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O DIREITO AMBIENTAL BRASILEIRO EM FACE DOS RISCOS E INCERTEZAS DA NANOTECNOLOGIA: UMA PROPOSTA DE REFLEXÃO CRÍTICA Thaís Emília de Sousa Viegas e Roberto de Oliveira Almeida RESUMO Propõe-se refletir acerca dos desafios que a sociedade global de risco impõe aos instrumentos jurídicos de proteção do meio ambiente e ao próprio Direito Ambiental. É que os problemas ambientais contemporâneos têm, na segunda modernidade, uma nova configuração, advinda do processo de modernização. Os riscos que outrora afetavam somente quem os produzia, agora são “democraticamente” distribuídos, afetando todo o globo. Dentre os riscos de graves conseqüências que acompanham o desenvolvimento técnico-científico, verifica-se os da utilização de nanomateriais pela indústria. A nanotecnologia oferece riscos na medida em que tais materiais já não obedecem às leis tradicionais da física, gerando um alto grau de imprevisibilidade acerca do seu comportamento na natureza e no corpo humano. Atualmente, a nanotecnologia não é regulamentada por nenhuma legislação ou resolução específica, não sendo considerada, para fins de responsabilização segundo os preceitos do Direito Ambiental, uma ameaça ao meio ambiente ou à saúde humana. Além disso, o debate acadêmico sobre os riscos da nanotecnologia é, ainda, incipiente, mormente para o Direito. O presente trabalho tem como objeto a análise crítica dos instrumentos de salvaguarda do meio ambiente, no contexto da sociedade global de risco, especificamente no que tange ao descompasso dos instrumentos jurídicos de proteção ambiental no trato dos riscos de graves conseqüências oriundos das nanotecnologias. Palavras-chave: risco; incerteza; nanotecnologia; Direito Ambiental. ABSTRACT It is proposed to reflect on the challenges that the global risk society requires from the legal environment protection instruments and from the Environmental Law itself. Among the reasons that pushed to these changes, the most significant ones are the changes on the content of the new environmental rights and the contemporary environmental questions that are qualified by the element of risk, especially when these risks are created through the modernization. Risk, that on the past would affect only those who created it, now endangers the whole globe. Among the major consequences risks that emerge of the scientific development, the most significant ones are related to the nuclear energy, genetically modified organisms and nanotechnology. Nanotechnology offers risks as long as the classical laws of physics do not apply on these materials, increasing the uncertainties about its behavior on environment and human body. Nowadays, there isn’t any law or resolution that regulates nanotechnology when it comes to its risks. On the Environmental Law context, it’s not considered a threat to the environment or human health. Also, there’s no significant academic debate when it comes to nanotechnology risks. The present work intends to offer a critical analysis of the instruments of environmental protection on the global risk society, especially regarding its omission about nanotechnology’s risks. Key words: risk; uncertainty; nanotechnology; Environmental Law.

Graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (USFC). Professora dos Cursos de Graduação em Direito e de Pós-Graduação lato sensu em Direito Ambiental da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB), em São Luís/MA. ∗ Graduado em Direito pela Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB). Advogado em São Luís/MA.

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Considerações iniciais A emergência de novas tecnologias decorrentes da radicalização dos processos de modernização consolida a percepção pública de que a ciência não é mais capaz de oferecer certezas. Tal cenário remete uma nova modernidade pós-industrial, período em que o conhecimento científico já não representa garantia de segurança e estabilidade. Cuida-se de um tempo em que os riscos advindos do avanço tecnológico e da progressiva modernização ameaçam a todos “democraticamente”, não importando o local onde estejam ou a classe social a que pertençam. Este cenário novidadeiro demanda reflexões que estejam para além do espaço do Estado nacional, de modo a inserir no debate questões que colocam em jogo as premissas fundamentais dos sistemas sociais e políticos da sociedade industrial. Em conseqüência disso e para uma análise mais fiel e crítica dos inéditos contornos desta tessitura social, é determinante a construção categorias mais afinadas com a inserção de novidades tecnológicas, riscos e instabilidades em qualquer reflexão que se propõe. O Direito não passa ao largo deste desafio. Com efeito, a inserção irrefletida, na sociedade, de riscos vinculados às novas tecnologias impõe para o Direito e, muito especialmente, para o Direito Ambiental uma gama ainda pouco explorada de problemas que se confrontam com a própria estrutura de seus institutos e princípios. Isso porque os riscos que qualificam a sociedade atual possuem novas características, que não se encaixam nas antigas categorias de risco da sociedade industrial. Suas conseqüências já não podem ser limitadas temporal ou espacialmente e sua invisibilidade e imprevisibilidade escapam aos tradicionais instrumentos de controle, colocando em xeque todo o programa institucionalizado de cálculo dos seus efeitos colaterais. Diante da ampla democratização dos riscos e da insuficiência das categorias da sociedade industrial para a análise dos novos contornos desta sociedade, a teoria sociológica do risco, tal como estruturada por Ulrich Beck, oferece uma abordagem que considera o risco como elemento central para qualquer reflexão ou proposta crítica em torno desta nova realidade. Assim, os riscos passam a ser reconhecidos enquanto fatores determinantes para a compreensão da sociedade contemporânea, o que se coaduna com uma proposta de reflexão crítica sobre o Direito Ambiental e o modo como seus institutos reagem em face dos riscos. Dentre os riscos de graves conseqüências advindos do exacerbamento do processo de modernização, é possível verificar os oriundos da produção e consumo de organismos

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geneticamente modificados, da utilização da energia nuclear, do uso de agrotóxicos e da nanotecnologia. A nanotecnologia é a capacidade de criar e manusear materiais de escala nanométrica. Um nanômetro (1 nm) equivale à bilionésima parte de um metro ou a milionésima parte de um milímetro. Um nanômetro é um milímetro dividido por um milhão. Os riscos envolvidos a partir da miniaturização estão ligados, principalmente, às novas propriedades que os materiais em nanoescala podem adquirir. Qualquer material reduzido a nanopartículas pode, repentinamente, comportar-se de maneira completamente oposta à de antes, o que faz com que as atividades que envolvam determinadas partículas sejam absolutamente imprevisíveis. Materiais antes insolúveis passam a ser solúveis. Substâncias isolantes podem passar a conduzir energia. Não só o comportamento das partículas, como sua mobilidade é completamente afetada: ao contrário das micropartículas de maior tamanho, as nanopartículas têm acesso quase irrestrito ao corpo humano. A nanotecnologia não é regulamentada por nenhuma legislação ou resolução específica, não sendo considerada, para fins de responsabilização segundo os preceitos do Direito Ambiental, uma ameaça ao meio ambiente ou à saúde humana. Além disso, o debate acadêmico sobre os riscos da nanotecnologia é, ainda, incipiente, mormente para o Direito. Assim, pergunta-se: quais as conseqüências, para o Direito, da permanência dos riscos oriundos da nanotecnologia à margem do debate jurídico? O desafio que se impõe a este trabalho, portanto, é o de proceder à análise crítica dos instrumentos de salvaguarda do meio ambiente, no contexto da sociedade global de risco, especificamente no que tange ao descompasso destes no trato dos riscos de graves conseqüências oriundos das nanotecnologias. Para tanto, o problema será analisado a partir da teoria da sociedade de risco de Ulrich Beck, objeto dos itens inaugurais deste trabalho. Em seguida, aborda-se a trajetória dos estudos acerca da temática do risco e sua centralidade na teoria do sociólogo alemão, para, em seguida, situar a nanotecnologia entre os riscos de graves conseqüências advindos do processo de modernização. Após, cuida-se dos riscos concernentes à utilização de nanomateriais pela indústria. Primeiramente, a nanotecnologia será localizada historicamente, apresentando-se os seus conceitos fundamentais. Em seguida, serão demonstradas as suas principais aplicações, inclusive no cotidiano. Por fim, serão apresentados os seus riscos quanto à saúde humana e ao meio ambiente, bem como as incertezas científicas acerca do seu manejo seguro.

