Centro Universitário Senac

Juliana Luiza de Melo Schmitt

Mortes Vitorianas
corpos e luto no século XIX

São Paulo
2008

Juliana Luiza de Melo Schmitt

Mortes vitorianas: corpos e luto no século XIX.

Dissertação apresentada ao Centro Universitário Senac,
como exigência parcial para obtenção do grau
de Mestre em Moda, Cultura e Arte.

Orientadora: Profª Drª Eliane Robert Moraes

Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro.
São Paulo, março de 2008.

Juliana Luiza de Melo Schmitt

Mortes vitorianas: corpos e luto no século XIX.

Dissertação apresentada ao Centro Universitário Senac,
como exigência parcial para obtenção do grau
de Mestre em Moda, Cultura e Arte.

Orientadora: Prof.ª Drª Eliane Robert Moraes

A banca examinadora em sessão pública realizada em 28 de abril de 2008,
considerou a candidata: Aprovada

1- Examinadora: Profª Drª Marisa Werneck
2- Examinadora: Profª Drª Maria Lúcia Bueno
3- Presidente: Profª Drª Eliane Robert Moraes

Resumo Propõe-se. Século XIX. neste trabalho. . A morte da espontaneidade e dos instintos naturais. a morte das cores no vestuário e os sentimentos e atitudes diante do fim da vida são os temas centrais dessa monografia. Vestuário. Palavras-chave História da moda. História da morte. uma reflexão acerca do conceito de morte – em diferentes acepções – durante o período vitoriano. Luto. História do corpo.

1857. em alvoroço. . Uma carniça repugnante. do objeto que encontramos Numa bela manhã radiante: Na curva de um atalho. Charles Baudelaire. Zumbiam moscas sobre o ventre e. a escorrer como um líquido grosso Por entre esses trapos nefandos. O fedor era tal que sobre a relva escassa Chegaste quase a sucumbir. meu amor. Dali saíam negros bandos De larvas. entre calhaus e ramos. O céu olhava do alto a esplêndida carcaça Como uma flor a se entreabrir. Uma carniça.Lembra-te.

................................Sumário: Nota Introdutória Corpos e luto no século XIX ............................................................................................................................................................................................... 08 Capítulo 1 A morte de si ................................................................................................ 12 Capítulo 2 Luto ................................................. 99 Bibliografia Geral ........................................ 50 Capítulo 3 A morte do outro .............. 139 ........................................................................................................

transformando-se no decorrer do espaço-tempo e refletindo variadas visões de mundo em eras passadas. Não apenas pelo fato biológico em si. Chama a atenção.Nota Introdutória Corpos e luto no século XIX Diante da morte. mas do que ele representa: foi a percepção da finitude que levou o ser humano a procurar compreender. o sentido de sua existência. Em larga medida. dedicadas a economias agrícolas ou artesanais. . com todos os meios possíveis. ou seja. Tais discursos. diversas práticas rituais acompanham o evento. foi possível começar a produzir sua historiografia. portanto. verdade incontornável da natureza. nas culturas campesinas e aldeãs. em todas elas. que nas sociedades ocidentais exista uma espécie de ruptura nítida entre os comportamentos diante da morte em épocas préindustriais e nas subseqüentes industriais urbanas. E porque o conceito de morte é. o grupo é o principal alicerce de um sujeito. nesses estudos. os homens reagem. então recente. registros sobre a maneira como os grupos humanos vivenciam a morte. desde a década de 1970. Fazia parte dessa mentalidade comunal que ninguém fosse abandonado na velhice nem na doença e. histórico. passam a compreender um campo da. De maneira geral. No primeiro caso. as concepções de morte implicam concepções de vida. História das Mentalidades. As atitudes e os comportamentos diante do óbito mudaram de acordo com as diferentes épocas e as diferentes sociedades. que se convencionou chamar de História da Morte. em todas as fases de sua vida. preenchendo-o de carga simbólica.

desapropriam a coletividade da função que assegura mútuo apoio entre os sujeitos. Essa transição encontra seu ápice no ultimo quartel do século XVIII e. superar a dor e retomar a vida. Paulatinamente. momento em que se consolida o processo histórico do desenvolvimento do mundo industrial. desencadeia o desenvolvimento da concepção de indivíduo e. por extensão. por isso. Esse sujeito do período moderno dominava a natureza a sua volta. os vitorianos . reprimindo as manifestações emotivas e impondo. Os acontecimentos históricos que levam à substituição de um modelo feudal para as modernas sociedades capitalistas e urbanas. O progresso do pensamento individualista não permitiu a permanência desse sistema mental. Assim. o grupo passa a exigir que cada um resolva seus problemas e suas dores. Graças a essa solidariedade coletiva e aos diversos rituais que acompanhavam o luto. Amedrontavase frente ao que não conhecia e. àquele que sofre. A importância crescente dos talentos pessoais – e a conseqüente competição entre os homens –.quando ocorria um falecimento. os homens apegavam-se à crença numa mortepassagem. notadamente. percebiam-se integrados a uma coletividade terrena da qual todos eram parte. O “além” se torna uma projeção da vida cotidiana e se perpetua por intermédio de ideologias religiosas que garantem essa transmutação. na aparência e na relação com outrem. a comunidade participava ativamente de todo o processo de perda. divino. afastava a morte de suas preocupações cotidianas. que de certo modo se repetia num nível outro. aliada ao enfraquecimento das doutrinas religiosas. a morte adquire novos significados. e em oposição ao que ocorria. mas não a sua própria. tornava-se possível mitigar a angústia. uma solução rápida e discreta. Nessas culturas. talvez nunca na cultura ocidental. tenha se concebido a morte com tanto investimento sensível como ocorreu naquele momento. Nos corpos. durante o período vitoriano.

a de visitar frequentemente o cadáver em sua nova casa-túmulo. como uma multidão de mortos-vivos. uma verdadeira obsessão pela morte. dependia de um conjunto de códigos sociais que lhe indicava o que era prudente ou não de ser mostrado. Conseqüência desse óbito foi a prevalência de um luto permanente na aparência. O apego dramático a tudo que se relacionasse a um ente falecido levou a sociedade a práticas próprias de um culto aos mortos. nasce uma espécie de melancolia constante que impregna os ares oitocentistas. Dessa relação ambígua. foi submetido a rígida racionalização em prol de um autocontrole baseado em uma moral ascética e pudica. Se nos séculos anteriores os homens contavam com uma etiqueta do vestuário bastante ampla. Assim. é possível perceber no período estudado. adotam em definitivo o preto cotidianamente. deixando de pensar e agir espontaneamente. docilizado e contido. Por fim. por exemplo. A primeira parte desse trabalho analisa o processo de construção de uma nova idéia de corpo “naturalmente racional”. podado da necessidade de expressar seus sofrimentos – encerrados na intimidade dos lares burgueses – e.experimentaram a angústia de sua existência. a cor da morte desde épocas medievais. influenciada pelo luto da Rainha Vitória da Inglaterra – que tratará o Capítulo 2. através da morte de si. colorida e ornamentada. exposto à esfera pública da urbanidade moderna. Aprendia a aniquilar seus instintos. a um só tempo afirmando e negando seu fim. ao mesmo tempo. A partir da década de 1850. como. os restos mortais das pessoas efetivamente indicavam sua presença. Os . no século XIX eles têm de se acostumar a um leque de opções mais sóbrias e austeras. O indivíduo. negando as cores em sua imagem pessoal. É dessa grande mudança na indumentária masculina – e também na feminina. Esse corpo vitoriano.

O último capítulo contempla esse novo fenômeno inaugurado pelo século XIX: a negação da morte através da preservação do corpo sem vida. meu agradecimento especial à professora Eliane R.túmulos personalizados. esta dissertação também contraiu dívidas profundas com autores da literatura. Aos amigos Jéssica Oliveira. Maria Lúcia Bueno e Marisa Werneck. aulas inspiradoras e pelo carinho que sempre dedicou a mim e a meus textos. Às professoras que participaram das bancas de qualificação e defesa. Por fim. Henrique e Lucas. contei com a presença preciosa de algumas pessoas às quais não posso deixar de agradecer: Aos meus primeiros leitores: mãe. O texto de Mortes vitorianas está dividido em três partes: A morte de si. cada uma delas contém suas próprias notas explicativas e bibliografia específica. * No trajeto percorrido para o desenvolvimento desse trabalho. pela orientação sempre motivante. sugestões e comentários. com esse objetivo. . Pertencente ao campo da História. antropologia e sociologia. A listagem completa das obras consultadas está disponível no final do trabalho. Silvana Holzmeister e Mauro Fiorani. mudanças na percepção da morte: é em torno desses temas que as páginas a seguir foram escritas. que podem ser lidas autonomamente – e. por sua leitura atenciosa. manifestações do luto. Repressão dos sentimentos. Moraes. cujas vozes participam vivamente da construção das idéias aqui expostas. os pertences restantes e os registros fotográficos post-mortem não permitiam que deixassem o convívio dos sobreviventes. que tornaram todo esse percurso muito mais divertido. Luto e A morte do outro. pai.

História da Moda 2. 1. Título.Catalogação na Fonte S355m Schmitt. : il. São Paulo. Campus Santo Amaro.São Paulo. Século XIX I. Juliana Luiza de Melo -. História da Morte 3. 2008. CDD 391 . Juliana Luiza de Melo. Cultura e Arte) – Centro Universitário Senac. Mortes vitorianas: corpos e luto no século XIX / Schmitt. 31 cm Orientador: Prof. Eliane Robert Moraes (orient. 142 f. História do Corpo 4. . color. 2008.) II. Eliane Robert Moraes Dissertação (mestrado em Moda.

Capítulo 1 A morte de si Corpos dóceis e civilizados: a morte dos instintos. A interiorização da contenção e o fim do homem espontâneo. O modelo burguês do comportamento. 12 .

. de olhos fixos na própria imagem. Que tristeza! Ficarei velho.. e vê em minha morte. E. Mas de agora em diante. vê por esta imagem. Esse também era eu. enquanto eu admirava no espelho aquele horrendo ídolo. 1885.. 1890. Daria minha própria alma! Oscar Wilde. Edgar Allan Poe. que é a tua. 1840 Da mesma forma que a bondade estava estampada no rosto de um. William Wilson. para isto. medonho.Tu venceste e eu me rendo.. 13 . O retrato de Dorian Gray.. O médico e o monstro.. para o Céu e para a Esperança! Em mim tu existias.. não há no mundo o que eu não desse. horrível. também estás morto. eu daria tudo. em vez de me repugnar.. no entanto. Ah. como sumariamente assassinaste a ti mesmo. O mal (que acredito ser o lado letal do homem) deixou naquele corpo uma marca de deformidade e decadência. Robert Louis Stenvenson. morto para o Mundo. percebi que sentia uma tendência a saudá-lo como bem-vindo. o mal estava ampla e claramente inscrito no rosto do outro. se pudesse dar-se o contrário! Se eu permanecesse moço e o retrato envelhecesse! Para isto. É verdade. Mas este retrato continuará sempre jovem. Que tristeza! – murmurou Dorian Gray.

para ser apenas autômato. por uma resignificação do humano. inevitável do confronto com o Duplo. o Duplo aparece como tema recorrente. essa insistência na personagem dividida representa a angústia do homem oitocentista frente a uma existência exclusivamente material. Pois eis que na literatura oitocentista. O sujeito cindido em réplica idêntica. O corpo após o Iluminismo. A busca. re-produzido. acusada de plagiar o mundo – tarefa cumprida com mais eficiência pelas fotografias. portanto. A construção histórica das identidades individuais. fora definido como máquina. rememorando a todo instante a miséria da condição humana. fantasmas que assombram e amaldiçoam. carne e alma. décadas antes da psicanálise. A figura literária do Duplo é apenas um de seus reflexos. tudo o que foi ocultado nos recônditos secretos do inconsciente. o desenvolvimento de uma consciência de si . Todo recalque. Fim. Deixava de ser dual. ou seja. ou ainda. impossibilita a continuidade tranqüila da vida.Espelhos. seus temores e inseguranças. instância escondida do Eu projetada no Duplo. Ocorria.não permite a existência de um Outro. a morte. a cópia semelhante de um ser que se entende único. este. Deparar-se com essa personificação de seus conflitos interiores. Essa multidão de duplicatas que invadiu o universo iconográfico denota essa emergencial busca de sentido no que a ciência não revela. composta de sistemas e controlada por necessidades físico-químicas. sombras e sósias perseguem o imaginário do século XIX. revelou as dores espirituais da sociedade vitoriana. Do encontro consigo mesmo. desesperada. tal como a crise na Arte. desejos incomunicáveis e atos 14 . Em larga medida. perturba o indivíduo atomizado da era contemporânea. uma crise de identidade. como era desde Descartes. emerge a verdade trágica do destino humano: o mistério da vida.processo iniciado em fins da Idade Média e consolidado nesse momento .

um golpe fatal em sua jovialidade inocente: A realidade de sua própria beleza surgiu-lhe como uma revelação. Nunca sentira isso. É devido ao seu encanto exterior que Dorian consegue tudo o que quer e freqüenta a alta sociedade – tão apegada que era às aparências. capaz de desvendar a essência das coisas. O rapaz deseja ardentemente a permanência de sua indubitável beleza física. em sua extensão. então. Sua percepção da passagem do tempo. seu porto seguro.. o corpo alquebrado e deformado.) Sim. Morrer é a única solução. é materializado nele e conviver com esse reflexo desprezado é insustentável. Dos lábios desapareceria o tom 15 . Ao ver seu Duplo. degradado e lívido. pôr fim à própria existência. destarte e paradoxalmente. alcança seu ápice no texto de Wilde. Acabar com a existência desse antagonista de si mesmo é. seu retrato pintado por Basil Hallward. (.inadmissíveis. resultado de todos os seus desvios morais. os olhos fracos e desbotados. Aniquilar essa dissociação e tornar-se uno novamente é destruir tudo o que está internalizado. fonte de tudo que conquista – é mordaz. O fazer artístico. a revelar a sua verdadeira natureza. reconhecida por todos a sua volta.. e com ele o desaparecimento de tudo o que realmente importa – a beleza. até o presente. chegaria o dia em que seu rosto se tornaria enrugado e murcho. Esse é o caso do Duplo de Dorian Gray. ao tornar a obra a verdadeira imagem do modelo. o temor da degeneração do corpo e. esta passa. portanto. A autoconsciência de Dorian Gray nasce no instante em que avista o quadro pela primeira vez. * A força geradora do Duplo é. Depois de trocar suas feições pelas da figura no quadro e se manter inexplicável e artificialmente gracioso. Dorian é confrontado com o seu aspecto real. a morte.

carmesim; adeus ao ouro dos cabelos! A vida que deveria animar-lhe a alma lhe
estragaria o corpo. Tornar-se-ia hediondo, repulsivo grotesco.
Amedrontado pelas mudanças do retrato - ao longo dos 18 anos que a narrativa
cobre, período no qual toda a graça de Dorian permanece intocada, enquanto sua réplica
transforma-se grotescamente -, obriga-se a trancafiar a obra no porão, longe dos olhares
de seus conhecidos e mesmo dos empregados. A possibilidade de escondê-la preserva o
caráter fantástico da história, já que não há cúmplices à corrupção da imagem. Essa
qualidade do Duplo, fantasmagórica, visível somente àquele que é diretamente afetado
por sua existência, é ainda mais algoz no caso de William Wilson. Seu sósia, espécie de
gêmeo espectral, que divide com o protagonista semelhanças inverossímeis (como o
mesmo nome, data de nascimento e fenótipo) é, ao contrário do que ocorre com Dorian
Gray, um tipo de consciência ética perdida por Wilson no decorrer das experiências
mundanas em que se envolve.
Golpista e manipulador, o personagem de Edgar Allan Poe é um dissimulado,
que se esconde detrás de sua estirpe aristocrática para realizar suas vigarices. Seu
antagonista personifica, para seu terror, sua própria culpa, que reconhece e rememora a
todo instante sua decadência e miséria moral. Ao eliminá-la, ou seja, ao escolher ser
exclusivamente o homem inescrupuloso e perverso, torna-se um condenado, sem
salvação, morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança.
Em algum momento esses personagens apercebem-se dos laços indissolúveis
que os unem aos seus Duplos.“Este também era eu” disse Henry Jekyll sobre Edward
Hyde. Durante toda sua vida, trancafiara o monstro na “prisão de sua índole” para ser,
com muito esforço, apenas o amável e discreto médico. Ao libertar esse Duplo cruel e
vil, gozava dos prazeres mais infames e criminosos sob a máscara do Outro. Pouco a
pouco, eu estava perdendo o controle sobre meu original e melhor eu, e tornando-me o

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segundo e pior. Eu sentia que agora deveria escolher entre os dois. Eis o perigo de uma
segunda existência irresponsável, porém altamente libertária.
Quando publicou O médico e o monstro, Robert Louis Stevenson foi lido pelos
homens de sua época. Alertava que todos os seres humanos que encontramos são uma
mistura de bom e mau, ainda que na aparência apresentem-se sempre como respeitáveis.
O grande desafio era conter, esconder o “Hyde” que trazem dentro de si. O Eu
predominante deve matar seu Duplo (“Je kill”), para conviver pacificamente em
sociedade, antes que esse se apodere plenamente de sua personalidade.
Nas três narrativas supracitadas, é possível perceber variações na apresentação
do Duplo. Como imagem no caso de Dorian Gray, que o denuncia silenciosamente;
personificado num Outro idêntico em William Wilson, como um homem-reflexo; e
finalmente, o indivíduo que é, ele mesmo, as duas personagens: dividido mas consciente
de suas duas naturezas rivais. No Ocidente do século XIX, atribuía-se extrema
importância à reputação e à maneira como cada sujeito se apresentava e se portava em
público. Negar constantemente esse lado obscuro e hedonista era desejável; era, em
verdade, fundamental. Entretanto, se pareceu mais apropriado assumir Jekyll, demandou
ao homem longo e doloroso processo para reprimir Hyde.

*

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O ator inglês Richard Mansfield ficou conhecido por interpretar o Doutor Jekill e o Senhor Hyde
na primeira adaptação do texto de Stevenson para o teatro, apenas um ano após sua publicação, em 1886.
A fotomontagem é de 1895.
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Jekyll-mansfield.jpg

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renega suas características instintivas e busca. Quando passou a disputar hierarquias com a elite mercantilista. Ao longo do percurso histórico. cientifizado pelas Luzes e racionalizado pelas regras de civilidade. Esse processo de repressão de características naturais e inerentes ao ser humano não teve início no século XIX .3 A moderação dos afetos substituía a grande liberdade de ação de que gozara a nobreza medieval salvaguardada por sua posição inquestionável no mundo feudal. capaz de emular um Duplo. e consequentemente a rede de relacionamentos entre os indivíduos segmentava-se ainda mais. ou melhor. pelo menos. 4 mudou de hábitos: o controle dos sentimentos transformava-se em signo de diferenciação. internas. as cortes tratavam de elaborar uma série de condutas particulares ao seu grupo. a courtoisie.Essa fragmentação da consciência. através dos atos e sobretudo da aparência. à identidade pública. uma vez que se conformava como um tipo de refinamento exclusivo e excludente. os séculos XIII e XIV é possível perceber tais transformações. certas mudanças nos comportamentos mostraram-se capitais. foi reflexo de uma crise profunda na construção da mentalidade de indivíduo. Parte fundamental dessa cultura da corte. em prol de um melhor convívio social – principalmente à medida que a sociedade se tornava mais complexa.na verdade. um reencontro com sua essência humana. notadamente da burguesia.1 Desde. que não somente a caracterizava. mas que devia ser constantemente demonstrado. foi o desenvolvimento de um gosto próprio ao grupo. O homem. como uma espécie 19 . locais por excelência da normatização das maneiras. acompanha a própria história da civilização ocidental. em especial dentro das cortes monárquicas. A maneira como um nobre se apresenta sinaliza o que ele é.2 Procurando se diferenciar do restante da sociedade. mas aos títulos. A honra e a glória eram atributos que deveriam saltar aos olhos pela imagem: não dizem respeito exatamente a qualidades subjetivas. sofregamente.

sempre controlada. sua finalidade era ostentatória e recreativa. como conseguia parecer. O indivíduo não era como era e sim como parecia. quer dizer. não só por polidez e sim por um princípio civilizatório que o obrigava a praticar certos atos em isolamento. funcionavam somente em ocasiões festivas e especiais. era. qualidade exaltada pelas elites educadas. uma arte. em si. ou melhor. Os meios de agir consistiam em ganhar a aprovação ou a inveja ou pelo menos a tolerância da opinião graças ao parecer. para desengordurar os fios. não tinha outro valor senão de 20 . A civilidade. Conservar ou defender a honra equivale a salvar as aparências. não pela preocupação sanitarista mas pelo simbolismo que o asseio adquire. um modo estritamente regulamentado de mostrar a identidade que se deseja ver reconhecida. submetido constantemente ao olhar e à opinião dos outros membros do grupo. 6 * Um exemplo bastante eloqüente do refinamento das elites foi a importância cada vez maior da limpeza corporal. O comportamento do indivíduo começava a ser dividido entre o que devia exibir e o que devia esconder. à honra. mas friccionado com panos levemente umedecidos em óleos perfumados ou águas-de-cheiro. O banho com água. Nas cortes tornou-se praxe o costume de se ter os cabelos sempre muito escovados e empoados. acima de tudo. Durante o período absolutista mantiveram-se as práticas medievais que não incluíam abluções com água – mesmo o rosto dificilmente era banhado.de linguagem que fala sobre o indivíduo.5 Por isso a necessidade em se restringir o que se mostra com o uso consciente de um rígido autocontrole. da representação de si mesmo para os outros. Apesar de os castelos possuírem salões para banhos.

Escondida. A ausência de 21 . era altamente desejável que a pele exposta também fosse embranquecida. afastando os parasitas presentes na superfície da pele. repetirão do XVI ao XVII. Uma das mais importantes era o cuidado com a chamada “roupa branca”. inspirados justamente nas práticas da corte. O branco. Luvas brancas corrigiam a cor das mãos. Contraditoriamente. e com insistência cada vez maior. essa analogia: o asseio da roupa de baixo é o de toda pessoa. Era bastante apropriado que a prática de mudar esse traje íntimo diversas vezes fosse manifesta. É o oculto que se mostra. Sua função era reter o suor do corpo e a sujeira proveniente do exterior. O empoamento dos cabelos era sua limpeza. como pulgas e piolhos. mesmo que superficial. ainda que artificial. que a cobre. a roupa de baixo.divertimento luxuoso e supérfluo . Os tratados de civilidade. Contrapunha-se à roupa visível. na mesma proporção em que desaparece o uso da água. Ele constitui o sinal do homem distinto.e. Ao contrário dos tecidos destinados ao olhar. A aparência saudável era fundamental. era representante da pele. a roupa de baixo. chamada também de camisa ou chemise.8 Por isso deve ficar visível – o tecido que está em contato direto com a pessoa revela em público o que ela é intimamente. estava muito longe de ser um hábito. Trocá-la era o equivalente a limpar-se. babados e vazados. ainda que não os eliminassem. os perfumes corrigiam os odores do corpo. nesse caso. Ele [o branco] é uma testemunha do “por baixo”. Se o brancor da roupa era sinônimo da alvura da pele escondida.7 Iniciou-se assim a tendência de se deixar à mostra golas e punhos lividamente brancos e ricamente adornados com rendas. por isso a necessidade de maquiar o rosto e ao mesmo tempo ressaltar maçãs e lábios corados. Ele revela o que o traje cobre. mesmo assim. indica uma limpeza particular: a do interior. pois conferia a evidência visual do asseio. sinônimo de dignidade. cresceram as normas da aparência. era de fazenda fina e cor clara. mais leve.

diretamente. construir essa arquitetura corporal do artifício também.10 A situação 22 . recorria-se a todo tipo de tática financeira. Via de regra. Tornava-se impossível diminuir os gastos uma vez que não se desejava renunciar ao convívio entre palacianos e monarcas. algumas doenças). Era uma necessidade resultante desse pertencimento.e não especificamente com sua limpeza (receio esse próprio da época contemporânea em que se descobre que a higiene pessoal evitava. Em especial aos talentos eruditos e artísticos e ao domínio de uma complexa etiqueta que lhes permitissem comportar-se de acordo com as rígidas normas do decoro exigidas por seu grupo.9 Consumir toda espécie de luxo era um pressuposto do pertencimento à corte e para tanto. * As cortes eram o ponto de apoio do poder monárquico e nos século modernos foram os centros de referência de estilo. Dedicavam-se ao ócio. Ou ainda. Assim como fazer parte da corte tinha um fim em si.acuidade referente às condições do corpo é exemplar da preocupação por sua essência (a alma). Não se ocupavam com nenhuma atividade produtiva devido a sua própria condição social. o rendimento das famílias aristocráticas era revertido para a manutenção de seu status. e por sua imagem . como a venda de propriedades e a contração de grandes dívidas. a fonte dos novos modelos comportamentais a serem seguidos pelas ordens inferiores. já que não seguir o protocola equivalia à perda de prestígio. nada que tivesse utilidade prática direta à vida cotidiana. a todo tipo de superficialidade. Tão importante quanto viver o ócio era torná-lo visível através desses pequenos e importantes refinamentos.

tanto daqueles que viviam ao seu redor quanto de seus súditos. o monarca francês que governou 1643 e 1715. em cada gesto. seus pares num mundo à parte. o prestígio do rei era reconhecido em cada palavra. aproximando ou afastando membros da corte quando necessário. aumentava a pressão sobre o autodomínio.agravava-se no decorrer do século XVIII.11 Certamente para a realeza o controle tão severo dos modos era um poderoso instrumento de dominação. consequentemente. assim. Essa aversão ao que ocorria fora dos luxuosos jardins do palácio 23 . 12 Luís XIV reinou por intermédio de um rígido protocolo. por isso era tão importante que o próprio rei seguisse a etiqueta que impunha aos outros. também o poder do rei deveria ser visível em tudo que o circundava. a capital francesa. Em nenhuma corte essas regras foram mais bem utilizadas quanto na de Luís XIV. no qual os rituais foram altamente teatralizados. preenchendo-os de significados sociais e políticos. ávidos em copiar os modos e consumos cortesãos. mantendo as relações entre todos constantemente tensas. Mesmo a instalação da corte em Versalhes foi parte de uma estratégia para fortalecer a imagem da monarquia e da corte. Outra tática foi instituir pequenas atitudes como sinônimas do seu afeto particular. Luís XIV encerrava. fazendo com que competissem por sua atenção. composto de pompa e circunstância. Mostrava então aos burgueses. seu devido lugar: distantes do palácio real. O cerimonial real marcava a profunda distância que o separava da plebe. intrigas e superficialidades. ainda que fossem os eventos mais banais e cotidianos. no qual as cortes rivalizavam com a burguesia enriquecida e ressentida. Tal como a honra se manifesta pela aparência. Afastava a nobreza de Paris. ou seja. o que. Todos deveriam testemunhar o fausto e a majestade que envolvia a corte. a cidade de maior circulação monetária e com maior comércio: burguesa demais para o rei.

ocasionalmente. atrizes. davam espaço a indivíduos livres e autônomos. negociavam. livreiros alemães e até investidores holandeses de açúcar brasileiro. o período moderno foi o momento de desenvolver uma cultura própria. * Para as classes urbanas e trabalhadoras. ainda que buscassem o ideal da vida aristocrática. Nos séculos seguintes. filosóficas. pelo menos nas grandes cidades da Europa Ocidental.fez com que uma admirável circulação de idéias. um século mais tarde.antes limitados a uma minoria religiosa ou intelectual. leitores de jornais. Estabeleciamse como mercadores. podiam ser eleitores. Essa burguesia cada vez mais se apercebe como um setor importante da sociedade e é a partir dessa autoconsciência de classe que essas forças sociais puderam 24 . Cada um com sua vida própria. funcionários do parlamento inglês ou prostitutas francesas.culminaria no trágico desfecho de Luís XVI. no episódio revolucionário.13 Aglomerados desordenadamente nesses cenários. debatiam e. ocorresse ao mesmo tempo em que aumentava a experiência de uma nova dinâmica urbana. as antigas formas de sociabilidade tradicional. sustentadas pelos pilares da coletividade das corporações de ofício ou na estabilidade do campo. viajantes. fossem políticas. consumidores que tinham algum tempo livre a algum dinheiro extra. agora tornados acessíveis à população letrada . vendedores portugueses de escravos africanos. e de sua esposa Maria Antonieta. jornalistas. humorísticas ou pornográficas. ou faziam sexo com pessoas praticamente desconhecidas. lojistas. conspiravam ou espionavam. cada um com sua ocupação. a popularização de textos impressos . Desde o século XVI. mais populosas e com maior movimentação monetária.

se opor decisivamente à nobreza, a fim de substituí-la. Era inevitável que o confronto
acontecesse uma vez que os interesses, mesmo que interdependentes em muitos
momentos (como nas negociações entre os territórios), eram opostos em tantos outros
(como na distribuição dos privilégios, exclusivos da nobreza). A filosofia iluminista
destitui o “direito divino”, servindo de arcabouço ideológico para uma revolução social.
O materialismo nivelou os homens. A tensão entre os dois grupos chegara em seu ápice
ao fim do século XVIII.
Com a ascensão das classes burguesas e seu expresso desprezo por tudo o que se
relacionasse às antigas monarquias, a cortesia, tão aclamada e cultivada pela nobreza,
passa a ser sinônimo de artifício, máscara imposta pela vida na corte. A essas condutas
falsas e dissimuladas, a burguesia opõe a virtude, autêntica, inata: a superficialidade das
reações calculadas versus a personalidade naturalmente comedida.
Assim, a burguesia do século XVIII configurou-se como a classe que conseguiu
internalizar a contenção dos instintos que oprimia a corte. Esse controle fora tão
absorvido que passa a funcionar mesmo quando o indivíduo encontrava-se sozinho,
mesmo que não estivesse sendo observado. O constrangimento causado pelas ações
mais espontâneas, e, em essência, animais - essência cientificamente comprovada pelo
darwinismo -, fez o homem omitir seu sexo, ocultar seus excrementos, negando sua
natureza obscena e rejeitando seu corpo natural. Festejava-se a vitória dessa
racionalização dos desejos. Esse corpo pós-iluminismo, território do controle total e
automático, passava a ser educado ainda na infância, compelido a suprimir vontades
consideradas nocivas, em direção a uma sociedade de adultos civilizados. Rapidamente
resumia-se todo um longo processo social de coação dos instintos, que historicamente
demorou séculos para ser concluído, em apenas uma única etapa da vida.14

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*

O que nas cortes era o domínio dos impulsos naturais tornava-se, para os
vitorianos, a sublimação profunda dos instintos: Na passagem para a sociedade
burguesa, a teia de ações passou a ser tão complexa e extensa, o esforço necessário
para comportar-se corretamente dentro dela ficou tão grande que, além do
autocontrole consciente do indivíduo, um cego aparelho automático de autocontrole foi
firmemente estabelecido.15 Esse mecanismo era formado por um conjunto de métodos
de repressão que apareciam nas escolas, nas famílias, nas fábricas, nos manuais de
etiqueta e, no limite, desencadeado por sentimentos íntimos de culpa e auto-punição.
Violar os rígidos códigos do comportamento civilizado fazia do indivíduo o alvo do
repúdio social ou, no mínimo, irrompia um intenso tormento pessoal.
O que impressiona, afinal, é que esse tipo de prática anteriormente restrita a um
grupo - as cortes e as elites burguesas em contato com elas – se transformou no
comportamento padrão. E mais: automatizado. A contenção, ação forçada e antinatural, fora legitimada por essa sociedade, e transmitida a todos indiscriminadamente,
independente de ofício, sexo ou idade.
A doutrina utilitarista característica da sociedade contemporânea pressupunha a
concepção do corpo que se modela e se manipula de acordo com necessidades
funcionais. Para fazê-lo produzir mais, seria necessário submetê-lo à uma estrita
disciplina, que o transforme e o aperfeiçoe, tornando-o um corpo adestrado: um corpo
dócil.16 Não se tratava somente de um cuidado exacerbado para com esse corpo, mas
acima de tudo de seu comando, ou, ainda melhor, o seu profundo autocontrole.
Essa disciplina passava a ser imposta tanto pelas instituições sociais através de
políticas de coerção baseadas na manipulação calculada da anatomia e das funções

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orgânicas do corpo, quanto pela popularização e naturalização dessas práticas
disciplinadoras, que geram uma espécie de submissão espontânea, na qual o indivíduo,
mesmo sem ser diretamente coagido, segue as regras, porque já as absorveu.17
A disciplina fabrica indivíduos.18 Adestra as massas, criando um ajuntamento
obediente de células separadas, autônomas e produtivas. Essas imposições são
direcionadas por um lado para a saúde dos corpos e o aumento da força física e do
vigor; por outro, para uma rigorosa conduta comportamental planejadamente limitada.
O objetivo é que todos sejam igualmente úteis.
Chega-se ao âmago da prática disciplinadora: a padronização dos indivíduos.
Não torná-los multidão novamente, mas ao contrário, agrupamentos de indivíduos
sozinhos, porém, nivelados. São unidos por uma mesma ordem homogeneizante, ainda
que continuem pessoas diferentes. Ao reprimir e censurar constantemente os indivíduos,
também evita-se sua socialização – além de mantê-los em constante concorrência. Nas
sociedades contemporâneas, aqueles que não se adaptam à total padronização são os que
vivem à sua margem, sem voz ativa: crianças pequenas19, doentes mentais,
delinqüentes, criminosos.

