MORAL E RELIGIÃO NO CÓDIGO CRIMINAL IMPERIAL OU

UMA APOLOGIA DA SOBERANIA EM TEMPOS DE ILUSTRAÇÃO

LUCIANO ROCHA PINTO *1

A Constituição do Império brasileiro, outorgada em 1824, determinou no artigo
179 número XVIII, a “necessidade de se organizar, quanto antes, um código civil e um
criminal, fundado em sólidas bases de Justiça e Equidade”. O código civil teve que
esperar até 1916, enquanto o criminal é promulgado em 16 de dezembro de 1830 e
publicado em 8 de janeiro do ano seguinte. Após a emancipação política, a organização
institucional da sociedade imperial esteve sob a incumbência dos magistrados e
bacharéis que, no estabelecimento da ordem após os tumultos oriundos da emancipação,
sustentaram o controle social e o estabelecimento da disciplina como prioridade. “Era
uma população inquieta, afeita às agitações e tumultos políticos” (NEVES, 2003: 400).
Até 1850 os magistrados formavam um grupo poderoso e articulado com a coroa
(SCHWARTZ, 1979), o que promovia certa continuidade com relação à tradição
jurídica herdada de Portugal.
O recém-criado Império do Brasil buscava uma legislação própria que reforçasse
sua autonomia, mitigasse as agitações e produzisse a ordem necessária à sua reiteração
temporal. A influência dos bacharéis formados em Coimbra e dos magistrados de
origem portuguesa contribuiria para a continuidade de antigos procedimentos penais em
novos moldes. O Império permaneceria aplicando “a velha legislação herdada dos
tempos coloniais sem proceder a grandes e radicais rupturas, adaptando-a as tradições
específicas dos brasileiros, à cultura jurídica então em formação e, sobretudo, aos
interesses econômicos das elites agrárias brasileiras” (FONSECA In NEDER, 2007:
115). Vale perceber a coexistência de uma monarquia constitucional com a escravidão e
a continuidade das penas de morte, galés e açoites. Práticas inscritas no código criminal
de 1830 e aplicadas aos escravos e aos livres em circunstancias específicas. Mesmo a

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* Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História
(PPGH-UERJ).

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011

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Embora os princípios da Escola Penal Clássica. 2 PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA 3 anos de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 12 anos de prisão simples e dotar a ofendida 6 meses de prisão simples e multa 1 ano de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 3 anos de prisão simples e dotar a ofendida 1 mês de prisão simples e multa 3 anos de desterro para fora da comarca 1 ano de desterro para fora da comarca 10 anos de prisão com 2 anos de prisão com “Desde já ficam abolidos os açoites. dispostos a levar os ventos da mudança até as últimas conseqüências” (NEDER. por meio de violência. 223 – Ofensa pessoal para fim libidinoso causando dor ou mal corpóreo a alguma mulher sem que se verifique a cópula carnal * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. 2007: 188). efetivamente. 179. art. O direito se torna o campo de legitimação da hegemonia. . e todas as mais penas cruéis”. (Constituição Política do Império do Brasil. a marca de ferro quente. isso não aconteceu plenamente. com mulher honesta Art. busque desvincular a relação entre infração e falta moral ou religiosa. A lei é redefinida como instrumento de disciplina. no XIX). 219 – Deflorar mulher virgem menor de 17 anos * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. menor dezessete anos e ter com ela cópula carnal Art. a tortura. DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA INDIVIDUAL (DE ORDEM MORAL) Art. julho 2011 2 . 224 – Seduzir mulher honesta. principalmente os de ordem sexual. Esta flexibilidade caracteriza a disposição de não promover mudanças reais na estrutura social. 226 – Tirar para fim libidinoso. principal influência normativa do Código Criminal Imperial. sem que estivessem. que casarem com as ofendidas Art. As ofensas à moral e à religião são as maiores causas de encarceramento nos crimes considerados policiais. 220 – Se o que cometer estupro tiver em seu poder ou guarda a deflorada * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. 225 – Não haverá as penas dos três artigos antecedentes os réus. por violência. “Adotaram de forma pragmática os pressupostos metodológicos da pedagogia iluminista. 222 – Ter cópula carnal. A imoralidade da população e o desejo civilizatório Crimes de ordem moral estavam listados entre aqueles contra a segurança individual. 221 – Se o estupro for cometido por parente em grau que não admita dispensa para casamento Art. que emergem como um problema político.2 elas continuavam ocorrendo e de modo legal. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. controle e hierarquização.constituição tendo proibido as punições hediondas.

