You are on page 1of 420

mm kc. eo M -:- imt tt t$m

A PRESENTE C3RA QUE É DE PROPRIEDADE

DO DEPA TAMENTO NACIBNAL CO

CAF* FOI ADQUIRID/k EfA^.^^fÂ/ ...

AUTORIZAÇÃO N.

FICA Á CARGO

.

AFFONSO DE E.TAUNAY

DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

TORI^

N( i

AS I

VOLUME SEGUNDO

NO BRASIL COLONIAL

1 727 - 1822

(TOM.O II)

Edição do

DEPARTAMENTO NACIONAL DO CAFÉ

Rio

de Janeiro

1939

Historia do Café no Brasil

AFFON50 DE E. TAUNAY

DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS)

Historia do Café

no Brasil

VOLUME SEGUNDO

NO BRASIL COLONIAL

1 727— 1 822

(TOMO II)

DEPARTAMENTO NACIONAL 00 CAFE

SECÇÃO OE ESTATÍSTICA

fi

\

AGO 30 1939

BIBLIOTECA

Edição do

DEPARTAMENTO NACIONAL DO CAFÉ

Rio de Janeiro

£?3.?3(S ')(<>*)

fX?J>

1939

I. 3. 0.

BI 6L I

CA

N.».m/tó

;_

RiO ÍâNEÍRO

CAPITULO IX

Depoimentos coloniaes sobre a cafeicultura na Amazónia

O Padre João Daniel O ouvidor Ribeiro de Sampaio Considerações de Ferreira Reis. Depoimentos de

Alexandre Rodrigues Ferreira

Vejamos, porém, alguns

cafeicultura na Amazónia.

depoimentos antigos

sobre a

A Francisco Adolpho de Varnhagen se deveu a iniciativa

de se encetar a publicidade de volumoso códice da nossa Bi-

bliotheca Nacional o

Thesomo Descoberto no Máximo Rio

Amazonas, por elle feito inserir no tomo II da Revista do

Instituto Histórico Brasileiro.

Preciosíssimo, delle dizia

o

futuro Visconde de . Porto

Seguro "obra gigantesca", Já uma parte,

a quinta fora im-

pressa na Imprensa Regia do Rio de Janeiro em 1820.

Relatava Varnhagen que os originaes

ao seu

dispor se

compunham das quatro primeiras partes sabendo-se da exis-

tência em Évora, da sexta, por informação do douto Joaquim

Heleodoro da Cunha Rivara, bibliothecario

eboracense.

da

rica livraria

A autoria de tal manuscripto é do jesuíta João Daniel,

durante dezoito annos missionário na Amazónia. Dalli par-

tira preso para ser encerrado na fortaleza de São Julião da

Barra de Lisboa, onde compuzera o manuscripto.

•Em 1767, remettera-o a seu irmão, pae do bibliothecario Fr. Gregorio, franciscano. Este delle herdando, offereceu-o ao

celebre arcebispo de Évora, Dom Frei Manuel do Cenáculo

Villas Boas.

Dahi a existência naquella cidade, da sexta parte do The-

souro. A

Revista do Instituto

Brasileiro em vez

de publicar

a obra na integra, só inseriu a parte segunda nos tomos 2 e 3,

em 1840 e 1841. E em 1878 ( !) a sexta parte. Até hoje não

sabemos se as demais partes foram impressas, mas pensamos

que não.

AFFONSO DE E. TAUNAY

A quinta, a que se imprimiu em 1820 constitue verdadeira

raridade bibliographica. Cuida sobretudo dos meios necessários

á povoação e augmento do Rio Amazonas ("Amazónia").

"Depois de tratar dos cereaes e do incremento da cultura

da mandioca, occupa-se, no capitulo II "de numa nova praxe para a cultura da maniba".

Aconselha ahi, aos apaixonados da farinha de pau, que dispuzessem de gente e arvores para a plantação da euphor- biacea a tratar de cacauaes e cafesaes "e mais plantamentos

dos mais preciosos géneros

do

Amazonas, porque assim

poderiam as colheitas annuaes pagar

o

insano trabalho dos

roçados".

