1 UNIDADE DE ENSINO SUPERIOR DOM BOSCO CURSO DE DIREITO

ROBERTO DE OLIVEIRA ALMEIDA

O RISCO À MARGEM DO DIREITO AMBIENTAL: um estudo a partir da nanotecnologia

São Luís 2009

2 ROBERTO DE OLIVEIRA ALMEIDA

O RISCO À MARGEM DO DIREITO AMBIENTAL: um estudo a partir da nanotecnologia

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientadora: Profª MSc. Thaís Emília de Sousa Viegas

São Luís 2009

3 ROBERTO DE OLIVEIRA ALMEIDA O RISCO À MARGEM DO DIREITO AMBIENTAL: um estudo a partir da nanotecnologia Monografia apresentada ao Curso de Direito da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Direito.

Aprovada em ___/___/ 2009.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________ Profª. MSc. Thaís Emília de Sousa Viegas (Orientadora) Unidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB

_________________________________________________ Profª. MSc. Melissa Ely Melo Unidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB

_________________________________________________ Prof. MSc. Isaac Costa Reis Unidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB

_________________________________________________ Profª. MSc. Ana Paula Antunes (Mebro Suplente) Unidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB

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Aos meus pais e à minha irmã, eternas fontes de inspiração.

5 RESUMO O desastre de Chernobyl, em 1986, consolidou a percepção pública de que o mundo ameaça a si mesmo. Foi a partir desse evento que Ulrich Beck construiu sua análise da sociedade que qualificou como global e de risco. Sob tal marco teórico, propõe-se, nesse estudo, refletir acerca dos desafios que essa sociedade global dos riscos impõe aos instrumentos jurídicos de proteção do meio ambiente e ao próprio Direito Ambiental. É que os problemas ambientais contemporâneos têm, na segunda modernidade, uma nova configuração, advinda do processo de modernização. Os riscos que outrora afetavam somente quem os produzia, agora têm o condão de afetar todo o globo. Dentre os riscos de graves conseqüências que acompanham o desenvolvimento técnico-científico, podem-se verificar os oriundos da energia nuclear, da inserção de organismos geneticamente modificados e o da utilização nanomateriais pela indústria. A nanotecnologia – que consiste na habilidade de medir, ver, engendrar, produzir e aplicar materiais em escala inferior a 100nm (cem nanômetros) – oferece riscos na medida em que tais materiais já não obedecem às leis tradicionais da física, gerando um alto grau de imprevisibilidade acerca do seu comportamento na natureza e no corpo humano. Qualquer material reduzido a nanopartículas pode, repentinamente, se comportar de maneira completamente oposta à anterior, o que faz com que as atividades que envolvam determinadas partículas adentrem o campo da imprevisibilidade. Materiais insolúveis passam a ser solúveis. Substâncias isolantes podem passar a conduzir energia. Não só o comportamento das partículas, como sua mobilidade é afetada: ao contrário das micropartículas de maior tamanho, as nanopartículas têm acesso quase irrestrito ao corpo humano. Atualmente, a nanotecnologia não é regulamentada por nenhuma legislação ou resolução específica, não sendo considerada, para fins de responsabilização segundo os preceitos do Direito Ambiental, uma ameaça ao meio ambiente ou à saúde humana. Além disso, o debate acadêmico sobre os riscos da nanotecnologia é, ainda, incipiente, mormente para o Direito. O presente trabalho tem como objeto a análise crítica dos instrumentos de salvaguarda do direito ao meio ambiente, no contexto da sociedade global de risco, especificamente no que tange ao descompasso dos instrumentos jurídicos de proteção ambiental no trato dos riscos de graves conseqüências oriundos das nanotecnologias. Palavras-chave: Sociedade de risco. Riscos de graves conseqüências. Nanotecnologia. Direito Ambiental.

6 ABSTRACT After the incident at Chernobyl, 1986, society started to face the reality of living on a world that endangers itself every day. When it comes to the second modernity – or global risk society – it became indispensable to Law that new environmental protection instruments were created. Among the reasons that pushed to these changes, the most significant ones are the changes on the content of the new environmental rights and the contemporary environmental questions that are qualified by the element of risk, especially when these risks are created through the modernization. Risk, that on the past would affect only those who created it, now endangers the whole globe. Among the major consequences risks that emerge of the scientific development, the most significant ones are related to the nuclear energy, genetically modified organisms and nanotechnology. Nanotechnology – that consists on the ability to measure, see, engineer, product and apply materials on a scale inferior to 100nm (a hundred nanometers) – offers risks as long as the classical laws of physics do not apply on these materials, increasing the uncertainties about its behavior on environment and human body. Any material that’s reduced to nanoparticles can suddenly behave completely different than it did before, which makes the activities related to the nanotechnologies to become unpredictable. Insoluble materials can become soluble. Isolating substances can become conductible. Not only its behavior, but the material’s mobility may be affected: in opposite to bigger microparticles, nanoparticles have an almost unlimited access to the human body. Nowadays, there isn’t any law or resolution that regulates nanotechnology when it comes to its risks. On the Environmental Law context, it’s not considered a threat to the environment or human health. Also, there’s no significant academic debate when it comes to nanotechnology risks. The present work intends to offer a critical analysis of the instruments of environmental protection on the global risk society, especially regarding its omission about nanotechnology’s risks. Key words: Global risk society. Major consequences risks. Nanotechnology. Environmental Law.

7 SUMÁRIO

1 2 2.1 2.2 2.3 2.4 2.4.1 2.4.2 2.4.3

INTRODUÇÃO ………………………………………………………………............

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A SOCIEDADE GLOBAL DO RISCO ....................................................................... 12 Uma mudança de paradigmas ……………………………………………………....... 12 Globalidade, globalização e globalismo: do Estado ao mercado ............................... As novas formas de individualização ........................................................................... Modernidade e risco .................................................................................................... Reflexividade na segunda modernidade ....................................................................... O risco à margem da teoria social ................................................................................ A apropriação dos riscos pela teoria social: socioconstrutivismo e análise cultural dos riscos ...................................................................................................................... 23 26 31 31 31 32 34 35 15 19 21 21 22

2.4.4 3 3.1 3.1.1 3.1.2 3.1.3 3.2 3.2.1 3.2.2 3.2.3 3.2.4 3.2.5 3.3 3.4 4 4.1 4.2 4.2.1 4.2.2

Os riscos no centro da teoria social: Ulrich Beck e Anthony Giddens ........................ NANOTECNOLOGIA E RISCOS DE GRAVES CONSEQUÊNCIAS .................... Considerações iniciais .................................................................................................. Histórico: do início da miniaturização ......................................................................... Nanomateriais: informações fundamentais .................................................................. Nanomateriais naturais e artificiais .............................................................................. Nanomateriais e suas aplicações ..................................................................................

Medicina e farmacêuticos ............................................................................................. 35 Cosméticos e protetores solares .................................................................................... 37 Informática ................................................................................................................... 37

Engenharia .................................................................................................................... 38 Energia .......................................................................................................................... 39 Nanomateriais e o corpo humano ................................................................................. Nanomateriais e o meio ambiente ................................................................................ O RISCO À MARGEM DO DIREITO AMBIENTAL .............................................. 39 42 45

A nanotecnologia enquanto um novo paradigma técnico-econômico .......................... 45 Direito Ambiental na sociedade de risco .................................................................... 46

O princípio da precaução .............................................................................................. 49 Tutela jurídica do dano futuro e do dano potencial ...................................................... 50

8 4.2.3 4.3 4.3.1 4.3.2 5 Dimensão participativa do Direito do Ambiente: leigos e peritos ............................... A invisibilidade da nanotecnologia para o discurso jurídico ....................................... Considerações acerca do Projeto de Lei nº 5.076/2005 ............................................... A nanotecnologia à margem do Direito Ambiental ..................................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 51 54 54 57 59 62

9 1 INTRODUÇÃO

O acidente nuclear ocorrido em 1986, na cidade de Chernobyl, consolidou a percepção pública de que o mundo ameaça a si mesmo. A partir do surgimento de novas tecnologias, advindas da radicalização dos processos de modernização, o mundo entra em uma época na qual a ciência já não é mais capaz de oferecer certezas. Com efeito, o desenvolvimento tecnológico em si mesmo tem desempenhado um papel determinante no processo de produção de tais riscos. Ante este cenário, surge uma nova modernidade pós-industrial. Este período em que a ciência já não é a detentora de certezas – onde os riscos advindos do avanço tecnológico e da progressiva modernização agora ameaçam a todos, não importando o local ou classe social – é denominado por Ulrich Beck de segunda modernidade. No campo das ciências sociais, surge a necessidade de uma sociologia cosmopolita, que abandone o Estado nacional enquanto espaço de imaginação sociológica, e que tenha como quadro de referência algo totalmente novo: o fenômeno da transnacionalização. Esta abertura de fronteiras e a maior conexão entre os Estados nacionais trazem consigo uma nova revolução do capital, com a conseqüente redefinição no mundo do trabalho e o surgimento de novas formas de individualização. Este processo de destruição criativa iniciada pela modernização, que confronta as premissas fundamentais dos sistemas sociais e políticos da sociedade industrial, tem como conseqüência a insuficiência das suas categorias para a análise dos contornos desta nova sociedade. As novidades tecnológicas produzem riscos e instabilidades que são inseridos, de forma não refletida, na sociedade. Tais riscos possuem novas características que não se encaixam nas antigas categorias de risco da sociedade industrial, suas conseqüências já não podem ser limitadas temporal ou espacialmente e a sua invisibilidade e imprevisibilidade escapam aos instrumentos de controle, pondo em xeque todo o programa institucionalizado de cálculo dos seus efeitos colaterais. Com a ampla democratização dos riscos e insuficiência das categorias da sociedade industrial para a análise dos novos contornos desta sociedade, Ulrich Beck oferece uma abordagem sociológica que desloca o risco para o centro da teoria social. Estes passam a ser reconhecidos enquanto fatores determinantes para a compreensão da sociedade contemporânea.

10 Dentre os riscos de graves conseqüências advindos do processo de modernização, é possível verificar os oriundos da inserção de organismos geneticamente modificados, da utilização da energia nuclear, do uso de agrotóxicos e da nanotecnologia. A nanotecnologia é a capacidade de criar e manusear materiais de escala nanométrica. Um nanômetro (1 nm) equivale à bilionésima parte de um metro ou a milionésima parte de um milímetro. Em outras palavras: um nanômetro é um milímetro dividido por um milhão. Os riscos envolvidos a partir da miniaturização estão ligados, principalmente, às novas propriedades que os materiais em nanoescala podem adquirir. Qualquer material reduzido a nanopartículas pode, repentinamente, comportar-se de maneira completamente oposta à de antes, o que faz com que as atividades que envolvam determinadas partículas adentrem o campo da imprevisibilidade. Materiais antes insolúveis passam a ser solúveis. Substâncias isolantes podem passar a conduzir energia. Não só o comportamento das partículas, como sua mobilidade é completamente afetada: ao contrário das micropartículas de maior tamanho, as nanopartículas têm acesso quase irrestrito ao corpo humano. A nanotecnologia não é regulamentada por nenhuma legislação ou resolução específica, não sendo considerada, para fins de responsabilização segundo os preceitos do Direito Ambiental, uma ameaça ao meio ambiente ou à saúde humana. Além disso, o debate acadêmico sobre os riscos da nanotecnologia é, ainda, incipiente, mormente para o Direito. Assim, perguntase: quais as conseqüências, para o Direito, da permanência dos riscos oriundos da nanotecnologia à margem do debate jurídico? O desafio que se impõe a este trabalho, portanto, é o de proceder à análise crítica dos instrumentos de salvaguarda dos direitos ambientais, no contexto da sociedade global de risco, especificamente no que tange ao descompasso destes no trato dos riscos de graves conseqüências oriundos das nanotecnologias. Ao primeiro capítulo cabe a apresentação do marco teórico sob o qual o problema será analisado. Será feito um panorama da teoria da sociedade de risco de Ulrich Beck, oportunidade em que questões relativas à globalização, individualização e reflexividade na sociedade de risco serão tratadas. Em seguida, proceder-se-á à análise da trajetória dos estudos do risco e sua centralidade na teoria do sociólogo alemão, para, em seguida, situar a nanotecnologia entre os riscos de graves conseqüências advindos do processo de modernização.

11 O segundo capítulo tem como objeto os riscos relativos à utilização de nanomateriais pela indústria. Primeiramente, a nanotecnologia será localizada historicamente, apresentando-se os seus conceitos fundamentais. Em seguida, serão demonstradas as suas principais aplicações e, conseqüentemente, em que medida a nanotecnologia está presente no dia-a-dia. Por fim, serão apresentados os seus riscos relacionados à saúde humana e ao meio ambiente, bem como as incertezas científicas acerca do seu manejo seguro. No terceiro capítulo, será feita a análise dos instrumentos de salvaguarda dos direitos ambientais na sociedade global do risco. Inicialmente, discorrer-se-á acerca da maneira como o Direito do Ambiente se relaciona com os problemas ambientais qualificados pelo risco. Em seguida, verificar-se-á o seu anonimato para o discurso jurídico e sua conseqüente invisibilidade para os instrumentos de salvaguarda dos direitos ambientais. Às considerações finais ficam relegadas as conclusões acerca do papel do Direito Ambiental no trato das questões relativas aos riscos advindos da nanotecnologia e em que medida o seu anonimato para o discurso jurídico ameaça os pilares epistemológicos sobre os quais é fundada a teoria jurídica contemporânea.

12 2 A SOCIEDADE GLOBAL DO RISCO

2.1 Uma mudança de paradigmas

A sociologia tem como objeto o estudo da sociedade. A construção e delimitação do objeto desta ciência, isto é, o conceito de “sociedade”, se torna difícil quando, ao contrário da matéria inanimada dos químicos, esta se comporta de maneira difusa, nebulosa, presente em toda parte. Difícil, também, quando a percepção do conceito de sociedade foge à apreensão imediata e vai de encontro às auto-interpretações que fazem os agentes sociais. Com efeito, a sociedade é composta de agentes com capacidade de interpretarem a si mesmos, com objetivo de explicar e defender sua posição, tais quais sindicatos, entidades de classes e partidos políticos.1 O objeto da sociologia não é uma sociedade, mas várias (alemã, italiana, inglesa). Como conseqüência, esta se organiza de acordo com os diversos Estados nacionais: os Estados criadores, financiadores e reguladores da sociedade. Os sociólogos acabam por incorrer num quadro de nacionalismo metodológico: o nacionalismo leva a supor que há um número de nações, que vivem sua própria cultura, cultura esta garantida pelo Estado nacional; a visão sociológica, por seu turno, orienta-se em direção ao contêiner desse mesmo Estado. Pensa-se, então, no espaço regulado pelo Estado como o espaço no qual se encontram todos os elementos fundamentais para o diagnóstico sociológico daquela sociedade. Em um momento posterior, os sociólogos desenvolvem conceitos a partir da experiência daquela sociedade previamente analisada para, posteriormente, aplicá-los às demais.2 Este nacionalismo metodológico funcionou sobremaneira para os clássicos. Karl Marx ao analisar a sociedade britânica do século XIX, desenvolveu sua crítica ao capitalismo como um todo.3 Émile Durkheim, ao se questionar acerca da coesão das sociedades modernas, e com o olhar voltado para a França, desenvolveu a idéia de solidariedade orgânica baseada na

BECK, Ulrich. Liberdade ou capitalismo: Ulrich Beck conversa com Johannes Willms. Trad. Luiz Antônio Oliveira de Araujo. São Paulo: Editora UNESP, 2003. p. 8 2 Ibid., p. 9. 3 Cf. MARX, Karl. O Capital. Trad. Gabriel Deville. 3. ed. Bauru: EDIPRO, 2008.

