Sueli Maria Ramos da Silva

Universidade de São Paulo

A dimensão passional e aspectual do crer na prática católica

Introdução
Com base na fundamentação teórica oferecida pela semiótica greimasiana tomada, sobretudo,
no que diz respeito ao exame da dimensão passional do discurso 1, seus recentes
desenvolvimentos tensivos2 e da noção de “práticas semióticas”3, procuramos examinar os
mecanismos de produção do efeito de sentido afetivo ou passional, depreensível da prática
religiosa católica do sacramento da confissão, sinal de comunhão e de reintegração entre os
membros partícipes da formação ideológica católica.
Sobre a estrutura passional e aspectual do crer
A problemática principal observada dentro do campo de estudos semióticos é a dissociação
entre o que se considera uma semiótica greimasiana padrão e seus desdobramentos tensivos. Os
desdobramentos tensivos da semiótica opõem-se à concepção da semiótica dita discursiva, por
não ter, assim como esta, preocupação com o social, voltada ao conjunto de crenças, valores e
ideais propugnados por uma formação discursiva considerada. Sua preocupação reside,
portanto, em uma categorização do nível profundo.
Propomos, dessa forma, por meio da tentativa de conexão entre esses dois desdobramentos da
teoria semiótica, realizar uma iniciativa de aprimoramento do modelo, tal como se faz
necessária aos trabalhos recentes realizados no âmbito da teoria semiótica.
Tatit4 alerta-nos para o fato de que a proliferação de trabalhos pautados pela análise de figuras
passionais, que compreendem o estudo das modulações dos estados de alma do sujeito, tais
como o desespero, a indiferença, a cólera etc, realizadas ao longo da década de 1980, incutem a
“necessidade urgente de revisão das instâncias intermediárias e profundas do modelo gerativo”.
Para a elaboração de tal proposta, nos apoiamos nos desenvolvimentos recentes da teoria, tal
como propõe Zilberberg5, ao incluir a noção de afetividade na direção do processo de produção
do sentido.
Propomos dar justificativa a essas configurações com respaldo na afirmação proposta pelos
desenvolvimentos da semiótica tensiva, de que o sujeito semiótico, antes de assumir valores
socioculturais e ideológicos, em conformidade com a formação discursiva em que se encontra
instaurado, estaria operacionalizando a seleção de valores tensivos desde as etapas mais
profundas do modelo.
Dessa forma, ao nos situarmos nos desenvolvimentos recentes da teoria, não podemos conceber
a enunciação sem a participação de um corpo onipresente 6. A esse sujeito que deixa transparecer
partes de seu corpo, na percepção de um mundo discursivizado, propomos associar, com apoio
1

A. J. Greimas e J. Fontanille. Semiótica das Paixões. São Paulo: Ática, 1993.
C. Zilberberg. Elements de grammaire tensive. Limoges: Pulim, 2006a.
3
J. Fontanille. Pratiques sémiotiques: immanence et pertinence, efficience et optimisation. Nouveaux
actes semiotiques, Pulim, Universite de Limoges, n. 104-105-106, p. 13-73, 2006. Tomaremos como
indicação das páginas a tradução dessa obra: J. Fontanille. Práticas Semióticas: imanência e pertinência,
eficiência e otimização. In: Semiótica e Mídia: Textos, práticas e estratégias. Trad. Jean Cristtus Portela
et. alii. Bauru: Unesp/FAAC, 2008.
