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Artaud - Variações a propósito de um tema de Lewis Carrol.

Não se trata aqui de uma tradução mas sim de uma adaptação variação a propósito do tema - de um poema donde o meu pensamento se regulou para se juntar ao autor em espírito e assim se viu, a si mesmo e por si mesmo, não propriamente no seio deste poema mas no da poesia. Lewis Carrol viu o seu eu como num espelho mas não chegou, na realidade, a crer neste eu, e quis então viajar no espelho afim de destruir o espectro do eu além de si mesmo antes de o destruir no seu próprio corpo pois era ao mesmo tempo em si mesmo que expurgava o duplo deste eu. Há neste poema um estado determinativo dos estados - por onde passa a palavra – que é matéria antes de florir no pensamento e operações de alquimia salivar, se assim o podemos dizer, que todo o poeta, do fundo da sua garganta, faz subir à palavra - (música, frase, variação do tempo interior) - antes de regurgitar matéria para o leitor. Prova-o esta estranha comparação marcada perante um trecho de caça grossa epicurista que, para melhor apurar o seu paladar, retém um bocado por seis que degusta, e o poeta, (sonhando um ar melódico supremo), para aumentar a degustação interna, lança se assim sobre os seus limites. Este poema onde uma frase musical tipo parece diluir-se golpe a golpe em fumos é o poema de um insensato que um dia entrou no ser e acabou por abandoná-lo, é o esforço de todos os insensatos em ser e em se deter a uma realidade ela mesma fugidia e condenada e à qual não se detém senão em função da sua própria perversidade. Degustamos minuciosamente o pensamento e a linguagem mas durante este tempo a nossa alma foge-nos e ela era esta realidade, ela mesma, perante a qual nos julgámos marcados. E o nosso eu celeste, o anjo de cabelo ruço de Carrol, lutava sobre a terra com seu espectro traiçoeiramente mutificado em demónio. Pois Lewis Carrol é na realidade um espírito de cólera, da reivindicação e do furor. Uma espécie de emissor nascido da percepção e da linguagem e se isto não se pode crer ao lê-lo é porque ninguém teve jamais a ideia de espreitar com ele por trás do espelho interno onde o seu espírito, contraído e em sofrimento, não se pôde impedir de passar. O epicurista que Lewis Carrol acusa deste pecado de perversidade consigo mesmo é ele mesmo, e o movimento irado a que toda a sua obra apela é contra o eu e as condições ordinárias do eu, ou seja, à noção temporal do nosso eu.

Fatigado e em sofrimento, de qual pecado passou a vida a executar variações sobre este tema, mas ler a obra de um poeta é, antes de tudo, ler de viés. Pois toda a abra escrita é um espelho onde o texto escrito se funda perante o não escrito. E o não escrito de Lewis Carrol é uma profunda, sábia, vertiginosa insatisfação. As coisas, Lewis Carrol, não são de facto tudo o que são. E podemos sonhar sobre este tema e executar variações que sempre a ideia do eu perverso nos retorna como uma desafiadora regurgitação, quando encontraremos nós, enfim, este não eu onde nos vimos tais que nós mesmos, enfim, e puros, quer dizer, virgens, no fundo do espelho eterno. O ar sonhado toda a vida por Lewis Carrol é o do seu eu melódico supremo, palavra certa do serafim soterrado por trás dos fantasmas assustadores das coisas e que um dia nos regressará,... mas quando ? Através de quais músicas, de que ar, num mundo que não têm mais o eixo de um ar eterno a dizer-se, nem uma música imaterial e sobrenatural a repetir-se. Não amo a “querida gazela” e não gosto de comer os pratos caros pois os altos preços aproveitam aos especuladores dos pobres lábios e não quero ao fazer isto mutar-me em açambarcador. Pois vejo vir a mim com olho embolsado e negro o meu filho à hora da saída da escola, que tendo se batido contra quem e quê, e não sabendo bem dizer porquê, tenho a impressão de me ver em batalha perante o meu espelho contra o meu próprio desespero. Mas quando vem para melhor me conhecer lançar-me-á fora o irritável senhor, e, assim que me ponho a tingir o cabelo é que SUA GRAÇA intratável nota mudança e a espécie admira. E ela ama-me enfim, estava seguro de que a minha tinta de azul aviltado ou verde lodaçento deixaria espesso traço visível a metade sobre os meus olhos de um potente ruivo que me distingue melhor. A. Artaud - Variations à propos d’un théme (d’aprés Lewis Carrol) ; 1943 – (trad.
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