Parte II

Bioética Teológica

Capítulo II

AS ORIGENS DA BIOÉTICA

Como colocar correctamente a questão moral sobre a vida humana na situação actual?
Quais os os espaços e as perspectivas de confluência entre a vida humana e a ética?
Quais as principais tarefas de uma ética com os olhos no futuro? É a estas interrogações
que queremos responder neste capítulo que agora iniciamos 1 . Estas interrogações
assumem, nos nossos dias, uma incisividade muito especial. Por isso mesmo, a ética
muniu-se de um novo impulso e tornou-se “bioética”2.
1. Uma antropologia renovada
O primeiro aspecto importante a ter em conta é a renovada consideração antropológica
do corporeidade humana. De facto, uma ética médica tem de partir de um sentido do
"ser corporal" do homem para fundar os seus juízos de valor e para propor uma meta ou
um paradigma para as suas práticas em favor da pessoa. Ora um dos pontos em que a
antropologia e a teologia se enriqueceram muito nos últimos tempos é precisamente na
consideração do ser humano como ser corporal.
Em primeiro lugar, temos de ter em conta a importante distinção entre "corpo" e
"corporeidade". "O corpo é aquilo que é objecto de estudo da anatomia e da fisiologia.
A corporeidade é a experiência vivida, a experiência do corpo como realidade
fenomenológica. É constituída pelas manifestações do homem, tal como aparecem na
mesma vida. A vida humana está sempre ligada ao ser corporal do homem" (MP, 171).
O aspecto "corporeidade" chama a atenção para um dado originária do ser humano,
tanto no seu ser voltado para si mesmo, como voltado para os outros (relação). É no seu
corpo que o homem está situado no mundo, influencia a história e deixa a marca da
sua passagem no mundo. O corpo é o lugar da manifestação e do ocultamento, da
alegria e do sofrimento. É no seu corpo que o homem encontra os outros, tornando-se
1

Cf. M. VIDAL, Moral de Actitudes II, Moral de la Persona (MP), Marid 1985 (5ª Ed.), pp. 170-198.
O termo foi usado pela primeira vez em 1970, mas foi um livro de 1971 que o vulgarizou. Cf. VAN
RENSSELAER POTTER, Bioethics, the science of survival, in Perspectives in Biology and Medicine 14
(1970) 127-153 e ID, Bioethics, bridge to the future, New Jersey, Prentice Hall – Englewood Cliffs,
1971; J. TEIXEIRA DA CUNHA, Bioética Breve, Lisboa, Paulus, 2002; V. COUTINHO, Bioética e
Teologia: Que paradigma de interacção, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2004.
2

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social. É no encontro dos corpos que a vida encontra a sua perenidade sobre a terra. O
corpo é o lugar da temporalidade, do crescimento individual e da socialização. É o lugar
do amor e do ódio, da aceitação e da agressão, da graça e do pecado.
Estas aquisições do pensamento antropológico tendem a superar uma compreensão
oriunda do mundo grego que via o homem como uma unidade de "alma" e "corpo",
unidade em que o corpo era visto como prisão da alma. Por sua vez, esta compreensão
recupera um importante elemento do pensamento bíblico que vê o homem como corpo
"animado", ou seja, o corpo como lugar do encontro com os outros e com Deus.
Sabemos como a nossa cultura (cristã e não só) assimilou profundamente esta visão
depreciativa do corpo (visto como inimigo, cárcere, túmulo). Porém, a teologia recente
tem uma visão mais equilibrada da existência corporal. Esta é um valor inegável,
embora ambíguo: liga o homem a todo o universo infra-humano (matéria e formas de
vida). É, porém, o corpo que é o lugar da salvação. Fazendo-se homem, Deus fez-se
corpo e, dessa forma, salvou o mundo. O corpo é lugar do encontro do homem com
Deus.
Estas ideias dão alguma medida do valor que a cultura cristã outorga à corporeidade. É
desta valorização positiva clara que decorre a importância de uma ética médica, uma
vez que nesta se trata de lidar de forma eminente com o homem "corporal".
2. As novas possibilidades da biologia e da medicina
Para assentarmos as bases de uma bioética, não podemos deixar de ter em conta, em
segundo lugar, a nova situação da medicina e os progressos da ciência no campo
biológico.
Quanto ao primeiro aspecto, escreve P. LAIN: "A medicina de hoje é actual pela obra
conjunta - e às vezes conflitiva - de quatro notas principais:
- a sua extrema tecnicização instrumental e uma peculiar atitude do médico diante dela;
- a crescente colectivização da assistência médica em todos os países do globo;
- a personalização do enfermo enquanto tal e, como consequência, a decidida
penetração da noção de pessoa no corpo da patologia científica;
- a prevenção da enfermidade, a promoção da saúde e o problema de saber se é
tecnicamente possível um melhoramento da natureza humana" (Cit. MP, 174).
Quer dizer que no âmbito da medicina estão a emergir sensibilidades que a ética não
pode deixar de ter em conta: a autonomia do enfermo, o respeito pela sua liberdade, a
consciência dos direitos do paciente (a recusar tratamentos, indemnização por um tratamento deficiente, acesso às histórias clínicas). Ao mesmo tempo que cresce uma certa
desumanização, a medicina procura caminhos de estar segura do seu serviço ao homem.
Existe um conjunto de situações ambíguas e origem de acesos debates: a fixação das
prioridades na área da saúde, a escolha dos sistemas de saúde, a invasão do consumismo
no mundo da saúde (medicamentos e criação de necessidades artificiais, o próprio
conceito de saúde na totalidade das suas dimensões e não só como bem-estar físico.
Este conjunto de questões não podem ser resolvidos só ao nível interno do campo da
saúde mas exigem uma participação de toda a sociedade.

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Quanto ao segundo aspecto, os progressos da ciência no campo biológico, a bioética
encontra-se confrontada com perguntas complexas. Assim por exemplo, a engenharia
genética aplicada à biologia humana, não só para curar enfermidades genéticas, mas
também para eventualmente manipular a espécie humana. Mas outras possibilidades são
também fonte de interrogação: as intervenções sobre o processo de reprodução humana
(inseminação artificial e fecundação in vitro), a possibilidade de transplante de orgãos
(mesmo dos orgãos sexuais e do cérebro), as intervenções concomitantes ao começo da
vida e ao seu termo. Como humanizar estas possibilidades técnicas que constituem uma
autêntica revolução biológica?
Alargando um pouco o horizonte, podemos sintetizar, na linha de J. Moltmann3 , os
“sonhos” do progresso bioquímico: um mundo sem parasitas, uma vida sem dor, uma
existência sem fim e um eventual melhoramento da vida do ser humano. Porém, estes
anseios não deixam de levantar outras tantas perguntas: um mundo sem parasitas é
também a morte química de muitas espécies, uma “primavera muda”. Por sua vez, uma
vida sem dor será também uma vida sem amor. Quanto a uma vida sem fim, podemos
perguntar se não seria também um tédio interminável. E sobre o eventual melhoramento
da vida da espécie, temos de nos interrogar quem decidiria que factores melhorar. E a
resposta não seria fácil!

3. Um discurso ético repensado
Em terceiro lugar, o campo da bioética está confrontado com a necessidade de aplicar
ao campo da vida e da saúde uma colocação renovada dos problemas por parte da
própria ética e da moral. Neste ponto, fazemos referência a dois caminhos: o da bioética
europeia e da bioética americana. Elas seguem duas perspectivas metodológicas
diversas.
A bioética europeia é predominantemente personalista e pressupõe a possibilidade de
pensar uma teoria geral do bem da pessoa. Entre os aspectos em que podemos enumerar
nesta mais adaptada colocação dos problemas, em perspectiva personalista, sobressaem
os seguintes:
- Livrar-se de uma visão demasiado fisicista e fixista relativamente às intervenções
sobre o corpo e a saúde, as quais correspondem a um universo que não é o do homem
de hoje;
- Trata-se, pois, de pensar dentro de um universo em que o critério fundamental é a
pessoa, ou seja, o homem na totalidade do seu bem-estar e na sua integridade, visto em
relação com Deus, com os outros e com o mundo; um personalismo que não pode ser
"individualista" ou "privatista";
- Tendo em conta os dois aspectos anteriores, a moral aparece como a instância
normativa do processo de humanização crescente, nos aspectos que competem ao
campo médico-biológico, tendo em conta uma sã antropologia;
- A bioética aparece então como um discernimento entre "manipulação" e
"humanização" neste campo da ciência e técnica médica;

3

Cf. J. MOLTMANN, Scienza e Sapienza. Scienza e Teologia in Dialogo, Brescia, Queriniana, 2003,
133-144.

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- Este discernimento há-de ser efectuado com grande esforço, tendo em conta a tradição
e o intercâmbio de ideias, uma vez que a moral se encontra impreparada para dar conta
dos avanços técnicos contínuos neste campo médico. De facto os princípios
tradicionais, como o princípio de "totalidade" ou de "duplo efeito", não bastam
certamente para avaliar correctamente os problemas, tendo em conta as ditas
possibilidades técnicas.
Por sua vez, uma bioética à maneira “americana” procede na base da colocação dos
problemas à luz de quatro princípios: a autonomia, a justiça, a beneficência e a
não-maleficiência. Neste horizonte, cada indivíduo é o único que pode decidir sobre o
bem que deseja para si. A sociedade não é pensada na base de uma ideia de bem
comum, mas na base de uma teoria de justiça utilitarista, ou seja, é bom o que puder ser
feito ao maior número e na base dos recursos disponíveis. Sobre o que fazer aqui e
agora a um indivíduo, a decisão será tomada na base do benefício previsível e, quando
houver dúvidas quanto a este, urge o princípio de não prejudicar a pessoa mediante a
intervenção técnica sobre ela4.

4

Sobre este ponto, conferir a grande obra: D. GRACIA, Fundamentos de Bioética, Coimbra, Gráfica de
Coimbra, 2008.

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na era da comunicação social. de estratos culturais mais antigos5. Madrid 1985. devendo haver uma dispensa formal de Deus para a execução de um malfeitor. a considerar alguns pontos críticos relacionados com ela: os começos da vida e o seu final. Começamos. as questões relacionadas com a sua transmissão. A inviolabilidade da vida humana: uma história atribulada Começamos por nos interrogar sobre o facto de que. a opinião pública. Mesmo assim. Moral de Actitudes .Capítulo III A VIDA HUMANA NA REFLEXÃO ÉTICA O respeito pela vida humana. um atentado terrorista. encontramos dois caminhos a este respeito que se definem diante da interpretação do preceito bíblico "não matarás". finalmente. ou um assassinato por razões políticas ou supostamente pela causa da liberdade. seguidamente. a pena de morte. o aborto. a mostrar e a promover a inviolabilidade da vida humana e. Basta um rápido olhar para as diversas instâncias que estão envolvidas neste campo. Moral de la persona. é tristemente evidente que em nenhum tempo e em nenhum lugar foi possível tirar da sociedade a morte provocada ou imposta pelo homem a si mesmo ou aos outros. Esta ambiguidade não é só de hoje. a eutanásia e assim por diante têm acompanhado tristemente o crescer e diminuir de todas as civilizações. Uma escola (escotista) entende o preceito como uma norma que proíbe em absoluto todo o acto de tirar voluntarimente a vida a um homem.II. 1. a respeito de assuntos como o aborto ou a pena de morte ou a distinção entre um homicídio de delito comum. o homicídio. um percurso que nos levará. 30 . é um dado originário da consciência ética da humanidade. todas as civilizações testemunham uma atitude particular diante do mistério da vida. 199-439. a partir de agora. com certeza. É um paradoxo que nos dá entrada imediata na ambiguidade que rodeia o modo como se apresenta e se explica o valor ético da vida. Outra escola (tomista) 5 Neste capítulo continuaremos a seguir de perto a seguinte obra: M. a vida humana não se apresenta como inviolável. de início. O suicídio. a instância ético-jurídica. Seja com formulações sob a forma de tabú ou de forma eticamente assumida. De facto. mesmo na tradição cristã. VIDAL. Sobretudo hoje. a acção de jogar com a vida e provocar a morte é largamente e acriticamente "consumida" sob a forma de espectáculo. que a Bíblia recolhe mas que provém. apesar do fascínio e do mistério em que anda envolta. Na nossa civilização ocidental. em si próprio e nos outros. as diversas agressões a que está sujeita e. seja a mentalidade sacral seja a mentalidade secular e científica. este ponto é atestado de forma emblemática pelo mandamento "não matarás".

Por sua vez. em primeiro lugar. a propósito do suicídio. Outro aspecto é a falta de razões que caracterizam esta defesa da vida que vimos na tradição. atentar contra a vida. Primeiro: a vida humana é um bem pessoal: por isso tirar a vida a outro ou a si mesmo é ir contra a caridade que toda a pessoa deve a si mesmo e ao próximo (mas esta razão era usada sobretudo contra o suicídio. da distinção "hipócrita" entre inocente e malfeitor (quem é juiz?). a entrega de um inocente ao inimigo para salvar uma cidade sitiada (desde que realizada pela autoridade pública). algumas observações críticas. Essa argumentação baseava-se. essa argumentação baseava-se na distinção entre autoridade "pública ou privada". o suicídio indirecto. 31 . a tradição cristã conhece uma ambiguidade quanto à defesa da vida. Por isso. Mais sintomático da ambiguidade que acompanhou a afirmação do valor da vida humana ao longo da história cristã é certo tipo de argumentação que justificava as excepções a defender a vida em absoluto. contrário a uma inclinação natural). Fazemos. Se a vida participa do mistério da pessoa que se abre sobre a transcendência. de facto. Mesmo assim. Infelizmente. houve mesmo um recurso ao título válido para dispor da vida "por inspiração divina" (casos da Bíblia e mártires cristãos) e a "decisão humana" que não era aceite.entende o mandamento como se fosse formulado "não matarás um inocente". foi esta teoria a mais seguida historicamente no raciocínio moral. Essa afirmação era fundada tendo em conta três grupos de razões. Havia ainda outros tipos de argumentação: a acção directa de tirar a vida (que não teve aceitação) e a acção indirecta (que foi muito aceite). na distinção entre "inocente e malfeitor". a legítima defesa pessoal. em nome do princípio de totalidade e do bem comum. não convincente). entende que é somente proibida a morte "injusta". havia um grande número de excepções a esta regra. não foram desenvolvidas suficientemente. Entre essas: o aborto indirecto. por isso. a condição de malfeitor acarreta a violabilidade da sua vida. A autoridade pública teve na tradição amplas faculdades para dispor da vida humana. Terceiro: a vida é um dom de Deus e um bem que pertence a Deus. É por isso que. a afirmação do seu valor não pode perder a autonomia e o carácter de secularidade que torna convincente a sua afirmação ética. a pena de morte. a morte de um tirano usurpador. ou seja. Apesar de redundar de forma francamente positiva na defesa do valor da vida. a título privado. Embora as razões não abundem para mostrar uma coisa (a vida) que é intuitiva. a morte de um inimigo em situação de guerra justa. Ainda que não se afirmasse que o malfeitor perde o direito à vida. Segundo: a vida humana é um bem da comunidade. Porém. tirar a vida a si mesmo ou ao outro é ofender a justiça (é uma parte que ofende o todo). o valor da vida humana foi afirmado com ênfase e os pecados contra a vida (suicídio e homicídio) condenados com vigor. As motivações éticas para a defesa da vida moveram-se dentro de um ambiente de excessiva "sacralização". a qual redundou numa defesa da vida algo manipulada ideologicamente (e. tanto própria como alheia. portanto. Em segundo lugar. só se podia dispor da vida do outro em caso de legítima defesa. São três modos de proceder que serviam para provar uma coisa que era evidente (a vida vem de Deus) na sociedade em que foram apresentadas. é ofender a Deus.

