Heloise Afferri Vacchiano de Camargo

Curso
“Linguagem, Práticas Discursivas e Criança”
Disciplina
LETRAMENTO: Teorias e Práticas – DC 001
Resenha

Universidade Estadual de Campinas
Instituto de Estudos da Linguagem
Pós-Graduação
2009

Por outro lado. financiado pelo CNPq na condição de Projeto Integrado. Práticas Discursivas e Criança” Disciplina: Letramento : Teorias e Práticas – DC 001 Profa. financiado pela FAPESP. Ph. a busca de descrições e explicações sobre esse fenômeno que pode ser tanto de interesse social ou aplicado. Rama. as mudanças políticas. Os estudos sobre letramento no Brasil acontecem de forma vigente e vem sofrendo alterações da habilidade de codificar e decodificar o nome à capacidade de usar a leitura e a escrita para uma prática social. Aos poucos os estudos foram se alargando para descrever as condições de uso da escrita não apenas pressupondo efeitos universais do letramento. A autora nos mostra em seus estudos que as pesquisas sobre o letramento concretizam a união de interesse teórico. tais como. coordenou este estudo que é parte de um projeto mais amplo denominado Letramento e Comunicação Intercultural. sociais.1980). organizado por Angela Kleiman (2005) Angela B. econômicas e cognitivas. mas os efeitos que estariam numa . Capítulo de Introdução do livro “Os Significados do letramento”.D.1986. Professora Titular em Linguistica Aplicada no IEL/ UNICAMP. em Linguistica pela Universidade de Illinois. esses estudos examinam o desenvolvimento social que acompanhou a expansão dos usos da escrita desde o século XVI. Kleiman 24 Ago. Kleiman. Angela B. na condição de Projeto Temático.Instituto de Estudos da Linguagem – Unicamp Curso de Pós Graduação “Linguagem. O conceito de letramento começou a ser usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos sobre o “impacto social da escrita” dos estudos sobre alfabetização. Angela B. e do projeto denominado Interação em Sala de Aula: Subsídios para a Autoformação do Professor. relacionadas com o uso extensivo da escrita nas sociedades tecnológicas como aponta (Heath. 2009 Heloise Afferri Vacchiano de Camargo RESENHA: Modelos de Letramento e as Práticas de Alfabetização na Escola Kleiman.

o processo de aquisição de códigos. passa a ser. Já outras agências de letramento. No Modelo de Letramento Autônomo as conseqüências cognitivas independem dos contextos e das práticas de aprendizagem da linguagem e da escrita. Segundo Street(1984) (apoud kleiman2005) denomina modelo autônomo. O Modelo Autônomo do letramento é aquele em que o problema da não aprendizagem é uma questão individual. O sujeito atribui a si próprio a . normalmente associado ao sucesso e desenvolvimento próprios de grupos “mais civilizados”. independentemente do contexto de produção. como a família. que o Modelo de Letramento Autônomo tem o agravante de atribuir o fracasso e a responsabilidade na aprendizagem da língua escrita aos sujeitos que pertence ao grupo dos “pobres e marginalizados”. Segundo a autora Angela Kleiman. considerado tanto parcial como equivocado. aquele que tem a ausência da escrita. mas não outros. a escola. como um sujeito menos. mas com apenas um tipo de prática de letramento. o que coloca a identidade desse sujeito em conflito. apenas um tipo de prática (ainda dominante) que desenvolve alguns tipos de habilidades. destaca. não considera que os eventos de letramento variam de acordo com o contexto social.relação mútua às práticas sociais e culturais dos diversos grupos que usavam a escrita. O conceito de letramento é muito abrangente. fazem ver que “o fenômeno do letramento. a questão da alfabetização que era tratada como uma prática específica da escola que definia e classificava os sujeitos e que fornecia o parâmetro de prática social segundo o qual o letramento era definido. Os estudos de Angela Kleiman. e que determina uma forma de usar o conhecimento sobre a escrita. a igreja. então. prática social. que parte do princípio de que. a mais importante das agências de letramento. mostram orientações de letramento muito diferentes. a alfabetização. preocupa-se não com o letramento. a língua tem uma autonomia que só pode ser apreendida por um processo único. Kleiman(1995). processo geralmente concebido em termos de uma competência individual necessária para o sucesso e promoção na escola. daí a diversidade dos tipos de estudos nessa questão. a rua como lugar de trabalho. As práticas de uso da escrita da escola sustentam-se num modelo de letramento que é por muitos pesquisadores. contribui para reafirmar a imagem do não-alfabetizado (analfabeto). extrapola o mundo da escrita tal qual ele é concebido pelas instituições que se encarregam de introduzir formalmente os sujeitos no mundo da escrita” e que segundo a autora.