Documentando

o caso, lembrava o Padre

João Daniel

que numa chácara da Companhia, onde se plantava mandioca,

apesar de

ter

olarias, engenhos de aguardente,

ferreiro, de tecelagem

e

fabricação de canoas,

officinás de

a exploração

do cacaual e do cafesal apenas clava para as despesas. Annos

houvera em que o saldo da fazenda apenas attingira um cru-

zado novo

(480 réis).

"Se não tivesse o cacau, o café, e as officinás e só cul-

tivasse a mandioca, onde ficaria a receita?"

Grande apologista da cultura

do

cacau,

dizia

o

jesuita:

"Será para todos hum bom thesouro e se não vejam: dado

que cada anno façam do roçado duzentas braças para os plan- tamentos que se costumam da mandioca, arroz, milho, tabaco,

convertidos os seus terrenos depois em plantamento de cacau

disposto como costumava de dez

em

dez palmos,

fazem o

numero de quarenta mil pés e já nestas quarenta mil ficam

quarenta mil cruzados."

Em dez annos, em cacau, teria o agricultor quatrocen-

tos mil cruzados

de fundo. Mas o theobroma

queria terras

húmidas e alagadiças, e as que tinham por baixo o barro taba-

tinga. Assim, nas demais

fossem plantadas plantas preciosas

como café,

cravo,

salsaparrilha

puxeri, guaraná,

canella.

O melhor era ter lavoura variada como, por exemplo, cacau,

café, cravo e

salsa.

"Verbigratia," dizia nosso autor,

dispondo em duzentas

braças

(em quadra)

quarenta mil craveiros em áreas iguaes

se disporiam outros tantos cafeeiros, canelleiros,

fazendo as-

sim hortenses aos mais preciosos haveres do sertão".

Recommendava João Daniel, e muito, também, a cultura

do algodão. E reiterava as recommendações sobre o. aprovei-

tamento dos terrenos dos mandiocaes, respondendo ás obje-

HISTORIA DO

CAFÉ NO BRASIL

7

«cções dos que allegavam os fortes

cacaual.

dispêndios

de custeio

do

<f O trabalho dos roçados c da preparação do terreno é o

mesmo que costumam fazer para as roçadas da maniba; está

a ponto na conservação do dito terreno, he o mesmo que

-costumão fazer para as roçadas; e fazem no terreno os plan- tamentos.

E assim não necessitão de mais gente e de mais operários

-que os acostumados. A razão he que dão mais trabalho que

lucro he tão

fútil como

se dissessem

que lucro de humana

quantia he menos do que o trabalho que nella tem o quinteiro.

Porque demos que hum cacaual v.

g .

de mil pés só dá

no anno cem arrobas de cacáo (ha annos em que dará para

-cima de "seiscentas)

he pouco lucro, para hum morador que

com elle não gasta nada? He pouco sim, não a respeito do

trabalho, mas a respeito da ambição com que logo

os habi-

tantes do Amazonas querem ser ricos no primeiro anno, em-

bora que na Europa pedissem huma esmola para viver !".

O 1 cafesal este era muito menos dispendioso, no dizer do

jesuíta.

"As plantas do café ainda têm menos trabalho a se

plantarem, e se conservarem, porque, a principio, basta se fa-

zer a sua semeadura ou plantamento e sem precisão de paco-

veiras

nem, vigilância para diante

do lagartão

ou hervas

de

passarinho porque não tem esses inimigos. si tem alguma impertinência as suas colheitas em razão

de ser mais miúda a sua fruta, e por ser necessário descascal-a

o que costumão fazer em pilões.

Mas tão bem é trabalhado de pouca monta, que ninguém

regista pelo custo, especialmente attendendo ao muito que fru-

ctifica, pois sempre está com fructo, hum já maduro, outro

em botão, outro em flôr; emfim tudo vae da boa ou se-

meadura".