Enquanto dado pré-moral. ou seja. a vida encontra-se por vezes em conflito com outros valores. Mas a vida não é verdadeiramente humana enquanto não é assumida na ordem da responsabilidade e gerida como realização (ou desrealização) da pessoa humana. É o caso do uso do princípio de duplo efeito ou do "indirectamente voluntário". 32 . ou seja. isto é. Uma vez que o apelo do rosto do outro não me deixa indiferente. pois. ou da incoerência que constitui a distinção entre vida nascida e não nascida (rejeição liminar do aborto e aceitação de outras violações à vida). Esse dinamismo mostra que a vida que é preferida é a vida plena. Defender a vida no seu valor é. Pode-se mesmo constatar uma deficiência de raciocínio no que toca à moral tradicional sobre a vida. O valor da vida não é justificável por via discursiva. Para o crente. ou seja. um caminho para levar a esse respeito. pois. esse valor impõe-se a toda a pessoa razoável. há-de manifestar-se quanto ao percurso de pensar e quanto à funcionalidade da dimensão ética da realidade da vida. mas de forma positiva: promoverás a vida em quaisquer circunstâncias e tendo em conta a totalidade das suas dimensões. de uma forma imediata. na nossa cultura e na nossa sociedade. para que a humanização dela se verifique realmente. Só a partir de então se fala propriamente da vida em sentido ético. Esse valor refere-se à vida de todos os homens e à igualdade de todos os indivíduos diante da vida. como sujeito ético. um projecto de intervenção activa para que a vida. O valor da vida tem. urgindo um juízo preferencial pelo valor mais importante. assim como o morrer é um mal pré-moral. O viver que é preferível ao não viver estende-se desde a mera subsistência na vida até à plena humanização. tratamos da sua justificação. Começamos por lembrar que a vida é o sustentáculo básico dos valores morais. Uma coerência que há-de ser tanto metodológica como objectiva. 2. o seu respeito. a vida dele incumbe-me. um conteúdo dinâmico e não estático. a vida do outro incumbe-me enquanto é aparição do "Outro" que é Cristo. Justificação do valor moral da vida humana Depois de apontarmos a ambiguidade da história do respeito pela vida humana. Não afirmou de forma suficientemente clara que ninguém pode arrogar-se o direito de dispor da vida do outro. o viver é um dado pré-moral. do seu conteúdo. seja em que circunstância for. É mesmo diante desse apelo do outro que a primeira pessoa é constituída como sujeito de responsabilidade. do seu lugar na hierarquia dos valores. trata-se agora de mostrar.Não convence também a excessiva confiança na autoridade pública para aplicar a pena de morte ou declarar a guerra. Quanto ao valor moral propriamente dito da vida humana. de forma coerente. O valor da vida tem um conteúdo muito mais alargado que o mero viver biológico. Este valor não apela apenas de forma negativa ("não matarás"). A vida do "outro" urge-me um reconhecimento originário. o homem realizado na plenitude das suas dimensões. como tarefa originária.

tanto culpados como adversários (rejeitando a pena de morte. A realização da vida pessoal e social do indivíduo nunca poderá efectuar-se atentando contra a vida de outrem. Os cristãos empenhar-se-ão. pessoal e colectivamente e em todas as frentes. Esta convicção levará os cristãos a defender a vida ao longo de todo o arco temporal (como aliás têm feito a respeito do aborto ou da eutanásia) e a vida de todos. mas aberta ao juízo preferencial (=conflito de valores) ". É um universo que. diz M.O valor da vida situa-se. dentro da escala ética dos valores. promove o homem na sua globalidade. ser absoluta (=inviolabilidade da vida). pois desde esta vida cresce no mundo a ressurreição. em quaisquer circunstâncias. 214). no lugar cimeiro. Em caso de conflito de valores. No que toca ao conflito entre vida e liberdade. ainda que o mistério de Cristo abra a vida humana ao horizonte de uma vida entregue livremente por todos e para todos. No que toca a formular normas morais consonantes com o valor da vida humana. A fé cristã e o valor da vida Qual a pertinência da atitude religiosa para esta afirmação positiva do valor da vida? É uma pertinência muito grande. Os cristãos. ocorre um discernimento sábio. A defesa da vida é um factor de identidade e coesão dos cristãos que os levará tanto a formas de colaboração como a forma de confronto e de diálogo com os outros grupos sociais. a porta por onde se entra continuamente e por graça de Deus. "que há-de ter as características seguintes: ser positiva e não negativa. ser teleológica (tendo em conta as consequências) e não deontológica (fixando-se só no modo de produzir o efeito: directa ou indirectamente. sem deixar de atender aos aspectos parciais. os cristãos colaboram na construção de um ethos a favor da vida que podemos caracterizar do modo como segue. de comunhão com o mundo e com Deus. E não perde de vista esta globalidade mesmo que se trate de inventar uma hipotética vida melhor para as futuras gerações. Proporão um sistema económico que não destine somas ingentes 33 . etc. Vidal (MP. Vejamos alguns aspectos. Falar de ressurreição é falar de vida totalizada nos aspectos de personalização no corpo relacional. Primeiro. urgirão o reconhecimento jurídico destes direitos fundamentais relacionados com a vida. em nome da sua cidadania. A morte resgatada é. 3. Por isso. de socialização na liberdade. os cristãos defenderão que se trata de dois valores irrenunciáveis.). Esse universo é definido pela realidade da ressurreição de Cristo e da ressurreição do homem e do mundo em Cristo. Em conformidade com isto. na defesa da vida e na efectivação de condições sócio-económicas melhores para que essa vida se realize em plenitude. tanto germinal. segundo os cristãos acreditam. sabemos como a fé cristã põe nos inclui num universo de compreensão da vida na sua globalidade absoluta. nesta ressurreição. robusta ou efémera. a guerra e a tortura sob todas as formas). os cristãos cultivam um enorme respeito pela vida. apresentando propostas positivas e fundamentadas. dentro das regras de juízo preferencial.

por isso. 34 . Capítulo IV A DIGNIDADE DA VIDA DO EMBRIÃO HUMANO E O ABORTO DO PONTO DE VISTA MORAL Entre as questões mais agudas que se colocam no âmbito das origens da vida humana. ou a interrupção voluntária da gravidez. Porém. Não pode. é uma questão tão antiga como a história humana.de dinheiro para armamentos. avulta a questão do aborto. nem indicado para salvar a vida ou a saúde da mãe. exige uma reflexão ética a partir dos novos matizes que a caracterizam. em prejuízo da vida das pessoas. numa sociedade liberal avançada que liberaliza juridicamente mesmo a prática do aborto. pois. O aborto. A realidade do aborto é colocada nos contextos mais variados. Excluirão o consumismo exagerado. como seja o da possibilidade de conhecer taras hereditárias na fase de vida intra-uterina e o da normalidade de a interromper na base disso. o aborto não se apresenta somente como um expediente para se livrar de uma fecundidade não desejada (pelas mais diversas razões). Tudo isto acontece num contexto de publicidade e de indiferença dos comportamentos. é uma questão que se radicalizou e. ser ignorada num curso como o nosso. Nos dias de hoje. como seja o da revolução sexual (admitida a dissociação entre exercício da sexualidade e responsabilidade procriativa). no nosso tempo. em nome de uma qualidade de vida que sabem que não é real num contexto exclusivamente materialista. Abeiremo-nos desta realidade a partir de diversas perspectivas.

podemos também perguntar se essa vida é. pois a noções de "pessoa" e de "vida humana" transcendem o âmbito desses saberes. A moral tradicional resolveu esta questão do começo da vida humana na base de um conhecimento científico muito deficiente. ou de "infusão da alma". e que pode autodesenvolver-se. . originando um genótipo original. É o processo mediante o qual acontece a individuação. temos de ter em conta quatro aspectos principais do seu desenvolvimento. impõe-se uma questão prévia de ordem antropológica: Como definir a vida humana? Ou então: Quando começa a vida propriamente humana? Ou ainda: Qual o critério para dizer que a vida intra-uterina é pessoal? Esta questão era abordada tradicionalmente falando de "animação". Não pertence também exclusivamente à ciência médica ou biológica. o Magistério da Igreja nunca se pronunciou taxativamente sobre o assunto. .A SEGMENTAÇÃO.1. parece óbvio afirmar que existe vida humana desde a fecundação e que. Momento em que o óvulo fecundado se implanta no útero. a mais que um indivíduo (gémeos idênticos ou univitelinos). até ao décimo quarto dia pode acontecer que o blastocisto ao dividir-se dê origem. Existe uma alternância entre os que defendem uma "animação imediata" (desde o momento da concepção) e os que defendem uma "animação mediata" (a vida humana começa somente depois de um certo tempo). os autores inclinam-se para abandonar esta terminologia e falar de "hominização". Porém. Esta determinação terá de resultar de uma procura interdisciplinar. ganhando uma verdadeira independência e uma especial relação à mãe. uma tradição historicamente consonante e segura sobre a questão difícil da hominização.A NIDAÇÃO. É a fusão do gâmeta masculino e do feminino. Curiosa é a posição dos pensadores medievais que são defensores da animação mediata: a alma racional é infundida aos quarenta dias no varão e aos oitenta na mulher! Não existe. . Definição e valor da vida humana em gestação Antes de tentarmos um juízo moral.A FECUNDAÇÃO. com o mesmo genótipo. desde a fecundação. Hoje. portanto. uma vida individual e pessoal? 35 . Digamos ainda que esta determinação da vida humana não pertence à moral. coisas que parece que não são rigorosamente da mesma ordem. De facto. essa vida deve ser respeitada. Esta mudança tem a ver com a tentativa de eliminar os pressupostos dualistas que têm acompanhado a discussão e de distinguir entre "criação da alma" e aparição do sujeito. .APARIÇÃO DO CÓRTEX CEREBRAL. Por sua vez. para falar deste começo da vida humana. Este ponto tem uma importância similar à que lhe é atribuída no desenvolvimento filogenético. Desde esta fase decresce a possibilidade de perda de óvulos fecundados por causas naturais. Momento importante. Como emitir um juízo sobre esta matéria? Para falar da vida humana nos seus começos. Tendo em conta este conjunto de aspectos. pois. distinto do pai e da mãe. pois o cérebro é o substrato biológico da racionalização.

a estrutura cerebral já estava presente. De facto. entre as quais as que fazem referência à vida humana propriamente dita por referência à formação do córtex cerebral. desde a sua concepção. Em consequência não se deveria falar de homicídio para uma interrupção do processo antes dessa data. É inaceitável. primeiro. O texto quer dizer que a vida tem de ser respeitada com todas as exigências do ser pessoal desde a fecundação. o processo biológico da gestação encaminha-se normalmente para a alteridade. no caso da vida intra-uterina.A este propósito. Esta posição é certamente a mais coerente e a mais prudente diante do mistério da vida que nos escapa. Primeiro. Declaração sobre o aborto provocado. deve ser salvaguardada com o máximo cuidado" (GS. o desenvolvimento biológico precedente é uma exigência postulada para o aparecimento da actividade cerebral. 36 . mantendo muito embora uma relação estreita com ela. Não certamente porque se deva usar e abusar da noção de "pessoa". É que no caso da origem da vida. mas vem com mais clareza da afirmação de que lhe pertencem na qualidade precisamente de "nascituro". pois. (1974). moralmente a vida humana em gestação? Dizemos. pois. que a vida humana nos seus começos deve ser considerada desde a perspectiva do "sujeito" para onde se encaminha. existem também pensadores católicos bem-intencionados que opinam que não se deveria falar de vida com as qualidades de individualidade e distinção antes da implantação no útero. para mostrar que mesmo antes de funcionar. Considerar a vida em gestação apenas do ponto de vista da gestante é. Está fora de dúvida que a vida humana é objecto de exigência moral desde a fecundação. ou funcionar só de forma larvar. De facto. a posição valorativa do Magistério da Igreja que afirma: "A vida. consideramos. A posição que foca o aparecimento do córtex cerebral merece mais alguma atenção. Inaceitável é também o recurso que considera vida humana como "vida de relação". em primeiro lugar. Existe ainda o modo de ver que convenciona considerar a vida humana só a partir da barreira dos três meses. mesmo antes dessa data. mas a vida apresenta-se como exigência para os que já existem. para mostrar improcedente também a analogia desta situação com o critério da morte clínica que de facto é a cessação da actividade cerebral. Depois. Porém. uma maneira de ver incoerente. o ponto de vista pressuposto na legislação que põe o marco decisivo nos arbitrários noventa dias. ou simplesmente à vida humanizada como aquela vida humana capaz de relação. então. Outras posições. A exigência ética não vem da afirmação de dimensões que apenas existem "implícitas" naquele ser que ainda não nasceu. ou mesmo de "pessoa jurídica". 6 Cf. a vida em gestação é algo distinto da mãe. 51)6. 13. Como avaliar. É a que está pressuposta nos sistemas jurídicos despenalizantes e vê a questão somente desde o ponto de vista das consequências da interrupção da gravidez para a mulher gestante. Também: CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. e não de "coisa" de que se pode dispor a bel-prazer.