ou reputada tal. segundo o saber médico/higienista. furtar alguma criança. na segunda metade do século XIX. 255 – Fingir-se o homem marido de mulher contra a vontade desta para usurpar direitos maritais. A regulação da vida sexual nada mais é que a tentativa de se apossar da vida e dos corpos nos seus atos mais íntimos e pessoais. Os desvios de caráter seriam adquiridos pelas próximas gerações. 227 – Tirar de casa para fim libidinoso. A sexualidade adquiriu uma importância estratégica justamente por se tratar de um fenômeno que atravessa o individual e o populacional. a sede de prazeres. Mas a sexualidade devassa teria efeitos também no nível populacional. a avareza. a prostituição. não terão lugar as penas Art. ou sendo verdadeiramente prenhe. 1999: 300-301). 248 – Contrair matrimônio clandestino Art.DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA INDIVIDUAL (DE ORDEM MORAL) qualquer mulher da casa. Tais espaços produzem as condições propícias à instalação de processos degenerativos. que seja menor de dezessete anos Art. 251 – Homem casado que tiver concubina teúda e manteúda Art. no que diz respeito à degeneração moral (FOUCAULT. 249 – Poligamia Art. 250 – Mulher casada que cometer adultério Art. substituir a sua por outra criança. ocultá-la ou trocá-la por outra Art. por meio de afagos e promessas. Acreditava-se. Individualmente o corpo pode ser acometido de doenças diversas. Como possíveis causas físicas têm-se a insalubridade. ou lugar em que estiver Art. Esta ideia será consagrada mais tarde. não apenas com relação às doenças que se poderia adquirir e transmitir. mas. 228 – Seguindo-se o casamento em qualquer destes casos. a má higiene e a precariedade das moradias e a má nutrição. julho 2011 3 . Como causas morais encontram-se a ignorância. 254 – Fingir-se a mulher prenhe e dar o parto alheio por seu. alguma mulher virgem. 247 – Receber o eclesiástico em matrimônio contraentes que se não mostrem habilitados na conformidade das leis Art. Uma sexualidade indisciplinada pode trazer efeitos perversos nestas duas instâncias. que a própria masturbação em excesso enfraquecia e deixaria a criança doente por toda a vida. ou fingir-se a mulher casada com um homem para o mesmo fim PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA trabalho e dotar a ofendida 3 anos de prisão simples e dotar a ofendida trabalho e dotar a ofendida 1 ano de prisão simples e dotar a ofendida 1 ano de prisão simples e multa 2 meses de prisão simples e multa 1 ano de prisão simples 6 anos de prisão com trabalho e multa 3 anos de prisão com trabalho 3 anos de prisão com trabalho 2 anos de prisão simples e multa 2 meses de prisão simples 1 ano de prisão com trabalho e multa 1 ano de prisão com trabalho 1 ano de prisão com trabalho 4 meses de prisão simples e multa 6 anos de prisão com trabalho e multa 1 ano de prisão com trabalho e multa Há uma estatização do biológico e da sexualidade. os Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo.

