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A DIMENSÃO DO HABITAR NA OBRA A CASA, DE NATÉRCIA CAMPOS: UM OLHAR GEOSÓFICO
THE DWELL DIMENSION IN THE WRITTING A CASA, BY NATÉRCIA CAMPOS: A GEOSOPHIC VIEW 

Resumo

Abstract

A ciência geográfica comumente aborda a habitação humana como
simples moradia. Em seu tratamento sobre a casa, procura relacionar
suas características físico-estruturais aos elementos que compõem o
seu entorno. Elementos que influenciam nas suas formas de telhado,
na estrutura de suas paredes, no tamanho de seus cômodos e até
mesmo na composição de seu mobiliário. Apesar da importância dessa
abordagem, não podemos deixar de considerar a relevância do ato de
habitar quando na análise da casa. É nesse sentido que consideramos
a obra A Casa, de Natércia Campos, um singelo exemplo desse ato
existencial pautado na intensidade do habitar. Pois, antropomorfizando
a casa, também narradora desse romance, a autora torna-a sujeito
da existência daqueles que por ali passam, assim não sendo a casa
simples objeto de moradia. Eis, portanto, uma tentativa de relacionar
Geografia e Literatura, a partir de um olhar geosófico, na ânsia de
buscar ampliações compreensivas para os dois conhecimentos.

The geographical science usually deals with human house as simple
habitation. In its treatment about home, search for relate its physicalstructural elements that make up the surroundings. Factors which
influences the roof forms, the walls structures, the room sizes, even
the furniture composition. Despite the importance of this approach,
we must consider the importance of the dwell act into home analysis.
That’s the way considerated in the writting “A Casa”, by Natércia
Campos, a great example of this act guides by the intensity of living.
Anthropomorphizing the house, also the narrator of this novel, the
author makes the house a subject of the existence of those who’s passing
by, transforming it in not just a habitation object. So, that’s an attempt
to relate geography and literature from a geosophic perspective,
looking for comprehensive extensions for both knowledge.
Key words: Home, Dwell, Geosophy, Geography, Literature

Palavras-chave: Casa, Habitar, Geosofia, Geografia, Literatura.

1 Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). tiagogeografia@yahoo.com.br.
Rua Dr. Costa Araújo, 1060, apto. 601, Bairro de Fátima. 60040-620. Fortaleza, CE.

Geograficidade v.01, n.01, Inverno 2011
ISSN: 2238-0205

Artigos

Tiago Vieira Cavalcante1

a qual considera o homem em sua relação com seu espaço vital (território-nação) e dos trabalhos de Élisée Reclus. essas relações encontram-se inibidas. Roberto DaMatta (1997). como. em especial. elas somente têm dificuldades e encontram algumas barreiras para serem efetivadas. a religião. Tal fato leva-nos a lembrar das divergências comumente relacionadas à Geografia – que o diga a ilustre dicotomia entre Geografia Física e Geografia Humana. Dentro desse breve contexto. 80). as relações são colocadas em segundo plano. nossa sociedade. empregando convicções poéticas”. n. de demência frente sua sapiência (MORIN. Fatos dispensáveis para a compreensão da verdade na ciência positiva. e os sentimentos que esses elementos evocam e traduzem. tal fato não é menos tempestuoso. paradigmas. queremos consagrar nossos esforços a determinar a beleza íntima das matérias. da Antropogeografia ratzeliana. a arte. Estranho para nós. 1994. E dizemos isso. dito moderno.01. não existia fronteira entre o poeta. meados do século XVIII à segunda metade do século XX. 1994). portanto. onde cada coisa busca ter o seu lugar apropriado (ideias. “Ocorre que. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 No campo das relações entre a ciência e a arte. era mais uma ciência da natureza do que uma ciência do homem e para o homem2.33 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. na conjuntura moderna. entre outros. Como aponta Michel Maffesoli (2005. de inverdades e pecados em suas verdades. sua massa de atrativos ocultos. 2007). pois antes se complementavam ou estavam mais próximas em tempos em que a filosofia era tida como a matriz dos conhecimentos. é preciso fazer o exercício daquilo que ele denomina de elogio à razão sensível. p.01. Geograficidade v. a Geografia não escapa de tal alarde. Oposição entre o pensado e o vivido. Baseada em preceitos vinculados às ciências naturais. a Geografia dessa época. pensar a ciência em sua disciplinarização e afastamento do mundo vivido. muitas vezes. e. Confirmando nossas assertivas. Razão que não desconsidera o conhecimento ordinário representado pelo cotidiano. Não que elas não aconteçam. Amélia Nogueira (2010. Reflexo de um paradigma positivista moderno. (pré)conceitos. mais especificamente entre a ciência e a arte literária. porque sabemos que essas são relações que variam com o tempo. mas também na maneira como a ciência em geral. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Considerações Iniciais – Divergências “Deixemos a outros o cuidado de estudar a beleza das formas. Gaston Bachelard E m um mundo. Relação que insurge no cotidiano humano. Pretensões que não podem valer senão como atos da linguagem. para citar os clássicos. Este dotado de subjetividades e irracionalidades. alardeadora da necessidade de uma verdade que dispensa os pressupostos metafísicos. em especial L’Homme et la Terre. é relacional. por exemplo. assim como entre conhecimentos comuns dentro dessas “grandes áreas” –. 224) observa: “A Geografia diferente de outras ciências do homem nasce como ciência da Terra”. todo esse espaço afetivo concentrado no interior das coisas. 2008). faz rivalizar diferentes tipos de conhecimento inerentes ao pensar e viver humano. mas parece ainda pairar nas amarras científicas das diferentes disciplinas do conhecimento. 1 2 Embora saibamos da importância do homem na análise dos gêneros de vida de Vidal de La Blache. naquela época. em especial o Brasil.). Elabora-se positivista corroborando com a dureza das descrições naturalistas verossímeis. embora tais conhecimentos não cessem de lançar olhares de desejo um sobre o outro (VIERNE. Relações que se dissociam. quando partimos de um pressuposto científico que procura compreender/interpretar aquilo que nos parece subjetivo e/ou irracional. Artigos Tiago Vieira Cavalcante . principalmente. quando para pensadores sociais. o filósofo e o físico: a sua missão comum consistia em dar uma explicação do mundo” (VIERNE. dogmas. p.

