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CONSIDERAÇÔESSOBRE

OS DESENHOS E O DESENHO DE KAFKA
PEDRO A. H. PAIXÃO

Por sabermos que apenas uma décima parte da obra de Franz Kafka
não foi destruída e que dela apenas restam cinquenta desenhos, dos
quais nove são relatos intangíveis; por faltar ainda a catalogação precisa do fundo que ficou nas mãos de Max Brad, o seu histórico traidor
ou protector e amigo - não é possível hoje tratar com propriedade a
questão dos desenhos no seu legado. A mais recente actualização das
notícias em torno do triste debate sobre o fundo levado para Tel'Aviv
por Brod (manuscritos, diários, carteios e, segundo ele, desenhos)
mostra que estamos perto de acrescer o nosso conhecimento sobre
este legado. Em Outubro de 2012, um tribunal de Israel ordenou que
todos os manuscritos de Kafka nas mãos da actual legatária, a filha
de Esther Hoffe (secretária de Brod), Eva - que nos últimos anos se
encontra em negociações com o Deutsch Literatur Archiv em Marbach
(que a apoiou legalmente) - , fossem transferidos para a Bibnoteca
Nacional de Israel, para serem catalogados e, finalmente , divulgados
em rede (parte, eventualmente, permanecerá ainda desconhecida e
dispersa em cofres de bancos, em Israel ou na Suíça).' Mais do que definharmos pelos meandros desta doentia diatribe, em torno de tesouros
e resíduos, apenas importa sabermos que Kafka, não só era um desenhador, mas fazia um uso contínuo do desenho e considerava que esta
prática detinha igual (ou superior) importância ao trabalho em prosa.
Ante a colossal produção exegética que se edificou sobre a prosa
do autor, não deixa assim de surpreender o facto que, até há pouco,
quase nada se tenha escrito sobre a dimensão gráfica na sua obra.
Disto se lamentava já Brod em 1948', mas também Claude Gandelman
em 1974, quando tenta colmatar a lacuna com um extenso artigo

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Ofer ADERET, !dsrad ccurt arders Kafka manuscripts be transferred to NationaJ
Library)', in Haaret" 14 de Outubro de2012. < http://www.haaretl.Com/jewish-worldf
j ewish -world -news/israel-cou rt - arde r5- hafka. -manuscri pts-be -t ransfe rred -to-na t iona l-Iibra ry.
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Max BROD, Franz Kafkas Glauben und Lehre. Mondial Verlag , Winterthur, 1948, p. 136.