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13 divisão do trabalho.4 Weber, em suas reflexões acerca da burocracia e racionalidade objetiva, desenvolveu conceitos universais com fundamento na realidade européia do século XIX. Não se deve olvidar que tal metodologia era consoante com o seu espaço experimental. Estes sociólogos deram à dinâmica da sociedade industrial nascente uma forma conceitual que se difundiu pelo mundo inteiro, mostrando-se fecunda em pesquisas empíricas e principalmente no que diz respeito às conseqüências políticas. Pode-se dizer, assim, que os clássicos impulsionaram a sociologia, colonizando outros países e regiões do mundo com suas perspectivas sociológicas.5 Ante a modificação do espaço experimental dos sociólogos europeus do século XIX, principalmente por conta do fenômeno da globalização, esse imperialismo conceitual ocidental se torna metodologicamente contestável. Deve o universalismo clássico, enquanto forma de

transposição de uma sociedade para a sociedade, ser substituído pela idéia de globalidade, que consiste em extrair conceitos universais a partir de uma sociedade e confrontá-los com demais interpretações. A sociologia, enraizada no âmbito do Estado nacional e que a partir deste desenvolveu sua compreensão de si, continua a trabalhar com categorias oriundas do horizonte experimental do século XIX, o que nos cega para a experiência da segunda modernidade. Cabe à sociologia questionar-se: até que ponto suas categorias fundamentais se baseiam em pressupostos historicamente obsoletos? Há, por exemplo, três princípios da sociologia que atualmente são questionáveis. Primeiro, o do vínculo territorial da sociologia com o Estado nacional, que tem como fundamento a idéia de que o agir social necessita de um suporte territorial e que a proximidade geográfica gera proximidade social. Entretanto, tal princípio não mais se aplica quando, hoje em dia, o social não mais depende do territorial. É cada vez mais comum o isolamento de pessoas geograficamente próximas, assim como a aproximação de pessoas distantes.6 Em segundo lugar,
Cf. DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. Trad. Eduardo Brandão. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 5 Ibid., p. 11. 6 “A proximidade virtual e a não-virtual trocaram de lugar: agora a variedade virtual é que se tornou a “realidade”, segundo a descrição clássica de Émile Durkheim: algo que fixa, que “institui fora de nós certas formas de agir e certos julgamentos que não dependem de cada vontade particular tomada isoladamente”; algo que “deve ser reconhecido pelo poder de coerção externa” e pela “resistência oferecida a todo ato individual que tende a transgredila”. A proximidade não-virtual termina desprovida dos rígidos padrões de comedimento e dos rigorosos paradigmas de flexibilidade que a proximidade virtual estabeleceu. Se não puder imitar aquilo que esta transformou em norma, a proximidade topográfica vai se tornar um “ato de transgressão” que certamente enfrentará resistência. E assim se
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14 há a suposição de uma coletividade social pré-fixada, onde o indivíduo é, quase sempre, determinado pela situação em que se encontra. Tal princípio deve ser repensado frente às novas formas de individualização presentes na modernidade. O terceiro é o princípio da evolução, que se refere ao ocidente como o grau mais elevado de socialização, tomando-o como superior às demais.7 Com essa perspectiva evolucionista tratada no terceiro princípio, fica mais latente a insuficiência das categorias tradicionais da sociologia em analisar e se organizar em torno do progresso altamente imprevisível e incontrolável como o da segunda modernidade. Nos anos 80, os teóricos da pós-modernidade se questionavam acerca do fim das grandes narrações da modernidade, inclusive colocando em xeque os potenciais de idéias, otimismo e o projeto que a mesma desenvolveu. Segundo Anthony Giddens, o fim do século pode ser identificado com sentimentos de desorientação e até mal-estar, a ponto de se declarar o fim da história, ou o fim da modernidade.8 O que se verifica, contudo, é um processo de transição. Não se pode imaginar que a primeira modernidade acabou e que agora se vive uma experiência completamente diferente. As modernidades – e aí se incluem as experiências de países de periferia e centro, assim como de oriente e ocidente – convivem juntas, e tal comunhão de modernidades deve ser apreendida, estudada, investigada confrontando-se os diferentes projetos de modernização.9 Em que pese esta transição não-linear, é possível verificar quais são as principais mudanças relativas a esta nova experiência de modernidade. A primeira modernidade tem como características fundamentais as sociedades do Estado nacional e as sociedades grupais coletivas (onde, apesar dos processos de individualização e diferenciação, ainda há possibilidade de a sociologia desenvolver e utilizar modelos de sociologia grupal). Na primeira modernidade é marcante a distinção entre sociedade e natureza, esta concebida como fonte inesgotável de recursos para o processo de industrialização. A ciência, enquanto produtora de certezas, trabalha com a possibilidade do total domínio dos recursos
permite que a proximidade virtual desempenhe o papel de genuína e inalterada e a realidade real pela qual todos os outros pretendentes ao status de realidade devem se avaliar e ser julgados.” BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade das relações humanas. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. p. 82-83. 7 BECK, 2003, op. cit., p. 18. 8 GIDDENS, Anthony. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. Trad. Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997, p. 73. 9 BECK, 2003, op. cit., p. 19-20.

15 naturais pelos homens. Pode-se dizer, também, que a sociedade da primeira modernidade é uma sociedade do pleno emprego, onde a participação social se define, essencialmente, pela participação no trabalho. Na segunda modernidade, há um esvaziamento do contêiner do Estado nacional. Ante os processos internos e externos de globalização, a idéia de um Estado nacional se torna questionável. A noção de sociedade do trabalho é esvaziada diante da nova dinâmica capitalista, a do vínculo entre tecnologia de informação e mercados mundiais. Há, também, a intensificação dos processos de individualização, numa espécie de individualismo institucionalizado. A oposição entre sociedade e natureza passa a ser questionável diante da crise ecológica. Inaugurase um período em que a ciência não mais oferece certezas. Ao contrário: o constante processo de modernização dá origem aos riscos de graves conseqüências.

2.2 Globalidade, globalização e globalismo: do Estado ao mercado

Quando se abandona o Estado nacional como princípio organizador da pesquisa, verifica-se um terreno de difícil apreensão pela sociologia. Ante este cenário, há a necessidade de elaborar um novo espaço de imaginação sociológica partindo da idéia de “globalidade”, isto é, da vivência de uma experiência cotidiana global de um mundo globalizado. Concretamente, parte-se da consciência de viver em um mundo que, ao longo do tempo, ameaça a si mesmo. Para Ulrich Beck, grandes exemplos são o acidente na usina nuclear de Chernobyl e a crise financeira dos mercados mundiais nos Estados asiáticos.10 A globalidade, assim como a experiência da segunda modernidade, é experimentada de forma diferente em cada parte do mundo. Nos Estados Unidos o nacional acaba por coincidir com o global, no que se pode interpretar como uma demonstração do imperialismo. Na Europa, por outro lado, a globalidade é vista como uma ameaça à sua soberania. Já nos países do em desenvolvimento, a globalidade traz consigo um novo apartheid econômico, transformando um sem-número de pessoas em uma legião de excluídos.11

10 11

Ibid., p. 29. Ibid., p. 30.

16 Há, para a sociologia, a necessidade de aceitar a globalidade e analisá-la como uma experiência cultural desterritorializada. A sociologia passa a encarar um novo desafio: não se pode mais analisar o mundo global e totalmente. O mundo, agora caracterizado como uma reunião de culturas e modernidades distintas e separadas, deve ser analisado sob a ótica de uma sociologia cosmopolita. E como parte desta nova ordem conceitual, também já não se pode mais imaginar a globalização globalmente, já que esta é experimentada de forma distinta em cada local do globo, impondo uma redefinição no local que a experimenta.12 Existem duas formas de se pensar a globalização. A primeira noção, que corresponde à globalização aditiva, parte do pressuposto de que o Estado nacional ainda domina, sendo a esta apenas um ponto de vista adicional. O que existe, para tal corrente, é um Estado nacional interconectado com os demais Estados nacionais. A outra, a noção substitutiva, parte do pressuposto de que o Estado nacional não existe mais. De que este foi substituído, ante a globalização, por um novo Estado.13 Ulrich Beck, em oposição às noções de globalização aditiva ou substitutiva da imagem do contêiner do Estado nacional, defende a tese de que esta deva ser entendida como uma globalização interiorizada. No seu diagnóstico da segunda modernidade, o contêiner do Estado nacional dilui a si mesmo, adquirindo uma nova qualidade, desenvolvendo novas formas de vida, novos contextos de comunicação transnacional, novas instituições que surgem nos mais variados planos do social, da economia, do trabalho e nas comunidades políticas.14 No contexto de uma sociedade cosmopolita, surge a necessidade de um novo empirismo global-local da transnacionalidade que nasce no interior dos Estados. Não se pode mais partir do pressuposto de que países economicamente desenvolvidos e em desenvolvimento constituem esferas isoladas ou que o mundo ainda é dividido em impérios separados e fechados uns aos outros. As culturas estão cada vez mais mescladas, transformando o que antes eram sociedades homogêneas em sociedades mundiais pluralistas. Para analisar esta sociedade mundial local é essencial uma imaginação dialógica que coloque no centro da ação a negociação de experiências contraditórias – sejam na política, ciência ou economia. A segunda modernidade aflora num contexto de tensão: a abertura de fronteiras causa, também, um reflexo protecionista
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BECK, 2003, op. cit., p. 32. Ibid., p. 33. 14 Idem.

17 intelectual, político e étnico, o que Ulrich Beck denomina como movimentos nacionalistas banais.15 Esta abertura de fronteiras e a conseqüente conexão mais forte entre os Estados nacionais apresentam um quadro de referência completamente novo, junto com uma nova etapa na história do desdobramento global do poder. Estar-se-ia, diz Ulrich Beck, diante de uma nova revolução do capital. Comparável ao que foi a revolução do capital na transição da sociedade estamental para a sociedade industrial, a nova revolução do capital que surge no movimento de transição da sociedade industrial para a sociedade global do risco é caracterizada pela possibilidade de a economia agir “desterritorializadamente”. Enquanto a sociedade e o Estado continuam atrelados ao seu território, a economia ingressa em uma nova dimensão, podendo bater em retirada sempre que a situação não lhe for favorável. 16 Com o advento das novas tecnologias, principalmente no que tange à informatização dos meios de produção, os fornecedores já não precisam se estabelecer em um só local, já que a produção passa a se dar em diversas partes do mundo.17 O fenômeno da deslocalização dos processos produtivos é decorrente da crescente segmentação do processo produtivo e conseqüente possibilidade de operar em rede, isto é, a partir da interligação entre diversas unidades produtivas. Assim, o processo produtivo passa a ser trasladado de uma sede a outra, em busca das melhores condições possíveis.18 Tal capacidade de subtração – visualizada nos casos em que as unidades produtivas se desmantelam e são relocalizadas rapidamente, de acordo com a sua conveniência – caracteriza o imperialismo da retirada. Isto porque, no atual contexto econômico, o pior que pode ocorrer para um Estado é a fuga de capital. A economia desterritorializada ganha força, criando, onde antes havia o Estado, um vazio de poder. A economia adquire o poder de submeter os Estados à

BECK, 2003, op. cit., p. 34. Ibid., p. 43. 17 “O capital não conhece pátria; esta nova forma empresarial de organização e concentração do capital salta ademais por cima das fronteiras estatais. As empresas transnacionais operam através de numerosos países ao mesmo tempo. Nos anos setenta seu número não superava poucas centenas. Em 1997 são mais de 40.000. (...) As companhias transnacionais representam uma concentração de capital, de poder e de capacidade de decisão imensos. São em si mesma uma importantíssima novidade organizativa”. CAPELLA, Juan Ramón. Fruto proibido: uma aproximação histórico-teórica ao estudo do Direito e do Estado. Trad. Gisela Nunes da Rosa e Lédio Rosa de Andrade. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002, p. 241. 18 Ibid., p. 242.
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18 obediência das máximas neoliberais do mercado mundial. Há, assim, a transição do Estado para o mercado.19 A globalização, diz Ulrich Beck, precisa ser entendida de forma dialética e reflexiva. De um lado, há a globalização enquanto transnacionalização, isto é, uma conexão entre os variados espaços nacionais que leva ao surgimento de um novo espaço, não identificável pelas antigas categorias. Há, para os transnacionais, uma crescente concentração econômica, bem como uma crescente interdependência entre nações isoladas. Tal fenômeno – ante a impossibilidade do capital em se instalar em todas as partes do mundo, assim como a falta de interesse em determinadas regiões – também gera seus excluídos. Por outro lado, a globalização também deve ser entendida como localização. Os agentes que operam em termos globais (empresas) são obrigados, em um determinado momento, a se situar em determinadas culturas locais, se abrindo e se integrando às mesmas. Outro exemplo de redefinição do local imposto pela globalização são as diversas culturas minoritárias em crescimento constante, nos mais diversos locais do globo. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a comunidade japonesa se concentra no bairro da Liberdade, enquanto a comunidade judaica tem uma presença bastante marcante no bairro de Higienópolis. Em Nova Iorque, o Lower East Side já representou a maior comunidade judaica do mundo e o bairro de Little Italy faz com que os italianos se sintam na sua terra natal. Essa cultura da diáspora – representante da diversidade cultural que fundamenta, em grande parte, a segunda modernidade – caminha lado a lado com o nivelamento das culturas imposto pelo globalismo. Este, podendo ser entendido como a união entre globalização e neoliberalismo, começa a nivelar as mais variadas culturas: as grandes empresas, que satisfazem necessidades comuns a diversos povos, investem numa estratégia de marketing que sirva tanto para uma cultura como para outra. É importante ressaltar, contudo, que a globalização é um fenômeno, enquanto o globalismo é entendido como a ideologia do rolo compressor.

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BECK, 2003, op. cit., p. 45.