*

A obsessão pela disciplina das emoções visava, principalmente, o afastamento
da sexualidade e a abolição da violência – e em seu prolongamento, a morte em espaço
público - por serem instâncias humanas muito próximas dos instintos animais. No que
tange a violência, o homem contemporâneo esforça-se em reprimir em si mesmo
qualquer impulso em atacar fisicamente outrem e, na mesma proporção, espera estar
livre dos ataques alheios.

27

Dirigentes e seus mandatários – exército. Nas sociedades dos Antigos Regimes. faziam parte da normalidade da vida. a distribuição de poderes na elite aristocrática se dava por meio da posse de territórios. Quando. polícia – monopolizam a prática punitiva e possuem o aval oficial para a violência. O contrato social hobbesiano era o arcabouço ideológico para o fim da ameaça de violência nas relações entre todos. Os choques físicos. a violência punitiva vira território exclusivo de uma entidade representativa. o indivíduo se habitua a tal ponto a inibir suas emoções 28 . no entanto. como no caso de uma autoridade local (monárquica. inibe qualquer possibilidade de auto-expressão agressiva. Instauravase uma espécie de ética cívica que impõe a paz civilizatória para o bem total da sociedade. Paradoxalmente. a vida tornou-se menos perigosa e mais segura. O afastamento da morte corriqueira fez parte do processo civilizador. Sem válvula de escape alguma. esse processo reduz o temor que um homem sente por outro. Vantajosamente. foi banido da vista ou pelo menos submetido a regras sociais cada vez mais exatas. estavam à mercê de serem alvo da agressividade alheia. A presença da violência cotidiana permitia maior liberdade em dar vazão a sentimentos que se tornariam intoleráveis para a época contemporânea. até mesmo o trinchamento de animais mortos e o uso de faca à mesa. ela lentamente se despersonaliza. em contrapartida. a expectativa de uma morte sangrenta era freqüente. conquistados pela guerra. Duelos e ataques físicos ocorriam sem o controle ou a proibição de instituição alguma. Se antes eram mais livres para exprimir rompantes de espontaneidade. estatal). altamente considerada. na sociedade oitocentista. Ataques físicos eram constantes e legítimos. porém mais entediante. era uma política e uma economia da violência. Às vezes.Nem sempre foi assim. as guerras e as rixas diminuíram e tudo o que as lembrasse. o homem poda qualquer tipo de descarga emocional brusca e torna-se passivo.

passam a não só dedicar mais horas ao trabalho como sacrificar os momentos de lazer para tal. enfim. pela prática de religiões cuja pedra de toque é o ascetismo. em princípio um assunto privado. fraco. 29 . a origem do espírito capitalista. a violação do próprio corpo . de tudo que rege sua vida. ela mesma. * Segundo o sociólogo alemão Max Weber. equilibravam as atividades do dia entre momentos de trabalhos. O suicídio é a solidão absoluta. a internalização do controle de si teria sido facilitada.aos olhos da sociedade se transforma em uma demonstração pública de fracasso.20 Mesmo o suicídio. que é. uma questão moral e não de oportunidade. local do máximo isolamento e da máxima autonomia. pelo menos em uma parte da burguesia. ou de satisfação direta de suas pulsões reprimidas. de lazer e de descanso. um princípio de vida no qual homens que.(os sentimentos constantes de tédio ou solidão constituem bons exemplos disso) que não é mais capaz de qualquer forma de expressão sem medo das suas emoções modificadas. Essa capacidade de racionalizar o tempo e buscar mais retorno financeiro sacrificando todo o resto da vida implica numa mudança de espírito. contemporâneo ao vitorianismo.ou seja. Instante ápice do individualismo. seu malogro. O suicida era o indivíduo inábil.21 Praticantes do protestantismo apresentariam uma tendência especial em desenvolver uma espécie de racionalismo econômico. pessoal . de maneira geral. quando nada mais limita a ação e o sujeito se liberta. os gastos antes direcionados para esse lazer são reinvestidos na produção. que não triunfou de alguma maneira. A tentação do autoaniquilamento era decorrente da angústia de uma vida fadada à frustração. Na mesma medida.

Esse elogio ao ascetismo agiria como um bloqueio ao consumo do supérfluo.
Como tudo no universo capitalista gira em torno do utilitarismo (das coisas, das ações,
das virtudes), o consumo se restringiria ao necessário, em contraposição a purpurina e a
ostentação da magnificência feudal que, repousando sobre bases econômicas doentias,
preferia a suja elegância à sóbria simplicidade.22 Contra a opulência cortesã, surgia
uma ética econômica especificamente burguesa que permitia que se perseguisse um
objetivo pecuniário qualquer, desde que dentro dos limites dos preceitos religiosos. Ao
agir com moral e ética, “ser rico” era uma conseqüência natural e legitimada pela
divindade.

*

Um estratagema altamente eficiente no controle dos corpos foi a da
popularização de um discurso higienista. Contrapunha-se ao artifício aristocrático, falso
e descartável como uma máscara. O corpo burguês, naturalmente civilizado e virtuoso,
teria uma vitalidade própria proveniente dos vigores internos, que desqualificaria
interferências externas e inapropriadas como o adorno e a aparência exagerada. Os
banhos, então, instalam-se nas práticas cotidianas da elite burguesa, ainda que fossem
parciais, sem a imersão completa na água; a limpeza não se limitava mais à troca da
roupa branca, como era a concepção anterior de limpeza corporal. A higiene,
significando, agora, o conjunto de práticas e saberes que favorecem a manutenção da
saúde, vira palavra-chave para o século XIX, em detrimento à profusão ornamental que
escondia a sujeira cortesã.
A necessidade de asseio pessoal foi acompanhada por justificativas médicas.
Descobriu-se, enfim, que as doenças não eram conseqüência do desequilíbrio dos

30

humores, castigos divinos ou qualquer outra explicação não científica, mas são
comprovadamente causadas por microorganismos imperceptíveis ao olho. A assepsia
freqüente e cuidadosa torna-se fundamental: limpar-se é atuar sobre agentes invisíveis
que podem desestabilizar o corpo. Logo, era necessário; útil.
Entretanto, o maior inimigo da higiene no século XIX era, apesar dos apelos
científicos, o pudor. Foi imperativo que, já na segunda metade do século, as casas
apresentassem espaços privativos como banheiros, cômodos autônomos destinados à
limpeza íntima. Até então, as medidas higiênicas tinham espaço dentro dos quartos, nos
chamados gabinetes de toalete. Nos novos banheiros, entrava-se sozinho e não se
solicitava qualquer ajuda. Constituiu-se, simplesmente uma relação mais exigente do
indivíduo consigo mesmo. Talvez nunca essa exigência em relação a intimidade tenha
se manifestado a tal ponto. 23

*

A idealização do tipo burguês24 foi uma das chaves da transição social ocorrida
entre os séculos XVIII e XIX, caracterizando o período vitoriano.25 As convicções
próprias da classe trabalhadora passaram a ser o modelo esperado de comportamento.
Assim, o homem burguês deveria ser, ou pelo menos dizia ser, esposo devotado, pai
prestimoso, sócio honesto nos negócios, moderado em política e no consumo de vinho,
amigo de prazeres poucos dispendiosos. Sua aparência condizia com sua
respeitabilidade e o novo herói era um homem de capa simples, talvez calçando
galochas, portando uma pasta de documentos e certamente um guarda-chuva, e que
pensava em seus negócios e sua família.

26

Nunca na história ocidental foi tão

importante vestir-se adequadamente.27

31

No caso das mulheres, limitavam-se a elas as capacidades restritas ao âmbito
dos sentimentos: sensibilidade estética, solicitude, sabedoria materna, encantos sociais
instintivos. Convenientemente, essa separação negava suas possibilidades de
participação ativa e as mantinham distantes do direito do voto, do direito de freqüentar
uma instituição de aprendizado superior ou possuir conta bancária independente, da
igualdade nos processos de divórcio e de outros direitos considerados privativos dos
homens.28
Na sociedade oitocentista triunfava uma moral do merecimento, na qual as
biografias pessoais resumiam-se a uma sucessão de feitos, definidores do caráter de
cada um. Aos homens, sua conduta em relação ao trabalho era notadamente importante.
Trabalhar para o burguês era um imperativo ético, um princípio ao qual deveria aderir
como demonstração de seu caráter irrepreensível. Quanto mais trabalhasse, maior seria
o reconhecimento de seu esforço.
A família foi uma instituição altamente idealizada pelos vitorianos. Na era dos
talentos individuais, era o único grupo de interdependência legítima, considerado o
motivo principal da busca de sucesso material. Diferentemente do espaço público, ali
cada um tinha seus papéis pré-estabelecidos e não estava em concorrência com os
outros.29 A privacidade tornava-se um importante valor no Ocidente,30 era a essencial
separação entre a vida doméstica e o resto do mundo. O ambiente privado – o idílico e
tranqüilo lar burguês - se constituiu como o local da máxima liberdade individual, e
também da máxima solidão social.

*

32

a tendência da união por amor ia se tornando a regra. bibelô protegidos no espaço privado. separava a sociedade entre aqueles que eram ou não bem-sucedidos. Gerenciar o lar de classe média significava comprar as provisões. submissa e responsável pelo bom andamento da esfera familiar. O casamento burguês definia-se então pela busca do par ideal: ao homem trabalhador. Por serem acertos de interesses e não laços sentimentais. A sexualidade racionalizada desenvolvia-se concomitantemente a um novo modelo de casamento romântico. Resistir às pulsões naturais era alcançar o mais alto grau de civilidade pelo uso da razão e não ceder mesmo às tentações mais instintivas. 33 Além de ser a metade decorativa do casal. presidir com graça o que os contemporâneos costumavam chamar de “suplício doméstico” sempre dando a melhor impressão possível como anfitriã. que substituía gradualmente o matrimônio arranjado.O fracasso em resistir aos apelos da carne também foi considerado um autêntico reflexo de fraqueza moral. assim como a qualquer outro aspecto da vida.32 Ainda que as elites mantivessem a prática das bodas negociadas pelos pais.31 O indivíduo verdadeiramente respeitável mostrava a força de seu caráter ao não se deixar seduzir. assumir o papel principal na criação dos filhos. de forma geral. em relação ao sexo. A civilização. bem-sucedido. A força de vontade. com os quais normalmente passavam mais tempo que os seus maridos. supervisionar os empregados. apoiando-o nas decisões e nos fracassos. deveria ser a fiel colaboradora de seu esposo. discreto e inteligente. apoiava-se na repressão das urgências sexuais. ou seja. característico das relações aristocráticas. 33 . seu correlato era a mulher dedicada. conservar-se prudentemente dentro do orçamento doméstico. essas alianças nas cortes absolutistas trazia em seu bojo um equivalente entre os papéis femininos e masculinos nessas sociedades. às realmente perigosas porque animalescas.

Portanto. Diferentes das designações populares anteriormente utilizadas (como sodomitas. ao mesmo tempo em que se pregava o modelo feminino de subserviência. “normal” e bom – portanto saudável. Um novo padrão de relações sexuais admitia apenas o desejo sexual por mulheres.35 Esse temor da masculinidade desviada é bastante complexo uma vez que. Paradoxalmente. Um tipo de maniqueísmo que coloca de um lado o heterossexual. não se interessassem por ele e que homens não o praticassem fora de suas casas. essa medicalização da sexualidade privada propõe a linguagem que indica uma desordem na própria constituição do indivíduo. era convenientemente interessante aos homens manifestarem atração constante por mulheres e por sexo para evitar rumores de efeminados ou de pouco viris. a verdadeira obsessão com a qual a civilização burguesa insistia que a mulher era essencialmente um ser espiritual implicava que os homens não o eram34. lésbicas. o gosto pelo mesmo sexo começava a ser concebido como uma doença. aquilo que no século XIX denominou-se de homossexualidade e heterossexualidade não são distinções presentes na natureza humana universal. tríbades). na construção de uma sexualidade caracteristicamente burguesa. A moralidade burguesa criava esse tipo de hipocrisia consciente em relação ao sexo. 36 São concepções que surgiram principalmente devido à cientifização dos assuntos do sexo por parte da medicina. teoricamente. ao esperar que mulheres. ou seja. * 34 . e do outro o doente homossexual “anormal” e pervertido.A idealização do núcleo familiar não permitia brechas para o desejo extraconjugal. e era esse desejo que determinava a condição masculina.

a primeira como uma devassa da mais alta estirpe e o segundo. tanto no século XIX como posteriormente. antes de mais nada. do vestuário. antes de tudo. as duas caricaturas extremistas e opositoras: a do aristocrata inescrupuloso e degenerado (que tinha o alto clero como seu cúmplice – a figura do “bispo bonachão” é recorrente no imaginário libertino38) e o do burguês dissimuladamente puritano. uma transposição. mas. contra uma certa hipocrisia vitoriana. Um exemplo do primeiro caso foi a grande circulação de panfletos de cunho pornográfico. Seria. a Revolução burguesa do fim dos setecentos marcava também uma revolução sexual. A polêmica historiográfica em torno do assunto teria origem.De fato. mesmo nele. buscava-se uma sexualidade caracteristicamente burguesa que servisse de instrumento de afirmação de classe ao atribuir a si uma prática sexual específica – concomitantemente a uma nova concepção do corpo. 35 . obscenamente efeminado. em primeiro lugar. no exagero da propagação desse ideal que teria sido. Para o vitoriano ideal. Em segundo lugar. Maria Antonieta e Luís XVI. nos comentários mordazes de críticos da burguesia. a degeneração sexual andava de mãos dadas com a corrupção política. pelo menos nos discursos. em verdade. Ao mesmo tempo.37 Criaram-se. as relações deveriam ser moderadas. havia o amor saudável dos novos patriotas. Por último.39 A libertinagem desvairada seria substituída pelo autocontrole higiênico: a pornografia que degradava a nobreza elevava o ascetismo burguês. no período revolucionário. assim. Contrapondo-se – em geral implicitamente - aos aristocratas degenerados e aos padres sodomitas do Antigo Regime. o casamento era o único local da sexualidade lícita. e não abstêmia. sob outras formas. expondo os reis depostos. uma reação contra o estereótipo da aristocracia devassa e libertina. no excesso de moralismo teórico que esconderia uma prática sexual satisfatória. que acentuavam o caráter imoral da nobreza. da higiene. Nesses panfletos. da imagem.

isto é. seguindo preceitos tipicamente burgueses e novos – e por isso. ou ainda que. o sangue azul. ou ainda. pois a aristocracia nobiliárquica também afirmara a especificidade de seu próprio corpo. para assumir um corpo. por muito que se falasse acerca do sexo (mesmo quando para se dizer de sua proibição). impôs um organismo são e uma sexualidade sadia. antes de evitar o intercurso. promovia uma prática sexual mais consciente. para a sua descendência e da saúde do seu organismo. mas o colo da galinha. nunca o corpo fora tão coberto no caso das mulheres. numa tentativa de dessexualizar a imagem pessoal. Os discursos referentes à moralidade vitoriana dão a entender que o mundo burguês era perseguido pelo sexo. Ainda que não seja possível afirmar veementemente que a vida sexual dos casais vitorianos fosse lascivamente admirável.dos procedimentos utilizados pela nobreza para marcar e manter sua distinção de casta. chamam a atenção as histórias fabulosas sobre um severíssimo decoro imposto pela etiqueta vitoriana que chegava ao ponto de obrigar que se escondesse os objetos que lembrassem partes do corpo humano. tão intransigentemente criticados.40 Ao substituir a ordem aristocrática. como as pernas das mesas e dos pianos. Certamente exigiase a discrição sobre determinados assuntos e. ao comer. mesmo concernente ao vestuário. É possível acreditar que. tampouco é possível concordar que a classe média era contra o sexo. olhou. a profusão de discursos. da antiguidade das ascendências e do valor das alianças. a burguesia. talvez. Durante mais de um século os historiadores que desdenhavam os vitorianos passaram adiante a calúnia de que os maridos burgueses daquela época se sentiam compelidos a recorrer a prostitutas para compensar a inescapável frustração sexual no lar. Porém. Mas era na forma de sangue. pela proibição do sexo. pedissem não o peito. ao contrário. O “sangue” da burguesia foi seu próprio sexo. e pouco chamativo no caso dos homens. Evidentemente 36 .

de poder arcar com o ócio de sua mulher. ainda assim. eram cortados de revistas. A grande chave. exceto talvez uma gravura religiosa. comprar entrada para um concerto. seus filhos entravam para a força de trabalho tão cedo quanto a lei permitisse. E. se orgulha de seus negócios e de seus rendimentos e. às mulheres. a sexualidade vitoriana parece ter sido mais livre do que a literatura produzida insiste em afirmar. chefe de família. o sentimento.havia os que faziam isso. especialmente. talvez. ainda que sempre moderadamente. no entanto.41 No limite entre o revelado e o oculto. relegando à sua esposa essa matéria. Aquilo que para as classes altas era considerado consumo corriqueiro transformava-se em um verdadeiro luxo: jantar num restaurante. desdobravam-se em não aparentar situação pior do que a 37 . adquirir móveis confortáveis. demonstrando sua incapacidade de lidar com “assuntos sérios”. * Aos homens. a pequena burguesia passava por inúmeros percalços na manutenção de uma imagem de respeitabilidade. Todavia o remédio mais seguro era frequentemente mais e melhor sexo dentro do matrimonio. na esfera pública acabava se ocupando com todo tipo de amenidade social. seja entender que parte do treinamento moral para os burgueses respeitáveis deve ser a transformação do desejo inato e selvagem em satisfação civilizada e afável. esses binômios se manifestavam nos papéis sociais dos gêneros. passar férias fora de casa. Os quadros em suas paredes. Porque a ocupação ideal da mulher burguesa é a dedicação ao lar e o cuidado com as tarefas domésticas. O novo modelo de relações entre os sexos resulta numa sociedade que rejeita ao homem a prática do ócio. Economicamente. Esse cenário ajustava-se perfeitamente às aspirações das elites. nos quais o homem. mandar fazer um casaco novo. a razão. Mais e melhor.

inclusive. seus corpos. invente ou deseje. Não eram proletários!42 E apesar das desigualdades. cansado e sem 38 . a repetição contínua da mesma tarefa leva o operariado superexplorado por uma jornada de trabalho muito longa a viver subordinado a determinações que são exteriores a ele. são homens reduzidos a seres automatizados. A vadiagem. infiltrou-se nas ordens mais humildes. o desemprego ou o ócio masculino eram inaceitáveis. ou fazer arranjos domésticos que os bons burgueses desdenhariam. em opções baratas. visto que. contavam com uma propriedade primeira. Tal mudança de concepção é bastante oportuna visto que a maior parte da população urbana efetivamente não contava com nada além do próprio corpo. Todo um conjunto de preceitos que incluíam a respeitabilidade e a virtude. trocar ou vender. não produzindo nada que realmente crie. Mesmo que não consumissem da mesma maneira. eram imorais. mas eram gente respeitável. o corpo serve. E dispunham dele. Poderiam permitirse alguma extravagância no dia do pagamento.que se encontravam. a penetração de padrões e valores da classe alta e média ocorreu amplamente no operariado. procuravam na medida do possível comportarem-se de acordo com a etiqueta burguesa e no vestuário dos trabalhadores fabris isso era bastante perceptível: usavam as mesmas modelagens e cores. em última instância qualquer pessoa tem seu corpo para servir ao mercado. para garantir sua sobrevivência. Ainda que não possuíssem bens materiais para dispor. Em épocas utilitaristas. Preocupavam-se enormemente em não descambar para o proletariado. mas não racionais. Não trabalhar se tornava degradante agora. o recato e a discrição. Afastados de qualquer atividade do pensamento. razão pela qual insistiam quase comicamente em conservar modos burgueses formais e incutir nos filhos padrões éticos da burguesia. Porque se transforma nesse animal amorfo e domesticado. Nas fábricas. de sua força física. para manter a dignidade de um homem através do trabalho.

apesar das atividades rurais predominarem. A Alemanha. a posição de primeiro a ter uma população majoritariamente urbana. Era. Grande movimentação urbana e individualismo: eis a tônica da sociabilidade oitocentista. Próximo do fim do século – na transição do período vitoriano para o eduardiano – os valores morais da burguesia já estavam profundamente consolidados na Europa Ocidental e também nos Estados Unidos. país mais industrial. essas realidades conviviam lado a lado. o homem-máquina tão festejado do século anterior. inserido no rebanho de centenas de outros com os quais convive e sequer se relaciona.ânimo. As principais capitais culturais eram Paris e Londres. A Inglaterra. Ainda assim. e com a tolerância política e religiosa desde o fim dos setecentos. No meio do caos das cidades. investia pesado para se industrializar enquanto na França. a Holanda era a sociedade mais urbanizada e instruída. * Nos grandes centros urbanos do século XIX. que 39 . como o flanêur e o dândi. Esse estado de espírito. burgueses. em meados do século. ironicamente. Seus reis já eram. sem jamais se conhecerem. A miséria e o luxo atravessam as mesmas ruas. Os diferentes ofícios se encontravam. assim como na Inglaterra. lentamente se industrializou. vira apenas mais um. em larga medida. a partir da segunda metade do século. sensações indefiníveis de ansiedade e nervosismo alternavam-se ao tédio e à monotonia. mas também havia Viena e Berlim. Figuras tipicamente urbanas surgem para assistir o espetáculo da vida moderna. a Rainha Vitória. os rumos da economia caminhavam para uma abertura liberal-capitalista cada vez maior e. alcançava. homens e mulheres se esbarravam.

a angústia gerada pelas longas jornadas de trabalho e sua conseqüência direta. a si próprio. assim como o apego desmesurado ao materialismo. a alienação. um misto de tristeza. neurastenia e neurose eram as doenças típicas do fim do século: moléstias da alma. cansaço e desorientação. não pelo prazer obtido nessas realizações. os indivíduos se viam obrigados a ganhar dinheiro e consumir compulsivamente. certamente.chamavam mal do século. Também a excessiva repressão do autocontrole. abate a sociedade. Ao matar Hyde. O fim da espontaneidade demandou novas válvulas de escape. mas como um fim em si mesmo. 40 . de luto. Um dos causadores dessa enfermidade difusa era. o vitoriano viu. Histeria. Afundados em valores capitalistas.