julho 2011 4 . 1999: 21). entre muitas outras (SERPA JR. Era permitido sem gerar vínculos econômicos como o casamento (TORRES-LONDOÑO. Previase o casamento com pessoas de mesma estirpe. embora o código previsse de um a três anos de prisão com trabalho aos homens casados que tivessem concubina teúda e manteúda (CCIB. ou seja. O concubinato designava relações maritais com mulheres inferiores ou de comportamento duvidoso. relações externas por amor ou afeição eram comuns e toleradas. Um bom exemplo sobre a relevância do casamento com finalidades econômicas está na obra de Bartolomeu Coelho Neves Rebelo. quer se dizer que “Fulana e tida e 3 A partir de agora CCIB. “Discurso sobre a inutilidade dos esponsais dos filhos celebrados sem consentimento dos pais”. Busca-se normalizar o corpo individual e os acontecimentos aleatórios de uma multiplicidade biológica. Aparentemente. Um instrumento disciplinar era o domínio da sexualidade. um contrato que calcula a transmissão patrimonial. As leis raramente eram aplicadas com relação ao adultério.fanatismos. art. art. A garantia de igualdade social impedia a dispersão dos bens. indicam não apenas um sinônimo para “concubina”. 251). art. O casamento era um negócio. “amante” ou “amásia”. Não estar conforme a lei ou casar-se de maneira clandestina pode estar relacionado ao casamento sem o consentimento dos pais.3 art. mas. 247) e a poligamia (CCIB. Uma vez que o casamento era um negócio. publicada em 1773 em Lisboa (LIMA in LIMA. A autoridade paterna neste assunto foi reforçada em Portugal no século XVIII e na reforma pombalina da legislação sobre o casamento. Fenômeno marcado no Código é o entendimento do Estado como aquele que deve gerar o bem estar dos indivíduos em sociedade. 1987: 22). O amancebamento era pratica corriqueira. são versões portuguesas para a palavra espanhola “mantenuda”. 248). O discurso médico/higienista vai se apropriar dos espaços legais para regulamentar uma determinada disciplinada sobre os indisciplinados morais. 1998: 18). parecem sugerir um relacionamento estável. Ao dizer que “Fulana é teúda e manteúda”. 249). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. Além das motivações biológicas havia as econômicas. Daí a preocupação com o matrimônio clandestino (Código Criminal do Império do Brasil. mantida. tomadas conjuntamente. A expressão “teúda e manteúda”. a punição ao eclesiástico que receber pessoas inabilitadas pela lei (CCIB.

A Igreja foi a responsável por transformar aquela união em transgressão. por isso. arts. julho 2011 5 . É importante notar que o concubinato constituía-se. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. Assim como ele muitos outros. que não podiam pagar o dote se entregavam a homens casados ou mesmo solteiros e mantinham vida estável em ambos os casos. Muitos desimpedidos ao matrimônio não se casavam devido os altos custos que impediam a união legal dos casais mais pobres (LEWCOWICZ in LIMA. eram consideradas estupro e. patrimônio. O concubinato era um infortúnio tolerado desde que mantida a discrição e a modéstia. situação em muitos casos conhecida e tolerada. Em 1814 o padre Francisco Agostinho Gomes assumia seus sete filhos com Dona Maria Luiza. que ela é “amásia/amante de alguém”. Muitas mulheres honradas. mas não o aval de uma instituição: a Igreja. viúva de Joaquim Antonio Vianna e moradores na Bahia. Como o Império consagra o catolicismo como religião oficial a moral cristã passa a influenciar a vida social e a prática legal. mas empobrecidas. 1999: 80). 1987: 56). preocupava-se com sua educação e sua concubina ocupava-se de sua prole como qualquer mulher de seu tempo (TORRES-LONDOÑO. O concubinato era um estado de vida aceito publicamente. O padre reconhecia seus filhos. No Rio de Janeiro do século XVIII homens e mulheres vivam juntos por anos. tinham filhos. de modo geral. Como se vê o concubinato é muito diferente daquelas relações com moças de família (CCIB. Na sua ânsia de curar as almas a Igreja vai transformar o concubinato de ato público para pecado público. Até os clérigos viviam em consórcio público. Nas devassas coloniais era o concubinato a transgressão mais freqüente. 219-228) que. no entanto. 1999: 57). Entre 1741 e 1845 o concubinato em São Paulo chegava a 39% dos casais e em Minas Gerais à 90% (TORRES-LONDOÑO. em quase casamento no Brasil. exigiam penas maiores como o degredo.mantida por alguém”.

