Anteprojeto de dissertação

Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

1 IDENTIFICAÇÃO
Título: O acontecimento biográfico: o biografema como ferramenta crítica da comunicação
Autor: Luis Felipe Silveira de Abreu
Linha: Cultura e significação

2 TEMA
“Biografema: aquilo que sobra da biografia. Mas ‘sobra’ num sentido positivo, num
sentido de Acontecimento: o biografema como o Acontecimento da biografia” (FEIL, 2010, p.
83).
Deparamo-nos com a reflexão acima durante nossa última pesquisa. Ainda que em um
primeiro momento tenha sido tomada de maneira instrumental, auxiliando na compreensão da
ideia de biografema, a asserção não deixou de ressoar em nós. Em suas três frases, a citação
nos parece levantar problemas potentes. Afinal, no que consiste o acontecimento da
biografia?. Em que sentido o acontecimento é “sobra”? Quais os termos dessa relação que se
estabelece entre biografema e acontecimento?
Desse modo, o presente projeto parte dessas dúvidas para tentar formalizar o conceito
de acontecimento biográfico. Para tal, pretendemos em nossa pesquisa apresentar uma revisão
da ideia de acontecimento, relacionando-a aos trabalhos de Roland Barthes (2003b, 2005,
2011) sobre os biografemas, de modo a compreender a escrita da vida como uma ferramenta
crítica da comunicação, capaz de construir e desconstruir sentidos por meio daquilo que Feil
(2010) denomina “sobras”.
Aqui trataremos de acontecimento nos termos de Gilles Deleuze, para quem o conceito
era, por excelência, o problema-chave de sua obra (DELEUZE, 1992). O filosófo constrói sua
noção de acontecimento sobretudo a partir do estoicismo. De acordo com Deleuze (2003), o

como na definição de Marcondes Filho (2004b. Charles Fourier e Santo Inácio de Loyola. mas sem de fato romper com elas. o acontecimento vai ao um além-das-coisas. Fourier. Não há profundidade nem sequer um fora do texto. espelho que os reflete. ao particular e ao geral . 10). há uma obliteração dos sujeitos que dá a ver apenas as potências do texto. Bem como a espuma.e às suas oposições. gerando algo no espaço desse atrito. Não é mais água nem fogo. Deleuze fala da Alice de Lewis Carroll e do punhal que corta um escalpo. ainda que siga pairando sobre esses. 2003. Tal impessoalidade confirma-se na ideia de Deleuze (2003. mas. como tal. p. somos levados a pensar na conhecida tese de Barthes (2004) sobre a “morte do autor”: para o semiólogo. a lâmina que rasga a unidade da carne. tabuleiro que os torna planos” (DELEUZE. 2004. p. 69): “o Acontecimento está ‘acima’ das ocorrências.pensamento estoico trata tudo que há no mundo por “corpos”. 69). nem sequer personagem. ao pessoal e ao impessoal. mas a Deleuze interessa o que se produz na superfície de tais corpos. Desse modo. Ela [a singularidade] é neutra”. Interessa o acontecimento. A imagem da emanação é particularmente interessante aqui para apreendermos o conceito: o vapor é o resultado de uma combinação. espécie de biografia intelectual de três de seus autores mais queridos: Marquês de Sade. aquela que deve procurar as superfícies e que toma como mote a frase de Paul Valéry: “o mais profundo é a pele” (VALÉRY apud DELEUZE. 2003. tomando as relações entre esses enquanto causas para efeitos incorpóreos. 2004b. Loyola” (2005). No espaço da escritura. p. este “significante perpétuo” (BARTHES. que está “neste tênue vapor incorporal que se desprende dos corpos. p. Em sua “Lógica do Sentido” (2003). película sem volume que os envolve. p. Alice gigante e o couro cabeludo escalpelado. 11). p. se dá por misturas em profundidade. Mas como? Se o texto . 50) de que o acontecimento é uma singularidade e. São exemplos de misturas de corpos: Alice e as poções que alteram seu tamanho. Dobrando essa percepção do apagamento do sujeito. como um verbo no infinitivo em relação ao seu uso comum flexionado”. no exato momento em que se dá a mistura. que sobrevém aos atos propriamente ditos. 70). que não tem nada que ver com o campo empírico” (MARCONDES FILHO. aquilo que origina-se no crescimento e no corte mas não está de fato nesses nem naqueles afetados pelo processo. não há autor. O empírico destas alterações. como um neutro. Corpos chocam-se e então misturam-se. escapa dos elementos que lhe dão origem. O próprio Barthes se vê obrigado a tensionar sua teoria quando se propõe a escrever “Sade. completa: “esse acontecimento situase num campo transcendental impessoal e pré-individual. O filósofo propõe aí uma ética do acontecimento. não é subjetividade: “é completamente indiferente ao individual e ao coletivo.

