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COM

INERRÂNCIA E RESSURREIÇÃO
WILLIAM LANE CRAIG

PERGUNTA
Eu estive lendo um debate entre William Lane Craig e Bart Ehrman e anexei um trecho dele abaixo.
Craig se recusa a responder se a Bíblia é inerrante ou não quando questionado diretamente por um
membro da audiência. Ele meramente se esquiva da pergunta e responde que não é isso que eles estão
debatendo.
1. Que fontes externas (fora do cânon) existem para sustentar a morte de Jesus, o sepultamento, a
ressurreição em forma corpórea e a ascensão aos Céus?
2. A mensagem de Jesus foi espalhada de forma oral até que os evangelhos foram escritos. Como
sabemos que não se desenvolveram lendas tais como Jesus ter sido sepultado por José de Arimatéia?
3. O que dizer de outros pagãos operadores de milagres como Honi, o Desenhista de Círculos; Hanina
ben Dosa e Apolônio de Tiana? O fato de esses pagãos operarem milagres similares ao de Jesus não tira
o crédito de Jesus como operador de milagres?
4. O que dizer das aparentes contradições nos diferentes relatos do Evangelho? Por favor, dê-me uma
resposta diferente de “Esses são apenas detalhes secundários e não estão no coração da questão.” Se nós
frequentamos uma universidade que declara que a Bíblia é inerrante, então não deveríamos explicar
essas questões? Eu vou citar o Sr. Ehrman em seu debate com Craig:

“Em qual dia Jesus morreu e em qual horário? Ele morreu um dia antes do pão da Páscoa ser
comido, como João explicitamente diz, ou ele morreu depois dele ser comido, como Marcos
explicitamente diz? Ele morreu ao meio dia, como é dito em João, ou às 9 da manhã, como
dito em Marcos? Jesus carregou sua cruz sozinho por todo o caminho ou Simão de Cirene a
carregou? Isto depende de qual evangelho você lê. Os dois ladrões zombaram de Jesus na
cruz ou apenas um deles zombou dele enquanto o outro o defendeu? Isto depende de qual
evangelho você lê. O véu do templo se rasgou ao meio antes de Jesus morrer ou depois?
Depende de qual evangelho você lê. Ou então pegue os relatos sobre a ressurreição. Quem
foi ao sepulcro no terceiro dia? Maria foi sozinha ou com outras mulheres? Se Maria foi com
outras mulheres, quantas outras estiveram lá, quem eram elas e quais eram seus nomes? A
pedra que lacrava o sepulcro rolou antes de chegarem lá ou não? O que elas viram no
sepulcro? Elas viram um homem, elas viram dois homens, ou elas viram um anjo? Depende
do relato que você lê. O que elas disseram aos discípulos? Era para os discípulos
permanecerem em Jerusalém e ver Jesus lá ou era para eles saírem e verem Jesus na Galiléia?
As mulheres falaram com alguém ou não? Depende do evangelho que você lê. Os discípulos
nunca abandonaram Jerusalém ou eles a deixaram imediatamente rumo a Galiléia? Todas as
respostas dependem de qual relato você lê.”

Bem, agradeço qualquer ajuda. Por favor, não me mande ler nenhum livro ou site, porque já estou
lendo “Evidência Que Exige Um Veredito” de McDowell e “Em Defesa de Cristo” de Strobel.
Posso obter uma resposta direta para cada questão de um dos principais Centros Apologéticos
Cristãos no mundo?
Obrigado,
Grant.

RESPOSTA
Se você pode obter respostas diretas à sua pergunta? Pode apostar! Continue lendo.
Primeiro, para determinar o contexto, você coloca de uma forma um tanto tendenciosa quando diz
que eu “meramente me esquivei” da questão sobre inerrância bíblica em meu debate com Bart Ehrman
sobre a existência de evidências históricas para a ressurreição de Jesus. Uma maneira mais simpática e,
eu acho, mais acurada de dizer seria “Craig recusou deixar Ehrman desviar o debate para uma discussão
sobre inerrância bíblica, mas manteve o debate nos trilhos.” Talvez uma ainda mais acurada leitura da
situação seria: “Ehrman tentou incitar Craig a fazer uma afirmação da inerrância bíblica para que ele
pudesse atacar a objetividade de Craig e, portanto, sua integridade como historiador; mas Craig,
sabendo que sua defesa da ressurreição de Jesus não pressupõe a inerrância bíblica, se recusou a morder
a isca.”
Como eu explico em minha Questão da Semana “Errância Bíblica a quê Preço?” Ehrman, quando era
um cristão, tinha um sistema teológico falho no qual a inerrância está no próprio centro de sua teia de
crenças, de forma que, uma vez que ele se tornou convencido de um único erro nas Escrituras, toda a
teia desmoronou. O resultado é que a doutrina da inerrância aparece de forma anormalmente grande em
seu pensamento. Mas a defesa da ressurreição de Jesus que eu apresentei de maneira nenhuma
pressupõe a inerrância dos documentos, de forma que essa doutrina se torna irrelevante para a crença na
ressurreição.
Agora, às suas questões...

