Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178

Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420
23 e 24 de setembro de 2014

CRISE E LIMITE: ENTRE LEONARDO BOFF E IGNÁCIO MARTÍNBARÓ
Lucian Borges de Oliveira
Faculdade de Psicologia
Centro de Ciências da Vida
lucian.bo@puccampinas.edu.br
RESUMO: Este trabalho toma como fundamento a
Psicologia Social da Libertação e pretende constituirse com um estudo piloto ao propor a reflexão sobre
os conceitos de crise e situação-limite, discutidos,
respectivamente por Leonardo Boff e Ignácio MartínBaró. Para isso, propomos a leitura de textos de
cada um destes autores: Crise – oportunidade de
crescimento de Leonardo Boff e Guerra y Trauma
Psicosocial Del niño Salvadoreño e Guerra y salud
mental de Ignácio Martín - Baró. O confronto entre
estas leituras tem o objetivo de explicitar as semelhanças, divergências ou possíveis correspondências
entre os conceitos de situação-limite e crise a partir
do paradigma da Libertação. Diante disso, propõe-se
uma ampliação do conceito de situação-limite tratado
por Ignácio Martín-Baró. Assim, espera-se sinalizar a
importância de um avanço no sentido da compreensão dos conceitos que surgem no interior desta concepção teórica para a Psicologia que atua em diferentes espaços.
Palavras-chave: Crise, Situação- Limite, Psicologia
Social da Libertação
Área do Conhecimento: Ciências humanas– Psicologia Social
INTRODUÇÃO
1.1 Localizações do surgimento do presente trabalho
Tomamos a Psicologia Social da Libertação como
um conjunto de proposições teóricas construídas a
partir da prática que nos permite investigar os processos de desenvolvimento dos sujeitos na interface
entre a Psicologia, a Educação e a Comunidade. Ao
fazer isso, estamos resgatando a práxis como sentido da crítica e configurando nossas ações a partir de
uma posição que priorize a libertação como horizonte
prático e, assim, filosófico e político. Por isso, resgatar os autores que constroem suas propostas teóricas a partir desta posição implica em desvelar novas
possibilidades para a Psicologia que se pretende
libertadora. Nesse sentido, deve-se considerar as
elaborações teóricas que não foram produzidas no
interior da Psicologia, mas que são complementares

Grupo de Pesquisa Avaliação e Intervenção
Psicossocial: Prevenção, Comunidade e Libertação
Centro de Ciências da vida
rguzzo@puc-campinas.edu.br

a ela, agregando elementos importantes para uma
discussão orientada pelos princípios da libertação.
[6] explica bem essa afirmação:
“A Teologia da Libertação inspirou-se muito, em sua
elaboração, no livro do Êxodo, que narra à libertação
do povo judeu do domínio dos Faraós. A construção
teórica foi feita com base em uma história acontecida, de uma prática realizada” (p.57).
O que nos interessa dessa afirmação, é ver que o
conceito de Libertação foi inspirado a partir de uma
experiência e de uma prática concreta. Ele foi utilizado para significar um momento político concreto e
uma situação da realidade latino-americana de concreta opressão que, historicamente, tem impedido o
homem latino-americano de ser pessoa em todos os
sentidos [4].
A América Latina é marcada por um processo histórico de desconsideração, repressão e alienação do
conhecimento produzido. Diante da situação de subdesenvolvimento e capitalismo dependente, a América Latina é colonizada em todas as dimensões, inclusive na do conhecimento, onde predominam os
esquemas europeus e norte-americanos. Sendo assim, esses modelos não respondem à realidade e
aos problemas do homem latino-americano [15].
Nessa situação, concreta e objetiva, surge e se contextualiza o Paradigma da Libertação, como movimento de crítica e proposta de construção de práticas políticas e profissionais que rompam com a condição de opressão e subjugação dos sujeitos.