pretendemos fazer uma primeira e breve reflexão sobre a dimensão do habitar na obra A Casa. Preferência proveniente das diferentes correntes do pensamento geográfico. Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Vidas Secas de Graciliano Ramos.. das divergências entre a ciência geográfica e a arte. tornada inteligível e identificável. mas parte integrante da trama. O referido autor indica vários estudos geográficos que possuíam algum tipo de relação entre a ciência geográfica e a Literatura. Apesar disso.34 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. a partir dos anos 70. de modo geral. Jorge Amado.01. Não fugindo. 2007). Corrêa e Rosendahl (2007. entre outros (os quais possuem fundo realista-regionalista). esclarecendo que esses trabalhos não propriamente tratavam da literatura como um novo campo de pesquisa. por isso. Música e Espaço (2007). como indica Monteiro (2002). embora em alguns momentos. o campo de pesquisa da relação entre a Geografia e a Literatura se abre. pois ela era tomada somente como uma fonte complementar para os estudos geográficos realizados3. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Tiago Vieira Cavalcante 2 3 Para maior detalhamento dos autores e obras que relacionavam de alguma maneira a Geografia e a Literatura. porém. Tal campo leva em consideração.01.. portanto. 08) esclarecem a preferência do geógrafo pela literatura realista expondo: A distinção inicia-se pela própria seleção das obras a serem analisadas. assim como as obras de Rachel de Queiroz. em especial. por serem obras ficcionais. Apresentamos esse contexto delineador. 1990). necessários e insubstituíveis. realizando estudos variados.] a geografia humana se reconhece como parte do estudo da Terra e deve. são tão comumente dissecados em seus aspectos histórico-geográficos por diversos pesquisadores. o interesse dos geógrafos pela literatura não é novo. romances como. quando relaciona a Sociologia à Geografia. Não à toa. enquanto elementos indissociáveis. ver os capítulos referentes ao trabalho do geógrafo Marc Brosseau. ao “espírito do tempo”. José Lins do Rego. Além disso. organizado pelos geógrafos Roberto Lobato Corrêa e Zeny Rosendahl. a literatura como complemento de uma Geografia Regional. conquanto tenha se mantido muito marginal e os trabalhos tenham sido escassos (BROSSEAU. indicando uma . Artigos A seguinte afirmação de Vidal de La Blache (2010. dentre eles a arte. Destarte. tais noções não fiquem tão claras. da autora cearense Natércia Campos. como transcrição da experiência dos lugares e/ou como crítica da realidade e da ideologia dominante. p. 2007). o espaço e o tempo são conceitos/noções de suma relevância na análise geográfica sobre a literatura. a exemplo da corrente cultural-humanista e da marxista (BROSSEAU. a Geografia busca afastar-se dos conhecimentos tidos como não científicos e daqueles que exprimiam de algum modo temas subjetivos e/ou metafísicos relacionados à vida e cultura humana. Têm certa fixidez no espaço e no tempo. em importantes documentos poéticos de fragmentos espaço-temporais do Brasil. para então lançarmos possíveis convergências entre essa mesma ciência e uma obra de arte literária (romance). Constituem-se assim. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 preferência constante pela literatura realista. 04). citando autores como Paul Vidal de La Blache e mesmo Alexander von Humboldt. com a Geografia Humanista anglo-saxão. Ao geógrafo interessam aquelas nas quais o espaço e o tempo não sejam meros panos de fundo. inseridos no livro Literatura. são localizáveis nesses dois âmbitos. sem os quais esta não poderia ser construída. é esclarecedora de sua preocupação naturalista e. Geograficidade v. n. Sinal da não consideração das atitudes e sentimentos humanos em relação com a vivência no espaço: sua geograficidade (DARDEL. permanecer distinta das ciências sociológicas. por exemplo. também da preocupação dos geógrafos da época: “[. Conscientes desses pressupostos. Ela procede da terra ao homem e não pela via inversa” (grifo nosso). Mário de Andrade. ou seja. p.

