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Reflexões sobre moral, ética e direito e

sua Influência sobre as profissões
jurídicas
*Emanoel Maciel da Silva
Mestre em Direito UGF/RJ, Doutorando em Direito PUC/SP, Professor da UFRR e
Faculdade Cathedral, Advogado
Resumo: Este artigo aborda de modo sucinto questões pertinentes atinentes à moral,
ética e ao direito mediante uma abordagem que realça o campo de atuação de cada
um destes institutos e destaca as possíveis diferenças e semelhanças existentes. A
relevância do estudo se dá pela necessidade de reconhecer uma nova dinâmica em
torno dos valores e normas norteadores da conduta humana. De pouco vale o
acúmulo de normas em descompasso com a valorização dos preceitos ético-morais.
Desta forma, através deste ensaio abordamos a influência do direito natural e dos
princípios morais sobre a norma jurídica posta, bem como a interface entre direito e
moral, desde uma perspectiva Kelseniana, por uma ciência jurídica pura destituída de
qualquer interferência advinda dos princípios morais, até outras vertentes em que a
interação entre direito e moral se mostra absolutamente necessária. A boa
compreensão da ética, enquanto moralidade positivada, bem como da deontologia
jurídica se mostram fundamentais à formação de indivíduos, profissionais do direito, e
instituições realmente comprometidas com a busca do bem-comum.
Palavras chave: Filosofia jurídica. Dimensão ético-moral e o Direito. Normas éticojurídicas e princípios jurídico-morais. Positivismo jurídico. Direito natural. Profissões
jurídicas. Deontologia jurídica.
Sumário: Resumo; 1. Introdução; 2. A questão ética enquanto questão moral; 3. Ética,
moral e direito e o problema da coercibilidade; 4. Positivismo jurídico e sua influência
sobre a ética; 5. A sociedade como início e fim da ciência jurídica; 6. Cooperação entre
moral e direito na construção da ordem jurídica nacional; 7. A crise referente ao
exercício das profissões jurídicas no Brasil; 8.Conclusão; 9. Referências bibliográficas.
1. Introdução
Inicialmente buscaremos estabelecer conceitos, características, diferenças e
semelhanças entre moral, ética e direito para só após isto procedermos uma análise
sobre o exercício de algumas profissões jurídicas no Brasil.
A vida em sociedade seria insuportável se destituída de um mínimo de respeito, bom
senso e solidariedade no trato das pessoas umas com as outras, deste modo é que se
torna imprescindível impor ao ser humano um rol de normas morais e jurídicas
capazes de fazer com que ao menos as pessoas se tolerem e se respeitem
mutuamente.
A corrupção é abominável e opera em desfavor das virtudes e valores de qualquer
sociedade, deste modo a intolerância, o desprezo aos valores e o desrespeito às
pessoas e instituições têm uma relação muito próxima com a questão ético-moral e
com o direito.

que se externaliza pela assunção do fato sócio-jurídico. o interessante é que a externalização da imoralidade poderá configurar também uma lesão à ordem jurídica. A questão ética enquanto questão moral Quanto à ética pode-se dizer que é a ciência humana que estuda o comportamento moral humano em sociedade na busca do bem comum. onde a moralidade consta como um dos princípios da administração pública brasileira. vide Art. sobretudo. serviço publico. A ética sempre cuida de questões morais aplicadas aos diversos segmentos sociais (atuação profissional. A sanção social aplicada a um delito moral exige a externalização da conduta ou a confissão de sua realização. ou ainda como querem alguns. apenas no campo das idéias. Neste sentido percebe-se que o próprio direito assimilou o princípio da moralidade. a universalidade do direito não se dá por sua vertente positivada. antes tal característica se origina a partir do chamado direito natural. e neste desiderato a ética e o direito assumem grande relevância. posto que em sua essência além de ser um ser social o Homem também é um ser moral. por esta mesma via não se estará isento da prática de lesões aos princípios morais. isto é. com manifestação na seara do dever ser. igreja. o direito exige método. o direito é uma ciência humana. Desta forma. Desta forma. o direito e a ética se assemelham pelo fato de ambos estarem no rol das ciências humanas. A seu turno.). Em verdade.É fundamental que se assegure o respeito a uma estrutura moral básica. objeto e princípios próprios. a ética também é parte do conhecimento científico e deste modo também possui metodologia. Assim como o direito. 37 da Constituição da República de 1988. Na ordem privada a boa fé nas relações negociais também reflete a relevância do emprego da moral para segurança jurídica dos contratos. A abordagem referente ao direito. moral e à ética é fundamental para o bom entendimento acerca da importância de tais institutos ao desempenho adequado das atividades profissionais. 2. ciência social aplicada. aptos a serem validados universalmente. donde exsurge sua validade universal. no que também é fundamental à boa dinâmica das relações privadas. sobretudo no que se refere à regência dos interesses públicos. etc. a moral não interessa apenas à disciplina da ordem pública.sendo mais ampla que a ética e do que o próprio direito. A propósito. A moral não é ciência .é parte do conhecimento . família. no que se refere às profissões jurídicas imprescindíveis á boa prestação da atividade jurisdicional. atuando sem qualquer comprometimento com o rigor científico. não se perpetra qualquer ilegalidade. . no pensamento. sem limitação geográfica. Com efeito. objeto de estudo e princípios próprios atuando em qualquer parte. onde a conduta antijurídica é punida pelo Estado. todavia.

