DOS ATOS PARODÍSTICOS

:
A execução da performance paródica na
experiência da travestilidade
Adrianna Figueiredo
Cientista Social e Mestre em Antropologia

Palavras-Chaves: paródia, travestilidade, gênero.

vivência

O artigo pretende alcançar uma reflexão sobre o conceito de
atitudes parodísticas, lançado por Judith Butler (2003). Pensandoas como espaços pertinentes para execução de ações, não só de
reiteração, mas de teor político entre os indivíduos que
compartilham uma identificação queer, através de uma
performance descontextualizada dos gêneros normativos. Aqui
será trazido o trabalho de campo realizado com sete travestis, dos
23 aos 40 anos, da Região Nordeste do Brasil, em específico da
cidade do Recife-PE, para aprofundar os mecanismos pelos quais
são executadas as performances paródicas na experiência da
travestilidade. Com este intuito, será procurado estabelecer um
diálogo entre teoria e a prática de campo, centrando-se
incisivamente numa análise do discurso e na idéia da recuperação
das vozes, via recapitulação de trajetórias de vida, que ficaram
durante tanto tempo subsumidas nas análises da história social,
nos levando a perceber como historicamente a sexualidade sempre
esteve atrelada aos mecanismos de poder.

37

Resumo

013

The article has as main aim to achieve a reflexion about the concept
of parodistic acts, launched by Judith Butler (2003). Thinking them
as suitable spaces for the execution of actions, not just of reiteration,
but of politic al content among individuals who share a queer
identification, through a performance out of context in relation to
normative genders. Here, it will be brought forward the fieldwork
realized with seven transvestites, between 23 and 40 years old, from
the brazilian's Region Northeast, specifically from the city of RecifePE, to analyse the mechanisms that make the execution of the
parodistic performances at the transvestite experience possible.
With this objective, it will be stablished a dialogue between theory
and practice, focused in the analysis of the discourse and in its
multivocality, through the ransom of life's trajectories, which were,
during so many times, ignored in the analyses of social history,
making us realize how historically the sexuality has always been
linked to the mechanisms of power.
Keywords: parody, transvestite, gender.

n. 37 2011 p. 13-36

artigos papers

Abstract

Introdução
O original é vulgar por causa do seu passado. Foi só uma
experiência; uma tentativa. A ilusão de uma coisa não é essa
coisa. Mas a cópia é perfeita, tal como a vejo. [...] Odores
falsos. Mas melhores que os verdadeiros. Os originais são
vulgares: uma tentativa.1

vivência

37

A experiência da travestilidade no sentido trazido por Butler (2003)
enquanto Identidade parodística revela o ato paródico como um profícuo campo de
investigação para se pensar as relações contemporâneas, visto que através desta
experiência podemos observar o rompimento de estruturas normativas. O que a
priori pode parecer uma atitude acrítica de mera reiteração, nos revela uma
operação muito mais profunda ocorrida justamente através da incorporação de
uma dita identidade oposta, pautada, sobretudo na idéia essencialista, já
amplamente criticada pelo construtivismo, de uma verdade anatômica. Assim, as
travestis ao revelarem através de atos paródicos uma performance destoante de
sua anatomia culturalmente 'generificada', executam, o que para Butler (2003),
reside na maior riqueza2 das experiências queer3 para o ataque ao discurso
heteronormativo, já que para ela a ação política de contestação viria justamente via
esses procedimentos paródicos.

014

A hipérbole do feminino executada de maneira central nos esquemas de
performatividades das travestis foi, e são, simbolizadas pelo movimento feminista
como atitudes que ajudam a reiterar antigos papéis de teor degradante à imagem
do 'sujeito mulher'. Isto, pois, símbolos que são parodiados na travestilidade muito
comumente encontram-se dentro de uma matriz de percepção normativa, pautado
no discurso patriarcal dos imaginários que regem o conceito de 'mulher ideal',
centrado nos papéis tradicionais de mãe/esposa. Daquela que sabe não só cuidarse - através de inúmeras e específicas práticas corporais tomadas como próprias
de um ethos feminino - mas como também cuidar do seu lar, do seu marido e filhos.
No entanto, o que nos cabe aqui é pensar como esta reiteração de
simbolismos mais tradicionais do feminino funciona dentro dos esquemas de
adequação de uma identificação pautada na travestilidade. Pois o fato é que, para
as travestis, elas acabam por preencher justamente o 'vazio' deixado pelas
conquistas da mulher atual – é muito comum escutar quando da presença de
travestis, críticas às mulheres atuais, que são simbolizadas por elas como sem
'feminilidade', sem cuidado, sem os atributos necessários para 'segurar um
homem' – sendo esta a maneira pela qual acreditam se encaixar dentro dos
esquemas desejantes do homem heterossexual, que é aquele perseguido como
ideal afetivo-sexual para as experiências amorosas na travestilidade, como
trataremos mais adiante.
Para Butler (2003) ainda, esta crítica feminista parece um tanto simplista,
visto a opulência discursiva e política que as atitudes parodísticas podem vir a
representar por um olhar mais atento. Para ela, pois, tomar estas operações
apenas como imitações acríticas, seria cair num erro conceitual, analítico e de
estratégia política, dada à relação extremamente complexa que a ideia de imitação
e pretensa originalidade podem envolver, pois:
[...] ela nos dá uma indicação sobre a maneira como a relação
entre identificação primária - isto é, os significados originais
atribuídos aos gêneros - e as experiências posteriores do
gênero pode ser reformulada. [...] Por mais que crie uma
imagem unificada da 'mulher' (ao que seus críticos se opõem
frequentemente), o travesti também revela a distinção dos
aspectos da experiência do gênero que são falsamente
naturalizados como uma unidade através da ficção reguladora
da coerência heterossexual (p. 196).

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2003. que a coerência da heteronorma já é em si a cópia de uma originalidade fabricada. 13-36 vivência É necessário destacar. é que. que a noção de paródia defendida por Butler não está promulgando a existência de algo original pelas quais essas performances parodísticas executam a imitação. Podendo assim ser experimentada via desnaturalização dos conceitos estáticos de sexo e gênero “[. sem o riso. descontextualizada. mas uma ultrapassagem daquilo que. assim. a imitação de um estilo único ou peculiar.] por meio de uma performance que confessa sua distinção e dramatiza o mecanismo cultural de sua unidade fabricada”. sem a motivação ulterior da paródia. O pastiche é a paródia esvaziada. 37 2011 p. o interessante de nos centrarmos a partir de agora em como estes atos paródicos se revelaram em campo é justamente a possibilidade de perceber como essas operações combinatórias colocam em funcionamento de maneira bastante prosaica a incrível possibilidade de contestação política presente na aparência de esvaziada reflexividade política da paródia. do modelo dimórfico de sexo anatômico. p. p. como algo que seria característico das movimentações da cultura popular. Seja através das operações de (re) significações. suas motivações e significados de execução são distintos. Sobre a ideia do riso na paródia.. 2003. o riso como atitude que possibilita mudança e transformação. sendo característico da paródia à ideia de se estar imitando algo que mesmo na mímica ainda se considera como natural ou normal que seria sublinhado via esses atos parodísticos. sem o impulso satírico. O que a autora pretende deixar claro sobre esta égide. 37 Assim. é vestir uma máscara estilística. na própria possibilidade de existência paródica é revelada a não existência de originalidade ou essência de certas atitudes destinadas distintivamente ao modelo normativo de gênero. também nos fala Baktin (2002). 2003.. dentro de sua possibilidade de repetidamente através da performance de imitação de um gênero.197) 015 . Neste sentido.197-198). Residindo como atributo fundamental deste riso não uma degradação. reside mesmo na ação de revelar através da agência da imitação repetida dos gestos estilizados de gênero. p. falar uma língua morta: mas é uma prática neutra de mímica. via paródia. contudo. Bakhtin observa. pois apesar das duas ações envolverem a ideia da imitação estilística de algo. no qual “a paródia que se faz é da própria idéia de um original” (Butler.(Butler. contornado por uma atmosfera cômica. seja na demonstração pragmática das linhas divergentes e fluidez de identidade de gênero e mais ainda das performances descontextualizadas que podem ser executadas via conceito heteronormativo de gênero. acompanham este tipo de operação que se pauta numa concepção sobre o mundo que se opõe à seriedade.] como a paródia.. Cabe-nos ainda dizer que a paródia não pode ser confundida com pastiche. a possibilidade de debate político executada pelos atos parodísticos..Justamente aqui reside a subversão na paródia. características dos esquemas de inversão próprios da cultura popular. a paródia que perdeu seu humor (Jameson apud Butler. sem aquele sentimento ainda latente de que existe algo normal. Já o pastiche mesmo sendo [. e sendo aqui as travestis um grupo que preponderantemente advém das camadas mais populares da estratificação social. se comparado ao qual aquilo que é imitado é sumamente cômico.197). pode n. o que seria então ir de encontro a toda a argumentação desnaturalizante executada pela autora e pela teoria queer. demonstrar o aspecto imitativo da própria doxia que envolve a naturalização dos gêneros.