4
L. Tatit. Musicando a Semiótica. Ensaios. São Paulo, AnnaBlume, 1997, p. 35.
5
C. Zilberberg. Síntese da gramática tensiva. Significação, São Paulo, n. 25, p.163-204, 2006b.
6
L. Tatit, op.cit.
2

Protée : Revue Internationale de théories et de pratiques sémiotique. vol. característico de um modo de dizer e de habitar o espaço social. Portanto. Calloud. destacandose apenas no âmbito francês as análises realizadas pelo Centro para análise do discurso religioso de Lyon (CADIR). ao exercer a escuta do figural.em Discini7. 11 N. 12 N. com a publicação do periódico Sémiotique et Bible. expõem a importância de uma seção de três dias realizada no Grand Semináire de Versailles. tal como presente no Dicionário de Semiótica13. Remetemos assim à percepção mais acelerada. do Centre pour l’Analise Du Discours Religieux (CADIR). O estilo nos textos. Aliada a essa problemática teórica.ec-aiss. caráter e corporalidade. n. à noção de éthos proposta por Discini11. que ao instalar um centro dêitico. a noção de corpo será concebida como um modo de presença na qual se depreendem todas as relações da vida perceptiva e do mundo sensível. Merleau-Ponty. Courtés. exerce a escolha de valores temporais (aspectuais) desde as etapas mais profundas do modelo. Évolutions méthodologiques et perspectives épistémologiques. de um modo de presença na percepção de um mundo discursivizado. por fim. 1994. relegadas a um segundo plano. São Paulo: Cultrix. São Paulo: Contexto. A escolha da problemática aqui proposta justifica-se também pelo fato de que os conceitos ora escolhidos como determinantes dessa análise: a noção de afeto. 34. depreensível dos próprios textos. vem se acrescentar a justificativa de análise do corpus religioso ora delimitado aos propósitos deste trabalho. seria. encontrarem-se longe de estar completamente definidos dentro da teoria semiótica. apresentada “como um ato cognitivo. tal como propõe Zilberberg 8. voz. Discini (2005a).cit. Discini. 8 . 14 J-Y. A noção de ritmo será relacionada à noção do observador correlacionado por Discini 12 aos processos discursivos de antropomorfização do sujeito enunciador. recuperar algo profundo a partir da superfície figurativa do discurso. sobrederminado pela categoria modal da certeza”. ao elaborar o histórico desses estudos em semiótica. por iniciativa de J. Zilberberg (2006b). São Paulo. Disponível em : <www. Delorme e J. 10 Ibidem. Associamos o ser que percebe e sente de Merleau-Ponty 10 com o sujeito enunciativo. em setembro de 1968. 67-75. 2008. Thériault14 e Panier 15. J. entendida como tom. ao que remetemos. 15 L. a que se relacionam a tonicidade ou atonia das percepções. C. tom. no que concerne ao estabelecimento da crença como fundamento da fé religiosa. op. ou seja. a noção de aspectualização do ator de enunciação à noção de estilo (éthos) proposta pela autora. podemos observar uma escassez considerável de estudos a esse respeito no Brasil. como o marco inaugural dos estudos em semiótica bíblica. p. contribui para a fundamentação do éthos: o ritmo dos textos determinado por meio da percepção de um corpo que percebe e sente. A inclusão dos estudos bíblicos no âmbito da semiótica greimasiana coincide com a publicação da obra Du Sens. p. A crença. Sémiotique et etudes bibliques. no que diz respeito aos trabalhos no âmbito da semiótica que já teriam versado sobre esse tema. 9 M. Concebemos um sujeito que. Thériault. ou menos. Discini. 2006.d. presente também em diversas instâncias discursivas e não apenas como fundamento da fé religiosa. EC – Rivista dell’Associazone Italiana Studi Semiotici. em oposição ao privilégio concedido à narratividade oriunda de Propp. estaremos aliados aos desenvolvimentos recentes da semiótica.p. s. 2004. segundo o autor.it>. Porém. um tema recorrente às pesquisas semióticas “dos anos vindouros”. entendida “enquanto adesão do sujeito ao enunciado de um estado”. Panier.1. Acesso em: 04 mar. 2009. 7 N. 28 febbraio. 2005a. Esses estudos tiveram posterior desenvolvimento em Lyon. 13 A. Respaldados na fenomenologia de Merleau-Ponty 9. Diário e Carta: Questões de gênero e estilo.cit. ritmo e presença. voz e corporalidade. op. Cópia xeróg. Greimas. 91-92. aspecto. como caráter. J. Quand la Bible s’ouvre à la lecture sémiotique. Martins Fontes. A semiótica tem apresentado um relativo desinteresse com relação a essas categorias. ao imprimir um ritmo aos seus discursos. Fenomenologia da Percepção. na maioria das vezes. por meio da criação. Dicionário de Semiótica.