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Na seqüência, será feita a análise dos instrumentos de salvaguarda do meio ambiente, considerando que se vive numa sociedade global de risco. Aponta-se a maneira como o Direito Ambiental se relaciona com os problemas ambientais qualificados pelo risco e, depois, discute-se o seu anonimato para o discurso jurídico e sua conseqüente invisibilidade para os instrumentos de proteção jurídica do meio ambiente. Derradeiramente, questiona-se o papel do Direito Ambiental no trato dos conflitos envolvendo os riscos advindos da nanotecnologia e em que medida a sua desconsideração jurídica ameaça os pilares epistemológicos sobre os quais é fundada a teoria jurídica contemporânea. 1. Modernidade, risco e reflexividade: uma mudança de paradigmas Parte-se da idéia de que se vive uma experiência diferente de modernidade. Obviamente, vivências de outrora convivem com as atuais, de modo que se tem uma transição não-linear entre primeira e segunda modernidade. Na primeira modernidade é marcante a distinção entre sociedade e natureza, concebida como fonte inesgotável de recursos para o processo de industrialização. A ciência, enquanto produtora de certezas estrutura-se a partir da possibilidade de exercer total domínio dos recursos naturais pela humanidade. A sociedade da primeira modernidade é uma sociedade do pleno emprego, em que a participação social define-se, basicamente, pela participação no trabalho (BECK, 2003). Na segunda modernidade, há um esvaziamento do contêiner do Estado nacional ante os processos de globalização (BECK, 2003). A noção de sociedade do trabalho cede em razão da nova dinâmica capitalista, a do vínculo entre tecnologia de informação e mercados mundiais (CAPELLA, 2002). De outro turno, a crise ecológica dissolve a oposição entre sociedade e natureza; a ciência perde o monopólio da verdade e, por conseguinte, da certeza (LEITE & AYALA, 2004). O deslocamento da primeira para a segunda modernidade remete, dentre outros fatos, a uma experiência cotidiana de um mundo globalizado, que ameaça a si mesmo. De fato, o processo agudo de modernização origina riscos de graves conseqüências, que dão a tônica de uma nova tessitura social. Esta modernização que dissolve os antigos modelos da sociedade industrial e que não pode ser apreendida pelas rudimentares categorias e métodos da ciência social – que se

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mostram insuficientes diante da vastidão e ambivalência dos fatos a serem considerados – tem como principal característica a reflexividade (BECK, 1997). Reflexividade refere-se ao questionamento acerca das premissas fundamentais do sistema social e político da sociedade industrial por ela própria. Tais questões tornam-se um tema e um problema. A modernidade é, então, reflexiva e envolve uma constante autoconfrontação com os efeitos da emergente sociedade de risco. A transição da sociedade industrial para o período de risco da modernidade ocorre de maneira despercebida, não constituindo uma opção que se possa escolher ou rejeitar no decorrer dos processos de disputas políticas. Diante dessa transição autônoma e indesejada, efeitos da sociedade de risco não são assimilados pelos padrões institucionais da sociedade industrial, habituada a conflitos de distribuição de bens (empregos, renda, seguridade social). Na sociedade de risco, ao contrário, surgem conflitos de responsabilidade distributiva, isto é, acerca da distribuição, controle, prevenção e legitimação dos riscos decorrentes do avanço tecnológico e científico (BECK, 1997: 17). O processo de modernização torna-se uma questão central na medida em que as instabilidades e riscos são oriundos das novidades tecnológicas e organizacionais introduzidas, de forma não refletida, na sociedade. Começam a tomar corpo, na sociedade de risco, as ameaças produzidas pela sociedade industrial, a demandar uma redefinição dos padrões relativos à responsabilidade, segurança, controle e distribuição das conseqüências dos riscos e ameaças potenciais, que escapam à percepção sensorial e não podem ser determinadas pela ciência. Nesse contexto, o conceito de risco torna-se fundamental para o entendimento das características, limites e transformações do projeto de modernidade. A partir das contribuições de Anthony Giddens (1997) e Ulrich Beck (1997, 2003), principalmente, os riscos deixaram de representar uma mera temática subdisciplinar das ciências sociais para representar um elemento fundamental na compreensão da sociedade contemporânea. 2. A teoria da sociedade de risco A partir do acidente na usina nuclear de Chernobyl, em 1986, a sociedade se viu às voltas com um mundo que oferece mais riscos à medida que se moderniza (BECK, 2003: 29). O projeto de uma sociedade enquanto controladora dos efeitos colaterais oriundos do processo de industrialização já não pode ser aplicado à realidade da segunda modernidade.

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Com Ulrich Beck, o risco foi elevado ao centro da teoria social, já que no seu trabalho este é tido como um elemento-chave para entender a sociedade contemporânea (GUIVANT, 1998). O risco, para Ulrich Beck, é um conceito relativamente novo. Em que pese a possibilidade de se entender a sociedade como uma resposta a todos os perigos possíveis, é só com a modernidade que nasce o conceito de risco. Há, portanto, uma distinção entre riscos e perigos. Estes últimos estão ligados a épocas mais remotas, em que a humanidade se via à mercê de catástrofes naturais ou da intervenção dos deuses. Os perigos compreendem todas as ameaças que não são interpretadas como condicionadas pelos seres humanos. O conceito de risco, por outro lado, surge com as decisões humanas, isto é, são originados pelo processo civilizacional e modernização progressiva. A civilização – que busca tornar previsíveis as imprevisíveis conseqüências das suas decisões, que busca controlar o incontrolável e sujeitar os efeitos colaterais a medidas preventivas – acaba por criar o risco (BECK, 2003: 115). A partir do momento em que são concebidas respostas institucionais para os perigos, isto é, quando estes se tornam calculáveis por respostas institucionais adequadas, é que surge o risco. Como exemplo, Ulrich Beck cita os primórdios da navegação comercial intercontinental. Àquele tempo, o risco era entendido como ousadia e estava umbilicalmente ligado à noção de segurança. Para os primeiros comerciantes e aventureiros que se lançavam à conquista do desconhecido, havia uma grande probabilidade de seus navios naufragarem, o que pode ser entendido como um perigo. Quando este destino individual passou a ser visto como a possível experiência comum de um determinado grupo, ou seja, como um problema que afetava e ameaçava a existência de empreendimento comercial intercontinental, criou-se uma caixa comum destinada a pagar uma indenização em caso de naufrágio. Nesse momento, cria-se uma resposta institucional para o perigo, este se transforma em risco, isto é, um problema coletivamente solúvel (BECK, 2003: 115). Niklas Luhmann (1998) sugere que os riscos sejam interpretados como os possíveis danos decorrentes de uma decisão. Quando os danos são relacionados a causas fora do próprio controle, estes são tidos como perigos. Os perigos englobam, também, as decisões de outras pessoas, grupos e organizações. Dessa maneira, a mesma ação pode ser tida como risco para alguns e perigo para outros. A título exemplificativo: o motorista que dirige em alta velocidade assume um risco para si ao mesmo tempo que representa um perigo aos demais (BRUSEKE, 2001: 40).

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Levando-se em conta o padrão conceitual estabelecido por Beck, o desenvolvimento das forças produtivas, isto é, a industrialização, pode ser entendida como o processo de surgimento dos riscos e das respostas institucionais a eles. Entre os séculos XVIII e XX, o processo de distribuição das conseqüências dos riscos foi negociado e institucionalizado, de forma que desempenhou um papel fundamental para o otimismo desenvolvimentista. Assim, o progresso sempre esteve umbilicalmente ligado à possibilidade de compensação dos seus efeitos colaterais através de um programa institucionalizado (BECK, 2003: 118). Na sociedade de risco, contudo, esse otimismo desenvolvimentista é confrontado pela mudança substancial na qualidade dos riscos. Isto porque o cálculo do risco pressupõe um acidente, isto é, um acontecimento delimitado social, espacial e temporalmente. Para o sociólogo alemão, tal modelo perde validade, principalmente, partir de Chernobyl, onde as conseqüências do acidente já não puderam mais ser delimitadas. Os riscos oriundos das novas tecnologias presentes na segunda modernidade fazem com que já não seja possível determinar o grupo de pessoas afetadas por um acidente, tampouco delimitar territorialmente as conseqüências e muito menos precisar até quando estas perdurarão. O imprevisível já não pode ser antecipado e não há respostas institucionalizadas para tanto. Assim, é fundamental que haja um desprendimento das antigas categorias do risco (BECK, 2003: 119). A sociedade da primeira modernidade partia do princípio de que os riscos e suas conseqüências podiam ser tecnicamente superados. Contudo, a radicalização dos processos de modernização gera conseqüências que põem em xeque todo o programa institucionalizado de cálculo dos efeitos colaterais. Tanto na elaboração científica dos acidentes quanto nas instituições centrais – na proteção contra catástrofes, previsão da assistência médica ou dos custos – não se percebe a distância que separa os riscos da primeira dos riscos globais da segunda modernidade. Os riscos da segunda modernidade são imperceptíveis e interpretados contraditoriamente pelos especialistas. Já não é mais possível, para os leigos, distinguir o perigoso do inofensivo. Como conseqüência, todos ficam à mercê de especialistas e instituições que se contradizem nas questões mais elementares do dia-a-dia (BECK, 2003: 120). Ao contrário dos riscos da primeira modernidade, os riscos da segunda são imperceptíveis. Um acidente em uma mina ou o naufrágio de um navio era um acontecimento perceptível. A poluição emanada da chaminé de uma fábrica também. Agora, na sociedade tecnologicamente perfeita da segunda modernidade, onde os riscos da primeira foram

