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TEMPO PASCAL. QUARTA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

71. ACÇÕES DE GRAÇAS
– O agradecimento a Deus por todos os bens é uma manifestação de fé, de esperança e de amor. Inúmeros motivos para sermos agradecidos. – Ver a bondade de Deus na nossa vida. A virtude humana da gratidão. – A acção de graças depois da Santa Missa e da Comunhão.

I. EU VOS LOUVAREI, ó Senhor, entre as nações; contarei a vossa fama aos meus irmãos. Aleluia1, rezamos na antífona de entrada da Missa. A Sagrada Escritura convida-nos constantemente a dar graças a Deus; os hinos, os salmos e as palavras de todos os homens justos estão cheios de louvor e de agradecimento a Deus. Bendiz, ó minha alma, o Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios2, diz o salmista. O agradecimento é uma forma extraordinariamente bela de nos relacionarmos com Deus. É um modo de orar muito grato ao Senhor, pois antecipa de alguma maneira o louvor que lhe daremos para sempre na eternidade. Chamamos precisamente acção de graças ao sacramento da Sagrada Eucaristia, porque nela antecipamos aquela união que será o cerne da bem-aventurança eterna. No Evangelho, vemos como o Senhor se queixa da ingratidão de uns leprosos que não sabem ser agradecidos: depois de terem sido curados, já não se lembram de quem lhes devolveu a saúde, e com ela a família, o trabalho..., a vida. E Jesus fica à espera deles3. Do mesmo modo, sofre pela cidade de Jerusalém, que não percebe a infinita misericórdia com que Deus a visita4, nem o dom que lhe faz ao procurar juntá-la como a galinha junta os seus pintainhos debaixo das asas5. Agradecer é uma forma de exprimirmos a nossa fé, pois reconhecemos o Senhor como fonte de todos os bens; é uma manifestação de esperança, pois afirmamos que n’Ele residem todos os bens; e conduz ao amor 6 e à humildade, pois nos reconhecemos pobres e necessitados. São Paulo exortava encarecidamente os primeiros cristãos a serem agradecidos: Dai graças, porque isto é o que Deus quer que façais em Jesus Cristo7; e considera a ingratidão como uma das causas do paganismo8. “São Paulo – diz São João Crisóstomo – dá graças em todas as suas cartas por todos os benefícios da terra. Demo-las nós também pelos benefícios próprios e alheios, pelos pequenos e pelos grandes”9. Um dia, quando estivermos na presença de Deus para sempre, entenderemos com total clareza que não só lhe devemos a nossa existência, mas ainda que toda ela esteve repleta de cuidados, graças e benefícios do Senhor, tão abundantes “que ultrapassam em número as areias do mar”10. Perceberemos

que tivemos inúmeros motivos de agradecimento a Deus. Só quando a fé se apaga é que se deixam de ver esses bens e essa grata obrigação. “Habitua-te a elevar o coração a Deus em acção de graças, muitas vezes ao dia. – Porque te dá isto e aquilo. – Porque te desprezaram. – Porque não tens o que precisas, ou porque o tens. “Porque fez tão formosa a sua Mãe, que é também tua Mãe. – Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. – Porque fez aquele homem eloqüente e a ti te fez difícil de palavra... “Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom”11. II. O SENHOR ENSINOU-NOS a ser agradecidos até pelos menores favores: Nem um copo de água que derdes em meu nome ficará sem recompensa12. O samaritano que voltou para agradecer a sua cura partiu com um dom ainda maior: a fé e a amizade do Senhor. Levanta-te e vai, a tua fé te salvou13, disse-lhe Jesus. Os nove leprosos mal agradecidos ficaram sem a melhor parte que o Senhor lhes reservara. Deus espera que nós, cristãos, nos aproximemos d’Ele todos os dias para lhe dizer muitas vezes: “Obrigado, Senhor!” Como virtude humana, a gratidão constitui um vínculo eficaz entre os homens e revela com bastante exatidão a qualidade interior da pessoa. “É de bem nascidos ser agradecidos”, diz o refrão popular. E a falta desta virtude torna difícil a convivência humana. Quando somos agradecidos, guardamos a recordação afetuosa de um benefício que nos fizeram, ainda que pequeno, e ficamos desejosos de retribuí-lo de alguma maneira. Muitas vezes, apenas poderemos dizer “obrigado” ou coisa parecida. Mas a alegria que pusermos nesse gesto mostrará todo o nosso agradecimento. A pessoa agradecida a Deus também o é em relação aos outros. Sabe enxergar e agradecer com maior facilidade os pequenos favores que lhe prestam. O soberbo, que só pensa nas suas coisas, é incapaz de agradecer; acha que tudo o que recebe não passa de um direito. Se estivermos atentos a Deus e aos outros, apreciaremos no nosso próprio lar muitos motivos de agradecimento: que a casa esteja limpa e em ordem, que alguém tenha fechado as janelas para que não entre o frio, o calor ou a chuva, que a roupa esteja limpa e bem passada... E se por vezes uma ou outra destas coisas não está como esperávamos, saberemos desculpar, porque é infinitamente maior o número de coisas gratas e favores que recebemos. E ao sairmos à rua, o porteiro merece o nosso agradecimento por guardar o prédio, e merece-o o empregado da farmácia que nos aviou a receita, e os que compõem e imprimem o jornal e passaram a noite trabalhando, e o motorista do ônibus... Toda a convivência humana está cheia de pequenos

