EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA

DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE
Paulo Henrique Cirino Araújo*
Dênis Antônio Cunha**
Joao Eustáquio de Lima***
José Gustavo Féres****
Resumo
O objetivo deste estudo foi analisar a produtividade das culturas do milho, cana-de-açúcar e mandioca sob longos
períodos de estiagem. Em específico, para cada uma dessas culturas, buscou-se avaliar o impacto histórico dos
níveis de precipitação e de outras variáveis climáticas e agronômicas sobre os níveis de produção por área plantada.
Para esse fim, foram utilizadas regressões em painel com efeitos fixos, considerando 1297 municípios ao longo de
30 anos. Os resultados encontrados apontam que, nos anos de registro de secas, as culturas sofrem relativas perdas
de produtividade e, dentre todas, a do milho é a mais prejudicada. Ainda que tenham sofrido perdas, as culturas da
mandioca e da cana-de-açúcar são mais tolerantes a baixos e irregulares regimes de chuva. O Estado mais afetado foi
a Bahia, onde a redução média de produtividade alcançou 40% na cultura do milho. Essas perdas agrícolas refletem
na renda familiar de pequenos produtores, na segurança alimentar e na subsistência de muitos nordestinos.
Palavras-chave: Secas. Agricultura. Produtividade. Nordeste. Brasil.
Abstract
The objective of this paper was to analyze the productivity of corn, sugar cane and cassava crops during long periods of
drought. Specifically, we sought to evaluate the historical impact of rainfall and other climatic and agronomic variables
on levels of production by acreage of each of these crops. As such, panel regressions with fixed effects were used, in relation
to 1,297 municipalities over 30 years. The results found showed that, in drought years, productivity levels of the three crops
fell, with that of maize (corn) being the most damaged. Despite suffering losses, the crops of cassava and sugar cane are
more tolerant of lows and irregular rainfall periods. The most affected stated was Bahia, where an average reduction in
productivity reached 40% for the corn crop. These agricultural losses were reflected in the household income of small
farmers, food security and livelihoods of many northeastern Brazilians.
Keywords: Droughts. Agriculture. Productivity. Northeast. Brazil.

*

Doutorando e mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). cirinopaulo@yahoo.com.br

** Doutor e mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professor do Programa de Pós-graduação em Economia Aplicada da
UFV. denis.cunha@ufv.br
*** Pós-doutor em Economia pela Universidade da Flórida (UF) e doutor em Economia Rural pela Universidade do Estado de Michigan (MSU). Professor
titular da Universidade Federal de Viçosa (UFV). jel@ufv.br
**** Doutor em Economia e mestre em Economia Matemática e Econometria pela Universidade de Toulouse I Sciences Sociales. Técnico de Planejamento e
Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). jose.feres@ipea.gov.br

IX Encontro de Economia Baiana – SET. 2013

Economia Baiana

151

A partir desses resultados. O principal objetivo foi entender a heterogeneidade dos impactos das secas sobre a agricultura regional e identificar quais os estados e municípios que sofreram as maiores perdas de produção por hectare plantado. Na literatura especializada. singulariza-se por ser castigada periodicamente por secas. resultante de processos migratórios. há aumento de pobreza e miséria. pois a seca na fase inicial das culturas (semeadura e germinação) e o excesso de chuva na colheita.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. cana-de-açúcar e mandioca de toda a referida região. 10 hectares. a produção agrícola fica comprometida. respondem por parcela expressiva da redução das safras. Somente no Nordeste estão localizados 50% dos estabelecimentos de agricultura familiar. Na região Nordeste. a grande dimensão territorial ocasiona considerável heterogeneidade climática e condições que podem ser favoráveis ou desfavoráveis. já que apresenta grande heterogeneidade climática. 2013 ECONOMIA BAIANA • 152 . Joao Eustáquio de Lima.. a pecuária é debilitada e as reservas de água superficiais se esgotam (Duarte. a porção semiárida. dependendo da cultura agrícola. as culturas do milho. Eles informam as perdas agrícolas médias para toda a região. representam cerca de um terço de todo o VBP da agricultura do Nordeste. (1993). Isso se verifica no Brasil. buscou-se responder como as culturas do milho. se for considerada a agricultura de subsistência. Segundo Duarte (2010). De acordo com Göepfert et al. Além disso. de acordo com Pinto et al. semiárido e equatorial úmido). A questão da seca gera considerável atenção. bem como por sua participação nas economias dos Estados Nordestinos. Nessa região as chuvas não são bem distribuídas ao longo do ano. (2003). Localizado na zona intertropical da Terra. essa questão se torna particularmente importante. A principal contribuição deste trabalho encontra-se na desagregação dos resultados. sendo essa característica mais acentuada na região semiárida. que ocupa 57% do território nordestino.VBP. o presente estudo buscou analisar o desempenho da agricultura nordestina em longos períodos de estiagem. a agricultura de subsistência representa 75% da força de trabalho agrícola e é responsável por aproximadamente 10% do PIB nacional (Guilhoto et al. e do IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. no Nordeste podem ser identificados três tipos de clima (tropical. 2010). Esse fato é preocupante. além dos efeitos indiretos sobre outras regiões e centros urbanos. em geral se aceita que os efeitos da seca são sentidos principalmente por pequenos produtores e agricultores familiares. 2007). As culturas foram escolhidas pela importância que elas exercem para os produtores familiares como fonte de renda e alimentação. a vulnerabilidade das camadas mais pobres da produção eleva-se consideravelmente. Especificamente. da cana-de-açúcar e da mandioca são afetadas pelos baixos níveis de precipitação nos municípios da região Nordeste. José Gustavo Féres 1. IBGE. Nessas condições. INTRODUÇÃO O desempenho favorável do setor agrícola depende sobremaneira de condições ambientais adequadas. pois parcela substancial da atividade econômica do Nordeste é baseada na agropecuária. A geração de renda e emprego fica comprometida. quando somados seus valores brutos de produção . esse valor pode chegar a 84%. para os Estados e ainda revelam as variações médias de produtividade para os municípios produtores de milho. 2010). em que. da cana-deaçúcar e da mandioca. Dênis Antônio Cunha. o clima é um dos principais fatores limitantes e determinantes da produção agrícola. no máximo. Nesse contexto. Quando ocorrem prolongados períodos de estiagem. Conforme nota do Banco Central do Brasil (2013) sobre Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA. já que no Brasil cerca de 48% dos estabelecimentos agrícolas têm.