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institucionalizados e relativamente superados, surgem novos riscos que escapam à percepção imediata dos afetados. Estes, por sua vez, já não são mais os operários ou marinheiros que se submetiam aos riscos voluntariamente: agora, os afetados são consumidores ou até mesmo pessoas que não possuem qualquer ligação com a origem desses perigos. Chafurdamos todos nas mesmas areias movediças (SERRES, 1991: 12). Para exigir reparação, cabe aos afetados buscar as causas do dano. Estas, por sua vez, surgem num contexto por demais complexo, o que acaba por frustrar quaisquer pretensões das vítimas. É que os riscos já não são mais localizáveis espacial ou temporalmente: é o caso, por exemplo, do lançamento de uma diversidade de produtos tóxicos no ar por diversas indústrias. Como estabelecer o nexo de causalidade entre a conduta de cada uma destas e a condição médica de suas potenciais vítimas? Como relacionar causa e conseqüência se esta for tardia, ou seja, se a vítima apresentar uma doença apenas vinte anos depois da exposição? Ante a impossibilidade de se estabelecer tal nexo e na ausência de culpados, não há punição. Quando o risco se torna invisível e não localizável, suas conseqüências já não podem ser manejadas pelos instrumentos clássicos de jurisdição, tendo como conseqüência um estado de crise de legitimação da própria sociedade. Isso acontece pelo fato de que a segurança dos seus membros – uma das legitimações mais importantes da sociedade – agora já não pode ser garantida (BECK, 2003: 122). A confiabilidade nas instituições passa a ser questionada a partir dos conflitos de risco, isto é, quando as diversas pretensões de racionalidade que participam da definição social do risco se contradizem. A racionalidade institucionalizada – decorrente das conclusões produzidas por cientistas que se mantêm presos às antigas categorias – não reconhece os riscos sem rigorosas evidências. A instância jurídica, quando impossibilitada de estabelecer qualquer nexo de causalidade, também não reconhece a existência dos mesmos. Os afetados, por sua vez, detectam o potencial de ameaça e se organizam em movimentos sociais, utilizando instrumentos diversos – como outros dados científicos ou estatísticas – para se insurgirem contra a negação institucional. Esses conflitos geram um esvaziamento no núcleo de legitimidade das instituições na medida em que os riscos se ampliam e se diversificam – com o aval do Estado – o que tem como conseqüência a crise de confiança (BECK, 2003: 126). Esse novo quadro de incertezas conhecidas – onde as relações causais só são comprovadas em quadros extremos – é permeado por opiniões contraditórias. E no desenrolar dessa luta pela definição dos riscos, das suas vítimas e das suas causas, há uma série de

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conseqüências tanto no âmbito político como no econômico. Isto porque, na nova dinâmica dos riscos, a riqueza não significa mais uma prevenção contra os mesmos e, cedo ou tarde, os próprios causadores serão vítimas. Como exemplo, pode-se citar empresas do setor químico ou que trabalham com organismos geneticamente modificados (OGMs). Tais empresas investem em pesquisas e em especialistas para que estes convençam a sociedade de que não há risco, e assim constroem mercados no mundo inteiro. Quando surgem interpretações diversas daqueles riscos, as empresas são obrigadas a suportar a queda no valor das suas ações (BECK, 2003: 130). Tais conflitos de risco, resultantes da insuficiência dos arranjos institucionais, denotam um quadro de irresponsabilidade organizada. Os que deveriam ser responsabilizados estão livres para a irresponsabilidade (BECK, 2003: 135). Os instrumentos utilizados para estabelecer a culpa ainda são os mesmos da primeira modernidade, mantendo-se presos à lógica das racionalidades técnica e médica que por sua vez são constantemente adaptadas aos interesses de lucro. Com o esvaziamento do núcleo de legitimidade do Estado, um novo conceito de risco e novas respostas institucionais a ele se tornam centrais para que o processo de modernização tenha continuidade. Em que pese o debate exaustivo acerca dos possíveis riscos à saúde humana e meio ambiente oriundos dos agrotóxicos (GUIVANT, 2000), transgênicos ou células-tronco, existem novas tecnologias que ainda não figuram no centro das discussões e sequer foram reguladas pela legislação pátria. É o caso da nanotecnologia. 3. Nanotecnologia e riscos de graves conseqüências A possibilidade de manipulação de materiais em escala nanométrica foi aventada em 1959, a partir da apresentação do físico Richard Feynman, no encontro anual da Sociedade Americana de Física. Em sua palestra intitulada “Há mais espaço lá embaixo” (There’s plenty of room at the bottom), Feynman defende a inexistência de quaisquer obstáculos teóricos à construção de dispositivos bastante pequenos, compostos por elementos igualmente diminutos. O termo “nanotecnologia”, entretanto, veio a ser utilizado somente em 1974, quando Norio Taniguchi, pesquisador da Universidade de Tokyo, referiu à habilidade de engendrar materiais precisamente ao nível nanométrico (THE ROYAL..., 2004: 5). Os termos “nanotecnologia”, “nanociência”, “nanomateriais” e demais variações são derivados da palavra grega “nano”, que significa “anão”. Um nanômetro (1nm) é o equivalente a um bilionésimo de um metro. Em outras palavras, pode-se dizer que um

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nanômetro é o equivalente a um milímetro dividido por um milhão. Apesar da dificuldade de imaginar medidas em tais escalas, pode-se estabelecer algumas comparações: uma pulga possui 1.000.000nm (um milhão de nanômetros); um fio de cabelo humano, por sua vez, possui 80.000nm (oitenta mil nanômetros); um glóbulo vermelho possui cerca de 7.000nm (sete mil nanômetros); bactérias possuem 1.000nm (mil nanômetros) (SWISS REINSURANCE..., 2004: 5). Os termos nanotecnologia e nanociência são utilizados de maneira distinta em diversos estudos, apesar de não haver diferenças substanciais entre os mesmos que impeçam o bom entendimento da temática. A primeira significa a habilidade de medir, ver, prever, engendrar, produzir e aplicar materiais em escala nanométrica, além de explorar as novas propriedades dos materiais em nanoescala. A nanociência, por outro lado, preocupa-se em estudar o fenômeno e a manipulação de materiais em escala nanométrica, cujas propriedades diferem significativamente das dos materiais de maior escala. Ao longo deste trabalho, respeitar-se-á tal distinção. Somente nos últimos anos o uso sistemático e a manipulação de nanopartículas individuais foram possíveis. Na década de 80, microscópios mais sofisticados foram desenvolvidos para investigar e manipular nanomateriais. Tais instrumentos, além de terem possibilitado a visualização de superfícies em escala atômica, também permitiram o manuseio e a construção de estruturas nanométricas ainda rudimentares. Em 1990, Don Eigler e Erhard Schweizer manusearam átomos de xenônio e conseguiram gravar, sobre uma superfície de níquel, a logomarca da IBM (THE ROYAL..., 2004: 16). As diversas técnicas de manipulação dos nanomateriais estão divididas em duas abordagens: de cima para baixo (top-down techniques) e de baixo para cima (bottom-up techniques). A primeira, de cima para baixo, engloba as técnicas de produção de nanomateriais que tem como ponto de partida uma grande partícula, que é reduzida até o formato e tamanho desejados. Tal processo envolve um gasto expressivo de energia e produz uma grande quantidade de dejetos, além do uso significativo de recursos naturais. Na segunda abordagem, de baixo pra cima, estruturas maiores são construídas átomo a átomo, molécula por molécula. É possível, nesta abordagem, o uso da técnica de auto-organização, que consiste na união espontânea de diversos componentes, criando novos materiais (SWISS REINSURANCE..., 2004: 9).

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Para que sejam considerados de nanoescala e, por conseguinte, para que sejam objeto de estudo da nanociência, os materiais devem possuir no máximo 100nm (THE ROYAL..., 2004: 8). Em se tratando da abordagem de cima para baixo, pode-se considerar um nanomaterial aquele que foi reduzido a 100nm ou menos. Partindo-se da abordagem inversa, de baixo para cima, a união de nanopartículas não deve exceder este patamar. Tal escala deve ser atingida em, no mínimo, uma dimensão. Por exemplo: existem nanomateriais, como revestimentos e camadas especiais, que chegam a atingir alguns centímetros de área, já que são utilizados em superfícies. Contudo, tais materiais são considerados nanométricos pelo fato de apresentarem profundidade nanométrica, chegando a possuir somente um átomo de espessura. É possível verificar materiais em nanoescala de somente uma, duas ou em todas as três dimensões. Os nanomateriais unidimensionais são aqueles que possuem somente uma dimensão em escala nanométrica. Em geral a dimensão é a profundidade, como se pode verificar em filmes ultrafinos, camadas e revestimentos de superfícies. Algumas camadas e revestimentos chegam a possuir somente uma molécula ou um átomo de profundidade, apesar de possuírem uma área de cobertura relativamente extensa. Exemplos de nanomateriais unidimensionais são os revestimentos em dióxido de titânio ativado, projetados para repelir água e bactérias de superfícies auto-limpantes. Também existem revestimentos à prova de arranhões que são significativamente aprimorados a partir do uso de camadas intermediárias em nanoescala (THE ROYAL..., 2004: 8). Nanomateriais bidimensionais são aqueles que possuem duas dimensões em escala nanométrica (largura e profundidade, e.g.) e possuem uma dimensão estendida (altura, e.g.). Nanotubos de carbono, nanofios, biopolímeros e nanotubos inorgânicos se encaixam nesta categoria. Nanotubos são estruturas cilíndricas, cujo diâmetro não ultrapassa os 100nm, cujos maiores atrativos são suas propriedades físicas e químicas, como resistência, durabilidade e condutividade (THE ROYAL..., 2004: 16). A nanoescala em três dimensões é representada por partículas que possuem um raio não maior do que 100nm e não ultrapassam este limite em nenhuma dimensão. Materiais que pertençam à escala nanométrica em todas as suas dimensões são denominados nanopartículas. São exemplos de nanopartículas os fulerenos, que são compostos por sessenta átomos de carbono organizados em 20 hexágonos e 12 pentágonos, cujo formato é comparado a uma bola de futebol. Por serem ocos, podem desempenhar a função de veículos para