.

No capitulo IV "De modo mais fácil de se augmentarem

as preciosas riquezas do Amazonas, com grande conveniência não dos particulares como de todo o Estado", trata o Pa-

dre João Daniel da questão dos transportes, capital, naquella

immensa região lacustre.

Se os governantes da Amazónia quizessem ver em poucos

annos augmentado o seu império, usassem de melhor econo-

mia: desterrassem de vez as canoas do sertão fazendo appli- cação dos índios em quaesquer outros operários para augmen-

tar seus sitios e quintas e tornarem-nos em grandes fazendas.

Fizessem

hortenses as

riquezas das

mattas e veriam

como em seis annos

seriam tantos

os

fructos e haveres do

10

AFFONSO DE E. T.AUNAY

"A planta do café foge dos alagadiços, e quer terra secca, e he huma das mais estimadas plantas pelo muito que carrega,

e fructifica logo no segundo ou terceiro anno, e, por isso, deve

levar huma das primeiras attenções aos lavradores do Amazo-

nas; nem para se colher he necessário apanhal-o das arvores.

Basta conservar-lhe limpo o terreno e de quando em quando

varrer, alimpar do chão os fructos cahidos e, deste modo, se fazem com mais facilidade as suas colheitas".

Como vemos, era o custeio do cafesal recommendado sob

a forma dos mais rudimentares processos.

Ultimando as suas instrucções,

lembrava o

loyolista aos

confrades, e a todos os missionários em geral, que elles pró- prios tratassem de fazer plantações desses géneros coloniaes,

procurando, por exemplo, logo encetar as' lavouras numa área de mil braças quadradas.

Não tivessem o mínimo receio de que, ao cabo de tres ou quatro annos, lhe faltassem haveres com que poudessem fazer seus provimentos e acudir ás necessidades dos indios. Com os

recursos da nova industria, muito mais vantagens teriam do

que com as montarias do sertão, cujos productos sahiam muito

caros aos pobres autochtonos e eram muito contingentes.

Embora incidentemente cuida o Padre João Daniel da

cultura cafeeira na Amazónia, não deixa de ser documento de

notável importância para o estudo da propagação da rubiacea no Brasil este opúsculo da quinta parte do Thesoureiro desco-

berto 110 rio Amazonas, escripto, sobretudo, com o

fito

de

se

fazer a propaganda da lavoura do cacau e combater a da man-

dioca, que devia ser desterrada do Amazonas como mais per-

niciosa que util aos seus habitantes.

Contra essa, lançava o nosso autor sete argumentos, ao

seu ver, capitães.

Curiosas as restricções do missionário, inimigo acérrimo da farinha de pau.

Terminando as objecções dictadas por tal antagonismo e

certo

de

que eram

convincentíssimas,

irrespondiveis, excla-

mava: '"'Vejam se não merece a farinha de pau huma total dei-

xação para sustento ordinário !"

"Bastava que de tão perniciosa lavoura ficasse o pouco

necessário para amostra de alguns escaldados e alguns outros

usos extraordinários."

Pouco se tem publicado sobre o café no território do irh-

menso Amazonas, quer quando dependência do Pará, quer de-

pois de constituída

a

Capitania de São José do Rio Negro.

Na excellente Historia do Amazonas, por

Arthur Cesar

HISTORIA DO

CAFÉ NO BRASIL

11

Ferreira Reis, obra realmente digna de apreço, colhemos al-

guns dados, dos que foram colligidos, com o maior afinco, pelo

erudito autor, em differentes pontos.

A agricultura, nos tres primeiros decennios da capitania,

continuação da que os carmelitas iniciaram, teve regular desen- volvimento devido, principalmente, ao incitamento do ouvidor Sampaio e do general Pereira Caldas. Constava de anil, café, tabaco, algodão, cacau, arroz, milho, feijão, canna de assucar e

maniba. Dava para o consumo interno.