O Paradigma da Libertação inspirou diferentes áreas,
como por exemplo, a Teologia da Libertação, que
tem como seus principais expoentes Leonardo Boff;
a Filosofia da Libertação de Enrique Dussel e Ignácio
Ellacuría; a Pedagogia, muito bem representada por
Paulo Freire; a Sociologia de Orlando Fals Borda; a
literatura de Gabriel Garcia Márquez; a Economia, de
Enzo Falleto e a Psicologia, de Ignácio Martín-Baró
[18]. O Paradigma da Libertação, portanto, inspira
todas as áreas do conhecimento apontadas anteriormente, como um conjunto de princípios e pressupostos caracterizado por aspectos epistemológicos,
metodológicos e ontológicos específicos.

para o interior da Psicologia. A emergência da categoria Libertação exigiu mudanças em vários aspectos e introduziu novos elementos na constituição das ciências que as identificaram como ciências autenticamente latino-americanas. Esta escolha se justifica em razão do nosso interesse de contribuir com a elucidação de conceitos caros aos estudos sobre desenvolvimento humano conduzidos pela Psicologia. ciências que partem e se direcionam para a América Latina. especificamente. transformá-las. nas relações de opressão e. assim. esperamos contribuir com a recuperação. Apesar do grande leque de áreas do conhecimento que compõe o Paradigma da Libertação. metodológicos e ontológicos para a fundamentação da prática do psicólogo em contextos diversos. escolher um lado. toda ação é uma ação ética. mas as duas ações são ações éticas. que nos prejudica ou prejudica os grupos [6]. isso implica em tomar partido. Estes debates por vezes dicotomizaram as compreensões sobre saúde e doença no interior da ciência psicológica [7. um sujeito histórico. Quando se fala em libertação. Confrontando os conceitos de situação-limite e crise construídos no interior do Paradigma da Libertação pretendemos ampliar os seus sentidos epistemológicos. Outra dimensão epistemológica. sujeito e objeto ocupam a mesma posição. no presente trabalho nos dedicaremos à Psicologia da Libertação de Ignácio Martín-Baró e. Como um estudo piloto de caráter teórico. o paradigma da Libertação propõe um modelo de homem. Trata-se de assumir o enfoque dialético em contraposição aos reducionismos e às dicotomias [2]. no qual havia uma situação de indignidade.Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 O aspecto epistemológico consiste na dimensão relacional como superação da dicotomia individualsocial. o Paradigma da Libertação propõe-se a balançar as estruturas . O que existe é acompanhar o fluxo da maré ou remar contra ela. Quanto ao aspecto metodológico. de mortalidade infantil. é um sujeito que é agente da sua própria vida. Mas isso é impossível. segundo [6]. libertar-se de que? Isto é. de dominação e de subdesenvolvimento. pois. a libertação aos povos que estavam e estão nessas condições. que agride o ser humano [6]. ao mencioná-lo sinalizamos a direção do que pretendemos propor. nos debruçaremos sobre o conceito de “situação-limite” desenvolvido por ele. a partir da modernidade. de acordo com a realidade da América Latina. Acerca disso [13]: “que no sean los conceptos los que convoquen la realidad. faz-se necessária uma metodologia que acompanhe o ritmo dessas transformações da realidade [4]. No ocidente. de desespero. “é imprescindível rechaçar a importação mecânica de conceitos e teorias formulados em outras sociedades diferentes das latino-americanas.12). ou seja. uma posição diante de uma concepção de mundo. da realidade de injustiça. o que fica mais em evidencia quando se opta por esse lado. 13]. Sendo assim. toda ação tem um conteúdo ético [6]. em uma relação dialética de influência mútua. é a imprescindibilidade da dimensão ética. mexer nas relações de poder e de dominação. Finalmente. diante de uma relação com a realidade dinâmica e dialética.314). que como trata [12]. concepções psicológicas debatem o conteúdo e o sentido do