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JORGE DE FIGUEIREDO DIAS

NUNO BRANDÃO

Sujeitos Processuais Penais:
O Tribunal

Texto de apoio ao estudo da unidade
curricular de Direito e Processo Penal do
Mestrado Forense da Faculdade de
Direito da Universidade de Coimbra
(2015/2016)

Coimbra
2015

Este estudo toma por base o 1.º Capítulo (O Tribunal) da Parte II (Os Sujeitos
Processuais) da obra Direito Processual Penal publicada pelo primeiro subscritor em
1974, procedendo-se à sua revisão e atualização.
O texto encontra-se disponível em https://apps.uc.pt/mypage/faculty/nbrandao/pt/003.

Coimbra, Novembro de 2015

Jorge de Figueiredo Dias
Nuno Brandão

.

.................................. 50 VI..... Conexão de processos e competência por conexão ...................................................................................................... A garantia da imparcialidade .................................................................................... 7 § 2......... O princípio do “juiz natural” ................... Função e características do juiz penal .................. 12 I...................................................................... 48 V....................................................................................... 65 Bibliografia .................................................................................................................................................................................................................. 38 IV.......................................................... 67 ......................................... Competência territorial ............................................ 14 III................................................. 32 II.. 12 II... Competência funcional . 63 VIII.......................................................5 ÍNDICE Abreviaturas . 32 I.................................................................................. Suspeições ........................................................................................................................................................................................ A competência penal e as suas espécies .... 55 VII............. Conflitos de competência .. A competência do tribunal em matéria penal ........................................................... Verificação da incompetência .......... Competência material ..................................................................................................... Impedimentos............... 6 § 1................ 35 III.................................................................................. A tutela da imparcialidade: impedimentos e suspeições . 26 § 3.....................

stj. Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça CRP – Constituição da República Portuguesa CP – Código Penal CPP – Código de Processo Penal CRP – Constituição da República Portuguesa DAR – Diário da Assembleia da República DL – Decreto-Lei DR – Diário da República GA – Goltdammer’s Archiv für Strafrecht GG – Grundgesetz (Lei Constitucional da República Federal da Alemanha) LOSJ – Lei da Organização do Sistema Judiciário NJW – Neue Juristische Wochenschrift RIDP – Revue Internationale de Droit Pénal RSC – Revue de Science Criminelle et de Droit Pénal Comparé RLJ – Revista de Legislação e Jurisprudência RPCC – Revista Portuguesa de Ciência Criminal StPO – Strafprozeβordnung (Código de Processo Penal alemão) SASTJ – Sumários dos Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça (www.6 ABREVIATURAS AcsTC – Acórdãos do Tribunal Constitucional BMJ – Boletim do Ministério da Justiça BVerfGE – Entscheidungen des Bundesverfassungsgerichts CEDH – Convenção Europeia dos Direitos Humanos CEP – Código da Execução das Penas e das Medidas Privativas da Liberdade CJ – Coletânea de Jurisprudência CJ STJ – Coletânea de Jurisprudência. .pt) STJ – Supremo Tribunal de Justiça TEDH – Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ZStW – Zeitschrift für die gesamte Strafrechtswissenschaft  Pertencem ao CPP os preceitos legais indicados em texto sem menção expressa do diploma a que se referem.

Anabela Miranda RODRIGUES. aí. como representantes da comunidade jurídica e do poder oficial do Estado em que aquela se constitui. FUNÇÃO E CARACTERÍSTICAS DO JUIZ PENAL 1.7 § 1.º-4 da CRP)2. nelas impondo a intervenção do juiz (de instrução) sempre que possam estar diretamente em causa direitos. Sobre os sujeitos processuais no novo Código de Processo Penal. que quaisquer atos praticados pelos juízes no decurso de um processo constituam «jurisprudência». “os tribunais são os órgãos de soberania com competência para administrar a justiça em nome do povo”. porém. nos conceitos como nas instituições. de uma «essência eidética» que traduziria a sua característica mais específica e conatural. De acordo com o n. é claro. porém.º-2 e 202. BVerfGE 22 49. O domínio penal é mesmo o reduto por excelência do “monopólio da primeira palavra” como manifestação da reserva absoluta de jurisdição1. se corporiza em uma decisão jurisprudencial. 32. 2. logo o fundamental Acórdão do Tribunal Constitucional Federal alemão de 06-06-1967. ou de uma sua «natureza» a-histórica e imutável no espaço. e Maria de Fátima MATAMOUROS. .º da Constituição. 27.º-2 da CRP).. O princípio da jurisdicionalidade em matéria penal não se esgota. Juiz das Liberdades 2011 38 ss. Por mais avesso que se seja à procura e descoberta. A jurisprudência constitucional portuguesa e a reserva do juiz nas fases anteriores ao julgamento ou a matriz basicamente acusatória do processo penal. decidirem os casos jurídico-penais que processualmente sejam levados à sua apreciação. 2 Figueiredo DIAS. O resultado do exercício desta função judicial é-nos dado por aquilo a que chamamos o direito judicial e que pode também designar-se (como é vulgar) por jurisprudência. não será fácil negar que logo a própria realidade e as exigências da vida postulam que se 1 Assim. e projeta-se ainda sobre as fases preliminares do processo. 202. aplicando o direito penal substantivo (arts. Não se afirma com isto. liberdades e garantias fundamentais das pessoas (art.º 1 do art. nas fases de julgamento e de recurso. à consecução do fim do processo que. No que toca ao processo penal quer-se por este modo significar serem os tribunais os únicos órgãos competentes para. Jornadas de Direito Processual Penal: o Novo Código de Processo Penal 1988 15 ss. XXV Anos de Jurisprudência Constitucional Portuguesa 2009 47 ss. eles referem-se e dirigem-se todos.. por sua vez.

quando analisada em pormenor nos seus elementos essenciais. tem por força de concluir-se que a independência material (objetiva) dos tribunais – reforçada pela independência pessoal (subjetiva) dos juízes que os formam – é condição irrenunciável de toda a verdadeira jurisprudência (arts. onde se não reconheça (e garanta) a autonomia e independência da função judicial»3.º § 11. V.º e 145. 3 Castanheira NEVES. da função judicial.º da Constituição e 4. Do ponto de vista da Doutrina do Estado.8 pense a independência como a mais irrenunciável característica do «julgar» e. FOSCHINI I 315 ss. implicando aqueles dados o princípio da separação dos poderes. económicas e sociais. . E assim é que. Realidade e exigências da vida – acrescente-se – que só são confirmadas pelos dados jurídico-constitucionais próprios de um Estado-de-direito: por um lado. a independência dos tribunais assume. comporta um significado plural que. vários significados. da afirmação da independência judicial perante a chamada «justiça de gabinete» pode hoje considerar-se praticamente terminada e decididamente ganha no nosso Estado democrático” (Jorge de Figueiredo DIAS. segundo uma conotação já hoje corrente5. 122. Sendo por conseguinte os tribunais no seu conjunto – e cada um dos juízes per se – órgãos de soberania e pertencendo só a eles a função judicial. por outro lado porque. na Carta Constitucional (arts. já velha de séculos.º) e na de 1911 (arts. daí que tal ideia se tenha refletido nas legislações a partir dos movimentos liberais de reforma da 1. XIX. não poderia este realizar-se praticamente sem se encontrar assegurada a independência de um de tais poderes. A «pretensão» a um juiz independente como expressão do relacionamento democrático entre o cidadão e a justiça. porque deste não poderá falar-se. 57. 5 Cf. 120. como sugerimos. portanto. RLJ 105 19721973 181. não avulta apenas no plano estritamente jurídico mas possui – e de maneira fundamental – as mais sérias implicações e incidências políticas.º.º da LOSJ). HENKEL2 § 26 I 2 e G. O instituto dos «assentos» e a função jurídica dos Supremos Tribunais. também Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 II 203. o princípio se plasmou na Constituição de 1822 (art.º). a raiz teorética da ideia da independência judicial deve buscar-se. Sub Judice 14 1999 27. p. de resto. «e a própria Ideia de Direito se verá subvertida.º 4 “A luta.º). entre nós. 121. Tomada no seu sentido mais compreensivo. na doutrina da separação dos poderes. 176. na Constituição de 1838 (art. 203. 127. A independência dos tribunais.º). e diretamente.º e 60.º.ª metade do séc. visando sobretudo impedir as ingerências do Executivo e do Monarca na administração da Justiça («Kabinettsjustiz») que eram de regra nos tempos do absolutismo4. ex. de MONTESQUIEU.

Assembleia da República e Governo). nas suas decisões. porventura. Cf.). da «separação dos poderes»: aos tribunais há-de ser concedida. Fora deste específico domínio das relações de hierarquia funcional que dentro de um concreto e determinado processo se 6 7 Rui MEDEIROS / Maria João FERNANDES. c) Independência perante outros tribunais. a chamada independência externa6. o significado diretamente político da independência. para que de tal influência possa por forma conveniente defender-se a magistratura judicial. Francisco Sá CARNEIRO. através do qual lhes seja concedida autonomia no campo social e económico. do Governo ou da Administração7. grupos de interesses e de pressão. em qualquer Estado-de-direito. 4. de preservar. à decisão a encontrar para um caso concreto. etc. diretas ou indiretas. antes importa criar todo um conjunto de condições de independência subjetiva aos próprios juízes.º-1 da LOSJ). Os tribunais e juízes são entre si independentes no sentido de que se não encontram ligados. que vimos resultar do princípio-base. b) Independência perante quaisquer grupos da vida pública (partidos políticos. órgãos de comunicação social. plena liberdade que os ponha a coberto de quaisquer influências e pressões. do Parlamento. Sobretudo nas democracias parlamentares. Constituição Portuguesa Anotada III 203. por força da evolução sofrida pelo próprio Estado perante a sociedade das últimas décadas. primacialmente. por quaisquer correntes ou orientações jurisprudenciais que não «perfilhem». A Proposta de Lei sobre Organização Judiciária 1973 11. a influência de tais grupos no exercício da função judicial revela-se certamente muito mais perigosa do que a dos poderes do Estado e da própria burocracia judicial. não basta que lhe seja juridicamente assegurada a independência. ressalvado o “o dever de acatamento das decisões proferidas em via de recurso por tribunais superiores” (art. lobbies. naturalmente. . pois. mais difícil se tornou.º/IV. Trata-se aqui do significado da independência judicial que. organizações não governamentais.9 a) Independência perante os restantes poderes do Estado (ou perante os restantes órgãos de soberania: Presidente da República. Até porque. Aqui avulta. Encontra-se. em tudo quanto respeita à função judicial e portanto.

nas ordens jurídicas do tipo da nossa não se consideram vinculantes as decisões jurisprudenciais anteriores sobre casos análogos. mas a todos os critérios objetivos de juridicidade que devam representar-se como válidos para a solução de um concreto problema jurídico. 10 Rui MEDEIROS / Maria João FERNANDES. que englobe “as normas e princípios da ordem jurídico-constitucional”11. onde a magistratura se encontra estritamente vinculada ao princípio do «precedente».º-3)9. Liber Discipulorum para Jorge de Figueiredo Dias 2003 1289 ss. Assim. aceitável à luz do postulado constitucional da independência judicial a imposição dirigida pelo STJ aos demais tribunais no Ac. 11 Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 II 203. Ao contrário do que sucede nos direitos de inspiração inglesa. entendida em um sentido lato. Constituição Portuguesa Anotada III 203.º/II. determina o art. por isso. Compreender o dever judicial de obediência à lei e ao direito como um simples limite 8 Não se mostra. “a decisão que resolver o conflito não constitui jurisprudência obrigatória para os tribunais judiciais”. em todo o caso. entre nós dominante10. além disso. de obediência à lei. 9 Nuno BRANDÃO.º/IV.º da Constituição que “os tribunais apenas estão sujeitos à lei”. Na explicitação do princípio da independência judicial. devendo estes. fundamentar as divergências relativas a jurisprudência fixada anteriormente pelo STJ quando decidam não a seguir (art. Como correlato necessário do princípio da independência judicial surge-nos o dever. está vedada aos tribunais superiores a faculdade de ditarem aos tribunais inferiores ordens ou instruções em matéria de interpretação ou aplicação do direito8. que os tribunais devem obediência não apenas ao direito positivado na lei. seja qual for o tribunal que as tenha proferido – porventura por se ter considerado o sistema do precedente como obstáculo à evolução e progresso da administração da justiça e à «função criadora» do direito do caso que vimos pertencer-lhe.10 estabelecem entre os tribunais de diferentes graus. 3. Contrastes jurisprudenciais: problemas e respostas processuais penais. . Assim. a lei só tem força obrigatória para o juiz se e enquanto puder representar-se e aceitar-se como direito. sendo certo. 445. que sobre o juiz impende. mesmo naqueles casos de contradição de julgados em que o STJ é chamado a tomar uma posição “uniformizadora” em sede de recurso para fixação de jurisprudência. 203. 2/2013 (DR-I de 08-01-2013).

equivocado. . 12 Figueiredo DIAS. devendo antes a vinculação à lei ser concebida como um seu autêntico elemento originário e constitutivo12.11 externo à independência judicial seria. porém. Sub Judice 14 29.

por esta via reforçando a confiança da 13 Desenvolvidamente e com amplas referências doutrinais e jurisprudenciais nacionais e estrangeiras. ao lado e para além daquela segurança geral. o juiz ter conseguido ou não manter a imparcialidade.1. desprendida e descomprometida em relação ao objeto da causa e a todos os demais sujeitos processuais. na verdade. A exigência de imparcialidade implica. porém. podem levar a pôr em dúvida a capacidade de um juiz para se revelar imparcial no exercício da sua função. através da característica da independência dos juízes. mas em virtude de especiais relações que os liguem a um caso concreto que devam julgar. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 88 ss. e o que aqui interessa. A garantia da imparcialidade Acabamos de ver como. Isto não basta. mas vai muito mais longe. bem como por quem não esteja em condições ou se possa objetivamente temer que não esteja em condições de as desempenhar de forma totalmente desinteressada. neutral e isenta. a final.12 § 2. . 14 CHIAVARIO3 IV/19. para que fique do mesmo passo preservada a objetividade de uma decisão judicial: é ainda necessário. se asseguram os fundamentos de uma atuação livre dos tribunais perante pressões que se lhes dirijam do exterior. O princípio da imparcialidade do juiz repudia o exercício de funções judiciais no processo por quem tenha ou se possa objetivamente recear que tenha uma ideia pré-concebida sobre a responsabilidade penal do arguido. não é tanto o facto de. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual no Processo Penal Português 2005 66 ss. e Mouraz LOPES. perante um caso concreto. desde logo. mas sim defendê-lo da suspeita de a não ter conservado. as razões que. que o juiz não seja parte no conflito ou tenha nele um interesse pessoal em virtude de uma ligação a alguma das “partes” nele envolvidas (nemo iudex in causa sua)14. convém acentuar. não permitir que se ponha em dúvida a «imparcialidade» dos juízes. já não em face de pressões exteriores. José Mouraz LOPES. Como de todos os lados se acentua. não dar azo a qualquer dúvida. São várias. A TUTELA DA IMPARCIALIDADE: IMPEDIMENTOS E SUSPEIÇÕES I. postulando uma intervenção judicial equidistante. a estrita e absoluta objetividade do juiz na realização da justiça no caso é condição irrenunciável para que ela possa constituir-se como expressão da ideia de Estado de direito. sendo para tal fundamental garantir a sua imparcialidade13.

17 Figueiredo DIAS / Maria João ANTUNES. 20 Marques da SILVA. Do Processo Penal Preliminar 1987 416. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 78 s.. 114/95. ser dispensado como juiz num processo em que. por todos. Cavaleiro de FERREIRA I 234.. emergindo aí a imparcialidade como uma exigência irredutível. ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 8/1. do TC 219/89.º-5 da CRP19 e da independência dos tribunais reconhecida pelo art. invocando uma velha máxima inglesa. essas distintas. mas incindíveis projeções do princípio do Estado de direito comungam de um mesmo desígnio de uma realização da justiça pautada pela máxima objetividade e isenção e capaz de se impor aos seus destinatários diretos e à comunidade em geral sem quaisquer sombras de desconfiança. O estatuto constitucional reconhecido à garantia de imparcialidade tem sido entre nós objeto de sucessivas e acesas controvérsias. 18 Cf. 357/99. La notion européenne de tribunal indépendant et impartial. 528/97. 129/2007. 147/2011 e 444/2012. ora por ir além21 daquilo que é exigido constitucionalmente. e Marques da SILVA / Henrique SALINAS.: “o judex suspectus deve. 16 Lord Hewart. e na doutrina alemã. 19 Figueiredo DIAS. Sussex Justices (ex parte McCarthy) 1924. os Acs. 935/96. MANZINI II 199 s. 237. e a numerosa jurisprudência do STJ recenseada por Henriques GASPAR. CPP Comentado 133 ss. há um largo consenso doutrinal17 e jurisprudencial18 no sentido de uma compreensão da garantia de imparcialidade como dimensão essencial da estrutura acusatória do processo penal constitucionalmente imposta pelo art. e Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 I 522.. 32. Constituição Portuguesa Anotada I2 731 s.º da CRP. pois tanto em relação à ideia do acusatório e do princípio da acusação que lhe é imanente como em relação à independência judicial. Os princípios estruturantes do processo e a revisão de 1998 do Código de Processo Penal. tendo em conta a força média de resistência às causas internas que possam influir danosamente sobre o julgamento. BMJ 291 1979 167 ss. seja razoavelmente de presumir que possa estar sujeito a paixões ou preocupações contrárias à reta administração da justiça”. em especial em torno da possibilidade de participação num dado processo de um juiz que nele já teve intervenção numa fase processual anterior. 29/99. e 148 ss. . it must also be seen to be done”16. La protection des droits de l'homme dans la procedure penale portugaise. em vista de um qualquer motivo sério. Mouraz LOPES. Por isso se usa sublinhar. 203. 21 Jorge de Figueiredo DIAS. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 124 SS. “not only must Justice be done. E é natural que assim seja. também V. in: R v. RPCC 2/1998 207 ss. Mouraz LOPES. Na experiência portuguesa. Une approche à partir du droit portugais de procédure pénale” RSC 4/1990 737 ss. entre nós. O certo é que um entendimento maximalista em determinada época adotado pelo Tribunal 15 Neste sentido. A lei ordinária tem sido censurada doutrinal e jurisprudencialmente ora por ficar aquém20. Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 I 522.13 comunidade nas decisões dos seus magistrados15. Cf.