certamente bem mais do que a abreviada vida de um homem. ao mesmo tempo em que narra sua vida. p. Não sendo. recheada de humanidade. os espaços e os tempos em suas tenras lembranças. com todas as suas contradições”. em todo o seu caminho existencial. seus personagens passam. Para Pardal (2003. percebermos o quanto a Casa quebra de modo 3 4 É na condição objeto-sujeito que optamos por manter. as histórias que aparecem. p. de todo modo. De tal modo que diferentes gerações de uma família atravessam a vida da própria Casa. nessa abordagem ficcional de Natércia Campos. a narradora bem ilustra as angústias e anseios daqueles que. Buttimer (1985). simples moradia humana. tomando como seu atributo maior a dimensão do habitar. dessa importante propriedade. os aspectos de sua construção que nos levaram a compreendê-la como uma literatura capaz de nos oferecer aquilo que denominaremos de atitudes espaciais.. Nesse contexto. diante das vicissitudes da vida (ser) e da geografia que os comporta e é sua essência (estar). com amparo na relação objeto-sujeito fenomenológico. Histórias se acumulam.. preenchem a Casa de geograficidade. sua narração não se constrói em consequência do contexto geográfico no qual está inserido. por parte da autora. Geograficidade v. entre o mapa e a trama (MONTEIRO. do ser humano.01. talvez uma singela consideração. como indica Pardal (2003. 2002). motivo para a mesma ter vida. Queremos. Não obstante. o seu lugar. também não esconde os detalhes dos acontecimentos vinculados às diferentes gerações de uma família ilustrada no decorrer da narração. Lugar que aparece como denominador comum no princípio de uma possível aliança entre a Geografia e a Literatura. 56). portanto. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Texto e Contexto – Convergências Para analisarmos a obra ACasa (2004). A Casa4.55). é interessante. Fato este que também aparece no título da obra de Natércia Campos. com intuito de representarmos a propriedade humana que esta possui. argumenta que tal premissa metodológica tem desafiado os procedimentos da ciência positiva. o cotidiano no espaço vivido. na verdade.01. Dessa maneira. novos olhos abrem-se ávidos por vida e a morte ronda a todo instante. Ela não é um simples lugar. n. mas sim com base nas relações entre os seus moradores e destes com seu espaço vivido. não por se desfazerem dela como domicílio ou mesmo por serem meros transeuntes pós-modernos. ou de outra maneira. multiplicando-se assim. pela lembrança da narradora. mesmo estando fixa no sertão. mera habitação ou mesmo bucólico lar. quando tratarmos da Casa. mas sim. Não nega nenhuma dessas condições. mas a Casa perdura. sendo personagem tão ilustre quanto os que nela moram. É no peculiar cruzamento de geograficidades que se encontra a riqueza geográfica do romance. Ela é bem mais. inicialmente. que a Casa. corroborando com as considerações fenomenológicas na pesquisa. com isso. principalmente. na pretensão de descortinar as vivências espaciais que se dão nos meandros da Casa-Grande (A Casa). Por atitudes espaciais entendemos as diferentes maneiras com as quais os personagens se relacionam com o espaço no romance. à racionalidade e à separação de “sujeitos” e “objetos” na pesquisa. ou de outro modo. sua primeira letra em maiúsculo. pelo fato da Casa ser construída para durar. são tão importantes quanto os personagens”. esclarecer o fato de compreendermos a vivência no espaço.35 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. E os seres humanos passam por ali. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 singelo – principalmente nas histórias trazidas por aqueles que ali passam – seus limites geográficos. também faz parte dessa relação.] tudo o que ocorre ao redor da casa e. Portanto. “fala. a Casa é tão importante quanto os que por ali passam. “[. como intimamente vinculado às atitudes que os seres humanos têm para Artigos Tiago Vieira Cavalcante . Esta última. assim como é uma crítica radical ao reducionismo. apresentaremos. como veremos. É assim que.

José Lins do Rêgo (para o Nordeste açucareiro). portanto. no título do trabalho. e. Todavia.01. tendo nascida e criada na Praia de Iracema. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 o sertão nordestino). como a obra literária aqui analisada. geosofia é o estudo da sabedoria geográfica de qualquer ou todos os pontos de vista. pois. assim como no linguajar dos personagens e narradora desse romance. localizada historicamente. delineiam ricas noções geográficas dos lugares inseridos em suas obras. sendo também filha de um dos maiores contistas cearenses: Moreira Campos. é expressão do valor geográfico ou espacial de obras artísticas. de um ponto de vista que considera a obra literária como fonte de conhecimento geográfico. Natércia Campos (1938-2004). Érico Veríssimo (para o pampa sulino). Jorge Amado (para o sul . elabora sua obra dentro de um contexto Artigos Tiago Vieira Cavalcante . Antônio Cândido de Carvalho (para o sertão mineiro) e Mário Palmério (para o sertão oeste . O referido autor exemplifica com Ferreira de Castro (para a Amazônia seringueira).mineiro). Uma verdadeira geopoética do espaço brasileiro. Hugo de Carvalho Ramos (para o sertão goiano). Raquel de Queiroz (para Geograficidade v. diga-se de passagem. o que amplia nossa percepção geográfica para além das localizações espaço-temporais. pois a autora nunca viveu no sertão. Mesmo com estreita aproximação da literatura regionalista. O olhar geosófico. em especial. como indica Pardal (2003) e Lima (2009).01. as obras literárias. apesar do grande vigor regionalista. mas não somente – e o que é o mais importante para nós nessa interpretação – consideramos. mais especificamente. Dalcídio Jurandir (para a Amazônia marajoara).baiano açucareiro). cidade de Fortaleza. isso não nos impede de percebermos a importância do espaço e do tempo no desenrolar desse romance. período da história da literatura brasileira que abarca as décadas finais do século XIX e iniciais do século XX. Atitudes que nos levam a pensar no sentido da geograficidade dardeliana. em especial as de cunho realistaregionalista. a fase regionalista. pois essas noções apresentam relações diversas entre os sujeitos-personagens e a narradora-casa. possui autores que representam tanto os lugares de onde provêm como também a realidade social. narradora da obra e objeto-sujeito no romance. na “consciência” que possui sua casa antropomorfizada. nesse aspecto. n. Contudo. vivências e mortes dos sujeitos-personagens das diversas gerações que perpassam a Casa. Wright (1947). Comumente. mas sim naturalista. alguns autores realistas/ naturalistas como Aluísio de Azevedo (para o Rio de Janeiro entre o século XIX e XX) e Adolfo Caminha (para Fortaleza entre o século XIX e XX) os quais. O romance de Natércia Campos. Partimos. do que propriamente o tempo em que se passam essas tramas. Graciliano Ramos (para o agreste alagoano). o romance se difere dessa literatura por não poder ser localizado espaço-temporalmente. mesmo não sendo representantes da fase regionalista. Podemos somar a esses. como indicara John K. nas vivências de seus personagens em diversas tramas e. têm um arcabouço espaço-temporal bem delineado. não dá indicações do espaço-tempo do/no desenrolar da trama. elaborou seu romance a partir de pesquisa intensa. Natércia Campos é uma contista nata. desses diferentes lugares. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico com esse espaço. E daí recai sobre nós uma primeira dificuldade tipicamente geográfica. bem delineado na apresentação de fauna e flora típicas do sertão.36 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. daí sua vitalidade. o romance de Natércia Campos um belo subsídio para compreensão de atitudes espaciais traduzidas no espaço vivido a partir do desenrolar da história. Como indica Ruy Moreira (2007). As denominações dos lugares são ficcionais e o tempo histórico incerto permeia com maior vigor os nascimentos. bem delineadas pela autora. Cada qual tematizando a realidade do homem brasileiro segundo sua especificidade. Atitudes.