1848-1875. Duarte. São Paulo: Hedra. Philippe e CHARTIER. Michel. Georges. 41 . 2001. O limpo e o sujo. Rio de Janeiro: Vozes. Tradução: Carlos Szlak. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Uma história da higiene corporal. _________________. Lynn (org. VIGARELLO. HOBSBAWM. São Paulo: Companhia das Letras. Eric. 1998. Tradução: Maria Thereza da Costa Albuquerque. Paz e Terra. Rio de Janeiro: Ed.Bibliografia ARIES. História da vida privada 3: da Renascença ao Século das Luzes. _____________. O século de Schnitzler: A formação da cultura da classe média: 18151914. Vigiar e Punir. Tradução: Pietro Nassetti. A sociedade de corte. 2001 FOUCAULT. Roger (orgs). Max. GAY. A Era do Capital.. WEBER. Tradução: Hildegard Feist. ELIAS. Rio de Janeiro. Tradução: Ruy Jungmann. Peter. São Paulo: Martins Fontes. 1991. 1994.) A invenção da pornografia: obscenidades e origens da modernidade. 2002. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Graal.. Volumes I e II. São Paulo: Martin Claret. 1999. 1984. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Norbert. 2002. HUNT. O processo civilizador. Tradução: Luciano Costa Neto. 1996. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução: Mônica Stahel. Tradução: S.

que verdadeiramente influenciava toda a sociedade. já falecido. de pessoas. juntamente de seus principais servidores e conselheiros e suas respectivas famílias formavam o que denominamos corte. para mostrar o quanto condutas consideradas banais até os dias atuais. outro importante historiador.Notas: 1 É a esse processo que o sociólogo alemão Norbert Elias denomina Processo Civilizador. Chartier é um dos expoentes da chamada História Cultural. ainda que se diferenciassem em alguns aspectos. Juntamente de Phillippe Aries.) 42 . Página 9) 6 A citação é do historiador francês Roger Chartier. apesar da crescente relevância econômica dos centros urbanos. centenas. 4 A partir dos séculos da Renascença. Elias elenca uma série de comportamentos e suas respectivas mudanças até o fim do século XVIII. Historia da vida privada. Página 166. e para manter a honra recorria-se a todo tipo de recurso que visasse a ostentação da imagem. sem antecedentes na história. retirada de Philippe Aries. 3 Isto é. todos eles sugerindo que se evitem barulhos desagradáveis ou que não se limpe orifício corporal algum enquanto as refeições são servidas. História da vida privada. organizou o volume 3 da famosa série História da vida privada. 2 O agrupamento do rei e seus familiares. as cortes exigiam novas regras de conduta. o castelo do rei. são regras ainda muito rudimentares mas que exibem a preocupação nascente com o refinamento dos gestos. muito similares na maioria dos pontos. que proporcionassem a convivência possível entre a nata da aristocracia. na verdade. A chamada nobreza de toga só pôde aparecer quando os atributos da força bélica foram substituídos pela riqueza. as cortes francesas. é altamente significativa em relação à importância das aparências a partir dos séculos da Renascença. o que pode ser percebido pelas análises que Norbert Elias faz dos códigos de boas maneiras dessas cortes. o novo local de ação dos reis (antes reservado às guerras). dividiam o mesmo espaço. conhecido por suas análises sobre História da Leitura. italianas e alemães seguiam basicamente as mesmas normas. 5 A citação. O historiador francês faz dela sinônimo de honra. ramo da historiografia que se contrapõe aos modelos teóricos da historiografia tradicional. Ou seja. assim como da história marxista que limita o processo histórico às teorias econômicas e de lutas sociais. foi culturalmente construído para ser considerado. mesmo o menor dos atos. Enfim. parte de um conjunto de transformações passadas para as gerações seguintes. Partindo do fim da Idade Média. era possível a compra de títulos pela elite burguesia. quando buscado em retrospecto. enfim. política e positivista. já bastante enriquecida. Porque se tornava um novo tipo de sociabilização. (ARIES. Dependendo do reino. às vezes milhares. Um exemplo bastante esclarecedor é relativo às “boas maneiras à mesa”. civilizado. foram. (CHARTIER. Era a estrutura mais representativa dos Antigos Regimes.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. uma vez que indicava a posição hierárquica e. mais ainda. Participar do ritual era uma honra incomensurável: esse sentimento foi chamado por Elias de fetiche do prestígio. RIBEIRO. já que as camadas sociais na França eram mais separadas e a etiqueta de corte mais rígida. Páginas 45-67) 8 Idem. (ELIAS. na qual ser membro da corte e. menos indigno. a estima do rei para com os cortesãos escolhidos. é difícil fugir à necessidade de adaptar ambições pessoais às normas e valores sociais em vigor ou perder o lugar na corrida do êxito. Cabia às famílias abrir mão de seus títulos ou. desde a Idade Média até o século XIX. 12 O ritual matinal de Luís XIV foi um dos exemplos mais explorados no tocante à teatralização do cerimonial real. foi escrita pelo historiador francês Georges Vigarello. 10 O pertencimento a corte tinha valor em si mesmo pelo simples reconhecimento de superioridade que pressupunha. (VIGARELLO. São Paulo: Moderna. 9 A riqueza total da nobreza parisiense cresceu mais de 700% entre 1700 e 1789. E era uma riqueza sem reinvestimento: destinada integralmente aos gastos da corte. 1999. (ELIAS. Página 50) 11 Principalmente a corte francesa. o absolutismo nunca teve um representante forte até esse período e a existência de diversas cortes tornava a courtoisie mais simples. que lhe ajudavam em todas as etapas matinais. Na Alemanha. ainda que imitassem a francesa. desde o século XVI. o dinheiro gasto pouco importava enquanto valor monetário. Desde seu despertar. Quando se nasce e se é educado numa sociedade que dá mais valor à aquisição de um título de nobreza que à acumulação de riquezas através do trabalho. as cortes já contavam com um número grande de burgueses e a própria monarquia inglesa era mais liberal em relação às demais no século XVIII.. são posições que abrem-se em virtude das estruturas de poder – perspectivas sociais particularmente importantes para toda a vida. tendo como alicerce as transformações de uma cultura do corpo decorrente do processo civilizador teorizado por Norbert Elias. O limpo e o sujo. qualquer sacrifício era valido para manter-se lá. Tanto Norbert Elias quanto o filósofo brasileiro Renato Janine Ribeiro debruçaram-se nos detalhes do evento. por menos que a posição social da família e a capacidade individual ajudem à vitória.7 Uma história das práticas de higiene corporal. Norbert. Essa herança de fidalguia se tornava problemática quando não existia mais seu correspondente em riquezas.) 43 . Na Inglaterra. Renato Janine. contrair empréstimos até a bancarrota – o que de fato ocorria. principalmente. A sociedade de corte. A sociedade de corte. 2001. ter o privilégio de privar com o rei. Por isso. o que a diferenciava bastante da burguesia. A etiqueta no Antigo Regime. o “rei-sol” era cercado por membros da corte.

o medo que o homem sente de si mesmo. 2003. Rio de Janeiro: Vozes.) 22 WEBER. (FOUCAULT. O processo civilizador. Vigiar e Punir. Ética protestante e o espírito do capitalismo. Os medos e a ansiedade criados pelo homem. O sociólogo alemão Max Weber foi o grande teórico dessa analogia entre o protestantismo e a formação do capitalismo. sejam eles medos ao que vem de fora ou ao que está dentro de nós. Os indivíduos se acostumam de tal maneira a manterem uma conduta desejável que não mudam mesmo na hipótese da não estarem sendo observados. aproveitando ao máximo todas as suas potencialidades produtivas. de 1975. finalmente mantêm em seu poder até mesmo o adulto. por isso têm pequena participação social. 14 A personalidade da criança é tão modelada por medos que ela aprende a agir de acordo com o padrão predominante de comportamento. O processo civilizador. utilizado em escola. Michel. hospitais ou em qualquer instituição que evite a violência física mas que necessita de ordem pacífica entre os indivíduos. 1998.) 17 É esse o objetivo último do Panóptico. O mundo materialista da pornografia. obriga a todos a seguirem estritamente as normas. Página 35. Lynn. A vergonha. Petrópolis: Vozes.) 15 ELIAS. Afirma que os homens de negócios e donos do capital. o medo da guerra. Margaret. 44 . Volume 1. (WEBER. Vigiar e Punir.) 18 19 FOUCAULT. pela restrição de alimentos ou prazeres. Michel. (FOUCAULT. Estando ocupado ou não por um vigia. Segundo o autor. 16 “Corpo dócil” é uma expressão cunhada pelo importante filósofo francês Michel Foucault no texto Vigiar e Punir. Página 123. estão já sendo ensinadas a se adaptarem às regras. as práticas disciplinadoras constituem uma espécie de Biopoder. O processo civilizador. Página 270. Vigiar e Punir. todos eles são direta ou indiretamente induzidos nele por outras pessoas. Se freqüentam a escola. de Deus. de ser dominado pelos seus próprios impulsos afetivos. Crianças não atingiram a idade da total submissão à disciplina tal como os adultos. A invenção da pornografia. assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante. prisões. cujo objetivo último é transformar o corpo humano natural e instintivo num corpo dócil e útil. que trata dos métodos coercitivos e punitivos no decorrer da história. Página 198. (ELIAS. Ética protestante e o espírito do capitalismo. In: HUNT. Volume 1. Página 171. 20 21 ELIAS. sejam esses medos gerados pela força física direta ou pela privação. Página 204.13 JACOB. A internalização dessas disciplinas teria alcançado seu ápice na sociedade contemporânea. Página 143.

historiadores da cultura americana domesticaram o termo. isto é desde a derrota de Napoleão em 1814 até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. O limpo e o sujo. moralidade e modos ingleses. o possuidor do capital. um homem tinha que ser “alguém”. O sentido jamais ficou inteiramente confinado ao reinado da Rainha Vitória. capacidade de comandar os outros. foi o triunfo e a transformação do capitalismo na forma historicamente específica de sociedade burguesa em sua versão liberal. por cause de sua riqueza.. A dificuldade está em definir os limites altos e baixos dessa camada dentro da hierarquia de status social (. economicamente.) 25 O historiador alemão Peter Gay utiliza o termo vitorianismo de maneira mais ampla e abrangente e é assim que será empregado nesse trabalho. em 1815. Página 17. à eclosão da Primeira Guerra Mundial. ao utilizar vitoriano como sinônimo de “século XIX”. como algo que sugere os gostos... O século de Schnitzler. Existiram “vitorianos” antes e depois da rainha Vitória. em que pesem todos as diferenças. Página 338. o historiador simplifica ainda mais a questão. Nos anos recentes. o século XIX estendeu-se da derrota de Napoleão. em agosto de 1914. ou aquele que recebia renda derivada de tal fonte ou um empresário em busca de lucro. pois em geral se reconhece a existência de vitorianos antes de sua subida ao trono em 1837 a após a sua morte em 1901. considerado por ele o período entre a Revolução Francesa e a Primeira Guerra Mundial. Para pertencer a ela. São exemplos: a propagação do uso do sabonete como uma “ferramenta” da limpeza assim como a descoberta de que o corpo transpira através da pele por conta da queima calórica . mais precisamente.) Uma das principais características da burguesia como classe era que consistia num corpo de pessoas com poder e influência. Eric Hobsbawm. que eram um grupo numericamente bem pequeno fora das capitais.. ou todas as coisas juntas) (. Em suma. alemães ou italianos fossem exatamente iguais a seus contemporâneos britânicos . 24 Tomo emprestado a definição do homem burguês do célebre historiador naturalizado inglês. mas estou convencido de que existe uma grande semelhança de família entre os burgueses. Segundo o autor citado. desde que fossem abastados e bem estabelecidos: homens de negócios.) Na série A experiência burguesa: da Rainha Vitória a Freud. o burguês. uma pessoa que contasse como indivíduo. profissionais liberias e os escalões mais altos da administração. e na minha opinião ele pode ser ainda mais generalizado..23 VIGARELO. proprietários. (HOBSBAWM. Segue sua definição: O uso costumeiro há muito define essa palavra como algo britânico e. a principal característica do século XIX. Era do capital. Para o autor.suor que seca porque se transforma em vapor.) Socialmente. o nome da soberana vem sendo aplicado de maneira ampla ao século XIX. Não quero com isso dizer que os “vitorianos” franceses. Mas também havia vitorianos fora do reino. existiam também algumas analogias entre o corpo e a máquina industrial que favorecia a promoção dos assuntos da higiene na sociedade eufórica com as máquinas. Segundo ele. Além do 45 . o mesmo procedimento das máquinas a vapor. (GAY. ou de influenciá-los. as definições não eram tão claras. independentemente do poder e da influência derivados de nascimento ou status. embora a “classe média” incluísse.. Página 238. era um capitalista (isto é.

.) O papel do vestuário na sociedade vitoriana será longamente analisado no Capítulo 2 deste trabalho. Essa seria um conjunto de valores que se impõem na sociedade após o período das revoluções (Revolução Francesa à Primavera dos Povos). dizia um ditado alemão. e nenhuma época seguiu mais à risca tal idéia do que a época em que a mobilidade social poderia de fato colocar numerosas pessoas dentro da situação histórica inteiramente nova de desempenhar papéis sociais novos (e superiores). O século de Schnitzler. a liberdade. 31 HOBSBAWM. Peter. Dentro dela. Página 54. 1988. seriedade. aumentou a importância social das mulheres. foi em torno de mulheres que se 46 . (.. Era do Capital. Como acontece em todas as ocasiões em que homens são obrigados a renunciar à violência física. (.mais. (GAY. Era do capital. Precisamente porque não era baseada em desigualdades coletivas. retidão. Era do capital.. ela precisava tomar uma forma que fosse permanente e segura. O século de Schnitzler. frequentemente considerada hipócrita por seus críticos mais audazes. a dependência precisava ser uma relação individual. mantida na maior parte da população durante o período moderno. O pano de fundo para os comentários do historiador é a vida e os escritos do romancista vienense Arthur Schnitzler. Página 321.) Mas também pode ser que a desigualdade essencial sobre a qual o capitalismo se apoiava encontrasse uma expressão necessária na família burguesa. o nexo do dinheiro e a busca do lucro individual não eram a regra. Uma moral muito rígida e. 32 A desmilitarização das cortes contribuía para criar uma atmosfera um pouco mais pacífica. 29 O ponto crucial era o de que a estrutura da família burguesa estava em direta contradição com a sociedade burguesa. 26 A formação de uma cultura própria da classe média burguesa no século XIX é o tema do texto de Peter Gay do qual essa citação foi retirada. (HOBSBAWM. (GAY. entendia o homem como um elemento de um todo maior e mais importante. a oportunidade. E assim. institucionalizadas e tradicionais. por isso.) 27 O traje faz o homem.) 30 A concepção medieval de coletividade. Página 334. tendo que usar as roupas apropriadas. São Paulo: Companhia das Letras. discrição. Página 68. (HOBSBAWM. os traços que corretamente consideramos como característicos dos vitorianos não estavam confinados à Grã-Bretanha. O período de paz e progresso econômico e tecnológico é dominado por uma moral que supõe bons costumes. Já que a superioridade era algo tão incerto para o indivíduo. Volume 3. puritanismo.) A riqueza das grandes cortes dava à mulher a possibilidade de preencher seu tempo de ócio e dedicar-se a interesses de luxo. Página 328. em conformidade com esse momento histórico. 28 GAY.. A experiência burguesa da rainha Vitória a Freud. não deixando espaço para a necessidade de uma vida privada. Página 11) É possível também falar em uma moral vitoriana.

mas os homens se envolviam em outros tipos de relacionamentos. Páginas 77-8. da decência. o sexo não era considerado um assunto a ser escondido sequer disfarçado. Página 327.. A invenção da Pornografia. da prostituição ao adultério e estupro. sendo frouxos os códigos da grosseria. e certamente na Inglaterra. Era razoavelmente fácil manter uma postura teórica que sustentava que até o XVII. por sua vez. o homem adulto tinha relações sexuais com mulheres e adolescentes do sexo masculino. (. In: HUNT. da obscenidade. 35 A expressão “hipocrisia consciente” é emprestada de Eric Hobsbawm que afirma que.) A prostituta e o sodomita revelavam os limites do comportamento que a sociedade considerava apropriado para homens e mulheres. que eram ilegais na Inglaterra e certamente imorais em toda Europa. Página 219. se comparados com os do vitorianismo. isso ocorria quando homens adultos penetravam em garotos adolescentes. entretanto. O sexo comedido. Volume 1. é uma coisa. Era do Capital. o casamento sendo o único local da sexualidade lícita..) 33 GAY. Na maior parte da Europa.) 37 O discurso sobre a repressão do sexo no século XIX vigorou na historiografia até que Michel Foucault batesse de frente com essa verdade já consolidada. “a mãe dos meus filhos” é outra bem diferente. Era do Capital. discreto. ser honroso para os homens quando revelava o seu poder. (ELIAS. Página 325.. Essa idéia remonta ao XVIII e permaneceu.. 34 HOBSBAWM. a moralidade oficial burguesa batia de frente com as demandas da natureza humana: Aqui. teria finalmente limitado a sexualidade ao âmbito doméstico. O processo civilizador.) 36 O historiador da homossexualidade Randolph Trumbach comenta que antes do século XVIII na Europa. Esse comportamento podia. nas questões relativas ao sexo. (TRUMBACH. que representavam um estado intermediário entre homem e mulher. as regras eram perfeitamente entendidas. O século de Schnitzler. (HOBSBAWM. privado. aquilo que no século XIX denominou-se de homossexualidade e heterossexualidade não são distinções presentes na natureza humana universal. Fantasia erótica e libertinagem masculina no iluminismo inglês. as mulheres de verdade não eram prostitutas e os homens de verdade não eram sodomitas. como qualquer italiano da classe média ainda conhece. Esse. Portanto. Apenas as relações matrimoniais com mulheres eram legais e aprovadas pela Igreja. Para essa maioria. Depois de 1700 esse tradicional comportamento homossexual masculino foi substituído por um novo padrão de relações. Páginas 275-278. heterossexual e dentro do 47 . Supostamente todos os homens eram capazes de praticar tais atos com garotos. As relações homossexuais também eram condenadas mas podiam ser honrosas quando afirmavam o poder do homem. incluindo a necessidade de uma certa discrição nos casos onde a estabilidade da família ou da propriedade burguesa pudesse ser ameaçada: paixão.. (.formaram os primeiros círculos de atividade intelectual pacífica.) Essas praticas sexuais entre homens e garotos não implicavam – e esse é o ponto crucial – o estigma da efeminação ou do comportamento inadequado do homem.

na verdade. pedófilo: o “Bispo de . representantes da decadência da moralidade aristocrática. assassino. ao contrário. (SADE.” . Foucault. Irmão do celerado Duque de Blangis.. e é difícil imaginar esses homens rígidos e ascéticos aprovando a pornografia.. com uma clara preferência por essa última.) 38 Nos 120 dias de Sodoma do Marquês de Sade. um prato cheio para denunciar a hipocrisia dessa pregação. São Paulo: Iluminuras. Marques de. 2006. combinava perfeitamente com seus recursos limitados. mas tinha o espírito mais flexível e mais destro. A invenção da pornografia reúne artigos de diferentes historiadores a respeito da tradição de escritos de cunho erótico e sexual no Ocidente durante o período moderno. o Bispo de .. tanto nas idéias quanto no comportamento. Página 24. de disseminação e implantação das sexualidades polimorfas e que a vontade de saber não se detém diante de um tabu irrevogável. Para os críticos da sociedade utilitarista e monetarista. Incestuoso. ao contrário. por sua vez. Sobre o assunto. a velhacaria. próprio da burguesia.. Nos século XVI. limitar? Se a hipótese geralmente aceita a respeito da sexualidade é a repressiva. Ou todos. que nunca requer um grande desgaste de forças. em geral. História da Sexualidade. Ao promoverem debates acalorados acerca da conduta moral ideal. que as técnicas de poder exercidas sobre o sexo não obedeceram a um princípio de seleção rigorosa mas.) Idólatra da sodomia ativa e passiva. em vez de sofrer um processo de restrição foi. A pornografia e a revolução francesa. ainda que nem sempre. supostamente libertinos.matrimônio seria o único tipo aceito e praticado pela sociedade. o desprezo pela religião. não estariam. o ateísmo. presumivelmente. (FOUCAULT. que os revolucionários franceses desejavam erradicar. podia ser qualquer um. justamente por não ser especificado. submetida a um mecanismo de crescente incitação. In: A invenção da Pornografia. Página 336. Os revolucionários franceses são retratados como puritanos – Robespierre. Os libertinos aristocráticos são. a pornografia foi escrita quase exclusivamente por homens. mais criatividade para causar a morte de suas vítimas (.. para um público de leitores masculinos de classe alta. a historiadora norteamericana Lynn Hunt – organizadora da publicação – escreve que Pornografia e revolução parecem parceiras involuntárias e constrangidas. Lynn. ladrão. O autor dedica um capítulo de sua História da Sexualidade aos textos que passaram a censurar o sexo e ditar um comportamento adequado. promovendo um assunto que justamente buscavam refrear.) 39 HUNT.. afirma que a partir do século XVI. Tradução de Alain François. Os 120 de Sodoma ou A escola da libertinagem. XVII e XVIII. mas se obstinou em constituir uma ciência da sexualidade. a “colocação do sexo em discurso”. evidentemente. o grupo de libertinos que se isola no castelo de Siling conta com um clérigo. é o principal exemplo -. Página 17. provavelmente o mais importante autor da literatura libertina. desde o século XVII. sodomita. é definido da seguinte maneira: A negrura de sua alma era a mesma [de seu irmão] assim como o pendor para o crime. (Página 336.) 48 . passava a vida sendo enrabado e esse prazer. A pornografia de motivação política a provocar a revolução ao abalar a legitimidade do Antigo Regime como sistema social e político.

uma de suas primeiras preocupações.) Perdoem-me aqueles para quem a burguesia significa elisão do corpo e recalque da sexualidade. mas não devido ao valor mercantil alcançado pela força de trabalho. (. A “filosofia espontânea” da burguesia talvez não seja tão idealista e castradora. 49 . 42 Idem.. aqueles para quem luta de classes implica no combate para suprimir tal recalque. a proliferação secular deste corpo através de um dispositivo da sexualidade. foi o de assumir um corpo e uma sexualidade – de garantir para si a força.. O século de Schnitzler. (FOUCAULT.) 41 GAY. econômica e.40 Foucault complementa: A valorização do corpo deve mesmo ser ligada ao processo de crescimento e de estabelecimento da hegemonia burguesa. Página 47. e sim pelo que podia representar política. História da Sexualidade. Páginas 100-102. como se diz. a perenidade. historicamente. em todo o caso. para o presente e para o futuro da burguesia. a “cultura” de seu próprio corpo. também. Páginas 117-18.

A separação dos gêneros pela aparência. Os homens adotam o negro na vestimenta.Capítulo 2: Luto Preto: a cor da morte. 50 . O luto feminino e a influência da Rainha Vitória.

então. 51 . o negro das roupas tornou-se o uniforme tanto das elites. Todo o processo de aniquilamento do ser humano instintivo e de comportamento natural culminou na morte da espontaneidade. quanto das classes médias. de preto. sóbrio e autocontrolado tanto interna quanto externamente. características desse momento foram. O pecado é realmente o único elemento que dá colorido à vida moderna. em parte ao gosto inseguro. O traje do século XIX é detestável. e do operariado. Doutrina das cores. Aforismos. Quando os homens de cultura passaram a ter aversão às cores. e os homens. Anulando seus desejos e contendo seus corpos.O caráter da cor tem a ver com o caráter da pessoa. encontrava-se a sociedade ocidental nos primeiros anos do período vitoriano. uma moda para todos. deprimente. que prefere se refugiar na completa negação. Sombrio. comerciantes e profissionais liberais. Morreram também as cores na aparência desse indivíduo. A moda do luto foi. Foi nesse período. 1890. que no século XIX alcançou seu ápice. A seriedade e a moral rígida. As mulheres agora se vestem frequentemente de branco. que os homens vestiram preto. aristocratas ou industriais. Goethe. 1840. mais do que em qualquer outro anterior. a sociedade vitoriana adotou o luto como vestimenta cotidiana. expressas pela adoção irrestrita do preto na vestimenta – tanto masculinas quanto femininas. Em meados daquele século. Isso se deve em parte à fraqueza do órgão da visão. em larga medida. Homens cultivados têm aversão às cores. Oscar Wilde.

absolutamente neutra – mero fenômeno físico . ou melhor. existindo uma como conseqüência da outra e o empirismo iluminista aceitava as provas observáveis na natureza e as reprodutíveis em laboratórios pela utilização de prismas e lentes como comprovação da tese. elas pertenceriam aos homens. era necessário aliar esse conhecimento mais factual a uma associação entre as cores e a construção de uma linguagem sensível-moral. mas sobretudo. Tal como um indivíduo mostra à sociedade o que é por meio de suas ações e suas paixões. à sua capacidade de agir e reagir perante elas. as interpretam. somente como um fenômeno físico. duzentos anos antes. O escritor alemão foi um apaixonado pelo estudo das cores a ponto de não se satisfazer com a teoria newtoniana. e por prolongamento durante as Luzes. os olhos não eram simples instrumentos passivos tais como as lentes dos laboratórios: sendo partes vivas e ativas do organismo. à sua visão.porque a visão não é absolutamente passiva: Cada olhar envolve uma 52 . então. Pois que esses argumentos não eram suficientes para Goethe. Nenhuma cor seria. e consequentemente a existência das cores. Goethe defendeu que a cor era mais do que um fenômeno físico provocado pela incidência da luz na superfície das coisas. antes de serem apenas efeitos da luz. também a luz se mostra por meio das cores: suas ações e paixões. Desde Newton. que se estabelecia no contato com o homem. entre uma cor e o órgão da visão no momento exato de sua percepção. O caráter da cor despertaria reações à alma humana e por isso. não apenas refletem mecanicamente as cores. Porém. muito simplista em sua opinião. aceitava-se amplamente a tese de que cor e luz eram indissociáveis.* Em pleno século XIX. Para ele. ainda que se pretendesse estudar a luz.

Por sua definição científica. Não excita a retina. não tendo cor. notadamente a beneditina e. a sociedade ocidental nunca mais deixou de representar a morte através do preto.1 Cores são conceitos. confeccionadas em tecidos 53 .2 Sendo assim. já estamos teorizando. não estimula os sentidos. a dominicana e a franciscana no século XIII. como também a ausência da luz e da vida. mas o conceito de escuridão. a deusa da Escuridão gerou a Morte: e desde então. homens e mulheres vestiam-se com diversas cores. mantém os olhos em estado de repouso: melancólica e cômoda. desde os mitos cosmogônicos da Antiguidade arcaica grega. impondo-se. * Durante o período medieval. A cor que. Simboliza não apenas um estágio primeiro da origem do mundo. concepções ordenadas e interpretadas no momento da recepção.observação. cada reflexão uma síntese: ao olharmos atentamente para o mundo. buscada pelas ordens religiosas que pregavam a vida ascética. branco não é somente luz. Foi por volta do ano mil que a roupa na cor preta tornou-se própria de um tipo específico de vestuário: o monástico. é a representante das Trevas. Segundo o poeta Hesíodo. Filha do deus primordial Caos. a relação entre a cor preta e a escuridão aparece desde a Antiguidade. cada observação uma reflexão. Suas vestes. trazia em seu cerne o princípio da impessoalidade. porque anula as outras cores. o preto representaria somente a ausência da luz. metaforicamente concebe uma idéia de obscuridade e negação. apagava e afastava o eu3. Na esfera ideológica. ideal ao gosto inseguro do homem vitoriano. preto não é a falta da luz. Dessa maneira. posteriormente. a divindade Noite é a mãe do deus Morte. mas conceito de luz.

a Igreja se consolida como a mais forte instituição ideológica da medievalidade. O preto desde então já indicava a abnegação e a contenção dos desejos desses homens. em tons de marrom ou cores escuras específicas dos tecidos brutos como a lã. lamentos e gestos dramáticos. mas também os demais envolvidos nos rituais.grosseiros poderia ser também parda. o desapego material. A incorporação da morte ao cerimonial da Igreja ocorreu conjuntamente a outros vez eram também conduzidos sem sua participação. se a celebração das missas era feita com trajes em cores. passam também a utilizar vestimentas simples e negras. laicos. ajudantes. O evento era 54 . muito por ter se inserido e. Por influências das vestes religiosas. Assim. carregadores de caixão. nos períodos de luto. consequentemente. praticar a peregrinação. Porque dentro da Igreja o preto aparece como a cor da ausência. até então.4 A cor indicava o respeito ao morto e gradativamente passou a ser adotada pelos indivíduos próximos ao defunto como familiares e amigos. Não somente padres e monges vestiam o preto nessas ocasiões. carpideiras. Durante o fim da Alta Idade Média. nos séculos XIII e XIV generalizou-se uma identificação de um óbito também pelo uso da roupa em cor preta. coroinhas. cujas características incluíam abraçar a pobreza. monopolizado esses ritos sociais. apesar da relação existente entre a morte e o preto dentro da Igreja. o preto tornou-se a roupa oficial de seus membros a partir do século XI. foi somente no fim da Idade Média que a veste dessa cor passou ser característica do processo de enlutamento para os indivíduos comuns. como os casamentos e os batizados. Se antes a tristeza era manifesta pelo choro. não por acaso no momento em que a instituição gradualmente se apropriava dos ofícios do luto. logo foi assumida pelo clero secular como a roupa própria para o luto. mas logo o uso do negro tornou-se como que uma marca de identificação desses religiosos. Assim.

6 Os séculos da Renascença são também os da Peste Negra e da Guerra dos Cem Anos7. o recato e o resguardo sexual pelos quais passava o sujeito enlutado. independente de sua qualidade. momentos de certa obsessão pela morte e da presença constante de cadáveres pelas cidades. tornaram-no uma voga momentânea. inter-relacionados. Os materiais ordinários e rústicos naturalmente escuros. uma marca de distinção social. seu acesso era impraticável aos pobres. um pano que fosse tingido. o preto entrou em moda por uma série de motivos que. em si mesmo.5 Também no período posterior ao funeral. quando era apropriado demonstrar certo tipo de comportamento semelhante ao religioso.reconhecível pela adoção de um vestuário característico. No caso dos tecidos finos. * Durante o Renascimento. que não era utilizado cotidianamente pelas pessoas não pertencentes ao clero. A cor ganhava a conotação do sofrimento: o preto passava a ser a aparência da dor. como a lã preta. 55 . o uso dessa cor era. Ao mesmo tempo em que vivenciava a nova dinâmica urbana do fim do período medieval. Ou seja. seguida somente por alguns grupos específicos da Europa Ocidental. por outro lado. o negro transmitia explicitamente a contenção dos sentimentos de euforia. eram opções mais baratas. promovendo o uso de um luto carregado por grande parte da população dos países atingidos. a época fora acometida por males constantemente interpretados como castigos divinos contra os homens de pouca fé e ganância de sobra. O tingimento era ainda um procedimento bastante custoso pois necessitava a sobreposição de tinturas até que a fusão dos pigmentos resultasse no breu total. encarecia sobremaneira.

extravagantemente colorido. faliam. também ditou a moda européia ao adotar o luto perpétuo. ou naqueles em que os monarcas eram já intimamente 56 . No século seguinte. em especial a partir dos decretos de leis suntuárias10 que visavam limitar o plágio. a riqueza daquela região dava-se por suas cidades mercantes. outro Felipe. digno: qualidades apreciadas aos homens de negócios. a mais poderosa do século XIV. A burguesia – vestida de preto – enriqueceu e se fortaleceu paradoxalmente às cortes que. O oposto à opulência aristocrática veio na neutralidade do negro. Muito conveniente para uma “classe sem classe” que transitava dentro de uma sociedade ainda estamental. copiava o uso do negro que se tornava. após a morte de seu pai. Contudo. O impacto do uso do negro nesse espaço social dedicado ao exagero das cores redefiniu seu uso. a cor das classes urbanas. via de regra. adequada à nobreza. igualmente. fazendo do território um pólo de atividades tipicamente burguesas. o rei João sem Medo. Sua influência foi proporcionalmente maior do que a do Felipe borgonhês visto que as conquistas territoriais espanholas faziam do país o mais rico e de maior atividade mercantil do período. sobretudo copiando seu vestuário luxuoso e. relacionando-o a uma refinada sobriedade. devido a sua adoção por Felipe.9 De maneira geral.O uso corriqueiro do preto expressava em seu gérmen o medo e a culpa pela vida em pecado e da incerteza diante de um momento de caos social e ideológico. Nas regiões onde o poder econômico sobrepunha-se ao hereditário. o Bom.8 Também por sua característica de luto. Era também a cor da discrição – e assim permanecerá durante todo o período moderno. rei da Espanha. austero. a alta burguesia européia buscava a aproximar-se da imagem de luxo das cortes. O preto era sóbrio. luxuosamente coloridas. na tentativa de se aproximar da aristocracia. o preto foi amplamente utilizado pela corte de Borgonha. filho de Carlos V. A elite. não por acaso. cada vez mais fazia-se prudente vestir-se de outro modo.