será trazida a idéia da execução de uma paródia amorosa. a qual segue assim. formal e normativa. que segue a formar a ideia de corporalidade. pôde ser observada neste trabalho através da análise de três atos próprios e específicos desta experiência. contudo. (3) e por fim.quanto também no que tange às relações afetivosexuais da travestilidade – pela qual podem ser questionadas as idéias da atmosfera episódica (Giddens. 2002. 13-36 . 016 Seria assim: (1) a paródia corporal. p. pela exacerbação simbólica das funções vitais que se esboça uma forma de atingir o outro pólo.2002). permeando o ato em si de uma atmosfera misógina. ao utilizar uma aparelhagem discursiva. mas um riso que esboça o poder dos fracos que nos fala De Certeau(1994). Este ato será debatido tanto via experiência empírica advinda da apreciação e significação das práticas e técnicas corporais cotidianas das travestis quanto pela análise do discurso dos anúncios da seção de acompanhantes recolhidas durante todo o ano de 2007 e início de 2008 dos dois principais jornais de Pernambuco4. as performances geridas pelas travestis dentro da prostituição. Chamaremos assim de (2) prostituição parodística. revelam sim o riso. ou para Baktin do riso. portanto um elemento perseguido e dignificado discursiva e afetivamente em suas trajetórias de vida. “É pelo exagero corporal. Jerusa. observando o trottoir não apenas em seu aspecto utilitário e mercadológico. Jerusa. como elementos que cercam este corpo e o preenchem de sentidos e motivações. mas que devemos lembrar. vivência 37 Seguindo estes passos. 37 2011 p. que passa a coabitar com a repetição parodística de significação. o riso da vitória de quem se encontram na abjeção. p. na qual será buscada a análise das maneiras pelas quais são copilados os cuidados e marcas corporais tomados como 'naturais' da experiência de ser 'mulher'. como comumente são tratadas as relações homo-orientadas. deixando-se de lado a idéia de rebaixamento ou degradação” (Ferreira. pois através da paródia. também podendo ser revelada na maneira muito particular tanto em que são vivenciados os elementos centrais da prostituição. e. na qual é possível perceber a polissemia de sentidos que pode esta atividade envolver. Neste ato perceberemos a maneira em que as travestis parafraseiam afetiva e emocionalmente os sentimentos e elementos que modelam a ideia do amor romântico. e pela transgressão do habitual. Neste sentido. compartilhando com o imaginário social maior de que esta seria a maneira apropriada de uma 'mulher' amar. 1993). e que cria o 'novo' a partir de velhos conceitos. (Ferreira. Assim. a proliferação parodística dentro dos modelos em que funciona a travestilidade. os passos de atuação extra-corpórea.401). É.em que o sexo pago pode não ser a única finalidade desta atividade. ou seja. que nos revelam a paródia como elemento central de simultânea contestação e identificação. mas como espaço legitimado na travestilidade como próprio para vivências afetivo-emocionais positivadas que vão muito além do aspecto funcional e nefasto que comumente são tratadas as motivações para a prostituição. n.deslocar e reinventar para fora de um contexto dito original. que aqui percebemos a possibilidade de se performatizar algo que é tomado como ontológico e essencial em corpos e atitudes que mesclando ordem e desordem demonstram onde residem as capacidades de movimentações dos sujeitos. Já a segunda e a terceira performances paródicas revelam que não apenas o corpo é tomado como único cenário de atuação parodística. Acabando mesmo por expor a paródia como espaço de contestação.

já que em suas casas foi possível estabelecer um ambiente apropriado para a proposta de recuperar suas histórias de vida. O objetivo maior foi dar vazão às falas sobre como elas refletem sobre seu cotidiano mais prosaico. Então. um agente específico teria que ser vinculado ao conjunto de outros agentes no campo considerado.] em dar mais espaço às vozes e às experiências que foram suprimidas” (Gamson. como uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente ou mesmo grupo . cabe esclarecer alguns dos caminhos metodológicos adotados. em distintos subúrbios da Região Metropolitana do Recife com exceção de uma que ocorreu em minha própria casa. situando acontecimentos biográficos em alocações e deslocamentos no espaço social. p. o qual se reúne semanalmente para discutir ações políticas para a categoria. A metodologia privilegiada para esta pesquisa foi o roteiro de entrevista semi-estruturado.] no qual narrativas pessoais e verdades experimentais foram utilizadas no sentido de recuperar uma subjetividade gay ou lésbica que havia sido historicamente negada” (Gamson.345). O uso do método de entrevista se justificou. Foi. onde. principalmente no que tange à temática da Aids. foi também um caminho metodológico a ser seguido. sete entrevistas. sem que nada. segundo a autora.. procurando cruzar minhas impressões de campo com a maneira subjetiva em que elas dotavam de valor e significado suas experiências.. por sua natureza. 13-36 vivência O curto tempo de pesquisa realizado dentro do período do mestrado levou-me a concentrar forças nas entrevistas.349) As entrevistas foram realizadas nas residências dessas travestis. no ano de 2007. 37 Antes de efetivamente cruzar as questões empíricas desta pesquisa com as questões teóricas já aqui introduzidas.Contextualização metodológica Neste sentido. utilizada a noção de “trajetórias” tal como aponta Suelly Kofes (2001). permite-nos locar e deslocar o sujeito. para contemplar as travestis soropositivas. “[. p. e outra que ocorreu na ONG Gestos. a escolha por estes espaços se deu no sentido de amenizar a tensão implícita. preponderantemente preocupada “[. buscando traçar através destas histórias subjetivas intersecções que revelassem um perfil não só socioeconômico como afetivo para a experiência da travestilidade. para além do que pode ser observado por aqueles que não estão inseridos nesta experiência específica.em devir contínuo que é submetido a transformações incessantes.. de clara influência da metodologia queer. 2007. sendo três destas com travestis acionadas através de inúmeras redes e sem qualquer envolvimento político. da metodologia de entrevista. a motivação investigativa foi focalizar os discursos revelados via trajetórias de vida. já que entre os teóricos queer existe um direcionamento em centralizar-se na perspectiva das narrativas. 017 . 37 2011 p. em que uma delas era também 'bombadeira'5. focandose na trajetória (privilégio ao itinerário e ao percurso) para a constituição de uma etnografia dessas experiências. Esta noção. 2007. o método escolhido para trabalhar estas narrativas foi análise do discurso através da reflexão de categorias que apareceram de maneira central e mais valorizadas nestas narrativas. sob o intuito de proporcionar maior visibilidade a sujeitos delegados socialmente à invisibilidade. através do qual realizei. em possibilitar a “compreensão dos mundos da vida dos entrevistados e de grupos n. As questões que procuravam privilegiar o percurso individual das histórias de vida de cada uma dessas travestis. além da já citada tensão. A idéia da valorização da experiência. como já debatida por Roberto Cardoso de Oliveira (2000). já que a centralidade do estudo era trabalhar sobre a perspectiva da metodologia queer. assim. As outras quatro entrevistas foram realizadas com travestis que participam do grupo Oxumaré formado pela ONG Gestos. as constrangessem..

ela desempenha um papel vital na combinação com outros métodos. e firmou-se na aposta de que quanto maior o passar dos anos.sociais especificados [que é] a condição sine qua non da entrevista qualitativa” (Gaskell. e traçando linhas convergentes e divergentes de expressões de subjetivação. normativo e estreito6. sem limitar suas falas.65). no sentido quantitativo. 13-36 . Estes sentimentos atuam. Apesar de ter tido uma interlocutora que possuía 18 anos. Foi realizada ainda uma entrevista com um cirurgião plástico do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco. permeados por sentimentos que se movimentam para adequação identitária através dele. o que encaixamos no grupo de adultos. que seguiu os ideais da pesquisa qualitativa caracteristicamente antropológica. que por questões éticas. Sendo assim. foi preferível não revelar o nome. atendendo e respeitando os pedidos das próprias interlocutoras. mais experiências de vida são acumuladas. Houve ainda certo padrão no que concerne à faixa etária das entrevistadas que variou dos 23 aos 40 anos. o que foi interessante à pesquisa como possibilidade de observar contrapontos etários. 018 Alguns nomes foram modificados. parece substancializar melhor a forma como experimentamos e performatizamos nossas experiências corporais. preenchendo as narrativas de amplas vivências. na qual o corpo se torna elemento primordial de investimentos de adequação. o que possibilitou neste sentido um vasto e dilatado “material” de análise que fez de “poucas” experiências. 2002. assim. E será através desta perspectiva que veremos a experiência da travestilidade. além dos amplos objetivos descritivos da entrevista. mas guiandoas através deste diálogo. O corpo se torna então conformado de maneira simbólica por um processo muito mais abrangente que mera fisiologia óssea e conjunto racionalizado de n. estas foram as metodologias utilizadas que possibilitaram a composição etnográfica dessas experiências. como também percebendo a importância de proteger suas identidades devido à centralidade em histórias que revelam aspectos muito íntimos de suas vidas. Neste sentido a ideia que envolve o conceito de corporificação. Ainda para este autor. No quanto também nem mesmo esta ideia de fisiologia humana dividida entre masculino e feminino seja sobre os mesmo signos (vagina e pênis) compartilhados por toda a diversidade dos grupos humanos. práticas. p. incisivamente. que contornam seus corpos de um complexo de sentidos. palavra esta inexistente em nosso prosaico vocábulo. tem adotado um sentido muito mais amplo do que seu significado formal. vivência 37 A escolha do grupo etário não foi aleatória. observando de maneira mais incisiva como o sujeito circula entre manutenção e subversão dos esquemas de poder. gramatical. cuidados. A Paródia Corporal O corpo na contemporaneidade. traduzindo e codificando as relações sociais fora dos modelos essencialistas. recurso imprescindível para as movimentações cotidianas permeadas por (re) significações. 37 2011 p. um profundo campo de investigação. dado o conteúdo altamente combatido na pesquisa e fortemente presente em suas falas. As considerações relacionadas exclusivamente a nossa constituição anatômica parecem não mais preencher o imaginário simbólico das sociedades atuais.

por entre canos de PVC. enquanto experiência que reúne afetos.ideologias que passam necessariamente pela idéia de um corpo biológico. definidos como masculinos. (Joelma9. e necessita de constantes cuidados e preocupação. tem que ser feminina e delicada. nos conta que é como suas plantas. (Turner. 13-36 vivência Falamos assim.] se apresenta como corporalidade ou corporificação. em que este corpo incisivamente elaborador "[. E sob o risco de que se não empreender sobre si as práticas travestidas8 necessárias. sendo sua existência apenas possibilitada pelos seus meticulosos cuidados. da tomada corporal presente na corporalidade travesti. Se cuidar muito. Mas pra mim não é só isso. mas minha água é outra. 2002. nos tornado capazes de apreciar os modos das mudanças históricas através das representações corporais. a partir de letras postas. Porque se não fosse assim. isto é. 23 anos.se configuram para este grupo como algo de um valor simbólico imprescindível para a construção de sua identificação. devendo “ser regada sempre. mas corporalidade. a sua corporalidade. afeições. adubo e rego todos os dias”. Tomam para si a autoria do que irá. parece que o corpo passa de um paradigma regido preponderantemente sobre o signo da reprodução7. 2005). (re) arranjado por escombros de um antigo e já histórico prédio do centro do Recife. falar o seu corpo. de um corpo fruto de inúmeros cuidados que paulatinamente vai sendo (re) manufaturado.órgãos. 2002. mas preponderantemente um componente de aspecto produtor e panorama apriorístico das significações sociais (Benedetti. sabe que vislumbrará os já negados “escombros” brotarem novamente de seu corpo. Baseando-se no conceito de embodiment desenvolvido por Thomas Csordas (1988).para o da produção (Le Breton. Flávia demonstra nestes termos como esses cuidados de si – como já dito por Foucault (2002). inúmeros ferros enferrujados e soltos. p. através dos quais assistimos hibridização da representação do feminino sob corpos. habitus. para enfim a sua própria possibilidade de existência. descreve em tom testemunhal que é assim como as queridas e apreciadas plantas de seu bem cuidado jardim. Sou como uma plantinha do meu jardim. que se revelam como uma das fortes faculdades de humanidade . via discurso hegemônico. Revela-se não mais corpo. todo homem que coloca roupa de mulher no carnaval é travesti. criando para si novas sintaxes. travesti). que já entrou em processo de corrosão. Corto cada folha seca. traindo sua autoconstrução desejante. 37 2011 p.147). Você já viu como ele é lindo? Mas é por que eu cuido. travesti). Ferreira. 37 Através das práticas de si. através dessas práticas. pré-determinado e dimórfico . O corpo representado através da teoria do embodiment é percebido como veículo das mudanças sociais. no que tange a gênero. 2002). Wacquant. revela metaforicamente que seu jardim.. 2007. 1996) tomando este corpo não apenas como baluarte de significações. E trazendo como metáfora o aspecto híbrido de tal construção para falar sobre sua própria corporeidade. sexo e sexualidade . como coloca Thomas Csordas em sua discussão sobre o embodiment” (Maluf. 019 . n. As pessoas dizem que ser travesti é só colocar uma saia. a quem chamo de co-autora. Da beleza e da vida que nascem pelos pedaços de antigos concretos. passa-se a questionar através de sua utilização a maneira pela qual o corpo participa na produção de sentidos nas práticas sociais. têm que ter o corpo definido.. Flávia (36. através de signos de prestígio. assim como seu corpo surge através de elementos desprezados. escombros que nos contam antigas histórias da cidade. e conformação de um ethos pré-discurssivo.