É um dos casos problemáticos da defesa da vida. por ordem crescente de responsabilidade moral. devido ao avanço da medicina. Entende-se comummente que o feto é viável a partir das vinte e oito semanas de gestação (entre a primeira semana e o segundo mês chamava-se "embrião").A posição aludida de alguns pensadores que encontram boas razões para distinguir entre fecundação e implantação (nidação). 3. É caso de interrupção da gravidez perante a dúvida ou a certeza de que se está diante de um ser que vai nascer com anomalias ou malformações congénitas. como seja o caso de violação. sem intervenção humana. É uma situação frequente no passado mas hoje praticamente sem relevância (excepto. O aborto pode ser visto do ponto de vista médico (o facto de provocar a expulsão de um feto não viável).Aborto terapêutico. do ponto de vista jurídico (a acção voluntária e maliciosa dessa expulsão mediante meios apropriados). pode ser útil para iluminar certas situações problemáticas de conflito de valores. Nesta situação. a deficiências do embrião. Temos assim: . É provocado quando a continuação da gravidez põe em causa a vida da mulher gestante. existem ainda algumas distinções. o uso de interceptivos (que actuam entre a fecundação e a nidação). microcefalia. No caso do aborto espontâneo. 37 . Qual a tipologia do aborto? Primeiro. É interpretado como um fenómeno de selecção natural da espécie humana. O aborto provocado é aquele em que intervém a liberdade humana. poder-se-iam catalogar. (Às vezes a literatura médica chama-lhe terapêutico). etc. Definição de Aborto Quando falamos de aborto entendemos "interrupção da gravidez quando o feto ainda não é viável. O ponto de vista moral baseia-se no conceito médico acrescentando-lhe a valoração moral que inclui tanto o factor objectivo como subjectivo. em três quartos dos casos. o caso da gravidez ectópica).Aborto eugenésico. Esta situação reveste-se de uma particular densidade antropológica. Este é objecto do direito (podendo ser legal ou criminoso) e da moral. Esta classificação é feita na base das "indicações" (razões ou causas que originam a interrupção da gravidez). talvez. e para verem aí uma relevância ética. As técnicas de amniocentese ecografia podem de facto diagnosticar anomalias cromossómicas (mongolismo) ou malformações (hidrocefalia.) devidas a causas diversas. e do consequente processo de individuação. Dentro do aborto provocado. . distingue-se entre aborto espontâneo e aborto provocado. a interrupção da gravidez acontece por causas naturais. por causa. Acontece com uma frequência de dez a quinze por cento. quer dizer. quando não pode subsistir fora do seio materno". os seguintes procedimentos: o uso de contraceptivos (que actuam antes da fecundação). 2.

Este tipo de aborto é o mais frequente: funciona como método de regulação da fecundidade. baseada na revelação. na tradição e na razão. desde a primeira hora. possui o direito à vida directamente desde Deus e não dos pais ou de qualquer autoridade humana. . por motivos variados tanto de natureza psíquica como sócio-económica (condições de habitação deficiente. incluído o nascituro. e vinte por cento nos outros países. o horror de uma criança defeituosa. é talvez o que apresenta razões de menos atendibilidade.Todo o ser humano. do ponto de vista da moral católica? Começamos por dizer que a Bíblia não se refere directamente ao aborto. trabalho. gravidez de mulheres solteiras ou resultante de relação extra-matrimonial). Qual a valoração do aborto. pode apresentar um título válido (ou uma indicação) para dispor deliberadamente da vida humana do nascituro. De forma que hoje. etc. a doutrina da Igreja. É a interrupção de uma gravidez consequência de uma acção violenta (a mais comum é a violação). . a banalização do sentido da vida por parte de certas mundividências e filosofias. Afirma a Didaqué : "Não farás morrer a criança pelo aborto nem matarás o recém-nascido" (II. 2). em todas as sociedades.. entenderam que era uma exigência da sua fé guardar com todo o empenho a vida intra-utrina. apesar de algumas hesitações próprias da falta de conhecimentos científicos (por ex. Porém.Ninguém. de tempos a tempos. a distinção entre feto animado e inanimado). podemos enumerar: o progresso médico-técnico que elimina os riscos da intervenção. . constata-se que o número de abortos ronda os trinta por cento de nascimentos. 38 . Entre as causas que contribuem para explicar esta realidade. É o caso da interrupção da gravidez não desejada. a situação mundial da demografia e os interesses económicos dos blocos de países.Aborto psicossocial. que se pode aplicar à questão do aborto. a emancipação da mulher. a injustiça social a todos os níveis (quanto à educação. É um número elevado. a Bíblia manifesta uma mundividência claramente a favor da vida. habitação. Sociologiado Aborto Do ponto de vista sociológico.. O mesmo foi afirmado por toda a tradição cristã. a crescente permissividade e aceitação social. nos países onde existe despenalização jurídica. pessoa ou autoridade. Às vezes chamam-lhe "aborto ético". à cultura: o machismo. Não é uma situação frequente e é difícil de ver a proporção entre a causa e a acção de abortar.Aborto humanitário.). Por sua vez. o factor mais sintomático é o aceso debate que acompanha este facto. 5.Justifica-se apenas o "aborto indirecto". a deficiência dos anti-conceptivos. 4. Mas. os cristãos. o extensão das motivações pessoais para além das indicações clássicas. isso sim. apresenta-se muito clara: .

a reflexão teológico-moral. talvez seja melhor falar de "santidade" da vida humana. uma humanização que tem em vista a vida de todos. é necessário ter em conta que o aborto acontece muitas vezes em "situações-limite".). Já vimos que a excessiva sacralização. Em nenhuma situação a intimidade da solidariedade humana e da dependência do amor e da protecção de uma outra pessoa se manifesta em tão alto grau como durante os nove meses em que o feto vive alimentado pela corrente sanguínea da mãe. Finalmente. Em vez de sacralidade. 163 s. pois todos têm igual dignidade. Roma 1979 (5ªed. para ser pertinente. temos necessidade de pensar correctamente o valor da vida. e não apenas emocional. Segundo B. Haering7. Etica Medica. de modo especial. Toda a forma de racionalização arbitrária que tenda a justificar o aborto conduzirá a outras formas de racionalização nas relações inter-pessoais e a outras explosões de violência". mais importante que condenar o aborto. aceitando esta posição do Magistério. (2) A protecção deste direito à vida. Esta visão da moral cristã sobre o aborto é tomada sempre no contexto de uma humanização progressiva da vida. em situação de conflito de valores ou de deveres. 7 B. na relação existente entre mãe e filho. (3) A conservação de uma justa compreensão da maternidade. desde uma perspectiva racional. parece que a valoração cristã do aborto. ou as afirmações voluntaristas. coisas que sempre foram julgadas de uma maneira própria. Esta humanização há-de impulsionar projectos de acção que visem todas as circunstâncias em que a vida não é respeitada e não somente este caso do aborto. "homicídio".Por sua vez. cúmplices. no qual todos são. especialmente da parte daqueles que cooperaram com o amor criador de Deus. que começa por brandir palavras como "crime". será afirmar e motivar a relação de respeito para com a vida. (4) A ética do médico que visa cuidar da vida humana e nunca destruí-la. são prejudiciais quanto ao efeito pretendido. Por outro lado. Em relação ao contexto actual. "no aborto estão em jogo os seguintes valores fundamentais: (1) O reconhecimento do direito de todo o ser humano às condições fundamentais do desenvolvimento da vida e à própria vida. O vigor da argumentação funda-se sobre a nossa fé firme na dignidade de cada pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus e na vocação do homem à fraternidade universal. altissonante e seguríssima. de respeito e de justiça. de certo modo. tem de ser comunicada tendo em conta a implicação de toda a sociedade naquilo que se passa com o aborto: o aborto corresponde a um sistema determinado. Todos estes valores se concentram. procura fornecer-lhe sempre novas razões e torná-la compreensível para os novos contextos sociais e mentais em que continuamente se vê necessitada de ser vivida e pregada. A humanização de todo o género humano e a complexidade das relações humanas não podem ser separadas destas relações fundamentais e vitais entre a mãe e o filho ainda não nascido. 39 . Para que a nossa posição sobre o aborto possa ser entendida pelos nossos contemporâneos.. O mesmo se diga de uma posição sobre o aborto. correndo o risco de abusar da certeza precária que temos sobre o modo melhor de servir a vida. HAERING.. ou pelo menos. num mútuo sentimento de amor. entre pai e filho.

em concreto. existiria talvez então uma margem de possibilidade de uma intervenção responsável. Provém de convicções jurídicas tradicionais (direito romano). animismo). São muito raros os países que a adoptam. Mesmo assim. . a legislação despenalizadora do aborto há-de ser considerada como uma tentativa de evitar males maiores e não como uma lei inovadora no crescimento ético da humanidade. 8 Ibid. até um certo estádio.Numa sociedade pluralista e organizada democraticamente.Os comportamentos podem ser avaliados pelo prisma da consciência (perspectiva moral) e pelo prisma do ordenamento jurídico (perspectiva jurídica). Uma legislação restritiva que proíbe e penaliza o aborto. 183 s. do ponto de vista moral. um certo ordenamento pode ser justo mesmo que seja repugnante à consciência cristã (ou outra). .No caso das pessoas concretas prevalece a consciência moral sobre a licitude jurídica. Uma legislação totalmente permissiva que remete a prática do aborto para o foro privado. influência religiosa (cristianismo. não é lícito a nenhum desses sistemas de valores impor o seu ponto de vista sobre o sistema jurídico de toda a comunidade. uma vez que o critério da licitude jurídica é o bem comum (ou o mal menor para a sociedade). não havendo lugar para distinguir as duas considerações. a menos que o seu comportamento seja directamente lesivo do tecido social. o primeiro passo a dar é distinguir e ver como se relacionam.No caso do aborto. há lugar para essa distinção e separação.Neste tipo de sociedades. no caso dos cidadãos de um dado sistema de valores realizar acções contrárias à ética do seu grupo. Revela uma grande insensibilidade à vida. .Por isso. . 40 . 6.Por isso. a despenalização não implica com a sua imoralidade radical. Para aclarar esta questão. nos ordenamentos jurídicos "despenalizadores". o Legislador deverá ter isto em conta.2. ou então algum grave problema demográfico. o homem pudesse chegar à certeza moral de que o embrião. não está ainda dotado de vida humana (não é ainda uma pessoa) e presumindo que os procedimentos diagnósticos possam detectar anomalias fetais antes deste estádio.Quanto aos casos mais problemáticos. determinada por rigorosos critérios eugénicos". diversos tipos de legislações sobre o aborto. as leis civis não o podem impedir (pois não castigam faltas "morais"). . põem algumas interrogações à consciência ética: que pensar e como agir diante deles? É o nosso último ponto. 6. Haering 8 sobre o aborto eugenésico: "Supondo que num futuro próximo. . recordamos apenas a posição de B.Como no caso do aborto está em causa um valor fora de série (originário) como é a vida humana. Existem alguns critérios gerais.1. . Por isso. Os ordenamentos jurídicos Os ordenamentos jurídicos sobre o aborto. .. 6. Existem. licitude/ilicitude jurídica e bondade/maldade moral. uma vez que nem todas as correntes professam o mesmo sistema de valores.

A instância ética exige que se distinga entre juridicamente lícito e moralmente bom. Mas qual o tipo de legislação melhor: uma legislação restritiva em todos os casos. Declaração sobre o aborto provocado (1974).3. o homem não pode nunca submeter-se a uma lei intrinsecamente imoral. afirma. o fim da discriminação entre quem pode e não pode recorrer ao aborto e dizem que liberalizar não significa legitimar moralmente mas transferir a decisão para o foro da consciência. Exige o consentimento da mulher gestante. discriminatório (aplicado só aos pobres). Por sua vez. em última análise. permissividade social. o aborto eugénico. ser a favor da vida e acautelar os interesses de todas as pessoas envolvidas.tradições éticas (humanismo) ou necessidades sociais (incremento da população). Também esta legislação não deixa de estar sujeita a críticas: não evita o aborto clandestino nem a discriminação. que seja lá o que for que as leis civis venham a estabelecer a este respeito. Este sistema é acusado de ineficaz (não evita aborto clandestino. em geral os defensores da legislação restritiva acham que é o único caminho de proteger a vida de muitos seres humanos ainda não nascidos. do ponto de vista moral. Essa legislação seria contraditória e imoral se favorecesse ou impusesse o aborto. é o mal menor.. Ela tem muitas vezes de tolerar aquilo que. ou uma legislação liberalizadora em certos casos? Sobre esta matéria. 41 . e esse é o caso precisamente daquela que admitisse a licitude do aborto"9.. 6.) A função da lei não é registar o que se faz mas sim a de ajudar a fazer melhor.) Deve ficar bem claro.. 9 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. O que pensar. Legislação que despenaliza o aborto numas situações e penaliza noutras. para assim evitar outro maior. 20-22. origina o descrédito social diante da vida humana. que se continue a procurar uma solução melhor (livre dos preconceitos de ordem ideológica que têm acompanhado a discussão) tendo em conta as vertentes da evolução do fenómeno e que. cruel (impõe soluções duras para situações humanas difíceis). sobre a existência de uma ordem jurídica que não penaliza o aborto voluntário? Está fora de questão que uma legislação deva existir no que se refere ao aborto. de fechar a porta à tentação de estender esta lei à eutanásia ou à eugenesia seja de que género for. A vida humana em gestação é um valor social demasiado grande para não ser acautelado. A Lei nº 6/84 sobre a "Exclusão de ilicitude em alguns casos de interrupção voluntária da gravidez" foi a primeiro momento de uma ordenação que teve diversas actualizações posteriores. recuo dos factores religiosos da sociedade. A lei há-de. tornando-se assim hipócrita). De qualquer forma. Na linha deste pensamento. pois. (.. atestado médico e participação criminal de violação. nenhuma das soluções parece plenamente satisfatória. insensibilidade frente à vida. os defensores de uma legislação liberalizadora aduzem a seu favor o fim do aborto clandestino. Este processo foi desencadeado por vários factores: avanço da técnica médica. (. "positivismo" do sistema jurídico. sofre de incoerência (permitir o aborto e abolir a pena de morte). Faz ainda referência ao prazo de 12 semanas para o aborto humanitário e psico-social e 16 semanas para o aborto eugénico. Isenta de pena o aborto terapêutico. em substância o Magistério da Igreja: "É verdade que a lei civil não pode pretender abarcar todo o domínio da moral ou punir todas as faltas: ninguém lhe exige isso. em todo o caso. o aborto humanitário e alguns casos de aborto psico-social.

