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Neurotransmissão

química
Psicofarmacologia 2014
Helena Espírito Santo

1

Neurotransmissão

•Anatomia
Anatomia:

neurónio e sinapses

Unidirecional
Pré e pós ≠

2

Dendrites

Corpo celular

Neurónio
Estrutura geral

Axónio

Espinhas
dendríticas

Terminais
axónicos présinápticos de
passagem

Terminais axónicos
pré-sinápticos
3

Espinhas
dendríticas

Árvore
dendrítica
Vesículas
sinápticas

Espinha

Sinapses
Tipos

Sinapse
axodendrítica

Densidade
pós-sináptica

Sinapse
axosomática

Sinapse
axoaxónica
Axónio

Sinapse
axoaxónica
(terminal)

Dendrite póssináptica

4

Neurotransmissão

• Química: codificação, descodificação, transdução,
Química

envio

5

Neurotransmissão
sináptica clássica

Receção
Hormona
Droga
Luz
Integração
química
codificação
Codifica
ção
elétrica

Impulso nervoso
Neurotransmissor

Propaga
ção do
sinal

Receção de estímulos
Mudança de canais iónicos

Transdu
ção do
sinal
Neurotransmissor

Mudança de polaridade
Impulso elétrico
Libertação de NT

6

Neurónio présináptico

Mitocôndria

Sinapse
Estrutura especializada que
permite a NT

Fenda
Vesículas
libertando sináptica
NT
Neurónio
pós-sináptico

7

Neurotrans
missão


O potencial de ação
invade o terminal sináptico


O NT é sintetizado e
armazenado nas
vesículas

ETAPAS

A despolarização do
terminal sináptico provoca
abertura dos canais
iónicos do Ca2+

SÍNTESE

-

Influxo do Ca2+
através dos

LIBERTAÇÃO DO
NEUROTRANSMISSOR
AÇÃO NO RECETOR
Pós-sináptico
Despolarização
Hiperpolarização
Outra reação química
Pré-sináptico (auto-recetor)
DESATIVAÇÃO DO RECETOR
Difusão para a fenda sináptica
Degradação por enzimas da fenda
sináptica
Recaptação por transportadores
proteicos — posterior re-integração
em vesículas / degradação por
enzimas (MAO)
Degradação por enzimas de células
gliais


Ca2+ conjuga-se

O
com a
calmodulina, provocando a
fusão das vesículas com a
membrana présináptica

Vesícula
sináptica
Neurotrans
missor (NT)


Recuperação da
membrana vesicular a
partir da membrana
neuronal


O NT é libertado para a
fenda sináptica por
Ao longo da
dendrite

NT

Iões


A corrente pós-sináptica provoca um
potencial pós-sináptico excitatório ou
inibitório que muda a excitabilidade
do neurónio

Recetor


Abertura ou fecho dos
canais póssinápticos

Fluxo de corrente
pós-sináptica

O NT liga-se às
moléculas recetoras
na membrana
pós-

8

A produção de neurotransmissores, a partir dos seus precursores, ocorre na presença de enzimas específicas, à custa de energia fornecida pelo ATP.
Daí a presença de mitocôndrias que são as responsáveis pela produção de ATP.
Uma vez na fenda sináptica, as moléculas de neurotransmissor contactam os locais recetores que se situam na membrana pós-sináptica e também
na pré-sináptica. Esses recetores têm uma estrutura molecular específica que lhes permite reconhecer a molécula do transmissor, tal como a
fechadura só funciona com uma chave particular. A combinação do neurotransmissor com os recetores da membrana pós-sináptica produz uma
alteração da sua configuração espacial ou uma deformação do recetor. Essa alteração conformacional pode conduzir a três tipos de mudanças:
1. o recetor abre os canais de sódio, modificando a polaridade eléctrica da membrana.
2. ativam-se enzimas formadoras de mensageiros químicos no citoplasma do neurónio pós-sináptico que, por sua vez, provocam alterações mais
lentas e persistentes das propriedades eléctricas da membrana neuronal.
3. modifica-se a velocidade de reações químicas no citoplasma do neurónio, alterando o seu funcionamento.