Entendemos que a fundação da ética se dá pela externalização da moral. para que a sociedade não soçobre. inclusive pelo papel que desempenharam no processo histórico. pode-se afirmar para assegurar a harmonia funcional à sociedade e ao Estado faz-se necessário que os cidadãos e as instituições tenham como alvo a prática de um comportamento moral mediano. sendo utilitária. pragmática. dizem os adeptos dessa doutrina. é utilitária. A ética é normativa. com isto queremos dizer que o aspecto da moral ligado tão somente às questões de foro íntimo perpetrados pela mente humana. A moral. a transgressão dos dispositivos que a comunidade considerar indispensável à paz social. intermediário entre a virtude e o vício. teórica. objetiva e por certo cientifica também. a saber: fato. todavia a recíproca não é verdadeira. que nada mais é que o componente moral da ciência jurídica. (REALE. tradição e a religião de cada sociedade. admitindo nuances de variação de acordo com a vivência e experiência de cada povo. temos que a moral absoluta é universal. pragmática. tendo por objeto de estudo. costume. O direito do mesmo modo se manifesta em regra através de normas escritas ou consuetudinárias em execeção. portanto não se busca o homem moralmente perfeito. note-se que entre o fato jurídico e a produção da norma está a valoração. deste modo. constata-se assim que a moral relativa é variável. A teoria tridimensional do direito do saudoso Prof. Muitas são as teorias sobre as relações entre o Direito e a Moral. é indispensável armar de força certos preceitos éticos. o direito é essencialmente e não totalmente moral. o que se pretende como ideal é o homem mediano do ponto de vista moral. a moral. normativa. mas como as violações são inevitáveis. moral e direito e o problema da coercibilidade .Todo conteúdo ético é moral. com mais vigor e rigor. povo ou sociedade. desta forma entendemos que a moral é bem mais ampla e complexa que a ética. 1993) Diante disto. é indispensável que se impeça. a ética e o direito sim. Éitca. Miguel Reale expõe o direito mediante três espectros. A moral não tem preocupação ou compromisso com a norma. valor e norma. se ocupando das questões locais no que se refere à cultura. não interessam de todo à ética. é característica de cada região. 1993) 3. quando falamos de ética falamos necessariamente de moral. sem repercussão no mundo fático. manifesta pelos valores comuns a todos os povos. mas é possível limitar-nos a alguns pontos de referência essenciais. é cumprida de maneira espontânea. imutável. e sua matéria prima é a moral. A teoria do “mínimo ético” de Jellinek consiste em dizer que o direito representa apenas o mínimo de moral declarado obrigatório para que a sociedade possa sobreviver. A ética é a ciência dos deveres. como já realçado. A moral também é bem mais ampla que o direito. deste modo o preceito jurídico é essencialmente moral. em regra. Ao vislumbrarmos a moral sob uma ótica absoluta e outra relativa. enquanto a moral relativa é local. Como nem todos podem ou querem realizar de maneira espontânea as obrigações morais. e objetiva. (REALE.