19 2.3 As novas formas de individualização

Concomitantemente ao fenômeno da globalização, a segunda modernidade também traz consigo a introdução de uma nova forma de individualização: o individualismo institucionalizado. Cumpre ressaltar que esta nova forma de individualização nada tem que ver com emancipação20 ou liberdade, com o egoísmo neoliberal, ou mesmo individualização no sentido de autonomia. O individualismo institucionalizado diz respeito à necessidade de construir uma história própria, de ter controle sobre seu destino pessoal.21 O individualismo institucionalizado aparece como conseqüência de mudanças fundamentais no núcleo familiar que se deram a partir da década de 60. Entre os anos 50 e 60, a família era organizada de maneira que o homem trabalhava e a mulher cuidava da casa. Com a mudança no sistema educacional, deu-se o que Beck denominou de “feminização da educação”. A partir da ampliação da educação escolar, as orientações, as formas de pensar e os estilos de vida tradicionais são relativizados ou substituídos por condições de ensino e aprendizagem, por conteúdos de saber e formas lingüísticas de caráter universalista. A educação, desta maneira, possibilita um processo de busca de si mesmo, de construção de seu destino, introduzindo uma nova dinâmica institucional agora endereçada ao indivíduo, não ao grupo. Daí a mudança fundamental: questões como “quem cuida dos filhos?”, “quem faz a faxina?”, “quem tem direito a uma carreira?”, tornam-se cada vez mais freqüentes. Tais questões retratam uma dissolução dos modelos tradicionais de organização familiar e remetem, fundamentalmente, ao papel dos sexos na vida cotidiana.22 As tendências à individualização nada têm de novas. No século XIX, com a industrialização, muitas pessoas se libertaram de estruturas estamentais e impulsionaram um movimento de individualização. O elemento novo, agora, é a educação enquanto fenômeno de massa, que tem como conseqüência, principalmente, a interiorização de direitos e reivindicações

Cf. ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 17-47. 21 BECK, Ulrich. La Sociedad del Riesgo: hacia una nueva modernidad. Ed. Paidós Ibérica: Barcelona, 1998. p. 118. 22 BECK, 1998, op. cit., p. 106-107.

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20 que se estendem às mulheres e as libertam, assim, do seu destino outrora estamental, criando para as mesmas as oportunidades e riscos de construírem o seu próprio destino.23 O individualismo foi absorvido, em grande parte e por amplos setores da sociedade, como um projeto neoliberal. Surge a idéia do auto-empresário, na qual a vida própria é projetada como uma empresa, havendo a necessidade de se comportar como capitalista e organizar os aspectos da própria existência em conformidade com as regras do mercado. O auto-empresário age como se não tivesse limites, sob a falsa consciência de uma independência. Trata-se de uma incapacidade de reconhecer as condições sociais de sua existência: a ilusão da autonomia sem limites se opõe à dependência existente entre o auto-empresário e os verdadeiros global players. O auto-empresário, enquanto tentativa de redefinição do homem profissional, está imerso na ilusão de que pode sobreviver no mercado mundial ante as inseguranças e dependências extremas aos verdadeiros detentores do capital.24 O individualismo neoliberal é diferente do experimental-social descrito por Ulrich Beck. Este último consiste na necessidade de as pessoas desenvolverem uma sensibilidade para os contextos sociais e perceberem a individualização enquanto necessidade de redescobrimento do social e harmonização com o novo mundo que surge. Essa nova forma de individualização surge em um contexto em que há uma desintegração das certezas da sociedade industrial e necessidade de encontrar novas certezas para si e para outros que não a possuem. Ao contrário do auto-empresário, Beck fala em um “empresário social de si mesmo”, que ao construir a sua vida própria, constrói uma vida social de modo mais consciente do que outrora, e mais adaptado à nova realidade.25 Em que pese o individualismo experimental-social que emerge na segunda modernidade seja caracterizado pela possibilidade de conquista de uma vida, espaço, economia e tempo próprios, pode-se verificar uma nova modalidade de estratificação da sociedade. De um lado há aqueles que, por sua formação, oportunidades profissionais e mobilidade são mais capazes de individualização e do outro lado os que, por falta de formação profissional, são incapazes de construir a sua vida própria.

23 24

BECK, 2003, op. cit., p. 71. Ibid., p. 73. 25 Ibid., p. 75.

21 Ante esse cenário de diversidade cultural permeado por novas tendências de individualização, o Estado cosmopolita da segunda modernidade deve estar pronto para constituir um novo estatuto jurídico que relacione a proteção do bem ambiental, a proteção dos direitos fundamentais de todas as gerações e a proteção dos interesses e manifestações culturais.

2.4 Modernidade e risco

A individualização e a globalização são representantes da ambivalência do processo de modernização que se desenvolve na sociedade pós-industrial. Esta modernização que dissolve os antigos modelos da sociedade industrial e que não pode ser apreendida pelas antigas categorias e métodos da ciência social – que se mostram insuficientes diante da vastidão e ambivalência dos fatos a serem considerados – tem como principal característica a reflexividade.

2.4.1 Reflexividade na segunda modernidade

O confrontamento das premissas fundamentais do sistema social e político da sociedade industrial é decorrente da sua própria modernização. Não se trata de revolução ou crise. Em verdade, o sucesso da modernização inicia um processo de destruição criativa da civilização industrial. A modernização reflexiva dissolve as premissas e os contornos da sociedade e abre o caminho para uma nova modernidade. Por reflexividade deve-se entender uma constante autoconfrontação com os efeitos da sociedade de risco. Isto se deve pelo fato de que a transição da sociedade industrial para o período de risco da modernidade ocorre de maneira despercebida, não constituindo uma opção que se possa escolher ou rejeitar no decorrer dos processos de disputas políticas. Assim, diante dessa transição autônoma, despercebida e indesejada, podem-se verificar efeitos da sociedade de risco que não são assimilados pelos padrões institucionais da sociedade industrial. 26 Nesta, os conflitos acerca da distribuição de bens (empregos, renda, seguridade social) constituíam um
Neste ponto, Beck toma como referencial empírico os países industrializados que já superaram problemas de escassez de bens.
26

22 tema central. Na sociedade do risco, ao contrário, surgem conflitos de responsabilidade distributiva, isto é, conflitos acerca da distribuição, controle, prevenção e legitimação dos riscos decorrentes do avanço tecnológico e científico.27 O processo de modernização torna-se um problema na medida em que as instabilidades e riscos são oriundos das novidades tecnológicas e organizacionais introduzidas, de forma não refletida, na sociedade. Começam a tomar corpo, na sociedade de risco, as ameaças produzidas na evolução da sociedade industrial, levando ao surgimento da necessidade de redefinir os padrões relativos à responsabilidade, segurança, controle e distribuição das conseqüências dos danos. Nesta nova época, devem ser levadas em conta também as ameaças potenciais, que escapam à percepção sensorial e não podem ser determinadas pela ciência. Nesse contexto, o conceito de risco se torna fundamental para o entendimento das características, limites e transformações do projeto de modernidade. A partir das contribuições de Anthony Giddens e Ulrich Beck, principalmente, que os riscos deixaram de representar uma mera temática subdisciplinar das ciências sociais para representar um elemento fundamental na compreensão da sociedade contemporânea. Para melhor compreensão da transição do risco ao centro da teoria social contemporânea, cabe uma análise pormenorizada da sua trajetória. Em primeiro lugar, serão analisados os estudos técnico-quantitativos, para em seguida verificar o tratamento da temática dos riscos pelos construtivistas. Por último, será analisado o seu papel na teoria da sociedade global do risco de Ulrich Beck.

2.4.2 O risco à margem da teoria social

A partir dos anos 60, estudos técnicos e quantitativos de risco começaram a ser realizados dentro de disciplinas como toxicologia, epidemiologia, psicologia e engenharias. Por meio desta abordagem, o risco é considerado um evento adverso, uma atividade com probabilidades objetivas de causar danos e pode ser estimado através de cálculos quantitativos de
BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. In: BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização Reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. Trad. Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997. p. 17.
27

23 níveis de aceitabilidade que permitem estabelecer padrões. Formula-se, nessa abordagem estritamente técnica, o conceito de “risco aceitável”, que representa o nível de risco que pode ser utilizado como patamar para atividades voluntárias. O argumento central dessa abordagem é no sentido de que a sociedade pode estabelecer um nível de risco aceitável, como parte de uma troca entre riscos e benefícios.28 Este estudo técnico-quantitativo abrange três temas: estimação (fontes, intensidade, freqüência, duração e conseqüências para populações afetadas), comunicação (para a sociedade, com objetivo de diminuir a distância da percepção entre leigos e peritos) e administração (formulação de políticas públicas de legislação e regulação) dos riscos. Nos anos 70 e 80, várias críticas foram feitas a este método. Os principais pontos atacados foram a falta de dados científicos suficientes para determinar os riscos à saúde oriundos da exposição e as divergências de opinião entre os cientistas acerca de como interpretar as evidências e as incertezas dos resultados. Em que pesem os esforços do método quantitativo para responder às críticas, sobretudo a partir da identificação de atributos extras dos riscos (voluntariedade, familiaridade, controlabilidade, efeitos imediatos), tais críticas persistiram.

2.4.3 A apropriação dos riscos pela teoria social: socioconstrutivismo e análise cultural dos riscos

Mary Douglas, em crítica às análises técnicas, desenvolveu a teoria cultural dos riscos, centrada em uma visão socioconstrutivista segundo a qual os indivíduos são organizadores ativos de suas percepções, impondo seu significado aos fenômenos. Douglas inicia suas análises acerca do risco a partir de “Pureza e Perigo”29, quando verifica que há uma relação entre restrições alimentícias e ordem social: independentemente de quais forem os riscos objetivos, organizações sociais irão reforçar os perigos para reforçarem também a ordem religiosa, política e moral, mantendo-as coesas.

GUIVANT, Julia S. A Trajetória das Análises de Risco: da periferia ao centro da teoria social. Revista Brasileira de Informações Bibliográficas – ANPOCS. Nº 46, 1998, p. 3-38. 29 Cf. DOUGLAS, Mary. Purity and danger: an analysis of conceptions of pollution and taboo. Londres: Earthcan, 1996.

28

24 Com Aaron Wildavsky30, Douglas trouxe o tema dos riscos para o campo do debate político e moral. Partindo da premissa de que na seleção dos riscos relevantes nem sempre a evidência científica teria papel esclarecedor, Wildavsky e Douglas elevaram os fatores sociais e culturais a um papel central no processo de escolha. Ao questionarem como os peritos pretendem atingir níveis aceitáveis de segurança, passaram a levar em conta o fator cultural: quão seguro é suficientemente seguro para determinada cultura? No seu entendimento, não há como alguém ser qualificado como perito. Sustentam Douglas e Wildavsky que há uma impossibilidade de se conhecer tudo em relação aos riscos. Isto porque, com o crescente avanço científico e tecnológico e com o conseqüente surgimento de novas áreas de conhecimento, há um aumento na distância entre o que já se conhece e o que é desejável conhecer. Pela necessidade de lidar com as incertezas, a perspectiva técnica erra ao super-intelectualizar os processos decisórios e super-enfatizar os impedimentos dos leigos, ora classificados como irracionais.31 Se os riscos aos quais os seres humanos estão expostos são reais e suficientemente assustadores, por que a poluição ambiental e ecológica tem ganhado mais destaque do que os demais? Para Douglas e Wildavsky, a resposta para este questionamento está na escolha que a sociedade faz acerca das suas instituições e seu modo de vida. Valores comuns levam a medos comuns, induzindo a escolha dos riscos a fazer parte de um processo sócio-cultural que não guarda relação com o caráter objetivo dos mesmos. O fato de os riscos serem percebidos e administrados de acordo com princípios e valores da ordem social impede que esses possam ser tratados com ferramentas metodológicas quantitativas.32 Como analisar, então, a relação entre a forma em que o público escolhe os riscos a serem temidos e as escolhas feitas pelas organizações sociais das quais eles pertencem? Os autores fazem uma análise a partir do contraste existente entre as formas centrais de organização social (burocracia e mercado) e a periferia (grupos dissidentes). Estas formas de organização compreendem ambientes sociais variados onde os indivíduos interiorizam alguns valores e comportamentos.

Cf. DOUGLAS, Mary; WILDAVSKY, Aaron. Risk and culture: and essay on the selection of technical and environmental dangers. Berkeley, CA: University of California Press, 1982. 31 GUIVANT, 1998, op. cit., p. 5. 32 Idem.

30

25 Criticada pela simplicidade da tipologia utilizada, Douglas retomou uma tipologia mais complexa. São identificadas formas de organização social que representam quatro tipos de racionalidades. A aceitabilidade dos riscos é medida de acordo com a percepção dos mesmos enquanto ameaça à organização social. A tipologia mais complexa de Douglas compreende uma burocracia centralizada (estima e administra os riscos segundo os peritos), a comunidade (instituições locais), os indivíduos competitivos (cujo consentimento é negociado) e os indivíduos atomizados (à margem do debate).33 Tal tipologia foi aplicada posteriormente na análise de como diferentes indivíduos enfrentam os riscos segundo a credibilidade e confiança nos geradores da informação e administradores de segurança. Foram analisados, por exemplo, os riscos da indústria nuclear: geraram hostilidade pública os altos níveis de burocratização, distância, incontrolabilidade, dependência do conhecimento dos peritos e ausência de um processo decisório aberto. Quando da análise das biotecnologias, foi verificado que não só estão envolvidas incertezas como também há certezas contraditórias, ou seja, o conflito entre os que aceitam ou não a introdução de organismos geneticamente modificados na natureza tem origem cultural.34 A maior contribuição de Mary Douglas para a análise dos riscos foi chamar atenção para a necessidade, pelas políticas regulatórias e preventivas, de reconhecer que há uma pluralidade de racionalidades entre os leigos e que estes não se diferenciam muito dos peritos. Isto porque as questões culturais – além, simplesmente, das questões científicas – devem ser levadas em consideração nos processos decisórios. A partir e paralelamente aos trabalhos de Douglas, houve uma difusão das análises sociais sobre os riscos. Relações entre leigos e peritos e questões acerca do controle dos riscos são questões centrais nas análises feitas pelos construtivistas acerca das divergências entre os atores sociais envolvidos nas questões ambientais. As pesquisas sociais, além de iluminarem as análises sobre os riscos, enriquecem bastante a partir das mesmas. Para James F. Short, a interdisciplinaridade deveria modificar a teoria do comportamento racional que influenciou a análise dos riscos em sua origem. Não se trata, contudo, da negação da racionalidade da ação social na percepção dos riscos e processos

33 34

Ibid., p. 7. Ibid., p. 8.