os preços dos alimentos tornam-se mais elevados. (1997). tanto no número de municípios quanto no extenso período de 30 anos. eventos extremos climáticos (Legler et al. ainda que a operacionalização do modelo não tenha sido quantificada. A avaliação desses impactos é proposta sobre o mercado de produto. Joao Eustáquio de Lima. REVISÃO DE LITERATURA A literatura científica. atualmente. procuram analisar a influência de eventos ou choques climáticos de curto prazo. A segunda apresenta uma breve revisão da literatura sobre o impacto das secas na atividade agrícola nordestina. O fato da estimação dos modelos ter levado em consideração painéis de dados abrangentes. lucratividade e produtividade agrícola. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. Féres et al. recai sobre o processo de aquecimento global (Dêschenes e Greenstone (2007). 2013 ECONOMIA BAIANA • 153 . pois. a ação mais importante seria a reposição de renda. José Gustavo Féres detalhamento deles. o que. A primeira delas compreende estudos que recaem sobre os impactos de longo-prazo do clima sobre os níveis de produção. seja nos EUA. o desenho e a implementação de políticas de convivência com a seca poderão ser mais precisos e bem planejados. Sampaio e Sampaio (2010) propõem um modelo de impactos econômicos decorrentes da seca. Algumas sugestões para políticas de combate as secas são propostas pelos autores. Segundo eles. Roberts e Schlenker (2010)). certamente. Evenson e Alves (1998). ao longo do tempo. que.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. (2009)). Na quarta são discutidos os resultados obtidos. (1997). existem estudos que também se destinam a entender os efeitos do clima sobre a atividade agrícola. resume todas as técnicas e variáveis utilizadas no estudo. basicamente. foi o realizado por Deng et al. o qual buscou identificar a relação entre a produção de arroz e os eventos El Niño na província chinesa de Jianexi. o trabalho está organizado em outras quatro seções. Outro trabalho que também tratou de eventos climáticos extremos. Numa outra perspectiva. Esses autores identificaram que os efeitos dos eventos El Niño ocorreram exatamente nos meses em que não há produção de arroz. Especificamente sobre as secas nordestinas. classe na qual também se enquadra este trabalho. na China. Esses estudos. Alem desta introdução. a tolerância delas ao calor diminuiu. em economias subdesenvolvidas como o Brasil. Os principais apontamentos do trabalho são para a geração de um mercado de água e também extensão da área irrigada. Embora essas duas abordagens estejam voltadas para problemas diferentes. quando reunidas. porém no curto-prazo. 2. nota-se uma recente preocupação da literatura especializada com os efeitos econômicos de eventos extremos. possibilita maior entendimento da problemática. Dênis Antônio Cunha. O trabalho de Roberts e Schlenker (2010) analisou se a produção agrícola americana é sensível a eventos de calor extremo e verificaram que as lavouras têm sido pouco suscetíveis a flutuações nos níveis de precipitação e. a quinta seção resume as conclusões. (2010). em períodos de seca. sob a qual foram desenvolvidas as análises deste trabalho. está relacionada a duas abordagens distintas. Finalmente. a saber. na China e. elas acabam por permitir uma compreensão mais completa sobre o impacto do clima e também das mudanças climáticas na agricultura. Adams et al. sobre a distribuição de renda e sobre as transferências governamentais. Baseado nos resultados expostos por esses trabalhos. Na terceira é descrita a metodologia de análise que.