Tomaremos. além das noções de divulgação religiosa e de discurso fundador. por conseguinte. Tais gêneros foram reunidos nesse trabalho porque se emparelham àqueles de divulgação. por conseguinte. Os ritos visíveis sob os quais os sacramentos são celebrados significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. ou a própria noção de experiência da palavra. Produzem efeito naqueles que os recebem com as disposições exigidas 21. que ultrapassem a noção de discurso fundador bíblico. O folheto de missa. portanto. 21 Papa João Paulo II. sobretudo. depreensível da prática religiosa católica do sacramento da confissão. Acesso em: 01 dez. novena. um conjunto de dados ao mesmo tempo tensivos e figurativos”18. 319. no caso. propomos nesse trabalho examinar os mecanismos de produção do efeito de sentido afetivo ou passional. é um desses gêneros de fronteira entre a divulgação e a fidelização religiosa. 20 BENTO XVI. Para estes. instituídos por Cristo e confiados à Igreja. o status da dimensão passional do discurso. folheto (suporte de missa). Sob essa “rúbrica” reunimos gêneros que não contradizem a orientação enunciativa de divulgação religiosa. na medida em que “a paixão presentifica. tal como um sujeito com caráter próprio. O discurso de divulgação religiosa materializado por meio de diferentes gêneros: dois ethé: duas construções do Céu e da Terra.Entretanto. Dissertação de Mestrado. Fontanille. ou seja. sinal de comunhão e de reintegração entre os membros partícipes da formação ideológica católica. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. no seio do discurso de acolhida. op. estudos referentes ao campo discursivo religioso no âmbito semiótico. enquanto prática ritual católica.usp. entendido aqui enquanto imaginário passional que atua aspectualizando o sujeito.teses. p. Lembramos que retomamos a acepção de práticas semióticas de Fontanille17. como se processam os diferentes graus de fidelização no que concerne às práticas religiosas. como se constitui o projeto de configuração passional determinado pelo enunciado.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-18102007-145252/>. de tal modo que o sujeito deva agir de acordo com determinados preceitos propostos por aquela formação ideológica determinada. p. São Paulo. 79. portanto. Procuramos demonstrar. Greimas. mas que também não se restringem a tal divulgação. principalmente da Eucaristia”. Procuramos observar. 19 Ibidem.cit. mediante a análise de um folheto preparatório para confissão. para que se possa depreender o éthos católico.” 16 S. observados. os valores propugnados pelo catolicismo. 18 A. requerem maior aprofundamento e explicitação. . M. dentro da perspectiva de exame de enunciados pertencentes ao que denominamos “experiência da palavra”. 2005. por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. mediante a celebração dos sacramentos da Igreja. com propriedade designado como semanário litúrgico-catequético. Disponível em: <http://www. estabelecer algumas considerações iniciais a respeito da estrutura aspectual e. 2007. São Paulo: Loyola. Propomos. Prática Semiótica: o sacramento da confissão A economia sacramental católica “consiste em comunicar os frutos da redenção de Cristo. voltada para arrebanhar mais e mais fiéis no exercício da própria fidelização. Ramos-Silva. 56. São gêneros representativos da prática religiosa católica. as noções desenvolvidas em semiótica das paixões a respeito do termo simulacro 19. J. 2010. temos: oração. considerando o aspecto fiduciário envolvido nessa prática católica. fazendo com que o sujeito queira ser de certo modo. p. 17 J. Loyola. Dentro da perspectiva de estudo da crença no âmbito semiótico. São Paulo: Universidade de São Paulo. cit. 2000. assim. 20 “Os sacramentos são sinais eficazes de graça. também procuramos analisar textos que julgamos por bem nomeá-los como pertencentes à experiência da palavra e dos quais nos ocuparemos no presente trabalho. passional do crer. Catecismo da Igreja Católica: Edição Típica Vaticana. por exemplo. termo cunhado em trabalho que recentemente desenvolvemos16. Veremos. no que diz respeito à noção de discurso de divulgação religiosa. op. Desse modo.