reprimenda ou reclamação. posto que a ciência jurídica teria seu fundamento construído a partir de seus próprios princípios. todavia tanto a moral como o direito guardam um espaço de independência. ocasião em que a própria sociedade cuida de punir a conduta moralmente inadequada mediante reprovação. 1998) As regras jurídicas constituem o núcleo das regras morais. Doutra sorte. o que o referido jurista destacava era que em essência a moral não alicerça o direito. sendo impossível criar e interpretar o direito sem levar em consideração a moral. Nesta perspectiva a tão necessária interação entre direito e moral exposta nos ordenamentos jurídicos modernos estaria de todo comprometida se construída a partir do pensamento Kelseniano. Na construção de sua teoria pura do direito Hans Kelsen tenciona resguardar o direito contra qualquer possível interferência advinda das demais ciências humanas ou de qualquer parte do conhecimento. no ilícito jurídico a punição é externa manifesta pela coerção e sanção impostas pelo aparelho estatal. onde também o comportamento moral considerado adequado é cobrado.moral como mínimo jurídico.Questão interessante é aquela referente ao modo de sanção atribuída às condutas imorais e as antijurídicas. noutra perspectiva as regras jurídicas são aparentadas com as morais. outra possibilidade se dá quando entre ambos os ordenamentos há plena e absoluta separação em dimensão Kelseniana. . detido pela autoridade policial por mera afronta a um preceito moral não tipificado enquanto conduta antijurídica. poderá também ocorrer que as regras morais constituem o núcleo do direito que compreende muitas normas moralmente indiferentes . como já ficou realçado quando tratamos da questão da coerção do ponto de vista moral e sob a ótica jurídica. neste último caso. por exemplo. como ocorre. Ora. tal ocorre quando a moral abandona as questões individuais e avança sobre as relações sociais. Neste caso. haja vista que ninguém deverá ser. isso significa que a validade de uma ordem jurídica positiva é independentemente da sua concordância ou discordância com qualquer sistema moral (KELSEN. Em realidade. Com efeito. quando alguém fura uma fila. isto não impede que a sociedade crie seus próprios mecanismos de desestimulo às práticas imorais apesar da não garantia de efetividade sancionatória. 2003) A natureza coercitiva do direito na concepção de Kelsen é um elemento diferenciador que impede a moral de assemelhar-se à ciência jurídica. A compreensão do direito a partir de seus próprios fundamentos remete a moral a uma dimensão cujas conseqüências nada têm a ver com o direito. com efeito. direito e moral se relacionam e disto decorre que o direito passa a ter conteúdo moral. Interessante é que a proposição de Kelsen não subtrai do direito a possibilidade de equipar-se com princípios morais. no que tange ao ilícito moral a penalidade poderá tanto ser interna quanto poderá também ser externa. a coerção impingida pela sociedade ao infrator não tem o mesmo poder daquela aplicada pelo Estado. por exemplo. (DIMOULIS. e a moral passa a revestir-se de roupagem jurídica.

Deste modo. (MONTEIRO. Enquanto a moral busca a recusa à conduta malévola pela prática do bem. e o jusnaturalismo também tenta desqualificar o direito positivo. o clássico exemplo do incesto. . precisamente porque se afirma como princípio deontológico. posto que a ética manifesta-se mediante preceitos normativos de cunho moral. numa compreensão segundo a qual o direito já existia antes mesmo da criação do Estado. O campo de atuação da moral é mais amplo que o do direito. Entendemos que o direito positivo é um reflexo do direito natural. o positivismo jurídico desconsidera a importância do direito natural. 1979) Deste modo. da sociedade. mas. O positivismo incide sobre o direito. Como já destacado. passando pelos escolásticos. desde os filósofos gregos. Positivismo jurídico e sua influência sobre a ética A moral é mais ampla que o direito. (NUNES. tendo ainda incidido sobre a ética. tanto na órbita jurídica quanto na dimensão moral. mesmo que não seja. e citamos para ilustrar isto. o que está colocado na norma jurídica. pelos racionalistas dos Séculos XVII e XVIII indo até as concepções modernas Stammler e Del Vechio ( começo do Séc. no sentido de também positivá-la. Sobre o a Escola do Direito Natural Rizato Nunes que era primeiramente. É preciso reconhecer que a atuação do Estado tem sido valiosa na produção e validação da norma que regerá a sociedade e o as próprias instituições estatais. o comportamento humano estaria limitado ora pelo ônus ora pelo bônus. 