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http://dn.sapo.pt/2008/05/21/opiniao/onde_esta_o_lado_certo.html

ONDE ESTÁ O LADO CERTO?

Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt

José Sócrates fuma nos aviões e, acaso, fora deles; Sarkozy é muito dado às pequenas; Gordon Brown
rói as unhas; o filho da princesa Ana de Inglaterra casou-se com uma canadiana; Hugo Chávez perdoou
a Espanha a grosseria de El-Rei; a actriz Ellen Degeneres anunciou a felicidade que a inunda, pois vai
trocar alianças matrimoniais com Portia de Rossi, a companheira de mesa e de leito; Campos e Cunha,
economista, professor e antigo ministro, amolga o carácter de Manuela Ferreira Leite, acusando-a de
"esfaqueamento" pelas costas; Pedro Santana Lopes qualifica a referida senhora de "deprimente"; Bush
revela-se um pouco alarmado com a América Latina, "demasiado vermelha"; o PSD parece um saco de
gatos, mas três "cientistas políticos", Marina Costa Lobo, André Freire e António Costa Pinto sossegam o
nosso alvoroçado espírito, afiançando ser "normal" a crise naquele partido, o qual não corre "perigo de
extinção"; em escassos cinco dias o preço dos combustíveis subiu duas vezes, e o admirável ministro
Teixeira dos Santos declama, à posteridade, que "temos de nos habituar"; enfim, o dr. Bagão Félix
publicou um livro de contos, O Cacto e a Rosa, por ele próprio definido como "histórias mais
ficcionalmente reais do que realmente ficcionadas".

Há, em todas estas notícias, um discreto fio que as une e, até, explica: a vacuidade, com a aparência de
seriedade, em que se tornaram as sociedades nossas contemporâneas. São os caprichos do momento
convertidos, pela imprensa, as rádios e as televisões, nas falsas evidências da razão. E embora saibamos
(alguns) que o tempo é mais importante do que aquilo que com ele fazemos, estamos a aceitar o
temporário como definitivo, e a não compreender que a vida é um permanente processo de correcção.

Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores:
desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura,
educação. Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar. E essa
dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas
traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços. Como já
poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé. Mas não corresponde à verdade. Recomendo aos
meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José
Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva. Todos interpelam o
País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos
e interrogamos.

O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação.

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