adequado a gerar desconfiança sobre a sua imparcialidade. por existir motivo. pura e simples. ditam o seu afastamento. Impedimentos 1. nomeadamente.º). do art. 40. Os impedimentos encontram-se especificados nos arts. induziu o legislador ordinário a alargar progressivamente o leque dos impedimentos por participação anterior no processo. outras vezes é apenas concedida aos sujeitos processuais a possibilidade de afastarem a intervenção do juiz. saber se.º) e suspeições (art. como se sabe. 39. nomeadamente a mais recente. no segundo perante suspeições do juiz. Pois. um tal alargamento se mostra equilibrado e defensável de um ponto de vista político-criminal. Direito processual penal – «direito constitucional aplicado». sem mais e necessariamente. 43. No primeiro caso estamos perante impedimentos.14 Constitucional sobre a conformidade constitucional do regime legal 22.º e 40. as quais são portanto declaradas independentemente de qualquer objeção suscitada pelos participantes processuais à atuação do juiz no caso concreto.º do CPP.º com base em três ordens de razões: a relação pessoal do juiz com algum sujeito ou participante 22 Como observa Maria João ANTUNES. grave e sério. além de estruturar o processo penal de acordo com o princípio da máxima acusatoriedade possível. impossibilidade de o juiz intervir em um certo processo penal. em face do conteúdo que adquiriu e das dificuldades acrescidas que coloca à organização do funcionamento dos tribunais.º e 40. fundados em razões de dúvida de diversa ordem sobre a imparcialidade da atuação do juiz e com regimes jurídicos distintos: umas vezes verifica-se a. . Para dar consistência efetiva à garantia de imparcialidade. nomeadamente. à partida não há razão para debater o problema no plano da constitucionalidade. quando haja o risco de esta ser considerada suspeita. II. a jurisprudência posterior do TC. tem-se afastado desta posição maximalista. Questão é. o legislador ordinário estabeleceu um conjunto de impedimentos (arts. o legislador é livre de estabelecer um regime legal mais garantista do que aquele que a Constituição impõe. mediante previsão de circunstâncias que. 39. porém. Que Futuro Para o Direito Processual Penal? 2009 749. Contanto que tal alargamento não vá acompanhado de uma pretensão de atribuição à garantia constitucional de imparcialidade de um conteúdo mais lato do que aquele que efetivamente possui.

por exemplo.º-1. e agora Pinto de ALBUQUERQUE4 39.. 39. no entanto. Parece. conceber o catálogo dos impedimentos consignados no CPP como taxativamente esgotante. o Ac. do que o art. que uma razão tão premente como a da boa administração da justiça penal e um leitura do regime legal conforme com o previsto no art. como aconselha ainda a que se interpretem o mais latamente possível os fundamentos referidos pelo art. o CPP pela regulamentação contida no CPC e que se mostre em concreto aplicável. nesta parte. g.º 1 do art. OSÓRIO II 233.. Não revelará. o ofendido ou pessoa com a faculdade de se constituir assistente26 ou parte civil tenha algum dos seguintes laços ou relações: seja ou tenha sido seu cônjuge. não podendo pois falar-se aqui com propriedade de “lacunas”. Como se verá infra. DPP 317 s. do STJ de 07-07-2010 (in: Henriques GASPAR. Tem-se entendido entre nós que a indicação dos motivos de impedimento é taxativa23.1 Por força do disposto nas alíneas a) e b) do n.º do CPC é mais lato. e Ac. e a necessidade de participar no processo como testemunha.º? Contra a ideia pode logo avançar-se o argumento formal de que o CPP regulou a matéria expressamente. Sousa MENDES. 39. 115. e não pode duvidar-se. tenha ou haja tido uma 23 L. 39. 1. como juiz ou noutra qualidade. na vigência do CPP de 1929. por constituírem eles exceções à regra da competência do juiz. CPP Comentado 39. 39.º/5. a hipótese em que o juiz é o próprio ofendido – que seria chocante. que o art.º-5 da Constituição vivamente aconselham a que se integre.º .º/1.º 1 do art. do TC 135/88. a intervenção anterior no processo. CPP Comentado 152) 24 Cf. Certo é. o juiz que com o arguido. no entanto. Henriques GASPAR. seja em que fase for. o art. 68. de que a necessidade de confiança comunitária nos juízes se faz sentir com muito maior força em processo penal do que em processo civil. e na atualidade. 25 Assim.º.15 processual. 26 A menos que uma das pessoas enunciadas em texto se haja constituído assistente nos termos do art. e não raro inconstitucional24. a mera faculdade de aquisição do estatuto de assistente ao abrigo dessa disposição não vale para efeitos do previsto nas alíneas a) e b) do n. Figueiredo DIAS. julgando inconstitucional uma proibição legal (do CPP de 1929) de declaração de impedimento do juiz em ações penais por virtude de ofensas que lhe tenham sido feitas na sua presença e no exercício das suas funções. designadamente. e). pois.º do CPP. em alguns dos seus comandos. 115. está impedido de intervir no processo. as do art. 32. Lições de DPP 113.º do CPP lacunas que devam ser preenchidas por recurso às normas paralelas do CPC. 39. por outro lado. a regulação processual penal não cobre expressamente variados casos em que o risco de falta de parcialidade é tão gritante – v.º do CPP25.

além do mais. parente até ao 3. Embora o Código o não determine explicitamente. do STJ de 13-02-2013 (1475/11. não obstante o silêncio do Código. é óbvio que. ascendente. o caso em que o juiz haja tido uma prévia participação no processo como Diretor Nacional Adjunto da Polícia Judiciária consubstanciada.º-1.8TAMTS. 1. de 03-10-2012. d). venha mais tarde. de 02-04-2008. seja na mesma fase. do STJ 31-12-2012 (944/07. órgão de polícia criminal29 ou perito. 115.16 relação análoga à dos cônjuges.º/7.º. num primeiro momento. seja.º) no caso em que a uma juíza é confiado um processo em que um seu filho atua como advogado dos assistentes. do CPC. à semelhança do que se prevê no art. ninguém compreenderia e seria motivo para uma profunda desconfiança sobre a realização da justiça no caso que um juiz conhecesse de uma acusação deduzida pelo seu cônjuge ou que num mesmo julgamento pai e filho interviessem como juiz e defensor28. cremos que. ou o seu cônjuge ou equiparado. 29 Diferentemente do que entendeu o STJ parecem-nos configurar situações de impedimento do juiz. 115.P1-A. remetendo a questão exclusivamente para o âmbito do art. seja seu representante legal. in: Henriques GASPAR.º-3). No mesmo sentido. bem como ainda o caso em que o juiz integrou um órgão de polícia criminal. é justificação para que aquele impedimento previsto na lei processual civil seja subsidiariamente estendido ao processo penal. do STJ de 08-01-2015 (6099/13. o que. advogado do assistente. e não de mera suspeição. por si só.2TDPRT. É patente a afinidade destas situações com a do leading case do TEDH Piersack c.º-1. Ac.2 A mobilidade dos juristas entre os vários ofícios do foro pode levar a que alguém que. 43.9TAOAZ-A. defensor.S1). a um defensor ou a um advogado do assistente ou da parte civil que intervenha ou haja intervindo no processo.S1). do ofendido ou de uma parte civil. Encontram-se igualmente impedidos de exercer funções no mesmo processo. e Pinto de ALBUQUERQUE4 39. CPP Comentado 39. . parentes ou afins até ao 3. in: Henriques GASPAR. descendente. o Ac. do CPC27. juízes que sejam entre si cônjuges. a). Contra. Henriques GASPAR.P1-A. Marques da SILVA I7 213. Considerando. Uma vez mais.S1). Bélgica (01-101982). ele próprio. mas uma mera suspeição (art. haja intervindo no processo como representante do Ministério Público. seja em fases distintas.º grau. tutor ou curador.º grau ou que vivam em condições análogas às dos cônjuges (art. se justifica mobilizar o previsto no art. CPP Comentado 150). adotante ou adotado. já na qualidade de juiz 27 Nesta direção. existe impedimento também em relação ao juiz que seja. CPP Comentado 159). 43. e considerar impedido o juiz que esteja na mesma situação em relação a um magistrado do Ministério Público. ele. o Ac. ofendido ou pessoa com a faculdade de se constituir assistente ou parte civil.º/5. tendo aí tomado conhecimento de vários aspetos da investigação e determinado a realização de medidas cujos resultados são postos em crise no âmbito do recurso que lhe cumpre apreciar (Ac. existir não um impedimento. porém. 28 Assim. Na verdade. 39. na transmissão de uma instrução aos respetivos investigadores no sentido de elaborarem um mapa detalhado das investigações até aí realizadas (Ac.

º 1 do art. a aplicação da prisão preventiva. Na base deste regime legal estava a ideia de que tal tipo de prévia participação no processo está longe 30 ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 8/5. tal como se prevê na alínea c) do n. g. que se estende agora por cinco alíneas. haja emitido. e mediante aplicação subsidiária da alínea c) do n.. de um magistrado judicial que. mediante.). como juiz de julgamento ou de recurso. como jurisconsulto. a possibilidade de ser conhecedor de informação sigilosa respeitante a algum deles (v. numa fase processual anterior ou até inclusivamente na mesma fase processual.17 penal. 1. 40. 39. 115. É esse tipo de impedimento por participação prévia no processo que encontramos regulado no art. a constituição de um ofendido como assistente. coberta pelo segredo profissional que obriga o advogado – art.º do CPC. teve já antes participação nesse mesmo processo. em momento processual anterior. g. como juiz. ou no julgamento de um processo a cujo debate instrutório tiver presidido”. parecer jurídico dirigido ao processo sobre questão que depois seja chamado a decidir como juiz da causa. por exemplo.3 Suscitada com mais frequência e foco de considerável litigância na prática judiciária é a questão da intervenção no processo. 87. o art. 40.º do EOA) ou a circunstância de já ter manifestado uma posição sobre a responsabilidade penal do arguido. Na sua versão originária. a dedução de uma acusação pública por si subscrita. será também de considerar-se impedido o juiz que.º 1 do art. A evidente conotação desse juiz com algum desses participantes ou sujeitos processuais diretamente envolvidos no processo.º limitava-se a prescrever que “nenhum juiz pode intervir em recurso ou pedido de revisão relativos a uma decisão que tiver proferido ou em que tiver participado.º Por identidade de razão. são razões mais do que suficientes para que um tal juiz esteja impedido de exercer qualquer função nesse mesmo processo. . etc. fora do seu alcance ficavam as hipóteses em que um juiz recebesse um processo para julgamento depois de nele ter intervindo nas fases do inquérito ou mesmo da instrução e nelas se tivesse limitado à prática de atos jurisdicionais isolados (v..º. À semelhança do que ainda hoje sucede num sistema processual como o alemão30. a autorização de uma busca domiciliária ou de uma escuta telefónica. a receber esse mesmo processo em mãos.

Contra. da inconstitucionalidade do art. no caso de aplicação de uma medida de coação. Dinamarca (24-05-1989) 49. desde o caso Piersack c. Entendimento que. 32 Cf. .. do TC 124/90. de resto. na fase de inquérito.º da CEDH: “este tipo de situação pode dar azo a dúvidas do acusado em relação à imparcialidade do juiz. DPP 1988 101 S.º31. não têm necessariamente de considerar-se como objetivamente justificadas. do TC 219/89. Portugal. que veio a culminar na declaração. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 80 ss. Outra foi. decretou e posteriormente manteve a prisão preventiva do arguido. portanto. deveria levar à recondução do problema não à matéria dos impedimentos.º 935/96. o nosso Tribunal Constitucional estabeleceu como parâmetro constitucional de aferição da garantia de imparcialidade inerente à estrutura acusatória do processo penal o receio 31 Figueiredo DIAS. em linha com a jurisprudência constitucional que à época fazia o seu curso32 e em consonância com a interpretação particularmente exigente do TEDH relativa ao conceito de “tribunal imparcial” constante do art. Bélgica. Acolhendo o método de dupla abordagem subjetiva e objetiva que. com força obrigatória geral. se devidamente enquadrado no âmbito do nosso sistema processual. depende das circunstâncias de cada caso de espécie”33. Mouraz LOPES. Portugal. formulando juízo que não foi posto em causa pelo Ac. Do Processo Penal Preliminar 416.. a posição que o nosso Tribunal Constitucional passou a adotar a partir do Acórdão n. n. pouco mais tarde retomado no referido caso Saraiva de Carvalho c. 32. foi avançado pelo TEDH para avaliar a imparcialidade do tribunal. e que o risco de falta de isenção que aí se pudesse porventura divisar se mostrava já suficientemente acautelado pelo regime das suspeições constante do art. embora compreensíveis. 33 Caso Hauschildt c. e RENUCCI4 301. Marques da SILVA. encontrando-se. Se o devem ser ou não. Theory and Practice of the European Convention on Human Rights4 2006 617 s. e o Ac..º 186/98). mas das suspeições. Pieter van DIJK. 40. s. as quais. 6. 43. Esta compreensão global do problema seria suficiente para dissipar eventuais receios de inconstitucionalidade por desguarnecimento da garantia de imparcialidade própria de uma estrutura acusatória. no entanto. e Figueiredo DIAS / Maria João ANTUNES. por violação do art.18 de ter de implicar um comprometimento com a acusação que necessariamente prejudique a capacidade do juiz para conhecer da causa sem qualquer predisposição acerca da responsabilidade do arguido ou sequer para minar a confiança comunitária sobre a sua capacidade para decidir de forma isenta.º-5 da CRP (Ac. Cf. do TEDH de 22-04-1994 no caso Saraiva de Carvalho c. RSC 4/1990 739 s.º do CPP na parte em que permitia a intervenção no julgamento do juiz que. o Ac.

Figueiredo DIAS. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 111 ss.).41. durante o inquérito ou a instrução. não pode por si só justificar receios quanto à sua imparcialidade” (50. pela sua frequência.º). só tendo concluído por uma violação da garantia do tribunal imparcial inscrita no art. numa aplicação da prisão preventiva e.º. ao estilo de um recurso de amparo.º) ou de prisão preventiva 34 Apesar de o TEDH ter declarado que do seu ponto de vista “o mero facto de um juiz de julgamento ou de um juiz de recurso. de obrigação de permanência na habitação (201. de forma a nele abranger os casos em que. no sentido da inconstitucionalidade do art. Mouraz LOPES. Dinamarca apreciado pelo TEDH34 e de uma desconsideração tanto da função do juiz de instrução na nossa estrutura acusatória. o juiz (de julgamento) tivesse aplicado e posteriormente mantido a prisão preventiva do arguido36. 37 Figueiredo DIAS. Tal levou então a concluir que a imparcialidade para a realização do julgamento ficaria irremediavelmente comprometida naqueles casos em que. foi essa jurisprudência prenhe de particularismos que o TC invocou para se pronunciar. O certo é que esta errónea jurisprudência constitucional começou por implicar uma alteração legal ao art. na sua manutenção. 40. mais tarde complementado pelo art. recurso ou pedido de revisão relativos a processo em que tiver: a) Aplicado medida de coação prevista nos artigos 200. como da tutela concedida à garantia de imparcialidade pelo regime das suspeições35. 36 Art. RPCC 2/1998 207 ss. 200.º a 202..º da Lei 59/98. consubstanciada. ter tomado decisões em momentos anteriores ao julgamento do caso. num sistema como o dinamarquês. primeiro. por sua vez. .º Tendo o juiz aplicado as medidas de coação de proibição e imposição de condutas (art. o juiz tivesse uma intervenção reiterada no processo. tudo sempre no sentido do alargamento da catálogo dos impedimentos por participação em processo. em sede de fiscalização abstraca da constitucionalidade.º da versão originária do CPP! 35 Neste sentido crítico. Conclusão tirada através do estabelecimento de um equivocado paralelismo com o caso Hauschildt c. 40. As perplexidades levantadas por esta bizarra formulação legal37 levaram. 134º da Lei 3/99 – cf. 1.º da CEDH após uma análise das vicissitudes do processo que envolveu o cidadão Hauschildt.19 de que as intervenções do juiz. e Maria João ANTUNES. durante o inquérito. 6. depois. em 2007. Liber Discipulorum para Jorge de Figueiredo Dias 1264 s. O segredo de justiça e o direito de defesa do arguido sujeito a medida de coacção. a nova intervenção legislativa. RPCC 2/1998 206 s. tendo o preceito sido novamente modificado em 2013. agora noutras vertentes. No termo deste sobressaltado percurso legislativo deparamos com cinco distintas circunstâncias que ditam o impedimento do juiz para intervir em julgamento. intensidade ou relevância sejam aptas a razoavelmente permitir que se formule uma dúvida séria sobre a imparcialidade do juiz.

proibindo o arguido de manter qualquer contacto com as testemunhas da acusação arroladas para o julgamento.º (v. Ac. que deu o mote à revisão de 2007 do CPP. é patente a intenção de circunscrever o seu funcionamento aos casos de aplicação de uma daquelas medidas de coação.º da Lei 3/99. e não de aplicação.20 (202.º. recurso ou pedido de revisão. Terá considerado o legislador que um juízo indiciário desta natureza implica para o juiz que as aplica um convencimento positivo de tal modo intenso sobre a existência de indícios da culpabilidade do arguido que deixa ele de poder ser visto como estando plenamente capaz de decidir a causa. 200. do TC 29/99. Pela não inconstitucionalidade desta solução. 200. Entre o «garantismo» e o «securitarismo».º a 202. É ainda incompreensível a ausência de uma delimitação – como a introduzida pelo art. é a exigência legal da verificação de fortes indícios da prática do crime imputado para que possa haver lugar à sua aplicação.. continuamos a confrontar-nos com um quadro teleologicamente contraditório e racionalmente insustentável39. aplica ao arguido uma das medidas de coação previstas pelos arts. Para além de esta premissa de que o legislador arranca nos parecer destituída de sentido. sem uma interpretação restritiva da norma.º a 199. 39 Figueiredo DIAS. fica aberta a porta ao absurdo de considerar impedido o juiz de julgamento que. 196.º) fica necessariamente impedido de conhecer da causa em julgamento. na hipótese de aplicação de uma caução não por inexistência de fortes indícios do crime imputado. mas inexplicavelmente eliminada na revisão de 2007 do CPP – de tal aplicação às fases do inquérito e da instrução. O denominador comum das medidas especificadas pela alínea a) do art. pela primeira vez. ou. .º. de alguma das medidas de coação constantes dos arts. não partilhado pelas demais medidas de coação (arts. a exposição de motivos da Proposta de Lei 109/X. 134. Recordando-se a “história” do preceito. em julgamento ou recurso. e Rui PEREIRA.º a 202. mas porque o juiz concluiu que nenhuma daquelas medidas seria concretamente necessária para responder às exigências de natureza cautelar postas pelo caso. com o que. 40. depois de conhecidas pressões e ameaças por ele 38 Assim. RPCC 2/1998 208 s.º). g. Que Futuro Para o Direito Processual Penal? 2009 251. por exemplo. sem uma predisposição no sentido da condenação. nele não estando portanto abrangidas as hipóteses em que o juiz se haja limitado a manter uma dessas medidas após a sua aplicação por um outro magistrado38. Custa a entender que a ratio legis se considere ausente em caso de manutenção.