2008). como se o romance. seu sopro de consciência: Fui feita com esmero. Acabamos assim. porque. ou seja. A Casa continua sua íntima explanação sobre a feitura de seus meandros internos. afinal. fobias e crenças.] com certeza. o qual constrói a consciência da Casa. antes que eu mesma dessa verdade tomasse tento. Possui lembranças. a Casa é objeto-sujeito na trama do livro. seu movimento. Imaginário que nos leva a pensar na dimensão do habitar e nas atitudes espaciais dos sujeitos-personagens que caracterizam tal dimensão. termos estes que não estariam tão apropriadamente empregados. religiosidade etc. nos faz pensar na dimensão do habitar. lendas. já que ela diz não ser do sertão. a Casa ter sido humanizada pela autora (e. os troncos de jucá. diga-se de Geograficidade v. Paulo de Tarso Pardal reflete o seguinte. os da ibiraúna. e diante dessa condição. ao pensar sobre o romance da autora: . sobre o imaginário fantástico desse povo. explorando suas peculiaridades. levando em consideração para esta análise a força ontológica que o romance possui. é ele que nos leva a fazer isso. As madeiras de lei duras e pesadas com que me construíram até a cumeeira têm o cerne de ferro. sendo ela a narradora de todo o romance. p. logo no início. preservado e incorruptível cedro de porte nobre (CAMPOS. de Natércia Campos. se tal pesquisa não tivesse sido feita. pois. p. Das chapadas profundas do sertão veio o pau-branco da cor de prata acinzentada a clarear a mata onde vive o oloroso. ficcionalmente. como vimos na citação acima. tem como uma de suas principais peculiaridades o espaço geográfico. Seu complexo bíblico de Abel. a braúna. pelo imaginário fantástico que permeia o espaço sertanejo a partir daquilo que a autora pesquisou. Se o Sertão é por Natércia Campos representado. de certo modo. daí sua força nos vigamentos e arcos indígenas. Casa de corpo.. Sua fluidez. n. contaram os ventos. no andar cotidiano. encabeçado no vai e vem espaço-temporal interpelado pelas lembranças da narradoracasa. 2004. apesar de sua inteireza. Meu embasamento. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Tiago Vieira Cavalcante [. (PARDAL. fez uma imensa pesquisa..37 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 Artigos de literatura fantástica de desdobramentos múltiplos. conhece a personalidade dos seus moradores. Assim. mesmo expostas ao tempo: o estipe das carnaúbas. Noção de seu espaço pessoal elaborada na relação casahomem-universo (BACHELARD. Exemplo disso é. do angico de raias castanho-negro de tronco rugoso parecendo trazer nele incrustadas pequeninas ostras. o exame geográfico não é levado em consideração com vigor. portanto. impressões. Nesse contexto. de veios escuros. alma e coração Como se viu. desde as pedras brutas quebradas pelos homens a marrão aos baldrames ensamblados nos esteios. mas. alegrias. do sabiá-piúga de casca da cor da plumagem desse pássaro. o romance A Casa. violáceos e algumas mal podiam ser lavradas. superstições. 2003. reúne a possibilidade de encontros e convergências. madeira preta dos índios fechada à umidade por ser impregnada de resinas e tanino. Todas elas foram cortadas na lua minguante para não virem a apodrecer e resistirem.. isso se dá. no aqui. possui total noção físico-estrutural de seu “corpo” construído e fincado na paragem sertaneja. Usaram pau d’arco rígido e flexível. sobretudo.01. dos termos que compõem esse imaginário. ali e acolá que a própria fluidez humana possui. onde esta pousa e vive –. por aqueles que nela habitam). 53) É esse caráter simbólico. com pés fincados no imaginário. as linhas foram feitas da aroeira-do-sertão – a árvore da arara. fosse um amálgama de pequenos contos. não somente das suas crenças. seus dramas. principalmente. 07). que mais nos interessa para a composição e interpretação da dimensão do habitar na obra. Além disso.01. tomando como base a apresentação contida na edição de 1999. deu-me solidez.