26 decisórios. Trata-se da necessidade de mostrar como as percepções do risco constroem-se em função do grau de confiabilidade das instituições responsáveis pela determinação e administração dos riscos.35

2.4.4 Os riscos no centro da teoria social: Ulrich Beck e Anthony Giddens

A partir do desastre da usina nuclear de Chernobyl, em 1986, a sociedade se viu às voltas com um mundo que oferece mais riscos à medida que se moderniza. O projeto de uma sociedade enquanto controladora dos efeitos colaterais oriundos do processo de industrialização já não pode ser aplicado à realidade da segunda modernidade. Com Ulrich Beck, o risco foi elevado ao centro da teoria social, já que no seu trabalho este é tido como um elemento-chave para entender a sociedade contemporânea. O risco, para Ulrich Beck, é um conceito relativamente novo. Em que pese a possibilidade de se entender a sociedade como uma resposta a todos os perigos possíveis, é só com a modernidade que nasce o conceito de risco. Assim, há uma distinção entre riscos e perigos. Estes últimos estão ligados a épocas mais remotas, em que a humanidade se via à mercê de catástrofes naturais ou intervenção dos deuses. Isto porque os perigos compreendem todas as ameaças que não são interpretadas como condicionadas pelos seres humanos. O conceito de risco, por outro lado, surge com as decisões humanas, isto é, são originados pelo processo civilizacional e modernização progressiva. A civilização – que busca tornar previsíveis as imprevisíveis conseqüências das suas decisões, que busca controlar o incontrolável e sujeitar os efeitos colaterais a medidas preventivas – acaba por criar o risco.36 A partir do momento em que são concebidas respostas institucionais para os perigos, isto é, quando estes se tornam calculáveis por respostas institucionais adequadas, é que surge o risco. Como exemplo, Beck cita os primórdios da navegação comercial intercontinental. Àquele tempo, o risco era entendido como ousadia e estava umbilicalmente ligado à noção de segurança. Para os primeiros comerciantes e aventureiros que se lançavam à conquista do desconhecido, havia uma grande probabilidade de seus navios naufragarem, o que pode ser entendido como um
35 36

Ibid., p. 11. BECK, 2003, op. cit., p. 115.

27 perigo. Quando este destino individual passou a ser visto como a possível experiência comum de um determinado grupo, ou seja, como um problema que afetava e ameaçava a existência de empreendimento comercial intercontinental, criou-se uma caixa comum destinada a pagar uma indenização em caso de naufrágio. Nesse momento, quando foi criada uma resposta institucional para o perigo, este se transformou em risco, isto é, um problema coletivamente solúvel.37 Niklas Luhmann sugere que os riscos sejam interpretados como os possíveis danos decorrentes de uma decisão. Quando os danos são relacionados a causas fora do próprio controle, estes são tidos como perigos. Os perigos englobam, também, as decisões de outras pessoas, grupos e organizações. Dessa maneira, a mesma ação pode ser tida como risco para alguns e perigo para outros. A título exemplificativo: o motorista que dirige em alta velocidade assume um risco para si ao mesmo tempo que representa um perigo aos demais.38 Levando-se em conta o padrão conceitual estabelecido por Beck, o desenvolvimento das forças produtivas, isto é, a industrialização, pode ser entendida como o processo de surgimento dos riscos e das respostas institucionais a eles. Entre os séculos XVIII a XX, o processo de distribuição das conseqüências dos riscos foi negociado e institucionalizado, de forma que desempenhou um papel fundamental para o otimismo desenvolvimentista. Assim, o progresso sempre esteve umbilicalmente ligado à possibilidade de compensação dos seus efeitos colaterais através de um programa institucionalizado.39 Na sociedade de risco, contudo, esse otimismo desenvolvimentista é confrontado pela mudança substancial na qualidade dos riscos. Isto porque o cálculo do risco pressupõe um acidente, isto é, um acontecimento delimitado social, espacial e temporalmente. Para o sociólogo alemão, tal modelo perde validade, principalmente, partir de Chernobyl, onde as conseqüências do acidente já não puderam mais ser delimitadas. Os riscos oriundos das novas tecnologias presentes na segunda modernidade fazem com que já não seja possível determinar o grupo de pessoas afetadas por um acidente, tampouco delimitar territorialmente as conseqüências e muito menos precisar até quando estas perdurarão. O imprevisível já não pode ser antecipado e não há

37 38

Idem. BRUSEKE, Franz Josef. A técnica e os riscos da modernidade. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2001, p. 40. 39 BECK, 2003, op. cit., p. 118.

28 respostas institucionalizadas para o mesmo. Assim, é fundamental que haja um desprendimento das antigas categorias do risco.40 A sociedade da primeira modernidade partia do princípio de que os riscos e suas conseqüências podiam ser tecnicamente superados. Contudo, a radicalização dos processos de modernização gera conseqüências que põem em xeque todo o programa institucionalizado de cálculo dos efeitos colaterais. Tanto na elaboração científica dos acidentes quanto nas instituições centrais – na proteção contra catástrofes, previsão da assistência médica ou dos custos – não se percebe a distância que separa os riscos da primeira dos riscos globais da segunda modernidade. Os riscos da segunda modernidade são imperceptíveis e interpretados contraditoriamente pelos especialistas. Já não é mais possível, para os leigos, distinguir o perigoso do inofensivo. Como conseqüência, todos ficam à mercê de especialistas e instituições que se contradizem nas questões mais elementares do dia-a-dia.41 Ao contrário dos riscos da primeira modernidade, os riscos da segunda são imperceptíveis. Um acidente em uma mina ou o naufrágio de um navio era um acontecimento perceptível. A poluição emanada da chaminé de uma fábrica também. Agora, na sociedade tecnologicamente perfeita da segunda modernidade, onde os riscos da primeira foram institucionalizados e relativamente superados, surgem novos riscos que escapam à percepção imediata dos afetados. Estes, por sua vez, já não são mais os operários ou marinheiros que se submetiam aos riscos voluntariamente: agora, os afetados são consumidores ou até mesmo pessoas que não possuem qualquer ligação com a origem desses perigos. Há uma separação radical entre os que geram os riscos e os que se vêem obrigados a suportar suas conseqüências. Para exigir reparação, cabe aos afetados buscar as causas do dano. Estas, por sua vez, surgem num contexto por demais complexo, o que acaba por frustrar quaisquer pretensões das vítimas. Isto porque os riscos já não são mais localizáveis espacial ou temporalmente: é o caso, por exemplo, do lançamento de uma diversidade de produtos tóxicos no ar por diversas indústrias. Como estabelecer o nexo de causalidade entre a conduta de cada uma destas e a condição médica de suas potenciais vítimas? Como relacionar causa e conseqüência se esta for tardia, ou seja, se a vítima apresentar uma doença apenas vinte anos depois da exposição? Ante a impossibilidade de se estabelecer tal nexo e na ausência de culpados, não há punição. Quando o
40 41

Ibid., p. 119. Ibid., p. 120.

29 risco se torna invisível e não localizável, suas conseqüências já não podem ser manejadas pelos instrumentos clássicos de jurisdição, tendo como conseqüência um estado de crise de legitimação da própria sociedade. Isso acontece pelo fato de que a segurança dos seus membros – uma das legitimações mais importantes da sociedade – agora já não pode ser garantida.42 A confiabilidade nas instituições passa a ser questionada a partir dos conflitos de risco, isto é, quando as diversas pretensões de racionalidade que participam da definição social do risco se contradizem. A racionalidade institucionalizada – decorrente das conclusões produzidas por cientistas que se mantêm presos às antigas categorias – não reconhece os riscos sem rigorosas evidências. A instância jurídica, quando impossibilitada de estabelecer qualquer nexo de causalidade, também não reconhece a existência dos mesmos. Os afetados, por sua vez, detectam o potencial de ameaça e se organizam em movimentos sociais, utilizando de instrumentos diversos – como outros cientistas ou estatísticos – para se insurgirem contra a negação institucional. Esses conflitos geram um esvaziamento no núcleo de legitimidade das instituições na medida em que os riscos se ampliam e se diversificam – com o aval do Estado – o que tem como conseqüência a crise de confiança.43 Esse novo quadro de incertezas conhecidas – onde as relações causais só são comprovadas em quadros extremos – é permeado por opiniões contraditórias. E no desenrolar dessa luta pela definição dos riscos, das suas vítimas e das suas causas, há uma série de conseqüências tanto no âmbito político como econômico. Isto porque, na nova dinâmica dos riscos, a riqueza não significa mais uma prevenção contra os mesmos e, cedo ou tarde, os próprios causadores serão vítimas. Como exemplo, pode-se citar empresas do setor químico ou que trabalham com organismos geneticamente modificados (OGMs). Tais empresas investem em pesquisas e em especialistas para que estes convençam a sociedade de que não há risco, e assim constroem mercados no mundo inteiro. Quando surgem interpretações diversas daqueles riscos, as empresas são obrigadas a suportar a queda no valor das suas ações.44 Tais conflitos de risco, resultantes da insuficiência dos arranjos institucionais, denotam o quadro de irresponsabilidade organizada instaurado. Os que deveriam ser responsabilizados estão livres para a irresponsabilidade. Os instrumentos utilizados para
42 43

Ibid., p. 122. Ibid., p. 126. 44 Ibid., p. 130.

30 estabelecer a culpa ainda são os mesmos da primeira modernidade, mantendo-se presos à lógica das racionalidades técnica e médica que por sua vez são constantemente adaptadas aos interesses de lucro. Com o esvaziamento do núcleo de legitimidade do Estado, um novo conceito de risco e novas respostas institucionais a ele se tornam centrais para que o processo de modernização tenha continuidade. Em que pese o debate exaustivo acerca dos possíveis riscos à saúde humana e meio ambiente oriundos dos agrotóxicos45, transgênicos ou células-tronco46, existem novas tecnologias que ainda não figuram no centro das discussões e sequer foram reguladas pela legislação pátria. É o caso da nanotecnologia.

45

Cf. GUIVANT, Julia S. Reflexividade na Sociedade de Risco: conflitos entre leigos e peritos sobre os agrotóxicos. In: HERCULANO, Selene. (Org.). Qualidade de vida e riscos ambientais. Niterói: Editora da UFF, 2000, p. 281303. 46 Cf. ADI/3510 – Ação Direta de Inconstitucionalidade.

31 3 NANOTECNOLOGIA E RISCOS DE GRAVES CONSEQUÊNCIAS

3.1 Considerações iniciais

Esta etapa do trabalho terá como objeto a nanotecnologia. Preliminarmente, será feita uma contextualização histórica e uma introdução aos seus conceitos fundamentais. Estabelecerse-á, também, uma comparação entre nanopartículas naturais e artificiais, ao mesmo tempo em que se demonstrará o grande atrativo destas últimas. Em seguida, serão analisadas as suas diversas aplicações, cujo objetivo é demonstrar em que medida os nanomateriais estão presentes na vida dos seres humanos. Tais informações serão úteis para o cerne deste capítulo, que é a análise das incertezas científicas e potenciais riscos relativos ao uso de nanomateriais pelos seres humanos, suas interações com o organismo e com o meio ambiente.

3.1.1 Histórico: do início da miniaturização

A possibilidade de manipulação de materiais em escala nanométrica foi aventada em 1959, a partir da apresentação do físico Richard Feynman, no encontro anual da Sociedade Americana de Física. Em sua palestra intitulada “Há mais espaço lá embaixo” (There’s plenty of room at the bottom), Feynman defende a inexistência de quaisquer obstáculos teóricos à construção de dispositivos bastante pequenos, compostos por elementos igualmente diminutos. O termo “nanotecnologia”, entretanto, só veio a ser utilizado somente em 1974, quando Norio Taniguchi, pesquisador da Universidade de Tokyo, referiu à habilidade de engendrar materiais precisamente ao nível nanométrico.47 Os termos “nanotecnologia”, “nanociência”, “nanomateriais” e demais variações são derivados da palavra grega “nano”, que significa “anão”. Um nanômetro (1nm) é o equivalente a um bilionésimo de um metro. Em outras palavras, pode-se dizer que um nanômetro é o

THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING. Nanoscience and nanotechnologies: opportunities and uncertainties. Plymouth: Latimer Trend Ltd., 2004. p. 5. Disponível em: http://www.nanotec.org.uk/finalReport.htm. Acesso em: 16 de fevereiro 2009.

47

32 equivalente a um milímetro dividido por um milhão. Apesar da dificuldade de imaginar medidas em tais escalas, pode-se estabelecer algumas comparações: uma pulga possui 1.000.000nm (um milhão de nanômetros); um fio de cabelo humano, por sua vez, possui 80.000nm (oitenta mil nanômetros); um glóbulo vermelho possui cerca de 7.000nm (sete mil nanômetros); bactérias possuem 1.000nm (mil nanômetros).48 Os termos nanotecnologia e nanociência são utilizados de maneira distinta em diversos estudos, apesar de não haver diferenças substanciais entre os mesmos, isto é, que impeçam o bom entendimento da temática. A primeira significa a habilidade de medir, ver, prever, engendrar, produzir e aplicar materiais em escala nanométrica, além de explorar as novas propriedades dos materiais em nanoescala. A nanociência, por outro lado, preocupa-se em estudar o fenômeno e a manipulação de materiais em escala nanométrica, cujas propriedades diferem significativamente das dos materiais de maior escala. Ao longo deste trabalho, respeitar-se-á tal distinção.

3.1.2 Nanomateriais: informações fundamentais

Somente nos últimos anos que o uso sistemático e a manipulação de nanopartículas individuais foram possíveis. Ferramentas mais sofisticadas foram desenvolvidas para investigar e manipular nanomateriais, como o microscópio de tunelamento (scanning tunnelling microscope, STM), inventado em 1982, e o microscópio de força atômica (atomic force microscope, AFM), de 1986. Tais instrumentos, além de terem possibilitado a visualização de superfícies em escala atômica, também permitiram o manuseio e construção de estruturas nanométricas ainda rudimentares.49 Em 1990, Don Eigler e Erhard Schweizer manusearam átomos de xenônio e conseguiram gravar, sobre uma superfície de níquel, a logomarca da IBM.50 As diversas técnicas de manipulação dos nanomateriais estão divididas em duas abordagens: de cima para baixo (top-down techniques) e de baixo para cima (bottom-up
48

SWISS REINSURANCE COMPANY. Nanotechnology: small matter, many unknowns. Zurich: SwissRe, 2004. p. 5. Disponível em: http://www.swissre.com/INTERNET/pwsfilpr.nsf/vwFilebyIDKEYLu/ULUR5YNGET/$FILE/Publ04_Nanotech_en.pdf. Acesso em: 13 de abril de 2009. 49 THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING, 2004, op. cit., p. 16. 50 Ibid., p. 6.