ao longo dos próximos anos. estima-se que em anos de seca as perdas somem entre 719 bilhões e 3. os efeitos anuais das mudanças no regime de chuva e nas temperaturas dos produtos agrícolas considerados. 2 Nas regressões. Cirino. et al. (2011). Na segunda etapa. 2007) já apontava a região nordeste do Brasil como uma das áreas globais que sofreriam maior tendência. Efeitos sobre a produtividade agrícola das variações climáticas Em conformidade com Féres et al. 3. Esses modelos exploram. buscaram-se computar quais foram as perdas ou ganhos médios. . a metodologia utilizada seguiu duas etapas (Féres et al. As regressões representadas pela equação 2 foram acrescidas uma variável de tendência ( ) e um termo de efeitos fixos ( )2.6 trilhões de reais. Nesse caso. o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC. José Gustavo Féres Outros trabalhos técnicos ou relatórios governamentais também expõem evidências dos prejuízos trazidos para economia regional do Nordeste e também para todo o Brasil. optou-se por incluir um termo de efeitos fixos para controlar o viés de omissão de variável relevante. de aridez e estiagem. permitiu identificar os impactos das variações no regime de chuva sazonal sobre os níveis de produtividade das três culturas analisadas. Joao Eustáquio de Lima. (2010) e Cirino et al. (2010).2009. Adicionalmente. vale destacar que a tendência também foi incluída para captar efeitos que são invariantes IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. 3. Dênis Antônio Cunha. Além deles. 2011). Ainda. a região Nordeste terá seus episódios de seca cada vez mais intensificados.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. esta etapa do estudo busca relacionar os níveis de produtividade agrícola de cada município estudado com os níveis de precipitação. decorrentes do processo de aquecimento global. para captar possíveis relações não-lineares entre a produtividade e as variações climáticas (Dêschenes e Greenstone. até 2050. em termos de produtividade. Ressalta-se que foram construídos seis 1 As variáveis de temperatura e precipitação também foram incluídas na forma quadrática. no período de 1970 a 2002. A primeira refere-se a uma análise de regressão em painel com efeitos fixos que. de temperatura e suas respectivas características agronômicas. 2013 ECONOMIA BAIANA • 154 . assim como Féres et al.1.. uma vez que a produtividade agrícola é um fenômeno explicado por inúmeras variáveis além das climáticas. apresentados pelos municípios e estados da região Nordeste do país. é um conjunto de variáveis referentes a temperatura e precipitação observadas em cada estação do ano nos municípios ao longo dos anos1. os efeitos fixos refletem aquelas características de cada município que são invariantes no tempo. considerando o período de 1970 a 2002. no município e num determinado ano . de acordo com esse estudo e também confirmado por Pinto e Assad (2008). (1) em que denota o rendimento em toneladas por hectare de uma certa cultura agrícola .. dentre outros aspectos. 2007). nos anos de ocorrência de secas severas. METODOLOGIA Para mensurar os efeitos de longos períodos de estiagem sobre o rendimento físico de culturas agrícolas. Segundo o relatório Economia da Mudança Climática (2010). A equação 2 retrata essa relação: .

: tipo de solo. nos municípios. em que longo dos anos. representa as condições climáticas em anos de registros de secas severas e nos anos de neutralidade. 3 Para mais detalhes da metodologia de construção desse índice. variam para as regressões relacionadas a cada cultura . foram adotadas algumas medidas de correção e também ajustamentos estatísticos. um exemplo seria a tecnologia. para cada cultura . Assim. Em especifico. altitude do solo. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. tal trata de um componente de erro aleatório. Os resultados encontrados nesta etapa final refletiram as perdas ou os possíveis ganhos médios de produtividade que os municípios apresentaram em todos os anos de registro de secas. ou. No caso. José Gustavo Féres painéis de dados. Dênis Antônio Cunha. entre outras. um escore fatorial3. 1997).2. por (2) denota a variação média das produtividades apresentadas ao um município numa certa cultura agrícola s.) Quanto à qualidade de ajustamento das estimativas das regressões em painel realizadas. presença de água da terra plantada. fez-se uso da seguinte equação: . e também o componente de erro. pelos quais cada regressão foi amostrada por municípios da região Nordeste e cada cultura agrícola considerada. bem como seccionadas de acordo com os anos de ocorrência de secas severas e anos de neutralidade (sem registro de secas). em termos de efeito marginal.3. vide a sub-seção da metodologia 3. O índice foi criado a partir de técnicas de estatística multivariada. Joao Eustáquio de Lima. em termos de sua intensidade.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. sendo. 3. é captado pelos parâmetros estimados relacionados a e seus respectivos efeitos marginais.e referem-se a um conjunto de coeficientes estimados. os erros padrão foram reamostrados por bootstrap. portanto. especialmente aqueles relacionados aos níveis de precipitação das estações do ano. que trata da descrição das variáveis. A principal justificativa para a inclusão desse índice foi que a produtividade agrícola é. torna-se possível computar a variação líquida sobre os níveis de produtividade agrícola em cada município. Todos esses parâmetros. um fenômeno bastante amplo e explicado também por diversas variáveis agronômicas (ex. Finalmente que . Variação média da produtividade das culturas estudadas Para mensurar a variação média da produtividade decorrente dos longos períodos de estiagem foram utilizados os coeficientes das variáveis climáticas. mas que mudaram com o passar do tempo. o efeito das secas. Para tanto. e gerados os níveis de produtividade estimados pelas regressões. de forma que . 2013 ECONOMIA BAIANA • 155 . A variável de tendência tem periodicidade anual e também específica nas estações do ano. e são os parâmetros estimados das variáveis climáticas nas regressões representadas pela equação 1. com a finalidade de corrigir possíveis problemas de autocorrelação e. heterocedasticidade (Johnston e Dinardo. uso de herbicidas e pesticidas.