1. Que fontes externas (fora do cânon) existem para sustentar a morte, o sepultamento, a ressurreição em forma
corpórea de Jesus e sua ascensão aos céus?
Na verdade, existem várias fontes extra-canônicas que sustentam a morte, o sepultamento e a
ressurreição, fontes as quais eu suspeito que você nunca tenha pensado. Você está pensando em fontes
extra-canônicas posteriores, como Josefo e Tácito. Mas as fontes extra-canônicas realmente interessantes
são as antigas, ou seja, as fontes usadas pelos próprios escritores do Novo Testamento. Mas, antes que
você diga “falta!” você precisa refletir que essas fontes não estão as próprias no cânon, mas são ainda
mais próximas dos eventos que os livros canônicos. Essas são, portanto, o centro do estudo histórico
sobre Jesus hoje, não as fontes extra-canônicas posteriores. Honestamente, se você está focando em quais
fontes extra-canônicas posteriores existem sobre Jesus, você realmente está perdendo o barco.
Quais são algumas dessas fontes? A história da Paixão usada por Marcos, fórmula citada por Paulo
em I Cor. 15.3-5, a fonte especial de Mateus chamada de M, a fonte especial de Lucas chamada de L, e
assim por diante. Algumas delas são fontes incrivelmente antigas (o que ajuda a responder sua segunda
pergunta). A história da paixão pré-Marcana provavelmente data dos anos 30 e é baseada nos
depoimentos de testemunhas oculares, e a fórmula pré-Paulina em I Cor. 15.3-5 foi datada de alguns
poucos anos ou até meses depois da morte de Jesus. Eu acho que você pode ver porque essas fontes são
realmente interessantes, não algum relato posterior de Josefo.
Ora, essas fontes fornecem um testemunho abundante e independente para a morte, o sepultamento e
a ressurreição de Jesus. Referências posteriores a Jesus pelo historiador romano Tácito, o historiador
judeu Josefo, o escritor sírio Mara bar Serapion, escritos rabínicos e autores cristãos extra-bíblicos
confirmam o que os documentos do Novo Testamento nos contam sobre Jesus, mas não nos dão nada de
realmente novo. Você pode encontrar essas fontes citadas e discutidas no excelente livro de R.T. France
“The Evidence for Jesus” (A Evidência para Jesus - 1986) ou no definitivo livro de Robert Van Voorst
“Jesus Outside the New Testament” (Jesus Fora do Novo Testamento – 2000). Porém, não será estas
fontes posteriores a chave para o historiador, mas os próprios documentos do Novo Testamento e suas
fontes.
O que me leva a fazer essa pergunta a você: porque você está interessado em fontes extra-canônicas
em vez de nos próprios documentos-fonte primários? A sua própria pergunta não revelaria um
preconceito de que os documentos do Novo Testamento não são confiáveis? Mas, se essas são fontes fora
do Novo Testamento que falam de Jesus, ah, essas são evidências de verdade!
Você precisa ter em mente que originalmente não havia um livro chamado de “Novo Testamento.”
Havia apenas esses documentos separados vindos do primeiro século, coisas como o Evangelho de
Lucas, o Evangelho de João, os Atos dos Apóstolos, a carta de Paulo à igreja em Corinto, Grécia, e assim
por diante. Foi apenas alguns séculos depois que a igreja oficialmente reuniu todos esses documentos
sob uma capa, que veio a ser conhecida como o Novo Testamento. A igreja apenas incluiu as fontes mais
antigas que eram mais próximas a Jesus e aos discípulos originais e deixou de fora os relatos
secundários, como os evangelhos apócrifos, que todo mundo sabia serem falsos. Então, na própria
natureza do caso, as melhores fontes históricas foram incluídas no Novo Testamento. Pessoas que
insistem em evidências que vêm apenas de escritos externos ao Novo Testamento não entendem o que
estão pedindo. Eles estão exigindo que ignoremos as fontes primárias mais antigas sobre Jesus em favor
de fontes que são posteriores, secundárias e menos confiáveis, o que é simplesmente uma loucura de
metodologia histórica.
A verdadeira pergunta é, qual é a confiabilidade dos documentos sobre a vida de Jesus que vieram a
ser incorporados no livro que agora chamamos de Novo Testamento? Isso nos leva à sua segunda
pergunta.