Mas não é um cuidado pessoal normativo presente nas ideias mais amplas de empreender-se numa vida saudável10. nos remetendo também a ideia de um ethos moldado na coragem. dos símbolos. a não ingestão dos hormônios femininos fazem o já aspecto de hibridez de seu corpo se tornar ainda mais acentuado. e que acabam por revelar um saber muito específico permeado por práticas corporais. Só assim elas se tornarão 'belíssimas.” A personagem denuncia neste exato momento como a autoconstrução é uma ação imprescindível na experiência da travestilidade. dores e desafios que envolvem suas práticas a manter as marcas do masculino em seus corpos. Quando nua. de corporeidade feminina. As formas anguladas e quadradas de sua anatomia masculina passam a acentuar sua dependência dos cuidados de si específicos deste grupo. 1998). podemos observar suas mudanças corporais. amarrada pelas mãos à cama. 020 No filme Tirésia. Fruto da ausência das práticas travestidas é possível apreciarmos com o passar do tempo em cárcere. p. é mantida em cárcere afastada de seus mecanismos de construção corporal. de como ansiamos intensamente a maneira de adequar desejos.é irremediavelmente cuidar-se. o masculino passa a se fazer presente neste corpo que necessita de constante manutenção. O fato é que nem sempre tratamos dos nossos corpos de maneira extensiva (Vargas. Sabe que não é natural.'. e que uma vez seqüestrada. valor moral caro às travestis. quando tratamos nos termos das autodefinições empreendidas por elas . Pois parecem preferir enfrentar corajosamente os riscos. de teor combinatório13. percebido através da pragmática de utilização de um aparato tecnológico disponível e reinventado para a promoção dos si mesmos possíveis. (Pelúcio. pois o vigor e a experimentação de vida. criados a viva derme. É química. como podemos observar. e sua obra passa a ser traída pela impossibilidade de manusear este corpo polimorfo. n. 13-36 . assim como as diárias intervenções corporais.Ser travesti. que seu chuchu12 passa a nascer. A execução e a manutenção das remodelações corporais demonstram como este corpo se torna fruto de preponderante agência. ou do que pelo discurso médico se pretende extensivo e durador. se torna bastante perceptível o valor e aspecto imprescindível do cuidado para a promoção da pessoa travesti. se dirige ao seu algoz e delata a realidade' de sua corporalidade: “Você não vê o que está acontecendo? Você sabe o que sou. a qual se prostituíra em Paris.11 Tirésia nos traz a história de uma travesti brasileira. ao banhar-se. podem se impor ao aspecto do discurso do saudável e a possível extensão de duração de vida: vivência 37 A dor experimentada nas sessões de aplicação de silicone líquido. fazem parte do 'cuidar-se'.ora subversivas – tendo em vista que essas práticas e marcadores corporais essencializados como femininos são recontextualizados em corpos masculinos. 37 2011 p. ora reiterativas – pois faz uso de marcadores corporais e dos cuidados historicamente destinados à identidade feminina .193). e para efetuar sua atuação se faz necessário uma série de formulações.fugindo das instâncias disciplinadoras e patologizantes . Durante o período em que é mantida em cativeiro. 2006. as náuseas provocadas pela ingestão de hormônios em grande quantidade. bem como ter a coragem necessária diante dos riscos que envolvem esta modificação corporal. aprendendo e dominando práticas específicas. onde contrariamente dada à falta dos usos de suas práticas.

O que percebi durante mais de um ano acompanhando diariamente estes anúncios é que a resposta. como estes corpos são colocados em discurso. através de suas atitudes parodísticas de corporeidade. Feminina. também buscando intensivamente seguir os rastros da metodologia queer. 'limpar” as sobrancelhas para trazer para si os “suaves” traços faciais que deve a mulher possuir para se distinguir dos “fortes” traços masculinos. E buscando contribuir com um outro olhar que revela. o que também foi feito em minha dissertação. tinturas de cabelos. na centralização dos esquemas de autodefinição dos sujeitos em discurso. vagina. fazem parte do arsenal sacado para os perseguidos cuidados . e são. para além destas práticas. “montar” e criar “beleza” via arsenal estético e tecnológico como maquiagem. Indo ainda mais além para a construção destes corpos. quadris. São vividos de maneira intensa. e formas arredondadas. e nunca esquecidos. cremes das mais infinitas finalidades. como elementos a causar desejo. as travestis apresentam as marcas corporais e performáticas mais dignificadas em suas experiências. em poucas linhas. cai na valorização de seus corpos e de sua “hiper-feminilidade”. n. mas também trazer para este corpo as assinaturas culturais que o concluem. Miríades destas práticas foram impostas culturalmente para fazer da mulher “ainda mais mulher”. 021 . para além do biológico. capturam taticamente em alopatias postas (anticoncepcional) os hormônios femininos. os signos mais dignificados. como. neste sentido. nádegas e faces. 37 2011 p. quase mulher! “KARINA: travesti feminina quase mulher b. Elas valorizam o cuidado como parte intrínseca de suas personalidades. num breve espaço promocional. foi analisar a maneira como elas “vendem” e publicizam este corpo16. Preenchendo angulosamente seios. através da análise da seção de acompanhantes do jornal. E. Contudo as poucas laudas dadas aqui não me permitem trazer este campo de maneira mais detalhada. se manter com poucos pêlos. pois o descuido não rima com travestilidade. além dos elementos já tratados sobre as práticas e técnicas corporais específicas. de modo a torná-lo desejante. acentuar. procuro perceber. para moldar à viva derme as marcas corporais tomadas como femininas. super feminina. nesses curtos espaços dedicados às letras. E a paródia das atenuantes sociais que representam a feminilidade é sentida de maneira evidente. O intuito desta modalidade de análise se mostrou bastante frutífero diante da motivação em perceber como. as travestis salientam as características pessoais e corporais que consideram mais importantes para trazer. 37 Fazer as unhas. O fato a acentuar-se repousa na pergunta que me fiz sobre o que as travestis focalizam quando possuem um curto espaço para falarem sobre si mesmas. as características que consideram desejantes. quando da necessidade de uma descrição mais fulgida dentro do amplo leque de suas experiências. tratar e cultivar longas madeixas. insistentemente perseguidas pelas travestis. como feminino. e se valem do silicone industrial. mais uma vez.grego c/ local”15 Um caminho encontrado para deixar ainda mais clara esta performance de busca intensiva pelos modelos de feminilidade. via este líquido.Ser mulher para nossa conformação cultural não é apenas ter seios salientes. 13-36 vivência Muitas publicações14 se preocuparam em revelar com detalhes todas essas práticas. através dos símbolos de que se valem para se mostrarem belíssimas17 diante da impossibilidade de mostrar visualmente. assim. na qual procurei defender a ideia de um saber alternativo à medicina oficial através da (re) invenção popular dessas técnicas.

vivência 37 Portanto. Ter. 2001). se para as mulheres sua “natural” condição já não precisa ser salientada. Dando uma atmosfera extraordinária à sua corporeidade. (2) o que elas acreditam atrair os outros em sua experiência. de A à Z. E é onde. bumbum 110. demonstrando como a sua conquistada e desejante feminilidade parece ser a característica mais dignificada e imediatamente sacada quando pouco se pode revelar sobre si. cheirosa. simpática. ou outra adjacência que remeta ao extremo de feminilização. na qual se fundem dois elementos: (1) o que as travestis acreditam e imaginam ser. casada ou viúva. como não se basta ser apenas travesti. ou possuir práticas sexuais específicas. portanto. formulado através do discurso parodístico desse simbolismo de gênero. mas também são promulgadas características da personalidade e da própria vida de quem se anuncia. belíssima. fazem parte do arsenal sacado pelas mulheres. pantera. elegante. bem como sua distinção através de titulações próprias do universo da travestilidade. se faz necessária a paródia das representações mais dimensionais de feminilidade. universitária. mas não pelas travestis. enfatizam características como: serem indelevelmente perfeitas. mas não só o seu aspecto de encontro com o feminino. meiga. top de linha. alto nível. promove a construção de um “estilo de carne feminina” que deve ser salientado e acentuado como conquista dignificante e elemento de distinção. seios 66. sendo. revelam a característica de contingência dos significantes de teor estático dos gêneros. além das práticas. a premissa da não existência de corpos pré-discursivos (Butler. incomparável beleza. Essas mulheres buscam parodiar outros elementos. sucesso através do uso dessas práticas. pois é um corpo. com igual intuito de fetichização. Portanto. então. escultural e ainda de incomparável beleza. importantes signos para elaborar esta rápida apresentação. miss. aqui abalizadas pelos aspectos de sua identificação pessoal e de seu próprio gosto19. No que tange ao outro pólo observado. ser: carinhosa. artigo de luxo. pois de fato as naturalizações dos significantes sociais de gênero se fazem aqui mais uma vez presentes. alto nível. travesti nº 1. buscando talvez afirmar e atestar sua beleza e sucesso de modificação. capital simbólico bastante valorizado devido às conseqüências de deformação corporal que podem sofrer diante da certa “precariedade” de suas práticas (como o uso do silicone industrial) de modificações corporais. super-feminina. ao contrário. solteira. corpo de modelo. para além da possível erotização dos seus signos corpóreos. ex-miss. dondoca classe média. buscam valorizar de maneira incisiva a feminilidade de seus corpos. que se apresentam nos anúncios. n. quase mulher. Frequentemente apenas usar o termo travesti feminina. a paródia discursiva desses elementos na experiência da travestilidade se torna fator primordial. através do dimensionamento das marcas corporais simbolizadas como elemento de desejo de corpos femininos. sem decepção. rosto e corpo exuberante. Assim. 37 2011 p. a partir do ponto em que ditos sujeitos-corpos masculinos podem parodiar os sujeitos-corpos femininos. afirmando. percebemos uma miscelânea de motivações. são traduzidas discursivamente nas categorias femininas: 100% feminina. neste sentido. delícia de mulher.Sabemos que o aspecto erótico nos classificados destinados a acompanhantes está implícito. embora também a preocupação em deixar clara suas medidas e seu intenso cuidado. 022 Através das autodefinições sugeridas nos anúncios. sensual. doce e delicada ou ainda uma garota de família18. via paródia da acentuação do feminino em seus corpos. gata luxo. as características físicas também fazem vez. discreta. 13-36 . As travestis. encerra o texto.

