o ANTIRRACISMO

NO BRASIL

Por Flavia Bios- e Edilza Sotero**

o primeiro

jornal criado para combater a discriminação
racial no Brasil surgiu no Rio de Janeiro, em 1833. O Homen de Côr trazia no seu cabeçalho um trecho da Constituição Brasileira promulgada em 1824: "todo Cidadão
pode ser admitido aos cargos públicos civis, políticos
e militares, sem outra diferença que não seja a de seus
talentos e virtudes" (Pinto, 2010: 24). A partir do final do
século 19, depois do fim da escravidão e com a ampliação dos direitos de cidadania para a população negra
do país, aumentaram as reivindicações da população
negra. Nesse período, intensificou-se o surgimento de
jornais da imprensa negra com vista a problematizar e
combater manifestações do que chamavam na época
de preconceito de cor. Aliás, a imprensa negra foi um dos
objetos mais estudados pela Sociologia Brasileira, tanto
por Roger Bastide (1898-1974) como por Florestan Fernandes (1920-1995), nas décadas de 1950 e 1960. Foi
a partir de jornais escritos por negros do pós-abolição
e da geração nascida no início do século XX, que a sociologia teve acesso ao universo e às reivindicações dos
afro-brasileiros.
Mas a imprensa não foi o único canal de expressão dos
protesto negros. Desde o fim da 1a Guerra Mundial, pelo
menos, surgiram associações com fmalidades recreativas e/ou beneficentes. Algumas dessas entidades
foram aos poucos se tornando espaços de organização
política contra o preconceito e as discriminações raciais.
A instituição mais famosa dos anos de 1930 foi a Frente
Negra Brasileira (1931-1938). Surgida na cidade de São
Paulo, a Frente Negra teve filiais em cidades do interior e
nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Rio
Grande do Sul. Durante os anos de existência, atuou em
várias frentes, principalmente alfabetização e recreação,
até ser posta na ilegalidade pela ditadura Vargas.
No pós-2a Guerra Mundial, renasce o ativismo, que teve
no Teatro Experimental do Negro (TEM) e na figura de
Abdias do Nascimento (1914-2011) suas principais
expressões. Notável no TEN é a ênfase estética e dramatúrgica voltada para a superação dos estereótipos
de personagens negros. Uma marca das organizações
nesse novo período é o uso da linguagem artística para
introdução de um debate racial com finalidade de inserir
o negro em espaços de poder, como a política. Contudo,
a crítica ao racismo seria novamente calada com o estabelecimento da Ditadura Militar, em 1964, especialmente após o recrudescimento do Regime.
Somente com as lutas pela democratização do Brasil,
voltaríamos a ver um movimento social pujante, cuja
concepção se fez na tradição política do movimento
social negro de períodos anteriores e nas entranhas da
rede de lutas políticas contra o regime militar. Em 1978,
houve seu marco inaugural, nas escadarias do Teatro
Municipal de São Paulo, onde surgiu o MUCDR (Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial), que

depois veio se chamar MNU (Movimento Negro Unificado). De lá para cá, proliferaram no país inteiro organizações, coletivos, jornais antirracistas, cujo projeto era
lutar por justiça social e igualdade entre negros e brancos no país.
Nesse sentido, as mudanças culturais vivenciadas pelo
Brasil, que agora se vê cada vez mais como um país
multirracial, multicultural e pluriétnico, foram uma construção lenta, envolvendo conflitos diversos; o principal
deles expressou-se na luta do ativismo negro contra o
mito da democracia racial, originado do nacionalismo
político brasileiro, que pregava a nossa excepcionalidade cultural frente a outros países, como os EUA antes
dos direitos civis (até 1964) e a África do Sul durante o
Apartheid (1948-1994).
Por aqui, acreditávamos que nosso preconceito era
mais brando quando comparado ao norte-americano
ou ao sul-africano. O surgimento de uma nova abordagem na Sociologia das Relações Raciais, desenvolvida
por Carlos Hasenbalg e Nelson do Vale e Silva, no fmal
da década de 1970, foi decisivo para abalar a crença
nacional na democracia racial. Baseados em dados estatísticos consistentes e pesquisas sérias sobre a situação dos negros no Brasil. os autores inauguram uma
linha de pesquisa prolífica, mostrando que entre nós a
hierarquia racial era bastante nítida na pirâmide sócioocupacional, e particularmente efetiva na reprodução de
desigualdades educacionais e no mercado de trabalho.
Desde então, militantes negros, atentos para a produção
das ciências sociais, valeram-se dessas pesquisas e de
seus resultados para reverter a lógica da dominação de
cunho racial. Uma de suas estratégias mais exitosas foi
debater em fóruns públicos a realidade do negro e reivindicar políticas públicas concretas para a superação
do racismo, seja na educação, na segurança pública, no
mercado de trabalho, na saúde, ou mesmo na mídia.
Nos últimos anos, o Brasil tem passado por intensas
transformações culturais e políticas. Uma das características mais marcantes do momento atual é o ascenso
de reflexões sobre racismo na esfera pública nacional.
Se no passado era comum ao cientista social dizer que
o Brasil era o país do racismo cordial ou que o brasileiro
tinha preconceito de ter preconceito, atualmente a realidade parece bem outra. O racismo já é tema de discussão e as novas gerações não negam a existência de
comportamentos e práticas preconceituosas entre nós.
No entanto, ainda não sabemos lidar com as lógicas nefastas do mercado e da publicidade brasileira, que não
conseguem superar as estereotipias raciais antigas.
* Flavia Rios é socióloga, pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e bolsista da FAPESP
** Edilza Sotero é socióloga e pesquisadora visitante na
Princeton University.

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