Provenientes da Reforma.11 E se a alma humana em essência já era marcada pelo pecado.sem classe. antes mesmo da ornamentação e do luxo. Unidos pela ocupação mercantil e artesã.ligados à burguesia. regentes holandeses e puritanos ingleses reflete a percepção do protestantismo. notadamente a francesa. calvinistas. desprezados pela aristocracia . a única opção era viver devotamente e com simplicidade: combinação ideal entre a necessária prosperidade de um grupo à margem . e franceses. na Inglaterra industrial desde fins dos setecentos. O desconforto físico parecia ser compensado por uma espécie de consolo mental pela 57 . A consonância entre esse modelo de espiritualidade e a adoção do vestuário em preto era. Mesmo que os ricos usassem veludo e os pobres. todos habitantes dos setecentos. O quadro mais discrepante em relação à aparência era a oposição entre holandeses . esses homens buscam uma padronização solidária da aparência. inequívoca.no auge da austeridade puritana do negro -. o aspecto da indumentária que mais chama a atenção. as vertentes protestantes que professavam um ideal de frugalidade e severidade promoviam uma ode ao ascetismo material em contraposição aos excessos cortesãos. no ápice do refinamento exibicionista e colorido da corte de Luís XIV. ainda assim todos usavam o preto. o preto impôs-se: na Veneza mercante e na Espanha das grandes navegações no século XVI. na Holanda protestante do período seiscentista. é o do incômodo. tornando-se uma prática tão freqüente ao ponto de transformá-la no uniforme dessas religiões. pela religião e pela exclusão das cortes. assim como de muitos luteranos. O austero estilo negro de Lutero. fustão. então.e uma espiritualidade austeramente levada a sério. * Nas cortes mais refinadas.

escritores e negociantes. No caso das roupas masculinas. inversamente ao que ocorria até então. 12 A corte de Luís XIV. perucas. O preto. toda a dificuldade obrigatoriamente necessária para manter-se constrito em tais artifícios serviam para expor à sociedade que eram poucos os homens e as mulheres privilegiados pelo sangue. botas úteis. começava a ser adotado pelas cortes dos países nos quais ascendia a potência política. chapéu e roupa branca simples estavam se tornando sinais de um cavalheiro que possuía não apenas muitos acres e um cofre cheio.certeza da imagem de autodisciplina e honra. fosse na elite mercantil ou nas classes médias protestantes. amarrações e laços. são eles agora que ditam a moda. laços e rostos empoados. a mais exemplar nesse sentido. bengalas e guarda-chuvas substituíam as espadas ricamente decoradas. Apesar da influência francesa em cores. A rigidez das peças com todos seus pequenos detalhes e fechos complicados. que era a cor da classe burguesa desde o Renascimento. campesinos e burgueses. diferente do povo. Em paralelo ao luxo francês. Londres era vista como uma cidade sobriamente vestida13. não importa quão raros. o grupo referência. mas também uma mente sensível com um desdém maduro pelas instituições primitivas e seus badulaques desnecessários. regida pelo protocolo e pelo cerimonial foi. responsável por irradiar novas tendências. com suas preocupações banais e prazeres prosaicos. a corte da Inglaterra desprezava tais excessos e seu vestuário simplificava-se de forma gradual. A simplificação da modelagem e o escurecimento dos tecidos foram mudanças 58 . Durante séculos acusados de copiadores das cortes e renegados a descrições pejorativas. um casaco simples. O salto se deu no século XIX quando essa burguesia de preto subiu ao poder tornando-se. residência de um número cada vez maior de intelectuais. altamente civilizados e separados da plebe por um treinamento árduo e responsabilidades complexas. por certo. Nas cidades inglesas.

Outro foco era o da virilidade. tendo em vista a radicalidade dos excessos estilísticos das damas. O comedimento tornava-se paulatinamente uma qualidade do guarda-roupa masculino. que diminuíam no volume e simplificavam na modelagem. Destacava. estreitando o peito e os ombros. acentuada por ceroulas e calções curtos usados com meias muito justas. muitos ornamentos. colete. na passagem entre os séculos XVII e XVIII. os trajes das cortes. casaca e calções aparece nos trajes de campo. Um primeiro momento no processo de simplificação acontecia aqui. Apesar das mudanças na silhueta. então. adotadas pelos industriais e seguidas pela massa. a barriga e os quadris. fitas. eram ainda confeccionados em tecidos luxuosos e caros. a ênfase do vestuário masculino era a força física. com bordados. tanto os masculinos como os femininos. na aristocracia. As peças diminuíam de volume e tornavam-se mais retas proporcionando uma melhor mobilidade – o que. não significava em absoluto desafetação. excessos considerados adequados ao homem até o fim do XVIII. e as femininas. absurdamente excêntricas e caprichosas. realçada pelo volume concentrado dos gibões acolchoados e aumentado ainda mais pelo uso de capas e peles nos ombros e nas costas.burguesas preconizadas pelos dândis e sancionadas pelos românticos. e pelo uso da braguilha. mais informais. No fim do século XVII essa silhueta começava a ser gradativamente alterada através do traje que priorizava a elegância e a delicadeza em detrimento da força e da virilidade. 59 . * Durante a Renascença. Já era nítido o distanciamento entre as peças masculinas. alongando o torso e encurtando as pernas. quando a combinação de camisa. que aos poucos ia sendo adotado no meio urbano pelas classes médias.

Trajes masculinos e femininos distanciavam-se cada vez mais. feminino e masculino são considerados valores opostos. Até então. ou seja. Esse afastamento se acentuou quando da ascensão da sociedade burguesa e foi no período vitoriano que mais se fortaleceu. inclusive. eram similares nos materiais. Com a separação das guildas de alfaiates e modistas a diferença na maneira com que as roupas para os dois sexos eram concebidas e confeccionadas veio à luz pela primeira vez. que sugeria cada vez mais exibicionismo e desconforto. nos ornamentos. a modelagem do vestuário dos homens deixa de insistir no corpo enquanto imagem.14 Era bastante claro que. o masculino buscava cobri-lo harmonicamente. O fato de as mulheres manterem-se presas a uma proposta de silhueta artificial e rígida sugere uma espécie de 60 . impunha-se uma forte tendência na separação definitiva entre os gêneros. o que acarretou em propostas decorativas bastante semelhantes durante 400 anos. somente. Esse fenômeno talvez tenha sido influenciado pela formação das primeiras guildas francesas de costureiras mulheres. Ao contrário do feminino. de maneira geral. na artesania. * Conseqüência da separação definitiva entre feminilidade e masculinidade no século XIX. Apesar de diferentes nas formas. entre um universo de coisas propriamente femininas e outro de coisas exclusivamente masculinas. em 1675 por Luís XIV. encarregadas a partir de então da confecção das roupas femininas. costureiros homens produziam o vestuário dos dois gêneros. uma divisão que afetou profundamente tanto o caráter como a reputação da moda nos dois séculos seguintes. Desde então. Surgia a convicção de que devem. ocuparem-se e vestirem-se de maneiras adversas: as essências dos sexos passam a ser consideradas distintas.

como uma camisola – ou melhor. A honestidade nos negócios. uma túnica grega. sob influência das idéias iluministas rousseaunianas (referindo-se à busca pelo “homem natural”).16 * Na moda feminina. da Revolução Francesa (no desprezo aos valores aristocráticos) e da estética neoclássica (contra o rebuscamento rococó e de referência à arte da Antiguidade). A simplificação do traje dos homens – que seria parte do processo de desespetacularização do sujeito masculino – ocorre de maneira inversamente proporcional ao exagero da indumentária feminina – a hiperespetacularização da mulher. o homem fazia as vezes de chefe rigoroso. a esposa era a mãe dedicada e mulher virtuosa cujos filhos cumpriam o papel dos pequenos anjos domesticados e obedientes. Adotaram corpetes curtos para sustentação do busto. Dentre eles. os homens teriam efetivamente inovado ao despojarem-se do decorativismo aristocrático. grande provedor e protetor do lar. destacava-se a supervalorização da família. atados somente abaixo do busto. As mulheres vestiram-se de tecidos muito finos e vaporosos. em substituição ao espartilho. que passa a concentrar um valor extremo de exibição. o século XIX começara sugerindo a simplicidade. de modelagem solta no corpo.conservadorismo em relação à indumentária proveniente do Antigo Regime. o autocontrole nos gestos e nos gastos.15 Essa oposição era reflexo de seus papéis sociais e casava-se de forma muito apropriada com o desejo em se estabelecer novos valores comportamentais para a sociedade oitocentista. Nesse sentido. a privacidade e o amor ao trabalho foram outros ideais caracteristicamente burgueses. A 61 . Na idealização do grupo doméstico. marido respeitável. a fidelidade e a monogamia.

contrastando. Compunham o restante da composição as mangas muito justas. do branco com detalhes coloridos pós-Revolução Francesa às cores pálidas com estampas delicadas do Romantismo. que se mantiveram até o fim do século. Em meados da década. à mostra. Feita de aço flexível. Com a Restauração. obtida com a divisão do corpo pelo estrangulamento da cintura. Mangas bufantes. estampas e padrões.cor predominante era o branco com detalhes em cores vivas. foi uma invenção recebida com grande entusiasmo. por vezes com caudas. Passou-se a toda variedade de cores. A chamada silhueta em X 17 foi o ícone da moda vitoriana. Na época. essa liberdade da modelagem Império se perde e a silhueta muda radicalmente. a crinolina foi introduzida pela imperatriz francesa Eugenia e tornou-se o principal símbolo da roupa feminina daquele século. saias encurtadas na altura dos tornozelos e anáguas para dar volume nas saias levaram a um inevitável esquecimento da fluidez das formas anteriores já na década de 1820. escondendo as mãos em delicadas rendas e abundantes babados. incluindo-se o xadrez e o listrado em cores fortes contrastantes. seu triunfo era aliviar o peso das inúmeras anáguas e liberar o movimento das pernas. Nos dez anos seguintes. sandálias sem saltos. blusas fechadas para o dia ou muito decotadas para a noite e saias muito longas. * 62 . as mangas foram ajustadas aos antebraços e amplamente abertas no punho. O espartilho retornava ao uso cotidiano para compensar uma silhueta de ancas cada vez mais destacadas. destacando os quadris enormemente aumentados pelo artifício metálico. A moda convergia da simplicidade para a complexidade. Corpo livre.

na palidez. na magreza. A ociosidade aristocrática era vista como o modo de vida mais apropriado para mulheres da alta sociedade. Força e vigor eram atributos exigidos apenas das mulheres operárias ou da classe média que deveriam ajudar nos negócios. Servia para sustentação da frágil estrutura feminina: não apenas a física. sofrendo de falta de apetite e problemas digestivos.O ideal vitoriano valorizava atributos considerados tipicamente femininos como a fragilidade. vestindo a mulher com sapatilhas de sola fina e vestidos de mangas curtas e decotados. no século XIX as mulheres desejavam possuir um vasto número de trajes. eram possíveis somente através do casamento.18 Comparativamente aos períodos anteriores. As roupas femininas consideradas elegantes na época eram excepcionalmente restritivas e ornamentais. tola e bela é objeto máximo de consumo conspícuo. essas qualidades eram personificadas na fraqueza. portanto. possuí-las em 63 . e se sentia fraca e exausta após qualquer esforço maior. de musselina transparente. sobretudo a moral. Roupas representavam a situação econômica e social de quem as vestia. que muitas vezes tornavam-na mais debilitada. Para qualquer mulher. a delicadeza e a docilidade infantilóide. A suposta fraqueza das damas era ainda mais realçada por seus trajes. funcionava como um instrumento de vigilância e submissão. encantadora. Convenientemente. eram dispendiosas e. a mulher vestida com elegância corava e desmaiava facilmente. O espartilho. mantida pelo esposo. essas roupas garantiam a saúde deficiente. Quanto mais inútil aparentasse. mais indicava sua posição na hierarquia social. inclusive financeira. A mulher desde cedo deveria estar presa e ser contida. as mulheres eram mantidas em suas carapaças da moda: Em uma sociedade patriarcal. Agourentamente. que deformava os órgãos internos e impossibilitava respirar profundamente. uma mulher impotente. Fisicamente. Consequentemente. a felicidade e a segurança.

A mulher da cidade. E poucas usavam o espartilho. nas sociedades modernas. profissional liberal ou artesã. por sua vez. pois era feita sob medida e artesanalmente – que. por manter contato constante com outras pessoas. Sequer possuíam a crinolina.quantidade era sinal de riqueza. mais versáteis. portanto. seria. Considerava-se bastante elegante trocar de trajes várias vezes no mesmo dia e de acordo com a ocasião. impedia o esforço físico -. além do mais. que o objetivo principal do dispêndio conspícuo é construir uma aparência que simbolize o que se possui. quando muito usavam corpete. não deve apenas ser dispendioso. a mulher operária ou camponesa não podia ter grandes gastos e preferia cores escuras ou pretas. * Em sua análise sobre o nascimento de uma “classe ociosa”. por meio de uma exposição histórica sobre o surgimento da sociedade de consumo. a fim de servir eficazmente a seus propósitos. ou seja. peça bastante cara. Sua finalidade seria conquistar simpatia e afeição ou – em última instância – causar a inveja. extravasado através do consumo e praticado 64 . inerente e natural ao ser humano. de 1899. Esse espírito de competição. novos matizes eram gerados a partir da anilina. investia mais em sua aparência. A análise de Veblen tornou-se uma referência justamente por demonstrar. Enquanto para a roupa das classes médias e altas. uma imagem representativa da posição financeira do indivíduo. o sociólogo e economista Thorstein Veblen comenta a intenção expressa com a hiperespetacularização da mulher pelo traje: O vestuário. mas deve também tornar visível a todos os observadores que quem o usa não está ligado a qualquer espécie de labor produtivo. que era indispensável à elite em todos os períodos do dia.

Manter-se na moda era bastante custoso visto que os modelos começavam a mudar rapidamente a partir de meados do século. as mãos decoradas por luvas delicadíssimas que seguram sombrinhas ou leques: esse conjunto causava exatamente o resultado esperado. reestruturam um novo tipo de silhueta em formato de “S”. mangas amplas. Em 1880. o vestuário feminino mostrou-se mais que eficaz. já que um exame detalhado daquilo que. a ênfase concentrando-se na parte traseira da figura. alongado por espartilhos mais compridos e liberando o corpo do diâmetro exagerado na saia. tornando a frente da composição mais estreita e seca. saias volumosas e apertadíssimos espartilhos. passa por elegância no vestir mostrará que essa elegância é conseguida para dar a impressão de que a pessoa que a tem não costuma desenvolver qualquer esforço útil. valorizando o colo do busto. ou melhor. o surgimento e a popularização da anquinha. a sensação de que essa mulher não se preocupava com mais nada além da própria aparência. Foi uma tênue simplificação do traje que 65 . em substituição à crinolina. que seus semelhantes.19 Nesse sentido. jóias refinadas e todo o restante de acessórios faziam da imagem pessoal um grande investimento em termos de dispêndio conspícuo. O efeito agradável de vestuários elegantes e imaculados se deve principalmente – se não de todo – à sugestão do ócio que trazem. sapatos de salto e cabelos longuíssimos arrumados em elaborados penteados que eram ainda complementados por rebuscados chapéus.em um nível de posse: possuir mais. a crinolina passava a ser levemente projetada para trás. na compreensão popular. * Por volta de 1870. E sem ter feito esforço para tanto. O corpo em forma de ampulheta. Os tecidos finos e importados usados aos metros. peças feitas sob medida.

acompanhou importantes mudanças comportamentais do universo feminino na transição entre os séculos XIX e XX. brocados. as mulheres passaram não somente a se vestir de maneira mais simples como também a adotar cores mais escuras e neutras. sugerindo rigidez de caráter. cetim e outras fazendas requintadas eram apropriados para os trajes noturnos: sugeriam a fragilidade e a inconstância feminina. o organdi. Parece bastante significativo que essa mudança na conduta feminina coincida com a morte da Rainha Vitória e. Desejando transpor da extravagância desmesurada para a sobriedade das responsabilidades mundanas. As misturas linho-seda e lã-seda eram utilizadas nos trajes diurnos de rua. a partir de então. exclusivamente masculino. até então. retidão moral. * Para a mulher a beleza. a seda. tafetás. consequentemente. Já os homens deveriam limitar-se ao uso entediante da lã e do linho. como saias mais secas e retas e camisas usadas com gravatas – como que simbolizando essa entrada das mulheres num universo. conquistar o direito ao divórcio. interessar-se pelas artes e pela intelectualidade eram processos representados no corpo pelo abandono de alguns artifícios extremamente tolhedores ou pela inserção de peças mais masculinas nos trajes. para o homem o despojamento completo.21 O paradoxo da roupa feminina era dado pelo traje masculino. 22 sempre engomado e alinhado. Começar a trabalhar fora de casa. Essa diferença era notável até mesmo no material empregado nas diferentes confecções: se até o fim dos setecentos não havia separação entre os tecidos para roupas masculinas e femininas. O advento dessa “nova mulher”20 culminava com a recusa em ser exclusivamente mulher-espetáculo. 66 . a musselina. alguns seriam exclusividade das mulheres. com o fim do vitorianismo.

passou a ser confeccionado pelas alfaiatarias londrinas na década de 1780. Impunham a substituição da indumentária sensualista por uma racional e obrigavam o cidadão a manifestar publicamente seu desprezo pelo estilo cortesão. . Os moderados e os aristocratas eram identificados por sua recusa em usarem a roseta [símbolo revolucionário]. sendo o próprio sans-culottismo responsável pela extinção dos calções nas classes médias. 67 . A revogação das antigas leis suntuárias e os decretos de proibição do vestuário aristocrático após a Revolução Francesa foram decisivos nesse processo. A partir de 1792. habitante das cidades. e não genética. mais confortáveis que os sapatos de salto das cortes. espécies de diletantes da vida moderna. mas a indumentária logo se transformou num sistema semiótico intensamente carregado. cores sóbrias e modelagens austeras. (ou redingote para os franceses) . o riding coat. para uso urbano. A importância do vestuário enquanto imagem pública dos ideais pessoais era oportuna à sociedade que valorizava as qualidades individuais em contraposição aos privilégios do sangue. influenciando tanto França quanto Estados Unidos. notadamente urbano e cuja ênfase dava-se na alfaiataria.que incluía o uso de botas de solado baixo. e o casaco de montaria. o papel de ditar a moda masculina.O traje campestre inglês da segunda metade do século XVIII. não foi uma invenção burguesa. o verdadeiro republicano. A moda masculina não se definiu de imediato com tanta clareza. Entretanto.23 Era inevitável que nas décadas não somente o vestuário se tornasse mais simples e solto como as cores fossem desaparecendo. Os dândis24. o barrete vermelho. isto é. o casaco estreito com várias filas de botões e as calças largas passam a definir o sans-culotte. de utilizar desde muito. peça por peça. destarte. A Inglaterra assumia. Foi somado ao novo traje o hábito da burguesia protestante. a aparência da respeitabilidade conquistada. foram os responsáveis por inaugurar um novo estilo da indumentária masculina.

o fato é que o dandismo foi o último suspiro do “pavoneamento” masculino antes do firme triunfo da sobriedade de classe-média burguesa que dominou posteriormente o século.quanto mais. Privilegiando a elegância de formas simples. Baudelaire e Barbey d’Aurevilly. Demonstravam que. Ocupavam-se com assuntos da cultura. vestir-se como um aristocrata deixara de ser efetivamente elegante . adotando uma silhueta delicada quase feminina. perspicaz. a perfeição do vestuário consistia na simplicidade absoluta. por definição. os dândis proclamavam a melhor maneira de se distinguir na sociabilidade urbana: pela sutileza dos detalhes e pela sofisticação minimalista. A roupa masculina se desvencilhava de cores. alguns dândis mais afetados davam-se ao luxo de praticar o tight-lacing. A burguesia impunha uma moda confortável e prática. Ainda que o dandismo tivesse continuado como referência de estilo até meados do século. em especial o smoking que. e principalmente. na nova sociedade. eram de fato críticos mordazes do modo de vida da burguesia. Preocupavam-se com acessórios e com uma toalete minuciosa. ornados de gravatas com muitas voltas e um complicado e primoroso nó.Essas mudanças do início do século XIX partiram de homens como George Beau Brummel. das artes. um ocioso. Para eles. trocaram os calções curtos pelas pantalonas justíssimas com enchimentos que realçavam pernas bem torneadas. engomar e ajeitar muito alto os suntuosos colarinhos. a alta qualidade dos tecidos e a excelência da modelagem e do corte. personalidades ilustres pelo gosto requintado e freqüentadores das altas rodas. O dândi não se considerava um burguês visto que era. até a década de 1820 podia ser usado em 68 . Visto às vezes como excentricidade. já nos anos 1830 começava a ser substituído por tendência do escurecimento das cores e da modelagem mais reta e funcional. Paradoxalmente. principalmente os trajes noturnos. apesar de renunciarem às cores brilhantes e ao exagero na ornamentação. das elites.

flancos esguios e pernas espantosamente alongadas. Os trajes eram cortados de modo a sugerir uma anatomia que. sustentando uma cabeça que não mais possuía cabelos falsos e empoados mas 69 . a tendência segue em direção ao monocromatismo e efetivamente ocorre uma febre: a moda do preto. que poderiam ser mesmo bordados e brilhantes. As pantalonas justíssimas. * Assim. Durante a época vitoriana. foi auxiliado por uma longa fileira de botões. abertas nas barras. O colete muitas vezes trespassado. verde.diversas tonalidades e após. foram substituídas por calças. Coletes e gravatas. marrom e no preto. para ajudar a disfarçar uma barriga arredondada. em tons escuros ou no preto. Depois de 1840. a elegância dos eventos permitia somente o preto. As casacas. escuras para a casaca e vivas para os coletes e gravatas. a nova mudança na silhueta masculina se deu pela ênfase nos ombros e o corpo se esticou. partindo de ombros largos e um peito musculoso e forte. reforçando e enrijecendo o pescoço. passando a equilibrar os ombros aumentados. em tons de azul. O homem decidia se cobrir de luto em todas as ocasiões. afina-se em um abdômen achatado e cintura estreita. perdem-nas. nada de cores vivas. cobertas desde o alto da cintura até os calcanhares com tecido escuro. que no início do século eram compridas e com abas traseiras. as casacas tornaram-se escuras. brancas ou escuras. passando a ser pretas. por volta de 1830. As golas moles de antes endureceram em colarinhos removíveis altivos. presas aos pés e usadas em cores claras. únicas peças que ainda permitiam cores. Era considerado adequado vestir-se em combinações de três cores: claras na parte de baixo. Todas as outras cores passavam a ser consideradas deselegantes. encolheram drasticamente para priorizar o efeito do tórax e costas.

incluía calças muito justas na altura dos joelhos – à moda do Antigo Regime – muitas peças em seda e veludo. A moda masculina permanecia quase a mesma no decorrer do século. o que está por trás do pano. que quebrava o monocromatismo e reintroduz cores claras e alegres às peças. * A mudança do tecido apropriado ao traje dos homens também foi uma espécie de reflexo das mudanças sociais pós-Revolução Francesa. O homem rococó com seus subterfúgios artificiais fora totalmente substituído por um homem naturalmente forte e sadio.25 Qualquer possibilidade de mudança esbarrava nesse preconceito do homem efeminado e. enquanto as modas femininas sucediam-se umas às outras. não revelando sua verdadeira natureza. complementado por seus cabelos compridos e seu comportamento um tanto polêmico para a época (tendo como auge o escândalo de sua prisão. casacos e smokings para ocasiões formais. basicamente. Exigem conduta e postura. até o fim do século o guarda-roupa masculino resumia-se. A grande reviravolta só aconteceria décadas depois.uma respeitável cartola. Seu estilo impecavelmente arrumado. Uma breve tentativa de mudança foi esboçada na década de 1880 e teve como seu principal e mais conhecido representante o escritor Oscar Wilde. com a voga da prática esportiva do início do século XX. em ternos. demonstram ser incômodas e exige que o indivíduo atue seu 70 . acusado por seduzir um jovem filho de um barão). pressupunham um grande sacrifício em vesti-los – um refinamento. As superfícies decoradas dos tecidos eram a lapidação do corpo. acabou por relacionar a tendência ao homossexualismo e consequentemente levando-a ao fracasso. que enrugavam e amassavam facilmente. numa referência direta ao dandismo do início do século. Antes a seda e os brocados. assim. autoritários.

foi possível conceber roupas elegantes de qualidade para a produção fabril. realçava aquilo que era intrínseco ao homem: seu corpo e qualidades inatas como a honestidade e a dignidade. Diferentemente da feminina. mas não a artificial. montada sobre o espartilho – confeccionado manualmente sob medida -. mais confortável. e sim a naturalmente elegante. No mundo dos negócios. Criava-se um design universal do traje. o traje aproximava-se rapidamente do terno. que favorecia todos os tipos físicos e as mais diversas atividades. Literalmente. não deveria ser comprada pronta. Não escondia nada. sem afetação. conseguida a partir do cálculo das proporções aproximadas dos indivíduos com medidas semelhantes. A casaca. que. A sensação de uniformização cresceu demasiadamente a partir do momento em que a produção industrial do vestuário masculino trazia não apenas peças de qualidade cada vez maior. mas também a padronização dos tamanhos. no fim do século. antes. descartando a virilidade óbvia e explícita – e a calça reta e solta era sua aliada nesse sentido. Também exige postura. A uniformidade no vestir trazia uma profunda 71 . A estratégia de compensação dessa dessexualização da roupa foi a utilização de diversos acessórios “fálicos”. Paralelamente. bengalas. obedientes ao corpo e ao movimento. cartolas. era um tipo de indumentária democrática. afinal a aristocracia também passou a se vestir nas alfaiatarias de luxo londrinas. charutos. Somente com a padronização dos corpetes. fingida. contrapostos ao despojamento: gravatas. A roupa pronta alcançou um nível de qualidade incomparável à dos períodos anteriores.próprio conforto. A beleza passava da superfície decorada para a forma. A partir da metade do século. são alguns exemplos. cobria quase todo o quadril e a braguilha. A honra aristocrata deu lugar à virtude burguesa no corte e no feitio das peças. marcando menos o corpo. os tecidos mais vestidos como a lã e o linho eram maleáveis. muito parecida com o paletó.

para trabalhadores liberais da classe média. desde que não fossem eventos elegantes e festivos. compromisso. cujo caimento conferia uma estética mais ou menos sofisticada. ou ainda para o operariado: era durável. em escala industrial. com recortes complexos e detalhes intrincados. era dramático e elegante. O novo traje popularizou-se e igualmente 72 . econômico. no campo. tornavam-se altamente agradáveis e sofisticados em todo tipo de ocasião. ideal aos indivíduos das classes subordinadas. como advogados. sob medida. Sugere diplomacia. funcionários de escritório. Seus trajes feitos em tecidos finos e de modelagem primorosa. mais seca e funcional. Eram realmente informais e flexíveis. inicialmente usados só pelas classes inferiores ou pelas classes médias em ocasiões muito íntimas. do vestuário feminino. Ao mesmo tempo.similitude entre os homens. devido à sua praticidade popularizou-se no meio urbano e se tornou apropriado para todas as ocasiões. usado pelas elites burguesas e aristocráticas. nas metrópoles ou nas pequenas cidades. o uniforme do mundo elegante e do mundo industrial. o preto servia a todos. portanto. civilidade e autocontrole físico. nunca em sociedade. O negro foi. na padronização dos tamanhos e nas cores escuras. principalmente decorativa. ocultava manchas de sujeira e de uso. Poderia ser solene e prático. A diferenciação entre classes mantinha-se na qualidade dos tecidos e do corte. médicos. o colete e a calça eram confeccionados no mesmo tecido e na mesma cor. No caso das cores. paradoxalmente à variedade.26 Inexpressivo e obediente. A estandardização do vestuário masculino durante o século XIX aconteceu em todos os sentidos: na modelagem. * O terno do fim do século era a versão popular do traje no qual a casaca. Porém.

sendo comprados prontos. 28 * 73 . quando necessário. eram usadas nas fábricas. mais baratos. com freqüência. feitos de diferentes materiais. e esses eram usados por décadas.dominava o gosto da população mais humilde. ainda que a produção industrial tivesse diminuído os custos e o preço final. pois. literalmente. gravata de seda. cartola. e um de “classe média”. O vestuário representava parte significativa das posses dos que tinham recursos limitados. como traje de luto. da roupa do corpo. não havendo mais a necessidade de diversas trocas durante o dia e nem a posse de inúmeros trajes mesmo para as elites. para ser usada nas festas ou nos eventos religiosos e que. O mesmo ocorria para com as mulheres. A simplificação da indumentária resultou num afrouxamento da etiqueta masculina. colete de seda. Esse traje especial era composto de terno. como um grande exército fúnebre rumo às fábricas. que se uniformiza em seus ternos pretos. a chamada “roupa de domingo”. Adquiriam-se ternos e casacos novos quando alguém se casava. inclusive do operariado. quando já surradas e velhas. sobrecasaca. seu único bem de valor e a abundância de lojas de penhores nos centros urbanos provava com que freqüência eram procuradas por indivíduos que pouco mais tinham além. As roupas constituíam. em melhor condição ou mais nova. confeccionadas em casa. A pouca variação em termos de modelagens e cores tornava a composição mais prática e as peças combinavam entre si. A preferência era sempre pela cor preta: para serem usados também. ou feitos sob encomenda em alfaiates de segunda linha.27 Para os mais pobres. havia nitidamente dois tipos de trajes. Um de trabalho. obtêlas em quantidade era um luxo.

se for possível considerar algum tipo de renúncia masculina. valorizava mais as qualidades internas pessoais em contraposição aos sinais externos da aparência. reduzindo-a a um cenário discreto e amortecido no qual se exibe o brilho pleno da personalidade.31 Casacos e trajes completos mudavam de estilo de acordo com as modas. Numerosos tipos de acessórios também eram usados como cartolas. a elegância. coletes de seda e cetim. mesmo dentro do limitado universo da sobriedade. a uniformização da indumentária masculina como uma grande renúncia do belo em nome de outras prioridades como o conforto.30 Entretanto. Portanto. Ainda que se tratasse de um tipo de vestuário mais simples. desses itens.Pois que a sociedade vitoriana. gravatas de seda. luvas. bengalas e relógios. sumir debaixo dos brocados. As classes baixas eram do mesmo modo preocupadas com a aparência e usavam versões mais baratas. Não por acaso combinava com o ambiente em que esses homens viviam: a fumaça cinza das 74 . apesar da pouca variação. Agora o que importa não é desaparecer dentro de uma carapaça fulgurante. bom gosto e dinheiro. o código vestimentar continuava a ser muito rígido e contava ainda com inúmeras possibilidades estéticas. a apresentação num estilo elegante requeria tempo. mas destacar-se dela. por um lado. por exemplo. a praticidade. baseada na igualdade democrática e aberta aos talentos individuais. essa certamente se deu em relação às cores. Seu desaparecimento gradativo nas peças de roupa foi a primeira instância do processo de simplificação e austeridade nos trajes. formando a roupa como um todo indissolúvel. por outro lado. no tipo do corte e no número de botões. elementos importantes na apresentação da classe média e alta. determinados tipos de casaco e calça eram apropriados somente para atividades e períodos específicos do dia – e eram diferentes também no ambiente campestre ou urbano.29 Seria legítimo pensar em um desapego consciente da beleza por parte dos homens no século XIX? É possível considerar. por vezes industrializadas.

a totalidade da vida passando a ser controlada pelo Estado. Toda a energia humana deveria ser canalizada para o trabalho. a conquista sexual revertendo-se em triunfos econômicos nos negócios e no comércio. na contenção do sexo. provenientes tanto da ética protestante e da parcimônia burguesa quanto de um processo de adestramento pelo qual o homem moderno passou dentro das regras familiares. o corpo passa por uma racionalização refletida em novos hábitos alimentares. das fábricas. Necessita-se um tipo de roupa que além de não contrastar com a paisagem. deixando de ser o espaço do individualismo para ser socialmente construído. Durante o período vitoriano.fábricas nos céus das cidades que crescem em meio a prédios e asfalto. quase melancólica. das escolas. mas na conduta baseada no autocontrole. sóbria. A morte das cores estava em todos os lugares no meio urbano. não sujasse facilmente e fosse apropriado à dinâmica do homem de negócios. Porque o progresso e o lucro passam a ser vistos como conseqüência da regularização e da repressão dos comportamentos e desejos naturais aos seres humanos. seus homens cobriram-se de luto. O fato é que. e ao mesmo tempo prática. * 75 . a indumentária masculina tornou-se austera. ao mesmo tempo em que a sociedade comemorava o surgimento da democracia e do liberalismo. funcional. na abstinência e na disciplina. que deveria estar apresentável. a explosão da produção industrial e a consolidação da burguesia e do capitalismo. discreto e digno em qualquer hora do trabalho A imagem de civilidade aparecia não só pela rigidez do traje. na economia das finanças.