O degredo poderia variar de um a seis anos fora da comarca que reside a vítima. 219 – Deflorar mulher virgem menor de 17 anos * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. menor dezessete anos e ter com ela cópula carnal PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA 3 anos de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 6 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 3 anos de desterro para fora da comarca 1 ano de desterro para fora da comarca em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para fora da província em que residir a deflorada e dotar esta 2 anos de desterro para a província mais remota da que residir a deflorada e dotar esta 1 ano de desterro para fora da comarca A pena de desterro era aplicada aos crimes contra a segurança individual em dois casos: estupro e sedução de mulher honesta. Insiste-se no casamento como substituição à pena. Esta Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. 224 – Seduzir mulher honesta.DOS CRIMES CONTRA A SEGURANÇA INDIVIDUAL Art. julho 2011 6 . pois às menores de dezessete anos não caberia outra coisa se não o concubinato ou a prostituição. Ele correspondia à sua parte da herança que os pais davam por ocasião de seu casamento para que suas filhas não ficassem desprotegidas. A ideia é se livrar dos indesejáveis que afrontam a moral e os bons costumes. Casando-se estava reparado o delito. 221 – Se o estupro for cometido por parente em grau que não admita dispensa para casamento Art. A mulher estaria fora do mercado de casamentos se não fosse virgem. 220 – Se o que cometer estupro tiver em seu poder ou guarda a deflorada * Seguindo-se o casamento não terá lugar as penas Art. 1999). caso não fosse possível degredava o transgressor para minimizar a vergonha e exigia-se o dote (TORRES-LONDOÑO. Se não houvesse nada que comprometesse um possível casamento não seria aplicada a pena uma vez se casando os envolvidos.

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. sociedades secretas. mendicância e uso de armas proibidas. 2007: 20-21). Tal atitude reforça o desejo de reiteração do modus vivendi das monarquias européias e auferia um ar de solenidade garantido pela soberania divina. O Império professava. Em algumas regiões do país o pagamento era feito com cabeças de gado ou em número de escravos. Destacam-se os crimes de imprensa. busca-se amparar aquela que estava fadada a não casar-se com outra pessoa. A religião colaborava neste processo de docilização e condução dos indivíduos. de certa forma. joias. coletivos. a Religião Católica. A ofensa da religião emerge entre os crimes policiais. o que. segundo o artigo 5º da Constituição. julho 2011 7 . In FOUCAULT. 15 de fevereiro de 1978 e 22 de fevereiro de 1978. a auxiliaria e minimizava seu prejuízo. “O reino dinástico era visto 4 Confira as aulas de 8 de fevereiro de 1978. A religião e o governo dos indivíduos 4 A religião aparece no Código Criminal como um valor a ser resguardado. Os crimes ditos “policiais” se referem aos atos públicos. jogos proibidos. O desejo de moralidade seguia o de civilidade. roupas e demais coisas de valor (SILVA in NEDER. ajuntamentos públicos. caso não fosse com seu agressor. 2008: 168-243. artigos 276 e 277 e era um delito punido com prisão e multa. ou que se dirigem a uma determinada coletividade. contra a religião oficial do Estado. Ao exigir o dote como parte da pena.prática implicava um cálculo dos bens familiares.