Criou-se mesmo uma ciência. Começamos por distinguir entre o "morrer" e a "morte consumada". No segundo sentido. existe uma reflexão desenvolvida. a inviolabilidade da vida humana do moribundo (negação moral da eutanásia). no nosso tempo. é a expressão da finitude humana. a confrontação moral entre o direito a uma morte digna e o prolongamento artificial da vida terminada ou terminal (proposta ética da adistanásia). segundo M.no caso das legislações liberais. esteja rigorosamente acautelada a objecção de consciência dos profissionais de saúde. Sobre este aspecto. quanto à morte consumada. a sua consumação. é também aquele que a tenta camuflar ou exorcizar através de todo o tipo de saberes e práticas. que se ocupa da morte nos seus mais variados aspectos e sob os mais diversos pontos de vista. 1. aqui ocupamo-nos preferentemente das condições que acompanham o acontecimento do morrer. perguntamos: Quais as condições preferíveis para o acontecimento humano de morrer? Por sua vez. a tanatologia. é uma ruptura e transformação da vida. é o seu acabamento. à volta dos seguintes capítulos: a exigência ou o direito a uma morte digna (proclamação ética da ortotanásia). uma verdadeira questão central da cultura do séc. perguntamos: Porque se morre? Qual o sentido da morte? Embora as duas ordens de questões tenham a ver com a reflexão moral. Morte clínica 42 . a "morte" quer dizer a ideia que nós vivos fazemos de algo que ainda não experimentámos. Se é certo que a morte sempre preocupou o homem ao longo da toda a sua história. XX. é também verdade que o nosso tempo. Vidal. Capítulo V A MORTE E O MORRER HUMANO A morte tornou-se. organizada. a morte faz parte da vida. No primeiro sentido. Quanto à primeira acepção. sendo aquele que tem mais desenvolvidas possibilidades de a protelar no tempo.

Até há não muito tempo. Fazemos apenas algumas observações. traçado isoeléctrico. enquanto a extinção de uma determinada parte do corpo se chama necrose" (Käufer). não é possível o retorno ou uma revivificação" (Perico). Mais precisamente. duas horas e meia. uma vez que a interrupção da actividade cardíaca provoca instantaneamente a perda da consciência e o colapso dos outros sistemas orgânicos. que possibilitarem mesmo transplantar o coração. é uma questão que compete à ciência médica e não à nossa reflexão moral. no máximo. de oito a dez minutos.Eletroencefalograma plano durante vários minutos. . sem reactividade aos estímulos sensoriais e sem resposta a outras estimulações de recurso (nomeadamente administração intravenosa de pentametilenotetrazol ou de B-metil-B-etilglutarimida). considera-se o indivíduo clinicamente morto. na melhor das hipóteses.A descida contínua da pressão sanguínea apesar da administração massiva de drogas vasopressoras. o fígado. . 2. de trinta a sessenta minutos. De forma que é em relação ao cérebro que se coloca doravante o critério da morte clínica. Para declarar a morte cerebral elaboraram-se critérios o mais preciso possível. considera-se como morte a supressão de toda a manifestação de vida do organismo no seu conjunto. os pulmões. De facto.A primeira questão que nos interessa verdadeiramente é esclarecer o conceito de "morte clínica" e os critérios segundo os quais se determina concretamente. A Portaria nº 56/71 de 24 de Março. vieram tirar valor a este critério de irreversibilidade. sem nenhuma resposta reflexa aos estímulos da luz. de vinte a trinta minutos. "A pergunta sobre a morte é a pergunta sobre os 43 .A ausência total de respiração espontânea cinco minutos depois de desligado o ventilador. durante um tempo julgado suficiente (não necessitando ultrapassar seis horas em regime descontínuo) e não tendo sido o doente submetido a hipotermia. Antropologia da morte Qual o significado antropológico e moral da morte? É um significado múltiplo. o momento-morte corresponde "ao limite para além do qual. A reanimação não o poderá trazer à vida cerebral. Com base nestes critérios. A determinação da morte. . Porém. nem recebido medicamentos depressores do sistema nervoso central". A morte é pois um processo gradual que inicia com a cessação do funcionamento de um órgão vital. na sua alínea d): "Desaparecimento de todos os sinais de actividade electroencefalográfica (pesquisada com amplificação máxima). Uma vez acontecida esta morte irreversível dos centros superiores. os rins. "Em geral. Quer dizer que o aspecto decisivo na determinação da morte clínica é a irreversibilidade. A certeza da nossa morte põe em causa os imperativos absolutos da moral. embora possa reactivar certas funções do organismo pelo restabelecimento da respiração e da circulação. Desde uma reunião havida em Londres em 1966 que são dados como critérios mais importantes: . o próprio coração pode sobreviver à paragem da corrente sanguínea entre uma hora e hora e meia. neste processo degenerativo. neste sentido. a cessação do pulsar do coração era considerada o momento da morte. o cérebro.A dilatação completa das pupilas. são elaboradas as definições legais de morte clínica. os avanços da medicina.

simultaneamente.Perguntava M. o critério do meio ordinário-extraordinário. valor dentro do qual se integra o acto de morrer com dignidade. Enquanto acontecimento da liberdade. própria da religião cristã e de outras correntes. Além disso. Poderíamos ainda perguntar como temos acesso à experiência da morte. É um paradoxo. A morte introduz na moral uma tensão entre absoluto e relativo. Os caminhos são diversos. Horkheimer. a morte das pessoas amadas.L. Madrid 1980.A vida não pode ser instrumentalizada pelo próprio indivíduo que a vive de forma que este não pode antepor-lhe qualquer outro fim ou valor supostamente mais alto. tais como: privilegiar o critério da acção directa-indirecta. pode ser também o momento da clarividência em ordem a inverter o sentido de um caminho sem sentido vivido até aí. morte que foi um supremo acto de liberdade. da ordem da necessidade e da liberdade. Quais são as exigências éticas do morrer humano? Para falar destas exigências. Esta diz-nos que todo o homem morre-com Cristo. pelo amor).A vida humana tem um valor originário e possui uma inviolabilidade de princípio. a morte põe a chancela de definitivo naquilo que foi a vida anterior. 10 J. 44 . esta mostra a sua incondicionalidade. podemos expor os seguintes princípios relativos ao valor da vida na situação de morrer com dignidade: .A pessoa e a sua vida (mesmo em estado terminal) não podem ser instrumentalizadas em relação com outros fins ou valores de ordem social. que não tenha em conta a totalidade da pessoa. inutilidade). podemos afirmar que ela é. Mas o caminho mais importante é o que nos é fornecido pela fé cristã. morre mesmo da morte de Cristo. liberdade. o critério da acção-omissão. existem certos caminhos que não parecem os mais convenientes. RUIZ DE LA PEÑA. O critério conveniente é o da afirmação do valor da vida humana. Para o que à moral diz respeito. .imperativos éticos da justiça. como se lhe pode fazer justiça? . Depois. isto é. E se já não se lhe pode fazer justiça a ele. 148.A vida humana não perde valor por se encontrar em situações de "menos qualidade" (velhice.O valor da vida é o sustentáculo de todos os direitos éticos e sociopolíticos da pessoa. Primeiro. El último sentido. que é a morte de uma parte de nós. dignidade. . . Se a ética é ultrapassada pela morte (assim como pelo humor. com que direito posso exigir eu que se me faça justiça a mim? Como se devolve a dignidade e a liberdade aos que foram tratados como escravos se eles realmente já não existem. É possível atribuir estes valores absolutos a sujeitos contingentes? Se um homem tratado injustamente morre para ficar morto. Neste particular. 3. A evidência da morte garante a incondicionalidade da ética (a qual transcende a própria história) e esta incondicionalidade da ética postula a transcendência da história. A morte é talvez a situação antropológica mais privilegiada. o critério da distinção das pessoas. Do ponto de vista moral. a representação da morte própria que é um caminho praticado desde o tempo dos estóicos e muito posto em acto pela espiritualidade cristã em certas épocas da sua história. . podemos dizer que consolida a opção fundamental e possibilita ao homem cumprir em plenitude o mandamento do amor. acontecimento vivido. pois a morte acabou com eles definitivamente?"10 A esta questão responde a fé na ressurreição. doença.

aliviar agonizantes em campo de batalha. "Distanásia é a prática que tende a adiar o mais possível a morte. É uma expressão insólita. a antecipação da morte". Fala-se.Aliviar o moribundo da dor com terapias oportunas. 510 (8ªEd. já inúteis e desenganados. nomeadamente favorecendo a assistência religiosa ao moribundo. Podemos exprimi-las do seguinte modo: . ainda que essas suponham o abreviar da vida e a queda na inconsciência.3. . Como valorar moralmente os comportamentos que têm a ver com o abreviar da vida do moribundo (eutanásia)? "Eutanásia" é "todo o tipo de terapia que suponha objectiva ou intencionalmente. Pode ser pessoal (decidida pelo própria ou por pessoas interessadas na situação. mas também meios extraordinários (proporcionados/desproporcionados).2. Como julgar entre aquilo que é devido a um doente ou aquilo que. directa ou indirectamente.3. . no sentido de lhe prolongar a vida e de lhe aliviar as dores. 3. 45 . . salvaguardado o direito de o paciente assumir a sua própria morte pessoal lucidamente. opção livre do paciente ou ancião). O direito está mais nas condições que acompanham a acção de morrer. sem esperança humana de recuperação. normalmente. atenta contra a sua dignidade? 11 M. . ainda que com dores. familiares) ou legal (imposta ou tolerada pela lei).Não privar o moribundo da acção pessoal de morrer. Os motivos que justificam este comportamento podem ser variados (aliviar dores. desfazer-se de anciãos inúteis e pesados ao erário público. do "direito" a morrer com dignidade.Favorecer a vivência do acontecimento humano da morte no seu aspecto de mistério. e usando para isso não só os meios ordinários. a valoração moral das práticas eutanásicas é claramente negativa.Organizar a assistência hospitalar do modo a possibilitar a vivência consciente da morte pelo homem num contexto comunitário.).Atenção ao moribundo com todos os meios que possui a medicina. prolongando a vida de um enfermo. Tendo em conta todo o nosso percurso expositivo anterior. neste contexto. Esta prática tem a ver com a possibilidade da reanimação.Livrar a morte da clandestinidade a que está votada na nossa sociedade cada vez mais urbana. 3. VIDAL. As exigências da ortotanásia hão-de ser realizadas pela sociedade. O procedimento contrário é precisamente a "adistanásia" (ou anti-distanásia) que consiste em deixar o paciente morrer em paz. Moral de la persona . Consideramos agora as condições melhores para a acção pessoal de morrer (morte digna) que se vai convencionando chamar "ortotanásia". por excesso. Outro mal-entendido a evitar é tomar a expressão "direito de morrer" no sentido de "eutanásia". muito custosos em si mesmos ou em relação com a situação económica do enfermo e da sua família"11. Pode ser uma acção positiva ou uma omissão. pois é cheia de densidade antropológica. técnica terapêutica vulgarizada hoje em dia.1. O perigo que se apresenta nestas situações é o excesso terapêutico que pode chegar a uma fronteira moralmente insensata. . de um ancião ou de um moribundo. uma vez que o morrer não é propriamente objecto de um direito.

Mas aqui abre-se um campo vastíssimo à prudência dos agentes de saúde. nomeadamente ligada à sexualidade. mas apenas a transmissão da vida enquanto intervencionada pela técnica. parece obrigatório suspender o tratamento distanásico (excepto transplantes). Mas é inevitável usá-lo no caso de transplantações de órgãos ou noutros tratamentos muito custosos ou muito dolorosos. nomeadamente o Magistério da Igreja. em nome da morte digna. Neste contexto da bioética não nos interessa a transmissão da vida em sentido geral. se o tipo de terapias a efectuar tem tais consequências psicológicas ou económicas para o enfermo e seus familiares. A evolução contínua das técnicas facilmente tornou ambíguo este critério. Mas também estes variam muitos de situação para situação. Mais precisamente. uma pergunta persiste: o respeito pela vida humana consiste sempre em prolongar a vida ou é preferível. distinguiam o carácter ordinário ou extraordinário dos meios usados no tratamento. De forma que hoje é preferível usar outra terminologia. E sabemos que a técnica tem ganho um papel sempre mais relevante neste âmbito da vida. deixar a pessoa morrer (adistanásia)? As situações podem ser de dois tipos: - Se for possível diagnosticar a morte clínica. Capítulo VI A TRANSMISSÃO DA VIDA HUMANA A transmissão da vida humana pressupõe e realiza um conjunto importantíssimo de valores em que a pessoa é concernida desde a sua profundidade. Se a situação do doente é de tal forma grave que um tratamento apenas pode eternizar uma situação insustentável (por exemplo em queimados). Mesmo com o enfermo consciente.O aspecto mais importante para julgar moralmente estas situações é o da esperança de recuperação mediante as técnicas de reanimação. não se vê por que se deva continuar esse tratamento. evitando o risco de cair em injustas discriminações. A tradição ética. de forma que o tratamento pode apenas prolongar uma vida vegetativa. distinguir antes entre meios proporcionados e meios desproporcionados. prestando somente cuidados paliativos. ou seja. O critério da "qualidade" da pessoa apenas pode ser usado com muito cuidado. o nosso ponto de vista é integrar os processos técnicos num 46 . prevendo-se como resultado um prolongamento irrisório da vida que se encaminha naturalmente para o seu termo próximo. Tentando esclarecer melhor. parece melhor não o iniciar.