Do café, anil, cacau

e tabaco, os colonos faziam alguma exportação para Belém.

Em 1785, seguiram para Lisboa 13 arrobas e 9 libras de anil;

em 1786, 80 arrobas; em 1787, 180. Em 1785, foram expor-

tados, para Belém. 1.200 arrobas de café e 1.600 arrobas de

tabaco, cultivado em Serpa, Borba e povoações do Rio Negro.

O ouvidor Ribeiro

de Sampaio

recenseou, em

1775,

a

 

producção da Capitania,

encontrando estes

algarismos :

12.086

arrobas de cacau, 470 de café, 295

de salsa.

Havia 220.920 pés de café, 90.350 de cacau, 47.700 de ta-

baco, 870 de algodão. Alexandre Rodrigues Ferreiras, só em cinco pontos do Rio Negro, em 1787, verificou 810 arrobas de

café, 295 de cacau, 29 de algodão e 176 de tabaco. A cultura

da terra, assim emprehendida, lutava, no emtanto, com vários embaraços, que, na observação do naturalista Alexandre Ro-

drigues Ferreira, eram a resultante da indolência dos nativos, de hostilidade do gentio, da falta de braços, da preoccupação

constante de colher os

productos naturaes, mais

conhecidos

por drogas do sertão, da prosápia dos portuguezes, que se não baixavam a taes mistéres, da ignorância dos bons methodos e de outras de menor importância.

Óptimo quadro, e o mais

suggestivo, dá-nos

o escriptor

amazonense tão versado nas cousas da

sua terra, das condi-

ções do commercio

e

da industria

quartel do século XVIII

do

Amazonas, no ultimo

"A industria,

de lado o

fabrico

de

tecidos de algodão,

que o general Pereira Caldas criou, era toda manufactureira. Reduzia-se ao preparo da manteiga, das banhas e dos ovos de

tartaruga, ocupação da gente do

Solimões, porque prohibida,

terminantemente, com as espécies da Rio, Branco, de accordo

com o bando de Tinoco Valente, em 1778, á salga do pira-

rucu; a objectos de

louça, confeccionados nas quatro olarias

que funccionavam no Logar da Barra, em Moura, Barcellos e

Poiares ; a pães de guaraná,

trabalhos

dos Maués ; á aguar-

dente de canna e mel, obtidos em toscos engenhos ; a rêdes de .algodão o de folhas de Miriti ; a cujas, chapéos de palhinha,

  • 14 AFFONSO DE E. TAVNAY

Deixou grande numero

de

obras

manuscriptas. DestaS'

publicaram-se posthumas as seguintes, que nos interessam es- pecialmente :

Diário da viagem que, em visita e correição das povoações

da capitania de São José do Rio Negro, fez sendo ouvidor e

intendente geral da mesma capitania nos annos de 1774 e 1775

(Impressa em 1825).

Appendice ao mesmo diário

Extracto da segunda viagem em

visita

é correição das

povoações da capitania de S. José do Rio Negro, fez coma

Ouvidor e Intendente geral da mesma capitania nos annos de -

1772 e 1774.

(Sahiu na Revista do Instituto Histórico Brasi-

leiro, tomol). Relação Geographica e histórica do Rio Branco da Ame- rica Portugueza, que compoz, sendo Ouvidor da Capitania de

S. José do Rio Negro (no tomo 13° da mesma revista).

Mostra em todas estas obras, grande erudição, principal-

mente em jurisprudência e nos Diários das viagens conheci-

mento exacto das terras brasileiras.

A3 de Agosto de 1774, sahiu Ribeiro de Sampaio Bar-

cellos, Rio Negro abaixo, passando por Poiares, Carvoeiro e

Moura.

A

13 de Setembro, seguinte,

setava em

Silves, no

for-

moso lago de Saracá, acerca do qual escreve

"Pelo lago estão semeadas muitas ilhas de terra

firme,

e elevadas, por cuja causa

fazem elegante perspectiva. Em

huma

delias, á raiz de

huma

collina, está

situada a villa,

olhando para o oriente. Estende-se por toda a sua elevação, e

quasi rodeada de agua.