processo de desenvolvimento humano a partir dos limites ou crises que o circusntanciam. No entanto. dar manutenção a ordem ou transformá-la [15]. de subdesenvolvimento. logo se remete a pergunta. sino que sean esos problemas que lós que reclamen y por así decirlo. às quais estão submetidos os povos latino-americanos. . é libertar-se das condições de opressão. Segundo [15]. pretendemos confrontá-lo com o conceito de crise elaborado por Leonardo Boff no interior da Teologia da Libertação. de doenças. (p. isso leva a ignorar os problemas das maiorias populares. Sendo assim. passa-se a compreender a questão social a partir de uma perspectiva relacional-social e não individualizante [6]. proporcionando. que não sean las teorias las que definan los problemas de nuestra situación. quanto ao aspecto ontológico. O próprio contexto histórico no qual ressurge o conceito de Libertação. elijan su propia teorización”. Neste sentido. abordar as minúcias deste debate foge ao nosso escopo. Dadas às dimensões e objetivos do presente trabalho. constituindo uma Escola da Libertação [4]. Por esta via. por fim. de constructos teóricos oriundos do Paradigma da Libertação. desenvolveu-se uma ideia de que a ciência é neutra [12. já se remete a uma opção ética. Esse contexto referiu-se a uma situação da América Latina de morte. Assim. podendo assim ampliar o conceito de situação-limite no interior da Psicologia e na perspectiva de Martín-Baró. responsável tanto por seu próprio destino como dos processos sociais dos quais participa. libertar-se de algo negativo. Historicamente. Examinar os problemas específicos do povo oprimido com marcos teóricos a priori limita a capacidade de compreensão de tal realidade” (p. 17]. sino la realidad la que busque a lós conceptos.

acerca disso Freire [3] aponta: Esta é a razão pela qual não são as “situaçõeslimites”. tan pouco estimuladas por lós valores del sistema dominante em tiempos de paz” (p. reiterando sua contribuição para a elaboração do sentido da crítica como a temos concebido nos trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa com o recurso dos fundamentos alicerçados em Parker. apesar de trabalhar com o termo “situação-limite” na filosofia. mas a percepção que os homens tenham delas num dado momento histórico. A situação objetiva a que Freire mais se remete como “situaçãolimite”. e.Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 Do ponto de vista da Psicologia. forjar relações que eram traumáticas. ao analisarem o efeito de uma “situação-limite”. e que assim existe a possibilidade de superação desta situação por parte dos oprimidos. crises de esquizofrenia. como aponta Martín-Baró [10]: “Pero es cierto que las situaciones generadas por la guera oferecen oportunidades para que las personas sequen ló mejor de si miesmas com comportamientosaltruistas hacia lós demás. no livro “Pedagogia do Oprimido” é a relação opressor-oprimido [3]. mais. mais do que isso. Freire considera a opressão uma “situaçãolimite”. mas que. encontramos este conceito em dois textos: Guerra y trauma psicosocial del niño salvadoreño [10] e Guerra y salud mental [11] O autor trabalha esse conceito.2 O uso do conceito de “situação-limite” por Marín-Baró Como já explicitado anteriormente. relacionavam-se ao desenvolvimento de crises de ansiedade. geradoras de um clima de desesperança. faz-se necessário mostrar o percurso que deu origem a esse conceito. é o primeiro a explorar as dimensões potenciais do conceito de “situação-limite”. [16]. Para Martín-Baró o conceito de “situação-limite” refere-se a uma situação objetiva e histórica. De modo mais específico. histórico e uma resolução sintética. no habrían surgido” (p. solicitando-os que. essa recuperação não é algo usual. especificamente. era a guerra. es inudable que. No momento em que a percepção crítica se instaura. este trabalho tem como objetivo a ampliação do conceito de “situaçãolimite”. de Ignácio Martín-Baró. Portanto. e que frente a essa situação resulta uma síntese. Apesar de a situação de guerra em El Salvador. assim. principalmente. por Paulo Freire. Por sua vez. Analisando as obras de Martín-Baró. na ação mesma. elas também anunciavam possibilidades para o desenvolvimento de outras relações. o desenvolvimento deste estudo também está alinhado com trabalhos que vem sendo desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa. Freire toma como referência outro autor.239). proposto por outras correntes da psicologia. 