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remédios e contrastes, bem como para lubrificantes de superfícies (THE ROYAL..., 2004: 10). Partículas em nanoescala não são novas e sempre estiveram presentes na natureza. Por exemplo, os polímeros – macromoléculas construídas a partir de subunidades de menor escala – vêm sendo manuseados por industriais desde o início do século XX, a despeito do desconhecimento dos estudiosos acerca da existência de partículas tão diminutas. Nanocristais de sal são detectáveis nos ventos dos oceanos. Motores a diesel emitem milhões de partículas de carbono no ar, assim como cigarros e velas. O leite (com os colóides) é outro exemplo, bem como as proteínas que controlam processos biológicos. Nanopartículas, além de surgirem naturalmente, são criadas há milhares de anos enquanto resultado da combustão ou do cozer de alimentos (THE ROYAL..., 2004: 6). Deve-se ressaltar, porém, que há uma diferença substancial entre as nanopartículas encontradas na natureza e as artificialmente manufaturadas. Partículas de sal, por exemplo, são solúveis em água. Se inaladas, ao entrarem em contato com o tecido, imediatamente se dissolvem e perdem a sua forma. Partículas oriundas de processos de combustão, apesar de insolúveis, têm uma grande tendência à aglomeração, formando micropartículas de diferentes propriedades. Nanopartículas artificialmente manufaturadas possuem propriedades bem diferentes das naturais e isso constitui o seu grande atrativo. Ao contrário das naturais, elas têm tendência à dispersão, dado o seu revestimento peculiar. A lógica é simples: a fim de evitar que nanopartículas se aglomerem e formem micropartículas – o que geraria uma perda de propriedades alcançadas com a miniaturização – estas são revestidas de maneira especial. Assim, não importando quanto tempo passe, as nanopartículas artificiais continuam reativas e bastante móveis (SWISS REINSURANCE..., 2004: 13). Em razão destas peculiaridades, a nanotecnologia, que juntamente com a biotecnologia, a informática e as ciências cognitivas constitui as chamadas tecnologias convergentes, não se refere simplesmente ao estudo da natureza pelas mãos da ciência, mas trata de se criar a natureza (MORENO, 2009: 181). Considerando este incrível potencial, obviamente, a capacidade de manipular matérias e estruturas em pequeníssima escala desenvolve-se no contexto socioeconômico capitalista. Nanomateriais interessam à indústria por vários motivos. Partículas menores do que 50nm já não são regidas pelas clássicas leis da física, mas da física quântica. Isso significa que nanopartículas podem assumir outras propriedades óticas, magnéticas e elétricas,

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o que as distingue substancialmente das partículas maiores da mesma família. Também, devido à dimensão reduzida, a razão entre massa e superfície é diferenciada. Quanto menor um corpo, maior é a superfície em relação à sua massa, o que significa dizer que, quanto menor a partícula, mais átomos existirão na sua superfície e menos átomos em seu interior (SWISS REINSURANCE..., 2004: 12). Por exemplo, uma partícula de 30nm possui somente 5% dos seus átomos na sua superfície, enquanto uma partícula de 3nm possui 50%. Pelo fato de reações químicas catalíticas e de crescimento ocorrerem nas superfícies, os nanomateriais se tornam bem mais reativos do que os mesmos materiais em largas partículas (THE ROYAL..., 2004: 7). Nanotecnologia, combinada com biotecnologia, formam os pilares que sustentam os rápidos avanços em diversas áreas da medicina. Tais progressos em nanoescala podem ser vislumbrados quando nanomateriais passivos ou ativos são utilizados para aplicar drogas em locais e momentos desejados. Isto reduz efeitos colaterais, levando a uma melhor resposta do organismo e à utilização de menores dosagens. O desenvolvimento e a aplicação da nanotecnologia na medicina englobam diversas áreas: diagnóstico, aplicação de drogas, regeneração de tecidos, reparação de lesões, próteses, dentre outras. No que diz respeito ao diagnóstico, há pesquisas em torno de marcadores (contrastes) em nanoescala. Tais marcadores são úteis para a detecção de células cancerígenas e, conseqüentemente, para antecipação do tratamento. Outra ferramenta construída com o uso de nanotecnologia são os “laboratórios em chips”, que consistem em laboratórios portáteis para a obtenção de diagnósticos, sendo aplicados na prevenção e controle de doenças, bem como na monitoração do próprio meio ambiente (GREENPEACE..., 2003: 28). Atualmente, empresas farmacêuticas já utilizam da nanotecnologia para aumentar a eficácia de medicamentos e reduzir efeitos colaterais. Os princípios ativos das drogas são manipulados de modo a caberem em cavidades minúsculas das substâncias que os transportarão para as células. Substâncias como beta-ciclodextrina ou HDL sintético (Hight Density Lipoprotein) – o colesterol bom – já são largamente utilizadas em antiinflamatórios, antialérgicos, antiácidos e no tratamento de determinados tipos de câncer. Estudos do ano de 2001 já indicavam que nanopartículas entre 50nm e 100nm seriam ideais para o tratamento do câncer, eis que partículas maiores não penetrariam com a mesma eficácia nos tumores. No tratamento da AIDS, grandes avanços são obtidos a partir das nanocápsulas, que desviam do sistema imunológico, possibilitando o direcionamento de

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agentes terapêuticos a locais específicos. No tratamento da diabetes, um sistema de aplicação de insulina vem sendo desenvolvido a partir do uso combinado entre nanomateriais porosos e sensores (GREENPEACE..., 2003: 28). Para a construção de próteses, existem nanomateriais que representam uma alternativa à liga de titânio e ácido inoxidável utilizada em implantes ortopédicos e válvulas cardíacas. Em alguns casos, estas ligas tradicionais não chegam a durar o equivalente ao tempo de vida do paciente. Por outro lado, o óxido de zircônio nanocristalino é resistente, à prova de biocorrosão e biocompatível, demonstrando-se ideal para próteses. Carbetos de silício, por serem leves e resistentes, são ideais para a construção de válvulas cardíacas (THE ROYAL..., 2004: 12). Além da aplicação em diversas áreas da medicina e na indústria farmacêutica, a nanotecnologia também é empregada pelas empresas de protetores solares, que utilizam dióxido de titânio e óxido de zinco, cujo principal atrativo é a possibilidade de absorver e refletir raios ultra-violetas ao mesmo tempo em que são transparentes à luz visível (THE ROYAL..., 2004: 10). Cosméticos, como cremes hidratantes e antienvelhecimento, têm seus princípios ativos reduzidos à nanoescala, facilitando a chegada às camadas mais profundas da pele sem que suas propriedades sejam perdidas pelo caminho. Nanopartículas também já estão presentes em cremes dentais. Nanocristais de prata e hidroxiapatita (composto de fosfato e cálcio) são utilizados para a recuperação de dentes danificados. Tais materiais aderem aos dentes durante a escovação, ajudando na recomposição do esmalte – cujas irregularidades são freqüentes, porém invisíveis – e garantindo proteção contra desgastes futuros. No ramo da informática, desde 1997, a indústria de eletrônicos vem utilizando a nanotecnologia na produção dos telefones celulares, cujas funções básicas de agenda e despertador dependiam dos poucos bytes comportados pelos microchips. No ano de 2000, surgiram os primeiros MP3 players com memória flash, cuja capacidade de armazenamento chegava a somente 1Gb (um gigabyte). Dado o avanço considerável nesse campo, o mercado da telefonia celular caminhou no sentido da redução dos aparelhos, aumento significativo da capacidade de armazenamento de dados e inserção de novas funções, como acesso à internet e câmera fotográfica. Em 2002, a instituição ETC Group, por ocasião da publicação de um estudo, afirmou que em 2012 todo o mercado de informática (eletrônicos, magnéticos e óticos

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inclusos) seria dependente de nanomateriais (GREENPEACE..., 2003: 22). Tal previsão vem se mostrando acertada na medida em que os recentes lançamentos da área da informática, em sua grande maioria, utilizam a nanotecnologia. Modernos microprocessadores, memórias flash, microchips e monitores em LCD (cristal líquido), atualmente, dependem de nanotubos de carbono para que sejam produzidos. Nanomateriais também são utilizados pela engenharia, na produção de revestimentos e superfícies. Nanopartículas de dióxido de silício são largamente utilizadas em vidros, dada a sua capacidade de absorver a luz, gerando, assim, propriedades anti-reflexos. Vidros revestidos de dióxido de titânio ativado, por sua vez, possuem propriedades autolimpantes e anti-bacterianas. Nanopartículas de cerâmica têm sido utilizadas no aumento da resistência das tintas de automóveis, enquanto as de argila as deixam mais leves, resultando em economia de combustível e natural benefício ao meio ambiente (THE ROYAL..., 2004: 11). Além de revestimentos em nanoescala e tintas, nanomateriais também estão presentes em lubrificantes. Nanopartículas de ácido bórico diminuem consideravelmente o atrito entre superfícies e se mantêm quimicamente estáveis quando misturadas em óleos de uso industrial. Como mencionado anteriormente, nanotubos de carbono constituem uma grande evolução na indústria da informática. Não obstante, já são vislumbradas algumas aplicações de tal matéria-prima em maior escala. Por possuírem propriedades mecânicas de grande importância, como resistência e leveza (chegam a ser cem vezes mais resistentes do que o aço, com um sexto do peso), os nanotubos de carbono vêm sendo estudados como potenciais substitutos de compostos atualmente utilizados, como ligas metálicas e fibras de carbono. Isto influenciaria sobremaneira a produção de automóveis e a construção de aeronaves (GREENPEACE..., 2003: 15). Os avanços nanotecnológicos podem trazer mudanças substanciais no setor energético, principalmente em termos de iluminação, armazenamento, geração e economia de energia. No que diz respeito à iluminação, mudanças significativas são esperadas no setor para os próximos dez anos. Semicondutores utilizados na fabricação de diodos emissores de luz podem ser esculpidos em nanoescala, o que deve levar à redução de mais de 10% do consumo de energia em todo o mundo (GREENPEACE..., 2003: 27).