As informações de área plantada e produção agrícola foram obtidas no IPEA-DATA que. portanto foram expressas em t/ha. serem incluídas nas estimações dos modelos econométricos. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. por sua vez. os dados agronômicos também foram extraídos do IPEA-DATA. Dênis Antônio Cunha. Essas variáveis climáticas são segmentadas em estações do ano para. José Gustavo Féres 3. foram considerados aqueles municípios que apresentaram dados de área plantada para as culturas consideradas. Por fim. A descrição das variáveis utilizadas é feita a seguir: Produtividade média agrícola As variáveis referentes às produtividades médias dos municípios nordestinos que produzem milho. Durante a estimação. foram considerados aqueles municípios que apresentaram dados de área plantada para as culturas consideradas em cada Estado da região Nordeste. Variáveis climáticas As variáveis climáticas utilizadas nos modelos estimados neste trabalho referemse aos níveis de temperatura ( ) e precipitação (mm) de cada município nordestino. 2013 ECONOMIA BAIANA • 156 .4. no período de 1970 a 2002. As informações climáticas sobre os níveis de temperatura e precipitação de cada município brasileiro considerado foram extraídas da base de dados CL 2. finalmente.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. Joao Eustáquio de Lima. mandioca e cana-de-açúcar são provenientes da razão entre a quantidade colhida (t) e a área plantada (ha). que coletou os respectivos dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA).0 10’ do Climate Research Unit (CRU) da University of East Anglia. Durante as estimações. cedidos com exclusividade pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). realizou a coleta desses dados por meio do anuário Produção Agrícola Municipal (PAM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Variáveis e Fontes de dados Os dados utilizados neste trabalho foram provenientes da reunião de diferentes levantamentos estatísticos em nível municipal.

o mais adequado foi recorrer a técnicas de estatística multivariada. a análise fatorial por componentes principais. buscou-se sintetizar essas informações em um índice agronômico (IA) que. o teste de esfericidade de Bartlet e a estatística KMO . em especial. 2000 e 2001. em conjunto. 1996.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. disponibilidade de água e demais características edafoclimáticas.Kaiser-Meyer-Olkin (Mingoti. Joao Eustáquio de Lima. Salienta-se que foram feitos testes a fim de verificar a adequabilidade da técnica de análise fatorial para os dados. Além disso. Dênis Antônio Cunha. a partir de relatórios da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) definiram-se os anos de registros de secas prolongadas. 2013 ECONOMIA BAIANA • 157 . ou. são responsáveis pela produtividade apresentada por eles em cada cultura agrícola cultivada. Segundo eles os anos de estiagem prolongada foram: 1973/74. em linhas gerais. todas as estimativas foram geradas para os dados registrados entre os anos de 1970 a 2002. altitude. 4 Para os resultados da Análise Fatorial e da elaboração do Índice Agronômico (IA) vide apêndice. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. 1982/83. José Gustavo Féres Índice Agronômico Existem inúmeras variáveis que correspondem às características agronômicas dos municípios nordestinos que. 1983/84. teve por objetivo resumir essas variáveis de acordo com suas características de correlação. 1992/93. Com essa finalidade. Dentre elas destacam-se aquelas que recaíam sobre o tipo de solo. 1997. 2005)4. Sobre o período da análise. Os demais anos desses 32 anos de análise são considerados anos de normalidade. Ao invés de incluir todas essas variáveis nas estimações da equação 1. 1998. 1999. A partir dessa técnica foi possível obter um índice ponderado que correspondesse a todas as 17 variáveis agronômicas. A análise é restrita até 2002 devido à disponibilidade de dados climáticos para os anos seguintes. anos que não houveram registros de períodos prolongados de seca.