2. A mensagem de Jesus foi espalhada de forma oral até que os evangelhos foram escritos. Como sabemos que não
se desenvolveram lendas tais como Jesus ter sido sepultado por José de Arimatéia?
Em meu artigo “Quem era Jesus?”, eu discuto cinco razões pelas quais podemos confiar na segurança
geral dos evangelhos:
1) Não houve tempo suficiente para que influências lendárias anulassem o núcleo dos fatos históricos.
2) Os evangelhos não são análogos a contos populares ou “lendas urbanas” contemporâneas.
3) A transmissão judaica de tradições sagradas era altamente desenvolvida e confiável.
4) Havia restrições significativas para o embelezamento de tradições sobre Jesus, como a presença de
testemunhas oculares e a supervisão dos apóstolos.
5) Os escritores dos evangelhos têm um comprovado registro de confiabilidade histórica.
Eu não repetirei aqui o que disse naquele artigo.
Em adição a essas considerações gerais, estudiosos têm enunciado certos “critérios de autenticidade”
para ajudar a detectar informações historicamente confiáveis sobre Jesus mesmo em um documento que
não seja confiável de forma geral. Os critérios dizem respeito ao efeito de certos tipos de evidência sobre
a probabilidade da real ocorrência de várias declarações ou eventos narrados nas fontes. Para uma
declaração ou evento S, uma evidência de um certo tipo E, e uma informação explicativa B, o critério
declararia que, se todos os elementos forem iguais, Pr (S|E&B) > Pr (S|B). Em outras palavras, se todos
os elementos (S, E e B) forem iguais, a probabilidade de algum evento ou citação é maior, por exemplo,
devido à sua atestação independente mais antiga do que seria sem ela.
Quais são alguns dos fatores que poderiam servir como E, aumentando a probabilidade de que
alguma citação ou evento S realmente tenha ocorrido? Os seguintes são alguns dos mais importantes:
1) Congruência histórica: S concorda com fatos históricos conhecidos sobre o contexto no qual se diz
que S ocorreu.
2) Atestação antiga independente: S aparece em múltiplas fontes que são próximas da época em que
se diz que S ocorreu e que não dependem nem entre si nem de uma fonte comum.
3) Vergonha: S é constrangedor ou contraproducente para as pessoas que servem como a fonte de
informação sobre S.
4) Dissimilaridade: S é diferente das formas antecedentes de pensamento judaico e/ou diferente de
formas de pensamento cristão subsequentes.
5) Semitismos: vestígios de formas linguísticas aramaicas ou hebraicas na narrativa.
6) Coerência: S é consistente com fatos já estabelecidos sobre Jesus.
Note que esses critérios não pressupõem a confiabilidade geral dos evangelhos, mas enfocam uma
particular citação ou evento e dão evidência para crer que elementos específicos da vida de Jesus são
históricos, a despeito da confiabilidade geral do documento no qual a citação ou evento em particular é
relatada. Esses mesmos critérios são então aplicáveis aos relatos de Jesus encontrados nos evangelhos
apócrifos, ou escritos rabínicos, ou mesmo o Alcorão. É claro, se os evangelhos podem ser mostrados
como documentos confiáveis de forma geral, muito melhor! Mas os critérios não dependem de tal
pressuposição. Eles ajudam a localizar consistências históricas em meio a lixo histórico. Assim, nós não
precisamos nos preocupar em defender a confiabilidade geral dos evangelhos ou cada declaração
atribuída a Jesus nos evangelhos (muito menos sua inerrância!).
Agora, especificamente a respeito do sepultamento de Jesus por José de Arimatéia, esse é um dos
fatos mais bem estabelecidos sobre Jesus. O espaço não me permite ir além em todos os detalhes da
evidência para o sepultamento. Mas deixe-me apenas mencionar alguns pontos:
Primeiro, o sepultamento de Jesus é multiplamente atestado em fontes extremamente antigas e
independentes. O relato do sepultamento de Jesus em um sepulcro por José de Arimatéia é parte do
material-fonte de Marcos para a história de Paixão. Além disso, a fórmula citada por Paulo em 1
Coríntios 15:3-5 se refere ao sepultamento de Jesus:
… que Cristo morreu por nossos pecados de acordo com as Escrituras, e que ele foi sepultado, e que
ele foi ressurreto no terceiro dia de acordo com as Escrituras, e que ele apareceu a Cefas, e então aos
doze.
Mas, podemos pensar, o sepultamento mencionado na fórmula foi o mesmo evento do sepultamento
por José de Arimatéia? A resposta a essa questão é esclarecida por uma comparação da fórmula de
quatro linhas com as narrativas do evangelho e com os sermões nos Atos dos Apóstolos:
I Coríntios 15.3-5 Atos 13.28-31 Marcos. 15.37-16.7

E, embora não achassem


alguma causa de morte, E Jesus, dando um grande
Cristo morreu. . .
pediram a Pilatos que ele fosse brado, expirou.
morto.