1. pela qual El Salvador passava no momento de sua produção. Acerca disso o próprio autor afirma: “Aunque lós investigadores no se han fijado mucho em posibles consecuencias positivas de la guerra para el desarrollo de las personas. como toda situacíon-limite. Essa resolução sintética pode ter resultados positivos ou negativos. para elaborar o conceito de situaçãolimite no campo da pedagogia. com algum conceito que tenha o mesmo nome. entre outras despotencializações [11]. em seu livro “Pedagogia do Oprimido”. em otras circunstancias. Todavia. o filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto. mais especificamente. 1. que estabelece uma relação dialética com o sujeito. Para Freire este conceito também tem um enfoque dialético. Vieira Pinto faz uma inversão do conceito de “situação-limite” apontado pelo filósofo existencialista Karl . 51). especificamente. em si mesmas. portanto. proposto pela Psicologia da Libertação. não só prestem atenção às consequências nocivas para a saúde mental das pessoas.3 Sob quais referências se ergue o conceito de “situação-limite” na Psicologia da Libertação? Para forjar o conceito de “situação-limite” na Psicologia da Libertação. se considerarmos a histórica hegemonia e auto-suficiência da Psicologia [16]. Martín-Baró parte do conceito de “situação-limite” empregado no âmbito da educação. como um freio a eles. Portanto. Martín-Baró traça uma tarefa aos psicólogos que se defrontam cotidianamente com “situações-limites”. como algo que eles não podem ultrapassar. resgatamos sua importância. a dimensão objetiva e a dimensão histórica [19]. 239). Holzkamp [14]. uma situação objetiva. se desenvolve um clima de esperança e confiança que leva os homens a empenhar-se na superação das “situações-limites” (p. verifiquem os recursos e possibilidades decorrentes das “situações-limites” [11]. Para que não haja nenhuma confusão. na situação da guerra civil. objetivo. e que. o que desarrollen virtudes solidarias. A situação-limite a que Martín-Baró se reportava. Consideramos que este último. Apesar do uso por este autor se estabelecer no campo da educação. la guera oferece a posibilidad de que algunas personas y aun grupos enteros desarrollen virtudes que. em seus textos remetendo-o ao trauma das crianças e à saúde mental das pessoas em situação de guerra. a dimensão dialética. também tem os mesmos fundamentos.

aparentemente. O objetivo. externa ao sujeito ou grupo que com ela se depara.283). por motivo da finitude própria do existir” (p. o que se deve definir como “situação-limite” não é o fracasso. assim. Pretendemos assim. 2) Leitura orientada por objetivos determinados. significa a barreira entre o “ser” e o “nada”. é levada à consciência de si e entre em violento conflito com o mundo material onde se acha. ao sofrimento. caminho pelo qual percorreram Martín-Baró e Paulo Freire. por Martín-Baró. MÉTODO Trata . a partir da perspectiva da Psicologia e da Teologia da Libertação.se de uma pesquisa bibliográfica.284). assim. é a situação que inaugura uma nova possibilidade de existência objetiva. à culpa. Neste sentido. dentro da psicologia e na perspectiva proposta por Ignácio Martín-Baró. deste plano é confrontar os conceitos de “situação-limite” e “crise”. Já para Leonardo Boff o conceito de crise se apresenta mais no plano das . Portanto. que desenham o quadro do subdesenvolvimento. Vieira Pinto é o primeiro a dar a conotação positiva ao conceito de “situação-limite”. seria a barreira entre a existência e o fim da mesma. oportunizar sua utilização em contextos de atuação prática. feita por Vieira Pinto [19]. à morte. 