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SEGUNDA-FEIRA, 26 DE ABRIL DE 2010

O ESTADO DE S. PAULO

TOTALITÁRIO

Um acordo que pode mudar a web
Negociado em segredo, tratado reaviva o medo do corte da rede de infratores de copyright; é como a Lei Sarkozy, mas quase global Os perigos do ACTA O Acordo Comercial Anti-Falsificação mobilizou ciberativistas pelo mundo
DESCONEXÃO FORÇADA Em um rascunho que vazou há algum tempo, o ACTA previa que infratores reincidentes poderiam ser desconectados legalmente. Uma variação do que a Lei Sarkozy propunha, cortando o acesso à internet de quem corrompia o copyright pela terceira vez. Já no texto divulgado na última quarta-feira, a medida sumiu. “Está errado quem acredita que eles não querem mais nos desconectar. Ninguém imaginava que eles colocariam isso de uma maneira óbvia” Christian Ergström
Representante do Partido Pirata Sueco no Parlamento Europeu

PROVEDOR POLÍCIA Na versão divulgada pelo ACTA, ainda aberta, existe uma opção que permite que o Estado ordene desconexões. Eles teriam a autoridade de forçar os provedores a “acabar com ou prevenir uma infração”. Isso quer dizer que, judicialmente, será possível barrar o acesso a certos sites, além de impedir algumas pessoas de acessá-los. “Eles poderão, por exemplo, desconectar você porque seus filhos foram acusados de subir conteúdo protegido no YouTube. E criminalizar também aqueles que o incitaram a fazer isso” Lawrence Lessig
Fundador do Creative Commons

ANTI-P2P Atos como filmar a tela do cinema se tornarão, por exigência do ACTA, crimes. “Infração intencional de copyright em escala comercial”, como eles chamam. As outras versões do texto incluíam a pirataria digital nesse artigo, mas ainda não há um consenso. Além disso, tal penalização poderá se aplicar quando “não há motivação financeira direta ou mesmo indireta”, Como no caso do P2P. “Vai se delimitando uma ciberguerra. De um lado os que querem o controle, do outro os idealistas” Omar Kaminski
Advogado especializado em internet e autor do blog Internet Legal

CADEADO INQUEBRÁVEL Será crime abrir o cadeado da trava anti-cópias DRM, usada principalmente pela indústria do entretenimento para manter o controle da circulação dos seus arquivos. Mesmo se “o objetivo comercial não for significativo”. “E se você desenvolver um software livre, que pode ser usado para baixar conteúdo livre e música e filmes com copyright? E se você linkar sites de torrent, com conteúdo que tinha DRM? Arriscando ser condenado por incitar o crime, você também seria censurado” Jérémie Zimmermann
Advogado-ativista do grupo francês La Quadrature Du Net

IPOD REVISTADO O documento desmente a ameaça de que autoridades de alfândega poderiam examinar MP3 players e laptops de viajantes, em busca de material sob copyright. Se não houver objetivo comercial, pequenas quantidade estão livres. Mas as “autoridades de fronteira poderão agir de iniciativa própria” se notarem itens suspeitos. “Se aprovado, as liberdades civis estariam em risco. Direitos humanos fundamentais seriam atropelados e viveríamos em uma sociedade completamente monitorada” Partido Pirata do Brasil
Em comunicado divulgado ao Link

PRESSÃO Muitos acreditam que o ACTA não se restringirá apenas aos países signatários, mas servirá também como elemento de pressão em fóruns internacionais. O plano dos membros é fazer que outras nações assinem o tratado, com o texto já pronto. “Se aprovado, será utilizado como elemento de pressão. Tem sempre sido assim. A estratégia é fazer um acordo apenas suficientemente amplo e depois pressionar para que os demais países assinem” Pablo Ortellado
Líder do Grupo de Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP

Rafael Cabral
rafael.cabral@grupoestado.com.br

Um acordo transnacional pode mudar a maneira como encaramososdireitosautorais,apirataria e o compartilhamento de arquivosnainternet(etambémforadela).OAcordoComercialAnti-Falsificação (ACTA) vem sendonegociadohádoisanos,secretamente, por Estados Unidos, União Europeia, Canadá, Japão, CoreiadoSul evários outrospaíses. Classificado como “segredo desegurança nacional”paraaadministração Obama, um rascunho do tratado acabou vazando na internet, em março. Desde então, organizações de proteção aos cidadãos cobram que os participantes divulguem o que está sendo discutido. Na última quarta, 21, após uma reuniãona NovaZelândia,elesfinalmente resolveram fazer isso. O consenso dos comentários sobre o documento é que seus tópicos, se ficarem como estão, ameaçamaliberdadedarede.Como diz o advogado especializado em internet Omar Kaminski, as propostas “fizeram acender uma luz amarela, senão vermelha, em ciberativistas do mundo todo”.Dúbios,osartigosdostex-