de tipo nascimento ou vida (mas aí também. suas vidas e obras? A saída que Barthes encontra é dizer com a voz baixa. como colocará posteriormente Barthes (2011. descobrindo traços mínimos que não totalizam a experiência. p. já que Barthes explica-o a partir de um exercício de imaginação: pensa-se falecido e notório. De forma análoga. como método.não comporta sujeitos. prometido à mesma dispersão (BARTHES. p. tomada como símbolo do esfumar do ser. certamente é o que ela almeja. diz ele: (. Sua escritura busca atacar o sujeito por suas margens. à maneira dos átomos epicurianos. Se.traços biografemáticos. um pouco como as cinzas que se atiram ao vento após a morte” (BARTHES. seu problema sendo outro.. grifo do autor). O que aqui surge sob o nome de adventos são os elementos biográficos tradicionais: fatos grandiosos e experiências definidoras. ou o que seu ‘plano’ lhe traz do ‘caos’)” (ZOURABICHVILLI. encontrando nele aquilo que não o é. a Barthes não interessa o drama da repressão social ou a loucura do cárcere. 16). como escrever uma obra que tem por finalidade a descrição de pessoas. é central à criação do conceito. 2005. A fotografia opera na História com a violência de sua molduração. o biografema. confinando dentro do quadro um número finito de elementos. tendo em vista que essa “nunca consegue obter mais que adventos. p. o biografema parte da biografia. algum corpo futuro. suas ideias e subjetividades. o biografema recupera os cacos restantes e monta com esses restos seu próprio mosaico. é possível perceber com mais precisão o princípio seletivo que guia essa escritura do residual. ainda que representem singularidades. Os restos: “tal sujeito é disperso. E a morte. como explica Feil (2010). 2004. 17) Assim. “a Fotografia tem com a História a mesma relação que o biografema com a biografia”. 8. a algumas inflexões. Cunha aqui. cuja distinção e mobilidade poderiam viajar fora de qualquer destino e vir tocar. a alguns pormenores. fala de sua divergência com a fenomenologia. colhidos em meio ao caos proliferante da vida. 2005. Nesse caso. mas sim seu sotaque provençal e seu apreço por luvas brancas. O autor. Se o texto estilhaça o sujeito. selecionando desta as linhas de fuga e os elementos rasteiros que se encontram em meio aos fatos da vida. Do todo recuperam-se apenas alguns elementos: da tragédia de Sade.. ao tratar da perspectiva deleuziana do acontecimento. a alguns gostos.) gostaria que minha vida se reduzisse. p. Uma foto é um recorte específico do tempo e do espaço. 40). digamos: “biografemas”. o biografema é constituído a partir de miudezas . pelos cuidados de um biógrafo amigo e desenvolto. alvo do interesse de biógrafos. Esse jogo entre o maior e o menor no âmbito biográfico pode ser observado também em Zourabichvili (2004). Em relação aos .

é um conceito que encontra ainda mais força em meio às reflexões sobre o processo comunicativo. o momento mágico entre duas intencionalidades. o autor chama atenção ao conceito e incita as atuais pesquisas do campo a se voltarem para ele. a vida. Ainda que abordado também pela filosofia e sociologia. que escapa na medida em que nos acercamos dele. comunicação é acontecimento: “comunicação é antes um processo. o acontecimento. o vitalismo”. A semiótica crítica toma como um de seus eixos fundantes (junto à teoria das materialidades e às micropolíticas) o acontecimento. Como estudar esse processo? Cremos. Marcondes Filho (2004a) reduz o escopo da comunicação e rechaça a semiótica em seus estudos. são as transformações concretas que ocorrem na profundidade dos corpos.acontecimentos. assim. Marcondes Filho vai além. Com essa sentença. um acontecimento. ainda que careça de abordagens sistemáticas nesse campo. Em verdade. crendo-o como forma de compreender os atritos entre corpos. assim. que o acontecimento é. Com isso em vista. O acontecimento. lembrando que já para Deleuze (1992. p. 179) “há um liame profundo entre os signos. Para ele. é indissociável de uma organização sígnica. objeto da semiótica. O acontecimento. antes de qualquer coisa. Porém. propondo este trabalho dentro da Semiótica Crítica. as efetuações espaço-temporais: é a lâmina rasgando o escalpo e a própria condição de ter sido escalpelado. está em outro lugar: seu rastreio e a articulação de sua potência para pensarmos a comunicação é o desafio que aqui nos propomos. com Silva e . linguagens e sentidos. junto com Marcondes Filho (2004a). 2004a. linha de estudos desenvolvida pelo professor Alexandre Rocha da Silva no Grupo de Pesquisa em Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC). há aí uma transmutação que não está propriamente nos sujeitos ou em sua relação. no âmbito deste Programa de PósGraduação. Já o acontecimento. No momento em que o primeiro sentencia o segundo. ao mesmo tempo em que opera esse movimento. na vida e na escrita dessa. Neste ponto divergimos de sua obra. É o presente sem passado e futuro. grifo do autor). um encontro feliz. 3 JUSTIFICATIVA Acreditamos. Fala-se do encontro entre o juiz e o réu. como analisam Silva e Araujo (2013). que se produz no ‘atrito dos corpos’” (MARCONDES FILHO. por exemplo. nos aproximamos de Silva e Araujo (2013). um tema de estudo da comunicação. só é pensado com propriedade dentro das teorias da comunicação.