Os municípios cujos dados foram levados em consideração por esta análise pertencem a 9 estados da federação. julho e agosto. todos eles do Estado da Bahia. a temperatura média se eleva e a precipitação média se reduz. apresentaram. Alagoinhas. na região Nordeste esse regime médio anual é cerca de 20% menor. a dimensão é dada por 1297 municípios em 22 anos. os níveis de precipitação da região nordeste são comparativamente menores que a média nacional. até mesmo em anos de neutralidade. da mandioca e da cana-de-açúcar. Nos meses de junho. Joao Eustáquio de Lima. em anos de secas.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. 2013 ECONOMIA BAIANA • 158 . nos anos de neutralidade. tanto em anos de seca quanto em anos de neutralidade. Aiquara. enquanto. Inicialmente. os menores níveis de precipitação anual. através de uma análise descritiva dos dados. utilizaram-se painéis de dados compostos por 1297 municípios da região Nordeste e em 32 anos compreendidos no período de 1970-2002. RESULTADOS Para examinar a ligação entre fatores climáticos e a produtividade agrícola. um estudo da amostra revelou que os municípios de Anagé. José Gustavo Féres 4. em períodos de seca e neutralidade. Alcobaça e Água Fria. Fonte: dados da pesquisa. Detalhadamente. em anos de registros de secas. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. observa-se que na região Nordeste. esses municípios apresentaram menos de 8% do regime anual de chuva do país. Na tabela 1. Figura 1 – Gráfico dos níveis médios de temperatura e precipitação. estão dispostas regressões estimadas referentes às culturas do milho. Em anos de registro de seca. Dênis Antônio Cunha. Enquanto em todo o país a média de precipitação municipal encontra-se em torno de 130 mm anuais. Destaca-se também que. esses painéis apresentam dimensões de 1297 municípios em 10 anos. Os modelos estimados neste trabalho foram dedicados a entender a relação entre a produtividade agrícola municipal da Região Nordeste e os níveis históricos de temperatura e precipitação observados.

359*** (0.0286) 0. Também se verificou que.062) Neutralidade Mandioca Cana 0.4824) 0.000003) 0.000186) 0.312** (0.5613** (0.0005) -0.259*** (0.238) 0.4209** (0. respectivamente.05) -1.00017 0. explicam a produtividade agrícola.054* (0.0002*** (0.00003) 0.06*** (0.00001 (0.0511) -0. como o processo de modernização agrícola.0154*** (0.673*** (0.000023) 0.5866) 0.8311*** 0.2454 (0.023) 10.0094** (0.0876) 117.0113) -0.037 (0.27) 0. Nota: ***.0005) -0.202*** (1.00028) -0.1269) 0.0037) -0.077 6.0255) 0.334*** (0.00169** (0.0119 -0.0013) 0.2021*** (0.0133 (0.032*** (0. os níveis de precipitação e temperatura foram estatisticamente significativos para explicar a produtividade das três culturas estudadas. em conformidade com os resultados expostos na tabela 1.000001) 0.000008) -0.0026) 0.273) 1.0002*** (0.2201*** (1.0010 (0.000145** (0. as variáveis quadráticas foram estatisticamente significativas.509) 0.026*** (0.02886) 0.372) 1.234*** (1.0014** (0.2647** 0.0009*** (0.861 (6.0691 (0.9227*** (0.0002 (0.0004* (0.001919) 0.0004*** (0.00012 (0.0067) 0.. em suma.934) 0. acabaram captando os efeitos do progresso tecnológico agrícola nos últimos anos.015* (0.013 (0.0014 (0.0004) -0.000214*** (0.0009 -0.00014*** (0.019*** (0.0001) -0.012) -1.321) Fonte: dados da pesquisa.3195) 0.012*** (0.1154) 1.052) Dummy_2000 0.0034 (0.8144) 0.004) 0.1945*** (0.0000 (0.0011*** (0.8226 (1. constatou-se que todas elas foram significativas e que.0002*** (0. De modo geral.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo.865) 0.7343*** (0.1734) 0.00001) 0. Dênis Antônio Cunha.0154 (0.0007*** (0.000007) 0.051 (7.086*** (0.34) 0.00242) 0.0211) -0. revelando uma possível nãolinearidade entre as variáveis.9413* (2.0189*** (0. 2013 ECONOMIA BAIANA • 159 .631) -0. José Gustavo Féres Tabela 1 – Regressões estimadas para os níveis de produtividade das culturas de milho.00005 (0.00003 (0. Esse resultado converge com aqueles encontrados por Féres et al.00001 (0.0001*** (0.0069** (0.36* (80. mas que.0006) 0.0382 (0.000012) 0.00002) -0.0095 (0.100) -0.187* (8.000198** (0.0223) 10.0162 (0.000003) 0.0008*** (0.831** (1.0286) -0.0085) 0.027*** (0.00015 (0.0000 (0.0003) 0.0041** (0.00098) -0.42) -0.0674) 0.0008) 0.016) -0. encontram-se os erros-padrão relacionados aos coeficientes estimados.002) -0.888 (3.0109) 0.049) Dummy_1980 0.004 (0. Joao Eustáquio de Lima.098) 0.0004) -0.000001 (0.0009) -0.07981 (0.389) 0.00001) 0.00008) -0. definitivamente.86*** (8.4779*** (0.002769** (0. mandioca e cana-de-açúcar para a região Nordeste.0459 (0.341) 0.00344) -0.0004 (0. 5 e 10%.0929) -8.051*** (0.2106) 0.0064*** (0.0155 (0.00001) -0.0123* (0.0759) -0. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET.01683) -0.189) 0.00006** (0.0000 (0.1456) -3.008*** (0.0201*** (0.4388 (0.004*** (0.8765*** (0.000056) -0.0001) -15.211 -0.0174*** (0.0086) -0.1760) 1.0021) -0.000276) -0.012) 0.2023) -0.0141*** (0. 2010.1332) -0.0567 (0.0002) 0.5543) 0.0629** (0.0119** (0.00006 (0. As dummies temporais incorporadas nos modelas tinham como função traduzir a evolução de características que não foram observadas no tempo. Nesta tentativa.0061) 193.0015*** (0.00156*** (0.01904) -0.0016*** (0.349 (0.0003 (0. em sua maioria.001*** (0.0031 (0.0945*** (0.0003) -0.037*** (0.0057** (0.0032) -0.0161) 0.039) Dummy_1990 0.057) -1.210*** (0.01325*** (0.0130) -0.1252) 0.00009** (0.0069 (0.0026) 0.777*** (0.0903*** (0.184) -3.0000 (0.0000187) 0.1508 (0.01032) 0.4691*** (0.211 (0.00008) -0.0001) 0.00003 (0.975) -0.123) 0.9211) 0. Em parêntesis.00001* (0.1 (178.460*** (1.001268) 0.893 (18.1080) 6.0708 (0.010) -0.4801*** (2.0023) 0.00154) -0.047) Precipitação_verão Precipitação_verão^2 Precipitação_outono Precipitação_outono^2 Precipitação_inverno Precipitação_inverno^2 Precipitação_primavera Precipitação_primavera^2 Temperatura_verão Temperatura_verão^2 Temperatura_outono Temperatura_outono^2 Temperatura_inverno Temperatura_inverno^2 Temperatura_primavera Temperatura_primavera^2 Índice Agronômico Constante Secas Mandioca Cana Milho 0.0001) -0.000096) -2.342*** (0.0082* (0.058* (0.541) -0.1334 0.0654) 0.1050) -0.** e * indicam significância estatística aos níveis de 1.0549) 0.000007) 0.0006 (0.0034) 0.0015) -0.193) -10. Nordeste Milho Dummy_1970 0.000001) -0.

