Aspectos sobre o desenvolvimento da fitoterapia1

Angelo Giovani Rodrigues Ana Cláudia Fernandes Amaral
A utilizacao da natureza para fins terapeuticos e tao antiga quanto a civilizacao humana e, por muito
tempo, produtos minerais, de plantas e animais foram fundamentais para a área da saude. Historicamente,
as plantas medicinais sao importantes como fitoterápicos e na descoberta de novos fármacos, estando no
reino vegetal a maior contribuicao de medicamentos.
O termo fitoterapia foi dado a terapeutica que utiliza os medicamentos cujos constituintes ativos sao
plantas ou derivados vegetais, e que tem a sua origem no conhecimento e no uso popular. As plantas
utilizadas para esse fim sao tradicionalmente denominadas medicinais (DE PASQUALE, 1984). A terapia
com medicamentos de especies vegetais e relatada em sistemas de medicinas milenares em todo o mundo,
por exemplo, na medicina chinesa, tibetana ou indiana-ayurvedica.
A ayurveda (medicina tradicional indiana) e, talvez, mais antiga do que todas as tradicoes
medicinais e do que a medicina tradicional chinesa. As civilizacoes da China e da India estavam florescendo
e já possuiam inumeros escritos sobre plantas medicinais, enquanto modestas culturas sofisticadas
comecavam a se desenvolver na Europa. O lendário imperador Shen Nung discutiu plantas medicinais em
suas obras, as quais, pela medicina tradicional chinesa, foram sistematizadas e escritas entre 100 e 200
a.C. A referencia mais completa sobre prescricao de ervas chinesas e a enciclopedia chinesa Modern Day,
de materia medica publicada em 1977. Essa obra lista quase 6.000 medicamentos, dos quais 4.800 sao de
origem vegetal.
Como em outras culturas de cura, receitas tradicionais sao usadas preferencialmente contra as
doencas cronicas, enquanto as doencas graves ou agudas sao curadas por medicamentos ocidentais. A
difusao da medicina tradicional chinesa, na maioria dos continentes, sem duvida contribuiu para a
popularidade atual dos medicamentos fitoterápicos em todo o mundo. Exemplos de ervas medicinais
chinesas famosas sao Angelica polymorpha var. sinensis (Danggui, Dongquai), Artemisia annua (qing ha),
Ephedra sinica (ma huang), Paeonia lactiflora (Bai shao yao), Panax ginseng (ren shen) e Rheum palmatum
(da huang) (ALONSO, 1998; CARNEIRO, 2001).
Na historia do Brasil, há registros de que os primeiros medicos portugueses que vieram para cá,
diante da escassez na colonia de remedios empregados na Europa, muito cedo foram obrigados a perceber
a importancia dos remedios de origem vegetal utilizados pelos povos indigenas. Os viajantes sempre se
abasteciam deles antes de excursionarem por regioes pouco conhecidas. As grandes navegacoes
trouxeram a descoberta de novos continentes, legando ao mundo moderno um grande arsenal terapeutico
de origem vegetal ate hoje indispensável a medicina. Dentro da biodiversidade brasileira, alguns exemplos
importantes de plantas medicinais sao: Ilex paraguariensis (mate), Myroxylon balsamum (bálsamo de Tolu),
Paullinia cupana (guaraná), Psidium guajava (guava), Spilanthes acmella (jambu), Tabebuia sp. (lapacho),
Uncaria tomentosa (unha-de-gato), Copaifera sp.(copaiba) (GURIB-FAKIM, 2006).

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Recorte do Cadernos de Atenção Básica, MS, Práticas Integrativas e Complementares: Plantas medicinais e
fitoterapia na Atenção Básica, p. 13-17.