33 techniques). A primeira, de cima para baixo, engloba as técnicas de produção de nanomateriais que tem como ponto de partida uma grande partícula, que é reduzida até o formato e tamanho desejados. Tal processo envolve um gasto expressivo de energia e produz uma grande quantidade de dejetos, além do uso significativo de recursos naturais. Na segunda abordagem, de baixo pra cima, estruturas maiores são construídas átomo a átomo, molécula por molécula. É possível, nesta abordagem, o uso da técnica de auto-organização, que consiste na união espontânea de diversos componentes, criando novos materiais.51 Para que sejam considerados de nanoescala e, por conseguinte, para que sejam objeto de estudo da nanociência, os materiais devem possuir no máximo 100nm.52 Em se tratando de abordagem de cima para baixo (top-down techniques), pode-se considerar um nanomaterial aquele que foi reduzido a 100nm ou menos. Partindo-se da abordagem inversa, de baixo para cima (bottom-up techniques), a união de nanopartículas não deve exceder este patamar. Tal escala deve ser atingida em, no mínimo, uma dimensão. Por exemplo: existem nanomateriais, como revestimentos e camadas especiais, que chegam a atingir alguns centímetros de área, já que são utilizados em superfícies. Contudo, tais materiais são considerados nanométricos pelo fato de apresentarem profundidade nanométrica, chegando a possuir somente um átomo de espessura. É possível verificar materiais em nanoescala de somente uma, duas ou em todas as três dimensões. Os nanomateriais unidimensionais são aqueles que possuem somente uma dimensão em escala nanométrica. Em geral a dimensão é a profundidade, como se pode verificar em filmes ultrafinos, camadas e revestimentos de superfícies. Algumas camadas e revestimentos chegam a possuir somente uma molécula ou um átomo de profundidade, apesar de possuírem uma área de cobertura relativamente extensa. Exemplos de nanomateriais unidimensionais são os revestimentos em dióxido de titânio ativado, projetados para repelir água e bactérias de superfícies auto-limpantes. Também existem revestimentos à prova de arranhões que são significativamente aprimorados a partir do uso de camadas intermediárias em nanoescala.53 Nanomateriais bidimensionais são aqueles que possuem duas dimensões em escala nanométrica (largura e profundidade, e.g.) e possuem uma dimensão estendida (altura, e.g.). Nanotubos de carbono, nanofios, biopolímeros e nanotubos inorgânicos se encaixam nesta
51 52

SWISS REINSURANCE COMPANY, 2004, op. cit., p. 9. THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING, 2004, op. cit., p. 8. 53 Ibid., p. 10.

34 categoria. Nanotubos são estruturas cilíndricas, cujo diâmetro não ultrapassa os 100nm, cujos maiores atrativos são suas propriedades físicas e químicas, como resistência, durabilidade e condutividade.54 A nanoescala em três dimensões é representada por partículas que possuem um raio não maior do que 100nm e não ultrapassam este limite em nenhuma dimensão. Materiais que pertençam à escala nanométrica em todas as suas dimensões são denominados nanopartículas. São exemplos de nanopartículas os fulerenos, que são compostos por sessenta átomos de carbono organizados em 20 hexágonos e 12 pentágonos, cujo formato é comparado a uma bola de futebol. Por serem ocos, podem desempenhar a função de veículos para remédios e contrastes, bem como para lubrificantes de superfícies.55

3.1.3 Nanomateriais naturais e artificiais

Partículas em nanoescala não são novas e sempre estiveram presentes na natureza. Por exemplo, os polímeros – macromoléculas construídas a partir de subunidades de menor escala – vêm sendo manuseados por industriais desde o início do século XX, a despeito do desconhecimento dos estudiosos acerca da existência de partículas tão diminutas. Nanocristais de sal são detectáveis nos ventos dos oceanos. Motores a diesel emitem milhões de partículas de carbono no ar, assim como cigarros e velas. O leite (com os colóides) é outro exemplo, bem como as proteínas que controlam processos biológicos. Nanopartículas, além de surgirem naturalmente, são criadas há milhares de anos enquanto resultado da combustão ou do cozer de alimentos.56 Deve-se ressaltar, porém, que há uma diferença substancial entre as nanopartículas encontradas na natureza e as artificialmente manufaturadas. Partículas de sal, por exemplo, são solúveis em água. Se inaladas, ao entrarem em contato com o tecido, imediatamente se dissolvem e perdem a sua forma. Partículas oriundas de processos de combustão, apesar de insolúveis, têm uma grande tendência à aglomeração, formando micropartículas de diferentes propriedades.
54 55

Ibid., p. 8. Ibid., p. 10. 56 Ibid., p. 6.

35 Nanopartículas artificialmente manufaturadas possuem propriedades bem diferentes das naturais e isso constitui o seu grande atrativo. Ao contrário das naturais, elas têm tendência à dispersão, dado o seu revestimento peculiar. A lógica é simples: a fim de evitar que nanopartículas se aglomerem e formem micropartículas – o que geraria uma perda de propriedades alcançadas com a miniaturização – estas são revestidas de maneira especial. Assim, não importando quanto tempo passe, as nanopartículas artificiais continuam reativas e bastante móveis.57

3.2 Nanomateriais e suas aplicações

Nanomateriais interessam à indústria por vários motivos. Partículas menores do que 50nm já não são regidas pelas clássicas leis da física, mas da física quântica. Isso significa que nanopartículas podem assumir outras propriedades óticas, magnéticas e elétricas, o que as distingue substancialmente das partículas maiores da mesma família. Também, devido à dimensão reduzida, a razão entre massa e superfície é diferenciada. Quanto menor um corpo, maior é a superfície em relação à sua massa, o que significa dizer que, quanto menor a partícula, mais átomos existirão na sua superfície e menos átomos em seu interior.58 Por exemplo, uma partícula de 30nm possui somente 5% dos seus átomos na sua superfície, enquanto uma partícula de 3nm possui 50%. Pelo fato de reações químicas catalíticas e de crescimento ocorrerem nas superfícies, os nanomateriais se tornam bem mais reativos do que os mesmos materiais em largas partículas.59

3.2.1 Medicina e farmacêuticos

Nanotecnologia, combinada com biotecnologia, formam os pilares que sustentam os rápidos avanços em diversas áreas da medicina. Tais progressos em nanoescala podem ser vislumbrados quando nanomateriais passivos ou ativos são utilizados para aplicar drogas em locais e momentos desejados. Isto reduz efeitos colaterais, levando a uma melhor resposta do
57 58

SWISS REINSURANCE COMPANY, 2004, op. cit., p. 13. Ibid., p. 12. 59 THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING, 2004, op. cit., p. 7.

36 organismo e à utilização de menores dosagens. O desenvolvimento e a aplicação da nanotecnologia na medicina englobam diversas áreas: diagnóstico, aplicação de drogas, regeneração de tecidos, reparação de lesões, próteses, dentre outras. No que diz respeito ao diagnóstico, há pesquisas em torno de marcadores (contrastes) em nanoescala. Tais marcadores são úteis para a detecção de células cancerígenas e, conseqüentemente, para antecipação do tratamento. Outra ferramenta construída com o uso de nanotecnologia são os “laboratórios em chips”, que consistem em laboratórios portáteis para a obtenção de diagnósticos, sendo aplicados na prevenção e controle de doenças, bem como na monitoração do próprio meio ambiente.60 Atualmente, empresas farmacêuticas já utilizam da nanotecnologia para aumentar a eficácia de medicamentos e reduzir efeitos colaterais. Os princípios ativos das drogas são manipulados de modo a caberem em cavidades minúsculas das substâncias que os transportarão para as células. Substâncias como beta-ciclodextrina ou HDL sintético (Hight Density Lipoprotein) – o colesterol bom – já são largamente utilizadas em antiinflamatórios, antialérgicos, antiácidos e no tratamento de determinados tipos de câncer. Estudos do ano de 2001 já indicavam que nanopartículas entre 50nm e 100nm seriam ideais para o tratamento do câncer, eis que partículas maiores não penetrariam com a mesma eficácia nos tumores. No tratamento da AIDS, grandes avanços são obtidos a partir das nanocápsulas, que desviam do sistema imunológico, possibilitando o direcionamento de agentes terapêuticos a locais específicos. No tratamento da diabetes, um sistema de aplicação de insulina vem sendo desenvolvido a partir do uso combinado entre nanomateriais porosos e sensores.61 Para a construção de próteses, existem nanomateriais que representam uma alternativa à liga de titânio e ácido inoxidável utilizada em implantes ortopédicos e válvulas cardíacas. Em alguns casos, estas ligas tradicionais não chegam a durar o equivalente ao tempo de vida do paciente. Por outro lado, o óxido de zircônio nanocristalino é resistente, à prova de

GREENPEACE ENVIRONMENTAL TRUST. Future Technologies, Today’s Choices: Nanotechnology, Artificial Intelligence and Robotics; A technical, political and institutional map of emerging technologies. Londres: Greenpeace Environmental Trust, 2003, p. 28. Disponível em: http://www.greenpeace.org.uk/MultimediaFiles/Live/FullReport/5886.pdf. Acesso em 13 de abril de 2009. 61 Idem.

60

37 biocorrosão e biocompatível, demonstrando-se ideal para próteses. Carbetos de silício, por serem leves e resistentes, são ideais para a construção de válvulas cardíacas.62

3.2.2 Cosméticos e protetores solares

A indústria de protetores solares utiliza dióxido de titânio e óxido de zinco, cujo principal atrativo é a possibilidade de absorver e refletir raios ultra-violetas ao mesmo tempo em que são transparentes à luz visível. 63 Cosméticos, como cremes hidratantes e antienvelhecimento, têm seus princípios ativos reduzidos à nanoescala, facilitando a chegada às camadas mais profundas da pele sem que suas propriedades sejam perdidas pelo caminho. Nanopartículas também já estão presentes em cremes dentais. Nanocristais de prata e hidroxiapatita (composto de fosfato e cálcio) são utilizados para a recuperação de dentes danificados. Tais materiais aderem aos dentes durante a escovação, ajudando na recomposição do esmalte – cujas irregularidades são freqüentes, porém invisíveis – e garantindo proteção contra desgastes futuros.

3.2.3 Informática

Desde o ano de 1997, a indústria de eletrônicos vem utilizando a nanotecnologia na produção dos telefones celulares, cujas funções básicas de agenda e despertador dependiam dos poucos bytes comportados pelos microchips. No ano de 2000, surgiram os primeiros MP3 players com memória flash, cuja capacidade de armazenamento chegava a somente 1Gb (um gigabyte). Dado o avanço considerável nesse campo, o mercado da telefonia celular caminhou no sentido da redução dos aparelhos, aumento significativo da capacidade de armazenamento de dados e inserção de novas funções, como acesso à internet e câmera fotográfica. No ano de 2002, a instituição ETC Group, por ocasião da publicação de um estudo, afirmou que em 2012 todo o mercado de informática (eletrônicos, magnéticos e óticos inclusos)
62 63

THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING, 2004, op. cit., p. 12. Ibid., p. 10.

38 seria dependente de nanomateriais.64 Tal previsão vem se mostrando acertada na medida em que os recentes lançamentos da área da informática, em sua grande maioria, utilizam a nanotecnologia. Modernos microprocessadores, memórias flash, microchips e monitores em LCD (cristal líquido), atualmente, dependem de nanotubos de carbono para que sejam produzidos.

3.2.4 Engenharia

Nanomateriais são utilizados pela indústria na produção de revestimentos e superfícies. Nanopartículas de dióxido de silício são largamente utilizadas em vidros, dada a sua capacidade de absorver a luz, gerando, assim, propriedades anti-reflexos. Vidros revestidos de dióxido de titânio ativado, por sua vez, possuem propriedades auto-limpantes e anti-bacterianas.65 Nanopartículas de cerâmica têm sido utilizadas no aumento da resistência das tintas de automóveis, enquanto as de argila as deixam mais leves, resultando em economia de combustível e natural benefício ao meio ambiente.66 Além de revestimentos em nanoescala e tintas, nanomateriais também estão presentes em lubrificantes. Nanopartículas de ácido bórico diminuem consideravelmente o atrito entre superfícies e se mantêm quimicamente estáveis quando misturadas em óleos de uso industrial. Como mencionado anteriormente, nanotubos de carbono constituem uma grande evolução na indústria da informática. Não obstante, já são vislumbradas algumas aplicações de tal matéria-prima em maior escala. Por possuírem propriedades mecânicas de grande importância, como resistência e leveza (chegam a ser cem vezes mais resistentes do que o aço, com um sexto do peso), os nanotubos de carbono vêm sendo estudados como potenciais substitutos de compostos atualmente utilizados, como ligas metálicas e fibras de carbono. Isto influenciaria sobremaneira a produção de automóveis e construção de aeronaves.67

64 65

GREENPEACE ENVIRONMENTAL TRUST, 2003, op. cit., p. 22. THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING, 2004, op. cit., p. 11. 66 Idem. 67 THE GREENPEACE ENVIRONMENTAL TRUST, 2003, op. cit., p. 15.

39 3.2.5 Energia

Os avanços nanotecnológicos podem trazer mudanças substanciais no setor energético, principalmente em termos de iluminação, armazenamento, geração e economia de energia. No que diz respeito à iluminação, mudanças significativas são esperadas no setor para os próximos dez anos. Semicondutores utilizados na fabricação de diodos emissores de luz podem ser esculpidos em nanoescala, o que deve levar à redução de mais de 10% do consumo de energia em todo o mundo.68 O armazenamento e a geração de energia também se tornaram mais eficientes. Nanopartículas de íon lítio contribuíram para a redução no tamanho e aumento da capacidade dos dispositivos de armazenamento. Na fabricação de células fotoelétricas – capazes de gerar energia a partir da luz do Sol – polímeros e células nanocristalinas aumentam a eficiência e redução de custos dos materiais. Por conta da grande área de superfície, possibilitam o aumento da absorção de energia a partir da utilização de menor espaço.69

3.3 Nanomateriais e o corpo humano

O contato das partículas com os seres humanos ocorre, essencialmente, de três maneiras: se inaladas, engolidas ou absorvidas pela pele. Para essas três vias, o organismo humano possui defesas naturais contra matérias a ele estranhas. As vias aéreas, por exemplo, possuem proteções naturais contra a penetração de resíduos sólidos. Os pêlos das fossas nasais e o muco impedem a entrada de partículas maiores, que são expulsas através da garganta durante a respiração. As que eventualmente chegam ao tecido pulmonar onde ocorrem trocas gasosas são absorvidas por fagócitos – cuja função primordial é expulsar matéria estranha ao organismo – e levadas a nódulos linfáticos. Não obstante, tais funções podem ser prejudicadas se a quantidade de partículas absorvidas for

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GREENPEACE ENVIRONMENTAL TRUST, 2003, op. cit., p. 27. Ibid., p. 30.

40 excessiva. Inflamação e degeneração do decido pulmonar, pneumonia e câncer de pulmão, são algumas das possíveis conseqüências da absorção de resíduos sólidos pelo sistema respiratório.70 A pele é protegida por uma camada de células mortas (epiderme) e coberta por uma camada de gordura, que ajuda a repelir líquidos. Abaixo da epiderme, uma camada de células vivas (derme), possui terminações nervosas e vasos sanguíneos. Quando da ocorrência de infecções por bactérias ou quaisquer outros danos à pele, tais vasos possibilitam a chegada de células que levam a processos inflamatórios e reparadores do tecido danificado. 71 O sistema intestinal, ao contrário do pulmão e da pele, possui como funções primordiais a quebra e absorção de partículas. O alto grau de acidez do estômago, que possibilita a digestão de alimentos, também funciona como microbicida, evitando que o organismo seja contaminado. O intestino, por sua vez, produz muco e enzimas digestivas, além de uma grande quantidade de vasos sanguíneos e linfáticos que desempenham as funções de proteção mencionadas anteriormente.72 A despeito do perfeito funcionamento de tais mecanismos de defesa e da prévia existência de nanopartículas naturais, novos questionamentos devem ser feitos quando da absorção de nanopartículas artificiais. Com o tamanho reduzido, alto grau de reatividade e grande área de superfície, materiais que seriam considerados inofensivos podem representar um grande perigo para os seres humanos. Como tais partículas se comportam no organismo? Quais os efeitos nocivos da absorção de nanopartículas pelo corpo humano? O destino comum de todas as partículas é a corrente sanguínea? É possível, se presentes na corrente sanguínea, a absorção destas pelos órgãos? Nanopartículas, se inaladas, podem causar danos completamente diferentes dos causados por partículas de maiores tamanhos. Em primeiro lugar, dado o seu tamanho reduzido, nanopartículas podem penetrar mais profundamente nos pulmões. Existem evidências científicas de que determinadas partículas escapam à defesa do sistema respiratório e, ao atingirem os alvéolos (onde ocorrem as trocas gasosas), penetram na corrente sanguínea. Além da possibilidade de penetração de nanopartículas na corrente sanguínea e do acesso irrestrito aos demais órgãos, o sistema respiratório pode ser danificado pela simples presença das mesmas. Isto
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THE ROYAL SOCIETY AND THE ROYAL ACADEMY OF ENGINEERING, 2004, op. cit., p. 38. Idem. 72 Idem.