esta questão? Temos de ter em conta vários aspectos. não tem tido uma devida valoração por parte do raciocínio moral. a técnica é bem-vinda ao processo procriativo. a inseminação artificial. vemos também que a fecundidade não é um valor absoluto na vida dos casais e que a esterilidade pode ser superada por outros meios. mas com sémen de um varão estranho (inseminação heteróloga). podem ser: anomalias congénitas ou traumáticas do pénis. ponhamos em realce alguns aspectos. mas de maneira artificial. como seja a adopção de crianças. Moral de la persona. Esta inseminação pode assumir as seguintes formas: fora do matrimónio (uma mulher só. A possibilidade de procriar novas vidas é um valor de importância enorme a vários níveis tanto de ordem pessoal como de ordem social. Por esta prática se entende "a intervenção médica mediante a qual se introduz o sémen no organismo feminino. Dentro deste apartado. Primeiro. tratar-se-á sobretudo de duas questões: as intervenções técnicas que têm em vista favorecer a transmissão da vida humana e. de forma normal. oligospermia. em segundo lugar. Está fora de dúvida que não se pode aprovar a manipulação que acompanha uma prática arbitrária desta inseminação (selecção. cavidade cervical ou útero. a fim de produzir a fecundação". Sendo uma situação de que sofrem cerca de dez por cento dos casais. quando as ciências da vida e as técnicas médicas vêm em auxílio do processo generativo. formas de impotência somática ou psíquica. as intervenções que visam impedir essa transmissão12. esta progressiva invasão do processo generativo por parte da técnica a que estamos a assistir actualmente não pode deixar de nos colocar algumas interrogações: vale a pena favorecer estas intervenções? A técnica é o único critério do progresso humano? Tudo aquilo que é possível tecnicamente é conveniente que seja executado? Para situarmos esta questão. a ética não pode deixar de se congratular. dentro do matrimónio (inseminação homóloga ou intra-conjugal). 47 . na mulher: deformação somática da vagina. Não há dúvida que é uma carência de origem biológica mas que afecta os casais muito para lá dessa dimensão. que deseja um filho mas não marido). Porém. no homem. dentro do matrimónio. Como clarificar. Por este lado. para completar estes aspectos. Está indicado nos casos de um casal fecundo mas impossibilitado de realizar. Porém. VIDAL. para que o auxílio da técnica não faça esquecer que a transmissão da vida está ligada essencialmente ao campo humano e não pode tornar-se apenas um processo técnico. Começamos pelas técnicas destinadas a favorecer a procriação humana. doenças psíquicas (vaginismo. Essas causas.horizonte humano de valores. Temos. Por isso. Não seria necessário lembrar. classificação. etc.). não através de um acto sexual normal. do ponto de vista moral. a situação de esterilidade. conservação de 12 Continuamos a seguir: M. como seja a dedicação a serviços de finalidade social e altruísmo. que a ética que nós professamos enfoca esta questão exclusivamente dentro do âmbito do matrimónio.1. primeiramente. 329-381. um acto sexual por causas diversas. 1. ou por outras práticas. 1.

Pelas razões já apontadas. . o Magistério da Igreja põe algumas dificuldades derivadas da concepção sobre o matrimónio (separa os aspectos unitivo e procriativo do matrimónio). É uma manipulação imoral na sua raiz. 1.A qualidade especificamente humana do embrião. . apesar da discussão que já vimos sobre o início da vida humana. O Magistério da Igreja Católica não admite este processo. desvirtua o sentido da paternidade/maternidade.As implicações de carácter social. são de ter em conta mais os seguintes: . Os aspectos 48 . Este critério presidirá à manipulação. ectogénese pré-implantatória. Segundo que critérios ajuizar moralmente esta fecundação artificial? Além dos critérios gerais sobre o valor da fecundidade. ou simplesmente a forma popular "bebé-proveta". ainda são vários os perigos a que está sujeito o embrião. congelação. Em princípio. a teologia moral não vê motivos para declarar imoral um processo que apenas prolongue um autêntico desejo unitivo e procriativo dos esposos. Concebida como intervenção técnica que apenas ajuda o processo natural a tingir as suas finalidades. etc. e acarreta um sem número de consequências psicológicos para o casal e para a criança. A fecundação artificial (fecundação "in vitro" e transferência de embriões FIVETE). De facto. Quanto à inseminação homóloga ou intra-conjugal. não é admissível a inseminação heteróloga. o negócio dos "bancos de esperma". em que a fecundação acontece "in vivo".sémen. Num processo ainda insuficientemente domesticado. Que prioridades para o sistema sanitário? Os aspectos culturais (mudança de mentalidade sobre o valor da procriação). todo o tipo de inseminação eugénica não pode ser vista como moralmente boa (caso de iniciativas como a criação de um banco de esperma ou de óvulos de "génios" que tenham sido Prémio Nobel).2. selecção dos embriões.Os perigos do processo para o novo ser posto em gestação. A primeira criança que nasceu com origem neste processo foi Louise Brown que nasceu em Inglaterra a 25 de Julho de 1978. incluída a malformação. O poder político despótico ou o poder económico podem induzir à prática de uma procriação programada. Mas esta é uma situação onde é admissível uma certa discussão e pluralismo moral. "Entende-se por fecundação artificial um conjunto de intervenções médicas que vão desde a obtenção de óvulos e de esperma até à implantação do óvulo fecundado no útero (próprio ou adoptivo) para o ulterior desenvolvimento intra-uterino. esta intervenção não estaria incluída nas reservas do Magistério da Igreja. O desejo da maternidade neste caso destrói o seu próprio sentido: o processo deve ter em vista o bem do futuro ser e não a satisfação da progenitora.). O mesmo se diga do processo realizado em favor de uma mulher solteira ou de um casal homossexual. Mas neste caso. O processo pode ser chamado de várias maneiras: fecundação extracorpórea. Daí em diante o processo tem-se vulgarizado sempre mais em muitos países. passando pela fecundação e primeiro desenvolvimento da célula germinal fora do seio materno". É objecto de alguma discussão o caso do processo conhecido pela sigla GIFT (transferência intra-falopiana de gâmetas).

Por sua vez. toda a criança que vem ao mundo deverá ser acolhida como um dom vivente da Bondade divina. para cautelar as criaturas nascidas por este processo para conhecerem a sua origem genética. podem ser usados os mesmos critérios da inseminação artificial homóloga. a fecundidade é uma dádiva gratuita. evitando a perda de embriões fecundados. . Mesmo não podendo ser aprovada a modalidade pela qual é obtida a concepção humana na FIVET. para regular o possível comércio com os elementos fecundantes e com embriões. por obviamente desumanizante. do ponto de vista moral. não existe o "direito" a ter um filho a todo o custo. 13 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. . Por exemplo. a colocação do novo ser no centro do processo. 5). 49 . . sobretudo para cautelar os "direitos" do embrião.Não é moralmente aceitável. .o princípio de que a vida é um bem inestimável. Os desejos de maternidade/paternidade estão subordinados ao bem do nascituro....Os valores da procriação humana. a maternidade substitutiva (a "gestação de aluguer"). Instrução sobre o respeito da vida humana nascente e a dignidade da procriação (Ed. Sendo assim. . ligada ao amor. é necessário ter em conta. Não é sensato. não esquecer que este processo está dando apenas os primeiros passos e existem ainda riscos incontrolados.Para avaliar a fecundação artificial rigorosamente homóloga. realizar esta procriação em favor de pessoas individuais. ter em conta as prioridades do sistema de saúde. Vaticano 1987. B.que Deus é o Senhor da vida."13. Este texto apresenta como critérios para julgar a procriação artificial os seguintes: . temos as seguintes orientações éticas: .jurídicos são também de ter em conta. . como sejam a experimentação e a observação científica (implantação adiada com fins experimentais). Aqui. . a selecção somente técnica. 30. pois o sistema jurídico não está preparado para dar conta das novas implicações desta procriação assistida.. Italiana. de "casais" homossexuais.a unidade corpo-alma do ser humano.São moralmente inaceitáveis um conjunto de práticas que não podem ser reconduzidas ao bem do embrião. tendo em conta que este processo é mais oneroso.O casal heterossexual estável e em idade de procriar é o único contexto moralmente correcto para a fecundação "in vitro". esta é ilícita em si mesma e está em contraste com a dignidade da procriação e da união conjugal. O novo ser tem "direito" a vir ao mundo no âmbito de uma família. mesmo quando tudo seja posto em acção para evitar a morte do embrião humano.a Igreja permanece contrária. II. pois.o princípio de que o fim não justifica os meios. como já se disse. à fecundação in vitro homóloga. só tem sentido este processo em favor das famílias propriamente ditas. os direitos de todos ainda não estão acautelados dentro de um sistema jurídico-social que não estava preparado para estes procedimentos. para definir a paternidade/filiação (no caso de fecundação com gâmetas oferecidos). quer dizer. . valorar o "direito ao filho" dentro dos outros bens do matrimónio. Por tudo isto e ainda por razões de prudência mais profunda se compreende a extrema reserva do Magistério da Igreja sobre esta matéria: "Em conformidade com a doutrina tradicional. a congelação ou conservação em armazém de embriões.a exigência de que o ser humano venha ao mundo tendo origem numa relação sexual dentro do matrimónio.

Em condições ainda não muito esclarecidas. uma instrumentalização do ser humano. o mesmo sexo e a mesma configuração física do dador do núcleo da célula usada. Primeiro. O ser resultante tem o mesmo código genético. É diante destas possibilidades. Aqui. para pôr em evidência os valores realmente humanos e não possibilitar uma manipulação que venha a extrapolar as raias do sentido do fenómeno humano. Já foi possível realizar tecnicamente o transplante de ovários e pode acontecer uma posterior gravidez. Por agora. 1.3.3. a partir das vinte e cinco semanas. as técnicas para diminuir ou impedir a procriação humana. a existir. A reprodução clonal não está fora das possibilidades da técnica. Temos. Mas a esperança médica é de. a clonagem. 50 . representa uma invasão da privacidade da pessoa a nascer. que são de incluir neste apartado sobre os processos técnicos para favorecer a reprodução humana. Antes de ela vir ao mundo. Existem fundamentalmente três ordens de problemas. 1. A pessoa a nascer é buscada como um meio de prolongar o autor da clonagem. É outra técnica que causará certamente muitos transtornos. reduzimos o ângulo de visão para tratarmos apenas das intervenções "técnicas" destinadas a impedir a procriação para as avaliarmos do ponto de vista moral. Em terceiro lugar. não é filha de ninguém. pelo menos psicológicos e jurídicos. é possível fazer sobreviver fetos expulsos prematuramente. Como ajuizar esta matéria? O problema não está em ter o mesmo código genético. tanto na "mãe" como na pessoa nascida nesta situação insólita. 2. através da demografia. uma vez que isso já se passa na natureza como os gémeos verdadeiros. e a utopia é criar uma placenta artificial para todo o período de gestação.2.1. Fazemos ainda referência breve a outras técnicas. esse processo pode desenvolver-se como se de uma fecundação normal se tratasse.3. nem irmã de ninguém. em segundo lugar. mais raras. já vai ser conhecida nos seus traços físicos e noutras qualidades. A questão da natalidade assume aspectos de grande amplitude. Em segundo lugar. em breve. A pessoa a nascer.3. Isso é inconcebível do ponto de vista moral. Ora toda a pessoa tem direito a um segredo que só revela a quem quiser que constitui o direito à privacidade. para inventar um critério humanizador. conscientemente.1. da relatividade e da procriação. o recém-nascido é portador do património genético da mulher dadora dos ovários e não da sua mãe corporal. Neste caso. que a ética se apresenta como um saber imprescindível. Consiste "em extirpar o núcleo de um óvulo e substituí-lo pelo núcleo de uma célula somática". perverte completamente o sentido da sexualidade.3. 1. Isso não tem ainda enquadramento ético possível. que pode ser masculina ou feminina. que vão desde a paternidade/maternidade responsável até à racionalização da população. não é proveniente da relação de ninguém com ninguém. fazer recuar esse prazo para as dez semanas. felizmente ainda da ordem da ficção.

tem efeitos menos importantes do que a castração. foi usada como represália (como no caso de Abelardo). a moral tem tentado inventar novos caminhos que acautelem valores maiores que que a integridade física. podemos sintetizar deste modo os critérios morais que hão-de iluminar as intervenções sobre a fecundidade: . Tendo em conta que esta maneira de pôr a questão não adere verdadeiramente à realidade. A castração e a esterilização foram indicadas de vários modos na historia. A esterilização foi também usada como pena até há bem pouco tempo (depois da "Casti Connubii"). Por sua vez. Sendo assim. 2. .O respeito pela decisão pessoal deve prevalecer sempre sobre a decisão das autoridades ou qualquer tentativa de manipulação. O raciocínio era deste género: a faculdade reprodutiva faz parte da integridade física. Hoje. a castração é uma prática que pode ser 51 . Ao nível do equilíbrio geral da pessoa. O mesmo se diga da esterilização directa declarada ilícita na base do princípio do "voluntário directo".Esta intervenção há-de ter em conta o crescimento harmónico da pessoa a nível corporal e psíquico (não esquecendo que o sentido da vida é o serviço do outro). como técnica para possibilitar aos cantores manter as vozes brancas (na Capela Sistina até 1884). A moral tradicional é hostil às práticas da castração directa que equivale a uma mutilação indevida (em virtude do princípio de totalidade. Esta é também a moral da Igreja. a esterilização é indicada tanto em contexto médico. Só se pode legitimar a castração indirecta). A esterilização é "a intervenção mediante a qual se estrangula o conducto do sémen ou o oviducto ou se os extrai parcialmente".1. Tendo em conta esse bem humano. Esta intervenção tem notáveis consequências a nível corporal e psíquico. ainda que a actividade sexual continue possível.A intervenção de modo a evitar a fecundidade deve acontecer num contexto de programação responsável da natalidade e não num contexto de banalização ou irresponsabilidade. toda a intervenção que tenha como objectivo a infecundidade equivale a uma mutilação. Tem como consequência a impossibilidade total da fecundação. Entende-se por castração "a intervenção consistente em extirpar as glândulas sexuais (os ovários ou os testículos) ou a total anulação da sua actividade por outros procedimentos". A primeira. Referimos primeiramente a castração e a esterilização. assim como o valor da vida sexual matrimonial. apenas se justificam intervenções sobre a faculdade reprodutiva que tenham em vista o bem da totalidade da pessoa. . pomos esta questão preferentemente sob o prisma do bem humano. como eugenésico e social. As operações mais correntes para efectuar a esterilização são a vasectomia (secção dos conductos deferentes) e a laqueação das trompas.Houve um tempo em que a moral usava como horizonte de valoração moral destas intervenções a "integridade física". ou ainda como terapia para anomalias de tipo sexual. uma vez que estas glândulas são também responsáveis pela produção de hormonas. a castração é indicada apenas em contexto médico. sendo assim. mais sobre este "bem físico". como castigo dentro da ordem jurídica. Hoje.