art. por meio de papeis impressos ou discursos. No entanto. seguida pela multa com 25% dos casos. Se houvesse zombaria do culto oficial do Império. A pertença dos indivíduos à nova nação era mediada pela continuidade do reino dinástico e da comunidade religiosa.) Sua legitimidade deriva da divindade. imperador do Brasil. art. o corpo político se apropriava de um corpo místico e “os seres humanos podiam assim ser considerados dentro de uma perspectiva ao mesmo tempo cristã e „natural‟” (MORSE... com as do Estado. conduzido ao pé do Altar foi coroado e consagrado em 1º de dezembro de 1822 e ao final da missa proferiu seu juramento: “Eu.) e juro sobre os santos Evangelhos” (NEVES. Propagar por meio de papeis impressos que se distribuírem por mais de quinze pessoas.pela maioria dos homens como o único sistema “político” imaginável (. ou permaneciam juntas. Os demais cultos eram permitidos desde que fosse doméstico e “sem forma alguma exterior do Templo” (CCIB. art. pela graça de Deus e vontade unânime do povo. juro observar e fazer observarem constitucionalmente as leis do Império (.. a comunidade religiosa estaria referendando o reino diante dos indivíduos em sociedade. Os Padres eram funcionários do Estado. os sacramentos referendavam as questões civis como o nascimento e o casamento. A coroação de D. 276). 1988: 43). Manifestações públicas acarretavam dispersão e multa que variava de 2$000 a 12$000. 277). ou por discursos em reuniões públicas. doutrinas que diretamente destruam as verdades sobre a existência de Deus e da imortalidade da alma acarretaria pena de prisão de quatro meses a um ano e multa (CCIB. a monarquia sagrada via sua legitimidade decaindo na Europa ocidental desde o século XVII (ANDERSON. Pedro demonstra uma solenidade estranha em tempos de penetração do liberalismo. 1991: 30). prisão de um a seis meses e multa (CCIB. Portugal não coroava seus reis desde Dom Sebastião (1557-1578) e nenhuma nação no Novo Mundo conhecera tal ritual. Assim. 1991: 28). O imperador. apostólica e romana. A pena de encarceramento está prevista em 54% dos casos. e não das populações” (ANDERSON.. Os casos que aparecem como maiores causas de encarceramento Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. as questões de fé se confundiam. 278). as paróquias forneciam as listas dos eleitores. juro observar e manter a religião católica. julho 2011 8 . Pedro I. Ou seja. 2003: 406-409).

A presença dos padres era sentida também junto à elite política imperial. corresponderam a 22% dos deputados gerais. imortalidade da alma e a própria doutrina eram protegidas pelo Código Criminal. No recém formado Estado brasileiro não havia uma estrutura de pessoal com repartições que pudessem identificar a situação dos eleitores e votantes. na Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. No entanto a proximidade entre fé e política fazia das duas uma só coisa. Dos 102 deputados gerais eleitos para a primeira legislatura brasileira. 23 eram clérigos (22. No caso do Brasil as esferas religiosa e civil estavam singularmente cingidas. Os registros religiosos permitiam ao Estado conseguir as informações para a realização das eleições. que eram funcionários do Estado. A pregação era voltada aos objetivos do processo eleitoral. Também participavam das mesas eleitorais. As ideias de Deus. Na segunda legislatura (1830-1833). O pleito tinha seu ponto de partida numa celebração religiosa. de 1826. elaborar as listas dos eleitores. até no processo eleitoral. O sagrado e o profano se faziam presentes numa simbiose perfeita. elucidando possíveis dúvidas quanto aos votantes. cabia ao pároco afixar os editais de convocação dos votantes nas portas das suas igrejas. um determinado agir pautado na noção de normalidade. A fé católica era a religião oficial do Império. A religião tende a impor um determinado comportamento.estão ligadas à religião e à moral. Antes do início das eleições. Uma missa era celebrada no dia marcado das eleições com a presença dos votantes e eleitores.5% do total de cadeiras). julho 2011 9 . Era de responsabilidade deles. A moral implica um comportamento aceitável.