41 é devido ao fato de que matérias que eram consideradas inofensivas quando em maior tamanho, podem ser consideradas perigosas quando em nanoescala, a exemplo do látex. Tal nocividade é conseqüência direta de dois fatores. O primeiro, relativo à sobrecarga dos fagócitos (células encarregadas de eliminar matéria estranha ao sistema respiratório). Isto ocorre quando os “invasores” excedem a capacidade de defesa das células. Como conseqüência, há inflamações nos tecidos pulmonares e o enfraquecimento do seu sistema imunológico, o que deixa o organismo mais propenso a infecções.73 A reatividade dos nanomateriais, a depender do seu revestimento, pode causar danos químicos ao tecido que com eles estiver em contato. Tal reatividade é devida à presença de radicais livres, que são átomos que possuem um número reduzido de elétrons. Estes átomos “furtam” elétrons de células vizinhas para aperfeiçoar sua própria estrutura, criando, assim, outro radical livre. Este novo radical livre também irá “furtar” elétrons das outras células, e assim por diante, gerando uma reação em cadeia. A formação de radicais livres é comum em um organismo saudável, onde existem, inclusive, enzimas responsáveis pela sua eliminação. Porém, tais processos ocorrem localmente e em um ambiente quimicamente equilibrado. Os radicais danosos, cujos efeitos são intensificados por fatores exógenos (nanopartículas reativas, radiação, raios solares, e.g.), prejudicam tal equilíbrio químico do organismo e podem contribuir para a formação de tumores.74 A possibilidade de absorção de nanopartículas pela pele ainda é objeto de debate entre especialistas. Como mencionado anteriormente, o mercado de cosméticos, protetores solares e bronzeadores que utilizam nanomateriais é crescente. Contraditoriamente, a ciência ainda apresenta resultados inconclusos: de um lado, é afirmado que nanopartículas previamente marcadas foram encontradas na corrente sanguínea, enquanto outras pesquisas apontam no sentido de que tais materiais não conseguem sequer ultrapassar a camada mais superficial da pele.75 A terceira via de acesso ao corpo humano é o trato intestinal. O sistema digestivo possui duas funções básicas: ingestão de alimentos e expulsão de matérias indesejadas pelo organismo. As substâncias “desejadas” são digeridas por enzimas e absorvidas pelas células do
73 74

SWISS REINSURANCE COMPANY, 2004, op. cit., p. 16. Idem. 75 Ibid., p. 19.

42 intestino, enquanto as nocivas ao organismo são mantidas no trato intestinal e eliminadas na forma de fezes ou pela via dos nódulos linfáticos. Nanopartículas são absorvidas pelas placas de Peyer, que consistem em nódulos de tecidos linfáticos associados ao intestino. Estes nódulos absorvem partículas maiores em bolhas e as transporta aos vasos linfáticos, onde são eliminadas pelo organismo. O problema relacionado aos nanomateriais é que estes, ao penetrarem no sistema linfático, podem chegar à corrente sanguínea.76 Quando as nanopartículas transpõem a barreira de tais órgãos de acesso ou quando são inseridas deliberadamente na corrente sanguínea (medicamentos e contrastes), uma nova série de questionamentos emerge. Partículas estranhas, quando presentes no sistema circulatório, são absorvidas por fagócitos especializados e são expulsas do organismo. Entretanto, tal regra não se aplica aos nanomateriais. Nanopartículas de tamanho inferior a 200nm não são absorvidas por fagócitos, mas, surpreendentemente, por células que sequer desempenham a função de defesa. Uma vez absorvidas por tais células (glóbulos vermelhos, e.g.), podem transitar pelo organismo de maneira livre e irrestrita. Coração, medula, ovários, fígado, músculos e até mesmo o cérebro – o mais protegido órgão do corpo humano – são penetrados, sem maiores dificuldades, por nanopartículas presentes no sangue.77 Nanomateriais que atingem a corrente sanguínea se acumulam, principalmente, no fígado. A sua presença pode desencadear processos inflamatórios, lesões ao seu tecido e, a depender do grau de reatividade das nanopartículas, também é possível que se formem tumores.

3.4 Nanomateriais e o meio ambiente

Por conta das técnicas de produção e da grande disseminação dos nanomateriais, estes podem ser despejados na água ou no ar e, em última instancia, o solo e os lençóis freáticos podem ser atingidos. Além disso, nanopartículas vêm sendo utilizadas, cada vez mais, em materiais descartáveis, o que torna inevitável o seu contato com o meio ambiente quando estes são

76 77

Ibid., p. 20. Ibid., p. 22.

43 reciclados ou eliminados como lixo. Por constituírem uma nova classe de materiais nãobiodegradáveis, as conseqüências para o meio ambiente e o seu comportamento a longo prazo são difíceis de prever. Em que pese a inexistência de certezas científicas acerca do comportamento das nanopartículas no meio ambiente, é possível imaginar alguns cenários a partir do conhecimento já produzido acerca das demais formas de poluição. No que diz respeito à possibilidade de disseminação atmosférica, por exemplo, estudos sobre poluição indicam que o número de partículas ultrafinas no ar está diretamente relacionado ao índice de mortalidade da população. As partículas estudadas, contudo, eram oriundas do diesel, cujas tendências naturais são de agregação e repouso. Por outro lado, nanopartículas artificiais permanecem no ar por muito mais tempo, o que pode agravar a disseminação, além de serem nocivas aos humanos. Nanopartículas também podem contribuir para o aumento da distribuição de poluentes no solo. Esta conclusão foi obtida através da observação dos colóides, cujas propriedades permitem a sua união com poluentes insolúveis em água e metais pesados. Por serem menores e apresentarem maior área de superfície, uma maior quantidade de poluentes pode se unir às nanopartículas, sendo absorvidos em maior quantidade e em maior velocidade pelo solo.78 A partir das incertezas científicas, emergem cenários mais pessimistas. O que aconteceria se nanopartículas altamente tóxicas fossem espalhadas pelo meio ambiente? Seria possível retirá-las de circulação? Haveria alguma possibilidade de removê-las da água, solo ou ar? A eliminação de nanopartículas do meio ambiente é um grande desafio para os cientistas, já que os procedimentos até então estudados são de alto custo e inadequados para a utilização em larga escala. A remoção de nanopartículas dos líquidos, por exemplo, só é possível através de centrifugação ou ultrafiltragem. No primeiro procedimento, partículas são separadas através da força centrífuga oriunda de altas rotações. Na ultrafiltragem, líquidos são pressionados contra uma membrana semipermeável.79

78 79

Ibid., p. 29. Ibid., p. 30.

44 Filtros de purificação atualmente utilizados em prédios e fábricas possuem poros grandes demais para a retenção de nanopartículas. Problemas relativos à pressão do ar e ao bloqueio dos poros por partículas maiores devem ser superados para que os nanomateriais possam ser retidos. Neste cenário de ausência de certeza científica (ou, pelo menos, de certezas científicas contraditórias) em torno dos riscos relacionados à nanotecnologia, emerge o debate sobre a invisibilidade do tema para o discurso jurídico, anonimato este parcialmente resultante das lacunas de conhecimento quanto às tecnologias infinitesimais. Este é o nó górdio do trabalho que ora se apresenta, ponto que se objetiva discutir no capítulo subseqüente.

45 4 O RISCO À MARGEM DO DIREITO AMBIENTAL

4.1 A nanotecnologia enquanto um novo paradigma técnico-econômico

O desenvolvimento econômico e industrial ocorre de maneira cíclica. Uma análise histórica dos dados demonstra que este é marcado por grandes “picos” e “vales”, que representam momentos de grande expressão econômica acompanhados por momentos de recessão. A partir dos estudos de Schumpeter, foi possível verificar que os ciclos econômicos são consubstanciados em processos de destruição criativa. Tais processos explicam a dinâmica dos ciclos através de ondas de inovações que revolucionam a estrutura econômica vigente. Impulsionadas pela concorrência, estas ondas fazem com que os novos produtos, processos e métodos de organização industrial se sobreponham aos antigos. Referidas inovações estão relacionadas principalmente a novos bens de consumo, novos métodos de produção ou transporte, novos mercados e novas formas de organização industrial.80 Cabe ressaltar, ainda, que o caráter cíclico da economia está diretamente relacionado à atividade científica. Nas décadas de 1970 e 1980, Freeman e Perez notaram que o processo inovador não modifica somente as estruturas econômicas vigentes, mas todo o aparato institucional estabelecido, mudando a forma do progresso tecnológico em um sentido amplo e construindo um novo paradigma técnico-econômico. A difusão deste novo paradigma abrange todo o sistema econômico, envolvendo fatores sociais, políticos, ambientais e culturais.81 Freeman e Perez identificaram cinco ondas na história do capitalismo, cada uma com a presença de um paradigma diferente, onde se pode identificar um fator-chave, isto é, um insumo que serve como base para o desenvolvimento de novos produtos e processos. Para que um novo paradigma técnico-econômico desloque o antigo completamente, tornando-se o eixo

SANTOS JUNIOR, J. L.; SANTOS, W. L. P. Nanotecnologia e riscos ambientais: uma reflexão sobre a ingerência das ciências humanas sociais na construção de um debate crítico. In: Anais do IV Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ambiente e Sociedade. Brasília-DF: Anppas, 2008, p. 6. 81 Idem.

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46 central do crescimento das inovações técnicas, sociais e gerenciais, é necessário que satisfaça três condições: custos decrescentes, incremento na oferta e aplicações penetrantes.82 A mais recente onda do capitalismo é caracterizada pela informacionalização da economia, em que ganha destaque a introdução generalizada da informática e de novos materiais de origem química ou bioquímica. Para Capella, a introdução de novos componentes – e a adoção de novas formas organizativas para desenvolver os processos econômicos em combinação com estes – caracterizam a terceira revolução industrial.83 As novas tecnologias e os novos materiais permitem uma diferenciação e especificação produtiva até então impensada, o que proporciona à indústria um alto grau de flexibilidade e capacidade de adaptação às exigências técnicas, bem como a criação de novas necessidades até então inimagináveis. As novidades organizacionais introduzidas possibilitam a superação da barreira estatal pelo capital e aumentam drasticamente a sua concentração, bem como o poder e a capacidade de decisão das empresas transnacionais.84 O desenvolvimento econômico aliado às novas tecnologias – dentre elas, a nanotecnologia – inaugura um novo paradigma técnico-econômico. Este paradigma, caracterizador da sociedade de risco – onde a modernização, em seu sucesso, ameaça a existência humana –, inicia um processo de destruição criativa cujas conseqüências institucionais são bastante profundas.

4.2 Direito Ambiental na sociedade de risco

A falência dos instrumentos de securitização resultante, em grande parte, do desenvolvimento da própria modernização, faz com que as instituições de controle e o dogma da infalibilidade tecnológica sejam deslocados para o terreno da falha de segurança e incapacidade de previsão. A pretensão da ciência de averiguar os riscos de acordo com a lógica de prevenção

82 83

Ibid., p. 8. CAPELLA, 2002, op. cit., p. 240. 84 Ibid., p. 241.

47 do acidente é frustrada pelas suas novas características, tais como a invisibilidade, a incerteza e a irreversibilidade de suas conseqüências.85 Os mecanismos de explicação e justificação dos riscos na sociedade contemporânea estão inseridos num quadro de irresponsabilidade organizada, o que leva a uma legitimação da não-imputabilidade das ameaças e a legalização das contaminações. Em que pese o ocultamento social e institucional dos responsáveis, das causas e das conseqüências dos riscos, o mesmo não ocorre com os seus efeitos secundários. Estes rompem a barreira da invisibilidade social gerada pela selva institucional e se revelam no cotidiano das relações sociais e dos debates públicos acerca dos efeitos dos riscos de graves conseqüências. O fenômeno da irresponsabilidade organizada representa com clareza a ineficácia da produção normativa enquanto instrumento para o enfrentamento da crise ambiental. Concomitantemente, expõe os desafios impostos ao Direito Ambiental na sociedade de risco quando da necessidade de enfrentamento de uma crise ambiental que adquire novos contornos.86 Diante da insuficiência dos instrumentos (ou procedimentos) instituídos para a proteção do ambiente e enfrentamento da crise ambiental, surge a necessidade de correção deste quadro. Tais modificações dizem respeito, principalmente, à maneira como o Direito do Ambiente se relaciona com os problemas ambientais qualificados pelo risco. Para Leite e Ayala, o Direito Ambiental contemporâneo orbita ao redor de três eixos de argumentação: a necessidade de adequação aos novos direitos ambientais, a revisão da forma de funcionamento dos tradicionais processos de decisão e quais os objetivos deste novo Direito.87 Os novos direitos ambientais são caracterizados, agora, pela recuperação dos ideais éticos do meio ambiente, bem como uma perspectiva do mundo e da natureza enquanto ecossistema, dando-se ênfase aos ideais de solidariedade e responsabilidade no trato do bem ambiental. Assim, pode-se dizer que os direitos ambientais contemporâneos são direitos de contribuição, isto é, que exigem certos deveres por parte dos seus detentores. Ao mesmo tempo,

LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. 2. ed. rev. atual. ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 19. 86 Ibid., p. 21. 87 Ibid., p. 202-203.