é uma prática e a pertinência de cada argumentação particular só pode ser estabelecida no âmbito de uma estratégia 26”. 2004. Ordem e Matrimônio. E. apresenta seus desenvolvimentos efetuados por meio dos trabalhos de Zilberberg. cit. 21-22. de sua compreensão enquanto processo. Eucaristia. pela comunicação e circulação dos objetos em sociedade. sacramentos da cura (Penitência e Unção dos Enfermos). isso. Confirmação e Eucaristia). também designada “sacramento da penitência ou reconciliação”. A reflexão sobre o ritmo proposta por Zilberberg é oriunda da proposição de Saussure sobre silabação. Vejamos a noção de ritmo tal como nos apresenta Válery31: 22 Ibidem. exemplo e orações22”. 38. representada no enunciado pela experiência da palavra na prática religiosa. Courtés. Eles apresentam a seguinte distinção: sacramentos de iniciação cristã (Batismo. 29 Saussure. A noção de ritmo. pois.” E. Greimas. p. p. p. A prática católica da confissão. Unção dos Enfermos. 25 Ibidem. p. da qual denominamos folheto de preparação para a confissão e outra. na medida em que: “O discurso persuasivo é apreciado no nível do texto. aspectual e rítmica da sequência práxica 27”. 1989. p. 1283-1284. Ferdinand de. e do modelo hjelmsleviano que lhe deu continuidade. e a qual colabora para sua conversão com caridade. da maneira como é considerada pela retórica geral. 1986. está ligada essencialmente à organização sintagmática. 16. 23 . de fato. 30 Valéry. tome 1. p. Curso de Lingüística Geral. Fontanille. optamos pela noção de ritmo vista como uma forma significante. 386. 48. enquanto prática semiótica. Dentro da ritualística sacramental católica estabelecemos como recorte a análise do sacramento da penitencia ou reconciliação. J. 28 J.São sete os sacramentos da Igreja: Batismo. p. 31 Ibidem. Essa eficiência. portanto. Na edição do primeiro volume dos Cahiers30. ao se valer das concepções de Valéry em seus Cahiers. A. mas a argumentação. Penitência. 26 Ibidem. No que diz respeito ao exame da forma sintagmática da prática católica do sacramento da confissão (penitência). conceberemos a argumentação e a arte retórica enquanto práticas. mediante a consecução de implosões e de explosões na cadeia fônica. “o ritual oferece um exemplo canônico de eficiência sintagmática. interação e prática social 23. associados a uma morfologia particular do objeto de escrita. Confirmação. 392. enquanto sinal de comunhão. Paul.24 Teremos. “Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa feita a Deus e ao mesmo tempo são reconciliados com a Igreja que feriram pecando. portanto. com apoio em Greimas e Courtés 28. sacramentos a serviço da comunhão e da missão (Ordem e Matrimônio). dois tipos de práticas. vista como um arranjo particular do plano da expressão. temos como objeto de estudo a noção de práticas semióticas desenvolvida por Fontanille. 2004. 27 Ibidem. ambas relacionadas uma a outra25 Ao longo da análise dos procedimentos argumentativos empregados no enunciado. Tratase aqui. op. Contrariamente a uma acepção de ritmo puramente estética. assim. o consideraremos enquanto um discurso ritual. São Paulo: Cultrix. constitui a absolvição sacramental e a reintegração entre os membros partícipes da formação ideológica católica. Paris: Hachette. mais do que o exame do enunciado em si. a implosão relacionada ao fechamento e a explosão relacionada à abertura 29. Paris: Gallimard. uma instaurada pelo gênero. Passions sans nom. 24 J. Cahiers. Tomamos o enunciado do folheto preparatório de confissão. Paris: Presses Universitaires de France. pouco abordada no âmbito semiótico. Teremos. 64. Sémiotique Dictionnaire Raisonné de La Théorie du Langage. a noção de ritmo é apresentada na última seção intitulada “Temps”. Landowski. associada tanto ao plano do conteúdo quanto ao plano da expressão. p.