A ideia de acontecimento visível sob a leitura do biografema. o biografema enquanto ferramenta teórica. 2015). Ainda que rasa. analisando os sentidos construídos no encontro propriamente dito e em sua escritura. uma revisão teórica do acontecimento em sua relação com a comunicação e a semiótica. produzida junto ao GPESC. propormos nossa pesquisa como uma possível contribuição para sua ultrapassagem rumo a uma teoria da comunicação pela diferença. Nesse processo. que “essa transformação de acusado em condenado é o acontecimento. para tal. como coloca Martino (2001). . essa visão comungatória é acolhida e circula em trabalhos diversos. dá a ver as potências justamente daquilo que não é dividido pelas partes dos encontros comunicativos.2 Objetivos específicos  Estabelecer.Araujo (2013. 4.  Compreender o conceito de biografema em sua relação com os acontecimentos e os adventos. que nos parece útil para pensar os agenciamentos semióticos que ocorrem nos encontros de corpos. Em nossa monografia (ABREU. p. à luz sobretudo das ideias de Deleuze (2003). viu-se que a constituição do biografema pode fornecer respostas semióticas singulares aos problemas da escrita jornalística.1 Objetivo geral  Descrever o conceito de acontecimento biográfico usando. acreditamos que nosso projeto pode auxiliar na ultrapassagem da concepção do processo comunicativo enquanto o ato de “tornar comum”. Crendo-a insuficiente. capaz de operar desconstruções nas ideias de biografia e de acontecimento. Aqui entra em cena o biografema. buscando uma compreensão do papel desses na comunicação. com o plano de imanência e uma vida. capaz de entrever estratégias de uma comunicação por acontecimentos em textos biográficos. acreditamos. 4 OBJETIVOS 4. 8). Aqui queremos ampliar esse foco e tomâ-lo como uma ferramenta de semiótica crítica. e cabe à semiótica crítica o estudo dessas passagens. dessas transformações (comunicacionais)”.

ele possui seu lugar e consiste na relação. Observamos a potência aí envolvida quando Deleuze (2002) nos fala de um conto de Charles Dickens. como conceituada por Deleuze (2002. a narrativa do sofrimento de um canalha. 58) de que “a filosofia do acontecimento deveria avançar na direção paradoxal. mas sem perder de vista as instâncias materiais nas quais ele se origina e se expressa. indeterminada e incorpórea. o acontecimento não é da ordem dos corpos. Tratar do acontecimento é tratar do incorpóreo. 1996. 12): “A imanência não se reporta a um Algo como unidade superior a todas as coisas. 57). Há aqui. p. à primeira vista. o faz aí.captados por lexias – presentes no corpus constituído. já que ele “não é imaterial. 14). Diz respeito a eles. Não há um fora do plano de imanência ou um fora dos corpos . Não é um processo entre indivíduos ou um acidente de sujeitos. nem a um Sujeito como ato que opera a síntese das coisas”. p. 5 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Assim como em Deleuze. o verdejar: algo que se produz a partir do físico. 2002. mas um efeito desse. dispersão. a noção de acontecimento de Michel Foucault (1996) calcase no pensamento estoico.  Traçar diagramas que articulem os traços biografemáticos . mas que nele não está.isso seria pensar a profundidade. no sentido que uma vida é uma centelha impessoal. O que ocorre. os corpos são indispensáveis. Mapear obras de caráter biográfico nas quais é possível observar potências biografemáticas de “sobras”.não obstante a isso. primordialmente. O acontecimento não é uma substância ou uma propriedade das materialidades. Não é. sim. p. Acontecimento não é um corpo. É. A imanência é um acontecimento que se sobrepõe aos adventos. como alertam Silva e Araujo (2013). Sempre foi um homem . relativas à ideia de acontecimento biográfico. É um incorporal. o verde da árvore. mas está em outra ordem: “As singularidades ou os acontecimentos constitutivos de uma vida coexistem com os acidentes d’a vida correspondente. recorte. uma vida. que é efeito. seleção de elementos materiais” (FOUCAULT. mas não se agrupam nem se dividem da mesma maneira” (DELEUZE. escorregando pela superfície do espaço. de um materialismo do incorporal”. p. coexistência. é sempre no âmbito da materialidade que ele se efetiva. A imanência é. Decorre daí a observação de Foucault (1996. O acontecimento está em outro lugar . uma “presentidade” que o recobre feito uma película. acumulação. Para o filósofo. como já havia colocado Deleuze (2003). um caminho na direção da imanência. no presente das matérias.