Os ventos trazem notícias de longe. É também base para a Casa. Geograficidade v. Foram os ventos que me contaram histórias. 2004. 2004. rememorando a fala do seu primeiro dono. Os mortos acodem ao serem invocados seus nomes (CAMPOS. Encantei-me com aquelas gotas de água vindas do céu. o tocar da água da escassa chuva que faz grande falta em tempos de seca e o fumegante calor do fogo árido em suas entranhas. também elementares. Francisco José Gonçalves Campos. p. p. constituemse em obras “que prestam forte contribuição a especulações sobre o espaço na literatura”: La psychanalyse de feu (A psicanálise do fogo). atiçando a memória. A terra demonstra sua força e dureza sintetizadas em trovões que fazem com que a Casa sinta oscilar seu chão. se podia ouvir nas encruzilhadas como seria o tempo no ano vindouro. comumente trazido em tristes lembranças pelos ventos. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Tiago Vieira Cavalcante 4 5 Além de A poética do espaço. sendo dela a origem dos seus componentes. perpetrando a renovação da vida vegetal e animal. cangalhas bridas. p. 10. Sua delicadeza mescla-se então à escuridão de sua fundura. [. Um verdadeiro prato cheio para a interpretação poético-imaginativa bachelardiana e sua poética do espaço (2008)5.01. Na época da grande volta dos ventos. sua fluidez e perspicácia. português do Minho (por isso as aspas): “A natureza traz em si o dom de revelar o que está por vir a acontecer. tendo eles serventia para a defesa em caso de cerco. de acordo com Antonio Dimas (1987. tendo atuações sempre presentes nas histórias da Casa e na dimensão do habitar dos seus moradores. mas o homem vive à mercê . L’eau et le reves (A água e os sonhos). Essa vivacidade é importante exemplo dos elementos próprios da Terra. O ar é representado pela leveza dos ventos. acordando reminiscências.11). Revela a Casa. La terre et lês revêries de la volonté (A terra e os devaneios da vontade) e La terre et lês revêries du repôs (A Terra e os devaneios do repouso).. Sendo assim. L’air et les songes (O ar e os sonhos). os quatro elementos têm grande importância na narrativa. assim como do peculiar gnômon. Porejei Artigos passagem.. 18). Circulam.. “como se estivéssemos plantados no dorso de um grande animal de porte que se pusera em trôpego e lento movimento tal qual o dos cágados” (CAMPOS. dá também notícia da arrendada secreta para uso só das mulheres. Ainda sente com vivacidade o sopro dos ventos (sua voz) em suas paredes e telhados. os vários quartos divididos por indiscretas paredes-meias e os curiosos buracos grossos. selas. É sentir o que dizem os quatro elementos. Sua profundidade carrega a lástima de um menino morto por afogamento. machados etc. me deram ciência. a força do tremor da terra. Desse modo. que constituem a natureza geográfica do/no romance. do açude.] que fui batizada pela chuva repentina e alvissareira. de um compartimento para o guardo de arreios. apresenta seu longo e escuro corredor. Sorvi e senti-me renascer. pois a terra é sua mãe.38 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. A água é ilustrada no seio do recurso hídrico (o açude) que a Casa enxerga e cujo fresco pode sentir. feitos na altura da cintura de um homem. Foi em julho. o relógio do sol. assim como da vida humana que emana de dentro das paredes da Casa. da capela. 43). relhos. assim como o som das palavras pronunciadas em meio às notícias que formam segredos circundantes. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 dos seus quatro humores e não atenta ao eu redor” (CAMPOS. Foram eles nos seus ciclos que me disseram da magia e da força das palavras pronunciadas a desalojar o que está emparedado. Tal elemento também se mostra presente nas escassas chuvas que fazem renascer o sertão. p. do curral. n. 20). molhando e avivando a cor das minhas grossas telhas-canais de barro cozido. de casa-grande sertaneja da localidade de Trindades. depois de agosto sempre de céu escampo. 2004. Tais elementos representam as forças. Os segredos se desassossegam. Possui também consciência do espaço em sua volta e ainda além.01.