CRP4 I 522. por isso. b) Presidido a debate instrutório Por definição.º parece ter pretendido substituir o segmento inicial da versão originária do preceito – “Nenhum juiz pode intervir em recurso ou pedido de revisão relativos a uma decisão que tiver proferido ou em que tiver participado” –. competir-lhe-á proferir despacho de pronúncia ou de não pronúncia do arguido. Compreende-se. 426. o alcance do impedimento. se visava impedir que. 40. Pinto de ALBUQUERQUE4 40. a intervenção em julgamento de um juiz que haja participado em julgamento anterior. por razões óbvias. aí conhecendo do objeto do processo e manifestando a sua posição sobre a probabilidade da condenação do arguido caso seja submetido a julgamento. . em recurso. e propondo assim um funcionamento da alínea a) do art. todavia. através de uma formulação com um significado literal tão lato que se transforma em fonte de 40 Não restringindo.21 exercidas sobre testemunhas do processo já na pendência da audiência de discussão e julgamento)40. através do qual. 40. Mas é agora patente – até pelo paralelismo que pode traçar-se em relação à alínea d) e pelo que se prevê no art. Fá-lo. a exposição de motivos da Proposta de Lei 109/X. nomeadamente.º/4. 41 Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA. porém. um tribunal ad quem integrasse um juiz que houvesse composto o tribunal a quo. c) Participado em julgamento anterior A redação atual da alínea c) do art. da qual se depreende que não pode intervir no recurso o juiz que proferiu a decisão recorrida. com a qual se encerra a fase da instrução. Essa preocupação elementar mantém-se acautelada na versão vigente do preceito. Via de regra. 42 Cf.º na sua literalidade. que a partir daí deixe de poder ser encarado como estando habilitado a intervir em condições de plena neutralidade e isenção nas fases subsequentes do processo. o juiz de instrução que preside ao debate instrutório é aquele que tem a seu cargo a prolação da decisão instrutória.º-A42 – que a alínea c) procura cobrir um espectro mais amplo de participações anteriores no processo. onde se joga diretamente a questão da condenação do arguido41.

porque materialmente injustificado e incompatível com a lógica da sanação dos vícios processuais. concluindo não existir inconstitucionalidade na possibilidade de o juiz que tenha participado em acórdão que conheceu do mérito do recurso. no caso Thomann c. Ac. em caso de anulação da sentença por vício de fundamentação. um tribunal superior determine o reenvio do processo à 1. com fundamento em vício processual relativo à audiência ou à sentença. ou de nulidade do julgamento em virtude de insuficiência para a decisão da matéria de facto provada45 ou de omissão de diligências essenciais para a descoberta da verdade. parece-nos que deve ela ser interpretada restritivamente no sentido de apenas levar ao impedimento do juiz de 1.C1) 45 Contra. para que seja dado cumprimento ao previsto no art.22 inarredáveis dúvidas e dificuldades. não ficar impedido de intervir na audiência destinada a julgar o mérito desse recurso. em algumas dessas situações parece-nos impensável. g. ter conhecido do 43 Pinto de ALBUQUERQUE4 40. em sentença. na pendência de uma audiência de julgamento. v. do TC 147/2011. em recurso. etc. Casos haverá em que a intervenção anterior do juiz não é sequer idónea a suscitar dúvidas sobre a sua capacidade para decidir de forma isenta no novo julgamento (v. tem sucedido. que impõe um conhecimento do mérito da causa43)... considerar impedido(s) o(s) juiz(es) que integrou(aram) o tribunal recorrido (v. propiciando o aparecimento de posições jurisprudenciais totalmente desencontradas. que impliquem uma específica produção de prova em 1. e RENUCCI4 302. Suíça (10-06-1996) – para mais referências.º-1. Como também será de admitir que um juiz possa ser confrontado com a contingência de voltar a intervir no julgamento de uma causa em que inclusivamente já tomou posição expressa sobre o objeto do processo.. Henriques GASPAR. numa compreensão teleológica da norma que atenda à ratio de salvaguarda da imparcialidade47 que lhe deve estar subjacente e a compatibilize com a necessidade de garantir a harmonia dos atos do processo entre si correlacionados. 44 . g.. Deste modo. o juiz declara prescrito o procedimento criminal.ª instância que depois de. E todavia. 358. A reedição de um julgamento pode ser fruto de um sem número de vicissitudes. do TRP de 26-11-2008 (0845184). mas declarado nulo por inobservância de regra processual. por omissão de pronúncia. sem surpresa.ª instância. do TC 167/2007.º/4. 47 Lapidar.44.7TACBR-B. Será assim sempre que. vindo essa sua decisão a ser posteriormente revogada pela Relação. o Ac. GUINCHARD / BUISSON4 418. como. ainda.º/13. g.ª instância46. do TRC de 04-12-2013 (878/07. o TEDH. e Ac. 46 Ac. Nesta linha. CPP Comentado 40. com subsequente elaboração de nova sentença).

o Ac. Não divisando qualquer inconstitucionalidade nesta interpretação.º). Pela sua afinidade com a regulação das alíneas a) e c).º e ss. aos casos em que um juiz tenha intervindo num recurso de revisão anterior (art. d) Proferido ou participado em decisão de recurso anterior que tenha conhecido.7GCPRG. voltam a suscitar-se aqui as perplexidades e as dificuldades a que estas dão azo. que sempre contará com a tutela oferecida pelo regime das suspeições (art. apesar de crítico do regime legal. 200. tenha este recurso incidido i) sobre o mérito do decidido. Nada que. por exemplo. deixe desprotegida a garantia de imparcialidade. na 1. 43..ª ou na 2. com amplas menções à jurisprudência francesa e do TEDH. já antes o Ac. ii) sobre a decisão instrutória ou iii) sobre a aplicação de uma das medidas de coação previstas nos arts.P1): “Deve ser feita pelo mesmo tribunal a repetição do julgamento ordenada na sequência da verificação de nulidade decorrente da deficiente documentação da prova oral produzida em audiência”. do objeto do processo. do TC 399/2003. Pinto de ALBUQUERQUE4 40. mutatis mutandis.º do CPP. muito mais adequado à abordagem casuística que este específico domínio aconselha49. de decisão instrutória ou de decisão a que se refere a alínea a).º/12. . em recurso. porém. começaram por confirmar a condenação proferida pela 1.23 mérito da causa seja confrontado com um cenário de repetição integral da audiência de discussão e julgamento48. a final. questão relativa a um processo com que já teve contacto em recurso anterior. ou proferido ou participado em decisão de pedido de revisão anterior À semelhança do que se prevê na alínea c). quanto ao objeto da causa. esta alínea d) começa por dirigir-se àquelas situações em que um juiz de um tribunal superior deva decidir. em todo o caso.ª instância e depois se vêem de novo confrontados com a causa. a final. 49 GUINCHARD / BUISSON4 418. não há razão para que devam considerar-se impedidos os juízes da Relação que. uma abordagem restritiva paralela àquela que preconizámos para tais alíneas. Assim. em segundo lugar. aliás. Repudiando.º a 202. 48 Ainda mais restritivo. 50 Ac. 449.0JABRG).ª instância. Dirige-se ainda.). do TRP de 09-05-2013 (125/09. uma abordagem restritiva. conhecendo do objeto do processo. do STJ de 27-06-2012 (127/10. devendo quanto a esta alínea d) adotar-se. na sequência de anulação do seu acórdão pelo STJ com fundamento em omissão de pronúncia ou de vício de fundamentação50.

282. 52 Pedro Soares de ALBERGARIA. c)).º1). também Pinto de ALBUQUERQUE4 40. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 162 ss. Embora o arquivamento em caso de dispensa de pena e a suspensão provisória do processo possam ser decretados também na fase da instrução (arts. 395. a suspensão provisória ou a forma sumaríssima por discordar da sanção proposta Introduzida na revisão de 2007 do CPP.º-4. depois. 396. Estamos a pensar. 281. atenta a natureza da decisão judicial que aí deve ser tomada51 – de que qualquer uma daquelas três intervenções implica por si só uma desconfiança tal sobre a capacidade do juiz respetivo para julgar a causa de modo imparcial que se justifica afastá-lo das fases do julgamento e do recurso que possam seguir-se. sendo depois esta revogada e o processo remetido para julgamento nos termos do art. Não que entendamos que nestas 51 Numa linha crítica. no fim do inquérito.º estabelece o impedimento do juiz em três hipóteses que podem colocar-se no encerramento do inquérito e que reclamam uma intervenção judicial.24 e) Recusado o arquivamento em caso de dispensa de pena.º-1. porém. 280. ou em que.º-2 e 307. Mouraz LOPES. em processo sumaríssimo. 280. RPCC 4/2008 503. nem sempre fundado. cujo impedimento decorre já diretamente da alínea b). com reenvio dos autos para outra forma processual (art. mediante aplicação da sanção proposta pelo Ministério Público (art. oposição do arguido. A alínea e) tem assim em vista intervenções prévias do juiz no âmbito da fase do inquérito. nomeadamente.º/17. especificamente daquelas que se traduzam i) na recusa do arquivamento em caso de dispensa de pena (art. ficam por perceber as razões que terão levado o legislador a não englobar no impedimento situações afins porventura mais suscetíveis de gerar um tal temor do que as previstas legalmente. Mas se assim for. e em direção contrária. respetivamente).º-1) ou iii) na recusa da forma sumaríssima do processo por discordância em relação à sanção proposta pelo Ministério Público (art. havendo. esta última alínea do art.º-1). 40. a sua eventual aplicação terá aí lugar na decisão instrutória. em especial quando em causa esteja o arquivamento em caso de dispensa de pena e a suspensão provisória do processo. pelo juiz que presidiu ao debate instrutório.º-1)52. o juiz dá o seu acordo à condenação. . 398. É de supor que o legislador de 2007 foi motivado pelo receio – a nosso ver. ii) na recusa da suspensão provisória do processo (art. nos casos em que. o juiz dá a sua concordância à suspensão provisória do processo. Os processos especiais na revisão de 2007 do Código de Processo Penal.º-1.

Acordos sobre a sentença penal: problemas e vias de solução. porém. Aí pugnando. poderiam usar do expediente da indicação como testemunha de um juiz indesejado para assim conseguir o seu afastamento do processo. quanto ao processo sumaríssimo. se tem conhecimento de factos que possam influir na decisão da causa – em caso afirmativo. em termos.º-1. por despacho nos autos (art. Os impedimentos devem ser. Com o impedimento. na ausência de um mecanismo de salvaguarda. de um impedimento particularmente vulnerável a instrumentalizações pelos vários sujeitos processuais. sob compromisso de honra.º-1 e 128.º-1).º1). Em princípio. pela inconstitucionalidade. deve o Ministério Público requerer a sua declaração. 1. 39. verifica-se o impedimento. em caso negativo deixa de ser testemunha. O que repudiamos é a falta de lógica interna da solução adotada pelo legislador. do TC 444/2012. o Ac.º 2 do art. por demais discutíveis quanto à natureza da decisão judicial de aceitação ou rejeição do requerimento para condenação em processo sumaríssimo (Nuno BRANDÃO. à finalidade de descoberta da verdade material. 2. no entanto. que. assim ficando imediatamente em risco a garantia de imparcialidade. já que sem o afastamento do juiz poderia frustrar-se a produção de prova (sc. Quando o não sejam. por despacho nos autos. declara. Pinto de ALBUQUERQUE4 40. oficiosamente declarados pelo juiz (iudex inhabilis).º/18. prevê o n. está impedido o juiz que nele tenha sido ouvido como testemunha ou deva vir a sê-lo (art.4 Independentemente da fase em que o processo se encontre..25 hipóteses exista sempre necessariamente uma suspeição de tal modo forte que se justifique a sua previsão como impedimento53. Trata-se. dá-se ainda satisfação. o depoimento testemunhal do juiz) com relevo para um cabal esclarecimento da causa. A fim de obstar a tal manobra fraudulenta. de forma mediata.º que se o juiz tiver sido oferecido como testemunha. .). d)). 39. o que pode comprometer irremediavelmente a sua capacidade para conhecer da causa sem um juízo prévio sobre o sentido da decisão a tomar. tal acontece quando o próprio juiz possui conhecimento direto de factos que constituam objeto da prova a realizar no processo (arts. a todo o tempo e logo que conhecidos. podendo 53 Assim também. 124. não obstante. Julgar 25 2015 177 s. 41.

declarando-se voluntariamente suspeito. II). é-lhe. pelo arguido.) para sustentar a imposição de um prazo perentório de 10 dias para a apresentação do requerimento de declaração do impedimento pelo arguido.º-1.º-3). na esteira daquele A. como ainda também. de harmonia com as leis de organização judiciária. 42. 43. 5/05. 54 A letra do n. o qual tem efeito suspensivo do processo. podendo no entanto praticar-se os atos urgentes cuja demora possa trazer prejuízo irreparável (art. são nulos os atos por aquele praticados. pelo instituto das suspeições.º/1) e jurisprudência (Ac. pelo assistente ou pelas partes civis (art.º-1.5TELSB. 42. Não estando o juiz autorizado a recusar-se a si próprio. do STJ de 28-09-2011. para assim ser dispensado de intervir no processo – uma suspeição que a lei qualifica como escusa (art. 46. 43. Sendo o impedimento reconhecido. Não o sendo. logo pelo juiz impedido ou em recurso. não se compreende a imposição de tal constrangimento temporal. mesmo oficiosamente. pode ser interposto recurso para o tribunal imediatamente superior (art. oficiosamente ou a requerimento. é irrecorrível o despacho que o declarar (art. 41. conferida a possibilidade de suscitar perante outro tribunal a suspeição que admite que possa recair sobre si. em qualquer estado deste54. Suspeições 1. deva substituí-lo (art. que podem assumir a natureza de recusa ou de escusa (arts. 43. Pois se ele realmente se verifica.º-3).º). bastará ao juiz visado não o reconhecer.º-4).º). o assistente e as partes civis logo que sejam admitidos a intervir no processo. salvo se não puderem ser repetidos utilmente e se se verificar que deles não resulta prejuízo para a justiça da decisão do processo (art.º – em especial o seu segmento “logo que” – e o receio da utilização desleal e dilatória da figura dos impedimentos vêm sendo indevidamente invocados por alguma doutrina (Pinto de ALBUQUERQUE4 42. I)55. A proteção da garantia de imparcialidade do juiz é assegurada não apenas pela categoria dos impedimentos. 55 Diversamente. assistente ou partes civis. complementarmente. devendo o processo ser imediatamente remetido ao juiz que. 42.26 também requerê-la o arguido. contado desde o momento da sua admissão à intervenção no processo ou do conhecimento do facto determinante do impedimento. A recusa é uma suspeição oposta à intervenção do juiz pelo Ministério Público. Estando em causa circunstância em princípio tão comprometedora da imparcialidade do juiz que justifica a sua qualificação legal como impedimento. e caso não se verifique. pode e deve ser a todo o tempo declarado pelo próprio juiz impedido. Vindo o impedimento a ser afirmado. não obstante. 41.º/1. .º a 45.º-3). Pinto de ALBUQUERQUE4 42. III.º 2 do art.

6. necessário demonstrar uma sua efetiva falta de isenção e imparcialidade. Para que a suspeição se atualize num afastamento do juiz. o modelo do § 24 do CPP alemão.. atentas as particulares circunstâncias do caso. de um critério em parte convergente com a abordagem mista subjetiva-objetiva que. desde o caso Piersack c. A Tutela da Imparcialidade Endoprocessual 85 ss. g. 57 Por muitos outros. Figueiredo DIAS. um receio objetivo de que. sendo suficiente. com a generalidade da jurisprudência e doutrina alemãs57. o juiz possa ser alvo de uma desconfiança fundada quanto às suas condições para atuar de forma imparcial. 341) e de 13-03-1997 (NJW 1998 550). sob 56 Criticando o método da especificação de concretas circunstâncias constitutivas de suspeição constante do CPP de 1929 e defendendo a adoção de uma solução de cláusula geral como a que foi instituída pelo Código de 1987. os Acs. vista a questão sob a perspetiva do cidadão comum. não é. que a imparcialidade deve começar por ser avaliada sob um prisma subjetivo e depois. Pinto de ALBUQUERQUE4 43. do BGH de 11-10-1967 (BGHSt 21. DPP 1974 319. mas direcionada à concreta atuação do juiz e/ou aos condicionalismos que a rodeiam.º. com efeito. ainda que nada haja a apontar ao comportamento do juiz. 334. assim. sério e grave. por existir motivo. assim.º: “a intervenção de um juiz no processo pode ser recusada quando correr o risco de ser considerada suspeita. adequado a gerar desconfiança sobre a sua imparcialidade”. CPP Comentado 125 ss. num método que tem feito curso doutrinal58 e jurisprudencial entre nós. um critério que. portanto. v.º1 adota uma formulação de tal modo genérica – “qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada (…) por um tribunal (…) imparcial (…) – que acaba por significar a passagem de um cheque em branco ao TEDH para concretizar o conteúdo da garantia de um tribunal imparcial. Bélgica. Trata-se. 58 Mouraz LOPES. e ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 8/1. Entende o TEDH. indo portanto mais longe do que a CEDH. cujo art. Deparamos. . e Henriques GASPAR. com uma solução eminentemente objetiva. o TEDH vem seguindo para testar o cumprimento da garantia de imparcialidade nos casos de espécie levados ao seu conhecimento.27 Na densificação do que deva considerar-se uma suspeição determinante de afastamento do juiz do processo deve atender-se à cláusula geral56 enunciada no n.º 1 do art. desta forma. 43. A cláusula geral de suspeição revela que a preocupação central que anima o regime legal é prevenir o perigo de a intervenção do juiz ser encarada com desconfiança e suspeita pela comunidade.. Consagra-se. O legislador português seguiu. pode qualificar-se como “critério individualobjetivo” de suspeição.

sem mais. com razão. a jurisprudência nacional tem. adotado um crivo particularmente exigente e apertado. 61 Henriques GASPAR. A existência de uma amizade entre o juiz e o arguido ou o assistente é. CPP Comentado 43. importa ainda. nos arestos dos casos De Cubber c. ..1TABRG-A. todavia.). através de elementos concretos. a) Muito frequente é a suscitação da recusa e sobretudo da escusa com fundamento no relacionamento do juiz com outros sujeitos ou participantes processuais ou seus familiares. do STJ de 15-11-2012 (947/12. não é qualquer dúvida que possa eventualmente ser oposta em relação às condições do juiz para exercer a sua função de modo isento e imparcial que.) – implica que é ao arguido que cumpre demonstrar. Ainda que o juiz não tenha um relação de amizade com um sujeito processual. v. Bélgica (30. Já o mesmo não sucederá. Dinamarca (48. 05-07-2007 (07P2565). 62 Acs. averiguar se há “alguma razão legítima que faça temer uma falta de imparcialidade”60. Dinamarca (47. g. ss. do STJ de 18-01-2007 (07P163).7TDLSB. a falta de imparcialidade pessoal do juiz.5YFLSB).) e Hauschildt c.G1-B.) e depois reiterada. via de regra.28 uma ótica objetiva. considerada razão adequada a gerar desconfiança sobre a sua isenção62. Numa análise casuística da nossa experiência jurisprudencial nesta matéria é possível identificar várias constelações de suspeições que recorrentemente são submetidas à apreciação dos nossos tribunais superiores. em todo o caso. deve tratar-se de uma suspeição fundada em motivo sério e grave. 63 Ac. devendo a sua imparcialidade pessoal ser presumida até prova em contrário 59..º/2. 43.º. como é evidente. 60 Piersack c. Bélgica (25. Bélgica (30. Na interpretação e aplicação da cláusula geral de suspeição. do STJ de 23-09-2009 (532/09. Cf. deve ditar o seu afastamento. além do mais. o Ac.º 1 do art. deve averiguar-se se o juiz tem algo contra o arguido ou expressa uma predisposição no sentido da sua condenação (“personal bias”). Ainda que não haja motivo para censurar o juiz quanto à sua imparcialidade. se com ele manteve contactos a propósito do processo e lhe 59 Esta presunção – afirmada pelo TEDH logo no caso Piersack c. naqueles casos em que o interveniente é um familiar próximo de um amigo do juiz63.). que.S1). Como prevê o n. seguido e desenvolvido em Hauschildt c.S1). Estando em causa o princípio do juiz natural e a eficiência do funcionamento do sistema processual penal. 07-05-2008 (08P1526) e 29-04-2015 (4914/12. atende à “quebra simbólica na confiança que decorre da dúvida sobre a consistência do valor”61 da imparcialidade. Na primeira vertente.

do TRL de 30-05-2001 (0096383).º pode constituir fundamento para a afirmação da suspeição (art. em geral. um campo onde se impõe uma particular cautela na avaliação das atitudes e comportamentos do próprio juiz na contenda67. A intervenção do juiz em fases anteriores do processo que não seja motivo para implicar o seu impedimento nos termos do art. o Ac. do TC 64/2010. Certo é que um comportamento unilateral hostil ou de desrespeito de algum sujeito para com o juiz não é justificação para afirmar a suspeição deste.º-2). Vd. A questão colocar-se-á com maior acuidade naqueles casos em que 64 Acs. que a simples discordância jurídica.5YFLSB) e ainda o Ac. embora num processo não penal. de um sujeito processual em relação a atos ou decisões do juiz não é idónea a determinar a suspeição deste69. Ponto é que se tenha tratado de uma atuação que possa gerar uma dúvida ponderosa e objetivamente fundada sobre a capacidade do juiz para decidir de modo isento ou sem uma pré-compreensão sobre a imputação que é dirigida ao arguido.6GAAMT). 40. do STJ de 20-10-2010 (140/10.S1). sendo este. 69 Acs. do STJ de 07-04-2010 (1257/09. do STJ de 13-06-2001 (3914/01) e de 27-07-2006 (06P2554) e ainda. do TC 227/97 e Ac. em declarações que sobre ele produza ou ainda em processos que com aquele guardem algum tipo de conexão. do TRP de 17-03-2010 (2/07.L1-A. como comportamentos merecedores de censura que o juiz tenha para com algum dos sujeitos processuais. Situações de inimizade ou de litigiosidade que envolvam o juiz e um advogado65 do processo ou algum outro sujeito processual também não serão. 68 Ac.5YFLSB). b) A suspeição pode assentar em atos praticados pelo juiz no processo que lhe está confiado. em todo o caso. 43.S1).8PAALM-A. suficiente para que não permaneça nesse processo64. É seguro. do STJ de 15-09-2010 (133/10. 65 . Ac. do STJ de 15-09-2010 (133/10.8YFLSB) e de 05-12-2012 (1454/12. 67 Cf.L1-A. em princípio. em todo o caso.TDLSB. do STJ de 28-06-2006 (06P1937). ainda o Ac. novamente o Ac. motivo para implicar o afastamento daquele66.29 prestou aconselhamento isso será. mesmo que reiterada. Podem reconduzir-se a suspeições desta ordem tanto intervenções judiciais objetivamente insuscetíveis de qualquer reparo. já que se assim não fosse a participação do juiz no processo acabaria sempre por ficar nas mãos dos demais sujeitos processuais68. 66 Ac.