85

48 tais direitos constituem instrumentos de proteção contra os riscos e não só contra danos pessoais ou comunitários.88 O risco, por sua vez, desafia o Direito Ambiental, levando-o a se questionar sob que condições esta salvaguarda coletiva e transgeracional pode ser concretizada. Para Benjamin, o Direito do Ambiente passa de um direito de danos (preocupado em reparar ou quantificar os prejuízos ao meio ambiente) para um direito de riscos, cuja principal preocupação é evitar a degradação ambiental.89 Para que o Direito do Ambiente compreenda os problemas ambientais e ofereça soluções viáveis e suficientes, este deve recorrer, inevitavelmente, ao conhecimento científico. Entretanto, no quadro de incertezas produzidas pela própria ciência, para que haja a caracterização do risco ambiental – que já não é mais prévia ou previsível – mandados de proporcionalidade e complexos julgamentos políticos e sociais se tornam extremamente necessários.90 Um quadro representativo desta virada epistemológica por que passa o Direito do Ambiente pode ser vislumbrado na esfera da tutela jurídica do dano ambiental, onde já não se exige que este se enquadre na moldura convencional de imputação da responsabilidade. A percepção da existência dos riscos invisíveis da segunda modernidade também leva à ruptura com os requisitos da certeza e atualidade do dano, passando o Direito Ambiental a ser guiado pela aplicação das suas normas à luz do princípio da precaução, onde a dúvida e a incerteza possuem um papel determinante no atuar preventivo.91

Ibid., p. 205. BENJAMIN, Antonio Herman de V.; SICOLI, José Carlos Meloni. (Orgs.). Anais do 5º Congresso Internacional de Direito Ambiental, de 4 a 7 de junho em 2001. O futuro do controle da poluição e da implementação ambiental. São Paulo: IMESP, 2001, p. 61. 90 LEITE e AYALA, 2004, op. cit., p. 209. 91 STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade civil ambiental: as dimensões do dano ambiental no direito brasileiro. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, p. 142.
89

88

49 4.2.1 O princípio da precaução

No contexto da sociedade de riscos, a ausência de certezas científicas acerca destes não deve postergar a adoção pelo Estado de medidas preventivas. É o que contempla a precaução, que tem como conteúdo o princípio 15 da Declaração do Rio, cujo texto é o seguinte:
Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.

Embora façam parte de uma mesma finalidade, isto é, a proteção do meio ambiente, os princípios da precaução e da prevenção diferem no que tange à avaliação do risco que ameaça o meio ambiente. A precaução é considerada quando o risco é bastante elevado, de maneira que a certeza científica não é exigida antes de se adotar uma ação corretiva, aplicando-se aos casos em que os danos potenciais são duradouros e até mesmo irreversíveis. O princípio da prevenção, por outro lado, trabalha com os indicativos técnicos da iminência da produção de um dano, certo e definido, indicando a necessidade de medidas preventivas anteriores à consumação do resultado prejudicial ao ambiente, ou seja, trata-se da adoção de critérios de antecipação diante de um resultado certo, mas indesejado.92 A figura da precaução traz a exigência do cálculo precoce dos potenciais riscos para a saúde humana anterior ao surgimento do próprio dano. Isto se opõe frontalmente à lógica da ação tardia, ou da avaliação posterior, que é cientificamente rigorosa, porém impotente. Mesmo assim, agir antecipadamente sobre os riscos cuja existência sequer está comprovada e cujas conseqüências potenciais são pouco compreendidas envolve um dilema. Em primeiro lugar, há a possibilidade de comprometer custos elevados e impor desgastes às pessoas, grupos particulares ou para toda a coletividade, bem como fechar as portas ao desenvolvimento econômico e tecnológico. Por outro lado, é possível que se deixe evoluir, de maneira irreversível, tecnologias que venham a oferecer riscos inimagináveis à saúde humana e ao meio ambiente.93

Cf. VARELLA, Marcelo Dias; PLATIAU, Ana Flávia Barros. (Orgs.). Princípio da Precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004. 93 GODARD, Olivier. O princípio da precaução frente ao dilema da tradução jurídica das demandas sociais: lições de método decorrentes do caso da vaca louca. In: VARELLA, Marcelo Dias; PLATIAU, Ana Flavia Barros. (Orgs.). Princípio da Precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p. 164.

92

50 Com o princípio da precaução, o comportamento judicial de tolerância do dano é substituído pelo de vigilância e prudência. Enquanto vetor interpretativo, tal princípio orienta a atuação dos instrumentos processuais cautelares, provimentos liminares e inibitórios, bem como os instrumentos de responsabilização, introduzindo a inversão do ônus da prova em matéria ambiental. À luz do princípio da precaução, já não cabe mais aos titulares dos direitos ambientais provarem a ofensividade de determinados empreendimentos levados à apreciação do Poder Público. Aos potenciais degradadores, por outro lado, cabe provar a inofensividade da atividade proposta.

4.2.2 Tutela jurídica do dano ambiental futuro e potencial

Os efeitos de uma ação contra o meio ambiente não são imediatamente aparentes. A avaliação das conseqüências nocivas de determinada ação depende, necessariamente, do estágio do conhecimento científico no momento da sua prática, o que denota a necessidade do constante diálogo entre o Direito e outras ciências. Com o passar do tempo e na medida em que o conhecimento científico evolui, conseqüências nocivas de contaminações ocorridas no passado podem ser verificadas. Por conta disso, os critérios jurídicos para reparação do dano devem ser reformulados, agora à luz dos princípios da precaução e da prevenção. A ruptura com o requisito da atualidade do dano faz parte da preocupação com o futuro e da percepção da existência de riscos invisíveis, caracterizados pela imprevisibilidade das suas conseqüências, típicos da sociedade de risco. Tais riscos, mesmo separados dos seus efeitos nocivos pelo seu conteúdo, espaço e tempo, agora são unidos por um liame causal que não era perceptível a priori. Sob influência do princípio da precaução, o reconhecimento do dano futuro também traz à tona a discussão acerca da responsabilização sem dano, onde se busca a supressão do fator de risco existente, ao invés da indenização.94 Danos futuros são os danos certos, mas ainda não concretizados quando da observação do local impactado. Reconhecer o dano futuro é perceber que o dano ambiental possui caráter dinâmico, cujos efeitos se dilatam a longo prazo. Tais danos – também

94

Ibid., p. 143.

51 denominados “consecutivos” ou “evolutivos” – devem ser aferidos a partir de um juízo de probabilidade científica sobre sua ocorrência, embora seja necessário, às vezes, recorrer à presunção de ocorrência de determinado dano enquanto desdobramento normal de determinada situação. A título exemplificativo: um foco de poluição gerada pela infiltração de um aterro sanitário será muito mais grave no futuro, quando o lençol freático localizado a quilômetros de distância do foco inicial estiver contaminado. Embora os efeitos do dano ambiental se manifestem em tempo futuro e incerto, este não pode ser excluído do ressarcimento.95 Também deve ser considerada a possibilidade de reparação dos danos potenciais. Reconhecer tal possibilidade significa afastar o dogma da segurança jurídica e passar à aplicação dos princípios da precaução e da prevenção. Os danos potenciais não se limitarão aos efeitos já conhecidos dos danos futuros, abrangendo os efeitos meramente prováveis a partir do conhecimento científico disponível à época. O mecanismo de responsabilidade, em tais casos, materializa-se na adoção de medidas preventivas que obriguem a interrupção da atividade poluidora e a retirada, na medida do possível, das substâncias contaminantes.96

4.2.3 Dimensão participativa do Direito do Ambiente: leigos e peritos

As incertezas científicas – ou as certezas contraditórias resultantes da pluralidade de racionalidades envolvidas nos debates acerca dos riscos – têm como conseqüência a constante contraposição entre os que são responsáveis pelas decisões acerca dos riscos e os que têm que enfrentar as conseqüências deles advindas. Os conflitos de risco, caracterizados pela percepção diferenciada dos riscos entre os leigos e os peritos, põem em xeque a confiabilidade das instituições ortodoxas de proteção ambiental, ainda presas à racionalidade técnica da ciência. Vale relembrar que a definição do “risco aceitável” está intrinsecamente ligada a padrões culturais, não apenas a definições técnicas que indiquem o que uma sociedade pode suportar. O padrão cultural relativo à qualidade de vida, segurança e ao bem-estar social é determinante para a escolha acerca de que riscos determinada comunidade aceita suportar. A partir da lição dos construtivistas, pode-se verificar que a aceitação dos riscos deve ser analisada
95 96

Ibid., p. 144. Ibid., p. 147.

52 de maneira interdisciplinar entre o conhecimento técnico e as normas culturais que definem critérios para a manutenção dos valores de determinada comunidade. Contudo, o processo de tomada de decisões e a definição dos critérios nas questões de risco têm-se baseado, tradicionalmente, nas informações técnicas disponíveis, sem levar em conta o próprio caráter político das informações produzidas cientificamente.97 Por conta da dimensão das ameaças ecológicas e da insuficiência do conhecimento científico para geri-las, os argumentos técnicos não podem possuir primazia imediata sobre os argumentos dos leigos. Em que pese a importância das informações técnicas disponíveis, os novos contornos dos riscos, permeados por dúvidas e incertezas acerca de sua existência, trazem consigo a necessidade de que a deliberação e a tomada de decisão sejam realizadas por meio de processos democráticos mais inclusivos e participativos. A legislação pátria tem garantido a participação da sociedade civil nas decisões concernentes aos direitos do ambiente. O Conselho Nacional do Meio Ambiente, CONAMA, ao estabelecer regras para o licenciamento ambiental, condicionou a legitimidade da decisão acerca da viabilidade de empreendimentos de risco à participação da sociedade civil. O art. 2º da Resolução nº 09/1987 determina que, sempre que for solicitado por entidade civil, pelo Ministério Público, ou por cinqüenta ou mais cidadãos, o órgão licenciador poderá realizar audiência pública. Tal medida tem como objetivo informar a população acerca do projeto e de seus impactos, bem como colocar em pauta a discussão do Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental. Também é assegurada à sociedade civil, por meio de qualquer cidadão, a legitimidade para promover ação popular ambiental, cujo objetivo é anular ou impedir atos lesivos ao ambiente, conforme consta do art. 1º da Lei nº 4.717/65 e do art. 5º, inciso LXXIII da Constituição Federal. A Lei da Ação Civil Pública, por sua vez, incluiu no rol dos legitimados para propor a ação principal e a cautelar (inciso V do artigo 5º da Lei nº 7.347/85) associação que esteja constituída há pelo menos um ano e que inclua, dentre as suas finalidades, a proteção ao meio ambiente.

LIMA, Maíra Luísa Milani de. O conflito entre leigos e peritos na gestão de riscos: o caso do licenciamento ambiental da usina hidrelétrica de Barra Grande. In: VARELLA, Marcelo Dias. (Org.). Direito, Sociedade e Riscos: a sociedade contemporânea vista a partir da idéia de risco. Rede Latino-Americana e Européia sobre Governo dos Riscos. Brasília: UniCEUB, UNITAR, 2006, p. 394.

97

53 Tais previsões legais representam, pelo menos em tese, instrumentos de fortalecimento e ampliação da dimensão participativa deste novo Direito do Ambiente que surge no contexto da sociedade global do risco. Entretanto, uma análise crítica da práxis pode levar à constatação de que tal participação se dá, invariavelmente, de maneira simbólica, restando aos peritos e às suas ciências a tomada de decisão. A selva institucional é organizada de maneira a obstar quaisquer pretensões da sociedade civil em evitar que uma atividade potencialmente causadora de degradação ambiental seja permitida. Para Ulrich Beck, quando um risco é conhecido, a opinião pública manifesta-se acerca de suas conseqüências para a saúde humana e para o meio ambiente, assim como os seus efeitos sociais, econômicos e políticos, transformando a gestão dos riscos em um problema público. A publicização da gestão dos riscos, por sua vez, demanda um diálogo entre sociedade civil, Estado e mercado sobre suas conseqüências. Tal diálogo pressupõe transparência e democratização das decisões do Poder Público relativas às atividades de risco, o que pode levar a diversas formas de mobilização social que vão de encontro aos interesses políticos e econômicos.98 A partir da análise do caso do licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Barra Grande, Maíra Luísa Milani de Lima concluiu que a participação da sociedade civil no processo de gestão dos riscos delineia um mecanismo institucional que impede esta explosividade social dos riscos, já que é passada à sociedade a sensação de tranqüilidade, isto é, uma falsa segurança com relação aos cuidados com os recursos naturais. Assim, mesmo que a legislação ambiental tenha incorporado a sociedade civil em seus instrumentos de gestão dos riscos, a prática não permite uma real discussão sobre os riscos, principalmente por conta da primazia dos argumentos técnicos sobre os anseios de determinada comunidade.99 Em que pese a relativa adequação dos instrumentos ora instituídos para a salvaguarda dos novos direitos ambientais, é possível verificar, quando trazidos à tona os potenciais riscos da nanotecnologia, a sua obsolescência. Far-se-á a análise deste fenômeno a partir dos seguintes questionamentos: como pensar a aplicação do princípio da precaução no contexto das incertezas científicas relativas à nanotecnologia? Como garantir a responsabilização por danos futuros ou

98 99

BECK, 1998, op. cit., p. 30. LIMA, 2006, op. cit., p. 404-405.

54 potenciais resultantes da utilização de nanomateriais? E quanto à dimensão participativa do Direito Ambiental contemporâneo?

4.3 A invisibilidade da nanotecnologia para o discurso jurídico

Segundo Ulrich Beck, a construção social dos riscos está ligada diretamente à criação de respostas institucionais para os perigos. Mesmo diante da desmistificação da racionalidade técnica, o conhecimento científico ainda possui um papel determinante no processo de construção social dos riscos. O monopólio do juízo científico sobre a verdade obriga os afetados a fazerem uso dos seus meios e métodos de análise para a consecução de seus objetivos no que tange, principalmente, à gestão dos riscos. A nanotecnologia já é considerada, para alguns cientistas, como uma atividade potencialmente causadora de danos ambientais e à saúde humana. Entretanto, a ausência de respostas institucionais para seus potenciais riscos faz com que ela permaneça invisível aos instrumentos de proteção. Atualmente, a nanotecnologia carece de regulamentação específica. Não há nenhuma legislação federal que verse sobre a matéria, restando arquivada a única tentativa nesse sentido, referente ao Projeto de Lei nº. 5.076/2005, de autoria do Deputado Edson Duarte (PV-BA). Os regulamentos do Ministério da Ciência e Tecnologia contemplam, tão somente, questões relativas ao desenvolvimento econômico e tecnológico, omitindo-se nas questões relativas aos riscos. Também não há precedentes jurisprudenciais e o debate acadêmico ainda é incipiente.