Expomos os seguintes critérios: . Passemos agora ao problema da contracepção. Haering: "A intenção de praticar a esterilização para atingir este fim (a recusa da vocação procriadora) é absolutamente rejeitada. Sobre a esterilização. ou pelo menos o melhor. ainda que estejam em causa uma razoável contenção da população. modo de salvar uma mãe para o desempenho do seu papel de esposa e mãe numa situação já de si difícil. Todo raciocínio que tente justificar a castração como pena. liberdade sexual que proporcionam não chega a justificar a esterilização. questão é mais complexa.. e não existe.. tendo em vista as advertências do Magistério da Igreja. a esterilização se apresenta como a melhor terapia possível. uma prática indiscriminada da contracepção levantou na Europa uma questão demográfica de consequências graves que se manifestam já na actualidade. contraceptivos). neste caso a laqueação de trompas pode ser o único. Porém. Entre essas. Etica Medica. em relação ao marido. portanto. nas suas últimas gravidezes desenvolveu uma psicose da gravidez. pelo contrário. 2. do ponto de vista médico. não pode ser aceite do ponto de vista moral. HAERING. quando a preocupação fundamental esteja voltada para uma cura responsável da saúde das pessoas ou a salvação do matrimónio.repetimos .a esterilização não pode ser definida como contrária aos princípios de ética médica. a esperança de um comportamento responsável. . neste caso .Não é justificado do ponto de vista moral o recurso à esterilização como método de regulação da natalidade. podem acontecer situações pontuais de particular gravidade em que o recurso a este processo possa ser justificado. Para compreender o significado da fecundidade no interior da família temos de afastar algumas ideias incompletas. a esterilização encontra a sua justificação por motivos médicos válidos.. 153 s. enquanto. Como vamos iluminar esta situação plurifacetada? Começamos por um ponto prévio sobre o significado da fecundidade humana.2. Esta questão da contracepção assumiu grandes proporções sobretudo para os casais católicos no último quarto de século. Por exemplo.É imoral a prática esterilizante que não tenha em conta a livre vontade das pessoas em causa mas resulte de uma manipulação mais ou menos subtil.indicada somente em contexto médico. Roma 1979. em que um médico competente chegue à determinação . sempre que haja outros meios menos onerosos (p. No caso. Vejamos este texto de B.em completo acordo com a sua paciente . .Apesar desta norma geral. 52 . se uma mulher. Por outro lado. A manipulação publicitária sobre a eficácia. nem contrária à "lei natural" (recta ratio). tendo em conta o bem geral da pessoa. facilidade.que para esta pessoa uma nova gravidez deva ser definitivamente evitada por que seria um acto extremamente irresponsável. a ideia estoica que vê a fecundidade como 14 B. Podemos considerar este significado desde a perspectiva do casal e desde a perspectiva da sociedade. ex. Existem muitos outros casos de gravidade semelhante"14.

numa sociedade concreta. Interessa-nos mais a questão da racionalização da fecundidade dentro da família. na pessoa dos filhos. como pela sua falta. tornar-se uma carga. 2. pois.Todo o ser humano tem direito de entrar no mundo. Trata-se de afirmar que os filhos não devem ser fruto de uma vida sexual apenas instintiva e irresponsável. 53 . Num e noutro caso.2. A sociedade tem. Entre essas.única justificação do matrimónio ou então aquela que coloca a fecundidade como "desculpa" para a sexualidade matrimonial (uma ideia de origem grega). nas circunstâncias. Para exercer responsavelmente a paternidade/maternidade. no seu próprio bem e no bem dos filhos nascidos e a nascer. e a viver uma vida plenamente humanizada. a fecundidade é um bem social de primeira ordem. em condições normais. que também é conhecida por "planeamento familiar" ou "paternidade/maternidade responsável".2. o factor "população" é mais importante do que todos os outros. Entre as ideias cristãs imperfeitas. 48). temos também aquela que vê a procriação como "fim primário" do matrimónio (e o amor como fim secundário. a sociedade tem o dever de criar condições às famílias. em certas circunstâncias. condições económicas e de "habitat" em geral que possibilitem a realização destes valores de crescente humanização. Estas ideias foram superadas por concepções mais personalistas. pois. por sua vez. É certo que pode também. o matrimónio e a sexualidade em função de algo externo. . 2. São concepções biologistas ou juridicistas que colocam as pessoas. é a entrega de toda a existência ("íntima comunidade de vida e amor". de fornecer meios adaptados para promover este valor. o direito de ser amado. salvaguardado o princípio anterior sobre a responsabilidade primeira dos pais. É aqui que surge a questão dos métodos anticonceptivos. Além de um valor essencial da família.Por sua vez. de facto. ocorre uma racionalização da fecundidade. Esta entrega pessoal floresce. A sociedade. São sujeitos desta responsabilidade a comunidade conjugal e também a sociedade.GS. direito e dever de educar. indicamos os seguintes critérios morais: . podemos lembrar aquela precisamente do Concílio Vaticano II (Constituição "Gaudium et Spes") que coloca a conjugalidade como núcleo do matrimónio: este é mais do que um contrato. Ao nível da racionalização social da população. tem o direito e o dever de fornecer às famílias informação e de criar as condições de diverso género para o exercício deste direito por parte delas.1. A fecundidade é uma qualidade intrínseca do amor e talvez mesmo uma componente do autêntico erotismo. tendo em vista os valores considerados mais preponderantes. não vindo ao mundo por obra de um instinto ou de um "programa" técnico impessoal.2. A primeira é mais importante e a ela compete emitir o último juízo sobre a realização concreta da fecundidade. tanto pelo seu excesso. Nas sociedades. podem muitos casais ter regular a sua própria fecundidade. com base no sentido do amor conjugal. Tem. mas de um amor maduro e responsável das pessoas.

. “Tudo aquilo que for feito em previsão do acto conjugal. Não são propriamente abortivos (pois actuam antes da nidação) nem meramente anticonceptivos (pois actuam depois da fecundação). Segundo este critério.Esterilizantes: originam a esterilidade permanente. . durante a sua realização ou depois dele.Sobre os métodos anticonceptivos propriamente ditos. considerámo-los sobre a sua relação à vida humana. é possível que possa ser prescrita. são. embora não possam ser aceites do ponto de vista moral. para impedir a sua força fecundante. e sabendo que a função unitiva da sexualidade é autónoma. muco cervical. temperatura. tal como o expusemos. representam um caso de ter em conta. Esta distinção é mais pertinente num caso de violação. 14). os métodos abortivos não podem de modo nenhum ser aceites como regulação responsável da natalidade.) * barreiras mecânicas (preservativo. estabelecem-se alguns critérios. que não existe um método ideal. mesmo que hipoteticamente não irreversível. normalmente. .Interceptivos (também chamados anti-nidatórios ou anti-implantatórios): impedem a implantação no útero do óvulo fecundado.Estes anticonceptivos podem ser julgados segundo diversos critérios. são preferíveis a outros.Abortivos: interrompem a gestação de um óvulo implantado no útero. provocando a sua destruição. como a Igreja católica e outras religiões e autoridades que chamam a atenção para o prejuízo humano do uso destes métodos de regulação da natalidade.Tendo em conta o valor da vida.Da esterilização já falámos antes. 54 . Não se pode julgar esta questão na base do "natural-artificial" que não conduz a lado nenhum. Há-de ter-se em conta. se já foram esgotados todos os métodos anticonceptivos. num caso em que a procriação haja de ser afastada a todo o custo.). etc. acrescentamos que. Vimos que existe razão para considerar uma diferença qualitativa entre um óvulo fecundado antes da implantação e depois dessa. etc. Aqui. por exemplo. esses MÉTODOS podem ser: . como seja a esterilização (quando esta houver de ser prescrita). actuando de forma diversa: * interrupção do acto sexual *abstinência de relações sexuais nos períodos fecundos da mulher (períodos determinados na base do calendário. Outro critério são as vozes de instâncias de autoridade moral grande.Os métodos interceptivos. . injecções. por outro lado. De forma que dizemos que embora sendo mais onerosos que os anticonceptivos. cirúrgicos (vasectomia ou laqueação de trompas). . Quanto à valoração moral desta matéria. com uma bondade absoluta. Embora esta nunca possa ser imposta. . resumimos a valoração ética em algumas afirmações. . diafragma) * barreiras químicas (espermicidas) * preparados hormonais (pílulas.Anticonceptivos propriamente ditos: impedem a fecundação. tendo em conta os diversos critérios. é moralmente ilícito” (HV. podem ser químicos (pílula do dia seguinte) ou mecânicos (DIU).

1. algumas dessas agressões.Th.Capítulo VII AGRESSÕES CONTRA A VIDA HUMANA As agressões contra a vida humana são um capítulo muito estendido da história da humanidade e das nossas sociedades. A segunda razão mostra como cada ser humano é membro de uma sociedade. II-II. em vida. 5) que as razões que mostram a ilicitude do suicídio são apresentadas em três direcções. para qualquer ser humano do nosso mundo que se encontra em alguma dificuldade grave. Albert Camus deu forma a este sentimento moderno difuso quando afirmou na introdução ao seu ensaio (O Mito de Sísifo) que o suicídio é o único verdadeiro problema filosófico. os dos palestinianos de Israel). ou da criadagem dos imperadores das civilizações americanas pré-colombianas que eram emparedados juntamente com o cadáver do seu soberano. como o valor da pátria ou o valor do heroísmo militar (como é o caso dos aviadores kamikazes. Tomás de Aquino (S. Temos em conta.). de pôr termo à própria vida pode acontecer em contextos muito variados. Desde S. A primeira mostra como todo o ser humano se estima naturalmente a si mesmo. Existem. O suicídio A tentativa. mas não certamente a sua justificação. tal como as partes pertencem a um todo. No nosso tempo e na nossa cultura. É por isso que dar a morte a si próprio é um acto contrário a uma inclinação natural e uma contradição da caridade que cada ser deve a si mesmo. tentativas sociológicas e psicológicas de explicar a incidência do fenómeno do suicídio. seja dificuldade concreta seja encontro com a ausência de sentido da sua existência. Pode vir de um impulso de auto-imolação profética para testemunhar um valor verdadeira ou supostamente não reconhecido. etc. se não pode eleger o momento da sua morte.. é incinerada juntamente com o cadáver do seu marido. ou seja. Por conseguinte. Durkheim. dar a morte a si mesmo é uma injúria à sociedade a que 55 . Pode ainda ter origem em costumes muito estranhos à nossa mentalidade. como é o caso da viúva hindu que. bem ou mal sucedida. 64. O suicídio pode ter também uma origem patológica (depressão. Por isso. de forma breve. o que ele é pertence à sociedade de que faz parte. Esses ensaios oferecem-nos certas constantes do fenómeno. Ele pode provir da exaltação exagerada de um valor. desde E. Mas o suicídio pode acontecer e aconteceu noutros contextos. Assim sendo. essa decisão provém correntemente do sentimento de que o homem não é verdadeiramente livre se não pode dispor da sua própria vida. ou provir de um acto de desespero. uma solução parece ser razoável: o suicídio. Alguns autores e alguma cultura não hesita mesmo em falar de "um direito ao suicídio".

provém igualmente das situações de marginalidade e de associação criminosa que são sintoma de graves desequilíbrios sociais. justifica que se atente contra a vida de outrem.se pertence. É o caso dos hebreus de Massadá que optaram por essa forma como resistência aos invasores romanos. 2. a boa fama. dizemos que. pode ter origem no fanatismo religioso. Estas razões eram válidas numa cultura imbuída do factor religioso cristão e dando grande relevo à coesão social. nem sentido de pertença à sociedade. o acto de tirar-se a vida é gravemente imoral. A legítima defesa pessoal A legítima defesa pessoal é situação em que se tira uma vida. O homicídio O acto homicida de tirar a vida ao semelhante provém do ódio acumulado no coração humano. etc. Porém. 56 . a violenta paixão fanática. A moral tradicional legitimava este acto no caso de se reunirem algumas condições. objectivamente. mesmo depois do que dissemos antes. quem se suicida peca contra Deus. nem mesmo com outros valores bem mais importantes do que os bens materiais. na maioria das vezes. como sejam a honra (ao menos de pessoas adultas). ou os casos de fanatismo religioso como o da ilha de Granada (1978) ou outros mais recentes. visto também o que ficou dito. no caso de uma agressão actual injusta. Mas deve-se dizer que se trata de uma situação que tem o carácter de quase pré-moral. devemos dizer que tais actos mais desonram do que honram a espécie humana. Muito embora se mantenha a teoria tradicional. de se esforçar. antes de mais. Nenhuma situação. 3. Esta é uma situação a que se não pode fugir em teologia moral. ou noutras razões. a perda patológica das defesas vitais normais. a ausência de más intenções (não pode ser acompanhada de um acto de vingança). etc. como um acto gravemente imoral. Não obstante o heroísmo revelado. em qualquer destas circunstâncias. O mais certo é retirar-se da vida mesmo antes de entrar na fronteira da pátria da moral.. Assim. A pessoa que se tira a vida. a vida é um dom de Deus "que dá vida e a morte". Para livrar as pessoas da tentação do suicídio. a proporção entre a contundência da resposta e o valor ameaçado. Em muitos casos. por mais gritante. Com efeito. A moral cristã considera o homicídio directo. não pretenderá praticar um acto imoral. nem sentido religioso. a dissolução do sentido da vida. no ódio nacionalista. temos dificuldade em atribuir uma culpa subjectiva muito grave à maior parte dos suicídios que se verificam na nossa sociedade. a saber: a necessidade (não pode haver alternativa). de refazer o sentido do amor equilibrado a si mesmo e os laços da pertença à comunidade. Em terceiro lugar. São conhecidos os casos tristemente famosos de suicídios colectivos. Nas sociedades actuais. a teologia moral tem. retiram às pessoas grande parte da responsabilidade. portanto. Hoje. Enquanto ao juízo moral sobre o suicídio. nem existe uma equilibrada auto-estima. reduz-se o mais possível a proporcionalidade: a agressão em legítima defesa nunca deve estar em proporção com bens materiais (que não sejam absolutamente necessários à sobrevivência do agredido).