E ele [José] comprou um lençol


Tirando-o do madeiro, o de linho fino e, tirando-o da
Ele foi sepultado. . .
puseram na sepultura. cruz, o envolveu nele, e o
depositou num sepulcro.

"Já ressuscitou, não está mais


Mas Deus o ressuscitou dentro
Ele foi ressurreto. . . aqui; eis o lugar onde o
os mortos.
puseram."

E ele por muitos dias foi visto "Mas ide, dizei aos seus
pelos que subiram com ele da discípulos e a Pedro, que ele vai
Ele apareceu. . .
Galiléia a Jerusalém, e são suas adiante de vós para a Galiléia;
testemunhas para com o povo. ali o vereis."

Essa notável correspondência de tradições independentes é uma convincente prova de que a fórmula
de quatro linhas é um sumário em forma de esboço dos eventos básicos da paixão e ressurreição de
Jesus, incluindo seu sepultamento no sepulcro. Assim, nós temos evidência de duas das mais antigas e
independentes fontes do Novo Testamento para o sepultamento de Jesus no sepulcro.
Mas isso não é tudo! Pois mais testemunhos independentes do sepultamento de Jesus por José de
Arimatéia são também encontrados nas fontes por trás de Mateus e Lucas e o evangelho de João, sem
mencionar o evangelho extra-bíblico de Pedro. As diferenças entre o relato de Marcos e o de Mateus e
Lucas sugerem que estes tinham fontes diferentes das de Marcos. Essas diferenças não são
plausivelmente explicadas como sendo as mudanças editoriais de Mateus e Lucas nos escritos de Marcos
por causa de sua natureza esporádica e desigual, a inexplicável omissão de eventos como a interrogação
do centurião por Pilatos e as concordâncias na escrita entre Mateus e Lucas em contraste a Marcos. Além
disso, nós temos fontes independentes para o sepultamento de Jesus no evangelho de João. Finalmente,
nós temos os primeiros sermões apostólicos no livro de Atos, que provavelmente não são totalmente
criação de Lucas, mas preservam as primeiras pregações dos apóstolos. Essas também fazem menção do
enterro de Jesus em um sepulcro. Assim, nós temos o notável número de pelo menos quatro ou talvez
mais fontes independentes para o sepultamento de Jesus, algumas das quais são extraordinariamente
antigas.
Segundo, como um membro do Sinédrio Judeu que condenou Jesus, é improvável que José de
Arimatéia seja uma invenção cristã. José é descrito como um homem rico, um membro do Sinédrio
Judeu. O Sinédrio era um tipo de corte suprema formada pelos setenta dos homens líderes do Judaísmo,
que presidiam em Jerusalém. Havia uma compreensível hostilidade na igreja primitiva para com os
Sinedristas judeus. Aos olhos cristãos, eles haviam projetado um assassinato judicial de Jesus. Os
sermões em Atos, por exemplo, vão a ponto de dizer que os líderes judeus crucificaram Jesus! (Atos
2.23,36; 4.10) Dado este status de um Sinedrista — todos os quais, segundo Marcos, votaram por
condenar Jesus —, José é a última pessoa que alguém esperaria que cuidasse apropriadamente de Jesus.
Assim, nas palavras do estudioso do Novo Testamento Raymond Brown, o enterro de Jesus por José é
“bastante provável,” uma vez que é “quase inexplicável” o porquê de cristãos inventarem uma história
sobre de um Sinedrista judeu que fez o certo para com Jesus.
Por essa e outras razões, a grande maioria dos críticos do Novo Testamento concorda que Jesus foi
sepultado por José de Arimatéia em um sepulcro. Uma vez que até mesmo Ehrman afirma isso, porque
você não?