4.3.1 Considerações acerca do Projeto de Lei nº 5.076/2005

O Projeto de Lei nº 5.076/2005 dispunha sobre a pesquisa e o uso da nanotecnologia no Brasil. Em seu artigo 3º, previa a implementação da Política Nacional de Nanotecnologia pelo Poder Executivo, em resposta à necessidade de prevenção de danos e monitoramento de riscos, utilizando instrumentos como a autorização para a produção e comercialização dos produtos da nanotecnologia, a realização de estudos de impacto ambiental para a liberação de nanoprodutos

55 no meio ambiente e a realização de estudos de segurança alimentar, cosmética e fitossanitária, farmacêutica de nanoprocessos e nanoprodutos de uma forma geral. Dentre as propostas constantes do Projeto de Lei nº 5.076/2005, em seu art. 6º constava a criação da Comissão Técnica Nacional de Nanossegurança (CTNano), cuja competência seria a de
prestar apoio técnico e de assessoramento ao Governo Federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Nanossegurança, bem como no estabelecimento de normas técnicas de segurança e elaboração de pareceres técnicos referentes à proteção da saúde humana, dos animais e das plantas e do meio ambiente, para atividades que envolvam a pesquisa, produção, processos, comercialização, importação, exportação, armazenamento, pesquisa, consumo, liberação e descarte de produtos da nanotecnologia e seus derivados.100

O Projeto de Lei também contemplou, de maneira considerável, a transparência na informação acerca dos potenciais danos ambientais advindos da utilização dos nanomateriais, incluindo, entre os beneficiados, o Poder Público e a coletividade. O seu art. 13 declarava a obrigatoriedade da prestação de informações e do envio de relatórios ao Poder Público, especificamente à CTNano, acerca de quaisquer acidentes ocorridos no curso de projetos na área de nanotecnologia. Também seriam informadas as autoridades da saúde pública, do meio ambiente, da defesa civil, à coletividade e empregados da instituição ou empresa sobre os riscos a que possam estar submetidos, bem como os procedimentos a serem tomados no caso de acidentes com nanotecnologia. Ainda relativa à dimensão informativa do Projeto de Lei, o seu art. 14 tratava da necessidade de que todos os produtos que fossem nanotecnológicos (ou que contivessem matéria-prima nanotecnológica ou fossem obtidos a partir de processos nanotecnológicos) deveriam ser comercializados, embalados e vendidos com especificação no rótulo que contenha o símbolo “nanotecnologia” em destaque, em conjunto com as seguintes frases: "(produto) da nanotecnologia", "contém (matéria-prima) nanotecnológica", ou ainda “submetido a processo nanotecnológico”. Dentre os avanços que poderiam ser introduzidos pelo Projeto de Lei nº 5.076/2005, a obrigatoriedade de informar aumentaria de maneira significativa a possibilidade de se introduzir a nanotecnologia na agenda de debates públicos. Na medida em que a sociedade fosse informada
100

BRASIL. Projeto de Lei n° 5.076 de 2005. Dispõe sobre a pesquisa e o uso da nanotecnologia no País, cria Comissão Técnica Nacional de Nanossegurança - CTNano, institui Fundo de Desenvolvimento de Nanotecnologia FDNano, e dá outras providências. Diário da Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 29 de novembro de 2008. Página 54893, coluna 02. Disponível em: http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=282392. Acesso em: 18/05/2009.

56 sobre a presença de nanomateriais nos produtos, medicamentos ou alimentos que consome, os debates acerca dos motivos pelos quais aquela informação ali se encontra seriam inevitáveis. No ano de 2008, por ocasião da análise pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei nº 5.076/2005 recebeu parecer favorável ao seu arquivamento, cuja aprovação se deu por unanimidade. De acordo com o voto da relatora, Deputada Luiza Erundina (PSB-SP), nova legislação seria desnecessária, pois todas as questões apresentadas pelo Projeto de Lei já foram contempladas por legislações anteriores. A relatora cita, dentre outras, a Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005), que presta assessoramento técnico necessário à implementação da Política Nacional de Biotecnologia e, dentre outras funções, analisa tecnicamente os projetos que envolvam materiais ou organismos modificados geneticamente, os OGM, e outros deles derivados. A relatoria incorreu em erro na medida em que desconsiderou a especificidade das questões relativas à nanotecnologia e aos nanomateriais. Por uma rápida análise do art. 1º da Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005), pode-se verificar que as nanotecnologias não se enquadram em seu objeto, que é
estabelecer normas de segurança e mecanismos de fiscalização sobre a construção, o cultivo, a produção, a manipulação, o transporte, a transferência, a importação, o armazenamento, a pesquisa, a comercialização, o consumo, a liberação no meio ambiente e o descarte de organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, tendo como diretrizes o estímulo ao avanço científico na área de biossegurança e biotecnologia (...).101

Como conseqüência direta disso, há o descompasso entre toda a estrutura legislativa relativa à biossegurança e as nanotecnologias. A começar, por exemplo, pela eventual incapacidade técnica da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTN-Bio) para
estabelecer normas de segurança e elaborar pareceres técnicos referentes aos riscos das atividades

que envolvem a nanotecnologia e seus derivados. O arquivamento de um Projeto de Lei que contempla questões ambientais específicas e ao mesmo tempo de grande alcance, como a nanotecnologia, significa, em último caso,
BRASIL. Lei 11.105 de 24 de março de 2005. Regulamenta os incisos II, IV e V do §1º do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTN-Bio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança – PNB e revoga a Lei 8.974, de 5 de janeiro de 1995, e a Medida Provisória 2.191-9, de 23 de agosto de 2001, e os arts. 5º, 6º, 7º, 8º, 9º, 10 e 16 da Lei 10.814, de 15 de dezembro de 2003 e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 28 de março de 2005.
101

57 regressão aos instrumentos ortodoxos de proteção ambiental. Assim, a nanotecnologia retorna ao estado de invisibilidade para o ordenamento jurídico, na medida em que não há sua institucionalização, permanecendo à mercê de instrumentos insuficientes diante da realidade criada pelas tecnologias da sociedade de risco.

4.3.2 A nanotecnologia à margem do Direito Ambiental

Estes fatores demonstram o desafio imposto ao Direito quando da necessidade de concretização de instrumentos de proteção em face de ameaças que sequer por ele foram reconhecidas. Num retorno à perspectiva construtivista proposta por Beck: se o reconhecimento dos riscos corresponde à institucionalização dos perigos e oferecimento de respostas para estes, isto significaria dizer, diante da inexistência destas, que os riscos não são reconhecidos pelo Direito como tais, a despeito de oferecerem ameaças à sociedade. Esta invisibilidade dos riscos gerada a partir das suas qualidades diferenciadas e, sobretudo, a partir do seu não reconhecimento pela sociedade e pelos instrumentos de proteção, faz com que haja um retorno à insegurança, à era das ameaças desconhecidas, criando um novo “reino das sombras”. Para Ulrich Beck, estar à mercê de riscos desconhecidos é comparável aos deuses e demônios da antiguidade, que se escondiam por detrás do mundo visível, pondo em perigo a vida humana.102 Os riscos da segunda modernidade, quando reconhecidos como tais, impõem ao Direito a necessidade de apresentar respostas em contextos de incerteza. A nanotecnologia, por outro lado, faz transparecer a já obsolescência dos instrumentos de que lança mão o Direito quando da tentativa de oferecer respostas à segunda modernidade e seus desdobramentos. Não só pela simples existência dos riscos desconhecidos, mas principalmente pela possibilidade de sua institucionalização tardia e irreversibilidade de suas conseqüências. Em se tratando da nanotecnologia, sua vasta gama de aplicações e a sua penetração nos mais diversos setores da produção e do consumo impossibilitam qualquer tentativa no sentido de retirar de circulação os nanomateriais ou responsabilizar quem os introduziu sem os devidos cuidados.

102

BECK, 1998, op. cit., p. 81.

58 O princípio da precaução, como ora exposto, tem na sua essência a adoção de medidas preventivas em contextos de incerteza. A partir do momento em que o ordenamento jurídico adota uma postura permissiva, isto é, admitindo a inserção de nanomateriais de forma não refletida na sociedade, resta flagrante a inobservância do referido princípio. É importante a lição de De Giorgi no sentido de que os princípios consistem em premissas que adquirirão realidade somente quando da sua aplicação, isto é, através da sua construção na práxis decisória.103 Enquanto existirem riscos que passam ao largo do debate jurídico, tais princípios consistirão, somente, em premissas. Atualmente, no Brasil, é difícil associar a nanotecnologia à idéia de cidadania. Não é permitido ao cidadão participar da vida política por conta do seu desconhecimento acerca do assunto. O debate público se faz necessário na medida em que deve ser garantido à sociedade o direito de exigir avaliações sobre segurança alimentar, saúde e impactos ambientais relacionados à nanotecnologia.104 Ao consumidor deve ser assegurado o direito de escolha, principalmente quando o produto consumido pode gerar riscos à sua saúde. No nível do indivíduo, um componente fundamental no seu dia-a-dia é o da escolha. Entretanto, lembra Giddens, não só são seguidos estilos de vida como em determinado momento os indivíduos são obrigados a fazê-lo. Não há escolha senão escolher.105 O Direito continua atuando com instrumentos, teorias e matizes epistemológicos ortodoxos que não são condizentes com o novo modelo de Estado Ambiental e da sociedade de risco. Isto tem como conseqüência, além da dificuldade de tomada de decisão em se tratando de novos riscos, a não institucionalização de outros. Diante das incertezas que emanam da sociedade contemporânea, o Direito deve estar pronto para oferecer respostas em contextos de grande instabilidade, bem como institucionalizar determinados riscos de maneira eficiente. Esta ameaça trazida pela nanotecnologia aos pilares da lógica e racionalidade sobre os quais repousa o Direito denota a necessidade de elaboração de um novo paradigma que venha a controlar a modernidade de riscos e assegurar uma nova segurança social e jurídica.

GIORGI, Raffaele de. Direito, Democracia e Risco: vínculos com o futuro. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1998, p. 158. 104 NUNES, D. M.; GUIVANT, Julia S.. Nanofood: crer sem ver. In: Anais do IV Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade. Brasília-DF: Anppas, 2008, p. 10. 105 GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade. Trad. Raul Fiker. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997, p. 79.

103

59 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Buscou-se com o presente trabalho estabelecer uma análise crítica dos instrumentos de que dispõe o Direito Ambiental contemporâneo, especificamente no que tange à sua obsolescência em face dos riscos advindos das tecnologias infinitesimais. Para a consecução deste objetivo, foi tomada como marco a teoria da sociedade global do risco, de Ulrich Beck, e a nanotecnologia enquanto representativa dos riscos de graves conseqüências advindos do próprio desenvolvimento técnico-científico. Na sociedade global do risco, a radicalização da modernização faz com que a ciência se torne concausa dos riscos de graves conseqüências. A ciência, que outrora era tida como instância de legitimação do saber, adentra ao campo da incerteza, pondo em xeque todo o sistema institucionalizado de cálculo de efeitos colaterais e riscos. Estes riscos, advindos das incertezas produzidas pela própria ciência, apresentam novas características que fogem à percepção sensorial e à delimitação espacial ou temporal. A nanotecnologia, enquanto uma das tecnologias representativas do novo paradigma técnico-econômico inaugurado pela sociedade de risco, tem permitido uma especificação e diferenciação produtivas até então impensadas. Nanomateriais estão presentes em alimentos, cosméticos, eletrônicos e medicamentos, não sendo possível delimitar, com exatidão, em que proporções estes já estão presentes na vida dos seres humanos. Em que pese a sua grande inserção na linha de produção e consumo, a nanotecnologia ainda não possui um papel significativo na agenda de debates públicos acerca dos seus riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. As incertezas manufaturadas levam todo o aparato institucional produzido na primeira modernidade a um quadro de severo atordoamento. Todos os instrumentos de controle e proteção dos riscos, outrora construídos sobre as bases das certezas científicas e apegados à racionalidade técnica, agora estão às voltas com riscos cuja própria existência é incerta, mas cujas conseqüências são extremamente danosas. Como resultado disso, estudos científicos passam a conduzir seus resultados em consonância com os interesses econômicos e o Estado, por sua vez, institucionaliza tais estudos, gerando um quadro de irresponsabilidade organizada.

60 Coube ao Direito Ambiental, assim, uma reformulação dos seus instrumentos de proteção. Agora, tais instrumentos voltam-se às novas configurações dos direitos ambientais, permeados pelos valores ecossistêmicos e de solidariedade intergeracional, e principalmente contemplando os elementos da incerteza e do risco. O princípio da precaução determina que as incertezas científicas não devem postergar a adoção de medidas preventivas pelos Estados. Enquanto desdobramentos do referido princípio, novos delineamentos foram dados aos institutos da responsabilização civil por dano ambiental e ao tempo do dano ambiental. Agora, também são considerados, para efeitos de responsabilização, os danos futuros e potenciais. Tais mudanças denotam a tentativa do Direito Ambiental em se adaptar aos novos desafios impostos pela sociedade global do risco. Entretanto, estas medidas possuem pouca ou nenhuma efetividade enquanto existirem riscos, como a nanotecnologia, que sequer são reconhecidos como tais. A nanotecnologia, atualmente, não é regulamentada por nenhuma lei federal. Os regulamentos do Ministério da Ciência e Tecnologia a ela concernentes dizem respeito, somente, a questões relativas aos aspectos econômicos e tecnológicos. O Projeto de Lei nº. 5.076/2005 pode ser citado como uma tentativa de institucionalizar e trazer a nanotecnologia para o debate público. Este projeto contemplava a implementação de uma Política Nacional de Nanotecnologia em resposta à necessidade de prevenção dos danos e de resposta aos riscos da nanotecnologia. Instrumentos como a autorização para comercialização e estudos de impacto ambiental relativos aos derivados de nanomateriais também foram contemplados pelo projeto legislativo. A dimensão participativa do Direito Ambiental também fora observada na medida em que o projeto também estabelecia a obrigatoriedade de constar, nos rótulos, informações acerca da presença de nanomateriais nos produtos. Entretanto, tal Projeto de Lei, ao ser arquivado, fez com que a nanotecnologia permanecesse invisível para o debate jurídico. Vale ressaltar, contudo, que a instituição de um marco regulatório para a nanotecnologia representaria somente uma das etapas do processo de construção social do risco. A invisibilidade dos riscos gerada por suas qualidades diferenciadas e, principalmente, em face de seu não reconhecimento pela sociedade e pelos instrumentos de proteção, gera o retorno à insegurança da era das ameaças desconhecidas. A permanência da nanotecnologia à margem do debate jurídico significa ficar à mercê dos mesmos instrumentos de

61 proteção ambiental que, a priori, não ofereceram respostas céleres o bastante para as questões relativas à nanotecnologia. O princípio da precaução, que tem sua razão de ser fundada no agir preventivo, não fora observado. A responsabilização por danos futuros ou potenciais de todos os responsáveis pela difusão de nanomateriais é improvável, diante da grande diversidade de aplicações envolvidas. Retirar de circulação todos os produtos que utilizam nanomateriais também é, de certa forma, inviável. Desta forma, a nanotecnologia faz transparecer a obsolecência dos instrumentos de proteção ambiental. Não somente no que diz respeito à necessidade de apresentar respostas em contextos de incerteza, mas também quando se trata da necessidade de institucionalizar e inserir na agenda de debates públicos questões relativas aos riscos ambientais. Atualmente, não é permitido ao cidadão participar da vida política por conta do seu desconhecimento acerca do assunto. Os indivíduos têm o seu direito de escolha cerceado diante da omissão estatal. O Direito do Ambiente contemporâneo continua agrilhoado aos instrumentos, teorias e matizes epistemológicos que não são condizentes com os novos direitos ambientais, com os novos delineamentos da sociedade que emerge da segunda modernidade. A permanência nanotecnologia à margem do Direito, por sua vez, ameaça os pilares epistemológicos da lógica e racionalidade sobre os quais este foi construído. Faz-se necessária, assim, uma reformulação dos seus paradigmas, com vistas a assegurar uma nova segurança jurídica e social.

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