Superior lhe fica outra collina mais

elevada, que por estar estofada

de

altos e espessos bosques,

lhe fórma agradável coroa. São estas ilhas

fertilissimas para

todo o género de plantações. A que mais se dedicão os seus

habitantes he o tabaco, que passa por excellente. O algodão

lhe finissimo. As margens dos seus canaes serião próprias para

o cacao e café, plantações até aqui desprezadas, mas que agora

principião a cultivar; porto que não terão grande augmento, até que se não extingua o gentio Mura, que costuma assaltar

as rossas das visinhanças. Tem somente hum desconto a terra

que he a formiga, que costuma destruir as lavouras feitas nas

capoeiras, isto he, nas terras, em que já se cortou mato tem novamente crescido."

De Silves foi a Serpa, subindo pelo Madeira até Borba.

Do grande af fluente meridional do Amazonas diz que seu

verdadeiro descobrimento fôra feito por Palheta

em

1725.

HISTORIA DO

CAFÉ NO BRASIL

15

Voltando ao

Solimões, attingiu

a foz do Purús, vendo

muitos caucauaes sylvestres pelo percurso.

Navegou Ribeiro de Sampaio até Tabatinga e suas pagi-

nas estão apinhadas de informes preciosos e pitorescos.

Quando esteve entre os cambebas aldeídos

em torno de

S. Paulo de Oliveira, annotava "Dos Cambébas aprenderão as mais nações, e igualmente

os do Pará, a fabricarem a celebre gomma, ou resina elástica,

chamada vulgarmente leite de seringa, porque daquella gomma

se

fazem; e também outras obras, como botas,

sapatos, cha-

péos, vestidos, etc, que tudo he impenetrável á agua.

Chegado á Fortaleza da

Barra do Rio Negro,

cellula

mater da cidade de Manáos, seguiu o ouvidor para Moura,

da qual diz :-

f 'Compõe-se esta villa das nações Manáos, Carayás, Co-

euana e Juma, e de vários moradores brancos, que se applicão

á cultura do café e cacáo, sendo ella huma das mais bem po-

voadas desta capitania. Destas nações he muito famosa a Ca-

rayás, antigamente guerreira, antagonista da nação Manôa." Do Rio Negro passou Sampaio ao Rio Branco, e, a tal

propósito, escreve umas paginas sensatas e interessantes sobre

o El Dorado, da qual acaba af firmando

"Em fim, o lago Dourado, se existe me persuado, que

lhe somente, nas imaginações dos hespanhoes, que tenho no- ticia certa ainda actualmente fazem diligencia pelo achar; mas,,

na verdade, esta matéria deve ser tratada pelo modo alle- gorico e irónico, com que delia escreveo hum author famoso

Mr. de Voltair (sic) : Candide ou VOptimisme.

Voltando a Barcellos, que então era a capital da Capitania,

cruzou por

escreve

Moreira, á margem

do Negro. A tal propósito

"A' uma das tarde de 17 de fevereiro (de 1765) chegá-

mos ás terras firmes que principião a elevar-se pela sua mar- gem meridional, e na verdade são muito agradáveis por todas

estarem cheias de rossas, que continuão até o lugar de Moreira,

ao qual chegamos pelas oito horas da noute.

Occupa este logar

huma

bellissima situação na mesma

margem austral o Rio Negro. Concorre para a fazer vistoza

a largura do rio despido de ilhas.

He habitado de muitos moradores brancos, que se apli-

cão á cultura do café e cacao, de que já tem bem estabeleci-

das fazendas. A's nações de indios que o habitão, são Manáos e Baré. As terras das suas vizinhanças" são também muito pró-

prias para a mandioca; posto que presentemente huma incrível-

  • 16 AFFONSO DE E. TAUNAY

multidão de porcos

do matto destruísse

quasi inteiramente

as rossas sem se lhes poder atalhar."