a organização sintagmática. p. A experiência do sujeito vai se alongando à medida que o andamento decresce. quando uma dependência de se criar em mim entre os elementos de sua sucessão na sua ordem. na medida em que uma relação de conjunção ou disjunção somente é experienciada por um actante sujeito. 50. Essa é uma maneira de compreender as relações juntivas. Há lei. uma lei de sucessão reconhecida como uma percepção mais ou menos acelerada. tal que uma parte dos elementos fornecerá o todo. Trad. alii. Práticas Semióticas: imanência e pertinência. pautadas pela transição imediata. Teremos assim. eficiência e otimização. tal como propõe Valéry32. portanto. práticas e estratégias. aspectual e rítmica da sequência dos atos do penitente. que corresponde à presença de velocidades maiores ou menores na percepção que o sujeito tem do mundo feito discurso. 2008. e necessário ao êxito da ação” 33 Ilustração 1: Modelo das variedades da práxis34. portanto. Fontanille. caso a conjuntividade estabeleça alguma duração. ou experiências construídas por mediação do instante. A experiência do espaço é regida pelo tempo. o que pode remeter à práxis semiótica apreendida em suas duas dimensões: a intensidade (sensível) e a extensidade (inteligível). In: Semiótica e Mídia: Textos. 55.“Toda lei percebida de uma sucessão é ritmo. formando uma solicitação à qual responde o resto”. duração e apreensão do percurso. como manifestação de uma periodicidade. experiências conjuntivas pautadas pela extensão. Observamos. o andamento se coloca como medida de velocidade.. nesse sentido. partilhado por todos os participantes. às modulações de velocidade na percepção que o sujeito tem do mundo discursivizado. Entenderemos o ritmo. Assim. 33 . sendo esta regida pela velocidade. Para que se possa ter idéia do suporte reproduzimos o folheto seguir: 32 Ibidem. A noção de ritmo será posta em dependência do andamento como medida de velocidade. sem a experiência do percurso e sem duração que apresente uma continuidade possível. o que corresponde. 34 J. Bauru: Unesp/FAAC. tendo como elemento primordial a fidúcia e os simulacros passionais projetados pelo sujeito (pecador) enquanto percepção de mundo. Jean Cristtus Portela et. Ibidem. Lembramos ainda que o “ritual supõe um crer específico (todas as práticas têm uma base fiduciária geral). p. portanto.

.Ilustração 2: Folheto de preparação para a confissão35.

Taboão da Serra: São Paulo. concebida enquanto orientação. p. ou ‘quase sujeito’. a orientação é sua propriedade figural. e faça o propósito de lutar contra o mal e as tentações. sobre a qual se desenham ‘sombras de valor’ destinadas a engendrar as valências”39 . sendo reintegrado. a dimensão passional do sujeito pautada pela expectativa de retorno aos valores com os quais esse teria se desvinculado.Na prática da confissão temos a relação entre o homem. que designamos em semiótica. confirmando nele um modo de ser no mundo. o objeto valor “graça divina”. Fontanille.]” “Peça perdão sincero a Deus. 37 Ibidem. fazendo-o querer ser de certo modo. a fidúcia. Greimas. O olhar da verticalidade constrói o plano espiritual a partir do ponto de vista eufórico. por conseguinte. Essa espera repousa sobre a fidúcia. Faça o sinal da Cruz e reze a Oração do Credo. p. sentimento que leva a”. Constrói-se o olhar do sujeito por meio do “baixo” (disfórico) para o “alto” (eufórico). o sujeito patêmico do folheto (pecador. pauta-se no enunciado pela busca do retorno e de uma nova expectativa de conversão. 40 Folheto de preparação para a confissão. a fé (crença). expectativa essa. op. o devir e. mostre arrependimento por ter errado. “definindo um sujeito tensivo. imediatamente identificável ao universo passional. Pelo Espírito Santo Ele revela Sua imensa Misericórdia. 