Dentro das casas. a cada vinte crianças. A aprovação de outrem governava o comportamento individual. normatizado desde as cartas de condolências até a maneira de conversar com a viúva. Considera-se que. Por ser uma sociedade altamente regida pelos códigos de etiqueta. um ato de imoralidade. A determinação em assegurar um funeral decente para os membros da família foi característica seguida por todas as classes na sociedade vitoriana. Ninguém queria enterrar seus entes em túmulos medíocres. as cortinas eram abaixadas e os relógios parados na hora do falecimento. o vitoriano frequentemente presenciava a morte.Em sua vida. Desrespeitar essas regras era considerado um verdadeiro escândalo. assim como a freqüente utilização de medicamentos duvidosos de origem caseira aumentavam as chances de falecimento prematuro. consequentemente a morte foi também rigidamente regulamentada. erguessem túmulos artisticamente preparados com monumentos ao morto.34A família não se reunia para as refeições enquanto o cadáver estivesse presente. os indivíduos passavam um bom tempo de suas vidas cobertos de negro. mesmo quando os gastos colocassem em risco a sobrevivência dos que ficavam. Espelhos eram cobertos.33 Jornais de costumes e manuais de etiqueta. O luto tornou-se um cerimonial complexo. 76 .32 As maneiras simples de prevenção de doenças. traziam todas as recomendações e dicas a serem seguidas nesses momentos e eram muito populares entre a classe média. no século XIX. três morriam antes de seu primeiro ano e a expectativa de vida era de somente 43 anos. Era aconselhável que se preparassem funerais dispendiosos. muitas delas baseadas no controle básico da higiene na preparação de alimentos ou nos partos não eram uma praxe. Não era nada incomum que se estendesse de um período de luto para outro. muito comuns à época. Todos os detalhes eram observados e mesmo os cavalos que levavam o carro com o caixão deveriam ser pretos e decorados em preto.

não era a única. o branco poderia ser utilizado em punhos e colarinhos. era permitido e aconselhável que se casasse novamente. bolsas e lenços na mesma cor e sem ornamentos. o luto não era obrigatório. se a viúva não tivesse meios para se sustentar e ainda tivesse filhos pequenos. sem jóias. mas poderia ser adotado fosse com essa cor ou com outras. como o cinza ou o branco. as mais importantes e rígidas referiam-se ao vestuário. incluindo acessórios como sombrinhas. suas atividades sociais deveriam ser as mínimas possíveis. usava um véu cobrindo o rosto ao sair de casa e não era apropriado que arrumasse os cabelos ou usasse perfume. uma ofensa imperdoável numa sociedade em que homens valiam mais que mulheres e eram responsáveis por sua posição social. Ao fim do luto profundo. Sua cor oficial era o preto. Mesmo no luto fechado. a seda e o veludo. Notadamente no caso das viúvas. O luto fechado de viúvas deveria durar cerca de dois anos. Os tecidos deveriam ser discretos como os de algodão ou a lã. Porém. Nenhum luto 77 .* O luto vitoriano tinha dois estágios: fechado e meio-luto. Já o luto feminino era muito mais severo.35 De fato. exigia que as mulheres tivessem um guarda-roupa completamente negro. Nesses meses. Às crianças. nunca brilhantes ou chamativos como o cetim. deveria ser um sinal de afeição eterna e não segui-lo corretamente era interpretado como desprezo ao marido. neutras. Era através dele que se mostrava imediatamente a tristeza e se exigia distância das mundanidades. idealmente restritas aos serviços da igreja. período no qual além do vestuário preto. Para os homens o vestuário era muito mais fácil de ser providenciado: eles apenas usavam o seu traje preto tradicional combinado com luvas pretas. reconhecidamente a cor da ausência. cada um contando com suas próprias regras.

seguindo todas as suas tendências e novidades. Viúvos mantinham seu vestuário habitual e cotidiano. Roupas eram artigos caros e o comércio do luto passou a ser bastante lucrativo. Vitória. Em tons sóbrios ou ainda em formato de camafeus. era de bom-tom que evitassem eventos sociais nos primeiros dois anos após o falecimento. Após no máximo um ano. era adequado. apesar dos gastos. o luto era a maneira mais perfeita de mostrar a riqueza e a respeitabilidade de uma mulher. o uso de jóias também era liberado. Ao suavizar o negro. usavam-no cada vez mais por tempo maior. essa duração dependia muito da relação que se tivesse com o falecido. visto que as mulheres. sofreria menos do que ela. nos quais se colocavam mementos mori como mechas de cabelo ou fotos do morto. Também o vermelho. bastante variável. Portanto. No caso dos homens. especialmente com aqueles com que não houvesse parentesco. era então possível voltar a vestir todas as cores. algumas mulheres decidiam seguir o exemplo da rainha inglesa. podendo ser. Entretanto. curiosamente. faziam o possível para vesti-lo pelo maior tempo. então. o luto fechado era de dez meses a um ano. em seus tons mais escuros. e adotavam o meio-luto pelo resto de suas vidas. Esperava-se que o luto representasse a extensão do pesar pela qual o sujeito passava. por outros membros da família variavam de seis meses a quatro semanas. De maneira geral. adotado após o luto profundo e durava alguns meses. e poderiam continuar trabalhando. lilás e também o branco combinado com essas cores. o fato curioso vem a ser a 78 . O meio-luto também era variável. No caso de pais que perdessem um filho ou do filho que perdesse um dos pais. Nas classes médias e baixas. roxo. O vestuário de luto passou a ser vestuário de moda. malva. supostamente. era aceitável usar matizes como o cinza. porém limitadas e discretíssimas.era mais longo do que o da esposa já qualquer outro membro da família. lavanda. No meio-luto.

Vitória trabalhava como um homem de seu tempo.respeito da roupa do defunto. Mesmo com esses paroxismos. como as usadas em vida. o mais indicado era o branco ou cores suaves. a monarca conseguiu manter a paz social e recuperar o prestígio da realeza. revendo contratos e assinando papéis. Albert. Seus 64 anos de reinado foram marcados por sua conduta rígida enquanto governante e pela tragédia pessoal que passou com a morte de seu marido e primo. não vem da rainha. Entronada em 1837.36 Não foi à toa que seu nome designou o século da construção de um modelo burguês. O mesmo procedimento era indicado às crianças que usavam tecidos claros ou estampados mesmo no túmulo. gostava de acompanhar de perto tudo o que acontecia em seu Parlamento assim como de participar das decisões de seus ministros. * A grande responsável por tamanha importância da imagem do luto feminino fora. Alexandrina Victoria conduziu a política inglesa numa época em que os interesses industriais e imperialistas da nação mais poderosa do mundo contrastavam com um território ainda prioritariamente rural. Porém. agindo em sentido oposto de seus predecessores. A imagem de dama vitoriana. Acordava cedo e passava horas em seu escritório. autoritária. indubitavelmente a rainha da Inglaterra. o mesmo do luto: o traje completo em preto. Para a morta. Em primeiro lugar. se o cadáver fosse masculino. O homem vitoriano se vestia exatamente da mesma maneira na vida e na morte. sempre estendida em seu canapé. o mesmo das festas e ocasiões formais.37 79 . o traje mortuário ideal era o mesmo do cotidiano.

A afirmação do casamento como o principal evento da vida. a rainha criava um vínculo de afinidade com seus súditos. nunca se devia tentar superar a rainha em infortúnio. talvez seja sua maior contribuição social aos seus contemporâneos. origem da família – o porto-seguro da burguesia. ao mesmo tempo. que vivem apenas para matar o tempo. paradoxalmente. assumidamente apaixonada e companheira irrestrita de seu parceiro. Até sua própria morte. escrevia ela à sua filha “e particularmente a aristocracia (evidentemente com algumas exceções honrosas) são tão frívolas. em 1901. Nunca se chorava o bastante e. tão imprudentes que o perigo é realmente muito grande. morre seu querido Albert. vítima da tifo. Apreciava-lhe ser reconhecidamente mais próximas das classes médias do que da elite dispendiciosa: “As classes elevadas”. não havia para ela desgosto maior que o seu.”38 É possível afirmar ainda que o amor desmesurado de Vitória por seu marido fosse o mais robusto alicerce de seu carisma popular. Sua dor foi profunda e sem fim. chefe de estado e modelo de reputação. tão pouco compassivas. Sempre foi extremamente difícil para a rainha admitir que uma desgraça 80 . Os jovens são tão mimados. sem precedentes. É preciso adverti-los. tão apegadas aos seus prazeres.] os dias que precederam a Revolução Francesa. era querida pelo povo.39 Em 1861.. as mulheres jovens tão emancipadas. tão inteligentes e ganham seu pão e suas riquezas tão honestamente que não podem e não devem ser mantidas atrás para o prazer de tristes indivíduos ignorantes e bem-nascidos.. tão frívolas. tão egoístas imorais e folgazãs que evocam [.Por conta desse compromisso com o labor. a rainha viveu e governou abalada pela angústia dessa perda e pela responsabilidade de ser mulher. Ao personificar o ideal da mulher oitocentista. jamais foi a aristocrata típica. mergulhada em luxos e preocupada exclusivamente com roupas e festas. Inconformada. As classes inferiores estão se tornando tão bem informadas. pelo contrário.

sua imagem sempre severamente séria em negro. nada de música. Sua casa mergulhou no luto mais estrito. Seguindo seu exemplo. fiel ao marido até o fim. O corpo eternamente lutuoso da rainha era a representação de um Estado em luto.40 Viúva. interrompesse regularmente as conversações do fim do dia com a rainha. assim como de seu nascimento. a Rainha transformou o luto em sinônimo de virtude. essa idolatria pelos mortos não foi exclusividade da rainha. os trajes do dia prontos para serem vestidos. Em cada uma de suas moradas. trazendo água quente para o fantasma de Albert. A rainha foi também responsável pela adoção do luto por parte da corte e com isso influenciou mulheres que exigiam que seus empregados assim se vestissem na morte de seus senhores. se estendia ao espaço público – em detrimento de ser um sentimento privado. mantê-lo durante o máximo de tempo possível garantia reputação altamente respeitável a qualquer viúva. Gladstone queixava-se de que um criado. Vestiu o luto profundo por mais de três anos e o meio-luto por quarenta. consolou-a escrevendo-lhe: “Pensa no que é a perda de um filho em comparação à de um marido”. Ninguém de seu círculo tinha a audácia de sugerir-lhe pôr um fim nessa comédia fúnebre. de seu noivado. Vitória adotou o luto pelo resto da vida. despótica. 81 . Nada de festas. Sua dor. Era uma expressão de isolamento e resguardo. Trinta anos depois.pudesse ser comparada à sua. O dia da morte de Albert tornou-se sagrado. Por não ter se casado novamente.41 Típica do período vitoriano. de seu casamento. Sinal da esposa que não encontra mais alegria após a morte de seu companheiro. Quando sua filha perdeu um filho. as escovas e as navalhas dispostas como de hábito. o quarto de Albert era conservado intacto: a cama feita. ter vivido desde essa perda em reclusão e não ser vista divertindo-se.

* Assim. visto que a roupa pronta.42 Tornam-se iguais: como são todos os cadáveres. da reação à ornamentação exagerada de aristocratas. em que se enlutavam – e no século XIX o período de luto fora prolongado como nunca dantes. considerada deselegante. aliadas à padronização industrial dos tamanhos serviram para uniformizar a sociedade. um emblema democrático: a cor neutra e a modelagem simplificada. apropriada ao ambiente citadino e à respeitabilidade burguesa –. mais do que essa democratização do vestuário. esses homens apegam-se à materialidade e indicam uma nova relação com a morte. era somente utilizada pelas ordens inferiores. A imagem da impessoalidade indica a aniquilação do próprio indivíduo enlutado. a quem se proíbe destacar-se dos outros pela aparência. por extensão. Ao vestir o corpo ascético e civilizado de preto. O vestuário vitoriano que não permitia a semelhança entre mulheres de diferentes classes. indicando a igualdade política entre os homens e. a modernidade encena um funeral elegante e discreto no qual os mortos são todos. O luto feminino era a memória direta da dor da morte. E a morte exige o luto. Era. a profusão de cores deu lugar a corpos cobertos de breu. Contudo. assemelhavam-se nos momentos de morte. sobretudo. Algo de ideologicamente novo refletiu-se nos vestuários. Desenrolava-se com uma ostentação além do usual43: foi a época dos funerais histéricos nos quais já não se aceitava a morte do outro. uma morte do sujeito. A roupa passa a ser um nivelador. a anulação da individualidade: em última instância ocorre. O preto foi o símbolo da praticidade – a roupa do homem de negócios e do trabalhador urbano. não permitia uma indumentária passível de democratização. Cobertos de negro.44 O 82 .

e da negação de uma identidade pessoal no vestir. junto daquele que se enterrava. industrial e capitalista. O exagero do preto no vestuário oitocentista transitava entre os paradigmas da afirmação de classe. como o uniforme da nova sociedade burguesa. Enlutar-se em vida era sinal da falta de sentido na própria existência. aconselhável para todas as situações. A perpetuação do luto era manifestação de algo que se perdeu e do pesar interminável por essa perda. no qual vestir o luto era morrer um pouco. da neutralidade na cor prática e funcional.apego ao corpo que se desenvolveu naquele século pressupôs um culto ao sofrimento. 83 . A contenção de cores era um prolongamento do fim da auto-expressão. longo e carregado.

repousa a foto do bebê ainda vivo no colo da mãe.jpg 84 .org/wiki/Image:WCB-family-lompoc. Fonte: http://en.Retrato de uma família americana em luto. fazem questão da presença do parente morto: sobre a cadeirinha infantil decorada de flores.wikipedia. Vestidos elegante e apropriadamente. tirada por volta de 1894.

cartes. em Birmingham. posam contraidamente para o registro. A foto da família de Henry Whitlockfoi tirada no Natal de 1885. na Inglaterra. pelo vestuário mantêm-se a dúvida. Fonte: http://www.htm 85 .com/visitors/whit. Mesmo felizes.Todos de luto? Difícil afirmar.freeuk.

86 . memória. J. 2006. Tradução: Ana Luiza Dantas Borges.) História da vida privada 4: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. A moda e seu papel social. São Paulo: Mestre Jou. 1993. Tradução: Antonio Cardoso. velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução: Maria Lúcia Machado. O espírito das roupas. Diana. Tradução: Marco Giannotti. 2003. O casaco da Marx. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Rocco. 2003. Alison. Gilda. A evolução do traje moderno. A moda no século XIX. Rio de Janeiro: Rocco. Anne. LURIE. 1997. dor. soberana triunfante. 2001. CRANE. Tradução: Fernanda Veríssimo. Homens de preto. São Paulo: Unesp. esposa satisfeita.W. Peter. Roupas. Doutrina das Cores. viúva lastimosa. Tradução de Alexandre Tort. Michelle (org. 2003. gênero e identidade das roupas. HARVEY. 1966. A linguagem das roupas. J. STALLYBRASS. 1999. PERROT. GOETHE. 1991. Anka. Tradução: Denise Bottman e Bernardo Joffily. MELLO e SOUZA. John. Companhia das Letras. São Paulo: Nova Alexandria. São Paulo. Classe. FLUGEL. São Paulo: Companhia das Letras. Vitória: retrato da rainha como moça triste. São Paulo: Unesp.Bibliografia MUHLSTEIN. mãe castradora. São Paulo: Senac. Tradução: Tomás Tadeu da Silva. HOLLANDER.C. O sexo e as roupas. A psicologia das roupas.

) Seguem os versos que introduzem esses personagens: Vasto abismo. Enfeitada de sonhos: moda e modernidade.com/fashion/historical/2001_03_victorianmourn. antes de serem fenômenos físicos existentes a priori. Lisboa: Edições 70.cfm http://www. (HESÍODO. Conectado à alma. (. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. A origem dos deuses. 1986. Coleção Os Economistas.A. 1987. Do texto original de sua Teogonia. (GOETHE. deve-se levar em conta a luz enquanto aspecto da Natureza que se expõe aos homens através do sentido da visão (tal como outros aspectos apresentam-se aos outros sentidos. Doutrina das cores.. Thorstein. Sono e Morte.deathonline.) 2 Hesíodo foi o poeta cujos versos trouxeram os primeiros relatos sobre a mitologia grega e a origem dos deuses do panteão grego. respectivamente.com/library/harpers/funeral. Teogonia. sabe-se que os nomes da Noite e de Morte são.) E lá os filhos da Noite sombria têm morada.VEBLEN. São Paulo: Iluminuras. terríveis deuses.A.morbidoutlook. São Paulo: Nova Cultural.victoriana. nunca o Sol fulgente olha-os com seus raios ao subir ao céu nem ao descer o céu. A casa da terrível Noite trevosa eleva-se aí oculta por nuvens escuras. por sua vez. WILSON.html http://www. terrível até para os deuses imortais este prodígio. Tradução: Olívia Krahenbuhl. um dos locais do Inferno. como os sons dos animais e o gosto das frutas): as cores. Sites http://www. Teria vivido no século VIII a. são concebidas articuladas à ação dos olhos – e não anteriores a ela.net/remembering/mourning/victorian.html Notas 1 Para Goethe. Tradução de J. proporcionam diferentes estados de ânimo. Nix e Thanatos e que viviam no Tártaro. 87 . o olho humano percebe as diferentes cores que. nem ao termo de um ano atingiria o solo quem por suas portas entrasse mas de cá para lá o levaria tufão após tufão torturante.C. Torrano.. Páginas 37 e 129. 1991. Elizabeth.

O sentimento de luto era expresso não mais por gritos ou gestos. sempre houve um elemento sinistro recorrente no uso que os homens fazem do preto. A cor é o negro.) 4 Na França. Página 58. (ARIES. uma marca de distinção social.” A respeito do preto monacal. Seus personagens não possuem a beleza física renascentistas. 8 Os temores dos homens do fim da idade Média foram notadamente retratados por Hieronymus Bosh. Foi o primeiro desses valores que deu início ao uso do preto na Igreja cristã. Se não fossem usados materiais originalmente pretos. o outro. difícil e cara. mas a uma morte figurada.) 7 Peste Negra é o nome pela qual ficou conhecida a epidemia de peste bubônica que dizimou um terço da população européia (mais de 25 milhões de pessoas) em meados do século XIV. tornando o pano negro impraticável para os pobres e. iniciado em meados do século XIV e findado em meados do século XV. metafórica: a dor do amor não correspondido ou proibido. mas a fragilidade do corpo pecador e corruptível. a cor do que há de mais aterrador na escuridão. por ex. Páginas 68-70. a dor da penitência. consequentemente. mais tarde em um esquife ou caixão de madeira. o processo consistia em sobrepor cores até que não houvesse mais cor. que se generaliza no século XVI.) 6 A manufatura de tecidos pretos era ainda àquela altura. tranqüilo e doce aos homens. não tendo cor. Os sacerdotes da Antiguidade não usavam o preto. Homens de preto. segue citação completa: O preto parece ter sido a cor com a qual se enterrava a si mesmo – a cor que. a dor da humilhação pela expulsão de um cavaleiro de sua ordem. Os pecados. retém dentre os homens aquele que agarra.) 5 John Harvey diz que essa dor se desdobrava em diversas situações de perda que não eram necessariamente relativas à morte efetivamente. As imagens caóticas impressionam pela riqueza de cenas e detalhes perturbadores. Apesar de o preto ter desenvolvido usos ordinários e insípidos. (HARVEY. lembra que “a conexão entre negro e morte não é jamais deixada pra trás.Um deles. Página 73. Homens de preto. Purgatório e Inferno são temas recorrentes de suas pinturas. os profissionais do luto eram os padres. os monges e os pobres que acompanhavam o cortejo e carregavam o corpo. (HARVEY. das divindades infernais. como a lã negra. (HARVEY. A Guerra dos Cem Anos foi o conflito travado entre França e Inglaterra. apagava e afastava o eu. o Juízo Final. mas por uma cor. Destaco. odioso até aos deuses mortais. primeiro numa liteira – ou ataúde -. e também elegantes. Homens de preto. 88 . pintor holandês que viveu entre os séculos XV e XVI. 3 O historiador inglês John Harvey analisa em sua obra Homens de preto os significados do uso do preto no vestuário entre a Idade Média e a contemporaneidade. de coração de ferro e alma de bronze. de um poder terrível vindo das trevas. revelando muito do imaginário da época. História da morte no Ocidente. percorre a terra e o largo dorso do mar. Página 130. impiedoso no peito. Philippe. Já na Introdução. Morte.

Eram. João sem Medo. filho de Carlos V. um caráter nobremente ameaçador: era um sinal aos franceses de que ele não havia esquecido. onde Miséria e Morte encontra-se exposta. Homens de preto. foi assassinado pelos franceses em 1419. Imagens disponíveis. passaram muitas vezes por letra morta. contém um Cristo e a inscrição Cuidado. em: http://museoprado. e sua decisão de estar sempre de preto. de luxo. (HARVEY. se sentiam ameaçados.mcu. o Bom.) 10 As leis suntuárias foram criadas para limitar o uso de determinados itens – do vestuário. Em vigor desde o fim da Idade Média e durante todo o período moderno. os óleos Os sete pecados capitais. Esse momento da medievalidade marca o início da formação de uma proto-burguesia.) 9 O impacto do preto na corte é destacado por John Harvey: No início do século XV o preto era pouco usado pelos príncipes. O estilo já quase todo negro da Borgonha foi ao mesmo tempo eclipsado e consumado no novo negro da extensa administração de Felipe. Páginas 71-3. onde a obra Os sete pecados capitais encontra-se exposta) e http://www. cuja morte o afetou realmente (. (HARVEY. Mas as roupas negras de Felipe não eram originalmente mercantis ou urbanas.) Depois de Felipe. Além de evidenciarem o quanto os grupos copiavam uns aos outros. que nos 89 . numa espécie de realização do conto de Cinderela. o supremo aristocrata – a seus cidadãos urbanos que. o Bom. no qual um homem comum está em seus últimos momentos de vida. vestido com roupas simples e negras. respectivamente. Sobre ele. tinha. A Espanha era a nação mais poderosa do mundo e não é surpresa que ditasse a moda internacional. Páginas 94-99. O preto tornou-se uniforme dos oficiais e homens de poder em todas as possessões de Felipe. a partir de então. cuidado. outro monarca que fica conhecido pelo uso de preto foi Felipe I rei da Espanha entre 1556 e 1598I. Homens de preto. ele também continuou a usar o negro passado o período de luto. na tentativa.es (Site do Museo del Prado em Madri.. e Miséria e Morte (A morte do avarento) de 1485-90. Felipe vestiu preto pela primeira vez quando seu pai. Pode-se imaginar então o grande efeito alcançado nesse mundo colorido por um monarca que escolhesse vestir preto como fez Felipe. duque de Borgonha. A morte já está em sua porta e ele deve se decidir se seguirá com o anjo à sua direita ou com um ser demoníaco à sua esquerda. que lhe oferece um saco de dinheiro. Harvey diz: na companhia de monarcas que vestem tecidos dourados e arminho.no qual o centro do quadro. e a cor lhe parecia adequada por outras razões além da dor. e sua corte e aristocracia influenciavam a moda em toda a Europa. A moda da Borgonha era conhecida pelo uso do preto nas roupas tanto masculinas quanto femininas.pessoalmente. talvez fosse bem pensado da parte de Felipe vestir-se num estilo negro que o associasse – ele.. em formato de olho. extensão do luto por sua segunda esposa. de 1480-1500 .gov (Site da National Gallery of Art em Washington. de serem confundidos com indivíduos hierarquicamente superiores. na verdade. A Borgonha era poderosa durante o reinado de Felipe. sem dúvida. ou no sonho. de certa forma. Deus está vendo! -.) Mas assim como fez Felipe.nga. da alimentação – a determinadas classes. mas são muito representativas da necessidade em identificar o grupo social a que se pertence cada indivíduo através da aparência já naquele período. Felipe se mantém sóbrio. Como a sociedade espanhola se dividia claramente entre o mundo feudal da corte e o mundo mercantil das cidades.

a constrição e os fechos problemáticos. dos luxos. assim como todos os ornamentos precários e todas as dificuldades similares no vestuário. segue citação da autora: A rigidez. Se o século XVIII na Inglaterra era um espetáculo de perucas e laços e de grandes e negros sinais nos rostos empoados dos homens (. a camisa.. essa aproximação entre o preto e o ascetismo protestante tornou a cor um emblema da classe que lidava com dinheiro obtido por seu próprio esforço e economia.) 12 A pesquisadora norte-americana Anne Hollander buscou na história do vestuário a simplificação da roupa masculina ao que denomina traje. mas não essencialmente criativas (. de inventores e daqueles que investiram em suas invenções. Os decretos serviam. responsáveis a partir de então pela confecção de roupas femininas. a composição de 4 peças. ou seja de peça estruturada já contendo as armações. (HARVEY.) 13 Sobre o início da simplificação do traje masculino. ou treinadas para criar estilo.” Em larga medida. John Harvey comenta que “Vestir-se de preto tornou-se uma prática protestante tão freqüente. não havia necessidade em se inovar na modelagem. numa dialética da cópia. 11 A respeito da relação entre o vestuário negro e o protestantismo. Harvey diz q “a própria Inglaterra. para erguer as fronteiras sociais entre aristocracia e burguesia. Página 111. mas eram reconhecidamente especialistas no trabalho de costura fina. educação elaborada e responsabilidades complexas dos meros peões com seus prazeres. apesar de toda a influência das cores e laços franceses. industriais e distintamente sóbrios. uma espécie de prelúdio do terno. todos eles racionais. corte e acabamento – nunca haviam sido mestres-alfaiates. principalmente.séculos seguintes cresceu e se fortaleceu.. sobretudo do vestuário. madeira ou ossos de baleia haviam sido costuras diretamente nas roupas femininas para dar-lhes formas. ao longo do XVIII vinha buscando um estilo simples. que não seria errado considerar a consonância entre a roupa preta dos “puritanos” e o seu modelo de espiritualidade. por volta de 1700. a segunda sempre buscando se apresentar como a primeira. e Londres era vista como uma cidade sobriamente vestida.) ele também apresentava um grande número de negociantes e de estudiosos. armações e barbatanas feitas de metal. que irritava os membros das cortes..” (HARVEY. os alfaiates especializaram-se somente nas masculinas: Durante as duas centenas de anos anteriores ao surgimento dessa divisão. A idéia era de que as mulheres eram caprichosas. o colete e as calças. Páginas 6970. ou seja. e armações similares haviam sido costuradas nos gibões masculinos e na bainha de seus casacos. Porém com o surgimento do corpete feminino. Era a cor da restrição: dos gastos. lembravam constantemente a homens e mulheres privilegiados que eles eram seres altamente civilizados e separados por um treinamento árduo. O sexo e as roupas.) Com o surgimento das guildas de costureiras.. Páginas 165-6. afazeres e deveres simples. Homens de preto. a ponderabilidade.) 14 Da diferença entre alfaiates e costureiras. Sobre o vestuário do Antigo Regime. a saber: a casaca – depois tornada paletó -. (HOLLANDER. diligentes e hábeis com as mãos. Anne Hollander comenta: As mulheres nunca eram alfaiates. Homens de preto. apenas utilizar o suporte pronto do corpete: Isso significava que o novo ofício de 90 . tanto no púlpito quanto fora dele.

