A Minha História da (e com a) Fundação SOS Mata Atlântica

‘Num mundo de envolvimento profundo, a identidade parece evaporar-se.’ – McLuhan.

“Cigarro de papel apagado nos lábios, ele olha as duas canoas em frente da casa. Alpargatas, calça rota já sem cor, agasalho velho e gorro alaranjado, ele caminha sem pressa na linha da maré. Tem o rosto marcado pelo vento, pelo sal, pelo sol, pelo tempo e acostumado com poucas e pequenas emoções. Não parece incomodado com a chuva fina e insistente que disfarça o contorno da serra do mar, em frente à sua casa, nesta manhã na baía dos Pinheiros. A baía é todo o mundo de seu Acyr. Dele e do curió, da araponga, do bonito lindo, do guaxe, do tié, do papagaio, da peroba, da canela amarela, do cedro, do guapuruvu, das orquídeas, do robalo, da pescada, da tainha, da sardinha, do cação, da caranha, do linguado, do badejo, da garoupa, do camarão, da ostra, do caranguejo, da paca, da capivara, da anta, da jaguatirica, do veado mateiro, e de um sem número de espécies de mosquitos. Que, juntos, dão vida aos rios, aos mangues, à mata da serra, ao mundo do caiçara, do seu pai, do seu avô, do seu bisavô... do índio. Sua casa é simples como ele. Não tem porta nem janela, o chão é de terra batida. Só um cômodo com meia dúzia de bancos toscos e baixos, meia dúzia de pratos, facas, garfos e colheres. Uma cartucheira e uma balança. Dispensa pequena e a cama: um estrado levantado do chão e coberto por uma esteira encostada no fundo. O fogão são três pedras sobre o chão. Isso, no pé do morro do rio Real ainda coberto pela mata original da ilha de Superagui. Seu Acyr continua na beira d'água. De cócoras, acende o cigarro e dá uma tragada funda. Não vê o horizonte, que não existe aqui nesta baía que poderia ser confundida com um imenso lago tropical cercado pelas montanhas de uma serra. O que talvez ajude a explicar a aparente indolência deste homem integrado ao seu meio e que vive da pesca artesanal e da lavoura de subsistência. E que, agora, espera que seu filho Mauricio acorde, junto com a nora, Dina, e o neto, Disnei. Espera, não vai acordá-los na casa ao lado da sua, na clareira aberta na mata: afinal, hoje é dia de chuva e, portanto, de tecer taquara para o cerco, de remendar rede, de rachar lenha para o fogão. Mais um

dia de muito trabalho, mas sem correlação com o tempo da maré e, por isso, desconectado das nossas horas – o nosso tempo”. (...) Nunca concordei com a idéia generalizada de que o caiçara não gosta de trabalhar, é vagabundo. Tive o privilégio de conhecê-los e conviver com eles enquanto eram os donos da terra, em todo o litoral paulista. Meu pai era um amante do mar e deu-me a oportunidade de fazer este mergulho profundo em parte da nossa história – neste labirinto, a da cultura caiçara, que se perdeu irremediavelmente dos anos 70 para cá. Simbolizei esta relação na matéria que reproduzo o lead extensivo na abertura deste artigo. Tinha ido terminar minha formação clássica em Paris. Fazia três anos que não visitava meu amigo seu Acyr e sua família, no fundo da baía dos Pinheiros, na foz do rio Real. Quando cheguei de volta, numa tarde de abril, encontrei-os desesperados – tinham tomado posse do mundo deles; a Companhia Agropecuária do Litoral do Paraná – por ironia, CAPELA – tinha ocupado 60 dos 90 kms do litoral do Paraná. Foi a primeira de dezenas de reportagens num trabalho incansável pela verdade. O jornalista Dirceu Pio, fundador da SOS, era diretor da sucursal do Estado em Curitiba. Sem ele e sem o jornal esta luta teria ficado no papel. Os habitantes de todas as vilas – e eram dezenas -, com suas capelas brancas, do dia para a noite tinham tomado conhecimento de que não eram proprietários das terras dos seus pais, dos seus avós, dos seus ancestrais. As ilhas da Peça e do Superagui estavam ocupadas por búfalos assim como as terras do continente. Colonos da região de Iguaçu, que tinham perdido as terras para as grandes hidrelétricas, derrubavam a floresta para transformá-la em carvão. A CAPELA era uma subsidiária de um grupo siderúrgico mineiro, com participação em negócios no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta época, eu atuava como repórter do Jornal Tarde, que em função da orientação do jornalista Ruy Mesquita – seu diretor responsável e meu pai – acompanhava passo a passo as questões ambientais do país. Eram os anos do ‘milagre’ dos militares. A ocupação da borda sul da Amazônia era iniciada sem nenhum critério, rasgava-se a Transamazônica e construía-se de forma irresponsável – sem zoneamento e nenhuma política razoável de ocupação territorial – a BR 101. Começava a tragédia do litoral brasileiro.