Neurotransmissores

Serotonina
Noradrenalina

N
H
C

Dopamina
O2

Acetilcolina

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Critérios de definição
1. Presente no neurónio pré-sináptico
2. Libertação em resposta à despolarização pré-sináptica e libertação cálcio-dependente
3. Existência de recetores específicos na célula alvo (pós-sináptico)
4. Drogas antagonistas impedem a transmissão do impulso
5. Desativação depois da ação
6. Os mesmos efeitos devem ser produzidos quando se coloca o NT em contacto com a célula alvo.
Vídeo 1. Estrutura molecular da dopamina determinada por cristalografia de Raios X. A verde estão representados os átomos de carbono, a
vermelho os de oxigénio, a branco os de hidrogénio e a azul o azoto (© Rodrigues, J., 2013).

Neurotransmissores
NT de Pequena Molécula (dieta)

Acetilcolina

Aminas


Noradrenalina
Adrenalina
Serotonina
Dopamina

Aminoácidos
Glutamato
Ácido γ-aminobutírico (GABA)
Glicina
Histamina

Peptídeos transmissores (DNA)

Opióides
Encefalina
Endorfinas
Dinorfina

Neurohipofisários
Vasopressina

Oxitocina

Secretinas
Insulina
Substância P
Insulina
VIP
Neuropeptídeo-Y

Gases transmissores
Óxido nítrico
Monóxido de carbono
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O neuropeptídeo Y é produzido na medula suprarrenal, tem como função ajudar a contrair os vasos sanguíneos. O VIP — Polipeptídeo Intestinal Vasoativo.
A substância P foi descrita em 1931 como um fator presente no cérebro e intestinos que estimulava o músculo liso e reduzia a tensão arterial. A sua
designação deriva do facto de manter a sua atividade mesmo após a evaporação quando se transforma em pó. Em 1951 a SP foi encontrada em elevadas
concentrações nas raízes nervosas dorsais da medula espinhal, sugerindo estar envolvida na percepção da dor. Sabe-se hoje que atua principalmente como
neurotransmissor na transmissão de impulsos dolorosos de recetores periféricos até ao SNC, agindo também no músculo liso, no endotélio, nas glândulas
exócrinas e em células do sistema imunitário.
A oxitocina é um nonapeptídeo sintetizado nos núcleos paraventricular e supraótico do hipotálamo. Quando libertada perifericamente pela neurohipófise, atua
como uma hormona e promove a libertação do leite durante a lactação e a contração uterina no parto. No entanto, quando libertada centralmente, age como
um neurotransmissor ou neuromodulador de diversos processos, tal como na modulação da ansiedade e na regulação das respostas neuroendócrina e
cardiovascular.

Acetilcolina — Ach
Acetil co-enzima A

Colina

Cadeia de síntese

Acetato
Colina acetiltransferase

Acetilcolina
Acetilcolinesterase

Colina

Acetilcolina

Acetato

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Sistema Colinérgico
ACETILCOLINA (Ach)

Tálamo

•Papel no parassimpático em
complementaridade com NA
•Papel no movimento voluntário,
na memória, aprendizagem e
raciocínio
•Desregulação: relação com
doença de Alzheimer
•Recetores:
• Muscarínico(M1-5)
• Nicotínico (ionotrópico)

Núcleo basal
de Meynert
Núcleo do septo
mediano
Hipocampo

Complexo
pontomesencéfalotegmental

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A acetilcolina é um éster e é o único neurotransmissor desta classe. Foi descoberta no hipocampo (daí supor-se que está envolvida na memória). A
ACh foi isolada pela primeira vez em 1914 por Otto Loewi, um fisiologista alemão que ganhou o Nobel em 1936. Loewi demonstrou que a ACh é
libertada quando o nervo vago é estimulado, causando a diminuição dos batimentos cardíacos. É um neurotransmissor em muitos vertebrados, e,
nos humanos, está associado aos processos de memória e aprendizagem. Ela encontra-se em vários sítios por todo o corpo, onde excita o SNP,
provocando a contração dos músculos esqueléticos.

Catecolaminas
Cadeia de síntese
Fenilalanina
Tirosina
L-dopa
Doença de
Parkinson

MAO
(pré-sináptico
Recaptação I)
COMT
(pós-sináptico
Recaptação II)

Fenilalanina hidroxilase
(fígado)
Tirosina hidroxilase
(nervo)

Fator
Limitador
D
de Velocidade

Dopamina β-hidroxilase
(nervo)

Dopamina
Nora-adrenalina

Feniletanolamino-N-metiltransferase
(medula supra-renal e cérebro)