74 Acs. o Ac. do TRE de 20-122011 (0712825). no decurso de uma tomada de declarações em julgamento.0PELRA).P1). e ainda por força do n. do TRG de 20-03-2006 (458/06-2). VI. do TRP de 23-05-2007 (0712825).º 2 do art. do TRE de 06-03-2012 (17/12. pelo seu concreto conteúdo.9TAVNG-A. em cumprimento do seu poder-dever de investigação do feito submetido à sua apreciação (art. g. uma dúvida séria sobre a existência de uma predisposição sobre o sentido da decisão que deverá proferir no encerramento da fase processual em que intervém. do TRL de 30-03-2006 (1941/2006-9) e 07-07-2009 (2110/03. o Ac. 24. 340. 75 Ac. em especial se se tratar de processos que admitiriam o estabelecimento de uma conexão processual (cf.º1)73.2YEVR). de 09-07-2008 (0843611). 43.º-1).. Isto que vale para situações em que a competência seja deferida a um juiz que teve uma participação em fase anterior do processo. vale no essencial também. da contenção e sobriedade que deve colocar nessas observações. 73 Cf. que tenha tido por objeto a mesma factualidade72 ou uma factualidade diretamente relacionada com a do seu (novo) processo. de 15-12-2010 (1130/09.P1) e de 23-02-2011 (5136/10. art. do TRC de 16-01-2008 (18/06. para aqueles casos em o juiz interveio noutro processo. o juiz verbaliza dúvidas sobre a congruência ou a fidedignidade do relato que é apresentado pelo depoente 75. Por uma consideração restritiva destes casos. uma falsidade de testemunho) ocorridos num processo dirigido pelo juiz em questão74. De tal não se poderá falar se o juiz.30 possa recear-se que determinadas decisões tomadas pelo juiz numa fase anterior do processo revelem. . naturalmente.. sem prejuízo. Também não haverá motivo para suspeição se. Poderá ser este ainda o caso de o novo processo respeitar a factos (v. sendo também admissível na instrução. mas negando a recusa no caso submetido à sua apreciação.7TAVNG-A. 70 Admitindo esta possibilidade. infra. 72 Acs. penal ou não71.3TALSB-5). § 3. A conduta do juiz no decurso dos atos processuais que conduz pode gerar suspeição se revelar uma perda da equidistância que deve caracterizar o exercício da função judicial. relativamente a um juiz de instrução que receba o processo nessa fase processual depois de ter atuado como juiz de instrução no inquérito70. Uma ponderação que não tem de cingir-se às fases do julgamento e do recurso. 71 Ac. toma a iniciativa de promover diligências probatórias que aparentem ser vantajosas para os interesses de algum dos sujeitos processuais.º.

45. o juiz vai mais longe e dá antecipadamente mostras de uma inclinação para decidir o pleito em determinado sentido tal será justificação para considerar comprometida a sua imparcialidade76.º-5). Lei 21/85). privilegiando-o ou prejudicando-o em relação aos demais. é ouvido o juiz visado (44. Tratando-se de uma recusa.º-1). mas igualmente quando suceda à margem do processo. Suspeição que poderá ser afirmada não apenas quando tal ocorra no âmbito de um ato processual. A demonstração de que na direção dos atos processuais o juiz concede um tratamento injustificada e arbitrariamente diferenciado a um sujeito processual. 76 77 Para vários exemplos. 44. No caso de ser declarada a suspeição.º. 46. perante o tribunal imediatamente superior àquele que é integrado pelo juiz em causa ou perante a secção criminal do STJ. pronunciando-se publicamente sobre o caso num órgão de comunicação social77. 12. Letónia (28-11-2002) 117 ss.31 Se.º-6). O requerimento de recusa e o pedido de escusa devem ser apresentados. no entanto. o juiz recusado ou escusado remete de imediato o processo ao juiz que deva substituí-lo (art. sendo tal decisão irrecorrível (44. do TEDH Buscemi c.º/14 e ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 8/8. implica também a sua suspeição. por exemplo.º-3) e deve o incidente ser decidido no prazo máximo de 30 dias sobre a sua apresentação (44. . dentro dos prazos definidos no art. tratando-se de juiz a ele pertencente (art.º). Itália (16-09-1999) 68 e Lavents c. e sem prejuízo da concomitante existência de infração ao dever de reserva (art. Acs.º do Estatuto dos Magistrados Judiciais. 2. Pinto de ALBUQUERQUE4 43.

a França. O princípio da legalidade em matéria penal não vincula apenas à legalidade incriminatória e sancionatória (sem recurso à analogia) e à anterioridade da lei. Figueiredo DIAS / Nuno BRANDÃO. do TC 614/2003. A COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL EM MATÉRIA PENAL I.. desde a Magna Carta de 1215 à Petition of Rights de 1628. logo em 1790 incluía de forma inequívoca. RPCC 4/2010 634 ss. mas alcança toda a chamada “matéria penal”. O que por ele se pretende fundamentalmente proibir é. A tanto vincula a necessária garantia dos direitos da pessoa. em suma. ou seja. com a concordância do TC (Ac. e pelos EUA com as primeiras Cartas Constitucionais de 1776. com inteira razão. também as normas aplicáveis à fixação concreta de um facto definido como criminoso e à determinação da sanção cominada.. saída da Revolução. Figueiredo DIAS. do processo para aplicação de uma pena78. através do qual se procura sancionar. Princípio que encontra expressão no art. O princípio do “juiz natural” 1.. Daí que desde há muito se tenha considerado. 324/2013.º-9 da CRP: “Nenhuma causa pode ser subtraída ao tribunal cuja competência esteja fixada em lei anterior”80. de novo. e Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 I 525. logo Figueiredo Dias. 81 Aspetos salientados pelo Ac. Retomando uma experiência já feita pela Inglaterra. como puro corolário daquela exigência de legalidade a afirmação do princípio do “juiz natural” ou do “juiz legal”79. à exigência de julgamentos independentes e imparciais e à confiança da comunidade naquela administração81.32 § 3. ligada à ordenação da administração da justiça. 80 Cf. na lei da nova organização judiciária. Sobre o princípio jurídico-constitucional do «juiz-natural». assim. a criação post factum de um juiz para uma determinada causa. DPP 94 ss. o direito fundamental dos cidadãos a que uma causa seja julgada por um tribunal previsto como competente mediante aplicação de critérios objetivos legalmente determinados e não ad hoc criado ou tido como competente. RLJ 111 1978 83 ss. portanto. de forma expressa. 4. abrange também a legalidade da “repressão penal” e. a segunda no alemão. . ou a possibilidade de se determinar de forma arbitrária ou discricionária o juiz competente. 79 A primeira designação é a corrente nos direitos francês e italiano. o direito fundamental do cidadão a ser julgado por juízes que oferecessem as mais sólidas garantias: “A ordem 78 Assim. e agora. Irrecorribilidade para o STJ: redução teleológica permitida ou analogia proibida?.). 32.

83 Era o seguinte o seu texto: “A lei é igual para todos. na tradição jurídico-constitucional portuguesa do princípio da legalidade. 10. e consequentemente determina o § 11.. surge de novo a plena luz no art. 2.º: “Ninguém pode ser subtraído aos seus juízes naturais. 25.º em que consagra o princípio da legalidade. 145.. da Constituição de 1822 se devia compreender. e o coloca portanto entre os direitos fundamentais do cidadão. Por seu lado a atual Constituição italiana. Na Sardenha.33 constitucional das jurisdições – dizia a lei – não poderá ser subvertida nem os imputados poderão ser subtraídos aos seus juízes naturais.. 18.º-1: “Não pode ser instituída uma jurisdição de exceção. a Constituição de 1848. 1 e 56. art. Figueiredo DIAS. antes de mais. Esta disposição não compreende as causas que pela sua natureza pertencerem a juízes particulares. E se a expressão do princípio se amortece no art. por isso. como referimos.º-9). Ele aparece porém. art.”82.ª parte. Ninguém deve ser subtraído ao seu juiz legal”.º que “será mantida a independência do Poder Judicial. pelas leis de organização judiciária”. como sugerindo o princípio do juiz natural 83.º. do TC 614/2003 11. por virtude de lei anterior e na forma por ela prescrita”. A ideia do “juiz natural” esteve igualmente presente. estipula o art. Nenhuma Autoridade poderá avocar as causas pendentes. por virtude de lei anterior e na forma por ela prescrita”. como também ainda eventuais regulamentos. . na verdade. Idêntica norma se encontra na lei fundamental da Alemanha Federal.º que “a competência material e funcional dos tribunais em matéria penal é regulada pelas disposições deste Código e.º. do princípio do juiz legal abrange não só as regras legais propriamente ditas com relevo para a determinação da competência. na conformidade das leis”. o princípio do juiz natural não aparecia inscrito na Constituição de 1933. emanados pelo próprio sistema judiciário de que a mesma esteja dependente. V. a Carta de 1830. cap. onde estatui o art. Não poderão. ser criados tribunais ou comissões extraordinárias”. depois a Constituição de 1791.º dispõe que “ninguém será sentenciado senão pela Autoridade competente. Logo o art. 84 Cujo texto rezava: “Ninguém será julgado senão pela autoridade competente.º da Carta de 1826: o § 10. Desde então o princípio aparece quase sempre incluído nas Constituições próprias dos Estados de Direito. só a lei pode instituir o juiz e fixar-lhe a competência. 32. no art. subsidiariamente. com toda a clareza. 4. etc. que. DPP 325 ss. deste modo concedendo autónomo e direto relevo ao princípio do juiz natural. Esta dimensão. regimentos. com efeito. 71. prevê que “nenhuma causa pode ser subtraída ao tribunal cuja competência esteja fixada em lei anterior” (art. O princípio do juiz natural impõe. nem punido senão por lei anterior”. sustá-las ou fazer reviver os processos findos”. A tradição foi retomada com a atual Constituição. dita positiva86. logo o Statuto de Carlos Alberto (1848) afirmava no seu art. prescreve: “Ninguém poderá ser afastado do juiz natural pré constituído por lei”. Não se devem portanto tolerar privilégios do foro nas causas… crimes.º da Constituição de 183884. No plano da fonte. 86 Ac. arts. Todas essas 82 Cf. 85 Cf. 3. 4. durante mais de 100 anos. 52. art.º.º-21 da Constituição de 1911: “Ninguém será sentenciado senão pela Autoridade competente. que a definição do juiz competente resulte da lei. numa quebra da nossa tradição de todo em todo injustificável 85. 2. a Constituição de 1852. Neste sentido. no mesmo art. 9. complementares. 101. em concretização do princípio. Inexplicavelmente.

Uma ideia que poderia ainda ser sugerida pelo teor literal do art. com quebra das regras gerais de competência.34 prescrições devem possuir natureza geral e abstrata. em função do disposto no art. jurisdições ad hoc criadas para decidir um caso concreto ou um determinado grupo de casos. VOLK / ENGLÄNDER8 § 5 3. e Henriques GASPAR. é a existência de um critério objetivo e suficientemente determinado de deferição (concreta) de competência. um conjunto de proibições de variada ordem. Devendo a competência ser definida de modo geral e abstrato. pela generalidade da doutrina alemã. CPP Comentado 10.. 90 Integrando também o art.). tradicionalmente. 209. Estando o princípio do juiz natural diretamente ligado ao princípio da legalidade criminal. numa dimensão negativa. Não deve ser esta. assim afastando a possibilidade de fixação arbitrária ou discricionária da competência do juiz de julgamento pelo Ministério Público. Marques da SILVA / Henrique SALINAS. a proibição da existência de tribunais com competência exclusiva para o julgamento de certas categorias de crimes90.º-4 da CRP na compreensão do princípio do juiz legal. 16. importa ainda precisar o seu alcance temporal e os juízes penais a que se dirige. de modo a evitar a manipulação da fixação da competência relativamente a certos casos ou pessoas. bem como a proibição terminante do desaforamento de qualquer causa criminal e da sua suspensão discricionária por qualquer autoridade. a proibição de jurisdições de exceção. do TC 614/2003 (9. Em sentido oposto. em observância da proibição de retroatividade inerente ao nullum crimen sine lege.º-4 da CRP. e ainda inclusive. Assim. questão é saber quando o deve ser.º/3.3). 3. que põe o art. na parte em que faz referência à fixação da competência por “lei anterior”.º-2 da GG (“Tribunais para matérias especiais só podem ser estabelecidos mediante previsão legal”). poderia porventura pensar-se que o ponto de referência temporal deveria ser. 209. porém. 91 Nesta conclusão. isto é. a jurisprudência constitucional alemã citada pelo Ac. Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA I4 525. fundadas essencialmente na proscrição da arbitrariedade ou mesmo da discricionariedade no ato de fixação da competência89. Um receio que. o momento da prática do facto91. 3. 88 . era sentido sobretudo em relação ao poder executivo87.º-9 da CRP. Constituição Portuguesa Anotada I2 738. 89 Como veremos infra (III. Designadamente. Dilucidado o sentido material do princípio do juiz legal. 32. 101. segundo o art. mas que é hoje acompanhado por preocupações voltadas para o interior do próprio poder judiciário88. a amplitude temporal a 87 Figueiredo DIAS. A esta vinculação a uma ordem taxativa de competência legalmente determinada encontra-se associada.º-3 a salvo de inconstitucionalidade por violação do princípio do juiz natural. RLJ 111 1976 83 s.

º/12. A competência penal e as suas espécies 1. 94 Figueiredo DIAS. Constituição Portuguesa Anotada I2 739. ainda os Acs. obstando apenas a tal. Essa 92 Nestes exatos termos.. cujo conhecimento detalhado pertence não tanto propriamente ao direito processual penal. Destinatários do princípio do juiz natural são todos os juízes penais. Marques da SILVA / Henrique SALINAS. nos Acs. cairiam por terra quaisquer pretensões de reforma da organização judiciária. valem por inteiro nas fases preliminares do inquérito e da instrução.) e 482/2014 (32. atenta a sua imediata relevância para a esfera dos direitos de liberdade das pessoas atingidas. 393/89 e 614/2003. quanto ao direito judiciário.º-9 da CRP possa abrir a porta a um entendimento restritivo que circunscreva o funcionamento do princípio às fases do julgamento e do recurso94. g. as razões que justificam a sua existência. Figueiredo DIAS. maxime a necessidade de garantir a independência e a isenção do juiz e a confiança da comunidade na realização da justiça penal.). RLJ 111 1976 86. do TC 614/2003 (12. ou por qualquer outra forma discriminatória que lese ou ponha em perigo o direito dos cidadãos a uma justiça penal independente e imparcial 92. Dissemos que o princípio do “juiz natural” visa. Do que nele se trata. mas também sempre. que a atribuição de competência seja feita através da criação de um juízo ad hoc (isto é. ou do desaforamento concreto (e portanto discricionário) de uma certa causa penal. aliás. v. em todas as fases processuais93. Uma teleologia que não resulta comprometida pela possibilidade de a competência vir a ser regulada por normas posteriores à prática do facto. Vd. RLJ 111 1976 833. e o TC. de exceção). com o inerente risco de fossilização do sistema processual.35 conceder ao princípio do juiz legal. Embora o texto do art. Também nestas é reservada ao juiz de instrução a prática de atos materialmente jurisdicionais. 93 Por isso. estabelecer uma organização fixa dos tribunais. II. Sobre os sujeitos processuais… 18. pelo que não se compreenderia que a competência do juiz (de instrução) escapasse aí aos ditames do princípio do juiz legal. De outro modo. é de prevenir que as regras gerais de competência sejam desvirtuadas por intervenções arbitrárias ad hoc que desviem o processo do juiz a quem deveria ser distribuído. em face das inultrapassáveis dificuldades que um princípio do juiz natural levado àquele extremo levantaria. 32. . e na doutrina Figueiredo DIAS. Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 I 525 falam num “princípio dos juízes legais”. 4. como vimos. Pinto de ALBUQUERQUE4 4. entre outras finalidades.

quer atendendo aos diversos graus de instância. deve concretamente ser chamado a decidi-lo. antes implica a resposta a três perguntas estruturalmente diferentes98: 95 Para uma perspetiva geral. a prejuízos irreparáveis tanto para os arguidos como. em geral. nem aos difíceis problemas de política legislativa que suscita95. o tribunal do facto e o tribunal de execução das penas). GUARNERI. para a administração da justiça penal. g. 2. Conteúdo e Limites da Jurisdição Penal do Estado 2010. Eduardo CORREIA. por todos G. nem no que toca ao sistema constituído – que se encontra essencialmente na LOSJ que nos rege –. é claro. Competenza penale. relativamente a um caso concreto. A falta de uma tal ordenação conduziria fatalmente à confusão na divisão da jurisdição. a possibilidade de o mesmo “caso” (à luz do direito substantivo) dever ser sucessivamente apreciado por mais do que um tribunal. Simplesmente. 97 O que não prejudicará. deste ponto de vista. de modo a que cada caso penal concreto seja apenas deferido a um único tribunal97: é nisto que se traduz a determinação da competência em processo penal. segundo a sua espécie.36 organização não será aqui. A determinação em concreto do tribunal competente para o conhecimento e a decisão de um caso penal não é questão que possa ser respondida uno actu. dentre os tribunais da mesma espécie. quer à própria especialização de certos temas dentro do mesmo “caso” (v. EdD VIII 1961 100. à jurisdição96 – a ordenação indispensável que permita determinar. Competenza penale. absolutamente necessário que a referida organização judicial vá até ao ponto de regulamentar o âmbito de atuação de cada tribunal. de modo a que o Ministério Público possa saber qual o tribunal a que deve dirigir-se e este saiba quais os casos que é chamado a resolver. António Vieira CURA. Cf. e Pedro CAEIRO. Processo Criminal 276. uma tal organização fixa dos tribunais não é ainda condição bastante para dar à administração da justiça – hoc sensu. NssDI III 1957 68 e G. a inconvenientes conflitos entre os tribunais e. 98 Cf. pois. objeto de análise expressa. deve ser entregue e qual. Fundamento. Cabe só anotar ainda que também esta determinação da competência vem a revelarse como um postulado do princípio do “juiz natural”. Curso de Organização Judiciária2 2014.. Torna-se. 96 . Cavaleiro de FERREIRA I 176 s. qual o tribunal a que. Daí que a ordenação respetiva deva ser alcançada por via geral e abstrata – e portanto legal –. BELLAVISTA. tudo em ordem a excluir por completo a possibilidade de a acusação escolher o tribunal que lhe pareça mais favorável à decisão que dele espere (o denominado forum shopping). consequentemente..