Comprei a briga com a CAPELA. Estávamos em 1983, o Jornal da Tarde era um marco e uma referência para a articulação do movimento ambientalista brasileiro. Cobria de forma jornalística e sistemática os movimentos contra o aeroporto de Caucaia, contra a usina atômica da Juréia, contra a ocupação da praia de Trindade. Praticava jornalismo de forma inteligente, consistente e sistemática em torno do processo de ocupação sem planejamento da Amazônia e do litoral brasileiro. Eu era amigo do jornalista Randau Marques, que por orientação de Ruy Mesquita tinha sido deslocado da cobertura de trânsito da cidade para a área ambiental. Através dele, tinha tido meus primeiros contatos com o José Pedro de Oliveira Costa, Adriana Mattoso, Fábio Feldman, Roberto Klabin, Clayton Lino, João Paulo Capobianco e outros. Doutor Paulo Nogueira Netto eu conhecia desde que nasci por causa de laços familiares. Aproximei deste grupo, que já tinha alguma convivência, identidade e ambições comuns, o João Carlos Meirelles Filho, que atuava em torno de questões ambientais de forma independente e que depois viria a ser um dos três superintendentes da entidade, durante parte dos meus sete anos de criação, desenvolvimento e gestão da Fundação SOS Mata Atlântica. Foram quase dois anos de luta contra o grilo da CAPELA, no lagamar de Iguape, Cananéia e Paranaguá. Randau fazendo a ponte com o grupo que se tinha constituído, na prática, em torno da luta pela Juréia. Apesar de nunca ter me permitido ser um militante – ética profissional, exercia o jornalismo - acabei integrando-me ao grupo. Foi o José Pedro quem primeiro me falou em institucionalizarmos esta articulação. Não se falava em sociedade civil e os seus movimentos organizados tinham pouco espaço na dinâmica política, econômica e social do País. Trabalhava numa empresa familiar, atuando numa indústria em fase de envelhecimento, com tudo de bom e de ruim que pode haver numa relação deste tipo, no contexto daquela época. A relação com este grupo, que se tinha articulado na luta da Juréia, havia contribuído de fato para que os direitos dos posseiros seculares do lagamar não fossem expulsos da terra. O único trecho do litoral brasileiro ainda não devassado pela BR-101, graças à ação deste grupo. Era uma alternativa - achei que valeria a pena me inserir num movimento que levantava uma bandeira para uma causa legítima, e comum. Teoricamente, por um ideal comum e nada mais.

Não era meu objetivo vir a ser presidente da Fundação. Fui pego de surpresa pela inesperada eleição do Fábio como deputado federal e a decisão Roberto Klabin de assumir o comando do Instituto Florestal. Sobrou para mim. O capital que tínhamos conquistado com todas as bandeiras levantadas e com os consequentes 40 mil votos para o Fábio, sintetizando a vitória deste grupo, não poderiam ser jogados fora, na lata de lixo. Convidei o João Carlos para assumir a área de captação de recursos da fundação. Junto com ele, convidei o João Paulo Capobianco e o Clayton Lino para assumirem respectivamente as áreas de políticas públicas e políticas científicas. Não tínhamos um tostão e tínhamos muita vontade, além de um monte de idéias e planos. Para alavancar ainda mais a entidade recém nascida, armamos e lançamos a campanha “Estão querendo tirar o verde (a esperança) da nossa bandeira”. O estrondoso sucesso desta campanha contribuiu para que conseguíssemos os primeiros investimentos para a entidade em gestação – U$400 mil da Fundação MaCarthy, na época a maior doação desta instituição para uma entidade não governamental estrangeira. O resto é história e, é claro, a versão de cada um de nós. Não resolvemos e não resolveremos a questão ambiental brasileira. Demos uma enorme contribuição para o processo de educação cívica do Brasil construindo uma rede de interesses articulada e viva – ajudamos a abrir um caminho novo, mais um peabiru. Os novos peabirus dos primórdios da era cybernética, na qual como já apontava McLuhan, seu expoente maior, podíamos e devíamos nos abrir para a descoberta, na fase de transição entre ‘a era da especialização para a era do envolvimento abrangente’. Os caminhos para as novas fronteiras de um mundo que a cybernetização ‘está tirando do visual os dados classificados e retrocedendo ao mundo tribal dos padrões integrais e das percepções coletivas’. E eu, na figura do seu Acyr, - um dos caiçaras que conheci criança e que continua vivo e meu amigo, com quase 90 anos de idade na sua baía dos Pinheiros, - mative-me solidário com a cultura que vi ser destruída a partir dos anos 70. Uma solidariedade e fascínio, talvez procura insana, que se estende ao amanhã de todas as comunidades que de certa forma vivem fora da História. E

que por isso são mais puras e autênticas do que nós – seres urbanos desligados do movimento da lua, das marés, dos ventos... da Terra, a nossa casa. “Amanhã, visita ao cerco. Vem o gaivota. Vai dá pouco, tempo ruim e fora da época. Arrastão na baía. Barco já tenho, só falta a rede. Mas é cara e proibido. Não deixa, criar. Mas dá camarão e o preço é bom. É por isso. Ninguém respeita. Todo mundo pesca de tudo quanto é jeito. Arrasta tudo quanto é tipo de rede. Se prejudica, o peixe vem rareando. Isso era coisa de louco, há uns 20 anos. Pode voltar. É só deixar...O tempo vai melhorar, a lua entrou sem chuva. O vento tá virando. Vai dar para montar o cerco novo, no rio. Queria oito. A família tá grande. Disnei, Maurício, a Dina, moça trabalhadora... Tem aquela terra em Paranaguá. Beira d'água, uns 30 alqueires. Dava pra pôr uns bois, muita galinha, plantar. E tem a pesca. Preço bom. Preciso duma reserva. Amanhã ” E termino aqui a minha história (versão) até agora com a SOS, com os sonhos do seu Acyr por um amanhã melhor, no início da luta por sua terra, em 1983 – uma das bandeiras vitoriosas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Rodrigo Lara Mesquita