36 . sobremodalizando a sua competência modal. “Coloque-se diante de Deus. observamos a direcionalidade tensiva do eu (pecador arrependido) em direção a Cristo nosso Senhor por intermédio do sacerdote. Espirito Santo) atingível apenas mediante a figura do confessor. No que diz respeito à organização da sequência narrativa. reintegrando-o a tais valores. sd.1. 38 Ibidem. inicialmente conjunto com valores disfóricos (prática do pecado) em busca de conversão e reintegração aos valores tidos enquanto eufóricos (obediência aos mandamentos da lei de Deus). a construção desse sujeito em sua proprioceptividade confirma o imaginário modal do sujeito e. tal como demonstram Greimas e Fontanille38 a presença das configurações passionais nos dicionários enquanto “disposição”. “inclinação”. o devir é o produto de um desequilíbrio de tensões que confirma a cisão”. observamos. 33. 1993.37 No que diz respeito aos dispositivos passionais do ser. Concebemos essa disposição do sujeito enquanto uma aspectualização temporal. instaurado no enunciado) configura inicialmente a estese. Glória e o Ato de Contrição. portanto. assim. J. Observamos no enunciado a presença da direção superativa no eixo da verticalidade. segundo a qual identificamos a protensividade. p. p. e que engendra. “A protensividade é o primeito efeito da cisão. por outro lado. por conseguinte.. Ave Maria. 76. Essa protensividade. Santuário Santa Teresinha.cit. para que esse possa obter. no caso. ao sistema de valores proposto pelo catolicismo. Taboão da Serra: São Paulo. compreende suas fraquezas e perdoa suas faltas”40.J. Temos assim a figura de um enunciador divino (Deus. Entendemos a disposição do sujeito “pecador arrependido”. Se o simulacro aspectualiza o sujeito. “Reze o Pai Nosso. A. sd. Observamos. p. Santuário Santa Teresinha. estabelecendo o “alto” como categoria. de protensividade fórica.. e de se corrigir”. 61. Inicialmente. Medite a Palavra de Deus”. uma motivação orientada para uma imagem-fim (reintegração) projetando sua configuração passional. conjunto aos valores católicos. “Ore com estes textos bíblicos”. 30. Ele quer acolhê-lo com Seu grande amor. devir do sujeito. tido enquanto mediador capaz de restabelecer o fluxo fórico do sujeito. “ “Diga a Deus que está arrependido e quer fazer uma boa confissão”. “Olhe para dentro de você mesmo [. Observamos ao longo de todo o enunciado o uso de verbos no imperativo que determinam a realização de uma determinada “conduta” ritual por parte do sujeito: “Coloque-se diante de Deus”. 35 Folheto de preparação para a confissão. o pecado e o dogma. 39 Ibidem. sob o efeito das paixões favoráveis a cisão. a qual podemos definir como uma espécie de “ressentir” “do estado limite e espera do retorno da fusão” 36. “disposição”.

cit. “Prometa ser um bom cristão e melhorar a cada dia”. Peça auxílio e a graça do Espírito Santo para permanecer em estado de graça”41. 47 Ibidem. 45 Veremos assim. pois realiza sacramentalmente o convite de Jesus à conversão. temos o seguinte discurso fundador bíblico. 1-17. resulta em seu simulacro existencial configurando no discurso o aspecto do sujeito. cit. portanto. apresentado logo no início do enunciado: “Medite a palavra de Deus: Ef 1. “Chama-se Sacramento da Conversão. Consiste ‘numa dor da alma e detestação do pecado cometido. p. p. entendendo “palavra” enquanto palavra revelada. fundado na conjunção com um antiobjeto “pecado”. com a resolução de não mais pecar no futuro” 47. recordando os mandamentos da lei de Deus. contrição (arrependimento). discurso fundador bíblico. grifos nossos. “Olhe para dentro de você mesmo e se pergunte. Assim. cit. temos um processo de aquisição de competência. 1-7”43. Temos. uma imagem disfórica de um sujeito realizado. O sujeito. p. Vejamos: 41 Folheto de preparação para a confissão. assim. e os Pecados Capitais”44. Papa Bento XVI.1. Col 3. p. 42 . a) Exame de consciência Ao considerarmos o primeiro dos atos do penitente. 44 Ibidem. op. op. op. 46 Papa João Paulo II. como se configura no enunciado o percurso passional do sujeito “arrependido”. a disjunção como primeira modalização do sujeito. cit. a contrição vem em primeiro lugar. “Entre os atos do penitente. Cor 13. 