com a função jurisdicional a desempenhar pelos tribunais segundo a sua categoria. crime de discriminação racial ou de tortura. crime contra a autoridade pública. Supremo Tribunal de Justiça. em Pinto de ALBUQUERQUE4 art.. entre os da mesma espécie materialmente competente para o caso. Há pois que responder ainda a uma terceira questão. c) A determinação da competência relativa aos dois índices apontados – material e territorial – é feita pela lei tendo em atenção o processamento do caso em primeira instância. homicídio doloso. uma exposição sistemática esgotante da matéria levaria a uma extensão dificilmente suportável. g. Em segundo lugar. As considerações que se seguem não visam fornecer uma panorâmica exaustiva de toda a repartição da competência em processo penal99. 10.º ss. tribunal coletivo ou tribunal singular.. primariamente. g. razão têm pois aqueles autores que pretendem remeter grandes zonas do problema da competência processual (penal e civil) para as exposições sistemáticas de direito e de organização judiciária. b) Qual o tribunal que. secção criminal ou secção de pequena criminalidade de instância local. deve. g. se põe também relativamente ao desenvolvimento de singulares atos processuais – só pode verdadeiramente fazer-se a propósito da consideração de cada um 99 Que pode encontrar-se. segundo a sua espécie (v. enquanto o da competência funcional – pois que. instância central de competência especializada criminal. E pois que a determinação desta espécie de competência se relaciona assim. demais sendo certo que teria de haver-se com temas específicos de organização judiciária que mal poderiam ser compreendidos sem um seu expresso tratamento.. mas apenas dos princípios fundamentais da sua ordenação. etc. maxime naquele em que se estudem as diferentes formas de processo comum e especial: assim. o estudo in extenso da competência material obrigaria a antecipar grande parte da matéria respeitante às formas de processo. segundo a sua localização no território. etc. deve conhecer de um caso penal de certa natureza (v. por exemplo. v.). como dissemos.37 a) Qual o tribunal que. Tribunal da Relação. qual é a de determinar o tribunal (ou tribunais) competente(s) para o desenvolvimento do processo ou de singulares atos processuais fora da atividade cognitiva de primeira instância (competência hierárquica). ou – dentro da mesma instância – para certas fases da prossecução processual.)? Trata-se aqui do problema da determinação da competência material. ser chamado para conhecer e decidir concretamente de um certo facto? É o problema da determinação da competência territorial. tribunal do júri. E são várias – e de vária ordem – as razões que justificam esta orientação: Em primeiro lugar. . costuma a doutrina abrangê-la no designativo comum de competência funcional. a exposição detalhada da matéria reverte muitas vezes – sobretudo num direito processual penal como o português – a temas cujo tratamento exaustivo (ou pelo menos mais pormenorizado) melhor caberá noutro lugar.

HENKEL2 § 27 III 2. 2. Para resolução deste problema oferecem-se ao legislador vários métodos ou vias de procedimento. através do qual se faz decorrer a competência material imediatamente ou incondicionalmente da lei. que poderão ser usados alternativa ou cumulativamente: a) O chamado pela doutrina103 método de determinação abstrata da competência.ª instância102. art. OEHLER.. os crimes dolosos ou agravados pelo resultado. g. g.. de maneira que às particularidades decisivas na matéria ou na natureza dos assuntos a tratar correspondam órgãos jurisdicionais com uma organização e um formalismo que lhes sejam adequados”101..ª instância. 101 . Strafprozessuale Zuständigkeitsordnung und der gesetzliche Richter. Der gesetzliche Richter und die Zuständigkeit in Strafsachen. Alargando-a. pelo contrário. III.). O legislador. a antecipação de uma boa parte da matéria respeitante aos recursos em processo penal. designa-se por competência material “aquela parcela de jurisdição que é distribuída às diferentes espécies de tribunais. 100 Assim também HENKEL2 § 27 III 1 in fine. em abstrato. art. ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 6 2.º-2.38 daqueles atos100 e importaria. ZStW 64 1952 292 ss. quando for elemento do tipo a morte de uma pessoa ao tribunal coletivo. Trata-se pois aqui fundamentalmente de repartir as causas penais pelas diferentes espécies de tribunais penais de 1. 16. dá a cada tribunal competência para o conhecimento e decisão de crimes a que corresponda. Competência material 1. utilizando este método. 14. a). não curando do singular tipo de crime. tendo em atenção a natureza das causas a resolver. os crimes puníveis com pena de prisão até 5 anos serão da competência do tribunal singular. a todas as fases processuais e assim imbricando-a com a competência funcional. De acordo com o que deixámos dito. de todo o modo. os crimes contra a autoridade pública ao tribunal singular. Marques da SILVA I7 170 ss. e ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 6/3. os crimes com penas superiores serão da competência do tribunal coletivo). Processo Criminal 276 s. poderá alcançar a finalidade proposta ainda por duas vias diferentes: ou dá a cada tribunal competência para o conhecimento e decisão de certos tipos de crime (v. etc. ou.. 102 Circunscrevendo igualmente esta categoria aos tribunais de 1. GA 1957 357 ss. a). Eduardo CORREIA. BOCKELMANN. uma pena até um certo máximo (v. 103 Sobretudo germânica: cf.º-2.

consoante julgasse dever atribuir ao caso uma especial ou antes uma diminuta importância. 106 Como exemplos..º a 16. Encontrando-se legalmente previstos três tipos de tribunais – o tribunal do júri (art. 33.º do CP). Estudos Isabel de Magalhães Collaço II 2002 489 ss. art. temos o art.º/4. a que voltaremos infra mais de espaço. 17. 105 . sendo expressamente levadas à acusação ou à pronúncia.º-2 ou 72.º). o qual deverá. 15. portanto. 27.º). as previstas nos artigos 10. Pinto de ALBUQUERQUE4 15.º-2 do CP)105. a imputação de um crime praticado na forma tentada. 16. 16. b) O método dito da determinação concreta da competência. naturalmente. 23. ser confiado à discricionariedade vinculada do Ministério Público107.º-2. o tribunal coletivo (art. g. independentemente.º-3. e os §§ 24 e 25 da GVG alemã – cf. do seu estatuto dogmático104.º-3. g. ora de natureza concreta. ligados ao tipo de crime ou à pena máxima aplicável. mas já não as que.. 107 Outro ponto de vista recondutível a um método de determinação concreta da competência seria aquele segundo o qual a acusação pudesse dirigir o caso à apreciação de um órgão superior ou inferior ao normalmente competente. e.º) –. 13. ao que parece.º) e o tribunal singular (art.. devendo ser levadas em conta todas as circunstâncias que possam elevar o máximo legal da pena a aplicar no processo.º. 35. a distribuição da competência por entre eles é feita mediante recurso ora a critérios de natureza abstrata. considerando que “não são atendíveis as circunstâncias que atenuem especialmente a pena”. 13. mas à pena máxima que previsivelmente virá a ser concretamente aplicada uma vez levada a causa a julgamento106.º-2 do CP. 3. Fora de consideração deverão ficar eventuais circunstâncias suscetíveis de atenuar a pena abstrata (v. 14. respetivamente. Teresa Pizarro BELEZA.39 Quando o legislador aponte para esta segunda via de determinação abstrata da competência em função da pena aplicável vale o disposto no art. A definição da competência material adotada pelo nosso legislador acolhe de forma combinada aqueles dois critérios de determinação abstrata e concreta (arts. ou a acusação do arguido como cúmplice. e ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 6/4 ss.º-1.. art. Judicialização do Ministério Público? O método de atribuição concreta da competência material em processo crime. Vai assim aqui implicada a necessidade de emissão de um juízo prévio quanto à pena a aplicar. A afetação das causas penais por aquelas três distintas espécies de tribunais é 104 Figueiredo DIAS. Sem esta diferenciação. DP II § 259 ss. segundo o qual não haverá que atender diretamente ao tipo de crime ou à pena máxima que lhe seja abstratamente aplicável. também Marques da SILVA I7 172. impliquem objetiva e inelutavelmente uma atenuação da pena aplicável (v.

Nada que. quando a acusação ou a defesa o requeiram” (art. potenciando-se assim a celeridade processual (art. deve o legislador ordinário tomar em consideração a previsão constitucional de que “o júri. Tal justifica que. 108 Nesta direção.º-2 da CRP) e um emprego racional dos recursos. 32. salvo os de terrorismo e os de criminalidade altamente organizada. art. 16. Sendo limitado o número de juízes penais e limitada ainda a sua disponibilidade para o exercício das suas funções jurisdicionais. que o julgamento dos crimes mais graves ou severamente punidos deva necessariamente ser confiado a um tribunal colegial. porém. como veremos. todavia. Mostra-se.º-1 da CRP). como mesmo pragmáticos. do TC 393/89 (10. do ponto de vista constitucional. 109 Em sentido oposto. eventualmente fundada na plenitude das garantias de defesa (art. do CPP e arts. inclusive jurídicoconstitucionais. que o julgamento de tais crimes possa ser legalmente cometido ao tribunal singular (cf.º-1 da CRP). justifica-se um particular cuidado na previsão de competência do juiz penal. tendencialmente a competência para o julgamento de crimes puníveis com pena de prisão superior a 5 anos seja deferida a tribunais colegiais. Já não é líquido.º-1 e 354. necessariamente escassos. No plano jurídico. bem pelo contrário.). tenha sem mais de impedir. . do TC 174/2014 (AcsTC 89. a). de competência ao tribunal singular em relação a crimes puníveis com prisão superior a 5 anos (Lei 20/2013). como de direito. o Ac.. É certo que a colegialidade favorece a qualidade das decisões judiciais tanto em matéria de facto.. com efeito. de júri ou coletivo108. designadamente. porém. nos casos e com a composição que a lei fixar. g.º-2. a propósito da atribuição. Maria João Antunes ao Ac. 207. do sistema de justiça penal.º do CP)109. em processo sumário. que corresponda a uma exigência constitucional. intervém no julgamento dos crimes graves. num contexto em que a demanda dos tribunais penais não dá sinais de decréscimo. sendo por isso desejável que os casos dos quais possa resultar uma mais drástica restrição da liberdade do arguido sejam atribuídos a tribunais colegiais. e a declaração de voto da Cons. plenamente justificada a atribuição de competência ao tribunal singular de competência nos casos de pequena e média criminalidade. Razões de ordem prática são igualmente determinantes para o desenho legal da distribuição de competência dos tribunais penais.40 condicionada por fatores de variada ordem tanto jurídicos. o Ac. 32. v. do TC 174/2014.º 144). 350.

O art.41 3. uma das razões que explica a rara frequência com que a praxis judicial se depara com o concreto funcionamento do tribunal do júri113. n. em relação à qualidade da decisão dos jurados112. Previsto pelo art. todavia. o círculo restrito de crimes em que pode intervir ou a necessidade de um impulso de um sujeito processual para que seja constituído –.º.º. 13. conhece uma regulação específica no DL 387-A/87.º-1). Fá-lo em termos que vão ao encontro da previsão constitucional no sentido de o júri intervir no julgamento dos crimes graves. fazendo-o. que fica reservada para o juiz. in: http://www.º-1 da LOSJ).º do CPP. a sua intervenção for requerida pelo Ministério Público.º-3 do DL 387-A/87). 1. Ao contrário da tradição anglo-americana. a par de outras – como os custos que lhe estão associados. The Faces of Justice and State Authority 1986 3636. é a própria Constituição que impõe a existência do tribunal do júri no processo penal português.penal. CPP Comentado 13. define. Determina-se neste diploma que “o tribunal do júri é composto pelos três juízes que constituem o tribunal coletivo e por quatro jurados efetivos e quatro suplentes” (art. pela positiva. tratando-se de uma realidade relativamente comum noutros países da Europa ocidental: cf. como nota Mirjan DAMAŠKA. 13. Processo Penal. podendo os jurados decidir em matéria de direito. onde o júri intervém na questão da culpabilidade. Será essa porventura. no direito processual penal nacional “o júri intervém na decisão das questões da culpabilidade e da determinação da sanção” (art. Como se referiu já.1 O tribunal do júri recebe competência em matéria de criminalidade grave se. 114 Paulo Dá MESQUITA. sem embargo. RIDP 2001 72. 2.º/2. pelo assistente ou pelo arguido110. 112 . prevê o n. o número especial da RIDP dedicado ao tema “Le Jury dans le Procès Pénal au XXIe Siècle”. Não obstante. estudos empíricos realizados neste domínio revelarem ser limitada a capacidade de influência dos jurados no processo de decisão dos tribunais de júri de competência mista. pela desconfiança que pode gerar-se.org/en/ridp-irpl-2000-2009.os 1 e 2. sobretudo nos profissionais do foro. de um modo tal que acaba por conceder ao legislador ordinário uma ampla margem de concretização111. 118. 113 Nada que. Prova e Sistema Judiciário 2010 187-212. os crimes em que pode ser deferida competência ao tribunal do júri. e apenas se. mas já não na da sanção. Isto apesar de a figura do júri remontar entre nós logo à revolução liberal de 1820 e de lhe dever ser reconhecido um papel decisivo para uma compreensão do processo penal português compatível com o princípio democrático114. seja um fenómeno exclusivamente nacional.º 1 que a sua intervenção pode ter lugar relativamente a processos por 110 O tribunal do júri deverá funcionar na secção criminal da instância central da comarca (art. e Henriques GASPAR. Desde logo. 111 Gomes CANOTILHO / Vital MOREIRA4 II 537 s.

abstratamente aplicável. Qualquer um deles tem o poder para.º a 358. impulsionar o seu funcionamento. Nos casos em que. por seu turno. uma vez apresentado o requerimento.º da L 34/87).º-1 da CRP e art. em todo o caso. apesar de punível com pena de prisão superior a 8 anos. Condição sine qua non para que haja lugar à intervenção do tribunal do júri nos casos em que a lei lhe atribui competência é a existência de expresso requerimento nesse sentido formulado pelo Ministério Público. 13. art. 13. e ainda os casos em que o Ministério Público lance mão do mecanismo previsto no art. o julgamento respeitante a crimes cuja pena máxima. 16. afastando o seu funcionamento nos seguintes casos: terrorismo115 e criminalidade altamente organizada116 (art. não deve ser em concreto sancionado com prisão superior a 5 anos. Pode competir ainda ao tribunal do júri.º-2)118. caibam na competência do tribunal singular (cf. do TC 540/2008.º-5). i) e m). do CPP). sem necessidade de motivação para o efeito. segundo o art. 1.º-2. 16. 118 Em princípio. que na lei penal vigente nenhum deles é per se punível com pena de prisão superior a 8 anos. aquando da acusação e para efeitos do disposto no art.º-3. sendo que. não parece dever ficar precludida a possibilidade de o arguido requerer a intervenção do tribunal do júri.º. sendo certo.42 crimes previstos no título III (“Dos crimes contra a paz. sendo embora abstratamente puníveis com pena de prisão superior a 8 anos. e crimes que. . deve ser concedida preponderância à 115 116 Restrição introduzida pela revisão constitucional de 1989. a). Damião da Cunha. 207.º-1 da LOSJ.º-3. Cf. delimitam negativamente a competência do tribunal do júri. não mais pode ser retirado (art. e Ac.º a 346. 3850 ss.).º do CP) da parte especial do Código Penal. a identidade cultural e integridade pessoal”: arts. 347.º a 246. nos prazos previstos no art. Limitação inscrita na Constituição pela revisão constitucional de 1997 – cf. 13. Constituição Portuguesa Anotada III 94 s. 16. 308. 40. seja superior a 8 anos de prisão. DAR-I 102 de 26-07-1997 3850 ss. poderão aqui entrar os crimes contra a autoridade pública constantes dos arts. do CPP)117. conceitos definidos pelo art. crimes de responsabilidade de titulares de cargos políticos (art.º do CP) e no capítulo I do título V (“Dos crimes contra a segurança do Estado”: arts.º do CP (art. pelo assistente ou pelo arguido. Neste conflito. o Ministério Público manifeste o entendimento de que o crime em apreço. 236. 137.º-3.º-2. bem como a crimes tipificados pela Lei Penal Relativa às Violações do Direito Internacional Humanitário (Lei 31/2004). 13. Preceitos vários. 117 No espírito do legislador constitucional esteve sobretudo a preocupação de poupar os cidadãos aos perigos frequentemente inerentes ao processamento deste tipo de criminalidade (DAR-I cit.

a identidade cultural e integridade pessoal” – arts. mesmo antes da atual redação do art. o tribunal coletivo será. CPP Comentado 14.43 pretensão do arguido. 207. por crimes tipificados pela Lei Penal Relativa às Violações do Direito Internacional Humanitário (Lei 31/2004). com pena de prisão até 3 anos. e por crimes dolosos ou agravados pelo resultado.º. a). 308. Por um lado. respetivamente. 122 Deste modo. considerando as previsões do art. 236. Magalhães Collaço 491 s. o Ac. à partida. 77. o tribunal coletivo recebe igualmente competência para o conhecimento de crimes cuja punição. Para uma discriminação exaustiva dos atos que cabem na reserva de competência do presidente do tribunal coletivo. Henriques GASPAR. este último estendendo a solução a uma possível requerimento do assistente. havendo imputação ao arguido de dois ou mais crimes.º1 e 203.º 2. .2 Tal como sucede com o tribunal do júri. E será assim mesmo que cada um deles seja punível em medida de prisão não superior a 5 anos (v. n. 14. a competência deverá. g. Por outro lado. nos termos dos arts.. Contra.º a 246. 118.º-2. b)).º do CP) e no capítulo I do título V (“Dos crimes contra a segurança do Estado” – arts. quando for elemento do tipo a morte de uma pessoa.º/4.º/5. em regra.º a 346. Em qualquer dos casos independentemente da pena abstrata aplicável. a um deles cabendo o estatuto de presidente do tribunal. b). cada um deles punível. DP II § 405 ss.º-2. em princípio. 120 Trata-se de um tribunal composto por três juízes de direito (art. que atua na secção criminal da instância central da comarca (art. possa exceder os 5 anos de prisão (art. 14.º-1 da LOSJ).º 1 e n. 143. 3. também em relação ao tribunal coletivo120 o legislador adota os dois critérios que dão corpo ao método de determinação abstrata da competência. dada a relevância constitucional de que beneficia (art. 119 Teresa BELEZA. do STJ 3/95 (DR-I de 21-06-1995). ALBUQUERQUE4 14.º do CP) da parte especial do Código Penal. for possível a aplicação de uma pena única de prisão superior a 5 anos.º-1 do CP. via de regra. isoladamente ou em concurso puro ou efetivo.º do CP)121. 133.º-1 da LOSJ).º-1 da CRP)119. e ALBUQUERQUE4 13. recair sobre o tribunal coletivo)122. em caso de acusação do arguido pela prática de um crime de ofensa à integridade física simples e de um crime furto simples. 14.º/7 ss. em função das regras penais de sancionamento do concurso (art. competente se. cabe-lhe julgar processos por crimes previstos no título III (“Dos crimes contra a paz. 121 Figueiredo DIAS. Estudos I. Deste modo..