a que pode existir numa linha de desenho. p. liberado dos acidentes da vida interior e da vida exterior. p. forças que emanam da vida orgânica na direção de uma vida imaterial. que não são características subjetivas. A descrição de tais elementos. os recém-nascidos são todos parecidos e não têm nenhuma individualidade. O que há ali é o esforço de persistência de uma vida. de liberar vida daquilo que a aprisiona”? Uma vida e as singularidades que as expressam são. isto é. voltando a alienar seus pares. que despreende um puro acontecimento. p. mas só ocorre a partir deles e neles se expressa. como o acontecimento descrito por Foucault (1996). Podemos compreender isso a partir de outro exemplo de Deleuze (2002). pois a indefinição do artigo destaca o fato dela ser “uma vida impessoal. Cremos também haver essa ligadura nos traços biografemáticos. os signos. mas eles têm singularidades. 179). um gesto. como coloca Deleuze (2002. 14): Por exemplo. nos fazem lembrar dos traços biografemáticos. Aí podemos observar. Ao escrever um biografema. portanto. a vida e o vitalismo. Os recémnascidos. 1992. Uma vida. porém. Ainda assim. são atravessados por uma vida imanente que é pura potência. um sujeito impessoal tomado pelas potências de uma vida. moribundo em seu leito ele passa a angariar simpatias e cuidados.desprezível. retoma na mesma medida sua rispidez e violência. acontecimentos. acontecimentos biográficos. de escrita ou de música” (DELEUZE. p. Seria esse liame “a potência de uma vida não orgânica. um sorriso. da subjetividade e da objetividade daquilo que acontece”. . Uma vida. Pensamos assim o sujeito biografemático como um singular não individualizado. Assim o biografema parece-nos por excelência a ferramenta de escrita e tensão desse processo. uma careta. descritos como a efetuação no corpo do acontecimento incorpóreo. em meio a todos os sofrimentos e fraquezas. como faz questão de frisar Deleuze (2002. Isso porque no momento da quase-morte ocorre uma suspensão da individuação. operando no plano de imanência e realizando o materialismo do incorpóreo ao tomar o transcendental dos acontecimentos e tratá-lo por meio do empirismo dos corpos e das singularidades. mas singular. 12-13). Enquanto recupera a saúde. um gesto ou uma careta? Que faz se não aquilo que Deleuze (1992. Puros acontecimentos. e até mesmo beatitude. 179) definiu como o objetivo último da escrita: “a tentativa de fazer da vida algo mais que pessoal. Falamos já de como Deleuze identifica um traço único que envolve o acontecimento. o personagem. acontecimentos. que faz o autor se não tentar apreender um sorriso. as singularidades. não se encontra na ordem dos corpos. que destaca a ausência de individualidade e de diferenciação pessoal nos bebês. e ninguém nunca o suportou.