3. O que dizer de outros pagãos operadores de milagres como Honi, o Desenhista de Círculos; Hanina ben Dosa
e Apolônio de Tiana? O fato de esses pagãos operarem milagres similares ao de Jesus não tira o crédito de Jesus
como operador de milagres?
Antes de tudo, esses não eram pagãos operadores de milagres. Honi e Hanina ben Dosa foram
homens santos judeus que também reputados como operadores de milagres. Longe de diminuir a
historicidade dos relatos do evangelho, a existência de tais figuras sustenta a credibilidade dos relatos do
evangelho sobre o ministério de Jesus como um operador de milagres, uma vez que mostra que essa
atividade existia no contexto do Judaísmo do primeiro século e sua atribuição a Jesus não é o resultado
da influência dos chamados “homens divinos” da mitologia pagã.
As histórias dos milagres de Jesus são tão amplamente representadas em todos os estratos das
tradições do evangelho que seria fantasioso não considerá-las como enraizadas na vida de Jesus. Assim,
o consenso acadêmico sobre o Novo Testamento é o de que Jesus realmente exerceu um ministério de
operação de “milagres” — porém alguém pode querer interpretar ou explicá-los. No final de seu longo e
detalhado estudo sobre os milagres de Jesus, John Meier conclui:

A atestação abrangente da figura de Jesus como um curador de enfermidades físicas e


doenças é, então, ainda mais forte do que a atestação de sua atividade como um exorcista...
Em suma, a declaração de que Jesus atuou como e foi visto como um exorcista e curador
durante seu ministério público, tem tanta corroboração histórica quanto qualquer outra
declaração que podemos fazer sobre a história de Jesus. (Meier, A Marginal Jew, 2: 969-70,
grifo de Craig).

Os milagres de Jesus, assim como seus exorcismos, foram considerados como sinais do Reino
vindouro de Deus. Como tais, eles funcionaram de maneira fundamentalmente diferente das maravilhas
realizadas por mágicos helenistas ou homens judeus santos. Além disso, os milagres de Jesus diferiam
dos de Honi e Hanina em que Jesus nunca ora para que um milagre seja feito; ele pode antes expressar
agradecimento ao Pai, mas então ele mesmo o efetua. E ele faz isso em seu próprio nome, não no de
Deus. Além disso, nem Honi nem Hanina exerceram um ministério profético, fizeram declarações
messiânicas ou trouxeram algum novo ensino em conjunto com seus milagres. Assim, Jesus é mais do
que apenas outro homem judeu santo e carismático.

Quanto a Apolônio de Tiana, essa é uma figura construída em grande parte por Filóstrato séculos
depois como um deliberado contraponto ao Cristianismo. A igreja havia se tornado bem grande e
influente naquela época, então Filóstrato construiu Apolônio como uma alternativa pagã a Jesus. Como
pode isso diminuir de qualquer forma a credibilidade histórica dos relatos do Evangelho sobre os
milagres de Jesus?

4. O que dizer das aparentes contradições nos diferentes relatos do Evangelho?


Aqui vai sua resposta direta, Grant: elas não importam. Eu poderia aceitar que todas essas aparentes
discrepâncias são irreconciliáveis, e isso não afetaria nem um pouco meu argumento histórico. Não
acredita em mim? Então deixemos Bart Ehrman falar por si mesmo. Ele pensa que as aparentes
contradições que ele lista diminuem a credibilidade histórica dos fatos sobre os quais meu argumento
está embasado? Não! Ele diz,

A ressurreição de Jesus está no coração da fé cristã. Infelizmente, é também uma tradição


sobre Jesus com que os historiadores têm dificuldade de lidar. Como eu disse, há algumas
coisas que podemos dizer com certeza sobre Jesus após sua morte. Nós podemos dizer com
relativa certeza, por exemplo, que ele foi sepultado... Alguns estudiosos argumentam que é
mais plausível que na verdade Jesus tenha sido colocado em um sepulcro comum, o que
acontecia em algumas vezes, ou que ele foi, como aconteceu a muitas outras pessoas
crucificadas, simplesmente deixado para ser comido por animais (o que também geralmente
acontecia a pessoas crucificadas durante o Império Romano). Mas os relatos são bastante
unânimes em dizer (os relatos primitivos que temos são unânimes em dizer) que Jesus foi, na
verdade, sepultado por seu seguidor, José de Arimatéia e, assim, é relativamente certo que
foi isto o que aconteceu. Nós também temos sólidas tradições que indicam que as mulheres
encontraram esta tumba vazia três dias depois. Isto é atestado em todas as fontes dos
evangelhos, antigas e posteriores, e assim este fato parece ser um dado histórico. Assim, eu
acho que nós podemos dizer que após a morte de Jesus, com alguma (provavelmente com
alguma) certeza, ele foi sepultado, possivelmente por seu seguidor, José de Arimatéia, e que
três dias depois ele pareceu não estar em seu sepulcro. (“From Jesus to Constantine: a
History of Early Christianity” Lecture 4: “Oral and Written Traditions about Jesus” [The
Teaching Company,2003]).