vozes. sendo sagrada em sua habitabilidade (BACHELARD. Esquenta as suas paredes. a morte. compreendendo coisas que os homens não ousam compreender. tenhamos então uma consciência própria da autora sobre os causos do sertão e de como. p. pois voltadas para o sol. temos a gênese da construção do romance (LIMA. Construída para ser habitada. Afinal. que dá vitalidade à Casa. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Tiago Vieira Cavalcante O fogo sertanejo. sendo observadora privilegiada do cotidiano dos/nos seus meandros. gerou neles a loucura de viverem como se imortais fossem. de alquimias e falatórios. de ser narradora e personagem (objeto-sujeito). Estão ainda em pleno aprendizado. até certo ponto. gestos. 2009). se põe morgado. para não perdermos a reflexão: o que seria do espaço sem o ser humano? Artigos como os grandes cântaros. eles se desdobram no ambiente familiar em suas diferentes gerações. daí tanta lágrima e sonhos vãos (CAMPOS. porventura.01. Os personagens. . 09). a nosso ver. p. BOLLNOW. a embotar estas reminiscências com sua pátina. na Casa. de acordo com Heidegger (2008. 15). São os moradores que nos trazem o pulsar do “coração” da Casa. como são indicadas pelo referido autor. atos que surgem imprecisos de suas épocas e gerações. o fim que se impõe a todo construir”. 2004. Emaranhamse as histórias. no dizer da narradora.39 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. seu lado de paredes curtidas. Duas atividades separadas (habitar e construir). “pai absoluto do lugar. Dessa maneira. na busca de respostas. Este seu viver de cada dia sob a expectativa da tocaia desde o berço e cientes da arbitrariedade d’Ela. a partir de sua personificação. que se pode sentenciar a qualquer momento. o desfecho. a Casa reúne as condições do habitar heideggeriano (2008). Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 entender sobre os seus de sangue para neles se descobri. quando são surpreendidos por Ela. sevícias e espreitas de espera e desforra (CAMPOS. Seu cotidiano e peleja subjetiva trazem humanidade à narradora. a chama que lhes deu vida. é a condição humana. o que seria dela sem seus peculiares moradores? Em termos geográficos. em todo caso. calcado no sol rei. imagens. assim como. Caracteriza morfoclimaticamente o sertão e expulsa nos períodos de grande seca os moradores da Casa. 24. se complementam no sentido que possuem para a geograficidade do homem com fundamento em suas atitudes diante do espaço no qual vive: a “alma” da Casa. 2004. Daí sua possibilidade de antropomorfização. Talvez. 2008. os bojudos potes nas cantareiras de imburanas da cozinha. ao mesmo tempo. n. os quais. cada um ao seu modo e no seu espaço-tempo. artes do velho tempo. 25). Ela vive em meio a lembranças e causos que presencia. lugar de cheiros. “seria. Diz ela: O que vivi no longo do tempo que me foi dado tornou-se um infindo círculo de viventes. onde se primeiro ouviam os sussurros sobre virgindades. até mesmo os mistérios d’Ela. Construção e reconstrução (nas suas várias reformulações) que também permeiam o espaço-tempo na/da Casa em suas várias reformas físico-estruturais. ao esconder-se da noite atrás das serras” (CAMPOS. Ressuscitam sem encadeamento. Sua falta de opinião sobre os moradores não se reflete na plena consciência que possui sobre as práticas dos mesmos. de picumãs enegrecidas e estancadoras de sangue. É sábia em sua vivência. e de todas elas sei o final. 2008). 126). Nas histórias diversas e nos pequenos contos – como O encoletado em couro e O menino de rasto de pluma –. Tal construção é originalmente o habitar. Sol. são fragmentos dessa dimensão (abramos aqui uma singela exceção para o Bisneto que atravessa boa parte do romance). na vã peleja com o obstinado Destino. de Geograficidade v. Diferem das histórias contadas pelos homens até porque o tempo deles é por demais curto. pois habitar. 2004. p. é a contraposição necessária da chuva. adultérios. sobretudo. É a maior consciente da dimensão do habitar no romance. Voltam sem o ímpeto.01. p.

o sangue da Casa O sangue é exemplo metafórico da fluidez que os corpos possuem em suas diferentes escalas. p. É dentro desse contexto que breve crítica sobre a percepção geográfica da Casa pode ser realizada. mesmo com a força de diversos santos. ideais. tem uma serventia. como expressão de sua consciência. 85). impossível na realidade (MARTINS.01. Por uma geografia do movimento: homem. n. e no romance responsável por nos ensinar um pouco mais sobre a dimensão do habitar humano. Movimento. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 Dentro de nossa compreensão de Geografia. Movimento não somente do passo humano. p. Os homens subiram em um platô no dia de São Vicente para espreitar os ventos. Geograficidade v. 13). despejando uma mão de água nas suas sepulturas. há uma forte relação entre o cotidiano dos moradores da Casa e suas crenças. atearam fogo em gravetos sem deixar que chamejassem e a fumaça subiu linheira em vez de espalharse como as águas. Para darmos continuação à interpretação do romance A Casa. 2006. O corpo da Casa não foge desta singela regra: se institui simbolicamente quando habitado pelo homem. Características próprias dos personagens sertanejos permeados por santos. do corpo humano ao corpo Terra. pois o cotidiano da Casa nos traz toda a pluralidade de aspectos que a preenchem. Nesse dia. “como uma dimensão originária da existência humana”. possível ficcionalmente. a sua maneira. ditos populares e hábitos peculiares.40 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. porém suas bases simbólicas são deveras humanas. É o espaço vivido enquanto Ser. caracterizando assim. mas também de suas vontades. p. medos. tal habitar. Suas bases estruturais. portanto. teima em não chegar. sonhos. E sua serventia principal. Desceram acabrunhados e esperaram o dia de Nossa Senhora da Purificação. a Casa. Assim sendo. quando no final de março o Vento Sul soprou Artigos Tiago Vieira Cavalcante . provenientes do sincretismo étnico-cultural do aqui com o além-mar: “As superstições de além-mar logo se aliaram às que aqui existiam” (CAMPOS. analisado por Jean-Marc Besse (2006. também de suas representações. desejos.01. assim como Eric Dardel. O último e terceiro santo em que puseram esperanças foi o peregrino São José. pelo Ser-humano: ser-na-casa é serestar-no-mundo. lembranças. tem a (sobre)vivência humana como base. Os santos são comumente citados e cada um. no romance. são terrenas. para à noite acenderem suas velas e rogarem mudanças no tempo. seu espaço vivido e a geograficidade que a permeia a partir das vivências espaciais de seus moradores. batizaram os nascidos mortos e os pagãos. Alguém afirmou: “Vai-se o tempo com o vento”. Percebamos agora. com maior acuidade. é nessa dimensão originária que nos aportamos neste momento. tradicionalmente a Geografia tem percebido os aspectos físico-estruturais da casa em relação com a natureza que a circunda em contraposição às possibilidades do habitar que ela contém. é em relação ao milagre da chuva que. Enquanto objetosujeito de estudo. nas porteiras dos currais e nos caminhos em cruz. 2007). 2004. Nossa Senhora das Candeias. mas nem neblina caiu durante o seu dia e as nuvens correram céleres. alma e coração para compreendermos que tal construção constitui-se em objeto-sujeito de estudo na trama romanesca de Natércia Campos. crenças. entre as paragens áridas do sertão. devaneios. 93). portanto. Possibilidades multiescalares em consideração ao movimento que a dinâmica do habitar exige: “A espacialidade da existência é movimento e não enraizamento” (BESSE. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Apresentamos a Casa em seu corpo. Afinal. A passagem seguinte nos demonstra bem isso. entendemos esse conhecimento.