alimentar. em um comentário rabínico. O poder pastoral é um tipo específico de dispositivo disciplinar que objetiva a condução dos indivíduos. Chamava de “arte das artes” o governo das almas.17). Foi São Gregório de Nazianzo (Capadócia. Um olhar cuidadoso sobre sua formação pode ampliar o olhar sobre o modo de governar aplicado no Brasil durante os primeiros decênios de governo em sua estratégia disciplinar. um modo de agir. “Eu sou o Senhor teu Deus. Assim. de seus bens. o pastorado se torna um modelo de ação governamental. julho 2011 10 . De modo especial o cristianismo se tornou um terreno fértil à este instrumento disciplinar que é poder pastoral. em 329 . Esta disposição de pastorear. deve ser reproduzida pelos homens. A percepção histórica de um Deus pastor e legislador são as primeiras características do pastorado. não muito diferente do objetivo do soberano em relação à pátria. e te guia pelo caminho em que deves andar” (Isaías 48. Esta aproximação não é acidental. Ásia Menor. consciências e desejos. é um Deus que caminha. depois as um pouco mais velhas e só depois as mais velhas de todas. Moisés. Ensinava como governar e como se deixar governar. capazes de comer a relva mais dura. O objetivo é a salvação do rebanho. Os fundamentos da fé cristã tornam-se os elementos fundadores daquele novo modo de pensar os homens e hierarquizá-los.389) o primeiro a pensar uma arte de governar os homens pelo pastorado. Seu objetivo é o governo dos homens a pretexto de levá-los à vida eterna. sem dúvida alguma. mas. que estabelecia uma série de procedimentos de como governar os homens individualmente e em conjunto. De modo especial o cristianismo faz surgir uma prática de submissão dos indivíduos que na modernidade será apropriada e adaptada pelo poder político. porque sabia perfeitamente conduzir suas ovelhas dentro de uma determinada disciplina. O Deus dos cristãos.terceira legislatura (1834-1837). a tarefa do pastor se manifesta em um dever: sustentar e zelar pelo rebanho. 2008: 127-137). vigiar. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. Chegando a uma campina enviava primeiro as ovelhas mais jovens. conduzir. foi escolhido por Deus para conduzir o povo de Israel. que o conduz pela vida a fora. ou seja. por herança judaica. é um poder temporal. que só podiam comer a relva mais tenra. Desta forma. que se desloca com seu povo. A religião exerce sobre os indivíduos um tipo de poder de condução cotidiana. 24% e na quarta legislatura (1838-1841)16% (SOUZA. que te ensina o que é útil.

O homem ocidental aprendeu a si considerar ovelha e a pedir condução. para julgar o seu povo” (Salmo 50. tendo o poder pastoral como pano de fundo deste processo. de certa forma. a Igreja configurou os papeis de pastor e ovelha por meio de um processo de individualização exacerbada na qual a “perfeição” é atingida com a supressão da própria vontade e do próprio “eu”. No livro do Levítico Deus dita para Moisés as leis necessárias para a condução do povo. julho 2011 11 . “Chamará os céus lá do alto. O Estado moderno nasce com este modo de governar de maneira calculada e refletida a vida dos indivíduos. portanto. um código moral de conduta. direção e/ou salvação a um pastor. Alguém diferente. É ele quem conduz até os verdes pastos. dirigir. Vigiar é um dever. O pastor deve estar de olho em todas e em cada uma delas. Mas para isso é preciso vigiar para que as ovelhas não se desgarrem. Mas a inspiração no Deus judaico-cristão também prevê a observância da lei. juiz. e a terra. O pastorado cristão fomentou toda uma arte de conduzir. que proteja e cure as feridas. É um poder individualizante. Toda a humanidade deve se guiar pelas leis de Deus para que no fim dos tempos todos sejam salvos. escolhido para conduzir às fontes de água e alimento. Um cuidado que se impõe sobre o rebanho e cada ovelha individualmente. Nenhuma ovelha pode escapar de seu olhar. três características fundamentais do poder pastoral que foram. Com o poder pastoral. não possam contaminar o rebanho com sua moléstia. cujo comportamento contradiga ao esperado. Tem por objetivo encarregar-se dos homens individualmente e coletivamente por toda a vida e em cada instante. Elas são contadas ao amanhecer e recontadas ao entardecer. Acautelar-se das condutas é importante para garantir que as “ovelhas doentes”. mas. Ele deve prestar contas no fim do dia de cada uma de suas ovelhas e de todo o rebanho. controlar. Deus não é apenas pastor e legislador. Também elaborou os Dez Mandamentos. separar as doentes e eliminar aquelas que podem contaminar todo o rebanho. Deus aparece como um legislador.O pastor está a serviço do rebanho.4). De modo geral há. A implicação direta sobre as consciências é a exigência da obediência. Obedecer as leis é um modo de receber um julgamento benfazejo no final dos tempos e obedecer aos pastores é um modo seguro de chegar ao paraíso. guiar e manipular os homens. apropriadas pelo poder político: o desejo de Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. guiando inclusive seus pensamentos e desejos mais íntimos.