2007) O direito natural é essencialmente distinto do direito positivo. facilitando a sistematização normativa. o direito propõe a busca da justiça. o direito bilateral. a moral é mais ampla que o direito porque em algumas circunstâncias certos desvios de conduta que escapam ao direito não fogem à moral. haja vista que a norma jurídica é edificada sobre fundamento principiológico. que do ponto de vista jurídico. e isto ocorre pelo fato do direito natural estar na base do próprio direito positivo. cujos resultados são observados pela existência de códigos de postura em diversos segmentos profissionais. codificando-o. indicando aquilo que deve ser. todavia é inútil posicionar-se em favor de uma ou de outra teoria. (VECCHIO. XX). É certo ainda que o direito positivo é a base do chamado codicismo. o modo de punir a conduta inadequada é o que faz a diferença. A moral é unilateral. Para o positivismo jurídico prevalece o direito enquanto norma jurídica estatal. todavia como já asseveramos nem todo conteúdo jurídico é necessariamente moral. 2004) 4. uma escola racionalista com longa tradição. A moral enfatiza as questões internas da alma humana. enquanto para o direito natural o que prevalece é o direito advindo não do Estado. a moral é incoercível. o direito possui coercibilidade. vislumbramos a influência do positivismo sobre a ética. onde o que interessa é o que está posto. Como água e óleo. na Idade Média. o direito exige a manifestação do fato social. sem se considerar ambas as teorias como parte de uma única engrenagem.

o positivismo é uma porta aberta aos regimes totalitários. Direito natural e direito positivo compõem e habitam um único corpo apesar de serem diferentes membros na composição da ciência jurídica. Identificando o direito com a lei. direito do menor que ocupam um espaço intermediário entre o direito público e o privado por seu caráter metaindividual. Assim. deve ser compreendida no sentido de facilitar o estudo e a aplicabilidade da norma jurídica. assim sendo. fascista ou nazista. Nesta esteira. para a lei. a questão da divisão do direito não se sustenta mais. o positivismo jurídico influenciou o direito no sentido de normatizá-lo. posto que existe influência da moral sobre o direito e isto notadamente também se reflete sobre a ética. 5. No que se refere ao positivismo sua atenção se converge apenas para o ser do direito. todavia não escapa ao rigor moral. Aliás de há muito o direito transcendeu a célebre perspectiva dicotômica proposta pelo direito romano. têm-se na atualidade novas abordagens jurídicas que não encontram abrigo no espaço estreito delimitado pela teoria dicotômica acima citada. A sociedade como início e fim da ciência jurídica Vamos aproveitar a menção feita ao direito positivo para divagar um pouco mais sobre a ciência jurídica. seja na fórmula comunista. e isto decorre de sua natureza científica. 2007) Entendemos que é razoável afirmar que a influência do positivismo sobre a moral faz nascer a ética. Podemos assim nos referir à moral como bem próxima ao direito natural. Nesta toada. direito do consumidor. Novas possibilidades emergiram a partir da complexa relação entre o fato social e a norma jurídica. ainda considerando o direito com dimensão apenas pública ou privada. É elementar o entendimento segundo o qual o direito não é passível de divisão. A bem da verdade os autores esclarecem sobre a superação desta teoria. posto que esta nada mais é que a exteriorização da moral através de normas. não representa nenhuma ilegalidade. Assim como a moral. apesar da longeva atenção que a doutrina empresta a esta tese. independentemente de seu conteúdo. cabe ainda citar o direito do trabalho que também não se amolda à dicotomia jurídica clássica. a ética também poderá operar mediante interface com o direito. todavia nos parece paradoxal quando os tais doutrinadores elaboram seus esquemas para enquadrar os diversos ramos da árvore jurídica. (NADER. enquanto a ética estaria bem mais ligada ao direito positivo. cite-se o chamado direito difuso do qual fazem parte o direito ambiental. desconsiderando-se como jurídico tudo o que não se amolde a tal máxima.no ordenamento pátrio. o que vale é o direito enquanto norma e produzido pelo Estado. . Deste modo. é fácil concluir que moral positivada nada mais é do que ética. a célebre dicotomia entre público e privado que ainda hoje consta dos livros de introdução ao estudo do direito.