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O armazenamento e a geração de energia também se tornaram mais eficientes. Nanopartículas de íon lítio contribuíram para a redução no tamanho e aumento da capacidade dos dispositivos de armazenamento. Na fabricação de células fotoelétricas – capazes de gerar energia a partir da luz do Sol – polímeros e células nanocristalinas aumentam a eficiência e a redução de custos dos materiais. Por conta da grande área de superfície, possibilitam o aumento da absorção de energia a partir da utilização de menor espaço (GREENPEACE..., 2003: 30). Em relação ao contato das partículas com os seres humanos, isso ocorre, essencialmente, de três maneiras: se inaladas, engolidas ou absorvidas pela pele. Para essas três vias, o organismo humano possui defesas naturais contra matérias a ele estranhas. As vias aéreas, por exemplo, possuem proteções naturais contra a penetração de resíduos sólidos. Os pêlos das fossas nasais e o muco impedem a entrada de partículas maiores, que são expulsas através da garganta durante a respiração. As que eventualmente chegam ao tecido pulmonar onde ocorrem trocas gasosas são absorvidas por fagócitos – cuja função primordial é expulsar matéria estranha ao organismo – e levadas a nódulos linfáticos. Não obstante, tais funções podem ser prejudicadas se a quantidade de partículas absorvidas for excessiva. Inflamação e degeneração do decido pulmonar, pneumonia e câncer de pulmão, são algumas das possíveis conseqüências da absorção de resíduos sólidos pelo sistema respiratório (THE ROYAL..., 2004: 38). A pele é protegida por uma camada de células mortas (epiderme) e coberta por uma camada de gordura, que ajuda a repelir líquidos. Abaixo da epiderme, uma camada de células vivas (derme), possui terminações nervosas e vasos sanguíneos. Quando da ocorrência de infecções por bactérias ou quaisquer outros danos à pele, tais vasos possibilitam a chegada de células que levam a processos inflamatórios e reparadores do tecido danificado (THE ROYAL..., 2004: 38). O sistema intestinal, ao contrário do pulmão e da pele, possui como funções primordiais a quebra e absorção de partículas. O alto grau de acidez do estômago, que possibilita a digestão de alimentos, também funciona como microbicida, evitando que o organismo seja contaminado. O intestino, por sua vez, produz muco e enzimas digestivas, além de uma grande quantidade de vasos sanguíneos e linfáticos que desempenham as funções de proteção mencionadas anteriormente (THE ROYAL..., 2004: 38).

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A despeito do perfeito funcionamento de tais mecanismos de defesa e da prévia existência de nanopartículas naturais, novos questionamentos devem ser feitos quando da absorção de nanopartículas artificiais. Com o tamanho reduzido, alto grau de reatividade e grande área de superfície, materiais que seriam considerados inofensivos podem representar um grande perigo para os seres humanos. Como tais partículas se comportam no organismo? Quais os efeitos nocivos da absorção de nanopartículas pelo corpo humano? O destino comum de todas as partículas é a corrente sanguínea? É possível, se presentes na corrente sanguínea, a absorção destas pelos órgãos? Nanopartículas, se inaladas, podem causar danos completamente diferentes dos causados por partículas de maiores tamanhos. Em primeiro lugar, dado o seu tamanho reduzido, nanopartículas podem penetrar mais profundamente nos pulmões. Existem evidências científicas de que determinadas partículas escapam à defesa do sistema respiratório e, ao atingirem os alvéolos (onde ocorrem as trocas gasosas), penetram na corrente sanguínea. Além da possibilidade de penetração de nanopartículas na corrente sanguínea e do acesso irrestrito aos demais órgãos, o sistema respiratório pode ser danificado pela simples presença das mesmas. Isto é devido ao fato de que matérias que eram consideradas inofensivas quando em maior tamanho, podem ser consideradas perigosas quando em nanoescala, a exemplo do látex. Tal nocividade é conseqüência direta de dois fatores. O primeiro, relativo à sobrecarga dos fagócitos (células encarregadas de eliminar matéria estranha ao sistema respiratório). Isto ocorre quando os “invasores” excedem a capacidade de defesa das células. Como conseqüência, há inflamações nos tecidos pulmonares e o enfraquecimento do seu sistema imunológico, o que deixa o organismo mais propenso a infecções (SWISS REINSURANCE..., 2004: 16). A reatividade dos nanomateriais, a depender do seu revestimento, pode causar danos químicos ao tecido que com eles estiver em contato. Tal reatividade é devida à presença de radicais livres, que são átomos que possuem um número reduzido de elétrons. Estes átomos “furtam” elétrons de células vizinhas para aperfeiçoar sua própria estrutura, criando, assim, outro radical livre. Este novo radical livre também irá “furtar” elétrons das outras células, e assim por diante, gerando uma reação em cadeia. A formação de radicais livres é comum em um organismo saudável, onde existem, inclusive, enzimas responsáveis pela sua eliminação. Porém, tais processos ocorrem localmente e em um ambiente quimicamente equilibrado. Os radicais danosos, cujos efeitos são intensificados por fatores exógenos

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(nanopartículas reativas, radiação, raios solares, e.g.), prejudicam tal equilíbrio químico do organismo e podem contribuir para a formação de tumores (SWISS REINSURANCE..., 2004: 16). A possibilidade de absorção de nanopartículas pela pele ainda é objeto de debate entre especialistas. Como mencionado anteriormente, o mercado de cosméticos, protetores solares e bronzeadores que utilizam nanomateriais é crescente. Contraditoriamente, a ciência ainda apresenta resultados inconclusos: de um lado, é afirmado que nanopartículas previamente marcadas foram encontradas na corrente sanguínea, enquanto outras pesquisas apontam no sentido de que tais materiais não conseguem sequer ultrapassar a camada mais superficial da pele (SWISS REINSURANCE..., 2004: 19). A terceira via de acesso ao corpo humano é o trato intestinal. O sistema digestivo possui duas funções básicas: ingestão de alimentos e expulsão de matérias indesejadas pelo organismo. As substâncias “desejadas” são digeridas por enzimas e absorvidas pelas células do intestino, enquanto as nocivas ao organismo são mantidas no trato intestinal e eliminadas na forma de fezes ou pela via dos nódulos linfáticos. Nanopartículas são absorvidas pelas placas de Peyer, que consistem em nódulos de tecidos linfáticos associados ao intestino. Estes nódulos absorvem partículas maiores em bolhas e as transporta aos vasos linfáticos, onde são eliminadas pelo organismo. O problema relacionado aos nanomateriais é que estes, ao penetrarem no sistema linfático, podem chegar à corrente sanguínea (SWISS REINSURANCE..., 2004: 20). Quando as nanopartículas transpõem a barreira de tais órgãos de acesso ou quando são inseridas deliberadamente na corrente sanguínea (medicamentos e contrastes), uma nova série de questionamentos emerge. Partículas estranhas, quando presentes no sistema circulatório, são absorvidas por fagócitos especializados e são expulsas do organismo. Entretanto, tal regra não se aplica aos nanomateriais. Nanopartículas de tamanho inferior a 200nm não são absorvidas por fagócitos, mas, surpreendentemente, por células que sequer desempenham a função de defesa. Uma vez absorvidas por tais células (glóbulos vermelhos, e.g.), podem transitar pelo organismo de maneira livre e irrestrita. Coração, medula, ovários, fígado, músculos e até mesmo o cérebro – o mais protegido órgão do corpo humano – são penetrados, sem maiores dificuldades, por nanopartículas presentes no sangue (SWISS REINSURANCE..., 2004: 22).