Adrenalina
13

A noradrenalina pode ser recaptada pelo neurónio pré-sináptico (1ª recaptação) e aí ser, quer armazenada em vesículas prontas para ser novamente
libertadas, quer destruída pela monoamina oxidase intramitocondrial (MAO). A noradrenalina pode também ser recaptada pelo neurónio póssináptico ou por outros tecidos (depois de difundir-se na circulação — 2ª recaptação). A noradrenalina é então degradada pela catecol-Ortometiltransferase (COMT)

Sistema Dopaminérgico
DOPAMINA (DA)

Controlo do comportamento motor

Défice na doença de Parkinson

Papel na regulação das emoções e
na atenção

Excesso: relação com sintomas
positivos e negativos da
esquizofrenia

Recetores: D1; D2; D3; D4; D5.
(metabotrópicos)

Núcleo
Caudado

Substância Nigra
Área tegmental ventral

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A dopamina, para além de ser um precursor para a síntese da noradrenalina, atua como um neurotransmissor em certas sinapses, regulando canais
de potássio e cálcio na membrana pós-sináptica. Distúrbios nestas sinapses estão relacionados com a doença de Parkinson e a esquizofrenia.

Sistema Dopaminérgico
Tratos principais

Gânglios
da base

Tracto Nigroestriado

Córtex préfrontal

Sistema mesolímbicocortical

Área tegmental ventral
Substância
Nigra
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Sistema Noradrenérgico
NORADRENALINA (NA)

Papel na regulação das emoções, da
atenção, da energia/fadiga regulação
do ritmo sono-vigília

Controlo dos movimentos

Défice: relação com sintomas de
depressão

Excesso: relação com mania

Recetores: α1; α2 β1; β2; β3.
(metabotrópicos)

Neocórtex
Tálamo

Temporal
Hipotálamo

Cerebelo

Locus
Coeruleus
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Síntese de noradrenalina: A tirosina é transportada por um transportador acoplado ao Na+ para dentro do neurónio adrenérgico, onde é hidroxilado para
dihidroxifenilalanina (DOPA) pela tirosina hidroxilase. A DOPA é descarboxilada para formar a dopamina. Armazenamento de noradrenalina em vesículas: A
dopamina é transportada dentro da vesícula sináptica por um sistema de transporte amina que também está envolvido na pré-formação da noradrenalina. ( Este
sistema transportador é bloqueado pela reserpina). A dopamina é hidroxilada para formar a noradrenalina pela enzima dopamina beta-hidroxilase. Na medula da
supra-renal, a noradrenalina é metilada para produzir adrenalina; ambas são armazenadas na células cromafinas. A estimulação na medula da supra-renal libera
85% adrenalina e 15% noradrenalina. Libertação da noradrenalina: Com um aumento da passagem de Iões de Cálcio para o citoplasma do neurónio ocorre
exocitose das vesículas, libertando o seu conteúdo para a fenda sináptica. (Esta libertação é bloqueada pela droga guanitidina). Ligação com o recetor: A
noradrenalina liga-se ao recetor pós-sináptico ou ao recetor pré-sináptico do nervo terminal. O reconhecimento da noradrenalina pelo recetor de membrana leva
a um evento em cascata dentro da célula, resultando na formação do segundo mensageiro intracelular. Os recetores adrenérgicos usam, quer o sistema de
segundo mensageiro (AMPc), quer o ciclo do fosfoinositol para transmitir o sinal. Remoção da noradrenalina : pode se dar por três caminhos: 1) Difunde-se fora
do espaço sináptico e entra na circulação. 2) é metabolizada pela O-metilase derivada da membrana da célula pós-sináptica associada a catecol Ometiltransferase (COMT) no espaço sináptico. 3) é capturada pelo sistema uptake que puxa a noradrenalina para dentro do neurónio (pela ativação da SódioPotássio ATPase, que pode ser inibida por antidepressivos, como a imipramina, ou pela cocaína). Destinos Potenciais da recaptação da noradrenalina: Depois
de reentrar no citoplasma do neurónio adrenérgico, a noradrenalina pode ocupar-se de uma vesícula adrenérgica, via sistema amino-transporte, e ser
sequestrada para libertação de uma outra ação potencial ou persistir na proteção. Alternativamente, a noradrenalina pode ser oxidada pela monoamina-oxidase
(MAO) presente na mitocôndria neuronal. Os produtos inativos do metabolismo da noradrenalina são excretados na urina como o ácido vanilimandélico (VMA),
metanefrina e normetanefrina.