haja um requerimento nesse sentido. do TC 174/2014 que incidiu sobre a disposição conexa do 381. 58). da Lei 43/86. 16. Tal como cede o passo ao tribunal singular quando. 16. 14. numa causa em que a atribuição de competência ao tribunal coletivo decorreria somente do previsto no art. 14. 16. 16. no sentido de afastar a competência do tribunal coletivo.º do CP). 124 . A razão de ser desta espécie de desvio à regra de atribuição de competência ao tribunal coletivo relativamente a crimes puníveis com prisão superior a 5 anos reside na ideia. equivocada e perigosa124. entram na competência do tribunal singular os processos por crimes contra a autoridade pública (arts.º-1 e 354. Sendo este o tribunal que. a).º-3) e pelo recurso a uma cláusula geral de recolha residual de competência (art. a lei de autorização do CPP de 1987.º-2. Em caso 123 DR-I de 13-03-2014 1858. o Ministério Público faça uso da previsão do art.º.º e 16. c)). in fine. dada a declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral ditada pelo Ac. no entanto. de que em causa estão processos em que. a) De acordo com o art. g.º-1 na interpretação segundo a qual o processo sumário aí previsto é aplicável a crimes cuja pena máxima abstratamente aplicável é superior a 5 anos de prisão123. 16. 2. a).º a 358. em caso de processo sumário. n..44 Pela negativa. o art. b).º-2.º-3 ou esteja em discussão um crime contra a autoridade pública (proémio do n. e art. mesmo que puníveis com pena de prisão superior a 5 anos (cf. em virtude da normal possibilidade de se poder contar com o contributo probatório de pessoas que exercem funções públicas.. 125 Assim.º 2 do art. considerar-se como não escritas as normas que. 350. a prova dos factos se mostra em geral facilitada125. prevêem o desvio de competência do tribunal coletivo para o tribunal singular (art.º-1). Deverão já. a)).º-2) e de determinação concreta de competência (art. 14. há a notar que este cede o passo à intervenção do tribunal do júri quando. v. 16. 347. há uma compreensível propensão do legislador para favorecer a sua instituição.º-2.º 2. por razões óbvias.º do CP). Marques da SILVA I7 175. sendo este admissível.º-2. 3.3 A fixação da competência do tribunal singular caracteriza-se pelo funcionamento dos mecanismos de determinação abstrata (art.º-2. os arts. mais potencia o desafogamento do volume de processos e a celeridade processual.

todavia. crime de espionagem. b)). Ac.º 2 do art. a competência pertencerá ao tribunal coletivo (art.º/2. b) O n.º.º 1 e n. no concurso entrarem crimes de qualquer outra natureza e houver a possibilidade de aplicação de uma pena única de prisão superior a 5 anos.º 3 do art. não se aplica se em causa estiverem crimes que façam parte da competência própria127 do tribunal do júri (art. mesmo em caso de concurso de infrações.º-2.45 de concurso de crimes contra a autoridade pública a competência continuará a ser do tribunal singular mesmo que a pena única de prisão potencialmente aplicável exceda os 5 anos (proémio do n. quando o Ministério Público. pena de prisão superior a 5 anos”. 136. 16. 0744577). b)). 14.º 2. em princípio. Previsão que. g. sendo. 14. 14. entender que não deve ser aplicada. art.º-2. CPP Comentado 14. o julgamento do crime de infanticídio (art. porém.º-1) ou do tribunal coletivo (art. 13.º.º-2. a)) – por exemplo.º 2 do art. “o tribunal não pode aplicar pena de prisão superior a 5 anos” (art. Caso em que.º/4. 307. em caso de condenação. ou em requerimento.º 2 do artigo 14. em concreto. . 126 127 Pinto de ALBUQUERQUE4 16. a))126. Entendeu o legislador que havendo bases objetivas para crer que. ao tribunal coletivo. n. 14. do TRP de 05-12-2007 (Proc. O mecanismo tem o seu âmbito de aplicação limitado aos casos em que a competência pertenceria. naturalmente. 14. inaplicável na hipótese de a competência do tribunal coletivo colher fundamento no n. desta forma. b)).º. 14. quando seja superveniente o conhecimento do concurso.º e 16. com base na alínea b) do n.º contempla o método da determinação concreta da competência: “compete ainda ao tribunal singular julgar os processos previstos na alínea b) do n. Ao tribunal singular cumpre ainda julgar os processos relativos a crimes puníveis com pena de prisão não superior a 5 anos (art. provavelmente a punição do arguido não excederá os 5 anos de prisão.º. 16.º-1 do CP) ou na alínea a) do n.º-4). na acusação. Se.º do CP) compete ao tribunal coletivo.º 2 do art. apesar de a pena de prisão respetiva não ser superior a 5 anos – ou se se verificar uma situação de concurso que possa levar a uma privação da liberdade superior a 5 anos (art. Contra. 16.º 1 (v.. Henriques GASPAR.º-2.

º Caps.º-3 pode fazer recuar essa aplicação – assim. num exercício de discricionariedade vinculada.46 razões não há para mobilizar um tribunal coletivo. aponta para a competência do tribunal singular. tendo em conta os critérios gerais de determinação da pena (arts.º-1). assistente ou o próprio juiz (singular)129 – pode opor-se à constituição do tribunal singular. Pinto de ALBUQUERQUE4 16.º/4.º/14. que se pretende reservar para os chamados casos de maior merecimento penal. em especial o art. Henriques GASPAR. sem qualquer fundamentação. da Lei 43/86.º-3. em caso de acusação por crime de espionagem – art. Figueiredo DIAS. 130 Além da letra do preceito e do espírito de agilização processual que lhe vai associado. Estudos I. em abono desta conclusão depõem os trabalhos preparatórios do CPP de 1987. Por razões mais gerais atinentes às relações internas da magistratura do Ministério Público.º/4. CPP Comentado 16. 16. nem mesmo o imediato superior hierárquico do magistrado do Ministério Público que haja recorrido ao art. Teresa BELEZA. DP II 7. de modo a ponderar se. n.º/9 s. que no seu entendimento a pena a aplicar não deverá ser superior a 5 anos de prisão132. a quem cabe o exercício da ação penal e a representação do interesse punitivo do Estado. “ainda parece acontecer demasiadas vezes neste domínio”. 2. sendo ele aplicado pelo Ministério Público nenhum dos demais dos sujeitos processuais – arguido. Concordante. Magalhães Collaço 492. deverá o tribunal singular declarar-se incompetente e remeter a causa para o tribunal coletivo (arts. e Pinto de ALBUQUERQUE4 16. na acusação. O juízo em questão é deferido ao Ministério Público. 131 Marques da SILVA I7 184. será de esperar a aplicação de uma pena de prisão não superior a 5 anos. mas limitando-se a afirmar. 129 . 32. Questões Práticas Relativas ao Arquivamento e à Acusação e à sua Impugnação 2008 109. designadamente.º 2.º e 8. de modo devidamente fundamentado (art. 132 Trata-se de um vício que. como informa João Conde CORREIA. Durante o inquérito. Sobre os sujeitos processuais… 20. O mesmo deverá suceder quando o Ministério Público. sob invocação do art. Contra. 14. g.º/15. e Pinto de ALBUQUERQUE4 16. 58). com numerosas referências jurisprudenciais. por discordância em relação ao juízo de prognose realizado pelo Ministério Público130.º-5). Mais do que uma falta de motivação. Tratando-se de um caso em que é efetivamente legítimo o recurso a este método de determinação da competência. no entanto. que poderia porventura sugerir uma recondução da questão à 128 Figueiredo DIAS.º e 71.º-1 e 33. CPP Comentado 16.º-1)131.º. 16. contra Marques da SILVA I7 1835. Henriques GASPAR.º-3 quando a sua aplicação é inadmissível (v. 16. Se o juízo for afirmativo caberá ao Ministério Público manifestar esse entendimento. Já se.º do CP)128. o Ministério Público lança mão do disposto no art. que eliminou as exigências de concordância que constavam dos projetos legislativos anteriores – cf. cumpre assim ao Ministério Público recolher todos os elementos necessários a uma prognose sobre a previsível punição do arguido.. em prol da celeridade e de uma eficiente afetação dos recursos do sistema judiciário. 40. e passim. 97.

136 Figueiredo DIAS. Figueiredo DIAS. a concretizar através de uma discricionariedade vinculada posta sobre uma autoridade judiciária que deve reger-se por critérios de estrita objetividade e imparcialidade e por isso suficientemente denso para a pôr a resguardo das manipulações arbitrárias que o princípio do juiz legal pretende prevenir137. porque infundamentado.º-9 da CRP). mas sim ao juiz. e ainda Teresa BELEZA. 135 Para uma recensão minuciosa desta jurisprudência. na medida em que prevê um critério geral devidamente especificado. Ac. com efeito. Para tanto foi decisiva a ação do Tribunal Constitucional. É o que sucede relativamente a crimes puníveis apenas com pena de multa (v. Sobre os sujeitos processuais… 20 s. defendendo a conformidade constitucional da solução. Sobre os sujeitos processuais… 18 ss.º-3 rapidamente se consolidou na prática judicial.).º-2 do CP). porque. por força da qual lhe compete “julgar os processos que por lei não couberem na competência dos tribunais de outra espécie” (art. mesmo oficiosamente. g. 133 Na jurisprudência. c) O tribunal singular detém ainda. de determinação da competência. e na doutrina.. o método de determinação concreta da competência inscrito no art. depois reafirmado dezenas de vezes pela jurisprudência constitucional135. mas somente prevenir lacunas legais de atribuição de competência. Tal como deve entender-se que a solução legal não belisca o princípio do juiz natural. . razão mais do que suficiente para que o tribunal singular se declare incompetente. do TRL de 12-11-2002 (CJ 2002 5 123 s. do TC 614/2003. que. Com esta previsão não pretende o legislador adscrever um papel secundário ou um estatuto de “segunda categoria” ao tribunal singular. assim afrontando abertamente o princípio constitucional do juiz legal (art.47 figura da irregularidade. Não há. vd. não é ao Ministério Público que cabe a determinação da pena. Magalhães Collaço 493 ss. 134 Cf.º/14. 16. motivo para considerar violado o princípio da jurisdicionalidade em matéria de determinação da pena. Sobre os sujeitos processuais… 18 s. Pinto de ALBUQUERQUE4 16. no Acórdão 393/89.. uma competência residual. se necessário133. 137 Figueiredo DIAS. no caso. ainda que dentro de uma moldura codeterminada pela ação processual daquele136. 16. por outros. 366. Estudos I. art.º-1). por fim. afastou as várias objeções de inconstitucionalidade que se abateram sobre o preceito. 32. o que aqui salta à vista é o modo arbitrário. Altamente polémico nos primeiros anos de vigência do CPP134. o Ac.

como.º-4. e art. IV. em regra. a)).S1). a preservação da dignidade institucional dos cargos assim o aconselha. Prevêem-se. em princípio.º-3. 130. detentoras de determinados cargos políticos ou jurisdicionais. tal como é recomendável. a). do STJ de 15-12-2011 (7/10. . independentemente da ligação do crime ao exercício da função (art.º-. em 1. o Presidente da Assembleia da República e o Primeiro-Ministro pelos crimes praticados no exercício das suas funções (art. regras específicas de atribuição de competência aos tribunais superiores (STJ e Relações) para conhecimento. serão os dos tribunais superiores. 12. 11. de processos relativos a certos crimes e/ou pessoas.º-3 e 33.º da LOSJ). que o julgamento seja assegurado por juízes mais experientes. São ainda os tribunais superiores que julgam os processos em que sejam arguidos juízes ou magistrados do Ministério Público. 10.º-1 da CRP. sejam reservados aos tribunais superiores da hierarquia do sistema judicial. Podendo estar em xeque titulares de órgãos de soberania. dadas as repercussões políticas e sociais que do processo podem advir e as pressões que se podem fazer sentir. 29. a). 3. Compete ao pleno das secções criminais do STJ julgar o Presidente República. É esse o foro para a generalidade das pessoas e para a generalidade dos processos. em todo o caso. 11. em razão da matéria ou das pessoas envolvidas. Está em causa a necessidade de garantir que o julgamento de processos especialmente graves. do mesmo passo que se reporta também à competência material – relaciona-se com a atividade jurisdicional que transcende o exercício do poder judicial penal em primeira instância. relativo ao Presidente da República. Competência funcional A competência funcional – a que o art.TELSB-L. e art.S2-A) e de 16-03-2015 (122/13.ª instância. Acs. As três espécies de tribunais de 1. do CPP)138.º se refere expressamente. permitindo o complexo de problemas aqui implicado uma sua divisão segundo os 138 Cf.48 4.0YGLSB. ao nível dos tribunais de comarca (art.ª instância ora analisadas funcionam.

Em atenção à complexidade do decurso do processo penal. 449.º-4 da CPR) são da competência do juiz de instrução (art. G. b)). necessária para que este atinja completamente o seu fim.º e 288. art. 139 Seguiremos de muito perto. 140 A uma “competência funcional em sentido próprio” se referia neste contexto Cavaleiro de FERREIRA I 232.º-1). É a mais importante. não se desenvolve ele unitariamente. 138. dirigida pelo juiz de instrução (arts. com competência em matéria de facto e de direito (art. 428. da competência dos tribunais superiores. ao ponto de ser considerada por muitos a única espécie de competência funcional140: ela deriva da circunstância de as decisões penais não adquirirem carácter definitivo logo que são proferidas.º do CEPMPP). na sistematização subsequente. 17. 32. dirigida pelo Ministério Público e na qual todas as funções jurisdicionais legalmente previstas e/ou constitucionalmente impostas (art. Dessas fases. com competência restrita à matéria de direito (art.) e de revisão (art.º). de terceiro grau ou de legitimidade. a fase do julgamento. FOSCHINI I 346 ss. a fase do recurso. . 17. várias relevam na determinação da competência funcional: a fase do inquérito.º e 470. em que cada uma conforma o necessário pressuposto da que se lhe segue. a cargo das Relações (art.º). ambos também conferidos ao Supremo Tribunal de Justiça. e dos graus extraordinários de fixação de jurisprudência (art. 11. b) Competência funcional por fases. embora a identidade seja mais terminológica que de fundo.). mas permitirem em regra o seu exame sucessivo por parte de outros órgãos jurisdicionais.49 critérios essenciais que presidem à repartição das funções do juiz pelos diversos órgãos judiciais. b)).ª instância em que o processo tiver corrido e o tribunal de execução das penas (arts. 434.º).º). 17.º-4. onde a competência decisória se divide entre o tribunal da 1.. atribuída ao Supremo Tribunal de Justiça (art.º e ss. 437. Temos assim139: a) Competência funcional por graus. antes sim através de uma pluralidade de estádios ou de fases.º e ss.º do CPP e art. 18. e a fase de execução.º-3. No que toca à jurisdição ordinária temos a considerar os órgãos decisórios de primeiro grau ou primeira instância (entre os quais haverá que contar os juízes de instrução. de segundo grau ou de segunda instância. a fase da instrução. 12. onde as decisões pertencem exclusivamente aos tribunais comuns.

DP I2 11.º § 8 ss. em geral adequada. tem ela de prever a possibilidade de atuação de certos desvios e critérios subsidiários. 143 Trata-se.) sobre competência territorial visam determinar qual o tribunal que. Mas porque tal critério pode revelar-se concretamente imprestável ou inadequado.º e ss. em princípio. em condições preferíveis de imediação 141 – e dadas portanto as suas estritas conexões com o lugar do crime ou a localização do arguido –. a de uma comarca. 23. possa conhecer da causa.º-1 consagra-se como critério geral de determinação da competência territorial o da consumação da infração: “É competente para conhecer de um crime o tribunal em cuja área se tiver verificado a consumação”143. depende de modo decisivo da natureza do crime. da caracterização do respetivo tipo 141 Cf. de um critério substancialmente mais estreito do que o previsto no art. eleito de acordo com a finalidade que ficou exposta: o critério do lugar da infração (locus delicti). deve ser chamado à jurisdição no caso concreto. 19. Competência territorial 1. designadamente. Funda-se ele na ideia. O sentido e a finalidade desta regulamentação consistem em procurar para cada caso penal o tribunal que. As prescrições contidas no nosso CPP (art. De forma todavia a que. de repartir as causas penais pelos diversos tribunais da mesma espécie. é bom de ver. Pedro CAEIRO. Processo Criminal 283. por outras palavras. 142 . 7. em virtude da sua proximidade espacial com os meios probatórios relevantes para o esclarecimento do caso142. Eduardo CORREIA. Para lograr o desiderato aludido serve-se a lei de um critério fundamental. quanto possível. A área em questão há-de ser. a cada caso corresponda um único tribunal territorialmente competente. 19. tratam. Fundamento… 331 ss. A dilucidação do lugar da consumação. Temos assim que: a) No art. de que se trata do tribunal que detém as condições mais favoráveis para a descoberta da verdade material. o chamado locus delicti. nos termos definidos pela legislação referente à organização judiciária (art. Sobre as assimetrias entre o âmbito de validade espacial da lei penal portuguesa e o âmbito da jurisdição judicativa.º da LOSJ e DL 49/2014). dentre os da mesma espécie materialmente competente.º-1 do CP em matéria de definição do locus delicti para efeitos da aplicação da lei penal portuguesa no espaço – Figueiredo DIAS.50 V. ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 7/2. 2.

em especial quando cometidos “à distância”146. tem em vista aquilo que em direito penal se chama a consumação formal – verificação. Tratando-se de crime de resultado. 145 Figueiredo DIAS. Como se deixou já sugerido. pode perguntar-se se o art. tanto a Lei de Imprensa como a Lei da Televisão prevêem regras específicas nesta matéria. o locus delicti corresponderá ao lugar onde se dá a verificação do resultado. considerar que a consumação ocorre no lugar onde a ofensa à honra é pela primeira vez conhecida pelos seus destinatários – assim. em matéria de crimes patrimoniais e de crimes contra a honra. sendo este embora um tema que pertence sobretudo ao direito material dilucidar. Justamente por isso. o Ac.º § 37 ss. em caso de omissão. por outros. Comentário Conimbricense do CP I2 180. 146 Parece existir uma tendência jurisprudencial para. Para mais disposições específicas referentes aos demais crimes nelas previstos. a aplicação do critério da “consumação” dá lugar às maiores dificuldades. ao falar de consumação. por exemplo. cremos ser a segunda aquela que. 19. De forma que. não devem as conclusões ali obtidas ser transpostas para a nossa sede sem uma sua comprovação crítica que permita modelá-las. 38. DP I2 27. Foi o que sucedeu entre nós. a consumação só ocorre com a produção do evento espácio-temporalmente distinto da conduta típica que é condição para o perfecionamento do tipo – neste caso.os 1 e 3. 88. e Susana Aires de SOUSA. . que para conhecer dos crimes de difamação ou de injúria é competente o tribunal da comarca do domicílio do ofendido147. pelo que. 38. frequentemente. embora a expulsão do feto ocorra em outra comarca”. às finalidades processuais pretendidas.os 1 a 4.. e. o art. n. de todos os elementos constitutivos do tipo objetivo de ilícito – ou material – verificação. no sentido de que “para conhecer do crime de aborto… é competente a comarca em que se praticaram ou ultimaram as manobras abortivas. n.º/21.º § 11. da Lei de Imprensa e o art. segundo as finalidades do direito processual penal. melhor servirá os interesses de fixação da competência territorial. da Lei da Televisão. com o crime de aborto. cf. Tratando-se de crime de mera atividade. nesta última constelação dos crimes materiais.º-2 da Lei da Televisão.º-5 da Lei de Imprensa e 88. que. deveria ter atuado. dependendo a consumação do perfeito desenho do tipo que integra o juízo de ilicitude. tendo a questão sido decidida por Assento de 21-2-1941.º-1. 147 Arts. DP I2 11. desde logo. não deveria ter implicado já uma reformulação mais alargada das regras legais de atribuição de competência territorial que a tomasse em devida conta naqueles e noutros domínios da criminalidade. no acontecer total. do STJ de 05-06-1997 por aquele citado. Bem se compreende. o mais possível. Responsabilidade Criminal pelo Produto e o Topos Causal em Direito Penal 2014 328 e ss. na esteira da doutrina de Faria COSTA. 144 Figueiredo DIAS. no facto. a consumação ocorre no lugar em que o agente atuou ou.º. Dúvidas se têm suscitado. se torne em muitos casos duvidosa a sua apreciação. Resta saber se a imparável e irreversível tendência global no sentido da desmaterialização das operações e relações económicas e sociais. na vigência do CPP anterior. na sua aparente simplicidade. ainda. é a produção do evento típico e não o termo do exercício da atividade (ou o termo da omissão) que interessa à consumação. de todos os elementos de desvalor relevantes para o juízo de ilicitude145. Possam embora alinhar-se sugestões literais e conceituais no sentido da primeira solução. determinando. só mediante uma detida articulação com uma análise substantiva do tipo incriminador em sede de parte especial será possível concluir sobre o tribunal territorialmente competente.51 objetivo de ilícito quanto à conduta144. Assim.º. do STJ de 12-07-2007 (07P2288) e o Ac. igualmente.