tos vazados anteriormente davam a entender que usuários seriamdesconectadosapós trêsinfrações de direitos autorais, que provedores seriam obrigados a agir demaneira policialesca e até que iPods e laptops seriam revistados em fronteiras. Já o acordo tornado público, ainda sujeito a alterações, “não é opiorque esperávamos,mas ainda assim é bem ruim”, como comenta o jornalista Nate Anderson no site Ars Technica. Se cortar a internet de quem baixa músicas e filmes parece nãoestarmaisemdiscussão,ainda assim há artigos que forçam provedoresa“acabarcomouprevenir” infrações de copyright e outrosquedãomargemaofechamentos de sites de torrent e redes de trocas de arquivos. Além disso, existe a preocupação de que trechos tenham sido limadospara a divulgação.“Não acho impossível que assuntos delicadosreapareçamdepois,seapressão da sociedade civil baixar”, alerta Pablo Ortellado, do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP. “Está cheio de parênteses e é muito, muito dúbio. Mas dá pra ver que o texto se preocupa mais em saber como a polícia e o juiz vão atuar. Foca mais na aplica-

ção da lei do que na lei em si”, diz Samuel Conceição, coordenadordedireitosautoraisdoMinistério da Cultura. O órgão vem propondo uma reforma da Lei dos Direitos Autorais brasileira e, no final do ano passado, apresentou suas ideias: permissão da transferência de obras entre mídias e do remix, autorização de cópiasparausoprivadoenão-comercial,reequilíbrioentreointeresse público e o da indústria, Sem dúvida bem mais permissiva que o do ACTA, a revisão da lei 9.610/98 deve ser colocada, em breve, em consulta pública, para depois ser apresentada ao Congresso. Apesar da diferença depropostas,oMinCnãoacredita que o acordo multilateral possa frear a aprovação do projeto por aqui. Em nota oficial, os responsáveis afirmaram, lacônicos, que “o Brasil não é afetado pelo acordo, já que não está envolvido na negociação”. ChefedaDivisãodePropriedadeIntelectualdoItamaraty,Kenneth Félix Haczynski acha que não é tão simples assim. “Com certeza o ACTA vai ser usado para fazer pressão”, diz, em entrevista por telefone. Após afirmar que o Brasil nunca foi convidado para fazer parte das discussões, ele criticou como o processo foi

FREDRIK PERSSON/AP

Unesco de olho
Coalizão do copyright A Unesco aproveitou o Dia Mundial do Livro para lançar, na quinta, 22, o Observatório Mundial Anti-Pirataria (WAPO, na sigla em inglês). Para a Diretora-Geral da organização, Irina Bokova, “não há desenvolvimento na literatura sem os direitos autorais”. O Observatório é uma plataforma que disponibiliza informações sobre a legislação e as medidas anti-pirataria dos países membros do órgão, além de ferramentas de capacitação para download. “Foi na Unesco que se criou a noção de copyright, nos anos 50. O sistema funcionou bem, mas a evolução é tão rápida que é preciso repensá-lo, respeitando a liberdade e favorecendo a criação”, reconheceu recentemente ao Link Vincent Defourny, representante da Unesco no Brasil./T. M. D.

Quem é pirata? Manifestação pró-PirateBay, em Estocolmo conduzido(“fechado apenas entre os países desenvolvidos”) e também se mostrou preocupadocomseu conteúdo(“essaproteção dos direitos intelectuais, repressiva e policialesca, pode afetar direitos básicos como o da privacidade”).ApesardeoMinistério de Relações Exteriores aindanãoterumaposiçãooficial sobre o tema, Haczynski diz que “ignorar os emergentes ao tomar essas decisões não foi um bom começo”. Para o advogado francês Jérémie Zimmerman, um dos principais nomes no combate à falecida Lei Sarkozy e comandante do site Le Quadrature du Net, o primeiro a vazar informações sobre o ACTA, é possível que os países queiramprimeirofecharumtexto e depois impor a outros, menos influentes: “Por exemplo, só compram seu café se você assinar”. Resumindo sua opinião sobre uma virtual aprovação do projeto, o ativista diz que “ele é tudooqueaindústriadoentretenimentoqueretudoqueosusuários abominam”. Para ele, seria como transformar o computador em TV. “Quem ama a internet deve se opor ao ACTA”.