há relatos de investigacao de apenas 0. no conteudo quimico e toxicidade. o Pais representa o decimo mercado farmaceutico mundial e importa cerca de 100% de materia-prima utilizada na producao de fitoterápicos (ADAME. 2005). tais como o cancer (KINGHORN. dos fitoterápicos registrados na Anvisa. A abordagem das plantas medicinais. a partir da adocao por sociedades autoctones de tradicao oral. Apesar da rica biodiversidade.1996 apud RODRIGUES et al. essa percentagem pode ser maior que 60% (WHO. principalmente por meio da aplicacao de tecnologias modernas ao conhecimento tradicional. conhecida como etnofarmacologia. com cerca de 55 mil especies de plantas. na selecao ao acaso ou pela combinacao de vários criterios. como medicamentos antitumorais e antimicrobianos. Estima-se que pelo menos 25% de todos os medicamentos modernos sao derivados diretamente ou indiretamente de plantas medicinais. apenas pequena percentagem tem sido investigada fitoquimicamente. o que demonstra necessidade de investimentos em pesquisas com especies da flora nacional (MIOTO. de maneira complementar. evitando perdas economicas e de tempo e demonstrando que e possivel planejar a pesquisa a partir do conhecimento tradicional sobre plantas medicinais. o Brasil tem hoje um fitoterápico baseado na flora brasileira. segundo a consultoria Analize and Realize. No caso de certas classes de produtos farmaceuticos. nas quais. JACCOUD. fitoquimicos e agronomicos sobre elas. BALUNAS. COBRA. paradoxalmente ao potencial e oportunidades que oferece – como o parque cientifico e tecnologico para o desenvolvimento de fármacos –. Em relacao ao uso medico. KINGHORN. 2003. nao existem dados oficiais sobre o tamanho desse mercado brasileiro. estimando. A alopatia moderna aponta geralmente para o desenvolvimento de uma unica substancia patenteável que irá tratar circunstancias especificas.. animais e micro-organismos. existem apenas estudos preliminares. Apesar disso e de toda a diversidade de especies existentes. em muitos casos. pode ser util na elaboracao de estudos farmacologicos. A selecao de especies vegetais para estudo farmacologico pode ser baseada no seu uso tradicional por sociedades tradicionais.A magnitude da biodiversidade brasileira – conjunto de todos os seres vivos com a sua variabilidade genetica integral – nao e conhecida com precisao tal a sua complexidade. consagrado pelo uso continuo nas sociedades tradicionais (AMOROZO. 2006). 1997). uma pequena parte e oriunda de especies nativas. Alem disso. e as estimativas variam entre US$ 350 milhoes e US$ 550 milhoes. Na maioria das sociedades de hoje. estima-se que apenas 5 mil especies foram estudadas (RATES. Isso coloca o Brasil como detentor da maior diversidade biologica do mundo (WILSON. 2002). o potencial de uso de plantas como fonte de novos medicamentos e ainda pouco explorado. onde todas as fases de desenvolvimento ocorreram em territorio nacional e. 2001). fato que ocorre tambem em relacao as propriedades farmacologicas. Uma das estrategias mais comuns e o estudo da medicina tradicional e/ou popular em diferentes culturas. 2005). 2010). Segundo a Associacao Brasileira de Empresas do Setor Fitoterápico. 2011). Entre as 250 mil e 500 mil especies de plantas estimadas no mundo. que atende algumas das maiores industrias farmaceuticas do mundo. Já o mercado mundial de fitoterápicos movimenta hoje cerca de US$ 44 bilhoes.se mais de dois milhoes de especies distintas de plantas. No Brasil. A medicina tradicional visa a frequentemente restaurar o equilibrio usando plantas quimicamente complexas ou misturando diversas plantas diferentes a fim de maximizar um efeito sinergetico ou melhorar a probabilidade de . Estrategias de busca de medicamentos com base nessa linha de atuacao tem sido aplicadas no tratamento de diferentes doencas.4% da flora (GURIB-FAKIM. os sistemas alopáticos e tradicionais da medicina ocorrem lado a lado.

Esse tipo de tratamento e extremamente importante para os paises em desenvolvimento. No SUS. 2011). De forma semelhante no Brasil. os principios e diretrizes do SUS. como fitoterápicos (extratos padronizados e formulados de plantas) e como alternativa popular aos produtos medicinais alopáticos (GURIB-FAKIM. como chás ou decoccoes. Nesses paises. 2010). Em alguns paises industrializados. Franca. as especies de plantas medicinais disponibilizadas. com diretrizes e linhas de acao para “Plantas Medicinais e Fitoterapia no SUS”. Alguns Estados/municipios já com muitos anos de existencia possuem politicas e legislacao especifica para o servico de fitoterapia no SUS e laboratorios de producao. as acoes/programas com plantas medicinais e fitoterapia. SANTOS. quilombola. os servicos disponibilizam plantas medicinais em uma ou mais das seguintes formas: planta medicinal in natura. e a “Politica Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos”. Essas politicas foram formuladas em consonancia com as recomendacoes da OMS.interacao com um alvo molecular relevante. o potencial e oportunidades que o Brasil oferece para o desenvolvimento do setor. por meio de vários comunicados e resolucoes. DE SIMONI. a solidariedade e a participacao social (RODRIGUES. onde 70% a 90% de sua populacao tem usado esses recursos da medicina tradicional sobre a denominacao de complementar. SANTOS. onde as plantas medicinais sao amplamente utilizadas na Atencao Primária a Saude (APS). E uma prática que incentiva o desenvolvimento comunitário. distribuidos em todas as regioes do Pais. planta medicinal seca (droga vegetal). DE SIMONI. com relacao aos produtos e servicos oferecidos e. 2011). na atencao básica. Atualmente. assim como ao desenvolvimento da cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos (RODRIGUES. . considerando as plantas medicinais como importantes instrumentos da assistencia farmaceutica. expressa sua posicao a respeito da necessidade de valorizar a sua utilizacao no ambito sanitário ao observar que 70% a 90% da populacao nos paises em vias de desenvolvimento depende delas no que se refere a Atencao Primária a Saude (WHO. em virtude dos diferentes biomas. ocorrem de maneira diferenciada. alternativa ou nao convencional (WHO. entre outros povos e comunidades tradicionais. como o Canadá. a demanda da populacao brasileira pela oferta dos produtos e servicos na rede publica e pela necessidade de normatizacao das experiencias existentes no SUS. orientada pelos principios e diretrizes do Sistema Unico de Saude (SUS). 2011). 1993. cerca de 82% da populacao brasileira utiliza produtos a base de plantas medicinais nos seus cuidados com a saude. como prática de cunho cientifico. de transmissao oral entre geracoes. A Organizacao Mundial da Saude (OMS). com abrangencia da cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos. disponibilizando plantas medicinais e/ou seus derivados. ou nos sistemas oficiais de saude. Muitos foram os avancos nas ultimas decadas com a formulacao e implementacao de politicas publicas. alem de publicacoes para profissionais de saude e populacao sobre uso racional desses produtos. o uso de produtos da medicina tradicional e igualmente significante. principalmente. 2006). fitoterápico manipulado e fitoterápico industrializado (RODRIGUES. seja pelo conhecimento tradicional na medicina tradicional indigena. seja pelo uso popular na medicina popular. 2006). os principais instrumentos norteadores para o desenvolvimento das acoes/programas com plantas medicinais e fitoterapia sao: a Politica Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. elas sao utilizadas na forma bruta (nao processadas). prioritariamente. Quanto aos produtos. Alemanha e Itália. AMARAL. programas e legislacao com vistas a valoracao e valorizacao das plantas medicinais e derivados nos cuidados primários com a saude e sua insercao na rede publica.