Estão ligados por relações de responsabilidade moral. sobre cada uma. explorar seus recônditos mais profundos. ao mesmo tempo. o que implica na exaustiva vigilância sobre todas e. Salvação/civilização. Quem conduz deve se impor e vigiar para não perder e quem se deixa conduzir deve colaborar. É preciso dar conta do rebanho. Eles se perdem juntos. descobrir o mal. A força e a ameaça tentam minimizar a incerteza da civilidade e a certeza da periculosidade. mas a Deus. Desejava-se acabar com os miasmas da colônia e formar uma civilização. A lei vai determinar a verdade. lei e verdade são relacionais. Esta vigilância exaustiva sobre os indivíduos objetiva o bem e a defesa da sociedade contra os indesejáveis. localizar e. mas. excluir os não adequados. Por Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. contudo. registrar os acontecimentos. o justo.salvação. uma cumplicidade implícita entre quem dirige e quem é dirigido. Em última instância. que vai modelar o modo de ser civilizado e. Há um espaço de incerteza. a civilidade não cabe ao juiz. Se o pastor deixa o rebanho se desgarrar não só o rebanho se perde. Salvam-se aqueles que observam a lei e aderem à verdade por ela revelada. É um mecanismo de poder destinado a impor certa ordem à multiplicidade dos indivíduos a fim de controlar os movimentos. Este olhar atento sobre todos é o que Bentham denominou de Panópticon. o aceitável e o normal. pois. portanto. Da mesma forma que a salvação não cabe ao pastor. foge do controle e o espaço de incerteza é garantido pela necessidade da repressão. Com relação ao conceito de salvação existe uma reciprocidade. eles prescrevem as leis e ensinam a verdade sobre o homem e sua vida. Cabe-lhe dirigir as consciências. caberia a Deus. julho 2011 12 . fiscalizar o trabalho. ao policial ou quem quer que seja. pois. De modo especial no Brasil Império civilizar era uma obsessão. Existe uma economia do mérito e do demérito que está vinculada à condução e ao conduzir-se. A ovelha cuja corrupção ameaça o rebanho deve ser excluída para se preservar as demais ovelhas. enxergar sua periculosidade para curar a ovelha doente e dissipar o mal. O cristianismo é uma religião de salvação. ao jurista. rotular. se for o caso. com todas as contradições de uma sociedade escravista. verdade sobre a normalidade comportamental. o papel da lei e a conformação da verdade. O pastor guia para a salvação assim como as autoridades do Estado para a civilização. No Estado moderno objetiva-se a civilização. São civilizados aqueles que conseguem pautar suas condutas pela lei. No campo político a salvação dá lugar à civilidade. a salvação foge das mãos do pastor. também o pastor.

Ao saber por onde anda sua ovelha. Obedece-se a lei obedecendo a um homem que a ensina. O pastorado organizou uma postura singular diante das leis. A obediência para os cristão passa pela palavra do pastor. O cristão se coloca nas mãos de seu pastor. julho 2011 13 . Ele ensina como devem se portar.isso a lei deve ser rígida e meticulosa a fim de minimizar a incerteza e aumentar o controle. em função de uma vontade externa. pois. que. Assim deve ser a perfeita obediência: obedecer em tudo. em si. É uma relação de submissão de um indivíduo a outro. nem murmurar. Na obediência cristã a finalidade é a própria obediência: obedece-se para ser obediente e alcançar. É um estado de obediência generalizada. exigi-lhes uma confissão de seus procedimentos. de certa forma. darão os contornos do caminho à seguir. mas também prevê a sujeição. o que faz ou deseja fazer a direção se renova e o olhar Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. mortificação do próprio “eu”. da ação das minhocas etc. ou seja. Aonde quer que o coloquem ele fica. um dia. Como condutor do rebanho cabe a ele ensinar as leis. Um dirige e outro é dirigido. aquela matéria orgânica oriunda da ação da decomposição das folhas secas. A finalidade da obediência e a condição de humildade é. A lei leva em consideração a não obediência. A prática da obediência é filha da direção das consciências. São Francisco de Assis dizia a seus irmãos que o frade verdadeiramente obediente deve se assemelhar a um corpo morto. pois até quem conduz só o faz por ter recebido esta ordem de outro. O pastor conhece a lei e a ensina. Quem é dirigido deve obedecer. É a obediência como modelo de conduta altamente valorizada. e que se aplicam a todos os homens sem distinção. sem questionar. que Foucault denomina de “obediência pura”. o estado de obediência perfeita que é a humildade. numa relação de dependência. que correspondem à vontade de Deus. a lei que ele ensina e a salvação que propõe. mas. O pastor deve ensinar e extrair a verdade de suas ovelhas. Isso lembra que o homem é pó e ao pó deve voltar. a obediência está na ordem da virtude. Desobedecer significar rejeitar o pastor. Há uma relação de submissão e de dependência da autoridade. Morrer para si mesmo e viver para o outro. desejos mais profundos e atos mais íntimos. Essa palavra vem de húmus. Ser obediente é estar na condição de húmus. Ao pastor cabe dar de conhecer as leis. Nada pode escapar à vigilância cotidiana para que a condução seja perfeita.