Serotonina - 5-HTP
Triptofano
hidroxilase

Triptofano

5-hidroxitriptofano

5-HTP
Descarboxilase

5-hidroxitriptamina
(Serotonina)

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A serotonina parece ser um dos mais importantes neurotransmissores: alterações no nível de 5-HT estão relacionadas com variações em padrões
de comportamento, como o sono, os impulsos sexuais, humor, entre outros. Além do cérebro, está presente em vários órgãos no corpo humano e é
um potente vasoconstrictor.

Sistema Serotoninérgico
SEROTONINA (5-HTP)

Papel na regulação do humor, das
emoções e do sono

Défice: relação com sintomas de
depressão

Excesso: NOC, tiques e
esquizofrenia

Psicofarmacologia: Inibidores
selectivos da recaptação da
serotonina (SSIR) e Inibidores das
monoaminoxidases (IMAO)

Recetores: 5HT1A-F; 5HT2A-C
5HT3 (ionotrópico) 5HT4,6,7
5HT5A,B

Neocórtex

Gânglios da base

Tálamo

Temporal
Hipotálamo

Núcleos de
Rafe
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A maioria das células serotoninérgicas (a vermelho) inicia-se no núcleo de rafe. As suas dendrites e corpos celulares situam-se aqui, têm axónios
compridos que se prolongam para todo o cérebro. Os neurónios serotoninérgicos são muito mais densos e têm muitos mais ramos do que os
representados no desenho. São também muito mais compridos do que o que se consegue representar num diagrama. Se esticássemos um axónio
serotoninérgico ele mediria 30 cm. Muitos dos neurónios cerebrais são curtos e circunscrevem-se a regiões cerebrais determinadas (azul). Mas este
não é o caso dos neurónios serotoninérgicos. Não será de admirar, assim, que a serotonina desempenhe um papel tão importante em tantas funções
cerebrais, tais como a regulação do humor, ritmo cardíaco, sono, apetite, dor, entre outras.
A serotonina inibe o sonho?

Interação de aminas
Noradrenalina

Ansiedade
Impulso
Irritabilidade

Alerta
Concentração
Energia
Atenção

Serotonina
Obsessões
e compulsões
Memória

Apetite
Sexo
Agressão

Prazer
Recompensa
Motivação
Dopamina

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Glutamato — Glu

Glutamato

Ciclo de
Krebs

Glutamato
desidrogenase

20

Vários aminoácidos existem em grandes concentrações no cérebro. Como muitos são precursores e/ou metabólitos de muitas reações no cérebro,
é difícil saber se são ou não neurotrasmissores. Alguns, entretanto, possuem comprovadamente neuro-atividade, inibindo ou excitando a membrana
pós-sináptica. São eles o ácido gama-amino-butírico (GABA), a glicina e o glutamato.
O α-cetaglutarato é um subproduto do ciclo de Krebs. Assim, o aminoácido glutamato pode resultar da degradação dos açúcares.

Glutamato e GABA
GLUTAMATO (Glu)
GABA (Ácido gamaamino-butírico)

Papel no suporte à neurotransmissão

Glu: Excitação sináptica no SNC, Papel
na aprendizagem e memória

GABA: maior parte inibição sináptica no
SNC (glicina faz restante)

Recetores de Glu: AMPA E NMDA;
Recetores de GABA: GABAA-C

Pálido

21

AMPA= alfa-amino-3-hidroxi-5-metil-4-ácido isoxazole propiónico
NMDA= N-metill-D-ácido aspártico

Glutamato
Axónio
liberta
glutamato
repetidamente

Molécula de
magnésio
deslocada

Axónio
liberta
glutamato
repetidamente

Mg++

Entra muito
Na+

Entra Na+ e
Ca++
Dendrite muito despolarizada

Entra muito
Na+
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Neuropeptídeos

Endorfinas
Encefalinas

Dinorfina

Histamina
Substância P, VIP
Neuropeptídeo-Y

Vasopressina, oxitocina

Insulina

Opióides cerebrais

Secretinas

Neurohipofisários

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Alguns peptídeos (macromoléculas formadas por uma dada sequência de aminoácidos) são, também, neurotransmissores. A histamina está presente em
neurónios do SNC, mas também em células do epitélio gástrico e nos mastócitos. A histamina regula várias funções a nível periférico e central, como por
exemplo, secreção gástrica, permeabilidade e motilidade vascular, despertar, comportamento sexual, secreção hipofisária, TA e ingestão de líquidos. A
substância P é um dos neurotransmissores que mediam a experiência de dor.  É encontrado em toda a via da dor e sua libertação pode ser bloqueada pela
encefalina. Os neuropeptideos Y e os Polipeptídio YY - NPY e PPYY — são neurotransmissores encontrados no hipotálamo, particularmente no núcleo
paraventricular que se correlacionam com os distúrbios de apetite, podendo levar a excessiva ingestão de comida e armazenamento de gordura.