E mesmo a parteira ao fazer o nascimento de Custódio. trazendo assim. de três portas. é a moradora de maior “intimidade” com os santos. 18). têm reflexos espaciais. 32). 2004. pois como diz Bento (personagem dotado de poderes de cura. como podemos perceber. depois de já ter presenciado tantos nascimentos e mortes em sua vida alongada de casa: “Cada vivente já vem temperado. artes do mestre ourives para dar-lhe maior sonoridade e. Ou como desfia Tia Alma: “Não se deve pronunciar nome de alguém que já morreu para não interromper seu repouso. 2004. Reza para os mortos e benze os que nascem. os tempos. 17. p. prediz acontecimentos junto aos viventes e. em tom de súplica. muito depois. vale dizer que os santos. pois ele ao ouvi-la saberá sua nova condição” (CAMPOS. As palavras assim anunciadas desencantaram a espera e então todos a um só tempo sentiram o que lhes era destinado. o malembe. A chama acesa em vigília protege os que tanto carecem. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 As crenças não podiam ser afligidas.41 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. voltada de costas. a noção de sua vivência no espaço. seu canto rogatório. seu habitar. filho problemático que nascera com um sexto dedo: “Se Deus marcou. o cotidiano da Artigos Tiago Vieira Cavalcante . 2004. com seu sino de bronze. Volto às construções: do curral. a geograficidade que o mesmo possui a partir das atitudes espaciais os quais pontuamos. certamente. olhando para dentro da despensa para garantir a subsistência dos alimentos e para que não faltasse quem deles se nutrisse (CAMPOS. hora “onde há de se fazer sesta” (CAMPOS. Tempos que rememoram espaços. É maldição morrer sem vela” (CAMPOS. do açude represando as águas do boqueirão do riacho da Jandaíra (CAMPOS. fazendo-o voltar. “assim chamada pelos sobrinhos por ser delas devota” (CAMPOS. Já os ditados populares eram tão valiosos quanto é hoje a moderna ciência. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico franco pela madrugada e a oração “Ad Petendam Pluviam” era já escutada por todos e rezada pelas mulheres no quarto do oratório de jacarandá. Nesses breves exemplos. p. Desfia a narradora. Tempos guiados pelo velho gnômon. dele próprio é quase nada” (CAMPOS. com suas efígies e velas. Antes do nome ponham a palavra – finado –. Junto a isso.01. nas noites. 44). p.10) e os tempos longos da estação das chuvas. p 22 – grifos nossos). A Casa revela: É sempre na estação das chuvas que retornam as velhas histórias. alguma coisa lhe achou” (CAMPOS. n. em especial.01. Exemplos de certo determinismo mito-genético. p. Lembro-me do início do meu despertar. p. Geograficidade v.] Nessa estação relembro o clamor das forças da natureza que se desencadeiam intemporais e eternas. 29). São elementos no romance que representam e nos ensinam. 25). Tia Alma (Maria). temperado com ouro. [. 2004. p. Há muito fora posta a imagem de Santo Onofre. O alto negro banto silenciou.. cuja porteira ficava no sentido do nascente para assegurar a prosperidade ao santo gado. a exemplo da hora das miragens em pleno meio-dia “em que os demônios libertam-se”. 2004. 16). marcado pela experiência daqueles que já há muito presenciam os causos do mundo. 2004. as crenças e os ditados populares são singelas demonstrações de como aqueles que perpassam a Casa (sobre)vivem entre e além de suas paredes. do cemitério e da capela. o relógio do sol. 2004. poderíamos destacar atitudes mais evidentes quanto à geograficidade da Casa como. não tendo se casado. Os diferentes tempos também exprimem atitudes específicas que.. cuida dos seus sobrinhos. Maneiras íntimas de estabelecer relação com o espaço: na escuridão do espaço que deve ter a presença iluminada de uma vela para que não se morra maldito e no necessário desapego do espaço por parte daquele que já partiu. 2004. com maior ou menor ênfase. assim afortunado por ter chorado no ventre materno): “Não se deve deixar dormir no escuro doente grave nem menino pagão. p.