da historiadora de arte Tamar Garb. A pintura francesa no século XIX. Modernidade e modenismo. justamente.. foi apresentada pela socióloga brasileira Gilda de Melo e Souza.) Por considerar esses termos muito eficientes sobre a relação entre gêneros no vitorianismo.costureira na verdade consistia na utilização simples do tecido. analisada no Capítulo 1 deste trabalho. o século XIX e em sua dissertação de mestrado. via as atitudes burguesas pelo viés do utilitarismo.) 15 Tomo emprestado esses termos. (WEBER. K. em referência ao desenho do corpo construído pela roupa. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Em seu texto Ética protestante e o espírito do capitalismo. reconhecidamente uma das primeiras pesquisadoras do país a se debruçar sobre o tema da moda. muitas vezes em dobras. só são virtudes à medida que são úteis aos indivíduos. a “hiperespetacularização” (extrema concentração no valor de exibição) do sujeito feminino é dependente da “desespetacularização” (ausência total de valor de exibição) do sujeito masculino heterossexual normativo? (GARB. (HOLLANDER. 1998. Ocupavam-se. e com poucos cortes. Max. pois assegura o crédito. responsável pela consolidação de grupos burgueses contrários a pratica do dispêndio conspícuo. assim como o regozijo consciente do próprio poder. A ostentação e a opulência deveriam ser não só evitadas como repugnadas e as atitudes pensadas sempre pela ótica do utilitarismo. 16 Max Weber. In FRASCINA (et allii). 2001. Bloomington: Indiana University Press. adotei-os ainda que sem a possibilidade de me remeter à sua fonte original. Página 90. as virtudes vistas como niveladores úteis nas relações sociais e comerciais: A honestidade é útil. 1988... Seu ponto de partida foi. com a frugalidade (. basicamente. filósofo alemão do século XIX. para ajustá-la a um corpo já moldado. e assim é com a pontualidade. Tamar. assim como as demais. São Paulo: Martin Claret. Segue citação completa: Podemos ver a rígida separação que a estrutura do quadro impõe como demonstração de uma ansiedade que está no cerne da manutenção das diferenças sexuais na cultura burguesa moderna.) para empregá-los em relação à arte. com decorativismos. (.) 17 Essa simbologia das silhuetas em X e S para mulheres e em H para homens do século XIX. Para esse tipo de vestido não eram necessários um corte e uma confecção criativa. O sexo e as roupas. “Gênero e Representação”. A própria pesquisadora apropria-se desses termos do texto de Kaja Silverman. The Acoustic Mirror : the Female Voice in Psychoanalysis and Cinema. adicionando-lhe depois as mangas.) Tais virtudes.. The acoustic mirror (SILVERMAN.) O tipo ideal de empreendedor capitalista evita a ostentação e gastos desnecessários. São Paulo: Cosac & Naify. páginas 59 a 124. de maneira enviesada. com a industriosidade. e fica embaraçado com as manifestações externas do reconhecimento social que recebe. A autora analisa a apresentação de sujeitos masculinos e femininos em obras do período vitoriano. da década de 91 . Página 226. permitindo que boa parte se transformasse em saia. Poderíamos ser levados a perguntar: por que a idéia do homem funcionando explicitamente como objeto de exibição seria tão ameaçadora que devesse ser absolutamente descartada de um quadro como este? Por que na moderna economia sexual. destacando que a mulher é sempre sexualmente mais detalhada e por isso mais evidente nos quadros. o autor entende que viver e consumir equilibradamente e sem desperdício era uma idéia incutida pelo protestantismo.

publicada na década de 1980. a mulher vestida com elegância corava e desmaiava facilmente. não admira que a tuberculose fosse a doença mais terrível. principalmente. ou melhor. tais como as línguas faladas. na compreensão popular.) se olharmos os retratos dessa época. da roupa enquanto expressão da alma feminina e da dinâmica urbana como responsável pelo nascimento do fenômeno Moda.. e se sentia fraca e exausta após qualquer esforço maior. (. que seus semelhantes.. Consequentemente. Para destacar ainda mais essa situação de fragilidade.) O espartilho também deformava os órgãos internos e impossibilitava respirar profundamente. (VEBLEN. mas deve também tornar visível a todos os observadores que quem o usa não está ligado a qualquer espécie de labor produtivo. A teoria da classe ociosa. uma imagem que represente a posição financeira do indivíduo e cuja finalidade é conquistar simpatia e afeição ou – em última instância – causar a inveja. Esse espírito de competição. não deve apenas ser dispendioso. intitulada O espírito das roupas. Um exame detalhado daquilo que. as mulheres vestiam-se frequentemente de branco: Na vida secular. Quando usadas nos salões de baile com correntes de ar e nas alamedas geladas e lamacentas de um inverno inglês ou norte-americano.) A análise de Veblen tornou-se uma referência justamente por demonstrar. segue a citação completa: Agourentamente. extravasado através do consumo e praticado em um nível de posse: possuir mais. física e simbolicamente.1950. essas roupas garantiam a saúde deficiente. Por se sujar. encantadora. a fim de servir eficazmente a seus propósitos. Entende o vestuário como uma espécie de língua. da relação nascida naquele século entre homens e mulheres com seu vestuário. Página 48. 229-30. ou seja. passa por elegância no vestir mostrará que essa elegância é conseguida para dar a impressão de que a pessoa que a tem não costuma desenvolver qualquer esforço útil. que o objetivo principal do dispêndio conspícuo é construir uma aparência que demonstre aos outros o que se possui. pelos vieses da luta de classes. o branco sempre foi popular entre aqueles que desejam demonstrar riqueza e status através do consumo conspícuo de sabão ou liberdade conspícua de mão-de-obra.) 19 Em sua análise sobre o nascimento de uma “classe ociosa”. com seus diversos elementos de formação de sentido. inerente e natural ao ser humano. Páginas 198. com tanta facilidade.. seria. de musselina transparente. portanto. Sobre o vestuário feminino do vitorianismo. (LURIE. pesquisadora norte-americana. vestindo a mulher com sapatilhas de sola fina e vestidos de mangas curtas e decotados. nas sociedades modernas. essas roupas eram quase uma garantia de resfriados com febre e gargantas doendo (. A Linguagem das roupas. 18 Alisson Lurie. o sociólogo e economista Thorstein Veblen comenta a intenção por trás dessa maneira de se vestir: O vestuário.. de 1899. por meio de uma exposição histórica sobre o surgimento da sociedade de consumo. 92 . O efeito agradável de vestuários elegantes e imaculados se deve principalmente – se não de todo – à sugestão do ócio que trazem. estudou os tipos de mensagens possíveis de serem produzidas pelas associações de peças de roupas em seu texto A linguagem das roupas. Trata. sofrendo de falta de apetite e problemas digestivos. o branco sempre representou a pureza e a inocência.

as análises de Thorstein Veblen e de Max Weber permitem que se reflita sobre essa diferença entre o consumo conspícuo de cortesãos e burgueses. se as mulheres são indivíduos porque tratá-las como menores de idade? A “nova mulher”. Era através dele que o indivíduo tornavam público seus ideais políticos. em 1789. 93 . já que Weber assinala que. ela afastou o grupo masculino do feminino. Expressão coletiva de aspirações muito mais difusas. na transição entre os séculos XIX e XX.) 23 A historiadora Michelle Perrot. Páginas 70-1. de preferência em conformidade com os princípios revolucionários. manifestando suas diferenças sociais? Um dos exemplos mais claros da invasão do público no espaço privado é a preocupação constante com o vestuário. Ao terminar o século está acomodado à monótona existência do linho e da lã. frequentemente infiltrado nas brechas do poder. Desde a abertura dos Estados Gerais. enquanto os primeiros se apropriam indiscriminadamente dos frutos do trabalho alheio. o feminismo intermitente do século XIX. 20 O fenômeno da “nova mulher” é reconhecido pela historiografia por conta dos novos grupos femininos que. vimos como a definição de necessário se torna fluida na medida em que necessário se torna proporcional ao estilo de vida que se conquista.Nesse sentido.) 21 Eis em traços rápidos um apanhado da evolução da moda no século XIX. torna-se então um movimento constante. apoiando-se em uma dupla argumentação: a do papel social e maternal das mulheres. pela ética protestante. História da vida privada. (MELO e SOUZA. viajar. restrito para o homem. passam a efetivamente participar da sociabilidade urbana através de atividades antes restritas aos homens. e escondendo debaixo da austeridade do traje.) 22 Ao homem cabe apenas as fazendas ásperas.se utilizam dos frutos de seu próprio trabalho. que aliás há muito vinha empregando somente nos acessórios. Afinal. São idéias complementares e não contraditórias. O espírito das roupas. celebrada às vezes ambiguamente por muitos homens desejosos de viverem de outra maneira a relação de casal. Ao aceitarem as novas profissões e liberdades. aos cetins. mas também a da lógica dos direitos naturais. enquanto afoga a segunda em fofos e laçarotes. reclama a igualdade de direitos civis e políticos. grupos e congressos. como no colete. através de jornais. a partir de Veblen. (PERROT. Pois que. O espírito das roupas. Essa será dada por uma consciência moral que permite aos segundos o acesso a itens supérfluos na medida em que – teoricamente . Outro ponto de correlação entre os textos seria em relação ao consumo conspícuo em si. conferindo a cada um uma forma diferente. (MELLO e SOUZA. amar. não se consome nada além do prático e necessário. pois à medida que o século avança vai renunciando às sedas. um conjunto diverso de tecidos e de cores. uma das organizadoras da célebre série História da vida privada fala da importância do vestuário nos anos que se seguiram à Revolução Francesa. as mulheres reinvidicam mais fortemente o direito de trabalhar. é uma figura largamente européia. Página 613. aos brocados. Mais do que em épocas anteriores. como seria possível chegar à igualdade festejada pelo lema revolucionário de os homens ainda se vestissem de maneiras diferentes. Página 72. a roupa possui um significado político. exilando o primeiro numa existência sombria onde a beleza está ausente. abundante para a mulher.

Mesmo depois de abandonado o grandioso projeto de reformar e uniformizar a indumentária masculina. (PERROT. mas todo mundo reconhece. O dandismo é uma ética. Tudo isso supõe uma vida de lazer e rendas suficientes que dispensam o trabalho. Revolução Francesa e vida privada. A roupa é investida de tal significado que a Convenção em outubro de 1793. A boêmia se inclina para a esquerda.Michelet [historiador francês do século XVIII. a simples idéia de um uniforme civil mostra que havia quem desejasse o fim da fronteira entre o público e o privado. a Revolução contribui para diminuir o número de peças de roupa e deixar a indumentária mais solta. seus paramentos de ouro”. ator do teatro urbano. a partir de 3 de abril de 1793. De modo geral. sem distinção de sexo. naturalmente. o casaco estreito com várias filas de botões e as calças largas passam a definir o sans-culotte.. e não poucos. A moda masculina não se definiu de imediato com tanta clareza. Certamente mais abonados que os boêmios. o dandismo se inclina para a direita. echarpes. o verdadeiro republicano. todos os homens passaram a ser obrigados por lei a usar a roseta tricolor. No entanto. chapéus. o dândi. todos os franceses. suas rendas. bengalas.) 24 Segue a definição de Michelle Perrot: O dandismo representa uma forma ainda mais consciente e elaborada de recusa da vida burguesa. protege sua individualidde por trás da máscara de uma aparência que eel tenta tornar indecifrável. Em maio de 1794. o dandismo toma a distinção como o próprio princípio de seu funcionamento. ele gostaria de recriar uma aristocracia que certamente não seria a do dinheiro ou a da linhagem. até o ponto de se vestirem em trajes obviamente planejados para torturar o seu corpo mortal. A partir de 1792. Ela revelava o significado público do homem privado. In: História da vida privada. (PERROT. homens livres. os dândis. e “o pequeno grupo refulgente dos deputados da nobreza com seus chapéus de plumas. a Convenção solicitou ao pintor-deputado David que apresentasse projetos e sugestões para melhorar o traje nacional. mas também a aceitação do risco e de uma eventual ascese fazem parte da moral dândi. porém não eram muito abastados. anticapitalista e antiburguesa. Os moderados e os aristocratas eram identificados por sua recusa em usarem a roseta. À margem: solteiros e solitários. A partir de 5 de julho de 1792. In: História da vida privada. o gosto pelo jogo e pela ostentação do luxo. uma concepção de vida que eleva o celibato e a vagabundagem ao nível de uma resistência consciente. Homem público.). á frente da procissão de abertura – “uma massa de homens.. O desprezo do dinheiro como objetivo. vestidos de negro com trajes modestos” -.) 25 Tal tendência não passou despercebida a Veblen: Há. isto é. ficaram submetidos a esse decreto. Páginas 296-98. Antiigualitário.. A indumentária civil criada por David nunca foi usada. as roupas não perderam seu significado político. mas a de um temperamento – “nasce-se” dândi – e de um estilo. mas a indumentária logo se transformou num sistema semiótico intensamente carregado. Páginas21-8. vêse obrigada a reafirmar a “liberdade do vestuário” Apesar do aparente apoio da Convenção ao direito de se vestir à vontade. sem sombra de 94 . o Estado desempenhou um papel crescente nesse campo. gravatas. De origem britância e essência aristocrática. entusiasta da Revolução] descreveu a diferença entre a sobriedade dos deputados do Terceiro Estado. Ele alimenta o gosto da ilusão e do disfarce. o barrete vermelho. tem um agudo senso dos detalhes e dos acessórios (luvas. que transgridem a linha teórica entre o vestuário masculino e feminino.

ou ainda porque estavam efetivamente de luto. Página 65. 2003. não só pelo motivo óbvio de não se proteger do frio. Roupas. fez com que as distinções não se expressassem mais pelos sinais exteriores da roupa. O espírito das roupas. mesmo que tivesse um passe de entrada. consagrando a passagem de uma sociedade estamental a uma sociedade de classes. O sexo e as roupas. onde frequentemente o objeto da penhora era seu casaco de inverno e o dinheiro arrecadado convertia-se não só em alimentos para a família como em papéis e tinta para seus textos. Página 77. devido à mudança profunda no curso da história.) 30 Essa primeira corrente de pesquisadores seria liderada pelo psicólogo J. (STALLYBRASS. Página 84.) 26 HOLLANDER. E. tal como os homens. e estabelecendo a igualdade política entre os homens. era simplesmente qualquer um. O homem só se desinteressou da vestimenta quando esta. Peter. que na década de 1930 escreve uma Psicologia das roupas. mas porque o salão de leitura não aceitava simplesmente qualquer um que chegasse a partir das ruas. em nenhum outro ponto é a sensação de sordidez tão agudamente sentida como numa decadência do padrão estabelecido pelos usos sociais em matéria de vestuário. 95 . “vestido em condições que pudesse ser visto”. (VEBLEN. A teoria da classe ociosa. Provavelmente todos seus poucos vestidos formais eram preto . 27 O historiador inglês Peter Stallybrass relembra que até mesmo Karl Marx precisou recorrer inúmeras vezes às lojas de penhores. Página 144. sequer podia sair de casa por não ter mais o que vestir. contemporâneo de Marx. Temos o hábito de qualificar tais trajes de “efeminados”. e um homem sem um casaco. A carreira estava aberta ao talento. 29 Segundo Gilda de Melo e Souza.) Um dos problemas maiores de Marx era o fato de não poder freqüentar o Museu Britânico devido à falta dos casacos. deixou de ter importância excessiva na competição social. (MELO e SOUZA. comentava que a maior parte do dispêndio em que incorrem todas as classes em questão de vestuário é principalmente devida ao interesse pela aparência respeitável. Sem seu casaco.) 28 É possível averiguar esse dado em fotos da época: é muito comum as mulheres estarem vestindo preto. que esses trajes masculinos se afastam visivelmente da normalidade. A Revolução Francesa. São Paulo: Unesp. dor. Flugel. O casaco de Marx. seus casacos estavam condenados a irem e voltarem diligentemente das lojas de penhores.dúvida. Página 80. Marx não estava. texto no qual cunha e expressão “Grande Renúncia Masculina”. mas através das qualidades pessoais de cada um. O casaco da Marx. (STALLYBRASS. provavelmente.C. Marx queixava-se que havia uma semana que não podia sair por falta dos casacos que estavam penhorados. Naqueles anos de 1850 e 1860. (VEBLEN. não pela proteção da própria pessoa. E enquanto não reavia a peça. em uma expressão cuja força é difícil de reproduzir. Em carta enviada ao amigo Friederich Engels. memória.) Veblen. A teoria da classe ociosa.

Homens de preto. muito relevante para os dândis. Página 45. depois da revolução industrial. Página 80.. O primeiro autor afirma que o vestuário preto é sexualmente muito atraente e esse aspecto não passou despercebido pelos vitorianos: Salientei a sobriedade. gravatas e 96 . o langor longilíneo e elegante de outros – é aparente em inúmeras pinturas de bailes ou de passeios do século XIX.): os homens abdicaram de seu direito às formas mais claras. que se efetuou no final do século XVIII. substituindo-o por símbolos de dignidade e competência. Na base deste contraste desenvolveu-se o mito de que a moda. Em termos de moda. diz respeito à atração sexual do preto. (MELLO e SOUZA. assim. não de estar elegante ou elaboradamente vestido. destaca-se o inglês John Harvey e a norte- americana Diana Crane. Gilda de Melo e Souza parece seguir essa linhagem inaugurada por Flugel. Este clichê da história da moda esconde uma realidade mais complexa. (HARVEY. plastrões. as modas masculinos mudavam regularmente e havia numerosos tipos de casacos. (WILSON. momento em que as suas mulheres se vestiam elegantemente.. O grupo masculino teria abandonado o adorno. esse acontecimento certamente deve ser considerado “A Grande Renúncia Masculina”. O homem abandonou sua reivindicação de ser considerado belo. a partir desse momento. Páginas 45 e 50. realça o rosto. Um evento sob cuja influência ainda vivemos e que tem recebido muito menos atenção do que merece (. Se as roupas permaneceram importantes para ele. mais recente. mas um outro lado da questão. deixando-as inteiramente para uso das mulheres.referente a essa perda da beleza na roupa masculina no século XIX: Pode-se dizer que os homens sofreram grande derrota na súbita redução dos adornos na vestimenta masculina. ocorreu um dos mais notáveis acontecimentos em toda a história do vestuário. talvez sugira intensidade. Quem veste preto parece mais magro. mais alegres. Enfeitada de sonhos. mais elaboradas e mais variadas de ornamentação. Eles vestiam este “uniforme” até à noite.) 31 Na segunda linhagem de pesquisadores. como o faziam os comentaristas da época. Página 100. O espírito das roupas. seu maior empenho ficou no sentido de estar “corretamente” trajado. A elegância glamurosa e vistosa de muitos homens de preto – o ar de correção absoluta de uns.).) Já para Diana Crane. refletindo a preocupação pela aparência: Os historiadores da moda com freqüência afirmam que ao homens do século xix evitavam a moda em favor de uma aparência propositalmente insípida e conservadora. tornando assim o seu corte de roupa a mais austera e ascética de todas as artes. A isto se tem chamado “grande renúncia masculina” e muitos historiadores da moda concordam com o ponto de vista de que. Por volta dessa época. porém não vai mais adiante em sua análise: O que é certamente uma realidade é que a coincidência da revolução industrial com os ideais políticos revolucionários e com o credo do romantismo resultaram numa mudança fundamental no aparato masculino. calças. ao afirmar que o princípio da atração e da sedução estão ausentes na roupa masculina do século XIX. Ou ainda: As primeiras modas masculinas urbanas adotaram a sobriedade escura dos dandies e do linho branco limpo. (FLUGEL Psicologia das roupas. passou a ser uma questão inteiramente feminina. ser considerado somente útil. Objetivou. os homens abandonaram todas as pretensões de beleza e só as mulheres continuaram a utilizar a roupa como forma de exibição.) Já a socióloga Elizabeth Wilson destaca que a grande renúncia masculina se tornou um clichê infundado da historiografia de moda. Na realidade. é insensato falar de renúncia estética visto que as modas para homens continuavam sucedendo umas às outras.

Vitória. seu bom senso lhe permitiu evitar o impasse nos casos em que não estava de acordo com seus ministros e seu gosto pela calma e pala intimidade mudou radicalmente a imagem popular da família real. busquei mencionar os dados que não estivessem em contradição nas referidas fontes. Até mesmo as crianças pequenas tinham que usar batas pretas. página 139.) 37 Idem. A linguagem das roupas. fosse por seu desinteresse pela coisa pública. Página 255. 1875-1914. 36 Os predecessores de Vitória se haviam distinguido fosse por seus caprichos e suas loucuras. (PERROT. São Paulo: Paz e Terra. In: História da vida privada. na qual a alma do defunto poderia se deter diante de sua imagem refletida e não ascender. dava-se uma modificação complexa e cara. vestia-se preto durante um ano após a morte de genitores e filhos e durante seis meses após a perda de avós e outros parentes. compreendeu seus direitos e seus deveres. O item que mais se aproximava era o vestuário: Na América. em 1801 a expectativa de vida era de 30 anos. desde sua subida ao trono. 97 . A moda e seu papel social.) 33 De maneira geral. (HOBSBAWM. apesar de seguirem também a etiqueta vitoriana.era de apenas 43-5 anos e menos de 40 na Alemanha. Os ritos da vida privada. cujo vestuário cotidiano era de tonalidade sombria.Bélgica. cujo modelo transmitiu a seus sucessores. o luto na Europa Ocidental era muito mais severo do que o luto na América ou na Austrália. ARIES.) 32 De acordo com Michelle Perrot.chapéus que ofereciam material abundante para afirmar ou manter o status social.) Segundo o historiador inlgês Eric Hobsbawm. França Massachussets. Página 50. 35 As informações a respeito dos estágios do luto vitoriano foram feitas a partir das leituras de PERROT. Página 10-11. 2006. as próximas citações foram retiradas da biografia da Rainha Vitória escrita por Anka Muhlstein. podendo optar – como a Rainha Vitória – por usá-lo permanentemente. Eric. Uma viúva ou um viúvo devia vestir luto fechado por dois anos. 38 Ibidem. Graças às suas qualidades pessoais. Mas para mulheres. ao passo que ela. Sua seriedade levou-a a usar ativamente seu direito à informação e à prevenção. (LURIE. página 41. a esperança de vida média nos anos 1880 nas principais regiões desenvolvidas . GAY e dos sites mencionados ao fim do capítulo. Em meados do século passou para 38 anos para os homens e 41 para as mulheres. (CRANE. Página 203. Página50. contribuiu para definir um novo tipo de monarca. Grã-Bretanha. Holanda e Suíça . o traje de luto não requeria muita alteração de seu guarda-roupa. Assim como essa. Era dos Impérios. (MULHSTEIN.) 34 A prática justificava-se por uma superstição da época. Para os homens. Apesar de algumas diferenças entre esses textos.

e nunca mais repetida posteriormente. (HARVEY. Por isso. (Ibidem. Vitória deu títulos de nobreza a sentimentos que até então haviam florescido somente nas classes médias. até a atualidade. Homens de preto. Ou seja. o luto se desenvolve aí com uma ostentação jamais vista anteriormente.39 A grande contribuição social da Rainha Vitória foi a afirmação da família em termos que nos são acessíveis. aos funerais elaboradamente decorados e ao uso do luto por um longo período de tempo. página 99. 43 Segundo John Harvey. página 11) 40 Ibidem. um culto ao longo e carregado pesar. as alianças e a passagem do privado ao público adquirem com ela um sabor novo. 41 Idem. 42 A nova relação com a morte será analisada no segundo capítulo deste trabalho.) 44 Também esse aspecto da relação com a morte no período vitoriano é assunto do capítulo seguinte e nele será amplamente discutido. Página 170. o século XIX realmente tinha seu culto à morte. 98 .

99 . Obsessão pelos restos mortais. O apego ao corpo. O cadáver como herança. Negação da morte pela preservação do morto.Capítulo 3 A morte do outro História da morte e consciência de si.

Os versos da Morte. Quando vier o castigo. numa melancólica afirmação da efemeridade do viver. apegou-se a uma supervalorização do morto. tão apaixonadamente sofrida. a morte tenha sido tão dramatizada. negada – como se fosse possível evitá-la. E duplamente ela morreu. Também o século XIX presenciou a morte-tabu. ou nunca mais! Vês! No rude esquife jaz teu amor. Quem não o faz antes da morte. Paralelamente. a que morreu mais moça. Não somente pelos hábitos sociais. Talvez nunca na história ocidental. ou pela adoção do luto como traje cotidiano. Lenore. indesejada e. cada vez mais artificiais. um hino à rainha dentre as mortas. no extremo. Sem tardar. Venha teu pranto agora. A intolerável perda da presença humana evidencia-se nas mais desesperadas manifestações sentimentais diante da morte do outro: um ente 100 . mantendo-o ao mundo dos vivos. 1831. ca 1194. Lamentar-se-á muito tarde e sem razão.É a sorte comum: espera-se A morte e depois o juízo. por que morreu tão moça! Edgar Allan Poe. O único remédio é ainda Lavar-se completamente. Hélinand de Froidmont. Lenore! Leiam-se os ritos funerários e o último canto se ouça. que indicavam o fim do homem naturalmente espontâneo. arrependendo-se Do que causa remorsos. A sociedade vitoriana concebeu a presentificação da morte na vida.

a punição do Além e os suplícios do inferno. tal como a dor física. independente da hierarquia social e mesmo da idade. durante um longo período histórico. uma passagem para uma outra esfera. Assim. contava pouco. 101 .fazendo parte do cotidiano de todos. o ser humano lidou com o desaparecimento eterno de forma sensivelmente diferente. preparavam-se para morrer e ocupavam-se com o pós-vida. O homem apegou-se como nunca aos seus próximos. uma transição. Desde fins do século XVIII é possível notar essa nova sensibilidade que modificou sobremaneira a relação dos indivíduos com a morte.a expectativa de vida era pequena se comparada com épocas atuais. Além disso. nossos ancestrais temiam o Juízo Final.querido. O homem da Idade Média tem a convicção de não desaparecer completamente esperando a ressurreição. a própria e a dos outros.1 Antes de efetivamente temerem a morte em si. a morte é uma passagem que deve ser celebrada em cerimônia. antes de tudo. era um evento muito corriqueiro . ainda que não corpórea. Ao contrário: Quando ninguém duvida da existência de um outro mundo. Entretanto. entre parentes e vizinhos. dedicar-se aos finados foi a resposta vitoriana à perda de sentido de uma vida cada vez mais materialista e mundana. A crença na sobrevivência. ainda que só lhe restasse corpos sem vida. Nessas sociedades nas quais acreditava-se que morrer era. O modo como se vivia era pré-condição para os acontecimentos do fim. Mais do que a morte. Houve um tempo em que vida e morte eram conceitos tão indissociáveis que não se concebia um sem se considerar o outro. Em vida. a morte. faltavam motivos para transformar o óbito em assunto-tabu. a pessoa amada. fazia menos aterrorizantes os suplícios do mundo. os homens não dispunham de noções básicas higiene ou de controle sanitário de doenças . O cadáver tornou-se objeto de culto. os medievos temiam desconhecer seus desdobramentos.