Pelas oito da manhã de 19 diz Sampaio : "Sahimos deste

lugar, e continuamos a viagem seguindo a dita margem austral,

também muito vistosa, por se achar, cheia de fazendas de café,

e cacáo; depois de meio dia deixamos a margem, e entramos

a navegar por hum canal de rapidissima correnteza.

Tínhamos deixado a mesma margem o rio iJarirá, que

tem as suas fontes próximas ao rio Japurá,

e he

composto

de muitos e extensos lagos. Foi antigamente habitado da na-

ção Manáo, e daqui principiava a estender-se por huma e ou-

tra margem do rio até á ilha de Timoni. Com feliz viagem, continuada ainda por entre ilhas, che- gamos ao meio dia á villa de Thoinar.

Em Thomar muitos moradores brancos se appliçavam a

"lucrosas culturas de café e cacáo."

Da grande

figura

de Alexandre

Rodrigues Ferreira

(1756-1815)

muito já se tem dito, mas ainda não ha obra

publicada que, realmente, traduza a altura exacta dos méritos

no naturalista illustre para

quem tão madrasta

foi

a

sorte.

Tornou-o o Destino victima de clamoroso caso de sic vos non

vobis, como é demais sabido, em virtude do que lhe trouxe a

invasão franceza em Portugal, no anno de 1807, e a falta de

consciência de Geoffroy Saint Hilaire.

Da valor deste scientista largamente se occupou

Gceldi

ha magnifica synthese

na noticia que

o douto

Rbdolpho

Garcia lhe consagrou em sua Historia das Explorações scienti-

ficas no Brasil.

Referindo-se á demarcação das fronteiras hispano-ame-

ricanas da America do Sul, escreve:

"Ao expor summariamente os memoráveis serviços que

os demarcadores prestaram ás Sciencias

em fins do século

XVIII, somos levados a relatar, de igual modo, trabalhos da

outra expedição scientifica, que, coetaneamente operou na ba-

cia amazonica.

Referimo-nos ás explorações que o Dr. Alexandre Rodri-

gues Ferreira levou a effeito de 1783 a 1792, "em continuas

e perigosas viagens

pelas dilatadas

capitanias do Pará, Rio

Negro e Cuyabá, conforme reza a portaria de 8 de Julho de

1794,

em que

D. Maria

I lhe

fez donativo

do

habito de

Christo com 60$000 de tença. Era o primeiro vassallo portuguez, salienta a mesma por-

taria, que exercitava a empresa de naturalista, encarregado de

observar,

acondicionar e remeter

para

o

Real Museu

da

HISTORIA DO

CAFÉ NO BRASIL

17

Ajuda os productos dos tres reinos, animal, vegetal e mineral,

sendo igualmente incumbido de todo o género de observações

philosophicas e politicas sobre as differentes repartições e de-

pendências da população, agricultura, navegação, commercio e manufacturas."

No Diário da Viagem Philosophica pela Capitania de São

José do Rio Negro com a informação do estado presente, da

autoria do emérito bahiano encontramos diversas referencias

ao café, algumas.de alta importância. Escrevendo de Barcellos, sobre o Rio Negro, a 17 de

janeiro de 1786, dizia

"A agricultura dos indios consiste

em

maniba e algum

café; assim esta gente não é

tão

falta, como se pensa, das

idéas de * interesse.

O ponto está além da nossa parte sabermos fomental-as.

Vêm que o café é género

lucrativo

para

os brancos, e

elles, que já hoje estimam a camisa de bretanha com punhos,

o calção de tafetá encarnado, o

chapéo

á

nossa moda, sob

pena de não irem á missa nos dias do preceito, quando se en- vergonham de não terem a tal farça, elles digo eu, não deixam

de trabalhar o que podem, e o que se lhes permitte, para a

adquirirem. Fallo dos indios aldeiados nas povoações aonde nasceram,

e observaram desde pequenos a policia portugueza. Os mora-

dores brancos avançam a algum cacáo, arroz algodão, milho,

feijão, etc, o consumo, porém, de suas lavouras consiste igual-

mente na maniba e no café.