uma vez que todos eles demonstram os efeitos que os condicionantes climáticos exercem sobre a produtividade agrícola. Nesse contexto.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. Para este cômputo. No caso dos cultivos da mandioca e do milho. Joao Eustáquio de Lima. 2013 ECONOMIA BAIANA • 160 . em anos de seca. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. todos eles revelam os ganhos incrementais de produtividade agrícola devido ao aumento de 1 mm de precipitação ou 1º C nas temperaturas sazonais. Numa segunda etapa. em anos que houve registros de secas. em anos de seca. Na tabela 2. nos Estados e também nos municípios. os níveis de precipitação tendem a influenciar com menos intensidade os níveis de produtividade de culturas como o milho. multiplicados pelas temperaturas e precipitações amostradas em cada município nordestino. as elevações nos níveis de temperatura e precipitação implicaram em aumentos nos níveis de produtividade. Sobre a magnitude dos coeficientes. nota-se que. de acordo com os coeficientes estimados. nos períodos de primavera e verão. o estudo buscou estimar os efeitos marginais que as variações nos níveis de precipitação. encontram-se os resultados encontrados. finalmente. portanto. Esses valores foram agregados em médias para os 30 anos analisados e revelam as perdas de produção por hectare colhido na região. causam sobre o desempenho das culturas agrícolas estudadas. os períodos de safra e entressafra destas culturas. Ainda. José Gustavo Féres É possível também discutir os sinais dos coeficientes estimados. Dênis Antônio Cunha. observa-se que. configurando. verificou-se que. foram extraídas as diferenças entre os coeficientes das regressões relativos aos anos de seca e de neutralidade e. a mandioca e a cana-de-açúcar tem seus níveis de produtividade menos influenciados pelas variáveis climáticas.