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Nanomateriais que atingem a corrente sanguínea se acumulam, principalmente, no fígado. A sua presença pode desencadear processos inflamatórios, lesões ao seu tecido e, a depender do grau de reatividade das nanopartículas, também é possível que se formem tumores. Em virtude das técnicas de produção e da grande disseminação dos nanomateriais, estes podem ser despejados na água ou no ar e, em última instância, o solo e os lençóis freáticos podem ser atingidos. Além disso, nanopartículas vêm sendo utilizadas, cada vez mais, em materiais descartáveis, o que torna inevitável o seu contato com o meio ambiente quando estes são reciclados ou eliminados como lixo. Por constituírem uma nova classe de materiais não-biodegradáveis, as conseqüências para o meio ambiente e o seu comportamento a longo prazo são difíceis de prever. Em que pese a inexistência de certezas científicas acerca do comportamento das nanopartículas no meio ambiente, é possível imaginar alguns cenários a partir do conhecimento já produzido acerca das demais formas de poluição. No que diz respeito à possibilidade de disseminação atmosférica, por exemplo, estudos sobre poluição indicam que o número de partículas ultrafinas no ar está diretamente relacionado ao índice de mortalidade da população. As partículas estudadas, contudo, eram oriundas do diesel, cujas tendências naturais são de agregação e repouso. Por outro lado, nanopartículas artificiais permanecem no ar por muito mais tempo, o que pode agravar a disseminação, além de serem nocivas aos humanos. Nanopartículas também podem contribuir para o aumento da distribuição de poluentes no solo. Esta conclusão foi obtida através da observação dos colóides, cujas propriedades permitem a sua união com poluentes insolúveis em água e metais pesados. Por serem menores e apresentarem maior área de superfície, uma maior quantidade de poluentes pode se unir às nanopartículas, sendo absorvidos em maior quantidade e em maior velocidade pelo solo (SWISS REINSURANCE..., 2004: 29). A partir das incertezas científicas, emergem cenários mais pessimistas. O que aconteceria se nanopartículas altamente tóxicas fossem espalhadas pelo meio ambiente? Seria possível retirá-las de circulação? Haveria alguma possibilidade de removê-las da água, solo ou ar? A eliminação de nanopartículas do meio ambiente é um grande desafio para os cientistas, já que os procedimentos até então estudados são de alto custo e inadequados para a

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utilização em larga escala. A remoção de nanopartículas dos líquidos, por exemplo, só é possível através de centrifugação ou ultrafiltragem. No primeiro procedimento, partículas são separadas através da força centrífuga oriunda de altas rotações. Na ultrafiltragem, líquidos são pressionados contra uma membrana semipermeável (SWISS REINSURANCE..., 2004: 30). Filtros de purificação atualmente utilizados em prédios e fábricas possuem poros grandes demais para a retenção de nanopartículas. Problemas relativos à pressão do ar e ao bloqueio dos poros por partículas maiores devem ser superados para que os nanomateriais possam ser retidos. Neste cenário de ausência de certeza científica (ou, pelo menos, de certezas científicas contraditórias) em torno dos riscos relacionados à nanotecnologia, emerge o debate sobre a invisibilidade do tema para o discurso jurídico, anonimato este parcialmente resultante das lacunas de conhecimento quanto às tecnologias infinitesimais. 4. O Direito Ambiental brasileiro em face dos riscos e incertezas da nanotecnologia O desenvolvimento econômico e industrial opera de maneira cíclica. Uma análise histórica dos dados demonstra que este é marcado por grandes “picos” e “vales”, que representam momentos de grande expressão econômica acompanhados por momentos de recessão. A partir dos estudos de Schumpeter, foi possível verificar que os ciclos econômicos são consubstanciados em processos de destruição criativa. Tais processos explicam a dinâmica dos ciclos através de ondas de inovações que revolucionam a estrutura econômica vigente. Impulsionadas pela concorrência, estas ondas fazem com que os novos produtos, processos e métodos de organização industrial se sobreponham aos antigos. Referidas inovações estão relacionadas principalmente a novos bens de consumo, novos métodos de produção ou transporte, novos mercados e novas formas de organização industrial (SANTOS JUNIOR et. al., 2008: 6). O caráter cíclico da economia está diretamente relacionado à atividade científica. Nas décadas de 1970 e 1980, Freeman e Perez notaram que o processo inovador não modifica somente as estruturas econômicas vigentes, mas todo o aparato institucional estabelecido, mudando a forma do progresso tecnológico em um sentido amplo e construindo um novo paradigma técnico-econômico. A difusão deste novo paradigma abrange todo o sistema econômico, envolvendo fatores sociais, políticos, ambientais e culturais (SANTOS JUNIOR et. al., 2008: 6).

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Freeman e Perez identificaram cinco ondas na história do capitalismo, cada uma com a presença de um paradigma diferente, onde se pode identificar um fator-chave, isto é, um insumo que serve como base para o desenvolvimento de novos produtos e processos. Para que um novo paradigma técnico-econômico desloque o antigo completamente, tornando-se o eixo central do crescimento das inovações técnicas, sociais e gerenciais, é necessário que satisfaça três condições: custos decrescentes, incremento na oferta e aplicações penetrantes (SANTOS JUNIOR et. al., 2008: 8). A mais recente onda do capitalismo é caracterizada pela informacionalização da economia, em que ganha destaque a introdução generalizada da informática e de novos materiais de origem química ou bioquímica. Para Capella, a introdução de novos componentes – e a adoção de novas formas organizativas para desenvolver os processos econômicos em combinação com estes – caracterizam a terceira revolução industrial (CAPELLA, 2002: 240). As novas tecnologias e os novos materiais permitem uma diferenciação e especificação produtiva até então impensada, o que proporciona à indústria um alto grau de flexibilidade e capacidade de adaptação às exigências técnicas, bem como a criação de novas necessidades até então inimagináveis. As novidades organizacionais introduzidas possibilitam a superação da barreira estatal pelo capital e aumentam drasticamente a sua concentração, bem como o poder e a capacidade de decisão das empresas transnacionais (CAPELLA, 2002: 241). O desenvolvimento econômico aliado às novas tecnologias – dentre elas, a nanotecnologia – inaugura um novo paradigma técnico-econômico. Este paradigma, caracterizador da sociedade de risco – onde a modernização, em seu sucesso, ameaça a existência humana –, inicia um processo de destruição criativa cujas conseqüências institucionais são bastante profundas. A falência dos instrumentos de securitização resultante, em grande parte, do desenvolvimento da própria modernização, faz com que as instituições de controle e o dogma da infalibilidade tecnológica sejam deslocados para o terreno da falha de segurança e incapacidade de previsão. A pretensão da ciência de averiguar os riscos de acordo com a lógica de prevenção do acidente é frustrada pelas suas novas características, tais como a invisibilidade, a incerteza e a irreversibilidade de suas conseqüências (LEITE & AYALA, 2004: 19).

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Os mecanismos de explicação e justificação dos riscos na sociedade contemporânea estão inseridos num quadro de irresponsabilidade organizada, o que leva a uma legitimação da não-imputabilidade das ameaças e a legalização das contaminações. Em que pese o ocultamento social e institucional dos responsáveis, das causas e das conseqüências dos riscos, o mesmo não ocorre com os seus efeitos secundários. Estes rompem a barreira da invisibilidade social gerada pela selva institucional e se revelam no cotidiano das relações sociais e dos debates públicos acerca dos efeitos dos riscos de graves conseqüências. O fenômeno da irresponsabilidade organizada representa com clareza a ineficácia da produção normativa enquanto instrumento para o enfrentamento da crise ambiental. Concomitantemente, expõe os desafios impostos ao Direito Ambiental na sociedade de risco quando da necessidade de enfrentamento de uma crise ambiental que adquire novos contornos (LEITE & AYALA, 2004: 21). Diante da insuficiência dos instrumentos (ou procedimentos) instituídos para a proteção do ambiente e enfrentamento da crise ambiental, surge a necessidade de correção deste quadro. Tais modificações dizem respeito, principalmente, à maneira como o Direito do Ambiente se relaciona com os problemas ambientais qualificados pelo risco. Para Leite e Ayala, o Direito Ambiental contemporâneo orbita ao redor de três eixos de argumentação: a necessidade de adequação aos novos direitos ambientais, a revisão da forma de funcionamento dos tradicionais processos de decisão e quais os objetivos deste novo Direito (LEITE & AYALA, 2004: 202-203). Os novos direitos ambientais são caracterizados, agora, pela recuperação dos ideais éticos do meio ambiente, bem como uma perspectiva do mundo e da natureza enquanto ecossistema, dando-se ênfase aos ideais de solidariedade e responsabilidade no trato do bem ambiental. Assim, pode-se dizer que os direitos ambientais contemporâneos são direitos de contribuição, isto é, que exigem certos deveres por parte dos seus detentores. Ao mesmo tempo, tais direitos constituem instrumentos de proteção contra os riscos e não só contra danos pessoais ou comunitários (LEITE & AYALA, 2004: 205). O risco, por sua vez, desafia o Direito Ambiental, levando-o a se questionar sob que condições esta salvaguarda coletiva e transgeracional pode ser concretizada. O Direito do Ambiente passa de um direito de danos (preocupado em reparar ou quantificar os prejuízos ao meio ambiente) para um direito de riscos, cuja principal preocupação é evitar a degradação ambiental (BENJAMIN, 2001: 61).