5. Este procedimento pretende denunciar e desprestigiar uma instituição ou 57 . em parte. porque e pena de morte é inútil: não intimida. Segundo. Hoje. a pena de morte castiga um comportamento que. porque é imoral: a justiça não pode colocar-se ao mesmo nível do criminoso e pode enganar-se. Mesmo que tenha sido justificada na história do passado. como reparação de uma morte culpável. etc. porque não é um meio não necessário: "basta" recluir o delinquente (só por tempo suficiente). ou outra pessoa por instigação deste. dentro da ordem jurídica. sejam físicos ou mentais. Certamente que a privação da vida nunca pode ser meio para resolver a conflitualidade social. em virtude de um delito. A própria lei de talião (do AT) consistia em limitar a violência e a vingança desenfreada do direito bárbaro do deserto. 6. uma vez que uma sociedade que educa para a competição é potencialmente violenta. hoje o clamor é generalizado contra este tipo de prática por se a considerar absolutamente imoral e injustificável seja em que circunstancia for (cf. Primeiro. Entende-se por tortura. Sexto. A greve de fome Temos também de dizer uma palavra sobre a greve de fome. porque é injusta. A expressão é o nome impreciso para uma prática que consiste no jejum voluntário (até à morte). com o fim de obter dela ou de um terceiro informação ou confissão. A tortura Outro dos atentados contra a vida humana é a tortura. é crescente o movimento social que rejeita a pena de morte. ou de intimidar essa pessoa ou outras". A pena de morte Tratamos agora da questão da pena de morte. como legítima defesa da sociedade em relação aos seus inimigos. não tanto com argumentos de fé como da razão. 27). porque é pessimista: não acredita na conversão da pessoa que é a única coisa que tira o mal do mundo. porque é anti-cristã: não se pode justificar desde a Bíblia (se existe no AT é por razões culturais): Deus impede a execução do assassino Caim. A teologia moral tradicional legitimou a pena de morte. Quinto. Mas existem outras vertentes deste fenómeno: as execuções como represália. o assassínio destinado a repor a ordem pública. de castigá-la por um acto que tenha cometido ou se suspeita que tenha cometido. Era justificada tendo em vista intimidação que fazia aos possíveis futuros culpáveis. É uma triste constatação que a humanidade tarde a livrar-se deste tipo de "morte legalizada". Terceiro.4. Quando falamos de pena de morte entendemos o tirar a vida como pena aplicada. inflija intencionalmente a uma pessoa penas ou sofrimentos graves. não repara nada nem compensa coisa nenhuma. dando-lhe um tratamento pedagógico. Quarto. segundo palavras de uma Declaração da ONU (9 de Dezembro de 1975): todo o acto pelo qual um funcionário público. GS. com a finalidade de conseguir o reconhecimento de um direito que se julga injustamente reconhecido. Jesus promulga claramente a lei do amor mesmo dos inimigos. a sociedade induz. Com base em alguns argumentos.

então. o contexto "manipulador". jejuou até à morte. que comoveu a humanidade. em certa medida. assim. São conhecidos muitos casos de grevistas deste género: o do Mahatma Gandhi em 1943. só pode ser trocado por valores muito fundamentais.). muito importante a questão do discernimento. à partida. torna-se necessário fazer algumas perguntas: o comportamento tem uma causa justa? Estão esgotados todos os procedimentos menos custosos? Existe fundada esperança de êxito? Existe proporção entre aquilo que se põe em perigo (a vida) e aquilo (os direitos violados) que está em jogo? É claro que esta consideração não pode deixar de ter em conta que a vida é o valor mais importante e. livrar-se da patologia psíquica ou da manipulação ideológica. mais do que como atentado directo contra a vida. Deste modo. pelos direitos da sua pátria. 58 . é difícil legitimar eticamente a greve de fome. o de Bob Sands. estas condições são difíceis de reunir. O critério mais importante para fazer a greve de fome sair do âmbito do suicídio é o altruísmo. Entre esses: o contexto terrorista em que a greve de fome se torna uma chantagem emocional. este comportamento pode. De forma que pode-se também ver o problema sob o prisma da "Forma de pressão" (greve). confrontada com a vida que põe em causa. Mas todos os dias há notícias do uso desta forma de protesto (por parte de encarcerados. entre outros. etc. um irlandês que. o fanatismo de qualquer género. Neste caso. a pura e imparcial referência aos outros e às condições necessárias à sua humanidade. Em ordem a isso. a greve de fome. Usa como táctica dar a máxima publicidade ao jejum nos mass media. Torna-se. Mesmo assim. Mas nunca esteve fora de mira a consideração desta matéria como "suicídio indirecto". o contexto simplesmente "banal" de muitas dessas greves.um estado causante da injustiça. A moral tradicional trata da questão da greve de fome no interior do quadro relativo ao suicídio. em 1981. De forma que. dizemos que alguns contextos desacreditam eticamente. Vista neste prisma. se as razões ideológicas que presidem à greve são imediatamente evidentes. a valoração moral é muito negativa.

1. Como em nenhuma outra época da história as ciências da vida têm actualmente uma capacidade de experimentar. Valoração moral da experimentação humana em medicina 1.Capítulo VIII EXPERIMENTAÇÃO SOBRE SERES HUMANOS. Moral de Actitudes II. cit. para orientar essas ciências e acautelar o futuro da humanidade. Em sentido estricto. todos os tratamentos comportam um factor de risco que pode ser maior ou menor. A experimentação terá normalmente uma intenção 15 Seguimos aqui: M.-R. um facto necessário para o progresso da medicina imprescindível para o desempenho do seu papel em favor da humanidade.. Experimenta primeiro sobre organismos infra-humanos. manipulação e programação 15 . não resta outro remédio que não seja observar e experimentar nos próprios seres humanos. esta experimentação consiste em verificar sobre seres humanos certas hipóteses ou intuições relativamente ao valor terapêutico de técnicas ou fármacos que nunca foram usados antes. 383-412. 59 . a fisiologia comparada e outros procedimentos preliminares são úteis e necessários mas não podem substituir a observação e a confirmação da resposta humana aos novos métodos terapêuticos" 16. WEBER. 1. "Para adquirir conhecimentos aplicáveis aos seres humanos. 16 H. MANIPULAÇÃO GENÉTICA E EUGÉNICA. Moral de la Persona. a medicina progride com base no método experimental. Ética biomédica. Cf também: S. A bioética está confrontada com este facto e procura iluminá-lo. Em conformidade. uma vez que todos os organismos são diferentes no modo de reagir aos fármacos. VIDAL. Mas de qual experimentação falamos aqui? Existe um carácter experimental em todo o tratamento médico. Op. cit. Esta é uma experimentação em sentido amplo. uma vez que tudo está ainda nos seus começos. mas vem o momento em que tem de experimentar sobre organismos humanos. Integrada no âmbito científico moderno. São Paulo 1990. no fim de contas. Madrid 1985. A experimentação é. PROGRAMAÇÃO CEREBRAL Neste capítulo tratamos um conjunto vasto de problemas que são delimitados pelas palavras experimentação. 161-175. As experiências em animais. Este reconhecimento parece o melhor ponto de partida para a consideração ética do fenómeno. intervir e manipular de proporções potencialmente assustadoras. in M. VIDAL. SPINSANTI. 385. por conseguinte.

crítica) perderem eficiência. de uma forma absoluta. no sentido de acautelar os seus legítimos interesses. de que o dito consentimento contrarie a escolha do paciente que.. O principal critério é este: a experimentação tem de considerar o homem como pessoa.2. mas apenas remota. Fez-se sobre sobre pessoas sãs. nenhuma experimentação será levada a cabo sem o consentimento da pessoa em condições de dispor de si livremente. 1. A experimentação clínica tem assumido muitas formas ao longo da história. O terceiro critério pode formular-se deste modo: a centralidade da pessoa e da sua livre disposição de si tem de entender-se dentro de um contexto comunitário e não de um contexto individualista. frente à comunidade e frente a Deus. durante a segunda Guerra Mundial. só no caso de estes não estarem disponíveis ou em circunstâncias de urgência. cit. O problema ético da experimentação tem a ver com a diferença radical entre a experiência sobre animais. com a sua prévia aceitação. recusa a intervenção salvadora"17. 388. Nenhuma experimentação tem sentido se reduz o homem a objecto. Note-se ainda que o paciente não pode dispor da sua vida de uma forma totalmente ilimitada ou arbitrária. sobre os prisioneiros dos campos de concentração. "Ninguém pode intrometer-se na sua esfera (de um paciente) sem receber dele formal autorização. existe aqui um campo de acção formativa a desenvolver no sentido de não somente recusar a manipulação mas também de afirmar a liberdade de contribuir para o bem social permitindo algumas formas de experimentação. Pelo contrário. quer dizer que as práticas de experimentação hão-se ter em conta o bem da pessoa na sua totalidade corpóreo-espiritual enquanto indivíduo. inclusivamente. Só no caso de as suas faculdades arbitrais (inteligência. e o momento em que o objecto do cientista médico é um sujeito. Este critério chama justamente a atenção para o aspecto comunitário e social do conceito de "pessoa". desde que se o faça a seu favor. in M.terapêutica imediata e pode assumir a forma de medicação ou de cirurgia. Será esta consideração do homem que possibilitará estabelecer "os limites normais" da experimentação. o tutor ou eventuais delegados. por outro lado. PERICO. a livre disposição de si não inclui. Op. será possível substituí-lo nas suas decisões. Por óbvia presunção jurídica. ninguém é dono absoluto do seu corpo ou do seu espírito. 17 G. cit. a liberdade de negar-se sempre à experimentação clínica. que não põe nenhum problema moral imediato. Este princípio prolonga-se numa dupla direcção: por um lado. mas também os benefícios que daí advirão para toda a sociedade. por razões de inconsciência ou de medo. nem que tenha como horizonte as supremas metas da ciência. ninguém o pode substituir nas suas acções. o paciente é o único responsável dos compromissos assumidos frente a si mesmo. considera-se como substituto o parente. O critério seguinte é este: para respeitar o homem como pessoa. VIDAL. Mas pode ser também uma experimentação sem finalidade terapêutica imediata. fez-se sobre encarcerados ou sobre condenados à morte. 60 . Daí que tenhamos um conjunto de valores a acautelar quando se trata da experimentação sobre seres humanos. pode dar-se o caso. É conhecida a reação da opinião pública violentamente acordada quando se soube das práticas efectuadas. sob o regime Nazi. não é lícito a nenhuma autoridade impor seja a quem for o dever de se sujeitar a uma experiência em nome do bem comum. razão. Mais precisamente. o consentimento do sujeito se pode presumir.

É o caso dos Estados Unidos onde existe uma "National Commission for the Protection of Human Subjects of Biomedical and Behavioral Research". Nalguns países esta constituição de instâncias éticas vai mais adiante. privando-o de medicamentos já experimentados para usar o novo medicamento de efeito duvidoso. Fazemos ainda referência aos vários códigos deontológicos sobre esta matéria. Outros documentos se seguiram a este. Quanto à experimentação não-terapêutica. Em França. Esta. .o processo experimental excluirá toda a circunstância imoral ou ofensiva da dignidade de sujeito dos pacientes.Não causar dano ao paciente. A manipulação genética 61 . em 1964. outras tantas condições necessárias para justificar a experimentação. É um documento de dez pontos. existe um organismo semelhante.Não efectuar nenhuma experiência sem o prévio consentimento do paciente. Os mais importantes são as resoluções que têm sido adoptadas pela Assembleia Médica Mundial: uma em 1962. este Comissão propôs a instituição de "comissões éticas" regionais que funcionarão como instância independente a quem são submetidos obrigatoriamente todos os projectos de experimentação sobre seres humanos.afastar a hipótese de lesão da vida física ou psíquica do paciente. redigido em 1946. por sua vez. a responsabilização civil e criminal do cientista. sem prejuízo dos princípios antes expostos: . 1.1. toda a experimentação indiscriminada sobre a vida do embrião está fora de sentido moral. Passando à aplicação destes critérios.3. em 1975. a inocuidade (não se hão-de prever resultados como a morte ou a invalidez para o paciente. A vida humana enquanto tal não pode ser sujeita a experimentação. . passou a incluir também os animais. . ainda sob o choque emocional da revelação das práticas dos médicos Nazis sobre os prisioneiros de campos de concentração. o consentimento do paciente (mesmo para encerrar uma experimentação já começada). O aperfeiçoamento a que periodicamente é submetida tem a ver com os efeitos da experiência para o ambiente. as formas de consentimentos dos pacientes. expondo-o a efeitos secundários não desejados. .haver proporção entre o possível dano produzido pela experiência e o bem previsível resultante dela.a necessidade do consentimento do paciente. a não ser que o paciente seja o próprio médico).4. há-de ter-se em conta o seguinte.que esteja acautelada a possibilidade de interromper o processo experimental a critério do paciente. ou então. 2. . Quanto à experimentação terapêutica. há-de ter-se em conta o seguinte: . depois aperfeiçoada na Declaração de Helsínquia. podemos ter em conta algumas situações: o caso da experimentação terapêutica e da experimentação não-terapêutica. O primeiro desses documentos foi o chamado "Código de Nuremberg". Por isso. já foi retocada em Tóquio. entre os quais destacamos os seguintes: a utilidade (há-de ser uma experiência útil e necessária para chegar ao conhecimento pretendido). a "Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida". Além de produzir documentação.