é evidente que o princípio geral de determinação da competência territorial nem sempre pode valer. “se o crime não tiver chegado a consumarse. . ou o homicídio negligente. em nossa maneira de ver. art. o crime de aborto agravado pela habitualidade. art.º 149 Pinto de ALBUQUERQUE4 19. o sequestro. g. 137. ou de um ato ou omissão que se prolonga no tempo por vontade do autor (crimes duradouros. 19..º § 54 s. 158. que dá competência ao “tribunal em cuja área se tiver praticado o último ato ou tiver cessado a consumação”. 150 Nuno BRANDÃO.º determina que.º do CP)151.º-2). e de execução continuada: v. 170. a tendência cada vez maior para que a morte ocorra em hospitais. 151 Figueiredo DIAS. muitas vezes sem qualquer conexão espacial substancial com o delito que justifique a atribuição de competência ao tribunal da área respetiva. art. a propósito da desnecessidade de reiteração. Figueiredo DIAS / Nuno BRANDÃO. Pinto de ALBUQUERQUE4 19. em caso de omissão.º do CP148.º 4 do art.º/2..º/2. Por isso é que o n. devendo ainda acrescentar-se. 19. art.52 b) O critério do locus delicti identificado com o lugar da consumação conhece. o último ato de preparação”. Em abono desta solução aduz-se que “pode haver uma dilação considerável entre os dois momentos [da conduta e da morte]”149.. e o lenocínio. c) Problemas especiais são suscitados por aquelas infrações que se consumam através de uma série de atos sucessivos e reiterados (crimes habituais: v. DP I2 11. art.. g. Este preceito aplicar-se-á assim às hipóteses de tentativa. g.º 3 do art. o crime de violência doméstica. Julgar 12 2010 20 ss. deveria ter atuado” (art. para os quais passou a ser competente “o tribunal em cuja área o agente atuou ou. em caso de punibilidade dos atos preparatórios. 141. Comentário Conimbricense do CP I2 136.º do CP. um desvio no que toca aos crimes (de resultado) que compreendam como elemento do tipo a morte de uma pessoa (v. 16. art. mas não necessariamente150. bem como aos 148 Contra.º do CP).º. apesar de o ilícito-típico de infanticídio integrar a morte do recémnascido (cf.º do CP). para onde são levadas as vítimas das condutas homicidas. 136. d) Como nem todos os crimes atingem o estádio da consumação. A tutela penal especial reforçada da violência doméstica. é competente para dele conhecer o tribunal em cuja área se tiver praticado o último ato de execução ou. o infanticídio. Para estas hipóteses rege o n. v. g.º-2 do CP. 152. desde 2007.

º 1 do art.º do DL 254/2003.53 atos preparatórios cuja punição esteja prevista como crime autónomo (v. 20. 4. 4.º-2). n.º-1 do CP. embora praticado fora desses domínios. f) Nos termos do art. 7. b). deva considerar-se realizado em Portugal por aplicação do chamado “critério do pavilhão”. a pluralidade de conexões 152 Mesmo que a bordo de navio ou aeronave estrangeiros: cf.. ainda o art. “é competente o tribunal da área onde primeiro tiver havido notícia do crime” (art. e. mas preferindo o que primeiro tomar conhecimento da infração154. 20. deverá considerar-se como praticado em território português mesmo o facto cuja execução só haja sido parcialmente realizada no espaço nacional (delitos itinerantes ou de trânsito). se o local de aterragem seguinte for em território português e o comandante da aeronave entregar o presumível infrator às autoridades portuguesas competentes – vd. 153 .º do CP). será competente o tribunal da área do porto ou aeroporto português para onde o agente se dirigir ou onde ele desembarcar.º. do CP)153. g. designadamente por não coincidirem o local onde fisicamente o agente atuou e o local onde está fisicamente instalado o sistema informático visado com a sua atuação. DP I2 9.º consagra um princípio de prevenção da jurisdição. e) Se o crime for cometido em águas ou espaços aéreos territoriais portugueses152 ou. 22. Não se verificando nenhuma destas hipóteses. porque cometido a bordo de navios ou aeronaves portugueses (art. Figueiredo DIAS. 21. Estando o processo na fase do inquérito ou na fase da instrução e sendo dele objeto determinado tipo de crime constante de um catálogo legal. Cf.º § 17.º. 271. ou não fazendo parte da tripulação. 154 Critério mais restritivo é o seguido pelo art. “é competente o tribunal da área nacional onde tiver sido praticado o último ato relevante” (art. o n. 27. g) Se o crime estiver relacionado com diversas comarcas e houver dúvidas acerca daquela em que se localiza o elemento relevante para a determinação da competência territorial. relativo a aeronaves alugadas a um operador que tenha a sua sede em território português ou registadas noutro Estado.º-5 da Lei do Cibercrime: em caso de dúvida quanto ao tribunal territorialmente competente. não se dirigindo o agente para território português ou nele não desembarcando. dando competência a qualquer dos tribunais. em voo comercial fora do espaço aéreo nacional. o tribunal da área da matrícula (art. Figueiredo DIAS. DP I2 9.º § 18. a competência cabe ao tribunal onde primeiro tiver havido notícia dos factos.º-3). art.os 1 e 2). Quando tal se verifique.

º159. DP II § 426 ss. 120. devidamente adaptada. DR-I de 14-07-2005 4248 s. 157 Figueiredo DIAS. 120. . estipula o art. do STJ 6/2005. Por razões evidentes de imparcialidade e prestígio do julgamento.º que para determinação dessa pena será territorialmente competente o tribunal da última condenação (em 1. por verificação dos pressupostos do regime legal do conhecimento superveniente do concurso (art. mediante aplicação.º-1 da LOSJ)155.54 espaciais do crime com comarcas pertencentes a diferentes tribunais da Relação implica a competência do Tribunal Central de Instrução Criminal (art.º 2 do art. do TRE de 19-08-2010 (CJ 2010 4 252). só haverá lugar à intervenção do tribunal coletivo se o limite máximo da moldura do concurso. 14. b)).º-2.º-2 do CP). 23.º do CP)157.º-1 do CP). 14. i) Tendo um arguido sido condenado por dois ou mais crimes cujos processos não foram objeto de conexão e aos quais deva aplicar-se uma pena única conjunta. e com trânsito em julgado (art.º-2). 77.º 2 do art.º da LOSJ. sendo aí competente o tribunal da área onde primeiro tiver havido notícia do crime (art. 21.º-1 e 78. 78. O princípio de prevenção de jurisdição vale igualmente nos casos em que é desconhecida a localização do elemento relevante para a fixação da competência territorial. for superior a 5 anos (art. 156 Ac. 158 Pinto de ALBUQUERQUE4 471. a competência cabe à secção de instrução criminal da cidade onde se encontra sedeado tal Tribunal da Relação. a competência pertencerá ao tribunal singular. 78. estando sob investigação um crime do referido catálogo com ligações a várias comarcas pertencentes a um mesmo Tribunal da Relação. Assim deverá ser mesmo que na circunscrição judicial onde aquele magistrado exerce funções existam outros juízes ou juízos da mesma hierarquia ou espécie156. funcionando em tribunal coletivo ou singular. do disposto na alínea b) do n. pessoa com a faculdade de se constituir assistente ou parte civil um magistrado. 155 De acordo com o n. 471. Se o não for. dado pela soma das penas concretamente aplicadas aos vários crimes (arts. h) Norma especial é oferecida pela lei aqueles casos em que num processo for ofendido. e Ac.º).ª instância158). e a competência para o processo pertença ao tribunal onde o mesmo exerce funções.º/1. será competente o tribunal da mesma hierarquia ou espécie com sede mais próxima (art. 159 Uma vez que a pena única será encontrada dentro de uma moldura formada a partir das penas concretas já aplicadas aos crimes em concurso.

24. dispõe-se sobre os termos em que há lugar à conexão de processos.º a 29. em certas hipóteses.55 j) Os arts. Fundamento… passim. subsidiariamente. Para a determinação do tribunal português territorialmente competente rege então o art. quer por força de prorrogações de competência que em certos casos a lei confira a determinados tribunais. DPP 347 s. apesar do risco de sacrifício da pureza dos conceitos.º) em dois momentos: primeiro.º a 26. As regras de atribuição da competência material e territorial podem sofrer alterações.º a 21. VI. 27. relativamente a infrações cometidas no estrangeiro. O particular relacionamento intercedente entre vários crimes – seja em nome da sua proximidade material e objetiva. ao tribunal da área onde primeiro tiver havido notícia do crime. Conexão de processos e competência por conexão 1.º.º). 19. Figueiredo DIAS. e depois.º).º-1. determinantes da competência material ou territorial161. independentemente dos seus reflexos sobre a definição do tribunal competente para o seu conhecimento (arts. cabendo o seu estudo ao tema da aplicação no espaço do direito penal substantivo português160. quer devido à existência de especiais conexões entre diversas infrações. . DP I2 9. que defere competência ao tribunal da área onde o agente tiver sido encontrado ou do seu domicílio ou. procederemos a uma análise conjunta destas distintas realidades normativas. Razão pela qual.º e 28. A designação foi acolhida pelo Código atual (art. definem-se os tribunais material e 160 161 Figueiredo DIAS. do CP). A matéria encontra-se estruturada no Código (arts.. 4. fala-se a este propósito de competência por conexão na medida em que uma tal conjunção se traduza numa exceção aos princípios analisados supra. 24. que todavia nela integrou não apenas desvios de competência determinados pela conexão (arts. e CHIAVARIO3 IV/10. como também ainda casos em que a conexão pode não ter a virtualidade de reconformar a competência (art. 22. ou uma e outra – pode plenamente justificar a conveniência do seu processamento conjunto. a) e b).).º. porém. que os tribunais portugueses têm também competência.º).º regem apenas para as hipóteses em que a infração foi cometida em território nacional (art. ou pessoal e subjetiva. Sabe-se. Doutrinalmente. 24. 25. e Pedro CAEIRO.º e ss.

de forma geral e abstrata.). 2. como logo começámos por afirmar: a) pessoal ou subjetiva. de economia processual. Considerando por isso que o art.º 4/2010 (III. sem prejuízo do conteúdo ínsito na garantia do “juiz natural”. releva ela logo em sede de inquérito. no entanto. sendo dada 162 Henriques GASPAR. e Henriques GASPAR.º). 2.56 territorialmente competentes no caso de a conexão ser suscetível de conduzir à atribuição de competência a mais do que um tribunal (arts. Dado que aquela primeira vertente conhece um tratamento autónomo em relação à questão da competência. O que tudo se alcança. antes de tudo. Pinto de ALBUQUERQUE4 24. qualificando-a inclusivamente como um princípio processual. os chamados megaprocessos. No bom sentido. b) material ou objetiva. quando. assim precavendo as por demais conhecidas dificuldades processuais que lhes são inerentes163. 2. por isso que os critérios de conexão estão contidos em lei anterior e elegem. tornar altamente conveniente o processamento conjunto e simultâneo de uma pluralidade de crimes.º/1. anote-se ainda.º constitui uma disposição taxativa e excecional que não admite aplicação analógica. quando uma pluralidade de infrações se encontra relacionada através da unidade do agente. É fácil perceber que razões de diversa ordem poderão. a Circular da PGR n. 164 Marques da SILVA I7 191. CPP Comentado 24. pois a ela acrescem – quando não mesmo se sobrepõem – razões de boa administração da justiça penal (juntando processos conexos será provavelmente mais esgotante a produção probatória e respetiva cognição) e mesmo de prestígio das decisões judiciais (pois desaparecerá o perigo de uma pluralidade de decisões sobre infrações conexas se contradizerem materialmente). 24. O Código arranca da premissa de que a cada crime deverá corresponder um (distinto) processo164. 163 . A razão justificativa da imposição da conexão será. Mas não só.1 A conexão determinante da competência pode ser.º/7. 27.º/2. motivo pelo qual é ele imposto através da figura da conexão.º e 28. devendo as respetivas regras de conexão ser tidas em consideração pelo Ministério Público na definição dos termos em que procede a determinada investigação criminal com a suscetibilidade de abranger uma pluralidade de infrações162. o tribunal em definitivo competente. Uma prevenção que se levada em devida conta pode contribuir sobremaneira para travar o passo a uma tendência para a formação de processos monstruosos. CPP Comentado 24.

24.º/9. com situações em que a necessidade de reunião dos processos implica a retirada de competência a tribunais que. c) mista (pessoal e material) quando os dois tipos de relacionação atrás apontados convergem no mesmo caso concreto165. Determinante de conexão é. há lugar à conexão. b)).1.º. 166 . a) e b). seriam material e territorialmente competentes para algum ou alguns deles. a sua relacionação se faz através da própria materialidade ou conteúdo das infrações. Como a conexão depende da competência e não o contrário. Em qualquer uma destas duas hipóteses a conexão subjetiva é penetrada por uma dimensão objetiva. no art.57 uma pluralidade de infrações e de agentes. atinente à materialidade dos delitos objeto de indagação. 24. a)). o chamado concurso ideal166.º. só podem ser abrangidos pela conexão os processos cujo conhecimento seja da competência de tribunais com sede na mesma comarca167. Invertendo todavia os termos da qualificação. 25. n. a exposição de motivos constante da proposta de lei 157/VII). aquele em que o agente haja cometido vários crimes através da mesma ação ou omissão (art. os dois crimes tiverem sido praticados em Coimbra. ou seja. Se. Diferente é a terceira situação de conexão pessoal prevista pelo Código. 167 A atual redação do art. com boas razões.º-1.º 1. reveladora de uma estreita ligação substancial entre todos eles que torna particularmente desejável o seu conhecimento pelo mesmo tribunal num mesmo processo. aquela que tem em consideração os casos de pluralidade criminosa imputável a um mesmo agente em que os diversos crimes não se relacionam materialmente entre si. a) A conexão pessoal ou subjetiva encontra-se prevista nos arts. 25. em princípio. no âmbito da qual foi rejeitada. DP I2 41. se A deve responder por um crime de violação praticado em Coimbra e por um crime de roubo no dia seguinte cometido no Porto não há base legal para efetuar a conexão. e 25. CHIAVARIO3 IV/10. 24. Por isso podemos deparar aqui com uma competência por conexão em sentido próprio. uma solução de conexão subjetiva ampla como aquela que se conhecia na vigência do CPP de 1929 (cf.º-1. em primeiro lugar. não é este um caso de competência 165 ROXIN / SCHÜNEMANN28 § 6/3. Figueiredo DIAS. Impõe-se a conexão ainda quando os crimes hajam sido praticados pelo mesmo agente na mesma ocasião ou lugar e entre eles houver um relacionamento recíproco (art. integrando diversas constelações de pluralidade criminosa imputável a um mesmo agente. Quando isso suceda.º.º foi introduzida pela revisão de 1998 do CPP. porém. Assim.

58

por conexão no sentido próprio do termo. Além de uma intenção de promoção de
economia processual, nota-se aqui uma preocupação de imediata aplicação de uma pena
única conjunta, prevista pelo art. 77.º do CP para quando haja condenação do agente em
concurso puro ou efetivo, que só tem a beneficiar com o conhecimento de todos os
crimes pelo mesmo tribunal.

b) A conexão material ou objetiva verifica-se quando uma determinada infração foi
levada a cabo por diversos agentes, isto é, em comparticipação criminosa 168 (art. 24.º-1,
c)), em qualquer uma das suas modalidades legalmente previstas de autoria (art. 26.º do
CP: autoria mediata169, coautoria e instigação170) e de participação (art. 27.º do CP:
cumplicidade); quando diversas infrações foram levadas a cabo por vários agentes em
comparticipação, na mesma ocasião ou lugar, estando elas ligadas mutuamente (art.
24.º-1, d)); e ainda quando, já fora de um quadro de comparticipação, vários agentes
tiverem cometido diversos crimes reciprocamente na mesma ocasião ou lugar (art. 24.º1, e) – v. g., A e B agridem-se um ao outro, incorrendo cada um deles na prática de um
crime de ofensa à integridade física).

c) Pode suceder que o mesmo agente cometa várias infrações, das quais algumas
(ou alguma) possuam conexão material com infrações de outros agentes: há então
concurso de conexões pessoal e material, a resolver nos termos gerais dos arts. 27.º e
28.º

2.2 Além da verificação dos pressupostos positivos de que depende, o
estabelecimento da conexão só pode ser levado avante se no caso se não verificarem os
obstáculos legalmente previstos à sua realização.
Considerando o disposto no n.º 2 do art. 24.º, a conexão só pode operar até à fase
do julgamento, inclusive, sendo portanto inadmissível durante a fase de recurso 171. E
168

Sobre a matéria, Figueiredo DIAS, DP I2 30.º ss.
Excluindo, porém, a autoria mediata do âmbito de aplicação do art. 24.º do CPP, Marques da SILVA I7 195, e
Pinto de ALBUQUERQUE4 24.º/7.
170
Para uma compreensão da instigação como forma de autoria, Figueiredo DIAS, DP I2 30.º ss.
171
Ac. do STJ 10-02-2005, citado por Henriques GASPAR, CPP Comentado 99.
169

59

mesmo enquanto é admitida, só pode ter lugar se os processos a conexionar se
encontrarem na mesma fase processual, pois, de outro modo, poderia acabar por
comprometer-se a celeridade da resolução dos processos já em fases mais avançadas.
Não podem ser objeto de conexão com processos penais os processos da
competência de tribunais de menores, ainda que haja uma ligação subjetiva (por
exemplo, A pratica um furto com a idade de 15 anos e um roubo já após perfazer 16
anos) ou objetiva entre as infrações (por exemplo, A, de 14 anos, e B, de 17, ofendem
em coautoria a integridade física de C). Isso que resultaria já de tudo o que formal e
materialmente separa o direito e o processo penal do direito e do processo sancionatório
de menores172 é expressamente esclarecido pelo art. 26.º. Além desta disposição, outras
mais, em domínios específicos como os dos crimes tributários (art. 46.º do RGIT), dos
crimes de responsabilidade de titulares de cargos políticos (art. 42.º da Lei 34/87) e dos
crimes militares (art. 113.º do Código de Justiça Militar), estabelecem limites à
conexão.