Vamos explicar porque entendemos ser a moral anterior ao direito natural. o ponto de vista interno do atuar humano. assim sendo. Entretanto.) em convivência com seu cão de estimação. como. (OLIVEIRA. posto ainda inexistir pluralidade humana. . por exemplo. se verifica. 2004) A moral não se restringe às fronteiras e limites do chamado codicismo. por exemplo. não se pode olvidar de que tudo que é ético é essencialmente moral. facilmente. 2006) O direito absorve a perspectiva externa referente ao fenômeno moral e é bem verdade que questões eminentemente internas também poderão interessar ao direito penal e mesmo ao direito civil. por esta hipótese é certo que não se podia falar ainda em direito natural muito menos em direito positivo. esta acabará por assumir caráter científico dando lugar à ética. ao direito social na composição da árvore jurídica. quando se tenciona codificar a moral. A teoria que criou se refere exclusivamente ao direito positivo. etc. e digamos que hipoteticamente apenas uma pessoa tivesse sobrevivido à Terceira Grande Guerra junto com seu cão de estimação e sua biblioteca jurídica. Códigos. a sociedade humana se funda a partir da reunião de no mínimo dois seres compartilhando num dado espaço geográfico experiências comuns. numa perspectiva apocalíptica. fraude etc.Raros são dentre os tais autores os que fazem menção. Hans Kelsen através de sua teoria pura adotou uma ideologia essencialmente positivista no setor jurídico. visto que o direito também leva em conta. não podemos ter em conta a afirmativa de que o direito não se interessa pelo elemento interno das condutas humanas. (NADER. Imaginemo-nos agora diante de uma hecatombe nuclear. nesta perspectiva ainda não se podia falar da existência de sociedade. no que tange. nos conceitos de dolo. sendo a moral anterior ao próprio direito natural. como conclusão definitiva. Continuaremos a explicar isto tomando por base a gênese humana quando do surgimento do primeiro humano. haja vista que ela subsiste a Crusoé. por exemplo. tem e terá consciência dos deveres morais para com a sua própria existência. para aplicação de suas normas. apesar disto a moral já se encontrava presente antes mesmo da fundação da primeira sociedade humana. enquanto que a seu turno o direito necessita do fenômeno social para desencadearse. à caracterização do elemento culpa. Bom. Para dar sentido a esta tese nos ateremos de início à premissa segundo a qual o direito só existe com a sociedade (Ubi jus ibi societas). simulação. posto que mesmo sozinho o ser humano tinha. desprezando os juízos de valor. entretanto. erro. combatendo a metafísica. disto indagamos: Neste contexto ainda existiria direito? Lembrando que a resposta a este questionamento deve levar em consideração a sobrevivência de apenas uma pessoa de posse de seus livros jurídicos (Constituição. rejeitando a idéia do direito natural. É uma teoria normológica de vez que compreende o direito como estrutura normativa. Ora.

dentre outros assuntos. numa perspectiva de isolamento como a que estamos trabalhando. A relação entre o ser humano e seu cão também não configura uma relação jurídica. Aliás. e sedução. No plano do direito adjetivo. Como tantos outros setores da ciência jurídica. Impende destacar a atuação do fenômeno moral sobre o direito penal. não haverá direito natural ou direito positivo diante de uma hipótese em que o ser humano esteja sozinho destituído da convivência de outras pessoas. Concluímos este tópico com a afirmação categórica que a moral é anterior e também poderá ser posterior ao direito. Assim sendo. para também deixar consignado que a busca da justiça passa pela transformação moral do direito. tão presente nas primeiras sociedades. a aplicação do direito destituída do processo. sobretudo no que tange aos costumes. como ocorria em tempos de absolutismo. não há sociedade a partir da interação entre uma pessoa isolada e um animal. cidadania. e na velhice os filhos têm o dever de amparar seus pais. não mais em consagração à retaliação decorrente da vingança privada. extinção de desigualdades sociais. à dignidade da pessoa humana. e isto é uma exigência do ser moral que habita cada um de nós. mas especificamente na parte da moral que cuida das questões volitivas. pode-se mencionar ainda o dever de fidelidade conjugal. por exemplo. se já não há mais sociedade para ser governada pelo direito. Assim sendo. No direito civil a moral se manifesta pelo principio da boa-fé. o primeiro ou o último homem estará sob regência da moral. como o estupro. neste caso o fim da moral coincidiria com a extinção do próprio ser humano. o direito constitucional se deixa