LÍNGUA PORTUGUESA - LITERATURA

CATEGORIAS DA NARRATIVA: PERSONAGEM
PERSONAGEM

Termo derivado do latim persona que
significa máscara, e do grego prosopon que
significa rosto e é utilizado no teatro como o jogo
entre o verdadeiro e o falso. Na antiguidade
clássica os atores entravam muitas vezes em cena
disfarçados com máscaras que, à partida,
marcavam a diferença entre o ator (pessoa) e o seu
papel a representar, a sua personagem. No entanto
na dramaturgia posterior a personagem vai passar
por um processo de identificação progressiva com
o ator contribuindo para a definirmos como um
ser individual e personalizado. No entanto a
personagem é sempre um ser que domina no
hemisfério do imaginário, apresentado por um
ator real que salienta e evidencia alguns aspectos
visuais e auditivos da figura que pretende
representar, acabando por lhe dar poderes que
confundem muitas vezes o leitor ou espectador, ou
seja discernir a verdade a partir da qual a
personagem foi criada e o espaço que domina, é
muitas vezes uma tarefa árdua. A personagem
acaba por ser uma figura coerente, uma vez que é
criada a partir da observação do real, como tal,
quem a cria pode atribuir-lhe um carácter rico e
exemplar, uma vez que a sua esfera de ação, os
seus atos são sempre limitados pelo mundo
imaginário onde a ação se desenrola pela pena de
quem a cria. Ficcionalmente as personagens são
mais ricas que as pessoas reais, uma vez que neste
domínio, as últimas são de somenos importância.
É através do nosso olhar enquanto observadores
que o autor, criador das personagens, nos dirige
até aos aspectos que ele próprio elaborou nessa
figura de ficção, tornando-a em si só, uma fonte
inesgotável e ao mesmo tempo insondável, visto
que a sua capacidade de retenção do real é tão
grande que tudo nela é permitido e esperado. A
personagem assume assim uma condição
universal que em nada reduz as suas capacidades
enquanto ser necessário para o desenvolvimento
de um enredo. Assim, o observador – leitor –
contempla e ao mesmo tempo vive esse mesmo
enredo, as mesmas vivências da personagem
como se de um ser real se tratasse, desfrutando ao
mesmo tempo de todo o prazer estético que nela
se encerra. A ficção é pois esse lugar privilegiado
em que o homem pode viver e contemplar através
das várias personagens, a plenitude da sua própria
condição. Quando se fala de personagens não se
pode deixar de referir a importância da vida que
as mesmas vivem, as situações que têm de
enfrentar, as linhas do seu próprio destino. A tudo
isto se chama enredo, do qual dependem as

personagens e sem o qual as mesmas não fariam
sentido, ou a sua ação não seria concretizável.
Unidos, enredo e personagem fazem parte de um
todo consensual, onde a personagem deve parecer
tão perto do real quanto possível, deve ter vida,
ser um ser vivo aproveitando os limites da sua
própria realidade, uma realidade cambiante, que
se máscara e se deixa mascarar, sem nos permitir
distinguir o seu verdadeiro rosto.
Já Aristóteles, o primeiro teórico a tentar
responder ao enigma dos seres ficcionais
(categorias integrantes e constituintes do universo
narrativo), na sua obra Arte Poética chama a
tenção para a estreita semelhança entre a
personagem e a pessoa humana, ao afirmar que,
sendo o sendo o imitar congénito ao homem “a
poesia é uma arte de imitação ou representação” e
“o objeto dessa imitação é constituído de homens
que fazem ou experimentam alguma coisa”
(David Daiches: Posições da Crítica em Face da
Literatura, 1967, pp.32e ss.), no entanto este
conceito de personagem não se esgota na
representatividade desta, mas afirma também a
necessidade de considerá-la enquanto produto dos
meios e modos utilizados pelo poeta para
elaboração da obra.
Tanto no que respeita o teatro como nos relatos
narrativos, a personagem constitui o elemento
dinamizador sobre o qual se desenrola toda a
ação. A história do teatro e a vasta criação
narrativa apresentam uma grande variedade de
personagens que representam diversas realidades,
ou seja há personagens que pela sua
individualidade e características específicas,
podem aparecer como representantes de uma
conduta específica, de uma classe social ou de
uma herança literária, como são o caso das figuras
cridas por Gil Vicente nos seus autos, estereótipos
de uma sociedade e de várias classes sociais que o
autor caracterizou, ou ainda a figura do bobo que
foi evoluindo de acordo com as épocas, tendo
atravessado vários séculos do teatro europeu.
Ainda dentro desta caracterização podemos
encontrar aquelas personagens que são conhecidas
como portadoras de um conjunto de características
psicológicas e morais que o público identifica de
imediato não só pelo seu aspecto físico como
também pela sua conduta. Dentro deste contexto
há ainda as personagens que se destacam pelo seu
carácter individual e tanto na narrativa como no
teatro podemos contar com a originalidade de
figuras como D. Quixote, Hamlet ou Madame
Bovary.
REFERÊNCIA

1995). São Paulo. Beth Brait: A Personagem (6ªed..: A Personagem de Ficção (9ª ed.Antonio Candido et al.. 1998). .