e terão enfim a característica específica de girar entre as práticas sexuais ativ. o sacar de categorias que revelam a preocupação em se mostrarem. às finas linhas. nos levando a pensar para além de seu conteúdo mercadológico. Prostituição parodística: Fazendo o vício! A discussão a cerca das motivações da já histórica atividade de prostituição é delicada e fruto de inúmeras divergências. que disputam com elas este espaço de divulgação. mais que bonitas. ao contrário das mulheres. pois os estilos têm uma história. que os significantes que alicerçam esta feminilidade extraordinária revelam que os corpos marcados por gênero são assim.. assistimos atualmente a um movimento bastante sólido em direção à descriminalização dessa atividade. Percebe-se. ou pass21. 13-36 vivência As práticas sexuais também entram como vetores distintivos dos anúncios das travestis. Isso se explica pelo fato de que talvez uma mulher não necessite tanto comprovar suas características femininas. como também atestarem o sucesso e a garantia da não decepção deste procedimento metamórfico. 2002) Contudo. usarão acessórios de fetiche. parece que é dada. através da mescla do que consideram como capital simbólico essencial. 023 . a sua capacidade de revelar o aspecto não-ontológico da experiência de gênero. especificarem o que são. elas buscam. o fato de serem “hiperbolicamente” femininas. 37 2011 p. para além do corriqueiro. deveras importante para entendermos as operações empreendidas nesta profissão. pois já carrega nas suas trajetórias a bagagem do discurso ontológico. “[. uma possibilidade distinta de “conferir” suas características afirmadas nesses anúncios. Discussão esta. (Friedman. via performance paródica. Esses anúncios fazem saltar aos olhos que os atos paródicos não são realizados através de uma ontologia. ao cliente da travesti.]'estilos de carne'. ao menos quando falamos da experiência da travestilidade. requerendo seu status de profissão n. se configurando. nessa operação entre o que elas creem ser e o que acreditam ocasionar desejo neste outro. mas sim de ideais socialmente compartilhados. que tornará a pequena problematização. ou seja. Esses estilos nunca são completamente originais. mesmo diante desses investimentos discursivos. a pornografia e a prostituição são elementos de dominação do poder fálico e patriarcal. que serão liberalíssimas. praticarão beijo grego20. as travestis estão demonstrando. 2003: 198). bem como elemento primordial de submissão.Vemos.. Para o movimento feminista. e suas histórias condicionam e limitam suas possibilidades” (BUTLER. para esta ideologia. como atividades das mais degradantes para a identidade feminina. assim. cuja extinção seria a única medida cabível e sequer sua descriminalização se tornaria prerrogativa aceitável. pois. Através da experiência de anunciar-se nestes fulgidos e mercadológicos espaços dirigidos para um grande público. que revelam os estilos de carne e de subjetividade a serem performatizados como capital simbólico desta experiência. além de suas distintas práticas sexuais. estando muito além das “mulheres comuns”. 37 Ainda assim. A grande maioria das travestis disponibiliza seus home pages aos clientes. aqui proposta. Diferente disso.

sua carreira se encerra. sobre estes termos. existe na maior parte do tempo um período de prazer e despreocupação (Simmel. a indescritível miséria em que. como características pessoais valorizadas. e muitas não observam prazer na atividade e consideramse empurradas para este campo devido à abjeção social da qual são vítimas25. por mais que não esteja aqui afirmando que isso também não ocorra22. diante desta explicação unilateral. ou ainda o mau exemplo do ambiente incitam uma moça a se oferecer por dinheiro e por outro lado. que mesmo engendrado nas linhas morais da sua época. 13-36 . já elabora chaves para se pensar a prostituição sobre outros moldes: vivência 37 A indignação moral que a “boa sociedade” manifesta em relação à prostituição é. Mas a atual incitação do sexo. pertinentemente. O que nos faz pensar. entre esses dois extremos. que também podemos pensar conjuntamente a isso. como explicaríamos. dos corpos sexualmente atrativos. claro. matéria de ceticismo. pelo aspecto de abjeção e de miséria que possa possuir determinada parcela da população que se prostitui. Mas. que a “boa sociedade” empurra determinadas pessoas para a prostituição. por exemplo. o autor nos fala que entre estes termos estigmatizantes. e “mulher pra trepar” e liberar fantasias eróticas23.legalmente reconhecida. Contudo me faltam dados para melhor dissertar sobre estas motivações específicas. Sem fugir. se as pessoas que a executam realmente a percebem nos contornos nefastos que são propostos por algumas opiniões. de ordinário.. como quer Simmel. E o fator distintivo de suas experiências na prostituição em relação às mulheres seria o conforto afetivo-emocional que o espaço pode possibilitar a estes corpos abjetos26. advindas dos status mais altos da hierarquia social. mesmo ao salientar a característica de miséria e não “escolha” da profissão. a prostituição de meninas de classe média alta. que ocorre. 2001.] Claro que a primeira vez em que o infortúnio. não seria apenas. outras operações podem ser encontradas. que devido ao caráter estigmatizado da experiência da travestilidade. a ausência de educação moral. seja estratégico transformar o ambiente e a atividade da prostituição num momento agradável. a solidão sem recursos. universitárias. ou mesmo sociais. que praticam a atividade em nome do consumo ou por outras motivações como o gosto e prazer. O que estou aqui procurando problematizar é que nossa sociedade atualmente não incentiva a prostituição apenas sobre os termos econômicos que nos fala ainda o autor.. como revelada em pesquisa realizada por Rogério Araújo (2006). baseado no modelo normativo de casamento onde podem ser vislumbradas as categorias de “mulher pra casar” e reproduzir. devido à atmosfera criminalizante e impura que esta possui no imaginário social maior. e continuando com Simmel. 024 Ao utilizar esta citação. de nossa reflexão. p. Mas foi possível perceber nas falas. sob muitos aspectos. sobretudo.1). com um grupo de profissionais do sexo na cidade de Goiânia. n. leva a observar nas habilidades sexuais uma competência de teor profissional24 e que pode também se aliar ao prazer. da pornografia. Como se a prostituição não fosse a conseqüência inevitável de um estado de coisas que essa “boa sociedade” impõe ao conjunto da população! [. Sobre isso nos fala Simmel. procuro trazer sua interpretação para o nosso tempo. 37 2011 p. contudo. reconhecendo a existência do prazer e da despreocupação que igualmente pode a atividade abarcar. Nos estudos sobre prostituição é freqüente o assinalar que a maior motivação para a prática seria sua recompensa financeira. Quando se fala. Esta motivação econômica também aparece nas narrativas das travestis.

p. observando este ato também como um espaço para vivenciar. 025 . estes momentos prazerosos surgem especificamente na ocasião em que os homens se tornam “bons clientes”. Isso alerta para o aspecto distintivo na experiência da travestilidade. mesmo que no fugaz momento de um programa. pagam bem pelo programa. em oposição às transações impessoais mediadas pelo dinheiro (Simmel. porque na prostituição tem os dois lados. continuam a executar a prática da prostituição. A garantia da aceitação de suas transformações corporais traduzidas pelo desejo do cliente em pagar para manter relações sexuais com elas ou. olha pra você como você fosse um objeto. necessariamente. Pra você tá exposto numa avenida. 37 2011 p. na qual as prostitutas mulheres “[. eu não vou mentir não. 2001. Me sinto horrível. A prostituição é triste. 2005. formando um semblante menos criminalizante. mas preponderantemente se este possui a distinção de durante o programa fazerem-nas vivenciar experiências para além das utilitárias. através da possibilidade de ser desejada e cortejada. afagos. não em que. durante a pesquisa de campo. né? Sua auto-estima fica logo baixa. vitimizador e violento para a prática. Mas tem uns. tem o lado bom e o lado ruim. Pra curtir. pra arrebentar. mesclando abjeção e prazer. beijos. Ao parodiar não apenas uma profissão que historicamente foi destinada às mulheres. quanto da marinha. e eles serão assim simbolizados a partir do momento. p. Eu gosto da prostituição. Vou falar pra você. Este possível abandono do caráter utilitário pode ainda revelar uma valorização de si. Eu gosto de me prostituir. você tem que ter muito peito.81). travesti). mesmo através da reivindicação das profissionais do sexo de que sua atividade se torne juridicamente reconhecida. É assim mesmo. para os clientes bons (Carol. ainda há um discurso maior de que as motivações para tal exercício sejam suas recompensas econômicas e não o possível prazer de se executar essa atividade laboral. pois parecem taticamente combinar o que há de bom e ruim para elas nesta atividade..Isso foi possível perceber. o que é vivenciado pelas travestis sobre a categoria de “fazer o vício”. já que.. 13-36 vivência Nas histórias de vida das travestis comumente se simboliza a experiência da prostituição de maneira híbrida. fez-me perceber as operações da prostituição na travestilidade. namorar e tem o lado de ganhar dinheiro. O que não mata. sai. nada pagar. numa rua.. por vezes. 36 anos. pois algumas travestis. ganha dinheiro. minha filha. Como “a posição da prostituição depende dos sentimentos sociais que ela desperta” (Simmel.] subrayan su carácter de opción económica (y no moral)” (Juliano. sentimentos de aceitabilidade e positividade.ou são reformadas tanto do exército.como beneficio proporcionado em caso de contaminação do vírus HIV. que vai direto ao assunto. no mundo em que se vive hoje de violência. ganha carícias. Todo dia é dia branco. como também (re) significando-a através de operações muito próprias. significando o ato de trabalhar via n. buscando os momentos de prazer que ela pode ocasionar. que sugerem gestos de carinho. mesmo que momentaneamente. conquistas e romance.. Tem dia que você pega um cliente bom. 37 “Fazer o vício”27 ou namorar28 na pista aponta para o deslocamento do aspecto utilitário para o afetivo. (re) significando a prostituição com um sentido mais profundo. ganha beijos. engorda. servindo para amenizar a atmosfera de perigo e erotismo envolvida em tal exercício: Olhe. 2001). que possuem uma renda mensal garantida pelo Estado . e infelizmente muitas delas o são .15).