5) Interpretação dos trechos selecionados. Sinteticamente. que para Martín-Baró a situação-limite é um evento concreto e objetivo que está na realidade. Este plano de trabalho parte de uma leitura crítica das obras de Boff e Martín-Baró. mas sim a barreira (que deve ser ultrapassada) entre o “ser” e o “mais ser”. Sociologicamente. e estabelece uma relação dialética com ela. Martín-Baró as identifica como momentos críticos. segue o trecho abaixo: “Constitui-se socialmente uma “situação-limite” quando a comunidade. DISCUSSÃO Os fragmentos oriundos dos nossos esforços de análise demonstram que ao mencionar as situaçõeslimite. exposto constantemente ao fracasso. observamos a semelhança entre a concepção de limite para Martín-Baró e crise para Leonardo Boff. portanto. OBJETIVOS Para os propósitos de um trabalho de iniciação científica propomos a leitura de três textos de dois autores situados no interior do paradigma da libertação: Crise – oportunidade de crescimento de Leonardo Boff e Guerra y Trauma Psicosocial Del niño Salvadoreño e Guerra e salud mental de Ignácio MartínBaró. Feito o percurso do conceito de “situação-limite” forjado pela Psicologia da Libertação. que segundo Lima & Mioto [8]. especialmente em temas pouco explorados. isto é. diz que a concepção de Jaspers se remete à “precariedade do ser humano. 3) Leitura destinada à demarcação dos trechos identificados como unidades de sentido. são concebidas como momentos críticos cujo potencial não está reduzido à possibilidade da patologia. estabelecer semelhanças e diferenças que possibilitem uma síntese entre essa confrontação. identificando possíveis relações. Para demonstrar a inversão materialista do conceito de “situação-limite”. ou seja. tangida pelo agravamento das condições reais de vida. histórica e dialética [19]. Martín-Baró enfatiza ainda o sentido potencial das situações-limite como dimensões dialéticas que revelam a história e indicam as possibilidades para o desenvolvimento dos sujeitos e das comunidades. no âmbito da filosofia. mas sim o protesto” (p. que assim possibilitem a ampliação do conceito de situação-limite. que propõem a consideração ampliada deste conceito para o campo da psicologia. semelhanças ou divergências entre estes dois conceitos. para quem a “situação-limite”. especialmente as indicadas. O filósofo brasileiro diz que a “situação-limite” não é a fronteira entre o “ser” e o “nada”. a partir de uma contraposição com o conceito de “Crise” de Leonardo Boff. Com isso pretende-se contribuir com a ampliação da compreensão do conceito de situaçãolimite e. As situações-limite. Para estruturar os procedimentos de análise que garantissem o alcance dos objetivos almejados. esta metodologia deve cumprir os seguintes passos: 1) Seleção de textos ou documentos. Vieira Pinto [19]. constitui-se como um procedimento metodológico importante na produção do conhecimento científico capaz de gerar. à impossibilidade. 4) Extração dos trechos selecionados. utilizamos a metodologia construtivo-interpretativa proposta por González-Rey [5] que busca identificar unidades de sentido no conteúdo de textos escritos. fragmentos que denotam a significação do que se busca. a postulação de hipóteses ou interpretações que servirão de ponto de partida para outras pesquisas. Percebe-se a partir dos trechos extraídos dos textos de ambos os autores. se tornam mais claro os objetivos deste trabalho. eventos reais que constituem as condições e circunstâncias concretas nas quais as pessoas se desenvolvem e não como processos estanques considerados individualmente.Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 Jaspers.