Dênis Antônio Cunha. Toda a agricultura da região nordeste parece ser bastante afetada nos anos de seca.911 -1.5 Rio Grande Norte 147 20. as culturas de cana e mandioca tiveram sua produtividade reduzidas numa média de 2% e1%.23 21.05 -17.84 -36.3 Piauí 80 0. José Gustavo Féres Tabela 2 – Variação média da produtividade das culturas de cana-de-açúcar.32 9.17 1.36 -0.92 1.7 Pernambuco 163 0.39 0.35 0.39 2. Na média dos anos em que houve registros de secas.5 Rio Grande Norte 147 2.16 21.41 0.26 Maranhão 113 0.31 0.73 21.62 2.3 Nordeste 1297 0.94 21. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET.4 Sergipe 74 21.29 -2. Cana-de-açúcar Região/Estados Municípios Secas Neutralidade Var.0 Bahia 327 22.58 1.3 Sergipe 74 0.1 Maranhão 113 1.03 21.1 Piauí 80 19. Produtividade Média (%) Nordeste 1297 20.89 1.1 Bahia 327 1. De acordo com os resultados da Tabela 2 para os anos de secas.17 20.9 Ceara 138 20.83 1.5 Pernambuco 163 2.87 21.60 21.843 -14. seja pelos coeficientes estimados na tabela 1 ou nas perdas somadas na tabela 2.52 2.01 -30.0 Bahia 327 0.58 -29.38 0.32 -2. Joao Eustáquio de Lima.07 -6.8 Milho Fonte: dados da pesquisa.02 1. mas as culturas da mandioca e da cana-de-açúcar são bastante tolerantes a esses períodos.28 -0.20 21.29 Ceara 138 0.05 1.86 10.49 -17.45 21. mandioca e milho para os estados da região Nordeste.85 -1.97 2.7 Ceara 138 2.4 Pernambuco 163 22.47 -4.4 Sergipe 74 1. o milho foi a cultura mais susceptível a baixos índices de precipitação.47 1.3 Alagoas 87 0.2 Paraíba 168 1. Por outro lado.47 2.6 Paraíba 168 21.31 4.54 -40. cana-de-açúcar e mandioca sofreram perdas médias de produtividade. 2013 ECONOMIA BAIANA • 161 .3 Alagoas 87 22.84 25.60 -20.14 Paraíba 168 0.41 0. respectivamente.50 21. verificou-se que grande parte dos estados produtores de milho.32 0.41 0.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo.19 Rio Grande Norte 147 0.53 -28.1 Mandioca Nordeste 1297 1.49 3.29 0.82 5.48 0.44 -0.8 Piauí 80 2.5 Alagoas 87 1.42 -7.67 -38.2 Maranhão 113 17.

verificou-se que. referente a intensidade destas perdas. isto é. as produtividades médias dos municípios produtores tendem a serem reduzidas. Referente a esses efeitos e junto da redução da disponibilidade hídrica. revelam que essas perdas são potencializadas nos anos de El Niño. os municípios dos Estados da Paraíba e da Bahia foram os mais prejudicados. as perdas de produtividade de todos os municípios produtores de cana.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. Esses resultados referem-se às perdas obtidas por esses municípios ao longo de 30 anos. José Gustavo Féres No caso do cultivo do milho. Outros resultados. o maior produtor de milho e mandioca da região Nordeste. possam chegar por ocorrência do El Niño a 60%. a maioria dos municípios nordestinos tem a segurança alimentar comprometida. Fonte: dados da pesquisa. e. Dentre eles. Dênis Antônio Cunha. segundo os efeitos das secas. apresentou um elevado número de municípios que tiveram suas atividades agrícolas prejudicadas e que. da ordem de 40% na Bahia. (2012). milho e mandioca da região Nordeste. as perdas registradas na Bahia são preocupantes. A região Nordeste é onde historicamente registraram-se as maiores perdas agrícolas e pecuárias relacionadas às secas severas. ao lado de cada mapa estão dispostas as respectivas legendas. ou seja. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. como aqueles encontrados por Cirino et al. 2013 ECONOMIA BAIANA • 162 . conforme dados do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS. 2012). Resultados como esse sugerem que as perdas do Milho. cerca de 40% é a redução da produtividade. mandioca e milho nos municípios da região Nordeste do Brasil. Os mapas da figura 1 ilustram. prejuízos agrícolas são constatados em municípios de quase todos os estados. A Bahia. em vermelho. anos que as secas são mais intensas. Figura 1 – Mapas da variação de produtividade (t/ha) das culturas de cana-de-acucar. Joao Eustáquio de Lima. uma vez que a mandioca e o milho são bastante produzidos por agricultores familiares. Neste estudo. Como ilustrado nos mapas da Figura 1. em anos de ocorrência de secas.