pautadas preponderantemente nos ideais do amor romântico. Torna-se. Contudo. pois. em nenhum momento anterior ao campo. performatizam parodicamente as maneiras significadas pelo imaginário social. desnude como são vivenciadas outras formas de interação interpessoais (as familiares. como um elemento que se conecta com outros pontos da vida dos sujeitos e não sendo em si um fenômeno isolável da trajetória de vida de quem o executa. O curioso foi que. E. para preencher a prostituição de outros sentidos. significados como os únicos capazes de amar à maneira das operações amorosas exaltadas na travestilidade. 026 Na experiência da travestilidade é sempre procurado ressaltar a vivência do amor através de sua atmosfera romantizada e novelesca. mas de exaltação. promovendo um contra-discurso sobre sua própria identificação. por exemplo). já que são insistentemente alocadas nas zonas de abjeção. O que elas significam como um homem todo ou um homem de verdade. não de degradação. mais uma vez. revelada pelas histórias amorosas na experiência da travestilidade. Sendo o amor romântico um estilo de sentimento e afetividade historicamente destinado à identidade feminina30. de suas histórias de amor. como refletido por Butler (2003). A paródia amorosa: Só se ama uma vez o resto é putaria vivência 37 A paródia via amor romântico expõe. de quem é penetrado e nunca penetra. 2004) e sendo o amor romântico um valor e um signo altamente estimado pelas travestis devido às experiências de rejeições familiares31 . à maneira do Marquês de Sade (2007). 13-36 . se romantismo pode se tornar uma prática de repulsão da sociedade daqueles que não se encontram engendrados nos aspectos da comunidade familiar (Costa. neste sentido. Nessas interações afetivas. se revelou de maneira tão vivaz e dignificada nos discursos. família e sociedade envolvente. Portanto. observamos na impossibilidade de viverem tal amor uma das motivações. como próprias do arsenal simbólico feminino. quando nos falam. que não pude aqui vendar meus olhos para esta operação. necessário observar o fenômeno da prostituição. as simbologias pelas quais as travestis comumente significam suas histórias de relacionamentos afetivo-sexuais. um amor único. revelando o aspecto multifacetário29 que o ato de se prostituir pode representar. permeado pelo ciúme e característica provedora de seus “homens ideais”. característico desta modalidade de amor. parecendo ser a possibilidade única de experimentarem esse aspecto desmesurado. n. pretendem revelar à sociedade que “os perversos também amam”. elas. de maneira bastante reveladora. que as levam a vivenciar suas experiências afetivo-sexuais através destes significantes românticos32. juntamente com a capitulação dos referenciais afetivos da mulher. através da multiplicidade de motivações e opiniões dentro da mesma experiência. Isto.referida de maneira bastante dolorosa nas suas trajetórias de vida -. as travestis promovem os esquemas de (re) elaboração na citação característica do ato parodístico. procuram fugir da atmosfera de perversão. pornografia e erotismo que são empurradas cotidianamente por instituições. Talvez esta característica desmedida de amar.habilidades sexuais não puramente em seu conteúdo utilitário e trazendo o vivenciar de prazeres e sentimentos. tive a intenção de focalizar tal temática. em tom confessional. que revela os relacionamentos de teor ideal na travestilidade. em seu romance Os crimes de Amor33. 37 2011 p.

verdade irremediável e infinitude: Amores? Só tive um. (Sade. né? Mas nenhum me tocou não. que essa experiência de teor único em sua vida nunca foi jogada para o passado e é denotada por uma narrativa dignificante. Mesmo tendo se relacionado a mais de vinte anos com Itamar. é o convívio dia-a-dia. A atmosfera de “pessoa especial” e de unicidade do ato de amar. surgem de maneira sublinhada em suas narrativas amorosas. ora os mais reais de seu amor.. que a caracterizam. não. Por toda parte cumpre que ele reze. eu acho.26) 027 . Mas os outros eu conheci.A performance em viver seus relacionamentos afetivo-sexuais através da paródia do amor romântico.] E como em todas as partes do globo onde habitou. isto é. mas o homem que eu amo é Itamar. ele ser sincero comigo. e por toda parte cumpre que ele ame. e por toda parte cumpre que ele ame. e morado com ele durante cinco anos. 37 anos. p. Amar é um sentimento que não tem nem explicação. Eu amo ele ainda. que a caracterizam. p. isto é. que a caracterizam. houve romances. Aí a gente só ama uma vez. fê-lo para celebrar aqueles que amava. observando no ideal do amor características de fixação. ora os mais reais de seu amor. 2007. visualizado na prática atual sobre a atmosfera do relacionamento puro. Itamar. O amor é tudo de bom: é o prazer. tonalidades ímpares. minha filha. obras que ora pintaram os objetos fabulosos de seu culto. houve romances. É amor. é a confiança. prazerosa. Magda demonstra. (Sade.. 2007. eis a base de todos os romances: fê-lo para pintar os seres a quem implorava. 37 2011 p. travesti). num amei mais nenhum homem. como também de humanidade. eis a base de todos os romances: fê-lo para pintar os seres a quem implorava. 1993). ser sincero comigo.] E como em todas as partes do globo onde habitou. obras que ora pintaram os objetos fabulosos de seu culto.. que faz parte do seu passado. O homem que me compra é um homem que me fala a verdade. p. n. fê-lo para celebrar aqueles que amava. 1993) e tratam de carregar. que são características próprias do amor romântico (Giddens. característica. Por toda parte cumpre que ele reze.[. 13-36 vivência O homem está sujeito a duas fraquezas inerentes a sua existência. eis a base de todos os romances: fê-lo para pintar os seres a quem implorava...] E como em todas as partes do globo onde habitou. Eu só amei Itamar. própria de humanização: O homem está sujeito a duas fraquezas inerentes a sua existência. quanto dos significantes de humanidade..26) Através da paródia das considerações de feminilidade. Esta fala revela as características que segundo Giddens (1993) diferenciam o amor romântico do que ele chama de amor confluente. eu ser sincera com ele.[. Ter respeito um pro outro. Posso transar com todos.. Por toda parte cumpre que ele reze. as travestis buscam subverter a atmosfera de encontros episódicos dos relacionamentos homossexuais (Giddens. eu podia estar com mil homens. obras que ora pintaram os objetos fabulosos de seu culto. (Sade. através da atmosfera novelesca da fala. pois o ato de amar encontra-se dentro do arsenal simbólico social como “fraqueza”. mas se Itamar chegar eu diria: “Sai você e Itamar fica!” (Sheila Magda. fê-lo para celebrar aqueles que amava. Então. Não amo nenhum. intensidade única. ora os mais reais de seu amor.. nas tintas de apenas um relacionamento. que serão simbolizadas através do verbo “amar”.[. tanto as aproxima da mulher que ama. houve romances. isto é.26) 37 O homem está sujeito a duas fraquezas inerentes a sua existência. de seu presente como também do futuro. Ninguém ama duas vezes. e por toda parte cumpre que ele ame. podia tá com um homem rico na minha casa. 2007.

expressão que reflete a imagem idealizada do homem que se quer como parceiro. que foi o meu. E o desejo é o dia-a-dia. aquele relacionamento.. Não sei o que senti. a relação da foda mesmo era diferente. vou fazer com gosto [procurar outras pessoas para se relacionar afetivo-sexualmente]. O amor é a convivência. que é em si contingente. porque eu só fazia mesmo as posição de mulher. tá entendendo? A carência. cabelo estiloso. Não procurava a minha frente. formulado dentro de uma separação rígida entre os papéis de gênero. vivência 37 Assim. refletindo nos novos modelos de relações afetivas. não se defende.. diverge dos ideais do relacionamento puro. Comigo aconteceu de maneira carente. o jeito da pessoa. O pessoal fala que ele quer botar pra trás. sente ciúmes e assume sua parceira nos moldes da mulher/esposa. característico do amor romântico. Aviso a ele. Aí fui pra perto dele. 'Como você é mané'. minha filha. reiterando. protege. se caracterizando por uma prática contemporânea na busca de não mais idealizar uma pessoa distinta.. saio louca. aquela coisa do homem. (Flávia) Na fala de Flávia é possível encontrar alguns dos elementos que distinguem seu atual parceiro. É uma coisa que você não tem como explicar.. 13-36 . os arquétipos desta rígida separação dos papéis de gênero. a divisão entre os gêneros é mais igualitária.. [. significado por ela como indefeso e omisso em relação a sua proteção. perfumada. Ele se levanta às cinco da manhã.] O meu antigo era assim. não bateu a química.Nos tipos de operações reflexivas envolvidas na ideia de amor romântico. Aquela coisa. ia pra batalha. Aquela coisa de você não ter uma estabilidade. Uma vez eu me vestindo. Proteção. Sabendo que você vai enfrentar o preconceito e aquela pessoa está ali do seu lado. surge-nos de maneira muito freqüente em suas falas que o modelo do “homem ideal” se baseia sobre os termos novelescos do romance: daquele que provém. Ele não tem como se defender. não ter uma segurança.. que irá suprir todas as angústias e carências. Sabe. (Flávia) n... Ele deixa os problemas chegar na minha porta. caio na cama. a maneira de pegar... aí eu cheguei só com um shortzinho. Eu saio de madrugada.. o objetivo incansável de se buscar uma “pessoa especial” e de ser “felizes para sempre”. a maneira de acariciar.. O problema todo é esse. era beijo nos seios pra cima... As travestis em sua busca pela identificação feminina. diferente o homem todo ou o homem de verdade. já que com as conquistas femininas de se lançarem para fora do doméstico. chego em casa às 4 da manhã. que foi embora. Homem todo. Essas são as características distintivas que fazem de uma determinada e única pessoa de suas vidas o modelo e veículo próprio para reflexividade que envolve suas operações sobre o amor. sobretudo no modelo tradicional de comportamento feminino.. aí meu coração petrificou. De ter ciúme. mas quando você se depara com a amizade.. 37 2011 p. esse aqui [atual parceiro] num tem ciúme nada.. toda cheirosa. não tinha aquela coisa. Sempre eu escondia o meu lado. Ele [o homem que considera como único amor] com os amigos jogando.. quando se vive nos ideais da travestilidade: É aquela coisa: carência e segurança. centrado na mulher/mãe/esposa/privado e do homem/provedor/protetor/público. Mas louca não de raiva. Exatamente. Sabe aquela coisa? Não tem. Olhou pra minha cara e disse: 'Você não tem o que fazer não? O que é que você está fazendo aqui?' Ah! Nessa hora. o qual deixa os problemas chegarem à sua porta e não sente ciúmes... Porque é muito bom você ter uma pessoa e saber que está sendo protegida por aquela pessoa. se pautam.. um salto deste tamanho. 028 Eu só me apaixonei uma vez.. ao mesmo tempo em que parodiando. acabou-se. bate-papo. mas de prazer.