397). segundo eles. pois esta prática tem muitíssimas possibilidades humanizantes da vida do homem. pode sentir-se um "biocrata"). é necessário evitar um primeiro mal-entendido: a palavra "manipulação" não leva necessariamente o carácter pejorativo que lhe é dado pelo senso comum. cuja manifestação primária é uma anomalia enzimática. Logo quanto à terminologia. Já se disse que à "era da física" sucedeu a "era da biologia". esta terapia de doenças hereditárias é apenas uma esperança para o futuro. a expressão refere-se a um conjunto de intervenções com respeito à reprodução no que toca à transmissão de um "património" de base biológica aos descendentes. do que real. e então chama-se "engenharia genética". uma vez que esta transformação é ainda da ordem da ficção científica. e então temos a "terapia genética" (ou cirurgia genética) ou como transformação. 62 . A consequência é uma disfunção num ou noutro dos múltiplos processos metabólicos integrados que dão lugar ao desenvolvimento e ao funcionamento do organismo.A ciência e técnica delimitada por esta expressão apresenta-se ainda um tanto vaga e imprecisa. Infelizmente. A manipulação genética pode ser usada como terapia. Sabemos como a segunda metade do nosso século viu efectivar-se um incremento das ciências da vida. comparável ao desenvolvimento que tiveram as ciências físicas na primeira metade. 2. as ciências bioquímicas estão em condições de compreender os íntimos segredos da vida celular a ponto de intervir sobre eles. Conhecem-se pelo menos mil e quinhentas destas enfermidades. Por sua vez. acumula substâncias nocivas ou não as elimina de modo regular e normal. "desde há algum tempo. Não faltaria. um interesse transformador da espécie humana a esta manipulação genética. a terapia destas doenças não vai muito adiante do carácter "paliativo". De um modo geral. uma vez que se chega mais rapidamente aos conhecimentos por via experimenta. são ainda mais as esperanças do que reais as capacidades de intervenção. "A sua última causa é sempre a alteração de um gene. 397). Primeiro para investigação. tem um interesse terapêutico. 2. Depois de compreender a manipular o átomo. Se para o momento. em terceiro lugar. na era técnica em que vivemos. Seriam melhores os termos "intervenção" ou "control genético".1. Quais as finalidades da intervenção do homem no campo da genética? São várias. essas disfunções bioquímicas dão lugar a mal-formações orgânicas durante o desenvolvimento" (MP. Quais as possibilidades actuais de intervenção neste mundo dos genes? Infelizmente. De facto. este saber e esta prática pretendem livrar a humanidade das consequências negativas da falta de selecção natural que. o adjectivo "genética" refere-se à aplicação à espécie humana dos conhecimentos da ciência dos genes. que tenderia a suprimi-las do património hereditário: a 'terapia genética' por correcção ou substituição do gene anormal" (MP.2. Seria mais um interesse subjectivo do cientista (que. Depois. Entre as possibilidades ocasionadas por estes novos conhecimentos está a de curar as doenças determinadas geneticamente. os genetistas e médicos anteveem a possibilidade de um tratamento radical e definitivo das enfermidades hereditárias. são ocasionadas pelo progresso da civilização e pelas curas médicas outorgadas a seres que em condições "normais" pereceriam. Em alguns casos. essa disfunção impede a síntese de produtos necessários.

É este o caso que nos intressa aqui. Há-de respeitar a vocação integral do Homem. Os meios de que se serve a eugenesia "seriam a prática do controlo da concepção por aquelas pessoas que a isso são aconselhadas pelas clínicas genéticas. esquecendo o mistério insondável da pessoa humana. 3. porém. A moral sente-se. Põem-se-lhe dupla tarefa de obter o gene que se deseja manipular e de o enxertar na célula pretendida. a esterilização voluntária. Em ordem a esta. segundo a qual é captável a realidade humana. Toda a intervenção há-de. com sémen de um doador 63 . Por sua vez. da chamada "engenharia genética" que intenta transformar o património genético. ter na devida conta os riscos daí decorrentes para o homem. a engenharia genética também não há-de ser excluída à partida: ela pode contribuir realmente para uma humanização do homem no seu caminho histórico de se tornar mais homem. mas tudo há-de ser integrado numa consideração interdisciplinar. não há-de esquecer o papel importante e complementar do meio ambiente nesta humanização. Diga-se mesmo que este riscos de uma terapia genética devem ser confrontados com outras situações que também são insustentáveis. Investigar e conhecer com o fim de humanizar. nada fazer pelo recém-nascido com taras. como seja. 2. Porém. não pode propor-se alterar a unidade da espécie humana enquanto projecto integral. contra uma pretensa visão estática da "natureza humana". Esta eugenesia pode efectiverar-se actuando sobre o indivíduo (e neste caso coincide com os procedimentos tratados no parágrafo anterior) ou então actuando sobre os possíveis transmissores de caracteres. Dizemos. Não há-de imperar o espírito tecnológico na avaliação destas intervenções. Por outro lado.O mesmo se diga. pois. o recurso ao aborto eugénico. e inseminação artificial. Que juízo moral emitir sobre estas questões? Este é um campo especialmente delicado da vida humana. o impedimento total de procriar para indivíduos portadores de taras. reconhece-se-lhe o grande valor potencial. Funciona na base dos conhecimentos da genética que estuda as leis que regem a transmissão dos factores hereditários.3. pois estas intervenções põem em causa a compreensão integral da pessoa humana e do seu destino. Eugenesia e Moral Podemos dizer que a eugenesia é "uma ciência aplicada que procura manter ou melhorar as potencialidades genéticas da espécie humana". É legítimo investigar. há-de ter em conta a proporcionalidade entre vantagens e riscos das suas práticas e não há-de realizá-las com um projecto meramente técnico e utilitário. por razões genéticas. Quando intervimos sobre a genética humana havemos de estar conscientes da especificidade dessa intervenção mais densa de significado se posta em paralelo com a intervenção sobre os seres infra-humanos. expomos alguns critérios. por maioria de razão. preocupada por que todas estas práticas estejam orientadas para a real humanização. sem que estes sejam um factor paralisante. Quanto à terapia genética mais em particular.

A programação cerebral do homem A aventura de conhecer o cérebro humano é apaixonante como nenhuma outra descoberta. Toda a intervenção tem de ter em conta o sujeito humano integral. por último. dizemos que pode ser sinal de uma actuação responsável. esta prática nunca pode perder de vista que está lidando com a pessoa humana e como lídima dedicação a ela há-de ser encarada eticamente. com que objectivo. a eugenesia é. antes de mais. o mal menor perante a possibilidade de uma fecundidade irresponsável. os procedimentos eugénicos têm de ser levados a efeito respeitando sempre a dignidade das pessoas. já o dissemos. pelo menos no que respeita a grupos de risco. se é voluntário ou não. 4. O mesmo se diga da diagnose pré-natal com finalidade eugénica. um e/ou outro processo podem ser adoptados de modo a produzir um indivíduo que não seja nem do marido nem da esposa (ao menos durante a vida fetal). Deve ser favorecida por todos os meios pelas entidades públicas.) através da estimulação do cérebro por meio da introdução de eléctrodos.distinto do marido (que às vezes se chama pré-adopção). Algum optimista do futuro fala da possibilidade de uma "sociedade psico-civilizada". Ante esta possibilidade. existem várias posições. Sempre há-de ser respeitada a identidade pessoal: tanto para dar consentimento. anotamos alguns critérios morais. a gravidez adoptiva ou inovolação artificial. tal como é captado numa consideração interdisciplinar. um dever ético da humanidade. se é. Essa aventura está ainda nos seus começos. mas é certo que se podem induzir comportamentos motores e psíquicos (como o prazer. de facto. respeitando a liberdade individual e nunca pondo em causa o direito fundamental de todas as pessoas ao matrimónio. Sobre a consulta genética pré-matrimonial. a procriação não é um direito absoluto. Enfim. Do ponto de vista moral. De qualquer modo. Porém. 405). Porém. Além disso. A estimulação eléctrica do cérebro para induzir comportamentos terá em conta a coerência desses comportamentos induzidos e os riscos possíveis para o sujeito em questão. como pode ser feito em circunstâncias não sempre de louvar. por razões óbvias. se a pessoa em causa aceita livremente o procedimento. como no que se refere ao resultado que nunca mudará a identidade do sujeito. é necessário que se saiba a quem se faz. segundo parece. nem pode ser entendida como um prolongamento egoísta dos progenitores. Neste caso há-de ter-se em conta se estão esgotados os meios menos onerosos. Pode-se ainda pôr a questão da esterilização preventiva como procedimento eugénico. etc. para que ou para quem servirá a informação recolhida. o medo. Quanto ao rastreio genético da população. fazendo conhecer o resultado aos interessados. a incitação à violência. 64 . a partenogénese" (MP.

1. alargou-se o conceito de saúde bem como as implicações éticas da sua custódia. sem. muito especial. Na actualidade. que podemos chamar opções éticas respeitantes à saúde e à enfermidade. no entanto. Esta definição foi posteriormente revista e completada. uma atenção especial para com as situações de enfermidade. Comecemos por perguntar o que se entende por saúde? Segundo uma definição da OMS.Capítulo IX A SAÚDE E DA ENFERMIDADE Existe ainda um último ponto neste nosso percurso pelos principais aspectos da bioética. A moral tradicional preocupou-se sempre com o dever moral de cuidar da saúde e da vida e. "enfermidade (doença)". por conseguinte. Eles têm um significado dependente dos suportes antropológicos que lhes estão subjacentes. e sobretudo cristã. mental e social. "dor" têm uma densidade humana. a saúde consiste "no estado de completo bem-estar físico. um 65 . Definição de saúde e enfermidade Os termos "saúde". de evitar as acções que atentam contra a saúde e a vida. Uma situação de respeito pela saúde deveria englobar como exigências gerais: um "ethos" individualmente e socialmente adequado para a definição de saúde e a enfermidade. e não somente na ausência de afecções ou enfermidades". escapar a um carácter incompleto e funcionalizante.

"Carta dos Direitos do Enfermo" (Ass. por sua vez. para que se possa proceder à colheita desses órgãos. 2. O mesmo se diga das operações de cirurgia plástica. A transplantação de órgãos Neste contexto. As mais conhecidas são: uma "Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes" (Ass.12. uma vez que os antigos (princípio de totalidade. desde que não colidam com o direito de morrer com dignidade. venda. Esta possibilidade tem perdido sempre mais o seu carácter polémico e a sua discussão tem-se deslocado prevalentemente para o campo médico. Diante desta questão moral concomitante. um sistema justo de assistência social sanitária. Pode ser aloplástico (entre indivíduos de espécies diferentes) ou homoplástico (entre indivíduos da mesma espécie) 66 . 20. Seguidamente. através de intervenções cirúrgicas. desde que seja respeitada a deontologia médica. em aspectos emocionais e sociais que acompanham o transplante (comercialização possível. consumo).1973). ética profissional do farmacêutico.1971). Geral da ONU.5. desde que o paciente não seja instrumentalizado a nenhum título.tratamento adequado para com a pessoa enferma. 6-9. As operações não põem especiais problemas à ética desde que a esperança de êxito seja maior do que o risco corrido. uma assistência religiosa ao enfermo (assistência da Igreja).1979). Norte Americana de Hospitais. 6. "Carta do Enfermo Beneficiário de Hospital" (Comissão de Hospitais da CEE. o tratamento propriamente dito. 3. Operações que visam o psiquismo humano são mais onerosas e precisam de uma ponderação mais cuidada. A questão dos medicamentos tem diversas vertentes: económicas (produção. através de fármacos. O tratamento da saúde Primeiro. manipulação) ou então na questão da determinação do momento da morte. Perguntemos. situa-se. existe um ponto que não podemos deixar de abordar que é a questão da transplantação de órgãos. em primeiro lugar: o que se entende por transplante (ou também enxerto)? Chama-se transplante "a operação cirúrgica pela qual se enxerta num organismo receptor um tecido obtido de um doador". Quanto à tipologia dos transplantes. É a passagem de um tecido ou de um órgão de um organismo a outro com a finalidade de desempenhar idênticas funções às que tinha antes. A questão moral. A consciência das exigências éticas ligadas à situação existencial humana de enfermidade tem vindo a ser codificada em diversos textos.2. podemos estabelecer as seguintes distinções: * Transplante autoplástico: um tecido ou um órgão de um lugar para outro num mesmo organismo * Transplante heteroplástico: de um organismo a outro organismo. a moral tem necessidade de elaborar novos paradigmas. de um modo geral chamados "direitos do enfermo". esquema da mutilação) não servem. por vezes com acuidade.

ao custo económico de certos transplantes. de glândulas ou de vasos sanguíneos). a doação de um rim é um altíssimo acto de caridade e de solidariedade (respeitada sempre a liberdade do doante). Há também um caminho jurídico a percorrer para elaborar uma legislação o mais perfeita possível no que toca à determinação da morte clínica. à disposição do cadáver doante. desde que não altere a personalidade. Para o bem geral da pessoa. de vasos sanguíneos. Os transplantes aloplásticos (de um animal para o homem) também não oferecem especial dificuldade. 67 . Mesmo os transplantes homoplásticos de vivo a vivo não oferecem especiais dificuldades: tratando-se de uma pequena parte do corpo cuja ausência pode ser facilmente reparada com o tempo (transfusão de sangue. bocados de pele. do fígado. do coração. não têm sentido os transplantes das glândulas sexuais. A origem mais importante de insucesso continua a ser a recusa imunológica e ainda a conservação dos órgãos. Desde que haja suficiente probabilidade de êxito. Entre os transplantes homoplásticos. etc.* O transplante homoplástico pode ser de vivo a vivo ou de morto a vivo. da córnea. Por esta última razão. fragmentos de ossos. Quanto à valoração moral. tecidos ósseos. é necessária ainda uma grande sensibilização da opinião pública. Isto vale mesmo para a cirurgia plástica de finalidade somente estética. pode ser de órgãos simples (vitais ou não) ou de órgãos duplos (vitais ou não) Os transplantes autoplásticos são os que não oferecem grandes dificuldades pois se efectuam dentro do mesmo organismo. praticam-se de glândulas endócrinas. Mas estes privilégios nunca deveriam impossibilitar a consecução de um fim tão precioso. é necessário respeitar os privilégios dos familiares (à falta de disposição do defunto). não repugna que se sacrifique uma parte não essencial. de rins. por exemplo. à "venda" de órgãos e também (em ordem à futurologia!) aos transplantes de cérebro e glândulas sexuais. tendo em conta as prioridades de um sistema de saúde ao serviço do bem comum da população. de cartilagens. São praticados sobretudo para substituir tecidos queimados ou operações plásticas. Os transplantes homoplásticos de morto a vivo também não oferecem especial dificuldade desde que o doante esteja realmente morto. Neste campo. os transplantes autoplásticos não oferecem especiais dificuldades. Certamente. O mesmo se diga quanto ao transplante de rins.