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Para que o Direito do Ambiente compreenda os problemas ambientais e ofereça soluções viáveis e suficientes, este deve recorrer, inevitavelmente, ao conhecimento científico. Entretanto, no quadro de incertezas produzidas pela própria ciência, para que haja a caracterização do risco ambiental – que já não é mais prévia ou previsível – mandados de proporcionalidade e complexos julgamentos políticos e sociais se tornam extremamente necessários (LEITE & AYALA, 2004: 209). Dada a perda do monopólio da verdade pela ciência, o Direito é instado a inserir a incerteza em sua estrutura epistemológica, fazendo com que seus institutos, aprisionados em uma racionalidade marcadamente cientificista e antropocentrista, sejam objeto de reflexão, crítica e dúvida quanto à sua potencialidade para tutelar direitos e interesses das gerações vindouras (CARVALHO, 2008). Um quadro representativo desta virada epistemológica por que passa o Direito do Ambiente pode ser vislumbrado na esfera da tutela jurídica do dano ambiental, onde já não se exige que este se enquadre na moldura convencional de imputação da responsabilidade. A percepção da existência dos riscos invisíveis da segunda modernidade também leva à ruptura com os requisitos da certeza e atualidade do dano, passando o Direito Ambiental a ser guiado pela aplicação das suas normas à luz do princípio da precaução, onde a dúvida e a incerteza possuem um papel determinante no atuar preventivo (STEIGLEDER, 2004: 142). No contexto da sociedade de riscos, a ausência de certezas científicas acerca destes não deve postergar a adoção pelo Estado de medidas preventivas. É o que contempla a precaução, que tem como conteúdo o princípio 15 da Declaração do Rio, cujo texto é o seguinte:
Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.

Embora façam parte de uma mesma finalidade, isto é, a proteção do meio ambiente, os princípios da precaução e da prevenção diferem no que tange à avaliação do risco que ameaça o meio ambiente. A precaução é considerada quando o risco é bastante elevado, de maneira que a certeza científica não é exigida antes de se adotar uma ação corretiva, aplicando-se aos casos em que os danos potenciais são duradouros e até mesmo irreversíveis. O princípio da prevenção, por outro lado, trabalha com os indicativos técnicos da iminência da produção de um dano, certo e definido, indicando a necessidade de medidas

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preventivas anteriores à consumação do resultado prejudicial ao ambiente, ou seja, trata-se da adoção de critérios de antecipação diante de um resultado certo, mas indesejado (VARELLA, 2004). A figura da precaução traz a exigência do cálculo precoce dos potenciais riscos para a saúde humana anterior ao surgimento do próprio dano. Isto se opõe frontalmente à lógica da ação tardia, ou da avaliação posterior, que é cientificamente rigorosa, porém impotente. Mesmo assim, agir antecipadamente sobre os riscos cuja existência sequer está comprovada e cujas conseqüências potenciais são pouco compreendidas envolve um dilema. Em primeiro lugar, há a possibilidade de comprometer custos elevados e impor desgastes às pessoas, grupos particulares ou para toda a coletividade, bem como fechar as portas ao desenvolvimento econômico e tecnológico. Por outro lado, é possível que se deixe evoluir, de maneira irreversível, tecnologias que venham a oferecer riscos inimagináveis à saúde humana e ao meio ambiente (GODARD, 2004: 164). Com o princípio da precaução, o comportamento judicial de tolerância do dano é substituído pelo de vigilância e prudência. Enquanto vetor interpretativo, tal princípio orienta a atuação dos instrumentos processuais cautelares, provimentos liminares e inibitórios, bem como os instrumentos de responsabilização, introduzindo a inversão do ônus da prova em matéria ambiental. À luz do princípio da precaução, já não cabe mais aos titulares dos direitos ambientais provarem a ofensividade de determinados empreendimentos levados à apreciação do Poder Público. Aos potenciais degradadores, por outro lado, cabe provar a inofensividade da atividade proposta. Esta racionalidade coaduna-se com a nanotecnologia, na medida em que se trata de atividade ainda envolta em incontáveis dúvidas, especialmente quanto à assimilação de seus riscos pelo Direito Ambiental e a projeção deles para uma dimensão temporal futura. 5. Tutela jurídica do dano ambiental futuro Os efeitos de uma ação contra o meio ambiente não são imediatamente aparentes. A avaliação das conseqüências nocivas de determinada ação depende, necessariamente, do estágio do conhecimento científico no momento da sua prática, o que denota a necessidade do constante diálogo entre o Direito e outras ciências. Com o passar do tempo e na medida em que o conhecimento científico evolui, conseqüências nocivas de contaminações ocorridas no passado podem ser verificadas. Por conta disso, os critérios jurídicos para reparação do dano devem ser reformulados, agora à luz dos princípio da precaução.

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A ruptura com o requisito da atualidade do dano faz parte da preocupação com o futuro e da percepção da existência de riscos invisíveis, caracterizados pela imprevisibilidade das suas conseqüências, típicos da sociedade de risco. Tais riscos, mesmo separados dos seus efeitos nocivos pelo seu conteúdo, espaço e tempo, agora são unidos por um liame causal que não era perceptível a priori. Sob influência do princípio da precaução, o reconhecimento do dano futuro também traz à tona a discussão acerca da responsabilização sem dano, onde se busca a supressão do fator de risco existente, ao invés da indenização (GODARD, 2004: 143). Danos futuros são os danos certos, mas ainda não concretizados quando da observação do local impactado. Reconhecer o dano futuro é perceber que o dano ambiental possui caráter dinâmico, cujos efeitos se dilatam a longo prazo. Tais danos devem ser aferidos a partir de um juízo de probabilidade científica sobre sua ocorrência, embora seja necessário, às vezes, recorrer à presunção de ocorrência de determinado dano enquanto desdobramento normal de uma situação específica. A título exemplificativo: um foco de poluição gerada pela infiltração de um aterro sanitário será muito mais grave no futuro, quando o lençol freático localizado a quilômetros de distância do foco inicial estiver contaminado. Embora os efeitos do dano ambiental se manifestem em tempo futuro e incerto, este não pode ser excluído do ressarcimento (GODARD, 2004: 144). Também deve ser considerada a possibilidade de reparação dos danos potenciais. Reconhecer tal possibilidade significa afastar o dogma da segurança jurídica e passar à aplicação do princípio da precaução. Os danos potenciais não se limitarão aos efeitos já conhecidos dos danos futuros, abrangendo os efeitos meramente prováveis a partir do conhecimento científico disponível à época. O mecanismo de responsabilidade, em tais casos, materializa-se na adoção de medidas preventivas que obriguem a interrupção da atividade poluidora e a retirada, na medida do possível, das substâncias contaminantes (GODARD, 2004: 147). A idéia de dano ambiental futuro dialoga com a emergente sociedade, caracterizada que é pela produção de riscos invisíveis e globais, que se protraem no tempo e desconhecem fronteiras geopolíticas. A autoconfrontação entre as condições de desenvolvimento dessa sociedade de risco e seu potencial autodestrutivo reivindica, portanto, uma nova compreensão da tutela jurídica ambiental, afinada com o princípio da precaução e mais adequada à gestão dos riscos antes de sua concretização em danos (CARVALHO, 2008: 163).

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Trata-se, mais uma vez, da construção de vínculos com o futuro (GIORGI, 1998) como condição para a imputação da responsabilidade civil objetiva (Lei 6.938/81, art. 14, parágrafo 1º), agora sem dano. Nesse ponto, considerando que a Constituição Federal inseriu, no caput do art. 225, as gerações vindouras como destinatárias da proteção jurídica do meio ambiente, fixar o comprometimento do Direito Ambiental com o futuro apresenta-se como condição estrutural à operacionalização jurídico-dogmática do risco por meio da definição de dano ambiental futuro. Tal categoria, portanto, acarreta a fragilização da certeza da concretização do dano e do dogma da segurança jurídica para incidência da responsabilidade civil (CARVALHO, 2008). Examinadas tais questões, tem-se por relativa a adequação dos instrumentos ora instituídos para a salvaguarda dos novos direitos relacionados à tutela jurídica do meio ambiente. Contudo, é possível verificar, quando trazidos à tona os potenciais riscos da nanotecnologia, a obsolescência dos mecanismos jurídico-processuais tradicionais. Eles podem, podem muito, mas não podem tudo, especialmente quando se tem em conta os limites e possibilidades do conhecimento científico frente aos riscos de graves conseqüências. Nesta situação, questiona-se: como pensar a aplicação do princípio da precaução no contexto das incertezas científicas relativas à nanotecnologia? Como garantir a responsabilização por danos futuros ou potenciais resultantes da utilização de nanomateriais? E quanto à dimensão participativa do Direito Ambiental contemporâneo? 6. A invisibilidade da nanotecnologia para o Direito Ambiental brasileiro Segundo Ulrich Beck, a construção social dos riscos está ligada diretamente à criação de respostas institucionais para os perigos. Mesmo diante da desmistificação da racionalidade técnica, o conhecimento científico ainda possui um papel determinante no processo de construção social dos riscos. O monopólio do juízo científico sobre a verdade obriga os afetados a fazerem uso dos seus meios e métodos de análise para a consecução de seus objetivos no que tange, principalmente, à gestão dos riscos. A nanotecnologia já é considerada, para alguns cientistas, como uma atividade potencialmente causadora de danos ambientais e à saúde humana. Entretanto, a ausência de respostas institucionais para seus potenciais riscos faz com que ela permaneça invisível aos instrumentos de proteção, situação absolutamente contraditória face às contingências das aplicações nanotecnológicas que pressupõem