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Fink. tal como demonstra a vasta produção gráfica de inacabados em Leonardo da Vinci e que continua a maravilhar-nos pela força do pensamento que encontramos neles inscrito. 4 Cfr Niels Bokhove <Marijke van Orst (ecid. ainda. se nos perguntarmos sobre o que イ・ウエセ@ do セ・ウョッ@ (e não dos desenhos).m . editado em 2002 (reVIsto e aume?tado em 2003) por Niels Bokhove e Marijke van Orst. VaI. mas que prescinde desta (e das técnicas que governam a mediação). 1979. ocorrido num dos encontros entre ambos: «Tudo セッ@ セオョ、ッ@ humano é uma imagem que se tornou viva. n. Kafka. Numa passagem crucial da sua Storia del disegno.' De facto . l'aderborn (Julho 201 4). e o esboço. como testemunha o uso que dele fazemos quotidianamente desde a infância (sem arte ou sem sermos artistas). O desenho é o interstício que. caractenza o uso do desenho.º 3-4. mais que tudo. na qualidade de um movimento que se basta por si mesmo. Franz Kafka als 5 Fnedenke FEUNER. pp. ou seja. na forma de «esboço». repousa a prática teórica em prosa «inacabada» de Kafka. Todavia. na forma 8 9 10 CE Ibidem. mas os restos de uma antiga chama! Portanto. hieróglifos». E isto que faço.393f. neste sentido.' Mas. não apenas lhe respondeu que não eram desenhos "para serem mostrados a alguém». 2. eles desenham nele algumas linh. ampliada e revista). london .o s manuscritos .resíduos que a grande custo (quase nos limites do ndículo) o amigo ia pontualmente «salvando». Luigi G RASSl. Ultrecht: Salon Safiú. Kafka. não demostram mais que o perpetuar de um mal-entendido que cristalizou algo. Neste sentido. Esse existe. 'Einrnal ein grosse. Gustav ]ANOUCH. penso. como assistiu ao mesmo ritual de ver Kafka escondê-los. evanescente. que frequentemente usava em glosa (ou não) às margem d. no cruzamento dos signos e das manchas. Uber Era". mais que tudo isto. que eles . Não me refiro certamente ao uso específico de técnicas de desenho.tornam VIva ao fncclOnar ramos inflamáveis uns contra os outros. (. Roma. 36. 1947. ao ponto de pescar do ャセッ@ ideias transitoriamente esboçadas· . passamos a compreender uma CruCIal dirnensao de toda a sua produção manuscrita . assim como a «arte» de desenhar pode prescindir do desenho. a」セ。ャュ・ョNエL@ mセゥウ@ do que tuna arte. em simultâneo. quando noutra ocasião Janouch os viu. 34Ibid. numa arte e num medium. entre a chamada à expressão e a arte. que creio ser capaz de iluminar o uso que. quando se tornou mera mecânica. como lhe dirá o escritor. e do qual se aguardam surpresas. "Kafka セ n. Através dos meus desenhos quero confrontar-me com as formas que recebo pelos sentidos»'. Kafka. pessoais» e. mais do que tratar de resíduos de deseョィッセL@ importa observar アセ・L@ em Kafka. um trabalho que creio derive de uma anterior dissertação académica . mas antes ao lado mágico e macabado da prática teórica que define o desenho. que. amarrotá-los ou deitá-los fora . COflllersations with Kafka . Zeichner'.). Bardi. É entre estas considerações que. mas não só. como os doodles. p. à luz daquilo a que chama o expressionismo de Kafka. o desenho é uma íntima exi9ência de expressão 9ráfica.' encontra-se disponível um catálogo. sem conhecimento dos 、・ウョィセ@ ・カセョエオ。ャュ@ existentes no fundo conservado por Brod) de Fnederike Fellner. o «desenho» sempre prescindiu dela. penso. num estado que oscila entre o projecto.· Anunciado está. quando Kafka solicita aos amigos que o abracem na destruição da própria obra. 'e m vias da realização. 1971. um extenso trabalho de exegese (creio sempre apenas sobre a obra conhecida. Z. Para nos entendermos. 35.as ッョ、セ。Nウ@ Esta é uma imagem mágica do fogo. eles não eram desenhos insignificantes.'O É neste limiar entre o mundo pessoal e o impessoal. Fischer. não só ficou desiludido. p.1974. 94- 142 143 . 7 「セ、・@ ウ@ ao Epressjonist dセヲHウュ。ョBL@ in Neohdicon. pp 237. Frankfurt am Main. Cf. seja o do próprio Kafka: «Nenhuma obra melhor que o esboço (ou o esquisso) pode documentar. E aquelas que se chamaram «Artes do Desenho» durante o maneirismo e que sobrevivem como Belas Artes (plásticas.. sobre a obra grafica conhecida. «ilegíveis. a 'investigação intelectual' e.277. a crítica do artista (aquele inserir. não no contínuo confronto com o inefável da medialidade). Quando os esqurrnos querem fazer fogo num toro de madeira. de 1947. 2003 (segunda edição. encontramos um nco pensamento gráfico e um contínuo uso d. na inteira extensão da sua produçao. e aquele progressivo 'afastamento do mundo psicológico'.siero critico e un catalogo . que Gustav Janouch recorda e coloca na boca do amigo e mentor. visuais ou figurativas) . das infinitas possibilidades de desenvolvimento). Storia dei disegtlo.a íntima exigência de expressão gráfica. mas disse serem desenhos "puramente 3 Claude Gandelman. por definição. com isto. vゥャセァ・@ lJress. graficamente. 214. Svol9imento deipen. nasce a arte». ele reafirma-se como um desenhador fora dos dominios da literatura (que cristalizariam as suas práticas no quadro jurídico da autoria. que é a superação da qual.sobre o legado.ichn"n9 . Kunstenaar. Portanto. p. emerge como movimento entre uma primeira concepção e uma última realização. basta evocar um exemplo. Max BROD . enquanto medialidade. inadvertidamente. o historiador italiano Luigi Grassi defendia nos seguintes termos esta ideia de esboço. para finais de Junho deste ano de 2014. p. Quando Janouch o surpreendeu pela primeira vez a desenhar.