Nas terras

da

costa

frontiera

é, que

cultivam o cacáo,

porque nellas também é, que se melhor. "Comtudo, passados dois annos, sobrevem o lagartão que

o mata; a maniba, o arroz, e o milho

dão-se

bem e o café

nasce, cresce, e fructifica, mas não tanto como em outras par-

tes, esta qualidade de terra

é de sua

natureza

alagadiça; as

aguas das chuvas ficam nella estagnadas, e conservando-se alli,

tanto pela natureza da argila, como pela posição do terreno, vão apodrecer as raizes da planta.

Donde se seguio, que não o café, mas também a maniba

do anno passado,

foram colheitas menos vantajosas ; porque

João do Rosario, que no outro anno havia colhido 52 arrobas

de café, no anno que findou apenas colheu 10, Joseph Este-

vam de Brito, que havia colhido

20, então colheu 10, Custodio

Máximo, que tinha colhido 16, então colheu 9.

Ora, ainda que a chuva, demasiada e intempestiva, não

obrasse immediatamente sobre as raizes das plantas como deve

18

AFFONSO DE E. TAUNAY

cbrar nas terras alagadiças, e como provam que obrara as pou-

cas raizes de maniba, de outros modos diminue a

fructifica-

ção; apodrecendo

os

rudimentos dos

fructos minados que-

brando os pedúnculos das flores, e levando o pólen que vi-

vifica o fructo.

A mesma terra, que no inverno

é alagadiça,

com o

sol

do verão esgreta, e se atorroa, e á força de braços ou de

instrumentos, que não ha, se esboroa e se mobiliza. Para evi-

tarem o demasiado calor, costumam

sombra dos ingazeiros.

abrigar os cafezeiros

á

O arroz por outra parte padece o inconveniente de ser

devorado pelas

melros do reino.

araúnas, que

são

certos

pássaros

como os

O expediente, que tomam os lavradores, nem se pra-

tica nesta colónia, nem ha forças

nem autoridade prudencial

bastante para obrigar aos brancos misturados com os indios,

a que obrem como brancos e não como indios. Occasiões tem

havido, em que as mesmas roças de maniba tem sido destruí-

das afinal por uma innumeravel multidão de porcos, que alli

chamam taiaçus.

A somma total da colheita do anno passado, consta do

segundo mappa junto; nem ha homens nem animaes para as

lavouras ; pela primeira vez que estive na povoação, haviam

apenas duas vaccas, um garrote e um carneiro, que bem perse-

guidos eram das onças ; o mato está longe da povoação, e as

onças tão pouco atrevidas, que não ha muito tempo que os

rapazes deram de uma, que estava de noite á porta do di- rector. Já agora em Janeiro ficavam recolhidas onze cabeças

que eram dos moradores, e estavam na villa de Thomar.

O meu juizo a respeito da agricultura do logar é, que o

que a terra pôde produzir de maniba' arroz, feijão, e milho, e

ainda de algodão e café, é sem conta, mas o que de facto, produz é muito pouco, porque o trabalho a fazer é muito, e a preguiça muito mais ; porque os esforços dos que não são preguiçosos encontram a falta de braços do que necessitam;

porque dos pretos, que entram no Estado não se -fiam alguns

aos lavradores capazes de os pagar, como Vossa Excellencia

fez,

fiar, para esta capitania,

durante o seu governo, no in-

tuito de promover a cultura e manufactura do anil ; porque os

poucos indios, que ha são incessantemente distrahidos para o

serviço das expedições regias; porque

os

que nellas andam

empregados, e nellas

dezertam ou morrem, não

são substi-

tuídos por outros novamente descidos."

Pensavam aliás os moradores que lhes valia muito mais.