O mesmo acontece em dobro – bem, muitas vezes mais do que o dobro – em relação à crucificação de
Jesus. Este evento é reconhecido como um dos mais sólidos e estabelecidos fatos sobre a história de
Jesus, negado apenas por malucos e por mulçumanos. Mesmo assim, as primeiras cinco discrepâncias de
Ehrman estão todas relacionadas com os relatos da crucificação, não com as narrativas do sepultamento
e do sepulcro vazio! Então você vai negar que Jesus de Nazaré foi crucificado pelas autoridades romanas
durante a Páscoa judaica no ano 30 d.C. em razão destas diferenças nas narrativas? Se sim, Grant, você
não apenas vai marginalizar a si mesmo intelectualmente, mas também vai mostrar que você não está
buscando sinceramente a verdade.
Você vê agora, Grant, porque eu me recusei a entrar em uma disputa sobre quantos anjos estavam
junto ao sepulcro? Uma vez que a historicidade do sepulcro vazio é posta, a disputa sobre a quantidade
de anjos lá presentes simplesmente não importa.
Você diz que aqueles que pertencem a uma universidade compromissada com a inerrância bíblica
devem ser aptos a explicar estas discrepâncias. Isto é bobagem, Grant! Por que pensar que o nosso
treinador de basquete, Holmquist, deveria ser capaz de explicar estas discrepâncias? Por que pensar que
até mesmo alguém no departamento de Novo Testamento deve ser capaz de explicá-las? Talvez
simplesmente não existam informações históricas disponíveis para resolver todas as discrepâncias.
Parece a mim que você deve achar que a crença na inerrância bíblica é conseguida através de indução
lógica, neste caso, você realmente precisa, de fato, ler minha “Questão da Semana” Inerrância Bíblica a
quê Preço?
Eu acho que o que você realmente quer dizer é que aqueles afiliados em tal universidade devem ter o
interesse em explicar estas discrepâncias e, portanto, não devem “fugir” delas, como você me acusou de
ter agido. Sim, eu concordaria com você que nós que acreditamos na inerrância devemos ter o interesse
em explicar tais discrepâncias. Mas existe tempo e lugar para tudo. Um debate sobre a historicidade da
ressurreição de Jesus, onde o tempo é limitado e os fatos centrais sobre o caso são aceitos pela maioria
dos estudiosos da área, não é lugar para se divertir discutindo tal questão. Esta questão da inerrância
pode ser levantada e é levantada em tempos apropriados.
Então, vamos observar estas discrepâncias por alguns instantes:
Data e hora da crucificação: Todas as fontes concordam que Jesus foi crucificado na sexta-feira. O que
está se discutido é se a Páscoa era celebrada na quinta-feira ou na sexta-feira. Os evangelhos sinóticos
parecem sugerir que a Última Ceia de Jesus com seus discípulos na quinta-feira à noite era a refeição da
Páscoa. João concorda que Jesus compartilhou a Última Ceia com seus discípulos na quinta-feira à noite
antes da traição de Judas e de sua prisão. Mas João diz que os líderes judeus queriam eliminar Jesus
antes que as festividades pascais começassem na sexta-feira à noite. Então, a Páscoa começava na quinta
ou na sexta? A disputa se concentra toda nesta questão! (Espero que isto coloque a questão em
perspectiva para você).
Uma possibilidade é que João tenha movido a Páscoa para sexta para que a morte de Jesus se
coincidisse com sacrifício pascal do cordeiro no Templo. Mas, talvez não: uma vez que existiam
diferentes calendários em uso na Palestina do primeiro século, os sacrifícios podem ter sido realizados
em mais de um dia. Os fariseus e as pessoas da Galiléia contavam os dias como começando numa
alvorada e terminando na alvorada seguinte. Mas os saduceus e as pessoas da Judéia contavam os dias
como começando num pôr-do-sol e terminando no pôr-do-sol seguinte.
Em nossa era moderna, nós adotamos o que eu acho ser a convenção mais estranha sobre a contagem
dos dias: começando numa meia-noite e terminando na meia-noite seguinte. Bem, essa diferença na
contagem dos dias desorienta completamente a datação de certos eventos, como você pode ver no
quadro comparativo abaixo:

Calendário Moderno Galileu Judaico


12:00 meia-noite
06:00 manhã
Quinta-Feira 12:00 meio-dia 14 NISAN
06:00 tarde
12:00 meia-noite 14 NISAN
06:00 manhã
Sexta-Feira 12:00 meio-dia 15 NISAN
06:00 tarde
12:00 meia-noite 15 NISAN

O cordeiro da Páscoa era sacrificado no 14º dia do mês de Nisan. De acordo com a contagem galiléia,
o 14º dia de Nisan começa às 6:00 da manhã, no dia que chamamos quinta-feira. Mas para os habitantes
da Judéia, o 14º dia de Nisan começa 12 horas depois, às 6:00 da noite na nossa quinta-feira. Então,
enquanto os galileus, seguidores das tradições judaicas, sacrificam o cordeiro da Páscoa na tarde do 14º
dia de Nisan, em qual dia eles o fazem? Quinta-feria. E quando os habitantes da Judéia ofereceram seu
cordeiro em sacrifício na tarde do 14º dia de Nisan, que dia era? Sexta-feira! Quando a noite caía, eles
comiam o cordeiro, por sua contagem, no 15º dia de Nisan. Assim, a fim de atender à demanda de
galileus-fariseus e habitantes da judéia-saduceus na Páscoa, o sacerdócio do Templo tinha que realizar
os sacrifícios da Páscoa tanto na quinta-feira como na sexta-feira. Jesus, como era galileu e como sabia de
sua iminente prisão, escolheu celebrar a Páscoa na noite de quinta-feira, ao passo que os sacerdotes e
escribas responsáveis pela prisão de Jesus celebraram a Páscoa pelo calendário da Judéia, como João diz.
Embora não tenhamos nenhuma evidência de que os sacrifícios da Páscoa eram realizados em ambos os
dias, tal solução é muito plausível. A população em Jerusalém se aglomerava em torno de 125 mil
pessoas durante as festividades. Seria logisticamente impossível para os sacerdotes do templo sacrificar
cordeiros suficientes para tantas pessoas entre as 15:00 hs e 18:00 hs em uma tarde. Os sacrifícios
deveriam ser realizados em mais de um dia, o que torna perfeitamente possível que Jesus e seus
discípulos tenham celebrado a Páscoa na quinta-feira à noite, antes da prisão de Jesus.
O mesmo pode ser dito sobre o tempo da crucificação de Jesus: Marcos diz que a crucificação
aconteceu à terceira hora, isto é, 9:00 da manhã, mas João diz que Jesus foi condenado “na sexta hora”,
ou seja, por volta do meio-dia. Novamente, talvez João tenha alterado o tempo para mais tarde. Mas,
talvez não: nos evangelhos sinóticos e nos Atos dos Apóstolos as únicas horas do dia que são
mencionadas (com apenas uma exceção) são a terceira, a sexta e a nona horas. Em uma época em que
não existiam relógios, obviamente, números arredondados ou quartos de dia eram usados para
identificar um tempo. A terceira hora poderia se referir a qualquer tempo entre 9:00 da manhã e o meio-
dia.
Jesus carregou sua cruz por todo o caminho? – Não, Simão de Cirene provavelmente foi um
personagem histórico, cujo papel João simplesmente escolheu omitir em sua narrativa. Simão
provavelmente se impressionou com a ação dos soldados quando Jesus estava tão fraco para carregar a
cruz por todo o percurso do Gólgota.
Os ladrões zombaram de Jesus? – Marcos simplesmente diz que aqueles que estavam crucificados
com Jesus zombaram dele. Nenhum detalhe é dado. Mas Lucas nos diz como um destes bandidos
expressou fé em Jesus. Você pode desconsiderar a história contada por Lucas como uma mera alteração
piedosa da narrativa da crucificação. Mas como podemos saber que Lucas não está trabalhando ali com
uma fonte independente que se lembra do arrependimento de um dos ladrões, ao passo que Marcos
atropelou isso? Não vejo motivos para acreditar que temos uma contradição aqui.
Quando véu do Templo se rasgou? – Esta suposta discrepância é puramente imaginária, uma vez
que Marcos e Lucas mencionam este fato relativo à cortina do templo sem a intenção de especificar o
tempo exato em que ocorreu. Lucas ficaria impressionado se ele lesse as acusações modernas de que ele
contradisse Marcos ao reunir os sinais sobrenaturais que ocorreram durante o momento da morte de
Jesus.
Quem foi ao sepulcro? – Um grupo de mulheres, incluindo Maria Madalena que sempre é
mencionada. João a prioriza em seu relato para conseguir um efeito dramático, mas ele sabe sobre as
outras mulheres, como é evidente nas palavras de Maria, “Eles retiraram os Senhor do sepulcro e nós