029 . que.. penetradores”. O modelo tradicional de beleza masculina: viril. na sua aparência de heterossexualidade e na coragem da assunção deste relacionamento que ocasiona em difíceis enfrentamentos sociais..Esta idealização do parceiro afetivo-sexual foi também observada por Pelúcio (2006. másculo mesmo. Os homens de verdade são aqueles que não possuem outro interesse além de amar. Esses relacionamentos de teor sazonal carregam sempre consigo uma marcação usualmente manifestada pelas travestis. (Sheila Magda). sem cabelos grandes. deste parceiro idealizado.. As características físicas deste homem também são pertinentes. encontrar um homem que não tenha por mim um interesse financeiro. Que eu me sinta assim bem bonita. pelo aspecto utilitário que podem possuir. 37 A distinção desses homens. sem brincos. Pois o homem todo também é aquele que assume publicamente sua relação com a travesti. não-ideais. reside ainda no ato de “assunção” de sua parceira. porém. reside justamente na sua n. na divisão de práticas sexuais entre ativos e passivos. pautado na virilidade. e impor moral (Sheila Magda). Reproduzindo. 13-36 vivência Eu me sinto amada quando um homem me trata bem. empreendedores. 37 2011 p. 2006. que são vividos sobre a categoria de “putaria”. além dos signos já destacados para serem então considerados por elas como “de verdade”. ativos..525). prover e assumir sua parceira como esposa e mulher. Isto porque. Porque os homens quando chegam perto da gente: 'Gostei de você. sem cabelo grande. mas interesse como pessoa. os modelos da heteronormatividade. assim.. O que falta a esses homens também. de maneira muito freqüente “[. assim. que revelarão fatalmente as preferências sexuais do sujeito que vive sobre este imaginário. É isso o que eu procuro nos homens. não se identificam com os homens homoorientados” (Pelúcio.] as travestis gostam de se relacionar sexual e afetivamente com homens. que eu sempre tive vontade. sem cueca aparecendo. Ele tem a coragem de assumir né? Por que é difícil minha filha. Bem arrumado. portanto. p.526). quando afirma que elas “esperam que os 'homens de verdade' sejam másculos. sendo simbolizado até mesmo como mais viril que qualquer outro homem.. cheiroso. para que entrem na categoria de “amados”. quem sabe. mulher. para conformar esse modelo ideal de parceria afetivo-sexual masculina. reflete como significante de sua virilidade e de sua orientação sexual para a heterossexualidade34. Sempre rola de encostar (Flávia). me leva pros lugares que eu quero. Empreender este ato é simbolizado. sem brinco. o relacionamento com uma travesti. que se acredita ainda mais feminina ao lado de um homem que marque tão profundamente sua diferença performática e corporal em relação a elas. Desejo.. Gosto de homem assim. para ela. essas coisas assim do dia a dia. sendo assim muito comum na experiência da travestilidade que estes homens. assumir. como mais uma característica a preencher o ethos. O homem que é reverenciado pelos simbolismos do amor diverge da maioria de seus casos episódicos. dentro dos ideais tradicionais do casal heterossexual e monogâmico. me leve pro shopping. possuam preponderante interesse financeiro em suas relações com as elas. Sem frescura.. Que me trate como uma mulher normal. atestam o imaginário da travesti. e nunca de romance. sem “frescura”. tratando-a... Bem homem. Flávia significa a expressão homem todo através também da preferência de prática sexual executada por este homem. sabe? Aquela coisa. p. assim pra todos. do seu lado. quero ficar com você.' Mas a gente sabe que é na maneira financeira.

como já nos revelou Flávia numa das falas acima. romanticamente. mesmo que você não tenha nada. hiperbolizando esses ideais para preencherem. e enfim simbolizado como amor. é sentido pelas travestis como algo negativo da atual identificação feminina. É casa. se a identificação feminina tende a negar o modelo de amor romântico (Giddens. na gente. Mas não só uma passividade no que se refere à prática sexual. É como se diz. Podem assim acompanhar a tendência atual individualista (Bauman.. atenciosas. (Sheila Magda). Porque somos assim. 2004) de terem cravados em suas histórias de vida vários relacionamentos afetivo-sexuais. que vão contra a inserção das mulheres nas esferas públicas e do trabalho. mas nunca a envolvê-las emocionalmente. 13-36 . o que é significado de maneira tão positiva dentro da idéia de um relacionamento mais igualitário entre os gêneros. filhos e o marido fica lá.. como prova de amor35. isso será utilizado nas performances paródicas da travestilidade. Esta “perda da feminilidade” da mulher atual se torna uma forte característica que as travestis recorrem via paródia da mulher romântica. irão procurá-las. mais delicadas. né? Eles sempre falam essas coisas: 'Ah! Porque minha mulher não me dá mais atenção. deste homem prover o lar e sua companheira. e mais uma vez hibridizando performaticamente categorias. 37 2011 p. onde se supre conscientemente apenas uma necessidade de carência momentânea ou uma atração sexual. simbolizada por elas como perda do potencial erótico e de conquista das mulheres.. filha. ou seja. Atualmente. O que eles podem sugar eles sugam. percebendo um fundamental teor de cerceamento e paralisação. vivência 37 A atmosfera que acompanha a idéia de putaria remete a certo deslocamento de um modelo romântico para a contingência característica do modelo confluente. via os ideais que permeiam tal modelo. contudo. É por isso que os maridos delas vêm procurar a gente.. apareceu assim só ficantes. só pensam em trabalhar e ficam sempre cansadas. Depois do meu homem. 030 No rastro das diferenças entre estes modelos de relacionamentos. Só por prazer. Não! Outros amores nunca. só olhando. mesmo assim. romântico e confluente (aqui sendo o lócus da putaria). para fundamentar o discurso do porquê homens casados ou mesmo considerados por elas como heterossexuais. 1993). apenas um será lembrado e carregado de afetividades positivas. Outro ponto relevante a ser observado nesses atos parodísticos do amor romântico. como também diante de uma possível traição. né? Um interesse no dinheiro. Ficantes mesmo. carinho'. Porque você sabe como é as mulheres de hoje em dia. só na putaria. depreciada na travestilidade no que tange às suas escolhas de parcerias afetivas. Mas essa característica de passividade.característica de passividade. Esses relacionamentos passam a ser vividos sobre esta categoria de “putaria”. trabalho. o feminino de suas identificações. encontram-se nas características novelescas do sofrimento36. Porque a gente nota. que envolve a confluência e converge com as conquistas de maior independência e movimentação das mulheres atuais. como fator distintivo de sua feminilidade. dentro dos agenciamentos da travestilidade que cercam os referenciais deste amor. não tem mais tempo pro seu homem. Essas coisas que a gente sabe que conquista um homem. n. bem como vontade. também se relaciona através da incapacidade. estamos para um homem e mais nada (Joelma). Quando estamos para um homem. Procura isso que falta. sendo o ciúme simbolizado por elas. de maneira a dimensionar.

que cuida.. ele é quem foi embora. pois ele nunca se encerra: 031 . aliada ao “sofrer por amor”. centrado nas maneiras mais tradicionais socialmente sancionadas do comportamento feminino. O amor romântico. provedor. Um homem como esse eu não encontro mais não (Flávia). a solidão. devido ao sofrimento causado pela projeção do futuro no outro. ocasionado justamente por essas frustrações de expectativas amorosas onipotentes (Costa. A passionalidade. da mulher passional. que se contrapunha à racionalidade masculina.] Tomei 60 comprimidos pra me matar. da casa abandonada que a gente morava. a gente rola uma vez só. igual a ele nunca gostei. tão heróico que subsiste à marginalidade e à criminalidade. 37 2011 p. tá entendendo? Ele foi embora pra não me complicar. assim.. Fui parar dentro de uma oficina de uns amigos. o sentimento estará para sempre presente. 1998) –. não me decepcionei com ele não. que esta paródia amorosa. toquei fogo na casa e sai. Mas eu toquei fogo na casa quando ele foi embora. eu amo ele até hoje. me joguei dentro de um buraco. é. Incisivamente as travestis buscam. Eu não fugi não. Eu amava muito ele. [. foi por isso que eu caí no mundo. Se nos relacionamentos atuais não nos contentamos em viver e relembrar uma única história de amor. Falam-nos de um amor que emerge diante de aspectos marginais e impossíveis. e isso faz muitos anos. Tem essas coisas.. Quando acontece de gostar de uma pessoa a gente pára de comer. ao mesmo tempo. me acordaram depois de três dias. dentro dessa experiência. porque no final das contas ele era matador profissional e eu não sabia. Ele escrevia nas paredes. aquela coisa. (Flávia) 37 As histórias de amor das travestis acumulam também características de heroísmo.. n. assim. o destino.. protetor e ativo) – quanto de feminilidade. característica intrínseca do amor romântico – que ajudou a provocar o afastamento dos atuais relacionamentos amorosos em relação a esta 'modalidade' de amar.. o vazio. sofre e ama incondicionalmente. você se sentir segura e. e aqui muitas vezes surge a partir delas37.. Era cartas e mais cartas. envolva sofrimentos implícitos. no mínimo curioso. Eu não tinha nada a ver com o assunto dele. 18 anos. e que. uma vez que refletem sobre suas trajetórias de vida. Nenhum visse? Nenhum deu certo. executada pelas travestis. ver que o mundo acabar pra você quando ele vai. travesti)... O problema foi que quando eu vim descobrir alguma coisa dele. mesmo não convivendo mais com esse “amor”. Eu ando pela rua e procuro ele até hoje. Parodiando mais uma característica socialmente significada como representação de feminilidade. Porque. que as suas operações sobre amor tendem a revelar. a atmosfera que caracteriza o amor para a experiência das travestis aqui acompanhadas. Quando ele foi embora. antiga qualidade delegada ao comportamento feminino. palavras carinhosas pra mim. algumas ações e sentimentos que demonstram tamanha passionalidade ajudam a formular o ethos do amor na travestilidade. Mas eu sempre sofro muito por amor. via uma performance que torna hiperbólica suas concepções tanto de masculinidade – apreciada na maneira pela qual significam determinados modelos de masculino como ideal (viril. torna-se um fato.. acaba por simbolizar. à maneira de sentir sua carne. Aí ele pegou o beco.. como também resiste ao tempo. né? (Larissa. junto aos outros fatores destacados. Começava a chorar. já tinha acontecido. 13-36 vivência Não. mas ele foi embora e eu entendi porque. Porque ele era diferente.Gostei muito desse meu primo. parodiar o feminino. Acho que amor.. acho que faz parte. eu peguei todos os colchões velhos. aquilo foi sufocando. através de suas narrativas amorosas.

