção dos livros que chegam à mão das
crianças e dos adolescentes", refere Maria Gabriela
Silva na obra "Ler e Amar na Adolescência", lançada
no passado mês de Abril pela Livros Horizonte.

Ao JN, a professora de Português, doutorada pela


Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,
salienta "Apercebi-me do descontentamento dos
alunos em face de grande parte das leituras, porque
as consideravam completamente desfasadas dos
seus objectivos e interesses".

"Penso que é necessário constituir-se um grupo de


estudo neste domínio que parta de uma avaliação
baseada na sensibilidade e na cultura geral dos
adolescentes, que englobe professores, pediatras,
sociólogos, psicólogos e ou psiquiatras", sublinha. Ou
seja, a escolha das obras de leitura obrigatória não

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pode ser deixada apenas aos professores de


Português.

O estudo, refere por seu lado o psiquiatra Daniel


Sampaio no prefácio ao livro, "propõe uma ruptura
com o modelo tradicional de encarar as leituras
obrigatórias - tantas vezes apenas um exercício
apressado de consulta a resumos de má qualidade".

Por isso, Gabriela Silva vai ao ponto de equacionar


mesmo a hipótese de o ministério da Educação
implementar uma nova disciplina nos currículos
escolares - a Literatura de Afectos. "Tratar-se-á de
uma área de trabalho específica, vocacionada para o
tratamento dos afectos, a partir da literatura". O
objectivo é "antes de mais que eles tenham o gosto
pelo livro, a partir de uma relação de afecto, por via de
histórias em que haja uma ligação ao "Eu" de cada
um".

Para o trabalho, a docente releu os programas de


Português dos 10º, 11º e 12º anos, em particular as
obras de leitura obrigatória, em vigor desde 1993
(algumas modificações foram, entretanto,
introduzidas) e elaborou inquéritos à população
estudantil do ensino secundário nas escolas do
continente.

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