Não havia cômodos onde uma pessoa pudesse ficar só. compartilhado pelo grupo. Na presença de seus pares.2 Mesmo a velhice era doméstica. esperava. tranquilamente. sobretudo nas fases que antecedem o óbito. ou seja. pedia perdão aos conhecidos e confessava-se. distribuir entre os que ele ama todos os objetos que lhe pertenceram. em que camponeses e lavradores formam o maior grupo ocupacional. devendo despojar-se. Resignados e esperançosos pela recompensa pós-vida. Após essas etapas. ainda que doméstico. as pessoas terminavam sua vida no interior de um grupo. em que a maioria da população vive em vilarejos e se ocupa do cultivo da terra e da criação do gado. A travessia era realizada em conjunto: As sociedades medievais eram sociedades de solidariedade. o moribundo cumpria uma série de obrigações. [até o século XIX] a maioria das pessoas morria na presença de outras apenas porque estavam menos acostumadas a viver e estar sós. Lê-se os seguintes versos de 102 . A coletividade se fazia presente. Também aconselhava os mais novos. se contrapunha à possibilidade do óbito súbito.Era. realizadas com maior ou menor pressa dependendo do caso. A casa era aberta a visitações da comunidade. uma responsabilidade familiar: Nas sociedades pré-industriais. Família. O ideal de uma morte aceita e esperada. no leito. a pior maneira de expirar. no seio da família. serviçais. sobretudo. os medievos entregava-se à sorte do destino comunal. quem lida com os que vão envelhecendo e com os moribundos é a família. Os moribundos e os mortos não eram tão flagrantemente isolados da vida comunitária. O sujeito nunca era abandonado e portanto não se percebia sozinho nem no momento derradeiro: nascia e expirava sabendo ser parte de um todo. De preferência na posição típica de uma morte que é esperada: deitado. fazendo da morte um evento público. um acontecimento solidário.3 Todos se reuniam em torno daquele que perecia.

uma morte-passagem que. De maneira cerimoniosa e emotiva. era pouco importante: sua função era apenas servir de abrigo para a intervenção sobrenatural mais preciosa. ou por um corpo morto seco. sem ser subjetividade. Por isso o corpo. As danças macabras punham em cena o invencível esqueleto que arrasta à força para sua ronda fúnebre pessoas de qualquer idade e de qualquer condição. apesar de ser artesanato de deus. sobretudo. pela caveira. Os medievos compartilhavam uma percepção do corpo intrinsecamente ligada à esfera religiosa. o 103 . Criação divina. extremamente segmentado. na qual a Morte. tratava de levar consigo todo tipo de pessoa. dissolvia as hierarquias e denunciava a crise do poder monárquico. mas sem o caráter dramático ou gestos de desespero. a idéia de uma morte domada. do mais rico ao mais pobre. sem tentativas em retardar nenhuma de suas etapas. aquilo que se deve.6 A Morte derrubava a fronteira entre os estamentos. pois. as quais eram cumpridas com lucidez: era o destino natural de todos os homens. do príncipe ao moleiro. / Cada um tenha.um famoso poema medieval: “É preciso que se pague / Enquanto se pode. a matéria corpórea servia para proteger a essência humana. do cavaleiro ao monge. Admitia-se o falecimento com tranqüilidade. O óbito era mais tranquilamente aceito e seus rituais cumpridos com certa naturalidade e simplicidade.”4 A experiência medieval sobre o fim da vida pressupunha. piedade de si / E siga logo esta via / Para evitar a morte súbita. durante a medievalidade. por pressupor uma transição. representada pelo esqueleto. comprobatório da própria existência da divindade – ainda que não fosse a do cristianismo. era um princípio de vida. o sopro de deus: o corpo era habitado por uma alma que.5 Ou ainda. a substância que distinguia o homem das outras criaturas. Ilustra essa idéia a iconografia das chamadas Danças Macabras. delineava-se como um evento esperançosamente necessário.

esse homem se submetia ao ethos coletivo característico do feudalismo medieval. Esse tipo de comportamento caracterizou a maior parte da população ocidental por muitos séculos. Os sentimentos de amizade. sendo sua alma uma designação divina. Não só na vida.espírito. Ambos eram partes do mesmo projeto divino: o ser humano era a fusão de corpo e alma. a qual partilhava com todos os seus comuns. fim absoluto. a parcela abstrata. Por isso a morte não era sentida como a perda. o momento do falecimento era também o da radical separação entre corpo e alma. característico da cavalaria. à Igreja e aos senhores de terras. que não era então aniquilada. a perda de algo que realmente lhes pertencesse. Nada se fazia efetivamente para si. mas pelo contrário. Notadamente. Por esse motivo entende-se porque as representações imagéticas do morto traziam sua alma com as características físicas do corpo. inclusive à rede social baseada nos juramentos de fidelidade. Fiel a deus. Ainda assim. mas também perante a morte. Na sociedade estamental. já que essa consciência de si não ocorria. Segundo a Igreja. salva. portanto. que se pensava enquanto grupo e não como sujeito particular. Sem possuir uma subjetividade própria.7 Essa compreensão passiva era somada a uma confiança irrestrita na doutrina cristã da imortalidade da alma. sua aceitação relacionava-se com a concepção do destino comum. prevalecia sobre a material. pressuposto 104 . e lealdade. durante todo o período moderno. * A subserviência ao senhor da terra era análoga àquela para com o “Senhor”. construídos por um deus. mas para eles. aceitava sua condição mundana de subordinação. um homem não era nada sem a teia de relações na qual estava inserido. O fim da existência terrestre não significava. mística. e mesmo após a Idade Média.

o cristianismo se configurou como uma poderosa arma ideológica de controle do campesinato ao ser adotado como religião oficial das monarquias absolutistas dos séculos modernos). no qual a morte não existe. herdeiros – dos primeiros pecadores. linhagem – e por isso. em si.dos laços de vassalagem. Não negar a morte. ele traduzirá o desejo obscuro de talvez voltar ao período pré-sexual da vida. O medo da morte na medievalidade se traduziria. simplesmente abandonavam-se diante de um fato que sabia ser coletivo. Os homens. como um temor da dúvida em não se saber merecedor da recompensa do que pelo pavor do óbito propriamente dito. Por isso a familiaridade com a morte e com os mortos: não se buscava afastar-se deles assim como não se evitava o próprio fim. pregando a abstinência e o celibato. mas usar o tempo da vida para ser salvo no Além: o sofrimento na terra justificaria a felicidade eterna (não por acaso. deveria ao menos lutar por sua redenção.”9 Era em torno do tema da morte que a doutrina cristã determinava seus dogmas. a pena para o pecado original. * 105 . sendo a vida terrestre nada mais do que um prelúdio da verdadeira vida. A própria condição mortal da humanidade era. Todas as restrições impostas vinham acompanhadas do castigo fatal se burladas. Toda uma tendência anti-sexual vai se expandir com o cristianismo. A culpabilidade cristã perseguia todo homem e mulher não somente porque eram frutos do ato pecaminoso por excelência como também por serem todos. davam coesão aos grupos. a “vida eterna”. portanto.10 Se já estava condenado ao castigo da mortalidade. antes.8 Versos escritos no século XII diziam: “A vida sempre tem um fim / Querer prolongá-la é inútil / Porque a morte a encurtará. da qual ninguém escapa: quem nasce já está condenado.

que não eram em nenhum momento alienadas dos eventos. faziam a morte próxima de todos e cotidiana. A alma. de maneira muito simples. para que não se zangassem. o cadáver. 11 Essa coexistência entre vivos e mortos no plano terrestre justificaria o temor pelas almas em danação. se a morte em si não indicava o fim absoluto. Porque o defunto permanecia dessa maneira ainda presente.O quarto do agonizante aberto à visitação e os rituais do cortejo fúnebre e do sepultamento. Mesmo para as crianças. o fantasma poderia querer voltar aos lugares de sua existência material. a presença dos espíritos no imaginário medieval tornava a fronteira entre vida e morte bastante oscilante. o resíduo corporal não tinha importância depois que o espírito o abandonasse. apesar dessa intimidade. para resolver assuntos pendentes ou simplesmente assombrar os vivos. Curiosamente. o homem medieval temia o morto. Não o corpo sem vida. assim como o medo de não se cumprir todas as etapas do pré-morte e se tornar o próprio espírito atormentado. apesar do caráter espectral. para a grande maioria da população. Uma espécie de duplo morto-vivo. que voltam ao invés de viverem na paz eterna. aquela que pena – e que poderia querer retornar. acabou sendo incorporada pelo cristianismo. além de serem ainda cerimônias laicas. cuja presença era inquestionavelmente efetiva. Era preciso temer os mortos que são muito mais poderosos que os vivos: eles detém o grande mistério da existência. de preferência. Eram etapas realizadas. O terror pela alma condenada – penada. com as características do corpo. acessíveis a qualquer um independente de quem fosse o morto. Meros invólucros que 106 . honrado-se suas memórias. possuía a fisionomia do morto e. o que acarretou na disseminação da prática da oração para as almas. mas certa reapresentação do defunto que se manifestava espiritualmente. Se a grande preocupação do morrer é a salvação metafísica. A crença nas almas. legitima a preocupação em sempre lembrar-se dos que se forma nas orações e nas missas. o saber do pós-morte.

aquele que realmente interessava. camponesas. pública e comunal. Santos e.continham a alma. Pelo menos numa pequena parcela da população formada por homens letrados e cultos das classes superiores. de consciência individualista. certamente. retiravam-se os ossos e reutilizava-se o espaço. Não causa espanto que os cemitérios . A grande 107 . envoltos em humildes sudários. Contudo.não só na Idade Média. * Enquanto o imaginário popular continuaria impregnado pela doutrina cristão da imortalidade da alma durante os séculos seguintes. durante os séculos da Renascença. passavam a conduzir suas próprias decisões. Foram esses os responsáveis por desenvolver um tipo ainda simples e inicial. na etapa final da Idade Média algo de qualitativamente novo começava a ocorrer. abria-se outra mais antiga. Ocupavam-se com a cultura e as ciências e. dispunham do espaço interno das Igrejas e eram enterrados sob as lajes. por não mais se adequarem à vida estática ou a laços de fidelidade senhorial. A morte continuava presente na vida medieval. de fato o destino e a localização dos corpos não importavam. largas e profundas. públicos. esses homens seriam os condutores do salto técnico e artístico ocorrido no período. mas extremamente importante. Somente os membros da elite clerical e cavalheiresca ou poderosos senhores de terras. fossem constituídos de inúmeras fossas coletivas. seriam descartados no momento da passagem para um outro plano. localizados nos terrenos ao redor das Igrejas. destinadas a receberem os corpos das gentes simples. mas sim que ficassem o mais próximo possível dos locais santos. tanto no espaço fechado do templo quanto nas fossas que recebiam os amontoados de corpos. Quando uma delas se enchia. que. mas durante o período moderno -.

responsável pelo próprio destino e não mais cegamente submisso a uma esfera metafísica abstrata ou ao pertencimento rígido à uma coletividade. O Renascimento não descartou a presença da alma. que se transforma numa personagem esquelética. baseada na servidão. pertencente a cada indivíduo. A dinâmica. seria possível pensar no conceito de indivíduo como o ser humano em divisão. essa nova classe de trabalhadores livres. como matéria corpórea separada do espírito. É altamente significativa a constatação de que a personificação da Morte. considerada ainda inexplicável em sua totalidade ou mesmo divina.circulação de mercadorias entre as grandes cidades comerciais trazia consigo uma incrível circulação de idéias. cujo sustento vinha de seu próprio esforço e que encontrava-se fora dos padrões fixados pela hierarquia social ligada ao campo. Passam a temer não 108 .13 cindido ao se dar conta da dualidade do ser. caracteristicamente humana. ou seja. morrer deixa de ser considerado parte desse destino comum e se transforma em um evento particular. carregando uma foice. O mundo material separa-se da divindade no momento em que esse homem iniciou um processo de autoconsciência de si. date desses mesmos séculos XII e XIII. das quais foram esses sujeitos os principais porta-vozes. qualquer seja ela. de discussões.12 A concepção de indivíduo apresenta essa possibilidade de se pensar como ser único. Se para esses homens a sociedade não mais se dividia em ordens rígidas e estáveis na qual os grupos compartilham dos mesmos destinos. o movimento – de idéias. de artigos – rompia gradualmente a estabilidade dos estamentos.14 A conseqüência direta da tomada de consciência da subjetividade foi uma crescente preocupação com o próprio aniquilamento. porém já com uma essência racional. Paradoxalmente. Influenciaram ideologicamente toda uma proto-burguesia que se formava nas cidades desde a Baixa Idade Média. sem vínculos com a terra. período do início do processo de construção da consciência de si. e deixa de ser somente um evento para ser alguém.

O caráter original comum a todas as suas manifestações. É muito significativo que nesses séculos da Renascença apareçam nas artes tantas representações da morte como o corpo em decomposição.o fim da vida em si. o que se passa debaixo da terra e que é. Esse resíduo. mas também pelo destino do corpo sem vida. antes de 109 . de fé próspera nas ciências e nas técnicas. O enterro evitava o apodrecimento aparente e também. Considerava-se a podridão a miséria do corpo. em larga medida. cada vez mais questionavam os dogmas da cristandade. como ocorrerá e o que virá após. entraria em irreversível destruição. na maioria das vezes. que continha a existência propriamente dita. a devastação causada pelas grandes epidemias entrava no imaginário coletivo pungentemente. portanto. Isso significa que se quer mostrar o que não se vê. Não é o homem em vias de morrer que atrai a criação das imagens do século XV. escondido dos vivos. sustentava a crença da ressurreição da alma. a decomposição. A morte possui esse lado que inviabilizava uma sua concepção plenamente positiva: a imagem do corpo putrefato. até como conseqüência disso. a manutenção do modelo de “morte desejada”. nojento e detestável.15 Esses homens. inevitavelmente seria desprezado pelos vivos: enterrado.17 * Não por acaso. iconográficas e literárias. a corrupção derradeira. sendo. mas um processo de morte: o que se perde e se deixa. O fenômeno endêmico que ficou conhecido como Peste Negra incluiu a peste bubônica e outras epidemias que a seguiram e foi. 16 Os eventos pós-óbito são também perturbadores não apenas pelas dúvidas espirituais. Isso talvez explique a proibição por parte da Igreja em se abrirem os cadáveres: a não-visão da putrescência era.

ao contrário. nada mais distinguia o fim dos homens do dos animais. paralelamente aos refluxos das epidemias. O tempo da peste é o da solidão forçada. um episódio de pânico coletivo.) desse modo. dizimou 1/3 da população européia. como cães ou carneiros.. os próximos se afastam. propagavam-se as imagens trágicas e mantinha-se um estado permanente de medo que acometia todas as ordens sociais – justamente o tema central das Danças. Durante as grandes contaminações. eram acumulados desordenadamente. Seu surto inicial ocorreu em 1348 e entre junho e setembro desse ano.) os padres dão absolvição de longe (.) abandonados em sua agonia. mudava radicalmente de perspectiva: Em períodos de epidemia. de hábito. os cadáveres amontoavam-se por todos os lados e não havia mais onde enterrá-los. Uma profunda mudança nos sentimentos da morte ocorre em decorrência da Peste Negra..18. em fossas imediatamente recobertas de cal viva. é uma tragédia o abandono dos ritos apaziguadores que em tempo normal acompanham a partida desse mundo.. que duraram até meados do século XVIII. os médicos não tocam os contagiosos ou fazem-no o menos possível ou com uma varinha. uma vez mortos.. os contagiados de qualquer cidade da Europa entre os séculos XIV e XVIII. Não é uma coincidência que a iconoclastia das Danças Macabras tenha surgido exatamente nesse período e tenha se mantido recorrente nos séculos seguintes..mais nada. 20 110 . As cidades atacadas não absorviam seus mortos. que fora até então vivenciada em grupo. as relações humanas são totalmente conturbadas: é no momento em que a necessidade dos outros se faz mais imperiosa – e em que. Para os vivos. eles se encarregavam dos cuidados – que agora abandonam os doentes. os cirurgiões só operam com luvas (.19 Nas populações atingidas. A morte.. (.

A descrição de Bocaccio fornece o quadro abjeto: apareciam. Os seus pares levavam-no aos ombros. com pompa fúnebre. parentes e vizinhas na residência do que morria. Em seguida.. a situação era muito mais precária: Tal gente era retida em suas casas (. manchados de púrpura e mal-cheirosos piorava ainda mais a ante-visão de óbito repugnante. de acordo com a categoria do morto. os que sobreviviam ficavam doentes aos milhares. algumas inchações.. quando principiou a crescer o furor da peste. as casas estavam cheias. ou na virilha ou nas axilas. Giovanni Bocaccio destacou esse súbito deslocamento dos eventos fúnebres no início de seu Decameron. morriam todos quase sem redenção. outras menos.) ficando próximos dos doentes e dos mortos. Dessas duas partes do corpo logo o tal tumor mortal passava a repontar e a surgir em toda parte. no começo. Tais manchas estavam nos braços. elas choravam.21 O abandono dos ritos coletivos e a solidão involuntária do doente terminal configuravam uma nova e terrível experiência de morte.Testemunha do início da mortífera pestilência em Florença. No caso das classes médias e pobres. o falecido era conduzido à igreja que escolhera momentos antes de morrer. De outro lado. vizinhos e inúmeros cidadãos reuniam-se com seus achegados. Muitos eram os que findavam seus dias na rua. de dia ou de noite. como não eram medicados nem recebiam ajuda de espécie alguma. em companhia das mulheres mais aparentadas do defunto. Desse modo. Tais cerimônias quase se extinguiram. chamava-as o populacho de bubões. como um ovo. de velas e cantos. no todo ou parcialmente. tanto em homens como nas mulheres. Algumas destas cresciam como maçãs. A presença dos corpos pútridos. cresciam umas mais. o aspecto da doença começa a alterar-se e colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. por dia. apresentava-se o padre. nas coxas e em outro lugares do 111 . Ali. diante da casa do morto. outras. escrito em 1350: Costumava-se reunirem-se as mulheres. De pessoas assim que faleciam em todas as partes.

às vezes por desconhecidos: um único modo de proceder era praticado pelos vizinhos (. sobretudo na parte da manhã. quanto aos homens que morriam. até então cerimoniosamente velado. das doenças e dos remédios.. segurança e identidade. Era como se todo o ar estivesse tomado e infectado pelo odor nauseabundo dos corpos mortos. Escasseavam-se os caixões. dessacralizada. do camponês ao nobre. anônima e repulsiva. sendo subitamente privada das liturgias seculares que até ali lhe conferiam nas provações dignidade. tornava-se um estorvo grotesco e nauseante. Quando a morte é a esse ponto desmascarada.. após o terceiro dia do surgimento dos sinais. a esse ponto coletiva. que deve ser apressadamente despachado. os cães devoram os cadaveres: A tal estado chegou a coisa que não se tratava. esqueletos – espécie de exército da Morte – retiram os corpos desordenadamente espalhados pelo chão da cidade. No Triunfo da morte (1562). colocavam os corpos à frente da porta da casa. vendo-os. uma população inteira corre o risco do desespero ou da loucura. adotavam medidas para o preparo e remessa dos caixões. as valas transbordavam. de Brueghel.. faleciam. onde.. O caos da passagem arrasadora da doença é mostrado de maneira estupefante na obra: mortos e vivos confundem-se no mar de gente consumida pela Peste. eram vistos em quantidade inumerável pelos que perambulavam pela cidade e que.24 * O fato dos homens dos quinhentos ou seiscentos preocuparem-se cada vez mais com o fim de seus corpos explicita o início de um processo de identificação desses 112 . 22 O defunto. com mais carinho do que se trata as cabras.corpo.(.) retiravam das residências os cadáveres. “indecente”. 23 O espetáculo do terror era próximo a qualquer homem.) quase todos.

dependendo da condição social do morto. tornou-se. existe aí o início de um sentimento de presença do indivíduo através de seu corpo. clerical. eram reservadas sepulturas visíveis e inscrições detalhadas sobre suas vidas. O corpo da medievalidade. 113 . data de falecimento e às vezes seu ofício. Causava horror a decomposição da carne . os quais podiam ser cumpridos em total indigência ou com toda a pompa. Essas inscrições funerárias tinham. essas práticas que visavam evitar o anonimato demonstram uma gradual. em larga medida. Essa relação pode ser apontada pela adoção da prática da presença do cadáver no altar da Igreja para as primeiras missas do luto – quando se tratava da morte de alguma figura ilustre.era a comprovação da fragilidade da condição humana. dentro das Igrejas ou em terrenos pertencentes a ela. desprezado e desimportante. Elas continuaram sendo usadas até o século XVIII. mas nas paredes das Igrejas tornou-se comum a aplicação de pequenas plaquetas contendo informações simples sobre cada defunto – nome. que deixa de ser representado somente por sua alma. o objetivo de preservar de alguma maneira a memória do morto. Quer dizer. ainda que morto. pertencente a uma sociedade ainda altamente hierarquizada.indivíduos com sua matéria. valorização do corpo enquanto um traço do indivíduo. A importância do corpo material começa a aparecer nesse momento. sobretudo. mas crescente. À elite. que além de conservar a identidade do enterrado propunham uma nova idéia a respeito do anonimato das fossas comunais. mas não o local do enterro. logicamente. 25 Essas diferenças entre pobres e ricos eram também presentes nos cortejos e nos sepultamentos. política e econômica. No início do período moderno. Contudo. a presença do morto. difundiu-se a prática das inscrições funerárias.

ou seja. que são. pessoais. um sentimento cada vez maior do homem em relação a sua própria existência tornou a morte um evento pessoal. A mortepassagem. ao que experimentamos e conhecemos concretamente. A conseqüência natural dessa corporificação da morte – antes relativa ao espírito. Morrer não causava medo. A impossibilidade da reversibilidade traduz-se em sentimento de fracasso perante a vida. portanto. mesmo morto. e por isso. O homem. mais intolerável.* Dessa imagem do sujeito identificado pelo seu corpo. imortal – foi um profundo apego às coisas è as pessoas. mais absoluta. o que se traduziu nessa afeição por tudo que fez parte de sua vida. passa a temer a efemeridade da vida. antes de temer seu fim. objetiva. No momento histórico em que foram lançadas as bases da civilização moderna. Trazia à tona fracassos individuais dos homens que cada vez mais dependiam somente de si mesmos. ao rever sua vida. Dar-se conta do próprio fim confundiu-se com o medo em ser esquecido. floresce o reconhecimento da fragilidade da condição humana. retirando-a de seu caráter comunal. cuja essência era a esperança de imortalidade. como todas suas decisões. condenada à carne que se decompõe. dava lugar gradativamente para uma morte-fim. que não é inerente à condição humana: não existia até a Baixa Idade Média. mas se tornava um acontecimento traumático pelas perdas que pressupunha. Porque a morte mudou sua essência – de destino de todos para evento particular – tornou-se mais dramática para cada indivíduo. E. * 114 . o sujeito se apercebe de seus erros e fracassos.

O Humanismo renascentista promoveu a dessacralização do corpo. carruagens.somente ao espírito era promulgado. objetivavam imortalizar esses indivíduos enquanto imagem – afinal. O Além era organizado como a estrutura absolutista. A morte barroca26 era a da paixão pelo protocolo. puseram fim sua 115 . Entre os séculos XVII e XVIII. tornado pura materialidade. caracterizadas por uma incrível mobilização cuja ênfase era as manifestações exteriores da fé. flores. carpideiras. conferiam a pompa proporcional ao prestígio do morto. a fim de descobrirem suas partes e seu funcionamento. Esses rituais faustosos.A sociedade do período moderno foi aquela cujas crenças transitaram entre as doutrinas cristãs (ainda muito marcantes na mentalidade popular) e as descobertas científicas e técnicas de seu tempo. os séculos modernos foram o da extrema importância da aparência. Entretanto. elementos gloriosos como cavalos. multidões extenuadas. que se debruçaram as ciências durante o período moderno. o cadáver virou alvo principal da curiosidade médica. outra vertente ideológica caminhava na direção oposta aos rituais cristãos e aristocráticos da morte. marcando a distancia entre as cortes e o povo. a população simples dos campos e das cidades assiste aos cerimoniais fúnebres do período barroco. 27 Ao encerrarem a morte na esfera médico-científica. E foi nesse corpo vulgarizado. mesmo que parcialmente. do apego ao evento da morte. As longas procissões. realizados quando do óbito de reis e membros da corte. Por um lado. um enorme fascínio pelo funcionamento da vida se converte numa obsessão científica pelo corpo morto. o princípio mantinha-se no espetáculo dos funerais. essas formalidades elitistas na morte legitimavam as desigualdades sociais na vida. Esmiuçaram o corpo numa verdadeira devassa. Se glória era um atributo que deveria ser constantemente mostrado. percebido como pura matéria e não mais como criação divina . uma essência sobrenatural.

Possivelmente a mais famosa delas seja a Aula de anatomia do Doutor Nicolas Tulp de Rembrandt. Basta acordar a razão e os monstros do medo e do pavor da morte se dissiparão. radicaliza Descartes30 afirmando que também o pensamento funciona mecanicamente. fragmentado: o homem passou a ser concebido como máquina. ao expressar o modelo do homem-máquina. separada a pele e os órgãos. das monarquias. o tempo do medo. músculos e fluídos. A composição impressiona não apenas pelo interesse ávido de um grupo de homens sobre um cadáver. libertavam a todos das mentiras religiosas. que o imaginário artístico moderno foi profundamente invadido por inúmeras aulas de anatomia. atentando somente à matéria. La Mettrie. A grande revolução na concepção dos corpos veio então no Iluminismo.familiaridade aos homens comuns e esvaziaram-na de seus significados espirituais. Todas as peças reunidas. Não foi à toa. O desenvolvimento das técnicas mecânicas e de autômatos ofereceram a metáfora imediata à esse corpo desmontado. do terror da morte-castigo e de toda a rede exploratória da Igreja – como a venda de indulgências e de missas para as almas.28 Se a alma identificava a subjetividade. mas pela disposição dos personagens. gera monstros. mas também o conceito de indivíduo encontra-se ali em sua plenitude. O sono da razão. cada um com suas particularidades. os dízimos . tendões e ossos: o que se têm nada mais é do que uma série de componentes de matéria orgânica. não existe um espírito 116 . Racionalizando a morte. feições e olhares.e por extensão. como dizia a célebre gravura de Goya. os corpos eram meros objetos de estudo não pessoas. colocadas em ordem produzem um corpo vivo. que tinham no discurso divino seu alicerce hierárquico. Não apenas o corpo morto e sem alma.29 Aberto o cadáver. de 1632. do fanatismo e da superstição estava encerrado. logo. Para os filósofos das Luzes. portanto.

misteriosamente metafísico. O Iluminismo tenta entender o homem – em suas relações sociais. seria substituída pela razão. devendo ser satisfeito em nome na liberdade e da felicidade egoísta do corpo. apenas o automatismo humano da capacidade de raciocínio. por outro. Passou-se da idéia do corpo-invólucro da alma para a do corpo que é pura matéria e cujo funcionamento é pura mecânica. pela negação do divino e exaltação da racionalidade. Se o Renascimento dessacralizou o corpo. La Mettrie propõe o corpo como centro do debate médico e social. A morte. efeito da mecânica física. a linhagem rousseauniana pressupunha a ação humana como influenciada pelo meio. comportamentos e desejos são todos manipulados e limitados pela racionalidade. Por um lado. o Iluminismo dessacraliza irreversivelmente o homem em sua totalidade existencial.32 * Era extremamente emergencial pensar a existência humana após dois séculos de corpos vasculhados e despedaçados. O corpo então passa a ser a pedra de toque da experiência humana e o centro das preocupações científicas. na qual o desejo é pulsão humana. 117 . de processos físico-químicos. resultante ela mesma. O século XIX inicia-se então pela consciência do corpo material como única realidade humana – a razão. A idéia de alma. tanto na sensibilidade literária que pensa o corpo-máquina31 quanto na filosofia erótica. já que é ele o responsável por tudo o que se faz e se deseja. se tornou o atributo humano mais importante já que controlava o corpo: seus instintos. com todas as suas implicações sobrenaturais. incluindo-se aí a capacidade de pensar. cientificizada. com o meio e consigo mesmo. invade o imaginário coletivo.

esse corpo deve ser consertado para continuar útil. Porém. É por ele que expressa sua virtude. é tornado herança aos vivos – sem utilidade produtiva. sobretudo. o patrimônio material primeiro de toda pessoa. um defeito. numa sociedade materialista. na higiene). necessários reparos e consertos. Morto. vem por intermédio do corpo. Doente. com a perda da alma pela dessacralização do homem. Considerava-se a doença uma alteração da máquina. O corpo era então. ao mesmo tempo em que ocorre uma supervalorização do corpo (na saúde.33 * A ascensão da burguesia impõe a mentalidade da classe que preserva o corpo. Sendo seu bem maior. no trabalho industrial). promovida a nova divindade. O bem-estar físico era garantia de uma vida promissora já que o corpo passara a ser o instrumentalizado e mercantilizado. paradoxalmente acontece sua banalização (no mercado. Por um lado. mecânico. que não só trouxe o cadáver cotidianamente à vista como movimentou todo um novo imaginário popular do corpo cindido pela perda da cabeça. através de 118 . à possibilidade de se alcançar a felicidade que.Esse momento seguinte às Luzes foi o de uma verdadeira crise desse indivíduo sem alma nem unidade. observa-se a exaltação da medicina como a grande ciência do corpo. esse corpo morto é tudo o que resta de um indivíduo. da matéria. autômato. mas com toda a carga projetiva daquele que se foi. o homem do século XIX não sabe mais o que é. torna-se coisa inoperante. Essa sensação de fragmentação fora aprofundada pela visão pública dos guilhotinados do Terror revolucionário. Assim. pois dele retira os frutos de seu trabalho. o mais precioso bem. Objeto e sujeito de análise. O saber relativo à saúde referia-se.

cujo auge atinge no século XIX. essa nova percepção traz à baila um novo protagonista dos ritos da morte: o sobrevivente. A tragicidade expressa pelas súplicas dos sobreviventes reflete não apenas a comoção da perda do ente querido. O medo pelo desaparecimento de outrem foi o estopim do fenômeno contemporâneo do culto ao morto34. Porque conserva e cuida do corpo. Se na Idade Média os mortos eram simplesmente abandonados nas fossas comunais anonimamente e. que se mantém depois da morte. uma das poucas mudanças nesse quadro foi a adoção das inscrições fúnebres – com o objetivo de salvaguardar a memória do morto e não seu local de sepultamento. a morte se torna o grande evento da vida. Além de intensificar a angústia do homem diante de seu próprio fim.feitos. mas principalmente a enorme intolerância com a morte em si. incorfomada. mesmo nos séculos seguinte. a partir do final do século XVIII a 119 . Contrapunha-se à honra aristocrática. reconhecida pela reputação. O período anterior à expiração deixa de ter qualquer caráter tranqüilo vindo a ser palco de intensa dramatização. Não mais passagem para a vida eterna. A honra era atributo de quem arrisca a própria vida . A total racionalização do corpo e do modo de pensar faz com que. só possíveis em vida.e a burguesia não o faz. o homem também muda seu olhar em relação ao corpo morto. Não mais familiar ou cotidiana. cujas representações mais patentes eram a preocupação com a sepultura e a freqüência ao cemitério. obviamente. Mudou o foco: o drama vitoriano passa a ser a morte do outro. negada. e sem a qual não valia a pena viver. pela primeira vez na sociedade ocidental. não mais possibilidades de além vida: a morte é um fim. aquele que fica e chora o morto. da dor e do sofrimento mais profundo. desenvolvendo ainda mais uma consciência individual. a morte seja entendida como uma ruptura.

conduta que conferia uma espécie de presença ao defunto. Na irrealização do enterro no terreno da casa familiar – que seria o ideal e prática da elite.35 Visitava-se o morto como se visita um parente ou um amigo. em larga medida. projetados por arquitetos para que fossem locais de passeio e visita.fixação de um local específico para o enterro do corpo tornou-se prática normativa. propriedade privada da familiar que por extensão. que tanto sofre. que fosse conservado em uma nova casa. Popularizou-se o agnosticismo e a consciência – no período moderno limitada aos homens esclarecidos – de que não havia pós-morte. o que foi uma grande inovação na época. sobremaneira. divididos em lotes. não se referia em absoluto a almas. uma sobrevida e. garantido por lei. logo os 120 . sua imortalidade. uma incapacidade dos sobreviventes em aceitarem a perda concreta do defunto: apegavam-se aos restos mortais. o principal motivo para essa nova atitude foi possibilitar a visitação ao morto. Desde então a concessão do terreno do cemitério tornou-se um tipo de patrimônio de compra. ato desconhecido até então. O túmulo tornava-se o signo da presença do indivíduo que. Era. E de fato. contudo. Esse tipo de mentalidade em nada pressupunha a idéia da imortalidade dogmática do cristianismo. Os cemitérios do século XIX deixavam de ser extensões dos terrenos da Igreja para se tornarem um espaço distinto. estava morto. só sua. Tornou-se essencial essa possibilidade do morto não ser totalmente retirado do convívio de sua família. nas quais desde então coabitam vivos e mortos. seria seu lar: sua fossa particular no cemitério. As necrópoles ocupam locais acessíveis dentro das cidades. * O apego ao corpo morto se deu durante o século mais racionalista e materialista da história até então.