é uma operação possível e corrente. ele mesmo. Material. Eu prometo. É a anuência dos noivos diante do altar: “O ‘sim’ não diz o acontecimento. indo a Jacques Derrida (2012) em busca de um ponto de partida para a resposta dessa indagação. p. Biográfica. . 6 METODOLOGIA À maneira de Deleuze (2002). buscando nessas tanto subsídios empíricos quanto problematizações para nosso trabalho teórico. sua maior potência. somaremos às nossas investigações teóricas leituras de certas materialidades.mas o que de fato se escreve é a efetuação espaço-temporal desse. mas incorpórea. como coloca Barthes (2003a). Por outro lado. A ”possibilidade impossível” não é um mero jogo de palavras ou truque de retórica: dizer o acontecimento é impossível pois o dizer sempre virá após o acontecimento. perguntamos. Já a segunda é o “eu prometo”: uma fala que não aponta a nada que não o acontecimento instaurado por ela própria. mas preocupada não com a vida e sim com uma vida. Um acontecimento não pragmático. O filósofo trata da possibilidade impossível de dizer o acontecimento a partir de dois tipos de fala: a constatativa e a performativa. matando aí a presentidade. é um dizeracontecimento” (DERRIDA. que encontra um exemplo para sua ideia de “uma vida” em uma história de Dickens. Empírica. um acontecimento outro que se depreende do primeiro. É no cruzamento de tais paradoxos que buscamos posicionar nossa pesquisa. 2012. faz o acontecimento. há aqui uma contradição. engajada naquilo que Derrida (2012. A primeira basta-se em indicar as coisas. 238) chama de “noite do não-saber”. O biografema. é visto enquanto ferramenta de escrita do acontecimento . mas a ela não reduzida. dizer o que é e como o é. eu perdoo: falas que produzem acontecimento ao falarem dele. O biografema atua dessa forma como um acontecimento de segunda ordem. Trata-se. de “passear” os conceitos por uma rede de leituras. mas transcendental. ressonâncias. 236). inflexões. constitui o acontecimento.Porém. dando a ver tramas. É uma fala-acontecimento. como Barthes o coloca e como nós o apropriamos no contexto da semiótica crítica e desse projeto. não é escrito pois não se encontra em um plano atingível pelo texto. uma outra ordem de “acontecimentalidade”. que delinea seu conceito de comunicação a partir da obra de Proust. “O que se escreve então?”. seguimos dizendo o acontecimento. O acontecimento. apreendendo-o por meio da linguagem para desconstruir seus sentidos e apontar na direção de outra perspectiva. dito a partir da experiência. e como Marcondes Filho (2004a). A despeito da impossibilidade. p.

Já descrever o modo impávido com que o “homem da esquina rosada” cruza um salão de furiosos. mistos de romance e coletânea de contos. foram selecionados os livros Vidas imaginárias. nelas é possível observar o modo como a potência biografemática do texto articula-se em relação com a fórmula biográfica clássica. Já adaptado por nós em nossa monografia. Que Borges (1975). e La literatura nazi en America. análoga ao próprio método biografemático. linhas de sentido que escapam à leitura mais geral. tal bisturi crítico apontará para a ocorrência de traços biografemáticos. do compadrito Francisco Real é o que espera-se de uma narrativa de vida. visíveis nas miudezas narrativas. de Jorge Luis Borges (1975). Na dissecação prevista pelo projeto. é que nos dirigiremos. trajando vestes negras e franzindo o cenho de ares indígenas. Após identificadas. por exemplo.Em um primeiro movimento exploratório. As três obras. Assim como o sujeito é esfacelado pela escritura biografemática para que nessa fratura vislumbrem-se novos modos de encarar a vida e sua tradução textual. Por tal constituição. aponte as circunstâncias que levaram à ascensão e à queda. Nessa composição mosaical. refletindo o acontecimento biográfico por meio dos trechos selecionados das obras. ao operar o discurso e seccionar as lexias espera-se encontrar significações singulares. o método consiste em dividir o texto em lexias. confrontados com o aparato teórico até aqui construído. unidades do discurso pregnantes de sentido. disporemos a questão do encontro de corpos e sua relação com a comunicação e a semiótica crítica. trazendo curtos relatos de vida de personagens reais e fictícios. articulando breve narrativas vitais que buscam enquadrar não o sujeito identitário. mas sim determinadas singularidades. Vida. crendo que tais aparições no âmbito de nosso corpus revelam algo acerca do jogo entre acontecimento e adventos. A partir dessa formalização do corpus. é algo de outra ordem. A esses fragmentos. que refletirá sobre a relação entre tais traços e o acontecimento biográfico. seccionadas do texto de modo a observar certas potencialidades do texto. a análise propriamente dita será realizada com os procedimentos utilizados por Barthes em “S/Z” (1992). apresentam-se de forma análoga sob o gênero de “dicionários biográficos”. de Roberto Bolaño (2010). tais lexias serão rearranjadas em uma análise sistematizada e diagramática. sua análise pós-estruturalista de uma história de Honoré de Balzac. 7 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA . em uma única noite. constitutivos da superfície do relato. de Marcel Schwob (1997). História universal da infâmia. de Paulo Leminski (2013).

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