Fotografia e Consumo

As imagens que nos levam a lugares impensados ou que alimentam
nosso repertório ao mesmo tempo em que enchem nossos olhos, mostramnos o vazio – de estar naquele lugar ou de possuír aquilo que apreciamos.
Seja um produto, uma família feliz, um carro ou uma viagem, uma boa
imagem pode nos fazer desejar.
Desejo e consumo andam sempre juntos sendo que o segundo é a
consequência do primeiro. O consumo de qualquer produto que até o
Renascimento era pautado no sistema de trocas, foi amplamente
impulsionado com a ascenção da classe burguesa que na tentativa de
possuir tudo aquilo que a classe nobre possuía: copiando suas roupas, seus
quadros, suas casas, seus hábitos alimentares. Mas foi após a Revolução
Industrial que a indústria realmente teve a necessidade de criar um grupo de
consumidores para escoar tudo o que a máquina a vapor produzia.
A expressão sociedade de consumo nasce nos anos 20 e se
populariza 30 anos depois, pautada neste consumo objetual e materialista
que caracterizou a primeira fase do consumo, caracterizado pela produção
em massa. Com o passar do tempo, a expansão das “necessidades”
humanas muda esta dinâmica e as preocupações ligadas ao estilo de vida,
expressões de si mesmo e dar sentido ao que possuía começaram a permear
todo este sistema. Diferentes camadas sociais tem acesso a produtos sem
necessidade estrita e começam a adquirir produtos com menor tempo de
vida, visando o prazer dos instantes.
A partir da década de 70 o sistema capitalista começa uma
reestruturação concomitante às transformações nas comunicações e as
coisas passam a ser globais: marcas mundiais e empresas gigantescas
aumentam sua produção agora com aspecto “personalizado”. O consumo
nutre um ideal de felicidade, diferenciação social disfarçada de estilo de vida,
e moldado em funções de critérios pessoais: consumo criativo, consumo
subjetivo e hiperconsumo.
Gilles Lipovetsky descreve bem todas estas fases e como o consumo
transformou o homem em um hiperconsumidor em seu livro A Felicidade
Paradoxal nos faz refletir sobre este momento da história em que
consumimos para alimentar esferas subjetivas e emocionais, para nos
distinguir como grupos ou construir uma identidade própria liberta das
relações de espaço-tempo: somos agora o homo consumericus.
Nesse sentido, a fotografia ganha papel de destaque. No início ela era
tida como uma arte menor e imediatista que libertaria a “arte” de suas
amarras da realidade. Em seguida, tornou-se um produto de consumo caro e
voltado às elites. Com a popularização de cameras e sistemas de impressão
a fotografia entra para o cotidiano dos grandes acontecimentos de nossas

tão necessário quanto um relógio foi um dia: já é um item de primeira necessidade. não conseguimos mais nos separar dela. Imersa em tal complexidade a fotografia é um produto de consumo ao mesmo tempo em que impulsiona o ato de consumir experiências. nada melhor do que a fotografia para registrar aqueles momentos que não poderão ser guardados de outra forma além da memória! Estamos cercados por enquadramentos. momentos. registrando momentos importantes. ou cenas que não irão ser vistas da mesma forma pela lente da camera (como o tigre fantasma de “A Vida Secreta de Walter Mitty”). cenas e cores que buscam representar aromas. . as cameras deixam de ser um equipamento de atividade profissional para um gadget que nos acompanha. Na era digital ela entre para a rotina diária manifestada pelo registro constante de instantes criados como “belos” pra registrar em imagens o diário de nossa vida. sabores e lembranças que recheiam as redes sociais em composições mais orchestradas que a própria fotografia publicitária. trocas. Se estamos na era do consumo experencial.vidas. Requisito fundamental na compra de um aparelho de celular. porque somos homo consumericus. adquirindo cada vez mais funções em formatos diversificados. E embora existam acontecimentos que não poderão ser captados da mesma forma com que foram sentidos.