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p. de um conceito. antes de se tornar cinzas. tal como acontece nos poucos momentos que uma casa. de magia primitiva». com tudo aquilo que ele nos deixa para pensar. pergunta-lhe uma vez Janouch. 35.) Estou ainda numa aliança egípcia. «Não . É pertinente. e nunca com o que cada uma exaure da sua possibilidade (num conhecido ou enquanto conhecimento). dissolve toda a chamada à expressão numa preferência pela ignorância da técnica . cit. . a tentativa. que Kafka opera para além das intenções de constituir obra e colocar-se no quadro tecnológico de uma tradição literária ou artística. Só assim é posslvel compreender a seriedade das suas palavras quando confessa ao amigo que as figuras dos seus desenhos «aparecem do escuro e no escuro desaparecem». Ainda não atravessei o Mar Vermelho»". de cada vez. ousando redigir edições finais do trabalho deixado em fragmento é. Portanto.LセN@ < !!. 1951). que o seu desenho é «uma tentativa perpetuamente renovada. à semelhança da casa. depois de passar pelas mãos de Brad. temos de olhar para a pilha iNcendiária de Kafka como o único monumento eficaz da sua obra. 36. Torino. «Tiveste lições de desenho?».. Os meus desenhos não são representações. todavia. na sua total aderência àquilo que reflecte e. que. sem sucesso. idêntica frustração que Gustav Janouch sentiu CInte a primeira edição das suas conversas com Kafka (Fischer. assim. 199-20L Oavide Stimille. 11 12 147 . 2001. e em conclusão.diz Kafka -Tentei definir à minha maneira o que via. recentemente citada por Oavide Stimille. um mero absurdo e o maior impedimeNto ao encontro com o legado mais fértil de Kafka. Cf. entender. recordar uma passagem de Walter Benjamin. daqui. cit. abre nesses hiatos que importa. no qual o meu coração se afund'ou»).. e que refere o facto de Kafka ter eventualmente ruminado. neste sentido. Gustav Janouch. op. na tentativa de descobrir qual fosse o seu aspecto exterior. 14 Ibidem. ficou reduzida a um mero «(esqueleto. vergonhoso resto. ambas revelam-se no momento. (. p. de tomar acabada a obra de Kafka. nos confrontamos com uma real percepção da sua potência ou desenho. op . se medem com este «o que fica por pensan>. de um pensamento." Tal como a força de uma ideia. A medialidade capaz de definir o seu desenho expõe-se. p. do ponto de vista das considerações aqui delineadas.. em que tudo se mostra evanescente e arde . Bollati Boringhieri.só aqui. 9. leva a arder . por parte de Brod. p." de uma pensabilidade que vibra em hiatos. nunca ter conseguido saber da existência dos espelhos. sem. embrião mutilado. É a temporalidade que ele. Fisionomia di Kafka. deste modo. mas ideogramas pessoais. ante o incêndio e a estrutura nua. Gustav ]anouch. -oe . durante toda a vida." U 13 É interessante notar.porém. em última análise.