392. tal como vimos na seção anterior. grifos nossos. confissão (acusação dos pecados perante o sacerdote) e satisfação (cumprimentos de certos atos de penitência que o confessor impõe ao penitente para reparar o dano causado pelo pecado)42. b) Contrição (arrependimento) Entre os atos do penitente. obtemos a consideração do imaginário passional do sujeito. mais do que uma performance do sujeito. “Implore pela intercessão de Maria. 99. Aqui. o modo de ser do sujeito da enunciação que busca se reintegrar ao sistema de valores proposto pelo catolicismo. é visto ao longo da práxis do ritual (ações do penitente) sob a intensidade do sentir.. tal como necessário à sua nova conversão e reintegração. e que projeta. 45 Ibidem. visto mediante o simulacro existencial de conjunção com um antiobjeto. Caracterizamos o enunciado da prática católica enquanto experiência da palavra. 3-7. do qual a pessoa se afastou pelo pecado” 46 . 43 Folheto de preparação para a confissão. o caminho de volta ao Pai.op.“Volte-se ao Senhor para agradecer e fazer a penitência determinada pelo sacerdote”. No caso do enunciado do folheto. a contrição se constitui como a primeira entre as performances a serem executadas pelo sujeito. da Lei da Igreja. na qual o sujeito deve adquirir o poder ser e saber ser um sujeito “arrependido”. 400. dado que o exame de consciência se constitui enquanto um programa de aquisição de competência. Ainda no que diz respeito à práxis do ritual observamos a presença das seguintes performances a ser executadas pelo sujeito e apresentadas no folheto de preparação para a confissão: exame de consciência. o exame de consciência.

[. Misericórdia”49 c) Confissão dos pecados ao sacerdote No que diz respeito à confissão. por nele privilegiarmos a dominância da temporalidade emissiva (parada da parada). o destinadormanipulador tenta assegurar a diretividade da direção estabelecida pelo âmbito contratual da fé e para isso faz uso de modulações de velocidade. Meu Jesus. 49 . mostre arrependimento por ter errado.1. seja sancionado positivamente para que se possa alcançar a salvação por meio da instituição do sacramento do reconciliação e se integrar novamente ao sistema de crenças proposto pelo catolicismo. Ibidem. op. op. concede-lhe a sanção pragmática da absolvição dos pecados reintegrando o sujeito à formação católica. Prometa de novo ser bom cristão e melhorar a cada dia.4. Peça auxílio e a graça do Espírito Santo para permanecer em estado de graça 52”. assim. para que o sujeito permaneça conjunto com tais valores corresponde ao fazer emissivo.p. e de se corrigir”48 O ato de contrição é realizado. Após a realização dos atos do penitente. uma espera fiduciária.50 Observamos nessa relação de mediação. e faça o propósito de lutar contra o mal e as tentações. a fim de tornar possível um futuro novo”. cit. se possível. “o homem encara de frente os pecados dos quais se tornou culpado: assume a responsabilidade deles e. cit. Assim. dado ser necessária a mediação do confessor (sacerdote). experiência das coisas humanas. consequentemente. “Volte-se ao Senhor para agradecer e fazer a penitência determinada pelo sacerdote. tendo o fiel católico como leitor pressuposto. enquanto performance do sujeito. responsável pelas experiências conjuntivas pautadas pela extensão. 404. abre-se de novo a Deus e à comunhão da Igreja.4.] Implore pela itercessão de Maria. Desse modo.p.. por meio de uma manipulação baseada na intimidação (se o fiel não realizar adequadamente a práxis proposta não obterá a salvação). p. por intermédio da figura do sacerdote. o destinador do texto católico estabelece uma catequese sobre os princípios dogmáticos do catolicismo para fazer com que o leitor. “Deve possuir um comprovado conhecimento do comportamento cristão.. cumpra a penitência proposta pelo sacerdote e. peça perdão pelos pecados cometidos (transgressão da ordem proposta) cristalize sua fé em Deus. p. que deve. d) Satisfação (penitência) Temos na satisfação a realização da performance da penitência imposta pelo confessor. ser fiel ao magistério da Igreja e conduzir. 