você saber que tá ali. eu acho que é isso. n. É uma maneira de amar.. tanto a ação quanto a subversão só podem ocorrer via práticas de variação repetida e descontextualizada dos rígidos modelos da cultura hegemônica. que como vimos se encontram muito distantes das práticas e da multiplicidade dos sujeitos atuais.197). não só o feminino. em contraponto a um amor que requer confluência. que pode as atitudes paródicas apressadamente representar. Pode-se. sujeitos a um conjunto de práticas imitativas. bem como a abertura de cisões nos significantes de gênero. E um amor. 032 Considerações Finais Diante desses três atos parodísticos característicos desta experiência.. que podem ser geridos nas atitudes de corporalidade dos sujeitos sociais. segundo a autora. Será que é só isso? Será que o amor é um coração? A palavra amar é tão forte! 'Eu amo você! ' Em que sentido você me ama? É aquela coisa do desejo. igualdade e explicação lógica baseado em afinidade. do destacado abandono nos relacionamentos atuais pela literatura que faz dele seu tema. 13-36 . p. A contestação se demonstra então como modalidade característica desta execução performática e paródica.A paródia travesti via amor romântico promove um trazer para si da latência feminina. nos levam a identificar que: No Lugar de uma identificação original a servir como causa determinante. em conjunto constroem a ilusão de um eu de gênero primário e interno marcado pelo gênero. Aquela coisa de você estar doente e a pessoa se preocupar. na qual a ideia de relacionamento amoroso ideal liga-se ao modelo de casamento normativo. que se referem lateralmente a outras imitações e que. mas desejar todo mundo deseja. Como é que você vai experienciar o amor. é um amor pra si. 1994) de capturar no voo. Através da proliferação da reflexão que envolve os atos de performatividade parodística. já que. é um amor que não se amostra. vivência 37 Então. você não sabe explicar. Amar são outros quinhentos (Flávia). porque não é aquela coisa. ou parodiam o mecanismo dessa construção (Butler. E ele vem e chega com uma marmita. mas atuando mesmo para revelar ou forjar uma autonomia sobre este feminino. você passou a noite. Acontece. Eu acho que isso é que se diz amor. E via compilação do amor romântico. aquela coisa toda. podemos perceber a atmosfera de contestação política como proposta por Butler (2003) que subjaz sobre esta atmosfera acrítica. 37 2011 p. Pois elas nos trazem um amor que não se explica em termos racionalizados. neste sentido. Dar aquele carinho. a identidade de gênero pode ser reconcebida como uma história pessoal/cultural de significados recebidos. você tá com fome. ser tomada por este grupo como instrumento de ação a servir para desnaturalização dos rígidos esquemas pelos quais os gêneros inteligíveis são significados. É uma diferença nossa. e incisivamente. congruência e motivações não puramente afetivas para sua execução. dentro das operações afetivas específicas da atual experiência da travestilidade. 2003. O pessoal diz 'o amor é um coração'. pode ser também uma atitude tática (De Certeau. mostrando tanto os aspectos dissonantes.

da história das pessoas”. 17 Categoria bastante utilizada entre as travestis para se referirem a beleza. ver: Marshall & Katz (2002). nos limites do realizável. mas da possibilidade de criar novas. 5 Nome pelo qual são chamadas as travestis que aplicam o silicone industrial. A vida agora passa a ser produzida.2001). 6 No sentido restrito dos dicionários da língua portuguesa. as técnicas corporais específicas deste grupo. 2 A riqueza. pois. ele ainda irá operar dentro de nossa matriz de apreciação sócio-cultural. 7 9 Esse.. devido a intensa vigilância.70). p. e que mesmo trabalhando através da teoria dos Si Mesmo Possíveis.. o qual traveste de outros sentidos tanto práticas dirigidas para corpos femininos como dos instrumentos tecnológicos disponíveis. p. então parece que os gêneros não podem ser nem verdadeiros nem falsos. sexualidade e gênero. tanto por serem específicas e distintivas deste grupo. Isto.NOTAS 1 Fala do sequestrador da travesti do filme Tirésia.] exigem esforço e assunção de riscos. Parafraseando o comportamento e as práticas dirigidas socioculturalmente ao feminino em um corpo anatomicamente simbolizado como masculino. assumindo a experiência de atuarem fora das normas socialmente postuladas que se refere ao que Butler chama de heteronormatividade compulsória. ao centralizar uma análise nos “modos de proceder da criatividade cotidiana”. 033 . que resultam da “trajetória social. que cerca da idéia de “vida saudável”.. cor e profissão. mas somente produzidos como efeitos da verdade de um discurso sobre a identidade primária e estável [. habita justamente no ato de parodiar algo que é tomado como natural. os agenciamentos de subjetividade ainda se encontram constrangidos pelos self-schemas..] uma maneira de pensar investida numa maneira de agir. sintaxes” (Ferreira. 13-36 vivência 8 Estou chamando aqui de práticas travestidas. Pelúcio (2005. Não se trata apenas de ler as palavras que já existem. é preciso ter em mente que quando tratamos de cultura popular. 2000.195-196). antônimo de alma. 10 Para aprofundar sobre a atmosfera de extensão de vida relacionado ao imaginário contemporâneo. assim. Portanto. Diário de Pernambuco. que não é possível analisar o sujeito como uma parte separada dos contextos e imaginários sócio-culturais que o cercam. ela opera de maneira combinatória e utilitária. sendo esta uma das “modalidades mais avançadas de subjetivação”. acreditamos nos definir mais claramente. Eles representam uma das modalidades mais conseguidas da subjecividade em obra na invenção de si mesmo” (p. 37 “A vida já não pode mais simplesmente ser pensada como resultado de uma reprodução.”(op. uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar. A este custo. se “[. eles autorizam um trabalho de reforma de si mesmo verdadeiramente inovador.] a verdade interna do gênero é uma fabricação. os significados de corpo parecem conter uma formatação instrumental. São. 15 Anuncio retirado da seção de acompanhantes (Classilíder) do jornal. em que o presente consegue momentaneamente colocar entre parênteses o peso do passado. como alguns outros nomes.] A noção de uma identidade original ou primária do gênero é frequentemente parodiada nas práticas culturais do travestismo e na estilização sexual das identidades butch/femme” (Butler. do diretor Bertrand Bonello. que a autora nos fala.. 4 Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco. 19 Características que. A idéia de um alfabeto da vida nos remete a um espaço literário aberto.. 18 Todas as adjetivações. mesmo conscientes do alto grau de subjetivação alcançado pela atuação dos nossos si mesmos possíveis. 11 Segundo Kaufmann (2005). Denizart (1997). quanto por sua característica intrínseca de travestir de outros sentidos os usos formais destes instrumentos e práticas. p. BenedettI (2005). foram modificados diante do pedido explicito das colaboradoras. os aspectos de subjetivação assumem formas tão múltiplas. pois: “Os si mesmo possíveis [. que são contornadas de um saber muito próprio sobre este corpo autoconstruído.. 12 Maneiras como as travestis emicamente designam os pêlos do rosto.. n. Adquire assim o aspecto dos pequenos espinhos que brotam do chuchu devido intervenção constante através de inúmeras técnicas. Contudo. 2 de novembro de 2007. 2003. compartilham o fato de performativizarem suas vidas fora do discurso hegemônico de corpo. 3 O termo “experiência queer” está sendo utilizado para agrupar sujeitos que compartilham uma condição social ou um expediente em comum. que não chegam a se transformar em barba. dentro de uma dupla qualificação. em que mesmo possuindo histórias bastante particulares e bastante adversas entre si no que tange a outros marcadores como classe. 'travestidas'. 16 Via discurso promulgado nos classificados de “acompanhantes” dos dois principais jornais do Estado de Pernambuco. cit: 42) 14 Como vemos em: Silva (1993). 2003. matéria seca de significados. se configurando como complexo de ossos. (Ver Houaiss. 2006). 13 Para De Certeau (1994). formulado dentro do discurso médico oficial. e se o gênero verdadeiro é uma fantasia instituída e inscrita sobre a superfície dos corpos. demonstra a estrutura manufaturada e contingente pelas quais são modeladas as atitudes de gênero. mesmo sobre estes termos este conceito cabe de maneira pertinente aqui. carne e órgãos.223-224). segundo a reflexão de Campbell (2001) sobre o mesmo tipo atuação midiática. 37 2011 p. assim como as que seguirão foram retiradas dos classificados do Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco de janeiro de 2007 a fevereiro de 2008. se revelando como “[.