influenciar por questões morais referentes.A lei só faz sentido quando puder reger a sociedade. o atentado violento ao pudor. igualdade. um modo racional em que as partes têm a chance de oportunizar suas versões acerca do mesmo fato. 6. Cooperação entre moral e direito na construção da ordem jurídica nacional Para reforçar a cooperação estabelecida entre moral e direito na construção das ordens jurídicas nacionais. etc. apesar disto. poderia revelar a assunção de . o crime é antes de tudo um equívoco moral. tem-se que o processo é um instrumento para realização da justiça. ou desta mesma pessoa com relação a Deus. posto que tal relação. vamos a partir deste ponto por em destaque a atuação da moral sobre os diversos ramos do ordenamento jurídico brasileiro. e também pelos deveres decorrentes do parentesco. afirmamos assim porque em verdade já existia moral antes do surgimento do direito e não é impossível que ela continue a existir mesmo após o fim do direito. rapto. desta forma de nada adianta o citado sobrevivente trazer consigo toda a legislação do seu país. o que representa uma evolução no sentindo de fazer com que o direito seja aplicado com razoabilidade. pautada apenas em critérios subjetivos ao sabor do julgador. erradicação de preconceitos. Além do que toda a discussão que envolve o elemento culpa tem sua origem no campo moral. ainda que por breve tempo. promoção da justiça social. donde se depreende que os pais têm o dever de amparar os filhos. mesmo no gênesis ou no apocalipse. com a tipificação dos chamados crimes contra os costumes. não reflete qualquer dinâmica social. O processo é uma forma civilizada de se estabelecer o direito.

como também exigindo-lhes reputação ilibada devidamente comprovada. ordeiro. fundamental à manutenção do estado democrático de direito. Bem. tal rigor se justifica pelo fato da advocacia ser considerada um múnus publico.. sem a manutenção da retaliatio. a moral se estabelece aqui muito mais pelos fins do que propriamente pelos meios. A crise referente ao exercício das profissões jurídicas no Brasil As profissões jurídicas são aquelas desempenhadas por bacharéis em direito. como bem faz o Estatuto da Advocacia. que cada profissão elabore o seu código de ética. . a influência da moral sobre o direito processual ocorre no sentido de fazê-lo civilizado sem a necessidade da aplicação da lei do mais forte. perseguição. 5º. passemos agora a tratar da deontologia profissional que é composta por regras e princípios éticos disciplinadores do comportamento humano no que se refere ao exercício de uma determinada profissão. ou seja. Então. é que se deve trazer à superfície a urgente necessidade de selecionar adequadamente os novos causídicos. deontologia jurídica. Aliás. Com efeito. com base no Art. a deontologia não deve ser confundida com regras de etiqueta ou boa educação ainda que aplicadas ao ambiente de trabalho. dentre os tais ofícios jurídicos estão a advocacia e a magistratura. diante disto torna-se relevante falar sobre ética profissional aplicada às profissões jurídicas. Com efeito. disputas. e seria um desfavor à sociedade brasileira o legislador pátrio eliminar tal requisito. até bem pouco tempo o ingresso nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil se dava sem a necessidade de realização do exame de ordem. Quando se questiona sobre a necessidade da exigência de tal exame para o exercício da milenar profissão jurídica face às possíveis incompatibilidades com o texto constitucional. tendem a ser extremamente maléficos e cooperam para o descrédito das instituições e do próprio Estado. etc. e cada vez mais uma tendência. Aliás. A frouxidão moral no exercício da advocacia tornou-se tão corriqueira a ponto desta carreira ter perdido boa parte do enorme prestígio que ostentava no passado. Os desvios de conduta profissional nesta área. não apenas mediante critérios intelectuais. agora o direito se estabelece através de um processo pacífico.preconceito. e acabar por produzir absurdas injustiças. diferentemente do que ocorria nos primórdios. 7. Nesta perspectiva. no que se refere à adequação do exame de ordem à CF/88 entendemos haver total compatibilidade entre a determinação contida no Estatuto da Advocacia face ao disposto na CF/88. As profissões têm suas regras. XIII tem-se que a Lei Maior remete ao legislador infralegal a atribuição de disciplinar o exercício de determinados ofícios. inveja. isto evidentemente cooperou para a desqualificação profissional dos membros desta honrada instituição. A propósito em praticamente todas as democracias ocidentais o citado exame de ordem é uma exigência ao exercício da advocacia.