serviços mútuos, e como seria diferente essa convivência se, além de pagarmos e cobrarmos o que é justo em cada caso, também soubéssemos agradecer! A gratidão é própria dos que têm o coração grande. III. AS AÇÕES DE GRAÇAS frequentes devem impregnar o nosso relacionamento diário com o Senhor, porque estamos rodeados dos seus cuidados e favores: “A graça inunda-nos”14. Mas há um momento muito extraordinário em que o Senhor nos cumula dos seus dons, e em que devemos mostrar-nos especialmente agradecidos: a acção de graças depois da Missa. O nosso diálogo com Jesus Cristo nesses minutos após a Comunhão deve ser especialmente íntimo, simples e alegre. Não podem faltar os actos de adoração, de agradecimento, de humildade, de desagravo, bem como os pedidos. “Os santos têm-nos dito muitas vezes que a acção de graças sacramental é para nós o momento mais precioso da vida espiritual”15. Nesses momentos, devemos fechar a porta do nosso coração a tudo aquilo que não seja o Senhor, por mais importante que possa ser ou parecer. Umas vezes, ficaremos a sós com Ele, e as palavras não serão necessárias; bastará saber que Ele está na nossa alma e nós n’Ele. Não será preciso muito para estarmos profundamente agradecidos, contentes, e experimentarmos a verdadeira amizade com o Amigo. Por ali perto estarão os anjos, que o adoram na nossa alma... Nesses momentos, a alma é o que nesta terra mais se assemelha ao Céu. Como podemos estar pensando em outras coisas?... Outras vezes, servir-nos-emos dessas orações que se incluem nos devocionários, e que alimentaram a piedade de gerações de cristãos durante séculos: Te Deum, Trium puerorum, Adoro te devote, Alma de Cristo..., e muitas outras, que os santos e os bons cristãos que amaram de verdade o Senhor Sacramentado nos deixaram para alimento da nossa piedade. “O amor a Cristo, que se oferece por nós, incita-nos a saber encontrar, uma vez terminada a Missa, alguns minutos para uma acção de graças pessoal e íntima, que prolongue no silêncio do coração essa outra acção de graças que é a Eucaristia. Como havemos de nos dirigir a Ele, como falar-lhe, como comportar-nos? A vida cristã não se compõe de normas rígidas [...]. Penso, não obstante, que em muitas ocasiões o nervo do nosso diálogo com Cristo, da acção de graças após a Santa Missa, pode ser a consideração de que o Senhor é para nós Rei, Médico, Mestre e Amigo”16. Rei, porque nos resgatou do pecado e nos transferiu para o reino da luz. Pedimos-lhe que reine no nosso coração, nas palavras que pronunciarmos nesse dia, no trabalho que lhe queremos oferecer, nos nossos pensamentos, em cada uma das nossas acções. Médico, porque junto d’Ele encontramos o remédio para todas as nossas doenças. Abeiramo-nos da Comunhão como se aproximavam d’Ele os cegos,

os surdos, os paralíticos... E não esquecemos que temos na nossa alma, à nossa disposição, a Fonte de toda a vida. Ele é a Vida. Mestre, e reconhecemos que Ele tem palavras de vida eterna... e em nós existe tanta ignorância! Ele ensina sem cessar, mas nesses minutos após a Comunhão devemos permanecer atentos. Se estivéssemos com a imaginação, a memória e os sentidos dispersos..., não o ouviríamos. Amigo, o verdadeiro Amigo, de quem aprendemos o que é a amizade. Contamos-lhe o que se passa connosco, e sempre obtemos uma palavra de alento, de consolo... Ele nos entende bem. Pensemos que está dentro de nós com a mesma presença real com que está no Céu, pensemos que os Anjos o rodeiam... Vez por outra, pediremos a ajuda do nosso Anjo da Guarda: “Dálhe graças por mim, pois sabes fazê-lo melhor”. Nenhuma criatura como a Virgem, que trouxe em seu seio durante nove meses o Filho de Deus, poderá ensinar-nos a tratá-lo melhor na ação de graças depois da Comunhão. Recorramos a Ela.
(1) Sl 17, 50; 12, 23; Antífona de entrada da Missa da quarta-feira da quarta semana do Tempo Pascal; (2) Sl 102, 2; (3) cfr. Lc 17, 11 e segs.; (4) cfr. Lc 19, 44; (5) cfr. Mt 23, 37; (6) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 101, a. 3; (7) 1 Tess 5, 17; (8) cfr. Rom 1, 18-32; (9) São João Crisóstomo, Hom. sobre São Mateus, 25, 4; (10) ib.; (11) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 268; (12) Mt 10, 42; (13) Lc 17, 19; (14) Ch. Journet, Meditações sobre a graça, pág. 17; (15) R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, pág. 489; (16) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 92.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)