51 Ibidem. o destinador-julgador ao julgar positivamente seus atos. ao qual este discurso se destina. 400-401. O PN estabelecido pelo destinador-manipulador. o penitente à cura e à plena maturidade51. ter a autoridade e competência (saber-ser e poder-ser) necessárias para o exercício de sua função. na qual o sujeito encontra-se disjunto com os valores propostos pelo catolicismo. deve amar a verdade. diante do Sacrário. com paciência. op. Temos ao longo do texto a presença do destinador-manipulador tentando fazer com que o sujeito siga seu curso de restabelecimento da cisão original. Prometo com vossa Graça esforçar-me para ser bom. por meio da perfomance da acusação dos pecados diante do sacerdote. p. por conseguinte. o “outro”. 52 Folheto de preparação para a confissão.“Peça perdão sincero a Deus. eu me arrependo de todo o coração de Vos ter ofendido porque sois tão bom e amável. 50 Papa João Paulo II. tido enquanto sujeito de mediação (sacerdote). que também poderíamos denominar continuativo. duração e apreensão do 48 Folheto de preparação para a confissão. mediante a seguinte fórmula: “Meu Deus. coloque sua confiança em Cristo Nosso Senhor. respeito e delicadeza diante daquele que caiu. cit.

Temos como característica desse enunciado a direcionalidade tensiva orientada para a expansão espacial e desaceleração temporal. O anti-programa. Assim. da defesa da vida Divina e da Santa Igreja se verificam nesse enunciado. temos a presença de um estado de crença durativo. O sujeito. definido segundo os parâmetros da “prática religiosa católica”. o estilo do enunciado da experiência da palavra (prática católica da confissão) mediante uma direção descendente. na percepção de um mundo discursivizado. como um gênero de fronteira entre a divulgação e a fidelização religiosa. corresponde ao fazer remissivo. receberá o Om “poder ter o poder e força para resistir aos assaltos da tentação”. realizado de modo implícito pelo anti-destinador (mal e as tentações). o que permite caracterizar esse enunciado. A esse sujeito que deixa transparecer partes de seu corpo. Constrói-se a imagem de um sujeito que. que julgamos por bem nomeá-lo como pertencente à “experiência da palavra”. o que projeta o papel específico do éthos do enunciador. como sistema de crenças e aspirações. já conjunto com o Ov “dom da graça divina”. orientado por meio de um tom de voz próprio à cena enunciativa pressuposta. difusa e ampla. ao agir conforme as prescrições estabelecidas. Considerações finais Os resultados de nossa análise refletem na incorporação de um sujeito modalizado pela paixão fiduciária da crença que. . propomos associar a noção de aspectualização do ator da enunciação. responsável pela ruptura da relação contratual entre destinador e destinatário e pela interrupção do fluxo fórico.percurso de busca do Ov “graça divina” empreendido pelo sujeito (permanecer em estado de graça). assim. A temática do combate. Remetemos assim. Verificamos assim a exposição das práxis do penitente mediante uma concepção descendente. à noção de estilo (éthos). e a escolha de recursos relativos à gramática da língua refletem na incorporação de um éthos dogmático. Delineamos. institui a relação entre o sujeito e o exercício da própria fé. à parada. A formação discursiva. dado o caráter intersubjetivo proposto. permanecerá conjunto com tais valores. fundado em figuras e temas de determinado discurso. aos efeitos de passionalização determinados pela presença da função emotiva (afinal eu devo acreditar: ter fé). no que concerne à aspectualização no nível discursivo. própria à lógica implicativa. ao qual remetemos ao conceito de surpresa. voltado para arrebanhar mais e mais fiéis no exercício da própria fidelização.