279 – Ofender a moral pública em papéis impressos ou em estampas e pinturas que se distribuírem por mais de 15 pessoas e expostas publicamente à venda Art. 277 – Abusar ou zombar de qualquer culto estabelecido no Império Art. mas também escolas e hospitais. castigar. qualificar e. Ela cria um espaço de normalidade na qual cada um e todos devem se enquadrar. Na falta delas. multa A verdade. é a verdade sobre o homem em sociedade. Um bom exemplo é o Panópticon enquanto arquitetura Prisional. multa e perda do material. do seu valor 40 dias de prisão simples e multa 2 meses de prisão simples. multa e perda do material. instrumento essencial do poder disciplinar. A lei. A defesa da religião e da moral constam como crimes no Código Criminal. está em relação com o discurso. modular a vida cotidiana. demolição da forma exterior e multa 6 meses de prisão simples e multa 1 ano de prisão simples e multa 1 mês de prisão simples e multa 4 meses de prisão simples e multa 6 meses de prisão simples. de modo a classificar. Ao pastor não cabe somente ensinar a verdade. portanto. na qual o exame busca descobrir a verdade da condição individual e produzir novos saberes. a lei instaura uma relação de obediência individual e prevê uma vigilância também individualizada. julho 2011 14 . é preciso dirigir a consciência. As práticas jurídicas são um exemplo desta vontade de verdade. zelar pelo cumprimento da lei. Assim. O exame nada mais é que um olhar normalizador e uma vigilância que permite extrair determinados conhecimentos de quem é vigiado. 280 – Praticar qualquer ação considerada pela opinião pública ofensiva da moral e bons costumes. o culto de outra religião que não seja a do Estado Art. como instrumento de dominação. Seu objetivo é manter a ordem. do seu valor 10 dias de prisão simples. Essa invenção do pastorado cristão é assumida pelo Estado nas suas diversas práticas de exame. O Código deve dar uma direção. 276 – Celebrar em casa ou edifício que tenha alguma forma exterior de templo. impondo a verdade do bom viver. portanto. se preciso. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo. A lei. prevê uma individualização por sujeição. CRIMES POLICIAIS RELACIONADOS A MORAL E A RELIGIÃO Art. prever a periculosidade dos não adequados e excluí-los do corpo social. Na falta delas. sendo em local público PENA MÁXIMA PENA MÍNIMA Serem dispersos pelo juiz de paz os que estiverem reunidos no culto. Esta vigilância generalizada do corpo social se dará por meio de um instrumento disciplinar que é a polícia. ou publicamente em qualquer lugar. O Código Criminal revela mais que um comportamento aceitável. 278 – Propagar por meio de papeis impressos que se distribuírem por mais de 15 pessoas ou por discursos em reuniões públicas doutrinas que diretamente destruam as verdades fundamentais da existência de Deus e da imortalidade da alma Art. ele delimita o aceitável e o inaceitável moralmente.exaustivo da disciplina mantém seu controle.

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