2.3 O Código não esclarece qual a entidade a quem cabe proceder à conexão de
processos dela suscetível. Uma vez que só é possível agregar processos que se
encontrem na mesma fase processual, a competência para o fazer deverá ser
reconhecida à autoridade judiciária a quem cumpre a direção processual em cada uma
das fases em que os processos estejam pendentes173. Estando os processos nas fases da
instrução ou do julgamento, a derradeira e decisiva palavra174 para decretamento da
conexão deve ser do tribunal que, após a conexão, passará a ter a competência para o
processo.

2.4 Sendo a conexão de processos imposta para satisfazer interesses de economia
processual, celeridade, uniformidade de julgados, otimização probatória, etc., o certo é
que pode gerar também consideráveis dificuldades de gestão processual e prejuízo para
172

Figueiredo DIAS, DP I2 21.º/62 ss.
Restringindo, todavia, o poder do Ministério Público para estabelecer a conexão de inquéritos aos casos em
que o(s) inquérito(s) não foi(ram) levado(s) ao conhecimento do juiz de instrução, para apreciação de questão da sua
competência reservada (arts. 268.º e 269.º do CPP), com base na ideia, por demais discutível, de que a partir daí passa
a haver um juiz de instrução do processo, Pinto de ALBUQUERQUE4 24.º/13, e Marques da SILVA I7 197.
174
Sem prejuízo, naturalmente, de uma eventual intervenção de um tribunal superior.
173

60

outros interesses, públicos e privados, e para direitos fundamentais de sujeitos e
participantes envolvidos no processo. Risco que recomenda a previsão da possibilidade
de cessação da conexão, designadamente, quando os benefícios por ela propiciados
sejam suplantados pelos danos que pode acarretar. Nesse sentido, o art. 30.º abre a porta
à separação de processos, mediante cessação da conexão, num conjunto diversificado de
situações. Só nestes casos, de recurso ao regime do art. 30.º para desagregação de
processos anteriormente conexos, haverá que falar em separação de processos. Com
efeito, quando a conexão seja removida por se constatar não estarem reunidos os
pressupostos para a conexão processual, que por isso se mostra indevidamente
realizada, do que se tratará é de uma reposição da legalidade processual, que,
naturalmente, não carece da mediação do art. 30.º
De acordo com o n.º 1 do art. 30.º, a cessação da conexão pode ser decidida pelo
tribunal175, oficiosamente ou a requerimento, nas seguintes situações, não de modo,
digamos, “automático”, mas mediante um juízo que contraponha as desvantagens que
lhes são inerentes com as vantagens que advêm da manutenção da conexão176:
necessidade de proteção de um interesse ponderoso e atendível de qualquer arguido,
nomeadamente no não prolongamento da prisão preventiva (a)), ou de evitar o
retardamento excessivo do julgamento de qualquer dos arguidos (c))177; grave risco para
a pretensão punitiva do Estado (b)), como sucederá quando a conexão possa implicar
um prolongamento do processo que gere perigo de prescrição do procedimento criminal
relativamente a crimes dele objeto; grave risco para o interesse do ofendido ou do
lesado (b)); houver declaração de contumácia em relação a algum dos arguidos (d); e
art. 335.º-4); ou o julgamento decorrer na ausência de algum arguido (d)).
Entendeu o legislador que deveria acautelar-se o eventual interesse de um arguido
em não ser julgado por um tribunal do júri no caso em que a sua intervenção tiver sido
requerida por um outro arguido, concedendo-lhe, por isso, a faculdade, dita
175

Quando estendida a aplicação do preceito à fase do inquérito (art. 264.º-5), a competência para a cessação da
conexão pertence à entidade a quem cabe a sua direção, o Ministério Público, ainda que no processo haja já
intervindo um juiz de instrução – caucionando este entendimento, o Ac. do TC 21/2012 (AcsTC 82.º 155 ss.); contra,
Marques da SILVA I7 199, e Pinto de ALBUQUERQUE4 30.º/10, este último com numerosas referências jurisprudenciais,
reveladoras de uma corrente jurisprudencial maioritária a favor de uma competência exclusiva do juiz de instrução.
176
A única exceção a este modo de proceder ocorre na hipótese de declaração de contumácia de algum dos
arguidos, pois aí a cessação da conexão não pode deixar de ser ditada quanto a quem for abrangido por tal declaração
(cf. art. 335.º-4).
177
Uma preocupação que dá ainda sentido à previsão específica do n.º 3 do art. 426.º, no âmbito da fase de
recurso.

º e para a segunda o art. A pretensão não colherá. no entanto. regulada nos arts.2.2. 27.º. A lei parte do pressuposto de que sim. não levanta quaisquer problemas de interpretação. Diz-se homogénea a conexão que respeita a processos para os quais seriam competentes tribunais da mesma hierarquia e espécie. 179 . excecionando as regras de determinação da competência material e territorial. limitando-se a conexão a refletirse sobre a competência territorial. 27. É aqui que.os 2 e 3). de provocar a cessação da conexão (art. será sempre competente para o seu julgamento o tribunal singular da comarca onde se deu a consumação. quer os processos prossigam separadamente. o mesmo não sucede quanto à questão de saber se entre as várias espécies de tribunais há uns de espécie mais elevada do que outros e quais. CPP Comentado 30. com prevalência desta última180.º e 28.º do CPP italiano. o art. n. pela própria natureza das coisas. por referência aos arts.61 potestativa178. Se a hierarquia.º defere a competência ao tribunal da hierarquia ou espécie mais elevada se os processos conexos devessem ser da competência de tribunais de diferente hierarquia ou espécie. nos aparece a figura da competência por conexão.º e 16. como se referiu. na sequência de queixas que cada um deles apresentou em separado. e heterogénea a que abrange processos que estariam destinados a tribunais de hierarquia ou espécie diferente do que vem a receber a competência através da conexão179. se o requerimento para a formação do tribunal do júri for apresentado pelo Ministério Público ou pelo assistente relativamente a imputação que lhe seja dirigida. 3. 180 Marques da SILVA I7 200. 28.2.º. 181 CHIAVARIO3 IV/10. 27. tendo A simultaneamente injuriado B e C que se encontravam na sua presença e tendo sido abertos dois processos.º. Adotando o princípio da prevalência do “juiz superior”181. É 178 Henriques GASPAR. 15. que inspiraram o regime português nesta matéria.º/3. A conexão pode não ter qualquer repercussão sobre a determinação do tribunal competente para a causa – por exemplo. 30. Para a primeira forma de conexão vale o art. Mas pode também darse o caso de a conexão de processos implicar uma alteração na competência do tribunal que deve apreciar o pleito. mas não esclarece em que termos devem eles ser graduados. quer sejam conexos num processo só. CHIAVARIO3 IV/10.

todas as razões que justamente levaram a lei a estabelecer a conexão. aquele à ordem do qual estiver preso o maior número (critério do forum deprehensionis). se considerados per se: retomando o último exemplo. a). que seria o tribunal competente para o crime de roubo (art. que integra os juízes que comporiam o tribunal coletivo. são de espécie mais elevada do que o tribunal singular. havendo vários arguidos presos. v. em todo o caso. em comparticipação. 25. . subsidiariamente. neste caso.º-4. e se A foi separadamente acusado de um crime de furto (art. A conexão pode ainda influir sobre a competência territorial. c)). b))..º-2. e. 16. em que a competência para o julgamento em separado de cada um deles pertenceria ao tribunal singular e após a conexão passaria a pertencer ao tribunal coletivo (art. que sim182. o tribunal a cuja ordem o arguido estiver preso ou. Marques da SILVA I7 200. nos termos do art.º-1 do CP) e de um crime de roubo (art.º/2. 182 Nesta conclusão. que realiza a atribuição de competência pela seguinte ordem subsidiária de critérios: é territorialmente competente o tribunal que deva conhecer do crime a que couber pena mais grave. 28. Sustentar que. Perante uma hipótese de conexão do tipo das estudadas. art. se um juiz desembargador e um oficial de justiça são acusados da prática. contra. 203. mas já é discutível se o tribunal do júri tem prevalência sobre o tribunal coletivo.º-1. de um crime de corrupção passiva para ato ilícito (art. A conexão pode inclusivamente ditar a competência de uma espécie de tribunal que não teria competência para nenhum dos processos dela objeto. o “plus” que é dado pela intervenção direta do povo na realização da justiça e o próprio estatuto constitucional do tribunal do júri.º). 210. 4. 14. 373.º-2. em caso de crimes de igual gravidade. o tribunal coletivo.º. pode suceder que o tribunal venha a considerar improcedente a acusação relativamente ao crime ou ao arguido que serviram para fixar a sua competência. A solução correta estará pois em manter a competência do tribunal previamente designado. o tribunal da área onde primeiro tiver havido notícia de qualquer dos crimes. b)). considerando a sua composição. seria o caso de A ser acusado separadamente de ter cometido dois crimes de furto simples. parecendo-nos.º-2. Pinto de ALBUQUERQUE4 27. todo o processo deveria ser remetido para o tribunal material e territorialmente competente para conhecer das acusações que ainda podem proceder significaria desatender. o STJ será competente para apreciar em conjunto a responsabilidade penal de ambos (art.º-1 do CP). sem vantagem para o processo e para os seus sujeitos. Assim. 14. da competência do tribunal singular (art. b)) não fosse a conexão. g. do júri e coletivo.62 pacífico que os tribunais colegiais. deverá julgar também o crime de furto.º-1 do CP). tendo depois sido realizada a conexão de ambos os processos (cf. 11. e 24.

acusado de crime de roubo e beneficiário do auxílio daquele. depois “desgraduada” na condenação para uma ofensa à integridade física simples (art. material ou territorial. ordenando a manutenção da competência determinada por conexão a) mesmo que. uma vez cessada a contumácia. porque a tal se opõem o n. acusado de crime de auxílio material.63 É a este fenómeno que se dá o nome de prorrogação da competência. já não necessariamente de competência por conexão.º 1 do art. não há por que pôr em causa a competência do tribunal coletivo para tomar esta decisão condenatória mais branda. apesar de tratar-se de crime para o qual seria. 143.º-1 do CP). o tribunal decida condenar por crime menos grave do que aquele que vinha imputado ao arguido na acusação ou na pronúncia: por exemplo. deverá A ser julgado pelo mesmo tribunal coletivo que julgou B e não por um tribunal singular. o tribunal profira uma absolvição ou a responsabilidade criminal se extinga antes do julgamento. em caso de alteração substancial dos factos. 16. 30. 16. .º do CP). e prosseguindo-se com o julgamento de B.º. fruto de uma alteração da qualificação jurídica dos factos ou de uma alteração não substancial dos factos.º (v.º 3 do art.º 2 do art. VII. 144. 31. em que.. pois quem pode o mais pode o menos e não se mostram comprometidas as garantias de defesa do arguido. separando-se o processo relativamente a A. bem pelo contrário. b))183. relativamente ao crime ou aos crimes determinantes da competência por conexão. e o limite à intervenção do tribunal singular em função da pena aplicável constante da alínea b) do n.º. A hipótese inversa já não é todavia admitida. para a tutela dos interesses e 183 Gil Moreira dos SANTOS 169. g. Verificação da incompetência Considerando o relevo direto das regras legais de definição de competência para a observância do princípio constitucional do “juiz natural”. afinal. competente o tribunal singular (art. em virtude de declaração de contumácia. em caso de acusação por ofensa à integridade física grave (art. Uma idêntica solução de prorrogação de competência deve ainda ser adotada nas situações. e é a ele que se refere o art. 359.º. na hipótese de alteração da qualificação jurídica dos factos. apesar de a pena de prisão aplicável não exceder os 2 anos).º-2. e b) para o conhecimento dos processos separados nos termos do n.

3. no processo penal italiano (art.º 1 do art. 32. pelo arguido ou pelo assistente184. em matéria de incompetência territorial não são postas tão diretamente em causa as garantias do arguido quanto o são em caso de incompetência material ou funcional – sem. porém. CORDERO8 15.º-2). 186 O mesmo sucede. por exemplo. funcional ou por conexão.º. dado que sempre o poderia fazer oficiosamente. Pinto de ALBUQUERQUE4 32. 119. 32. com isto. ela só pode ser deduzida ou declarada até ao início do debate instrutório187. se reconhecer a competência que lhe foi deferida. G. SASTJ 113. e Ac. do STJ de 09-05-2007.º-2 prevê um regime diferenciado para a incompetência territorial que é posto a salvo daquela cominação da alínea e) do art. Études Hugueney 25 nota1. em regra. 21. 32. 32. em virtude de desrespeito das prescrições relativas à competência material. e tratando-se de tribunal de julgamento. deve tomar posição sobre os atos praticados anteriormente (art.º 26. Como. por sua vez. Importa. em especial do arguido. 119.º 14). representa uma nulidade insanável que deve ser conhecida e declarada a todo o tempo. A declaração de incompetência pode ser proferida pelo tribunal de forma oficiosa ou na sequência de suscitação da questão pelo Ministério Público. também ela é do conhecimento oficioso do tribunal. em todo o caso. o qual. 188 O momento relevante é aquele em que a audiência de discussão e julgamento é declarada aberta pelo tribunal (Ac. do STJ 04-07-2007. LEVASSEUR. com indicações jurisprudenciais concordantes).º-1). Quanto à comprovação da incompetência territorial. querermos significar que não tem aqui aplicação o princípio do “juiz natural” –.º A atribuição da causa a um tribunal material ou funcionalmente incompetente.º confere legitimidade para deduzir a incompetência do tribunal. nada impede que o tribunal a declare mediante impulso de uma parte civil. isto é. antes se trata apenas de uma repartição de causas por tribunais de igual hierarquia e competência185. e para uma boa e eficiente realização da justiça penal.º 2.64 direitos dos sujeitos processuais. do TC 71/2000. SASTJ 115. até ao início da audiência de julgamento188 (art. Réflexions sur la compétence. do CPP) – vd.º). distinguir consoante o tipo de incompetência verificada. n. a comprovação da incompetência é de certo modo limitada186: tratando-se de juiz de instrução. 187 Pela conformidade constitucional deste limite temporal. na medida em que o art.º/2. Isto 184 Sendo embora estes os sujeitos processuais a quem o n. podendo igualmente ser deduzida pelos restantes sujeitos processuais. 185 Assim o nota também. até ao trânsito em julgado da decisão final (art. . O tribunal que se declarar incompetente deve remeter o processo para o tribunal por si tido por competente.º. a sua violação com nulidade insanável (art. independentemente de possíveis interrupções ou adiamentos antes do início da produção de prova (contra. o legislador fulmina. exatamente. e)). 33. Ac.

º-6. e um conflito negativo de competência quando vários tribunais de diferente hierarquia. 11. g. O conflito pode ocorrer entre tribunais de comarcas distintas..ª instância194. 189 Marques da SILVA I7 203 s.º não regula o conflito entre tribunais de diferente hierarquia.º-1). Neste último caso. DPP 356. assim. É a este tipo de conflito que o art. Conflitos de competência Tanto relativamente à determinação em concreto da competência material como da territorial pode dar-se um conflito de competência entre dois ou mais tribunais. g. 193 Já é mais duvidoso saber se a ideia vale também para as divergências em relação a uma intervenção em 2. espécie ou localização se declaram incompetentes para conhecer do mesmo crime imputado ao arguido. antes incidindo apenas sobre os atos que se não teriam praticado se o processo tivesse corrido perante o tribunal competente.º 2 do art. Seguindo a terminologia tradicional191... Relação e Supremo divergem sobre qual o tribunal competente para conhecer um recurso interposto pelo arguido de condenação em pena de prisão superior a 5 anos com fundamento exclusivo em vício previsto pelo n. há um conflito positivo de competência quando vários tribunais de diferente hierarquia. se dirige quando faz menção aos conflitos de competência entre as Relações e os tribunais de 1. a). CPP Comentado 34.º/7 s. 192 Ac.ª instância (v. de espécies distintas e inclusivamente de hierarquias distintas. de que o art. 34. para tal invocando o poder do STJ para verificar os pressupostos de conhecimento do recurso.65 tendo em conta que a nulidade decorrente da incompetência não é propriamente uma nulidade do processo189.º/2. Henriques GASPAR. 34. 194 Revela-se. acolhida pelo CPP logo na sua versão original de 1987 (art. no sentido de um conflito entre tribunais hierarquicamente distintos que radica na divergência sobre as respetivas competências para a sua intervenção enquanto tribunais de 1. espécie ou localização se declaram competentes para conhecer do mesmo crime imputado ao arguido. 410. 190 . entende o tribunal de comarca que a competência é da Relação e esta que é do tribunal de comarca 192)193. do STJ de 12-10-2000 (CJ STJ 2000 3 202).º) – considerando que não. Gil Moreira dos SANTOS 179 s. estando em causa o julgamento de um juiz aposentado compulsivamente. 191 Figueiredo DIAS. VIII.ª instância (v. equívoca a afirmação de Pinto de ALBUQUERQUE4 34. devendo ser ordenada a repetição dos atos necessários para conhecer da causa190.

a via processual para a sua superação não é a do recurso195. positivo ou negativo. estabeleceu-se a irrecorribilidade da decisão de resolução do conflito (art. 11.º-6. e aos presidentes das secções criminais das Relações se o conflito se suscitar entre tribunais de 1. 103. 36.ª instância do respetivo distrito judicial (art. 195 Haverá.66 Instalando-se um conflito.º) quando o tribunal negue procedência a uma arguição de incompetência deduzida por um sujeito processual com legitimidade para tal (32. de competência.ª instância de diferentes distritos judiciais (art. procurou-se favorecer um mecanismo de resolução destes conflitos mais leve e mais célere do que aquele que até aí se previa196.º-2.º-2. a competência para a decisão sobre o conflito foi retirada das secções criminais das Relações e do Supremo e entregue aos respetivos presidentes (arts. aos presidentes das suas secções criminais se surgir entre as Relações. base para recurso (399. a)). e 11. impulsionada por um dos tribunais em conflito. .º-2) e impôs-se a sua tramitação urgente (art. Após dar oportunidade a todos os sujeitos processuais envolvidos de manifestarem a sua posição acerca do conflito existente. 482/2014. a)).º-5. Para tal. 11. Na revisão de 2007 do CPP. que podem entretanto considerar-se adensadas em face do decidido pelo TC no Ac.ª instância ou entre tribunais de 1. a)). no entanto. d)).º-5. 12. a)).º-6. mas a da intervenção de um tribunal superior. 12. 196 Suscitando dúvidas de constitucionalidade. a competência para o dirimir pertence ao presidente do STJ se surgir entre as secções deste (art. Pinto de ALBUQUERQUE4 36.º-1) e não haja um outro tribunal a reclamar a sua competência para a causa. a). oficiosamente ou na sequência de requerimento dos demais sujeitos processuais. entre estas e tribunais de 1.º/4.

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