3). E no Modelo Ideológico de Letramento.p. p.responsabilidade de não ter aprendido. O Modelo Ideológico de Letramento. as práticas ideológicas de letramento são políticas e propiciam mudanças na vida dos indivíduos. Afinal. mas como atividades que servem a um propósito. o que destaca é que “Todas as práticas de letramento são aspectos não apenas da cultura. impedem. O Modelo ideológico considera a leitura e a escrita como práticas sociais. Uma das propostas de Kleiman (op.57) refere-se a transformação da prática escolar de forma que o conflito discursivo e sala de aula seja estabelecido para que práticas sociais dominantes possam ser discutidas.cit. Rompendo definitivamente com a divisão entre “o momento de aprender” e o “momento de fazer uso da aprendizagem” os estudos lingüísticos propõem a articulação dinâmica e reversível entre “descobrir a escrita” no que tange conhecimento de suas funções e formas de manifestação. mas também das estruturas de poder numa sociedade” (Kleiman 2001. Muitas falas (de inúmeras pessoas) estão impregnadas por uma concepção autônoma de letramento. contrapondo-se a ele. “aprender a escrita”. Situadas em contextos sociais e culturais específicos. no que diz respeito à compreensão das regras e modo de funcionamento e “usar a escrita”. pois. construindo contextos de aprendizagem em que os alunos tragam seus conhecimentos. suas vivências. a quem recorrer? Talvez para aqueles que defendem o Modelo Ideológico de Letramento na tentativa se superar o Modelo Autônomo de Letramento. permitem que eles entendam e (des)construam ideologias. examinadas e repensadas. o que significa o cultivo de suas práticas a partir de um referencial culturalmente significativo. . pois o discurso das classes dominantes e ou privilegiadas quando afirmam a questão no analfabetismo como inferioridade. admite a pluralidade das práticas letradas valorizando o seu significado cultural e contexto de produção. suas experiências. Street(1984) (apoud Kleiman 2005) destaca que o letramento é marcado sóciohistoricamente. Daí a importância de se encarar a leitura e escrita não só como uma atividade com um fim em si mesma (como propõe o modelo autônomo de Letramento). de certa forma questionamentos e aos “pobres e marginalizados” só resta se calar diante dessa questão..

permitem e possibilitam. permite fazer escolhas. .Kleiman.2005). Nesse sentido. Segundo Kleiman. Preciso ensinar o letramento? Não basta ensinar a ler e a escrever? Cefiel – Unicamp. 2002:74). 2003. o texto é dialógico. porém. . se pensar no interlocutor. devendo. organizado por Angela Kleiman (2005). A linguagem da criança fora da escola não pode ser interrompida. de consciência. Assim. Não há linguagem sem diálogo. Angela B. mudança”. A autora argumenta que para o ensino da escrita é mais relevante focar a semelhança do que as diferenças.Soares. as práticas de letramento. se pensarmos nas diferenças acontece a ruptura. Concluindo.Kleiman. Não é a questão de começar com textos mais concretos e depois com os mais abstratos. “o letramento envolve. Abordagens Alternativas ao Letramento e Desenvolvimento. se é científico ou não. Capítulo de Introdução do livro “Os Significados do letramento”. toda linguagem é dialógica. as semelhanças. então devo partir das conversas com as crianças. torna o indivíduo capaz de “questionar valores. De acordo com Barton (1994: 27). tradições e formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais” (cf. mas sim. Apresentado durante a Teleconferência Unesco Brasil sobre “Letramento e Diversidade”. mudanças de postura. práticas de reflexão. 2005 . não são as diferenças que contam. REFERÊNCIAS . todo contexto é dialógico. na perspectiva da autora. Angela B. se o que a criança conhece é o oral. o desenvolvimento de práticas de letramento.Para Bakhtin (apoud Kleiman. pelo fato de ser uma ferramenta valiosa em nossas mãos. Portanto. Partir do conhecido para construir o novo. não é importante se um texto é mais ou menos abstrato. o mais importante é que é tudo linguagem e faz parte de um diálogo. o importante é o interlocutor porque é ele quem vai diferenciar a forma que se utilizará e produzirá a linguagem. inevitavelmente.Street Brian. O segredo está em fazer o bom uso dela. produzindo de forma mais significativa.