Aprovacao do Programa Nacional e instituicao do Comite Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. por meio da Farmacopeia Brasileira. .Essas politicas nacionais tem convergencia e sintonia com outras. de Biodiversidade e a Politica Industrial Tecnologica e de Comercio Exterior. da ampliacao da oferta de servicos e produtos na rede publica. de Povos e Comunidades Tradicionais. a revisao das monografias de plantas medicinais. de Educacao Permanente. pelo Ministerio da Saude. para que os usuários do Sistema tenham acesso a servicos e a esses produtos com qualidade. . da formacao/qualificacao de profissionais de saude. como a RDC no 10/2010. de Assistencia Farmaceutica.Instituicao da Farmácia Viva no ambito do SUS. as politicas nacionais sao imprescindiveis e estabelecem estrategicamente o fortalecimento e desenvolvimento de toda a cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos. . Diante dos avancos e do potencial do nosso pais para o crescimento do setor. . geracao de emprego e renda. entre outros. promoveu ampla revisao das legislacoes para o setor. ampliacao das opcoes terapeuticas aos usuários do SUS. sendo importantes para vários segmentos desde as Farmácias Vivas ate o industrial. . baseada nas diretrizes das politicas nacionais. a Anvisa. . fortalecimento da agricultura familiar. . As acoes decorrentes sao imprescindiveis para a melhoria da atencao a saude da populacao.Instituicao de grupos tecnicos para definicao de normas e produtos para o SUS. eficácia e seguranca. Com certeza. . da ampliacao do investimento em Pesquisa & Desenvolvimento.Inclusao do tema na Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa em Saude e na Rede de Pesquisas em Atencao Primária a Saude. ficam os desafios da alocacao de recursos especificos para o desenvolvimento das acoes dessas politicas. uso sustentável da biodiversidade brasileira. como a Politica Nacional de Saude. da definicao de normas especificas para o servico no SUS. de Atencao Básica.Ampliacao da oferta de servicos e produtos da fitoterapia na rede publica. assim como promoveu. todas essas normas apresentam avanco no setor de regulamentacao brasileiro. inclusao social e regional.Aprovacao de politicas e programas estaduais e municipais. elaborou novas normas.Inclusao de oito fitoterápicos no Elenco de Referencia Nacional de Medicamentos e Insumos Complementares para a assistencia farmaceutica na atencao básica.Publicacao da Relacao Nacional de Plantas Medicinais de Interesse para o SUS (RENISUS) como estrategia para priorizar a alocacao de recursos e pesquisas em uma lista positiva de especies vegetais medicinais com vistas ao desenvolvimento de fitoterápicos. Nesse sentido. Outros avancos oriundos da inducao das politicas nacionais que merecem destaque sao: . desenvolvimento industrial e tecnologico. que dispoe sobre a notificacao de drogas vegetais. em parceria com outros orgaos de fomento. No que diz respeito a legislacao do setor.Incentivo a pesquisa e desenvolvimento de plantas medicinais e fitoterápicos. .

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