CANAIS IÓNICOS

RECETORES
IONOTRÓPICOS

CANAIS SENSÍVEIS
À VOLTAGEM

24

p. 52 do Stahl

Apesar de serem apresentados em separado nos slides seguintes, os dois tipos de recetores
atuam em cooperação na neurotransmissão.

Recetores Ionotrópicos
Proteínas formadas por duas partes funcionais: um local de ligação para o
neurotransmissor e um poro que regula o fluxo de iões.

Poro fechado
Ligando

Poro Aberto

Local de ligação
Ião

Extracelular

Intracelular
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Resposta rápida.
Este tipo de canal é um recetor e um canal iónico. A resposta rápida envolve recetores ionotrópicos onde o neurotransmissor se conecta com um
recetor ligado a canal. Quando o neurotransmissor se une ao local de ligação, o recetor muda de forma, quer abrindo o poro e permitindo o fluxo de
Iões por ele, quer fechando o poro e bloqueando tal fluxo. Todos os receptores ligados a canais são canais porteira-de-ligandos. O canal abre-se/
fecha-se, os iões passam/não passam os seus gradientes eletroquímicos, e produzem uma breve mudança no potencial de membrana chamada de
potencial pós-sináptico (PPS). Estes recetores produzem mudanças muito rápidas na voltagem da membrana neuronal.

CANAIS SENSÍVEIS À VOLTAGEM
Canais regulados por voltagem
Aberto

Fechado (inativo)

Tempo
1-2 ms

Sódio

Despolar
ização

Repolari
zação

Cálcio

Tempo
2-5 ms

Fechado (repouso) Fechado (inativo)
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Nem todos os canais iónicos são regulados por neurotransmissores ligantes. A condução no
nervo, os potenciais de ação e a libertação dos neurotransmissores são todos mediados por
canais sensíveis à voltagem. Vários fármacos operam nos canais sensíveis à voltagem do
sódio e do cálcio (os do potássio são menos conhecidos). Ambos os canais têm um “poro”
que é o canal em si mesmo e que permite a passagem do ião sódio.

CANAIS SENSÍVEIS À VOLTAGEM
Subunidade alfa do canal do sódio e do cálcio

Exterior célula

Inativador do poro
Interior célula

27

Estes canais consistem em cadeias longas de amino-ácidos (proteína) com subunidades; quatro delas — a
subunidade alfa (alfa 1 para o canal do cálcio) — estão conectadas formando o poro.

A subunidade alfa

contém seis segmentos transmembranares. O segmento transmembranar 4 (S4) deteta as diferenças através da
membrana e é o segmento mais sensível à voltagem, funcionando como um voltímetro, alertando o resto da
proteína e iniciando as mudanças conformacionais no canal para que ele abra ou feche. Cada subunidade
contém uma ansa amino-acídica entre os segmentos 5 e 6 que serve de “peneira”, permitindo somente a
passagem de iões de sódio (semelhante para o cálcio).
Quatro cópias desta proteína unem-se, formando um canal de sódio sensível à voltagem. Ansas amino-acídicas
citoplasmáticas unem estas quatro subunidades, servindo várias funções no canal de sódio. Um destes
conectores (entre a III e a IV) fecha o canal a partir do interior, mantendo o sódio no exterior da célula (no cálcio
não existe, havendo um conector entre a II e a III, servindo de “laço” que se liga às vesículas sinópticas e
regulando a libertação do neurotransmissor).

CANAIS SENSÍVEIS À VOLTAGEM
Subunidades do canal do sódio

Citoplasma

28

Os canais de sódio sensíveis à voltagem podem ter uma ou mais proteínas reguladoras na área
transmembranar, flanqueando a subunidade alfa (poro). Algumas delas são as subunidades beta que
modificarão as ações da alfa, influenciando a abertura e fecho do canal.
As subunidades alfa e beta poderão conter vários locais onde as drogas, especialmente os fármacos antiepilépticos, atuam.
Há muitos tipos de canais de sódio, mas só agora se está a esclarecer em que áreas cerebrais se localizam e
como atuam os fármacos.
Figura. Arquitetura do canal de sódio epitelial (Jasti, Furukawa, Gonzales e Gouaux, 2007).