inspirada em uma ética profissional. decoro) e os que resultam vinculados a cada profissão jurídica em particular: a independência e imparcialidade do juiz. Assim é que a obediência aos princípios que regem as profissões jurídicas tenderão a cooperar na produção do bem comum. desinteresse. etc. (LÓPEZ. há que distinguir os princípios deontológicos de caráter universal (probidade. Deontologia profissional se chama o complexo de princípios e regras que disciplinam particulares comportamentos do integrante de determinada profissão. o status dos distintos profissionais e seus deveres específicos que dimanam das disposições legais e das regulações deontológicas. Deste modo é que o profissional do direito além de se preocupar em cumprir as obrigações profissionais sob o ponto de vista da melhor técnica. durante a atividade laboral. de modo que a atuação profissional deve ser pautada por valores morais garantidores das boas relações laborais. sem a devida reflexão acerca da importância de todos os atos profissionais praticados. a liberdade no exercício profissional da advocacia. esse é seu o lema. também deve nortear seus atos em conduta eticamente adequada. (NALINI. 1995) Deste modo. aplicadas à luz dos critérios e valores previamente decantados pela ética profissional. Vamos a partir deste ponto citar alguns valores que cooperam para o ambiente ético que deve prevalecer no exercício das profissões jurídicas em nosso país. A obediência ao Estatuto da Advocacia faz com que o advogado haja conforme os ditames da ciência jurídica. No caso da advocacia a atuação deve pautar-se tanto no Estatuto da Advocacia (Lei Federal nº 8. assim como os demais operadores do direito também não o são. A deontologia jurídica há de compreender e sistematizar. Deontologia forense designa o conjunto de normas éticas e comportamentais a serem observadas pelo profissional jurídico. 2001) A ética profissional é sinônimo de deontologia profissional. a obediência aos ditames éticos não deve ser feita a esmo. ação pautada na ciência e na consciência. enquanto a preocupação moral pautada no código de ética (manifesta pela adoção do melhor padrão de conduta moral na tomada de decisões no dia-a-dia. o advogado não é um autômato.906/94) quanto no Código de Ética que rege a citada atividade jurídica. O decoro é o comportamento zeloso do ponto de vista moral no âmbito da atividade profissional.A deontologia é a teoria dos deveres. no trato com os clientes. Com efeito. a deontologia jurídica prega o agir com base nos ditames da ética enquanto ciência e com fundamento nas diretrizes oriundas da própria consciência. Por isso. atue em cumprimento da ética profissional. . a promoção da justiça e a legalidade cujo desenvolvimento corresponde ao Ministério Público. desta forma. Na adequação da deontologia profissional às profissões jurídicas tem-se a deontologia jurídica formada por um conjunto de regras éticas que regem o exercício das atividades jurídicas. com os pares e com os demais operadores do direito) faz com que o advogado. O decoro profissional é exigido no ambiente de trabalho.