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interpretação ética e atualização dos marcos jurídicos como condições à proteção dos direitos fundamentais envolvidos na problemática (MORENO, 2009). Atualmente, a nanotecnologia carece de regulamentação específica. Não há nenhuma legislação federal que verse sobre a matéria, tampouco precedentes jurisprudenciais. E o debate acadêmico ainda é incipiente. Essas ausências significam regressão aos instrumentos ortodoxos de proteção ambiental. O estado de invisibilidade da nanotecnologia para o ordenamento jurídico, na medida em que não há sua institucionalização, deixa a atividade à mercê de instrumentos insuficientes diante da realidade criada pelas tecnologias convergentes, típicas da sociedade de risco. Estes fatores demonstram o desafio imposto ao Direito quando da necessidade de concretização de instrumentos de proteção em face de ameaças que sequer por ele foram reconhecidas. Num retorno à perspectiva proposta por Beck: se o reconhecimento dos riscos corresponde à institucionalização dos perigos e oferecimento de respostas para estes, isto significaria dizer, diante da inexistência destas, que os riscos não são reconhecidos pelo Direito como tais, a despeito de oferecerem ameaças à sociedade. Esta invisibilidade dos riscos gerada a partir das suas qualidades diferenciadas e, sobretudo, a partir do seu não reconhecimento pela sociedade e pelos instrumentos de proteção, faz com que haja um retorno à insegurança, à era das ameaças desconhecidas, criando um novo “reino das sombras”. Para Ulrich Beck, estar à mercê de riscos desconhecidos é comparável aos deuses e demônios da antiguidade, que se escondiam por detrás do mundo visível, pondo em perigo a vida humana (BECK, 1997). Os riscos da segunda modernidade, quando reconhecidos como tais, impõem ao Direito a necessidade de apresentar respostas em contextos de incerteza. A nanotecnologia, por outro lado, faz transparecer a já obsolescência dos instrumentos de que lança mão o Direito quando da tentativa de oferecer respostas à segunda modernidade e seus desdobramentos. Não só pela simples existência dos riscos desconhecidos, mas principalmente pela possibilidade de sua institucionalização tardia e irreversibilidade de suas conseqüências. Em se tratando da nanotecnologia, sua vasta gama de aplicações e a sua penetração nos mais diversos setores da produção e do consumo impossibilitam qualquer tentativa no sentido de retirar de circulação os nanomateriais ou responsabilizar quem os introduziu sem os devidos cuidados.

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O paradoxo jurídico reside justamente na tentativa de controlar as tecnologias convergentes ainda agrilhoado a categorias teóricas típicas da sociedade industrial. O fosso entre os instrumentos de natureza principiológica e processual provenientes da primeira modernidade e os conflitos advindos das inovações tecnológicas fragiliza a apropriação jurídica do tema dos riscos ambientais e mitiga o âmbito de proveito ecológico do Direito. Quer dizer, quanto mais o Direito operar em contextos lineares de racionalidade limitada, desconsiderando a complexidade dos riscos ambientais e negando a parcialidade e as incertezas que permeiam o conhecimento científico, menor será a possibilidade de juridicização de situações de risco, como a nanotecnologia (CARVALHO, 2008). Nesse sentido, o princípio da precaução, como ora exposto, tem fundamental importância, pois trata, na sua essência da adoção de medidas preventivas em contextos de incerteza. A partir do momento em que o ordenamento jurídico adota uma postura permissiva, isto é, admitindo a inserção de nanomateriais de forma não refletida na sociedade, resta flagrante a inobservância do referido princípio. É importante a lição de Raffaele de Giorgi no sentido de que os princípios consistem em premissas que adquirirão realidade somente quando da sua aplicação, isto é, através da sua construção na práxis decisória (GIORGI, 1998: 158). Enquanto existirem riscos que passam ao largo do debate jurídico, tais princípios consistirão, somente, em premissas. Atualmente, no Brasil, é difícil associar a nanotecnologia à idéia de cidadania. Não é permitido ao cidadão participar da vida política por conta do seu desconhecimento acerca do assunto. O debate público se faz necessário na medida em que deve ser garantido à sociedade o direito de exigir avaliações sobre segurança alimentar, saúde e impactos ambientais relacionados à nanotecnologia (NUNES & GUIVANT, 2008: 10). Ao consumidor deve ser assegurado o direito de escolha, principalmente quando o produto consumido pode gerar riscos à sua saúde. No nível do indivíduo, um componente fundamental no seu dia-a-dia é o da escolha. Entretanto, lembra Giddens, não só são seguidos estilos de vida como em determinado momento os indivíduos são obrigados a fazê-lo. Não há escolha senão escolher (GIDDENS, 1997: 79). O Direito continua atuando com instrumentos, teorias e matizes epistemológicos ortodoxos que não são condizentes com o novo modelo de Estado Ambiental e da sociedade de risco. Isto tem como conseqüência, além da dificuldade de tomada de decisão em se tratando de novos riscos, a não institucionalização de outros. Diante das incertezas que emanam da sociedade contemporânea, o Direito deve estar pronto para oferecer respostas em

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contextos de grande instabilidade, bem como institucionalizar determinados riscos de maneira eficiente. Esta ameaça trazida pela nanotecnologia aos pilares da lógica e racionalidade sobre os quais repousa o Direito denota a necessidade de elaboração de um novo paradigma que venha a controlar a modernidade de riscos e assegurar uma nova segurança social e jurídica. Considerações finais Na sociedade global do risco, a radicalização da modernização faz com que a ciência se torne concausa dos riscos de graves conseqüências. A ciência, que outrora era tida como instância de legitimação do saber, adentra ao campo da incerteza, pondo em xeque todo o sistema institucionalizado de cálculo de efeitos colaterais e riscos. Estes riscos, advindos das incertezas produzidas pela própria ciência, apresentam novas características que fogem à percepção sensorial e à delimitação espacial ou temporal. A nanotecnologia, enquanto uma das tecnologias representativas do novo paradigma técnico-econômico inaugurado pela sociedade de risco (tecnologias convergentes), tem permitido uma especificação e diferenciação produtivas até então impensadas. Nanomateriais estão presentes em alimentos, cosméticos, eletrônicos e medicamentos, não sendo possível delimitar, com exatidão, em que proporções estes já estão presentes na vida dos seres humanos. Em que pese a sua grande inserção na linha de produção e consumo, a nanotecnologia ainda não possui um papel significativo na agenda de debates públicos acerca dos seus riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. As incertezas manufaturadas levam o aparato institucional produzido na primeira modernidade a um quadro de severo atordoamento. Todos os instrumentos de controle e proteção dos riscos, outrora construídos sobre as bases das certezas científicas e apegados à racionalidade técnica, agora estão às voltas com riscos cuja própria existência é incerta, mas cujas conseqüências são extremamente danosas. Em virtude disso, estudos científicos passam a conduzir seus resultados em consonância com os interesses econômicos e o Estado, por sua vez, institucionaliza tais estudos, gerando um quadro de irresponsabilidade organizada. Cabe ao Direito Ambiental, assim, uma reformulação dos seus instrumentos de proteção, um repensar de sua própria epistemologia. Agora, tais instrumentos voltam-se às novas configurações do direito ao ambiente, permeado pelos valores ecossistêmicos e de solidariedade intergeracional, e principalmente contemplando os elementos da incerteza e do risco. Nesse esforço, apresenta-se o princípio da precaução, segundo o qual as incertezas científicas não devem postergar a adoção de medidas preventivas pelos Estados. Enquanto

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desdobramentos do referido princípio, novos delineamentos foram dados aos institutos da responsabilização civil por dano ambiental, considerando-se, para efeitos de responsabilização, os danos futuros e potenciais. Tais mudanças denotam a tentativa do Direito Ambiental em se adaptar aos novos desafios impostos pela sociedade global do risco. Entretanto, estas medidas possuem pouca ou nenhuma efetividade enquanto existirem riscos, como a nanotecnologia, que sequer são reconhecidos como tais. A invisibilidade dos riscos gerada por suas qualidades diferenciadas e, principalmente, em face de seu não reconhecimento pela sociedade e pelos instrumentos de proteção, gera o retorno à insegurança da era das ameaças desconhecidas. A permanência da nanotecnologia à margem do debate jurídico significa ficar à mercê dos mesmos instrumentos de proteção ambiental que, a priori, não ofereceram respostas céleres e eficientes o bastante para as questões relativas à nanotecnologia. O princípio da precaução, que tem sua razão de ser fundada no agir preventivo, não fora observado. A responsabilização por danos futuros ou potenciais de todos os responsáveis pela difusão de nanomateriais é improvável, diante da grande diversidade de aplicações envolvidas. Retirar de circulação todos os produtos que utilizam nanomateriais também é inviável. Desta forma, a nanotecnologia faz transparecer a obsolecência dos instrumentos de proteção ambiental e a inércia da teoria (e dos teóricos) jurídica. Não somente no que diz respeito à necessidade de apresentar respostas em contextos de incerteza, mas também quando se trata da necessidade de institucionalizar e inserir na agenda de debates públicos questões relativas aos riscos ambientais. Atualmente, não é permitido ao cidadão participar da vida política por conta do seu desconhecimento acerca do assunto. Os indivíduos têm o seu direito de escolha cerceado diante da omissão estatal. O Direito Ambiental contemporâneo continua prevalentemente aprisionado aos instrumentos, teorias e matizes epistemológicos que não são condizentes com os novos delineamentos da sociedade que emerge da segunda modernidade. A permanência da nanotecnologia à margem do Direito, por sua vez, ameaça os pilares epistemológicos da lógica e da racionalidade sobre os quais este foi construído. Indispensável, então, uma reformulação dos seus paradigmas, com vistas a assegurar uma nova segurança jurídica e social. Referências

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