Jasti, J., Furukawa, H., Gonzales, E. B. e Gouaux, E. (2007). Structure of acid-sensing ion channel 1 at 1.9 Å resolution and low pH. Nature, 449(7160), 316–322. doi:10.1038/
nature06163

CANAIS SENSÍVEIS À VOLTAGEM
Subunidades do canal do cálcio

Membrana celular

29

No canal do cálcio, a subunidade alfa 1 é flanqueada pelas subunidades beta, gama e alfa-2-delta (esta é o alvo
dos anticonvulsivantes pregabalina e gabapentina). Há vários tipos de canais do cálcio. Alguns associam-se a
recetores do glutamato e nicotínicos, sendo recetores ionotrópicos. Os mais interessantes para farmacologia
são os pré-sinápticos e designados por canais N ou P/Q (regulam a libertação do neurotransmissor). Ainda de
interesse são os L, os R e T.

CANAIS SENSÍVEIS À VOLTAGEM
Complexo proteíco mediador do recrutamento dos canais
do cálcio e acoplamento vesicular
Citoplasma

Vesícula
sináptica

Sinaptotagmina-1

Sinaptobrevina
VAMP

Canal Ca2+

Sintaxina

Fenda sináptica
30

Quando o impulso nervoso atinge o terminal pré-sináptico, o cálcio entra, levando a que as vesículas se fundam
com a membrana, libertando o neurotransmissor para a fenda sináptica.
A neurotransmissão pode então ser impedida por determinados fármacos, o que pode ser desejável para
alguns estados de neurotransmissão excessiva, como a dor, crises epilépticas, mania ou ansiedade.
Figura. Diagrama do complexo de proteínas que medeia o recrutamento dos canais de cálcio e o acoplamento das vesículas nos sítios de
libertação (

Südhof, 2013). As RIM, RIM-BP e Munc13 são proteínas multidomínio que formam um complexo apertado que faz a

mediação de três funções essenciais de zonas ativas: o recrutamento de canais de Ca2+ para permitir o acoplamento forte dos potenciais
de ação a libertar através da localização do influxo de cálcio junto ao sensor de cálcio sinaptotagmina; o acoplamento das vesículas no local
de libertação do neurotransmissor; e o Munc13 dependente da iniciação dos mecanismos de fusão. As esferas representam os iões de
cálcio. Dos domínios apresentados, somente os domínios C2 de ligação pelo cálcio são expressamente indicados.
Südhof, T. C. (2013). A molecular machine for neurotransmitter release: synaptotagmin and beyond. Nature Medicine, 19, 1227-1231. doi:10.1038/nm.3338

Recetores Metabotrópicos
Recetor ligado à proteína G (proteína de ligação de nucleótido guanina)

NT liga-se a
recetor

Canal iónico

Recetor metabotrópico

Ativa a
proteína
G

Proteína G

Abre ou fecha os
canais iónicos

Recetor metabotrópico acoplado a um canal iónico
31

Resposta lenta, acoplamento direto.
As respostas lentas atuam desencadeando alterações bioquímicas através recetores ligados à proteína G. Estes são chamados recetores
metabotrópicos.
A ativação da proteína G pode abrir ou fechar um canal iónico. O efeito final depende do tipo de canal iónico. Se o resultado for uma despolarização,
a resposta é de excitação; se o resultado for uma hiperpolarização o efeito é de inibição.

Recetores Metabotrópicos
NT (1º mensageiro) liga-se a
recetor
Recetor metabotrópico

Enzima

Recetor ligado à
proteína G (proteína de
ligação de nucleótido
guanina)

Ativa a
proteína G

Recetor metabotrópico
acoplado a um enzima

Ativa ou
inibe
enzima

Produz 2º
mensagei
ro
Segundo
mensageiro

Abre ou
fecha
canais
iónicos

Produz outras
respostas celulares
32

Resposta lenta, acoplamento direto.
O Neurotransmissor é o primeiro mensageiro. Na figura é representado um recetor muscarínico colinérgico. A proteína G ou pode ser diretamente
acoplada a um canal iónico ou pode desencadear a ativação ou inibição por meio de um sistema de mensageiro secundário. A duração da resposta
pode variar de horas a mseg.