não sabemos onde o colocaram” (João 20.2, compare com 20.13). Nós não sabemos todos os nomes das
outras mulheres presentes, mas entre elas estavam outra Maria, mãe de Tiago, José e Salomé. O fato de
terem sido mulheres, ao invés de homens, aparecerem nas narrativas como descobridoras do sepulcro
vazio, é, a propósito, um dos fatos mais convincentes, que leva a maioria dos estudiosos a aceitar a
historicidade da narrativa.
A pedra que lacrava o sepulcro rolou antes que elas chegassem lá? O que elas viram? – Sim, a pedra
não estava mais lacrando a sepultura quando elas chegaram lá; não há discrepância alguma aqui. Elas
viram um ou dois anjos. O “homem jovem” citado por Marcos é claramente uma figura angélica, como
pode ser evidenciado por seu traje branco, sua mensagem reveladora e a reação de medo e tremor das
mulheres a ele. Além disso, os antigos intérpretes de Marcos (Mateus e Lucas) entenderam que o jovem
homem era um anjo.
O que foi dito a elas? – Foi dito a elas que fossem à Galiléia, onde elas veriam Jesus. Como a
narrativa de Lucas não menciona nenhuma aparição na Galiléia, ele altera o relato de Marcos da
mensagem do anjo para seus propósitos literários. A tradição das aparições na Galiléia é muito antiga e
virtualmente aceita universalmente.
As mulheres contaram para alguém? – Claro, elas contaram! Quando Marcos diz que elas não
disseram nada para ninguém, ele obviamente quis dizer no momento em que elas correram rapidamente
até os discípulos. Marcos pressupõe as aparições na Galiléia, então, obviamente, ele não quis dizer que
as mulheres falharam em sua missão de transmitir a mensagem do anjo aos discípulos. A discrepância é
puramente imaginária.
Os discípulos deixaram Jerusalém rumo a Galiléia? – Claro, como a resposta acima indica. Lucas
apenas escolheu não narrar nenhuma das aparições na Galiléia porque seu propósito era mostrar como o
Evangelho se estabeleceu na mais santa das cidades dos judeus, Jerusalém.
Assim, algumas destas supostas discrepâncias são fáceis de responder e elas são exatamente o que
esperamos encontrar em relatos independentes sobre o mesmo evento. Outras discrepâncias são mais
difíceis de responder, mas no fim das contas elas não trazem grandes conseqüências. Historiadores
esperam encontrar inconsistências como estas até mesmo nas fontes históricas mais sólidas. Nenhum
historiador simplesmente joga fora uma fonte porque ela possui alguma inconsistência. Além disso, as
inconsistências sobre as quais Ehrman está falando não estão dentro de uma fonte sozinha; elas estão
entre fontes independentes comparadas. Mas não é uma conclusão lógica dizer que por duas fontes
independentes comparadas apresentarem inconsistências, ambas as fontes são falsas. Na pior das
hipóteses, uma delas é falsa, caso as inconsistências não possam ser harmonizadas.
O problema em se focar em discrepâncias é que nós tendemos a perder a visão da floresta por causa
de algumas árvores. O fato mais importante é que os evangelhos são incrivelmente harmoniosos no que
eles relatam. As discrepâncias entre eles são em detalhes secundários. Todos os quatro evangelhos
concordam que:
Jesus de Nazaré foi crucificado em Jerusalém pelas autoridades romanas durante as festividades da
Páscoa, tendo sido preso e acusado de blasfêmia pelos líderes judaicos e então caluniado pelo crime de
traição perante o governador Pilatos. Depois de várias horas ele morreu e foi sepultado na tarde da
sexta-feira por José de Arimatéia em uma tumba, que foi selada com uma pedra. Algumas mulheres
seguidoras de Jesus, incluindo Maria Madalena, observaram seu sepultamento, visitaram sua tumba no
domingo pela manhã e a encontraram vazia. Então, Jesus apareceu vivo aos seus discípulos, incluindo
Pedro, que então se tornaram proclamadores da mensagem de Sua ressurreição.
Todos os evangelhos atestam estes fatos. Vários outros detalhes podem ser fornecidos ao se adicionar
fatos que são atestados por três das quatro fontes. Portanto, não se engane por causa das pequenas
discrepâncias. Caso contrário, você terá de ser cético também em relação a todas as outras narrativas
históricas seculares que também contém inconsistências como estas, o que é absolutamente irracional.