121 . mas também por intermédio de uma prática altamente eloqüente nesse sentido. Prolongar a existência ao máximo possível. pois essa se referia totalmente à salvação da alma. mesmo que ela já fosse fato. Toda a devoção para com o doente transferia-se para o corpo morto quando a inevitabilidade da morte acometia. Esse comovente e exaltado culto aos mortos não tem origem cristã. sentiam o aniquilamento do outro para que esse continuasse desejando viver. burguesa e capitalista. O protagonista da dor era agora aquele que ficava e não mais o que agonizava. Negava-se. que retiram qualquer instância metafísica da realidade: sem mais valores espirituais. Preservar o que resta do ente amado é tentar apreender essa essência fugidia que nos mantêm vivos. alienando o doente de seu próprio fim: já na segunda metade do século XIX tornou-se recorrente a prática de se ocultar ao moribundo a gravidade de sua doença.homens apegavam-se ao que se têm e ao que se é: o próprio corpo material. apoderava-se do evento do outro. e popular somente no período vitoriano: a fotografia post-mortem. sofrer junto ao moribundo. E porque o corpo passa a ser a instância total da vida. então. E como num ato de negação da própria morte – com a qual perderá o controle sobre seu corpo – se apossava do corpo do outro. Os parentes poupavam o indivíduo da verdade para que não entregasse os pontos e não se fosse mais rápido. às vezes sofrer mais que ele. Essa posse ocorria de maneira direta através do vínculo com o resto corpóreo. Aos poucos. A noção oitocentista. o resto mortal indicaria ainda uma existência: a presença do indivíduo mesmo que na ausência da vida. Sua origem foi influência das ciências do positivismo racionalista e empiricista. eram as missões desse novo personagem do drama da morte. a morte. do corpo como o bem mais valioso do homem atribui a esse apego o caráter do bem material: o corpo do morto valendo-se de herança para os que ficam. o homem se apegava ao que lhe restava: a materialidade corpórea.

Canadá. por fotógrafo de nome Robson. Os pais posam com a filha morta ao centro.Foto tirada em 1888. na cidade de Petrolia. visível por detrás de seus 122 . A pose foi conseguida graças ao suporte que a segura.

indicando o tempo de falecimento e contendo algum tipo de despedida ao morto. com um vestuário muito elegante. Apesar de já estar há 9 dias morta. Fonte: http://ame2. Inscrições no papel fotográfico eram bastante comuns. Apesar da suposta vivacidade da foto.com/people. Fonte: http://www. seu estado é denunciado pela posição artificial das mãos e pelos olhos pintados nas pálpebras fechadas. a filha da senhora Jeanette Glockmeyer foi posicionada de maneira muito realista.pés.edu/projects/haunted/ISA%20index/book%20of%20the%20dead/book%20of%20the%20 dead%20photos.htm 123 .asu. postura ereta e livro nas mãos.html Todas as informações que se têm dessa fotografia são as que contam em sua moldura.petroliaheritage.

Fonte: http://billblanton. É possível somente analisar a imagem em si. pais e filhos. que posam de maneira aparentemente tranqüila ao lado dos gêmeos mortos.A maior parte das fotografias post-mortem disponíveis para pesquisa não possuem informações sobre os fotografados.com/pm. Esse tipo de imagem do morto já no caixão é muito freqüente. principalmente depois que o serviço funerário se populariza e se encarrega de arrumar o morto.htm 124 . que aqui apresenta uma família em estúdio. melhorando a sua aparência. Interessante notar que o evento da morte não era escondido ou afastado das crianças.

muitas vezes o corpo não pode ser recolocado em postura viva.php?p=118 125 . somente repousa tranquilamente. Fonte: http://www.Devido ao rigor mortis. procura-se dar a impressão de que o morto. Ainda assim.net/wordpress/wp-content/themes/sculpt/print. na verdade.101room.

htm 126 . Nesse caso. e pela imagem quase seria possível dizer que dorme. o que indica não só que a mortalidade nos primeiros meses de vida possivelmente era bastante alta como também mostra que a família fazia questão do registro do falecimento. Por conter as datas de nascimento e falecimento. às vezes o único que teriam do bebê que não vingou. a foto pode ter sido distribuída aos parentes e amigos que. uma lembrança do morto. sequer tiveram tempo hábil de conhecer a bebê. Essa tentativa de fazer o morto se passar por vivo dormindo é muito comum.com/pm. a maior parte das fotografias post-mortem disponíveis são de crianças ainda muito novas. Aliás. principalmente no caso dos bebês. é possível que a foto de Pearl tenha sido produzida como um memento mori. ou seja. Fonte: http://billblanton.A pequena Pearl foi fotografada em seu leito. eventualmente.

sentada. Possivelmente essa foto não foi tirada imediatamente após o falecimento. assim como a coloração aplicada a posteriori. que faleceu com a aparência tranqüila do bebê que dorme. visto que já é perceptível alguns primeiros sinais da decomposição do corpo. a posição realista. “segurando” um pequeno objeto na mão direita. Mesmo assim.Essa pequena já não teve a mesma sorte de Pearl.asu.edu/projects/haunted/ISA%20index/book%20of%20the%20dead/book%20of%20the%20 dead%20photos%20page2. foi tentativa de tornar a foto mais agradável.htm 127 . Fonte: http://ame2.

possivelmente. Em seus primeiros anos de existência. a câmara pode assassinar – o disparo (shot). transforma-os em pseudopresenças: memórias materiais da transitoriedade da vida. cabalmente vindoura pelo curso da história. o sujeito torna-se objeto da foto: pura imagem. Tornou-se comum o retrato individual ou de família. eram poses tesas. passou também a ser registrada. como cadáveres. rostos graves e sérios. algo que já foi. a foto faz da imagem um prolongamento do sujeito: esse é. fotografar alguém é. O resultado. Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada38 e.36 Com o barateamento da técnica fotográfica. então. do instante fotográfico uma microexperiência de morte.Nas décadas seguintes ao seu aparecimento. ao se tornar um acontecimento marcante no núcleo familiar. a fotografia se popularizou rapidamente. em espectro. cometer um homicídio no qual. em larga medida. Essa transmutação do indivíduo em imagem. eram alvos vivos da ação fotográfica. a fotografia requeria certo tempo para a captação da imagem. desapropriado de si mesmo. Momentaneamente embalsamado. no caso dos indivíduos tornados registros. A fotografia postmortem foi uma prática comum do período vitoriano. seu atributo mais instigante. no extremo da metáfora. alimentada pelo apego ao morto e o desejo de registrar seu último momento de convívio – a derradeira imagem do indivíduo no mundo. Estáticos. fazendo com que os fotografados permanecessem imóveis durante alguns segundos. em 1839. e ainda ser próxima e domiciliar. Assim sendo. Esse momento de rigidez era enfim capturado e eternizado. ou ainda de algum acontecimento importante. tentativas de amenizar o sofrimento causado com a futura ausência. mesmo a classe média e operária buscava em algum momento da vida o registro de sua imagem. muitas vezes. A morte. faz. é o segundo fatal da realização da foto.37 Ao mesmo tempo em que eterniza um momento fugidio. posturas incômodas. 128 .

Esse é o grande paradoxo – e simultaneamente o grande fascínio – que se têm diante do retrato post-mortem. salvo quando se fotografam cadáveres. Anima o morto. em pose sentada. de certa maneira. O registro post-mortem era feito nos primeiros dias do luto. a fotografia certifica que o cadáver está vivo enquanto cadáver: é a imagem viva de uma coisa morta.Apesar de construir um vínculo entre passado e presente. a presença de um objeto registrado é assim como a vida de um indivíduo que foi retratado: jamais é metafórica. com o morto acontece o contrário: ela ressuscita fugazmente aquilo que é permanentemente morto. Se a fotografia torna morto o vivo – agora um espectro. com objetos em mãos. deitava-se placidamente o corpo. para que os sinais iniciais de decomposição não se tornassem visíveis. A imagem do corpo amado é eternizada e ele é tornado imortal. Seu aspecto mais intrigante era a constante tentativa em se obter uma imagem viva do finado. Sua 129 .39 Se a foto do vivo busca a permanência do fugidio (a própria vida). Era feito em casa ou em estúdio. Em essência. mas antes a negação de sua morte. arranjando-o tal que parecesse descansar ou dormir. a foto é por definição o registro de um instante que nunca mais se repetirá existencialmente. Para tal. era ajeitado de maneira realista. fazendo-o forçosamente posar – como vivo. Se o momento da fotografia é um momento de morte. Assim. preferencialmente o mais rápido possível. mesmo já morto. uma lembrança do falecido. desapropriado de sua imagem – ocorre o oposto ao se retratar um defunto. fantasma de si mesmo. a fotografia post-mortem não seria. então. Vestia-se e maquiava-se o cadáver para que tivesse uma aparência agradável e realista. Na foto. porque eterno. às vezes mesmo em pé. Quando o rigor mortis ou a causa mortis tornavam impossíveis esses estratagemas. a câmera proporciona uma realidade manipulável – possibilidade de negar a continuidade do tempo.

Projeções silenciosas de ausências. O advento da fotografia e sua popularização estão intimamente relacionados à consciência individual e à crise da morte no século XIX. fato. Busca-se dramaticamente fugir da platitude da vida apegando-se apaixonadamente ao pouco que resta: ao corpo. qualquer sentido.mensagem não é mostrar o morto. Intransponível. os que se foram nunca se vão de fato. É sua tentativa desesperada de imobilizar o tempo e não permitir sua passagem: burlar a seqüência histórica reapresentando um momento de vida forjado. falsificações da verdade. como um duplo vivo de um original morto. Assim. Imortalizar o morto é sua última negação. incluiu-se nessa idéia a própria existência: ter um corpo resulta em ser vivo. Por isso a necessidade em dar vida à pose. Permanecem como iconografia utopicamente animada: mumificados. No período no qual o ser baseava-se no ter. morrer deixa de ter qualquer explicação ou significado maior e a vida. Ao vincular o passado com o presente. simplesmente. O retratismo post-mortem revela a angústia do homem vitoriano diante do fim. vivo. à sua imagem derradeira ainda que na morte. Na sociedade que afasta a esfera mítica. com o horror trágico do óbito: a evidência de que é. reter o corpo morto. possuir sua imagem fotográfica é manter o indivíduo morto. Depara-se então. 130 . mas provar que esteve vivo até aquele momento. inefável.

A câmara clara: notas sobre a fotografia. Tradução: Maria Lúcia Machado. 1971. Os versos da morte. MORAES. Georges. 2006. ano 2000: na pista de nossos medos. Lições de Sade. 2001. Ensaios sobre a felicidade libertina. Tradução: Julio Castañon Guimarães. 2003. Giovanni. Da Idade Média aos nossos dias. Tradução: Priscila Viana de Siqueira. Phillipe. BARTHES. São Paulo: Editora Abril. Eliane Robert. Imaginário. 1987. Tradução: Torrieri Guimarães. Discurso do método. O homem e a morte. 2001. Tradução: Cleone Rodrigues. Roland. 1300-1800: uma cidade sitiada. DUBY. MORIN. Tradução: Heitor Megale. Col. 1984. A solidão dos moribundos/Envelhecer e morrer. DELUMEAU. Os Imortais da Literatura Universal. São Paulo: Nova Cultural. São Paulo: Companhia das Letras. Hálinand. São Paulo: Ed. Tradução: J. 1997. Coleção Os Pensadores. Tradução: Plínio Dentzien. São Paulo: Iluminuras.Bibliografia ARIÈS. René. Rio de Janeiro: Ediouro. Guisnburg e Bento Prado Junior. Tradução: Eugenio Sila e Maria Regina Osório. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1999. 1996. Jean. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. DESCARTES. Edgar. Norbert. História da morte no Ocidente. FROIDMONT. 131 . ELIAS. BOCACCIO. Decamerão. História do medo no Ocidente. Rio de Janeiro: Imago. São Paulo: Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Ano 1000.

101room.htm http://ame2.net/wordpress/wp-content/themes/sculpt/print.de/fixingid/mementomori.pdf http://xroads. O homem-máquina. Duby é herdeiro direto da chamada Escola dos Annales. 2003. a morte toma a aparência da estranha personagem armada ora com uma clava.com/people. A história dos homens no espelho da morte. São Paulo: Ed. o amálgama da História.html http://www. juntas. Página 122.anamorfose. Ano 1000. que. ora com uma 132 . medievalista francês.virginia. do monge francês Helinánd de Froidmont.edu/projects/haunted/ http://www. Páginas 84-7. A morte na Idade Média.edu/~ma04/hess/Emmeline/opening. Adauto (org).) 2 Idem. A ciência manipula o corpo.html http://www. em igual importância. Sites: http://www.asu.Para essa corrente. A esse texto é atribuída a primeira imagem da Morte personificada.NOVAES. Susan.tu-berlin. que ficou conhecida como História das mentalidades. In: BRAET. pela primeira vez na literatura. página 74. é em Os versos da morte que. 4 Os versos foram retirados de um poema do século XII. Envelhecer e morrer.ztg. São Paulo: companhia das Letras. em contraposição à historiografia tradicional que limita seus estudos à registros oficiais e dados factuais prioriza o estudo de sistemas de valores e suas mudanças no decorrer do tempo e das diferentes regiões. (DUBY. São Paulo: Companhia das Letras. Herman e VERBEKE.php?p=118 Notas 1 A citação é de Georges Duby. responsável pela Apresentação da tradução em português. idéias e estruturas sociais fazem. Werner (orgs. Segundo Heitor Megale. ano 2000. 2004.petroliaheritage.). SONTAG. 1996. Tradução: Rubens Figueiredo. VOVELLE. Sobre a fotografia. Michel.USP.be/postmortem. 3 ELIAS.

) 7 Fosse um grande cavaleiro como Guilherme Marechal. Tradução: Betânia Amoroso.) Domenico Scandella. historiador italiano. O queijo e os vermes. Morador do Friuli. Aceita a morte e espera. entra para uma Ordem Religiosa para assegurar seu destino eterno. Não posso me defender da morte. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Menocchio sabia ler e escrever e teve contado com textos que revolucionaram seu modo de pensar cristão. Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo. História do medo no Ocidente. Suas últimas palavras. e acredita que o Inferno era somente uma de suas mentiras. beijavam apaixonadamente o 133 . 1984. invadiu o imaginário coletivo entre 1150 e 1250. foi contada pelo medievalista francês George Duby. pois tentava disseminar suas idéia na vila em que morava. São Paulo: Companhia das Letras. Sua morte é a do tipo “clássica” do período: ele pressente seu fim. diferente de qualquer morador comum dos vilarejos italianos durante a Renascença. fosse o simples (e ao mesmo tempo complexo) moleiro Menocchio. em suas múltiplas variações. O autor vai além. o “Menocchio”. ditas à família e aos companheiros da cavalaria: “Estou morrendo. (DUBY. e passou a desejar a morte após ser submetido às torturas. Página 85. quando seus próximos exprimiam toda a dor da perda: Os assistentes rasgavam suas roupas. esfolavam as faces. Tradução de Renato Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Edições Graal. ao qual devo as informações mais pontuais sobre as práticas que envolviam a morte desde a Idade Média até o século XIX. Não posso mais permanecer convosco. 6 O historiador francês Jean Delumeau toma como objeto de estudo o medo e suas diversas manifestações na cultura ocidental dos séculos XIV ao XVIII – o medo da Peste sendo uma delas e o estopim para a imagética das Danças Macabras. 1987. conde londrino que nasceu em 1145 e viveu até 1219. Lamentava-se apenas de trazer a vergonha para sua família. chegando à analise da morte até a contemporaneidade. Após quatro audiências. A história de Guilherme. Os versos da Morte.foice. Áries ficou muito conhecido nos meios acadêmicos pelas coleções A história social dos jovens e principalmente A história da vida privada.” E expira em seguida. da qual foi um dos idealizadores e para a qual escreveu e organizou até o ano de sua morte. Não concorda com a instituição Igreja. arrancavam a barba e o cabelo. Georges. Carlo. Menocchio chega a pedir perdão pelas suas pregações. (FROIDMONT. Confio-vos todos a Deus. rica e corrupta. foi condenado pela Inquisição. (DELUMEAU. foi um moleiro diferente de todos os outros. Essa representação. as mortes se davam de maneira similar no que diz respeito à resignação perante um fato da vida.) 5 É do célebre historiador francês Phillipe Áries o conceito da morte domada da medievalidade. Executado em decorrência de suas idéias. Página 44. despede-se dos filhos e amigos.) 8 O único momento em que eram permitidas as manifestações excessivas de emoção era o período do luto. após a morte do moribundo. nascido em 1532 e morto em 1601. Hélinand. doa todos os seus bens. mas de fato nunca muda seu original pensamento. teve sua peculiar história contada por Carlo Guinzburg. 1987. (GINZBURG. Foi denunciado ao Santo Ofício sob acusação de heresia. Seu livro A História da morte no Ocidente foi texto fundamental para esse capítulo.

cadáver. o pensador francês do século XVII teoriza acerca do corpo. no intervalo de seus transes. mas não necessariamente eterno. que influenciou todo o pensamento moderno.) 9 FROIDMONT. é um dos mais famosos estudos acerca das representações do imaginário da morte nos diferentes períodos e povos. (BRANDÃO In: O corpo máquina. 13 Tomo emprestado do arquiteto e historiador de artes e arquitetura Carlos Antonio Leite Brandão essa possibilidade em se pensar o paradoxo do individuo como o homem em divisão. não somente de limitar o desastre da sexualidade. o princípio de análise científica baseada no questionamento de tudo o que existe. Essa amortalidade é o prolongamento da vida por um período indefinido. História do medo no Ocidente. e sobreviveu para além do período. (ARIÈS. (DELUMEAU. mas amortais durante um certo tempo. ter relações de boa vizinhança. que chama de res cogitans. Hélinand. a morte não é identificada como algo pontual. em detrimento de ser uma análise antropológica. O homem e a morte. História da morte no Ocidente. individuos. mas sim progressivo. 10 Segue a citação completa. Eles não são imortais. seu primeiro livro. com quem é preciso contar e compor e. Os versos da Morte. ser “em-divisão”. se possível. os defuntos são vivos de um gênero particular. No Discurso do método. Em outros termos. o que é um das origens da oração fúnebre. É uma referência na área de História da morte. 11 Nessas sociedades. ele traduzirá o desejo obscuro. Divisão essa que primeiro fratura a alma e a subjetividade para depois cindir radicalmente a res cogitans do espírito e a res extensa do corpo. do antropólogo francês Edgar Morin: Toda uma tendência anti-sexual vai se expandir com o cristianismo. enfim. Em seu capítulo “O corpo do Renascimento” presente na coletânea de textos O homem-máquina. seja real ou metafísico. não somente de merecer a imortalidade através da assexualidade mas talvez também de voltar ao período pré-sexual da vida no qual a morte não existe. teciam elogios aos defuntos. Os versos da Morte. a situar o homem sob a luz da natureza mais do que da história. organizada por Adauto NOVAES. Página 54. Brandão comenta a respeito da arte renascentista e de sua imagética do corpo: [no Renascimento] emergirá o claro-escuro de Da Vinci. emergirá.) 12 Considera-se o texto do poeta francês Hélinand de Froidmont. expressa sob a luz artificial da ribalta moderna em que o fulgor infinito da alma luta para vazar a opacidade finita do corpo. Página 109.) 14 É proveniente de René Descartes a formulação de uma concepção do corpo separado da alma. Página 91. Página 213. feito entre 1194 e 1197 o primeiro a apresentar essa iconografia de morte que invadiu o imaginário coletivo dos séculos seguintes – e em larga medida perdura ainda hoje. que denomina res extensa. Página 291. como matéria orgânica de funcionamento autônomo ao espírito. publicado em 1951. caíam desmaiados e. Essa é responsável pela dúvida metódica. O homem e a morte. o “indivíduo” moderno. emergirá a subjetividade de Michelangelo. (MORIN.) O texto de Morin. A capacidade de duvidar e buscar respostas às dúvidas são os fatores que nos definem 134 .

História do medo no Ocidente.) 15 O imaginário cristão. feitos pelos homens de todos os estratos sociais. 20 Idem. Cit. Página 145. Página 17. para ser. De sorte que. a ser povoado pelas imagens do Juízo Final. 22 Idem. 24 25 Op. proveniente da Ásia. Discurso do método. invenção da Igreja do século XII – ou seja: imagens de eventos pós-morte que são conseqüências das decisões tomadas em vida. não necessita de nenhum lugar nem depende de qualquer coisa material. era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar. 18 A Peste entrou na Europa em 1348. esse eu. Página 62.) compreendi por aí que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar e que. 19 DELUMEAU.. com intervalos e em lugares diferentes em toda a Europa Ocidental. 23 Idem. 16 Pelo fim da Idade Média. é inteiramente distinta do corpo (. alguns fiéis substituíram a leitura individual ou a prece coletiva por uma leitura individual.como seres humanos. Página 125. de maneira geral. julguei que podia aceitá-la. essas novas instâncias do pós-morte submetem a vida individual a um reexame. como o primeiro princípio da Filosofia que procurava. Neles. Se até então a morte era aceita porque pressupunha uma outra vida. interiorizada. isto é. A câmara clara. Teve seus piores eventos no decorrer dos 2 anos seguintes e durou até 1720. Decameron. eterna. 21 BOCACCIO. (. começa. sem escrúpulos. do Inferno e do paraíso – e também do Purgatório. a prática que melhor comprova a preocupação em manter a memória do morto foi a abundante produção de testamentos.. pela qual sou o que sou. baixa. (BARTHES. daí a sugestão da máxima cartesiana do cogito ergo sum: Notando que esta verdade: eu penso. (ARIÈS.) 135 . meditativa: fenômeno que certamente caracteriza uma maior individualização das idéias e das crenças e a diminuição do sentido comunal da sociedade. Página 140. página 123. O que importava era a evocação da identidade do defunto e não o reconhecimento do lugar exato da colocação do corpo. a alma. logo existo. era comum que o indivíduo cobrasse termos de compromisso aos que ficavam como encomendar missas e orações à sua alma. página 14. Segundo Philippe Ariès. pela chamada “rota da seda”..) (DESCARTES. na Baixa Idade Média. Também cobravam a manutenção de suas placas funerárias nas igrejas. Páginas 46-7. normalmente com refluxos de 4 ou 5 anos. História da morte no Ocidente. História da morte no Ocidente.) 17 ARIÈS. e avança à França no mesmo ano. por Gênova e Florença..

em carnes que se desfaziam em vermes e líquidos sórdidos às vistas de todas.) 31 Esse novo corpo da ciência foi também pensado pelas fabulações literárias do século XIX que problematizavam o relacionamento entre homens e máquinas. uma espécie de bastião difícil de ser derrubado. é também uma grande referência para esse ramo da historiografia. (ROUANET In O homem-máquina. 136 . Em O homem de areia. a alma. 29 O mesmo Rembrandt produziu outras obras de mesmo tema. o bailarino proclama sua superioridade diante da imperfeição de homens que falham. racional. Olímpia. de E.A. de 1656. O comentário é do cientista político Sergio Paulo Rouanet no capítulo “O homemmáquina hoje”. A história dos homens no espelho da morte. publicado em 1811. Página 22. é (literalmente) o objeto do amor de Natanael. Ainda durante o século XIX era possível encontrar artistas como Thomas Eakins que tratou do tema nas décadas de 1860 a 1890. A solidão do moribundo / Envelhecer e morrer. o pequeno artigo de Vovelle. da definição inexata da condição de “humano”.26 Conceito desenvolvido pelo historiador francês Michel Vovelle. como A aula de anatomia do Professor Deyman. mais científica. segundo o qual só havia no homem uma substância. mas. o autômato construído pelo professor Spalanzani. organizado por Adauto NOVAES. 27 As representações imagéticas do corpo morto nesse período deixam de ser as do corpo em decomposição. Se para o Natanael de Hoffmann a boneca Olímpia representa o ideal justamente porque não fala e não se expressa com paixão ou sentimentalismo (ou seja. já que deixou de ser visto como um sacrário que continha uma coisa infinitamente preciosa. É a confusão gerada quando o ser orgânico e o objeto mecânico se misturam e os limites de um são questionados pelo outro. que deixavam o cadáver transfigurado. Toma seu lugar a imagem do esqueleto e do crânio com osso. Hoffman. apesar de todas as suas características mecânicas. A história dos homens no espelho da morte. Faz eco à Vovelle o texto de Elias sobre a morte nas sociedades ocidentais. por parecer humana mas agir como máquina). publicado em 1817. Destacamos entre os efeitos positivos desse movimento a valorização do corpo. da Peste Negra e da fome. O teatro de marionetes de Heinrich von Kleist. predominantes desde a Renascença. Mas de outro ponto de vista. Além do conceito de morte barroca. As aulas de anatomia continuaram sendo retratadas pictoricamente. O conto não só estabelece o problema da similitude do autômato. Ao refletir sobre a atuação perfeita das réplicas ao dançarem. o corpo foi profanado. Esse questionamento é ainda mais efetivo em outro conto emblemático sobre a relação homem-máquina. até a invenção da fotografia que substitui aos poucos as pinturas. principalmente. quando milhares foram acometidos pelas mortes da Guerra dos Cem Anos.T. 30 La Mettrie substituíra o dualismo cartesiano por um monismo materialista. escrito ao livro O homem-máquina. 28 VOVELLE. pútrido. mais fria e seca. em Kleist os autômatos superam os humanos por agirem sem a razão. Vovelle desenvolve um pensamento contrário ao de Áries sobre a morte domada medieval. e a alma nada mais era que uma função da matéria organizada. Assim como as obras de Morin e de Áries sobre a Morte. Página 53.

o homem devia ser livre. (HOFFMAN. O depoimento é do filósofo francês Roland Barthes. Os temas do Romantismo explicitam a preocupação em reencontrar a esfera mística e idealista do homem. em 2004.) 35 ARIÈS. Página 75.A. H. que afinal. além de ativista política. não é criação divina. para dizer a verdade. Rio de Janeiro: Sette Letras. Lições de Sade. e só a libertinagem tem o poder de devolvê-lo a esse estado natural de solidão que é. O libertino do século XVIII era o filósofo dos prazeres. sem preconceitos ou repressão. de seu texto A câmara clara. Enquanto as marionetes deixam-se abandonar à música. História da morte no Ocidente. uma importante coletânea de ensaios sobre a atividade fotográfica. Os dois textos são apenas exemplos do profundo impacto que a aproximação entre a natureza humana e a racionalidade mecânica provocou na sensibilidade literária do período. após ter falecido vítima de leucemia aos 71 anos.) 32 A filosofia libertina pregava a busca da felicidade enquanto estado físico e não espiritual. para esse trabalho. História da morte no Ocidente. 34 O culto contemporâneo ao morto nada tem a ver com o culto pré-cristão aos mortos pré-cristãos. sem culpas. não abandonar a razão e o pensamento: acaba por dançar com afetação. segundo Philippe Ariès. é a única realidade humana. Para se alcançar esse hedonismo ilimitado. Houvera uma grande ruptura entre as atitudes mentais diante dos mortos da Antiguidade e da Idade Média. perdida na ciência materialista. (ARIÈS. A curiosidade mais empolgante sobre a autora. contemplando seus aspectos sociais e humanos. um sujeito que se sente tornar-se objeto: vivo então uma microexperiência da morte: torno-me verdadeiramente espectro. e por isso inescrupuloso. extremamente individualista. Barthes 137 . KLEIST. Sobre o teatro de marionetes. a falha do bailarino é exatamente não se “deixar levar”. O homem de areia. Rio de Janeiro: Rocco. (MORAES. 36 O inventário [fotográfico] teve início em 1839 e. 1986.T.) 33 Por outro lado. publicado em 1980. o principal autor da filosofia libertina: Não esqueçamos que o princípio fundamental do sistema de Sade é o egoísmo: o isolamento define a situação original do homem no mundo.de forma espontânea. a fotógrafa Annie Leibovitz. na funerária. desde então praticamente tudo foi fotografado diria Susan Sontag. 1997. Página 136. O homem plenamente feliz era aquele que satisfazia todos os seus desejos em busca do prazer físico do corpo. mas antes. por sua companheira. por essência. a sensibilidade romântica traz à baila um homem em crise diante da materialidade do mundo. E. Diz a filósofa e crítica literária Eliane Robert Moraes a respeito do Marquês de Sade. não deveria se submeter a regras religiosas. não sou nem um sujeito nem um objeto. publicou. cruel. A intelectual americana. sendo então o dono do próprio destino. Como não possui alma. o último antes de sua morte. autônomo. Tradução: Pedro Sussekind. ou seja. romancista e crítica prolífica. em seus desejos sensuais. em 1976. 37 A fotografia representa esse momento muito sutil em que. vem do fato de ela mesma ter sido fotografada morta. Página 73.

A transformação do indivíduo em objeto. foi emprestada de Sontag. Para a autora. 138 . em volumosos álbuns de família. A segunda se refere à câmera fotográfica como arma fatal. ao afirmar que todas as fotos são memento mori: Tirar uma foto é participar da mortalidade. Página 14. (BARTHES. 38 SONTAG. é porque ela certifica. da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). é para a autora tal como para Barthes: necessidade de negar os efeitos do tempo da própria vida. aquele que é carregada. utilizada nesse capítulo. de Barthes: Na fotografia.denomina Spectrum todo referente fotográfico: o alvo. fotos são como vestígios espectrais pois equivalem à presença simbólica do fotografado. quanto aos seres animados. O termo animar é extremamente feliz ao considerarmos a fotografia post-mortem. Sontag vai além. Páginas 29 e 68.) A proximidade entre a Morte e a Fotografia foi também pensada por Susan Sontag. transformando em mortos os fotografados e mantendo-os conosco. enquanto cadáver: é a imagem viva de uma coisa morta. Página 26. e ainda: se a fotografia se torna então horrível. aquilo que é fotografado: Porque essa palavra mantém uma relação com o espetáculo e a ele acrescenta essa coisa um pouco terrível que há em toda fotografia: o retorno do morto. toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo. A metáfora do assassinato no momento do shot. se assim podemos dizer.) Interessante notar como os termos utilizados por Barthes e Sontag se complementam: o primeiro transforma o fotografado em alvo. que o cadáver está vivo. Sobre a fotografia. o mesmo ocorre com a sua vida. Justamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-lo. coisa inanimada. tem uma mira precisa e dispara na direção do alvo apontado. Para o autor a natureza da fotografia é a Morte: o que encaro na foto que tiram de mim é a Morte: a Morte é o eidos dessa foto. (SONTAG. Sobre a fotografia. bastando aproximá-lo à sua relação com o cinema de animação. A câmara clara. a presença da coisa (em certo momento do passado) jamais é metafórica. salvo quando se fotografam cadáveres. 39 Segue a citação completa. que logo se torna espectro. que nada mais é do que a possibilidade de dar vida (animar) a bonecos inanimados por intermédio de uma seqüência fotográfica.

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