Anne. BUTTIMER. música e espaço. . exatamente por não possuir mais moradores para abrigar e proteger. 1976.] incansável na difícil arte de arrumar. e que por não suportar a difícil tristeza de não poder ter um filho. n. suicida-se em um dos quartos da casa que a partir de então se torna assombrado. que o homem mais realmente vive na terra.01. as pilhas de achas de lenhas. p. do tórrido sol e das escassas chuvas. Perspectivas da Geografia. In: CORRÊA. assim como gostavam de perceber nossos colegas geógrafos tradicionais e neopositivistas as casas daqui e d’alhures. de pilões e almofarizes de pedras e de vassouras a cumprirem seu trabalho. BROSSEAU. um espaço topofóbico. descansa em sonho debaixo d’água. ROSENDAHL. 2ª ed. problemas. p. BESSE. Zeny (orgs. ROSENDAHL. CORRÊA.. 2008. p. 2007. Referências BACHELARD. Gaston. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Tiago Vieira Cavalcante O valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo.42 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. com seus ratos vigilantes e roedores de sobras. Jean-Marc. 2004. e pelo pensamento que a emoção provoca. Eis ela apresentada na compreensão do romance de Natércia Campos e de sua imaginação literária. 2007. 49). A poética do espaço. p. 2ª ed. Natércia. BOLLNOW. Literatura. de sopro nas brasas.. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 crônica do seu pensamento científico. Fortaleza: Editora UFC.). 17-77. como é pela emoção. Roberto. a sua verdadeira expe­riência. ROSENDAHL. Roberto L. Zeny (orgs. Curitiba: Editora UFPR. mulher e morte no Brasil.). “o lar das casas” (CAMPOS. Literatura. Roberto L. Literatura. p. sentindo-se assim vívida. com uma essencial reflexão sobre a arte. 2006. sem o cotidiano humano e suas atitudes espaciais? Respondamos: certamente mera habitação. Eis nossa Geografia! Preocupada. pôr em ordem e manter sempre limpos quartos e salas” (CAMPOS. Geografia e literatura. 5ª ed. A Casa. Expressão de sua sensibilidade e consciência da importância da arte para a compreensão do ser-nomundo. São Paulo: Perspectiva. Apreendendo o dinamismo do mundo vivido In: CHRISTOFOLETTI. Fiquemos. porém com alguns acréscimos. ou nas histórias dos seus regentes e dos seus donos (PESSOA. Rio de Janeiro: Ed UERJ. São Paulo: Martins Fontes. O homem e o espaço. Rio de Janeiro: Ed UERJ. 1997. elaborada por aquele que é um dos mais célebres artistas da língua portuguesa: Fernando Pessoa. o resumo da sua experiência emotiva dele. 2004. e. Seria Casa com “c” minúsculo. 2008. Poderíamos também nos lembrar da arrumação da bela Maria.. Podemos agora repetir a pergunta que antes já fizemos.01. 218).). cidadania. 1985. 07-16. Zeny. sem seus singelos moradores e suas crenças. registra-a ele nos fatos das suas emoções e não na Geograficidade v. O que seria da Casa. medos. DAMATTA. Roberto Lobato. 165-193. por fim. casada com um dos irmãos do malvisto Custódio. a qual no romance é “[. Antônio (org. portanto. como ansiara John Kirtland Wright. A casa e a rua: espaço. com o lugar da imaginação nas análises geográficas. 2004. ao final da história. São Paulo: DIFEL. Marc. com suas telhas. música e espaço. música e espaço: uma introdução. Artigos cozinha. Triste casa que. Otto Friedrich.28).. In: CORRÊA. Ver a terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia. CAMPOS. Rio de Janeiro: Rocco. p.

37. 3351. 143-159. MONTEIRO.) Geografia e pensamento geográfico no Brasil..8. SOUSA NETO. Aceito em Maio de 2011. 2003. WRIGHT. 2ª ed. n. Fernando. 2007. HEIDEGGER. Elisabete S. De Natércia Campos: Um Olhar Geosófico Tiago Vieira Cavalcante DIMAS. Obras em prosa em um volume. 2002. 8ª ed. Amor.1-15. 2009. Revisado em Maio de 2011. Michel. Carlos A. Manoel F. O conhecimento comum: introdução à sociologia compreensiva. São Paulo: Contexto. 1994. Florianópolis: Editora da UFSC. Ligações tempestuosas: a ciência e a literatura. LIMA. São Paulo: Annablume. Élvio Rodrigues. 01-04. 2007. Amélia R. Relações da sociologia com a geografia. Paulo de Tarso. n. Mário de Andrade e Guimarães Rosa. Geografia e ontologia: o fundamento geográfico do ser. Submetido em Fevereiro de 2011. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. MOREIRA. John K. Fortaleza: Edições Livro Técnico. Brasília: Editora Universidade de Brasília. (orgs. 1990. p. p. de Figueiredo. MARTINS. Antonio.. MORIN. Geograficidade v. Martin. Pensar e ser em geografia: ensaios de história.43 A Dimensão Do Habitar Na Obra A Casa. Artigos DARDEL. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco. VIDAL DE LA BLACHE. 3ª ed. São Paulo. p. In: BOMFIM. Petrópolis: Vozes. Ruy. Annals of the Association of American Geographers. 2008. Discurso do imaginário. VIERNE. A Casa: arquitetura do texto – uma investigação sobre a origem do romance de Natércia Campos (dissertação de mestrado).01. 21. 1947. v. 79-95. A Geografia e a experiência do mundo.01. B. Universidade Federal do Ceará. p. In: A ciência e o imaginário. Espaço e romance. Era uma vez. Ensaios e conferências. 219-226. Elogio da razão sensível. Rio de janeiro: Nova Aguilar. Eric: L’Homme et la Terre: nature de la réalité géographique. Terra incognitae: the place of the imagination in Geography. p. 1987. RJ: Vozes. Ser-tões: o universal no regionalismo de Graciliano Ramos. Fortaleza. 2008. Inverno 2011 ISSN: 2238-0205 PARDAL. Michel. MAFFESOLI. Petrópolis. Ruy. Paul. GEOUSP: espaço e tempo. Confins. 5363. Paulo A. Paris: CTHS. p. 2007. 1976. In: PARDAL. Programa de Pós-Graduação em Letras. p. 2005. Alencar. Paulo de Tarso. 2010. MAFFESOLI. 5ª ed. NOGUEIRA. sabedoria. 2010. n. Porto Alegre: Sulina. . poesia. In: MOREIRA. O mapa e a trama: ensaios sobre o conteúdo geográfico em criações romanescas. São Paulo: Editora Ática. epistemologia e ontologia do espaço geográfico. Edgar. Simone. PESSOA.