Umuarama, domingo, 18 de abril de 2010

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Lembrei-me, no dia de páscoa, da última vez em que eu acreditei no coelhinho trazedor de ovos. Uma amiguinha havia encontrado um ovo dentro do ninho que tinha feito para o coelho e veio me mostrar. Fiquei tão maravilhada com aquilo que corri fazer um ninho também. Coloquei grama verdinha dentro de uma lata vazia de cera Parquetina, os assoalhos de casa eram encerados com ela semanalmente, e esperei. Fui até dar uma voltinha para não intimidar o coelho, mas não adiantou. O ovo não veio. Desacreditei totalmente daquele personagem. Só mais tarde descobri que coelho não botava ovo. Muito menos de chocolate. O coelho da páscoa, então, não tinha mais espaço em minha vida. Perdi a fé nele. Sem fé não dá. “O que seria de mim sem a fé que eu tenho em você?” frase de uma canção do Roberto e do Erasmo Carlos expressa perfeitamente o papel da fé na vida humana. A canção fala das maneiras que ele usará para se aproximar de seu criador. Muito bonita. Além de elevar o pensamento ao relacionamento com o Sagrado, cabe bem em todo tipo de relacionamento. O que seria dos pais se não tivessem fé no filho? Fé que ele crescerá e se tornará um adulto de bem. O que seria do filho se não tivesse fé nos pais? Fé de que eles sempre serão o porto seguro para onde poderá voltar mesmo depois de adulto, sempre que necessitar. O que seria do marido se não tivesse fé na esposa? Fé de que ela é realmente companheira e parceira na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. O que seria da esposa se não

Por Ângela russi
tivesse fé no marido? Fé de que ele proverá não apenas a casa, mas, também a ela com o carinho e a atenção de que ela deseja. O que seria do idoso se não tivesse fé no jovem? Fé que ele não o abandonará quando a senilidade pesar demais. O que seria do jovem sem fé no idoso? Fé de que ele é sábio pela experiência adquirida em uma vida inteira. O que seria do professor sem fé no aluno? Se não puder crer que ouvirá seus ensinamentos para ter uma vida mais digna? O que seria do aluno sem a fé no professor? Se não crer que ele é um mestre que pode ensiná-lo de verdade? O que seria do médico sem fé na medicina? É impossível imaginar. O que seria do paciente sem a fé no médico e na cura? Morte na certa. O que seriam dos amigos sem a fé que têm um no outro?

Não dá para imaginar. Eu poderia seguir com essa pergunta infinitamente. O ser humano é um ser social. Quando nos relacionamos com outra pessoa temos pelo menos um pouquinho de fé nela. Fé de que seja boa. Fé de que seja confiável. Fé de que goste da gente. Sem fé não há relacionamento que resista. Pais e filhos sofreriam demais se perdessem a fé um no outro. Marido e esposa se tornariam desconhecidos vivendo sob o mesmo teto. Idosos e jovens perderiam uma troca valorosa de experiências. Professor e aluno só deixariam marcas ruins um no outro. Médico e paciente perderiam a chance de fazer a ciência ser mais humana. Os amigos não existiriam. Pode haver amizade sem fé no outro? Sem fé a vida seria vazia, pois ela é feita de relacionamentos. O que buscamos nos relacionamentos? Amor. Todos nós queremos ser amados. Conforme cantavam os Beatles, “All You Need is Love”, tudo o que precisamos é de amor. O que se quer em um relacionamento é ser amado. Aquele coelhinho, na minha cabeça infantil, só amava minha amiguinha. Ele não deu retorno ao meu singelo pedido. Acredito que continuei amando a páscoa porque encontro reciprocidade no meu relacionamento com o verdadeiro dono dela que não é um simples personagem. É o Criador de que Roberto e o Erasmo falam. Hoje continuo fazendo ninhos. Sem lata de cera, sem grama verdinha, só com carinho, respeito e amor aos que cruzam o meu caminho. O que seria de mim sem a fé que eu tenho em cada um deles? Nada.