à morte. nas dimensões que dizem respeito aos valores. P (1970) Pedagogia do Oprimido. Leonardo. para Martín-Baró um salto de qualidade no desenvolvimento humano. 53. CE. Brasil. crenças e sentido da existência para os indivíduos. à culpa. que a situação-limite não é a barreira entre o “ser” e o “nada”. 437. carregam consigo a possibilidade de um salto de qualidade. é que os eventos críticos mencionados por Boff ou as situações-limite anunciadas por Martín-Baró envolvem alguns ricos. mais sim na elaboração de atos para superá-las. com as quais. Pelo contrário. (2013) O que oculta o silêncio epistemológico da Psicologia? Pesquisas e Práticas Psicossociais. objetivo. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra. no sentido que Vieira Pinto [19] apontava. [5] González Rey. na condição atual. (2000). a dimensão filosófica ilumina e fundamenta a construção de uma categoria cuja fonte é a prática cotidiana. a barreira entre o ser e o mais ser. mesmo que se tratando de um estudo piloto e reconhecendo a grandeza dos seus limites. impedindo o salto ontológico. uma mudança ontológica. I. Para Boff esses riscos estão mais ligados à realização da existência plena do ser humano. quando fez a crítica ao conceito de situação-limite do filosofo existencialista Karl Jasper. porém sem abandonar a concretude e a materialidade dessas ideias. Na verdade. mas sim uma dimensão que inaugura uma série de novas possibilidades. com o horizonte das novas possibilidades que serão inauguradas. para Boff no sentido da realização da existência e das concepções do sujeito e. (2002). São Paulo: Verus. cada qual em seu âmbito. Isso para a psicologia. Remetese ao plano da realização da existência plena dos indivíduos. dos grupos ou instituições. Esta prática revela o fundamento materialista e explicita o seu compromisso com a emancipação dos indivíduos frente às diferentes formas de opressão. por motivo da finitude própria do existir” (p. ao sofrimento. pôde-se perceber que ambos. que se pretende libertadora e que atua em espaços escolares e comunitários. o fio divisor entre uma condição real (a existência) e uma condição negativa de finitude de tal situação de existência (a morte). do mesmo modo que a ação cotidiana reconstitui ou explicita novos sentidos para princípios filosóficos. Monografia. estão na direção que apontava Vieira Pinto [19]. aparentemente. [2] De La Corte. esta primeira tentativa de elucidação teórica que construímos. REFERÊNCIAS [1] Boff. A psicologia comunitária enquanto práxis libertadora no contexto da América Latina. N.Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 ideias dos sujeitos. na perspectiva do desenvolvimento humano.Rei. [4] Goes.283). é muito caro. se trabalharmos com o conceito de situação-limite tal como apresentado. E é tratado pelo autor no âmbito científico da psicologia. os seus respectivos conceitos. é um evento concreto e objetivo que está na realidade. Uma presentación de su obra. São João Del . Universidade Federal do Ceará. . Já para Martín-Baró esses riscos se revelam como empecilhos do desenvolvimento das pessoas e das comunidades. ambos representam um salto ontológico. A. histórico e uma resolução sintética. externa ao sujeito ou grupo que com ela se depara. Diante disso.450. a ciência psicológica está envolvida. mesmo que cada qual em seu sentido. mas sim a inauguração de novas possibilidades. Para os dois autores. Mais uma semelhança que se pode verificar entre os conceitos dos dois autores. ou seja. Pois a concepção de Jaspers apresentada pelo filosofo brasileiro se remeteria a “precariedade do ser exposto constantemente ao fracasso. Revista de Psicología Geral y Aplicada. desempenham o papel não de uma barreira que levaria a uma condição pior. CONSIDERAÇÕES FINAIS Considera-se que o presente trabalho. La psicología de Ignacio Martín-Baró como psicología social crítica. Crise: Oportunidade de crescimento. e estabelece uma relação dialética com ela. Sendo assim. E é neste sentido que os conceitos de Boff e Martín-Baró se diferenciam do conceito do filosofo existencialista. Ou seja. Mas. não significam uma barreira que impede o individuo de dar novos passos. uma outra possibilidade de organização de sua prática cotidiana. (2009). 3. Mantendo-os no status atual. visa anunciar. por vezes. Fortaleza. F. L. principalmente. Pois. O que se verifica tanto no conceito de crise e de situação-limite é ambos possuem um caráter dialético. não mais lançaremos mão de um olhar nas limitações que as situações concretas oferecem ao desenvolvimento humano. Tanto um como o outro. apontou às semelhanças e diferenças entre os conceitos de “crise” e “situação-limite” de Leonardo Boff e Martín-Baró respectivamente. acerca do desenvolvimento das pessoas e das comunidades. para Boff e Martín-Baró os conceitos de crise e situação-limite. [3] Freire. percebeu-se que o conceito de Boff é tratado por ele de forma filosófica. 8. situação-limite. apesar das diferenças entre os conceitos. à impossibilidade. Já o conceito de Martín-Baró. para os psicólogos que estão inseridos em espaços educativos e comunitários.

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