a polidez sejam constantes no dia a dia dos profissionais em nome do equilíbrio e da paz e da ordem no local de trabalho. a conduta antiética de alguns causídicos tem feito um estrago enorme para a imagem da classe. menores. eficiência. existem tantos outros princípios que poderiam ser citados. retirar-lhes o direito de exercer a profissão. assiduidade. Assim sendo. Neste diapasão. Diante disto. estupro). entretanto o que importa acima de tudo é a consulta constante que cada operador do direito deve fazer ao homem interior que habita em cada um. (segredos de justiça – algumas questões de direito de família. A propósito a péssima imagem que a sociedade nutre dos advogados opera em desfavor da cidadania e da democracia. no sentido de sempre buscar para sua vida profissional aquela conduta mais adequada à produção do bem. faz-se necessário superar a noção que já se arraigou no seio da sociedade de que todo advogado é um ladrão. . Em verdade. e exemplos assim não faltam. o componente ético-moral torna-se imprescindível para o bom exercício da advocacia e das demais profissões jurídicas. visto que uma parcela considerável da sociedade prefere amargar a injustiça. (traição. com o ânimo de não enganar os inimigos ou mesmo os amigos. há que haver uma preocupação com a efetiva punição dos desvios de conduta com a superação do corporativismo diante dos delitos gravosos que exigem em vez de proteção aos infratores uma atuação rigorosa em nome de uma satisfação à sociedade. doa a quem doer. evidentemente esgotados o direito de ampla defesa e contraditório. uma conduta eticamente ajustada é o mínimo que se espera de um advogado. mas do que nunca é preciso puni-los adequadamente e quando for o caso. Com efeito. Já está mais do que na hora de se operar o resgate do prestígio da advocacia. adultério). honestidade.A urbanidade prima pela civilidade nas relações de cunho profissional exigindo-se que a cortesia. Discrição no trato do segredo alheio. todavia isto não basta. pelo receio de procurar seus direitos e se deparar com um causídico aproveitador disposto a fazer de tudo para arrancar até o último centavo de seus clientes. Agir com benevolência nestes casos é praticar suicídio profissional coletivo. A lealdade se manifesta pela boa fé. é que não se pode mais aceitar uma postura de tolerância com relação aos maus advogados. A diligência exige do profissional forense o devido zelo e esmero no desempenho da atividade profissional manifestando-se através de senso de responsabilidade. A punição exemplar aplicada aos infratores das normas éticas e jurídicas servirá também como desestímulo às mesmas práticas aos demais operadores do direito. Visa proteger a integridade moral das pessoas. pontualidade etc. solidariedade e o exercício da verdade. A reserva se oportuniza pela discrição no trato de assuntos relevantes na esfera profissional. com prejuízos a tantos outros profissionais que se esforçam para exercer a profissão com dignidade. Bem. a produção de códigos de ética para a advocacia e para a magistratura é fundamental.

dentre outros valores. perdemos todos nós os cidadãos de bem. é preciso que se estabeleçam os espaços de atuação de cada um desses institutos. resta à Justiça suprir tal lacuna. como noutros ofícios. há uma enorme preocupação em diminuir o desgaste pelo qual passa principalmente a advocacia diante de tantos escândalos envolvendo advogados. e perde também o país. A vida em sociedade exige posturas moralmente responsáveis nos campos pessoal.Coopera também para tal descrédito a infindável espera pela manifestação do Poder Judiciário cuja fama quanto à celeridade processual também não é lá das melhores. exige-se dos operadores do direito um compromisso com a moralidade a fim de resgatar a dignidade de algumas profissões jurídicas combalidas pelos sucessivos escândalos que constantemente visitam o noticiário. e não estamos a falar apenas dos advogados privados. Neste sentido. incluímos ai também os defensores públicos. familiar e profissional. . é sobremodo importante a valorização das condutas profissionais adequadas pautadas nos princípios morais. ética e direito. honradez e a solidariedade. Na seara jurídica. Os códigos de ética profissional representam um avanço na missão de melhorar a qualidade moral dos profissionais do direito. o dano portanto é coletivo. boa fé. Na atualidade há um grande esforço no sentido de pautar a conduta profissional dentro de um padrão ético que satisfaça minimamente às exigências de decência e dignidade nas relações estabelecidas entre profissionais e destes com seus clientes. a honestidade. entretanto quando a Justiça tarda demais ou simplesmente falha na promoção de sua missão institucional. aliado a isto não podemos deixar de repisar a necessidade de se valorizar o exame de ingresso na Ordem dos Advogados do Brasil como um critério favorável à melhoria da qualidade dos causídicos em nosso país. A exclusão jurídica é uma realidade e uma dentre suas causas é a falta de confiança de parte da sociedade nos advogados e na justiça brasleira. Os códigos de conduta profissional têm sido adotados como uma forma de tentar frear os abusos cometidos. na ética e quando for o caso na própria norma jurídica. A compreensão da deontologia profissional passa pela adequada percepção que se deve ter das possibilidades advindas da interface entre moral. devem permear todas as relações sociais. Conclusão Da abordagem desta temática surge a convicção a respeito da atualidade e urgência atinentes à questão ético-moral. em virtude do corporativismo que move os interesses profissionais. Quando os códigos de ética profissional não funcionam em seu escopo de promover a adequada higienização dos quadros profissionais. Diante disto. tem lugar o descrédito nas instituições. 8. mas enfrentam dificuldades no que se refere à aplicação das punições. Com efeito. Apesar disto. posto que não raro a lesão aos valores ético-morais também poderá ter conseqüências legais.

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