a Bahia apresentou ganhos significativos de produtividade na média desses anos. alguns municípios tiveram suas áreas preenchidas com a cor azul. Quando analisados os mapas da Figura 1. em conformidade com a Figura 3. da mandioca e do milho. Baseado num estudo específico da amostra. na qual 27 milhões de pessoas estão ligadas ao cultivo dessa cultura. 2013 ECONOMIA BAIANA • 163 . As perdas relacionadas a esses municípios podem chegar a 15% e 16% da produtividade média nas culturas da mandioca e da cana-de-açúcar. certamente. permite um desempeno agrícola favorável. O contrário é notado nos anos de neutralidade. Aspectos geográficos também foram observados nesta pesquisa. praticamente todos os municípios nordestinos apresentaram aumentos nos níveis de precipitação. Dênis Antônio Cunha. foi suficiente para elevar os níveis de produtividade de todas as culturas estudas nesta pesquisa. em 2011. todo o cultivo pode ser comprometido. eles poderiam apresentar níveis ainda mais elevados. alguns desses anos são coincidentes com a formação de La Nina no Oceano Pacífico. pois. e. conforme Cirino et al. Esse relativo aumento das precipitações. esse desempenho de produtividade municipal não pode ser entendido como ganho. mesmo em que em anos de seca esses municípios tenham variações positivas de produtividade. (2012). são mais intensivas nas regiões litorâneas da porção Norte dessa região. O cultivo da mandioca é bastante difundido por toda a região. o que. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. inviabiliza o cultivo do milho. Anos que foram registrados a ocorrência desse fenômeno marcam a chegada das frentes frias a região Nordeste. que. 2012). de acordo como IBGE (2012). Todo o cerrado nordestino apresenta uma drástica redução nos níveis médios de produtividade. são áreas de desenvolvimento da agricultura de sequeiro. Em termos regionais. José Gustavo Féres muito além de perdas nos níveis de produtividade. Outro efeito importante das estiagens refere-se à redução na produtividade dos gêneros como milho e mandioca. sinaliza reduções na renda do produtor agrícola familiar ou na sua subsistência. foi verificado que os municípios mais produtivos nessas lavouras eram aqueles situados no Oeste e Norte da Bahia (cerrado nordestino). em certo grau. e no caso do milho. normalmente garantem níveis de precipitação acima da média. em sua maioria conduzida pelas secas. No entanto. 23% e 37% para as culturas da cana. tiveram suas lavouras totalmente comprometidas. ainda que comparado a média nacional fossem índices pluviométricos baixos. em anos de La Niña e sem registro de secas. sem registro desse fenômeno. De acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola – LSPA (IBGE. respectivamente. Joao Eustáquio de Lima.7%. Essa maior possibilidade de chuvas. mas de forma bastante heterogêneas espacialmente. foram eles os mais prejudicados. afinal a mandioca é matéria prima de diversos produtos alimentares. indicando variações positivas nos níveis de produtividade. apresentando aumentos de 14%. neste estudo foi verificado que. que são essenciais na produção de subsistência de pequenos produtores rurais. o que. quando efetiva nas fases em que as culturas mais necessitam de água. afinal os resultados revelaram que estas culturas teriam sido pouco afetadas em anos de seca. a produção de milho baiana sofreu perdas de 12. e por isso apresentou perdas significativas. O cultivo da cana concentrou perdas nas regiões de caatinga. As perdas não se concentram apenas no cerrado. de fato. elas passam pelo semi-árido e. Neste estudo. no caso da cana-de-açúcar. Isto.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. quando marcados nas estações corretas. Além disso.

isto é. transposição de rios. toda a produtividade da agricultura é vulnerável aos condicionantes climáticos. não são dispensados esforços emergenciais e de convivência com a seca. Nessa perspectiva. No entanto. um plano adequado de gerenciamento dos recursos hídricos deve ser traçado. Além disso. De um modo geral. principalmente. Em anos de ocorrência de secas. construção de barragens de médio porte e assistência técnica aos produtores. as perdas de desempenho agrícola foram constatadas e são preocupantes. Joao Eustáquio de Lima. José Gustavo Féres 5. Em contrapartida. Além dessas ações. em alguns municípios a variação média da produtividade ainda foi positiva. em perenização de rios e poços artesianos. garante a promoção de divisas externas na comercialização de commodities e ainda garante a disponibilidade e a oferta de alimentos. Nesse sentido. Ainda que bastante afetadas. junto das atividades pecuárias. ampliação da área irrigada. confere a economia brasileira quase um terço de toda a produção interna.EFEITOS DA SECA SOBRE A PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO NORDESTE Paulo Henrique Cirino Araújo. o presente estudo buscou averiguar os efeitos causados pelas secas na produtividade agrícola da região Nordeste do Brasil. ou. 2013 ECONOMIA BAIANA • 164 . notou-se que a produção de mandioca. os fenômenos ligados as baixas precipitações. CONCLUSÃO O desempenho favorável da atividade agrícola. A grande maioria dos resultados encontrados neste estudo está ligada ao comprometimento da segurança alimentar de produtores familiares e também a redução de renda. Dênis Antônio Cunha. deve-se investir. tendo como metas principais a definição de um mercado de água e. as lavouras de milho sofrem perdas heterogêneas em toda a região Nordeste. IX ENCONTRO DE ECONOMIA BAIANA – SET. Garantir o abastecimento de água para o produtor rural e a estocagem de alimentos são duas ações fundamentais. Os formuladores de política pública precisam desenvolver medidas de longo prazo e não apenas ações emergenciais. concentrando-se principalmente no cerrado baiano e em quase toda a caatinga. o cultivo da mandioca e também da cana mostraram-se bastante tolerantes aos períodos de secas. cana e milho é bastante reduzida.

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