travesti). 36 anos.. ela cobra um valor bem inferior ao cobrado habitualmente. pronto.. me controlou totalmente. faço isso por que minha profissão exige. p. 30 Como nos conta Giddens (1993). termo de carga simbólica. culturais e biográficos. faço mesmo. né?”( Flávia). tanto no campo simbólico quanto no imaginário social. nem ligo. e a da 'moça de família'. E nessa barroação. travesti). [. então parei e foi porque ele quis. quando nem esperava ele ligava. 23 anos..81) 25 “Travesti não tem que se prostituir. que vira de costas pra mim. em vez dos desregramentos dos sentidos”. Sobre este objetivo.]” (Juliano. não queria que eu me prostituísse. sendo esta. Não pensar em amor. 2007. como a prática de beijar o ânus. ou de jovens com a aparência física mais atraente para elas e “com esse tipo de cliente. Quando saia tinha que ter hora de chegar. Aparece. Porque em São Paulo ganha dinheiro. In: Sade. foi essencial para os ideais de controle social desta classe emergente. 37 anos. conversa vem. 23 Historicamente a prostituição se configura não como um fenômeno aceito. Foi o primeiro relacionamento.] com a divisão das esferas de ação a promoção do amor tornou-se preponderantemente tarefa das mulheres. Aqui não ganha dinheiro. “o amor romântico era essencialmente um amor feminilizado. p. conversando da vida. refletindo sobre as mudanças sociais que ocasionaram a emergência de um amor romântico. o que inviabiliza a construção de um modelo explicativo monocausal.41).20 Este termo encontra-se dentro da semântica do erotismo. centrado fundamentalmente na tomada burguesa. ou até mesmo faz o programa sem cobrar nada” (p. aquele que observa as convulsões dos sentimentos. 21 Linguagem própria do universo de anúncios para abreviar as práticas sexuais divididas entre passivos e ativos. uma prática bastante executada na experiência da travestilidade. me dá a carteira. isto é. É algo esperado da própria concepção moderna de família... a prostituta desempenha papéis inconcebíveis para a 'mulher de família” (Araújo. 24 Como coloca Juliano (2005) questionando-se sobre as polêmicas e estereótipos que envolvem o trabalho sexual feminino.. ele era muito ciumento. portanto o amor romântico fruto do processo de modernização. vivendo sozinha. mulher. 34 “Não gosto de transar com veado . Foi quando bateu.” ( p.66).. Mas aí foi quando eu me apaixonei por esse cara. umas conversas doces e delicadas. percebe que “Sin embargo muchas de las mujeres que trabajan en este campo. não queria ver a mulher dele com outros” (Ana Clara. não puramente utilitário.. em conversa. conversa vai. A gente passou três anos juntos. Mesmo eu carente” (Sheila Magda. travesti). entre as travestis também foi sentido na etnografia de Rogério Araújo (2006). 2006. mas eu gostava dele. gostava muito de mim. consideran que es simplesmente uma actividad laboral entre otras posibles[.. tira o sapato..Foi tanto que eu me apaixonei. passei três anos com ele. p. nem com bicha machuda. aí apareceu. torna-se possível preservar a figura da esposa. atualmente. por que fui expulsa de casa.de homem de verdade” ( Joelma. me dá o anel. cuja formação do casal monogâmico e heterossexual.. a travesti. Bateu aquele clima. pois na concepção moderna de família. justificada pela semântica específica que cerca o termo fazer o vício dentro do universo dos códigos comunicacionais próprios da travestilidade: “Às vezes nem rola dinheiro. sendo empurrados para as “zonas 'inóspitas' e 'inabitáveis' da vida social”.] incômodo tolerado. ele trabalhava na padaria da tia dele. eu viajei em 81. aparecia. porque ele ganhava pouco e na época eu ganhava dinheiro na pista. 35 “Eu gostei do outro. foi bem difícil pra mim. que foi o que realmente eu me relacionei. este cuidado sem porquês também está presentes nas emoções que permeiam os modelos familiares. Se num tiver dinheiro tira calça. Segundo o autor. diferentemente combinados. Aí aparece uma pessoa. 22 “Não tenho cabeça pra pista mais não. lhe dá todo cuidado.5).. Dessa maneira. 29 É necessário considerar “que a existência e a permanência da prostituição podem ser decorrentes de uma conjunção de fatores sociais econômicos. através da evidência de que os corpos que não se encontram dentro do aspecto de inteligibilidade social destinada aos gêneros encontram-se fora do “domínio dos sujeitos”. n. mas um “[.54) 31 Isto. 28 Flávia me conta. lhe dá amor. é ou de homens mais velhos e casados. contornado pela divisão das tarefas. Aí foi aquela coisa. foi quando eu peguei a estrada. Na época. 32 “Porque quando eu viajei daqui. Sendo. que remete para além de encontros episódicos. Culturalmente. 034 27 O sacar deste recurso lingüístico. p. 2006. (Fiorillo. As idéias sobre o amor romântico estavam claramente associadas à subordinação da mulher ao lar e ao seu relativo isolamento do mundo exterior. Uma vez eu barroei com ele sozinho. p. realizo!” (Flávia). 13-36 . travesti). rígido e estático para seu entendimento” (Araújo. Só que na pista não pode se apaixonar. 'faz o vício'. Mas como não sou apegada a isso e quando vejo um homem assim que me agrada. Eu acho que o problema da carência familiar que eu tinha. parece ter adquirido simbologias de um lugar permeado por amor e cuidado depois da tomada burguesa.Mas gosto mesmo de homem. entendeu? Só por dinheiro. o perfil dos clientes das travestis.. Eu gostava em São Paulo. pois funcionaria como uma espécie de válvula de escape para o incontrolável desejo sexual do macho de realizar suas mais recônditas fantasias e necessidades fora do casamento. 33 Onde se revela um “Sade clandestino. Ele me tirou da batalha.. como mulher imaculada – com a qual sexo vincula-se a reprodução -. certo envolvimento afetivo-emocional. 2005. como também observada nesta pesquisa. 36 anos. 64).155). esta que já foi historicamente uma instituição fundamentalmente hierárquica. que às vezes vai pro ponto só pra namorar. mas às vezes somos levadas a isso pela falta de opção no mercado de trabalho” (Carol. vivência 37 26 O conceito de abjeção é trazido por Butler (2001. lhe dá carinho. Namorado na pista? Aparecer. nem beijinho.. Tem que olhar e pensar no bolso do homem.. pautada nos ideais individualistas. Se curtindo passei três anos e quatro meses com ele. 37 2011 p.

MARSHALL. BENEDETTI. Body & Society. 2007. 2002. George. 37 “Olhe. 2001. porque eu senti aquela coisa. B & KATZ.8. K. Paraná. 1994. Suely. Rio de Janeiro: Objetiva. São Paulo: Hutec. Rio de Janeiro: Vozes. Porto Alegre: Artmed.Mas depois a gente se resolveu[.. Uma mente própria: A história cultural do pênis. GASKELL. FERREIRA. MALUF. Rio de Janeiro. quando eu conheci ele pela primeira vez. PELÚCIO. 1997. JULIANO. uma loucura. 2002.. Sônia. COSTA. Jonatas. Porque. A invenção de si: uma teoria da identidade.51. FERREIRA. Graal. Forever Functional: Sexual Fitness and Ageing Male Body. 2005. Dolores. n. 1-479. Rio de Janeiro: Rocco. a teoria queer e a pesquisa qualitativa. v. Michel. amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo Editora UNESP. n. n. O trabalho do Antropólogo. oito horas da manhã. Joshua. Projeto História: revista do Programa de Estudos Pós-graduados em História e do departamento da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.Brasília: Paralelo 15. A sociologia do corpo.. Lisboa: Instituto Piaget. Corporalidade e desejo: Tudo sobre minha mãe e o Gênero na margem. não sabia onde ele morava.2. Engenharia erótica. Mikhail. GAMSON. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.. Florianópolis. S. 2001. n. Norman. In: DENZIN. 2005.. BAUMAN. Rio de Janeiro: Rocco. KAUFMAN. Fui atrás dele. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Campinas. mas pra mim foi linda. História da sexualidade III: o cuidado de si. 2003. RJ: Vozes. GIDDENS. v.6. Collin.Revista de cultura e política.. Jurandir Freire.. e acreditei. em narrativas. As sexualidades. IN: LOURO. SP: Mercado de Letras. Quando menos esperei ele tava morando comigo” ( Ana Clara) REFERÊNCIAS ARAÚJO. n. FOUCAULT. Guacira Lopes (org). Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. Belo Horizonte: Autêntica. A invenção do cotidiano. LE BRETON. 2005. Larissa Maués. Petrópolis: Vozes. “Toda Quebrada na Plástica”: Corporalidade e construção de gênero entre travestis paulistas.2002. Toda feita: o corpo e o gênero das travestis. é muito louca.Foi uma confusão danada.ed. 37 CAMPBELL. logo cedo. 2004. Levou todo dinheiro que eu tinha. v. O alfabeto da vida: da reprodução à produção. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Travestis no Rio de Janeiro. BUTLER. 1993. Pedagogias da Sexualidade. 25.. que vê como características centrais do amor sua peculiaridade de promover sentimentos de incerteza. Uma trajetória. David.1. Judith. ele me assaltou.] Aí pronto. 2001.. Yvonna. 035 . O Corpo Educado. 2. v. sai louca pelo meio da rua. minha história mesmo de amor. 2000. Feminismo e subversão da identidade. Petrópolis. A transformação da intimidade: sexualidade.. Pesquisa qualitativa com texto: imagem e som: um manual prático. DE CERTEU. 2004. Martin. Corpos que pensam: Sobre os limites discursivos do “sexo”. 2006. Rogério. 2002. ed. 2002. Roberto. Marcos Renato.36 Como observado por Bauman (2004). BAUER. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.25. São Paulo: EDUC.1-2. 13-36 vivência CARDOSO DE OLIVEIRA. 2ªed. 37 2011 p. Prostituição: artes e manhas do ofício. LINCOLN. DENIZART. BUTLER. 2002. Michel. Rio de Janeiro: Garamond. Problemas de gênero. Jerusa. 2002. Jean-Claude. Hugo. Universidade Federal do Paraná. Cadernos Pagu: Campinas. Lua Nova . 2007. 1998. UCG. El Trabajo sexual em la mira: Polémicas y estereótipos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Ed. BAKTIN. Goiânia: Cânone Editorial. Judith.. ambivalência que ocasiona em sofrimentos e angústias inevitáveis.4 : 43-70. FRIEDMAN. David M. 2002. “Alto” / “Baixo”: O grotesco corporal e a medida do corpo. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rebelais. 219-239. Antony. n. me roubou. 2. KOFES. S. Campos: Revista de Antropologia Social. A ética romântica e o espírito do capitalismo moderno. Revista de Estudo Feminista.

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